Na Casa Defronte {{navegar |obra= |autor=Álvaro de Campos }} :Na casa defronte de mim e dos meus sonhos, :Que felicidade há sempre! :Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi. :São felizes, porque não sou eu. :As crianças, que brincam às sacadas altas, :Vivem entre vasos de flores, :Sem dúvida, eternamente. :As vozes, que sobem do interior do doméstico, :Cantam sempre, sem dúvida. :Sim, devem cantar. :Quando há festa cá fora, há festa lá dentro. :Assim tem que ser onde tudo se ajusta — :O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza. :Que grande felicidade não ser eu! :Mas os outros não sentirão assim também? :Quais outros? Não há outros. :O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada, :Ou, quando se abre, :É para as crianças brincarem na varanda de grades, :Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram. :Os outros nunca sentem. :Quem sente somos nós, :Sim, todos nós, :Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada. :Nada! Não sei... :Um nada que dói ...