QUANDO VOLTA D. SEBASTIÃO? Em 1924, segundo profecia de [...] O sebastianismo tem sido incompreendido. Tomado por uns como sendo uma mera superstição popular, por outros como um devaneio imperialista da decadência, o facto é que ele tem sido, em geral, tido por assunto desprezível e obscuro. Obscuro com certeza que é, para aqueles que não têm o fio condutor que os leve seguramente através do labirinto das profecias sebásticas. Desprezível está longe de ser — tanto pela razão, estritamente exotérica e sociológica, de que o sebastianismo é o único movimento profundamente nacional que tem havido entre nós, tendo toda a força de um movimento religioso, que é, e todo aquele cunho nacional que falta a todos os movimentos políticos entre nós, quer se trate do mimetismo da Grande França absolutista feito pelo Marquês de Pombal, quer da servil cópia do constitucionalismo inglês realizada esterilmente pelos nossos “liberais”, quer da reles subserviência aos ideais da Revolução Francesa, estrangeiros para nós, que são uma das coroas da inglória e do antipatriotismo dos nossos pseudo republicanos de hoje em dia. O que seja propriamente o sebastianismo — hoje mais vigoroso do que nunca, na assombrosa sociedade secreta que o transmite cada vez mais ocultamente de geração em geração, guardado religiosamente o segredo do seu alto sentido simbólico e português, que pouco tem que ver com o D. Sebastião que se diz ter morrido em África, e muito com o D. Sebastião que tem o número cabalístico da Pátria Portuguesa —, eis o que não é talvez permitido desvendar. Mas, para interesse dos leitores, não é talvez mal cabido explicar qual a data marcada para o Grande Regresso, em que a Alma da Pátria se reanimará, se reconstituirá a íntima unidade da Ibéria, através de Portugal, se derrotará finalmente o catolicismo (outro dos elementos estrangeiros entre nós existentes e inimigo radical da Pátria) e se começará a realizar aquela antemanhã ao Quinto Império. Essa data consta ocultamente da chamada profecia de [...], que é objecto dos esperados sarcasmos de José Agostinho de Macedo no seu livro Os Sebastianistas . Diz a profecia: transcribe A interpretação tradicional, de que José Agostinho se serviu, dava este regresso para 1693, porque partia da hipótese que os números citados no princípio da profecia eram números realmente e não sinais planetares, como com efeito são. Eles faziam assim o cálculo: Depois de nove 900 Junta um 100 soma 1000 Três a 300 quatro 400 soma 1700 Tira sete de barato 1693 Aos outros versos do profeta dava se uma interpretação consentânea com o regresso em 1963. A verdade, porém, é que tudo isto está errado. O número nove, na cabalística, representa o planeta Marte, e o número um o Sol. A indicação constante dos primeiros versos da profecia é portanto de que o regresso se dará num período de Marte e num subperíodo do Sol. Ora, segundo a Astrologia Cabalística, que é a empregada, por exemplo, por Nostradamo, nas suas previsões veladas e, mesmo, pelo nosso pseudo Bandarra, nas profecias que se lhe atribuem, o período de Marte abrange de 1909 a 1944. Durante este período há cinco subperíodos do Sol, isto é, cinco anos regidos pelo Sol, cabalisticamente falando. São 1910, 1917, 1924, 1931 e 1938. Três a quatro — continua a profecia. Trata se do terceiro período, cujo número final é com efeito 4 — 1924. Tira sete de barato. Por isto entende se que a prova dará sete. Ora a chamada prova dos noves é um dos processos ocultos mais empregados para explicação final de qualquer tema profético. E com efeito, feita esta prova ao número 1924, ele dará noves fora 7. É este o ano, portanto, do Regresso do Encoberto. Será por coincidência que, examinando astrologicamente as possibilidades de esse ano, vemos que é o ano em que a conjunção de Marte e de Saturno cai em cheio sobre a conjunção de Urano e de Neptuno que rege os destinos de Portugal, visto estar situada no meridiano