Ode Marítima

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|autor=Álvaro de Campos
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:Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão, 
:Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,  
:Olho e contenta-me ver, 
:Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. 
:Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira. 
:Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo. 
:Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio, 
:Aqui, acolá, acorda a vida marítima, 
:Erguem-se velas, avançam rebocadores, 
:Surgem barcos pequenos de trás dos navios que estão no porto.   
:Há uma vaga brisa. 
:Mas a minh'alma está com o que vejo menos,  
:Com o paquete que entra, 
:Porque ele está com a Distância, com a Manhã, 
:Com o sentido marítimo desta Hora, 
:Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,  
:Como um começar a enjoar, mas no espírito. 

:Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,  
:E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente, 

:Os paquetes que entram de manhã na barra 
:Trazem aos meus olhos consigo 
:O mistério alegre e triste de quem chega e parte. 
:Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos 
:Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos. 
:Todo o atracar, todo o largar de navio, 
:É — sinto-o em mim como o meu sangue - 
:Inconscientemente simbólico, terrivelmente 
:Ameaçador de significações metafísicas 
:Que perturbam em mim quem eu fui... 

:Ah, todo o cais é uma saudade de pedra! 
:E quando o navio larga do cais 
:E se repara de repente que se abriu um espaço 
:Entre o cais e o navio, 
:Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente, 
:Uma névoa de sentimentos de tristeza 
:Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas 
:Como a primeira janela onde a madrugada bate, 
:E me envolve como uma recordação duma outra pessoa 
:Que fosse misteriosamente minha. 

:Ah, quem sabe, quem sabe, 
:Se não parti outrora, antes de mim, 
:Dum cais; se não deixei, navio ao sol 
:Oblíquo da madrugada, 
:Uma outra espécie de porto? 
:Quem sabe se não deixei, antes de a hora 
:Do mundo exterior como eu o vejo 
:Raiar-se para mim, 
:Um grande cais cheio de pouca gente, 
:Duma grande cidade meio-desperta, 
:Duma enorme cidade comercial, crescida, apoplética, 
:Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo? 

:Sim, dum cais, dum cais dalgum modo material, 
:Real, visível como cais, cais realmente, 
:O Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente imitado 
:Insensivelmente evocado, 
:Nós os homens construímos 
:Os nossos cais de pedra atual sobre água verdadeira, 
:Que depois de construídos se anunciam de repente 
:Coisas-Reais, Espíritos-Coisas, Entidades em Pedra-Almas, 
:A certos momentos nossos de sentimento-raiz 
:Quando no mundo-exterior como que se abre uma porta 
:E, sem que nada se altere, 
:Tudo se revela diverso. 

:Ah o Grande Cais donde partimos em Navios-Nações! 
:O Grande Cais Anterior, eterno e divino! 
:De que porto?  Em que águas?  E porque penso eu isto? 
:Grandes Cais como os outros cais, mas o Único. 
:Cheio como eles de silêncios rumorosos nas antemanhãs, 
:E desabrochando com as manhãs num ruído de guindastes 
:E chegadas de comboios de mercadorias, 
:E sob a nuvem negra e ocasional e leve 
:Do fundo das chaminés das fábricas próximas 
:Que lhe sombreia o chão preto de carvão pequenino que brilha, 
:Como se fosse a sombra duma nuvem que passasse sobre água sombria. 

:Ah, que essencialidade de mistério e sentido parados  
:Em divino êxtase revelador  
:Às horas cor de silêncios e angústias 
:Não é ponte entre qualquer cais e O Cais! 

:Cais negramente refletido nas águas paradas,  
:Bulício a bordo dos navios, 
:Ó alma errante e instável da gente que anda embarcada,  
:Da gente simbólica que passa e com quem nada dura,  
:Que quando o navio volta ao porto 
:Há sempre qualquer alteração a bordo! 

:Ó fugas contínuas, idas, ebriedade do Diverso!   
:Alma eterna dos navegadores e das navegações!   
:Cascos refletidos devagar nas águas, 
:Quando o navio larga do porto! 
:Flutuar como alma da vida, partir como voz, 
:Viver o momento tremulamente sobre águas eternas. 
:Acordar para dias mais diretos que os dias da Europa, 
:Ver portos misteriosos sobre a solidão do mar, 
:Virar cabos longínquos para súbitas vastas paisagens 
:Por inumeráveis encostas atônitas... 

:Ah, as praias longínquas, os cais vistos de longe, 
:E depois as praias próximas, os cais vistos de perto. 
:O mistério de cada ida e de cada chegada, 
:A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade 
:Deste impossível universo 
:A cada hora marítima mais na própria pele sentido!   
:O soluço absurdo que as nossas almas derramaram  
:Sobre as extensões de mares diferentes com ilhas ao longe,  
:Sobre as ilhas longínquas das costas deixadas passar,  
:Sobre o crescer nítido dos portos, com as suas casas e a sua gente,  
:Para o navio que se aproxima. 

:Ah, a frescura das manhãs em que se chega, 
:E a palidez das manhãs em que se parte, 
:Quando as nossas entranhas se arrepanham 
:E uma vaga sensação parecida com um medo 
:- O medo ancestral de se afastar e partir, 
:O misterioso receio ancestral à Chegada e ao Novo - 
:Encolhe-nos a pele e agonia-nos, 
:E todo o nosso corpo angustiado sente, 
:Como se fosse a nossa alma,  
:Uma inexplicável vontade de poder sentir isto doutra maneira:  
:Uma saudade a qualquer coisa, 
:Uma perturbação de afeições a que vaga pátria? 
:A que costa? a que navio? a que cais? 
:Que se adoece em nós o pensamento, 
:E só fica um grande vácuo dentro de nós, 
:Uma oca saciedade de minutos marítimos, 
:E uma ansiedade vaga que seria tédio ou dor 
:Se soubesse como sê-lo... 

:A manhã de Verão está, ainda assim, um pouco fresca.   
:Um leve torpor de noite anda ainda no ar sacudido.   
:Acelera-se ligeiramente o volante dentro de mim.   
:E o paquete vem entrando, porque deve vir entrando sem dúvida,  
:E não porque eu o veja mover-se na sua distância excessiva. 

:Na minha imaginação ele está já perto e é visível  
:Em toda a extensão das linhas das suas vigias.   
:E treme em mim tudo, toda a carne e toda a pele,  
:Por causa daquela criatura que nunca chega em nenhum barco  
:E eu vim esperar hoje ao cais, por um mandado oblíquo. 
:Os navios que entram a barra, 
:Os navios que saem dos portos, 
:Os navios que passam ao longe  
:(Suponho-me vendo-os duma praia deserta)  - 
:Todos estes navios abstratos quase na sua ida,  
:Todos estes navios assim comovem-me como se fossem outra coisa  
:E não apenas navios, navios indo e vindo. 

