No Túmulo de Christian Rosenkreutz

I

Quando, despertos deste sono, a vida, 
Soubermos o que somos, e o que foi 
Essa queda até corpo, essa descida 
Ate á noite que nos a Alma obstrui,

Conheceremos pois toda a escondida 
Verdade do que é tudo que há ou flui? 
Não: nem na Alma livre é conhecida... 
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui

Deus é o Homem de outro Deus maior: 
Adam Supremo, também teve Queda; 
Também, como foi nosso Criador,

Foi criado, e a Verdade lhe morreu... 
De Além o Abismo, Sprito Seu, Lha veda; 
Aquém não há no Mundo, Corpo Seu.

II

Mas antes era o Verbo, aqui perdido 
Quando a Infinita Luz, já apagada, 
Do Caos, chão do Ser, foi levantada 
Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.

Mas se a Alma sente a sua forma errada, 
Em si que é Sombra, vê enfim luzido 
O Verbo deste Mundo, humano e ungido, 
Rosa Perfeita, em Deus crucificada.

Então, senhores do limiar dos Céus, 
Podemos ir buscar além de Deus 
O Segredo do Mestre e o Bem profundo;

Não só de aqui, mas já de nós, despertos, 
No sangue actual de Cristo enfim libertos 
Do a Deus que morre a geração do Mundo.

III

Ah, mas aqui, onde irreais erramos, 
Dormimos o que somos, e a verdade, 
Inda que enfim em sonhos a vejamos, 
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.

Sombras buscando corpos, se os achamos 
Como sentir a sua realidade? 
Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos? 
Nosso toque é ausência e vacuidade.

Quem desta Alma fechada nos liberta? 
Sem ver, ouvimos para além da sala 
De ser: mas como, aqui, a porta aberta? 
.......................................

Calmo na falsa morte a nós exposto, 
O Livro ocluso contra o peito posto, 
Nosso Pai Rosaecruz conhece e cala.
