Passagem das Horas

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|autor=Álvaro de Campos
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:Trago dentro do meu coração,  
:Como num cofre que se não pode fechar de cheio,  
:Todos os lugares onde estive,  
:Todos os portos a que cheguei,  
:Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,  
:Ou de tombadilhos, sonhando,  
:E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.  

:A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,  
:O coral das Maldivas em passagem cálida,  
:Macau à uma hora da noite... Acordo de repente  
:Yat-iô--ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô ... Ghi-...  
:E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade  
:A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol  
:Dar-es-Salaam (a saída é difícil)...  
:Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagascar...  
:Tempestades em torno ao Guardaful...  
:E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada...  
:E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo...  

:Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...  
:Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...  
:Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,  
:Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir  
:E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.  

:A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,  
:Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,  
:Desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,  
:Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,  
:Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,  
:Deste desassossego no fundo de todos os cálices,  
:Desta angústia no fundo de todos os prazeres,  
:Desta saciedade antecipada na asa de todas as chávenas,  
:Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.  

:Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.  
:Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei  
:Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,  
:Consangüinidade com o mistério das coisas, choque  
:Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,  
:Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.  

:Seja o que for, era melhor não ter nascido,  
:Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,  
:A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,  
:A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair  
:Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,  
:E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,  
:Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,  
:E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,  
:Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.  

:Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,  
:É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...  
:Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,  
:Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...  
:Que há de ser de mim?  Que há de ser de mim?  
 
:Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão,  
:Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra.  
:Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos.  
:Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir...  
:Tão decadente, tão decadente, tão decadente...  
:Só estou bem quando ouço música, e nem então.  
:Jardins do século dezoito antes de 89,  
:Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?  
 
: Como um bálsamo que não consola senão pela idéia de que é um bálsamo,  
:A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.  

:Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.  
:Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.  
:Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.  
:Estou no caminho de todos e esbarram comigo.  
:Minha quinta na província,  
:Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.  
:Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir,  
:E fica sempre, fica sempre, fica sempre,  
:Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...  

: Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.  
:Só humanitariamente é que se pode viver.  
:Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos,  
:Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver.  
:Só assim, o noite, e eu nunca poderei ser assim!  
  
:Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,  
:Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.  
:Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,  
:E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.  
:Amei e odiei como toda gente,  
:Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,  
:E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.  
  
:Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti.  
:Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito,  
:Mágoa externa na Terra, choro silencioso do Mundo.  
:Mãe suave e antiga das emoções sem gesto,  
:Irmã mais velha, virgem e triste, das idéias sem nexo,  
:Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos,  
:A direção constantemente abandonada do nosso destino,  
:A nossa incerteza pagã sem alegria,  
:A nossa fraqueza cristã sem fé,  
:O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,  
:A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,  
:A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida...  

:Não sei sentir, não sei ser humano, conviver  
:De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.  
:Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,  
:Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,  
:Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,  
:Unia razão para descansar, uma necessidade de me distrair,  
:Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim.  
  
:Por isso sê para mim materna, ó noite tranqüila...  
:Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz,  
:Tu que não existes, que és só a ausência da luz,  
:Tu que não és uma coisa, rim lugar, uma essência, uma vida,  
:Penélope da teia, amanhã desfeita, da tua escuridão,  
:Circe irreal dos febris, dos angustiados sem causa,  
:Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,  
:E sê frescor e alívio, o noite, sobre a minha fronte...  
:'Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento,  
:Cujo fluxo e refluxo de treva, quando a lua bafeja,  
:Tem ondas de carinho morto, frio de mares de sonho,  
:Brisas de paisagens supostas para a nossa angústia excessiva...  
:Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente,  
:Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens,  
:Tu, rainha, tu, castelã, tu, dona pálida, vem...  

:Sentir tudo de todas as maneiras,  
:Viver tudo de todos os lados,  
:Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,  
:Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos  
:Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.  
  
:Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,  
:Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,  
:Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,  
:Seja uma flor ou uma idéia abstrata,  
:Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.  
:E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.  
:São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,  
:E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,  
:Porque ser inferior é diferente de ser superior,  
:E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.  
:Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,  
:E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,  
:E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,  
:E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.  
:Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,  
:Basta que ela exista para que tenha razão de ser.  
:Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,  
:(No mesmo abraço comovido)  
:O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,  
:O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,  
:E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,  
:O ladrão de estradas, o salteador dos mares,  
:O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas —  
:Todos são a minha amante predileta pelo menos um momento na vida.  
 
:Beijo na boca todas as prostitutas,  
:Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,  
:A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos  
:E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.  
:Tudo é a razão de ser da minha vida.  
 
:Cometi todos os crimes,  
:Vivi dentro de todos os crimes  
:(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,  
:Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,  
:E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).  
  
:Multipliquei-me, para me sentir,  
:Para me sentir, precisei sentir tudo,  
:Transbordei, não fiz senão extravasar-me,  
:Despi-me, entreguei-rne,  
:E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.  
 
:Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,  
:E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.  
 
:Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,  
:Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,  
:Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares  
:Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.  
:Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,  
:E todos os pederastas - absolutamente todos (não faltou nenhum).  
:Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!  
  
:(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,  
:Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)  
:Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,  
:Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,  
:Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,  
:A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,  
:Os seus half-holidays inesperados...  
:Mary, eu sou infeliz...  
:Freddie, eu sou infeliz...  
:Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,  
:Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fósseis,  
:Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —  
:Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,  
:Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,  
:Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!  
 
:Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,  
:E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim ...  
:Meu coração tribunal, meu coração mercado,  
:Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,  
:Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,  
:Meu coração banco de jardim público, hospedaria,  
:Estalagem, calabouço número qualquer cousa  
:(Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)  
:Meu coração clube, sala, platéia, capacho, guichet, portaló,  
:Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,  
:Meu coração postigo,  
:Meu coração encomenda,  
:Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,  
:Meu coração a margem, o lirrite, a súmula, o índice,  
:Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.  
  
:Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,  
:Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,  
:Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,  
:Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,  
:E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.  
  
:(Aquela cujo sorriso sugere a paz que eu não tenho,  
:Em cujo baixar-de-olhos há uma paisagem da Holanda,  
:Com as cabeças femininas coiffées de lin  
:E todo o esforço quotidiano de um povo pacífico e limpo...  
:Aquela que é o anel deixado em cima da cômoda,  
:E a fita entalada com o fechar da gaveta,  
:Fita cor-de-rosa, não gosto da cor mas da fita entalada,  
:Assim como não gosto da vida, mas gosto de senti-la ...  

:Dormir como um cão corrido no caminho, ao sol,  
:Definitivamente para todo o resto do Universo,  
:E que os carros me passem por cima.)  

:Fui para a cama com todos os sentimentos,  
:Fui souteneur de todas ás emoções,  
:Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações,  
:Troquei olhares com todos os motivos de agir,  
:Estive mão em mão com todos os impulsos para partir,  
:Febre imensa das horas!  
:Angústia da forja das emoções!  
:Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço,  
:A cadela a uivar de noite,  
:O tanque da quinta a passear à roda da minha insônia,  
:O bosque como foi à tarde, quando lá passeamos, a rosa,  
:A madeixa indiferente, o musgo, os pinheiros,  
:Toda a raiva de não conter isto tudo, de não deter isto tudo,  
:Ó fome abstrata das coisas, cio impotente dos momentos,  
:Orgia intelectual de sentir a vida!  
  
:Obter tudo por suficiência divina —  
:As vésperas, os consentimentos, os avisos,  
:As cousas belas da vida —  
:O talento, a virtude, a impunidade,  
:A tendência para acompanhar os outros a casa,  
:A situação de passageiro,  
:A conveniência em embarcar já para ter lugar,  
:E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, urna frase,  
:E a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa.  