:E os navios vistos de perto, mesmo que se não vá embarcar neles, 
:Vistos de baixo, dos botes, muralhas altas de chapas,  
:Vistos dentro, através das câmaras, das salas, das despensas,  
:Olhando de perto os mastros, afilando-se lá pró alto,  
:Roçando pelas cordas, descendo as escadas incômodas,  
:Cheirando a untada mistura metálica e marítima de tudo aquilo  - 
:Os navios vistos de perto são outra coisa e a mesma coisa,  
:Dão a mesma saudade e a mesma ânsia doutra maneira. 

:Toda a vida marítima! tudo na vida marítima! 
:Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina 
:E eu cismo indeterminadamente as viagens. 
:Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!   
:Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas! 
:As solidões marítimas, como certos momentos no Pacífico  
:Em que não sei por que sugestão aprendida na escola  
:Se sente pesar sobre os nervos o fato de que aquele é o maior dos oceanos  
:E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós! 
:A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!  
:O indico, o mais misterioso dos oceanos todos! 
:O Mediterrâneo, doce, sem mistério nenhum, clássico, um mar para bater 
:De encontro a esplanadas olhadas de jardins próximos por estátuas brancas!   
:Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos, 
:Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer! 

:E vós, ó coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho! 
:Componde fora de mim a minha vida interior! 
:Quilhas, mastros e velas, rodas do leme, cordagens, 
:Chaminés de vapores, hélices, gáveas, flâmulas, 
:Galdropes, escotilhas, caldeiras, coletores, válvulas; 
:Caí por mim dentro em montão, em monte, 
:Como o conteúdo confuso de uma gaveta despejada no chão! 
:Sede vós o tesouro da minha avareza febril, 
:Sede vós os frutos da árvore da minha imaginação, 
:Tema de cantos meus, sangue nas veias da minha inteligência,  
:Vosso seja o laço que me une ao exterior pela estética, 
:Fornecei-me metáforas imagens, literatura, 
:Porque em real verdade, a sério, literalmente, 
:Minhas sensações são um barco de quilha pro ar, 
:Minha imaginação uma ancora meio submersa, 
:Minha ânsia um remo partido, 
:E a tessitura dos meus nervos uma rede a secar na praia! 

:Soa no acaso do rio um apito, só um. 
:Treme já todo o chão do meu psiquismo. 
:Acelera-se cada vez mais o volante dentro de mim. 

:Ah, os paquetes, as viagens, o não-se-saber-o-paradeiro 
:De Fulano-de-tal, marítimo, nosso conhecido! 
:Ah, a glória de se saber que um homem que andava conosco 
:Morreu afogado ao pé duma ilha do Pacífico! 
:Nós que andamos com ele vamos falar nisso a todos, 
:Com um orgulho legítimo, com uma confiança invisível 
:Em que tudo isso tenha um sentido mais belo e mais vasto 
:Que apenas o ter-se perdido o barco onde ele ia 
:E ele ter ido ao fundo por lhe ter entrado água pros pulmões! 

:Ah, os paquetes, os navios-carvoeiros, os navios de vela!   
:Vão rareando - ai de mim! - os navios de vela nos mares! 
:E eu, que amo a civilização moderna, eu que beijo com a alma as máquinas, 
:Eu o engenheiro, eu o civilizado, eu o educado no estrangeiro, 
:Gostaria de ter outra vez ao pé da minha vista só veleiros e barcos de madeira, 
:De não saber doutra vida marítima que a antiga vida dos mares! 
:Porque os mares antigos são a Distância Absoluta, 
:O Puro Longe, liberto do peso do Atual... 
:E ah, como aqui tudo me lembra essa vida melhor, 
:Esses mares, maiores, porque se navegava mais devagar. 
:Esses mares, misteriosos, porque se sabia menos deles. 

:Todo o vapor ao longe é um barco de vela perto.   
:Todo o navio distante visto agora é um navio no passado visto próximo. 
:Todos os marinheiros invisíveis a bordo dos navios no horizonte 
:São os marinheiros visíveis do tempo dos velhos navios, 
:Da época lenta e veleira das navegações perigosas, 
:Da época de madeira e lona das viagens que duravam meses. 

:Toma-me pouco a pouco o delírio das coisas marítimas, 
:Penetram-me fisicamente o cais e a sua atmosfera, 
:O marulho do Tejo galga-me por cima dos sentidos, 
:E começo a sonhar, começo a envolver-me do sonho das águas, 
:Começam a pegar bem as correias-de-transmissão na minh'alma 
:E a aceleração do volante sacode-me nitidamente. 

:Chamam por mim as águas, 
:Chamam por mim os mares, 
:Chamam por mim, levantando uma voz corpórea, os longes, 
:As épocas marítimas todas sentidas no passado, a chamar. 

:Tu, marinheiro inglês, Jim Barns meu amigo, foste tu 
:Que me ensinaste esse grito antiquíssimo, inglês, 
:Que tão venenosamente resume 
:Para as almas complexas como a minha 
:O chamamento confuso das águas, 
:A voz inédita e implícita de todas as coisas do mar, 
:Dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas. 
:Esse teu grito inglês, tornado universal no meu sangue, 
:Sem feitio de grito, sem forma humana nem voz, 
:Esse grito tremendo que parece soar 
:De dentro duma caverna cuja abóbada é o céu  
:E parece narrar todas as sinistras coisas 
:Que podem acontecer no Longe, no Mar, pela Noite...  
:(Fingias sempre que era por uma escuna que chamavas,  
:E dizias assim, pondo uma mão de cada lado da boca, 
:Fazendo porta-voz das grandes mãos curtidas e escuras: 

:Ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò - yyy... 
:Schooner ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-oò -yyy...)  

:Escuto-te de aqui, agora, e desperto a qualquer coisa. 
:Estremece o vento.  Sobe a manhã.  O calor abre. 
:Sinto corarem-me as faces. 
:Meus olhos conscientes dilatam-se. 
:O êxtase em mim levanta-se, cresce, avança,  
:E com um ruído cego de arruaça acentua-se  
:O giro vivo do volante. 

:Ó clamoroso chamamento 
:A cujo calor, a cuja fúria fervem em mim 
:Numa unidade explosiva todas as minhas ânsias, 
:Meus próprios tédios tornados dinâmicos, todos!... 
:Apelo lançado ao meu sangue 
:Dum amor passado, não sei onde, que volve 
:E ainda tem força para me atrair e puxar, 
:Que ainda tem força para me fazer odiar esta vida 
:Que passo entre a impenetrabilidade física e psíquica 
:Da gente real com que vivo! 

