Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo. Tu não és mais que um deus a mais no eterno Pantéon que preside À nossa vida incerta. Nem maior nem menor que os novos deuses, Tua sombria forma dolorida Trouxe algo que faltava Ao número dos divos. Por isso reina a par de outros no Olimpo, Ou pela triste terra se quiseres Vai enxugar o pranto Dos humanos que sofrem. Não venham, porém, estultos teus cultores Em teu nome vedar o eterno culto Das presenças maiores E parceiras da tua. A esses, sim, do âmago eu odeio Do crente peito, e a esses eu não sigo, Supersticiosos leigos Na ciência dos deuses. Ah, aumentai, não combatendo nunca. Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando Cada vez maior força Plo número maior. Basta os males que o Fado as Parcas fez Por seu intuito natural fazerem. Nós homens nos façamos Unidos pelos deuses. 9-10-1916 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 79. Ricardo Reis O REGRESSO DOS DEUSES Os deuses não morreram: o que morreu foi a nossa visão deles. Não se foram: deixámos de os ver. Ou fechámos os olhos, ou entre eles e nós uma névoa qualquer se entremeteu. Subsistem, vivem como viveram, com a mesma divindade e a mesma calma. Falamos muito, e com hipocrisia, no sentimento que temos da beleza antiga, e das civilizações mães da nossa, e que foram pagãs. Mas nós não temos a alma grega nem a alma romana. Amamo-las de pertil, incorporeamente. Nada da alma antiga está em nós ou connosco. A nossa ânsia de beleza clássica é toda cristã na sua fúria de perfeição, no seu desassossego. O sentimento que conduzimos, para amá-las, até ao soclo das está tuas helénicas, é um insulto a elas. Amamos a beleza demasiadamente: os gregos não a amaram assim. Para o seu sentimento passava a calma da lucidez com que viam. Ver muito lucidamente prejudica o sentir demasiado. E os gregos viam muito lucidamente. Por isso pouco sentiam. Daí a sua perfeita execução da obra de arte. Para executar a obra de arte com perfeita perfeição é preciso não sentir excessivamente a beleza que se vai esculpir. A arte grega era toda de equilíbrio e (...). E era a arte de quem via sabendo ver. Nós levamos para a sensação de uma estátua o sentimento, translato, que o cristianismo nos ensinou a levar para a adoração de Cristo na cruz, da perfeição moral, do ascético e do casto. Não é deslocando a direcção do nosso olhar iludido que conseguimos torná-lo lúcido e calmo. É criando em nós um novo modo de olhar e de sentir. A mais antiga tradição da nossa civilização é a tradição grega. Devemos reatá-la. Temos que nos criar uma alma grega, para podermos continuar a obra da Grécia. Tudo posterior à Grécia tem sido um erro e um desvio. As nossas instituições políticas sofrem do colectivismo romano e do sentimentalismo Cristão. Misturámos à dureza administrativa de Roma a moleza humanitária dos sermões de Cristo. E uma prova de quão longe andamos da alma grega, como ela era verdadeiramente. Só a ciência é que evolui. Nada mais evolui. Nem política, nem artes, nem costumes comportam evolução. Podem comportar diferenças. Evolução não comportam. Só o que é adquirir conhecimentos evolui porque evoluir é aumentar. Não há arte senão a arte grega. Não há beleza senão como a Grécia a criou. Reconhecemos isto — muitos de nós — obscuramente. Na realidade, a nossa alma anda tão longe disso que todos os dias traímos a uma linguagem mãe, a (...) Grécia Antiga. O nosso romanismo secou-nos, e o nosso cristianismo apodreceu-nos. Ficámos secos e pôr isso moles. Apareceu-nos uma grande ocasião para reconstituirmos, em ponto grandioso, a civilização grega. Foi quando as descobertas apontaram à nossa civilização o caminho único [?] — a escravização das raças negras, levando à aristocratização integral das raças brancas. O nosso cristanianismo atravessou-se; falhámos. Mas o nosso romanismo deixou-nos ir dominando essa África que não utilizámos para a civilização para através de dominá-las não nos aristocratizarmos; utilizámo-las para o nosso comércio apenas. Podendo ser hoje uma raça superior e culta, toda aristocrata, somos uma crista reles de escravos reles e reles patrões de escravos. Não sabemos mandar nem obedecer; não sabemos querer ou pensar. O verme cristão adoece tudo dentro de nós. Já nada nos modifica nem nos faz erguer. As nossas vidas são cheias de absurdos e de abdicações. Não temos ousadia em nada. Quando julgamos ousar, é que temos febre. Ousamos febrilmente, com demasiada noção do risco e demasiada embriaguez do perigo. Somos incompletos e infecundos. Nascemos escravos. O nosso humanitarismo é uma grilheta que nos pusemos. Não sabemos mandar. Não sabemos sentir, não sabemos sequer ver. Há mais de vinte séculos que seguimos um caminho errado, e nem esse seguimos persistentemente. Já não sabemos regressar ao que nunca devíamos ter deixado. O nosso helenismo nada adivinha ou percebe da Grécia Antiga. O nosso amor ao império romano é uma doença dos mais doentes entre nós. As próprias perversões e crimes dos impérios idos são incompreendidos por nós. Julgamos que são como os nossos. Amamos na antiguidade o que ela tem das nossas consciências, mas ela nada tem da nossa consciência. A nossa ignorância é profundíssima e a nossa (...). Não progredimos nem (...). Nada temos que a Antiguidade não tinha, e perdemos muito. Nada ganhámos de essencial. Salvo o que a ciência acumulou — e não podia deixar de acumular — não progredimos em nada. Na metafísica não progredimos, na arte não progredimos e em felicidade não progredimos. Sabemos o mesmo que sabiam os gregos do espírito essencial do universo. Nenhuma beleza criámos que substituísse a valer a beleza que os gregos criaram. Nenhum sistema de administrar e reger inventámos que produza os homens e equilibre os estados como o sistema que os gregos tinham. O progresso seria termos progredido nessas coisas. O resto passou-se à superfície da nossa vida e nada nos dá que valha a pena ter-nos dado. Fazei a vós próprios esta pergunta — desejaríeis vós viver agora ou na Grécia Antiga? Sei o que me responderíeis, se sois lúcidos e sonhadores. Para que ter progredido para querer antes o passado longínquo do que o presente? Sim, nós não progredimos senão na ciência. E com isso o que progredimos deveras? Progredimos, em verdade, nos nossos conhecimentos? Não progredimos: nós não sabemos nada mais, essencialmente, sobre o silencioso centro das coisas. Valeu então o progredirmos porque os progressos da ciência nos são úteis ? Úteis como, e úteis em quê? Porque aumentaram o nosso conforto, a nossa felicidade? Julgais com verdadeira sinceridade que somos mais felizes do que os gregos, que a nossa vida tem mais conforto e alegria e beleza do que a deles? Não o julgais, bem o sabemos. Em que progredimos portanto? Transportamo-nos mais depressa dum ponto ao outro. Trocamos palavras mais rapidamente através da distância. Vestem-nos tecidos vindos de muito mais longe. Mas nem um grão mais de felicidade veio ter connosco. Nem uma gota mais de ciência refresca a nossa fronte. Se olharmos para o fundo do que sabemos, do que temos, do que somos, vemos que, perante o mundo e a vida, a nossa visão não é mais lúcida nem mais calma, que não somos felizes, que o mundo da morte pesa sobre nós como decreto, que os laços da sensualidade riscam-nos o corpo como outrora. Porque este aumento de conhecimento, este acréscimo de transposições podia ao menos ter aumentado o valor do indivíduo, ter feito cada um per si , mais valor do que nos gregos era. Se houve mudança, foi para pior. Os nossos dominadores não podem dormir, tão complexa é a vida, em tanta coisa tropeçam, mesmo dentro de si próprios. Os nossos artistas criam arte ínfima; há muitos mais do que havia antigamente, mas que obras criaram eles que se igualem às antigas? Tudo está confuso e perplexo em nossa roda. Somos mais complexos, não porque tenhamos mais dentro de nós, porque o eterno pouco que temos, têmo-lo confusamente. Confusos é tudo o que somos. Perdemos a visão lúcida do mundo e a interior visão lúcida de nós mesmos. Enfebrecemos e envelhecemos. O que há de novo em nós, sobre o que a Grécia tinha, é a velhice. É a velhice, com a sua maior experiência, e o seu menor poder em utilizá-la; a velhice confusa e saudosa; a velhice faladora, analisadora de si, das suas recordações, dos seus sentimentos, como compensação de não poder mexer-se bem, de não poder agir nitidamente. Não nos libertámos nada, de modo nenhum. O nosso medo fez-nos continuar a criar novos deuses, a que a nossa sobreposição de valores dá outros nomes do que deuses. A tirania absurda dos nomes de rei e de nobre não tirou as mãos de cima das nossas almas. Continuamos escravos de preconceitos, medrosos dos ridículos, incapazes de criar novos métodos e novas visões. No fundo tudo é o mesmo salvo, que a tristeza dói mais e a incerteza cresce. Porque, no âmago de nós, qualquer coisa como uma consciência nos acusa de nada termos feito, de nada termos substituído ao que perdemos. Gememos alto, como velhos que padecem. E em gemidos, e imitações instantâneas, e começos abandonados de acção, os nossos pensamentos se cansam, os nossos ideais se evolam, a nossa vida se assombra e se relaxa. Os que entre nós julgam que se revoltam, apenas põem a canga ao contrário. Uns dizem-se anarquistas e pesa-lhes nos pés a grilheta do sentimento humanitário que os cristãos trouxeram. Outros gritam contra o rei, outros contra os ricos, outros contra (...). Mas o que grita contra os reis é por causa do poder que os reis têm, o que grita contra os ricos é por (...) A ânsia de ser livre e de ser escravo muda-os como um (...). As leis, mesmo superficiais, das coisas continuam desconhecidas. Qual de nós talhará hoje com mais lógica, com mais utilidade, com mais segurança, uma regra de vida para si ou para os outros? Todos sabem o que não querem, sem saber o que querem. E mesmo o que não querem, nem sabem porque o não querem, nem (...). Os nossos actos e os nossos pensamentos deixaram de ser simples; mas não passaram a ser complexos. Passaram a ser confusos, a ser perplexos, ficaram esboços de gestos, pensamentos abandonados. Ninguém tem energia para seguir uma ideia ou ir para um combate. Os nossos propósitos viram como cataventos, As nossas ideias passam como folhas secas. Os nossos próprios vícios são tristes e frágeis. Não nascemos de um excesso quente de vida mas de uma febre, de um desassossego que sabe que a vida não basta, mas nem concebe o que lhe bastaria. Creio nos Deuses como numa verdade e numa salvação. A sua presença adoça e simplifica. Nada lógico me leva a preferir-lhes qualquer outro deus, mais antigo ou mais recente. Ver as fontes e os bosques habitados realmente por entes reais de outra espécie não me parece mais absurdo do que acreditar que tudo isto derivou do nada, que Deus é a essência disto tudo. E eu tive a felicidade de tal nascer que naturalmente sinto a presença de entes reais nos bosques e nas fontes, que, sem preconceitos clássicos, Neptuno é para mim uma personalidade real, Vénus um ente verdadeiro e Júpiter o pai terrível e existente dos calmos deuses todos. Nada me interpreta a natureza melhor, nem me faz amá-la mais. A presença de uma nereida alegra-me quando me encontro ao lado de uma fonte. E é grata companhia a dos silêncios quando atravesso, humanamente sozinho, o sossego sóbrio dos bosques frescos. Os amores dos deuses, a sua humanidade afastada não me dói nem me repugna. Repugna-me a morte de um Deus, Cristo na cruz, vítima de seu próprio pai numa religião que pretende ser enternecida. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 247. 1ª versão inc.: Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação . Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. Se já não torna a eterna primavera Que em sonhos conheci, O que é que o exausto coração espera Do que não tem em si? Se não há mais florir de árvores feitas Só de alguém as sonhar, Que coisas quer o coração perfeitas, Quando, e em que lugar? Não: contentemo-nos com ter a aragem Que, porque existe, vem Passar a mão sobre o alto da folhagem E assim nos faz um bem. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 199. 1ª publ. in Fernando Pessoa - O Insincero Verídico . Adolfo Casais Monteiro. Lisboa: Inquérito, 1954 Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre E nós com ele, nada o árbitro escravo Pode contra o destino Nem contra os deuses o mortal desejo Hoje, quais servos com ausentes deuses, Na alheia casa, um dia sem o juiz, Bebamos e comamos. Será para amanhã o que aconteça. Tombai mancebos, o vinho em nobre taça E o braço nu com que o entornais fique No lembrando olhar Como uma água que parece vinho! Sim, heróis somos todos amanhã. Hoje adiemos. E na erguida taça O roxo vinho espelhe Depois — porque a noite nunca falta. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 200. Sob estas árvores ou aquelas árvores Conduzi a dança, Conduzi a dança, ninfas singelas Até ao amplo gozo Que tomais da vida. Conduzi a dança E sê quase humanas Com o vosso gozo derramado em ritmos Em ritmos solenes Que a nossa alegria torna maliciosos Para nossa triste Vida que não sabe sob as mesmas árvores Conduzir a dança... s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 202. Quando Neptuno houver alongado Até quase aos bosques ao cimo da praia Os seus braços com mãos ruidosas de espuma E Éolo houver Largado por sobre o mar sob o azul Onde Apolo aquece Os cavalos frescos dos ventos leves, Eu irei contigo Passear na altura cheirosa a mar Dos (...) altos E concluir que esta vida é pouco Desde que os deuses Foram velados e os homens ingratos Dos altares esquecidos tiraram todos Os ex-votos velhos, Os ex-votos velhos que eram (...) (...) Que Cristo e Maria E de antes que a cruz pusesse a nudez Da sua secura De encontro ao céu sempre velho e novo. 16-6-1914 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 203. Me concedam os deuses lá do alto Da sua calma que não custa ou serve Ter uma vida tal qual eles Se fossem homens a teriam... Dominando desejos e esperanças Não para ser comprado pelas ínguas A maldizer da (...)… 25-9-1915 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 204. Antes de ti era a Mãe Terra escrava Das trevas súperas que da alma nascem E caem sobre o mundo Porque atrás o sol brilha. A realidade ao mundo devolveste Que haviam os cristãos fechado na alma E as portas reabriste Por onde aurora o carro Ou Febo guie e os dois irmãos celestes Quando no extremo mastro à noite luzem, Mais valham que um luzeiro Na ponta de um pau seco. Restituíste a Terra à Terra. E agora És parte corporal da própria terra, Ou sombra  (...) Erras nas sombras frias, Mas ao ouvir-te os povos com que auroras Do abismo os íncolas as tristes frontes Erguem e sentem deuses Caminhar pelas sombras. E eis que de nova luz o abismo se enche E um céu raia a cobrir o absorto fundo Da fauce misteriosa Que traga o fim da vida. 17-11-1918 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 205. A. Caeiro Jovem morreste, porque regressaste, Ó deus inconsciente, onde teus pares De após Cronos te esperam Ressuscitados deles. Antes de ti já era a Natureza, Mas não a alma de compreendê-la. Deu-te o deus o instinto Com que sentir as cousas. Os deuses imortais reconduziste À humana visão obscurecida (...) (...) Sós ficamos, mas não abandonados, Porque a obra, que deixaste, és tu ainda Qual luz à extinta estrela Póstuma a terra alaga. Por seu os deuses contam quem E com teu nome a divindade prestas De ser eterna à pátria Odisseia cidade Igual des ti às sete que contendem, Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos, Ou heptápila Tebas Ogígia mãe de Píndaro. 23-11-1918 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 206. Quero, da vida, só não conhecê-la. Bastam, a quem o Fado pôs na vida, As formas sucessórias Da vida insubsistente. Pouco serve pensar que são eternos Os nossos nadas com que na alma amamos Os outros pobres nadas Que (...) Gratos aos deuses, menos pela incerta Posse do sonhado certo, recolhamos A mercê passageira De instantes que não duram. 6-8-1923 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 207. Nada me dizem vossos deuses mortos Que eu haja de aprender. O Crucifixo Sem amor e sem ódio Do meu (...) afasto. Que tenho eu com as crenças que o Cristo Curvado o torso a mim, latino, morra? Mais com o sol me entendo Que com essas verdades. Que o sejam... Deus a mim não só foi dado Que uma visão das cousas que há na terra E uma razão incerta, E um saber que há deuses... 6-8-1923 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 208. Se em verdade não sabes (nem sustentas Que sabes) que há na vida mais que a vida, Porque com tanto esforço e cura tanta, Operoso a não vives? Porque, sem paraíso que apeteças, Amontoas riquezas, nem as gastas, É para teu cadáver que amontoas? Gozas menos que ganhas. Ah, se não tens que esperes, salvo a morte, Não cures mais que do preciso esforço Para passar incólume na vida De (...) Sim, gozas. Mas mais rico és que ditoso Se só para o que perdes gozas, Menos te o esforço oneraria, Sem ele. (...) Ah servidão irreprimível, nada Da vida breve subsiste, que sabes Que morre toda, e gasta-se nas obras Egoísta de um futuro que não é seu. Mas respondes-me: E os poemas que escreves A quem os dás futuro? A obra obrigas E o homem só por semear semeia O que o Destino manda. 29-10-1923 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 209. Sofro, Lídia, do medo do destino. Qualquer pequena cousa de onde pode Brotar uma ordem nova em minha vida, Lídia, me aterra. Qualquer cousa, qual seja, que transforme Meu plano curso de existência, embora Para melhores cousas o transforme, Por transformar Odeio, e não o quero. Os deuses dessem Que ininterrupta minha vida fosse Uma planície sem relevos, indo Até ao fim. A glória embora eu nunca haurisse, ou nunca Amor ou justa estima dessem-me outros, Basta que a vida seja só a vida E que eu a viva. 26-5-1917 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 80. Chamaram-o os Deuses, ainda tão novo, à região inferior onde a mágoa não chega e o prazer não desce. Sem duvida que o fizeram pelo dom evidente da sua sabedoria não perfeita, mas mais perfeita que a nossa. Aqueles actores (...) de que somos apenas os títeres, sabem em sua razão mais lata, por que influxo das estrelas, baixou tão cedo à terra-origem o seu filho que mais a amou. Tudo nos é velado, sonho, entre um sono e outro sono, esta curta visão radiosa do perfeito e incompleto universo. «É difícil escrever com paciência de todos os imitadores de uma imitação do paganismo. Talvez nunca ireis ver a perfeita imitação daquela fábula do Colombo e do ovo. O tom «moderno» de muitos dos seus versos é o que mais lamento. Nenhuma obra tem direito a que a coloquemos no tempo. O traço franciscano de alguns resultados métricos da sua sensibilidade. São Francisco foi o abominável fundador de uma seita abominável. O seu paganismo é ateu. É apenas paganismo. Nem o Destino, nem a Vontade anterior aos Deuses, aparece na sua obra. O máximo da simplicidade com o máximo da originalidade. É tão simples, que é complexo para nós, que estamos habituados a chamar simplicidade à complexidade.» s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 183. Ordenação corrigida segundo: Fernando Pessoa e o Ideal Neo-Pagão - Subsísios para uma edição crítica . Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição de Luís Filipe B. Teixeira.) Lisboa: F. C. Gulbenkian, 1996. Por detrás de todas as variações permanece, inalterável substância de uma forma mutante, um conceito do universo especialmente pagão, e que as modas não atingem. É dificil fazer ver isto — como qualquer outra coisa — a quem o não sente. A indiferença à dor, o aceitamento orgulhoso, posto que passivo, do destino, não hasta para formar um estóico: falta o estoicismo. A busca, embora moderada, dos prazeres, céptica para com outra espécie de beneficios a esperar do mundo, não é suficiente para que o seu culto mereça o nome de epicurista: falta o epicurismo. Do mesmo modo a aceitação de muitos deuses — que a outra cousa não monta a hagiologia do cristismo católico, sendo suficiente para sintoma de politeísmo, não basta para que este politeísmo se possa considerar como idêntico ao dos pagãos: falta o paganismo. Em Alberto Caeiro vemos a substância sem os atributos. Caeiro não tem a sensibilidade pagã, porque não vive na era pagã. O que há nele de maravilhoso é que também não tem a sensibilidade cristã. Isto o distingue de todos quantos — desde a Renascença até hoje — quiseram nomear-se pagãos. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 183. Ordenação corrigida segundo: Fernando Pessoa e o Ideal Neo-Pagão - Subsísios para uma edição crítica . Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição de Luís Filipe B. Teixeira.) Lisboa: F. C. Gulbenkian, 1996. Os conceitos modernos do paganismo têm de comum, que, mesmo quando são intuições justas, são intuições incompletas. Em todos os casos se tomou um dos membros físicos pela causa espiritual, um dos atributos pela substância. O mal está em que, em nenhum dos casos, a intuição abrangeu mais que, de cada vez, um só atributo. Assim, os cultores modernos do paganismo têm procurado imitá-lo, ou através duma impassibilidade especial que se lhes afigurou ser o distintivo de espíritos pagãos; ou através duma moral imoral que se lhes (...) Enfermaram de três cousas: o não poder conceber o paganismo se não em antagonismo, e portanto em relação, ao cristismo; o não poder ver o paganismo na sua substância, mas só através dos seus atributos e, ainda assim, em geral através de determinado atributo só e não da soma deles todos. Com o cristismo no mesmo tempo que se opõe ao paganismo, descende dele, é fácil conceber o paganismo através de um ou outro dos (...) crististas porque dele derivam; mas o conceito assim formado enferma radicalmente de ter sido concebido adentro do próprio instinto cristista de que se procura desvestir. Não vou entrar, evidentemente, em uma análise diferencial do espírito pagão e do cristista. Obra era essa para um livro, e não pequeno. O meu propósito, neste lugar, é definir em que é que Alberto Caeiro é o reconstrutor do paganismo, o revelador da sua essência perdida; para o fazer tenho de indicar claramente essa essência, depois em que é que, até Caeiro, se [...] na obra em que ele conseguiu. Pode imitar-se a impassibilidade suposta pagã. A objectividade grega, porém, não pode ser, em si , na sua essência, e não nos seus efeitos, imitada por quem a não tenha. Só a pode ter quem tiver os sentidos de natureza constituídos de modo que sinta objectivamente. Caeiro é mais objectivo que os gregos antigos porque: a) a sua obra é uma reacção e é por isso uma afirmação mais forte que a original; nem por isso é menos espontânea. b) (...) O característico essencial da mentalidade pagã é a objectividade absoluta. Os outros característicos, que lhe têm sido encontrados, são efeitos daquela causa imanente. É um ou outro atributo que, de a Renascença até hoje, os modernos têm visto, e têm procurado imitar. Uns têm procurado fazer de pagãos, ou imitar os pagãos, educando-se em uma objectividade puramente visual; a objectividade pagã era, porém, não só visual, como, na verdade, temperamental. Não era só o uso perfeitamente objectivo da vista, ou o de outro sentido qualquer; era a objectividade essencial de que aquelas eram apenas as manifestações nos sentidos. Era preciso ir mais longe despir-se do hábito cristão de fazer a realidade começar em nós; passar a viver da sensação para fora, e não da sensação para dentro, como é nosso hábito em Cristo. Ora isto, mesmo que alguém o houvesse visto, não o poderia fazer qualquer, por um esforço qualquer de inteligência ou de disciplina. Era mister nascer com uma organização interior do espírito adaptada a ter, espontaneamente, uma sensibilidade assim. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 184. Prefácio a Caeiro. Eu não vou, evidentemente, fazer nas escassas páginas que com justiça posso exigir para este prefácio, explanar e esmiuçar o que seja o paganismo, como fenómeno completo, multímodo e que teve, como tudo, uma vida e uma evolução, que, dentro de si próprio, o tornaram diverso(s). Posso, porém, — e é o que farei — notar em breves palavras, as precisas, o que é a essência do sistema religioso da Grécia e da Roma antigas. O que fundamentalmente distingue o paganismo greco-romano (mau grado as diferenças entre o paganismo grego e o romano) não é o facto de ser politeísta. Politeísmos há vários, de várias espécies e de vários graus de valor humano. Politeísmo é o sistema que foi dos povos nórdicos da Europa, politeísmo, é a religião o que foi dos (...) politeísmos também, mau grado o aspecto de ter um fundamento monoteísta, sem prise para a alma geral, os sistemas egípcio, índio e o actual sistema dito católico. Tão pouco se distingue o paganismo greco-romano por aquele característico que é costume atribuir-lhe: a alegria e a sensualidade. Esse conceito, que existe apenas nos ignorantes e nos que só pensam em paganismo como coisa diferente do cristismo, é, como a ciência sabe, um erro. Não é mister repetir as observações dos dois mestres da ciência do helenismo — Boecke e Burckhardt. Eles afirmaram, o último categoricamente, que os gregos eram mais tristes do que muita gente julga. Sobre o ponto da sensualidade do paganismo é inútil tocar, porque só fala da sensualidade greco-romana quem ignora o carácter grego e romano. A castidade grega é coisa sabida e assente para os estudiosos; a disciplina romana, a austeridade de princípios dos romanos é coisa do conhecimento geral. O hábito de tornar uma parte pelo todo, que faz com que a Roma meio cristã da decadência seja considerada como típica do paganismo, é causa do erro crasso do vulgo a este respeito. O cristianismo é, como religião, mais alegre que o paganismo, e é mais sensual também. O que distingue o paganismo greco-romano é o carácter firmemente objectivo que nele transparece, efeito de uma mentalidade, que, embora diferente nos dois povos, tinha de comum a tendência para colocar na Natureza exterior, ou num princípio, embora abstracto, derivado dela, o critério da Realidade, o ponto de Verdade, a base para a especulação e para a interpretação da vida. O paganismo do Norte da Europa não é assim. E, na esfera da vida humana, a mesma objectividade perdura; de modo que são as qualidades humanas e não sobre-humanas que formam as bases ideais da ética. O ideal, a especulação, são extraídos da realidade pelos gregos, não lhe são impostos nem por dentro, como no sistema índio, nem por fora como no de Cristo. Este objectivismo absoluto dos gregos e dos romanos, que nos primeiros principalmente floriu na especulação e na interpretação da vida, e nos segundos na segura experiência e compreensão prática, ou, como diria um sintético excessivo, que nos primeiros era inteligência e emoção, e vontade nos segundos — este objectivismo, digo, é que constitui a essência do paganismo. Claramente enunciado através do inconsciente de todos os autores antigos, ele raras vezes chega à consciência de si próprio, e à consciência plena não chega nunca. Porque uma civilização, por alta que seja, nunca a si própria se vê no seu conjunto, mas apenas em uma maior ou menor soma de várias das suas panes. Reconstruir o paganismo envolve, pois, como primeira acção intelectual, fazer renascer o objectivismo puro dos gregos e dos romanos. Tudo o mais que se tente não passa de reprodução estéril dos elementos secundários ou mesmo acessórios do paganismo antigo. Por isso nunca houve, adentro da civilização cristã, tentativa alguma que de pagã mereça o nome, embora várias tenha havido com sobradas pretensões nesse respeito. Não exemplifiquemos exaustivamente, que a tarefa, sobre ser inútil, seria penosamente longa. Enumerar todo o lixo cristão com pretensões pagãs dos Matthew Arnolds, dos Oscar Wildes e dos Walter Paters do baixo-cristismo, seria enfadonho e desolador. Esta gente julgava estar com os antigos quando ia de encontro ao cristismo por o que elas [ sic ] chamariam razões estéticas; não passam de discípulos cristãos, nem sequer do paganismo, mas apenas de certas escolas filosóficas que o paganismo produziu. Epicuristas cristãos, hedonistas católicos, estóicos de um pórtico judeu, deixemo-los na podridão estulta dos que quiseram aceitar os deuses sem saber de que matéria eles eram feitos, dos que quiseram seguir os filósofos da antiguidade, no que eles tinham de essencial, sem saber o que é que eles tinham de essencial, nem por que caminho iam. Mas mesmo que os vários pagãos à força da nossa civilização cristã tivessem tido a noção clara do que constitui a essência do paganismo, não quer isso dizer que imediatamente passariam a ser pagãos, neo-pagãos ou re-pagãos. Essas coisas, compreendidas só com a inteligência, nada são e nada valem. Tem o indivíduo que nascer com a inteligência para compreendê-las colocada no centro da sua sensibilidade. Tem o indivíduo que nascer pagão para ser pagão. Nascitur non fit, como o poeta, e, afinal, como tudo o que é estável neste mundo. Mesmo uma teoria filosófica do paganismo não é possível a quem não tenha uma organização nativamente objectivista da inteligência e da sensibilidade, uma construção dos sentidos e das emoções de tal modo talhada que interprete objectivamente as coisas. Pode ser assim, e nunca considerar-se pagão, que o será. Se assim não for, pode construir uma alma postiça com pedaços de Hesíodo e de Homero que nunca passará de um reles cristão. Tenha-se presente sempre que nascer pagão representa nascer-se livre de mais de vinte séculos de civilização cristã, porque as influências que finalmente se revelaram no cristismo estavam de havia muito, em acção nos países do paganismo. Isto não é impossível, porque nada é impossível. Sobretudo o não é no nosso tempo em que a civilização cristista, tresmalhando para todos os pontos da insânia, se desfaz por completo, se anula a si própria no último arranco da sua vilíssima alma sensual, abjecta, de escravo que matou o senhor e (...) Não era mister que nos viesse dizer toda a gente que o cristismo é mais triste que o paganismo, nem que nos viesse dizer o sr. Chesterton, para dizer o contrário, que ele é mais alegre que o paganismo. Ambas as coisas são certas. O cristismo é, de feito, mais triste e mais alegre do que o paganismo. De sua natureza um fenómeno doentio, ele apresenta a oscilação característica da histeria (de aquilo a que se chama a histeria) onde comummente se vive nos extremos e nos auges das emoções, e onde tudo é possível menos o equilíbrio e a sobriedade. Quando os que iam morrer nas [arenas?] circences elevavam ao César o seu grito, representavam, sem o querer, o símbolo terrível: era como se naquele cenário de decadência se figurasse o drama maior da história — a morte do paganismo, e que ao César — representante ante-típico do imperialismo abjecto que é núcleo do cristismo -eles erguessem o seu pranto de morte, o choro de uma civilização que levou consigo o segredo humano da vida. O ódio de Nietzsche ao cristismo aguçou-lhe a intuição nestes pontos. Mas errou, porque não era em nome do paganismo greco-romano que ele erguia o seu grito, embora o cresse; era em nome do paganismo nórdico dos seus maiores. E aquele Diónisos, que contrapõe a Apolo, nada tem com a Grécia. É um Baco alemão. Nem aquelas teorias desumanas, excessivas tal qual como as cristãs, embora em outro sentido, nada devem ao paganismo claro e humano dos homens que criaram tudo o que verdadeiramente subsiste, resiste e ainda cria adentro do nosso sistema de civilização. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 185. Prefácio a Caeiro. A diferença substancial entre o paganismo e os sistemas índios e cristista repercute-se, manifesta-se, como na metafísica e na ética, na estética também. Um sistema religioso, como o cristista, em que tomam sobrado relevo os sentimentos íntimos de cada indivíduo, em que o interesse do espírito se concentra em seus próprios movimentos, não devia ter outra acção estética — pelo menos fundamentalmente — que não fosse a da expressão dos sentimentos íntimos, que não fosse a confissão da alma . O artista cristão busca, acima de tudo, exprimir o que sente . Nisto reside a substância da sua doutrina estética. Ela sofreu, é certo, em certos períodos, e mormente em o chamado Renascença, um correctivo pagão. Mas a pura estética cristista não é a estética pagã, cujo sentido em breve veremos; é a da expressão , substancialmente. A estética da Índia é diversa, embora aparentada de longe com a cristista. Como o cristão, o índio se volta para dentro, e aplica a sua atenção ao seu próprio espírito. A maneira de o fazer é, porém, diversa. O Nirvana é a ideia representativa da direcção da índole religiosa da Índia. Nela lemos claramente o que é essa índole, e em que difere da cristã. A introversão das actividades do espírito leva, no cristismo, à exaltação desumana da personalidade, no hinduísmo, a sua desumana depressão. Buscam ambos aquilo a que chamam a união com Deus: um, porém, busca-a em um êxtase onde o espírito se transcende a si próprio em si ; o outro em um êxtase onde se transcende a si próprio em Deus . Na união com Deus o cristão encontra-se, o hindu perde-se. Os conceitos divergentes nascem da divergência das teorias. Para o cristão a alma individual é uma realidade absoluta; na verdade ele pensa, com o nosso Guerra Junqueiro: Nem Deus, que as criou, as poderá matar!... Pátria Para o índio a alma individual é uma Pátria das muitas ilusões daquela divisão divina a que chamamos o mundo. De aqui se vê qual deverá ser, e de facto é, a diferença entre a substância da estética cristã e a estética oriental. Para o cristão a beleza está em tudo quanto claramente nos faz sentir a nossa personalidade; para o oriental em tudo quanto transcende a nossa personalidade. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 204. Nada fica de nada. Nada somos. Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos Da irrespirável treva que nos pese Da húmida terra imposta, Cadáveres adiados que procriam. Leis feitas, estátuas vistas, odes findas — Tudo tem cova sua. Se nós, carnes A que um íntimo sol dá sangue, temos Poente, porque não elas? Somos contos contando contos, nada. 28-9-1932 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 168. OS DEUSES: DEFESA DELES Temos, como único dado sintético da experiência, a realidade exterior como realidade concreta; o nosso espírito, embora possa ser real, não nos é dado como realidade, mas apenas como meio de conhecer a realidade. Não temos o direito de afirmar que é realmente real o que é, não a realidade, mas apenas um meio de a conhecermos. De três maneiras trabalha o espírito no conhecimento da realidade. Certas faculdades suas andam envolvidas directamente nesse conhecimento: são as faculdades de percepção e de reminiscência, por exemplo. Outras faculdades, sem andarem envolvidas nesse conhecimento, criam para nós maneiras de o utilizarmos. São as faculdades de raciocínio. Outras ainda, o último grupo, servem o fim de nos repousarem da realidade: são as faculdades de ordem imaginativa, que criam outra realidade, que nós sabemos fictícia, mas que deleita por não ser aquela que nos é quotidiana, e por ser uma realidade que é nossa, que nos não é imposta. Esta divisão nas faculdades do espírito não é minha apenas; Bacon a formou, e nela deu apoio ao seu sistema de classificação das actividades humanas e intelectuais. O terceiro grupo de faculdades — o das imaginativas — serve o fim de agirmos sobre a realidade para melhor nos acomodarmos a ela. Daí as artes várias, quer as do artíficio, quer as do artista, a quem liga (...) As imagens, as presentações — toda a espécie de ideias que podemos designar por concretas — formam a substância da primeira sorte de actividade. Estas ideias, mais ou menos — consoante a perfeição e a normalidade aproximativa do cérebro que as recebe — correspondem à realidade verdadeira. A segunda espécie de faculdades, as intelectuais, trabalha com as ideias abstractas . Não correspondem estas — pelo que sabemos — a uma realidade qualquer; o género de pensamento, cuja substância elas são, não tem por fim reproduzir a realidade, porém apenas adaptá-la a nós, que somos, por imperfeitos, erróneos. Sem as ideias abstractas não haveria, a bem dizer, a linguagem, sem a qual não comunicaríamos nem seríamos homens. As ideias concretas existem para nos dar a Realidade; as abstractas para nos dar a Utilidade. As ideias, de espécie intermédia, que constituem a matéria da imaginação, nem correspondem a uma realidade, como as ideias concretas, nem, como as abstractas, deixam de corresponder a ela. Nem são, como as primeiras, ingenitamente verdadeiras; nem, como as segundas, organicamente falsas, e verdadeiras só em relação a nós, e a serem usadas. Não são reais porque não vêm pelos sentidos, por onde nos vem a realidade; mas não são irreais, porque a sua natureza é análoga à dos objectos que os sentidos nos dão, e, quando as empregamos, produzimos coisas que são reais, como quando, inventando um aparelho, uma máquina, o executo, e ele passa a ser uma coisa real, e una, ainda, adentro das coisas reais. A imaginação combina o real para o renovar humanamente. A criança que, divertindo-se, sotopõe uma pedra sobre outra pedra, pratica um acto símplice de artista, porque, embora sem gosto, combina coisas reais em a realidade. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 206. Nada fica de nada. Nada somos. Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos Da irrespirável treva que nos pesa Da húmida terra imposta. Leis feitas, estátuas altas, odes findas - Tudo tem cova sua. Se nós, carnes A que um íntimo sol dá sangue, temos Poente, porque não elas? O que fazemos é o que somos. Nada Nos cria, nos governa e nos acaba. Somos contos contando contos, cadáveres Adiados que procriam. 28-9-1932 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 168a. Que mais que um ludo ou jogo é a extensa vida, Em que nos distraímos de outra coisa — Que coisa, não sabemos —; Livres porque brincamos se jogamos, Presos porque tem regras todo jogo; Quem somos? quem seremos? Feliz o a quem surge a consciência Do jogo, mas não toda, e essa dele Em o saber perdê-la. 27-10-1932 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 169. Grinalda ou coroa É só peso posto Na fronte antes limpa. Grinalda de rosas, Coroa de louros, A fronte transtornam. Que o vento nos possa Mexer nos cabelos, Refrescar a fronte! Que a fronte despida Possa reclinar-se, Serena, onde durma. Cloé! Não conheço Melhor alegria Que esta fronte lisa. 19-11-1933 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 179. Amo o que vejo porque deixarei Qualquer dia de o ver. Amo-o também porque é. No plácido intervalo em que me sinto, Do amar, mais que ser, Amo o haver tudo e a mim. Melhor me não dariam, se voltassem, Os primitivos deuses, Que também, nada sabem. 11-10-1934 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 181. Vivem em nós inúmeros; Se penso ou sinto, ignoro Quem é que pensa ou sente. Sou somente o lugar Onde se sente ou pensa. Tenho mais almas que uma. Há mais eus do que eu mesmo. Existo todavia Indiferente a todos. Faço-os calar: eu falo. Os impulsos cruzados Do que sinto ou não sinto Disputam em quem sou. Ignoro-os. Nada ditam A quem me sei: eu escrevo. 13-11-1935 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 182. Cada momento que a um prazer não voto Perco, nem curo se o prazer me é dado; Porque o sonho de um gozo No gozo não é sonho. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 183. Cada um é um mundo; e como em cada fonte Uma deidade vela, em cada homem Porque não há de haver Um deus só de ele homem? Na encoberta sucessão das cousas, Só o sábio sente, que não foi mais nada Que a vida que deixou. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 184. Cantos, risos e flores alumiem Nosso mortal destino, Para o ermo ocultar fundo, nocturno De nosso pensamento, Curvado, já em vida, sob a ideia Do plutónico gozo, Cônscio já da lívida esperança Do caos redivivo. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 185. Como este infante que alourado dorme Fui. Hoje sei que há morte. Lídia, há largas taças por encher Nosso amor que nos tarda. Qualquer que seja o amor ou as taças, breve Ajamos. Teme e desfruta. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 186. Sempre me teve o breve tempo febril Nem dor o faz mais lento. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 223t. Ser feliz é um jugo, o ser grande É uma servidão: tudo repugno Salvo esta majestade. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 223u. Vem Orpheu, uma sombra Que traz nas mãos um vago filho — a lira. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 223x. Com que vida encherei os poucos breves Dias que me são dados? Será minha A minha vida ou dada A outros ou a sombras? À sombra de nós mesmos quantos homens Inconscientes nos sacrificamos, E um destino cumprimos Nem nosso nem alheio! Ó deuses imortais, saiba eu ao menos Aceitar sem querê-lo, sorridente, O curso áspero e duro Da estrada permitida. Porém nosso destino é o que for nosso, Que nos deu a sorte, ou, alheio fado, Anónimo a um anónimo, Nos arrasta a corrente. 5-5-1925 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 110. Não torna ao ramo a folha que o deixou, Nem com seu mesmo pó se uma outra forma. O momento, que acaba ao começar Este, morreu p'ra sempre. Não me promete o incerto e vão futuro Mais do que esta iterada experiência Da mutada sorte e a condição deserta Das cousas e de mim. Por isso, neste rio universal De que sou, não uma onda, senão ondas, Decorro inerte, sem pedido, nem Deuses em quem o empregue. 28-9-1926 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 112. Nem vã esperança vem, não anos vão, Desesperança, Lídia, nos governa A consumanda vida. Só espera ou desespera quem conhece Que há que esperar. Nós, no labento curso Do ser, só ignoramos. Breves no triste gozo desfolhamos Rosas. Mais breves que nós fingem legar A comparada vida. 28-9-1926 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 113. O relógio de sol partido marca Do mesmo modo que o inteiro o lapso Da mesma hora perdida… O mesmo gozo com que esqueço, ou o creio, A vida, finda, me a mim mesmo mostra Mais fatal e mortal, Para onde quer que siga a certa noite Quer ou não a vejamos. 30-1-1927 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 116. Enquanto eu vir o sol luzir nas folhas E sentir toda a brisa nos cabelos Não quererei mais nada. Que me pode o Destino conceder Melhor que o lapso sensual da vida Entre ignorâncias destas? Sábio deveras o que não procura, Que, procurando, achara o abismo em tudo E a dúvida em si mesmo. Pomos a dúvida onde há rosas. Damos Quase tudo do sentido a entendê-lo E ignoramos, pensantes. Estranha a nós a natureza extensa Campos ondula, flores abre, frutos Cora, e a morte chega. Terei razão, se a alguém razão é dada, Quando me a morte conturbar a mente E já não veja mais Que à razão de saber porque vivemos Nós nem a achamos nem achar se deve, Impropícia e profunda. 16-6-1927 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 119. Quantos gozam o gozo de gozar Sem que gozem o gozo, e o dividem Entre eles e o verem Os outros que eles gozam. Ah, Lídia, os trajos do gozar omite, Que o gozo é um, se é nosso, nem o damos Aos outros como prémio De verem nosso gozo. Cada um é ele só, e se com outros Goza, dos outros goza, e não para eles. Aprende o que te ensina Teu corpo, teu limite. 9-10-1927 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 122. Floresce em ti, ó magna terra, em cores A vária primavera, e o verão vasto, E os campos são de alegres. Mas dorme em cada campo o outono dele O inverno cresce com as folhas verdes Tudo será esquecido. 9-10-1927 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 123. Toda visão da crença se acompanha, Toda crença da acção; e a acção se perde, Água em água entre tudo. Conhece-te, se podes. Se não podes Conhece que não podes. Saber sabe. Sê teu. Não dês nem operes. 19-10-1927 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 124. Pese a sentença igual da ignota morte Em cada breve corpo, é entrudo e riem, Felizes, porque em eles pensa e sente A vida, que não eles. De rosas, inda que de falsas, teçam Capelas veras. Escasso, curto é o espaço Que lhes é dado, e por bom caso em todos Breve nem vão sentido. Se a ciência é vida, sábio é só o néscio. Quão pouco diferença a mente interna Do homem da dos brutos! Sós! Leixai Viver os moribundos! 20-2-1928 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 126. Nirvana Vou dormir, dormir, dormir, Vou dormir sem despertar, Mas não dormir sem sentir Que estou dormindo a sonhar. Não insciência e só treva Mas também estrelas a abrir Olhos cujo olhar me enleva, Que estou sonhando a dormir. Constelada inexistência Em que subsiste de meu Só uma abstracta insciência Una com estrelas e céu. 20-2-1928 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 127. Pensa quantos, no ardor da jovem ida, Um destino parou; quantos, obtendo Da meta inesperada (...) Não esperes nem consigas; enche a taça E abdica: tudo é natural e estranho. Nem justos nem injustos São os Deuses, senão outros. O conseguido é dado; tudo é imposto. Prazer ou mágoa, são qual sol ou chuva, Dados, ora são desejos Ora ao (...) (...) (...) esperanças breves; Quantos, que à meta imposta A só esperança lembrada antequiseram. Tal porque morre cai, tal porque vive. O que se cumpre nunca se quisera, Salvo se a morte é cega Do pó do (...) 3-1-1928 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 210. Àquele que, constante, nada espera Não pode negar Jove; nem para ele Murcham as frágeis flores Que nunca esperou  ver. Consiste a força do ânimo em não tê-la Para os alacres fins da fantasia, Mas em saber conter-se Nos limites d (...) 21-3-1929 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 211. Amanhã estas letras em que te amo. Serão vistas, tu morta. Corpo, eras vida para que o não foras, Tão bela! Versos restam. Quem o (...) s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 212. Enquanto ao longe os bardos perturbarem Com a dos seus combates longa lista A parca e humilde chama De cada flébil vida, E nem um palmo mais sequer conquistam De riqueza ou de calma em suas almas, Nem são mais do que jogo Da ira (...) dos deuses, Quero, livre de humanas (...) De concordância com o sentir de outros Mais firmemente minha Possuir minha vida. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 213. Fazer parar o giro sobre si Do vácuo pensamento, pôr a roda Em movimento sobre a terra escura Poção que por magia de bebê-la A dormente vontade em mim disperte De viver… (...) s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 214. Manhã que raias sem olhar a mim, Sol que luzes sem querer saber de eu ver-te, É para mim que sois Reais e verdadeiros; Porque é na oposição ao que eu desejo Que sinto real a natureza e a vida. No que me nega sinto Que existe e eu sou pequeno. E nesta consciência torno a grande Como a onda, que as tormentas atiraram Ao alto ar, regressa Pesada a um mar mais fundo. 23-11-1918 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 84. Flores que colho, ou deixo, Vosso destino é o mesmo. Via que sigo, chegas Não só aonde eu chego. Nada somos que valha Somo-lo mais que em vão. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 215. Cedo de mais vem sempre, Cloé, o inverno. É sempre prematuro, inda que o espere Nosso hábito, o esfriar Do desejo que houve. Não entardece que não morra o dia. Não nasce amor ou fé em nós que não Morra com isso ao menos O não amar ou crer. Todo o gesto que o nosso corpo faz Com o repouso anterior contrasta. Nesta má circunstância Do tempo eternos somos. Só sabe da arte com que viva a vida Aquele que, de tão contínua usá-la, Furte ao tempo a vitória Das mudanças depressa, E entardecendo como um dia trópico, Até ao fim inevitável guie Uma igual vida, súbito Precipite no abismo. 7-7-1919 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 85. Maior é quem a passo e passo avança Na sua consciência do Universo E palmo a palmo ganha O domínio dos deuses. Porque quanto mais certas vê as cousas Mais por seu par os deuses o consentem Até sentir seu corpo Roçar corpos eternos. Deixa, (...) meu, a ambição tua De entre os homens por duque seres tido: Deixa luzir p'ra outros As lanças e as espadas De pelo gládio à glória e à (...) vires . E a confiança em (...) A glória onde te leva Mais que a onde não há glória? s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 216. No momento em que vamos pelos prados E o nosso amor é um terceiro ali, Que usurpa que saibamos Um ao certo do outro, Nesse momento, em que o que vemos mesmo Sem o vermos na própria essência entra Da nossa alma comum — Lídia, nesse momento De tão sentir o amor não sei dizer-to, Antes, se falo, só dos prados falo E põe-se música ao meu Eros connosco invisível. 7-7-1919 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 86. Não batas palmas diante da beleza. Não se sente a beleza demasiado. A beleza não passa É a sombra dos Deuses. Mexa-se embora a nossa estéril vida, Desdobre Éolo sobre nós seus sopros (...) (...) As estátuas aos deuses representam Porque as estátuas são calmas e eternas Nem lhes fiam seu curto E negro linho as Parcas. Segundo frias leis Júpiter troa Em certas noites aparece Diana E as leis porque aparece Dão-lhe a divina calma. O que chamamos leis na acção dos Deuses São apenas a calma que eles têm Não de cima lhes vêm. São a vida que querem. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 217. Os deuses são felizes. Vivem a vida calma das raízes. Seus desejos o Fado não oprime, Ou, oprimindo, redime Com a vida imortal Não há sombras ou outros que os contristem. E, além disto, não existem… 10-7-1920 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 87. 1ª publ. in Poesias Inéditas de Fernando Pessoa . (1919-1930). Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1956 Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas. Pouco pode o homem contra a externa vida. Deixa haver a injustiça. Nada muda, que mudes. Não tens mais reino que a doada mente. Essa, em que és servo, grato o Fado e os Deuses, Governa, até à fronteira, Onde a vontade finge. Aí vencido, tu por vencedores Os grandes deuses e o Destino ostentas. Não há a dupla derrota De derrota e vileza. Assim penso, e esta súbita justiça Com que queremos moderar as cousas, Expilo, como a um servo Intromissor da mente. Se nem de mim posso ser dono, como Quero ser dono ou lei do que acontece Onde me a mente e corpo Não são mais do que parte? Basta-me que me baste, e o resto gire Na órbita prevista, em que até os deuses Giram, sois centros servos De um movimento externo. 29-1-1921 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 88. Não morreram, Neera, os velhos deuses. Sempre que a humana alegria Renasce, eles se voltam Para a nossa saudade. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 218. À la manière de A. Caeiro A mão invisível do vento roça por cima das ervas. Quando se solta, saltam nos intervalos do verde Papoilas rubras, amarelos malmequeres juntos, E outras pequenas flores azúis que se não vêem logo. Não tenho quem ame, ou vida que queira, ou morte que roube. Por mim, como pelas ervas um vento que só as dobra Para as deixar voltar àquilo que foram, passa. Também por mim um desejo inutilmente bafeja As hastes das intenções, as flores do que imagino, E tudo volta ao que era sem nada que acontecesse. 30-1-1921 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 89. Para os deuses as cousas são mais cousas. Não mais longe eles vêem, mas mais claro Na certa Natureza E a contornada vida... Não no vago que mal vêem (...) Orla misteriosamente os seres, Mas nos detalhes claros (...) estão seus olhos. A Natureza é só uma superfície. Na sua superfície ela é profunda E tudo contém muito Se os olhos bem olharem. Aprende pois, tu, das chistãs angústias, O traidor à multíplice presença Dos deuses, a não teres Véus nos olhos nem na alma. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 219. Um verso repete Uma brisa fresca, O verão nas ervas, E vazio sofre ao sol O átrio abandonado. Ou, no inverno, ao longe Os cimos de neve, À lareira toadas Dos contos herdados, E um verso a dizê-lo. Os deuses concedem Poucos mais prazeres Que estes, que são nada. Mas também concedem Não querermos outros. 30-1-1921 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 90. Tornar-te-ás só quem tu sempre foste. O que te os deuses dão, dão no começo. De uma só vez o Fado Te dá o fado, que és um. A pouco chega pois o esforço posto Na medida da tua força nata — A pouco, se não foste Para mais concebido. Contenta-te com seres quem não podes Deixar de ser. Ainda te fica o vasto Céu p'ra cobrir-te, e a terra, Verde ou seca a seu tempo. 12-5-1921 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 91. 1ª publ. in Poesias Inéditas de Fernando Pessoa . (1919-1930). Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1956 Em vão procuro o bem que me negaram. As flores dos jardins herdadas de outros Como hão-de mais que perfumar de longe Meu desejo de tê-las? 12-5-1921 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 92. Não quero a fama, que comigo a têm Erostrato e o pretor Ser olhado de todos — que se eu fosse Só belo, me olhariam. O fausto repúdio, porque o compram. O amor, porque acontece. Amigo fui, talvez não contente, Porém nato e sem erro. 12-5-1921 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 93. Coroai-me de rosas! Coroai-me em verdade De rosas! Quero toda a vida Feita desta hora Breve. Coroai-me de rosas E de folhas de hera, E basta! 12-6-1914 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 39a. Sofro, Lídia, do medo do destino. A leve pedra que um momento ergue As lisas rodas do meu carro, aterra Meu coração. Tudo quanto me ameace de mudar-me Para melhor que seja, odeio e fujo. Deixem-me os deuses minha vida sempre Sem renovar Meus dias, mas que um passe e outro passe Ficando eu sempre quase o mesmo, indo Para a velhice como um dia entra No anoitecer. 11-8-1918 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 80a. Breve o inverno virá com sua branca Nudez vestir os campos. As lareiras serão as nossas pátrias E os contos que contarmos Assentados ao pé do seu calor Valerão as canções Com que outrora entre as verdes ervas rijas Dizíamos ao sol O ave atque vale triste e alegre, Solenes e carpindo. Por ora o outono está connosco ainda. Se ele nos não agrada A memória do estio cotejemos Com a esperança hiemal. E entre essas dádivas memoradas Como um rio passemos. 17-7-1914 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 41. In Flaccum Cuidas tu, louro Flacco, que cansando Os teus estéreis trabalhosos dias Darás mais sorrisos ao campo E serão mais altos os peitos de Ceres Põe mais vista em notares que tens flores No teu jardim (...) s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 46a. Neera, passeemos juntos Só para nos lembrarmos disto... Depois quando envelhecermos E nem os Deuses puderem Dar cor às nossas faces E mocidade aos nossos colos, Lembremo-nos, à lareira, Cheiinhos de pesar O ter quebrado o fio, Lembremo-nos, Neera, De um dia ter passado Sem nos termos amado… 12-6-1914 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 48. Não como ante donzela ou mulher viva Com calor na beleza humana delas Devemos dar os olhos À beleza imortal. Eternamente longe ela se mostra E calma e para os calmos adorarem Não de outro modo é ela Imortal como os deuses. Que nunca a alegria transitória Nem a paixão que busca — porque exige Devemos olhar de néscios Olhos para a beleza. Como quem vê um Deus e nunca ousa Amá-lo mais que como a um Deus se ama Diante da beleza Façamo-nos sóbrios. Para outra cousa não a dão os deuses À nossa febre humana e vil da vida, Por isso a contemplemos Num claro esquecimento. E de tudo tiremos a beleza Como a presença altiva e encoberta E o longínquo sorriso De quem assiste à vida. 11-8-1914 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 51. O ritmo antigo que há nos pés descalços Esse ritmo das ninfas copiado Quando sob arvoredos Batem o som da dança — Pelas praias às vezes, quando brincam Ante onde a Apolo se Neptuno alia As crianças maiores, Têm semelhanças breves Com versos já longínquos em que Horácio Ou mais clássicos gregos aceitavam A vida por dos deuses Sem mais preces que a vida. Por isso à beira deste mar, donzelas, Conduzi  vossa dança ao som de risos Soberbamente antigas Pelos pés nus e a dança Enquanto sobre vós arqueia Apolo Como um ramo alto o azul e a luz da hora E há o rito primitivo Do mar lavando as costas. 9-8-1914 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 53. 1ª publ. in Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor). Lisboa: Ática, 1946 Não porque os deuses findaram, alva Lídia, choro... Mas porque nas bocas de hoje os nomes sobrevivem Mortos apenas, como nomes em pedras sepulcrais. Por isso, Lídia, lamento Que Vénus em bocas cristãs seja uma palavra dita, Que Apolo seja um nome que usam quantos Sequentes de Cristo — e a crença lúcida Nos deuses puramente deuses, Tenha passado e ficado, cinza do que era fogo, Lama do que era água reflectindo as árvores, Tronco morto do que dava fruto e florescia. Mas se choro, não creio Menos que ainda existo, como existem os deuses. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 54. Passando a vida em ver passar a de outros, Botões de flor de um esforço nunca aberto Na antiga semelhança com os deuses Que andam nos campos A ensinar aos que as Parcas não ignoram Como a vida se deve usar, e como Há outro uso que agrícola dos campos E outro das fontes Que beber delas na hora da sede. Passando assim a vida, destruindo O que fiamos ontem  (...) Penélopes tristes. 11-8-1914 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 55. Neste dia em que os campos são de Apolo Verde colónia dominada a ouro, Seja como uma dança dentro em nós O sentirmos a vida. Não turbulenta, mas com os seus ritmos Que a nossa sensação como uma ninfa Acompanhe em cadências suas a Disciplina da dança... Ao fim do dia quando os campos forem Império conquistado pelas sombras Como uma legião que segue marcha Abdiquemos do dia, E na nossa memória coloquemos, Com um deus novo duma nova terra Trazido, o que ficou em nós da calma Do dia passageiro. 11-8-1914 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 57. Olho os campos, Neera Verdes campos, e sinto Como virá um dia Em que não mais os veja. Par de árvores cobre O céu aqui sem nuvens E faz correr mais triste A viva e alegre linfa. Mas por um só momento Fugaz e passageiro Esta ideia eu emprego Para o seu uso triste. Cedo me volve a calma Com que me faço o espelho Do céu imperturbado E da fonte insciente. Deixa o futuro, — porque Não está aqui, não é nada; Só o fugaz presente Enquanto dura existe. Vive a imperfeita hora Sem olhar além dela E sem nada esperares Dos homens, nem dos deuses. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 66b. O que sentimos, não o que é sentido, É o que temos. Claro, o Inverno triste Como à sorte o acolhamos. Haja Inverno na terra, não na mente. E, amor a amor, ou livro a livro, amemos Nossa caveira breve. 8-7-1930 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 124. Quer pouco: terás tudo. Quer nada: serás livre. O mesmo amor que tenham Por nós, quer-nos, oprime-nos. 1-11-1930 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 125. Não só quem nos odeia ou nos inveja Nos limita e oprime; quem nos ama Não menos nos limita. Que os deuses me concedam que, despido De afectos, tenha a fria liberdade Dos píncaros sem nada. Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada É livre; quem não tem, e não deseja, Homem, é igual aos deuses. 1-11-1930 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 126. Não quero, Cloé, teu amor, que oprime Porque me exige o amor. Quero ser livre. A esperança é um dever do sentimento. 1-11-1930 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 127. Olho os campos, Neera, Verdes campos, e sinto Que um dia virá a hora Em que não mais os olhe. Tranquilo, apenas gozo, Como brincando, o orgulho Da serena tristeza Filha da clara visão. 6-6-1915 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 190. Não sei se é amor que tens, ou amor que finges, O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta. Já que o não sou por tempo, Seja eu jovem por erro. Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso. Porém, se o dão, falso que seja, a dadiva É verdadeira. Aceito, Cerro olhos: é bastante. Que mais quero? 12-11-1930 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 128. Olho os campos, Neera, Verdes campos, e penso Em que virá um dia Em que não mais os olhe. Isto se o meditar, Me toldará os céus E fará menos verdes Os verdes campos reais. Ah! Neera, o futuro Ao futuro deixemos. O que não está presente Não existe pra nós. Hoje não tenho nada Senão os verdes campos E o céu azul por cima. Seja isto todo o mundo. 27-1-1917 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 191. Nunca a alheia vontade, inda que grata, Cumpras por própria. Manda no que fazes, Nem de ti mesmo servo. Ninguém te dá quem és. Nada te mude. Teu íntimo destino involuntário Cumpre alto. Sê teu filho. 19-11-1930 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 129. No mundo, só comigo, me deixaram Os deuses que dispõem. Não posso contra eles: o que deram Aceito sem mais nada. Assim o trigo baixa ao vento, e, quando O vento cessa, ergue-se. 19-11-1930 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 130. Os deuses e os Messias que são deuses Passam, e os sonhos vãos que são Messias. A terra muda dura. Nem deuses, nem Messias, nem ideias Que trazem rosas. Minhas são se as tenho. Se as tenho, que mais quero? 8-2-1931 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 131. Do que quero renego, se o querê-lo Me pesa na vontade. Nada que haja Vale que lhe concedamos Uma atenção que doa. Meu balde exponho à chuva, por ter água. Minha vontade, assim, ao mundo exponho. Recebo o que me é dado, E o que falta não quero. O que me e dado quero Depois de dado, grato. Nem quero mais que o dado Ou que o tido desejo. 14-3-1931 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 132. Sim, sei bem Que nunca serei alguém. Sei de sobra Que nunca terei uma obra. Sei, enfim, Que nunca saberei de mim. Sim, mas agora, Enquanto dura esta hora, Este luar, estes ramos, Esta paz em que estamos, Deixem-me me crer O que nunca poderei ser. 8-7-1931 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 133. Solene passa sobre a fértil terra A branca, inútil nuvem fugidia, Que um negro instante de entre os campos ergue Um sopro arrefecido. Tal me alta na alma a lenta ideia voa E me enegrece a mente, mas já torno, Como a si mesmo o mesmo campo, ao dia Da imperfeita vida. 31-5-1927 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 104. Deverá a ciência deixar livre um campo inferior às religiões - buscando que sejam muitas para que (1) nenhuma domine, (2) do seu combate nasça vida intelectual? s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 318. Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve Sua face, Saturno. Sua severa fronte reconhece Só o lugar do futuro. Não temos mais decerto que o instante Em que o pensamos certo. Não o pensemos, pois, mas o façamos Certo sem pensamento. 