do horóscopo nacional? Será por coincidência que o esmagamento total se revela no horóscopo do rei de Espanha para esse período? Será por coincidência que é nesse ano que o planeta Urano transitando desde 1920 o signo de Portugal (Pisces) atinge o lugar da cabeça de Dragão, cuja importância na astrologia nacional é de primeiro plano? Tantas são as coincidências que apontam como importante para nós, e, através de nós, para a Ibéria esse ano estranho de 1924. Mas que quer dizer esse Grande Regresso? O que é que regressa? O que significa, ao certo, essa Vinda de D. Sebastião? O próprio D. Sebastião o que significa? Perguntas são estas a que se não pode responder senão com o texto velado do Tertuliano: Aquelas coisas que estão veladas, descobertas, ficam destruídas ( em latim ). s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 63. Essa data consta ocultamente da profecia do mouro que é objecto, em Os Sebastianistas , dos sarcasmos de José Agostinho de Macedo. A profecia começa por estes versos, que são os que contêm a indicação de data: Depois de nove Juntarás um Três a quatro Tira sete de barato Se houver quem te reprove É insensato. Outros versos contém ela, mas, como não é nossa intenção explicá-los, e como não se relacionam com datas mas com acontecimentos, escusamos de alongar este artigo transcrevendo-os. Servindo-se da interpretação tradicional, chasqueava José Agostinho do facto de, por ela, o regresso se achar indicado para 1693. Assim: Depois de nove [...] etc. A verdade, porém, é que tudo isto está errado, talvez propositadamente, pelos autores da profecia, que porventura acharam conveniente profetizar uma vinda próxima, para animar o sentimento sebastianista, ocultando a verdadeira data da vinda. Essa data, porém, encontra-se nitidamente expressa nos versos transcritos, se, em vez de considerarmos aqueles números como simples números, nos reportarmos ao facto de que estas profecias sempre se baseiam na Astrologia cabalística Ora, na astrologia cabalística, o número 9 significa o planeta Marte, e o número 1 o Sol, 3 Júpiter, 4 o Sol negativo, 7 a Lua. De modo que o sentido das palavras da profecia transcrita é que no período planetar de Marte, no subperíodo do Sol, [...] Ora em astrologia cabalística procede-se por períodos planetares, cada um de uma duração de 35 anos. Nove mais um período destes dão 350 anos, o que, somado a 1578, data de Alcácer Quibir, dá 1928, isto é, cai no mesmo subciclo que 1924. Ora a numeração oculta admite sempre três provas — isto é, a indicação de uma data obtém-se sempre de três maneiras. Vejamos outra: partindo de que se trata de um ano depois do ano 1000, e que portanto não é preciso indicar o 1 de 1000, temos [...] Depois de 9 juntarás 1 — 1910 3 a 4 = 7 — 1917 —1924 (porque 1924 é o primeiro ano depois de 1917 que dá noves fora 7). Outro processo com idêntico resultado: 9 mais 1 período planetar = 10 x 35 = 350 1578 304 1928 350 — 304 = 46 — 7 = 39 3 a 4 tira 7 de barato quer dizer 40 menos 3 vezes 7 isto é 19 350 — 19 é 331 Depois de 9 juntarás 1— 91 3 a 4 — 34 91034 91034 7 77777 90334 13257 9134 7777 1357 9127 1927 91 s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 64. Transferência de datas do esquema de polegada-ano para o de polegada-mês: Ângulo do degrau grande: 2/8/1909 = o mesmo em qualquer caso (?) Entrada do 1.° corredor: 5/8/1914 = Fevereiro de 1969 Saída do 1.° corredor e entrada na antecâmara: 11/11/1918 = Abril de 2020 Entrada no 2.° corredor: 29/5/1928 = Novembro de 2134 Saída do 2.° corredor e entrada na Câmara do Rei: 16/9/1936 = Junho de 2234 (Atenção! 99 anos e 7 meses de estada no segundo corredor: Nostradamo indica 999 e 7 meses na profecia do Fim!) Chegada ao fim da Câmara do Rei: 20/ 8/1953 = Julho/Agosto 2461. O ano de 2198 encontra-se perto de meio do 2.° corredor. 