:Ah seja como for, seja por onde for, partir! 
:Largar por aí  fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar. 
:Ir para Longe, ir para Fora, para a Distância Abstrata, 
:Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas, 
:Levado, como a poeira, plos ventos, plos vendavais! 
:Ir, ir, ir, ir de vez! 

:Todo o meu sangue raiva por asas! 
:Todo o meu corpo atira-se pra frente! 
:Galgo pla minha imaginação fora em torrentes! 
:Atropelo-me, rujo, precipito-me 
:Estoiram em espuma as minhas ânsias 
:E a minha carne é uma onda dando de encontro a rochedos! 

:Pensando nisto - ó raiva! pensando nisto - ó fúria! 
:Pensando nesta estreiteza da minha vida cheia de ânsias, 
:Subitamente, tremulamente extraorbitadamente, 
:Com uma oscilação viciosa, vasta, violenta, 
:Do volante vivo da minha imaginação. 
:Rompe, por mim, assobiando, silvando, vertiginando, 
:O cio sombrio e sádico da estrídula vida marítima. 

:Eh marinheiros, gajeiros! eh tripulantes, pilotos!   
:Navegadores, mareantes, marujos, aventureiros!   
:Eh capitães de navios! homens ao leme e em mastros!   
:Homens que dormem em beliches rudes!   
:Homens que dormem co'o Perigo a espreitar plas vigias!   
:Homens que dormem co'a Morte por travesseiro!   
:Homens que têm tombadilhos, que têm pontes donde olhar  
:A imensidade imensa do mar imenso! 
:Eh manipuladores dos guindastes de carga! 
:Eh amainadores de velas, fagueiros, criados de bordo! 
:Homens que metem a carga nos porões! 
:Homens que enrolam cabos no convés! 
:Homens que limpam os metais das escotilhas! 
:Homens do leme! homens das máquinas! homens dos mastros!   
:Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
:Gente de boné de pala!  Gente de camisola de malha! 
:Gente de âncoras e bandeiras cruzadas bordadas no peito! 
:Gente tatuada! gente de cachimbo! gente de amurada! 
:Gente escura de tanto sol, crestada de tanta chuva, 
:Limpa de olhos de tanta imensidade diante deles, 
:Audaz de rosto de tantos ventos que lhes bateram a valer! 

:Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
:Homens que vistes a Patagônia! 
:Homens que passasses pela Austrália! 
:Que enchesses o vosso olhar de costas que nunca verei! 
:Que fostes a terra em terras onde nunca descerei! 
:Que comprastes artigos toscos em colônias à proa de sertões! 
:E fizestes tudo isso como se não fosse nada, 
:Como se isso fosse natural, 
:Como se a vida fosse isso, 
:Como nem sequer cumprindo um destino!   
:Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
:Homens do mar atual! homens do mar passado! 
:Comissários de bordo! escravos das galés! combatentes de Lepanto! 
:Piratas do tempo de Roma!  Navegadores da Grécia! 
:Fenícios!  Cartagineses!  Portugueses atirados de Sagres 
:Para a aventura indefinida, para o Mar Absoluto, para realizar o Impossível! 
:Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
:Homens que erguestes padrões, que destes nomes a cabos!   
:Homens que negociastes pela primeira vez com pretos! 
:Que primeiro vendesses escravos de novas terras! 
:Que destes o primeiro espasmo europeu às negras atônitas  
:Que trouxesses ouro, miçanga, madeiras cheirosas, setas, 
:De encostas explodindo em verde vegetação!   
:Homens que saqueasses tranqüilas povoações africanas  
:Que fizestes fugir com o ruído de canhões essas raças  
:Que matastes, roubastes, torturastes, ganhastes  
:Os prêmios de Novidade de quem, de cabeça baixa  
:Arremete contra o mistério de novos mares!  Eh-eh-eh eh-eh!  
:A vós todos num, a vós todos em vós todos como um, 
:A vós todos misturados, entrecruzados. 
:A vós todos sangrentos, violentos, odiados, temidos, sagrados,  
:Eu vos saúdo, eu vos saúdo, eu vos saúdo! 
:Eh-eh-eh-eh eh!  Eh eh-eh-eh eh!  Eh-eh-eh eh-eh-eh eh! 
:Eh lahô-lahô laHO-lahá-á-á-à-à! 

:Quero ir convosco, quero ir convosco, 
:Ao mesmo tempo com vós todos 
:Pra toda a parte pr'onde fostes! 
:Quero encontrar vossos perigos frente a frente, 
:Sentir na minha cara os ventos que engelharam as vossa 
:Cuspir dos lábios o sal dos mares que beijaram os vossos 
:Ter braços na vossa faina, partilhar das vossas tormentas 
:Chegar como vós, enfim, a extraordinários portos! 
:Fugir convosco à civilização! 
:Perder convosco a noção da moral! 
:Sentir mudar-se no longe a minha humanidade! 
:Beber convosco em mares do Sul 
:Novas selvajarias, novas balbúrdias da alma, 
:Novos fogos centrais no meu vulcânico espírito! 
:Ir convosco, despir de mim - ah! põe-te daqui pra fora! - 
:O meu traje de civilizado, a minha brandura de ações, 
:Meu medo inato das cadeias, 
:Minha pacífica vida, 
:A minha vida sentada, estática, regrada e revista! 

:No mar, no mar, no mar, no mar, 
:Eh! pôr no mar, ao vento, às vagas, 
:A minha vida! 
:Salgar de espuma arremessada pelos ventos 
:Meu paladar das grandes viagens. 
:Fustigar de água chicoteante as carnes da minha aventura, 
:Repassar de frios oceânicos os ossos da minha existência, 
:Flagelar, cortar, engelhar de ventos, de espumas, de sóis, 
:Meu ser ciclônico e atlântico, 
:Meus nervos postos como enxárcias, 
:Lira nas mãos dos ventos! 

:Sim, sim, sim... Crucificai-me nas navegações 
:E as minhas espáduas gozarão a minha cruz! 
:Atai-me às viagens como a postes 
:E a sensação dos postes entrará pela minha espinha 
:E eu passarei a senti-los num vasto espasmo passivo! 
:Fazei o que quiserdes de mim, logo que seja nos mares, 
:Sobre conveses, ao som de vagas, 
:Que me rasgueis, mateis, fira-os! 
:O que quero é levar pra Morte 
:Uma alma a transbordar de Mar,  
:Ébria a cair das coisas marítimas, 
:Tanto dos marujos como das âncoras, dos cabos, 
:Tanto das costas longínquas como do ruído dos ventos, 
:Tanto do Longe como do Cais, tanto dos naufrágios 
:Como dos tranqüilos comércios, 
:Tanto dos mastros como das vagas, 
:Levar pra Morte com dor, voluptuosamente, 
:Um copo cheio de sanguessugas, a sugar, a sugar, 
:De estranhas verdes absurdas sanguessugas marítimas! 