31-5-1927 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 105. Maurras e os seus são os românticos da Disciplina. Interpretam a disciplina romanticamente. Aproveitam o catolicismo e o monarquismo como disciplinas - processo de puro romantismo; ao passo que um classicista aproveitaria da religião católica e da instituição monárquica apenas aquilo que conviesse à disciplina como disciplina, reparando sempre que essa disciplina tem de ser aplicada ao nosso tempo. (Mas eles arranjam um conceito abstracto de Disciplina). Ora o que o catolicismo tem de disciplinador, de realmente disciplinador é(1) a intransigência e rigidez do dogma - não o dogma em si, repare-se, mas apenas o modo como o dogma é dogma no cat[olicis ] mo; e(2) a hierarquização rigorosa que nessa Igreja se encontra instituída. A intransigência e a rigidez do dogma não valem já hoje, nem podem valer. Ninguém culto, nem mesmo (muito pouco, esses) a gente do sr. Maurras acredita hoje nos dogmas de modo a que eles lhes possam servir de disciplina, ou própria ou para impor a outros. E aos ignorantes nenhuma fé os disciplina: as cadeias e a sua subordinação social são a única disciplina que eles podem ter. Só a ciência hoje tem o respeito dos cultos. Nenhum homem culto hoje acredita, realmente acredita, por mais que creia, na Imaculada Conceição de Maria. Nenhum homem culto põe em dúvida que o coeficiente de dilatação do cobre é (...); que o animal se desenvolve do óvulo; que a terra gire à volta do sol. Quanto à hierarquização, aproveitêmo-la, por certo, para a n[ossa] disciplinação: mas a hierarquização por si, é um princípio que nada tem com a religião - é puramente social. É o princípio aristocrático. Do monarquismo, semelhantemente, etc. (…) s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 319. A nada imploram tuas mãos já coisas, Nem convencem teus lábios já parados, No abafo subterrâneo Da húmida imposta terra. Só talvez o sorriso com que amavas Te embalsama remota, e nas memórias Te ergue qual eras, hoje Cortiço apodrecido. E o nome inútil que teu corpo morto Usou, vivo, na terra, como uma alma, Não lembra. A ode grava, Anónimo, um sorriso. 5-1927 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 106. 1ª publ. in Presença , nº 6. Coimbra: Jul. 1927. Dir-me-ão que a poesia nada tem com os fenómenos puramente intelectuaes. A poesia, porém, é um produto intelectual. Não são indiferentes pois as ideações que expõe ou que subentende. A Or [ ação] à Luz do sr. Guerra Junqueiro seria perfeita se não fossem os restos do misticismo religioso que encerra. A poesia do sr. G [ uerra ] J[unqueiro] está fora do seu tempo. Não pode ser eterna por isso. Há um misticismo científico possível O caso é encontrá-lo. A ciência não destruiu o mistério. Para além do que a sua tocha ilumina fica a treva que nos cerca. O que é preciso é o poeta que cante essa treva sem lhe chamar luz. O mistério é suficientemente grande para não precisar de alcunhas. Da poesia do sr. G[uerra ] J[unqueiro] para a do sr. T [ eixeira ] de P[ascoaes ] há retrocesso. O elemento místico aumenta e o científico diminui. Mas o sentimento de fraternidade pelas coisas é bem o sentimento que a ciência, quando ganha a nossa emoção, em nós produz. Mas essa fraternidade o que não deve é ter carácter religioso, e muito menos cristão. Pior ainda, é na poesia do sr. T [ eixeira ] de P[ascoaes ] , a perpétua confusão entre o físico e o psíquico e entre os mais sentidos. Isso denota uma perigosa e doentia falta de atenção às representações que na psyche se formam dos dois distintos «mundos». Dizer que uma serra está «coroada de neve e de silêncio» implica uma incapacidade em distinguir o carácter totalmente diferente dos fenómenos «neve» e «silêncio», um dos quais é visual e o outro auditivo, no modo como são percebidos. (Quando virá o poeta cujos sentidos estejam em comunicação legítima e sã com a Natureza?) É belo? Talvez. Mas é o belo doentio e anormal. E o belo anormal não será belo? Por certo que o é, mas é belo sem poder de eternidade. O doentio, na vida, liquida-se a si-próprio; o doentio, na arte - paralelamente, porque é sempre o doentio - do mesmo modo se elimina a si-próprio, isto é, não atinge a eternidade. Só a visão nítida das coisas é que pode ser a visão eterna das coisas. Há várias maneiras doentias de interpretar a presença de uma árvore. Há só uma maneira sã. Fica a maneira sã de a interpretar, porque é [a] que tem no apelo universal e eterno; passa, com o género de doença, pelo qual interpreta, o modo doentio de olhar ou interpretar. O que dura na arte é a visão de eterno que uma época tem. Cada época vê o eterno a seu modo, tem as ideias que a caracterizam, e essas são as que caracterizam a sua saúde e não a sua doença. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 321. Aqui, dizeis, na cova a que me abeiro, Não está quem eu amei. Olhar nem riso Se escondem nesta leira. Ah, mas olhos e boca aqui se escondem! Mãos apertei, na alma, e aqui jazem. Homem, um corpo choro! 6-7-1927 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 107. A moderna literatura é uma lit[eratur ] a de masturbadores. A da Ren[ascença] era de amorosos decadentes. A do romantismo para cá é de masturbadores. Vejamos: Há 3 fenómenos sexuais distintos: (1) a sexualidade normal. (2) a homossexualidade. (3) a monossexualidade ou masturbação. (3) contém 3 elementos (A) o Sonho, porque é visionado o outro elemento da cúpula. (B) O desdobramento do Eu, porque o indivíduo figurará como dois no m[es ] mo. (C) O requinte, porque o acto sexual tem de ser investido de várias coisas para não (...) Como a m[asturbação ] leva à pederastia. Dif [ erença] entre a pederastia propriamente dita e aquela que a m [ asturbação] produz. Dif [ erença ] entre o homossexual antigo e moderno. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 322. Uns, com os olhos postos no passado, Vêem o que não vêem; outros, fitos Os mesmos olhos no futuro, vêem O que não pode ver-se. Porque tão longe ir pôr o que está perto — A segurança nossa? Este é o dia, Esta é a hora, este o momento, isto É quem somos, e é tudo. Perene flui a interminável hora Que nos confessa nulos. No mesmo hausto Em que vivemos, morreremos. Colhe O dia, porque és ele. 28-8-1933 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 154. Lenta, descansa a onda que a maré deixa. Pesada cede. Tudo é sossegado. Só o que é de homem se ouve. Cresce a vinda da lua. Nesta hora, Lídia ou Neera ou Cloé Qualquer de vós me é estranha, que me inclino Para o segredo dito Pelo silêncio incerto. Tomo nas mãos, como caveira, ou chave, De supérfluo sepulcro, o meu destino, E ignaro o aborreço Sem coração que o sinta. 6-7-1927 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 108. PREFÁCIO às «Odes» O estudo da literatura italiana, de esforço clássico, não menos me escorçoou da ideia de que a esse país pudesse ser dado continuar a obra interrompida da Grécia. Na França, quem mais parecia ter a alma de acordo com o espírito das épocas pagãs, esse, Théophile Gautier, disse, uma vez, que compararam ao de Homero o seu semblante - «não, é de um Anacreonte triste». Proferira com dizer isto, melhor que quanto eu posso fazer escrevendo, a sentença anulatória da possibilidade de o considerarmos um clássico, e de poder haver em França um reatamento de alma com a Grécia perdida. Na própria Grécia contemporânea, nada que surja de indicador de que gira nas veias dos modernos helenos o calor da beleza de outrora. Só em Inglaterra, num Matthew Arnold, aponta e se esboça um conceito seguro de alma antiga. Mas o sentimento excessivo da vida moderna consegue obnubilar a visão essencial do poeta. Só num homem nitidamente eu vi qualquer [cousa ] de, não já culturalmente, mas de intimamente, ligado ao espírito helénico. Foi em Eugénio de Castro. Mau grado o molho de moderno e o lixo de católico e medieval que ensopa e entulha a sua visão essencialmente pagã, qualquer coisa há nele que o aproxima dum crente verdadeiro nos deuses, dum homem cuja visão da Natureza vem coada através do estado de alma de que a crença nos deuses antigos e insultados é a legítima escultura em expressão anímica. Porque aquela atitude a que eu chamo pagã é de uma dificuldade quase insuperável para obter, Não basta afirmar que se crê no paganismo (o que geralmente é falso), nem basta que se sinta profundamente e intensamente a beleza duma estátua grega, ou por intuição se compreenda o sabor e o jeito da vida antiga. Tudo isso pode dar um resultado minimamente pagão na realidade. Primeiro, a crença nos deuses é uma crença especial, que só quem verdadeiramente a tem, hoje, verdadeiramente a compreende. Não há intuição que sirva para entrar no espírito dessas épocas idas. Nada em nós hoje tem o poder de ter os métodos espirituais de compreender o paganismo. A crença nos deuses é uma fé duma espécie inteiramente diferente da fé cristã. Não é outro grau de fé: é outra espécie inteiramente. Ao contrário do que se julga, não é uma fé menos intensa; a seu modo, é-o mais. É uma fé que nos cinja de mais perto, que a todo o momento temos presente, porque os deuses e as presenças quase divinas habitam todas as coisas visivelmente, não se escondem por detrás delas. A fé do pagão é outra crença, outra moral e outra visão, que ninguém que tenha sido sequer educado num cristianismo tíbio pode chegar a conceber. Na fé pagã não há entrega do indivíduo, não há moral, não há sentimento moral propriamente dito, que perturbe o puro sentimento da fé. Na moral pagã não há a preocupação do valor da vida que os cristãos ensinaram. A ideia vulgar de que o paganismo é uma religião cheia de vida e de alegria é falsa. O paganismo é cheio de calma e de (...). O cristianismo é mais humano que o paganismo. A superioridade do paganismo está nisso. Depois, sentir intensamente uma estátua grega é a melhor demonstração de que não se percebe a arte grega. Sentir intensamente a beleza da arte grega é não compreender o que é a arte grega. A arte grega não é para se sentir intensamente. É puramente inteligente e (...). O elemento a que hoje chamam dionisíaco da arte grega é um elemento inferior, é o que está, dominado e dirigido, dentro da arte «apolínea». Falo nestas coisas seguramente porque nasci acreditando nos deuses, criei-me nessa crença, e, querendo eles, nessa crença morrerei. Sei o que é o sentimento pagão. Só me pesa não poder explicar realmente o quão absolutamente e incompreensivelmente diverso ele é de todos os nossos sentimentos. Mesmo a nossa calma, e o vago estoicismo que entre nós alguns têm, não são coisas que parecem com a calma antiga e o estoicismo grego. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 323. Súbdito inútil de astros dominantes, Passageiros como eu, vivo uma vida Que não quero nem amo, Minha porque sou ela, No ergástulo de ser quem sou, contudo, De em mim pensar me livro, olhando no alto Os astros que dominam Submissos de os ver brilhar. Vastidão vã que finge de infinito (Como se o infinito se pudesse ver!) — Dá-me ela a liberdade? Como, se ela a não tem? 19-11-1933 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 155. O sono é bom pois despertamos dele Para saber que é bom. Se a morte é sono Despertaremos dela; Se não, e não é sono, Conquanto em nós é nosso a refusemos Enquanto em nossos corpos condenados Dura, do carcereiro, A licença indecisa Lídia, a vida mais vil antes que a morte, Que desconheço, quero; e as flores colho Que te entrego, votivas De um pequeno destino. 19-11-1927 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 109. O IDEAL PAGÃO O ideal é a noção de que a Vida não basta. Pode considerar-se a vida como não bastando por uma de 3 razões: (a) por ser falsa, (b) por ser vil, (c) por ser imperfeita. São os modos [...] metafísico, ético e estético de encarar a vida e o ideal. São os conceitos budista, cristão (judaico) e pagão da existência. Uma religião é um conceito do ideal comum a uma colectividade. Por ser comum a uma colectividade assume aspectos manifestativos (um ritual). O ideal tem 3 formas: na sua relação com o universo - a Verdade; na sua relação com os homens - a Virtude; na sua relação consigo próprio - a Beleza. A Beleza é o Ideal Puro; é superior à Verdade e ao Bem porque é a própria substância do ideal, inaplicado e irrefracto. A Beleza é o que se prefere à vida, sem razão outra do que a preferência. O ideal pagão é o mais justo e acertado de todos, porque, assim como a relação fundamental entre o homem e o universo é a sensação, o conceito metafísico mais acertado é o que baseie o universo na sensação: portanto, o Misticismo, cujo ponto de partida é a crença na realidade da sensação, a «crença na sensação» (mais curtamente). Como a essencial relação entre os homens é a sociedade, a sociedade, em que vivemos, a essencia da virtude está nas virtudes familiares e políticas. Como a essencial relação do ideal consigo próprio é o de ser uma afirmação de que a vida não satisfaz, a noção mais absoluta e pura do ideal é a de que a vida é imperfeita, se se considerar as razões porque o é , se é por ser falsa, se é por ser vil, se por outra qualquer. Assim o ideal pagão, a que estas 3 formas correspondem, é o mais certo e justo de todos. O ideal pagão é directo; os outros translatos e explicativos. E o grego, amando a Beleza mais essencialmente do que a Virtude e a Verdade, prova a sua superioridade porque demonstra o seu idealismo superior, pois que a Beleza seja, como revelei, a própria essência, a própria face do ideal. O budismo é uma religião essencialmente científica, metafísica. A sua preocupação central é a Verdade. O budista despreza o mundo porque é falso. Se o acha, também e às vezes, vil ou feio, é porque, antes disso, o acha falso. O judaismo e a sua derivada, o cristianismo, é uma religião sobretudo moral, rigorosamente messiânica e racional; e se é tão radicalmente nacional e nacionalista (até ao ponto moderno do «Vale Deus alemão») é que se baseia no facto político, mais do que em outro. O valor de um ideal depende, evidentemente: (a) da sua concordância com a própria noção de ideal, (b) da sua utilidade (...); (c) da sua capacidade em estimular a acção nobre nos homens. Ora o c[ristianism ] o que põe o ideal na própria alma, enche o indivíduo demasiadamente de si próprio ... (Mas isto é certo? - o ideal cristão é a alma de Deus?) O cuidado da própria alma é o escrúpulo central do cristão. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 324. Aguardo, equânime, o que não conheço — Meu futuro e o de tudo. No fim tudo será silêncio, salvo Onde o mar banhar nada. 13-12-1933 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 156. O rastro breve que das ervas moles Ergue o pé findo, o eco que oco coa, A sombra que se adumbra, O branco que a nau larga — Nem maior nem melhor deixa a alma às almas, O ido aos indos. A lembrança esquece. Mortos, inda morremos. Lídia, somos só nossos. 25-1-1928 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 110. 1ª publ. in Presença , nº 10. Coimbra: Mar. 1928. Ponho na altiva mente o fixo esforço Da altura, e à sorte deixo, E às suas leis, o verso; Que, quando é alto e régio o pensamento, Súbdita a frase o busca E o escravo ritmo o serve. s.d. Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 158. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. Pesa o decreto atroz do fim certeiro. Pesa a sentença igual do juiz ignoto Em cada cerviz néscia. É entrudo e riem. Felizes, porque neles pensa e sente A vida, que não eles! Se a ciência é vida, sábio é só o néscio. Quão pouca diferença a mente interna Do homem da dos brutos! Sus! Deixai Brincar os moribundos! De rosas, inda que de falsas teçam Capelas veras. Breve e vão é o tempo Que lhes é dado, e por misericórdia Breve nem vão sentido. 20-2-1928 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 111. Temo, Lídia, o destino. Nada é certo. Em qualquer hora pode suceder-nos O que nos tudo mude. Fora do conhecido e estranho o passo Que próprio damos. Graves numes guardam As lindas do que é uso. Não somos deuses; cegos, receemos, E a parca dada vida anteponhamos À novidade, abismo. s.d. Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 159. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. Nos altos ramos de árvores frondosas O vento faz um rumor frio e alto. Nesta floresta, em este som me perco E sozinho medito. Assim no mundo, acima do que sinto, Um vento faz a vida, e a deixa, e a toma, E nada tem sentido — nem a alma Com que penso sozinho. 20-4-1928 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 112. Não queiras, Lídia, edificar no espaço Que figuras futuro, ou prometer-te Amanhã. Cumpre-te hoje, não esperando. Tu mesma és tua vida. Não te destines, que não és futura. Quem sabe se, entre a taça que esvazias, E ela de novo enchida, não te a sorte Interpõe o abismo? s.d. Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 160. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la. Quantos, se pensam, não se reconhecem Os que se conheceram! A cada hora se muda não só a hora Mas o que se crê nela, e a vida passa Entre viver e ser. 26-4-1928 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 113. Saudoso já deste Verão que vejo. Lágrimas para as flores dele emprego Na lembrança invertida De quando hei-de perdê-las. Transpostos os portais irreparáveis De cada ano, me antecipo a sombra Em que hei-de errar, sem flores, No abismo rumoroso. E colho a rosa porque a sorte manda. Marcenda, guardo-a; murche-se comigo Antes que com a curva Diurna da ampla terra. s.d. Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 161. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. Deixemos, Lídia, a ciência que não põe Mais flores do que Flora pelos campos, Nem dá de Apolo ao carro Outro curso que Apolo. Contemplação estéril e longínqua Das coisas próximas, deixemos que ela Olhe até não ver nada Com seus cansados olhos. Vê como Ceres e a mesma sempre E como os louros campos entumece E os cala pràs avenas Dos agrados de Pã. Vê como com seu jeito sempre antigo Aprendido no orige azul dos deuses, As ninfas não sossegam Na sua  dança eterna. E como as hemadríades constantes Murmuram pelos rumos das florestas E atrasam o deus Pã Na atenção à sua flauta. Não de outro modo mais divino ou menos Deve aprazer-nos conduzir a vida, Quer sob o ouro de Apolo Ou a prata de Diana. Quer troe Júpiter nos céus toldados, Quer apedreje com as suas ondas Neptuno as planas praias E os erguidos rochedos. Do mesmo modo a vida é sempre a mesma. Nós não vemos as Parcas acabarem-nos. Por isso as esqueçamos Como se não houvessem. Colhendo flores ou ouvindo as fontes A vida passa como se temêssemos. Não nos vale pensarmos No futuro sabido Que aos nossos olhos tirará Apolo E nos porá longe de Ceres e onde Nenhum Pã cace à flauta Nenhuma branca ninfa. Só as horas serenas reservando Por nossas, companheiros na malícia De ir imitando os deuses Até sentir-lhe a calma. Venha depois com as suas cãs caídas A velhice, que os deuses concederam Que esta hora por ser sua Não sofra de Saturno Mas seja o templo onde sejamos deuses Inda que apenas, Lídia, pra nós próprios Nem precisam de crentes Os que de si o foram. s.d. Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 162. É tão suave a fuga deste dia, Lídia, que não parece que vivemos. Sem dúvida que os deuses Nos são gratos esta hora, Em paga nobre desta fé que temos Na exilada verdade dos seus corpos Nos dão o alto prémio De nos deixarem ser Convivas lúcidos da sua calma, Herdeiros um momento do seu jeito De viver toda a vida Dentro dum só momento, Dum só momento, Lídia, em que afastados Das terrenas angústias recebemos Olímpicas delícias Dentro das nossas almas. E um só momento nos sentimos deuses Imortais pela calma que vestimos E a altiva indiferença Às coisas passageiras Como quem guarda a coroa da vitória Estes fanados louros de um só dia Guardemos para termos, No futuro enrugado, Perene à nossa vista a certa prova De que um momento os deuses nos amaram E nos deram uma hora Não nossa, mas do Olimpo. s.d. Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 165. Para os deuses as coisas são mais coisas. Não mais longe eles vêem, mas mais claro Na certa Natureza E a contornada vida... Não no vago que mal vêem Orla misteriosamente os seres, Mas nos detalhes claros Estão seus olhos. A Natureza é só uma superfície. Na sua superfície ela é profunda E tudo contém muito Se os olhos bem olharem. Aprende, pois, tu, das cristãs angústias, Ó traidor à multíplice presença Dos deuses, a não teres Véus nos olhos nem na alma. s.d. Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 167. Não quero recordar nem conhecer-me. Somos demais se olhamos em quem somos. Ignorar que vivemos Cumpre bastante a vida. Tanto quanto vivemos, vive a hora Em que vivemos, igualmente morta Quando passa connosco, Que passamos com ela. Se sabê-lo não serve de sabê-lo (Pois sem poder que vale conhecermos?), Melhor vida é a vida Que dura sem medir-se. 2-9-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 83. A abelha que, voando, freme sobre A colorida flor, e pousa, quase Sem diferença dela À vista que não olha, Não mudou desde Cecrops. Só quem vive Uma vida com ser que se conhece Envelhece, distinto Da espécie de que vive. Ela é a mesma que outra que não ela. Só nós — ó tempo, ó alma, ó vida, ó morte!— Mortalmente compramos Ter mais vida que a vida. 2-9-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 84. Dia após dia a mesma vida é a mesma. O que decorre, Lídia, No que nós somos como em que não somos Igualmente decorre. Colhido, o fruto deperece; e cai Nunca sendo colhido. Igual é o fado, quer o procuremos, Quer o esperemos. Sorte Hoje, Destino sempre, e nesta ou nessa Forma alheio e invencível. 2-9-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 85. Flores que colho, ou deixo, Vosso destino é o mesmo. Via que sigo, chegas Não sei aonde eu chego. Nada somos que valha, Somo-lo mais que em vão. 2-9-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 86. A flor que és, não a que dás, eu quero. Porque me negas o que te não peço. Tempo há para negares Depois de teres dado. Flor, sê-me flor! Se te colher avaro A mão da infausta esfinge, tu perene Sombra errarás absurda, Buscando o que não deste. 21-10-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 87. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. Melhor destino que o de conhecer-se Não frui quem mente frui. Antes, sabendo Ser nada, que ignorando: Nada dentro de nada. Se não houver em mim poder que vença As Parcas três e as moles do futuro. Já me dêem os deuses O poder de sabê-lo; E a beleza, incriável por meu sestro, Eu goze externa e dada, repetida Em meus passivos olhos, Lagos que a morte seca. 22-10-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 88. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. De novo traz as aparentes novas Flores o Verão novo, e novamente Verdesce a cor antiga Das folhas redivivas. Não mais, não mais dele o infecundo abismo, Que mudo sorve o que mal somos, torna À clara luz superna A presença vivida. Não mais; e a prole a que, pensando, dera A vida da razão, em vão o chama, Que as nove chaves fecham Da Estige irreversível. O que foi como um deus entre os que cantam, O que do Olimpo as vozes, que chamavam, Escutando ouviu, e, ouvindo, Entendeu, hoje é nada. Tecei embora as, que teceis, grinaldas. Quem coroais, não coroando a ele? Votivas as deponde, Fúnebres sem ter culto. Fique, porém, livre da leiva e do Orco, A fama; e tu, que Ulisses erigira, Tu, em teus sete montes, Orgulha-te materna, Igual, desde ele, às sete que contendem Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos, Ou heptápila Tebas, Ogígia mãe de Píndaro. 22-10-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 89. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. Quão breve tempo é a mais longa vida E a juventude nela! Ah! Cloé, Cloé, Se não amo, nem bebo, Nem sem querer não penso, Pesa-me a lei inimplorável, dói-me A hora invita, o tempo que não cessa, E aos ouvidos me sobe Dos juncos o ruído Na oculta margem onde os lírios frios Da ínfera leiva crescem, e a corrente Não sabe onde é o dia, Sussurro gemebundo. 24-10-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 91. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. Tão cedo passa tudo quanto passa! Morre tão jovem ante os deuses quanto Morre! Tudo é tão pouco! Nada se sabe, tudo se imagina. Circunda-te de rosas, ama, bebe E cala. O mais é nada. 3-11-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 92. Prazer, mas devagar, Lídia, que a sorte àqueles não é grata Que lhe das mãos arrancam. Furtivos retiremos do horto mundo Os depredandos pomos. Não despertemos, onde dorme, a Erínis Que cada gozo trava. Como um regato, mudos passageiros, Gozemos escondidos. A sorte inveja, Lídia. Emudeçamos. 3-11-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 93. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. Prefácio de Ricardo Reis ao seu livro ODES: O prefácio, que pus à obra de meu mestre Alberto Caeiro, dando-me azo a que consignasse os princípios fundamentais a que visa o esforço, a que me junto, da reconstrução pagã, dispensa-me, e isso me apraz, da operosa tarefa de pôr a estas Odes um introito explicativo. Naquele prefácio não está, porém, dito a que fins visa essa reconstrução; se busca, deveras, trazer outra vez ao mundo cristianizado o paganismo dos gregos e dos romanos, se busca outro fim qualquer, de âmbito mais humilde. Parecendo que esta dupla hipótese contém em si a solução, não é assim. Esse movimento de reconstrução pagã apareceu, sem que os próprios em cujo espírito se revelou saibam a que fim do Destino quer que ele vise. Por isso, para nós dois em quem o fenómeno se deu, ele não tem sentido nenhum. O que sentimos verdade dentro de nós, traduzimos para a palavra, escrevendo os nossos versos sem olhar aquilo a que se destinam. Uma reconstrução real do paganismo parece tarefa estulta em um mundo que de todo, até à medula dos seus ossos, se cristianizou e ruiu. Depunhamo-los como oferendas, tábuas votivas, no altar dos Deuses, gratos simplesmente porque eles nos hajam livrado, e posto a salvamento, daquele naufrágio universal que é o cristismo. Citação Horácio Chamemos à nossa obra de «reconstrução pagã» porque ela o é, sem que o queiramos. Mas não façamos dela uma política ou uma força. Se os Deuses nos fizeram a graça de nos revelar a sua verdade antiga, contentemos em manter-lhes doméstico o culto impoluto. Se a oferenda que na ara doméstica lhes fazemos for bela, basta que eles, na sua soberana ciência, a aceitem por boa. Nesse acto de culto, piamente realizado, cesse todo o intuito consciente da nossa obra religiosa. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 387. Breve o dia, breve o ano, breve tudo. Não tarda nada sermos. Isto, pensando, me de a mente absorve Todos mais pensamentos. O mesmo breve ser da mágoa pesa-me, Que, inda que magoa, é vida. 27-9-1931 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 134. Deve haver, no mais pequeno poema de um poeta, qualquer coisa por onde se note que existiu Homero. A novidade, em si mesma, nada significa, se não houver nela uma relação com o que a precedeu. Nem, propriamente, há novidade sem que haja essa relação. Saibamos distinguir o novo do estranho, o que, conhecendo o conhecido, o transforma e varia, e o que aparece de fora, sem conhecimento de coisa nenhuma. Entre os escritores que descendem com novidade da velha stirpe e os que aparecem por novos por pertencer a uma estirpe incógnita há a mesma diferença que há entre o homem que nos dá uma sensação de novidade por frases novas que diz e o que nos dá uma sensação de novidade, por, falando mal nossa língua, nos dizer estropiadamente qualquer frase dela. s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 390. Os parentes de Alberto Caeiro, a quem ele deixou entregue o seu livro completo, e os poemas dispersos que o suplementam, quiseram que eu, a única pessoa a quem o destino concedeu que pudesse considerar-se discípulos do poeta, fizesse uma espécie de apresentação, ou de prefácio explicativo, à presente — que é a primeira e definitiva colação dos seus poemas. O encargo, por grato que seja à minha amizade e (...) à minha admiração, é oneroso deveras para a consciência que tenho dos limites da minha competência. Não que me escasseie a sensibilidade espontânea com que de pronto sinta, e a sensibilidade intelectual, com que demoradamente aprecie, os poemas, ou que me falte, para falar verdade, a justa noção de quanto eles pesam — porque (o) hão-de pesar — na balança da história literária; mas porque nem tenho o nome conhecido com que faça prevalecer, como quereria, a justiça da minha apreciação, nem me deram os Deuses aquele estilo que por translúcido atrai adeptos, ou, por entusiástico, os sujeita. Que posso eu dizer de Alberto Caeiro que não pareça exagerado, que não tenha modos de desmedido? E como dizer menos, se hei-de dizer o que penso, o que creio ser a clara essência da verdade absoluta? Passados que sejam dez anos — ou mais, ou menos, segundo a sorte — talvez ninguém veja nas minhas palavras um exagero sequer. Talvez que então, se a justiça, filha dos deuses, desce alguma vez à Terra, a consciência da Europa reconheça em Caeiro o Mestre que é, o poeta que (...) Mas hoje, que os seus poemas pela primeira vez assomam à janela da publicidade, que cuidado não há-de haver nos termos! que escrúpulo nos juízos! que equilíbrio nos elogios! Um homem que se diz discípulo de outro tem pelo menos uma boa razão para o elogiar desmarcadamente. E um homem que é contemporâneo tem já razão de sobra, nessa medida, para estar no erro sem consciência de tal. Posto isto — que tanto valia não ter escrito, mas que me pesaria não escrever — passo a fazer a «apresentação» que me é pedida. Direi de Alberto Caeiro, demonstrando-o, com a força que a mim caiba: 1) que ele é o maior e o mais original dos poetas nascidos, de todas as línguas que eu conheço; 2) que ele é o reconstrutor do sentimento pagão, perdido e nunca sentido [...] novamente, desde que a civilização pagã se perdeu; 3) que na poesia dele, tomando-a no seu conjunto, madrugou, amanheceu uma nova civilização, um pouco aparentada com certas vozes correntes europeias e americanas, mas agora, nesta obra, pela primeira vez coordenadas, feitas sentido [?] e unas. Sem mais tardanças explicativas, eu passo ao assunto do meu prefácio. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 27. 1ª publ. inc. in Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação . Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. II Digo de Alberto Caeiro que ele é o maior poeta moderno, porque, sendo um dos maiores de todos os tempos, ele não pode senão brilhar demasiadamente, na nossa época prolixa de inferioridades, treda hora do estertor de uma civilização que nunca foi completa. Ponhamos de parte, desde já, a primeira feição destes poemas, que salta à nossa vista. Refiro-me à sua deserção de toda a disciplina rítmica convencional. Afirmo, desde já, que com ela não concordo. (Não importa). Nessa arritmia não há inumeração. Desde os livros proféticos de Blake, os poemas sombrios de Southey, o de Shelley, feito à sombra destes, até à plena vida do verso livre nos livros de Walt Whitman, para acabar na construção, não direi geral, mas vulgar, desse princípio na nossa época, o verso livre não constitui hoje novidade nem sequer uma só escola o dá por seu. A única coisa que pode fazer sobre o verso livre é a individualidade rítmica, que o poeta pode nele exprimir. Nos grandes cultores, nos legítimos cultores do verso livre, o tom interior da verso, o seu ritmo espiritual varia de poeta para poeta. Para a plebe dos rimadores o verso livre não é senão uma demonstração a mais do que não deve ter entrada no poema. Nos versos livres de um Blake, nos de um Whitman há um som diferente, uma curva distinta. Dir-se-iam escritos em ritmos diferentes, embora nem uns, nem outros, estejam escritos, no que convencionalmente se possa designar qualquer espécie de ritmo. Semelhantemente no único grande cultor português do verso livre, o sr. Álvaro de Campos, uma individualidade se sente nítida e pessoal, na maravilhosa técnica estrófica que se mostra através da, puramente aparente, descoordenação daquela arritmia. O mesmo sucede com Alberto Caeiro. O seu verso livre não tem nem o ritmo bíblico, monótono dos versos dos livros proféticos de Blake; nem aquele estudadamente andante que, como êxito ritmista, procurava Southey, Shelley, Mathew Arnold; nem o de Whitman, dogmático e espaçoso, como uma planície ao sol; nem o de Álvaro de Campos fortemente contido dentro de um conceito nitidamente sinfónico da Ode . O de Caeiro é brusco, absolutamente directo, rectilíneo sempre. Mas aqui, se originalidade se mostra, é uma originalidade no inferior. Onde Caeiro é deveras grande é na estrutura interna dos seus poemas, no conceito filosófico de todo o poeta novo, que subjaz à juvenilidade que o caracteriza. Caeiro é, em filosofia, o que ninguém foi: um objectivista absoluto. Inventou os processos poéticos de todos os tempos . Reparai bem no que digo — de todos os tempos . Inventou os processos filosóficos da nossa época, indo além da pura ciência em objectividade. Quebrou com todos os sentimentos que têm sido posse da poesia e do pensamento humanos. Nada o demonstra melhor que um verso que é talvez o supremo da sua obra. «A Natureza é partes sem um todo» s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - . Um poema é a projecção de uma ideia em palavras através da emoção. A emoção não é a base da poesia: é tão somente o meio de que a ideia se serve para se reduzir a palavras. Não vejo, entre a poesia e a prosa, a diferença fundamental, peculiar da própria disposição da mente, que Campos estabelece. Desde que se usa de palavras, usa-se de um instrumento ao mesmo tempo emotivo e intelectual. A palavra contém uma ideia e uma emoção. Por isso não há prosa, nem a mais rigidamente científica, que não ressume qualquer suco emotivo. Por isso não há exclamação, nem a mais abstractamente emotiva, que não implique ao menos o esboço de uma ideia. Poderá alegar-se, por exemplo, que a exclamação — «Ah», digamos — não contém elemento algum intelectual. Mas não existe um «ah», assim escrito isoladamente, sem relação com qualquer coisa de anterior. Ou consideramos o «ah» como falado e no tom da voz vai o sentimento que o anima, e portanto a ideia ligada à definição desse sentimento; ou o « ah» responde a qualquer frase, ou por ela se forma, e manifesta uma ideia que essa frase provocou. Em tudo que se diz — poesia ou prosa — há ideia e emoção. A poesia difere da prosa apenas em que escolhe um novo meio exterior, além da palavra, para projectar a ideia em palavras através da emoção. Esse meio e o ritmo, a rima, a estrofe; ou todas, ou duas, ou uma só. Porém menos que uma só não creio que possa ser. A ideia, ao servir-se da emoção para se exprimir em palavras, contorna e define essa emoção, e o ritmo, ou a rima, ou a estrofe, são a projecção desse contorno, a afirmação da ideia através de uma emoção, que, se a ideia a não contornasse, se extravasaria e perderia a própria capacidade de expressão. É o que, em meu entender, sucede nos poemas de Campos. São um extravasar de emoção. A ideia serve a emoção, não a domina. E o homem — poeta ou não-poeta — em quem a emoção domina a inteligência recua a feição do seu ser a estádios anteriores da evolução, em que as faculdades de inibição dormiam ainda no embrião da mente. Não pode ser que a arte, que é um produto da cultura, ou seja do desenvolvimento supremo da consciência que o homem tem de si mesmo, seja tanto mais superior, quanto maior for a sua semelhança com as manifestações mentais que distinguem os estados inferiores da evolução cerebral. A poesia é superior à prosa porque exprime, não um grau superior de emoção, mas, por contra, um grau superior do domínio dela, a subordinação do tumulto em que a emoção naturalmente se exprimiria (como verdadeiramente diz Campos) ao ritmo, à rima, à estrofe. Como o estado mental, em que se a poesia forma, é, deveras, mais emotivo que aqueles em que naturalmente se forma a prosa, há mister que ao estado poético se aplique uma disciplina mais dura que aquela que se emprega no estado prosaico da mente. E esses artifícios — o ritmo, a rima, a estrofe — são instrumentos de tal disciplina. No sentido em que Campos diz que são artifícios o ritmo, a rima e a estrofe, se pode dizer que são artifícios a vontade que corrige defeitos, a ordem que policia sociedades, a civilizacão que reduz os egoísmos à forma sociável. Na prosa mais propriamente prosa — a prosa científica ou filosófica — a que exprime directamente ideias e só ideias, não há mister de grande disciplina, pois na própria circunstância de ser só de ideias vai discipIina bastante. Na prosa mais largamente emotiva, como a que distingue a oratória, ou tem feição descritiva, há que atender mais ao ritmo, à disposição, à organização das ideias, pois essas são ali em menor número, nem formam o fundamento da matéria. Na prosa amplamente emotiva — aquela cujos sentimentos poderiam com igual facilidade ser expostos em poesia — há que atender mais que nunca à disposição da matéria, e ao ritmo que acompanha a exposição. Esse ritmo não é definido, como o é no verso, porque a prosa não é verso. O que verdadeiramente Campos faz, quando escreve em verso, é escrever prosa ritmada com pausas maiores marcadas em certos pontos, para fins rítmicos, e esses pontos de pausa maior determina-os ele pelos fins dos versos. Campos é um grande prosador, um prosador com uma grande ciência do ritmo; mas o ritmo de que tem ciência é o ritmo da prosa, e a prosa de que se serve é aquela em que se introduziu, além dos vulgares sinais de pontuação, uma pausa maior e especial, que Campos, como os seus pares anteriores e semelhantes, determinou representar graficamente pela linha quebrada no fim, pela linha disposta como o que se chama um verso. Se Campos, em vez de fazer tal, inventasse um sinal novo de pontuação — digamos o traço vertical (|) — para determinar esta ordem de pausa, ficando nós sabendo que ali se pausava com o mesmo género de pausa com que se pausa no fim de um verso, não faria obra diferente, nem estabeleceria a confusão que estabeleceu. A disciplina é natural ou artificial, espontânea ou reflectida. O que distingue a arte clássica, propriamente dita, a dos gregos e até dos romanos, da arte pseudoclássica, como a dos franceses em seus séculos de fixação, é que a disciplina de uma está nas mesmas emoções, com uma harmonia natural da alma, que naturalmente repele o excessivo, ainda ao senti-lo; e a disciplina da outra está em uma deliberação da mente de não se deixar sentir para cima de certo nível. A arte pseudoclássica é fria porque é uma regra; a clássica tem emoção porque é uma harmonia. Quase se conclui do que diz Campos que o poeta vulgar sente espontaneamente com a largueza que naturalmente projectaria em versos como os que ele escreve; e depois, reflectindo, sujeita essa emoção a cortes e retoques e outras mutilações ou alterações, em obediência a uma regra exterior. Nenhum homem foi alguma vez poeta assim. A disciplina do ritmo é aprendida até ficar sendo uma parte da alma: o verso que a emoção produz nasce já subordinado a essa disciplina. Uma emoção naturalmente harmónica é uma emoção naturalmente ordenada; uma emoção naturalmente ordenada é uma emoção naturalmente traduzida num ritmo ordenado, pois a emoção dá o ritmo e a ordem que há nela a ordem que no ritmo há. Na palavra, a inteligência dá a frase, a emoção o ritmo. Quando o pensamento do poeta é alto, isto é, formado de uma ideia que produz uma emoção, esse pensamento, já de si harmónico pela junção equilibrada de ideia e emoção, e pela nobreza de ambas, transmite esse equilíbrio de emoção e de sentimento à frase e ao ritmo, e assim, como disse, a frase, súbdita do pensamento que a define, busca-o, e o ritmo, escravo da emoção que esse pensamento agregou a si, o serve. s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 394. 1ª publ.: Obra Poética. Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Galhoz.) Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960. Domina ou cala. Não te percas, dando Aquilo que não tens. Que vale o César que serias? Goza Bastar-te o pouco que és. Melhor te acolhe a vil choupana dada Que o palácio devido. 27-9-1931 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 135. III Em que é que este homem pode ser aquilo que eu disse que ele era — o reconstrutor do sentimento pagão? O caso só parecerá confuso a quem, como o geral dos meus contemporâneos, como, aliás, o geral dos nossos contemporâneos, de todo ignore qual seja a nova ideativa da atitude característica do paganismo. Como todos os poetas universais Caeiro é de uma simplicidade absoluta. Nada, como os seus versos, vive tão longe dos modernos inventores de sensações, dos subtilizadores de sentimentos simples, dos que mastigam a própria alma até a terem que desconhecer — polpa amorfa de sensações indefinidas. Todos os grandes poetas são simples. E, se são difíceis de compreender, é que a sua simplicidade envolve princípios novos, uma noção nova das coisas, e essa, por nova, que não por confusa, salta fora dos hábitos mentais que condicionam a compreensão. Acabo como comecei. Alberto Caeiro é um dos maiores poetas do mundo, o maior, por certo, dos tempos modernos. ... aquele a quem a crítica chamará um dia o imortal reconstrutor não do paganismo, mas daquele sentimento objectivo do universo que é o que deu vida, sangue e poder a todas as manifestações da ideologia pagã, aquela manifestação que a nossa ignorância e a nossa sensibilidade cristianizada tomou por a alma e a essência do paganismo. A poesia de Alberto Caeiro consiste principalmente em negar a poesia das coisas. Dirão que, em muitas expressões, algumas apresentadas, mesmo, com a fraseologia da escola avançada, Caeiro não está de acordo com os novos princípios. Mas, aparte a resposta que aquele espantoso espírito lógico antepôs a essa objecção provável repare-se que ele, o pagão absoluto, não caiu do céu, mas nasceu da terra, não (...), mas emerge do seu tempo. Vénus, quando sai dos mares, traz molhada ainda, escorrendo pela sua capa divina, gotas de água salgada que não a distinguem como deusa, mas a nomeiam filha de mares. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 29/96. Ordenação corrigida segundo: Fernando Pessoa e o Ideal Neo-Pagão - Subsísios para uma edição crítica . Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição de Luís Filipe B. Teixeira.) Lisboa: F. C. Gulbenkian, 1996. O ritmo antigo que há em pés descalços, Esse ritmo das ninfas repetido, Quando sob o arvoredo Batem o som da dança, Vós na alva praia relembrai, fazendo, Que escura a espuma deixa; vós, infantes, Que inda não tendes cura De ter cura, reponde Ruidosa a roda, enquanto arqueia Apolo, Como um ramo alto, a curva azul que doura, E a perene maré Flui, enchente ou vazante. 9-8-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 47. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. Ao homem extraordinário, cujos poemas, não só inéditos, mas também incompletos se coligem na presente edição, deve o público que porventura o leia, um interesse que, podendo ser que ele lho não dê sem esclarecimento prévio, desejo, nestas linhas de prefácio, indicar como, e porquê, merecido. À primeira vista, a obra de Caeiro, aqui inteiramente coligida, não parece divergir, salvo em pontos secundários, das elucubrações métricas de tantos poetas nossos coevos, e um pouco anteriores, em que o principal característico de inspiração é a indisciplina e o individualismo das sensações e dos sentimentos, e o mais patente distúrbio da dicção o caso libérrimo da linguagem, que, liberta não só da rima como também do ritmo regular, se dá como seguindo o ritmo interior, a sequência desordenada das imagens que surgem no espírito. Assim, será o americano Whitman, o belga Maeterlinck e, na nova poesia [...] o francês Jammes. Mas não há semelhança embora no mais extremo do extremo, entre Caeiro e estes. A estes autores modernos convém aquela designação de sensacionistas , que alguns poetas do nosso Orpheu escolheram para designar-se. São pessoas que não têm outro intuito artístico, que não o de exporem as suas sensações, e isto sem mesmo aquela disciplina rudimentar que deriva do emprego das formas convencionais da literatura em verso. Não têm a disciplina duma teoria estética que transcenda os seus temperamentos, nem a duma teoria religiosa cujos lemas excedam os seus caprichos, nem a de uma doutrina filosófica que, através das suas inteligências, subordine as suas sensibilidades. A disciplina é sempre exterior, embora nem sempre aplicada de fora. As leis do meu temperamento nunca podem constituir uma disciplina minha. Uma disciplina é um princípio regrador da vida e da obra, que a inteligência aceita como verdadeira, e a sensibilidade aceita por boa. Sem a acção sobre tanto sensibilidade como inteligência, não há disciplina: se a inteligência aceita e a sensibilidade não, há um mero diletantismo; se o inverso, há um conflito esterilizante, anarquisador. Os românticos eram cristãos da sensibilidade e pagãos do pensamento; os neoclássicos eram cristãos do pensamento e pagãos na sensibilidade. Por isso a arte de uns e de outros resultou débil e, desde nada, caduca. A Revolução Francesa foi um renascimento do Cristianismo. O seu célebre triplo lema é o lema substancial da sensibilidade cristã. Liberdade, Igualdade, Fraternidade outros não são os ensinamentos essenciais do Evangelho jesuista. Toda a nossa civilização é a revolta do paganismo contra o cristianismo. Começando na filosofia (Rousseau) passou à política e daí à sensibilidade geral. O paganismo reagiu parcialmente na Renascença, reagiu parcialmente nos séculos que lhe sucederam. Em Caeiro o paganismo reage essencial e integral sem os Deuses, é certo, mas com toda a Inteligência e a sensibilidade pagãs, a objectividade absoluta no pensamento (...). A obra de Caeiro e mais intelectual do que sentimental. Propriamente, nem é sentimental. Nela estamos longe do ruído e do fumo da época; pertencemos à visão olímpica; fruímos, na nossa vida transitória, um reflexo da eternidade dos deuses. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 31. 1ª publ. inc.: Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. Vós que, crentes em Cristos e Marias Turvais da minha fonte as claras águas Só para me dizerdes Que há águas de outra espécie Banhando prados com melhores horas,— Dessas outras regiões pra que falar-me Se estas águas e prados São de aqui e me agradam? Esta realidade os deuses deram E para bem real a deram externa. Que serão os meus sonhos Mais que a obra dos deuses? Deixai-me a Realidade do momento E os meus deuses tranquilos e imediatos Que não moram no vago Mas nos campos e rios. Deixai-me a vida ir-se pagãmente Acompanhada plas avenas ténues Com que os juncos das margens Se confessam de Pã. Vivei nos vossos sonhos e deixai-me O altar imortal onde é meu culto E a visível presença Dos meus próximos deuses. Inúteis procos do melhor que a vida, Deixai a vida aos crentes mais antigos Que a Cristo e a sua cruz E Maria chorando. Ceres, dona dos campos, me console E Apolo e Vénus, e Urano antigo E os trovões, com o interesse De irem da mão de Jove. 9-8-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 48. O desprezo de Campos pela exactidão de frases, considerando purismo absurdo o esforço em apurá-las e concentrá-las, dá em resultado o ele, em seus próprios versos, cair em coisas como a do oceano «lavando as costas», sem olhar aos dois sentidos, um do quais cómico, da palavra «costas», e esse outro do «Fui, como ervas, mas não me arrancaram», em que parece que é herbívoro. 1928 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 406. O nosso único esforço deve ser para que a nossa nação seja o mais culta, o mais sã, o mais pronta possível em todos os géneros de acção. O critério que nos mostra a superioridade de um país é a sua cultura, a sua moralidade e a sua energia. Cultura média, moralidade média e energia média. A Inglaterra do séc. XIX foi um dos países onde valeu realmente a pena viver-se. Não foram desse período os seus maiores poetas? É certo. E isso prova apenas que se não adaptara completamente ao espírito científico, característico do seu tempo, como Shakespeare e Milton ao do seu. * O valor de uma civilização mede-se pela cultura, saúde e energia dos seus membros. Uma nação só entregue à cultura pode produzir grandes poetas. * Chateaubriand, ao querer que fosse religiosa a literatura, errou. A literatura não é um fenómeno religioso. Os homens da Renascença que, no geral, punham a religião fora da poesia, seguiam um bom caminho. Assim deve ser. * A poesia metafísica é ilegítima. Como assim se a metafísica é legítima, e a poesia é um produto intelectual, como o é a metafísica? Porque a poesia não é um produto exclusivamente intelectual. Baseia-se no sentimento, ainda que se exprima pela inteligência. A inteligência deve servir-lhe apenas para interpretar o sentimento. Tudo o mais é, ou pensado com o sentimento, ou sentido com a inteligência. Pensar com o sentimento, sentir com a inteligência — qualquer destas coisas é doentia [...]. Não quero pretender que a sugestão se exclua da poesia. O mistério mais facilmente se sente quando sugerido do que quando dito. Mas só o mistério deve ser sugerido. 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 400. O mar jaz; gemem em segredo os ventos Em Éolo cativos; Só com as pontas do tridente as vastas Águas franze Neptuno; E a praia é alva e cheia de pequenos Brilhos sob o sol claro. Inutilmente parecemos grandes. Nada, no alheio mundo, Nossa vista grandeza reconhece Ou com razão nos serve. Se aqui de um manso mar meu fundo indício Três ondas o apagam, Que me fará o mar que na atra praia Ecoa de Saturno? 6-10-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 50. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. A arte consiste na organização ideal da matéria. A matéria, para ser idealmente organizada, tem primeiro que assumir um aspecto ideal o que quer dizer abstracto, pois a abstracção é o começo do ideal - a negação da matéria. Temos como abstracção máxima da matéria [?] o espaço com as suas 3 dimensões; do pensamento [?] a palavra, com as suas três dimensões também, que são a ideia, a imagem e o ritmo, porque toda palavra representa uma ideia, projecta uma imagem e tem um som. A escultura e a poesia, a idealização humana do espaço e a idealização humana da palavra, são pois as duas únicas artes grandes. A distinção pode provar-se com o uso de termos filosóficos. Na prosa o ritmo existe; na poesia o ritmo é. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 407. Antes de nós nos mesmos arvoredos Passou o vento, quando havia vento, E as folhas não falavam De outro modo do que hoje. Passamos e agitamo-nos debalde. Não fazemos mais ruído no que existe Do que as folhas das árvores Ou os passos do vento. Tentemos pois com abandono assíduo Entregar nosso esforço à Natureza E não querer mais vida Que a das árvores verdes. Inutilmente parecemos grandes. Salvo nós nada pelo mundo fora Nos saúda a grandeza Nem sem querer nos serve. Se aqui, à beira-mar, o meu indício Na areia o mar com ondas três o apaga. Que fará na alta praia Em que o mar é o Tempo? 8-10-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 52. …a própria sensualidade com sua animalidade directa devem ser excluídas da arte. Essas coisas não são arte: são vida. A arte deve dar o material, mas tornado imaterial. O verso de Cesário. Isso é fotográfico, não pictural. E a fotografia não é arte porque reproduz exactamente a matéria. Só é arte pela escolha (do assunto, da posição, etc.) porque a arte é escolha. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 408. Acima da verdade estão os deuses. A nossa ciência é uma falhada cópia Da certeza com que eles Sabem que há o Universo. Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses, Não pertence à ciência conhecê-los, Mas adorar devemos Seus vultos como às flores, Porque visíveis à nossa alta vista, São tão reais como reais as flores E no seu calmo Olimpo São outra Natureza. 16-10-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 53. A música é apenas a forma subtilizada das artes de comunicação social. A música é a forma abstracta de entreter. Artes de comunicação social [Artes de comunicação ] externa (escultura: máx[ima]) [Artes de comunicação] interna [: ] prosa e o verso a, que são modos inteiramente diferentes. O verso é mais abstracto que a prosa porque, em vez de discorrer, impõe. Para Pessoa a filosofia é uma arte, para Campos é não uma arte, mas uma ciência virtual. Para mim nada é, ou, quando muito, é um simulacro de ciência, feita sem dados: a tentativa de construir uma ciência original sem dados alguns. A prosa está para a poesia como a pintura para a escultura. Na escultura, que é o tipo da arte, servimo-nos da forma da vida e da matéria da não-vida. Possivelmente: só duas artes: a escultura, que é a imposição da forma particular da vida à matéria material, e a poesia, que é a imposição da forma geral da vida à matéria mental. As outras artes são subtracções destas. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 409. Anjos ou deuses, sempre nós tivemos A visão perturbada de que acima De nós e compelindo-nos Agem outras presenças. Como acima dos gados que há nos campos O nosso esforço, que eles não compreendem. Os coage e obriga E eles não nos percebem, Nossa vontade e o nosso pensamento São as mãos pelas quais outros nos guiam Para onde eles querem E nós não desejamos. 16-10-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 54. Tudo, desde ermos astros afastados A nós, nos dá o mundo. E a tudo, alheios, nos acrescentamos, Pensando e interpretando. A próxima erva a que não chega basta, O que há é o melhor. 10-12-1931 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 136. Quando há alguma coisa de belo a dizer em vida, esculpe-se; quando há alguma coisa de belo a dizer em alma, faz-se versos. A prosa é para a correspondência - quer a correspondência particular, quer a correspondência geral, chamada literatura. A poesia não é literatura: é Arte. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 410. Tirem-me os deuses Em seu arbítrio Superior e urdido às escondidas O Amor, gloria e riqueza. Tirem, mas deixem-me, Deixem-me apenas A consciência lúcida e solene Das coisas e dos seres. Pouco me importa Amor ou glória. A riqueza é um metal, a gloria é um eco E o amor uma sombra. Mas a concisa Atenção dada Às formas e as maneiras dos objectos Tem abrigo seguro. Seus fundamentos São todo o mundo, Seu amor é o plácido Universo. Sua riqueza a vida. A sua glória É a suprema Certeza da solene e clara posse Das formas dos objectos. O resto passa, E teme a morte. Só nada teme ou sofre a visão clara E inútil do Universo. Essa a si basta, Nada deseja Salvo o orgulho de ver sempre claro Até deixar de ver. 6-6-1915 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 55. A arte existe, não, como quer Campos, para substituir a vida, senão para a completar. Tudo na vida, excepto o desejo do homem, é irracional e imperfeito; na arte o homem projecta o seu desejo e a vontade de perfeição que há nele. Por isso a obra de arte deve, conservando a forma da vida, substituir-lhe a matéria: a escultura é na limpeza da pedra, que não na porcaria do corpo; a poesia é na música do ritmo lida que não na falta de música da palavra simplesmente falada. Na arte deve ser eliminado todo elemento que recorde a matéria da vida; conservado tudo que recorde a sua forma. Assim, não aceito como arte o verso nauseabundo de Cesário Verde, a propósito dos cegos: Rolam os olhos como dois escarros. Repudio a tese frequente, de que a arte tenha que ir buscar a sua simplicidade à simplicidade infantil. Na criança há simplicidade; na arte há simplificação, que é o contrário. A frase infantil tem analogia com a frase de graça, ou espírito: representa sem hesitação uma ideia que nasce sem reflectir, fruto, por vezes, de uma confusão do pensamento. A arte baseia-se na vida, porém, não como matéria mas como forma. Sendo a arte um produto directo do pensamento, é do pensamento que se serve como matéria; a fprma vai buscá-la à vida. A obra de arte é um pensamento tornado vida: um desejo realizado em si mesmo. Como realizado tem que usar a forma da vida, que é essencialmente a realização; como realizado em si mesmo tem que tirar de si a matéria com que realiza. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 411. N. do A.: «Ricardo Reis (?) (ou Ant. Mora)». Bocas roxas de vinho Testas brancas sob rosas, Nus, brancos antebraços Deixados sobre a mesa: Tal seja, Lídia, o quadro Em que fiquemos, mudos, Eternamente inscritos Na consciência dos deuses. Antes isto que a vida Como os homens a vivem, Cheia da negra poeira Que erguem das estradas. Só os deuses socorrem Com seu exemplo aqueles Que nada mais pretendem Que ir no rio das coisas. 29-8-1915 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 57. Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia Tinha não sei qual guerra, Quando a invasão ardia na Cidade E as mulheres gritavam, Dois jogadores de xadrez jogavam O seu jogo contínuo. À sombra de ampla árvore fitavam O tabuleiro antigo, E, ao lado de cada um, esperando os seus Momentos mais folgados, Quando havia movido a pedra, e agora Esperava o adversário, Um púcaro com vinho refrescava Sobriamente a sua sede. Ardiam casas, saqueadas eram As arcas e as paredes, Violadas, as mulheres eram postas Contra os muros caídos, Traspassadas de lanças, as crianças Eram sangue nas ruas... Mas onde estavam, perto da cidade, E longe do seu ruído, Os jogadores de xadrez jogavam O jogo do xadrez. Inda que nas mensagens do ermo vento Lhes viessem os gritos, E, ao reflectir, soubessem desde a alma Que por certo as mulheres E as tenras filhas violadas eram Nessa distância próxima, Inda que, no momento que o pensavam, Uma sombra ligeira Lhes passasse na fronte alheada e vaga, Breve seus olhos calmos Volviam sua atenta confiança Ao tabuleiro velho. Quando o rei de marfim está em perigo, Que importa a carne e o osso Das irmãs e das mães e das crianças? Quando a torre não cobre A retirada da rainha branca, O saque pouco importa. E quando a mão confiada leva o xeque Ao rei do adversário, Pouco pesa na alma que lá longe Estejam morrendo filhos. Mesmo que, de repente, sobre o muro Surja a sanhuda face Dum guerreiro invasor, e breve deva Em sangue ali cair O jogador solene de xadrez, O momento antes desse (É ainda dado ao cálculo dum lance Pra a efeito horas depois) É ainda entregue ao jogo predilecto Dos grandes indiferentes. Caiam cidades, sofram povos, cesse A liberdade e a vida, Os haveres tranquilos e avitos Ardem e que se arranquem, Mas quando a guerra os jogos interrompa, Esteja o rei sem xeque, E o de marfim peão mais avançado Pronto a comprar a torre. Meus irmãos em amarmos Epicuro E o entendermos mais De acordo com nós-próprios que com ele, Aprendamos na história Dos calmos jogadores de xadrez Como passar a vida. Tudo o que é sério pouco nos importe, O grave pouco pese, O natural impulsa dos instintos Que ceda ao inútil gozo (Sob a sombra tranquila do arvoredo) De jogar um bom jogo. O que levamos desta vida inútil Tanto vale se é A glória; a fama, o amor, a ciência, a vida, Como se fosse apenas A memória de um jogo bem jogado E uma partida ganha A um jogador melhor. A glória pesa como um fardo rico, A fama como a febre, O amor cansa, porque é a sério e busca, A ciência nunca encontra, E a vida passa e dói porque o conhece... O jogo do xadrez Prende a alma toda, mas, perdido, pouco Pesa, pois não é nada. Ah! sob as sombras que sem querer nos amam, Com um púcaro de vinho Ao lado, e atentos só à inútil faina Do jogo do xadrez, Mesmo que o jogo seja apenas sonho E não haja parceiro, Imitemos os persas desta história, E, enquanto lá por fora, Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida Chamam por nós, deixemos Que em vão nos chamem, cada um de nós Sob as sombras amigas Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez A sua indiferença. 1-6-1916 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 57. Prefiro rosas, meu amor, à pátria, E antes magnólias amo Que a glória e a virtude. Logo que a vida me não canse, deixo Que a vida por mim passe Logo que eu fique o mesmo. Que importa àquele a quem já nada importa Que um perca e outro vença, Se a aurora raia sempre, Se cada ano com a Primavera As folhas aparecem E com o Outono cessam? E o resto, as outras coisas que os humanos Acrescentam à vida, Que me aumentam na alma? Nada, salvo o desejo de indiferença E a confiança mole Na hora fugitiva. 1-6-1916 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 64. Ninguém, na vasta selva virgem Do mundo inumerável, finalmente Vê o Deus que conhece. Só o que a brisa traz se ouve na brisa O que pensamos, seja amor ou deuses, Passa, porque passamos. 