Ah, Perante

{{navegar
|obra=
|autor=Álvaro de Campos
}}

:Ah, perante esta única realidade, que é o mistério, 
:Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade, 
:Perante este horrível ser que é haver ser, 
:Perante este abismo de existir um abismo, 
:Este abismo de a existência de tudo ser um abismo, 
:Ser um abismo por simplesmente ser, 
:Por poder ser, 
:Por haver ser! 
:— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem, 
:Tudo o que os homens dizem, 
:Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles, 
:Se empequena! 
:Não, não se empequena... se transforma em outra coisa — 
:Numa só coisa tremenda e negra e impossível, 
:Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino 
:—Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino, 
:Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres, 
:Aquilo que subsiste através de todas as formas, 
:De todas as vidas, abstratas ou concretas, 
:Eternas ou contingentes, 
:Verdadeiras ou falsas! 
:Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora, 
:Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo, 
:Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa! 
 
:Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,  
:E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim, 
:Com a substância essencial do meu ser abstrato 
:Que sufoco de incompreensível, 
:Que me esmago de ultratranscendente, 
:E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser, 
:Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir! 
 
:Cárcere do Ser, não há libertação de ti? 
:Cárcere de pensar, não há libertação de ti? 

:Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus! 
:Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos, 
:Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie, 
:Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra, 
:Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite. 
:Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte, 
:Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males, 
:Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos, 
:Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte? 
:Ignoro-a?  Mas que é que eu não ignoro? 
:A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo, 
:São mistérios menores que a Morte?  Como se tudo é o mesmo mistério? 
:E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada. 
:Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe! 
:Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais, 
:Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência, 
:Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência, 
:Porque é preciso existir para se criar tudo, 
:E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser, 
:E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.