:Façam enxárcias das minhas veias! 
:Amarras dos meus músculos! 
:Atranquem-me a pele, preguem-na às quilhas. 
:E possa eu sentir a dor dos pregos e nunca deixar de sentir! 
:Façam do meu coração uma flâmula de almirante 
:Na hora de guerra aos velhos navios! 
:Calquem aos pés nos conveses meus olhos arrancados! 
:Quebrem-me os ossos de encontro às amuradas! 
:Fustiguem-me atado aos mastros, fustiguem-me! 
:A todos os ventos de todas as latitudes e longitudes 
:Derramem meu sangue sobre as águas arremessadas 
:Que atravessam o navio, o tombadilho, de lado a lado, 
:Nas vascas bravas das tormentas! 

:Ter a audácia ao vento dos panos das velas! 
:Ser, como as gáveas altas, o assobio dos ventos! 
:A velha guitarra do Fado dos mares cheios de perigos, 
:Canção para os navegadores ouvirem e não repetirem! 

:Os marinheiros que se sublevaram 
:Enforcaram o capitão numa verga. 
:Desembarcaram um outro numa ilha deserta. 
:Morooned! 
:O sol dos trópicos pôs a febre da pirataria antiga 
:Nas minhas veias intensivas. 
:Os ventos da Patagônia tatuaram a minha imaginação 
:De imagens trágicas e obscenas. 
:Fogo, fogo, fogo, dentro de mim! 
:Sangue! sangue! sangue! sangue! 
:Explode todo o meu cérebro! 
:Parte-se-me o mundo em vermelho! 
:Estoiram-me com o som de amarras as veias! 
:E estala em mim, feroz, voraz, 
:A canção do Grande Pirata, 
:A morte berrada do Grande Pirata a cantar 
:Até meter pavor plas espinhas dos seus homens abaixo. 
:Lá da ré a morrer, e a berrar, a cantar: 

::::::Fifteen men on the Dead Man's Chest. 
::::::Yo-ho ho and a bottle of rum I 

:E depois a gritar, numa voz já irreal, a estoirar no ar: 

:Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw! 
:Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw-aw-aw-aw! 
:Fetch a-a-aft th ru-u-u-u-u-u-u-u-u-um, Darby, 

:Eia,, que vida essa! essa era a vida, eia! 
:Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
:Eh-lahô-lahô-laFIO-Iahá-á-á-à-à! 
:Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!   

:Quilhas partidas, navios ao fundo, sangue nos mares 
:Conveses cheios de sangue, fragmentos de corpos! 
:Dedos decepados sobre amuradas! 
:Cabeças de crianças, aqui, acolá! 
:Gente de olhos fora, a gritar, a uivar! 
:Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
:Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 
:Embrulho-me em tudo isto como uma capa no frio! 
:Roço-me por tudo isto como uma gata com cio por um muro! 
:Rujo como um leão faminto para tudo isto! 
:Arremeto como um toiro louco sobre tudo isto! 
:Cravo unhas, parto garras, sangro dos dentes sobre isto! 
:Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 

:De repente estala-me sobre os ouvidos 
:Como um clarim a meu lado, 
:O velho grito, mas agora irado, metálico, 
:Chamando a presa que se avista, 
:A escuna que vai ser tomada: 

:Ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó - yyyy.. 
:Schooner ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó - yyyy... 

:O mundo inteiro não existe para mim!  Ardo vermelho! 
:Rujo na fúria da abordagem! 
:Pirata-mór!  César-Pirata! 
:Pilho, mato, esfacelo, rasgo! 
:Só sinto o mar, a presa, o saque! 
:Só sinto em mim bater, baterem-me 
:As veias das minhas fontes! 
:Escorre sangue quente a minha sensação dos meus olhos! 
:Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! 

:Ah piratas, piratas, piratas! 
:Piratas, amai-me e odiai-me! 
:Misturai-me convosco, piratas! 

:Vossa fúria, vossa crueldade corno falam ao sangue  
:Dum corpo de mulher que foi meu outrora e cujo cio sobrevive! 

:Eu queria ser um bicho representativo de todos os vossos gestos,  
:Um bicho que cravasse dentes nas amuradas, nas quilhas  
:Que comesse mastros, bebesse sangue e alcatrão nos conveses,  
:Trincasse velas, remos, cordame e poleame, 
:Serpente do mar feminina e monstruosa cevando-se nos crimes! 

:E há uma sinfonia de sensações incompatíveis e análogas, 
:Há uma orquestrarão no meu sangue de balbúrdias de crimes,   
:De estrépitos espasmados de orgias de sangue nos mares,  
:Furlbundamente, como um vendaval de calor pelo espírito,  
:Nuvem de poeira quente anuviando a minha lucidez  
:E fazendo-me ver e sonhar isto tudo só com a pele e as veias! 

:Os piratas, a pirataria, os barcos, a hora, 
:Aquela hora marítima em que as presas são assaltadas,  
:E o terror dos apresados foge pra loucura - essa hora,  
:No seu total de crimes, terror, barcos, gente, mar, céu, nuvens,  
:Brisa, latitude, longitude, vozearia, 
:Queria eu que fosse em seu Todo meu corpo em seu Todo, sofrendo, 
:Que fosse meu corpo e meu sangue, compusesse meu ser em vermelho, 
:Florescesse como uma ferida comichando na carne irreal da minha alma! 

:Ah, ser tudo nos crimes! ser todos os elementos componentes 
:Dos assaltos aos barcos e das chacinas e das violações!   
:Ser quanto foi no lugar dos saques! 
:Ser quanto viveu ou jazeu no local das tragédias de sangue!   
:Ser o pirata-resumo de toda a pirataria no seu auge,  
:E a vítima-síntese, mas de carne e osso, de todos os piratas do mundo! 
:Ser o meu corpo passivo a mulher-todas-as-mulheres  
:Que foram violadas, mortas, feridas, rasgadas pelos piratas!   
:Ser no meu ser subjugado a fêmea que tem de ser deles  
:E sentir tudo isso -- todas estas coisas duma só vez - pela espinha! 