10-12-1931 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 137. Se a cada coisa que há um deus compete, Porque não haverá de mim um deus? Porque o não serei eu? É em mim que o Deus anima Porque eu sinto. O mundo externo claramente vejo — Coisas, homens, sem alma. 12-1931 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 138. Querido Mestre: Quando decidimos conjugar os nossos esforços para iniciar uma renascença neoclássica na Europa, mal sabíamos que a vontade de Júpiter de nascença nos havia fadado para assim nos conjugarmos. Para produzir esse movimento mister era não só que houvesse uma reconstituição da alma antiga, mas, mais, porque se não podia simplesmente transplantar para hoje o sentimento pagão, dar a essa renascença uma base metafísica. Uma renascença clássica queria dizer, para nós, uma continuação da tradição grega. E uma continuação da trad[ição ] grega queria dizer um alargamento e renovação da própria tradição grega, feitos dentro dos princípios eternos do espírito que preside ao helenismo. Para o papel aparentemente principal de recondutor da alma pagã, sabeis bem que o Fado me fizera nascer. Excuso de vos falar de como eu sou de meu espontâneo ser, um crente verdadeiro e profundo na existência dos deuses imortais. Sabeis bem como, para mim, Júpiter, Vénus, Apolo e as mais presenças imorredouras que presidem à nossa vida transitória, são realidades e existências concretas. Agradeço-vos ainda o não vos ter custado a acreditar que [sou] verdadeiramente um crente verdadeiro nos deuses. Seria natural que julgásseis isto uma atitude poética. Estranho parece a um homem de hoje, - crente que seja no deus chamado Jesus, - que alguém com ele coexista que realmente sinta a existência de Júpiter, de Apolo, das amazonas [ ?], das nereidas, dos faunos e dos silenos. Separou-nos, no espaço e na duração da vida, aquele que é superior aos próprios deuses, o Fado mas a vontade sincrética dos deuses segue o seu caminho dentro de nós. Aproximou-nos mais o nosso destino sinérgico. E ao passo que se aperfeiçoava em vós a nossa lúcida e nova visão do universo, completava-se em mim a posse inteira e desterrada dos deuses cuja ideia foi a aspiração da minha infância e a estalagem - da minha idade viril. Trazíeis vós ao turbulento movimento literário português todo o Universo que estava dentro de nós. Mais humilde, eu trazia, Mestre, a re-visão lúcida dos deuses, a renascida crença antiga, que o turbilhão de falsos deuses cristãos, santos de seu nome, havia sepulto. Do nosso unido esforço nascerá decerto o primeiro impulso da Nova Renascença. Nunca tivemos a ilusão da humildade, nem julgámos a nossa arte com um olhar menos nobre e altivo que o que Milton deve ter tido para as primeiras páginas do seu Paraíso Perdido, para a clássica escultura do seu Sansão Agonistes. Nunca nos enganaram, a mim, os Corneilles e os Racines do classicismo dos inferiores; a vós os materialistas estéreis e secos da nossa (...) civilização. Sabíamos de sobra o quanto houve de estéril em querer erguer uma arte clássica sem primeiro varrer de cima dos nossos sentimentos todo o lixo com que o cristianismo os cobriu. Os Corneilles e os Racines nunca nos enganaram. Não confundimos nunca a secura da alma com a calma posse de nós-próprios, nem a incapacidade de sentir com a disciplina poderosa e espontânea dos próprios sentimentos. Por instinto vós, e eu pela minha educação, sobreposta a esse instinto também, fizemos esse erro de acreditarmos que haveria clássicos e gregos aqui da Grécia ou talvez de Roma. Nesta suja e estéril república longínqua tudo é de jeito a cada vez mais, por uma reacção, me dar paganismo. Os meus pensamentos vão todos para essa paisagem lúcida e calma de Portugal, tão naturalmente predestinada a produzir os homens que tomarão das mãos longínquas dos gregos o facho do sentimento pagão (Naturalista). s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 361. Carta a Caeiro Todos os movimentos que, adentro da nossa civilização, tem havido no sentido do paganismo, têm pecado pela sua origem cristã. Todos os pseudo-pagãos do nosso tempo não conseguiram uma alma pagã antes de projectarem o seu paganismo. É cristão o sentimento com que desejam o paganismo. Quando muito, pode dizer-se deles que têm uma ânsia cristã do paganismo. Em nenhum caso se pode deles dizer que têm um conceito justo do paganismo. Podem sentir altamente a beleza e a calma dos deuses; mas de que serve que o façam, se por pagã que seja, ou pretendam que seja, a sua inteligência — ou, quando muito, a sua imaginação —, a sua sensibilidade está secularmente cristianizada? Estas considerações se aplicam a todos, sem excepção, quantos têm querido reconstruir o paganismo desde que ele morreu. Dirigem-se tanto ao esforço reconstrutor de um Matthew Arnold, como ao de um Óscar Wilde. Em Nietzsche, em que mais parecia que se devesse falar, é melhor que não falemos, tão repelentemente cristã se contorce aquela débil e doentia mentalidade. Em todos eles, obscuramente, na mais buscadamente pagã das suas atitudes, uma sugestão cristã se insinua — a consciência do pecado, não talvez conscientemente tal, mas o mal especial, o desvio de espírito que séculos de tal concepção radicaram na alma. Para se ser pagão não basta admirar a religião morta dos gregos ou dos romanos. Não basta que se ache beleza aos deuses, ou, mesmo, que se creia objectivamente na sua existência. Não basta que se ache consoladora a calma dos antigos, ou prática e severa a sua sabedoria. Tudo isso não é mais que uma ou outra das consequências do espírito pagão. Na sua essência o paganismo é outra coisa, que pode dispensar esses resultados e, contudo, ser mais pagã do que eles. Não seria perdoável que houvéssemos feito estas objecções ao paganismo suposto dos modernos, se as não completássemos com uma, sumária talvez mas suficiente, consideração de quais sejam, deveras, as características essenciais do paganismo. Como estamos todos, mais ou menos, adentro da sensibilidade e da intuição cristãs, o mais útil será que essa definição, que vamos fazer, seja feita em uma atitude de comparação com o sentimentalismo cristista. Diremos o que é o paganismo nas três esferas em que mais naturalmente, a actividade do espírito parece dividir-se (manifestar-se). Exporemos o que é que, nas esferas da inteligência, da sensibilidade e do alvedrio (vontade) quer dizer o paganismo. Tudo o mais — tanto os deuses como as atitudes filosóficas que do paganismo emanaram — são o que ele foi em relação à época em que se manifestou, não o que, na sua essência, ele era. Na esfera da inteligência o paganismo define-se como uma objectividade absoluta e concreta. No que objectividade absoluta, distingue-se do cristianismo, que, admitindo elementos objectivos na sua actividade intelectual, porquanto, essencialmente dualista (qualquer que seja a forma que o seu dualismo tome — ou a clássica, ou uma, como a de Kant, a cisão em razão pura e razão prática) ( . . . ). Por outro lado, o paganismo, no que objectividade concreta, distingue-se do budismo, forma culminante da Weltanschauung da Índia. O budismo — que poucos deveras conhecem — é um objectivismo absoluto também, mas não é um objectivismo absoluto e concreto. O budista é um pagão para quem o sentido da matéria se alarga indefinidamente. Não quer isto dizer que no paganismo não tivesse havido filósofos em quem é difícil encontrar este tipo de mentalidade. * A sensibilidade cristã gravita em torno à ideia pecado. Não sempre conscientemente, mas de qual maneira sempre, gravita em torno a ela. Para se contestar a verdade do que afirmo, é preciso que se não veja em que várias formas se pode revelar essa ideia. Não é sempre no seu efeito simples, de receio de pecar, que ela se revela. No seu outro aspecto, o da salvação, ela é importante também. A mentalidade cristã, constitucionalmente acostumada a encarar esta vida como prelúdio de outra e subordinada a ela, tanto como importância, como no que acção, criou, deixando-a herdada, na massa do sangue a gerações já descrentes nela, uma atitude da sensibilidade que se pode definir como um desprezo da vida no que exclusivamente vida. O cristão despreza a vida propriamente tal. * Alberto Caeiro é mais pagão que o paganismo, porque é mais consciente da essência do que qualquer outro escritor pagão. Como o poderia ser um pagão se concebia a essência do seu psiquismo em oposição a um sistema diferente de sensibilidade, como o cristianismo é? E quando se abria o conflito entre paganismo e cristianismo, na ascensão deste último, já a entorpecida e decadente mentalidade dos povos romanos era propriamente cristã, e não pagã de modo nenhum. O assunto mede-se bem quando se medita a tentativa de reacção de Juliano. Esse imperador quis, realmente, estabelecer o paganismo, numa época — ai dele! — em que o sentimento do paganismo já não existia, mas apenas um culto dos deuses em que a essência da superstição mais era aquela que havia de ser típica do cristismo, que a de uma espécie qualquer do genus paganismo. Nas próprias ideias de Juliano se reflecte a incapacidade do tempo para uma reconstrução do paganismo. Juliano era, propriamente, um mitraísta, o que hoje se chamaria um teosofista ou um ocultista. A sua reconstrução do paganismo baseava-se, fantasticamente, numa fusão dele com elementos orientais que a fúria mística do tempo havia tornado parte do espírito da época. E assim falhou, na verdade porque o paganismo tinha morrido, como morrem todas as coisas, salvo os Deuses e a sua inscrutável ciência atormentadora. As considerações, que tenho feito, considero-as sobretudo aplicáveis a O Guardador de Rebanhos. A outra parte da obra de Caeiro, que não constitui senão fragmentos, tenho-a por póstuma mesmo na sua composição. Desde O Pastor Amoroso, a sensibilidade de Caeiro empana-se, a sua inteligência anuvia-se, e, embora do contacto dessa complexidade nascente com a essencial simplicidade do temperamento nasça esse estranho e original sabor que tais poemas revelam, a obra, grande embora, não é já a mesma. Por um lado, falta-lhe o equilíbrio e a lucidez absoluta que são todo o valor real da obra primitiva; por outro lado, no que conservam de rigorosamente semelhante a O Guardador de Rebanhos, não fazem senão repeti-lo, numa forma sempre superior intelectualmente, mas com um conteúdo nem sempre suficientemente novo para que justifique que esses poemas se escrevam, estando já escrito O Guardador de Rebanhos. Dir-se-á, ainda, comparando o que Caeiro é com o que eu desenhei como sendo o espírito do pagão, que, por nítida que seja a concordância entre o génio da obra do poeta [e] a parte intelectual do paganismo, a semelhança falha um pouco no que respeita à sensibilidade, e muito quanto aos princípios pregados para constituírem categorias de acção. Mas esses, que faltam, tinha-os o paganismo por haver uma sociedade pagã; o reconstrutor moderno do paganismo pode, como Caeiro, por um alto dom dos Deuses, atingir a inteligência e a sensibilidade do pagão; não pode nunca pregar a acção pagã porque a acção é social, e não há sociedade pagã a que essa acção corresponda. E, por mais, um indivíduo de sensibilidade pagã sente-se isolado entre a nossa sociedade; à sua mentalidade de pagão se adiciona, portanto, o que provém da sua vida de isolado, por onde se vê que à nitidez, ao (...) pagãos se soma o que não pode deixar de ter um isolado pagão moderno. * Mas eu encaro a obra de Caeiro não só pelo seu aspecto de beleza, como também pelo seu aspecto de consolação. Para o espírito que se sente exilado entre a confusão e a imperícia da vida contemporânea, há momentos em que o peso dessa diferença tão dolorosamente se acentua, que é preciso qualquer reflexo da placidez e da grandeza antigas para obstar a que advenham as piores maldades do desespero. Tenho sentido muitas vezes, e com agudeza, essa sensação de exílio entre os objectos que o Cristianismo produziu. Nunca logrei para ela remédio entre os autores da antiguidade; eles não conheceram o nosso mal de espírito, e por isso não [puderam?] escrever em relação a ele. São inocentes, mesmo os mais poluídos. Lê-los exaspera-me o mal que a vida de hoje me causa. É como uma criança que brincasse comigo, exasperando o meu mal de adulto com a sua simplicidade simples demais. Nestas horas turvas a única fonte de consolação para a minha alma tem sido o manuscrito, que sempre me acompanha, de O Guardador de Rebanhos. Ele tem toda a simplicidade, toda a grandeza, toda a posse das coisas que os antigos tinham; mas, escrito já em oposição aos tempos modernos que o viram nascer, dá-nos já como bálsamo o que nos outros era só frescura; e onde os outros nos alegravam mal, como crianças inexpertas, este nos consola e acarinha como velhos prudentes e habituados a desculpar a vida. Ainda que eu não pudesse sentir como belas as produções de Alberto Caeiro, eu sempre as sentiria como consoladoras. E por isso, quando não lhes devesse o tributo da minha admiração, não poderia negar-lhes o do meu reconhecimento. Como as duas razões para amar esta obra se juntam no meu espírito, ela ergue-se para mim, pela minha inteligência como pelo meu sentimento, acima de todas as outras obras que eu haja lido, e elas incluem, creio que de mais nobre e de mais tranquilo a antiguidade nos legou, desde a inspiração matutina de Homero o ou de um Marco Aurélio (ou de um Antonino). 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 315. Prefácio a Caeiro Por isso, quando me declaro pagão, e amo a obra de Caeiro, porque ela envolve uma reconstrução integral da essência do paganismo, eu não sobreponho a esse amor quaisquer esperanças no futuro. Não creio em uma paganização da Europa ou de qualquer outra sociedade. O paganismo morreu. O cristianismo, que por decadência e degeneração descende dele, substituiu-[o] definitivamente. Está envenenada para sempre a alma humana. Não há recurso ou apelo senão para a indiferença ou para o desdém, se valesse a pena o esforço doloroso de sinceramente desdenhar. A própria afirmação destes princípios, por inteiramente estéril, é escusada. Faço-a porque não podia evitar fazê-la ao prefaciar a obra de Caeiro. Poderia alargá-la muito mais, desdobrá-la, acumular argumentos que melhor a demonstrassem. Prefiro renunciar a fazê-lo. Creio que o paganismo representa a mais verdadeira e a mais útil das fés; creio mesmo que não representa uma fé, mas uma visão intelectual da verdade. A civilização que ele criou soube ser, na perturbada Grécia política, o exemplar eterno da tranquilidade e da posse da vida, e, na Roma degenerada de nascença, ainda assim o maior edifício de disciplina social que foi imposto ao mundo. Com a vitória do cristianismo os poderes da sombra apoderaram-se da vida. A nossa civilização contém brilho, inteligência, força. Mas é feita por homens que as ideias arrastam, que não estão de posse das suas pessoas morais. O facto, porém, é que essa civilização triunfou. No mistério dos seus desígnios os Deuses talvez saibam porquê. É possível, porém, que nem Eles próprios o saibam. Ao pagão moderno, exilado e casual no meio de uma civilização inimiga, só pode convir uma das duas formas últimas da especulação pagã — ou o estoicismo, ou o epicurismo. Alberto Caeiro não foi nem um nem outro, porque foi o Paganismo Absoluto, sem ramificação ou intenção segunda. Por mim se em mim posso falar, quero ser ao mesmo tempo epicurista e estóico, certo que estou da inutilidade de toda a acção num mundo em que a acção está em erro, e de todo o pensamento, em que um mundo onde o modo de pensar se esqueceu. Parecendo assim que não somos mais que degenerados filhos da civilização cristã, indiferentes por doença e por fastio, não o somos. Um destino misterioso nos deslocou. Como engenheiros que houvéssemos nascido nos sertões africanos, trazemos em nós capacidades que não podemos realizar, o esboço de um destino que não poderemos cumprir. O nosso espírito não tem pontos de contacto com esta endurecida e secular mentira do monoteísmo humanitário que caracteriza o cristianismo. Temos uma aversão por uma civilização tão falsa que lhe faltam os escravos, tão imperfeita que vive da subordinação da inteligência às emoções, e que, por mais que se pareça afastar da sua doença religiosa, mais tende para ela, porque mais se encaminha para aqueles delírios humanitários que distinguem a mentalidade dos escravos, e, onde o não faz, enquista na dureza absurda dos princípios queridos dos alemães, exagero dum paganismo falso — provando assim quanto a mentalidade civilizada se tornou incapaz de equilíbrio, de meio termo, de ponderação. Mas estes «nós», em nome de quem falo, que pessoas são? Sei de mim, de Caeiro hoje morto, de mais dois em toda a extensão de gente que conheço. Que fosse só eu, e não importava. Que fossem mil, e era a mesma coisa. Aquele a quem uma vez os deuses concederam que visse a verdade das coisas na sua simplicidade irremediável não precisa senão da lucidez do espírito e da firmeza e insensibilidade do coração, incapaz que se torna de se comprazer nas saturnálias do humanitarismo e da vida moderna. O resto jaz naquele ponto de luz a que chamamos Sombra, o grande Ponto anterior aos Deuses, para onde, na mortalidade absoluta absoluta das nossas almas, a nossa efémera vida inutilmente tende, inutilmente atinge, inutilmente para sempre permanece. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 322. Prefácio a Caeiro O homem extraordinário, cujos poemas, não só inéditos, mas também insuspeitos [? ] se coligem na presente edição, merece do público, que porventura o leia, um interesse que, podendo ser que ele lhe não dê sem esclarecimento prévio, desejo, nestas linhas de prefácio, indicar como, e porquê, merecido. À primeira vista, a obra de Caeiro, aqui inteiramente coligida, não parece divergir, salvo em pontos secundários, das elocubrações métricas de tantos poetas nossos coevos, e um pouco anteriores, em quem o principal característico de inspiração é a indisciplina e o individualismo das sensações e dos sentimentos, e o mais patente distúrbio da dicção o caso libérrimo da linguagem, que, liberto não só da rima, como também dos ritmos tradicionais, se dá como seguindo o ritmo interior, a sequência desordenada da energia que surge no espírito. Assim o americano Whitman, o belga Maeterlinck e, na nova [...]. Mas não há semelhança [...] entre Caeiro e estes. A estes autores modernos convém aquela designação de sensacionistas, que alguns poetas do nosso Orpheu escolheram para designar(em)-se. São pessoas que não têm outro intuito artístico, que não o de exporem as suas sensações, e isto sem mesmo aquela disciplina rudimentar que deriva do emprego das formas convencionais da literatura em verso. Não têm a disciplina de uma teoria estética que transcenda os seus temperamentos, nem a de uma teoria religiosa cujos lemas excedam os seus caprichos, nem a de uma doutrina filosófica que, através das suas inteligências, subordine as suas sensibilidades. A disciplina é sempre exterior, embora nem sempre aplicada de fora. As leis do meu temperamento nunca podem constituir uma disciplina minha. Uma disciplina é um princípio regrador da vida e da obra, que a inteligência aceita como verdadeira, e a sensibilidade aceita por boa. Sem a acção sobre tanto sensibilidade como inteligência, não há disciplina: se a inteligência aceita e a sensibilidade não, há um mero diletantismo; se o inverso, há um conflito esterilizante, anarquizador. Os românticos eram cristãos da sensibilidade e pagãos do pensamento; os neoclássicos eram cristãos do pensamento e pagãos na sensibilidade. Por isso a arte de uns e de outros resultou débil e, desde nada, caduca. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 380. Prefácio a Caeiro. Alberto Caeiro da Silva nasceu em Lisboa a (...) de Abril de 1889, e nessa cidade faleceu, tuberculoso, em (...) de (...) 1915. A sua vida, porém, decorreu quase toda numa quinta do Ribatejo (?); só os últimos meses dele foram de novo passados na sua cidade natal. Ali foram escritos quase todos os seus poemas, os do livro intitulado O Guardador de Rebanhos, os do livro, ou o quer que fosse, incompleto, chamado O Pastor Amoroso, e alguns, os primeiros, que eu mesmo, herdando-os para publicar, com todos os outros, reuni sob a designação, que Álvaro de Campos me sugeriu bem, de Poemas Inconjuntos. Os últimos poemas, a partir daquele numerado (.. ), são porém produto do último período da vida do autor, de novo passado em Lisboa. Julgo de meu dever estabelecer esta breve distinção, pois alguns desses últimos poemas revelam, pela perturbação da doença, uma novidade um pouco estranha ao carácter geral da obra, assim em natureza como em direcção. A vida de Caeiro não pode narrar-se pois que não há nela de que narrar. Seus poemas são o que houve nele de vida. Em tudo mais não houve incidentes, nem há história. O mesmo breve episódio, improfícuo e absurdo, que deu origem aos poemas de O Pastor Amoroso , não foi um incidente, senão, por assim dizer, um esquecimento. A obra de Caeiro representa a reconstrução integral do paganismo, na sua essência absoluta, tal como nem os gregos nem os romanos, que viveram nele e por isso o não pensaram, o puderam fazer. A obra, porém, e o seu paganismo, não foram nem pensados nem até sentidos: foram vindos com o que quer que seja que é em nós mais profundo que o sentimento ou a razão. Dizer mais fora explicar, o que de nada serve; afirmar menos fora mentir. Toda obra fala por si, com a voz que lhe é própria, e naquela linguagem em que se forma na mente, quem não entende não pode entender, e não há pois que explicar-lhe. É como fazer compreender a alguém um idioma que ele não fala. Ignorante da vida e quase ignorante das letras, sem convívio nem cultura, fez Caeiro a sua obra um progresso imperceptível e profundo, como aquele que dirige, através das consciências inconscientes dos homens, o desenvolvimento lógico das civilizações. Foi um progresso de sensações, ou, antes, de maneiras de as ter, e uma evolução íntima de pensamentos derivados de tais sensações progressivas. Por uma intuição sobre-humana, como aquelas que fundam religiões, porém a que não assenta o título de religiosa, por isso que repugna toda a religião e toda a metafísica, este homem descreveu [??] o mundo sem pensar nele, e criou um conceito do universo que não contém uma interpretação. [?] Pensei, quando primeiro me foi entregada a empresa de publicar estes livros, em fazer um largo estudo crítico e excursivo sobre a obra de Caeiro e a sua natureza e natural destino. Porém não pude fazer estudo algum que me satisfizesse. Pesa-me que a razão me compila a dizer estas nenhumas palavras (este pouco de palavras) ante a obra do meu Mestre, de não poder escrever, de útil ou de necessário, mais que disse, com o coração, na Ode (...) do Livro I meu, com a qual choro o homem que foi para mim, como virá a ser para mais que muitos, o revelador da Realidade, ou, como ele mesmo disse, «o Argonauta das sensações verdadeiras» — o grande Libertador, que nos restituiu, cantando, ao nada luminoso que somos, que nos arrancou à morte e à vida, deixando-nos entre as simples coisas, que nada conhecem, em seu decurso, de viver nem de morrer; que nos livrou da esperança e da desesperança, para que nos não consolemos sem razão nem nos entristeçamos sem causa; convivas com ele, sem pensar, da necessidade objectiva do Universo. Dou a obra, cuja edição me foi cometida, ao acaso fatal do mundo. Dou-a e digo: Alegrai-vos, todos vós que chorais na maior das doenças da História! O grande Pã renasceu! Esta obra inteira é dedicada por desejo do próprio autor à memória de Cesário Verde. s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 329. Prefácio a Caeiro Quando pela primeira vez, estando então em Portugal, ouvi ler O Guardador de Rebanhos tive a maior e a mais perfeita sensação da m[inha] vida. Rolou-se-me de sobre o coração, de repente, todo o peso da nossa civilização portuguesa, todo o peso do cristianismo avito cuja sombra jaz sobre a nossa alma. Respirei outra vez a grandeza [?], a força e a singela perfeição das grandes emoções primitivas, provindas da natureza sem data das almas. Abriram-se-me de par em par, visualmente, as portas com que Amon começa o dia. Senti-me diferente, como um mortal chamado ao convívio dos Deuses. E na verdade dos Deuses, que não de Caeiro, era aquela obra espantosa. Nunca poderei esquecer essas horas de surpreendente convívio em que vi, em toda a sua frescura e certeza, a Natureza natural frente a frente. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 381. Prefácio a Caeiro. Alberto Caeiro é, cremos, o maior poeta do século vinte, porque é o mais completo subversor de todas as sensibilidades diversamente conhecidas, e de todas as fórmulas intelectuais variamente aceites. Viveu e passou obscuro e desconhecido. É esse (dizem os ocultistas) o distintivo (sinal) dos Mestres. Os próprios gregos da grande Grécia, criadores do Objectivismo, não atingiram o Objectivismo Transcendente do assombroso português, a quem a Fama nada deu, porque ele nada lhe pediu; nem, se lhe pedisse, ela, (hoje tão injustamente pródiga) saberia que dar-lhe. A nossa gratidão vai para os srs. António Caeiro da Silva e Júlio Manuel Caeiro, a cuja cortesia devemos a cedência destes poemas. A obra do Mestre compõe-se, além destes, que formam o seu único livro inteiro, de «outros poemas e fragmentos». Confiamos em que os seus detentores não tardarão em dá-la à publicidade, se não à celebridade, porque essa só a obtêm (hoje), parece, os que a não merecem. A obra de Caeiro é mister que seja lida com uma atenção nova. Tudo é novo nela. Nem a substância intelectual, nem a arte das imagens, nem a própria figuração verbal têm precedentes ou alianças. Só a forma se ressente da [...] e da malícia da sua época. Os inovadores, por grandes que sejam, não podem ser tudo. E as grandes obras, dos poetas, são da sua época só pelos seus defeitos. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 382. Prefácio a Caeiro. António Mora? Morto o autor destes poemas, e deixados eles ao abandono, pediu-me aquela pessoa da sua família, que tomou sobre si o honesto encargo de os imprimir, que lhes pusesse aquele prefácio que só eu — escrevia — talvez lhes pudesse pôr. Grande fora a minha amizade, maior — porque maior pôde ser — a minha admiração pelo homem maravilhoso que criou estes poemas. Mas não acedi ao convite que me fora feito sem que primeiro, a sós com a minha reflexão, vezes sobre vezes hesitasse sobre se devia aceitar. A ter de escrever este prefácio eu tenho que dizer nele coisas de tal ordem que por certo parecerão aos leitores desproporcionadas e malcabidas. Falo de um desconhecido, prefacio poemas em todos os seus detalhes diferentes de quantos aqui se tenham escrito. E sem embargo, tenho que afirmar — porque outra coisa não posso afirmar — que estes poemas são os maiores que o século vinte tem produzido, que a visão filosófica que contêm não foi igualada por poeta algum moderno, recuando mesmo, neste juízo, até ao, fecundo, século anterior. Resume-se numa coisa, aparentemente muito simples, a obra de Alberto Caeiro — a reconstrução do sentimento pagão. Quem, como eu, estudioso das coisas pagãs nas suas fontes e origens, não pode senão rir do pseudopaganismo com que tantos modernos têm tentado abrir a sua carreira nas letras, quem, como eu, reconhece a inteira capacidade para compreender o paganismo, que existe naqueles — desde Chénier a Wilde — que mais presunçosamente quiseram dar-se por pagãos, pode afirmar bem que estes poemas contêm tudo o que o paganismo tinha de pagão. Mas não pode esperar que os outros o compreendam, porque ninguém hoje tem o sentimento do paganismo como ele foi. Têm alguns, quando muito, o sentimento do que o paganismo não foi. Uma coisa é, por exemplo, a estatuária grega, outra coisa o espírito de que ela é um produto. Pode sentir-se a estatuária grega, podem amar-se os deuses helenos, sem que haja a mínima noção do espírito que representam. O exemplo de Óscar Wilde serve mais do que qualquer outro. Wilde amou sem dúvida ambas estas manifestações do antigo. Ninguém menos que Wilde sentiu ou soube o que era o paganismo. Wilde, e tantos outros, tomaram o epicurismo como o supremo característico do pagão, quando é o estoicismo que maximamente o representa. O paganismo era, em relação ao cristianismo, uma religião triste, sim, profundamente triste. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 334. Prefácio a Caeiro Quanto faças, supremamente faze. Mais vale, se a memória é quanto temos, Lembrar muito que pouco. E se o muito no pouco te é possível, Mais ampla liberdade de lembrança Te tornará teu dono. 27-2-1932 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 139. Das tentativas de paganismo, que o século passado produziu, não há uma que não sofra de ser cristã. Mesmo Walter Pater, que unia a um perfeito entendimento do paganismo, um perfeito desejo de ser pagão, não passou de um cristão doente com ânsias de paganismo. A compreensão do paganismo, e o amor das verdades pagãs não bastam para fabricar um pagão. Um homem pode compreender por óptima a profissão militar, e senti-la por magnífica; e contudo ser falho de espírito de comando e de coragem física. Há uma sensibilidade da inteligência, e há uma sensibilidade de temperamento. Podem estar em desacordo, embora em geral o não estejam. Caeiro era pagão não só com a inteligência abstracta, não só com a sensibilidade da inteligência, mas também com a sensibilidade do temperamento. Melhor, era mais pagão com a sensibilidade do temperamento do que com a da inteligência. A falta de contorno e de regra na apresentação da sua obra denotam, com efeito, uma falha da sensibilidade da inteligência pagã; um perfeito pagão não aceitaria deixar-se escrever esses versos sem ritmo, essa prosa falsamente contada. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 352. Prefácio a Caeiro Sê o dono de ti Sem fechares os olhos. Na dura mão aperta Com um tacto encavado O mundo exterior Contra a palma sentindo Outra cousa que a palma. 11-8-1918 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 81. Rasteja mole pelos campos ermos O vento sossegado. Mais parece tremer de um tremor próprio, Que do vento, o que é erva. E se as nuvens no céu, brancas e altas, Se movem, mais parecem Que gira a terra rápida e elas passam, Por muito altas, lentas. Aqui neste sossego dilatado Me esquecerei de tudo, Nem hóspede será do que conheço A vida que deslembro. Assim meus dias seu decurso falso Gozarão verdadeiro. 27-2-1932 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 140. Azuis os montes que estão longe param. De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa, Ou verde ou amarelo ou variegado, Ondula incertamente. Débil como uma haste de papoila Me suporta o momento. Nada quero. Que pesa o escrúpulo do pensamento Na balança da vida? Como os campos, e vário, e como eles, Exterior a mim, me entrego, filho Ignorado do Caos e da Noite Às férias em que existo. 31-3-1932 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 141. Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros Onde que quer que estejamos. Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros Onde quer que moremos. Tudo é alheio Nem fala língua nossa. Façamos de nós mesmos o retiro Onde esconder-nos, tímidos do insulto Do tumulto do mundo. Que quer o amor mais que não ser dos outros? Como um segredo dito nos mistérios, Seja sacro por nosso. 9-6-1932 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 142. Severo narro. Quanto sinto, penso. Palavras são ideias. Múrmuro, o rio passa, e o que não passa, Que é nosso, não do rio. Assim quisesse o verso: meu e alheio E por mim mesmo lido. 16-6-1932 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 143. Mestre, são plácidas Todas as horas Que nós perdemos. Se no perdê-las, Qual numa jarra, Nós pomos flores. Não há tristezas Nem alegrias Na nossa vida. Assim saibamos, Sábios incautos, Não a viver, Mas decorrê-la, Tranquilos, plácidos, Tendo as crianças Por nossas mestras, E os olhos cheios De Natureza... A beira-rio, A beira-estrada, Conforme calha, Sempre no mesmo Leve descanso De estar vivendo. O tempo passa, Não nos diz nada. Envelhecemos. Saibamos, quase Maliciosos, Sentir-nos ir. Não vale a pena Fazer um gesto. Não se resiste Ao deus atroz Que os próprios filhos Devora sempre. Colhamos flores. Molhemos leves As nossas mãos Nos rios calmos, Para aprendermos Calma também. Girassóis sempre Fitando o Sol, Da vida iremos Tranquilos, tendo Nem o remorso De ter vivido. 12-6-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 13. Os deuses desterrados, Os irmãos de Saturno, Às vezes, no crepúsculo Vêm espreitar a vida. Vêm então ter connosco Remorsos e saudades E sentimentos falsos. É a presença deles, Deuses que o destroná-los Tornou espirituais, De matéria vencida, Longínqua e inactiva. Vêm, inúteis forças, Solicitar em nós As dores e os cansaços, Que nos tiram da mão, Como a um bêbedo mole, A taça da alegria. Vêm fazer-nos crer, Despeitadas ruínas De primitivas forças, Que o mundo é mais extenso Que o que se vê e palpa, Para que ofendamos A Júpiter e a Apolo. Assim até à beira Terrena do horizonte Hiperíon no crepúsculo Vem chorar pelo carro Que Apolo lhe roubou. E o poente tem cores Da dor dum deus longínquo E ouve-se soluçar Para além das esferas... Assim choram os deuses. 12-6-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 16. Coroai-me de rosas, Coroai-me em verdade De rosas — Rosas que se apagam Em fronte a apagar-se Tão cedo! Coroai-me de rosas E de folhas breves. E basta. 12-6-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 18. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. O deus Pã não morreu, Cada campo que mostra Aos sorrisos de Apolo Os peitos nus de Ceres — Cedo ou tarde vereis Por lá aparecer O deus Pã, o imortal. Não matou outros deuses O triste deus cristão. Cristo é um deus a mais, Talvez um que faltava. Pã continua a dar Os sons da sua flauta Aos ouvidos de Ceres Recumbente nos campos. Os deuses são os mesmos, Sempre claros e calmos, Cheios de eternidade E desprezo por nós, Trazendo o dia e a noite E as colheitas douradas Sem ser para nos dar O dia e a noite e o trigo Mas por outro e divino Propósito casual. 12-6-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 19. De Apolo o carro rodou pra fora Da vista. A poeira que levantara Ficou enchendo de leve névoa O horizonte; A flauta calma de Pã, descendo Seu tom agudo no ar pausado, Deus mais tristezas ao moribundo Dia suave. Cálida e loura, núbil e triste, Tu, mondadeira dos prados quentes, Ficas ouvindo, com os teus passos Mais arrastados, A flauta antiga do deus durando Com o ar que cresce pra vento leve, E sei que pensas na deusa clara Nada dos mares, E que vão ondas lá muito adentro Do que o teu seio sente cansado Enquanto a flauta sorrindo chora Palidamente. 12-6-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 21. Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos). Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, Mais longe que os deuses. Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente E sem desassossegos grandes. Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, Nem invejas que dão movimento demais aos olhos, Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria, E sempre iria ter ao mar. Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e caricias, Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro Ouvindo correr o rio e vendo-o. Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as No colo, e que o seu perfume suavize o momento — Este momento em que sossegadamente não cremos em nada, Pagãos inocentes da decadência. Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos Nem fomos mais do que crianças. E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio, Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti. Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio, Pagã triste e com flores no regaço. 12-6-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 23. Ao longe os montes têm neve ao sol, Mas é suave já o frio calmo Que alisa e agudece Os dardos do sol alto. Hoje, Neera, não nos escondamos, Nada nos falta, porque nada somos. Não esperamos nada E temos frio ao sol. Mas tal como é, gozemos o momento, Solenes na alegria levemente, E aguardando a morte Como quem a conhece. 16-6-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 25. Só o ter flores pela vista fora Nas áleas largas dos jardins exactos Basta para podermos Achar a vida leve. De todo o esforço seguremos quedas As mãos. brincando, pra que nos não tome Do pulso, e nos arraste. E vivamos assim. Buscando o mínimo de dor ou gozo, Bebendo a goles os instantes frescos, Translúcidos como água Em taças detalhadas, Da vida pálida levando apenas As rosas breves, os sorrisos vagos, E as rápidas caricias Dos instantes volúveis. Pouco tão pouco pesarei nos braços Com que, exilados das supernas luzes, Escolhermos do que fomos O melhor pra lembrar Quando, acabados pelas Parcas, formos, Vultos solenes de repente antigos, E cada vez mais sombras, Ao encontro fatal Do barco escuro no soturno rio, E os nove abraços do horror estígio, E o regaço insaciável Da pátria de Plutão. 16-6-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 26. A palidez do dia é levemente dourada. O sol de Inverno faz luzir como orvalho as curvas Dos troncos de ramos secos. O frio leve treme. Desterrado da pátria antiquíssima da minha Crença, consolado só por pensar nos deuses, Aqueço-me trémulo A outro sol do que este. O sol que havia sobre o Parténon e a Acrópole 0 que alumiava os passos lentos e graves De Aristóteles falando. Mas Epicuro melhor Me fala, com a sua cariciosa voz terrestre Tendo para os deuses uma atitude também de deus, Sereno e vendo a vida À distância a que está. 19-6-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 28. Seguro assento na coluna firme Dos versos em que fico. Aquele agudo interno movimento Por quem os fiz pensados Passa, e eu, outro já que o factor deles, Póstumo  substituo-me. Chegada a hora, eu próprio serei todo Menos que essas palavras E papel, ou papiro escrito e morto Será mais eu que eu mesmo. A obra imortal excede o autor da obra; E é menos dono dela Quem a fez do que o tempo em que perdura. Morre a obra a vida nossa. Durar, sentir, só os altos deuses unem. Nós não somos inteiros. Assim os deuses esta nossa regem Mortal e imortal  vida; Assim o Fado rege que assim rejam. Mas se assim é, é assim. 29-1-1921 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 1a. 1ª publ. in Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor). Lisboa: Ática, 1946 Seguro assento na coluna firme Dos versos em que fico. O criador interno movimento Por quem fui autor deles Passa, e eu sobrevivo, já não quem Escreveu o que fez. Chegada a hora, passarei também E os versos, que não sentem Serão a única restança posta Nos capitéis do tempo. A obra imortal excede o autor da obra; E é menos dono dela Quem a fez do que o tempo em que perdura. Morremos a obra viva. Assim os deuses esta nossa regem Mortal e imortal vida; Assim o Fado faz que eles a rejam. Mas se assim é, é assim. Aquele agudo interno movimento, Por quem fui autor deles Primeiro passa, e eu, outro já do que era, Póstumo substituo-me. Chegada a hora, também serei menos Que os versos permanentes. E papel, ou papiro escrito e morto Tem mais vida que a mente. Na noite a sombra é mais igual à noite Que o corpo que alumia. 29-1-1921 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 1b. Ad juvenem rosam offerentem A flor que és, não a que dás, eu quero. Porque me negas o que te não peço? Tão curto tempo é a mais longa vida, E a juventude nela! Flor vives, vã; porque te flor não cumpres? Se te sorver esquivo o infausto abismo, Perene velarás, absurda sombra, O que não dou buscando. Na oculta margem onde os lírios frios Da infera leiva crescem, e a corrente Monótona, não sabe onde é o dia, Sussurro gemebundo. 21-10-1923 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 12a. 1ª publ. in Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor). Lisboa: Ática, 1946 Não queiras, Lídia, edificar no espaço Que figuras futuro, ou prometer-te Esta ou aquela vida. Tu própria és tua vida. Não te destines. Tu não és futura. Cumpre hoje, e a gestal taça gosta A que prevês seguinte Não gozes na que gozas. Quem sabe se entre a taça que tu bebes E a que queres que siga a muda Sorte Não interpõe, saindo, Toda (...) s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 17a. Este, seu escasso campo ora lavrando, Ora, cansado, olhando-o com a vista De quem a um filho olha Passa alegre na vida. Pouco lhe importa sob que Deus arrasta A obra, louvores doutos ou néscios São-lhe a mesma distância De todos os seus dias... Figura eterna longe das cidades, Passa na vida sob a maior graça Que os deuses nos concedem - Que é não se nos mostrarem Nas activas presenças encobertos Com o céu e a terra e o riso das searas Quais ricos disfarçados Dando aos pobres sem glória… 27-9-1914 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 31. 1ª publ. in Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor). Lisboa: Ática, 1946 Não tenhas nada nas mãos Salvo uma memória na alma Que quando te puserem Nas mãos o óbolo último Nada terás deixado. Tu serás só tu próprio Não poderão roubar-te O que nunca tiveste. Que trono te querem dar Que Atropos to não tire?... Que Coroa que não fane No arbítrio de Minos? Que horas que não te tornem Da estatura da sombra Que serás quando fores O fim da tua estrada? Colhe as flores. Abdica E sê Rei de ti próprio. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 32a. Quero, Neera, que os teus lábios laves Na nascente tranquila Para que contra a tua febre e a triste Dor que pões em viver, Sintas a fresca e calma natureza Da água, e reconheças Que não têm penas nem desassossegos As ninfas das nascentes Nem mais soluços do que o som da água Alegre e natural. As nossas dores, não, Neera, vêm Das causas naturais Datam da alma e do infeliz fruir Da vida com os homens. Aprende pois, ó aprendiza jovem Das clássicas delícias, A não pôr mais tristeza que um suspiro No modo como vives. Nasceste pálida, deitando a regra Da tua vã beleza Sob a estólida fé das nossas mãos Medrosas de ter gozo Demasiado preso à desconfiança Que vem de teu saber, Não para essa vã mnemónica Do futuro fatal. Façamos vívidas grinaldas várias De sol, flores e risos Para ocultar o fundo fiel à Noite Do nosso pensamento Curvado já em vida sob a ideia Do plutónico jugo Cônscia já da lívida aguardança Do caos redivivo. 11-7-1914 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 33. Os deuses desterrados Os irmãos de Saturno Às vezes no crepúsculo Vêm espreitar a vida… Vêm então ter connosco Remorsos e saudades... É a presença deles, Deuses que o destroná-los Tornou espirituais, De matéria divina Longínqua e inactiva... E o poente tem cores De tristeza e cansaços. E ouve-se soluçar Para além das esferas Hipérion que chora O seu palácio antigo Que Apolo lhe roubou... 12-6-1914 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 38a. Coroai-me de rosas. Coroai-me em verdade De rosas. Quero ter a hora Nas mãos pagãmente E leve, Mal sentir a vida, Mal sentir o sol Sob ramos. Coroai-me de rosas E de folhas de hera E basta. 12-6-1914 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 39. Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa Se é para nós que cessa. Aquele arbusto Fenece, e vai com ele Parte da minha vida. Em tudo quanto olhei fiquei em parte. Com tudo quanto vi, se passa, passo, Nem distingue a memória Do que vi do que fui. 7-6-1928 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 114. A cada qual, como a estatura, é dada A justiça: uns faz altos O fado, outros felizes. Nada é prémio: sucede o que acontece. Nada, Lídia, devemos Ao fado, senão tê-lo. 20-11-1928 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 115. Nem da erva humilde se o Destino esquece. Saiba a lei o que vive. De sua natureza murcham rosas E prazeres se acabam. Quem nos conhece, amigo, tais quais fomos? Nem nós os conhecemos. 20-11-1928 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 116. Quem diz ao dia, dura! e à treva, acaba! E a si não diz, não digas! Sentinelas absurdas, vigilamos, Ínscios dos contendentes. Uns sob o frio, outros no ar brando, guardam O posto e a insciência sua. 20-11-1928 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 117. Na prosa o ritmo existe; na poesia o ritmo é. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 276. Prefácio de Ricardo Reis: Divisão: 1. Introdução. Razões de escrever o prefácio. Razões para torná-lo mais vasto que parece comportar o assunto. Alberto Caeiro, suas relações pessoais com o autor. Interesse e importância da sua obra. Valor da sua obra como sinal da reconstrução do paganismo. 2. O conceito do paganismo. Caracteres metafísicos (isto é, essenciais) do paganismo greco-romano. Distinção metafísica entre o paganismo greco-romano e os politeísmos da Índia e do Norte da Europa. Distinção entre o paganismo e o cristismo, no ponto de vista metafísico. — A ética pagã, como se distingue das outras. — A estética pagã, seus característicos essenciais. — Resumo do em que consiste o conceito do paganismo. 3. Alberto Caeiro como Reconstrutor do Paganismo. 4. Para que serve uma reconstrução do paganismo. — O cristismo é um paganismo adulterado. Toda a evolução útil adentro do cristismo tem sido por uma descristização. Os três elementos do cristismo e a sua separação presente. Utilidade da reconstrução do paganismo. — Sentido dessa reconstrução. Não deve ser feita como Caeiro queria, mas com deuses. Conceito de deus no paganismo. 5. Conclusões gerais sobre a obra de Caeiro e a sua extensão e valia. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 230. Prefácio de Ricardo Reis: Eu não vou, evidentemente, fazer, nas escassas páginas que com justiça posso exigir para este prefácio, explanar e esmiuçar o que seja o paganismo, como fenómeno completo, multimodo e que teve, como tudo, uma vida e uma evolução, que, dentro de si próprio, o tornaram diverso. Posso, porém — e é o que farei — notar em breves palavras, as precisas, o que é a essência do sistema religioso da Grécia e da Roma antigas. O que fundamentalmente distingue o paganismo greco-romano (mau grado as diferenças entre o paganismo grego e o romano) não é o facto de ser politeísta. Politeísmos há vários, de várias espécies e de vários graus de valor humano. Politeísmo é o sistema que foi dos povos nórdicos da Europa, politeísmos também, mau grado o aspecto de ter um fundamento monoteísta, sem prise para a alma geral, os sistemas egípcio, índio e o actual sistema dito católico. Tão-pouco se distingue o paganismo greco-romano por aquele característico que é costume atribuir-lhe: a alegria e a sensualidade. Esse conceito, que existe apenas nos ignorantes e nos que só pensam em paganismo como coisa diferente do cristismo, é, como a ciência sabe, um erro. Não é mister repetir as observações dos dois mestres da ciência do helenismo — Boeckh e Burckhardt. Eles afirmaram, o último categoricamente, que os gregos eram mais tristes do que muita gente julga. Sobre o ponto da sensualidade do paganismo é inútil tocar, porque só fala da sensualidade greco-romana quem ignora o carácter grego e romano. A castidade grega é coisa sabida e assente para os estudiosos; a disciplina romana, a austeridade de princípios dos romanos é coisa do conhecimento geral. O hábito de tomar uma parte pelo todo, que faz com que a Roma meio-cristã da decadência seja considerada como típica do paganismo, é causa de erro crasso do vulgo a esse respeito. O cristianismo é, como religião, mais alegre que o paganismo, e é mais sensual também. O que distingue o paganismo greco-romano é o carácter firmemente objectivo que nele transparece, efeito de uma mentalidade que, embora diferente nos dois povos, tinha de comum a tendência para colocar na Natureza exterior, ou num princípio, embora abstracto, derivado dela, o critério da Realidade, o ponto de Verdade, a base para a especulação e para a interpretação da vida. O paganismo do Norte da Europa não é assim. E, na esfera da vida humana, a mesma objectividade perdura: de modo que são as qualidades humanas e não sobre-humanas que formam as bases ideais da ética. O ideal, a especulação, são extraídos da realidade pelos gregos, não lhe são impostos nem por dentro, como no sistema índio, nem por fora como no de Cristo. Este objectivismo absoluto dos gregos e dos romanos, que nos primeiros principalmente floriu na especulação e na interpretação da vida, e nos segundos na segura experiência e compreensão prática, ou, como diria um sintético excessivo, que nos primeiros era inteligência e emoção, e vontade nos segundos — este objectivismo, digo, é que constitui a essência do paganismo. Claramente enunciado através do inconsciente de todos os autores antigos, ele raras vezes chega à consciência de si próprio, e à consciência plena não chega nunca. Porque uma civilização, por alta que seja, nunca a si própria se vê no seu conjunto, mas apenas em uma maior ou menor soma de várias das suas partes. Reconstruir o paganismo envolve, pois, como primeira acção intelectual fazer renascer o objectivismo puro dos gregos e dos romanos. Tudo o mais que se tente não passa de reprodução estéril dos elementos secundários ou mesmo acessórios do paganismo antigo. Por isso nunca houve, adentro da civilização cristã, tentativa alguma que de pagã mereça o nome, embora várias tenha havido com sobradas pretensões nesse respeito. Não exemplifiquemos exaustivamente, que a tarefa, sobre ser inútil, seria penosamente longa. Enumerar todo o lixo cristão com pretensões pagãs dos Matthew Arnolds, dos Óscar Wildes e dos Walter Paters do baixo-cristismo, seria enfadonho e desolador. Esta gente julgava estar com os antigos quando ia de encontro ao cristismo por o que eles chamariam razões estéticas; não passam de discípulos cristãos, nem do paganismo, mas apenas de certas escolas filosóficas que o paganismo produziu. Epicuristas cristãos, hedonistas católicos, estóicos de um pórtico judeu, deixemo-los na podridão estulta dos que quiseram aceitar os deuses sem saber de que matéria eles eram feitos, dos que quiseram seguir os filósofos da antiguidade, no que tinham de essencial, sem saber o que é que eles tinham de essencial, nem por que caminho iam. Mas mesmo que os vários pagãos à força da nossa civilização cristã tivessem tido a noção clara do que constitui a essência do paganismo, não quer isso dizer que imediatamente passariam a ser pagãos, neopagãos ou repagãos. Essas coisas, compreendidas só com a inteligência, nada são e nada valem. Tem o indivíduo que nascer com a inteligência para compreendê-las colocada no centro da sua sensibilidade. Tem o indivíduo que nascer pagão para ser pagão. Nascitur non fit como o poeta, e, afinal, como tudo o que é estável neste mundo. Mesmo uma teoria filosófica do paganismo não é possível a quem não tenha uma organização nativamente objectivista da inteligência e da sensibilidade, uma construção dos sentidos e das emoções de tal modo talhada que interprete objectivamente as coisas. Pode ser assim, e nunca considerar-se pagão, que o será. Se assim não for, pode construir uma alma postiça com pedaços de Hesíodo e de Homero que nunca passará de um reles cristão. Tenha-se presente sempre que nascer pagão representa nascer livre de mais de vinte séculos de civilização cristã, porque as influências que finalmente se revelaram no cristismo estavam de havia muito em acção nos países do paganismo. Isto não é impossível, porque nada é impossível. Sobretudo o não é no nosso tempo em que a civilização cristista, tresmalhando para todos os pontos da insânia, se desfaz por completo, se anula a si própria no último arranco da sua vilíssima alma sensual, abjecta, de escravo que matou o senhor. Não era mister que nos viesse dizer toda a gente que o cristismo é mais triste que o paganismo, nem que nos viesse dizer o sr. Chesterton, para dizer o contrário, que ele é mais alegre que o paganismo. Ambas as coisas são certas. O cristismo é, de facto, mais triste e mais alegre do que o paganismo. De sua natureza um fenómeno doentio, ele apresenta a oscilação característica da histeria (de aquiIo a que se chama a histeria), onde comummente se vive nos extremos e nos auges das emoções, e onde tudo é possível menos o equilíbrio e a sobriedade. Quando os que iam morrer nos circenses elevavam ao César o seu grito, representavam, sem o querer, um símbolo terrível: era como se naquele cenário de decadência se figurasse o drama maior da história — a morte do paganismo, e que ao César — representante antetípico do imperialismo abjecto que é núcleo do cristismo — eles erguessem o seu pranto de morte, e choro de uma civilização que levou consigo o segredo humano da vida. O ódio de Nietzsche ao cristismo aguçou-lhe a intuição nestes pontos. Mas errou, porque não era em nome do paganismo greco-romano que ele erguia o seu grito, embora o cresse; era em nome do paganismo nórdico dos seus maiores. E aquele Diónisos, que contrapõe a Apolo, nada tem com a Grécia. É um Baco alemão. Nem aquelas teorias desumanas, excessivas tal qual como as cristãs, embora em outro sentido, nada devem ao paganismo claro e humano dos homens que criaram tudo o que verdadeiramente subsiste, resiste e ainda cria adentro do nosso sistema de civilização. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 231. No magno dia até os sons são claros. Pelo repouso do amplo campo tardam. Múrmura, a brisa cala. Quisera, como os sons, viver das coisas Mas não ser delas, consequência alada Em que o real vai longe. s.d. Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 168. Negue-me tudo a sorte, menos vê-la, Que eu, estóico sem dureza, Na sentença gravada do Destino Quero gozar as letras. 20-11-1928 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 118. São de três espécies os erros vulgarmente cometidos na interpretação moderna do paganismo. Ou se confunde paganismo simplesmente com a sua manifestação politeísta; ou se toma por paganismo determinadas práticas religiosas que nele havia, certos ritos, certas cerimónias; ou se confunde paganismo com as teorias de determinadas escolas filosóficas que nasceram do terreno pagão. Na mera enunciação de quais são os erros verá o leitor que eles são erros, e compreenderá logo a que interpretações especiais me reporto. Não desejo, porém, que me não entendam, e por isso, aumentando estes preliminares mais do que competiria para a perfeita proporção do assunto, passo a esmiuçar um pouco mais as razões a que me atenho. O erro central na interpretação moderna do paganismo consiste em que, como é natural, mas, posto que natural, erróneo, não concebemos nunca o paganismo senão consciente ou inconscientemente contrapondo-o ao sistema cristão. Como nascemos adentro do psiquismo cristista e esse psiquismo se consubstanciou com o nosso, individual, não nos libertamos nunca completamente dele, e, quando menos nos receamos, mais certa posse ele tem de nós. Decorrendo desta viciação nuclear do problema interpretativo, são de três espécies (supra). Como se verá depois, quando houvermos afastado os obstáculos, chegado à definição do assunto, o paganismo, na sua essência, envolvia, conotava, o politeísmo. O politeísmo, de per si, não constitui, porém, o paganismo greco-romano. Politeístas são o sistema religioso da Índia; politeísta era o velho sistema dos povos do Norte da Europa. Nenhum destes sistemas politeístas se assemelha porém, salvo no facto nu e cru de serem politeísmos, ao politeísmo greco-romano. A distinção entre o politeísmo índio e o grego não precisa ser feita por mim: fê-la, de uma vez para sempre, Heródoto, em uma frase precisa e feliz. As divindades índias são (disse) de forma humana, as gregas de natureza humana. A distinção é daquelas que completamente circum-navegam o assunto. Porque, mesmo nos pontos em que as duas religiões encaram a subida do homem a deus, na religião grega ele sobe pelo exercício sobre-humano das qualidades humanas, isto é, das qualidades que, no seu exercício normal, apoiam e edificam a vida; na religião índia, por contrário, as qualidades que elevam o homem a sobre-homem são qualidades onde se nega a vida, são as qualidades ascéticas, as práticas caritativas que viciam o egoísmo individual e cívico, a soma de renúncias que contradiz o normal prazer que o homem normal tem na vida. De sorte que a semelhança entre estes dois sistemas religiosos é puramente externa. ( . . . ) Uma diferença idêntica separa o politeísmo grego do politeísmo da Igreja Católica, representado por os seus santos, que, para a maioria das populações nas nações católicas, têm, na devoção e no culto, um lugar acima de Deus. Outra, mas de idêntico valor, é a distinção a fazer entre o politeísmo grego e o dos povos do Norte da Europa. Aqui, realmente, há de comum que as divindades são representações humanas alargadas, e não negações da humanidade. Ao passo, porém, que os deuses gregos são objectivações formais dos instintos humanos, os deuses nórdicos são objectivações amorfas, vastas sombras mais do que grandes pessoas; das quais mais se aproxima, já, a religião menos estatual dos romanos, que a fé, estática e delimitada, dos helenos. Assim no politeísmo do norte se encontra bem figurada aquela índole que havia de ser sempre característica dos povos onde esse politeísmo nasceu — alma vaga, indecisa, onde os sentimentos são amorfos e os pensamentos abismados e profundos, alma que havia de manifestar-se nos sistemas abstrusos da filosofia alemã, na poesia nevoenta dos países nórdicos, e que do cristismo havia de extrair, a extrair qualquer coisa, antes a sua parte monoteísta que a politeísta, por isso que o politeísmo cristista, de origem greco-romana, traz consigo a lucidez da sua fonte, e o monoteísmo mais se presta à indefinição, à imprecisão, às sombrias e abismadas meditações que os povos da bruma trazem na sua alma, como a bruma contorna as suas paisagens. Assim, da análise comparada, que fizemos, do politeísmo grego com os outros, tirámos esta conclusão: que ele se distingue, essencialmente, em ser 1) estático, 2) humano, 3) sincretista (?). Encaremos, agora, o paganismo greco-romano do ponto de vista em que é vulgar compará-lo ao cristismo: isto é, da sua pretensa amoralidade, ou imoralidade mesmo. Esta imoralidade, a que a ignorância moderna se atém, apoiada ou em cultos que contrastam com a severidade do culto cristão, ou em que a expressão da moral pagã é, no geral, menos severa e menos espiritual que a cristista, provém simplesmente de que se considera moral o cristismo, passando, portanto, a serem imorais os não-cristismos todos. No erro têm caído, com um descuido sistemático, quantos, quer propondo-se ser cristãos, quer propondo-se ser anti-cristãos, quer defendendo a moral (cristã), quer procurando defender a imoralidade (suposta anti-cristã). É um erro crasso que subjaz os débeis pensamentos de tais como o «esteta» Wilde ou o seu mestre Pater; a ignorância da substância do paganismo basta para explicá-la. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 245. Quero dos deuses só que me não lembrem. Serei livre — sem dita nem desdita, Como o vento que é a vida Do ar que não é nada O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos, Cada um com seu modo nos oprimem. A quem deuses concedem Nada, tem liberdade s.d. Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 169. Se recordo quem fui, outrem me vejo, E o passado é o presente na lembrança. Quem fui é alguém que amo Porém somente em sonho. E a saudade que me aflige a mente Não é de mim nem do passado visto, Senão de quem habito Por trás dos olhos cegos. Nada, senão o instante, me conhece. Minha mesma lembrança é nada, e sinto Que quem sou e quem fui São sonhos diferentes. 26-5-1930 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 119. Sabeis porém, Mestre, que com certos abusos vossos de expressão não posso concordar... Distancio-me das vossas frases que tiram à expressão o seu recorte e a sua limpidez e estas são qualidades de que, fisicamente quase, tenho necessidade no escrito: o primeiro livro das minhas odes — o que escrevi sob o impulso desequilibrado do entusiasmo que me veio de vos conhecer — trai ainda a vossa influência, num fruto, esse, e que eu creio pernicioso. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 235. Doce é o fruto à vista, e à boca amaro, Breve é a vida ao tempo e longa à alma. A arte, com que todos, —  Ora sem saber  virando os copos, Ora, enchendo-os, consiste em nos ousarmos, Chegada a morte, despi-la. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 187. Eu nunca fui dos que a um sexo o outro No amor ou na amizade preferiram. Por igual a beleza eu apeteço Seja onde for, beleza. Pousa a ave, olhando apenas a quem pousa Pondo querer pousar antes do ramo; Corre o rio onde encontra o seu retiro E não onde é preciso. Assim das diferenças me separo E onde amo, porque o amo ou não amo, Nem a inocência inata quando se ama Julgo postergada nisto. Não no objecto, no modo está o amor, Logo que a ame, a qualquer cousa amo. Meu amor nela não reside, mas Em meu amor. Os deuses que nos deram este rumo Também deram a flor pra que a colhêssemos E com melhor amor talvez colhamos O que pra usar buscamos. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 188. Há uma cor que me persegue e que eu odeio, Há uma cor que se insinua no meu medo. Porque é que as cores têm força De persistir na nossa alma, Como fantasmas? Há uma cor que me persegue e hora a hora A sua cor se torna a cor que é a minha alma. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 189. 1ª publ. in Novos Temas ( Ensaios de Literatura e Estética). João Gaspar Simões. Lisboa: Inquérito, 1938 Diana através dos ramos Espreita a vinda de Endymion Endymion que nunca vem, Endymion, Endymion, Lá longe na floresta… E a sua voz chamando Exclama através dos ramos Endymion, Endymion… Assim choram os deuses… 16-6-1914 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 70. Uma cor me persegue na lembrança, E, qual se fora um ente, me submete À sua permanência. Quanto pode um pedaço sobreposto Pela luz à matéria escura encher-me De tédio ao amplo mundo. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 189a. 1ª publ. in Novos Temas ( Ensaios de Literatura e Estética). João Gaspar Simões. Lisboa: Inquérito, 1938 Ininterrupto e unido guia o teu curso Lídia, e sereno para o mar distante. Teus manes não to param. Interrompem-to apenas. Mas conta tu as tuas próprias horas, À tua espera dá-te incerta Naiade Que a porta te não está Tua segunda vida... Condescendente p'ra contigo própria, Deixa aos certos Letes de fugir Vive com a verdade No instante dos demónios Que alhures a saber preso com deles O céu do Fado, gozam a delícia Altiva de viverem Onde guardam suas vidas. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 190. Não mais pensada que a dos mudos brutos Se fada a humana vida. Quem destina Mais que os gados nos campos O fim do seu destino? s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 192. Aos deuses peço só que me concedam O nada lhes pedir. A dita é um jugo E o ser feliz oprime Porque é um certo estado. Não quieto nem inquieto meu ser calmo Quero erguer alto acima de onde os homens Têm prazer ou dores. s.d. Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 170. No grande espaço de não haver nada Que a noite finge, brilham mal os astros. Não há lua, e ainda bem. Neste momento, Lídia, considero Tudo, e um frio que não há me entra Na alma. Não existes. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 193. Quando, Lídia, vier o nosso Outono Com o Inverno que há nele, reservemos Um pensamento, não para a futura Primavera, que é de outrem, Nem para o Estio, de quem somos mortos, Senão para o que fica do que passa — O amarelo actual que as folhas vivem E as torna diferentes. 13-6-1930 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 120. 1ª publ. in Presença , nº 31/32. Coimbra: Mar./Jun. 1931. Outros com liras ou com harpas narram, Eu com meu pensamento. Que, por meio de música, acham nada Se acham só o que sentem. Mais pesam as palavras que, medidas, Dizem que o mundo existe. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 195. Quatro vezes mudou a estação falsa No falso ano, no imutável curso Do tempo consequente; Ao verde segue o seco, e ao seco o verde; E não sabe ninguém qual é o primeiro, Nem o último, e acabam. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 196. 1ª publ. in Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. (Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1944 Se hás-de ser o que choras Ter que ser, não o chores. Se toda a mole imensa Do mundo ser-te-á noite, Aproveita este breve Dia, e sem choro ou cura Goza-o, contente por viveres O pouco que te é dado. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 198. Cada um cumpre o destino que lhe cumpre. E deseja o destino que deseja; Nem cumpre o que deseja, Nem deseja o que cumpre. Como as pedras na orla dos canteiros O Fado nos dispõe, e ali ficamos; Que a Sorte nos fez postos Onde houvemos de sê-lo. Não tenhamos melhor conhecimento Do que nos coube que de que nos coube. Cumpramos o que somos. Nada mais nos é dado. 29-7-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 171. Ténue, como se de Éolo a esquecessem, A brisa da manhã titila o campo, E há começo do sol. Não desejemos, Lídia, nesta hora Mais sol do que ela, nem mais alta brisa Que a que é pequena e existe. 13-6-1930 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 121. 1ª publ. in Presença , nº 31/32. Coimbra: Mar./Jun. 1931. Meu gesto que destrói A mole das formigas, Tomá-lo-ão elas por de um ser divino; Mas eu não sou divino para mim. Assim talvez os deuses Para si o não sejam, E só de serem do que nós maiores Tirem o serem deuses para nós. Seja qual for o certo, Mesmo para com esses Que cremos serem deuses, não sejamos Inteiros numa fé talvez sem causa. s.d. Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 172. No breve número de doze meses O ano passa, e breves são os anos, Poucos a vida dura. Que são doze ou sessenta na floresta Dos números, e quanto pouco falta Para o fim do futuro! Dois terços já, tão rápido, do curso Que me é imposto correr descendo, passo. Apresso, e breve acabo. Dado em declive deixo, e invito apresso O moribundo passo. 18-6-1930 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 122. Dois é o prazer: gozar e o gozá-lo. Ao néscio elege o parvo, o sábio ao outro. E o igual fado é diverso. Na taça que ergo, ondeio, e vejo, as bolhas Incluo no que sinto, e ao beber Mais puro está no gosto. 21-2-1928 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 128. Concentra-te, e serás sereno e forte; Mas concentra-te fora de ti mesmo. Não sê mais para ti que o pedestal No qual ergas a estátua do teu ser. Tudo mais empobrece, porque é pobre. 10-4-1928 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 129. O anel dado ao mendigo é injúria, e a sorte Dada a quem pensa é infâmia, que quem pensa — Quer verdade, e não sorte. Como um mendigo a quem é dado o nome De rei, não come dele, mas do prato Do rei, minha esperança Da razão que lia em tê-la se alimenta E não do que deseja. 