Apontamento {{navegar |obra= |autor=Álvaro de Campos }} :A minha alma partiu-se como um vaso vazio. :Caiu pela escada excessivamente abaixo. :Caiu das mãos da criada descuidada. :Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso. :Asneira? Impossível? Sei lá! :Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu. :Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir. :Fiz barulho na queda como um vaso que se partia. :Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada. :E fitam os cacos que a criada deles fez de mim. :Não se zanguem com ela. :São tolerantes com ela. :O que era eu um vaso vazio? :Olham os cacos absurdamente conscientes, :Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles. :Olham e sorriem. :Sorriem tolerantes à criada involuntária. :Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas. :Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros. :A minha obra? A minha alma principal? A minha vida? :Um caco. :E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.