Opiário {{navegar |obra= |autor=Álvaro de Campos |notas=Escrito em 1914 }} :É antes do ópio que a minh'alma é doente. :Sentir a vida convalesce e estiola :E eu vou buscar ao ópio que consola :Um Oriente ao oriente do Oriente. :Esta vida de bordo há-de matar-me. :São dias só de febre na cabeça :E, por mais que procure até que adoeça, :já não encontro a mola pra adaptar-me. :Em paradoxo e incompetência astral :Eu vivo a vincos de ouro a minha vida, :Onda onde o pundonor é uma descida :E os próprios gozos gânglios do meu mal. :É por um mecanismo de desastres, :Uma engrenagem com volantes falsos, :Que passo entre visões de cadafalsos :Num jardim onde há flores no ar, sem hastes. :Vou cambaleando através do lavor :Duma vida-interior de renda e laca. :Tenho a impressão de ter em casa a faca :Com que foi degolado o Precursor. :Ando expiando um crime numa mala, :Que um avô meu cometeu por requinte. :Tenho os nervos na forca, vinte a vinte, :E caí no ópio como numa vala. :Ao toque adormecido da morfina :Perco-me em transparências latejantes :E numa noite cheia de brilhantes, :Ergue-se a lua como a minha Sina. :Eu, que fui sempre um mau estudante, agora :Não faço mais que ver o navio ir :Pelo canal de Suez a conduzir :A minha vida, cânfora na aurora. :Perdi os dias que já aproveitara. :Trabalhei para ter só o cansaço :Que é hoje em mim uma espécie de braço :Que ao meu pescoço me sufoca e ampara. :E fui criança como toda a gente. :Nasci numa província portuguesa :E tenho conhecido gente inglesa :Que diz que eu sei inglês perfeitamente. :Gostava de ter poemas e novelas :Publicados por Plon e no Mercure, :Mas é impossível que esta vida dure. :Se nesta viagem nem houve procelas! :A vida a bordo é uma coisa triste, :Embora a gente se divirta às vezes. :Falo com alemães, suecos e ingleses :E a minha mágoa de viver persiste. :Eu acho que não vale a pena ter :Ido ao Oriente e visto a índia e a China. :A terra é semelhante e pequenina :E há só uma maneira de viver. :Por isso eu tomo ópio. É um remédio :Sou um convalescente do Momento. :Moro no rés-do-chão do pensamento :E ver passar a Vida faz-me tédio. :Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim, :Muito a leste não fosse o oeste já! :Pra que fui visitar a Índia que há :Se não há Índia senão a alma em mim? :Sou desgraçado por meu morgadio. :Os ciganos roubaram minha Sorte. :Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte :Um lugar que me abrigue do meu frio. :Eu fingi que estudei engenharia. :Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda. :Meu coração é uma avòzinha que anda :Pedindo esmola às portas da Alegria. :Não chegues a Port-Said, navio de ferro! :Volta à direita, nem eu sei para onde. :Passo os dias no smokink-room com o conde - :Um escroc francês, conde de fim de enterro. :Volto à Europa descontente, e em sortes :De vir a ser um poeta sonambólico. :Eu sou monárquico mas não católico :E gostava de ser as coisas fortes. :Gostava de ter crenças e dinheiro, :Ser vária gente insípida que vi. :Hoje, afinal, não sou senão, aqui, :Num navio qualquer um passageiro. :Não tenho personalidade alguma. :É mais notado que eu esse criado :De bordo que tem um belo modo alçado :De laird escocês há dias em jejum. :Não posso estar em parte alguma. A minha :Pátria é onde não estou. Sou doente e fraco. :O comissário de bordo é velhaco. :Viu-me co'a sueca... e o resto ele adivinha. :Um dia faço escândalo cá a bordo, :Só para dar que falar de mim aos mais. :Não posso com a vida, e acho fatais :As iras com que às vezes me debordo. :Levo o dia a fumar, a beber coisas, :Drogas americanas que entontecem, :E eu já tão bêbado sem nada! Dessem :Melhor cérebro aos meus nervos como rosas. :Escrevo estas linhas. Parece impossível :Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta! :O fato é que esta vida é uma quinta :Onde se aborrece uma alma sensível. :Os ingleses são feitos pra existir. :Não há gente como esta pra estar feita :Com a Tranqüilidade. A gente deita :Um vintém e sai um deles a sorrir. :Pertenço a um gênero de portugueses :Que depois de estar a Índia descoberta :Ficaram sem trabalho. A morte é certa. :Tenho pensado nisto muitas vezes. :Leve o diabo a vida e a gente tê-la! :Nem leio o livro à minha cabeceira. :Enoja-me o Oriente. É uma esteira :Que a gente enrola e deixa de ser bela. :Caio no ópio por força. Lá querer :Que eu leve a limpo uma vida destas :Não se pode exigir. Almas honestas :Com horas pra dormir e pra comer, :Que um raio as parta! E isto afinal é inveja. :Porque estes nervos são a minha morte. :Não haver um navio que me transporte :Para onde eu nada queira que o não veja! :Ora! Eu cansava-me o mesmo modo. :Qu'ria outro ópio mais forte pra ir de ali :Para sonhos que dessem cabo de mim :E pregassem comigo nalgum lodo. :Febre! Se isto que tenho não é febre, :Não sei como é que se tem febre e sente. :O fato essencial é que estou doente. :Está corrida, amigos, esta lebre. :Veio a noite. Tocou já a primeira :Corneta, pra vestir para o jantar. :Vida social por cima! Isso! E marchar :Até que a gente saia pla coleira! :Porque isto acaba mal e há-de haver :(Olá!) sangue e um revólver lá pró fim :Deste desassossego que há em mim :E não há forma de se resolver. :E quem me olhar, há-de-me achar banal, :A mim e à minha vida... Ora! um rapaz... :O meu próprio monóculo me faz :Pertencer a um tipo universal. :Ah quanta alma viverá, que ande metida :Assim como eu na Linha, e como eu mística! :Quantos sob a casaca característica :Não terão como eu o horror à vida? :Se ao menos eu por fora fosse tão :Interessante como sou por dentro! :Vou no Maelstrom, cada vez mais pró centro. :Não fazer nada é a minha perdição. :Um inútil. Mas é tão justo sê-lo! :Pudesse a gente desprezar os outros :E, ainda que co'os cotovelos rotos, :Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo! :Tenho vontade de levar as mãos :À boca e morder nelas fundo e a mal. :Era uma ocupação original :E distraía os outros, os tais sãos. :O absurdo, como uma flor da tal Índia :Que não vim encontrar na Índia, nasce :No meu cérebro farto de cansar-se. :A minha vida mude-a Deus ou finde-a ... :Deixe-me estar aqui, nesta cadeira, :Até virem meter-me no caixão. :Nasci pra mandarim de condição, :Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira. :Ah que bom que era ir daqui de caída :Pra cova por um alçapão de estouro! :A vida sabe-me a tabaco louro. :Nunca fiz mais do que fumar a vida. :E afinal o que quero é fé, é calma, :E não ter estas sensações confusas. :Deus que acabe com isto! Abra as eclusas — :E basta de comédias na minh'alma! :::(No Canal de Suez, a bordo)