26-4-1928 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 132. Tarda o verão. No campo tributário Da nossa esperança, não há sol bastante, Nem se esperavam as que vêm, chuvas Na estação, deslocadas. Meu vão conhecimento do que vejo Com o que é falso se contenta, a noite, Em pouco dando à conclusão factícia Do moribundo tudo. 7-6-1928 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 134. Sê lanterna, sê luz com vidro em torno, Porém o calor guarda. Não poderão os ventos opressivos Apagar tua luz; Nem teu calor, disperso, irá ser frio No inútil infinito. 3-3-1929 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 139. Quem fui é externo a mim. Se lembro, vejo; E ver é ser alheio. Meu passado Só por  visão relembro. Aquilo mesmo que senti me é claro. Alheia é a alma antiga; o que me sinto Chegou hoje à estalagem. Quem pode conhecer, entre tanto erro De modos de sentir-se, a exacta forma Que tem para consigo? 2-7-1930 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 143. Débil no vício, débil na virtude A humanidade débil, nem na fúria Conhece mais que a norma. Pares e diferentes nos regemos Por uma norma própria, e inda que dura, Será à liberdade. Ser livre é ser a própria imposta norma Igual a todos, salvo no amplo e duro Mando e uso de si mesmo. 9-7-1930 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 145. Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte Te mudarão em outro. Para quê pois em seres te empenhares O que não serás tu? Teu é o que és, teu o que tens, de quem E o que outro tiveres? 22-9-1931 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 154. Sob a leve tutela De deuses descuidosos, Quero gastar as concedidas horas Desta fadada vida. Nada podendo contra O ser que me fizeram, Desejo ao menos que me haja o Fado Dado a paz por destino. Da verdade não quero Mais que a vida; que os deuses Dão vida e não verdade, nem talvez Saibam qual a verdade. s.d. Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 173. Flores amo, não busco. Se aparecem Me agrado ledo, que há em buscar prazeres O desprazer da busca. A vida seja como o sol, que é dado, Nem arranquemos flores, que, arrancadas Não são nossas, mas mortas. 16-6-1932 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 163. Não sei de quem recordo meu passado Que outrem fui quando o fui, nem me conheço Como sentindo com minha alma aquela Alma que a sentir lembro. De dia a outro nos desamparamos. Nada de verdadeiro a nós nos une — Somos quem somos, e quem fomos foi Coisa vista por dentro. 2-7-1930 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 123. Para quê complicar inutilmente, Pensando, o que impensado existe? Nascem Ervas sem razão dada — Para elas olhos, não razões, tenhamos. Como através de um rio as contemplemos. 3-9-1932 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 166. Cuidas tu, louco Flaco, que apertando Os teus estéreis, trabalhosos dias Em feixes de hirta lenha, Cumpres a tua vida? A tua lenha é só peso que levas Para onde não tens fogo que aquecer-te, Nem levam peso ao colo As sombras que seremos. Aprende calma com o céu havido E com o pranto a ter contínuo curso. Não sigas a clepsidra Que conta a hora dos outros. 11-7-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 184. Não consentem os deuses mais que a vida. Por isso, Lídia, duradouramente Façamos-lhe a vontade Ao sol e entre as flores. Camaleões pousados na Natureza Tomemos sua calma e alegria Por cor da nossa vida, Por um jeito do corpo. Como vidros às luzes transparentes E deixando cair a chuva triste, Só mornos ao sol quente, E reflectindo um pouco. 17-7-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 185. Qual, Pirro, aquilo gosta que o amarga, Qual aquilo que gosta. Pares quem os fados diferentes Como rios diversos, Com curso a leste ou oeste, a sul ou norte, Sempre ao mar em que acabam. Gostemos pois aquilo em que pusémos O gosto inaprendido, Temos as tenras tardes, não (...) s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 220. Quis que comigo vísseis A sombra essencial, o abstracto fruto Do inúmero universo. Mas, não fostes Mais que uma luz extinta em noite densa Um pampal sem fruto. (...) —  Que é pensar Sem ser? poeta, o que pensa vive o que é, E a raiz não medita. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 221. Sob o jugo essencial e (...) De Saturno, e de Júpiter seu filho, Não vale que com Marte Me aborreçam os momentos. Calmo, solenemente passageiro, Dado às cousas e à minha vida própria, Procuro, não nos astros Mas em mim mesmo um amigo. E alheio a quanto sob os céus distantes Troa e anuvia a placidez das cousas, Pertenço-me em segredo Perante a Natureza. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 222. Crer é errar. Não crer de nada serve. 28-9-1926 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 223f. Nem relógio parado, nem a falta Da água em clepsidra, ou na ampulheta a areia Tiram o tempo ao tempo. 30-1-1927 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 223g. Pequeno é o espaço que de nós separa O que havemos de ser quando morrermos. Não conhecemos quem será o morto De hoje que então acaba. Só o passado, comum a nós e a ele, Será indício de que a nossa alma Persiste e como antiga ama, conta Histórias esquecidas… Se pudéssemos pôr o pensamento Com esta visão adentro de ideia Que havemos de ter naquela hora, Estranhos olharíamos O que somos, cuidando ver um outro E o espaço temporal que hoje habitamos Luz onde nossa alma nasceu Alheia antes de a termos. 31-1-1922 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 94. O mar jaz. Gemem em segredo os ventos Em Éolo cativos, Apenas com as pontas do tridente Franze as águas Neptuno, E a praia é alva e cheia de pequenos Brilhos sob o sol claro. Eu quisera, Neera, que o momento, Que ora vemos, tivesse O sentido preciso de uma frase Visível nalgum livro. Assim verias que certeza a minha Quando sem te olhar digo Que as cousas são o diálogo que os deuses Brincam tendo connosco. Se esta breve ciência te coubesse, Nunca mais julgarias Ou solene ou ligeira a clara vida, Mas nem leve nem grave, Nem falsa ou certa, mas assim, divina E plácida, e mais nada. 6-10-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 186. A vida é triste. O céu é sempre o mesmo. A hora Passa segundo nossa estéril, tímida maneira. Ah não haver terraços sobre o impossível. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 223l. Quero versos que sejam como jóias Para que durem no porvir extenso E os não macule a morte Que em cada cousa a espreita, Versos onde se esquece o duro e triste Lapso curto dos dias e se volve À antiga liberdade Que talvez nunca houvemos. Aqui, nestas amigas sombras postas Longe, onde menos nos conhece a história Lembro os que urdem, cuidados, Seus descuidados versos. E mais que a todos te lembrando, escrevo Sob o vedado sol, e, te lembrando, Bebo, imortal Horácio, Supérfluo, à tua glória... 5-8-1923 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 96. E quanto sei do Universo é que ele Está fora de mim. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 223o. Pequena vida consciente, sempre Da repetida imagem perseguida Do fim inevitável, a cada hora Sentindo-se mudada, E, como Orfeu volvendo à vinda esposa O olhar algoz, para o passado erguendo A memória pra em mágoas o apagar No baratro da mente. 22-10-1923 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 103. Nem destino sem esperança Somos cegos, que vêem só quem tocam. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 223p. Pequena vida consciente A quem outra persegue A imagem repetida Do abismo onde perdê-la. 22-10-1923 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 103a. Nós ao igual destino Iniguais pertencemos. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 223q. De uma só vez recolhe Quantas flores puderes. Não dura mais que até à morte o dia. Colhe de que recordes. A vida é pouco e cerca-a A sombra e o sem remédio. Não temos regras que compreendamos, Súbditos sem governo. Goza este dia como Se a Vida fosse nele. Homens nem deuses fadam, nem destinam Senão o que ignoramos. 24-10-1923 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 104. De amore suo Folha após folha vemos caem, Cloé, as folhas todas. Nem antes para elas, para nós Que sabemos que morrem. Assim, Cloé, assim, O amor, antes que o corpo que empregamos Nele, em nós envelhece; E nós, diversos, somos, inda jovens, Só a mútua lembrança. Ah, se o que somos será isto sempre E só uma hora é o que somos, Com tal excesso e fúria em cada amplexo A hausta vida ponhamos, Que encha toda a memória, e nos beijemos Como se, findo o beijo Único, sobre nós ruísse a súbita Mole do inteiro mundo. 27-10-1923 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 105. Não pra mim mas pra ti teço as grinaldas Que de hera e rosas eu na fronte ponho. Para mim tece as tuas Que as minhas eu não vejo. Um para o outro, mancebo, realizemos A beleza improfícua mas bastante De agradar um ao outro Plo prazer dado aos olhos. O resto é o fado que nos vai contando Pelo bater do sangue em nossas frontes A vida até que chegue A hora do barqueiro. 17-11-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 190. Quer com amor, que sem amor, senesces Antes senescer tendo perdido que não tendo tido. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 223s. A folha insciente, antes que a própria morra Para nós morre, Cloé, Para nós, que sabemos que ela morre Assim, Cloé, assim Antes que os próprios corpos, que empregamos No amor, ela envelhece. Assim, diversos, somos, inda jovens, Só a mútua lembrança. Ah, se o que somos é sempre isto, e apenas Uma hora é o que somos, Com tal fúria nessa hora nos usemos Que arda sua lembrança Como vida, e nos beijemos, Cloé, Como se, findo o beijo Único, houvesse de ruir a súbita Mole do morto mundo. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 105a. Não inquiro do anónimo futuro Que serei, pois que tenho, Qualquer que seja, que vivê-lo. Tiro Os olhos do vindouro. Odeio o que não vejo. Se pudera, Vê-lo, grato o não vira. Se mo mostrarem num quadro, ou o virarem Não tenho o que não tenho. O que o Destino manda, saiba-o ele. A ignorância me basta. s.d. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 107. Hora a hora não dura a face antiga Dos repetidos seres, e hora a hora, Pensando, envelhecemos. Tudo passa ignorado, e o que, sabido, Fica só sabe que ignora, porém nada Torna, ciente ou néscio. Pares, assim, do que não somos pares, Da hora incerta a chama agasalhemos Com côncavas mãos frias. 16-11-1923 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 108. Não torna atrás a negregada prole Regular de Saturno, Nem magnos deuses implorados volvem Quem foi à luz que vemos. Moramos, hóspedes na vida, e usamos Um tempo do discurso, Um breve amor, um sorriso breve, e um dia Saudoso de todos. 16-11-1923 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 109. Deixa passar o vento Sem lhe perguntar nada. Seu sentido é apenas Ser o vento que passa… Consegui que desta hora O sacrifical fumo Subisse até ao Olimpo. E escrevi estes versos Pra que os deuses voltassem. 12-9-1916 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 67. Pobres de nós que perdemos quanto Sereno e forte nos dava a vida O único modo O único humano de a ter... Pobres de nós Crianças orfãs que mal se lembram De pai e mãe E andam sozinhas na vida cega Sem ter carinhos Nem saber nada De aonde vamos pela floresta, Nem donde viemos pla estrada fora… E somos tristes, e somos velhos, E fracos sempre… Sem que nos sirva… 16-6-1914 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 69. Não sem lei, mas segundo leis diversas Entre os homens reparte o fado e os deuses Sem justiça ou injustiça Prazeres, dores, gozos e perigos. Bem ou mal, não terás o que mereces. Querem os deuses a isto obrigar Porque o Fado não tem Leis nossas com que reja a sua lei. Quem é rei hoje, amanhã escravo cruza Com o escravo de ontem que é depois rei. Sem razão um caiu, Sem causa nele o outro ascenderá. Não em nós, mas dos deuses no capricho E nas sombras p'ra além do seu domínio Está o que somos, e temos, A vida e a morte do que somos nós. Se te apraz mereceres, que te apraza Por mereceres, não porque te o Fado Dê o prémio ou a paga De com constância haveres merecido. Dúbia é a vida, inconstante o que a governa. O que esperamos nem sempre acontece Nem nos falece sempre, Nem há com que a alma uma ou outra cousa espere. Torna teu coração digno dos deuses E deixa a vida incerta ser quem seja. O que te acontecer Aceita. Os deuses nunca se rebelam. Nas mãos inevitáveis do destino A roda rápida soterra hoje Quem ontem viu o céu Do transitório auge do seu giro. 17-11-1918 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 82. Este, seu escasso campo ora lavrando, Ora, solene, olhando-o com a vista De quem a um filho olha, goza incerto A não-pensada vida. Das fingidas fronteiras a mudança O arado lhe não tolhe, nem o empece Per que concílios se o destino rege Dos povos pacientes. Pouco mais no presente do futuro Que as ervas que arrancou, seguro vive A antiga vida que não torna, e fica, Filhos, diversa e sua. 16-11-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 94. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. Como se cada beijo Fora de despedida, Minha Cloé, beijemo-nos, amando. Talvez que já nos toque No ombro a mão, que chama À barca que não vem senão vazia; E que no mesmo feixe Ata o que mútuos fomos E a alheia soma universal da vida. 17-11-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 95. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. Tuas, não minhas, teço estas grinaldas, Que em minha fronte renovadas ponho. Para mim tece as tuas, Que as minhas eu não vejo. Se não pesar na vida melhor gozo Que o vermo-nos, vejamo-nos, e, vendo, Surdos conciliemos O insubsistente surdo. Coroemo-nos pois uns para os outros, E brindemos uníssonos à sorte Que houver, até que chegue A hora do barqueiro. 17-11-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 96. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. Olho os campos, Neera, Campos, campos, e sofro Já o frio da sombra Em que não terei olhos. A caveira antessinto Que serei não sentindo, Ou só quanto o que ignoro Me incógnito ministre. E menos ao instante Choro, que a mim futuro. Súbdito ausente e nulo Do universal destino. 25-12-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 97. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. Severo narro. Quanto sinto, penso. Palavras são ideias. Múrmuro, o rio passa, e o que não passa, Que é nosso, não do rio. Assim quisesse o verso: meu e alheio E por mim mesmo lido. 16-6-1932 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 143. No ciclo eterno das mudáveis coisas Novo Inverno após novo Outono volve À diferente terra Com a mesma maneira. Porém a mim nem me acha diferente Nem diferente deixa-me, fechado Na clausura maligna Da índole indecisa. Presa da pálida fatalidade De não mudar-me, me infiel renovo Aos propósitos mudos Morituros e infindos. 24-11-1925 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 98. Sereno aguarda o fim que pouco tarda. Que é qualquer vida? Breves sóis e sono. Quanto pensas emprega Em não muito pensares. Ao nauta o mar obscuro e a rota clara. Tu, na confusa solidão da vida, A ti mesmo te elege (Não sabes de outro) o porto. 31-7-1932 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 144. Já sobre a fronte vã se me acinzenta O cabelo do jovem que perdi. Meus olhos brilham menos, Já não tem jus a beijos minha boca. Se me ainda amas, por amor não ames: Traíras-me comigo. 13-6-1926 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 99. 1ª publ. in Presença , nº 10. Coimbra: Mar. 1928. Ninguém a outro ama, senão que ama O que de si há nele, ou é suposto. Nada te pese que não te amem. Sentem-te Quem és, e és estrangeiro. Cura de ser quem és, amam-te ou nunca. Firme contigo, sofrerás avaro De penas. 10-8-1932 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 145. Não só vinho, mas nele o olvido, deito Na taça: serei ledo, porque a dita É ignara. Quem, lembrando Ou prevendo, sorrira? Dos brutos, não a vida, senão a alma, Consigamos, pensando; recolhidos No impalpável destino Que não espera nem lembra. Com mão mortal elevo à mortal boca Em frágil taça o passageiro vinho, Baços os olhos feitos Para deixar de ver. 13-6-1926 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 100. 1ª publ. in Presença , nº 6. Coimbra: Jul. 1927. Quem na infância leu Horácio no original, ainda que penosamente, poderá, adulto, escrever versos sem metro, ou sequer ritmo regular, mas qualquer equilíbrio íntimo haverá nesses versos que não conseguiria dar-lhes quem não teve esse passado, ainda que formalmente esquecido. A educação clássica na infância equivale à boa-educação, como vulgarmente se diz, recebida nessa mesma infância. Quem foi bem-educado na infância pode esquecer as boas-maneiras, pode esquecer a etiqueta: o que não esquece é a civilidade, que é o fundamento de ambas. Quem teve uma educação clássica pode vir a esquecer o latim ou o grego, seus principais veículos, pode perder a firmeza de um e a perspicuidade (harmonia) do outro; contra certos vícios de dicção, contra certas falhas de gosto, terá ficado vacinado. E o que são, na prosa ou no verso, a dicção e o gosto, senão a civilidade da literatura, de que a perspicuidade é só as boas-maneiras e a regularidade só a etiqueta? Tudo isto, é claro, são generalidades. Há quem tenha um natural bom-gosto e um jeito elegante de dicção, sem que tenha tido uma educação clássica. Há, mas são casos raros. Há quem, tendo tido uma educação clássica cometa faltas de gosto ou, mais raramente, de dicção. Há, mas são excepções. Mas do mesmo modo há indivíduos naturalmente civis e cortezes, sem que beneficiassem na infância da chamada boa-educação. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 313. Vive sem horas. Quanto mede pesa, E quanto pensas mede. Num fluido incerto nexo, como o rio Cujas ondas são ele, Assim teus dias vê, e se te vires Passar, como a outrem, cala. 8-9-1932 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 146. Quanta tristeza e amargura afoga Em confusão a estreita vida! Quanto Infortúnio mesquinho Nos oprime supremo! Feliz ou o bruto que nos verdes campos Pasce, para si mesmo anónimo, e entra Na morte como em casa; Ou o sábio que, perdido Na ciência, a fútil vida austera eleva Além da nossa, como o fumo que ergue Braços que se desfazem A um céu inexistente. 13-6-1926 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 101. 1ª publ. in Presença , nº 6. Coimbra: Jul. 1927. Fui forte, venci as misérias da alma com a alma toda. Lembro o teu sorriso pequeno, Leucothoe, e não sorrio para não chorar. Vi-te como eras, Dyke, num sonho da meia-noite De novo te amei, mas de outra maneira. Porém vi-te qual eras. As árvores da floresta onde andámos sãs as mesmas, ou são outras. Nós, Lydia, nem somos os mesmos nem outros, porque lembramos. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 314. Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive. 14-2-1933 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 148. 1ª publ. in Presença , nº 37. Coimbra: Fev. 1933. Frutos, dão-os as árvores que vivem, Não a iludida mente, que só se orna Das flores lívidas Do íntimo abismo. Quantos reinos nos seres e nas cousas Te não talhaste imaginário! Quantos, Com a charrua, Sonhos, cidades! Ah, não consegues contra o adverso muito Criar mais que propósitos frustrados! Abdica e sê Rei de ti mesmo. 6-12-1926 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 102. A ciência é a única força intelectual moderna - a única coisa capaz de se opor ao ensimesmamento cristão e romântico. Curioso é que haja quem se lembre de propor a religião, moral a factos sentimentais - como disciplinas. A disciplina é intelectual. A inteligência é a disciplina do indivíduo. Deve sê-lo da sociedade também. É pelo sentimento que a sociedade se une? É certo. Mas é pela disciplina desse sentimento que esla se conserva unida. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 316. Quero ignorado, e calmo Por ignorado, e próprio Por calmo, encher meus dias De não querer mais deles. Aos que a riqueza toca O ouro irrita a pele. Aos que a fama bafeja Embacia-se a vida. Aos que a felicidade É sol, virá a noite. Mas ao que nada espera Tudo que vem é grato. 2-3-1933 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 149. Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho. Nós o que nos supomos nos fazemos, Se com atenta mente Resistirmos em crê-lo. Não, pois, meu modo de pensar nas coisas, Nos seres e no fado me consumo. Para mim crio tanto Quanto para mim crio. Fora de mim, alheio ao em que penso, O Fado cumpre-se. Porem eu me cumpro Segundo o âmbito breve Do que de meu me é dado. 30-1-1927 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 103. Entre os homens cultos, a C[iência] substituirá a religião. Mas a ciência cria um modo social seu. Cria uma aristocracia, uma burguesia, um proletariado. A sua aristocracia é uma aristocracia intelectual - são os produtores de ciência os aplicadores superiores dela. A sua burguesia é o vasto número de gente - incluindo os operários citadinos, em geral - que compreende, por fora o que é a ciência, lhe sente os benefícios, lhe (...) A sua classe baixa é toda aquela gente que está fora de sentir a ciência, de qualquer modo - população rural, etc.. A disciplina científica atinge diversamente as 3 classes. Para a aristocracia científica, a C[iência] é uma disciplina directa. Aí, ela é um culto. A inibição aos actos maus e impulsivos nasce da própria disciplina que no espírito se infiltra pelo mero trabalho científico constante, constantemente atento a leis, a regularidades, constantemente em presença dos malefícios de ser excepção, anormalidade. Para a classe média a ciência tem outro aspecto disciplinador. Para a classe média, a ciência disciplinará pela Lei, pelo código, pela cadeia, pela penalidade. Não há outro modo de disciplinar o povo. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 317. Cada dia sem gozo não foi teu: Foi só durares nele. Quanto vivas Sem que o gozes, não vives. Não pesa que amas, bebas ou sorrias: Basta o reflexo do sol ido na água De um charco, se te é grato. Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas Seu prazer posto, nenhum dia nega A natural ventura! 14-3-1933 Obra Poética . Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Dores Galhoz.) Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1974. - 150. 1ª versão: Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). Pois que nada que dure, ou que, durando, Valha, neste confuso mundo obramos, E o mesmo útil para nós perdemos Connosco, cedo, cedo, O prazer do momento anteponhamos A absurda cura do futuro, cuja Certeza única é o mal presente Com que o seu bem compramos. Amanhã não existe. Meu somente É o momento, eu só quem existe Neste instante, que pode o derradeiro Ser de quem finjo ser? 16-3-1933 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 151. Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge. Mas finge sem fingimento. Nada esperes que em ti já não exista, Cada um consigo é triste. Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas, Sorte se a sorte é dada. 6-4-1933 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 152. Aqui, neste misérrimo desterro Onde nem desterrado estou, habito, Fiel, sem que queira, àquele antigo erro Pelo qual sou proscrito. O erro de querer ser igual a alguém Feliz, em suma — quanto a sorte deu A cada coração o único bem De ele poder ser seu. 6-4-1933 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 153. Felizes, cujos corpos sob as árvores Jazem na húmida terra, Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem Das doenças da lua. Verta Éolo a caverna inteira sobre O orbe esfarrapado, Lance Neptuno, em cheias mãos, ao alto As ondas estoirando. Tudo lhe é nada, e o próprio pegureiro Que passa, finda a tarde, Sob a árvore onde jaz quem foi a sombra Imperfeita de um deus, Não sabe que os seus passos vão cobrindo O que podia ser, Se a vida fosse sempre a vida, a glória De uma beleza eterna. 1-6-1916 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 66. Segue o teu destino, Rega as tuas plantas, Ama as tuas rosas. O resto é a sombra De árvores alheias. A realidade Sempre é mais ou menos Do que nós queremos. Só nós somos sempre Iguais a nós-próprios. Suave é viver só. Grande e nobre é sempre Viver simplesmente. Deixa a dor nas aras Como ex-voto aos deuses. Vê de longe a vida. Nunca a interrogues. Ela nada pode Dizer-te. A resposta Está além dos deuses. Mas serenamente Imita o Olimpo No teu coração. Os deuses são deuses Porque não se pensam. 1-7-1916 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 68. Feliz aquele a quem a vida grata Concedeu que dos deuses se lembrasse E visse como eles Estas terrenas coisas onde mora Um reflexo mortal da imortal vida. Feliz, que quando a hora tributária Transpor seu átrio porque a Parca corte O fio fiado até ao fim, Gozar poderá o alto prémio De errar no Averno grato abrigo Da convivência. Mas aquele que quer Cristo antepor Aos mais antigos Deuses que no Olimpo Seguiram a Saturno — O seu blasfemo ser abandonado Na fria expiação — até que os Deuses De quem se esqueceu deles se recordem — Erra, sombra inquieta, incertamente, Nem a viúva lhe põe na boca O óbolo a Caronte grato, E sobre o seu corpo insepulto Não deita terra o viandante. 12-9-1916 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 70. Não a ti, Cristo, odeio ou te não quero. Em ti como nos outros creio deuses mais velhos. Só te tenho por não mais nem menos Do que eles, mas mais novo apenas. Odeio-os sim, e a esses com calma aborreço, Que te querem acima dos outros teus iguais deuses. Quero-te onde tu estás, nem mais alto Nem mais baixo que eles, tu apenas. Deus triste, preciso talvez porque nenhum havia Como tu, um a mais no Panteão e no culto, Nada mais, nem mais alto nem mais puro Porque para tudo havia deuses, menos tu. Cura tu, idólatra exclusivo de Cristo, que a vida É múltipla e todos os dias são diferentes dos outros, E só sendo múltiplos como eles Estaremos com a verdade e sós. 9-10-1916 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 72. Não a ti, Cristo, odeio ou menos prezo Que aos outros deuses que te precederam Na memória dos homens. Nem mais nem menos és, mas outro deus. No Panteão faltavas. Pois que vieste No Panteão o teu lugar ocupa, Mas cuida não procures Usurpar o que aos outros é devido. Teu vulto triste e comovido sobre A estéril dor da humanidade antiga Sim, nova pulcritude Trouxe ao antigo Panteão incerto Mas que os teus crentes te não ergam sobre Outros, antigos deuses que dataram Por filhos de Saturno De mais perto da origem igual das coisas, E melhores memórias recolheram Do primitivo caos e da Noite Onde os deuses não são Mais que as estrelas súbditas do Fado. Tu não és mais que um deus a mais no eterno Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo. Panteão que preside À nossa vida incerta. Nem maior nem menor que os novos deuses, Tua sombria forma dolorida Trouxe algo que faltava Ao número dos divos. Por isso reina a par de outros no Olimpo, Ou pela triste terra se quiseres Vai enxugar o pranto Dos humanos que sofrem. Não venham, porém, estultos teus cultores Em teu nome vedar o eterno culto Das presenças maiores Ou parceiras da tua. A esses, sim, do âmago eu odeio Do crente peito, e a esses eu não sigo, Supersticiosos leigos Na ciência dos deuses. Ah, aumentai, não combatendo nunca. Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando Cada vez maior força Plo número maior. Basta os males que o Fado as Parcas fez Por seu intuito natural fazerem. Nós homens nos façamos Unidos pelos deuses. 9-10-1916 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 74. Uma após uma as ondas apressadas Enrolam o seu verde movimento E chiam a alva espuma No moreno das praias. Uma após uma as nuvens vagarosas Rasgam o seu redondo movimento E o sol aquece o espaço Do ar entre as nuvens escassas. Indiferente a mim e eu a ela, A natureza deste dia calmo Furta pouco ao meu senso De se esvair o tempo. Só uma vaga pena inconsequente Pára um momento à porta da minha alma E após fitar-me um pouco Passa, a sorrir de nada. 23-11-1918 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 78. Seguro assento na coluna firme Dos versos em que fico, Nem temo o influxo inúmero futuro Dos tempos e do olvido; Que a mente, quando, fixa, em si contempla Os reflexos do mundo, Deles se plasma torna, e à arte o mundo Cria, que não a mente. Assim na placa o externo instante grava Seu ser, durando nela. 29-1-1921 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 79. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. Não quero as oferendas Com que fingis, sinceros, Dar-me os dons que me dais. Dais-me o que perderei, Chorando-o, duas vezes, Por vosso e meu, perdido. Antes mo prometais Sem mo dardes, que a perda Será mais na esperança Que na recordação. Não terei mais desgosto Que o contínuo da vida, Vendo que com os dias Tarda o que espera, e é nada. 2-9-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 80. Vossa formosa juventude leda, Vossa felicidade pensativa, Vosso modo de olhar a quem vos olha, Vosso não conhecer-vos — Tudo quanto vós sois, que vos semelha À vida universal que vos esquece Dá carinho de amor a quem vos ama Por serdes não lembrando Quanta igual mocidade a eterna praia De Cronos, pai injusto da justiça, Ondas, quebrou, deixando à só memória Um branco som de espuma. 2-9-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 81. Não canto a noite porque no meu canto O sol que canto acabará em noite. Não ignoro o que esqueço. Canto por esquecê-lo. Pudesse eu suspender, inda que em sonho, O Apolíneo curso, e conhecer-me, Inda que louco, gémeo De uma hora imperecível! 2-9-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 82. Aqui, sem outro Apolo do que Apolo, Sem um suspiro abandonemos Cristo E a febre de buscarmos Um deus dos dualismos. E longe da cristã sensualidade Que a casta calma da beleza antiga Nos restitua o antigo Sentimento da vida. 11-8-1914 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 71. Nestes poemas aparentemente tão símplices, o crítico, se se dispõe a uma análise cuidada, hora a hora se encontra defronte de elementos cada vez mais inesperados, cada vez mais complexos. Tomando por axiomático aquilo que, desde logo, o impressiona, a naturalidade e espontaneidade dos poemas de Caeiro, pasma de verificar que eles são, ao mesmo tempo, rigorosamente unificados por um pensamento filosófico que não só os coordena e concatena, mas que, ainda mais, prevê objecções, antevê críticas, explica defeitos por uma integração deles na substância espiritual da obra. Assim, dando-se Caeiro por um poeta objectivo, como é, nós encontramo-lo, em quatro das suas canções, exprimindo impressões inteiramente subjectivas. Mas não temos a satisfação cruel de poder supor-nos a indicar-lhe que errou. No poema que imediatamente precede essas canções, ele explica que elas foram escritas durante uma doença, e que, portanto, têm por força que ser diferentes dos seus poemas normais, por isso que a doença não é a saúde. E assim o crítico não chegue a conduzir aos lábios a taça da sua satisfação cruel. Se quiser ter a alegria, um pouco menos concreta, de apontar outros pecados contra a teoria íntima da obra toda, vê-se confrontado por poemas como o ...º e o ...