64 anos do início = 64 meses, quer dizer ap. Set.1932. (Nota: o mês de Maio de 1928 corresponde ao ano de 1932.) s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 55. AS CAUSAS LONGÍNQUAS DA HOMENAGEM A AL-MOTAMIDE A propósito da notícia recente sobre o breve descerramento em Silves, da lápida a Al-Motamide, recebemos a seguinte nota: «Em princípios de 1914, veio a Portugal o Emissário especial do Concílio Pagão, com o fim de tratar, com os Mestres da Ordem Sebastianista, de um Acordo Supremo, a que efectivamente se chegou. Desse acordo advieram vários episódios, nacionais e internacionais, de diversa e oculta importância, aos quais não é lícito que nos refiramos. Mas, dado tudo isto, era de esperar que, mais tarde ou mais cedo, houvesse de ser “feita” uma “animação” do espírito árabe, naquilo que era propriamente a transmissão do espírito pagão, e não na sua parte religiosa, inútil para qualquer das direcções concordantes. »A homenagem, claramente pagã, à memória de Al-Motamide, vali de Silves, despertará, nos poucos que já estão despertos, a recordação do Grande Acordo de Março de 1914. Aparentemente, a ideia da homenagem nasceu em Espanha. Mas tanto os Déspotas do Concí1io Pagão, como os Mestres da Ordem do Encoberto, sabem os caminhos que seguirão, e os atalhos por onde hão-de conduzir os outros. »Os acontecimentos provocados, que foram “enfeixados” à meia-noite de 29 de Maio de 1928, terão em breve o seu termo oculto e o seu princípio visível. — O. S.» A nota recebida, que acima damos à estampa, está, de facto, de acordo com o nosso entendimento. Aos pontos versados não nos referimos, porém, na local que publicámos, por não julgarmos que isso fosse de interesse para o público; mas, visto que tão espontaneamente os apresentam, ei-los publicados. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 29. «TRATADO DA NEGAÇÃO» 1. O Mundo é formado de duas ordens de forças: as forças que afirmam e as forças que negam. 2. As forças que afirmam são as forças criadoras do mundo, emanadas sucessivamente do Único, centro da Afirmação. 3. As forças que negam emanam de além do Único. 4. O Único, de quem Deus, o Deus Criador das Coisas, é apenas uma manifestação, é uma Ilusão. Toda a criação é ficção e ilusão. Assim como a Matéria é uma Ilusão, provadamente, para o Pensamento; o Pensamento uma ilusão para a Intuição; a Intuição uma ilusão para a Ideia Pura; a Ideia Pura é uma Ilusão para o Ser. E o Ser é essencialmente Ilusão e Falsidade. Deus é a Mentira Suprema. 5. As forças que negam são aquelas que partem de além do Único. Fora do Único, para a nossa Inteligência, não há nada. Mas como é possível pensar que esse Único não existe, como é possível negá‑lo, ele não é o Único, o Supremo, o realmente Supremo (aqui os termos faltam). Poder negá‑lo é negá‑lo; negá‑lo é e]e não ser. 6. A negação suprema é aquilo a que nós chamamos o não‑Ser. O Não‑Ser não é pensável, porque pensar o não‑ser é não pensar. E contudo, visto que empregamos o termo não‑ser, ele é pensável, de certo modo. Desde que é pensado, torna‑se o Ser. Assim o Ser sai, por oposição do Não‑Ser. O Não‑Ser é que o precede, para falar a linguagem humana. 7. A Matéria, que é a maior das negações do Ser, é o estado que, por isso, mais próximo está do Não‑Ser. A Matéria é a menor das Ilusões, a mais fraca das mentiras. De aí o seu carácter de Evidente. À medida que o Ser se vai manifestando, vai‑se negando; à medida que se vai negando, vai criando o Não‑Ser. Como o Não‑Ser é anterior ao Ser, essa negação que o Ser faz de si‑próprio é uma criação, se assim é possível falar. 8. Devemos ser criadores de Negação, negadores da espiritualidade, construtores de Matéria. A Matéria é a Aparência; a Aparência é ao mesmo tempo o Ser e o Não‑Ser. (Se a Aparência não é o Ser, é o Não‑Ser. Se é o não‑ser, não é a Aparência. Para ser a Aparência, ela tem, portanto, que ser o Ser.) 9. A negação consiste em auxiliar o Manifestado a manifestar‑se mais, até ele se dissolver em Não‑Ser. 10. Há dois princípios em luta: o princípio de Afirmação, de Espiritualidade, de Misticismo, que é o Cristão (para nós, actualmente), e há o de Negação, de Materialidade, de Clareza, que é o Pagão. Lúcifer — o portador da Luz, é o símbolo nominal do Espírito que Nega. — A revolta dos anjos criou a Matéria, regresso ao Não‑Ser, libertação da Afirmação. 