:Poder rir, rir, rir despejadamente,  
:Rir como um copo entornado,  
:Absolutamente doido só por sentir,  
:Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,  
:Ferido na boca por morder coisas,  
:Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,  
:E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida.  

:Sentir tudo de todas as maneiras,  
:Ter todas as opiniões,  
:Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,  
:Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,  
:E amar as coisas como Deus.  

:Eu, que sou mais irmão de uma árvore que de um operário,  
:Eu, que sinto mais a dor suposta do mar ao bater na praia  
:Que a dor real das crianças em quem batem  
:(Ah, como isto deve ser falso, pobres crianças em quem batem —  
:E por que é que as minhas sensações se revezam tão depressa?)  
:Eu, enfim, que sou um diálogo continuo,  
:Um falar-alto incompreensível, alta-noite na torre,  
:Quando os sinos oscilam vagamente sem que mão lhes toque  
:E faz pena saber que há vida que viver amanhã.  
:Eu, enfim, literalmente eu,  
:E eu metaforicamente também,  
:Eu, o poeta sensacionista, enviado do Acaso  
:As leis irrepreensíveis da Vida,  
:Eu, o fumador de cigarros por profissão adequada,  
:O indivíduo que fuma ópio, que toma absinto, mas que, enfim,  
:Prefere pensar em fumar ópio a fumá-lo  
:E acha mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo...  
:Eu, este degenerado superior sem arquivos na alma,  
:Sem personalidade com valor declarado,  
:Eu, o investigador solene das coisas fúteis,  
:Que era capaz de ir viver na Sibéria só por embirrar com isso,  
:E que acho que não faz mal não ligar importâricia à pátria  
:Porqtie não tenho raiz, como uma árvore, e portanto não tenho raiz  
:Eu, que tantas vezes me sinto tão real como uma metáfora,  

:Como uma frase escrita por um doente no livroda rapariga que encontrou no terraço,  
:Ou uma partida de xadrez no convés dum transatlântico,  
:Eu, a ama que empurra os perambulators em todos os jardins públicos,  
:Eu, o policia que a olha, parado para trás na álea,  
:Eu, a criança no carro, que acena à sua inconsciência lúcida com um coral com guizos.  
:Eu, a paisagem por detrás disto tudo, a paz citadina  
:Coada através das árvores do jardim público,  
:Eu, o que os espera a todos em casa,  
:Eu, o que eles encontram na rua,  
:Eu, o que eles não sabem de si próprios,  
:Eu, aquela coisa em que estás pensando e te marca esse sorriso,  
:Eu, o contraditório, o fictício, o aranzel, a espuma,  
:O cartaz posto agora, as ancas da francesa, o olhar do padre,  
:O largo onde se encontram as suas ruas e os chauffeurs dormem contra os carros,  
:A cicatriz do sargento mal encarado,  
:O sebo na gola do explicador doente que volta para casa,  
:A chávena que era por onde o pequenito que morreu bebia sempre,  
:E tem uma falha na asa (e tudo isto cabe num coração de mãe e enche-o)...  
:Eu, o ditado de francês da pequenita que mexe nas ligas,  
:Eu, os pés que se tocam por baixo do bridge sob o lustre,  
:Eu, a carta escondida, o calor do lenço, a sacada com a janela entreaberta,  
:O portão de serviço onde a criada fala com os desejos do primo,  
:O sacana do José que prometeu vir e não veio  
:E a gente tinha uma partida para lhe fazer...  
:Eu, tudo isto, e além disto o resto do mundo...  
:Tanta coisa, as portas que se abrem, e a razão por que elas se abrem,  
:E as coisas que já fizeram as mãos que abrem as portas...  
:Eu, a infelicidade-nata de todas as expressões,  
:A impossibilidade de exprimir todos os sentimentos,  
:Sem que haja uma lápida no cemitério para o irmão de ttido isto,  
:E o que parece não querer dizer nada sempre quer dizer qualquer cousa...  
:Sim, eu, o engenheiro naval que sou supersticioso como uma camponesa madrinha,  
:E uso monóculo para não parecer igual à idéia real que faço de mim,  
:Que levo às vezes três horas a vestir-me e nem por isso acho isso natural,  
:Mas acho-o metafísico e se me batem à porta zango-me,  
:Não tanto por me interromperem a gravata como por ficar sabendo que há a vida...  
:Sim, enfim, eu o destinatário das cartas lacradas,  
:O baú das iniciais gastas,  
:A entonação das vozes que nunca ouviremos mais -  
:Deus guarda isso tudo no Mistério, e às vezes sentimo-lo  
:E a vida pesa de repente e faz muito frio mais perto que o corpo.  
:A Brígida prima da minha tia,  
:O general em que elas falavam - general quando elas eram pequenas,  
:E a vida era guerra civil a todas as esquinas...  
:Vive le mélodrame oú Margot a pleuré!  
:Caem as folhas secas no chão irregularmente,  
:Mas o fato é que sempre é outono no outono,  
:E o inverno vem depois fatalmente,  
:há só um caminho para a vida, que é a vida...  