º, onde a sua objecção já está feita, e a sua questão respondida. Só quem pacientemente, e com o espírito pronto, ler esta obra pode avaliar o que esta previsão, esta coerência intelectual (mais ainda do que sentimental, ou emotiva) tem de desconcertante. Tudo isto, porém, é verdadeiramente o espírito pagão. Aquela ordem e disciplina que o paganismo tinha, e o cristismo nos fez perder, aquela inteligência raciocinada das coisas, que era seu apanágio e não é nosso, está ali. Porque, se falta na forma, aqui está na essência. E não é [a] forma exterior do paganismo — repito — que Caeiro veio reconstruir; é a essência que chamou do Averno, como Orfeu a Eurídice, pela magia harmónica (melódica) da sua emoção. Quais são, para meu critério, os defeitos desta obra? Dois só, e eles pouco empanam o seu fulgor irmão dos deuses. Falta, nos poemas de Caeiro, aquilo que devia completá-los: a disciplina exterior, pela qual a força tomasse a coerência e a ordem que reina no íntimo da Obra. Ele escolheu, como se vê, um verso que embora fortemente pessoal — como não podia deixar de ser — é ainda o verso livre dos modernos. Não subordinou a expressão a uma disciplina comparável aquela a que subordinou quase sempre a emoção e sempre a ideia. Perdoa-se-lhe a falta, porque aos inovadores muito se perdoa; mas não se pode omitir que seja uma falta, e não uma distinção. Semelhantemente, a emoção enferma ainda um pouco do meio cristão em que surgiu para este mundo a alma do poeta. A ideia, sempre essencialmente pagã, usa por vezes um traje emotivo que não lhe é adequado. Em O Guardador de Rebanhos há um aperfeiçoamento gradual neste sentido: os poemas finais — e sobretudo os quatro ou cinco que precedem os dois últimos — são de uma perfeita unidade ideia-emotiva. Eu perdoaria ao poeta que ele houvesse assim permanecido ainda escravo de certos apetrechos sentimentais da mentalidade cristista, se ele nunca, até ao fim da obra, se conseguisse libertar deles. Mas se, a dada altura da sua evolução poética, ele o fez, culpo-o, e severamente o culpo (como severamente, em pessoa, o culpei) de não voltar aos seus poemas anteriores, ajustando-os à sua disciplina adquirida, e, se alguns a essa disciplina se não sujeitassem, riscando-os inteiramente. Mas a coragem de sacrificar o que se fez é a que mais escasseia ao poeta. Tão mais difícil é refazer que fazer a primeira vez. Verdadeiramente, ao invés do que diz o prolóquio gálico, é o último passo o que mais custa. Assim eu acho o ...º poema, tão irritantemente enternecedor para um cristão, absolutamente deplorável para um poeta objectivo, para um reconstrutor da essência do paganismo. Nesse poema desce-se às últimas baixezas do subjectivismo cristista, indo até àquela mistura do objectivo com o subjectivo que é o distintivo doentio dos mais doentios dos modernos (desde certos pontos da obra intolerável do infeliz chamado Victor Hugo até à quase totalidade da magma amorfa que faz as vezes de poesia entre os nossos contemporâneos místicos). Exagero, porventura, e abuso. Tendo aproveitado a ressurreição do paganismo que Caeiro conseguiu, e tendo, como todos os aproveitadores, conseguido a fácil arte secundária de aperfeiçoar, é talvez ingrato que me revolte contra os defeitos inerentes à inovação com que aproveitei. Mas, se os acho defeitos, tenho, embora os desculpe, que os apelidar de tais. Magis amica veritas. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 353. Prefácio a Caeiro. 1ª publ.: Obra Poética. Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Galhoz.) Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960. É notável que toda a obra de fôlego, pela qual um indivíduo se institui mestre na sua categoria, é, ao mesmo tempo, obra de emoção e de pensamento, contém tanto uma forma de arte como uma fórmula de filosofia. Nascem as grandes obras da literatura com um carácter análogo ao das grandes crenças religiosas: nelas a um tempo se encontra, e numa mistura indestrinçável, a arte, a moral e [...] a metafísica. Obra suprema é aquela em que (a par, é certo, da rígida construção que assinala os mestres) pensamento original e emoção própria se reúnem e se fundem... * Não há, é certo, em Caeiro aquela última mestria do equilíbrio do espírito, que se revela pela estudada forma do verso. Mas perfeita — quando já [?] não perfeitíssima — é a construção e o desenvolvimento de cada poema — cada um erguendo-se limpo e safo do acto espiritual que lhe deu origem. De resto, triste seria que fôssemos menos agradecidos àquele homem maravilhoso que, no meio deste século doente, cristão, recriou, de súbito, a alma antiga. Espontaneamente fez, naturalmente (...) A sua obra é a maior obra que alma portuguesa tem feito. Se estas palavras vos parecerem estranhas, cuidai bem que falo do futuro, curando pouco do risível e do estranhável que possa haver para vós, que sois de hoje, no claro sentido destas palavras. 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 358. Prefácio a Caeiro Por certo que a obra tem defeitos, e defeitos que, sendo para mim bem patentes, não empanam, salvo no pouco em que a empanam, a cintilação da obra. Rasgou Caeiro a névoa cristã, que encobre a natureza e as emoções que nascem dela. Mas nem rasgou inteiramente essa névoa, nem de todo a conseguiu erguer de diante dos seus próprios olhos. Ambas as incompletidões eram de esperar. Que não rasgasse de todo essa névoa, era certo de antemão, pois isso não podia ser obra de um homem, senão de gerações de homens, que nem só uma bastaria. Que a não afastasse de todo de diante dos seus próprios olhos, também era de esperar; pois na alma dele, como na de todos nós, jazia, mau grado a aspiração para o objectivismo, o fermento subjectivista cristão, que, sem que por tal demos, forma parte consubstanciada da essência do nosso ser espiritual. O mais pagão de nós tem que exprimir-se em uma linguagem cristã, porque as palavras nas suas relações entre si e o sentido de cada uma isoladamente (de per si) estão cristianizados. Como não falamos já grego, também não pensamos grego. Por isso na obra de Caeiro aparecem alguns elementos que, embora não escondam a sua essência, todavia a contradizem. Enumerarei esses elementos. Para primeiro o enumerar, escolherei aquele que é o mais evidente de todos — a forma poética adoptada, que é, para mim, inadmissível. Sei bem que essa forma tem um ritmo próprio, que nem se confunde com o ritmo dos versos livres de Whitman, nem com o dos versos livres dos franceses modernos. Esse ritmo, porém, nasce, na verdade, de uma incompetência de colocar o pensamento dentro de moldes estáveis; facilita demasiado, para que o possamos contar como valor. O objectivista deve, acima de tudo, tornar os seus poemas objectos, com contornos definidos, olhando a que obedeçam a leis exteriores a si próprios, como a pedra, quando cai, obedece à gravidade, que, sendo parte da «lógica» do seu movimento, não é parte da sua personalidade material, como tal exclusivamente considerada. Apontarei, em seguida, como defeito — mais grave para mim, se bem que, bem o sei, muito menos grave para os outros — o banho morno de emotividade cristã em que alguns dos poemas são envolvidos, a simbologia cristista de que alguns deles, mesmo, se servem. Paira por parte do livro um romantismo naturalista qual .o que ensinaram à Europa os dulçorosos cânticos do abominável fundador da ordem franciscana. Por outros passa, como matéria estética, dispensável todavia, um sopro de mitologia cristã, que destoa da índole da obra. Se a obra fosse, ou de um cristão, ou de um mero emotivo sem uma filosofia a soclear a sua arte, passasse esse defeito, que, aliás, mais não seria que um pecado a mais contra a natureza. Mas na obra do mais pagão, substancialmente, de todos os autores de todos os tempos, tal elemento desconsola e desconcerta, punge e desola. Apontarei o terceiro, que é o último, defeito. Não é esse, já, da obra no seu conjunto, porém da trajectória por ela seguida. Desculpo-o, porque a doença, e, antes dela, uma daquelas perturbações emotivas que o homem forte — e tal deve o pagão ser — mesmo na juventude não deve sentir, a provocaram. Refiro-me ao caminho seguido pela inspiração de Caeiro, a partir do fim de O Guardador de Rebanhos — isto é, a contar dos dois pequenos poemas O Pastor Amoroso até ao fim. O cérebro do poeta torna-se confuso, a sua filosofia se entaramela, os seus princípios sofrem a derrota que, na indisciplina da alma, representa em espírito o que seja a vitória ignóbil de uma revolução de escravos. O leitor que tenha seguido a curva ascensional de O Guardador de Rebanhos verá, passado esse conjunto de poemas, como a inspiração se deteriora e se confunde. Não se desvia, propriamente: senão que sofre a intrusão de elementos estranhos a ela. Que o amigo desculpe o crítico, quando ele se vê forçado a afirmar que o poeta morreu a tempo. É possível que mudasse para o a que chegara. Não sei. Toda a hipótese deste género é absurda, porque o que foi era o que tinha de ser, que assim o quiseram, sob a mão invisível do Fado, os deuses senhores da matéria do nosso mundo. São estes três defeitos que, a meu ver, empanam esta obra. São inevitáveis — um por o meio intelectual moderno, em que o autor vivia; outro pela própria espontaneidade e simpleza da obra, que buscava exprimir-se sem curar da forma, escrúpulo que ao discípulo, mais que ao mestre, compete; outra pela doença e pela perturbação do espírito. São defeitos inevitáveis, digo; não deixam por tal de ser defeitos, mas os defeitos inevitáveis são, em toda a obra, os menores. Assim esta obra, que se ergue sobranceira acima da nossa civilização abjecta, não tem senão os defeitos que lhe vêm de respirar aquele ar, acima do qual vai subindo. A outros, discípulos, compete expurgar as consequências dos defeitos que ainda empanam a causa. Mas o Mestre, que primeiro, em vinte séculos de névoa, deixou ver os contornos dos montes, e a realidade directa das pedras e das flores, não poderá ser esquecido enquanto os homens não se afastarem por completo dos caminhos do mundo e da matéria humana de que foram feitos. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 359. Prefácio a Caeiro Não ignoro que esses dois poemas são duas pérolas da poesia amorosa universal; que são um novo sentido do amor e uma música nova das emoções amorosas. Caeiro podia ser infiel aos seus princípios; nunca podia ser inoriginal. Assim esses poemas de amor são únicos na poesia amorosa. Reparo que são assim sem por isso os admirar. Ponho mais alto, e a maior preço, a minha admiração. O próprio estado amoroso, embora natural, não é o estado próprio para a fixação de impressões que a arte é, salvo no caso dos raros artistas que conseguem ter constantemente mão em si, e a quem a inteligência tem sempre rédea na emoção. Mas esses mesmos, por certo, não ordenam como colunas de algarismos as suas emoções sexuais. O temperamento metafísico de Caeiro menos apto estava a receber as emoções amorosas, que, sobre serem já de si perturbadoras, mais o eram para um temperamento em que eram estranhas. De aí a momentânea abdicação dos seus princípios e da sua objectividade nativa nos dois poemas de O Pastor Amoroso. Como não há-de um amoroso olhar para dentro de si? Passo com desgosto sobre estes dois poemas, e chego, sem grande acréscimo de alegria, aos fragmentos vários, completos ou incompletos, com que se fecha a colecção da obra de Caeiro. A viciação mental produzida por esse episódio amoroso, que, sobre ter sido estéril, foi perturbador, e cujos detalhes desconheço e desejo não conhecer, prosseguiu no espírito do poeta. Ficou o rasto viciado. Nunca mais, salvo em evanescentes episódios poéticos, voltou aquela serenidade suprema, aquela visão de deus, a que, libertando-se pouco a pouco das acreções espirituais crististas, o poeta se havia librado no decurso do caminho a que chamou O Guardador de Rebanhos. Escuso de insistir, porque, tendo sobradamente explicado em que consiste a obra de Caeiro, implicitamente expliquei em que degenerou, quando degenerou. É-me grato ser-me escusado insistir em um ponto cuja meditação me magoa. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 363. Prefácio a Caeiro Tão pouco se assemelha ao politeísmo da Índia, e a diferença foi apontada, com uma distinção subtilíssima e justa, em uma frase de Heródoto, onde se diz que os deuses da Índia eram (são) de forma humana, mas os da Grécia de natureza humana. (intercalar os termos gregos) . Caeiro, no seu objectivismo total, ou, antes, na sua tendência constante para um objectivismo total, é frequentemente mais grego que os próprios gregos. Duvido que grego algum escrevesse aquela frase culminante de O Guardador de Rebanhos: A Natureza é partes sem um todo, onde o objectivismo vai até à sua conclusão fatal e última, a negação de um Todo, que a experiência dos sentidos não autoriza sem a intromissão, para o caso externa, do pensamento. Aqui, como em outros pontos, é Caeiro, como digo, mais grego que os gregos. Falo de mim, porque, afinal, de ninguém melhor poderia falar. Também me entrego, conforme posso e a índole me indica, ao mesmo exercício literário que Caeiro. E nas composições com que os deuses me concedem que eu entretenha os meus ócios, eu sou, discipularmente, do mesmo paganismo que Caeiro, acrescentando-lhe porém a forma mais precisa que a essência me parece necessitar, e a crença na realidade exterior e absoluta dos Deuses antigos, que a minha índole religiosa me pede sem que eu pretenda furtar-me a essa solicitação. Mas sem Caeiro tudo isto me seria impossível. Eu sou, é certo, um pagão nado. Por um lusus naturae, cuja razão não sei, mas que é curioso que acontecesse a pouca distância no tempo daquele que Caeiro representa, nasci com um temperamento tal, que o objectivismo me é natural e próprio. Mas, repito, eu ficaria, quando muito, presa de um mal-estar instintivo e inexplicável, descrente no cristismo e sem crença possível, se não me tivesse vindo a revelação da obra de Caeiro. Eu era como o cego de nascença, em quem há porém a possibilidade de ver; e o meu conhecimento com O Guardador de Rebanhos foi a mão do cirurgião que me abriu, com os olhos, a vista. Em um momento transformou-se-me a Terra, e todo o mundo adquiriu o sentido que eu tivera instintivo em mim. Exponho estes factos, não só para mostrar o que é, num terreno apropriado, a influência da obra de Caeiro, como para que o leitor, sabendo-me assim grato, e por quanto sou grato, possa dar nas minhas palavras o desconto que julgue dever-se ao que nelas, de excessivo ou de deformador, haja posto a minha grata admiração Posto o que, passo de mim, e vou ao caso geral do que esta obra ingente representa. Em algumas das considerações, que aqui foram feitas, colheu já o leitor atilado, que já o tenha sido da obra, alguns elementos para compreender a que me refiro. Que a obra de Caeiro representa uma tendência crescente (adentro de O G[uardador] de R[ebanhos]) para o objectivismo absoluto não há que duvidar, pois que para não duvidar basta ler. Repare-se que esse objectivismo absoluto está ao mesmo tempo no instintivo primário das emoções e dos sentidos, e no instintivo derivado das ideias, porque esta obra é, como todas as grandes obras de todos os tempos, um composto homogéneo onde, a par da profunda originalidade do género de emoções, há a profunda originalidade das ideias, suas pares, que as acompanham, e onde, a par da profundeza que comportam essas ideias e essas emoções, há a grande simplicidade da forma e da expressão ideativa. Tenho por seguro que muitos que lerem esta obra, dirão, chegados ao fim dela, que é excessivamente simples e fácil de fazer. Teremos, ainda outra vez, o velho caso, já secularmente proverbial, do ovo de Cristóbal Colón (Cristóvão Colombo). Nada há mais fácil que fazer coisas análogas, uma vez esta vista; por certo que nada há mais fácil. O segundo passo é proverbial que não custa, e menos custa quando o primeiro passo é dado pelos outros. Não julgue, porém, um poetastro qualquer dentre os leitores que, a não ser o plágio vulgar, ou o decalque directo de Caeiro, é fácil escrever neste género coisas que sejam sentidas e fortes. Nem julgue — muito menos o julgue — que é fácil, o que é possível, fazê-las originais dentro da mesma orientação. Mesmo, porém, que nada em tudo isto fosse verdade, e que esta obra nada tivesse de original, de profundamente novo, restaria por certo, e isso é inegável, no meio das obras poéticas da nossa época, que ou a introspecção excessiva torna estéreis, ou a preocupação da violência torna absurdas, ou o prejuízo social põe longe da arte, um manancial de pureza e de frescor. Quando mais não pudéssemos ir buscar à obra de Caeiro, poderíamos sempre ir lá buscar a Natureza. Cheia de pensamento, ela livra-nos de toda a dor de pensar. Cheia de emoção ela liberta-nos do peso inútil de sentir. Cheia de vida, ela põe-nos à parte do peso irremediável da vida que é forçoso que vivamos. E assim, mesmo que não fosse da grandeza que eu creio que ela é, era, ainda, grande e rica. Há horas em que eu creio, afinal, que a verdade completa estará na união destas duas opiniões, e que a obra de Caeiro é maior ainda, porque, a par da sua originalidade profunda e reveladora, ela é uma coisa natural que encanta e livra. São as horas em que, sem que eu esqueça o que ela é de renascença pagã, busco apenas nela consolar-me das malícias e das injustiças da vida. Vou então haurir nestes versos imortais a tranquilidade e o repouso. Porque esta obra, fora de ser o que é de inovador, é um repouso e um livramento, um refúgio e uma libertação. [Var.:] Vou então haurir nesses versos imortais a tranquilidade e o sossego. Porque esta obra que, salvo pela forma, é completa, é um refúgio, além de ser um livramento; e é um repouso, sobre ser uma libertação. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 364. Prefácio a Caeiro Não tenhas nada nas mãos Nem uma memória na alma, Que quando te puserem Nas mãos o óbolo último, Ao abrirem-te as mãos Nada te cairá. Que trono te querem dar Que Átropos to não tire? Que louros que não fanem Nos arbítrios de Minos? Que horas que te não tornem Da estatura da sombra Que serás quando fores Na noite e ao fim da estrada. Colhe as flores mas larga-as, Das mãos mal as olhaste. Senta-te ao sol. Abdica E sê rei de ti próprio. 19-6-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 30. Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo, E ao beber nem recorda Que já bebeu na vida, Para quem tudo é novo E imarcescível sempre. Coroem-no pâmpanos. ou heras. ou rosas volúveis, Ele sabe que a vida Passa por ele e tanto Corta a flor como a ele De Átropos a tesoura. Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto, Que o seu sabor orgíaco Apague o gosto ás horas, Como a uma voz chorando O passar das bacantes. E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo, E apenas desejando Num desejo mal tido Que a abominável onda O não molhe tão cedo. 19-6-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 32. O andaime Este título, embora da autoria de Caeiro, não é porventura o que ele escolheria. Mas sirvo-me dele, para esta parte da obra, porque uma pessoa da sua família me contou que ele uma vez dissera, perto já da morte, e falando desta obra fragmentária: «Não passo de um andaime.» * Prefácio: Leio, e sou límpido nas minhas intenções; o que há de febre na simples vida abandona-me; uma calma completa me invade. Todo o repouso da natureza está comigo. s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 378. Prefácio a Caeiro As rosas amo dos jardins de Adónis, Essas volucres amo, Lídia, rosas, Que em o dia em que nascem, Em esse dia morrem. A luz para elas é eterna, porque Nascem nascido já o Sol, e acabam Antes que Apolo deixe O seu curso visível. Assim façamos nossa vida um dia , Inscientes, Lídia, voluntariamente Que há noite antes e após O pouco que duramos. 11-7-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 34. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. A obra sanificadora da ciência tem de ser gradual. Nenhum homem de ciência quer «revolucionar», reformar de repente. Aquilo a que é costume chamar «os maus resultados de tirar a crença ao povo» não é senão uma estigmatização perfeitamente justa dos métodos de cérebros mal-educados na ciência que cometeram o duplo erro de julgar que se pode arrancar uma crença a um povo de repente, e de lhe ir pregar absurdos como o que de que «Deus não existe» e «não há imortalidade da alma» - coisas que ninguém sabe se há ou não há, e sobre as quais a ciência não tem voz nem decisão. Quantas gerações não serão precisas para a libertação, pela ciência, de um povo? Se ainda não foi possível a libertação, pela ciência, dos homens da ciência, e da gente culta! Não se deve ir abalar a crença a um ignorante. Deve-se instruí-lo. A instrução lhe abalará a crença. E se não lha abalar é que ela está ainda arreigada de mais para poder ser abalada. Fica para outra geração. É mesmo duvidoso se se deva proibir o ensino religioso. Deve criar-se uma atmosfera de cultura científica que o vá lentamente fazer caducar. A ciência, não um legislador científico, não pode proceder violentamente contra uma religião, por 3 razões: (1) porque não sabe em absoluto se ela é errónea, ou, pelo menos, inteiramente errónea; (2) porque os processos de propaganda da ciência são incompatíveis com violências, próprias só dos fanáticos religiosos que há entre os homens de ciência, que fazem da ciência uma religião; (3) porque toda a violência levanta uma reacção. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 396. Tão profundo é o seu pressentimento da alma pagã, que os seus poemas, mau grado a sua rítmica irregular, são perfeitamente estatuais. Pareceria, a priori, que poemas sem ritmo nem rima deviam não poder [dar] uma impressão de conjuntos perfeitos. Não é isto que acontece com os poemas de Caeiro. Parecem traduções para linguagem humana de poemas escritos no idioma dos Deuses, que na versão conservam o divino equilíbrio, a divina calma, a unidade sobre-humana de obras de imortais. Em cada verso reside a despreocupação das nossas coisas passageiras, um curioso e original [var.: estranho e novo] desprezo do transitório, obtido por um ascetismo estético e não moral; à grega antiga, os olhos postos na beleza que não passa e esquecendo em ela o mundo contingente e volúvel. É, outra vez, verdadeiramente vivo, em carne, o ideal dos gregos da antiga Hélade. Novamente fitam olhos olímpicos o variado espectáculo do mundo. Novamente uma noção da beleza se forma, que nada tem com a moral, mas que não é formal, como o são todos os pretensos imoralismos modernos, obra eunuca de «estetas» de fingimento — Wildes, Gautiers, e outros assim, que tinham da antiguidade uma noção artificial e mesquinha. Os numerosos erros em que temos sido educados por o exemplo de gerações passadas fazem com que seja muito difícil uma reformação do paganismo. O homem, que deseja levar os modernos pela mão, outra vez pelo caminho do Olimpo, tem, não só que desviá-los da senda cristã, o que já é difícil, mas também tirá-los daqueles falsos atalhos e cursos desviados por onde os têm conduzido os pretendidos [var.: pretensos] renovadores ou sequazes do velho espírito pagão. Quanto em nossos dias se tem dito sobre o paganismo peca por formal por não atingir, para além das aparências do paganismo, o seu íntimo espírito vivo. Três foram as interpretações modernas do paganismo; tantos foram os erros sobre o espírito pagão. Primeiro, houve os homens do renascimento italiano, que não viram no paganismo senão o seu amor pela beleza física, e o seu culto pela perfeição formal. Vieram depois, numa degeneração de esses, os homens secos e estreitos que constituíram aquilo a que se chama o «espírito clássico» — e estes do paganismo só viram a perfeição formal, o culto da perfeição; esquecendo já, porque de ordinário eram espíritos verdadeiramente cristãos, o culto da beleza em que essoutro assentava, de que ele não era, verdadeiramente, senão uma parte. De aí a seca e estéril legião dos homens que deram, durante longos anos, leis literárias ao mundo. De aí os Petrarcas e [...] De aí a plebe estética dos Boileau, odiosa para sempre. Em seu medíocre [...] francês, tomaram por norma um equilíbrio, uma racionalidade vazia; não cuidando de que, para os antigos, tal equilíbrio, tal medida fora, não uma coisa definida, uma primeira regra da estética, porém um limite, um freio posto à íntima e desordenada exuberância que há em todo o sentimento da beleza. Não viam que a perfeição não é a beleza, senão uma parte dela; que a fronteira não é a nação, mas o que a define como tal. Não menos estreita e falsa se bem que de outro modo [...] é a ideia moderna do paganismo, que devemos aos esforços mal-empregados de uma seita de artistas que começa com Gautier e achou o seu maior representante [?] na pessoa de Óscar Wilde. Aqui o género de erro é outro. Um Wilde é, na realidade, tão estreito e seco como um Boileau. Hoje, é difícil vê-lo, mas o futuro longínquo [?] não deixará de notá-lo. Todo o espírito que nasceu pagão o nota imediatamente. C[aeiro]: os últimos versos: Alguns deles eu, de boa vontade, não publicaria. São de um espírito já enfermo em que subrepticiamente a individualidade é traída por si mesma [var.: própria]. Um pensamento pensado ao rubro, e depois deixado esfriar na mente até que se lhe possa dar forma e contorno. Não quero dizer que os gregos pensassem como românticos e executassem como estatuários. Não havia, não podia haver, essa duplicidade no seu espírito. A acção de conceber e de executar era já assim no espírito. O modo de conceber uma obra de arte é já o modo de executá-la. 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 379. Prefácio a Caeiro Cuidas, ínvio, que cumpres, apertando Teus infecundos, trabalhosos dias Em feixes de hirta lenha, Sem ilusão a vida. A tua lenha é só peso que levas Para onde não tens fogo que te aqueça, Nem sofrem peso aos ombros As sombras que seremos. Para folgar não folgas; e, se legas, Antes legues o exemplo, que riquezas, De como a vida basta Curta, nem também dura. Pouco usamos do pouco que mal temos. A obra cansa, o ouro não é nosso. De nós a mesma fama Ri-se, que a não veremos Quando, acabados pelas Parcas, formos, Vultos solenes, de repente antigos, E cada vez mais sombras, Ao encontro fatal — O barco escuro no soturno rio, E os novos abraços da frieza estígia E o regaço insaciável Da pátria de Plutão. 11-7-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 35. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. Não consentem os deuses mais que a vida. Tudo pois refusemos, que nos alce A irrespiráveis píncaros, Perenes sem ter flores. Só de aceitar tenhamos a ciência, E, enquanto bate o sangue em nossas fontes, Nem se engelha connosco O mesmo amor, duremos, Como vidros, às luzes transparentes E deixando escorrer a chuva triste, Só mornos ao sol quente, E reflectindo um pouco. 17-7-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 37. 1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924. Cada coisa a seu tempo tem seu tempo. Não florescem no Inverno os arvoredos, Nem pela Primavera Têm branco frio os campos. À noite, que entra, não pertence, Lídia, O mesmo ardor que o dia nos pedia. Com mais sossego amemos A nossa incerta vida. À lareira, cansados não da obra Mas porque a hora é a hora dos cansaços, Não puxemos a voz Acima de um segredo, E casuais, interrompidas sejam Nossas palavras de reminiscência (Não para mais nos serve A negra ida do sol). Pouco a pouco o passado recordemos E as histórias contadas no passado Agora duas vezes Histórias, que nos falem Das flores que na nossa infância ida Com outra consciência nós colhíamos E sob uma outra espécie De olhar lançado ao mundo. E assim, Lídia, à lareira, como estando, Deuses lares, ali na eternidade Como quem compõe roupas O outrora compúnhamos Nesse desassossego que o descanso Nos traz às vidas quando só pensamos Naquilo que já fomos, E há só noite lá fora. 30-7-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 38. Da nossa semelhança com os deuses Por nosso bem tiremos Julgarmo-nos deidades exiladas E possuindo a Vida Por uma autoridade primitiva E coeva de Jove. Altivamente donos de nós-mesmos, Usemos a existência Como a vila que os deuses nos concedem Para esquecer o Estio. Não de outra forma mais apoquentada Nos vale o esforço usarmos A existência indecisa e afluente Fatal do rio escuro. Como acima dos deuses o Destino É calmo e inexorável, Acima de nós-mesmos construamos Um fado voluntário Que quando nos oprima nós sejamos Esse que nos oprime, E quando entremos pela noite dentro Por nosso pé entremos. 30-7-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 40. Só esta liberdade nos concedem Os deuses: submetermo-nos Ao seu domínio por vontade nossa. Mais vale assim fazermos Porque só na ilusão da liberdade A liberdade existe. Nem outro jeito os deuses, sobre quem O eterno fado pesa, Usam para seu calmo e possuído Convencimento antigo De que é divina e livre a sua vida. Nós, imitando os deuses, Tão pouco livres como eles no Olimpo, Como quem pela areia Ergue castelos para encher os olhos, Ergamos nossa vida E os deuses saberão agradecer-nos O sermos tão como eles. 30-7-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 42. Aqui, Neera, longe De homens e de cidades, Por ninguém nos tolher O passo, nem vedarem A nossa vista as casas, Podemos crer-nos livres. Bem sei, ó flava, que inda Nos tolhe a vida o corpo, E não temos a mão Onde temos a alma; Bem sei que mesmo aqui Se nos gasta esta carne Que os deuses concederam Ao estado antes de Averno. Mas aqui não nos prendem Mais coisas do que a vida, Mãos alheias não tomam Do nosso braço, ou passos Humanos se atravessam Pelo nosso caminho. Não nos sentimos presos Senão com pensarmos nisso, Por isso não pensemos E deixemo-nos crer Na inteira liberdade Que é a ilusão que agora Nos torna iguais dos deuses. 2-8-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 44. Da lâmpada nocturna A chama estremece E o quarto alto ondeia. Os deuses concedem Aos seus calmos crentes Que nunca lhes trema A chama da vida Perturbando o aspecto Do que está em roda, Mas firme e esguiada Como preciosa E antiga pedra, Guarde a sua calma Beleza contínua. 2-8-1914 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 46. Em Ceres anoitece. Nos píncaros ainda Faz luz. Sinto-me tão grande Nesta hora solene E vã Que, assim como há deuses Dos campos, das flores Das searas, Agora eu quisera Que um deus existisse De mim. 17-9-1914 Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 72. Um conceito moderno do paganismo tende, por força, a concebê-lo (?) mais no que tem de antagónico ao cristismo, do que no que tem de característico, independentemente de comparações. Se, porém, esse conceito do paganismo, por falso que fosse o método, tivesse por base uma apreciação justa das diferenças verdadeiras entre ele e o sistema cristão, pouco se haveria perdido com o método adoptado não ser o melhor. Infelizmente, os contrastadores dos dois tipos de mentalidade, por não compreenderem a primeira, buscaram-lhe um oposto falso, de onde não compreenderem a segunda. É difícil a quem vive adentro dos sentimentos cristãos distinguir bem o que são esses sentimentos, destrinçar quais são cristãos, quais simplesmente humanos, quais nem uma coisa nem outra, mas, por exemplo, modernos (se se tratar de um apreciador moderno) e devidos ao influxo das correntes características da nossa época. Assim, na sua quase totalidade, os estudiosos modernos do paganismo interpretam o cristismo como uma religião triste, como se todo o cristismo fosse a vida monástica e todos os processos crististas a cela e o cilício! Contrapondo-lhe o paganismo, julgam, pois, que este é alegre e feliz. Interpretando o cristianismo como uma religião cheia do temor de Deus — e esquecendo que frequentemente é cheia do entusiasmo de Deus —, acham que o paganismo, seu contrário, é uma religião onde pouco se pensa em Deus, esquecendo que a antiguidade é mais ébria da superstição e da religião quotidiana que qualquer fase cristista. A Idade Média é pouco religiosa ao lado da absorvente preocupação do Além que distingue o paganismo. O pagão é muito mais escravo dos seus deuses que o cristão das suas divindades e dos seus santos. Todo o historiador hoje sabe que a Idade Média foi mais alegre que a antiguidade pagã. E devia saber que o paganismo é hoje, para os mestres do seu estudo, uma época triste. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 303. Prefácio a Caeiro