Símbolos

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|autor=Álvaro de Campos
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:Símbolos?  Estou farto de símbolos...
:Mas dizem-me que tudo é símbolo,
:Todos me dizem nada.
:Quais símbolos?  Sonhos. —
:Que o sol seja um símbolo, está bem...
:Que a lua seja um símbolo, está bem...
:Que a terra seja um símbolo, está bem...
:Mas quem repara no sol senão quando a chuva cessa,
:E ele rompe as nuvens e aponta para trás das costas,
:Para o azul do céu?
:Mas quem repara na lua senão para achar
:Bela a luz que ela espalha, e não bem ela?
:Mas quem repara na terra, que é o que pisa?
:Chama terra aos campos, às árvores, aos montes,
:Por uma diminuição instintiva,
:Porque o mar também é terra...
:Bem, vá, que tudo isso seja símbolo...
:Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra,
:Mas neste poente precoce e azulando-se
:O sol entre farrapos finos de nuvens,
:Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado,
:E o que fica da luz do dia
:Doura a cabeça da costureira que pára vagamente à esquina
:Onde se demorava outrora com o namorado que a deixou?
:Símbolos?  Não quero símbolos...
:Queria — pobre figura de miséria e desamparo! —
:Que o namorado voltasse para a costureira.
