Bicarbonato de Soda {{navegar |obra= |autor=Álvaro de Campos }} :Súbita, uma angústia... :Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma! :Que amigos que tenho tido! :Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido! :Que esterco metafísico os meus propósitos todos! :Uma angústia, :Uma desconsolação da epiderme da alma, :Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço... :Renego. :Renego tudo. :Renego mais do que tudo. :Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles. :Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na :circulação do sangue? :Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro? :Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me? :Não: vou existir. Arre! Vou existir. :E-xis-tir... :E--xis--tir ... :Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue! :Renunciar de portas todas abertas, :Perante a paisagem todas as paisagens, :Sem esperança, em liberdade, :Sem nexo, :Acidente da inconseqüência da superfície das coisas, :Monótono mas dorminhoco, :E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas! :Que verão agradável dos outros! :Dêem-me de beber, que não tenho sede!