11. Há realmente todos os mundos que os teósofos afirmam. Mas eles estão dentro da Ilusão, que, enquanto existe, é a Realidade. Deus existe com efeito para si‑próprio; mas Deus está enganado. Como qualquer de nós julga existir, e para Deus não existe, senão como parte dele, e isto é não-existir, em absoluto; assim, Deus julga existir e não existe. O próprio ser é o Não‑Ser do Não-Ser apenas, a afirmação mortal, da Vida. 1916? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 42. Os místicos, os esotéricos, e outra gente assim, têm sido sempre, notavelmente, falhos de lucidez, de grandeza intelectual e de espírito compreensivo e claro. Lúcifer - o que traz a luz é o nome do símbolo da Negação: a lucidez é a negação. Adoremos a Satanás na sua obra, a Matéria. O Raciocínio é anti-divino por natureza. Por isso devemos amar e cultivar o Raciocínio. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 326. TROVAS DO BANDARRA Interpretação de Raphael Baldaya Augurai, gentes vindouras, Que o rei, que de aqui há-de ir, Vos há-de tornar a vir Passadas trinta tesouras. Sabedores que a interpretação profética é sempre tripla, temos aqui três coisas, a que aplicar o triplo sentido: o «rei que de aqui há-de ir», o «tornar a vir», e as «trinta tesouras». O «rei, que de aqui há-de ir» é o senhor rei D. SEBASTIÃO, mas a “ida” dele tem três feições — foi a ida da independência da nacionalidade, foi a ida do próprio homem, e foi a ida do poder português, ou do império português. Assim o «tornar a vir» se conformará, por seu lado, com estas três interpretações. «Passadas trinta tesouras.» “Tesouras” refere-se a um número, e, como deve ter três interpretações, segundo a regra profética, e aqui as interpretações, como sempre do menor ao maior, são forçosamente do menor ao maior número, porque se trata de números, segue que os três números serão aqueles que possam ser representados por tesoiras. Além de que estas referências numéricas são sempre à numeração romana, acontece, ainda, que na numeração árabe não há número que se assemelhe a tesouras, isto é, que tenha dois elementos. Na numeração romana há três: o dois (II), que é como a tesoura ainda não reunida como tal, o cinco (V), que a parte de cima da tesoura reunida, e o dez (X), que a tesoura inteira aberta. A indicação refere-se a «trinta tesouras», e vê-se que vai por “números redondos”. Diz «passadas trinta tesouras», isto é, não antes de terem passado trinta tesouras. Como o número redondo seguinte será quarenta, temos que o tempo indicado é «entre trinta e quarenta tesouras». No caso da primeira tesoura (II, dois), isto quer dizer entre 60 e 80 anos da ida do rei, e refere-se ao facto mais material, a perda da independência. Reaver-se-ia a independência, diz o profeta, entre 60 e 80 anos depois de ir de aqui o rei. Com efeito, a independência foi reavida em 1640, 62 anos depois de 1578, que foi quando o rei “partiu”. No caso da segunda tesoura (V, cinco) temos que o tempo é entre 150 e 200 anos depois de 1578. Isto quer dizer entre 1728 e 1788. Foi entre estes anos que apareceu o Marquês de Pombal, cujo nome, por sinal, era Sebastião. Há aqui um “regresso de força”. No caso da terceira tesoura (X, dez), o prazo indicado é entre 1878 e 1978. É entre estas duas datas que se dará a verdadeira “vinda” do rei “que de aqui” foi. Outra interpretação (Stella) diz que as datas devem ser marcadas para logo passadas as trinta tesouras, isto é, para a tesoira 31. Isto daria, respectivamente, as seguintes datas — 1640, 1733 e 1888. A primeira está certa, a segunda [...] s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 