:Esse velho insignificante, mas que ainda conheceu os românticos,  
:Esse opúsculo político do tempo das revoluções constitucionais,  
:E a dor que tudo isso deixa, sem que se saiba a razão  
:Nem haja para chorar tudo mais razão que senti-lo.  

:Viro todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,  
:E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.  
:Não me subordino senão por atavisnio,  
:E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.  

:Das serrasses de todos os cafés de todas as cidades  
:Acessíveis à imaginação  
:Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,  
:Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,  
:Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.  

:No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa,  
:Vou ao lado dela sem ela saber.  
:No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado,  
:Mas antes de o encontro deles lá estar já eu estava com eles lá.  
:Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me,  
:Não há modo de eu não estar em toda a parte.  
:O meu privilégio é tudo  
:(Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh'Alma).  

:Assisto a tudo e definitivamente.  
:Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim,  
:Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira,  
:Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso,  
:Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinqüenta  
:Que não seja para mim por uma galantaria deposta.  

:Fui educado pela Imaginação,  
:Viajei pela mão dela sempre,  
:Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,  
:E todos os dias têm essa janela por diante,  
:E todas as horas parecem minhas dessa maneira.  

:Cavalgada explosiva, explodida, como uma bomba que rebenta,  
:Cavalgada rebentando para todos os lados ao mesmo tempo,  
:Cavalgada por cima do espaço, salto por cima do tempo,  
:Galga, cavalo eléctron-íon, sistema solar resumido  
:Por dentro da ação dos êmbolos, por fora do giro dos volantes.  
:Dentro dos êmbolos, tornado velocidade abstrata e louca,  
:Ajo a ferro e velocidade, vaivém, loucura, raiva contida,  
:Atado ao rasto de todos os volantes giro assombrosas horas,  
:E todo o universo range, estraleja e estropia-se em mim.  

:Ho-ho-ho-ho-ho!...  
:Cada vez mais depressa, cada vez mais com o espírito adiante do corpo  
:Adiante da própria idéia veloz do corpo projetado,  
:Com o espírito atrás adiante do corpo, sombra, chispa,  
:He-la-ho-ho ... Helahoho ...  

:Toda a energia é a mesma e toda a natureza é o mesmo...  
:A seiva da seiva das árvores é a mesma energia que mexe  
:As rodas da locomotiva, as rodas do elétrico, os volantes dos Diesel,  
:E um carro puxado a mulas ou a gasolina é puxado pela mesma coisa.  

