All metaphysical theories, of all kinds, idealistic or materialistic, have one thing in common: the attributing of infinity and eternity to the Substratum, to the Fundamental Truth they admit. Thus all materialism makes matter infinite (increated) uncreated. By this is shown then that all systems of metaphysics agree in giving to the Cause or Origin or Being fundamental in their system the characteristic of infinity and eternity. But why is this? 1908? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 21. Quarto AS ILHAS AFORTUNADAS Que voz vem no som das ondas Que não é a voz do mar? É a voz de alguém que nos fala, Mas que, se escutamos, cala, Por ter havido escutar. E só se, meio dormindo, Sem saber de ouvir ouvimos, Que ela nos diz a esperança A que, como uma criança Dormente, a dormir sorrimos. São ilhas afortunadas, São terras sem ter lugar, Onde o Rei mora esperando. Mas, se vamos despertando, Cala a voz, e há só o mar. 26-3-1934 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 85. PREFÁCIO - Quinto Império Esta profecia pode ser interpretada de três maneiras diferentes, entendendo-se, porém, de três maneiras certas. Todas as profecias têm três realizações, e isto é simbolizado pela tripeça, que tem três pés. Não é por isso tão fácil como se julga dar a interpretação de uma profecia, pois que uma só interpretação (sempre fácil de conseguir, dado certo engenho) nada vale se não for acompanhada de mais duas, que com ela devem ter certa relação. Essa relação pode ser de três ordens: espacial, temporal, intelectual. Se um evento profetizado cai sob a ordem espacial, então dá-se no mesmo lugar ou país em três tempos diferentes, e tem que haver concordância perfeita (a história repete-se) entre os três eventos. Se um evento profetizado cai sob a ordem temporal, então dá-se ao mesmo tempo (ou, pelo menos, no mesmo ano) em três países. Se o evento cai sob a ordem intelectual, então dá-se de três maneiras iguais (idênticas) no material, no intelectual e no espiritual. Império é domínio, e pode ser domínio material, domínio intelectual e domínio espiritual. A fórmula profética do Quinto Império é pois aplicável a estes três planos, e em cada plano se revelará da mesma maneira. No plano material, que é o que se tem suposto até agora ser o único, os quatro Impérios que precedem o Quinto são os de ..., de ..., de Grécia, de Roma; o Quinto será o europeu, de sorte que nesta interpretação a profecia está consumada. Estamos já, segundo ela, no Quinto Império. No plano intelectual, como o reino da Inteligência começa só com a Grécia, onde nasceu o espírito crítico, que é o em que a inteligência se define, os quatro impérios são o grego, o romano, o cristão ou medieval, o europeu, e ainda falta o quinto, que deverá ser o Universal . Na ordem espiritual, como o domínio do espírito verdadeiramente começou com os egípcios, os três primeiros impérios são o de Osíris, o de Baco, e o de Cristo, em que estamos, devendo notar-se que, entendidos em certo modo, estes três Deuses são três formas do mesmo Deus. Faltam-nos ainda dois magnos impérios ate à consumação dos tempos e cessação de ser necessário o mundo. O sentido em que tomaremos particularmente as profecias aqui expressas é o segundo, pois o primeiro está extinto, o terceiro muito longe na sua consumação. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 85. IV Not Cecrops kept my bees. My olives bore Oil like the sun. My several herd lowed far. The breathing traveller rested by my door. The wet earth smells still; dead my nostrils are. 1920 «Inscriptions». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 118. 1ª ed. in English Poems I-II . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Considerações pós-revolucionárias O que é preciso é a criação de um novo partido adequadamente apto a compreender, integrar e representar o que há de, a um tempo, intelectual e salvador, o que de verdadeiramente renascente [?] e regenerador há entre nós. Esse partido deverá constituir-se quanto antes, logo que apareçam os homens novos capazes de lhe tomar a chefia. Deve ser rigorosamente individualista, nitidamente desdenhoso de tudo quanto, entre o tumultuar moderno, representa, embora sob a forma de progresso, degenerescência e debilidade sociais. Deve ser um partido novo inteiramente, onde possam ingressar quantos representem quer forças de regeneração, quer desejos intensos dela; e alheio aos homens cuja predominância, antes e depois da revolução, os incompatibiliza, não a todos com uma aspiração honesta e sincera, mas a todos com um modo certo e apto de a realizar. Nada de B[ernardino] M[achado], de Af º C ª, de António José de Almeida; nada de Machado Santos, (...) Nada disso presta para a construção. Serviram para o período e durante o período revolucionário. A sua missão terminou. A sua sobrevivência intrigante causa um doloroso desprezo. Alguns são sinceros, mas nenhum o sabe ser. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 34. Império Há três imperialismos: de domínio, de expansão e de cultura. O imperialismo de domínio comporta três expressões: (1) Imperialismo unificador - aquele cujo fim é reduzir a uma unidade, para fins civilizacionais (ainda que egoisticamente instintizados os povos de uma região falando a mesma língua, mas que por razões diversas se não achem fundidas num só povo). (2) Imperialismo cesarista - aquele em que a nação imperialista procura dominar o mais possível, seja quem for, apenas para aumentar o seu território, e para sentir a sua grandeza. (3) Imperialismo hegemónico - aquele em que a nação imperialista procura apenas valorizar-se (e não, já, sentir-se grande) pelo domínio de outros povos: O 1º caso é o da Prússia sobre o resto da Alemanha. O 2.° é o de Roma sobre o que pode alcançar da terra. O 3º é o da Áustria e, até certo ponto, da Espanha. IMPERIALISMO DE EXPANSÃO (1) O que coloniza territórios desertos ou de raças incivilizáveis. (2) O que se aproveita de raças decadentes. (Inglaterra no Egipto e na Índia.) (3) O que procura dominar raças civilizadas, mas, ou mais fracas, ou menos civilizadas do que ela [?], sob, pelo menos, alguns pontos de vista. IMPERIALISMO DE CULTURA (1) O que procura não dominar materialmente, mas influenciar; dominar pela absorção psíquica. (É um imperialismo de expansão espiritual. - A França é o grande exemplo.) (2) O que procura criar novos valores civilizacionais para despertar outras nações. A Grécia, Portugal das descobertas (3) O que procura dominar ou colonizar para civilizar ou modificar as raças indígenas, sejam inferiores, decadentes ou apenas menos civilizadas. (Última fase do império colonial inglês) É preciso não cair no erro de julgar que qualquer destes imperialismos é necessariamente consciente. Pode sê-lo e pode não o ser. O resultado da acção, o seu sentido deduzível [?] é que vale - não a intenção, senão correctivamente. Na evolução de uma civilização, o primeiro estádio é o do imperialismo de domínio; segue-se o da expansão, acaba pelo da cultura. É que a uma civilização decadente, onde o poder militar fraqueja, onde o comércio [...], só resta de grande a cultura que produziu, porque essa - ao contrário da força militar e do vigor comercial, que são coisas presentes - domina desde o passado, fica . Assim o estádio da Renascença foi o do Imperialismo de domínio, o do século XIX, o da expansão, passamos agora, através da dissolução desses dois imperialismos, para a formação do imperialismo de cultura. Dominavam menos na Renascença aquelas nações cujo império não era de domínio: assim, dominavam a Espanha principalmente, e Portugal, por exemplo, na proporção em que foi de domínio o seu essencial imperialismo de cultura. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 74. V I conquered. Far barbarians hear my name. Men were dice in my game, But to my throw myself did lesser come: I threw dice, Fate the sum. 1920 «Inscriptions». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 118. 1ª ed. in English Poems I-II . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Considerações pós-revolucionárias Táctica errada de M[achado] Santos e outros: Oposição incompleta. Nem se cindiram em partido, nem se puseram ao lado do governo, tentando (como partidos) influenciá-lo secretamente, fosse de que modo fosse. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 35. AS ALGEMAS Suponha o leitor que lhe dizíamos: — Há um país em que, depois das oito horas da noite, é crime previsto e punido o comprar maçãs, bananas, uvas, ananases e tâmaras, sendo porém permitida a compra de damascos, figos, pêssegos e passas. Depois das oito horas não se pode ali, legalmente, comprar arenque, mas podem comprar-se salmão e linguado. Nesse país é crime comprar, depois das oito horas, um pastelão cozinhado, se estiver frio; mas a lei permite a sua venda se, conforme os seus dizeres, “estiver quente ou morno”. A sopa em latas, que vários fabricantes fornecem, não pode ser comprada depois das oito horas, a não ser que o merceeiro a aqueça. Chocolates, doces, sorvetes não podem ser comprados depois das nove e meia da noite, estando porém abertas as lojas que os fornecem. O camarão é, nessa terra, um problema jurídico tremendo, pois existe um camarão em latas que se não sabe se, tecnicamente, é camarão ou conserva; e os jurisconsultos e legisladores desse país já uma vez reuniram em conclave solene para determinar a categoria jurídica do camarão nesse estado. Também neste país se não pode comprar aspirina, ou outro qualquer analgésico, depois das oito horas da noite, a não ser, diz a lei, que o farmacêutico fique convencido que “há motivos razoáveis para supor" que alguém tenha dores de cabeça. Não se pode, ainda nesse país, comprar, depois das oito horas da noite, um charuto ou um maço de cigarros num bufete de caminho-de-ferro, salvo se se comprar também comida para consumo no comboio. Na agência de publicações, que há ali em qualquer gare, não é legal comprar, depois da mesma hora fatídica, um livro ou uma revista, ainda que a agência esteja, como em geral está, aberta. Nesse pais... Nesta altura o leitor, irritado, interrompe... — Não há país nenhum onde isso aconteça!... A não ser que se chame “país” a qualquer reino de revista de ano, ou a qualquer nação sonhada entre os quatro muros de Rilhafoles... Enganar-se-ia o leitor que efectivamente fizesse esse reparo. Existe, em verdade, o país onde se dão aquelas circunstâncias legais. Esse país é a Inglaterra — a livre e prática Inglaterra. E a lei que prescreve aquilo tudo, promulgada durante a Guerra e ainda em vigor, é a Defence of the Realm Act (Lei de Defesa do Reino!), popularmente conhecida, das iniciais do seu nome, pela designação de “Dora”. Fixemo-nos um pouco neste exemplo fantástico. Atentemos um pouco neste caso espantoso. O que temos diante de nós é um sinal dos tempos. O ter-se chegado a promulgar, e o continuar-se a manter, num país de que se diz, não sem motivo, que está na vanguarda da civilização, uma lei da natureza delirante daquelas cujas prescrições citámos, revela flagrantemente a que ponto se chegou no emprego legislativo da restrição do comércio e do consumo. A legislação restritiva do comércio e do consumo, a regulamentação pelo Estado da vida puramente individual, era corrente na civilização monárquica da Idade Média, e no que dela permaneceu na subsequente. O século XIX considerou sempre seu título de glória o ter libertado, ou o ir libertando, progressivamente o indivíduo, social e economicamente, das peias do Estado. No fundo, a doutrina do século XIX — representada em seu relevo máximo nas teorias sociais de Spencer — é uma reversão à política da Grécia Antiga, expressa ainda para nós na Política de Aristóteles — que o Estado existe para o indivíduo, e não o indivíduo para o Estado, excepto quando um manifesto interesse colectivo, como na guerra, compele o indivíduo a abdicar da sua liberdade em proveito da defesa da sociedade, cuja existência, aliás, é a garantia do exercício dessa sua mesma liberdade. Mas de há um tempo para cá — já desde antes da Guerra, mas sobretudo depois da Guerra, que teve por consequência acentuar certas tendências, e entre elas estas, esboçadas anteriormente — a tendência legislativa começou a ser exactamente contrária à do século anterior na prática e dos séculos anteriores na teoria. Recomeçou-se a restringir, social e economicamente, a liberdade do indivíduo. Começou a tolher-se, social e economicamente, a vida do comerciante. O problema divide-se, evidentemente, em dois problemas — o social e político, e o comercial. O problema propriamente social resume-se nisto: que utilidade, geral ou particular, para a sociedade ou para o indivíduo, tem o emprego da legislação desta ordem? E o problema propriamente político é o da questão das funções legítimas do Estado, e dos seus naturais limites — um dos problemas mais graves, e porventura menos solúveis, da sociologia. Não pertence porém à índole desta Revista o tratar destes problemas, nem, portanto, sequer determinar as causas íntimas do fenómeno legislativo cuja evolução acabámos de sumariamente descrever. É o problema comercial que tem que preocupar-nos. E o problema comercial é este: Quais são as consequências comerciais, e económicas, da aplicação da legislação restritiva? E, se as consequências não são comercial e economicamente benéficas, em proveito de quê, ou de quem, é que se julga legítimo, necessário, ou conveniente produzir esse malefício comercial e económico? E dar-se-á efectivamente esse proveito? É o que vamos examinar. A legislação restritiva assume cinco aspectos, consoante o elemento social que pretende beneficiar. Há, (l) a legislação restritiva que pretende beneficiar a colectividade, o país: é a que proíbe a importação de determinados artigos, em geral os chamados “de luxo”, com o fito de evitar um desequilíbrio cambial. Há, (2) a legislação restritiva que pretende beneficiar o consumidor colectivo: é a que proíbe a exportação de determinados artigos, em geral os chamados “de primeira necessidade”, para que não escasseiem no mercado. Há, (3) a legislação restritiva que pretende beneficiar o consumidor individual: é a que proíbe ou cerceia a venda de determinados artigos — desde a cocaína às bebidas alcoólicas — por o seu uso, ou fácil abuso, ser nocivo ao indivíduo; e aquela legislação corrente que proíbe, por exemplo, o jogo de azar é exactamente da mesma natureza. Há, (4) a legislação restritiva que pretende beneficiar o operário e o empregado: é a que restringe as horas de trabalho, e as de abertura de estabelecimentos, e põe limites e condições ao exercício de determinados comércios e de determinadas indústrias. Há, (5) a legislação restritiva que pretende beneficiar o industrial: é a legislação pautal na sua generalidade proteccionista. Fixemos, desde já, o primeiro ponto; tiremos, desde já, a primeira conclusão, que é inevitável. Todos estes tipos de legislação restritiva — beneficiem ou não a quem pretendem beneficiar —prejudicam aquela desgraçada entidade chamada o comerciante. A 1.ª espécie de legislação restritiva limita-lhe as importações; a 2.ª limita-lhe as exportações; a 3.ª limita-lhe as vendas; a 4.ª limita-lhe as condições de produção, se é também industrial, e as horas de venda, se é simples comerciante; a 5.ª restringe-lhe a liberdade de concorrer. Não consideremos agora se seria socialmente legítima ou ilegítima a liberdade que ele teria se essa vária legislação lha não restringisse. Fixemos apenas este ponto: toda esta legislação prejudica o comerciante, toda esta legislação tende a diminuir e afogar o comércio dum país e, na proporção em que o faz, a cercear a expansão da sua vida económica. Este ponto fica assente, fica irrevogavelmente assente. Resta saber se há qualquer proveito social neste desproveito comercial, se qualquer dos elementos sociais, que se procura beneficiar com este prejuízo ao comércio, efectivamente beneficia com esse prejuízo. A restrição das importações, e sobretudo a dos artigos “de luxo”, não ocorreu nunca a qualquer cérebro lúcido como processo directo, ou fundamental, para melhorar o câmbio. Todos sabem que a melhoria cambial tem que partir de origens mais vitais e mais profundas. Essa medida é tão-somente um processo acessório, ou auxiliar, de tentar conseguir esta melhoria. Mas essas importações, que se restringem, de alguma parte hão-de vir. E não é de supor que o país, ou países, de onde elas vêm, aceitem de bom grado essa limitação, por pequena que seja, da sua exportação. Exercerão represálias — as chamadas represálias económicas. Restringirão, por sua vez, a nossa exportação para eles. E assim a limitação da nossa importação redundará numa limitação da nossa exportação. O impedir que saia ouro dará em impedir também que ele entre. Resultado final, pelo melhor: prejuízo para o comerciante importador; nenhuma influência real no câmbio; prejuízo para o comerciante exportador; perturbação da vida económica geral; irritação do consumidor. Resumo: prejuízo e nada. A restrição da exportação, para que o artigo não falte no mercado, exerce-se evidentemente apenas quando se manifeste a tendência de exportar esses artigos, de preferência a vendê-los no país. Ora essa tendência só se manifestará se a exportação for mais remuneradora. E, havendo realmente consumo no país, a exportação será mais remuneradora só quando a moeda dele estiver desvalorizada. Ora num país de moeda desvalorizada um dos primeiros propósitos dos dirigentes deve ser o valorizá-la; provocar e estimular a exportação é um dos processos mais directos para consegui-lo; mas proibir a exportação não é maneira mais recomendável de a estimular. Isto, porém, é o menos. Limitar a exportação é limitar a produção. Obrigando o produtor, ou comerciante seu agente, a vender abaixo do que pode vender, desconsola-se a produção e o comércio. Resulta que o produtor e o comerciante ou procuram a porta falsa do contrabando, com o que se lesa o Estado, e portanto a colectividade; ou baixam instintivamente a produção e a actividade de venda por verem limitados os seus interesses primários. Ninguém exerce de graça uma profissão, por generoso que seja fora do exercício dela. Depois, proibir a exportação é proibir o comércio de exportação. Como, quando se exporta, se exporta para alguma parte, e essa alguma parte, se não pode comprar a nós, comprará a outrem, segue que a limitação da nossa exportação é, muitas vezes, não só a limitação da exportação presente mas também a da exportação futura, pois perdemos mercados que, mais tarde, quando a nossa exportação estiver reliberada, talvez já estejam conquistados por outrem, e se nos não abram de novo com facilidade. Assim a legislação restritiva que visa a abastecer o mercado nacional tende, no fim, para desabastecê-lo e, quando visa a restringir temporariamente a exportação, consegue, muitas vezes, restringi-la definitivamente. Chegámos ao ponto cómico desta travessia legislativa. Chegámos ao exame daquela legislação restritiva que visa a beneficiar o indivíduo, impedindo que ele faça mal à sua preciosa saúde moral e física. É este o caso de legislação restritiva que se acha tipicamente exemplificado no diploma que é o exemplo de toda a legislação restritiva, quer quanto à sua natureza quer quanto aos seus efeitos — a famosa Lei Seca dos Estados Unidos da América. Vejamos em que deu a operação dessa lei. Não olhemos ao caso social; tratá-lo não está na índole desta Revista, nem, portanto, na deste artigo. Não consideremos o que há de deprimente e de ignóbil na circunstância de se prescrever a um adulto, a um homem, o que há-de beber e o que não há-de beber; de lhe pôr açaimo, como a um cão, ou um colete de forças, como a um doido. Nem consideremos que, indo por esse caminho, não há lugar certo onde logicamente se deva parar: e se o Estado nos indica o que havemos de beber, por que não decretar o que havemos de comer, de vestir, de fazer? por que não prescrever onde havemos de morar, com quem havemos de casar ou não casar, com quem havemos de dar-nos ou não dar-nos? Todas estas coisas têm importância para a nossa saúde física e moral; e se o Estado se dispõe a ser médico, tutor e ama para uma delas, por que razão se não disporá a sê-lo para todas? Não olhemos, também, a que este interesse paternal é exercido pelo Estado, e que o Estado não é uma entidade abstracta, mas se manifesta através de ministros, burocratas e fiscais — homens, ao que parece, e nossos semelhantes, e incompetentes portanto, do ponto de vista moral, se não de todos os pontos de vista, para exercer sobre nós qualquer vigilância ou tutela em que sintamos uma autoridade plausível. Não olhemos a isto tudo, que indigna e repugna; olhemos só às consequências rigorosamente materiais da Lei Seca. Quais foram elas? Foram três. 1) Dada a criação necessária, para o “cumprimento” da Lei, de vastas legiões de fiscais — mal pagos, como quase sempre são os funcionários do Estado, relativamente ao meio em que vivem —, a fácil corruptibilidade desses elementos, neste caso tão solicitados, tornou a Lei nula e inexistente para as pessoas de dinheiro, ou para as dispostas a gastá-lo. Assim esta lei dum país democrático é, na verdade, restritiva apenas para as classes menos abastadas e, particularmente, para os mais poupados e mais sóbrios dentro delas. Não há lei socialmente mais imoral que uma que produz estes resultados. Temos, pois, como primeira consequência da Lei Seca, o acréscimo de corruptibilidade dos funcionários do Estado, e, ao mesmo tempo, o dos privilégios dos ricos sobre os pobres, e dos que gastam facilmente sobre os que poupam. 2) Paralelamente a esta larga corrupção dos fiscais do Estado, pagos, quando não para directamente fornecer bebidas alcoólicas pelo menos para as não ver fornecer, estabeleceu-se, adentro do Estado propriamente dito, um segundo Estado, de contrabandistas, uma organização extensíssima, coordenada e disciplinada, com serviços complexos perfeitamente distribuídos, destinada à técnica variada da violação da Lei. Ficou definitivamente criado e organizado o comércio ilegal de bebidas alcoólicas. E dá-se o caso, maravilhoso de ironia, de serem estes elementos contrabandistas que energicamente se opõem à revogação da Lei Seca, pois que é dela que vivem. Afirma-se, mesmo que, dada a poderosa influência, eleitoral e social, do Estado dos Contrabandistas, não poderá ser revogada com facilidade essa lei. Temos, pois, como segunda consequência da Lei Seca, a substituição do comércio normal e honesto por um comércio anormal e desonesto, com a agravante de este, por ter que assumir uma organização poderosa para poder exercer-se, se tornar um segundo Estado, anti-social, dentro do próprio Estado. E, como derivante desta segunda consequência, temos, é claro, o prejuízo do Estado, pois não é de supor que ele cobre impostos aos contrabandistas. 3) Quais, foram, porém, as consequências da Lei Seca quanto aos fins que directamente visava? Já vimos que quem tem dinheiro, seja ou não alcoólico, continua a beber o que quiser. É igualmente evidente que quem tem pouco dinheiro, e é alcoólico, bebe da mesma maneira e gasta mais — isto é, prejudica-se fisicamente do mesmo modo, e financeiramente mais. Há ainda os casos, tragicamente numerosos, dos alcoólicos que, não podendo por qualquer razão obter bebidas alcoólicas normais, passaram a ingerir espantosos sucedâneos — loções de cabelo, por exemplo —, com resultados pouco moralizadores para a própria saúde. Surgiram também no mercado americano várias drogas não alcoólicas, mas ainda mais prejudiciais que o álcool; essas livremente vendidas, pois, se é certo que arruinam a saúde, arruinam contudo adentro da lei, e sem álcool. E o facto é que, segundo informação recente de fonte boa e autorizada, se bebe mais nos Estados Unidos depois da Lei Seca do que anteriormente se bebia. Conceda-se, porém, aos que votaram e defendem este magno diploma que numa secção do público ele produziu resultados benéficos — aqueles resultados que eles apontam no acréscimo de depósitos nos bancos populares e caixas económicas. Essa secção do público, composta de indivíduos trabalhadores, poupados e pouco alcoólicos, não podendo com efeito, beber qualquer coisa alcoólica sem correr vários riscos e pagar muito dinheiro, passou, visto não ser dada freneticamente ao álcool, a abster-se dele, poupando assim dinheiro. Isto, sim, conseguiram os legisladores americanos — “moralizar” quem não precisava ser moralizado. Temos, pois, como última consequência da Lei Seca, um efeito escusado e inútil sobre uma parte da população, um efeito nulo sobre outra, e um efeito daninho e prejudicial sobre uma terceira. A legislação pautal, que visa a proteger indústrias nacionais, enferma ordinariamente de um mal parecido com o de que sofre a legislação operária, a que acabámos de referir-nos. Raras vezes se estuda devidamente o equilíbrio a estabelecer entre os interesses dessas indústrias e os interesses do consumidor. Por isso o proteccionismo é frequentemente excessivo, e daí resulta, em uns casos, o afastamento do consumidor e um consequente prejuízo para a própria indústria que se pretendeu beneficiar; em outros casos, em que o consumo é “forçado” e a venda portanto certa, o assumir a indústria protegida um carácter parasitário, que a desvitaliza e assim a desprepara para as contingências económicas do futuro. A legislação proteccionista, quando sabiamente orientada, consegue realmente proteger e animar a indústria nacional; mas o ser sabiamente orientada quer dizer que nela se estudaram bem os interesses diversos do consumidor e do comerciante importador. E, se estes interesses se estudaram, e se equilibraram com os do industrial, não se trata já de uma lei restritiva, mas de uma simples medida económica sem carácter especial. As leis proteccionistas só podem dizer-se restritivas quando das pautas resulta um proibicionismo evidente. São as leis desta ordem que caem dentro do nosso estudo, e é a elas que se aplicam as considerações acima feitas. Examinados, assim, todos os géneros de legislação restritiva, chegámos à conclusão que todos eles têm de comum: 1) prejudicar o comerciante; 2) produzir perturbações económicas; 3) nunca beneficiar, e as mais das vezes prejudicar, as próprias classes em cujo proveito essas leis foram feitas. A legislação restritiva, em todos os seus ramos, resulta, portanto, inútil e nociva. Nenhuma lei é benéfica se ataca qualquer classe social ou restringe a sua liberdade. As classes sociais não vivem separadas, em compartimentos estanques. Vivem em perpétua interdependência, em constante entrepenetração. O que lesa uma, lesa todas. A lei que ataca uma, é a todas que ataca. Todo este artigo é uma demonstração desse facto. Não é, pois, só o comerciante, mas o público em geral, que tem o dever para consigo mesmo de reagir enérgica e constantemente contra a promulgação das leis restritivas, invariavelmente maléficas, como se demonstrou, por benéficas que pareçam ou as instituem. 25-2-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 145. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 2. Lisboa: 25-2-1926. Introdução ao estudo do problema nacional (ou Império) O imperialismo de expansão tem um sentido normal, para que cumpra os seus fins civilizacionais, em ir ocupar territórios, ou desertos, ou povoados apenas por povos fora da civilização. Esse imperialismo comporta três graus, sendo mais justificado no primeiro que no segundo, no segundo que no terceiro. Há, em primeiro lugar, a ocupação - obedecendo à natural necessidade de o povo se expandir - de territórios ou desertos, ou povoados por populações ou primitivas ou selvagens. Neste caso estão territórios em que as condições climáticas são de ordem a não poder produzir uma raça autóctone capaz de se civilizar e progredir. O caso do Brasil é típico. Confirma, como já se apontou (J. M. R.) o conceito de Buckle, de que os territórios sujeitos a excessos climáticos, como o calor intenso e a humidade excessiva, não são aptos a criar raças autóctones susceptíveis de civilização. São estes os territórios que um imperialismo expansivo tem, absolutamente, direito de ocupar. O seu destino, mesmo, está na ocupação desses territórios. O imperialismo implica, conforme provámos, a criação preliminar de um ideal nacional; a criação de um ideal nacional envolve uma fixação racial. Por isso, nesses territórios por si incapazes de gerar uma raça civilizável tem, para que neles haja civilização, que aparecer um povo já civilizado - isto é, não apenas em processo de civilização, mas com uma nacionalidade psíquica inteiramente definida. Em segundo lugar, há a ocupação de territórios habitados por povos, não já selvagens ou incivilizáveis, mas degenerados de uma civilização antiquíssima. É o caso da Índia - talvez, mesmo, o caso do México, tal qual os espanhóis o encontraram. Aqui, não há já a mesma simplicidade no direito, que o povo expansivo tenha, de ocupar estes territórios. Recordemo-nos sempre que o fim de colonizar ou ocupar territórios não é civilizar a gente que lá está, mas sim levar para esses territórios elementos de civilização. O fim não é altruísta, mas puramente egoísta e civilizacional. É o prolongamento da sua própria civilização que o imperialismo expansivo busca e deve buscar; não é, de modo algum, as vantagens que daí possam advir para os habitantes desse país. A escravatura é lógica e legítima; um zulu ou um landim não representa coisa alguma de útil neste mundo. Civilizá-lo, quer religiosamente, quer de outra forma qualquer, é querer-lhe dar aquilo que ele não pode ter. O legítimo é obrigá-lo, visto que não é gente, a servir os fins da civilização. Escravizá-lo é que é lógico, o degenerado conceito igualitário, com que o cristianismo envenenou os nossos conceitos sociais, prejudicou, porém, esta lógica atitude. Povos, como o inglês, hipocritizaram o conceito, e assim conseguiram servir a civilização. Em terceiro lugar há aquela última forma do imperialismo de expansão que consiste em querer dominar povos ou igualmente civilizados, mas mais fracos ou menos hábeis em se defender ou fazer a guerra; ou povos menos adiantados na civilização, mas pertencentes ao mesmo esquema civilizacional que o pretenso dominador. É caso como o da Alemanha querer apossar-se da Holanda e da Bélgica. Aqui o imperialismo de expansão transforma-se em imperialismo de domínio. É de expansão, porque trato desse imperialismo, quando exercido por uma nação sobrepovoada. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 72. VI Some were as loved loved, some as prizes prized. A natural wife to the fed man my mate, I was sufficient to whom I sufficed. I moved, slept, bore and aged without a fate. 1920 «Inscriptions». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 118. 1ª ed. in English Poems I-II . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. O que pensando sofreu Na loucura foi feliz. Ah, vem comigo, que és meu. Hei-de levar-te ao país Do qual ninguém nada diz E que ninguém concebeu. Nem Deus, nem céu, nem inferno Nem vidas ou morte No incompreensível eterno Que abriu teu pensar profundo. Vem, dos teus olhos se esvaia Bem e mal; e p'ra ti caia Minha sombra sobre o mundo. A opressão do mistério Mancha-te a alma de luz; Vem comigo que avanço Além do vago sidério, Transluz. Vamos além do descanso, Vamos para além da luz. Triste que riu e chorou E, além do rir e chorar, Por pensamentos passou... Vem a mim que eu sei amar. FAUSTO: Oh, Morte, vem-me levar! MORTE: Vem, oh meu filho, aqui estou. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 183. Considerações pós-revolucionárias Como todos os governos radicais, o governo provisório era fraco de disciplina, de diplomacia e de união (concordância). Nada fez — além do despiciendo, por elementar e imprescritível, de manter a ordem —, para disciplinar o país; nada para lhe tornar firme a situação internacional; nada para seguir uma política patriótica, suprapessoal, coerente e em acordo, não com os pedidos da ocasião [?] mas com as circunstâncias do momento. Nato, em princípio, apenas para pré-legislativamente consolidar as instituições, devia a sua tarefa ter-se resumido a dissolver os elementos adversos à república, quer reaccionários ou republicano-radicais, a absorver os elementos aproveitáveis e úteis do extinto regime e, feito isto, disciplinar, orientar e moralizar, no que com o exemplo de um são governar se moraliza aqueles em quem, então, se apoiaria. Teve um momento, um só, para empreender essa obra — o momento de benevolência e expectativa que à revolução se seguiu. Perdeu esse momento pela sua desorientação radicalista, pela sua incompetência intelectual e pela sua desunião interna. Isto, porém, como todo o podia-ter-sido, não é senão uma hipótese para diversão de quem pensa. Porque a análise sociológica dos antecedentes sociais do primeiro ministério da República não dá como possível outra orientação senão a que veio a ter esse governo, nem a ida ao poder de outros homens que não aqueles, e daquele género e naquelas condições, que foram ao poder. Resulta pois que apenas um homem de génio governamental podia ter salvo a situação; mas um homem de génio governamental não era socialmente possível, se nas condições actuais do país, não decerto no momento e em evidência para a ocasião. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 36. CEIFEIRA Mas não, é abstracta, é uma ave De som volteando no ar do ar, E a alma canta sem entrave Pois que o canto é que faz cantar. 