A vida é um mal digno de ser gozado. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 156. Sou um visual. O que na memória trago, trago-o visualmente, se susceptível é de assim ser trazido. Mesmo ao querer evocar em mim uma qualquer voz, um perfume qualquer, não evito que antes que ela ou ele me vislumbre no horizonte do espírito, me apareça à visão rememorativa a pessoa que fala, a coisa donde o perfume partiu. Não dou isto por absolutamente certo; pode ser que, radicada em mim de vez a persuasão de que sou um visual, no lugar final do sofisma que é a escuridão íntima do ser me fosse desde então impossível evitar que a ideia de que sou um visual não levantasse imediatamente uma imagem falsamente inspiradora. Seja como for, o menos que sou, é um visual predominantemente. Vejo, e vendo, vivo. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 157. Excerto de uma carta a um Sr. Smith. E para mim, idealista integral, o próprio mundo, o universo inteiro, não é senão um boato e um boato falso. …… A vida, toda a vida, é o eterno boato, e a morte, toda a morte, o eterno desmentido. Esperança, amor, ilusão, a crença ansiada no futuro, a confiança trémula no presente, tudo isto cessa nos seus objectos e em si. Passar é desmentir-se. Não há mais para mim do que a superfície das coisas - essa superfície forja-se nas realidades. …… Todos os caminhos do pensamento levam àquela Roma da dor, cujo supremo pontífice não dá audiências ao raciocínio, nem bulas ao sentimento. …… A mim é-me familiar o que a outros, e a raros outros, apenas em horrorosos acasos é de algum modo vagamente experiência - o sentimento do mistério e do horror intelectual do mundo. É minha inimiga do meu sangue e na minha alma quotidiana a sensação ôca de que o universo é uma pavorosa ilusão. Passou já o tempo em que este medo me era ocasional e, como um relâmpago, uma coisa de um horroroso instante. Hoje consubstancia-se com a minha vida espiritual ao ponto de me parecer estranha e não de mim a hora do espírito em que de algum modo me desenvencilho da consciência do mistério do mundo. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 158. Torquato Mendes Fonseca da Cunha Rey. A M. [... ] Cabral ( (...) dum monárquico) publicado por «Pantaleão» - das Visões. Não sei o valor que terá este escrito; os entendidos que o digam. O meu único fim foi (...) a última vontade do meu querido e chorado amigo. Nada mais. «Pantaleão» s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 159. «Prefácio às Visões» Nem venha ninguém dizer que este livro é áspero e brutal. …… Propriamente falando, eu não combato a monarquia; combato a monarquia portuguesa. Não admito nem que a monarquia seja preferida, nem que ela seja igual em voto à república em parte alguma. Mas neste caso, repito, não é a monarquia que combato. É a monarquia portuguesa. A monarquia tem-se tomado em alguns países compatível com a maior civilização, deixando de ser o menos possível monarquia. Quanto menos monarquia é, melhor sabe. A monarquia portuguesa não está neste caso. Não é preciso provar. A monarquia portuguesa aí está! Basta olhar para ela. Não há melhor argumento. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 160.