Contudo

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|autor=Álvaro de Campos
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:Contudo, contudo, 
:Também houve gládios e flâmulas de cores 
:Na Primavera do que sonhei de mim. 
:Também a esperança 
:Orvalhou os campos da minha visão involuntária, 
:Também tive quem também me sorrisse. 
:Hoje estou como se esse tivesse sido outro. 
:Quem fui não me lembra senão como uma história apensa. 
:Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo. 

:Caí pela escada abaixo subitamente, 
:E até o som de cair era a gargalhada da queda. 
:Cada degrau era a testemunha importuna e dura 
:Do ridículo que fiz de mim. 

:Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse, 
:Mas pobre também do que, sendo rico e nobre, 
:Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo. 
:Sou imparcial como a neve. 
:Nunca preferi o pobre ao rico, 
:Como, em mim, nunca preferi nada a nada. 

:Vi sempre o mundo independentemente de mim. 
:Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas, 
:Mas isso era outro mundo. 
:Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja. 
:Acima de tudo o mundo externo! 
:Eu que me agüente comigo e com os comigos de mim.