1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 66. Quinto O ENCOBERTO Que símbolo fecundo Vem na aurora ansiosa? Na Cruz Morta do Mundo A Vida, que é a Rosa. Que símbolo divino Traz o dia já visto? Na Cruz, que é o Destino, A Rosa, que é o Cristo. Que símbolo final Mostra o sol já desperto? Na Cruz morta e fatal A Rosa do Encoberto. s.d. Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 87. Império Em que casos que a transformação dos imperialismos envolve uma decadência? Vejamos. Toda a transformação de imperialismo pode ser produzida por três circunstâncias: (1) o desenvolvimento natural desse imperialismo; (2) o aparecimento de circunstâncias civilizacionais, isto é, exteriores (conforme possível) ao desenvolvimento do imperialismo nacional, que levem a nação imperialista a transformar o seu imperialismo, para se adaptar a essas condições; (3) as duas coisas conjuntas, isto é, uma transformação imperialista resultante tanto do desenvolvimento do próprio imperialismo como do aparecimento de circunstâncias externas no sentido desse desenvolvimento. (Porque, no segundo caso, trata-se de circunstâncias externas, ou indiferentes ao sentido do natural desenvolvimento, potencial ou real, do imperialismo, ou contrárias a ele.) O resultado é, nos três casos, diferente, como é de imaginar. É evidente que, onde se trate do natural desenvolvimento dum imperialismo, não se pode tratar de uma decadência. Parece que aqui se esqueceram as circunstâncias civilizacionais, que existem sempre. O facto, porém, é que se não esqueceram. Mas quando se fala do puro desenvolvimento do imperialismo, é evidente que se entende que as circunstâncias exteriores são no sentido desse imperialismo, de modo a podermos considerar, se quisermos, esse imperialismo isoladamente. Porque o segundo caso envolve referência a circunstâncias externas que provoquem um imperialismo a transformar-se, sem que ele necessariamente siga esse sentido. No terceiro caso trata-se de circunstâncias externas que provoquem um imperialismo a desviar-se de um sentido já tomado, quer por evolução directa, quer por transformação, já, desse sentido original do imperialismo. Suponha-se uma época civilizacional subordinada à ideia imperialista de domínio; tal é, sempre, a primeira época, que é a militar, das civilizações. Todo o imperialismo de cultura que apareça nesta época terá, para viver, que se adaptar ao meio civilizacional. Como “meio civilizacional” quer dizer, neste caso, imperialismo de domínio, esse imperialismo de cultura terá que se tornar imperialismo de domínio para poder agir, para poder, mesmo, existir de certo modo. Quanto mais puro imperialismo de cultura for, mais desgraçado será nessa época. Assim se explica o desgraçado estado da Itália durante o seu grande período, o da Renascença, desde o fim da Idade Média. Imperialismo de cultura, nítido e quase absoluto, a sua existência num período de imperialismo de domínio levou-a à desunião, à submissão ao estrangeiro apto a dominar, quer porque tivesse um imperialismo de domínio (como a Espanha), quer porque simplesmente não tendo imperialismo nenhum, fosse contudo gente militar, como ao tempo era natural, sobretudo em quem não estivesse “estragado” pela sua superioridade, qual a italiana, de possuir um imperialismo de cultura. O outro imperialismo de cultura do tempo, o português, vingou mais porque a orientação cultural do imperialismo português era outra - não já artística, mas científica, pois que era a das descobertas. Mas viu-se frente a frente com uma tremenda combinação de circunstâncias. Primeiro, tinha que se adaptar ao imperialismo de domínio do tempo. Faltavam-lhe, para que isso se pudesse fazer bem, algumas condições, como o número de gente precisa para tentar tal adaptação, a prática de processos militares favoráveis ao imperialismo de domínio (a acção guerreira anterior em Portugal tinha sido defensiva apenas, quer contra os mouros, quer contra os reinos vizinhos). Outras condições possuía - a unidade nacional (que congrega no esforço os indivíduos duma nação), o hábito guerreiro, não propriamente temperamental na Raça, mas educado através da atitude defensiva constante. O pior foi que, iniciando a época ultramarina da civilização europeia, Portugal criou o imperialismo de expansão, a que teve fatalmente que tentar adaptar-se, para o que lhe faltava a primeira e a essencial condição - o número de gente precisa para isso, para não falar na nenhuma necessidade que tinha de vazar os seus indivíduos em qualquer parte fora do país. Assim, Portugal viu-se a braços com a necessidade de uma adaptação dupla; um império construído sobre tão frágeis bases não podia durar muito tempo. O imperialismo de domínio, ao tempo lema civilizacional, favorecia contra Portugal o reino de Castela, adaptado por natureza a esse género de imperialismo; se bem que a decadência desta depois o fizesse poder-se livrar. Uma nação chega ao seu auge de grandeza quando realiza plenamente o seu imperialismo específico. Assim o auge de grandeza da Itália foi sob a Renascença, pois que então, ainda que em circunstâncias não inteiramente favoráveis ao seu bem-estar, realizou plenamente a sua missão civilizacional, que era a de expandir cultura pela Europa, de dominar pelo espírito. A Alemanha, imperialismo de domínio, chegou ao seu auge no século XIX, quando conseguiu o imperialismo unificador, grau mais alto do imperialismo de domínio. (Agora, forçada pelas circunstâncias a adaptar-se a um imperialismo de expansão, dá-se nela uma transformação imperialista.) (Resultados?) A Inglaterra (outro imperialismo de domínio, como as suas ancestrais tendências mostram, pois que, contra toda a lógica nacional, teve durante tempo sob seu jugo parte da França) teve o seu auge quando, sob Cromwell, realizou, qual a Alemanha no século extinto, o seu pleno imperialismo unificador, se bem que unificador mais à força do que no caso germânico. A sua ulterior expansão e nítida prática do imperialismo de domínio tem em passar a ser imperialismo expansivo. O caso da Alemanha prova-o. Mas a Alemanha contemporânea, em vez de transformar o seu imperialismo de domínio em imperialismo expansivo, quis mantê-lo através do imperialismo de expansão, o que envolve fatalmente resultados diversos e consequências que, é de prever, sejam o que forem temporariamente, darão mau resultado no fim de tudo. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 73. VII I put by pleasure Iike an alien bowl. Stern, separate, mine, I looked towards where gods seem. From behind me the common shadow stole. Dreaming that I slept not, I slept my dream. 1920 «Inscriptions». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 118. 1ª ed. in English Poems I-II . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Uma voz como um suspiro: Quem sabe se ainda Não é mais profundo Do que o pensamento O enigma do mundo! Quem sabe, quem sabe! Horror, ai horror! Se também ser basta, Voraz pensador! Mais frio, mais doido O mistério será Do que tu achaste! Se ainda haverá, Além do Além, Horror mais horror! Também deliraste, Oh monstro de Dor! Depressa, depressa, Lembremos enfim: Pensar é viver, Mistérios e dor, Sonhar e descrer Horror, tudo horror! Numa noite sem fim. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 184. Considerações pós-revolucionárias Queriam que, rompida a lama que cobriu o lago da pátria, subissem limpos imediatamente os redentores. Como? s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 37. Eu tenho ideias e razões, Conheço a cor dos argumentos E nunca chego aos corações. 1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 67. VIII Scarce five years passed ere I passed too. Death came and took the child he found. No god spared, or fate smiled at, so Small hands, clutching so little round. 1920 «Inscriptions». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 118. 1ª ed. in English Poems I-II . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Muita gente fala de comércio como se ele fosse só um. Na realidade não há comércio: há comércios. No exercício de um empregam-se qualidades diferentes do que no exercício de outro. Há, é certo, princípios e preceitos comuns a todos os géneros de comércio. Esses, porém, são abstractos e gerais, e aplicam-se também a outras colectividades, não comerciais, que implicam o serviço do público. Nos países de grande desenvolvimento comercial, e onde, portanto, cada espécie de comércio se especializou definidamente, há diferenças até de mentalidade entre os comerciantes de uma espécie e os comerciantes de outra espécie. O comércio comissionário implica o uso de faculdades diversas daquelas que entram em campo no comércio de conta própria. A mentalidade do grande exportador (empregando “grande” no sentido de competência, e não propriamente de vulto das transacções) difere da mentalidade do grande importador. A técnica do comércio interno aparta-se por vezes extraordinariamente da do comércio externo. Este princípio deve ter-se presente, não só para fins de organização mas também para fins de se tratar competentemente com os chefes de casas comerciais de países que atingiram uma especialização mercantil definida. 25-4-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 154. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 4. Lisboa: 25-4-1926. Filho das trevas, Não fites a luz Ai de ti, se te elevas, Tu apenas te elevas Aos braços de uma cruz. Filho das trevas! Filho da noite, A manhã não se afoite Nunca, nunca se afoite. Toda a esperança é vã, Filho da noite! s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 185. "Considerações pós-revolucionárias" "Ditadura do governo provisório:" 2 anos é asneira; 1 ano é exagero; 6 meses é discutível; e 4 meses defensável s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 38. Não, não é nesse lago entre rochedos, Nem nesse extenso e espúmeo beira-mar, Nem na floresta ideal cheia de medos Que me fito a mim mesmo e vou pensar. É aqui, neste quarto de uma casa, Aqui entre paredes sem paisagem, Que vejo o romantismo, que foi asa Do que ignorei de mim, seguir viagem. É em nós que há os lagos todos e as florestas Se vemos claro no que somos, é Não porque as ondas quebrem as arestas Verdes em branco [...] 26-4-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 68. Primeiro Fausto. Segundo Fausto. Terceiro Fausto. Inês de castro. Leonor Teles D. Sebastião. Teomaquia. Cancioneiro. Itinerário. Legendas. Teatro Menor (d.v.) O Comboio do Sul. Comentário Maior às Profecias do Bandarra. Introdução ao Problema Português. Autos. Antíteses. Na Fármacia do Evaristo. Contos. Shakespeare — tradução. Ilíada — tradução. Odisseia — tradução. Divina Comédia — tradução. Paraíso Perdido — tradução. Eneida — tradução. Prometheus Revinctus. The Duke of Parma. Poems. Alberto Caeiro. Ricardo Reis. Alvaro de Campos (prosa e verso). s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 189. BASES DE UMA CONSTITUIÇÃO REPUBLICANA Considerações pós-revolucionárias É preciso considerar que a missão do governo provisório é não propriamente legislativa, porque não construtiva. Os governos provisórios são um prolongamento das revoluções. As revoluções atiram ao chão o edifício do constituído; os governos provisórios varrem os escombros e o entulho; a assembleia nacional é que, depois de limpo o terreno, constrói. Quem constrói antes de varrer é uma (...) Julgar o governo provisório que a sua missão é legislativa , (...) é uma incompreensão do seu fim social. A missão do governo provisório por ser não-destrutiva nem por isso é construtiva. É preparatória simplesmente. É ponto que conviria não perder de vista. Quanto mais segura e (...) a intuição que se tem desse ponto, mais simples se torna o trabalho de construir. Para quê impor a uma assembleia nacional o trabalho dispensável de ter de destruir primeiro ou alterar o que o governo provisório fez? s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 39. Ânsia infinda De reaver o direito à sensação, Que é humano em mim e que esquecido tinha; Ânsia de vã paixão que muito parte Do (...) desesperado sofrimento; Ânsia de sentir e          (...) E antes de ser amado que de amar. Mas ah, não sei se já — estranho ser ( Volver eu posso à vida, pois me sinto Estranho ao mundo, à vida e aos olhares, Um Incapaz de ser irmão. Dum salto Queria reaver meu natural Como homem. E depois? Depois não sei. Ah, nem no sonho, forte pensamento, Me deixas, seco e argumentador. É necessário pois não pensar mais. Mas não; não pode ser, a abdicação. Mas o quê — abdicar do pensamento Em proveito da mera sensação? s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 86. Primeiro O BANDARRA Sonhava, anónimo e disperso, O Império por Deus mesmo visto, Confuso como o Universo E plebeu como Jesus Cristo. Não foi nem santo nem herói, Mas Deus sagrou com Seu sinal Este, cujo coração foi Não português mas Portugal. 28-3-1930 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 91. Pálida sombra esvoaça Como só fingindo ser Por entre o vento que passa E altas nuvens a correr. Mal se sabe se existiu, Se foi erro tê-la visto, Sombra de sombra fluiu Entre tudo de onde disto. Nem me resta uma memória. É como se alguém confuso Se não lembrasse da história. 1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 70. Primeiro Fausto O conjunto do drama representa a luta entre a Inteligência e a Vida em que a inteligência é sempre vencida. A Inteligência é representada por Fausto, e a Vida diversamente, segundo as circunstâncias acidentais do drama. No 1º acto, a luta consiste em a Inteligência querer compreender a Vida, sendo derrotada, e compreendendo só que não pode nunca compreender a vida. Assim, este acto é todo disquisições intelectuais e abstractas, em que o mistério do mundo (tema geral, aliás, da obra inteira, pois que é o tema central da Inteligência) é repetidamente tratado. No 1º entreacto há a repetição lírica das conclusões a que o protagonista chegará no 1º acto. No 2º acto a luta passa a ser a da Inteligência para dirigir a Vida, sofrendo na tentativa igual derrota, embora de outra maneira. A dificuldade está na maneira de representar essa Vida que a Inteligência tenta dominar. O preferível é representar essa Vida por discípulo ou alguém assim, em quem, por não compreender a subtileza e o género de ambição do Mestre, as pretensas vontades e imposições deste nenhuma impressão causam, ou causam uma impressão falsa. O melhor talvez é representar a Vida aqui por três discípulos ou outras pessoas — um sobre quem a acção intelectual é nula, outro por quem é aceite erroneamente, pervertidamente, e um terceiro por quem é de instinto combatida, com uso também da Inteligência, que nele é arma, meio, instrumento para o instinto se manifestar. O 2º entreacto resume a lição que o drama do 2º acto põe humanamente. Este entreacto é lírico como o primeiro. (Estudar o género lírico, da direcção essencial deste entreacto). O 3º Acto envolve a luta da Inteligência para se adaptar à Vida, que, neste ponto, é, como é de esperar, representada pelo Amor, isto é, por uma figura feminina, Maria, a quem Fausto tenta saber amar. Que fazes tu? FAUSTO: Tento saber amar. Nasceu morto o que quis de mim. A derrota da Inteligência é igualmente flagrante neste caso. O acto fecha com o monólogo da noite, de especial amargura, porque a incapacidade de adaptação à vida é mais amarga que a falência em compreendê-la e dirigi-la, que são, a 1ª mais horrível (pelo mistério essencial) a 2ª mais desilusionante (pela disparidade entre os resultados e o esforço empregado e a sua direcção intencional). O 3º entreacto, lírico também, é difícil de determinar que orientação tenha. (Não deve ser este sem dúvida o entreacto dionisíaco) (??) No 4º acto a tentativa que falha é a de dissolver a Vida, em que a raiva da inimizade falha ante a capacidade de reacção da Vida, caindo no Hábito (os revoltosos que reconhecem senhor o senhor contra quem se revoltaram), no Prazer Mais Próximo, e na Indiferença entre os grandes fins, ainda que tenham um apelo para o instinto (o que é representado pela cena em que os amorosos ouvem passar ao longe indiferentemente o tumultar da revolta). O 4º entreacto deve ser o mais frio de todos. No 5º acto temos, finalmente, a Morte, a falência final da Inteligência ante a Vida. Enquanto se dança e se brinca em uma festa de dia-santo, Fausto agoniza ignorado. E o drama fecha com a canção do Espírito da Noite, repondo o elemento do terror do Mistério, que envolve tanto a Vida como a inteligência — canção simples e fria. Um dos principais estudos a fazer aqui é o da natureza dos entreactos. Sem dúvida que o 1º deve ser o de lirismo metafísico, que acaba com a canção «a catarata de sonho». O 2º entreacto, na passagem da falência da Inteligência para dirigir a sua falência para se adaptar, deve ser o mais suave de todos, embora um resaibo da falência que vai haver deva talvez pairar na lírica por ele espalhada. O 3º entreacto é sem dúvida o dionisíaco, porque a tendência dionisíaca da Inteligência é que a leva a dissolver a Vida, tanto pelo erro no instinto, que leva ao excesso absurdo e teorizado, como pela raiva imanente nesse excesso. O 4º entreacto, que é o que é bom que comece com a canção do Destino (??), fecha friamente a série lírica, o comentário lírico que os entreactos constituem. É este, aproximadamente quanto aos detalhes, o ambiente dramático do Primeiro Fausto. Outro modo de pôr o mesmo problema, ou, antes, a mesma tese: 1º Acto: Conflito da Inteligência consigo própria. 2º Acto: Conflito da Inteligência com as outras Inteligências. 3º Acto: Conflito da Inteligência com a Emoção. 4ºActo: Conflito da Inteligência com a Acção. 5º Acto: Derrota da Inteligência. s.d. “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). - 190-192. Quando penso Em glória, fama,    (...) (...) tudo acabando em morte Eu sinto um frio n'alma, um confranger, Obscurecer de todo o pensamento, Dissolver da clareza da consciência Nos seus (...) elementos escuros. Tudo formas Do gélido sentimento de existir Que é o frio habitual do meu sentir; Sentir a vida como um arrepio, Como um horror, como uma morte consciente. O frio do mistério enche tudo Porque o mistério é tudo e é tudo a vida. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 86. O PESO DE HAVER O MUNDO Passa no sopro da aragem Que um momento o levantou Um vago anseio de viagem Que o coração me toldou. Será que em seu movimento A brisa lembre a partida, Ou que a largueza do vento Lembre o ar livre da ida? Não sei, mas subitamente Sinto a tristeza de estar O sonho triste que há rente Entre sonhar e sonhar. 19-5-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 71. Atribuído a Bernardo Soares in Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol. II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição de textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982 Plano dos Três Faustos Primeiro Fausto : O actual, meio-escrito, e apenas simbólico do isolamento, etc, e outras coisas da vida.  (indivíduo) Segundo Fausto : Fausto reincarna? Símbolo da aspiração insaciável que, casada com Helena, ou Helenismo, produz (o espírito moderno?) — a perfeição humana — e é castigado com a falência, a imperfeição, o desastre; como acontece ao espírito moderno. (Sociedade) Terceiro Fausto : A tragédia mais transcendente ainda (Reincarnação futura?) I. Oposição entre a Inteligência e a Vida. II. Oposição entre o desejo e a Realidade. III. Oposição entre o Não-Ser e Ser. A Inteligência busca compreender O Desejo busca possuir (compreender de perto) O Não-Ser busca Ser s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 192. Apartado 147. Lisboa, 5 de Outubro de 1931. Meu querido Gaspar Simões: Não é precisamente para solenizar epistolarmente o aniversário da semi‑república que lhe venho escrever. Venho escrever-lhe, primeiro, porque lhe não tenho es­crito há muito tempo; segundo, porque gostava de ter notícias suas e da Presença; terceiro, porque queria sa­ber ao certo se no próximo número (e quando sai ele?) virá publicada a minha tradução do Hino a Pã do Aleis­ter Crowley. O Crowley, que, depois de se suicidar, passou a re­sidir na Alemanha, escreveu-me há dias e perguntou-me pela tradução – ou, antes, pela publicação da tradução. Tinha-lhe eu escrito, aqui há meses, que ela viria publi­cada na Presença em breve. V. é que me fez entalar-me com essa declaração. Veja lá, agora: não me deixe mal com um Mago! Mas, a sério, se há qualquer razão para aquilo não ser publicado, v. diga francamente. Que é feito, literária e pessoalmente, do José Régio? Do Hourcade há alguma coisa de novo? Vi que o Je suis Partout tinha publicado uma espécie de resumo do es­tudo que vem no Bulletin. Já suis partout... Abraça-o o amigo e admirador grato, Fernando Pessoa . 5-10-1931 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 66. Na confecção da correspondência comercial há dois critérios fundamentais e opostos, entre os quais é difícil escolher o que deva preferir-se. O primeiro critério é o de “marcar personalidade” na correspondência e no seu estilo — isto é, buscar imprimir um cunho distintivo e pessoal a todas as cartas, de modo que em qualquer delas se reconheça, por assim dizer, a mesma voz que nas outras. O segundo critério é o de adaptar o estilo e feição da carta ao estilo e feição das cartas do correspondente. A nosso ver, nenhum dos critérios é universalmente preferível. Há casos em que um estaria errado, casos em que estaria errado o oposto. O importante é chamar-se a atenção do comerciante para a existência dos dois critérios. Saber que eles existem, e em que consistem, é o principal. 25-5-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 154. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 5. Lisboa: 25-5-1926. Há entre mim e o real um véu À própria concepção impenetrável. Não me concebo amando, combatendo, Vivendo como os outros. Há em mim, Uma impossibilidade de existir De que [abdiquei], vivendo. s.d. “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). - 89. Lembro-me ou não? Ou sonhei? Flui como um rio o que sinto. Sou já quem nunca serei Na certeza em que me minto. O tédio de horas incertas Pesa no meu coração. Paro ante as portas abertas Sem escolha nem decisão. 13-6-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 72. Primeiro Fausto Um dos entreactos é composto das canções destinadas ao auto das Bacantes que aqui ficam certas e muito melhor — ou o 2º ou o 3º entreacto, naturalmente. (Deve ser o 3º, antes da cena da taberna, no 4º acto, que é a que mais diz com a «anoia da via completa» na canção de um bacante) 1. Tentação da Ciência 2. Tentação da       (...) 3. Tentação do Amor 4. Tentação da Vida (completa) 5. Tentação da Morte ou então 1. O cansaço de nada saber — o elixir da ciência 2. Querer saber, conhecer a verdade 3. Querer conhecer o amor ou a vida. 4. Querer sentir a vida — abdicar da individualidade na Vida. 5. Cansaço final — abdicação da individualidade na Morte. 1. Impossibilidade de conhecer , ser feliz só em sonho ou  2. querer a satisfação do sonho , a Beleza ideal (Helena) — 3. A beleza real (Maria) — 4. A beleza geral (?) 4. A vida sem beleza 5. A Morte s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 193. Apartado 147. Lisboa, 1 de Novembro de 1931. Meu querido Gaspar Simões: Muito obrigado pela sua carta de 10 de Outubro. Não eram precisas tantas explicações sobre o passado da não publicação do Hino a Pã. Eu calculava perfeita­mente essas mesmas razões; o que queria era saber se sairia agora, no próximo número da Presença. Tive ontem um grande prazer – a visita do Hour­cade. Tenho pena que não seja possível falar-lhe mais vezes, como a si e ao Régio. O Hourcade, em todo o caso, diz-me que virá a Lisboa todos os meses, e isso é alguma coisa. V., suponho, raras vezes aparece por aqui? Quando vier, peço que me avise, com antecedência sendo possível, ou, não sendo possível, para os lugares comer­ciais cuja indicação já lhe dei numa carta antiga. O Hourcade não me pôde informar decisivamente sobre quando sairia o próximo número da Presença. Não sei, portanto, se poderei enviar-lhe a tempo cola­boração propriamente minha, ou dos fantasmas. Hoje e amanhã são para mim dias de máquina de escrever: tenho que passar a limpo um prefácio para um livro de versos portugueses de um judeu russo , e tenho que passar a limpo vários trechos do ajudante de guarda­-livros para a revista Descobrimento. Poderia enviar-‑lhe colaboração na terça-feira. Não sei se será tarde; em todo o caso, enviá-la-ei. Indiquei ao Hourcade, pedindo que lho comuni­casse, que há um lapso verbal na minha tradução do Hino a Pã. O verso «E da coxa áspera o dom erecto» deve ser «E da coxa áspera o Toque erecto», sendo a palavra Toque escrita com maiúscula. Repito aqui a indicação, pedindo-lhe que faça a emenda. Se, por acaso, fosse possível eu ver as provas desta tradução, muito lhe agradeceria a possibilidade. Não é que eu precise ver provas da colaboração que envio – já lhe disse que confio absolutamente na vossa revisão; é que queria remeditar a tradução, para ver se nalgum ponto menor a terei que emendar. A colaboração, que tenciono enviar-lhe na terça-feira, é um trecho do guarda-livros, de índole diferente dos que escolhi para o Descobrimento, e uma breve composição do Álvaro de Campos. Aguardo com muito interesse o seu novo livro. Tomara eu (em outra ordem de aguardar) poder algum [dia] dizer que eu mesmo aguardo um livro real. Mas já o meu confrade William Shakespeare, pessoa de al­guma categoria ante os Deuses, sofria da mesma doença do outro lado da alma... Recomende-me ao José Régio quando o vir ou lhe escrever, e creia sempre na amizade reconhecida e na admiração do muito seu, Fernando Pessoa . 1-11-1931 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 67. ...e desse referver me veio Mudo aniquilamento da vontade Paralisada pelo (...) excesso Do poder do desejo, mesmo sobre A imaginada força do poder. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 87. Basta pensar em sentir Para sentir em pensar. Meu coração faz sorrir Meu coração a chorar. Depois de ficar e ir Hei-de ser quem vai chegar Para ser quem quer partir. Viver é não conseguir. 14-6-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 73. Segundo ANTÓNIO VIEIRA O céu estrela o azul e tem grandeza. Este, que teve a fama e a glória tem, Imperador da língua portuguesa, Foi-nos um céu também. No imenso espaço seu de meditar, Constelado de forma e de visão, Surge, prenúncio claro do luar, El-Rei D. Sebastião. Mas não, não é luar: é luz do etéreo. É um dia; e, no céu amplo de desejo, A madrugada irreal do Quinto Império Doira as margens do Tejo. 31-7-1929 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 92. Acto I. Pensamento e a sua dor (coro da tragédia) II. Procura da imortalidade. III. Procura do amor para encher a vida mortal. IV. Procura da acção intensa que [...] a imortalidade e o amor... V. Morte. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 195. Apartado 147. Lisboa, 20 de Novembro de 1931. Meu querido Gaspar Simões: Devolvo as provas, e realmente na volta do correio. Afinal «toque» é com minúscula, e assim emendei. Mas é, de facto, «toque» e não «dom». Havia, nas emendas que já vinham feitas, uma indi­cação de pôr um «é» em «Artemis»; não o deve haver, e eliminei. De resto, escangalhava o verso o pronun­ciar‑se assim; se bem que não seja esta a razão directa da emenda, ou, antes, sobreemenda. Espero ter amanhã o prazer de ver o Hourcade, con­forme carta que dele recebi há dias. Creia-me seu sempre muito dedicado e grato, Fernando Pessoa . 20-11-1931 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 69. Tudo transcende tudo E é mais real e menor do que é. Sinto-me perturbado E a consciência da perturbação Mais me perturba. Não sei que desejar Nem que desejável ser em mim. Todo o modo de ser além da morte Me apavora e confrange. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 87. Corno nuvens pelo céu Passam os sonhos por mim. Nenhum dos sonhos é meu Embora eu os sonhe assim. São coisas no alto que são Enquanto a vista as conhece, Depois são sombras que vão Pelo campo que arrefece. Símbolos? Sonhos? Quem torna Meu coração ao que foi? Que dor de mim me transtorna? Que coisa inútil me dói? 17-6-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 74. Itinerário 1. À Memória do Ditador Sidónio Pais. 2. O Manipanso. 3. Agamemnon. 4. Ode a Atena. 5. Juliano em Antioquia. 6. Decadência. 7. Orfeu. 8. Amon-Ra. 9. Mar Português. 10. Além-Deus. (em «poemas» Itinerário = 10 em «livros» Cancioneiro = 11) Cancioneiro (Livros de 100 poemas) Itinerário Passagem (poemas menores que os do I.) Auto das Bacantes Auto de Orfeu (dif.te de I. - nº7) Inês de Castro Trilogia dos Gigantes D. Sebastião Primeiro Fausto Ligéa — Poema Dramático «Alberto Caeiro» «Ricardo Reis» «Álvaro de Campos» s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 196. Apartado 147. Lisboa, 3 de Dezembro de 1931. Meu querido Gaspar Simões: Muito e muito obrigado pelo seu livro, que recebi no dia 1. Queria escrever-lhe depois de o ter inteiramente lido e meditado, relendo, até, e mais atentamente, o que nele há de reproduzido da Presença e já meu conhecido. Mas essa leitura só pode ser honestamente feita na semana que vem. Prefiro, pois, desde já sim­plesmente lho agradecer, deixando para depois da tal leitura mais atenta os comentários, quaisquer que se­jam, que me ocorrerem, e me parecer de qualquer utili­dade comunicar-lhe. Nessa altura farei os comentários de há muito prometidos sobre o estudo, inserto neste livro, que me diz respeito. No decurso do fenómeno físico de abrir o livro e percorrer aqui e ali esta ou aquela página, fiquei – desde já lho digo – com a mesma agradável impressão do seu espírito que tenho sempre tido. Em outras palavras, parece-me que este livro em nada deverá desviar-se do caminho intelectual que v. começou traçando, admira­velmente, no seu livro anterior. Faço, mas sob reserva de emenda possível, uma reserva: no relance, pare­ceu-me que v. tendia para querer explicar de mais. Na carta, que de aqui a dias lhe escreverei, esclarecerei esta frase, se a não tiver que retirar. E, desde já, uma observação adversa, mas amável, colhida de uma nota que li no decurso do fenómeno físico acima indicado. Refiro-me à nota em que se des­culpa de citar, a propósito do José Régio, vários autores célebres, em sentido de comparação psicológica. Não se ofende v. decerto que, valendo-me da triste vantagem que tenho em ter quase o dobro da sua idade, lhe dê um conselho. Conselho importuno, tanto por ser conse­lho, como porque v. mo não pediu. Mas dou-o transla­tamente, e servindo-me da indicação magisterial de não sei que diplomata francês. Disse ele: Nunca explicar, nunca se desculpar, nunca se arrepender. Meu querido Gaspar Simões, nunca peça desculpa de nada, sobretudo ao público. E quem lhe diz que a história definitiva da literatura não levará o José Régio tão alto, ou mais alto, que o Tolstoi ou o André Gide, ou quem mais v. citasse? Não me custa nada a admitir essa possibilidade, sobre­tudo em quem, sendo tão jovem como o Régio, já tanto conseguiu adentro da sua sensibilidade. De resto – admito – nunca pude ler o Gide, e, quanto ao Tolstoi, basta ser russo para eu ter dificuldade em dar por ele. Até já. E um abraço de amigo e de admirador do seu muito dedicado e grato, Fernando Pessoa 3-12-1931 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 69. Montanhas, solidões, objectos todos, Ainda que assim eu tenha de morrer, Revelai-me a vossa alma, isso que faz Que se me gele a mente ao perceber Que realmente existis e em verdade, Que sois facto, existência, cousas, ser. Quantos o sentem, quantos, ao ouvir-me «Estou aqui» compreenderão Íntima e inteiramente, ouvindo n'alma A alma da minha voz? A expressão Fez-se para o vulgar, para o banal. A poesia torce-a e dilacera-a; Mas isto que eu em vão impor-lhe quero Transcende-lhe o poder e a sugestão. Metáfora nem símbolo o exprime; Desespero ao ouvir-me assim dizer Isso que n'alma tenho. Sinto-o, sinto-o E só falando não me compreendo. No mais simples dos factos é que existe O horror maior: nisto: que há existência. Sentir isto, eis o horror que não tem nome! Mas senti-lo a sentir, intimamente, Não com anseios ou suspiros d'alma, Mas com pavor supremo, com gelado Inerte horror de desesperação. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 87. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p. 100). Porque sou tão triste ignoro Nem porque sentir em mim Lágrimas que eu choro assim; Desde menino me choro E ainda não me achei fim. 28-7-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 75. O nosso tempo, em que tantas actividades complexas se desenvolvem, criou profissões novas, algumas estranhíssimas. Mas entre elas ainda não apareceu uma que é muito precisa — a de professor de leitura para as pessoas que já sabem ler. Esta observação não é um disparate. Um grande número de pessoas — a maioria, talvez, se víssemos bem — são absolutamente desatentas: nem vêem o que vêem, nem lêem o que estão lendo. É extraordinário o número de negócios que se demoram, se complicam inutilmente, ou, até, se enredam com gravidade, por o comerciante se não dar ao trabalho de ler o que lhe escrevem. Depois responde concordando com o que não se lhe propôs, ou perguntando o que já está dito. Todo o homem de negócios deve ler as cartas que recebe palavra a palavra e atentamente. A correspondência comercial deve ser lida em sossego e sem interrupção, nem no meio de uma carta, nem mesmo entre carta e carta, para que não se perca a continuidade da atenção. Lida cada carta, deve fazer-se um rápido, e instintivo, esboço mental do sentido do seu conteúdo. O comerciante tem pressa? Lê depois, quando tiver vagar. Nunca tem vagar? Se não tem vagar para trabalhar, o que é que lhe tira o vagar? 