Sou Eu {{navegar |obra= |autor=Álvaro de Campos }} :Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo, :Espécie de acessório ou sobressalente próprio, :Arredores irregulares da minha emoção sincera, :Sou eu aqui em mim, sou eu. :Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. :Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma. :Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim. :E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente, :Como de um sonho formado sobre realidades mistas, :De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico, :Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima. :E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua, :Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda, :De haver melhor em mim do que eu. :Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa, :Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores, :De haver falhado tudo como tropeçar no capacho, :De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas, :De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida. :Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica, :Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar, :De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo — :A impressão de pão com manteiga e brinquedos :De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina, :De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela, :Num ver chover com som lá fora :E não as lágrimas mortas de custar a engolir. :Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado, :O emissário sem carta nem credenciais, :O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro, :A quem tinem as campainhas da cabeça :Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima. :Sou eu mesmo, a charada sincopada :Que ninguém da roda decifra nos serões de província. :Sou eu mesmo, que remédio! ...