:Ó meus peludos e rudes heróis da aventura e do crime!   
:Minhas marítimas feras, maridos da minha imaginação!   
:Amantes casuais da obliqüidade das minhas sensações!   
:Queria ser Aquela que vos esperasse nos portos, 
:A vós, odiados amados do seu sangue de pirata nos sonhos! 
:Porque ela teria convosco, mas só em espírito, raivado 
:Sobre os cadáveres nus das vítimas que fazeis no mar! 
:Porque ela teria acompanhado vosso crime, e na orgia oceânica  
:Seu espírito de bruxa dançaria invisível em volta dos gestos  
:Dos vossos corpos, dos vossos cutelos, das vossas mãos estranguladores! 
:E ela em terra, esperando-vos, quando viésseis, se acaso viésseis, 
:Iria beber nos rugidos do vosso amor todo o vasto, 
:Todo o nevoento e sinistro perfume das vossas vitórias,  
:E através dos vossos espasmos silvaria um sabbat de vermelho e amarelo! 

:A carne rasgada, a carne aberta e estripada, o sangue correndo! 
:Agora, no auge conciso de sonhar o que vós fazíeis,  
:Perco-me todo de mim, já não vos pertenço, sou vós,  
:A minha feminilidade que vos acompanha é ser as vossas almas! 
:Estar por dentro de toda a vossa ferocidade, quando a praticáveis! 
:Sugar por dentro a vossa consciência das vossas sensações  
:Quando tingíeis de sangue os mares altos, 
:Quando de vez em quando atiráveis aos tubarões 
:Os corpos vivos ainda dos feridos, a carne rosada das crianças 
:E leváveis as mães às amuradas para verem o que lhes acontecia! 

:Estar convosco na carnagem, na pilhagem! 
:Estar orquestrado convosco na sinfonia dos saques!   
:Ah, não sei quê, não sei quanto queria eu ser de vós!   
:Não era só ser-vos a fêmea, ser-vos as fêmeas, ser-vos as vítimas, 
:Ser-vos as vítimas - homens, mulheres, crianças, navios -, 
:Não era só ser a hora e os barcos e as ondas, 
:Não era só ser vossas almas, vossos corpos, vossa fúria, vossa posse, 
:Não era só ser concretamente vosso ato abstrato de orgia,  
:Não era só isto que eu queria ser - era mais que isto o Deus-isto! 
:Era preciso ser Deus, o Deus dum culto ao contrário, 
:Um Deus monstruoso e satânico, um Deus dum panteísmo de sangue, 
:Para poder encher toda a medida da minha fúria imaginativa,  
:Para poder nunca esgotar os meus desejos de identidade  
:Com o cada, e o tudo, e o mais-que-tudo das vossas vitórias! 

:Ah, torturai-me para me curardes! 
:Minha carne - fazei dela o ar que os vossos cutelos atravessam  
:Antes de caírem sobre as cabeças e os ombros!   
:Minhas veias sejam os fatos que as facas trespassam!   
:Minha imaginação o corpo das mulheres que violais!   
:Minha inteligência o convés onde estais de pé matando!   
:Minha vida toda, no seu conjunto nervoso, histérico, absurdo,  
:O grande organismo de que cada ato de pirataria que se cometeu  
:Fosse uma célula consciente - e todo eu turbilhonasse  
:Como uma imensa podridão ondeando, e fosse aquilo tudo!   

:Com tal velocidade desmedida, pavorosa, 
:A máquina de febre das minhas visões transbordantes  
:Gira agora que a minha consciência, volante, 
:E apenas um nevoento círculo assobiando no ar. 

:Fifteen men on tbe Dead Man's Chest. 
:Yo-ho-ho and a bottle of rum! 

:Eh-lahô-lahô-laHO - lahá-á-ááá - ààà... 

:Ah! a selvajaria desta selvajaria!  Merda 
:Pra toda a vida como a nossa, que não é nada disto! 
:Eu pr'àqui engenheiro, pratico à força, sensível a tudo, 
:Pr'àqui parado, em relação a vós, mesmo quando ando; 
:Mesmo quando ajo, inerte; mesmo quando me imponho, débil;  
:Estático, quebrado, dissidente cobarde da vossa Glória,  
:Da vossa grande dinâmica estridente, quente e sangrenta! 

:Arre! por não poder agir de acordo com o meu delírio!   
:Arre! por andar sempre agarrado às saias da civilização!   
:Por andar com a douceur des moeurs às costas, como um fardo de rendas!   
:Moços de esquina - todos nós o somos - do humanitarismo moderno! 
:Estupores de tísicos, de neurastênicos, de linfáticos, 
:Sem coragem para ser gente com violência e audácia, 
:Com a alma como uma galinha presa por uma perna! 

:Ah, os piratas! os piratas!. 
:A ânsia do ilegal unido ao feroz, 
:A ânsia das coisas absolutamente cruéis e abomináveis, 
:Que rói como um cio abstrato os nossos corpos franzimos, 
:Os nossos nervos femininos e delicados, 
:E põe grandes febres loucas nos nossos olhares vazios! 

:Obrigai-me a ajoelhar diante de vós! 
:Humilhai-me e batei-me! 
:Fazei de mim o vosso escravo e a vossa coisa! 
:E que o vosso desprezo por mim nunca me abandone, 
:Ó meus senhores! ó meus senhores! 

:Tomar sempre gloriosamente a parte submissa 
:Nos acontecimentos de sangue e nas sensualidades estiradas!   
:Desabai sobre mim, como grandes muros pesados,  
:Ó bárbaros do antigo mar! 
:Rasgai-me e feri-me! 
:De leste a oeste do meu corpo 
:Riscai de sangue a minha carne! 
:Beijai com cutelos de bordo e açoites e raiva 
:O meu alegre terror carnal de vos pertencer. 
:A minha ânsia masoquista em me dar à vossa fúria, 
:Em ser objeto inerte e sentiente da vossa omnívora crueldade, 
:Dominadores, senhores, imperadores, corcéis! 
:Ah, torturai-me, 
:Rasgai-me e abri-me! 
:Desfeito em pedaços conscientes 
:Entornai-me sobre os conveses, 
:Espalhal-me nos mares, deixai-me 
:Nas praias ávidas das ilhas! 

:Cevai sobre mim todo o meu misticismo de vós! 
:Cinzelai a sangue a minh'alma 
:Cortai, riscai! 
:Ó tatuadores da minha imaginação corpórea! 
:Esfoladores amados da minha cama submissão! 
:Submetei-me como quem mata um cão a pontapés! 
:Fazei de mim o poço para o vosso desprezo de domínio! 
:
:Fazei de mim as vossas vítimas todas! 
:Como Cristo sofreu por todos os homens, quero sofrer  
:Por todas as vossas vítimas às vossas mãos,  
:Às vossas mãos calosas, sangrentas e de dedos decepados  
:Nos assaltos bruscos de amuradas! 