54. PRINCÍPIOS DE METAFÍSICA ESOTÉRICA Recentemente tem tomado um grande relevo pelo mundo a propaganda da religião chamada Teosofia. Essa religião pretende ser a da Verdade; se não tivesse essa pretensão não seria uma religião. Pretende estar por detrás de todas as religiões. Pretende ser a depositária das antigas doutrinas ocultas; pretende representaruma comunicação para o exterior feita pelos chamados «Mestres». Urge expor do modo mais claro e preciso qual é, segundo a ciência esotérica verdadeira, a constituição real do Universo. Não importa ao leitor como estas verdades se determinaram, de onde elas partem. A sua aceitação não é necessária para ninguém. Mas elas expõem-se, porque chegou a hora de se exporem, porque é preciso que elas sejam dadas ao mundo. O resto não tem importância. Compêndio de Hiperciência. Compêndio de Cosmologia oculta. Este trabalho, de que fui encarregado, procuro fazê-lo o melhor que possa, sendo preciso, lúcido e esquemático, quanto possível, na minha exposição. Uma última pergunta poderá ocorrer aos leitores: qual a razão porque este tratado sai primeiro em português do que em outra lingua qualquer, porque em uma das línguas, não talvez menos faladas, mas por certo menos lidas, do mundo? Porque isso tem de ser assim, dado o grande Destino oculto que Portugal tem de cumprir, continuando o que já cumpriu, aquele destino que o Senhor da Ciência segredou ao Infante D. Henrique em Sagres, para que ele o pusesse em prática. Portugal é um Ente. Esse ente tem que cumprir um destino. Esse destino envolve que as verdades que este livro revela sejam dadas primeiro em português do que em outra língua qualquer. Este sistema não será exposto como um sistema metafísico, que se prove; mas sim como um sistema religioso, dogmaticamente. Mas ele tal é, que, uma vez lido, a sua verdade será vista por aqueles que está destinado que a vejam. Invocam os teosofistas a íntima continuidade da tradição hermética ou esotérica. Segundo Mrs. Besant (quote here the due part of the Ideals of Theosophy). Infelizmente o estudo da literatura ligada à exposição, propositadamente confusa, das teorias que formavam a base metafísica das sociedades secretas como os Rosa-Cruz — infelizmente esse estudo revela princípios fundamentais que, qualquer que seja o seu sentido simbólico, se não casam de modo algum com as teorizações teosóficas. Assim, se há coisa que resulta clara da confusa doutrina dos esotéricos europeus, é que o sexo feminino é, por várias razões de ordem simbólica, considerado por ele como inferior e quase mau. Escusamos de rebuscar muito na literatura hermética. (Q from Hargrave Jennings). Como é que isto se concilia com a tese teosofista que o que há de principal é a Fraternidade humana, esta sem olhar a sexo, raça ou casta? Além disso os herméticos europeus não se propunham trabalhar pela humanidade. Nada disso se conclui dos seus escritos, e estes, embora nos não revelem o seu sistema como conjunto, não deixam de, fragmento a fragmento, nos revelar de que elementos ele se compõe. A teosofia, como é próprio e de esperar da nossa época, é apenas uma democratização do hermetismo. Se se quiser, é uma cristianização dele. Mais nada. Cristianização ou Democratização feita com a ideia de Fraternidade, por sinal a mais baixa das três que compõem a trindade francesa. Os herméticos europeus constituíam sociedades secretas para fazer determinadas investigações científicas. Até que ponto essas investigações foram é hoje impossível, talvez, de determinar. Se essas investigações representam uma tradição remota, é possível julgá-lo. Para que o faziam é simples. As castas sacerdotais e outras perderiam certo poder sobre o povo se divulgassem certos princípios científicos, os quais, aliás, permitiam, na baixa dos sentimentos religiosos, o recurso a fraudes religiosas, por meio de aplicações científicas não muito diversas dos hodiernos processos