:Raiva panteísta de sentir em mim formidandamente,  
:Com todos os meus sentidos em ebulição, com todos os meus poros em fumo,  
:Que tudo é uma só velocidade, uma só energia, uma só divina linha  
:De si para si, parada a ciciar violências de velocidade louca...  
:Ho ----  

:Ave, salve, viva a unidade veloz de tudo!  
:Ave, salve, viva a igualdade de tudo em seta!  
:Ave, salve, viva a grande máquina universo!  
:Ave, que sois o mesmo, árvores, máquinas, leis!  
:Ave, que sois o mesmo, vermes, êmbolos, idéias abstratas,  
:A mesma seiva vos enche, a mesma seiva vos torna,  
:A mesma coisa sois, e o resto é por fora e falso,  
:O resto, o estático resto que fica nos olhos que param,  
:Mas não nos meus nervos motor de explosão a óleos pesados ou leves,  
:Não nos meus nervos todas as máquinas, todos os sistemas de engrenagem,  
:Nos meus nervos locomotiva, carro elétrico, automóvel, debulhadora a vapor  

:Nos meus nervos máquina marítima, Diesel, semi-Diesel,  
:Campbell, Nos meus nervos instalação absoluta a vapor, a gás, a óleo e a eletricidade,  
:Máquina universal movida por correias de todos os momentos!  

:Todas as madrugadas são a madrugada e a vida.  
:Todas as auroras raiam no mesmo lugar:  
:Infinito...  
:Todas as alegrias de ave vêm da mesma garganta,  
:Todos os estremecimentos de folhas são da mesma árvore,  
:E todos os que se levantam cedo para ir trabalhar  
:Vão da mesma casa para a mesma fábrica por o mesmo caminho...  

:Rola, bola grande, formigueiro de consciências, terra,  
:Rola, auroreada, entardecida, a prumo sob sóis, noturna,  
:Rola no espaço abstrato, na noite mal iluminada realmente  
:Rola ...  

:Sinto na minha cabeça a velocidade de giro da terra,  
:E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim,  
:Centrífuga ânsia, raiva de ir por os ares até aos astros  
:Bate pancadas de encontro ao interior do meu crânio,  
:Põe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpo,  
:Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstrato,  
:Para inencontrável, Ali sem restrições nenhumas,  
:A Meta invisível — todos os pontos onde eu não estou — e ao mesmo tempo ...  

:Ah, não estar parado nem a andar,  
:Não estar deitado nem de pé,  
:Nem acordado nem a dormir,  
:Nem aqui nem noutro ponto qualquer,  
:Resol,,,er a equação desta inquietação prolixa,  
:Saber onde estar para poder estar em toda a parte,  
:Saber onde deitar-me para estar passeando por todas as ruas ...  
  
:Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho  

:Cavalgada alada de mim por cima de todas as coisas,  
:Cavalgada estalada de mim por baixo de todas as coisas,  
:Cavalgada alada e estalada de mim por causa de todas as coisas ...  

:Hup-la por cima das árvores,  hup-la por baixo dos tanques,  
:Hup-la contra as paredes, hup-la raspando nos troncos,  
:Hup-la no ar, hup-la no vento, hup-la, hup-la nas praias,  
:Numa velocidade crescente, insistente, violenta,  
:Hup-la hup-la hup-la hup-la ...  

:Cavalgada panteísta de mim por dentro de todas as coisas,  
:Cavalgada energética por dentro de todas as energias,  
:Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lâmpada que arde,  
:Clarim claro da manhã ao fundo  
:Do semicírculo frio do horizonte,  
:Tênue clarim longínquo como bandeiras incertas  
:Desfraldadas para além de onde as cores são visíveis ...  

:Clarim trêmulo, poeira parada, onde a noite cessa,  
:Poeira de ouro parada no fundo da visibilidade  ...  