25-3-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 155. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 3. Lisboa: 25-3-1926. Cancioneiro 1. Canção de Outono. 2. Realejo. 3. Gládio. 4. Transeunte. Cancioneiro — em vários «livros», as simples canções. Itinerário — os poemas maiores, mas de índole reflectiva ou elegíaca, e. g. «Pequenito Coxo». Poemas Portugueses — Os poemas Maiores — como «Agamemnon», etc. (ou este título como título geral, dos outros livros também) Poemas Portugueses 1. À Memória de Sidónio Pais. 2. O Manipanso. 3. Agamemnon. 4. Juliano em Antioquia. 5. Decadência. 6. D. João no Inferno. 7. Mar Português. 8. Ode a Atena. 9. Orfeu. 10. Ode ao Encoberto. Teatro Menor 1. O Marinheiro. 2. A Morte do Príncipe. 3. Sakyamuni. 4. A Cadela. 5. As Coisas. Auto das Bacantes Auto do Orfeu Trilogia dos Gigantes — (3 dramas) Ligea (poema dramático) Primeiro Fausto Segundo Fausto Terceiro Fausto Teomaquia (ou Os Argonautas) D. Sebastião s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 197-8. Apartado 147. Lisboa, 11 de Dezembro de l93l. Meu querido Gaspar Simões: Muito obrigado pela sua carta, que acabo de rece­ber, e pela página do jornal de Málaga. Não faz mal não ter vindo na Presença 33 o trecho do guarda--livros ou o soneto do Álvaro de Campos; ainda bem que veio a tra­dução do Hino a Pã. Essa, sim, é que me comprometeria se estivesse ausente. E porquê zangar-se comigo por ter dado ao Descobrimento colaboração extensa? Estou pronto a dá-la de igual extensão à Presença. Em um e outro caso considero, porém, a índole da publicação. Não julgo justo enviar-lhe colaboração que vá absorver-lhe três páginas, sobretudo devendo a Presença entregar o melhor e maior do seu espaço aos poetas e prosadores mais jovens, intercalando apenas os da minha idade por amizade para connosco, aplauso nosso para convosco e enchimento de intervalos. Feitas estas considerações antepreliminares, e que são a resposta à sua carta , vou ver se consigo fazer a crítica ao seu livro Mistério da Poesia; incluirá a crí­tica ao seu estudo a meu respeito, visto que é inserto no livro, apesar de eu lha ter prometido há já muito tempo. Deve v. compreender, antes de mais nada, que vou fazer a crítica assim mesmo, escrevendo corrente e directamente à máquina a que estou sentado, sem pro­curar fazer literatura, ou frases, ou quanto não surja espontaneamente no decurso mecânico de escrever. Gomo não trouxe comigo o seu livro, terei que indicar em vez de citar, onde haja (se directamente houver) razão para isso. Aviso isto para que v. não veja um vago propósito onde há somente não ter trazido o livro. De há muito que tenho uma alta opinião do seu talento em geral e das suas qualidades de crítico em particular. Quero que, antes de mais e acima de tudo, reconheça isto, e que isto é a minha opinião fundamen­tal. O que porventura se manifeste de discordância no seguimento desta carta atinge tão-somente os acidentes e os pormenores. Prova-lhe, aliás, este meu conceito da sua inteligência o facto – que talvez não tenha elemen­tos para notar – de que uso para consigo das palavras «admiração» e «admirador», que não costumo distri­buir ao acaso; «apreço» é o até onde vou onde não posso, a bem comigo, ir mais longe. A meu ver, O Mistério da Poesia marca, na evolu­ção do seu espírito e da expressão dele, um estádio in­termédio entre Temas e um livro seu futuro. O Mistério da Poesia é essencialmente – a meu ver, sempre – um livro de estádio intermédio: é mais profundo e mais confuso que Temas. O Gaspar Simões cresceu mental­mente – cresce-se mentalmente até aos 45 anos – e está atravessando uma fase de uma doença do crescimento. Sente a necessidade de explicar mais, e mais profunda­mente, do que fez em Temas, mas, em parte, não atin­giu ainda o comando dos meios de aprofundamento, e, em parte, busca aprofundar pontos da alma humana que não haverá nunca meios para aprofundar. De aí – sem­pre, a meu ver – o que de febril, de precipitado, de ofe­gante estorva a lucidez substancial de certas observações, e priva outras, centralmente, de lucidez. À parte o que vejo nisto de uma simples manifesta­ção de evolução íntima, creio que se entrega um pouco mais do que deveria às influências e sugestões do meio intelectual europeu, com todas as suas teorias procla­mando-se ciência, com todos os seus talentosos e há­beis proclamando-se e proclamados génios. Não o acuso de não ver isto; na sua idade nunca isto se vê. Pasmo hoje – pasmo com horror – do que admirei – sincera e inteligentemente – até aos 30 anos, no passado e no (então) presente da literatura internacional. Comigo isto deu-se tanto com a literatura como com a política. Pasmo hoje, com vergonha inútil (e por isso injusta) de quanto admirei a democracia e nela cri, de quanto julguei que valia a pena fazer um esforço para bem da entidade inexistente chamado «o povo», de quão since­ramente, e sem estupidez, supus que à palavra «humani­dade» correspondia uma significação sociológica, e não a simples acepção biológica de «espécie humana». Entre os guias que o induziram no relativo labi­rinto para que entrou, parece-me que posso destacar Freud, entendendo por Freud ele e os seus seguidores. Acho isto absolutamente compreensível, não só pelas ra­zões gerais acima expostas, mas pela, particular, de que o Freud é em verdade um homem de génio, criador de um critério psicológico original e atraente, e com o poder emissor derivado de esse critério se ter tornado nele uma franca paranóia de tipo interpretativo. O êxito europeu e ultra-‑europeu do Freud procede, a meu ver, em parte da originalidade do critério; em parte do que este tem da força e estreiteza da loucura (assim se formam as religiões e as seitas religiosas, compreendendo nestas, porque o são, as de misticismo político, como o fas­cismo, o comunismo, e outras assim); mas principal­mente de o critério assentar (salvo desvios em alguns sequazes) numa interpretação sexual. Isto dá azo a que se possam escrever, a título de obras de ciência (que por vezes, de facto, são), livros absolutamente obscenos, e que se possam «interpretar» (em geral sem razão nenhuma crítica) artistas e escritores passados e pre­sentes num sentido degradante e Brasileira do Chiado assim ministrando masturbações psíquicas à vasta rede de onanismos de que parece formar-se a mentalidade civilizacional contemporânea. Compreenda-me v. bem: não quero com isto sequer supor que seja este último pormenor do Freudismo o que fez, a v., passes hipnóticos. Mas foi este pormenor que criou o vasto interesse no Freudismo em todo o mundo, e que, portanto, fez a publicidade do sistema. Foi por um processo idêntico que, tendo o Junqueiro derivado a sua celebridade do fenómeno extraliterário de atacar a Igreja Católica (em que intimamente cria) e os «burgueses» (de cuja classe era excessivo orna­mento), nós, no meu tempo, o passámos a admirar lite­rariamente, e ainda que não concordássemos com qual­quer daqueles dois elementos que haviam criado a cele­bridade pela qual o líamos e admirávamos. Ora, a meu ver (é sempre «a meu ver»), o Freu­dismo é um sistema imperfeito, estreito e utilíssimo. É imperfeito se julgamos que nos vai dar a chave, que nenhum sistema nos pode dar, da complexidade inde­finida da alma humana. É estreito se julgamos, por ele, que tudo se reduz à sexualidade, pois nada se re­duz a uma coisa só, nem sequer na vida intra-atómica. É utilíssimo porque chamou a atenção dos psicólogos para três elementos importantíssimos na vida da alma, e portanto na interpretação dela: (1) o subconsciente e a nossa consequente qualidade de animais irracionais; (2) a sexualidade, cuja importância havia sido, por di­versos motivos, diminuída ou desconhecida anterior­mente; (3) o que poderei chamar, em linguagem minha, a translação, ou seja a conversão de certos elementos psíquicos (não só sexuais) em outros, por estorvo ou desvio dos originais, e a possibilidade de se determinar a existência de certas qualidades ou defeitos por meio de efeitos aparentemente irrelacionados com elas ou eles. Já antes de ter lido qualquer coisa de ou sobre Freud, já antes, até, de ouvir falar nele, eu tinha pes­soalmente chegado à conclusão marcada (1) e a alguns resultados dos que inclui sob a indicação (3). No capí­tulo (2) tinha feito menos observações, dado o pouco que sempre me interessou a sexualidade, própria ou alheia – a primeira pela pouca importância que sempre dei a mim mesmo, como ente físico e social, a segunda por melindre (adentro da minha própria cabeça) de me intrometer, ainda que interpretativamente, na vida dos outros. Não tenho lido muito do Freud, nem sobre o sis­tema freudiano e seus derivados; mas o que tenho lido tem servido extraordinariamente – confesso – para afi­nar a faca psicológica e limpar ou substituir as lentes do microscópio crítico. Não precisei do Freud (nem ele, que eu saiba, me esclareceria nesse pormenor) para saber distinguir a vaidade do orgulho, nos casos em que podem confundir-se, por meio de manifestações em que essas qualidades surgem indirectamente. Não precisei também do Freud para, no próprio campo da indica­ção (2), conhecer, pelo simples estilo literário, o pede­rasta e o onanista, e, adentro do onanismo, o onanista praticante e o onanista psíquico. Os três elementos cons­titutivos do estilo do pederasta, os três elementos cons­titutivos do estilo do onanista (e a divergência, em um deles, entre o praticante e o psíquico) – para nada disto precisei de Freud ou dos freudianos. Mas muitas outras coisas, neste capítulo e nos outros dois, de facto Freud e os seus me esclareceram: nunca me havia ocor­rido, por exemplo, que o tabaco (acrescentarei «e o álcool») fosse uma translação do onanismo. Depois do que li neste sentido, num breve estudo dum psicanalista, verifiquei imediatamente que, dos cinco perfeitos exem­plares de onanistas que tenho conhecido, quatro não fumavam nem bebiam, e o que fumava abominava o vinho. O assunto obrigou-me a cair no sexual, mas foi para exemplificar, como v. compreende, e para lhe dizer quanto, criticando embora e divergindo, reconheço o poder hipnótico dos freudismos sobre toda criatura inteligente, sobretudo se a sua inteligência tem a feição crítica. O que desejo agora acentuar é que me parece que esse sistema e os sistemas análogos ou derivados devem por nós ser empregados como estímulos da ar­gúcia crítica, e não como dogmas científicos ou leis da natureza. Ora o que me parece é que v. se serviu deles um pouco neste último sentido, sendo portanto corres­pondentemente arrastado por o que há de pseudocien­tífico em muitas partes desses sistemas, o que conduz à falseação; por o que há de audaz em outras partes, o que conduz à precipitação; e por o que há de abusivamente sexual em outras, o que conduz a um rebaixa­mento automático, sobretudo perante o público, do au­tor criticado, de sorte que a explicação, sinceramente buscada e inocentemente exposta, redunda numa agres­são. Porque o público é estúpido? Sem dúvida, mas o que faz o público, público, que é o ser colectivo, por isso mesmo o priva da inteligência, que é só individual. A Ro­bert Browning, não só grande poeta, mas poeta intelec­tual e subtil, referiram uma vez o que havia de indiscutí­vel quanto à pederastia de Shakespeare, tão clara e cons­tantemente afirmada nos Sonetos. Sabe o que Browning respondeu? «Então ele é menos Shakespeare!» (If so the lesse Shakespeare he). Assim é o público, meu querido Gaspar Simões, ainda quando o público se chame Browning, que nem sequer era colectivo. Nestas considerações, feitas em tom mental de con­versa solitária, e assim transmitidas à rapidez da má­quina, vai a maior parte da crítica que tenho que fazer, adversamente, ao Mistério da Poesia. Elas versam, para falar pomposamente, um dos aspectos metodológicos do seu livro. Mas há nele também elementos de pressa excusada e de precipitação crítica a que qualquer ques­tão de método é alheia. Se v. confessadamente não tem os elementos biográficos precisos para ajuizar do que poderia ser a alma do Sá-Carneiro, porque se baseia na falta de elementos para formar um juízo? Tem v. a cer­teza, só porque eu o digo e repito, que tenho saudades da infância e que a música constitui para mim – como direi? – o meio natural estorvado da minha íntima ex­pressão? E repare que cito o estudo sobre o Sá-Carneiro, que, dada a sua falta de elementos, é admirável de espí­rito crítico, e o estudo a meu respeito que peca só por se basear, como verdadeiros, em dados que são falsos por eu, artisticamente, não saber senão mentir. Concretizo. A obra de Sá-‑Carneiro é toda ela atra­vessada por uma íntima desumanidade, ou, melhor, inu­manidade: não tem calor humano nem ternura humana, excepto a introvertida. Sabe porquê? Porque ele perdeu a mãe quando tinha dois anos e não conheceu nunca o carinho materno. Verifiquei sempre que os amadrasta­dos da vida são falhos de ternura, sejam artistas, sejam simples homens; seja porque a mãe lhes falhasse por morte, seja porque lhes falhasse por frieza ou afasta­mento. Há uma diferença: os a quem a mãe faltou por morte (a não ser que sejam secos de índole, como o não era Sá-Carneiro) viram sobre si mesmos a ternura pró­pria, numa substituição de si mesmos a mãe incógnita; os a quem a mãe faltou por frieza perdem a ternura que tivessem e (salvo se são génios da ternura) resul­tam cínicos implacáveis, filhos monstruosos do amor natal que se lhes negou. Concretizo mais, agora comigo. Nunca senti sauda­des da infância; nunca senti, em verdade, saudades de nada. Sou, por índole, e no sentido directo da palavra, futurista. Não sei ter pessimismo, nem olhar para trás. Que eu saiba ou repare, só a falta de dinheiro (no pró­prio momento) ou um tempo de trovoada (enquanto dura) são capazes de me deprimir. Tenho, do passado, somente saudades de pessoas idas, a quem amei; mas não é a saudade do tempo em que as amei, mas a saudade delas: queria-as vivas hoje, e com a idade que hoje tivessem, se até hoje tivessem vivido. O mais são atitudes literárias, sentidas intensamente por instinto dramático, quer as assine Álvaro de Campos quer as assine Fernando Pessoa. São suficientemente represen­tadas, no tom e na verdade, por aquele meu breve poema que começa: «Ó sino da minha aldeia...». O sino da mi­nha aldeia, Gaspar Simões, é o da Igreja dos Mártires, ali no Chiado. A aldeia em que nasci foi o Largo de S. Carlos, hoje do Directório, e a casa em que nasci foi aquela onde mais tarde (no segundo andar; eu nasci no quarto) haveria de instalar-se o Directório Republi­cano. (Nota: a casa estava condenada a ser notável, mas oxalá 4.º andar dê melhor resultado que o 2.º). Depois destas concretizações, ou coisa parecida, de­sejo regressar (se ainda tiver cabeça, pois já estou cansado) a um ponto metodológico. A meu ver (cá estão as três palavras outra vez), a função do crítico deve concentrar-se em três pontos: (1) estudar o artista exclusivamente como artista, e não fazendo entrar no estudo mais do homem que o que seja rigorosamente preciso para explicar o artista; (2) buscar o que poderemos chamar a explicação central do artista (tipo lí­rico, tipo dramático, tipo lírico elegíaco, tipo dramático poético, etc.); (3) compreendendo a essencial inexpli­cabilidade da alma humana, cercar estes estudos e estas buscas de uma leve aura poética de desentendimento. Este terceiro ponto tem talvez qualquer coisa de diplo­mático, mas até com a verdade, meu querido Gaspar Simões, há que haver diplomacia. Nada disto, creio, precisa ser esclarecido, salvo, talvez, o que indiquei como (2). Prefiro – até para abre­viar – explicar por um exemplo. Escolho-me a mim mesmo, porque é quem está aqui mais perto. O ponto central da minha personalidade como artista é que sou um poeta dramático; tenho, continuamente, em tudo quanto escrevo, a exaltação íntima do poeta e a desper­sonalização do dramaturgo. Voo outro – eis tudo. Do ponto de vista humano – em que ao crítico não com­pete tocar, pois de nada lhe serve que toque – sou um histeroneurasténico com a predominância do elemento histérico na emoção e do elemento neurasténico na inte­ligência e na vontade (minuciosidade de uma, tibieza de outra). Desde que o crítico fixe, porém, que sou essencialmente poeta dramático, tem a chave da minha personalidade, no que pode interessá-lo a ele, ou a qual­quer pessoa que não seja um psiquiatra, que, por hipó­tese, o crítico não tem que ser. Munido desta chave, ele pode abrir lentamente todas as fechaduras da minha expressão. Sabe que, como poeta, sinto; que, como poeta dramático, sinto despegando-me de mim; que, como dramático (sem poeta), transmudo automaticamente o que sinto para uma expressão alheia ao que senti, cons­truindo na emoção uma pessoa inexistente que a sen­tisse verdadeiramente, e por isso sentisse, em derivação, outras emoções que eu, puramente eu, me esqueci de sentir. Agora vou parar. Vou reler esta carta, fazer quais­quer emendas que forem precisas, e enviar-lha. Além disso, sou instantemente solicitado a acabar de escrever à máquina por um amigo meu, ainda mais bêbedo do que eu, que acaba de chegar e não estima embebedar-se sozinho. O «vou reler esta carta» quer, pois, dizer, que a vou reler logo, ou amanhã. Não deverei fazer emendas, salvo as do que saiu errado entre mim e a máquina. Se v. achar qualquer ponto mal esclarecido, diga, que eu direi. E v. não esqueceu, é claro, que o que aí vai é feito sem preparação nenhuma – atirado pelas páginas fora com a rapidez com que a máquina pode ceder ao pensamento decorrente. Não, não esqueci que não referi o que haverá pos­sivelmente de errado no seu conceito do meu entendi­mento emotivo da música. Saltei este pormenor porque não sei nada a respeito dele. Mas essa vontade de mú­sica é outra das graças do meu espírito dramático. É conforme as horas, os locais, e a parte de mim que esteja virada a fingir para os locais e as horas. Nem esqueci, é claro, que, para trás, nesta carta, escrevi qualquer coisa sobre «afiar a faca psicológica» e «limpar ou substituir as lentes do microscópio crítico». Registo, com orgulho, que pratiquei, falando de Freud, uma imagem fálica e uma imagem iónica; assim sem dúvida ele o entenderia. O que concluiria, não sei. Em qualquer caso, raios o partam! E agora estou, definitivamente, cansado e sedento. Desculpe o em que as expressões tenham falhado às ideias e o que as ideias tenham roubado à mentira ou à indecisão. Fernando Pessoa. P. S. – Houve um ponto da sua carta a que não respondi ou me referi. É o que trata da nota do Des­cobrimento sobre Camilo Pessanha. Quero referir-me simplesmente à influência que O Pessanha pudesse ter tido sobre o Sá-Carneiro. Não teve nenhuma. Sobre mim teve, porque tudo tem influência sobre mim; mas é conveniente não ver influência do Pessanha em tudo quanto, de versos meus, relembre o Pessanha. Tenho elementos próprios, naturalmente se­melhantes a certos elementos próprios do Pessanha; e certas influências poéticas inglesas, que sofri muito an­tes de saber sequer da existência do Pessanha, actuam no mesmo sentido que ele. Mas quanto ao Sá-Carneiro... Eu conhecia, de cor, quase todos os poemas do Pessanha, por mos ter várias vezes dito o Carlos Amaro. Comuniquei-os ao Sá-‑Car­neiro, que, como é de supor, ficou encantado com eles. Não vejo, porém, que tenham influenciado o Sá-Carneiro em qualquer coisa. Uma grande admiração não implica uma grande influência, ou, até, qualquer influência. Tenho uma grande admiração por Camões (o épico, não o lírico), mas não sei de elemento algum camoniano que tenha tido influência em mim, influenciável como sou. E isto por uma razão precisamente igual à que explica a não influência de Pessanha sobre Sá-Carneiro. É que o que Camões me poderia ensinar, já me fora ensinado por outros. A exaltação e sublimação do instinto de pátria são fenómenos inensináveis em substância: ou temos naturalmente o sentimento patriótico, ou o não temos; ou temos a capacidade de exaltar e sublimar os nossos sentimentos, ou a não temos. (E, à parte isto, o sentimento patriótico é uma das coisas mais corren­tes em todas as literaturas, sendo, aliás, a sublimação construtiva do ódio, que é tão necessário à existência como o amor – a outra coisa igualmente corrente em todas as literaturas). E a construção e amplitude do poema épico, tem-as Milton (que li antes de ler os Lusíadas), em maior grau que Camões. Ora Sá-Carneiro tinha em si mesmo, ou de outras influências, tudo quanto o Pessanha lhe poderia dar, quando primeiro ouviu, como ele diz, «dos seus versos». Isto explica, ao mesmo tempo, a não influência e a grande admiração. Muito seu, F P. 11-12-1931 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 71. De vez em quando surge-me nos lábios Uma canção de amor e, instintivo, Nela choro unia amada morta. Sim. É a noiva eterna morta de um eu Que não soube amar. Ah que feliz Seria se eu pudesse aniquilar O pensamento, a comoção — o que eu Mais odeio e mais prezo — e m'envolver Numa vida vazia e trabalhosa, Com amores, ternura! Beberia A alegria do regalo de existir Sem perguntar onde era a sua origem Nem onde tinha fim. Felicidade Fez-se para quem a não pode sentir. Completo e apreensível horror Do mistério que eis volta ao pensamento! Hoje se morre alguém que estimo — se eu Estou ainda algo em mim absorto No que é mais do que eu — se morre alguém Que amo — admitamo-lo — já não choro, Não sinto dor: gela-me apenas, muda, A presença da morte que triplica O sentimento do mistério em mim. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 88. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.131). O que o seu jeito revela Sabe à vista como um gomo, E a vida tem fome dela Nos dentes do seu assomo. E nele mesmo, vibrante A esse corpo de amor, Espreita, próximo e distante, O seu tigre interior. 1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 76. Apartado 147. Lisboa, 14 de Dezembro de 1931. Meu querido Gaspar Simões: Como, quando escrevo cartas à máquina, que é sem­pre que são extensas, ou importa que sejam claras, ou à máquina, tiro, a papel químico, a cópia que não custa tirar, estive agora a reler a que lhe escrevi na sexta-feira e lhe expedi no sábado de manhã, registrada, para que se não perdesse. Depois de reler, desejo fazer uma leve emenda e um acréscimo. A carta foi escrita, como nela mesmo lhe disse, com a velocidade que a máquina permitia, e por isso me escapou uma reserva ou restrição num ponto, e me esqueceu por completo mencionar outro ponto. O primeiro caso tem mais importância que o segundo. Onde, falando da influência no Sá-Carneiro da morte prematuríssima da mãe, refiro que a ausência da ter­nura propriamente humana na obra dele é devida a isso, assim como a introversão de ternura que nele havia, deveria ter exposto melhor, porque não é inteiramente assim. No primeiro caso está bem; no segundo não o está inteiramente. Onde a introversão da ternura é dada (por exemplo) por Pobre menino ideal... Que me faltou afinal? Um elo? Um rastro?... Ai de mim!... é deveras a substituição da ternura própria à ternura materna nunca havida. Mas onde o tom é Ternura feita saudade, Eu beijo as minhas mãos brancas... .................................................... Tristes mãos longas e lindas Que eram feitas para se dar..., o caso é outro, e o movimento mental tem outra origem, que é, suponho, inútil que especifique. Reforça-se do primeiro tipo de introversão, mas não procede intimamente dele. O que me esqueceu por completo mencionar é o caso da referência que fiz no meu Interregno a ser aquele folheto escrito de maneira que ninguém mais o poderia escrever, ou qualquer coisa neste sentido, de que me claramente não recordo. V. tomou isto como uma espécie de nota de narcisismo; já o fez em Temas , e agora repetiu-o em O Mistério da Poesia. É perfeitamente legitimo que v. o fizesse, porque a frase lá está. O pior é que ela se explica de uma maneira diferente. A frase pertencia ao Interregno na sua forma original de manifesto anónimo. O Ministério do Interior impe­diu a saída do manifesto, a não ser que viesse assinado e convertido em livro – isto é, folheto –, pois assim não era (então) preciso ir à censura, que, tendo sido consultada sobre o manifesto, pusera várias objecções à sua saída. Na revisão que fiz, de muito mau humor, pois me aborreceu muito tudo aquilo das autoridades, esqueci-me de tirar essa frase, que, sendo uma insolên­cia de blague no manifesto anónimo, é nem mais nem menos que uma nota de mau gosto – género Shaw ou D'Annunzio – no folheto assinado. Mais nada. Sou abso­lutamente incapaz de escrever, directa e deliberada-mente, uma frase daquela ordem em circunstâncias que não sejam as de um lapso, como as que cito. Tenho empenho em acentuar-lhe isto, não para me esquivar à atribuição de narcisismo (que não é das coisas mais características do meu espírito – mas isso, enfim, não discuto), mas para me não deixar ter por culpado de uma nota de mau gosto e de falta de educação que, na verdade, não deliberei. É uma gaffe , se v. quiser (e que­rerá bem, porque o é), mas não é a má-criação narci­sista que, sem esta explicação, se poderia supor. Sempre e muito seu, Fernando Pessoa. 14-12-1931 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 82. Tivesse eu mil parentes ou cercado Fosse de amigos, camaradas mil, Eu estaria tão só como hoje estou. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 89. Apartado 147. Lisboa, 12 de Maio de 1932. Meu querido Gaspar Simões: Tenho tido notícias suas pelo Hourcade; por duas vezes as tive. Tive, a princípio, receio de que, de qual­quer modo evidentemente involuntário, o houvesse, não direi ofendido (pois isso v. não suporia possível), mas molestado pelos meus reparos, rápidos mas extensos, na carta pseudocrítica que em tempos lhe escrevi. O Hour­cade, porém, tranquilizou-me; disse-me, também, que v. tencionava escrever-me uma carta extensa em resposta. Não perca tempo com isso. A minha carta não era um artigo publicado, que, por tal ser, em qualquer modo o obrigasse, ou parecesse que obrigava, a uma resposta. Faça para si mesmo a crítica, aceitando ou rejeitando, da minha crítica, e não vá perder tempo em comentá-la. Isto não quer dizer que não recebesse com muito inte­resse uma carta sua naquele sentido. Mas não se julgue obrigado a escrevê-la. Não tenho neste momento colaboração nenhuma ajeitada à publicação. Digo isto porque o Hourcade me falou em mandar qualquer coisa para o próximo número de Presença. Enviarei mais tarde, e para outro. Tenho estado estes últimos meses, intelectualmente, em licença sem vencimento. Tenho escrito, de facto, alguma coisa, mas o que tenho escrito está sob a designação oficial que acima empreguei. Tenho seguido, e com interesse, a sua controvérsia com o António Sérgio; naturalmente v. responde ao úl­timo artigo dele. Espero com interesse a sua resposta. Não tenho direito algum de lhe dar um conselho, nem que v. mo pedisse, mas, talvez por isso mesmo, lho dou: responda como se não houvesse António Sérgio, abstracta e descarnadamente, como se discutisse, em termos geométricos, com Euclides, há muito falecido. Encontrei hoje o actor, ou antigo actor, Araújo Pereira, que me mostrou grande interesse em ter (isto é, comprar) uma colecção da Presença, para fins, ao que conclui do que ele me disse, de representar ele­mentos dramáticos que nela vêm, e de fazer recitar ou­tros. Disse-me ele que tinha feito o pedido através de livrarias, mas que lhe disseram que nada se podia obter. O «nada» é evidentemente exagero. Acho interessante comunicar-lhe esta observação, e creio que vocês devem escrever-lhe, citando o meu nome como elemento de relação, e dizendo os números da Presença que podem fornecer, e a quanto. Ponham isso em termos comer­ciais, pois não há razão para o pôr em outros. O Araújo Pereira mora na Rua n.º 4, ao Bairro Garrido, D. C. e S., 4.º D., Lisboa. Chamei-lhe, no princípio deste pará­grafo, «actor, ou antigo actor», o que ele de facto é; mas creio que tem presentemente uma situação de pre­dominância, aliás justa, em matéria de representar coi­sas. Prometi-lhe que escreveria hoje mesmo para vocês, e cumpro. Se v., por qualquer razão, preferir escre­ver-me, a mim, o que diria em resposta ao Araújo Pe­reira, escreva‑me, que eu lho transmitirei. Peço que me recomende ao Pierre Hourcade, e ao José Régio também, se com ele comunicar, e creia sem­pre na amizade grata e na admiração do muito seu, Fernando Pessoa. 12-5-1932 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 85. Terceiro Escrevo meu livro à beira-mágoa. Meu coração não tem que ter. Tenho meus olhos quentes de água. Só tu, Senhor, me dás viver. Só te sentir e te pensar Meus dias vácuos enche e doura. Mas quando quererás voltar? Quando é o Rei? Quando é a Hora? Quando virás a ser o Cristo De a quem morreu o falso Deus, E a despertar do mal que existo A Nova Terra e os Novos Céus? Quando virás, ó Encoberto, Sonho das eras português, Tornar-me mais que o sopro incerto De um grande anseio que Deus fez? Ah, quando quererás, voltando, Fazer minha esperança amor? Da névoa e da saudade quando? Quando, meu Sonho e meu Senhor? 10-12-1928 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 93. Horror! Não sei ser inconsciente E tenho para tudo, do que é bom À inconsciência, o pensamento aberto, Tornando-o impossível. O amor causa-me horror é abandono, Intimidade, mostrar       (...)       do ser E eu tenho do alto orgulho a timidez E sinto horror a abrir o ser a alguém, A confiar n'alguém. Horror eu sinto A que prescrute alguém, ou levemente Ou não, quaisquer recantos do meu ser. Abandonar-me em braços nus e belos (Inda que deles o amor viesse) No conceber de tudo me horroriza; Seria violar meu ser profundo, Aproximar-me muito doutros homens; Uma nudez qualquer — espírito ou corpo ( Confrange-me: acostumei-me cedo Aos despimentos do meu ser, A fixar olhos púdicos, conscientes Demais. Pensar em dizer «amo-te» E «amo-te» só — só isto me angustia... Pensar que ao rir (e mesmo que o não seja) Exponho uma íntima parte de mim, Para poder amar eu precisava Esquecer que sou Fausto o pensador. Eu queria era dormir, dormi, dormir, Longo dormir, meio sentindo em sono, E dormir sempre, sem consciência ter Do tempo, só do sono sonolento E da vacuidade do meu ser; Dormir sem vir a morte, nem sonhar Mas dormir só dormir, sempre dormir. Que hoje já de dormir desaprendi. Cansado de pensar, a pensar fico, E as noites longas, longas, longas, longas, E o pálido raiar de inda doutro dia... Inda outro dia que trará ainda Uma outra noite e essa mais dias, mais... Insone sentir isto, e o deslizar Suave e horroroso do tempo. Cai então sobre mim todo o horror claro E nítido e visível do mistério, E eu tal fico em abalo e em comoção Que durmo — sim que durmo de pesar-me Tudo de mais p'ra mais poder sentir. Então durmo... e antes eu não dormisse Porque desordenadas incoerências Mas não visões, só abstracções terríveis (...) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 89. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.123). Apartado 147. Lisboa, 25 de Maio de 1932. Meu querido Gaspar Simões: Muito obrigado pela sua carta de 12. É curioso que eu lhe tivesse escrito nesse mesmo dia. As cartas devem ter-se cruzado matematicamente. A propósito, escreveu v. ao Araújo Pereira? Não sei quando sai o próximo número da Presença, nem se vai a tempo o pequeno poema que junto lhe envio. Seja como for, e se ele convier, publique-o v. em qualquer número. Vi algures – creio que no Diário da Noite – que a Presença vai dedicar um número especial a Goethe. É curioso que, dias antes de eu ler isto, o José Osório de Oliveira me havia pedido um artigo sobre Goethe para um número do Descobrimento que vai ser dedi­cado ao mesmo assunto. Cito isto por uma razão espe­cial: poderia v. lembrar-se de me fazer um pedido idên­tico (se bem que v. e os outros colaboradores mais pro­priamente da Presença sejam competentes para escre­ver sobre o assunto), e, se assim fosse, eu teria que recusar, pois, evidentemente, não posso fazer dois arti­gos sobre o assunto, e o para o Descobrimento estava prometido. Entro assim em meandros explicativos um pouco ridículos porque não quero que vocês se melindrem comigo de qualquer maneira. Demais a mais, depreendo que as relações entre a Presença e o Descobrimento são vagamente de uma cordialidade à Bernardino. De aí o meu mais rápido desejo de esclarecer isto antecipadamente. Um abraço do amigo e admirador de sempre, Fernando Pessoa. 25-5-1932 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 87. Há entre mim e a humanidade um golfo, E esse golfo está dentro do meu ser. Quer solitário, quer com outros, eu Estou sempre só, nem a mim mesmo faço A companhia de sentir. Navego, Desabitada nau no mar da vida, Mais só que a solidão. Sou um estranho Ao que em mim pensa. Sou de qualquer modo Dois, para que, quando passageira Alegria do esforço de pensar ( A única alegria que me resta ( Me (...), eu tenha a consciência dela Como vazia, como o prazer todo. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 91. Apartado 147. Lisboa, 16 de Julho de 1932. Meu querido Gaspar Simões: Queria escrever-lhe logo que recebi e li o último número da Presença, mas tenho estado doente e só agora tenho ocasião de lhe escrever. Felicito-o, e é como sinceridade, pela sua resposta ao António Sérgio. Tem vigor e lógica; é muito mais concentrada e intensa, apesar de maior, do que a pri­meira. Não vejo, de facto, qual o motivo – a não ser que a extensão o fosse – que levou a Seara Nova a não inserir esse artigo. E certo que, aqui e ali, é contun­dente para o Sérgio; não o é, porém, mais do que o artigo dele fora. E, seja como for, não sai fora das nor­mas em que a questão foi posta. Por mim, em coisas destas, prefiro ver a frieza abso­luta, que trata o adversário como se ele fosse só o que escreveu. Assim, até lhe lembrei (o que peço me releve) que deveria ser esse o seu tom ao responder. Reconheço, porém, depois de ler o seu artigo, que aceitou a questão no campo em que lha puseram, o que em nenhuma hipó­tese se lhe poderá levar a mal. Gostei muito, aliás, de todo o número da Presença, incluindo os reparos do Adolfo Casais Monteiro ao meu prefácio a Acrónios . Talvez faça uma breve nota escla­recendo o que ele quer que eu esclareça. Neste momento ainda estou sob os reflexos da doença que tive, e, aliás, proibido pelo médico de trabalhar muito. Não que a Nota Explicativa exija muito espaço ou tempo; o que exige é disposição, e essa, por enquanto, falta-me. Creia-me o amigo e admirador de sempre. Fernando Pessoa. 16-6-1932 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 88. Apartado 147. Lisboa, 28 de Julho de 1932. Meu querido Gaspar Simões: Muito obrigado pela sua carta. Respondo ainda para Coimbra, visto que ainda não é Agosto, e, se v. já estiver na Figueira, a carta para lá irá. Vejo que tenho tempo para enviar colaboração para a Presença. Pode contar com ela. Mandarei a tal nota para o Casais Monteiro (é muito breve), e enviarei outra colaboração, breve também. Conto poder enviar um iné­dito do Sá-‑Carneiro. A propósito da Nota, a observação do Casais Mon­teiro é bem feita. O que houve, porém, da minha parte foi um lapso de redacção no passo do prefácio a que ele se refere. Como está, realmente, está mal, pois se depreende que a poesia (eu deveria, antes de mais nada, ter escrito «verso» ou «forma poética» e não «poesia», não é, de facto, uma simples prosa com pausas artifi­ciais. O que há a lazer, na Nota, é esclarecer isto; e es­tou deveras grato ao Casais Monteiro por me dar a opor­tunidade de fazer esse esclarecimento, aperfeiçoando, ao mesmo tempo, uma passagem onde a redacção está muito imperfeita. Vi, há já bastantes dias, anunciado no Diário da Noite que a Seara Nova ia publicar uma re-resposta do Sérgio, ou seja uma resposta ao seu artigo da Presença. Até agora ainda não veio, isto é, até à última Seara, que comprei há dias. Estou começando – lentamente, porque não é coisa que possa fazer-se com rapidez – a classificar e rever os meus papéis; isto com o fim de publicar, para fins do ano em que estamos, um ou dois livros. Serão pro­vavelmente ambos em verso, pois não conto poder pre­parar qualquer outro tão depressa, entendendo-se pre­parar de modo a ficar como eu quero. Primitivamente, era minha intenção começar as mi­nhas publicações por três livros, na ordem seguinte: (1) Portugal, que é um livro pequeno de poemas (tem 41 ao todo), de que o Mar Português (Contemporâ­neo 4) é a segunda parte; (2) Livro do Desassossego (Bernardo Soares, mas subsidiariamente, pois que o B. S. não é um heterónimo, mas uma personalidade lite­rária); (3) Poemas Completos de Alberto Caeiro (com o prefácio de Ricardo Reis, e, em posfácio, as Notas para a Recordação do Álvaro de Campos). Mais tarde, no outro ano, seguiria, só ou com qualquer livro, Cancio­neiro (ou outro título igualmente inexpressivo), onde reuniria (em Livros I a III ou I a V) vários dos muitos poemas soltos que tenho, e que são por natureza inclas­sificáveis salvo de essa maneira inexpressiva. Sucede, porém, que o Livro do Desassossego tem muita coisa que equilibrar e rever, não podendo eu cal­cular, decentemente, que me leve menos de um ano a fazê-lo. E, quanto ao Caeiro, estou indeciso. Também tem alguma coisa que rever, mas é pouco. À parte isso, está, pode dizer-se, completo, se bem que alguns dos poemas inconjuntos e uma ou outra nota de alterações a fazer nos primeiros (Guardador de Rebanhos) estejam dispersas por entre os meus papéis. Achados porém estes elementos dispersos, o livro pode ser completado rapidamente. Tem uma desvantagem – a quase impos­sibilidade de êxito, devendo pois ser um livro a publicar com sacrifício material. O sacrifício material depende, é claro, das minhas condições materiais de momento. Em todo o caso, nesta revisão e classificação dos meus papéis, vou achando e arrumando o que pertence ao Caeiro. Não sei se alguma vez lhe disse que os heterónimos (segundo a última intenção que formei a respeito deles) devem ser por mim publicados sob o meu próprio nome (já é tarde, e portanto absurdo, para o disfarce abso­luto). Formarão uma série intitulada Ficções do Inter­lúdio, ou outra coisa qualquer que de melhor me ocorra. Assim, o título do primeiro volume seria, pouco mais ou menos: Fernando Pessoa – Ficções do Inter­lúdio – I. Poemas Completos de Alberto Caeiro (1889-1915). E os seguintes do mesmo modo, incluindo um, curioso mas muito difícil de escrever, que contém o debate estético entre mim, o Ricardo Reis e o Álvaro de Campos, e talvez, ainda, outros heterónimos, pois ainda há um ou outro (incluindo um astrólogo) para aparecer. O mais provável, aliás, com respeito ao primeiro livro dos heterónimos, é que o faça conter, não só o Caeiro e as Notas do Álvaro de Campos, mas também uns 3 ou 5 livros das Odes do Ricardo Reis. O volume, assim, conterá o essencial para se compreender o início da «escola»: as obras do Mestre e algumas do discípulo directo, incluindo (nas Notas ) alguma coisa já do outro discípulo. Há aqui, ainda, um elemento puramente ma­terial que me leva a determinar o volume assim: só com o Caeiro e as Notas, ficaria um livro nem pequeno (como é o Portugal) nem de tamanho normal (300 páginas, pouco mais ou menos), como o Cancioneiro. Com a inserção, lógica afinal, como expliquei, do Ricardo Reis, o volume entra nesta normalidade. A intenção, possivelmente provisória, em que estou agora é de publicar, sendo possível, este ano, ou na pas­sagem dele para o outro, o Portugal e o Cancioneiro. O primeiro está quase pronto e é livro que tem possi­bilidades de êxito que nenhum dos outros tem. O se­gundo está pronto: basta escolher e colocar. Como sei que estas coisas o não maçam, e, em certo modo, tudo isto é uma resposta (bastante longa, aliás) à sua observação sobre quando é que eu publico, não me coibi muito em escrever extensamente. A par de tudo quando disse, tenho provavelmente uns dois ou três folhetos ou artigos extensos a fazer ou completar. O mais provável é que, escritos que sejam em português, os traduza para inglês e os publique pri­meiro (naturalmente em revista) em Inglaterra. Tudo isto, porém, é incerto. Um abraço do seu muito amigo e admirador Fernando Pessoa. 28-7-1932 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 90. Em correspondência comercial há três princípios que convém ter presentes: antes mais explicado que mais breve; antes muitos parágrafos do que poucos; antes responder depressa, embora dizendo só parte, que demorar a resposta para dizer tudo. 25-3-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 155. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 3. Lisboa: 25-3-1926. Alguns dizem mesmo que esse acontecimento, embora importantíssimo, pode passar despercebido (por ninguém na ocasião lhe atribuir a importância que depois se há-de ver que tem). Isto lembra o que sucedeu com uma das profecias (talvez a mais curiosa) do Bandarra. No Terceiro Corpo das suas Profecias, o Bandarra anuncia o Regresso de D. Sebastião (pouco importa agora o que ele entende por esse “regresso”) para um dos anos entre 1878 e 1888. Ora neste último ano (1888) deu-se em Portugal o acontecimento mais importante da sua vida nacional desde as descobertas; contudo, pela própria natureza do acontecimento, ele passou e tinha de passar inteiramente despercebido. Só a partir do actual ano («cerra os quarenta», diz o Bandarra) é que se pode começar a perceber o que foi e que importância teve. Mas (para dar uma opinião puramente pessoal) não creio que antes de uns dez anos, a contar de agora, o povo português venha a perceber do que se trata e da importância do caso. Então (e só então) se verá que estava certa a profecia do Bandarra. Ora, com o acontecimento importante de 28 de Maio actual, pode ser que se dê qualquer coisa de parecido (não digo de análogo, porque isso nunca poderia ser). Peço desculpa de não poder ser mais claro, mas por enquanto quem sabe não pode nem tem o direito de ser mais claro. Pedindo a V. Ex.a a fineza da publicação desta carta, se achar, como creio, que ela tem um certo interesse, sou, com muita consideração, de V. Ex.ª Ato. Venr. e Obdo. 1928? Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 50. Considerações pós-revolucionárias A condição social moralista [?] manifesta-se em três ordens de indivíduos: os cínicos, os tristes e os idealistas políticos. Todos três são partes integrantes da corrente da decadência nacional a que a implantação da República veio dar a condição de se poder destruir. Todos três, sendo elementos decadentes, são elementos perniciosos e irracionais. Podem pertencer aos mais "avançados" do partido da República: são reaccionários contudo, porque o ser reaccionário vem de estar integrado numa corrente social decadente e retrógrada, não necessitando de ter uma opinião política ligada a instituições extintas ou em extinção. Basta, para compreender isto, que reparemos em que o sentimento, e não a razão, é que é basilar na vida social. Sendo assim, é pelo sentimento que se deve medir socialmente um indivíduo. Há o sentimento (...) Toda a tristeza é reaccionária; todo o pessimismo é retrógrado — porque, como sentimentos, pertencem sempre à corrente social que é desintegrante na vida das sociedades. O cínico que diz "olhem à diferença dos bens", o triste que diz "tudo está na mesma", o idealista político desenganado que murmura "mas isto é uma república à francesa" — todos estes, por republicanos que julguem ser, são realmente monárquicos, porque pertencem à corrente social decadente, cujo símbolo político é, e tem sido, no nosso tempo em Portugal, a monarquia. Todos manifestam uma morte — é a corrente social em que se integram. "Isto vai mal", segredam. Mas o sociólogo, que compreende isto, sabe que bom é que vá mal, e que o melhor que actualmente nos pode acontecer é isto não ir bem. Todo o problema destes decadentes é útil só à monarquia — ora isto prova que está, sem o saber nem pensar, integrado na corrente cujo símbolo representativo é a monarquia. Pertence ao passado. E o passado não vive sem calma, (...), tristeza. [...] estas nossas anotações, quer de peritos republicanos que saiam, são apenas, junto ao gemido do passado que morre (...), o lamento daquela parte do passado que quer, mas não sabe porque não pode, adaptar-se ao presente. A falta de optimismo é, no nosso momento actual, o distintivo exacto da monarquia que pertence ao passado. Por muito que nos irrite ouvi-los, calemo-nos sobre eles. Pobres inadaptados. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 10. Considerações pós-revolucionárias Uma crise social é simplesmente um meio violento e natural para eliminar os fracos e os inúteis. Se toda uma nação ou uma sociedade cai abaixo, é que ela toda era inútil e fraca. É simplesmente isto. (A crise, ou crises, inglesa de 1770 a 1830.) Da crise que começa em 1890 parecia concluir-se o afundar da nacionalidade e afinal resulta a fundação da república. Então podia haver — especialmente depois de falhar a revolta do Porto — dúvidas sobre a sorte da Nação. Hoje já não as pode haver. A revolução provou que a crise era não da nacionalidade, mas da monarquia, e das forças sociais de que ela era símbolo. A prova é que a monarquia caiu. Mas as forças monárquicas subsistem — o radicalismo republicano é uma delas. Resta agora destruir essas forças, o que custa mais do que destruir o seu símbolo. Quer dizer; continuamos em crise. Mas sabemos já, para bem nosso, que a crise é de salvação. O perigo era que a crise da monarquia se tornasse a crise nacional. A morte da monarquia provou o contrário e tanto mais nitidamente o provou quanto essa morte foi rápida e decisiva. Sursum corda! — O primeiro passo é que custa, etc. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 11. What, for instance, is a colour apart from a thing? I mean does the true colour of the sky have a colour in itself? No, because the moment that colour becomes a colour in itself it ceases to be that colour. -3, -2, -1 0 1, 2, 3. The descendant series means to say there is a lack of that which quantity represents. Does the descendant series represent anything material? What is its scientific origin? 1907? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 61. Um comerciante nunca oficia. Mesmo dirigindo-se às instâncias oficiais, não abdica da fórmula comercial — a que para o caso seja mais apropriada — de abrir e fechar a carta. 25-1-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 156. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 1. Lisboa: 25-1-1926. A Monarquia Portuguesa caiu por três razões: 1º Por estar consubstanciada com o catolicismo, não só institucional como também espiritualmente; 2º Por não ter logrado atingir uma forma portuguesa, visto que, quebrando a tradição da velha monarquia absoluta, que, embora fosse uma decadência, o era de uma fórmula portuguesa, não curou sequer de chegar a um modo português de a substituir, mas importou, através da França, a forma exterior da monarquia constitucional inglesa; 3º Por nunca ter tido partidos, separados por ideologias diferentes, mas apenas grupos sem noção diferente das coisas e, portanto, como em todo o caso onde a inteligência não impera, governados apenas pelos instintos e pela politiquice de caciques. É de uma grande importância que examinemos as três causas, que apontámos, para a queda da Monarquia. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 12. Jaco ou Jacó quer dizer “descavalgador”, isto é, o que deita outro abaixo. Notar a interpretação do «Mas ai! da calcada a obra / Logo requer o salário, etc.» como as recompensas exigidas pelos fautores do liberalismo, que obrigam a usar para esse fim os bens da Igreja. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 47. Iconoclasta Responsabilidades na queda. Principais da m[onarqui]a depois do ult[imatuml e 31 de jan[eiro]. Capitais as de Franco. Reais as do progressismo. Mínimas, se não nulas, as de T[eixeira] de Sousa. Nenhuma espécie de admiração ou (...) temos pelo Sr. T[eixeira] de Sousa; apenas admiramos que pudesse fazer o pouco que fez (...) Dizemos isto porque o achamos justo. Sentimo-nos dispostos a não odiar o Sr. T[eixeira] de S[ousa]. A sua própria fraqueza resulta justamente do que de força moral pudesse ter. Há ocasiões em que ser forte é ser fraco: um ataque epiléptico é uma terrível manifestação de força, e um epiléptico às vezes domina [?] uns poucos de homens. Mas o epiléptico é um débil e um doente. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 13. A «águia imperial», no primeiro caso é Napoleão, pois que A às avessas e com a perna do meio tirada e posta atrás dá N, inicial daquele nome. No segundo caso é D. Pedro IV, que fundou o Império do Brasil, e o A às avessas dá V, e pondo atrás a perna do meio dá IV. Os «seus filhos» no caso de Napoleão são as consequências da invasão — as ideias liberais, que se espalharam então aqui . No caso de D. Pedro IV, e 1.° do Brasil, [...]. Neste sonho indica o Bandarra as divisões dos portugueses — pelas ideias liberais, em que se cindem em partidos e se separam da sua própria alma; pela independência do Brasil, e porventura no futuro de outras colónias, pela qual materialmente se divide o império. «Vir do mundo encoberto» é ser dado pelo Destino, ou por Deus, e não pelo esforço humano, ou por planos que se façam. O mundo encoberto não é a mesma coisa que a «ilha encoberta», como se vê. Passados cem janeiros. Mas passados desde quando? Desde que a águia imperial (verso seguinte) faz o ninho em Portugal. É um caso. Desde o levantamento em bando de outro povo qualquer. É o segundo caso. O terceiro caso, que pertence ainda ao futuro, [...] 1. A invasão francesa, a primeira, foi em 1807. Cem Janeiros sobre isto são 1908, que é a data do regicídio, primeiro movimento de onde nasceu a proclamação da República. Se levantarão «em bando», isto é, completamente, porque a Revolução Constitucional não aboliu a monarquia, e o “bando” não ficou portanto dominando por completo. 2. A revolução de influência europeia foi a francesa, que começou no ano, que por isso se tornou célebre, de 1789. Cem anos depois foi que os primeiros portugueses se levantaram em bando, e isto em dois sentidos — passados cem anos exactos no Brasil, onde a República se proclamou em 1889; passados 101 anos, ou 102 em Portugal, porque a Revolta do Porto, em 31 de Janeiro de 1891, foi a primeira sublevação propriamente republicana que houve em Portugal. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 48. Iconoclasta A Queda da Monarquia Dizer que o Sr. T[eixeira] de S[ousa] perdeu a m[onarquia] é o mesmo que dizer que a morte de um doente é causada pelo estado comatoso que a precede, ou pelo estertor que a anuncia, e não pela doença que a esse estado leva. O estado comatoso, o estertor, anunciam já que a morte toma posse do organismo. Do mesmo modo o governo do Sr. T. de S. anunciava que a revolução começava a abalar a m[onarquia]. A revolução começa em (...) de Junho e acaba em 5 de Outubro. Para que em tão reaccionário, mesquinho e (...) meio, tão (...) coito de ladrões e assassinos como era a m[onarquia] portuguesa, com tão idiótico rei (...) pudesse um homem relativamente a eles tão liberal como o Sr. T. de S. ser chamado ao poder era preciso que a revolução estivesse pronta. Atribuir, depois disto, ao Sr. T[eixeira] de S[ousa] e ao seu gabinete a responsabilidade da queda da monarquia é cometer uma injustiça e uma infâmia talvez, e decerto dizer uma coisa ignorantemente estúpida. É ter por completo a ausência da noção do que sociologicamente seja a substituição de um regime a outro. Indica, esta teoria, em quem a sustenta, tão poderoso [?] afastamento da noção real e exacta das causas (sujas) que me revela imediatamente quão próxima da loucura colectiva estava a extrema-direita monárquica — a choldra franquista [...] s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 14. Uma carta áspera ou violenta é sempre injustificada, porque é sempre inútil. Indispõe, e não dá resultado. Quem não paga porque não quer, não passa a pagar por lhe dizerem que não paga porque não quer. Isto já ele sabe. E quem não paga porque não pode, não fica contente que se lhe diga ou se lhe insinue que não paga porque não quer. 25-1-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 156. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 1. Lisboa: 25-1-1926. O formidável sentido da aplicação ao Imperador dos mesmos textos que dão como «falhas» as actividades do Infante e do Príncipe. A do Imperador é falha no altíssimo e extremo sentido de que tudo é falho neste mundo, acabando por morrer. O Quinto Império, por isso que é deste mundo, morrerá também. A alusão aos «Oriens» em Nostradamo: é que a civilização cristã, e o império seu, para serem sincréticos, têm que dominar e incluir o Oriente, pois o Ocidente já está incluído. A linhagem dos Sóis (ou Imperadores): O vaste Rome ta ruine s'approche, Non de tes murs de ton sang et substance, L'aspre par lettres fera si horrible coche Fer pointu mis à tous jusques au manche. Alexandre: O vaste force (Roma = força, lembrar o terror dos gregos a este respeito) Napoleão : [...] L'aspre par lettres. Não indica isto que o terceiro imperador será, não o de 2198, mas o Destruidor, que virá depois? Vaste Rome nesse caso significará o Cristianismo mais extenso, o catolicismo superior. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 60. Iconoclasta ou Considerações pós-revolucionárias Depende do governo e de nós o haver ou não haver uma reacção monárquica. Só há reacção e verdadeiro antiliberalismo onde o liberalismo não compreende a sua missão — onde os "liberais" usam métodos reaccionários e opressivos como esperar que os de tendências reaccionárias os não usem? Primeiro porque esse emprego de tais métodos pelos liberais implica a presença de elementos reaccionários no psiquismo nacional; 2º porque esses métodos andam sempre unidos a uma certa incapacidade administrativa, que dá aos inimigos do "liberalismo" vigente os argumentos e (...); 3º porque naturalmente é contra esses conservadores que os métodos antiliberais se [...] praticam e a repressão é suicida em qualquer caso político. É fácil matar de todo o que muito de conservantismo que ainda amplamente existe na sociedade portuguesa: é dar liberdade, e mais liberdade, e mais liberdade ainda, defender a república pela liberdade e não pela coacção. Ora nós não vamos jurar que o espírito do governo provisório seja inteiramente esse. De alguns dos membros dele temos por certo que não é. Ponham os olhos na República Francesa: vejam o desastre que aquilo é e tem sido; a França — um dos países mais alegremente infelizes do mundo — tem vivido, malgré os seus sistemas políticos, com uma monarquia péssima e depois com uma república apenas melhor por não ter espírito monárquico (?) mas ainda assim pavorosamente má. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 15. Bandarra A LINHAGEM DOS IMPERADORES Dois imperadores houve que reproduziram o tipo solar: Alexandre e Napoleão. [Para Alexandre cit. Para Napoleão, o estudo singular do Padre Peres — francês de origem portuguesa, como o prova o apelido — que, querendo fazer uma sátira ao sistema de (...), definiu, sem querer, a Napoleão como o Sol.] Tanto Alexandre como Napoleão têm ainda de comum o facto de dominarem em um império a cuja nacionalidade não pertenciam. A dominação de Alexandre figura na história (à parte o seu nome propriamente histórico de império macedónio) como “Império Grego”; Alexandre, porém, era macedónio, e não grego. A dominação de Napoleão, não figurando como império francês, pois o não houve nem haverá, foi-o contudo da França, e Napoleão não era francês, mas italiano. ... o caso singular da grafia de Anticristo. Por vezes esta palavra escreve-se Antecristo (em francês escreve-se sempre Antecrist ) e a língua francesa não segue uma ortografia sónica, senão etimológica. Parece haver a intenção de que a figura dada como Anticristo seja ao mesmo tempo Antecristo; em outras palavras, que seja contra por ser antes, e antes nos sentidos de “antes” e de “adiante”, como de quem “passasse adiante” de Cristo. A Napoleão chamaram anticristo, e chamaram bem. O próprio nome Ne-apoleon quer dizer, como provou O P.e Peres, «verdadeiro Satanás». De Alexandre se pode dizer, também, que era Antecristo, mas este no sentido de vir antes. Do Terceiro Imperador se dirá que é Antecristo no terceiro sentido, que é o único que falta aplicar — o de ir adiante de Cristo, como um arauto, na vanguarda do Segundo Adiante. E é essa, aliás, a interpretação do lmperador de 2198, em a qual convêm as profecias. (Isto prova que o ano de 2198 traz um indivíduo e não só uma atmosfera ou um ambiente...) s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 61. Tenho sono em pleno dia. Não sei de quê, tenho pena. Sou como uma maresia. Dormi mal e a alma é pequena. Nos tanques da quinta de outrem É que gorgoleja bem. Quanto as saudades encontrem, Tanto minha alma não tem. 5-4-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 43. Da Ditadura à República ou Considerações pós-revolucionárias A revolução, tendo rebentado demasiado cedo, deu em resultado estas adesões de (...), caciques, etc. O que era preciso era obter uma situação em que se extremassem os campos, para que os republicanos que fossem ao poder levassem inimizade radicada na alma. Isso era mais útil. Levariam uma severa tolerância, não, como agora, uma tolerância mole. Havia razão no citado artigo de A Capital sobre ocasião de revolta, mas não era exactamente agora (5 Out.) o momento. O momento era quando as forças meio-monárquicas estivessem ou juntas de facto na vida nacional, ou absorvidas pela reacção. Custaria mais que [...] a revolta então. Mas seria esse o seu mérito social. O facto de uma revolução não aparecer no seu momento logicamente social implica — claro está — uma certa falta de intuição do prático em quem se revolta, indica, portanto, a existência neles de incompleta coesão, que depois, na administração, forçosamente se mostrará. Não quer isto, porém, dizer (..) O que a revolução não fez de per si podem fazê-lo ela plus um movimento feito de opinião, revolucionário nos efeitos, posto que, por ser precedido pela revolução, não nos meios. (É a nós que cumpre corrigir a revolução; criar esse momento correctivo da opinião pública de modo algum deturpável [?] e de modo algum inteiramente [?] difícil.) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 16. No número de hoje do jornal, que V. Ex.ª superiormente dirige, inseriu um “Mário” pseudónimo umas notas curiosas sobre a relação entre a personalidade do Imperador Guilherme Segundo e a Besta apocalíptica, o Anticristo da profecia. A relação, segundo este autor, é de identidade. O argumento numerológico, com que o prova, é curioso, como curiosos são, a par dele, outros argumentos da mesma índole e idêntica tendência, que vários escritores do estrangeiro, franceses e sobretudo ingleses, têm trazido para a publicidade. Por curiosos que sejam, porém, esses argumentos, e patente que se afigure a identidade estabelecida por eles, importa, creio, que se lhes contraponha uma consideração que o acurado estudo do assunto e a exacta medição do tema necessariamente estabelecem. O imperador Guilherme carece de estatura psíquica para que possa ser contraposta a Cristo, em qualquer sentido da contraposição. No Anticristo dos profetas, embora a sua natureza e modo de aparecimento se discutam, são essenciais três condições. Há-de ser, em primeiro lugar, conscientemente o Anticristo; não basta que obre como se supõe que deva obrar o Anticristo — há-de apresentar se como o inimigo de Cristo ao obrar como tal. Como Cristo é, essencialmente, uma força espiritual, o Anticristo há-de ser, em segundo lugar, uma força espiritual também; por onde se vê que a alusão aos seus exércitos (se assim a profecia se aplica) não se deve entender de exércitos de soldados, mas de fiéis, não de uma guerra no espaço onde estão os corpos, mas no tempo onde estão as ideias. E como Cristo é o representante da Intuição ou do Sentimento, como guia e norte da Vida, o Anticristo deve ser o representante da Inteligência, que é o inimigo do Sentimento. Isto entendem os ocultistas, quando dizem de Cristo que ele é fêmea, porque o Sentimento é, na figuração dos Rosa-Cruz, entendido como feminino, e esquerdo. Nem outro sentido tem a atribuição ao anjo rebelde de o nome de Lúcifer, o que Traz a Luz, símbolo patente da Inteligência. Sabem também os versados nestes assuntos esconsos que o número 666 era significador da “Inteligência Material”, que é como se designava a inteligência baseada nos processos extramísticos, isto é, na análise, na experiência e no raciocínio — a Inteligência científica, portanto, ou na verdade, a Inteligência propriamente dita. Em terceiro lugar, o Anticristo deve ter uma estatura espiritual condigna com o Mestre, a quem se opõe. Não deve ser, por uma casualidade, ou por uma mera consequência, autor de danos e de males para o cristianismo. Deve ser comparável a Cristo na sua grandeza, embora se entenda que emprega para mal essa grandeza. O pobre Imperador Guilherme, que nem tem a estatura, parca já para a comparação com Cristo, de um Cromwell ou de um Napoleão, a nenhuma destas condições satisfaz. A conta feita por o seu correspondente está, por igual, errada : [...] Kaiser. É com efeito certa a data marcada pelo profeta. Mas não é da Alemanha que vem o Anticristo. Aquele país que lançou os Navegadores pelo mar fora, e começou o seu direito à existência na civilização pela obra, essencialmente de Inteligência, das descobertas — esse país o há-de lançar ao mundo. Tal é o verdadeiro sentido, aqui pela primeira vez revelado (porque a Hora se aproxima) do «Regresso do Rei Sebastião», que a mística popular até agora se enganou em tomar apenas (porque também o é) como símbolo do renascimento da Pátria. Todo o estudioso do ocultismo sabe que, além de se representar por Lúcifer, a Inteligência se representa, ainda mais comummente, por A SERPENTE. Porque é então que Portugal é figurado apenas como A SERPENTE nas estrofes do Bandarra. Será apenas por se lhe atribuir a regência serpentina da cauda do Sagitário, signo que impera sobre as Espanhas? Não será mais oculta a atribuição do nome? A advertência fica feita [...] s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 69. REALITY Compositional reality is of three types: Direct , as when a table is conceived (and indeed seen) to be composed of parts (legs, top), and, finally, of the material (wood, steel, or whatever it may be) from which it is made; Indirect , as when its chemical and physical composition, its final atomic composition, is meant; Mathematic , as when (this being the case of a being in space) its geometric aspect or form is considered. Now compositional reality is true reality in so far as its data are of the same type as that of Simple reality. The only true reality of the compositional type is the one I have called direct; for the legs and top of the table, as also the material from which the table is made, are visible in the same manner as the whole table is visible. Nevertheless there is here a process of analysis; simple but real. Mathematic reality is no longer reality at all. The form, weight and size of the table are of this type. These are all given, indeed, by senses; but by a particular use of the senses. (...) Indirect reality is still furthet from the primary sense-impression. A table has weight, has form, has size. These things are properties of the table, but they do not compose the table to the senses. Similarly a table has a final atomic structure, that of the material or materials from which it is made. Now these «realities» that make up the table are of the same kind. The atom — the final element, physical element, whatever it may be — «exists» in exactly the same manner as the weight, or the size, or the shape of the table exists. Neither each, nor all, of these things taken together in any conceivable way constitute the table. It is the table that is constituted, to us, by them. These things are all DIMENSIONS. Weight, size, atomic constitution, are as much dimensions of the table as its height, width and depth are. These 3 last are decompositions of the geometric constitution of the table. The atoms are similarly decompositions of the (...) There need be no inquiry into the infinite, or not infinite, divisibility of the physical ultimate. The physical ultimate is no more and no less than the mathematical ultimate, which is the point. To inquire into the infinite, or not infinite, divisibility of the physical ultimate, is to TRANSFER TO THE PHYSICAL, ULTIMATE CHARACTERISTICS WHICH BELONG TO THE MATHEMATICAL ULTIMATE. Atoms, the physical ultimates, do not exist in space; they exist in things which exist in space. Yet these things do not exist in space in virtue of physical, but of mathematical, composition. It is as if we were to speak of the weight of a straight line, thus transferring one characteristic... Now, whereas a table is a reality, for it is a datum of the senses, the composition of the table is not a reality in the same sense, because it is a datum, not of the senses, but of the analysis, however rudimentary and spontaneous, of sense-impressions. But an analysis of sense-impression is an analysis, not of reality — for reality, being only reality in so far as it is perceived and only really and fully perceived in so far as it is only perceived and not analysed or reasoned about — but of an impression of reality. Compositional reality cannot therefore be understood unless it is studied in the percipient and not in the perceived. A dimension is therefore only comprehensible in so far as the percipient is studied. Now a dimension being of space («dimension» in the usual geometrical meaning), to understand a dimension we must conceive the percipient as an experiencer of space, or in space; and this means that we must consider him as having a position. This simplifies matters at once. We have proved (?) that a real body is composed of an infinite number of dimensions. Why then do we speak normally of only three dimensions? Why is it impossible to us to conceive — except transferentially, non-sensively, by mathematical conception — of four or more dimensions? Because sight, which gives that sense of space on which dimensions are conceived, is static, from one point at a time. If we could travel round a sphere in a right line, tracing a circle round it, or, in other words, following a circle of its geometric composition, and if we could [do] this either in no time, extra-temporally, or receive the sense impression of the whole only at the end and then instantaneously and totally, we would have the notion of a straight line, or of a point, and not of a circumference. There is, then, nothing mysterious in this conflict between the inevitable three dimensions of sense-conception (so to speak) and the possible more of mathematical analysis (?). Position limits our concept of dimensions. If, again, we could see an object from two sides at the same time (which, be it noted, is not the same thing as being two persons in different points of space, but the same person with the same eyes in two places) an immediate new concept of dimensions would appear to us. It must be strictly understood that when we say that a solid is composed of an infinite number of dimensions, we mean that infinite number of dimensions to signify geometrical dimensions. We do not mean extra-geometrical properties — such as weight, size, colour — to be taken as «dimensions». The dimensions are exclusively spatial, the body has an infinite number of dimensions strictly and exclusively from the spatial standpoint, as a thing existing in space and not «in weight», «in colour», «in size» It may be said that the notion of inifinite divisibility is numerical and not geometric — that there is no reason to exclude this from the physical ultimate, unless it be excluded, also, from the geometric ultimate. Infinite divisibility, however, means something else. Divisibility of the kind meant implies space. Divisibility in general does not; it implies only number. When we say that six divided by three is two, we do not refer to any spatial operation. The concept of plurality is all that is needed for this. s. d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 26. Sou um evadido. Logo que nasci Fecharam-me em mim, Ah, mas eu fugi. Se a gente se cansa Do mesmo lugar, Do mesmo ser Por que não se cansar? Minha alma procura-me Mas eu ando a monte, Oxalá que ela Nunca me encontre. Ser um é cadeia, Ser eu não é ser. Viverei fugindo Mas vivo a valer. 