de alta prestidigitação, de prestidigitação científica. O vagar que as classes superiores tinham nos tempos da escravatura torna possível uma extensa investigação científica. Suponha-se que um padre egípcio descobria a lei da propagação do som, pelo que respeita às câmaras sonantes. A utilização religiosa, fraudulenta (ainda que, talvez, sem má intenção) desse princípio inibiria totalmente que pensasse em divulgá-lo. s.d. Fernando Pessoa et le Drame Symboliste: Héritage et création. Maria Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977. - 510. A sociedade chamada Os Filhos da Índia tem (informa Mrs. Besant) um artigo principal pelo qual os seus membros se obrigam a praticar todos os dias um acto de dedicação. À primeira vista, esta ideia parece nobre, vigorizadora, prática mesmo. Um exame mais cauto, porém, depressa [a] despe desses atributos que a nossa precipitação lhe descobriu. Se praticar pelo menos um acto de dedicação por dia fosse coisa que custasse, haveria ao menos a vantagem do desenvolvimento da vontade. Mas acontece precisamente que a dedicação das coisas mais fáceis deste mundo. A mulher que é um ser inferior, é ingenitamente dedicada, «serve» por temperamento, no sentido em que os teosofistas empregam este malogrado verbo. A Teosofia é um sistema criador de mulheres. A natureza, porém, é mais subtil que os teosofistas. De tal modo estão as coisas arranjadas por ela neste mundo que servir-se cada um a si, completamente, energicamente e competentemente é ainda o melhor meio de servir os outros, querendo-se, mesmo no sentido altruísta que os teosofistas dão à palavra. Porque uma vontade forte pode ser muito mais útil do que uma vontade fraca. A Teosofia, afinal, não passa de um sistema de filosofia indiana que, por tipicamente vago e lato, se adapta perfeitamente à ciência moderna, como, de resto, a ela se adaptaria se por acaso ela fosse precisamente ao contrário, quanto aos princípios em que assentou. s.d. Fernando Pessoa et le Drame Symboliste: Héritage et création. Maria Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977. - 512. Astrology A DOUTRINA DOS TRÂNSITOS O horóscopo não relata o que há antes do nascimento, nem o que há depois da morte, embora se possa admitir que aspectos (direcções) em retrocesso, e em sucessão da morte, possam indicar certos fenómenos externos relativos à vida, por assim dizer, pré-natal e pós-mortal do indivíduo. Isto, porém, é duvidoso. A vida é essencialmente acção, e o que o horóscopo indica é a acção que há na vida do nativo. Três coisas não há que buscar no horóscopo: (1) as qualidades fundamentais do indivíduo, quanto ao seu grau íntimo; (2) o ponto de partida social da sua vida; (3) o que resulta dele, e da vida que teve, depois da morte. Tudo, menos isto, o horóscopo inclui e define. Não pasmemos de que seja apagado e fruste o horóscopo de tal grande artista que foi célebre só depois de morto: o horóscopo indicará qualidades artísticas (em grau que não podemos medir) e indicará obscuridade. Tudo será indicado em abstracto; só uma vidência nossa o poderá concretizar. (Tal é o sentido do primeiro apótema de Ptolomeu.) Exemplificando melhor: um horóscopo de poeta dramático poderá ser determinado como tal poderá, adentro desse horóscopo, ser indicada uma certa fama e um certo proveito. À parte isso, o horóscopo pode ser o de Shakespeare ou o de um poeta dramático de inferior nota, que, na época em que viveu, tenha tido uma vida, quanto a fama e proveito, idêntica ou semelhante à de Shakespeare. O horóscopo revela, pouco mais ou menos, o que o mundo vê. Nunca devemos esquecer este pormenor importantíssimo. Sem ele nada faremos da astrologia. s.d. A Procura da Verdade Oculta - Textos filosóficos e esotéricos . Fernando Pessoa. (Prefácio, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Publ. Europa-América, 1989 (2ª ed.). - 158. Traduzido do inglês. Fragmento do «Tratado de Astrologia».