:Carro que chia limpidamente, vapor que apita,  
:Guindaste que começa a girar no meu ouvido,  
:Tosse seca, nova do que sai de casa,  
:Leve arrepio matutino na alegria de viver,  
:Gargalhada súbita velada pela bruma exterior não sei como,  
:Costureira fadada para pior que a manhã que sente,  
:Operário tísico desfeito para feliz nesta hora  
:Inevitavelmente vital,  
:Em que o relevo das coisas é suave, certo e simpático,  
:Em que os muros são frescos ao contacto da mão, e as casas  
:Abrem aqu; e ali os olhos cortinados a branco...  

:Toda a madrugada é uma colina que oscila,  
:...................................................................... e caminha tudo  
  
:Para a hora cheia de luz em que as lojas baixam as pálpebras  
:E rumor tráfego carroça comboio eu sinto sol estruge  
  
:Vertigem do meio-dia emoldurada a vertigens —  
:Sol dos vértices e nos... da minha visão estriada,  
:Do rodopio parado da minha retentiva seca,  
:Do abrumado clarão fixo da minha consciência de viver.  
  
:Rumor tráfego carroça comboio carros eu sinto sol rua,  
:Aros caixotes trolley loja rua i,itrines saia olhos  
:Rapidamente calhas carroças caixotes rua atravessar rua  
:Passeio lojistas "perdão" rua  
:Rua a passear por mim a passear pela rua por mim  
:Tudo espelhos as lojas de cá dentro das lojas de lá  
:A velocidade dos carros ao contrário nos espelhos oblíquos das montras,  
:O chão no ar o sol por baixo dos pés rua regas flores no cesto rua  
:O meu passado rua estremece camion rua não me recordo rua  
 
:Eu de cabeça pra baixo no centro da minha consciência de mim  
:Rua sem poder encontrar uma sensação só de cada vez rua  
:Rua pra trás e pra diante debaixo dos meus pés  
:Rua em X em Y em Z por dentro dos meus braços  
:Rua pelo meu monóculo em círculos de cinematógrafo pequeno,  
:Caleidoscópio em curvas iriadas nítidas rua.  
:Bebedeira da rua e de sentir ver ouvir tudo ao mesmo tempo.  
:Bater das fontes de estar vindo para cá ao mesmo tempo que vou para lá.  
:Comboio parte-te de encontro ao resguardo da linha de desvio!  
:Vapor navega direito ao cais e racha-te contra ele!  
:Automóvel guiado pela loucura de todo o universo precipita-te  
:Por todos os precipícios abaixo  
:E choca-te, trz!, esfrangalha-te no fundo do meu coração!  

:À moi, todos os objetos projéteis!  
:À moi, todos os objetos direções!  
:À moi, todos os objetos invisíveis de velozes!  
:Batam-me, trespassem-me, ultrapassem-me!  
:Sou eu que me bato, que me trespasso, que me ultrapasso!  
:A raiva de todos os ímpetos fecha em círculo-mim!  
  
:Hela-hoho comboio, automóvel, aeroplano minhas ânsias,  
:Velocidade entra por todas as idéias dentro,  
:Choca de encontro a todos os sonhos e parte-os,  
:Chamusca todos os ideais humanitários e úteis,  
:Atropela todos os sentimentos normais, decentes, concordantes,  
:Colhe no giro do teu volante vertiginoso e pesado  
:Os corpos de todas as filosofias, os tropos de todos os poemas,  
:Esfrangalha-os e fica só tu, volante abstrato nos ares,  
:Senhor supremo da hora européia, metálico a cio.  
:Vamos, que a cavalgada não tenha fim nem em Deus!  
:...............................................................  
:...............................................................  

:Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,  
:Dec4ina dentro de mim o sol no alto do céu.  
:Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.  
:Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?  
:Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata,  
:Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,  
:Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,  
:Calcar, calcar, calcar até não sentir.  
:Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,  
:Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.  

:Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos,  
:Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços,  
:Cavalgada vôo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago,  
:Cavalgada eu, cavalgada eu, cavalgada o universo — eu.  
:Helahoho-o-o-o-o-o-o-o ...  

:Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação ...