:Fazei de mim qualquer, cousa como se eu fosse 
:Arrastado - ó prazer, o beijada dor! - 
:Arrastado à cauda de cavalos chicoteados por vós... 
:Mas isto no mar, isto no ma-a-a-ar, isto no MA-A-A-AR!   
:Eh-eh-eh-eh-eh!  Eh--.h-eh-eh-eh-eh-eh! EH-EH-EHEH-EH-EH-EH!  No MA-A-A-A-AR! 

:Yeh eh-eh-eh-eh-eh!  Yeh-eh-eh-eh-eh-eh!  Yeh-eh-eheh-eh-eh-eh-eh'  
:Grita tudo! tudo a gritar! ventos, vagas, barcos,  
:Marés, gáveas, piratas, a minha alma, o sangue, e o ar, e o ar!   
:Eh-eh-eh-eh!  Yeh-eh-eh-eh-eh!  Yeh-eh-eh-eh-eh-eh! Tudo canta a gritar! 

:FIFTEEN MEN ON THE DEAD MAN'S CHEST. 
:YO-HO-HO AND A BOTTLE OF RUM! 

:Eh-eh eh-eh -eh-eh-eh!  Eh-eh-eh-eh-eheh-eh!  Eh eheh eh-eh-eh-eh!   
:Eh-lahô-lahô-laHO-O-O-ôô-lahá-á à - ààà! 

:AHÓ-Ó-Ó Ó Ó Ó-Ó Ó Ó Ó Ó - yyyj... 
:SCHOONER AHÓ-ó-ó-ó-ó-ó-ó-o-o-o - yyyy! ... 

:Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw-aw! 
:DA.RBY M'GRAW-AW AW-AW-AW-AW-AW! 
:FETCH A-A-AFT THE RU-U-U-U-U-UM, DARBY! 

:Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh eh-eh-eh! 
:EH-EH EH-EH-EH EH-EH EH-EH EH-EH-EH!   
:EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH EH EH-EH!   
:EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EFI-EH-EH-EH-EHI 
:EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH! 

:Parte-se em mim qualquer coisa.  O vermelho anoiteceu. 
:Senti demais para poder continuar a sentir. 
:Esgotou-se-me a alma, ficou só um eco dentro de mim. 
:Decresce sensivelmente a velocidade do volante. 
:Tiram-me um pouco as mãos dos olhos os meus sonhos. 
:Dentro de mim há um só vácuo, um deserto, um mar noturno. 
:E logo que sinto que há um mar noturno dentro de mim, 
:Sabe dos longes dele, nasce do seu silêncio, 
:Outra vez, outra vez o vasto grito antiquíssimo. 
:De repente, como um relâmpago de som, que não faz barulho mas ternura, 

:Subitamente abrangendo todo o horizonte marítimo 
:Úmido e sombrio marulho humano noturno, 
:Voz de sereia longínqua chorando, chamando, 
:Vem do fundo do Longe, do fundo do Mar, da alma dos Abismos, 
:E à tona dele, como algas, bóiam meus sonhos desfeitos... 

:Ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò - yy... 
:Schooner a Ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò - yy... 

:Ah, o orvalho sobre a minha excitação! 
:O frescor noturno no meu oceano interior! 
:Eis tudo em mim de repente ante uma noite no mar 
:Cheia de enorme mistério humaníssimo das ondas noturnas 
:A lua sobe no horizonte 
:E a minha infância feliz acorda, como uma lágrima, em mim. 
:O meu passado ressurge, como se esse grito marítimo 
:Fosse um aroma, uma voz, o eco duma canção 
:Que fosse chamar ao meu passado 
:Por aquela felicidade que nunca mais tornarei a ter. 

:Era na velha casa sossegada ao pé do rio 
:(As janelas do meu quarto, e as da casa-de-jantar também,  
:Davam, por sobre umas casas baixas, para o rio próximo,  
:Para o Tejo, este mesmo Tejo, mas noutro ponto, mais abaixo 
:Se eu agora chegasse às mesmas janelas não chegava às mesmas janelas. 
:Aquele tempo passou como o fumo dum vapor no mar alto... ) 

:Unia inexplicável ternura, 
:Um remorso comovido e lacrimoso, 
:Por todas aquelas vítimas - principalmente as crianças - 
:Que sonhei fazendo ao sonhar-me pirata antigo, 
:Emoção comovida, porque elas foram minhas vítimas; 
:Terna e suave, porque não o foram realmente; 
:Uma ternura confusa, como um vidro embaciado, azulada, 
:Canta velhas canções na minha pobre alma dolorida. 

:Ah, como pude eu pensar, sonhar aquelas coisas? 
:Que longe estou do que fui há uns momentos! 
:Histeria das sensações - ora estas, ora as opostas! 
:Na loura manhã que se ergue, como o meu ouvido só escolhe 
:As cousas de acordo com esta emoção - o marulho das águas. 
:O marulho leve das águas do rio de encontro ao cais.... 
:A vela passando perto do outro lado do rio, 
:Os montes longínquos, dum azul japonês, 
:As casas de Almada, 
:E o que há de suavidade e de infância na hora matutina!... 

:Uma gaivota que passa, 
:E a minha ternura é maior. 

:Mas todo este tempo não estive a reparar para nada.   
:Tudo isto foi uma impressão só da pele, com uma carícia  
:Todo este tempo não tirei os olhos do meu sonho longínquo,  
:Da minha casa ao pé do rio, 
:Da minha infância ao pé do rio, 
:Das janelas do meu quarto dando para o rio de noite,  
:E a paz do luar esparso nas águas! ... 

:Minha velha tia, que me amava por causa do filho que perdeu..., 
:Minha velha tia costumava adormecer-me cantando-me 
:(Se bem que eu fosse já crescido demais para isso)... 
:Lembro-me e as lágrimas caem sobre o meu coração e lavam-no da vida, 
:E ergue-me uma leve brisa marítima dentro de mim. 
:As vezes ela cantava a "Nau Catrineta": 

::::::Lá vai a Nau Catrineta 
::::::Por sobre as águas do mar ... 

:E outras vezes, numa melodia muito saudosa e tão medieval,  
:Era a "Bela Infanta"... Relembro, e a pobre velha voz ergue-se dentro de mim 
:E lembra-me que pouco me lembrei dela depois, e ela amava-me tanto! 
:Como fui ingrato para ela - e afinal que fiz eu da vida? 
:Era a "Bela Infanta"...  Eu fechava os olhos, e ela cantava: 

::::::Estando a Bela Infanta 
::::::No seu Jardim assentada... 

:Eu abria um pouco os olhos e via a janela cheia de luar  
:E depois fechava os olhos outra vez, e em tudo isto era feliz. 

