A Casa Branca Nau Preta

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|autor=Álvaro de Campos
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:Estou reclinado na poltrona, é tarde, o Verão apagou-se... 
:Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu cérebro... 
:Não existe manhã para o meu torpor nesta hora... 
:Ontem foi um mau sonho que alguém teve por mim... 
:Há uma interrupção lateral na minha consciência... 
:Continuam encostadas as portas da janela desta tarde 
:Apesar de as janelas estarem abertas de par em par... 
:Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo, 
:E a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma... 
 
:Quem dera que houvesse 
:Um terceiro estado pra alma, se ela tiver só dois... 
:Um quarto estado pra alma, se são três os que ela tem... 
:A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar 
:Dói-me por detrás das costas da minha consciência de sentir... 
 
:As naus seguiram, 
:Seguiram viagem não sei em que dia escondido, 
:E a rota que devem seguir estava escrita nos ritmos, 
:Os ritmos perdidos das canções mortas do marinheiro de sonho... 
 
:Árvores paradas da quinta, vistas através da janela, 
:Árvores estranhas a mim a um ponto inconcebível à consciência de as estar vendo, 
:Árvores iguais todas a não serem mais que eu vê-las, 
:Não poder eu fazer qualquer coisa gênero haver árvores que deixasse de doer, 
:Não poder eu coexistir para o lado de lá com estar-vos vendo do lado de cá. 
:E poder levantar-me desta poltrona deixando os sonhos no chão... 
 
:Que sonhos? ... Eu não sei se sonhei ... Que naus partiram, para onde?
:Tive essa impressão sem nexo porque no quadro fronteira  
:Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim, 
:E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta, 
:Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta, 
:E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida... 
 
:Quem pôs as formas das árvores dentro da existência das árvores? 
:Quem deu frondoso a arvoredos, e me deixou por verdecer? 
 
:Onde tenho o meu pensamento que me dói estar sem ele, 
:Sentir sem auxílio de poder para quando quiser, e o mar alto 
:E a última viagem, sempre para lá, das naus a subir... 
 
:Não há, substância de pensamento na matéria de alma com que penso ... 
:Há só janelas abertas de par em par encostadas por causa do calor que já não faz, 
:E o quintal cheio de luz sem luz agora ainda-agora, e eu. 
 
:Na vidraça aberta, fronteira ao ângulo com que o meu olhar a colhe 
:A casa branca distante onde mora... Fecho o olhar... 
:E os meus olhos fitos na casa branca sem a ver 
:São outros olhos vendo sem estar fitos nela a nau que se afasta. 
:E eu, parado, mole, adormecido, 
:Tenho o mar embalando-me e sofro... 
 
:Aos próprios palácios distantes a nau que penso não leva. 
:As escadas dando sobre o mar inatingível ela não alberga. 
:Aos jardins maravilhosos nas ilhas inexplícitas não deixa. 
:Tudo perde o sentido com que o abrigo em meu pórtico 
:E o mar entra por os meus olhos o pórtico cessando. 
 
:Caia a noite, não caia a noite, que importa a candeia 
:Por acender nas casas que não vejo na encosta e eu lá? 
 
:Úmida sombra nos sons do tanque noturna sem lua, as rãs rangem, 
:Coaxar tarde no vale, porque tudo é vale onde o som dói. 
 
:Milagre do aparecimento da Senhora das Angústias aos loucos, 
:Maravilha do enegrecimento do punhal tirado para os atos, 
:Os olhos fechados, a cabeça pendida contra a coluna certa, 
:E o mundo para além dos vitrais paisagem sem ruínas... 
 
:A casa branca nau preta... 
:Felicidade na Austrália...
