Dois Excertos de Odes

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|autor=Álvaro de Campos
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(Fins de duas odes, naturalmente)
 
 
:::::I 

:Vem, Noite antiquíssima e idêntica,  
:Noite Rainha nascida destronada,  
:Noite igual por dentro ao silêncio, Noite  
:Com as estrelas lentejoulas rápidas  
:No teu vestido franjado de Infinito. 

:Vem, vagamente, 
:Vem, levemente, 
:Vem sozinha, solene, com as mãos caídas 
:Ao teu lado, vem 
:E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas, 
:Funde num campo teu todos os campos que vejo, 
:Faze da montanha um bloco só do teu corpo, 
:Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo, 
:Todas as estradas que a sobem, 
:Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe. 
:Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores, 
:E deixa só uma luz e outra luz e mais outra, 
:Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,  
:Na distância subitamente impossível de percorrer. 

:Nossa Senhora 
:Das coisas impossíveis que procuramos em vão, 
:Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela,  
:Dos propósitos que nos acariciam 
:Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas 
:Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,  
:E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...  
:Vem, e embala-nos, 
:Vem e afaga-nos. 
:Beija-nos silenciosamente na fronte, 
:Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam  
:Senão por uma diferença na alma. 
:E um vago soluço partindo melodiosamente 
:Do antiquíssimo de nós 
:Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha 
:Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos 
:Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida. 

:Vem soleníssima, 
:Soleníssima e cheia 
:De uma oculta vontade de soluçar, 
:Talvez porque a alma é grande e a vida pequena, 
:E todos os gestos não saem do nosso corpo 
:E só alcançamos onde o nosso braço chega, 
:E só vemos até onde chega o nosso olhar. 

:Vem, dolorosa, 
:Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos, 
:Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados, 
:Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes, 
:Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados. 
:Vem, lá do fundo 
:Do horizonte lívido, 
:Vem e arranca-me 
:Do solo de angústia e de inutilidade 
:Onde vicejo. 
:Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido, 
:Folha a folha lê em mim não sei que sina 
:E desfolha-me para teu agrado, 
:Para teu agrado silencioso e fresco. 
:Uma folha de mim lança para o Norte, 
:Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei; 
:Outra folha de mim lança para o Sul, 
:Onde estão os mares que os Navegadores abriram; 
:Outra folha minha atira ao Ocidente, 
:Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro, 
:Que eu sem conhecer adoro; 
:E a outra, as outras, o resto de mim 
:Atira ao Oriente, 
:Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé, 
:Ao Oriente pomposo e fanático e quente, 
:Ao Oriente excessivo que eu nunca verei, 
:Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta, 
:Ao Oriente que tudo o que nós não temos, 
:Que tudo o que nós não somos, 
:Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva, 
:Onde Deus talvez exista realme:nte e mandando tudo... 

:Vem sobre os mares, 
:Sobre os mares maiores, 
:Sobre os mares sem horizontes precisos, 
:Vem e passa a mão pelo dorso da fera, 
:E acalma-o misteriosamente, 
:ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito! 

:Vem, cuidadosa, 
:Vem, maternal, 
:Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste 
:À cabeceira dos deuses das fés já perdidas, 
:E que viste nascer Jeová e Júpiter, 
:E sorriste porque tudo te é falso é inútil. 

:Vem, Noite silenciosa e extática, 
:Vem envolver na noite manto branco 
:O meu coração... 
:Serenamente como uma brisa na tarde leve, 
:Tranqüilamente com um gesto materno afagando. 
:Com as estrelas luzindo nas tuas mãos 
:E a lua máscara misteriosa sobre a tua face. 
:Todos os sons soam de outra maneira 
:Quando tu vens. 
:Quando tu entras baixam todas as vozes, 
:Ninguém te vê entrar. 
:Ninguém sabe quando entraste, 
:Senão de repente, vendo que tudo se recolhe, 
:Que tudo perde as arestas e as cores, 
:E que no alto céu ainda claramente azul 
:Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem. 

:A lua começa a ser real. 

                                                       
::::::II 

   
:Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades  
:E a mão de mistério que abafa o bulício, 
:E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe 
:Para uma sensação exata e precisa e ativa da Vida! 
:Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios 
:E que misterioso o fundo unânime das ruas, 
:Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,  
:Ó do "Sentimento de um Ocidental"! 

:Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas, 
:Que nem são países, nem momentos, nem vidas, 
:Que desejo talvez de outros modos de estados de alma 
:Umedece interiormente o instante lento e longínquo! 

:Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem, 
:Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas 
:Como um mendigo de sensações impossíveis 
:Que não sabe quem lhas possa dar ... 

:Quando eu morrer, 
:Quando me for, ignobilmente, como toda a gente,  
:Por aquele caminho cuja idéia se não pode encarar de frente,  
:Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos  
:Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece,  
:Seja por esta hora condigna dos tédios que tive,  
:Por esta hora mística e espiritual e antiquíssima, 
:Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece,  
:Platão sonhando viu a idéia de Deus 
:Esculpir corpo e existência nitidamente plausível.   
:Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo. 

:Seja por esta hora que me leveis a enterrar,  
:Por esta hora que eu não sei como viver, 
:Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho,  
:Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva,  
:Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas,  
:Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível  
:Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar. 

:Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que eu não tenho nem quero ter. 
:Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio 
:A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas, 
:Olha-me em silêncio e em segredo e pergunta a ti própria 
:— Tu que me conheces — quem eu sou ...