::::::Estando a Bela Infanta 
::::::No seu jardim assentada, 
::::::Seu pente de ouro na mão, 
::::::Seus cabelos penteava 

:Ó meu passado de infância, boneco que me partiram! 
:Não poder viajar pra o passado, para aquela casa e aquela afeição, 
:E ficar lá sempre, sempre criança e sempre contente! 

:Mas tudo isto foi o Passado, lanterna a uma esquina de rua velha. 
:Pensar isto faz frio, faz fome duma cousa que se não pode obter. 
:Dá-me não sei que remorso absurdo pensar nisto. 
:Oh turbilhão lento de sensações desencontradas! 
:Vertigem tênue de confusas coisas na alma! 
:Fúrias partidas, ternuras como carrinhos de linha com que as crianças brincam, 
:Grandes desabamentos de imaginação sobre os olhos dos sentidos,  
:Lágrimas, lágrimas inúteis, 
:Leves brisas de contradição roçando pela face a alma... 

:Evoco, por um esforço voluntário, para sair desta emoção, 
:Evoco, com um esforço desesperado, seco, nulo, 
:A canção do Grande Pirata, quando estava a morrer: 

::::::Fifteen men on the Dead Man's Chest. 
::::::Yo-ho-ho and a bottle of rum! 

:Mas a canção é uma linha reta mal traçada dentro de mim... 
:Esforço-me e consigo chamar outra vez ante os meus olhos na alma, 
:Outra vez, mas através duma imaginação quase literária,  
:A fúria da pirataria, da chacina, o apetite, quase do paladar, do saque, 
:Da chacina inútil de mulheres e de crianças,  
:Da tortura fútil, e só para nos distrairmos, dos passageiros pobres  
:E a sensualidade de escangalhar e partir as coisas mais queridas dos outros,  
:Mas sonho isto tudo com um medo de qualquer coisa a respirar-me sobre a nuca. 

:Lembro-me de que seria interessante  
:Enforcar os filhos à vista das mães  
:(Mas sinto-me sem querer as mães deles), 
:Enterrar vivas nas ilhas desertas as crianças de quatro anos 
:Levando os pais em barcos até lá para verem 
:(Mas estremeço, lembrando-me dum filho que não tenho 
:e está dormindo tranqüilo em casa). 

:Aguilhôo uma ânsia fria dos crimes marítimos,  
:Duma inquisição sem a desculpa da Fé, 
:Crimes nem sequer com razão de ser de maldade e de fúria, 
:Feitos a frio, nem sequer para ferir, nem sequer para fazer mal, 
:Nem sequer para nos divertirmos, mas apenas para passar o tempo,  
:Como quem faz paciências a uma mesa de jantar de província com a toalha  
:Atirada pra o outro lado da mesa depois de jantar,  
:Só pelo suave gosto de cometer crimes abomináveis e não os achar grande coisa,  
:De ver sofrer até ao ponto da loucura e da morte-pela-dor mas nunca deixar chegar lá... 
:Mas a minha imaginação recusa-se a acompanhar-me.   
:Um calafrio arrepia-me. 
:E de repente, mais de repente do que da outra vez, de mais longe, de mais fundo, 
:De repente - oh pavor por todas as minhas veias! -,  
:Oh frio repentino da porta para o Mistério 
:que se abriu dentro de mim e deixou entrar uma corrente de ar! 
:Lembro-me de Deus, do Transcendental da vida, e de repente  
:A velha voz do marinheiro inglês Jim Barris com quem eu falava,  
:Tornada voz das ternuras misteriosas dentro de mim,  
:das pequenas coisas de regaço de mãe e de fita de cabelo de irmã, 
:Mas estupendamente vinda de além da aparência das coisas, 
:A Voz surda e remota tornada A Voz Absoluta, a Voz Sem Boca, 
:Vinda de sobre e de dentro da solidão noturna dos mares,  
:Chama por mim, chama por mim, chama por mim ... 

:Vem surdamente, como se fosse suprimida e se ouvisse,  
:Longinquamente, como se estivesse soando noutro lugar e aqui não se pudesse ouvir,  
:Como um soluço abafado, uma luz que se apaga, um hálito silencioso.   
:De nenhum lado do espaço, de nenhum local no tempo,  
:O grito eterno e noturno, o sopro fundo e confuso: 

:Ahô-ô-õ-õ-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô - yyy...... 
:Ahô-ô-õ-õ-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô - yyy...... 
:Schooner ah-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô ô - - yy..... 

:Tremo com frio da alma repassando-me o corpo 
:E abro de repente os olhos, que não tinha fechado.   
:Ah, que alegria a de sair dos sonhos de vez!   
:Eis outra vez o mundo real, tão bondoso para os nervos!   
:Ei-lo a esta hora matutina em que entram os paquetes que chegam cedo. 

:Já não me importa o paquete que entrava.  Ainda está longe.   
:Só o que está perto agora me lava a alma. 
:A minha imaginação higiênica, forte, pratica, 
:Preocupa-se agora apenas com as coisas modernas e úteis,  
:Com os navios de carga, com os paquetes e os passageiros, 
:Com as fortes coisas imediatas, modernas, comerciais, verdadeiras. 
:Abranda o seu giro dentro de mim o volante. 

:Maravilhosa vida marítima moderna, 
:Toda limpeza, máquinas e saúde! 
:Tudo tão bem arranjado, tão espontaneamente ajustado,  
:Todas as peças das máquinas, todos os navios pelos mares,  
:Todos os elementos da atividade comercial de exportação e importação  
:Tão maravilhosamente combinando-se 
:Que corre tudo como se fosse por leis naturais,  
:Nenhuma coisa esbarrando com outra! 

:Nada perdeu a poesia.  E agora há a mais as máquinas  
:Com a sua poesia também, e todo o novo gênero de vida  
:Comercial, mundana, intelectual, sentimental,  
:Que a era das máquinas veio trazer para as almas.   
:As viagens agora são tão belas como eram dantes  
:E um navio será sempre belo, só porque é um navio.   
:Viajar ainda é viajar e o longe está sempre onde esteve  
:Em parte nenhuma, graças a Deus! 

:Os portos cheios de vapores de muitas espécies!   
:Pequenos, grandes, de várias cores, com várias disposições de vigias,  
:De tão deliciosamente tantas companhias de navegação!   
:Vapores nos portos, tão individuais na separação destacada dos ancoramentos!   
:Tão prazenteiro o seu garbo quieto de cousas comerciais que andam no mar, 
:No velho mar sempre o homérico, ó Ulisses! 

:O olhar humanitário dos faróis na distância da noite,  
:Ou o súbito farol próximo na noite muito escura  
:("Que perto da terra que estávamos passando!"   
:E o som da água canta-nos ao ouvido)! ... 

:Tudo isto hoje é como sempre foi, mas há o comércio; 
:E o destino comercial dos grandes vapores 
:Envaidece-me da minha época! 
:A mistura de gente a bordo dos navios de passageiros  
:Dá-me o orgulho moderno de viver numa época onde é tão fácil  
:Misturarem-se as raças, transporem-se os espaços, ver com facilidade todas as coisas,  
:E gozar a vida realizando um grande número de sonhos. 

:Limpos, regulares, modernos como um escritório com guichets em redes de arame amarelo! 
:Meus sentimentos agora, naturais e comedidos como , gentlemen, 
:São práticos, longe de desvairamentos, enchem de ar marítimo os pulmões, 
:Como gente perfeitamente consciente de como é higiênico respirar o ar do mar. 

:O dia é perfeitamente já de horas de trabalho. 
:Começa tudo a movimentar-se, a regularizar-se. 

:Com um grande prazer natural e direto percorro a alma 
:Todas as operações comerciais necessárias a um embarque de mercadorias. 
:A minha época é o carimbo que levam todas as faturas 
:E sinto que todas as cartas de todos os escritórios 
:Deviam ser endereçadas a mim. 

:Um conhecimento de bordo tem tanta individualidade, 
:E uma assinatura de comandante de navio é tão bela  e moderna! 
:Rigor comercial do princípio e do fim das cartas: 
:Dear Sirs - Messieurs - Amigos e Srs., 
:Yours faithfully - ...nos salutations empressées... 
:Tudo isto não é só humano e limpo, mas também belo, 
:E tem ao fim um destino marítimo, um vapor onde embarquem 
:As mercadorias de que as cartas e as faturas tratam. 

:Complexidade da vida!  As faturas são feitas por gente 
:Que tem amores, ódios, paixões políticas, às vezes crimes - 
:E são tão bem escritas, tão alinhadas, tão independentes de tudo isso!   
:Há quem olhe para uma fatura e não sinta isto.   
:Com certeza que tu, Cesário Verde, o sentias.   
:Eu é até às lágrimas que o sinto humanissimamente.   
:Venham dizer-me que não há poesia no comércio, nos escritórios! 
:Ora, ela entra por todos os poros... Neste ar marítimo respiro-a,  
:Por tudo isto vem a propósito dos vapores, da navegação moderna,  
:Porque as faturas e as cartas comerciais são o princípio da história 
:E os navios que levam as mercadorias pelo mar eterno são o fim. 

:Ah, e as viagens, as viagens de recreio, e as outras,  
:As viagens por mar, onde todos somos companheiros dos outros 
:Duma maneira especial, como se um mistério marítimo  
:Nos aproximasse as almas e nos tornasse um momento  
:Patriotas transitórios duma mesma pátria incerta,  
:Eternamente deslocando-se sobre a imensidade das água,,  
:Grandes hotéis do Infinito, oh transatlânticos meus!  
::Com o cosmopolitismo perfeito e total de nunca pararem num ponto  
:E conterem todas as espécies de trajes, de caras, de raças! 

:As viagens, os viajantes - tantas espécies deles!   
:Tanta nacionalidade sobre o mundo! tanta profissão! tanta gente! 
:Tanto destino diverso que se pode dar à vida, 
:À vida, afinal, no fundo sempre, sempre a mesma!   
:Tantas caras curiosas!  Todas as caras são curiosas  
:E nada traz tanta religiosidade como olhar muito para gente. 
:A fraternidade afinal não é uma idéia revolucionária.  
:É uma coisa que a gente aprende pela vida fora, onde tem que tolerar tudo,  
:E passa a achar graça ao que tem que tolerar, 
:E acaba quase a chorar de ternura sobre o que tolerou! 

:Ah, tudo isto é belo, tudo isto é humano e anda ligado  
:Aos sentimentos humanos, tão conviventes e burgueses.   
:Tão complicadamente simples, tão metafisicamente tristes!   
:A vida flutuante, diversa, acaba por nos educar no humano.   
:Pobre gente! pobre gente toda a gente! 

:Despeço-me desta hora no corpo deste outro navio 
:Que vai agora saindo. É um tramp-steamer inglês, 
:Muito sujo, como se fosse um navio francês, 
:Com um ar simpático de proletário dos mares, 
:E sem dúvida anunciado ontem na última página das gazetas. 

:Enternece-me o pobre vapor, tão humilde vai ele e tão natural. 
:Parece ter um certo escrúpulo não sei em quê, ser pessoa honesta, 
:Curnpridora duma qualquer espécie de deveres. 
:Lá vai ele deixando o lugar defronte do cais onde estou.   
:Lá vai ele tranqüilamente, passando por onde as naus estiveram 
:Outrora, outrora... 
:Para Cardiff?  Para Liverpool?  Para Londres?  Não tem importância. 
:Ele faz o seu dever.  Assim façamos nós o nosso.  Bela vida! 
:Boa viagem!  Boa viagem!  
:Boa viagem, meu pobre amigo casual, que me fizeste o favor 
:De levar contigo a febre e a tristeza dos meus sonhos,  
:E restituir-me à vida para olhar para ti e te ver passar.   
:Boa viagem!  Boa viagem!  A vida é isto... 

:Que aprumo tão natural, tão inevitavelmente matutino  
:Na tua saída do porto de Lisboa, hoje! 
:Tenho-te uma afeição curiosa e grata por isso... 
:Por isso quê?  Sei lá o que é!... Vai... Passa... 
:Com um ligeiro estremecimento, 
:(T-t--t --- r ---- t----- r ... ) 
:O volante dentro de mim pára. 

:Passa, lento vapor, passa e não fiques... 
:Passa de mim, passa da minha vista, 
:Vai-te de dentro do meu coração, 
:Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus, 
:Perde-te, segue o teu destino e deixa-me... 
:Eu quem sou para que chore e interrogue? 
:Eu quem sou para que te fale e te ame? 
:Eu quem sou para que me perturbe ver-te? 
:Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro, 
:Luzem os telhados dos edifícios do cais, 
:Todo o lado de cá da cidade brilha... 
:Parte, deixa-me, torna-te 
:Primeiro o navio a meio do rio, destacado e nítido, 
:Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto 
:Depois ponto vago no horizonte (ó minha angústia!), 
:Ponto cada vez mais vago no horizonte.... 
:Nada depois, e só eu e a minha tristeza, 
:E a grande cidade agora cheia de sol 
:E a hora real e nua como um cais já sem navios, 
:E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira, 
:Traça um semicírculo de não sei que emoção 
:No silêncio comovido da minh'alma...