5-4-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 44. Considerações pós-revolucionárias O primeiro passo é que custa. O segundo também. Cada um de seu modo. O primeiro custa porque é difícil começar. Custa o segundo porque continuar é difícil. Analisando bem, continuar é mais propriamente difícil do que iniciar. As qualidades para iniciar podem não ser mais do que audácia e convicção. Ora para continuar têm de ser, pelo menos, com a mesma convicção, persistência, sabedoria e tenacidade, para não falar em honestidade e cultura. Um acto de força é difícil; mas ninguém negará que um de administração ainda é mais. Importa também ver o que a lei da divisão do trabalho social — mais vasto do que muitos julgam — impõe. Impõe que os que fazem uma revolução não sejam os que consolidam o que a revolução implantou. O primeiro erro dos nossos "radicais" é que a sua ignorância da sociologia os leva a isto. Não vêem que, enquanto [...] de Campos, revolucionário, era mais apto para implantar a república do que o marechal Freire de Andrade, que não queria, para a consolidar é mais apto F[reire] de A[ndrade], desde que a aceitasse [?]. É que esse, por republicano sincero que seja, é um republicano, e o seu papel social revolucionário; e o outro é um homem de ordem e o seu papel social é construir e consolidar. Porque o mero construir consolida. E os nossos radicais, sem o saberem... Também não o saberiam? Na opinião dos "radicais" isto é ser conservador, Poder-se-á argumentar, e com razão, que eles nenhuma noção têm do que seja ser conservador. O caso, porém, não é esse (...) Os infiéis que protestaram contra um discurso do doutor Cunha e Costa, os sabujos que apuparam o bispo do Porto, a canalha que assaltou os jornais monárquicos, os idiotas que berraram contra a conservação, em Moçambique, ou em campos de confiança, do senhor Freire de Andrade — tudo isto é do elemento antigamente mais útil, e naturalmente mais nocivo da vida nacional. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 17. As nuvens são sombrias Mas, nos lados do sul, Um bocado do céu É tristemente azul. Assim, no pensamento, Sem haver solução, Há um bocado que lembra Que existe o coração. E esse bocado é que é A verdade que está A ser beleza eterna Para além do que há. 5-4-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 46. Da Ditadura à República As perturbações que houve entre os oficiais na revolução dependem principalmente de uma causa — que numa guerra com outro país não apareceu — a da indecisão pelo lado a tomar no combate. Foi esta essencialmente a causa dessa indecisão. Não é só o lutar contra compatriotas, nem o defender um regime no empenho de cuja defesa poucos teriam o coração (entregue): é também o hesitar entre a disciplina e o que, vaga ou nitidamente, reconheciam como patriótico e racional. Os sarcasmos e a má vontade do C[orreio] da Manhã são naturais, porque são dum vencido; mas não são, o que necessariamente não têm de não ser [?], legais e segundo a compreensão das circunstâncias. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 18. Desfaze a mala feita para a partida! Chegaste a ousar a mala? Que importa? Desesperas ante a ida Pois tudo a ti te iguala. Sempre serás o sonho de ti mesmo. Vives tentando ser, Papel rasgado de um intento, a esmo Atirado ao descrer. Como as correias cingem Tudo o que vais levar! Mas é só a mala e não a ida [?] Que há-de sempre ficar! 2-7-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 47. No fecho das cartas onde se dá tratamento de Excelência nunca se emprega a palavra “estima”. Às Excelências compete “consideração” ou “respeito”. Estima é só para as Senhorias. 25-1-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 156. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 1. Lisboa: 25-1-1926. Considerações pós-revolucionárias Ao partido rep[ublicano] vieram ligados também homens com responsabilidades (...), e mesmo administrativas, no extinto regime. Esses homens são influências péssimas porque retardam a moralização, exercendo — como eles lá sabem e a nós não importa — tratando, como é natural, de obter a impunidade. As forças retrógradas na rep[ública] são, pois, de 3 ordens. (1) Indivíduos ligados por responsabilidade [...] ao extinto regime; (2) Indivíduos ligados por carácter — devido a incompetência palavrosa, e a [...] (...) da ostentação, à [...] e à intriga — ao antigo regime, em que esses vícios eram típicos; (3) Indivíduos ignorantes que não apreendem bem a situação política e a conduta social adaptada ao momento; [...] instintivamente, como o faz a maioria do povo (entre os 3º, os grevistas — ou muitos deles). O processo de (...) é em ir lentamente eliminando os primeiros e segundos, tanto republicanos pré como pós-revolucionários, saindo dentre os aderentes, [...], de entre os não aderentes, os homens úteis e sãos. (V. outros argumentos relativos aos que se adaptam ao meio monárquico e os que não.) Quanto aos terceiros, não há nada a fazer senão deixar correr as coisas, porque esses de per si entrarão lentamente na ordem, sob a pressão gradual, particular e doutrinária [?] da maioria do povo. A dificuldade está em não os imitar indevidamente, porque eles são excessivamente estúpidos — desintegrados pelo socialismo do sentº integral do republicanismo — sem também mostrar ante eles uma fraqueza que poderia ulteriormente ter maus resultados (...) São estes homens os (...) das revoluções; com o entrar do período revolucionário [...]. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 19. Se estou só, quero não estar, Se não estou, quero estar só, Enfim, quero sempre estar Da maneira que não estou. Ser feliz é ser aquele. E aquele não é feliz, Porque pensa dentro dele E não dentro do que eu quis. A gente faz o que quer Daquilo que não é nada, Mas falha se o não fizer, Fica perdido na estrada. 2-7-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 48. A quem a Natureza não fez belo Com seu corpo lhe disse: Tu não ames! A fealdade é o destinado selo Com que uma alma é votada à solidão. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 1. Bem, hoje que estou só e posso ver Com o poder de ver do coração Quanto não sou, quanto não posso ser, Quanto, se o for, serei em vão, Hoje, vou confessar, quero sentir-me Definitivamente ser ninguém, E de mim mesmo, altivo, demitir-me Por não ter procedido bem. Falhei a tudo, mas sem galhardias, Nada fui, nada ousei e nada fiz, Nem colhi nas ortigas dos meus dias A flor de parecer feliz. Mas fica sempre porque o pobre é rico Em qualquer coisa, se procurar bem, A grande indiferença com que fico. Escrevo-o para o lembrar bem. 2-7-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 51. Gomes Leal Gomes Leal é um grande poeta. Mas é o pior grande poeta que conhecemos. s.d. Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 350. Onde a serenata? Dormem os arvoredos. Há mosqueiros de prata, Luar em rastos e enredos... Cantam que vozes suaves? Enche-se a alma de querer Ter qualquer coisa das aves Para a poder entender... Oh, sombras longas, levai-me Até a quem vós cantais... Na vossa música dai-me Melhor dor que a dos meus ais... Vinde buscar-me ao desejo, Despi-me da ilusão... Vosso murmúrio não vejo… Não ouço a vossa canção... Mas na cor oca do luar, No lago alado da brisa, Há vozes indo a cantar Pela floresta indecisa… E em serenata levantam Os seus suspiros ao céu, Qual é a mágoa que contam Que é melhor que o gozo meu? O que é [que] buscam que qu'rê-lo Vale mais que em nós ter? Que olhos tem, que cabelo, Essa invisível mulher? s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 2. No céu da noite que começa Nuvens de um vago negro brando Numa ramagem pouco espessa Vão no ocidente tresmalhando. Aos sonhos que não sei me entrego Sem nada procurar sentir E estou em mim como em sossego, Pra sono falta-me dormir. Deixei atrás nas horas ralas Caídas uma outra ilusão, Não volto atrás a procurá-las, Já estão formigas onde estão. 27-7-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 51. O mundo, (a) que chamamos externo — por oposição ao outro, porventura não menos externo em que nos surgem como nossos os fenómenos da consciência (de nós próprios) — aparece-nos essencialmente como um número indefinido de coisas ou objectos ou elementos, mais ou menos diferentes entre si, e manifestando-se-nos, em oposição àquele outro «mundo» a que podemos chamar interno, pela ocupação do que chamamos espaço . São estes dois conceitos — o de número e o de espaço — os dois fundamentos em que a experiência essencial assenta sua determinação e seu conhecimento do mundo (a que chamamos) externo. Aparecem-nos como não só ambos essenciais, senão também co-essenciais a essa experiência obbjectiva. Se consideramos o número, de per si e como conceito logicamente anterior ao, e por isso concebido independentemente do espaço, não temos, ao concebê-lo, um conceito de mundo externo, senão apenas o conceito abstracto de número; ideia não já (...) senão metafísica, conceito análogo ao que Pitágoras formava do mesmo número, e Platão de todas as ideias a que em lógica chamamos gerais. Considerado, também, o espaço sem número, isto é, sem número de objectos que o ocupem e nele se «manifestem», fica-nos um conceito abstracto de espaço concretamente impensável, vácuo puro, abstracto, mera possibilidade de mundos; nem mesmo definível como extensão; pois, sendo o puro «lugar onde», porém, aparecendo-nos sem limite, partes (pois que seriam números abertos nele) ou composição, (...) em nada o poderemos distinguir — salvo no nome, que não é nada — do conceito análogo de tempo, sem análogo no mundo interior nosso. Discorremos, em tudo isto, física que não metafisicamente. Metafisicamente todos os conceitos são possíveis, ainda que envolvam contradição; pois que a metafísica improvável e inverificável determinadamente, se ocupa, não de tal existência, senão da existência em si, do ser considerado só como ser — e como da existência em si, nada sabemos de certo, ignoramos portanto poder admitir, que inclua, ou mesmo seja essencialmente, contradição ou negação de si, ou mesmo coisa nenhuma. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 34. The social transformation which has been taking place in Portugal for the last three generations, and which culminated in the establishment of the Republic, has been, as is natural, accompanied by a concomitant transformation in Portuguese literature. The two phenomena have a common origin, in the essential changes which have, with increasing rapidity, been taking place in the very bases of the national consciousness. To attribute the literary change to the political one, or the political one to the literary one would be as erroneous. Both are manifestations of a fundamental transformation which the national consciousness has undergone and is undergoing. The literary change, represented by the definite rupture with Portuguese literary traditions, can be taken as having a definite beginning with Antero de Quental and the Coimbra School, though it had necessarily been preceded by hints and attempts at such a change, going back as far as 1770 to the forgotten José Anastácio da Cunha (a greater poet than the over-rated and insupportable Bocage); José Anastácio, with his complex culture (he knew, besides the usual French, English and German and translated from Shakespeare, Otway and Gessner) represents the first white glimmer of dawn on the horizon of Portuguese literature, for he represents the first attempt to dissolve the hardened shape of traditionalist stupidity by the usual method of multiplied culture contacts. The Romantics continued this work in their half-hearted and lukewarm way; the insufficient power of their action can be measured by the circumstance that the strongest influence they brought into literature was the decadent classicist Castilho, whose damaging sway covers with its leaden influence some thirty years of Portuguese literature, a little recreation of the Dark Ages in modern Portugal, if it had not been for the parallel existence of real renovating forces, mounting up from Garrett to Guilherme Braga, to Antero de Quental, Guerra Jungueiro (first phase (manner) and Cesario Verde, who was the first to see in Portuguese poetry, the clearest vision of things and their real presence which can be found in modern literature. The new introduction of culture contacts took place round 1890 with the bringing in of symbolist and decadent influences through Eugénio de Castro and António Nobre, Guerra Junqueiro (second manner). As the first, it was received with violent disapproval, as every new thing is. From Antonio Nobre the pantheist movement (which the Porto monthly “A Águia” represents) gradually worked itself up through Afonso Lopes-Vieira (since fallen into imbecility) to António Correia d’Oliveira, up to the full transcendental pantheism of Teixeira de Pascoaes, one of the greatest of living poets and the greatest lyrical poet Europe now has, if only justice could be done to him. Guerra Junqueiro, as usual, by dint of his extraordinary (and thoroughly Portuguese) adaptability to new circumstances, followed this movement also, and the “Oração à Luz”, though it has no equal in modern poetry outside Wordsworth’s great Ode, cannot however reach the pure flight and wild spirituality of Pascoaes’ great Elegia (in “Vida Etérea”) . The central fault of the saudosists, however, was that, what they gained in depth they lost in surface; that while their great merit and originality was gained by a descent (never before realised) into the depths of national consciousness — which the old poets never approached, for Camões is an Italian and Gil Vicente only superficially (...). 1912? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 350. ODE TO A WOMAN'S BODY For thou art two — thy woman's self and God Thy Presence is a (...) mystery Thy flesh is spirit looked on as eyes should When they inquire of thought what is't to see? Every limit is the visible road To an invisible infinity 23-2-1914? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 3. INCIDENTE Dói-me no coração Uma dor que me envergonha... Quê! Esta alma que sonha O âmbito todo do mundo Sofre de amor e tortura Por tão pequena coisa... Uma mulher curiosa E o meu tédio profundo? 1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 52. Sobre um Inquérito Literário Diferença entre o género de cultura que há hoje em Espanha e Portugal. Em Espanha há um intenso desenvolvimento da cultura secundária, da cultura cujo máximo representante é um homem de muito talento; em Portugal, essa cultura não existe. Há porém a superior cultura individual que produz os homens de génio. E, assim, não há em Espanha hoje uma figura de real destaque genial: o mais que há é figuras de grande talento — um Diego Ruiz, um Eugenio d’Ors, um Miguel de Unamuno, um Azorín. Em Portugal há figuras que começam na centelha genial e acabam no génio absoluto. Há individualidades vincadas. Há mais: há um fundo carácter europeu no fundo. Como é individual, e o meio social não está organizado, a cultura portuguesa está anarquizada, cada homem de génio vivendo consigo próprio, e, o que é pior, cada um escrevendo um pouco sem disciplina. Cabe afastar alguns deste juízo — Junqueiro supremamente. E cabe advertir que essa organização da cultura nacional começou, no Porto, com a “Renascença Portuguesa”. Em Espanha há um meio culto a mover, a influenciar, mas não há o Homem que o mova. Em Portugal há uns poucos de homens capazes (por seu valor intelectual) de mover o meio; falta, porém, o meio culto que movam. De modo que em Portugal é preciso que apareça um homem que, a par de ser um homem de génio, para que possa mover o meio por inteligência, seja um homem de sua natureza influenciador e dominador, para que ele próprio organize o meio que há de influenciar, e ir influenciando ao construi-lo. Diz Wordsworth, num dos prefácios críticos a uma das edições das “Lyrical Ballads”, que o poeta tem de criar o meio que o compreenda. Assim é, quando, como no caso que Wordsworth citava, que era o seu próprio, o poeta é um grande original. Onde está o erro da “Renascença Portuguesa”? O primeiro é em estar no Porto. De resto, não podia ter nascido senão no Porto, de modo que, como em tudo, se repararmos bem, na própria única coisa possível está o defeito inevitável. Sem esse defeito, não teria havido a causa, nem o efeito portanto. ...... Toda a literatura ibérica, e a nossa não predominantemente, sofre dum provincianismo radical. Extra-pertencemos à Europa, somos uma espécie de adjacência civilizada. Na Catalunha o fenómeno que descreve toda a cultura espanhola tomou incremento especial; de aí, mais do que em Castela, confinarem ao génio muitos dos seus homens. Mas, fundamentalmente, o que há é sem dúvida um grande desenvolvimento da cultura secundária. Há um esplêndido jornalismo. A influência da América Espanhola tem sido grande nisto. Em nós, nenhuma tem sido a influência do Brasil. Urge, por isso, para que criemos uma cultura secundária idêntica à da Espanha, que criemos as condições que a criaram. Urge que estreitemos inteligências com o Brasil. Urge que pacifiquemos o meio social e eliminemos a fermentação revolucionária. Urge que nos organizemos economicamente e saiamos um pouco, porque pouco seria muito para nós, do nosso sonho, não de poetas (como dizem os idiotas nas conferências), mas de mandriões. Razão teve o Sr. António Sérgio quando insistiu nesse ponto. Uma vez criado um meio culto entre nós, ver-se-á de repente esse meio culto tomar um relevo, uma importância excepcional. É que nós realizamos a absurda situação de ter criado já os dominadores, os influenciadores, as figuras-chefes desse meio, sem que houvéssemos criado o meio ainda. 1914? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 355. Os teus olhos azuis são cor do céu E são por isso cor do paraíso. Vejo-os e passa no coração meu Como uma saudade o seu sorriso. Estrelas matutinas no acordar Do meu amor, azul do céu distante… E eu, se os olho, fico sempre a olhar, E a olhar esqueço minha dor constante... Olhos azuis cuja alegria é a flor Da minha dor tornada comoção... Flori de aurora a minha negra dor… Só com olhar-me abri-me o coração… s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 4. Não fiz nada, bem sei, nem o farei, Mas de não fazer nada isto tirei, Que fazer tudo e nada é tudo o mesmo, Quem sou é o espectro do que não serei. Vivemos aos encontros do abandono Sem verdade, sem dúvida nem dono. Boa é a vida, mas melhor é o vinho. O amor é bom, mas é melhor o sono. 1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 53. Ex.mo Senhor Dr. Camilo Pessanha, Macau Há anos que os poemas de V. Exa. são muito conhecidos, e invariavelmente admirados, por toda Lisboa. É para lamentar — e todos lamentam — que eles não estejam, pelo menos em parte, publicados. Se estivessem inteiramente escondidos da publicidade, nas laudas ocultas dos seus cadernos, esta abstinência da publicidade seria, da parte de V. Exa., lamentável mas explicável. O que se dá, porém, não se explica; visto que, sendo de todos mais ou menos conhecidos esses poemas, eles não se encontram acessíveis a um público maior e mais permanente na forma normal da letra redonda. É sobre este assunto que assumo a liberdade de escrever a V. Exa. Decerto que V. Exa. de mim não se recorda. Duas vezes apenas falámos, no “Suíço”, e fui apresentado a V. Exa. pelo general Henrique Rosa. Logo da primeira vez que nos vimos, fez-me V. Exa. a honra, e deu-me o prazer, de me recitar alguns poemas seus. Guardo dessa hora espiritualizada uma religiosa recordação. Obtive, depois, pelo Carlos Amaro, cópias de alguns desses poemas. Hoje, sei-os de cor, aqueles cujas cópias tenho, e eles são para mim fonte continua de exaltação estética. Não escrevo estas coisas a V. Exa. para seu mero agrado, adulando. Elas são a expressão sincera do modo como sinto as composições a que me reporto. Nem sequer cito este prazer, que os seus poemas me deram, com o restrito fim de apoiar em frases que possivelmente sensibilizem o pedido que venho fazer. A ordem dos factos é outra: é porque muito admiro esses poemas, e porque muito lamento o seu actual carácter de inéditos (quando, aliás, correm, estropiados, de boca em boca nos cafés) a que ouso endereçar a V. Exa. esta carta, com o pedido que contém. Sou um dos directores da revista trimestral de literatura “Orpheu”. Não sei se V. Exa. a conhece; é provável que a não conheça. Terá talvez lido, casualmente, alguma das referências desagradáveis que a imprensa portuguesa nos tem feito. Se assim é, é possível que essa notícia o tenha impressionado mal a nosso respeito, se bem que eu faça a V. Exa. a justiça de acreditar que pouco deve orientar-se, salvo em sentido contrário, pela opinião dos meros jornalistas. Resta explicar o que é “Orpheu”. É uma revista, da qual saíram já dois números; é a única revista literária a valer que tem aparecido em Portugal, desde a “Revista de Portugal”, que foi dirigida por Eça de Queirós. A nossa revista acolhe tudo quanto representa a arte avançada; assim é que temos publicado poemas e prosas que vão do ultra-simbolismo até ao futurismo. Falar do nível que ela tem mantido será talvez inábil, e possivelmente desgracioso. Mas o facto é que ela tem sabido irritar e enfurecer, o que, como V. Exa. muito bem sabe, a mera banalidade nunca consegue que aconteça. Os dois números não só se têm vendido, como se esgotaram, o primeiro deles no espaço inacreditável de três semanas. Isto alguma coisa prova — atentas as condições artisticamente negativas do nosso meio — a favor do interesse que conseguimos despertar. E serve ao mesmo tempo de explicação para o facto de não remeter a V. Exa. os dois números dessa revista. Caso seja possível arranjá-los, enviá-los-emos sem demora. O meu pedido — tenho, reparo agora, tardado a chegar a ele — é que V. Exa. permitisse a inserção, em lugar de honra do terceiro número, de alguns dos seus admiráveis poemas. Em geral publicamos em cada número bastante colaboração de cada autor, de modo que, apesar de a revista ter 80 páginas, os colaboradores de cada número não têm passado de 7 (8). Isto é para indicar que sobremaneira estimaríamos que nos concedesse a honra de publicar umas dez a vinte páginas de sua colaboração. Entre os poemas que era empenho nosso inserir contam-se os seguintes: “Violoncelos”, “Tatuagens”, “O Estilita” (só conheço, deste, o segundo soneto), “Castelo de Óbidos”, “O Tambor”, “Nocturno”, “Passeio no Jardim”, “Ao longe os barcos de flores”, “O meu coração desce...”, “ Passou o Outono já”, “Floriram por engano as rosas bravas...”, “O Fonógrafo”. Ao soneto que considero o maior de todos os seus, e é sem dúvida um dos maiores que tenho lido — “Regresso ao Lar” — , não me refiro, visto que o seu assunto, infelizmente, inibe (e creio ser essa a vontade de V. Exa.) que ele se publique. Podia V. Exa. fazer-nos o favor que pedimos? Nós não pedimos só por nós, mas por todos quantos amam a arte em Portugal; não serão muitos, mas, talvez por isso mesmo, merecem mais carinhosa atenção dos poetas. Se fosse possível enviar-nos mais colaboração do que esta que indiquei, dobrado seria o favor, e sobradamente honradas as páginas da nossa revista. Como correm por aqui várias versões, mesmo escritas, dos seus poemas, pedíamos que — caso quisesse anuir ao nosso pedido, no que julgamos que não terá dúvida — ou nos enviasse cópia exacta deles, ou — caso isso o incomodasse — nos indicasse a quem, aqui, nos devamos dirigir para obter essas cópias. Como nos parece que estamos abusando do tempo e da paciência de V. Exa., e como esta carta segue registada, basta-nos, para resposta, um postal — ainda que uma carta registada, contendo as cópias ou a indicação pedida, fosse preferível — , ou, caso V. Exa. não queira dar-se ao incómodo de nos enviar esse postal, basta (cremos não abusar combinando assim) que V. Exa. não nos responda negativamente para nos considerarmos autorizados. Nesse caso guiar-nos-emos pelas cópias que nos parecerem mais conformes à constante psíquica do seu pensamento poético. O preferível, porém, era que V. Exa. nos enviasse as cópias dos poemas. Confessando-me, pelo “Orpheu”, desde já altamente grato e honrado com o envio dos seus poemas, subscrevo-me, com o maior respeito e admiração. 1915? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 357. Que fútil toda essa tristeza Que uns vagos versos vácuos dão, Num modo de nem sim nem não, A quente e abstracta singeleza De se sentir o coração! 8-10-1934 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 5. Vê-la faz pena de esperança. Loura, olha azul com expansão Tem um sorriso de criança: Sorri até ao coração. Não saberia ter desdém. Criança adulta, [...] Parece quase mal que alguém Venha a violá-la por mulher. Seus olhos, lagos de alma de água, Têm céus de uma intenção menina. De eu vê-la, ri-me a minha mágoa Tornada loura e feminina. [...] 7-9-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 54. Lisboa, 6 de Dezembro de 1912 Meu caro Mário: Recebi, há dias, a sua “plaquette” “Cintra”, que muito lhe agradeço. Além de ter demorado um pouco o responder-lhe por não sei que razão propriamente definível, demorou-me um pouco mais, ao pensar em escrever-lhe enfim, o não saber bem o que lhe hei-de dizer, que V. já não saiba, da alta opinião que tenho do seu génio. A “Cintra”, porém, se não me revela esse génio sob forma nova — porque eu já conhecia, de lho ouvir e de o ler, o soneto “Ausente” escrito em estilo idêntico — confirma essa revelação e mostra-me quão artisticamente certeira tem sido, e continua sendo, a sua ascensão. Desde que lhe conheço estilo definidamente próprio, lhe noto a perfeição artística como flagrante característico. A sua evolução não tem sido para maior perfeição na forma, senão porque tem sido para maior perfeição da ideia. A sua prodigiosa interioridade tem ido complicando-se, e a forma tem seguido, naturalmente, essa complexização. V. hoje é tão perfeito e muito mais perfeito do que era quando escreveu “As Queimadas”. Este paradoxo diz a verdade. O que era subtil tornou-se hiper-subtil, e a perfeição da expressão acompanhou perfeitamente essa subida da sua alma. Isto podia acontecer sem V. ter originalidade. O que de mais curioso há em si é que V. a tem, e eloquentemente. Estou-lhe dizendo coisas que V. já sabe que eu penso; mas V. notará que, de novo, nada tenho para lhe dizer. Permita-me que lhe faça, a par disto, a minha acompanhante observação de sempre. Não se disperse, “nem mesmo dentro em si próprio”. Cuide em não perder a noção do conjunto. A sua forma escusa de subir mais. A complexidade da sua ideação tão original, tão interior, tão de fogo e sombras, escusa de se complicar mais ainda. O que é preciso obter é aquela qualidade que os gregos tiveram maximamente — a noção da poesia como “um todo composto de partes”, e não aquela em que V. tende a cair — pelo género da sua intensa inspiração — a da poesia como partes compondo um todo. Sei bem, acima disso, que o género da sua inspiração, o seu modo de sentir, o faz compor mais por sobreposição, do que por cristalização, de sensações. A sua arte, porém, é, no detalhe, tão equilibrada que não parece que seja esperar impossíveis o esperar que atinja o equilíbrio no “todo”, no “conjunto”. De resto, na sua idade, aquele poeta inglês de quem Lhe tenho falado como seu parente espiritual, John Keats, tinha — além de menos perfeição no detalhe, quanto à forma e quanto à ideia — ainda menos cuidado no conjunto do que V. tem. E ele mais tarde — e pouco mais tarde foi, porque morreu aos vinte e cinco anos — atingiu, em cinco ou seis poesias, o equilíbrio perfeito não só de ideia e forma, mas também de detalhe e conjunto. Se ele dava muito menos esperanças do que V. de o fazer; se na mesma idade que V. era espiritualmente inferior — por que razão não atingirá V. a perfeição que ele veio a atingir, superiorizada pela sua maior complexidade e intensidade de alma ? Digo-lhe estas coisas como crítico, e digo-lhas porque sei que V. me conhece suficientemente para nem sequer me supor quase capaz de lhas dizer com oculta intenção irónica ou malévola. Eu, que não sou nem malévolo nem irónico para quem me fere ou irrita, não havia de ir sê-lo para V., a quem tanto estimo e admiro. E, mais, digo-lhe estas coisas críticas porque tenho a certeza que V. subirá no género de perfeição onde V. ainda se mostra jovem. Se eu julgasse que essa perfeição lhe seria inatingível, ficaria no elogio, dedicadamente, e não Lhe faria estes reparos onde, garanto-lhe, o amigo está tanto como o crítico, e tão empenhado o português em que V. realize através de si, em plena altura espiritual, o que puder dar à nossa Raça, como o artista em que V., de ascensão em ascensão, suba até onde estão os deuses, e receba deles a coroa que não murcha, porque as suas folhas são daquela matéria de que as coisas eternas são divinamente feitas. Escreva-me quando puder; cumprimente em meu nome o Vila-Moura, a quem (diga) breve escreverei; e creia que ninguém mais sinceramente e confiadamente o felicita e o abraça do que o seu muito amigo e fervoroso admirador. FERNANDO PESSOA 6-12-1912 Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 361. A cause is a relation of alteration ( movement ) between two things. Put a match unlight upon your hand. It will have no effect on your organism. There is here then no proper cause — in the mere relation of contiguity. The day comes after the night, and the night after the day but, etc. Cause then does not consist, of necessity, in a relation of succession. Now, if you drink, for instance, prussic acid, you will die. The prussic acid was the direct cause of your death. There are here contiguity, succession, but as we have seen, cause has not its essence in these. What then is here more? There is here an alteration produced. Run a billiard ball against another: this last, when struck will move away. Here are contiguity, succession, and what more? A movement , that is to say a kind of an alteration. We now can perceive the characteristic of Cause. [...] 1907? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 35. Bem sei que ela era a Rainha. Tantas vezes a sonhei Que julguei até que a tinha Com quanto a imaginei… Porque a gente, por pensar, Talvez que pode querer, Até sentir que sonhar É pensar sem poder ter. Bem sei. Mas era a Rainha E não abdico encontrá-la. Faltam-me o ser ela minha E as condições e a sala. 8-10-1934 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 6. A POESIA NOVA EM PORTUGAL José Régio Adolfo Casais Monteiro Alberto de Serpa Marques Matias Por poesia nova, no sentido em que aqui tratarei dela, não entendo poesia de jovens — a palavra “novos opõe-se a “antigo” que não a “velho” — , mas poesia que representa novidade, sequer em seu íntimo conteúdo, quer em sua expressão e os modos dela. Não me ocuparei, pois, dos que, jovens ou não, mas recém-aparecidos na publicação, se servem de formas antigas ou versam, ainda que de um modo novo, temas tradicionais. Por isso não tratarei, por exemplo, dos admiráveis poetas — que por mal conhecidos bem o mereceriam — que são Marta Mesquita da Câmara e Francisco Costa. De um poeta, e dos melhores, que legitimamente figura entre os novos, também não falarei. Trata-se de António Botto. Acerca [d]ele tenho escrito com tal abundância de análise e definição, que me dispenso de repetir aqui, em condensação forçosamente mutilada (microscópica) o que sobre ele já disse extensa, mas, conforme meu uso, condensadamente. Não tratarei senão dos novos poetas que têm livros publicados; fazer o contrário, além de desorientar o leitor com referências a revistas ou jornais praticamente inacháveis, além de dar a este artigo uma extensão que não pretendo que ele tenha, envolver-me-ia no risco de várias omissões. Bastam as que porventura eu cometa, involuntariamente é certo, por ignorância de livros de poetas que legitimamente caibam no género ou espécie que determina o enquadramento do meu artigo. Para efeitos, pois, do estudo presente, proponho-me considerar, com a brevidade e a concisão que uma análise suficiente consinta, as obras em verso, até hoje publicadas em livro, dos seguintes novos poetas: José Régio, Adolfo Casais Monteiro, Adolfo Rocha (Miguel Torga), Alberto de Serpa, Marques Matias. A ordem por que ponho os nomes é a por que me vão ocorrendo, e por essa ordem, tão boa como qualquer outra, os irei tratando no decurso deste escrito. Não implica, nem pretende implicar, uma opinião comparativa dos méritos dos poetas criticados. A todos acho mérito, pois, se o não achasse, os não criticaria. Mas, ainda que fosse teoricamente possível (e nunca é) ou que fosse de bom gosto (e nunca seria) estabelecer tal escala ou gradação de méritos, inibir-me-ia de o fazer o estarem, para mim, quase todos esses poetas ainda em período de formação. Se isso torna impossível — e ver-se-á que o não tento — definir-lhes absolutamente as personalidades, tornaria muito mais impossível (passe a frase ilógica) o definir-lhas relativamente (comparativamente). Disse eu desses poetas quase todos; direi, com mais propriedade, todos menos um. Refiro-me a José Régio. Este poeta está, a meu ver, já inteiramente formado e definido, tanto quanto qualquer de nós o está enquanto vive. Esse poeta é, a meu ver, em parte por isso e em parte por simples mérito, o melhor de todos eles. O caso particular de abrir eu a lista por esse poeta representa pois uma excepção no meu critério geral. Considero José Régio, em todos os sentidos, primus inter pares . Isto posto, entro no assunto. Começarei por observações definidoras do espírito geral do que chamei “poesia nova”. Feitas elas, e eliminado assim o que de comum têm os poetas que citei, poderei, sem repetições inúteis, passar, seriatim , ao estudo concreto de cada um deles (dos poemas de cada um deles). A poesia nova — no sentido em que aqui uso e usarei do termo — pode designar-se tal: 1) em virtude do conteúdo; 2) em virtude da forma, entendendo-se por “ forma”, não o simples ritmo ou estrutura externa, mas o conjunto dos factores cujo produto é a expressão; 3) em virtude de ambas as coisas. Exemplifico. José Régio é “poeta novo” pelo conteúdo de seus poemas; a sua forma não apresenta novidade ou, pelo menos, não a apresenta notável. António Botto é “poeta novo” pela forma ou maneira das suas canções; o conteúdo delas é antiquíssimo, pois que existe integralmente nas cantigas do nosso povo. Num caso, poderíamos dizer com justeza, temos um “poeta novo”; no outro um “artista novo da poesia”. Em Adolfo Casais Monteiro conteúdo e forma são, por igual, novidade, se bem que não, um e outro, ainda definidos. Repare-se que não há nisto, involuntariamente sequer, uma comparação de méritos (valor); há tão-somente uma notação de diferença. Não louvo, não censuro: distingo. Para que, porém, o termo genérico “poesia nova” possa convir por igual a duas espécies opostas — pois “conteúdo” e “ forma”, como aqui os entendo, são termos em contraste lógico — , força é que eles tenham qualquer elemento geral comum, sem o que seriam, não já espécies, dois géneros, diferentes, ou, então, espécies de dois diferentes géneros. Ora não é difícil encontrar esse elemento comum. Consiste ele no individualismo absoluto. Não uso deste termo, bem entendido, em qualquer sentido político ou social, ou sequer filosófico; se bem que necessariamente os poetas e outros artistas e intelectuais novos — o fenómeno é, como seria de supor, comum a todos os géneros da vida mental de hoje — tendem a ser mais atraídos pelos sistemas individualistas em (sociologia) e política do que pelos sistemas que a estes são opostos. E tanto assim é que, à medida em que se tem ido afirmando e acentuando os estados autoritários hoje em moda, em essa mesma medida se têm ido confirmando na sua hostilidade ou afastando, para a indiferença quando não para a oposição, os poetas, os artistas e os intelectuais designáveis de “novos”. Desse aspecto do assunto, porém, não tenho, felizmente, que tratar. Repito: uso do termo “individualismo absoluto”, no sentido puramente estético, pois é a arte em geral, e uma forma dela em particular, em que me ocupo neste estudo. Individualismo absoluto, neste sentido especial, significa a tendência e tensão do artista para exprimir inteiramente a sua alma, com tudo quanto nela se contém. Assim, queira ou não queira, ele a opõe, em emoção e sua expressão, às almas dos outros, pois que não é outro; às coisas que não são indivíduos, visto que é indivíduo. Por um ou dois processos, ou por ambos, se obtém, ou se pode ou procura obter, esse resultado. Um é o processo material, o outro o formal, entendendo-se que uso dos termos “matéria” e “forma” no seu sentido filosófico, em que “matéria” significa a substância corporal — espiritual ou até ideal — de que um ser, um ente, é feito. O primeiro processo consiste em exprimir intensa e extensamente a alma a si mesma, ou, se se preferir, a emoção à inteligência, a individualidade à consciência. Se se efectua esse intento, resultava (resulta) uma obra, ou uns opera omnia , em que, voluntária ou involuntariamente, superior a todas as regras, o espírito do artista se afirma distinto do de todos os outros artistas, do de todos os outros homens, se afirma em oposição a um e a outro. Se se me objectar que isso em todos os tempos sucedeu aos grandes, aos veros, artistas, e que isso principalmente os fez grandes e veros artistas; que está na essência de serem eles grandes poetas o não se poderem confundir Shakespeare e Milton, nem sequer Shelley e Byron; responderei que assim é, como eu, e comigo o restante da população da terra, há muito e abundantemente o sabia. Farei a seguir, porém, dois dos meus tão queridos distinguos . O primeiro é que, se esses grandes artistas tal faziam, o faziam instintivamente, praticamente, em contradição, muitas vezes, com os seus típicos intuitos racionais, com as suas mesmas teorias artísticas. Darei exemplos de um caso e de outro. Teve Milton por intuito o cantar, no “Paraíso Perdido”, a Queda do Homem, como fonte, pela necessidade da redenção, do Cristianismo; teve por intuito, como ele mesmo diz no intróito, escrever a Epopeia do Protestantismo, e portanto, para ele, do Cristianismo. E que fez? Fez um poema, um grande poema, em que a figura mais altiva e nobre — mais épica portanto — é Satã; em que as figuras que mais nos chamam a alma são Adão e Eva, e mormente depois da Queda; em que Deus e os arcanjos fiéis são destituídos de alma e de vida, como se o autor os houvesse posto lá pela única razão que tinha lá que os pôr; em que o que transparece de cristão surge a tal ponto expresso, através de especulações rabínicas e cabalísticas, que o poema, no pensamento como na emoção, menos se diria escrito por um cristão que por um judeu inconverso que usasse de elementos cristãos como os poetas da Renascença usavam dos do Paganismo. Só quase dois séculos depois, quando se descobriu e se imprimiu o manuscrito do “Tractatus de Doctrina Christiana” — “christiana”, note-se — se compreendeu tudo isso, e sobretudo o que indiquei em último lugar. Milton, em seu foro íntimo, era ariano. Isto é, o homem virtuoso e austera, incapaz de uma subserviência, de uma concessão, de uma hipocrisia; o poeta — austero como o homem uno com ele — que pretendeu escrever o maior poema cristão, a Epopeia do Protestantismo — esse homem, esse poeta, não acreditava na divindade do Cristo! E, como não acreditava — ainda que, o que é possível, quando escreveu o “Paraíso Perdido”, a falta de fé lhe não houvesse ainda subido, ou de todo subido, do subconsciente ao consciente — , como não acreditava, digo, foi essa genuína descrença o que realmente deu alma e grandeza ao poema, o que lhe deu individualidade como poema e como expressão de um poeta e de um homem; foi essa sinceridade involuntária que a nós nos deu o vero e o maior de Milton. Será ainda Milton que nos servirá de exemplo do segundo caso que citei — o da disparidade entre a natureza da obra realizada e a das doutrinas estéticas do autor. Tinha Milton por mestres os Antigos, e particularmente a Homero. Que há no “ Paraíso Perdido”, poema épico, que Milton devesse à “Ilíada” ou à “Odisseia”, ou, aliás, a qualquer epopeia ou poema da antiguidade? Por junto, nada. Pensamento, imagens, emoções — nada disso lhe ensinaram Homero e os Antigos, ou, aliás, os mesmos Modernos. O ritmo, tão acentuado em Homero, como em Virgílio, como no Dante — nem isso, supondo que possa deveras aprender-se, lhe poderiam eles ter ensinado, pois a técnica do hexâmetro em nada habilita o mais estudioso dela a descobrir uma técnica do decassílabo branco inglês. O estudo de igual ritmo italiano de nada serviria, tão diferentes são os dois idiomas. O mesmo estudo do único mestre de tal ritmo que houvesse escrito em inglês antes de Milton — esse estudo, ainda, de nada serviria, pois se Milton estudou a rítmica de Shakespeare, concluiu, a fazer juízo pelos resultados, que deveria vazar a própria em moldes que podem dizer-se opostos; e que se nisto, como em tudo mais, alguém o dissesse discípulo, fá-lo-ia segundo o preceito clássico do ut lucus a non lucendo . A única coisa que há de comum entre a “ Ilíada” e o “Paraíso Perdido” e, à parte o serem ambos epopeias, o haver no poema de Milton a estruturação da epopeia, que, tal, começou em Homero. Se, porém, se houvessem perdido todas as epopeias da antiguidade, poderia Milton aprender como se deve dispor a fábula num poema épico, pela leitura, quando não, pelo exemplo, em Homero e nos outros poetas épicos, por certo, pela doutrina, em Aristóteles, Longino ou qualquer dos retóricos da Antiguidade. E, ainda que nem isto houvesse, o mesmo instinto do poeta, se deveras o é, o levaria a compreender, ou a sentir, que qualquer composição deve ter, colocados, em seus respectivos lugares, princípio, meio e fim; que as matérias devem ser nela dispostas de sorte que o nexo delas seja inteligível e agradável; que há que haver uma relação de equilíbrio, embora porventura de equilíbrio variável, entre o que é descrição de acção, o que é diálogo, e o com que o poeta inicia, caminha [?] ou acaba. De instinto o poeta de génio — e nem de génio há mister — sente e sabe tudo isto. Com quem aprendeu Homero, ou o primeiro que enfabulou uma narrativa em verso? Com a mesma pessoa que ensinou a um homem ou mulher do nosso povo a compor, e com êxito, ......cravo roxo, por lhes haver feito várias dissertações sobre poesia em geral, poesia lírica em particular, e, depois de alguns [excursos] sobre métrica portuguesa e a técnica da quadra heptassilábica, ainda lhes ter explicado em que condições fazer versos, e em que condições rimados os versos primeiro e terceiro, acabando por lhes descrever o processo, subtil mas difícil, da justaposição emotiva de inconexos, pela qual ficam ligados, por um vago, imperceptível fio de sentimento, por um igual e impalpável ritmo emotivo, elementos intelectuais que entre si têm pouca relação, ou, como na quadra citada, relação nenhuma. Assim, substancialmente, foi Milton discípulo de Homero. Nos grandes poetas das línguas vivas dá-se pois, não sempre, mas quase sempre, o fenómeno que exemplifiquei com Milton e Homero. Nos quatro destes poetas que são verdadeiramente de primeira linha — Dante, Shakespeare, Milton e Goethe — dá-se invariavelmente. Os exemplos supremos são, por supremos, representativos, e todos depõem, neste pormenor, em igual sentido. O que se dá com Milton e Homero dá-se com Dante e Virgílio, seu “duca, signore e maestro”. Goethe assentava a sua vida teórica, ou a sua teoria da vida mental, em um principal elemento — a cultura grega. Que deixou de realmente fundamental, que deixou que, por o ser, deveras lhe dá a grandeza? O “Fausto”, as duas partes do “Fausto”, onde a desarrumação das matérias, e, na segunda, o abuso de simbolismo e de alegoria, em nada revelam um discípulo dos mestres da ordenação, sobretudo poética, dos temas, e da perspicuidade fluída do pensamento e da sua expressão. Declarava Goethe ser clássico, e, em sincera teoria, veramente o era; a sua obra-prima, o “Fausto” é a obra-prima do romantismo. (...) 1935 Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 364. CORPOS O meu corpo é o abismo entre eu e eu. Se tudo é um sonho sob o sonho aberto Do céu irreal, sonhar-te é possuir-te, E possuir-te é sonhar-te de mais perto As almas sempre separadas, Os corpos são o sonho de uma ponte Sobre um abismo que nem margens tem Eu porque me conheço, me separo De mim, e penso, e o pensamento é avaro A hora passa. Mas meu sonho é meu. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 7. Dá-me as mãos por brincadeira Na dança que não dançamos, Porque isso é uma maneira De dizer o que pensamos. Dá-me as mãos e sorri alto, A vigiar o que rio, Bem sabes que assim já falto A pensar coisas a fio. Não quero largar as mãos Assim dadas por brinquedo. Deixa-as ficar: há irmãos Que brincam assim a medo. Não largues, ou faz demora A arrastar, a demorar, As mãos pelas minhas fora, E já deixando de olhar. Que segredos num contacto! Que coisas diz quem não fala! Que boa vista a do tacto Quando a vista desiguala! Deixa os dedos, deixa os dedos, Deixa-os ainda dizer Aqueles dos teus segredos Que não podes prometer! Deixa-me os dedos e a vida! Os outros dançam no chão, E eu tenho a alma esquecida Dentro do teu coração. Todo o teu corpo está dado Nas tuas mãos que retenho. Mais vale ter enganado Do que ter porque não tenho. 28-10-1930 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 8. Desperto de sonhar-te Quando inda a noite é funda, E um céu estelar faz parte Do silêncio que inunda. Perdi poder amar-te E a treva me circunda. Talvez que relembrasse, Sonhando-te, outro ser, E aquilo que sonhasse Fosse tornar a ter. Mas despertei, e faz-se Claro em meu quarto a ver. Insónia de perder-te! Quem foste já não sei. Pela janela verte Cada astro a sua lei. Como, sem sonhar ter-te?... Porque não dormirei? 4-3-1932 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 9. A existência do dom de profecia é afirmada por muitos e negada por muitos. Na maioria dos casos, ou a linguagem profética é tão obscura que dela se pode fazer aplicação a qualquer facto, ou a abundância de pormenores é tão grande que dificilmente se encontrará um facto a que um ou outro dos pormenores se não possa ajustar. De sorte que o problema fundamental fica na mesma. Os que afirmam a existência do dom profético apontam o facto justificativo; os que lhe negam a existência apontam que qualquer facto, ainda que fosse contrário do que se deu, serviria igualmente, e portanto com igual inutilidade, de justificação. Há contudo profecias que são simples e claras, como a célebre quadra das Centúrias de Nostradamo, em que, com mais de dois séculos de antecedência, o advento de Napoleão se indica e o seu carácter se define. E a quadra que começa: «Um imperador nascerá ao pé de Itália» — Un Empereur naistra prés d'Italie... Estas profecias que são claras versam em geral factos: São como pequenos artigos de pequena enciclopédia, resumindo a história às avessas, isto é, antes de ela existir. Há, porém, um caso curioso de profecia clara, que contém, com vinte e dois anos de antecipação, não a indicação de factos futuros, mas o comentário justo e preciso deles, como se os supusesse conhecidos. E esse vaticínio tem ainda de mais curioso o não ser, suponho, de um profissional da profecia. No jornal italiano Avanti, de 21 de Janeiro de 1913, vem inserto um artigo em que se lê o seguinte, que peço ao leitor que, palavra a palavra, acompanhe e medite: «Estamos na presença de uma Itália nacionalista, conservadora, clerical, que se propõe fazer da espada a sua lei, e do exército a escola da nação. «Previmos esta perversão moral: não nos surpreende. «Erram porém os que pensam que esta preponderância do militarismo é sinal de força. As nações fortes não têm que descer à espécie de carnaval estúpido a que os italianos hoje estão entregues: as nações fortes têm o sentido das proporções. A Itália nacionalista e militarista mostra que não tem esse sentido. «E assim sucede que uma reles guerra de conquista é celebrada como se fosse um triunfo romano..» Ignoro a que propósito imediato se escreveram essas linhas. Ignoro e não importa. São elas o mais justo, o mais claro e o mais cruel comentário de quanto hoje, vinte e dois anos depois, se está passando na Itália, ou, melhor, com a Itália. Ao jornalista casual coube um lampejo de verdadeiro espírito profético. Felizmente o artigo é assinado, de sorte que não falta o nome, nem portanto a honra, ao iluminado dessa súbita inspiração. O autor do artigo do Avanti é o Sr. Benito Mussolini. Não ter ele fixado residência em profeta!... 1935 Fernando Pessoa - O Último Ano. (Catálogo da Exposição Comemorativa do Cinquentenário da Morte de Fernando Pessoa, organizada e coordenada por Teresa Sobral Cunha e João Rui de Sousa.) Lisboa: Biblioteca Nacional, 1985. - . Artigo escrito para o Diário de Lisboa, mas cortado pela Comissão de Censura. Caixa Postal 147 Lisboa, 30 de Outubro de 1935 Meu caro Casais Monteiro: Muito obrigado pelo seu postal de 25, relembrando o interesse que vocês têm pela minha colaboração na Presença. Já tinha prometido, pessoalmente, aqui há dias, ao Gaspar Simões, dar essa colaboração, de sorte que, não indo já a tempo para o número que está a sair, pudesse todavia aparecer no que deve sair pelo Natal. Sucede, porém, uma coisa — sucedeu há cinco minutos —que me confirma em uma decisão que estava incerta, e que me inibe de dar colaboração para a Presença, ou para qualquer outra publicação aqui do país, ou de publicar qualquer livro. Desde o discurso que o Salazar fez em 21 de Fevereiro deste ano, na distribuição de prémios no Secretariado da Propaganda Nacional, ficámos sabendo, todos nós que escrevemos, que estava substituída a regra restritiva da Censura, “não se pode dizer isto ou aquilo”, pela regra soviética do Poder, "tem que se dizer aquilo ou isto”. Em palavras mais claras, tudo quanto escrevermos, não só não tem que contrariar os princípios (cuja natureza ignoro) do Estado Novo (cuja definição desconheço), mas tem que ser subordinado às directrizes traçadas pelos orientadores do citado Estado Novo. Isto quer dizer, suponho, que não poderá haver legitimamente manifestação literária em Portugal que não inclua qualquer referência ao equilíbrio orçamental, à composição corporativa (também não sei o que seja) da sociedade portuguesa e as outras engrenagens da mesma espécie. 1935 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - . 1ª publ. in José Blanco. A Poesia de Adolfo Casais Monteiro .Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985. A PROFECIA DO MONGE NAPOLITANO Ai de ti Lusitânia, que dominarás em todas as nações, porque há-de vir sem falência tempo em que a tua luz se apagará; ver-te-ás debaixo dos pés dos outros, que te quebrarão, como se fosses um vaso de barro, (e tirarão) tuas riquezas e tesouros; então serás tributária, gemerás, e de todos que te amavam nenhum te consolará. A tua honra será mudada, a tua gente destruída, as tuas cidades tomadas pelos infiéis. Mas então o Pai das misericórdias te porá os olhos, verá o teu opróbrio, e do meio de ti fará surgir o salvador, que te libertará da escravidão alheia. Depois do que mandar-te-á outro, que se reputava morto, e este, que te havia posto em miséria, te restituirá ao teu antigo esplendor, exaltará o teu Império, e dilatará a fé de Cristo, destruirá a casa de Mahomet; então o seu império será eterno, e todo o Povo dirá: Alegra-te ó Lusitânia porque Deus te fez a primeira das Províncias e Dominadora das Nações. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 30. Texto copiado por F.P. POEMA DE AMOR EM ESTADO NOVO Tens o olhar misterioso Com um jeito nevoento, Indeciso, duvidoso, Minha Marta Francisca, Meu amor, meu orçamento! A tua face de rosa Tem o colorido esquivo De uma nota oficiosa. Quem dera ter-te em meus braços, Ó meu saldo positivo! E o teu cabelo — não choro Seu regresso ao natural —Abandona o padrão-ouro Amor, pomba, estrada, porta, Sindicato nacional! Não sei por que me desprezas. Fita-me mais um instante, Lindo corte nas despesas, Adorada abolição Da dívida flutuante! Com que madrigais mostrar-te Este amor que é chama viva? Ouve, escuta: vou chamar-te Assembleia Nacional Câmara Corporativa. Como te amo, como, como, Meu Acto Colonial! De amor já quase não como, Meu Estatuto de Trabalho, Meu Banco de Portugal! Meu crédito no estrangeiro! Meu encaixe — ouro adorado! Serei sempre o teu romeiro... Pousa a cabeça em meu ombro, Ó meu Conselho de Estado! Ó minha corporativa, Minha lei de Estado Novo, Não me sejas mais esquiva! Meu coração quer guarida Ó linda Casa do Povo! União Nacional querida, Teus olhos enchem de mágoa A sombra da minha vida Que passa como uma esquadra Sobre a energia da água. Que aristocrático ri, O teu cabelo em cifrões — Finanças em mise-en-plis ! — Meu activo plebiscito, Nunca desceste a eleições! Por isso nunca me escolhes E a minha esperança é vã. Nem sequer por dó me acolhes, Minha imprevidente linda Civilização cristã! Bem sei: por estes meus modos Nunca me podes amar. Olha, desculpa-mas todas. Estou seguindo as directrizes Do professor Salazar. 9-9-1935 Fernando Pessoa - O Último Ano. (Catálogo da Exposição Comemorativa do Cinquentenário da Morte de Fernando Pessoa, organizada e coordenada por Teresa Sobral Cunha e João Rui de Sousa.) Lisboa: Biblioteca Nacional, 1985. - . N. do A.: «o demoliberalismo maçónico-comunista» Lusiadum populi, mente alta condite vestra, Quae servent vobis fata morata Deum. Principis effigie...cussum cum fulserit aurum Venturum regem non procul esse docet. Pontificis Summi, Sacro et Commercio Roma Interdicta negant posse latere dice. Hoc simul ac fiant, tunc Lusitania gaude Nam dubie adventus spes tibi certa venit. Imperium capies toto dominaberis orbi Et solemnes muri sub tua sceptra cadent. (Profecias do monge Rolando — Século XIV, descobertas em 1600 num MS. antigo) Povos da Lusitânia, conservai altamente na memória o que os tardios fados dos Deuses vos têm destinado. Quando virdes cunhada em ouro a imagem do Príncipe, isto vos ensina que o Rei, que há-de vir, já não está longe. Quando virdes cortado o Comércio com o Sumo Pontífice e Sagrada Roma, sabei que ele já não poderá estar por muito tempo encoberto. Apenas isto vires, alegra-te ó Lusitânia, e tem por certa a esperança daquela vinda de que se duvidava. Apossar-te-ás do Império; dominarás em todo o Orbe e os muros de Jerusalém (?) cairão debaixo dos teus ceptros. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 31. Tens um livro que não lês, Tens um livro que não lês, Tens uma flor que desfolhas; Tens um coração aos pés E para ele não olhas. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 42. REFLEXÕES SOBRE O PROVINCIANISMO (Reflections on Provincialism) Não é de admirar, de facto, que a grande maioria da humanidade civilizada seja mentalmente provinciana, porque o urbanismo mental é mais difícil de se estabelecer que o geográfico (geodético). O que porém será de admirar é se formos encontrar os sintomas de provincianismo entre a minoria, entre o escol e o escol do escol. Se, assim, em grande número de nações há um provincianismo geral do escol, sucede que, naquelas em que tal se não dá assim, continua a dar-se, de outro modo. Aqui é o escol inteiro, em suas três camadas, ou duas, que manifesta o provincianismo. Ali é a maioria do escol, por ter perdido a capacidade de absorver as ideias emanadas do escol menor. Nos tempos da Renascença, como, precedentemente, nos da Idade Média, uma doutrina superior não tardava em ser conhecida, e, onde não fosse adoptada, pelo menos rejeitada criticamente. Agora, uma doutrina superior dificilmente passa para as camadas cultas, e, quando ali chega, chega como o equus do epigrama francês — mudou bastante no caminho. Repare-se no que, em todos os povos do mundo, se passa em matéria de doutrina política. A política prática continua a correr nas mesmas calhas, ou em calhas quase as mesmas. No entanto fervilham doutrinas críticas da política, com que ninguém na prática se importa. Tudo quanto se tem feito recentemente de alterações nas constituições ou leis fundamentais, são expedientes da política acidental, movimentos do oportunismo — nunca a aplicação de princípios críticos, de doutrinas sociológicas. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 6. S. DÂMASO PORTUGUÊS 1 . Depois de se ter passado Os noventa mais vereis Vir aquele desejado Que há-de fundar novas leis. 2 . Verá o Leão fatal Que de Portugal lhe vem O que lhe há-de fazer mal, Aquele escondido Rei. 3. Aquela manhã chuvosa Com névoa muito escura Verá de Deus a figura Fazer Lisboa ditosa. 4. Névoa já é levantada Lá junto do meio-dia; Haveis de a ver descoberta A oitava maravilha. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 32. Pelas características indicadas como (sendo) as do provinciano imediatamente se verifica que a mentalidade dele tem uma semelhança absoluta com a da criança. A atitude da criança para (com) as novidades do progresso é a da criança para (com) os brinquedos — ama-os por novos e por artificiais. E a criança, como o provinciano, um espírito desperto mas incompletamente desperto. Ora o que distingue a mentalidade da criança é a incapacidade de concentração voluntária, o espírito de imitação e a ausência de espírito crítico. São estes, portanto, os característicos que iremos encontrar também no provinciano; são eles que o distinguirão do campónio, por um lado, do citadino, por outro. No campónio, semelhante ao animal, a concentração voluntária existe, mas instintiva; a imitação existe, mas superficial, e não, como na criança e no provinciano, vinda do fundo da alma; o espírito crítico não existe, mas é substituído por uma intuição bruta das realidades. No citadino, semelhante ao homem formado, existem as duas qualidades que na criança e no provinciano são negativas, e não há imitação, mas aproveitamento dos exemplos alheios. Se percorrermos, olhando sem óculos de nenhum grau nem cor, a paisagem que nos apresentam as produções e as improduções do nosso escol, entendendo por escol o escol literário e artístico, o escol político e jornalístico, e o escol industrial e comercial, facilmente notaremos que o provincianismo é o seu característico comum e constante. Faço uma leve reserva quanto ao escol industrial: não há entre os nossos intelectuais, artistas, jornalistas ou políticos alguém cuja iniciativa e poder de coordenação se compare com os de, por exemplo, o Sr. Alfredo da Silva no campo industrial. Por desastre, porém, e para mal nosso, o escol industrial não tem, por natureza, influência intelectual alguma, e assim não serve de vivificar o escol em geral. Há entre nós notáveis poetas, há entre nós notáveis artistas, há entre nós políticos e jornalistas notáveis. Entre os poetas e artistas há originalidade; sem isso não os poderíamos chamar notáveis. Mas o espírito mimético emerge; são originais, mas por natureza só — não evoluem, não crescem; fixado o seu primeiro “momento” original, passam o resto da vida a plagiar-se a si mesmo, a tal ponto que não há poeta nosso que não esteja lido por completo quando seja parcialmente lido, em quem a amostra não valha pela fazenda, em quem a parte não seja igual ao todo. Onde a originalidade não é da essência da mente, como no jornalismo e na política, a originalidade não existe: o mimetismo é inteiro e absoluto. Desde que há teorias democráticas e republicanas em Portugal, estamos copiando como macacos as teorias estrangeiras. Nada nos muda, nada nos ensina. Entre os nossos “políticos” (assim designados para os distinguir dos homens da ditadura) há sem dúvida pessoas inteligentes. Ora esses homens inteligentes devem ter verificado (pois para isso é que a inteligência serve) que, tendo o seu sistema político — servilmente copiado de França — constantemente falhado, como provam os três movimentos contra-revolucionários que contra ele têm surgido, que uma de três coisas se dá: (1) ou as doutrinas democráticas são, em sua essência, erradas, (2) ou há qualquer coisa nelas que está errado, e cumpre expungir, para que elas fiquem “certas”, (3) ou está errada qualquer coisa, substancial ou acidental, nessas teorias na sua aplicação a Portugal. Conhece o leitor algum político ou algum jornalista que se tenha dado sequer ao esboço do trabalho necessário para inquirir [?] do ponto de erro [?] Não houve nenhum [...] s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 8. Fr. Alonso Cavalheiro disse que virá um rei de nome novo, que não será filho de rei nem de rainha, e que o seu nome não tivera até agora rei nenhum. p.41 ver. Resposta Profética, p.100. Carta de Ant.? Duarte, p.123. p.111—Relação dos Sucessos. 273 — Profecias de Fr. Cristóvão, especialmente trovas 6, 7, 10, 11, 14 e também 18. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 33. Mas o provincianismo tem outro aspecto, um pouco mais provinciano. Não se pode ser adulto com uma mentalidade análoga à da criança sem com isso sofrer qualquer coisa. Assim vivemos em aldeia em Portugal inteiro. Conhecemo-nos todos, ou é como se nos conhecêssemos. Por isso avaliamos do trabalho de um ou de outro segundo a nossa simpatia ou antipatia por ele — simpatia ou antipatia baseadas em elementos totalmente estranhos a esse trabalho: aspecto físico, rivalidade pessoaI, política. Se falar em António Correia de Oliveira a um republicano, por culto que seja, já sei que dirá mal dele como poeta, porque é conservador. Se falar de Aquilino Ribeiro a um monárquico, por culto que seja, já sei que dirá mal dele, porque é radical. E se em um caso ou outro não disser mal, é porque sucede ser amigo dele. Assim tudo se traduz, em fim, numa política de campanário arruinado. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 7. Obras Inéditas do Padre António Vieira.—Tomo I.—Lisboa, J. M. C. Seabra & T. Q. Antunes — 1856 p.117, diz Solutivo: Allá verrá de Lixbona Uns illustre persona, Cuja fama já resona Por toda a parte e lado En el mundo dará gram brado. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 35. O NACIONALISMO LIBERAL O liberalismo é a doutrina que mantém que o indivíduo tem o direito de pensar o que quiser, de exprimir o que pensa como quiser, e de pôr em prática o que pensa como quiser, desde que essa expressão ou essa prática não infrinja directamente a igual liberdade de qualquer outro indivíduo. Nesta definição há que reparar numa palavra que nela é de capital importância — o advérbio “directamente”. O jogo corrente da vida social faz que constantemente estejamos coarctando a liberdade alheia; fazem-no porém indirectamente. O comerciante que vende um produto mais barato do que outro comerciante está indirectamente coarctando a liberdade de vender a que o outro tem direito. Ninguém dirá, porém, que com isso infringe os princípios liberais, pois a restrição de liberdade, que o prejudicado sofre, resulta, não da acção do prejudicador, mas da acção das leis económicas. Outro exemplo, já da esfera intelectual, tornará isto absolutamente claro. Certo poeta publica um livro, dois livros, três livros, e, por qualquer motivo, que no caso não importa, cria certa fama e proveito. Leio os livros desse poeta e verifico para mim, com razão ou sem ela, que os livros são maus, e que, portanto, é injusta a fama e a venda que têm. Nesse senti do escrevo um artigo, justo ou injusto, em que demonstro, de modo que impressiono o público, que esse poeta é sem mérito e os seus livros sem valia. O público, impressionado, concorda; deixa de comprar os livros do poeta. O poeta só perde a fama e a venda, mas, em virtude de as perder, fica sem editor que lhe publique os livros. Resulta do meu artigo que amordacei esse homem, que evitei que ele pudesse exprimir publicamente o que pensa; fi-lo com a mesma segurança com o que a faria uma proibição de publicar de uma missão de Censura ou de um ministro qualquer, e com a agravante que ele não pode chorar-se mártir ou lamentar-se vítima. Violei com isto os princípios liberais? Não violei. Não lhe estorvei directamente a liberdade de exprimir o que pensa, como o teria feito a hipotética Censura ou o hipotético ministro. Estorvei-a indirectamente. Quem a estorvou directamente foi o público, ou, antes, através do público, uma lei intelectual exactamente análoga à lei económica que limitou a liberdade de vender do comerciante mais careiro. Até aqui o caso vai claro. Começam agora a surgir complicações. Pergunta-se — e a Sociedade em abstracto, e a Nação em geral? Não poderá a acção de um indivíduo, ou a expressão do pensamento de um indivíduo, sem directamente afectar a liberdade de outro, afectar todavia a segurança, e portanto em certo modo a liberdade, da Sociedade ou da Nação? Não resultará daí, reflexamente, qualquer circunstância que diminua o indivíduo em si mesmo? Ponhamos de parte, desde já, o segundo caso. Se de qualquer acção minha, ou expressão de pensamento meu, resulta, através de prejuízo para a sociedade ou o país, um prejuízo reflexo para o indivíduo, esse prejuízo reflexo é, por isso mesmo, indirecto quanto a mim, que fui a fonte e origem dele. Por o que diz respeito a todos esses indivíduos afectados em sua liberdade, ou diminuídos em sua personalidade, o mal que causei foi indirecto. Não violei portanto, quanto a eles, os princípios liberais. Resta saber se os violei quanto à Sociedade ou à Nação. A dificuldade começa em que, ao passo que todos sabemos o que é um indivíduo, que é um produto natural, vivo e visível, ninguém poderá dizer ao certo o que seja Sociedade nem o que seja Nação. Não compliquemos, porém, o problema: suponhamos que sabemos todos o que é Sociedade, que sabemos todos o que é Nação. Para que haja da parte do “culpado” violação dos princípios liberais, é preciso demonstrar que ele violou a liberdade da Sociedade ou a liberdade da Nação, ou, por extensão, que — em risco uma ou outra dessas liberdades. Que vem a ser, porém, a liberdade de uma Sociedade ou a liberdade de uma Nação, quaisquer que sejam os sentidos que essas duas palavras comportem? Como, seja cada qual o que for, nem a Sociedade nem a Nação é um indivíduo, não se trata de afectar, ou poder afectar, a sua capacidade de expnmir como quiser o que pensa ou, até, de agir como quiser, pois nem a Sociedade nem a Nação têm cérebro, com que pensem, ou corpo com que, depois de pensar, executem o que pensaram. A liberdade, porém, tem uma condição — a segurança. De nada serve que me concedam a liberdade de publicar um livro qualquer se, depois de publicado, mo apreendem ou, de qualquer modo, me coarctam a liberdade de o vender ou distribuir. Ora, se o conceito de liberdade não é aplicável à Sociedade nem à Nação, é-lhes todavia aplicável o conceito da segurança, condição da liberdade. Temos pois que, à luz dos mesmos princípios liberais, o indivíduo não tem o direito de afectar, por actos ou expressões de pensamentos, a segurança da Sociedade ou a segurança da Nação. Continuando ainda sem definir, pois no caso não é necessário, o que seja Sociedade ou Nação, o certo é que não é difícil ter uma ideia clara do que sejam as seguranças de uma e de outra. Para qualquer actividade que tenha ou possa ter, a Sociedade precisa de uma segurança, a Ordem, pois sem esta nenhuma actividade se pode desenvolver, ou se pode desenvolver útil ou coordenadamente. Para qualquer actividade que tenha ou possa ter, a Nação precisa de uma segurança, o Prestígio, e por esta palavra deve entender-se tanto o prestígio perante si mesma, e os indivíduos que a compõem, como o prestígio perante as outras nações e os indivíduos que as formam. Não é portanto lícito, ante os mesmos princípios liberais, praticar qualquer acto, ou exprimir qualquer pensamento, com que possam sofrer a Ordem interna do país, como sociedade, ou o prestígio interno ou externo do país, como nação. Os mesmos princípios liberais estabelecem, porém, uma reserva em um caso e outro. Para que essa ordem interna haja que ser respeitada, tem que ser estabelecida e mantida sem violação das liberdades individuais. Para que esse prestígio da nação possa ser respeitado, tem que ser estabelecido e mantido sem que com ele sofra limitação o legítimo prestígio que possa ter cada indivíduo. Uma tirania pode manter a ordem, mas não pode exigir do indivíduo que respeite uma ordem tiranicamente mantida. Uma nação pode prestigiar-se interna e externamente por meio de guerras, mas não pode exigir do indivíduo que respeite um prestígio assente necessariamente na violação do mais fundamental dos seus direitos, que é o direito à vida, na mais fundamental das suas liberdades, que é a de viver. O liberalismo, pois, assim como condena e não respeita a ordem que se apoia na restrição dos direitos individuais, condena e não respeita o prestígio nacional que assenta na guerra agressiva. Se se alegar que essa tirania pode ser tornada necessária pelas circunstâncias, ou — aqui a alegação será mais difícil de sustentar — que essas guerras podem ser forçosas pela mesma razão, responde-se que isso é argumentar com excepções, promovendo-as abusivamente a regras. O ser necessário, imprescindível, até, o uso da morfina num caso de doença não implica a defesa da morfinomania como modo de vida. As mais liberais das constituições permitem, em casos excepcionais que enumeram ou resumem, a suspensão das chamadas garantias constitucionais, que essas mesmas constituições estabelecem e promulgam [?].Mas de o facto de essas suspensões de garantias terem sido de onde em quando necessárias, e de onde em quando úteis e proveitosas, não há que concluir que a sua existência permanente seja necessária, ou que a sua duração indefinida seja proveitosa. Todas as regras têm excepções, mas, se uma regra se disser composta só de excepções, diremos, e é mais simples dizer, que não há regra. Cumpre ainda que nos acautelemos com uma outra, e indispensável, reserva. Dissemos nós que não é lícito, ante os mesmos princípios liberais, praticar qualquer acto, ou exprimir qualquer pensamento, com que possam sofrer a ordem interna do país; como sociedade, ou o prestígio interno e externo do país, como nação. Não esqueçamos, porém, aquele advérbio “directamente”, que desde o começo salientámos. Para que esse acto, ou expressão de pensamento, seja ilícito, é mister que afecte directamente os dois elementos que se mencionaram. É mister que haja, no primeiro caso, incitamento directo à desordem; que haja, no segundo caso, desprestígio directo da nação. Pode dizer-se, com certa razão, que a Revolução Francesa (não em suas causas profundas, é certo, mas em sua causa superficial) procedeu do Contrato Social de Rousseau; o Contrato Social, porém, não é um incitamento à desordem, nem teria contribuído para a produzir, em qualquer grau, se não fosse a tirania do Antigo Regime e dos grandes senhores, causa verdadeira da Revolução. Tanto é este o critério lógico e sensato que em Inglaterra nenhum orador de comício sofre por dizer que deve ser abolida a monarquia; se, porém, se lembrar de dizer aos seus ouvintes que venham com ele dali aboli-la, ou assaltar o palácio real, vai, apesar de estar cantando musical celestial, completar o seu discurso para a esquadra mais próxima. Do mesmo modo, se, por exemplo, um italiano emigrado algures atacar, perante estrangeiros, Mussolini como tirano da Itália, nada faz de ilícito, em nada ataca a sua pátria, antes, a seu modo, a defende; se, por qualquer aproveitamento indirecto do que disse, o ataque a Mussolini atinge também a Itália, não é sua a culpa, nem ilícito o acto que praticou. Se porém, esse ataque a Mussolini envolve directamente um ataque à Itália, ou porque ela presumivelmente o apoia, ou porque ela cobardemente o aceite, deixa a expressão de opinião de estar dentro de seus justos limites, extravasa para um ataque antiliberal à nação, porque o é contra o seu prestígio, que corresponde ao que no indivíduo seria a liberdade. As objecções, que até aqui tenho previsto, e a que tenho respondido, são as que podem ser postas ao lado antiliberal. Mas do campo liberal podem também partir objecções ao que tenho exposto. Pode alegar-me um liberal estreme que saí fora do campo do liberalismo ao entrar em conta com a Sociedade e a Nação, pois que, não sendo nenhuma delas um indivíduo, e não tendo o liberalismo que ver senão com indivíduos, nenhuns deveres tem o indivíduo para com a Sociedade nem para com a Nação. Pode alegar-me que, não havendo realidade viva, social, senão o indivíduo, os males que podem advir da desordem social ou do desprestígio nacional não são sensíveis senão pelo indivíduo; e que, portanto, e segundo meu próprio argumento, quem os produz os produz indirectamente, pois é da sociedade e da nação que se reflectem sobre os indivíduos que as compõem; de onde o não haver acto antiliberal no incitamento à desordem, ainda que directo, nem no desprestigio da nação, ainda que consciente e proposi- tado. Pode alegar-me que, onde quer que os direitos do indivíduo sejam postergados ou violados, é legítimo atacar os que os violam ou postergam; que, portanto, onde a desordem possa trazer qualquer coisa de mais liberdade que a ordem factícia, se não deve hesitar ante a promoção da desordem; que onde a nação, por meio de uma guerra agressiva, viola os direitos dos indivíduos de outras nações, não falando já nos dos dela mesma, merece ser atacada sem piedade, acima de todo sentimento de patriotismo, pelo crime que comete contra os direitos do indivíduo que, como tal, não pertence a nação alguma, mas a uma espécie animal a que se chama a humanidade. Estes argumentos são, no campo abstracto e filosófico, irrespondíveis. Não o são, porém, no campo concreto e científico. Esse animal chamado homem, ou indivíduo, é, como todos os outros animais, produto da hereditariedade e do meio. Ora a nação é duplamente parte do meio de que o indivíduo é parcialmente produto: é (a não ser que ele nascesse no estrangeiro e ali fosse inteiramente criado e educado, e nesse caso continua a ser a mesma influência, salvo que a nação é outra, a estrangeira, e o indivíduo em parte estrangeiro adentro de si mesmo) o meio directo em que nasceu, se criou e foi educado; é parte da sua hereditariedade, pois seus antepassados sofreram a mesma influência nacional, e através do seu sangue a transmitiram ao descendente. Pode, pois, dizer-se que, salvo as raras excepções de educação inteiramente estrangeira e no estrangeiro, o indivíduo é composto de um terço de animal (a parte que organicamente lhe vem dos pais) e de dois terços de nacional (as duas partes que espiritualmente lhe vêm da nação a que pertence). Ora o elemento hereditariedade contém em si dois elementos — a hereditariedade, propriamente dita, pelo qual o indivíduo se parece com seus pais ou ascendentes, e o que chama a variação, pelo qual ele se não parece com eles e é, como é, um ente novo. À medida que se sobe na escala animal, vai o elemento variação tendo maior importância: um homem difere dos seus antecedentes muito mais do que um cão. Quando a variação assume, o que é anormal, uma nítida preponderância sobre a hereditariedade, dá-se um de três casos: ou o indivíduo é um doente, físico ou mental, dado que a doença não seja herdada; ou o indivíduo é um criminoso, sem que haja tendências criminosas nos seus antepassados; ou o indivíduo é um homem de génio, pois o génio se não herda, mas tão-somente a grande inteligência. No indivíduo normal, no nosso estádio evolutivo, pode dizer-se que estão em equilíbrio os dois modos da hereditariedade, como se pode dizer que estão em equilíbrio as influências da hereditariedade e do meio. Para que um indivíduo sinta que pode legitimamente afectar, ou tentar afectar, a segurança, isto é, o prestígio, da nação a que pertence, há pois mister que a dupla influência do meio seja superada ou pela da hereditariedade propriamente dita ou pela da variação. Assim o sentimento do indivíduo não sentirá em si mesmo estorvo ou dúvida em proceder contra os que são, ou deveriam ser, os seus naturais instintos sociais. Segue, pois, que esse género de indivíduo ou é um inferior, análogo aos animais, em que a hereditariedade prepondera sobre o meio (aqui é a hereditariedade a superar o meio), ou é um louco, um criminoso ou um génio (aqui é a variação a superar o meio). Ora dada a escassez de homens de génio, os que, sob qualquer pretexto — quase invariavelmente estúpido — que seja, procedem de modo que afectem, ou possam afectar, o prestígio interno ou externo da sua pátria, ou são tipos inferiores e animais do homem, arrastados — pois a sua personalidade, que é nula, espontaneamente nos pode conduzir a isso — por pseudo-ideias ou pseudo-ideais que tenham um apelo directo à sua animalidade; ou são degenerados mentais (loucos e semiloucos) ou morais (criminosos ou quase). s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 83. Paráfrase e Concordância de algumas profecias de Bandarra, sapateiro de Trancoso.1603. 8.º (sem lugar de impressão) Trovas do Bandarra, apuradas e impressas por um grande senhor. Nantes,1644. (Edição de Barcelona,1809.) Bandarra descoberto nas suas trovas. Colecção de profecias mais notáveis, respeito à felicidade de Portugal e caída dos maiores impérios do Mundo. Londres,1810. Explicação do terceiro corpo das profecias de Gonçalo Eanes de Bandarra, começadas a verificar no reinado do Sr. D. João V, e acabadas no reinado do Sr. D. Pedro IV. Porto, 1852. Folh. 8.º gr. de 54 pp. (Várias cópias mss. na Biblioteca Nacional de Lisboa.) Ressurreição de Portugal, por Fernão Homem. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 36. O melhor regime político é aquele que permita com mais segu rança e facilidade o jogo livre e natural das forças (construtivas) sociais, e que com mais facilidade permita o acesso ao poder dos homens mais competentes para exercê-lo. E escusado acentuar que esse regime variará de nação para nação, e, em cada nação, de época para época. Sucede com o regime democrático que, tendo, por sua mesma natureza, a primeira vantagem, é, por essa mesma natureza, o pior com respeito à segunda. A sua base liberal, dando azo a que as forças individuais se expandam sem constrangimento, garante a plena valorização destas forças, quanto nelas caiba. Mas o basear o seu sistema de governo num apelo a minorias, forçosamente ignorantes e incultas — ou absolutamente, ou pelo menos, em relação ao resto do país — faz com que o acesso ao poder seja quase limitado a homens dotados para dominar ou sugestionar as minorias, e as qualidade exigidas para esse fim não são as mesmas — são até por vezes contrárias — às que são exigidas para o governo da nação. Se a transmissão de poderes da maioria para o governo tivesse nos dominadores e sugestionadores das maiorias, não o seu termo, mas um ponto intermédio — isto é, se os eleitos do povo fossem, não seus governantes, mas apenas os que escolheriam os governantes, eleitos não para governar mas para escolher —então se poderia admitir uma certa facilidade de acesso ao poder de homens competentes para exercê-lo. Não se pode porém esperar da fraqueza e do egoísmo humanos que os capazes de dominar empreguem essa capacidade simplesmente para fazer dominar outros; nem a vaidade que serve de base a toda a capacidade de domínio deixa de convencer o dominador da sua capacidade de governar também. O homem que domina multidões num comício facilmente se capacita que dominará números num orçamento. É um absurdo como lógica, natural como psicologia. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 79. MATTER AND FORM There are 2 fundamental conditions of existence: one of these is time and the other is space. Through each of these the Unknown is manifested. Through Space its condition — is pure Matter, primary matter. Pure matter has no duration. When there is duration there is change; and pure matter cannot change: for if it change what is it to change to? To something other than matter. But then it is no longer pure matter, it exists no longer by space. If it cannot change in itself, it must (appear to change), bear change in itself. But to bear change in itself it must admit a «changeness», (a principle of change). This must be the pure result of extension and of duration. This is Form. 1907? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 37. LIBERTEMOS O NACIONALISMO DOS SEUS AGREGADOS ESPÚRIOS O verdadeiro patrono do nosso País é esse sapateiro Bandarra. Abandonemos Fátima por Trancoso. Esse humilde sapateiro de Trancoso é um dos mestres da nossa alma nacional, uma das razões de ser da nossa independência, um dos impulsionadores do nosso sentimento imperial. Esse Bandarra é a voz do Povo português, gritando, por cima da defecção dos nobres e dos clérigos, por cima da indiferença dos cautos e dos incautos, a existência sagrada de Portugal. Quando António Vieira quis basear em qualquer coisa a sua fé natural nos destinos superiores da Pátria, que coisa foi a que encontrou? As profecias desse sapateiro de Trancoso Amou-as e as comentou o maior artista da nossa terra, o Grão-Mestre, que foi, da Ordem Templária de Portugal. O Bandarra, símbolo eterno do que o Povo pensa de Portugal. Que Portugal tome consciência de si mesmo. Que rejeite os elementos estranhos. Ponha de parte Roma e a sua religião. Entregue-se à sua própria alma. Nela encontrará a tradição dos romances de cavalaria, onde passa, próxima ou remota, a Tradição Secreta do Cristianismo, a Sucessão Super-Apostólica, a Demanda do Santo Graal. Todas essas coisas, necessariamente dadas em mistério, representam a verdade íntima da alma, a conversação com os símbolos, [...]. Citam-se quadras populares, melhores ou piores, como sendo a voz do Povo. A voz do Povo, porém, não falou nunca tão alto como na voz do Bandarra. Quebrar com Roma. Quebrar com a ideia monárquica. Quebrar com a ideia de Pátria como entidade oposta a qualquer outra coisa neste mundo. Quebremos com Roma. Deitemos fora esse fardo de trevas e de desalento que há séculos pesa, mais ou menos, sobre as nossas inteligências e sobre as nossas decisões. Não precisamos dos sete montes de Roma: também aqui, em Lisboa, temos sete montes. Edifiquemos sobre estes a nossa Igreja. Deixemo-nos de importar Deus, porque Deus [...] esse nacionalismo inquinado de fé católica, esse patriotismo viciado de uma religião estranha. O selvagem, que na África dos sertões sacrifica ao seu manipanso, o [...]— cada um está dizendo a mesma coisa, servindo-se da voz que tem. Todas as religiões são, afinal, uma só religião. Não importa o que crês, disse Carlyle, senão o como o crês. Mas já antes o Povo o dissera, em sua grande e simples linguagem — o nosso Povo: Deus escreve direito por linhas tortas. Nunca eu pensaria em ir desviar um negro do seu manipanso, ou um índio ignorante do seu ídolo, porque, além de me não ter dado Deus a verdade, com que possa desmenti-los em seu culto, não sei se Deus não estará falando com eles mais apropriadamenteo por meio daqueles símbolos, do que eu lhes poderia falar por meio de outros, que compreendo mas eles porventura não compreenderiam Repudio, por isso, tudo quanto seja missões religiosas, ou tudo quanto tente falar a um homem, como verdade, uma linguagem que ele não pode compreender. Não queremos estrangeiros. No sentimento patriótico não deve existir elemento que não seja nosso. Expulsemos pois o elemento romano. Se há que haver religião em nosso patriotismo, extraiamo-la desse mesmo patriotismo. Felizmente temo-la: o sebastianismo. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 52. TEORIA DA REPÚBLICA ARISTOCRÁTICA A. De toda a teoria de qualquer modo de organização exigem-se três coisas: (1) que seja adaptada à ideia de sociedade; (2) que esteja na linha evolutiva da civilização do seu tempo; e (3) que esteja de acordo com o temperamento do povo a que se destina que seja aplicada. Será a melhor teoria destas portanto: (1) aquela que mais se adapte à ideia de sociedade, isto é, que mais ajude o que quer que seja que representa a vitalidade social. (2) que mais de acordo esteja com o estado presente e tendências evolutivas da sociedade contemporânea, a que mais se integre no espírito e nas tendências da civilização contemporânea; porquanto: (1) integram o povoa que se destinam nessa civilização. (2) (...) e (3) que mais se adapte ao temperamento do povo a que se pretende aplicá-la. O 1.º caso determina se a teoria é viável. O 2.º caso determina se a teoria é boa. B. Uma teoria da organização social peca contra a ideia da sociedade quando: (1) envolve ignorância dos princípios essencialmente constitutivos de uma sociedade — que são, que uma sociedade é composta de indivíduos e que esses indivíduos no seu conjunto formam um todo que não é uma mera soma; (2) pretende eliminar da existência social elementos que as sociedades têm fatalmente que ter (uma teoria que quisesse suprimir a arte e a guerra); (3) pretenda levar a sua acção fora do seu papel de mera organização social, querendo por exemplo alterar a sociedade nos seus fundamentos. C. Uma teoria viola o princípio de civilização quando: (1) (...) (2) (...) (3) (...) [...] Um sistema de organização social como é bom? Ora numa sociedade as autoridades que representam a sua vida: (1) ou são praticadas por indivíduos separados — como a arte; (2) ou por indivíduos como membros de um grupo não de acção propriamente social — como a política — (porque a política cinde por sua natureza a sociedade); (3) ou por indivíduos ou membros da sociedade cuja actividade não é senão social — como o comércio e a indústria, cuja mera natureza é já social, que não podem combater a sociedade. Ora é evidente que numa sociedade tudo quanto tenda a cindi-la e quebrá-la em indivíduos contribui para a primeira destas actividades; tudo, quanto tenda a organizá-la em grupos contribui para a sociedade, tudo quanto a (...), tende para a [...] Resta saber qual deve preferir-se nessas tendências [...] É sabido, por evidente, que todos os três modos de acção social devem ser promovidos, resta averiguar como dependentemente; isto é, de que modo esses três modos se hierarquizam, para que, na hipótese de uma concentração de esforços num desses modos, para esse preferivelmente, lucidamente se dirijam, e para que, fora dessa hipótese (mera hipótese, aliás), saibamos como hierarquizar esse esforço. Com respeito à Época: (1) quais são as tendências intelectuais que subjazem às modalidades gerais da vida social contemporânea? (R. — tendência para a Crítica — tendência para o luxo, a visão entre a arte (...) — Daí antimonarquia, mais aristocratismo). (2) Quais são as tendências definidamente políticas modernas? (Democracia — e a tendência para a disciplina). (3) Quais são as tendências (económicas), etc.? — (...) s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 81. 1. É Bandarra um nome colectivo, e designa, não um só homem, o primeiro português que teve a visão profética dos destinos do país, senão também aqueles outros, que se lhe seguiram, e que, servindo se do seu tipo de visão e da sua forma literária, buscaram legitimamente o anonimato designando as suas trovas como sendo do Bandarra também. A identidade do tema, a semelhança dos processos, proféticos como literários, a perfeita continuidade espiritual dos sequazes com aquele a quem seguiram, justificam que aceitemos, para a simplicidade da alusão, a designação “Bandarra” como distintiva do autor destas profecias. 2. As profecias do Bandarra, tomado o nome naquele sentido, constam de três partes, ou de cinco corpos, conforme a divisão que se prefira. A primeira parte coincide com o primeiro corpo; a segunda inclui os corpos segundo e terceiro; a terceira os quarto e quinto. São relativamente curtos o terceiro e quarto corpo, curtíssimos o último e, ainda mais, o segundo. O primeiro é o mais extenso, o mais variado, o de texto menos certo e, em parte por isso, mas também em parte pela natureza dos seus dizeres, o de mais difícil interpretação. Esta dificuldade de interpretação é de certo modo extensiva ao quinto corpo. A presente edição inclui só a parte média das profecias, ou seja os corpos segundo, terceiro e quarto; são aqueles cujo texto está bem apurado, cuja publicação pode portanto ser feita sem receio, e, com a publicação assim feita, por igual feita sem receio a interpretação que lhe convém. 3. A interpretação, que vai ler se, não me pertence; nela tenho parte somente na redacção. Ignoro, por isso, por que processos se guiaram os seus intérpretes. Importa, de resto, saber tão somente se a interpretação é certa no que diz respeito ao passo, aceitável no que diz respeito ao futuro. O único elemento auxiliar que posso fornecer, para a compreensão dessa hermenêutica, é o que exponho nas considerações que seguem, em as quais disserto, de sumário modo, sobre a natureza geral da interpretação profética. Temos o fenómeno protestante. Mas esse, se bem que menos estrangeiro, é estrangeiro também. Não nos põe sob o domínio e a acção de um potentado temporal europeu, mas o facto é que não nasce da nossa alma nacional, nem tem força de acção que se identifique com as forças do nosso temperamento, popular sobretudo. Resta um fenómeno: o sebastianismo. Esse é nacional — mais nacional é impossível exigir —, é popular, porque ninguém sabe como ele nasceu nem de quem. É misterioso, porque no mistério está envolto o desaparecimento de D. Sebastião. 4. O movimento saudosista e a sua base sebastianista. O saudosismo está criando a base intelectual e moral ao sebastianismo, puramente popular. 5. Como implantar o sebastianismo? Se ele tiver de se implantar aparecerá quem o pregue. Mas qual deve ser a acção dos intelectuais? Tripla: (l) atacar o catolicismo, mas atacá-lo sempre com a insinuação do elemento nacional, sempre lembrado, nos interstícios do ataque, a figura nacional de S. Sebastião; (2) criar a atmosfera moral necessária ao saudosismo, base do sebastianismo; (3) alargar a acção deste. ó. A divinização da Saudade. Pascoaes está criando maiores coisas, talvez, do que ele próprio mede e julga. A alma lusitana está grávida de divino. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 51. Primeira parte das “Trovas” Primeiro Corpo. 1. 8 oitavas;      3 2. 9 oitavas;      3 3. 13 oitavas;      4 4. 50 quintilhas (5 mais);      12 5. 16 oitavas;      5 ó. 19 estrofes de 10 e de 12 versos;      8 7.10 oitavas e uma quadra;      4 8. 7 quintilhas.      2 Segundo Corpo. 25 quadras.      4 Terceiro Corpo. 37 quadras, com sete divisões.      12 57 Segunda Parte das “Trovas”. 1. 14 quintilhas;      3 2. 75 quadras;      8 3. 38 décimas.       4 pp.72 s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 42. Nunca dizes se gostaste Nunca dizes se gostaste Daquilo que te calei. Sei bem que o adivinhaste. O que pensaste não sei. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 42. TROVAS DO BANDARRA [a] Primeiro Corpo das «Trovas» 1. Dedicatória do Autor a Dom João de Portugal, Bispo da Guarda. 2. Sente Bandarra as Maldades do Mundo e particularmente as de Portugal. 3. Sonho Primeiro, que finge a moda pastoril. (Começa na trova XXI — pág. 22 —, e continua até LXVII — pág. 32 — ; pertence-lhe também o complemento que consiste das trovas LXXXII a LXXXIV inclusive. Está incompleto este sonho pastoril.) Segue com os “Judeus” (tr. LXXXII a IV). 4. Prognostica o autor os males de Portugal, canta suas glórias com a aclamação do rei encoberto. (Começa na trova LXVIII, a pág. 33, continua até trova LXXXI, a pág. 36, depois seguem as trovas XIX e XX, a pág. 22, e depois as trovas XCV a XCVIII, inclusive, a pág. 41, e aqui termina.) 5. (Uma espécie de segunda parte do “Sente Bandarra” — supra n.º 2.) (Começa com as trovas XVII e XVIII, segue com as trovas CXXXVI a CLIX, págs. 49 a 53, e aqui acaba.) ó. O chamado “Sonho Terceiro”, que vai da pág. 44 (trova CIX) a pág. 48 (trova CXXVIII). (Falta metade da trova CXXV, provavelmente.) 7. O chamado “Sonho Segundo”, que inclui — em que ordem mal se pode dizer — as trovas XCIV, depois XCIX a CVIII (sendo esta a última do sonho), e também as trovas LXXXV a XCIII. 8. Resposta do Bandarra a algumas perguntas que lhe fizeram. __________________ Segundo o Terceiro Corpo das Trovas — como estão na edição do Porto, 1866. __________________ Segundo Livro. p. 56 et seq. 68. O “mal-francês” é o mal produzido pelos franceses, isto é, as invasões francesas. Depois delas ficou Portugal em subordinação da Inglaterra, a “leoa”, em cujo poder receia o Bandarra que Portugal fique. (Falta o 3.º sentido.) 69. O «leão espanhol» é a Espanha aspirando a dominar, ou a império; sem essa significação, a Espanha, ou Castela, são apenas a «grifa». «Vir quasi a Portugal» indica que ou não declara guerra, embora pense em obsorver-nos, ou que, havendo guerra, não chega, ou mal chega, a invadir-nos. No 1º caso refere-se o Bandarra à atitude da Espanha aquando da primeira invasão francesa; no 2º às pretensões da Espanha durante a guerra europeia recente, em que, mais de uma vez, quer com imitação, quer com apoio, dos alemães, a Espanha pensou em tomar Portugal. O «querer luzir como o sol» refere-se, no 1º caso, à atitude que tomámos, ao lado da Inglaterra nossa aliada, atitude que, embora explicável, excedia, como as invasões provaram, as nossas posses de Estado e organização. Não é mister acrescentar o que no 2º caso estas palavras significam; a fortiori se aplica aquela expressão à nossa intervenção na guerra europeia, em que foi, com efeito, «o nosso mal», querer fazer figura de nação importante, intervindo no teatro central da guerra. 70. Quando a desgraça ou infortúnio (neve) como brasa — como se fosse entusiasmo, ou o contrário de infortúnio, extinguir em nós (queimar) todos os sentimentos naturais (plantas, que nascem na terra), então: dos cinco poderes do Estado (Rei, Ministros e Executivo todo, e os três estados das cortes, clero, nobreza e povo) dois se hão-de ajuntar (Executivo e Povo), sem que seja por vitória de concorrência legítima (jogo) no país (casa), mas por violência (revolução) — 1º caso, a revolução de 1820 em que, embora não fosse eliminado o Rei, ele se não juntou a ela, nem estava cá (para que pudesse, mesmo que quisesse, juntar-se), 2º caso, a revolução de 1910, em que Rei, Clero e Nobreza desapareceram do governo. 71. (...) «Depois de morto o segundo» . 3.º pé Terá o leitor reparado que, nas profecias directamente referentes ao processus imperial português, se diz que por duas vezes falha a tentativa imperial, embora de cada vez, deixe de si qualquer coisa para ser continuada pela tentativa seguinte, sendo a última a que se realiza. O império de conquista falha, mas sem o império de conquista não poderia o império cultural buscar apoio, pois não teria ideia de império alguma em que se apoiasse. O império de cultura falha, mas, sem esse império de cultural, não teria o Quinto Império âmbito com que cingir aquela universalidade dos homens e das coisas em que, sob a égide de Cristo, fechará o ciclo cristão, ou o do mundo, se houver verdade no conceito que identifica o cristianismo com a história do mundo. Por estas razões não parece, em verdade, absurdo, que se interprete o verso «Depois de morto o segundo império» como querendo dizer, não «depois de morto o segundo império», mas depois de falhada, ou morta, a segunda tentativa portuguesa de império; em outras palavras, depois de caído o império cultural. Captive prinse mourir mort miserable, Sera trouvé avoir les mains rongées, segundo Nostradamo. E, em verdade, é esta a interpretação que mais se casa com a lógica da quadra, conforme a exprimem os pés anteriores. Há, em ambos os outros pés, seguimento dinástico: num caso segue D. Manuel o Primeiro a D. João o Segundo, em outro caso segue D. João o Quinto a D. Pedro o Segundo. Há descendência dinástica directa tudo adentro de Portugal. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 43. IMPERMANENCE First comes the choice of authors. Gradually, the lesser ones, the derivate ones, will fall back, and the outstanding personalities come to the fore. The works of these, then, shall be themselves sifted, and the natural choice, which took place among authors, shall come to happen to the poems of each author who has survived. An anthology shall be born for each nation — an over-rich, yet no longer a questionable anthology. A final sifting will narrow this to the permanent best. Thus will the gradual sentence of the ages be passed, and fame narrow down from author to anthology, and from the larger anthology to the smaller one. For a mind that looks, beyond the externals of the present, to that immortal substance of Beauty which keeps herself shut from what passes, and whose secret is only told to ears closed to the sounds of life and of fame — to a mind like this the unborn trail of the process is simple to foresee. It were [?] a harder, to some great [?] extent a useless, though [...] an uninteresting task, to determine, by colour [?] of critical likelihood, which of the authors, past or present, of our civilisation can hope for the forum of the gods (ultimate men). Yet if we have ever present those principles which are the embalmers of written beauty, the donors of perennity, and the statuaries of immortal fame, we shall be sure of some books, of some poems, though some others will make us hesitate. It does not take a very long consideration to perceive the immortality of Vigny’s Moïse , La Colère de Janson , La Mort du Loup , nor of Keats’ Odes to a Nightingale , to a Grecian Urn , to Autumn , to Melancholy . These poems are as fine as Lycidas and shall live when Venus and Adonis and The Rape of Lucrece shall have gone to human limbo to which all immature beauty is consigned. The “haunting melody” poets will, of course, die altogether. A “haunting melody” is too ghostly to outlive a short succession of presents. The principle of representativeness will save a few works which the principle of perfection cannot of itself let pass. The whole line of boisterous English humour, a unique [?] and obsessing [?] thing, will probably survive only in Pickwick Papers , which [is] all that Dickens can send in for acceptance to the Gods. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 287. IMPERMANENCE It is more difficult to affirm what shall survive by being representative than what shall survive by being perfect, for while perfection has a type and a logic, representativeness exists in direct reference to what is represented, and only in so far as what is represented is important does the representing art survive. But there is the greatest difficulty in knowing what is indeed representative: there is the greatest difficulty in determining what are the important elements to be represented. Representativeness must be general to hope for survival on that score. An artist must sum up a whole age to live out of that. All secondary and perishing artists represent certain currents; but the artist who survives on this score must represent the current at the bottom of all these currents. The common characteristic of all the representative artists is that they include al1 sorts of tendencies and currents. The highest type of this kind of artists is Shakespeare. Keats is a poet of a higher type than Shakespeare, yet Keats was not greater than Shakespeare. Keats was a creator; Shakespeare was only an interpreter. But Keats ranks relatively low in the ranks of the creators; whereas Shakespeare ranks very high — he ranks first, I believe — in the number of interpreters. A magnificent type of poet who will survive by representativeness is Walt Whitman. Whitman has all modern times in him, from cruelty [?] to engineering, from humanitarian tendencies to the hardness of intellectuality — he has all this in him. He is far more permanent than (Schiller or) Musset, for instance. He is the medium of Modern Times. His power of expression is as consummate as Shakespeare’s. (Representative art: The Rig-Veda , the Bible . That is: either a multi-personal poet (dramatical, like W. Shakespeare, or lyrical, like Walt Whitman), or a “collective” poet: the Rig-Veda , or the Bible ). s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 289. IMPERMANENCE A Greek intellect and a modern sensibility. A Greek intellect: even if we suppose that a Greek intellect does not mean an eternal intellect, still the Greek discipline of thought is the scientific basis of all art. A modern sensibility: we cannot maim our emotions to please the (...) Yet our discipline, though Greek in quality cannot be Greek in quantity. Our sensibility is of complexities which antiquity could not even dream of; so our discipline of that sensibility must involve the use of a far higher quantum of intellectual force. The Greeks might feel deeply, or strongly or wildly, but they always felt rationally. Their emotions were born reasonable, even where born fiery and violent. Not only can we not attain to that quality, but we must not; for, if we had the Greek intellect and the Greek feeling, we would be ancient Greeks, not modern Europeans. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 292. The fact is that: 1) there are three scientific languages — English, French and German (that is to say, languages which normally serve to communicate scientific matter to the world and which are read, in point of learning, outside the countries where they are spoken); 2) there are two literary languages — English and Italian; 3) there are three imperial languages — English, Spanish and Portuguese. It is seen that English is the one language that is common to the three types or modes of classification. It may be said that languages can be classified in three ways: scientific or non-scientific; literary or non-literary; imperial or non-imperial. 1930? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 297. O inglês é intuitivo em tudo; o alemão pensador e reflectido. Veja-se, por ex., no espírito prático, como o inglês é espontâneo e como que intuitivamente prático e comercial ao passo que o tudesco o é reflectidamente e (...) (Ver indicações da verdade disto no panfleto sobre a Alemanha publicado pelo Daily Mail). A Alemanha nunca poderá ter um poeta dramático como Shakespeare nem um poeta filósofo como Wordsworth — nem, na verdade, como Antero — por isto que para ser um poeta dramático supremo é preciso ser um intuitivo e não um pensador consciente, como para ser um poeta metafísico — um bom poeta metafísico, entenda-se — é necessário ter uma constituição de místico, isto é, de intuitivo, ou então possuir, como o português, pela sua emoção constitucional, o poder de emocionalizar o pensamento, como o fazia Antero, que não era um intuitivo, mas um pensador e um sentimental; como, de resto, nos mostra a sua forte organização moral. Ora Wordsworth não era um sentimental; apenas o pensamento de todas as espécies se lhe apresentava intimamente sentimento — quer dizer, era um místico. Emerson vê no Fausto, de Goethe, o defeito de ser muito “moderno”. Não é isso que ele sente; a interpretação é má. O que ele realmente sente é que o Fausto não é intuicionado completamente, mas, posto que inspirado, como todos os poemas, pensado e pensado demais. 1915? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 298. SHAKESPEARE The basis of lyrical genius is hysteria. The more pure and narrow the lyrical genius, the clearer the hysteria is, as in the case of Byron and Shelley. But in this case the hysteria is, so to speak, physical; that is why it is clear. In the lyrical genius of the grade above this — that which ranges over several types of emotion — the hysteria becomes, so to speak, mental; either because, as in Victor Hugo, a violent physical health drives it inwards from physical manifestation or (...) In the lyrical genius of the highest grade — that which ranges over all types of emotion, incarnating them in persons and so perpetually depersonalising itself — the hysteria becomes, so to speak, purely intellectual; either because physical health is good but vitality deficient (...) Hysteria takes on different mental forms according to the general temperament with which it happens to coincide (meet). If health be frail in any way, the form of hysteria will be almost physical; and, if the hysteric be a lyric poet, he will sing out of his own emotions, and, the greater number of times, out of a small number of emotions. If health be good or very good, the constitution strong and, except for the hysteria, the nerves fairly sane, the operation of hysteria will be purely mental; and the lyric poet produced will be one who will sing of a variety of emotions without going out of himself — either because, like Goethe, who was of this type, he had a variety of emotions, all, however, personal, or because, like Victor Hugo, he was constantly, though uniformly and monotonously, impersonal and fictitious. If, finally, the constitution be neutral, that is to say, neither strong nor weak, as in the case of a frail but not unhealthy man, the operation of hysteria will become vaguely physical and vaguely mental, neither wholly one thing nor the other, the result will be, in the case of the lyric poet, a mixture of the two others — the capacity to live in imagination the mental states of hysteria, the power therefore to project them outwards into separate persons, in other and more precise words, the psychological ability which goes to make, but does not essentially make, the dramatist. (Shakespeare was then 1) by nature, and in youth and early manhood, a hysteric; 2) later and in full manhood a hystero-neurasthenic; 3) at the end of his life a hystero neurasthenic in a lesser degree; he was also of a frail constitution and of deficient vitality, but not unhealthy. Thus much we have determined already.) 1928? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 299. SHAKESPEARE Great as his tragedies are, none of them is greater than the tragedy of his own life. The Gods gave him all great gifts but one; the one they gave not was the power to use those great gifts greatly. He stands forth as the greatest example of genius, pure genius, genius immortal and unavailing. His creative power was shattered into a thousand fragments by the stress and oppression of like. It is but the shreds of itself. Disjecta membra , said Carlyle, are what we have of any poet, or of any man. Of no poet or man is this truer than of Shakespeare. He stands before us, melancholy, witty, at times half insane, never losing his hold on the objective world, ever knowing what he wanted, dreaming ever high purposes and impossible greatnesses, and waking ever to mean ends and low triumphs. This, this was his great experience of life; for there is no great experience of life that is not, finally, the calm experience of a disillusion. His wavering purpose; his unsettled will; his violent and fictitious emotions; his great, tormless thoughts; his intuition, the greatest that has ever been, seeing right through a thought and expressing it as if the thought itself spoke living an alien life down to its blood and flesh and speaking from it as the man himself could never have done; his power of observation, gathering a whole thing into one paramount aspect; his practical ability born of his quick understanding of things... When the higher faculties of the mind are broken, in abeyance, or sluggish in their operation, the lower one assume an unwonted force. Thus his practical ability was the one thing that withstood the stress and pressure of life and lack of will. He could amass money who strove in vain to amass the completion of created beauty. (If we wish to determine whether he was indeed thus, we have to see whether, towards the end of his life, there is not a growth of abruption in practical things.) He began with two long narrative poems — highly imperfect as narrative wholes, and that is the beginning of his, written when he had yet an instinct to write greater than the intellectual impulse for it. With broadening consciousness, he lost his rapidity (...) Grandes como são as suas tragédias, nenhuma delas supera a tragédia da sua própria vida. Os deuses concederam-lhe todos os grandes dons, salvo um; e esse que lhe negaram foi a faculdade de usar esses grandes dons com grandeza. Destaca-se como o maior exemplo do génio, génio puro, génio imortal e inútil. O seu poder criador quebraram-no em mil fragmentos a tensão e opressão da vida. Não passa dos farrapos de si próprio. Disjecta membra disse Carlyle, é o que nós temos de qualquer poeta ou de qualquer homem. Acerca de nenhum poeta ou homem se pode afirmar o mesmo com mais verdade do que acerca de Shakespeare. Ergue-se perante nós melancólico, espirituoso, por vezes semi-louco, sem nunca pender o seu domínio do mundo objectivo, sabendo sempre o que pretendia, sempre sonhando com altos propósitos e impossíveis grandezas, e sempre despertando para fins mesquinhos e baixos triunfos. Foi esta, esta e não outra, a sua grande experiência da vida; pois não há grande experiência da vida que não seja, afinal, a experiência calma de uma desilusão. O vacilar dos seus propósitos; a sua vontade incerta; as suas emoções violentas e fictícias; os seus grandes pensamentos amorfos; a sua intuição, a maior que jamais houve, que via claro através de um pensamento exprimindo-o como se fosse este que falasse, vivendo uma vida alheia até ao seu sangue e carne, e falando como o próprio homem nunca o poderia fazer; as suas faculdades de observação, reunindo um todo num só aspecto de importância primacial; a sua capacidade prática nascida da rápida compreensão das coisas... Quando as faculdades superiores do espírito soçobram, se encontram suspensas ou funcionam com morosidade, as inferiores adquirem força desusada. Assim, a capacidade prática de Shakespeare foi a única coisa que resistiu a tensão e pressão da vidas e à falta de vontade. Aquele homem, que em vão forcejava por acumular a consumação da beleza criada, sabia acumular dinheiro. Se desejarmos determinar se ele assim era, de facto, temos de verificar se, na fase final da sua vida, não teria havido um maior desajustamento nas coisas práticas. Começou com dois longos poemas narrativos — muito imperfeitos como um todo narrativo, e é aí que desponta o seu segredo — escritos quando o seu instinto de escrever era ainda superior ao impulso intelectual para tanto. Com o ampliar da sua consciência, perdeu a rapidez (.. ) s.d. Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 303. Notes 1. Alteration is of Time. Transference is of space. 2. Critique of Materialism. Materially, the only thing that really exists is the present moment. Rationally it is different. The conclusion to be drawn from fatalism: that what reason knows exists before reason; that is to say, to the human reason the future is present. 1907? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 38. Shakespeare was initially more vain than proud; at the end of his life — or, at least, of his writing life — he became more proud than vain. It is easy to conjecture why: he was unappreciated; what appreciation he had was more insulting than to be enjoyed, for where he was rated well he was not rated high, and, thinking and knowing himself (for this must have done) the greatest genius of his age, he yet saw how whatever appreciation was shown him bulked small in view of the admiration in which Jonson was held, and others smaller than Jonson, and how appreciation no smaller than shown to him was shown to Daniel, to Webster, who knows if even to the Mundays, (“our best plotter”), the Heywoods and the Days. His vanity was necessarily shaken by this, if not abolished altogether; and the tendency to depression fatal in a temperament of which neurasthenia is a component must have achieved the transformation. Pride is the consciousness (right or wrong) of our own worth, vanity the consciousness (right or wrong) of the obviousness of our own worth to others. A man may be proud without being vain, he may be both vain and proud he may be — for such is human nature — vain without being proud. It is at first sight difficult to understand how we can be conscious of the obviousness of our worth to others, without the consciousness of our worth itself. If human nature were rational, there would be no explanation at all. Yet man lives first an outer, afterwards an inner, life; notion of effect precedes, in the evolution of mind, the notion of the inner cause of effect. Man prefers being rated high for what he is not, to being rated half-high for what he is. This is vanity’s working. As in every man the universal qualities of mankind all exist, in however low a degree of one or another, so all are to some extent proud and to some extent vain. Pride is, of itself, timid and contractive; vanity bold and expansive. He who is sure (however wrongly) that he will win or conquer, cannot fear. Fear — where it is not a morbid disposition, rooted in neurosis — is no more than want of confidence in ourselves to overcome a danger. When therefore Shakespeare’s vanity gave way to pride, or, better, when the mixture of much vanity and some pride which was initial in him gave way to a mixture of scant vanity and some pride, he was automatically dulled for action, and the neurasthenic element of his character spread like a slow flood over the surface of his hysteria. The outward intellectual sign of vanity is the tendency to mockery and to the abasement of others. He only can mock and delight in the confusion of others who instinctively feels himself not amenable to similar mockery and abasement. The earlier part of Shakespeare’s work is full of “gulls”; of derision of some figures. He takes part with some of his creations against others (...). This declined towards the end of his written work. Humour supplanted wit. Humour is no more than the consciousness that what is laughable is akin to ourselves. It is born of the opposite of both vanity and pride, that is to say, of humility, of the sense, rational or instinctive, that at bottom we are no more than other men. Humour, if it had a philosophy, would be deterministic. The effect pride he had in checking his vanity, the further checks on that vanity from inappreciation and the insuccess in higher things liberated more and more Shakespeare’s humour. His very pride could not grow because inappreciation dulls pride itself, if pride be not overweening and temperamental, as it was, for instance, in Milton, who, though not very vain, had nevertheless more vanity than he would have liked to have been aware of. (Let us admire, yet never idolise. And if we must idolise, let us idolise truth only, for it is the only idolatry that cannot corrupt, since what idolatry corrupts is truth, and the idolatry of truth is therefore the only one which cannot corrupt (stands self-spended?) Only an overweening and temperamental pride can resist constant inappreciation; some doubt must creep into the mind as to whether its sense of its own worth is really valid. The introspective mind has so often seen its Junos turn out to be clouds that it cannot be shaken in the assurance of so naturally misleading a thing as a man’s appreciation of himself. Inappreciation. — There are things in Shakespeare which a lower Elizabethan might have written in a happy moment; these were surely appreciated. But these are the lesser part of Shakespeare; if he had written but them, he would have been a man of talent, of great talent perhaps, as he essentially was, a man of genius. In so far as he was, not an Elizabethan poet, but Shakespeare, that is to say, in so far as he was what we now admire him essentially for having been, he is sure to have been unappreciated. Those flashes of intuitive expression which in a cluster of words gather the scents of a thousand springs, those sudden epithets that flash down into the abysses of understanding, these, which are our daily astonishment and the reading over of which cannot pall their novelty nor sear their freshness, must have fallen flat on contemporary minds, for it is in these that Shakespeare, like genius itself, was “above his age”. How can an age understand or appreciate what is, by definition, above it? Much of the best he wrote will have been taken for rant, nonsense or madness. We may rest assured that, if we could call up Jonson from the shades and ask him for examples of that (Shakespeare’s) want of art (...), we would be surprised to hear him cite, among things which are perchance rant, many of the jewels of Shakespeare’s greater verse. Yet, as there is an intuition of understanding just as there is one of conception, one as rare and as flash-like as the other, once or twice some of the higher spirits of the age must have caught a sudden glimpse of the transcendency. This would be the worse for the appreciation of the author. Nothing so harms a man in the estimation of others than the sense that he may be their better. To the general and constant sense that he is not their superior there is added the occasional suspicion that he may be, and inappreciation, colourless in itself, takes on the hue of envy, for men envy by supposition, who admire only under certainty. Hesitation as to whether a man may be our better is as unnerving an hesitation as to whether something disagreeable may happen to us; we hope not, but we hope uncertainly. And, as we thereby fear the more the event we half-fear, we, in the other case, dislike the more the man we almost admire. In both cases, we dread the possibility of certainty more than the certainty itself (“we know not if we must admire”). Whether it is only the sense of inappreciation that plays like a gloom over the darker tragedies of Shakespeare’s maturity, it is impossible to ascertain; but it is not likely that such inappreciation should have stood alone in the causation of the melancholy that shows directly in Hamlet that trickles through the phrases of Othello and of King Lear , that, here and there, twists, as if following the contortion of the suffering mind, the very wording of the supreme expressions of Antony and Cleopatra . Inappreciation itself unfolds into several depressive elements. We have first inappreciation itself, secondly the appreciation of lesser men, thirdly the sense that, some effort like that of other men — the learning of one, the connections of another, the chance, whatever it might have been, of a third one, might have conquered the difficulty. But the very genius that causes the initial inappreciation dulls the mind to the activities that could counteract it. The poor and proud man, who knows that he would be less poor if he could but beg or humble himself, suffers no less from his poverty, not only from the better status of men less proud or more fortunate, but also from the impossibility of begging as they or stooping as they to what frees them from a similar poverty. There is then a revolt of the man against his own temperament; doubt sets in towards himself, and, as the poor and proud man may ask himself whether he is not rather unskilled in the things of practice than too proud to descend to them, or whether his pride be not the mask to himself of his incompetence for action, the inappreciated man of genius may fall into doubt whether his inferiority of practical sense is not an inferiority in itself and not only the negative side of a superiority, the defect of a merit which could not exist without that defect. Shakespeare’s case was patently worse. He had stooped the same arts as the lesser men that stood higher than he, as the still lesser men that stood as high as he or very little below him. He had done the same hackwork as they, without having been worn for that hackwork. He had altered and arranged alien plays, and (whatever he may have thought of that, for it is possible he may have repugned that less than we imagine, being both used to it and interated in the environment of that activity, he surely cannot have adapted himself to those conditions to the insane extent of thinking he was thereby doing justice to his great genius or in the right place of action for the possibilities of his mind. By doing what lesser men were naturally doing he had become himself, outwardly at least, a lesser man. Not only had he not revealed himself by thus stooping to the common drudgery; he had masked himself the more. For the learning, which was part of Jonson’s credit with the public, he had, as we have seen, neither appetence nor patience; possibly he even had not time; and he had not received it in early youth, when it is imposed and not sought. From the establishment of influential connections, a humble condition possibly, a lack of disposition certainly, debarred him. To pushing his way among equal, by the social craft of mutual praise and the like, the pride he had, though not great, was too great, and it would have grown against the attempt, and gathered a fictitious force in the misuse (?). He had possibly triumphed and made his way materially, in so far as money was concerned. That also, though agreeable in itself — whatever its exact degree might have been — , must have figured as an ironic comment in the margin of his inappreciation. To fail to be known justly as a poet is not compensated by just success as a shopkeeper. Shakespeare is the greatest failure in literature, and it is perhaps not too much to suppose that he must have been, to a great extent, aware of it. That vigilant mind could not have deceived itself as to this. The tragedy of his unsuccess was but the greater by the mixture with the comedy of his success. All these are but modes and shapes of the inappreciation which he felt. But the depression of spirit, the dulling of the will, the sickening of purpose, which the sense of inappreciation caused, must have made themselves felt on other lines than the direct work for which his mind felt itself born. The will which was dulled for writing must have been dulled also for other ways of action. The depression of spirit must have had outlets other than the figure of Hamlet and the phrasing of the greater Tragedies. The sickening of purpose must have discoloured his life, as it paled his poems and his plays. And the joys untasted, the activities uncared for, the tasks avoided and remitted and hurried away must have recoiled, in their mental effect, upon the depression that engendered them and made greater the dispiritedness which was their cause. To this extent we may justly and confidently go. What else there was, foreign to this, to radicate that depression we cannot now determine; if there were anything. What outward events of an untoward nature can have impinged on that depressed mind, it is useless to try to investigate. Thus much, however, we may say: that those events must have existed. If they had not, the expression of that dispiritedness would have been, not the verbal and psychological content of the Tragedies, but nothing at all. Depression leads to inaction; the writing of plays is, however, action. If may have been born of three things: 1) the need to write them — the practical need, we mean; 2) the recuperative power of a temperament not organically (only) depressed, reacting, in the intervals of depression, against depression itself; 3) the stress of extreme suffering — not depression, but suffering — acting like a lash on the cowering (?) sadness, driving it into expression as into a lair, into objectivity as into an outlet from self, for, as Goethe said, “action consoles of all.” The presence of all three factors can be predicted. The need to write these plays shows in the intensity and bitterness of the phrases that voice depression — not quiet, halfpeaceful, somewhat indifferent, as in the Tempest , but restless, sombre, dully forceful. Nothing depresses more than the necessity to act when there is no desire to act. — The recuperative power of the temperament, the great boon of Shakespeare’s hysteria, shows in the fact that there is no lowering, but a heightening, of his genius. That part of that is due to natural growth, need not, and cannot, be denied. But the overcuriousness of expression, the overintelligence that sometimes even dulls the edge of dramatic intuition (as in Laertes’ phrases before mad Ophelia) cannot be explained on that line, because these are not peculiarities of growth of genius, but more natural to its youth than to its virile age. They are patently the effort of the intellect to crush out emotion, to cover depression, to oust preoccupation of distress by preoccupation of thought. — But the lash of outward mischance (no one can now say what, or how brought about, and to what degree by the man himself) is very evident in the constant choice of abnormal mental states for the basis of these Tragedies. Only the dramatic mind wincing under the strain of outer evil thus projects itself instinctively into figures which must utter wholly the derangement that is partly its own. s.d. Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 306. ESTÉTICA Um exemplo especialmente precioso é o “Lycidas” de Milton. Disse-se, e bem, que esse poema é uma óptima prova para um pretendente a crítico. E é-o sobretudo porque serve de tal prova tanto, para um crítico educado nos princípios chamados “clássicos”, como para um que se sirva de uma atitude mental adquirida no convívio da literatura dos românticos. Johnson, no ensaio sobre Milton, chegou a este ponto, e claudicou. Revelou a sua fraqueza crítica (tantas vezes, aliás, se não desmentida, pelo menos compensada com justas e lúcidas observações) quando, como crítico clássico, ou, melhor dizendo, da common sense school , argumentou contra o carácter factício, artificial, que é inerente àquela elegia pastoril. Outros críticos posteriormente se não houveram inteligentemente para com a elegia de Milton. De uma simplicidade aparente, que se desfaz quando conseguimos perceber a base da erudição que a subjaz, esta elegia parece das coisas mais fáceis de escrever, mas o poeta que se abalançasse a competir com o elegista cedo perderia a ilusão da facilidade com que parece poder-se ter escrito o “Lycidas”. A composição do poema é perfeita, o seu desenvolvimento magnificentemente realizado. Nada parece haver que tenha esforço... Já aqui se notam os característicos fundamentais do génio miltónico. Já aqui se vêem a majestade do estilo, o seu ritmo severo e sereno, o uso dos nomes próprios como estímulo, evocativo como rítmico, para a imaginação, o final, absolutamente calmo, como é de quem segue a grande tradição dos gregos... Comus e Arcades, como depois o próprio, esplendidamente majestoso, Samson Agonistes, pecam pelo que o autor peca como dramaturgo. A visão dramática é quase nula em Milton, a movimentação dramática é quase nula de todo. É o epiconato, que há-de falhar no drama por não poder arcar com ele senão no que é substantivamente narrativa, nunca no que é narrativa vivida. E assim é que Samson Agonistes, onde a forma grega escolhida facilita a narrativização do drama, é de muito superior — posta, mesmo, de parte a experiência adquirida por quem escrevera já dois poemas épicos — a Comus ou a Arcades, onde o que há de superior, aquele pouco de instinto dramático que há em toda a juventude de todo o poeta, não compensa a carência fundamental, de temperamento, de tal instinto. 1916? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 323. ESTÉTICA The Spasmodics Mostram bem a diferença entre génio e talento, entre um poeta nato e um homem culto com imaginação. A beleza esporádica abunda nos espasmódicos, de forma as vezes a perturbar o crítico. Belezas, porém, de todo, não as possui este género de poeta. No homem culto e imaginativo a imaginação é da superfície. Assim escreve poesia querendo muito melhor geralmente do que o verdadeiro poeta. Sirva ,de exemplo o célebre desafio poético sobre o tema NILO entre Leigh Hunt, Keats e Shelley. O resultado foi que os sonetos produzidos foram na razão inversa do valor dos que os produziram: o de Leigh Hunt é o melhor, segue-se depois a alguma distância o de Keats e perto deste, mas ainda assim ainda mais fraco, o de Shelley. Shelley era aliás extremamente rápido e espontâneo na inspiração; veja-se porém em que deu quando quis escrever. Sendo tão espontâneos era de esperar que os espasmódicos fossem bons líricos; é justamente o que não são. São os poetas líricos mais fracos da Inglaterra no século XIX. É nisto que se nota a sua fraqueza: é nisto que se que a sua espontaneidade é a do superficial e não a do imaginativo repentista. Este é sempre um lírico. O espasmódico nunca o é. Tão-pouco são poetas narrativos, nem satíricos, nem de género nenhum. São poetas de frases, algumas extraordinariamente belas, de epítetos, alguns estranhamente aptos — mais nada. Analisando mais compreende-se que esse exclusivismo vem de uma facilidade em se adaptar o exterior no génio dos outros poetas, ou o que de formal bóia no meio artístico e literário; são realmente pasticheurs , mais ou menos hábeis. E o pasticheur é um homem que se adapta o pensamento ou sentimento de outro na sua forma. Se o adapta na sua essência não é já um pasticheur , mas um poderosíssimo intuitivo, que deve enveredar pelo caminho do drama, onde o seu génio deve ter lugar. Essa imitação ou adaptação formal tem de resto seus limites. Se é muito exacta ou muito sustida, já não há imitação formal mas essencial, e temos portanto o intuitivo outra vez. Mas o que caracteriza os espasmódicos é que tem frases esplêndidas, epítetos geniais, rasgos sublimes que são jóias — de diferentes procedências — encastoadas em metal vil. O que melhor escrevem é o soneto. (?) 1913? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 325. Atlantismo Republicanismo: Porque a Monarquia é uma tradição, porque está ligada a Roma, porque é uma limitação do esforço aristocrático, porque é, de sua natureza, um regime democrático, visto que é o que mais agrada ao Povo. Nada está acima da ciência. Por isso nenhuma limitação à acção científica, nenhuma limitação mesmo espiritual. A religião é um fenómeno plebeu, uma arte de domínio das castas superiores. Para religião nacional convém arranjar um sistema de misticismo que, por ser nacional, pode ligar todas as almas nacionais, mesmo as que não creiam nele como religião, porque têm de crer nele como patriótico. Criar uma nova Atitude Religiosa, religiosa pura (mística) na sua face virada para o Povo; Artística pura na sua face virada para a Casta Dominante, e, por aí, ainda que não concebida como verdadeira, porque só a ciência busca e atinge a Verdade, concebida como patriótica (nacional), e como bela. Não se trata de cair no erro pragmatista, de misturar o Útil e o Verdadeiro, mas de os separar, pondo o Verdadeiro na esfera da ciência, e o Útil na esfera da Política. O erro político fundamental tem sido julgar que pode haver uma política verdadeira; não há, há só uma política útil. Só a ciência busca a Verdade e a quer. Esta é a primeira Nau que parte para as Índias Espirituais buscando-lhes o Caminho Marítimo através dos nevoeiros da alma, que os desvios, erros, e atrasos da actual civilização lhe ergueram! 1913? Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 79. O vaso que dei àquela O vaso que dei àquela Que não sabe quem lho deu Há-de ser posto à janela Sem ninguém saber que é meu. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 43. A NÃO-LATINIDADE DA IBÉRIA Várias razões se têm apresentado em favor da entrada de Portugal na guerra. Uma das principais, das mais alto cantadas (importa pouco, de momento, quais sejam as outras) é a de a Alemanha, por ser fundamentalmente inimiga dos países "latinos", da "raça latina", ser implicitamente nossa inimiga. É evidente que tal afirmação envolve duas, e portanto, para a examinar, mister será examinar separadamente as duas afirmações que ela implica. A primeira é que a Alemanha é fundamentalmente inimiga dos países "latinos". Deixemo-la por enquanto. Vamos à outra. São a Espanha e Portugal países latinos? Em primeiro lugar, cumpre advertir um leitor incauto que a expressão "raça latina" ou "países latinos" não tem sombra de base sociológica a que se apegue. Não há, na enorme diversidade de factores sociais incluída nos povos a que se convencionou chamar "latinos" traço comum, que não seja uma certa semelhança linguística — semelhança essa porém que resulta, não de uma fundamental e espontânea semelhança íntima de características raciais, mas de uma comum origem linguística nos restos degenerados do Império Romano. As nações a que se chama latinas têm de comum os característicos das nações meridionais, mas esses característicos pertencem também a povos como o grego e o turco, a gentes como os árabes e os índios — longe de toda a conexão, propriamente tal — e linguística nenhuma — com essa morta civilização latina que serve aqui de nome. Mas a comum origem da língua não basta para se afirmar uma fundamental semelhança de intuitos e fórmulas raciais. Qual o sentido possível da expressão "povos latinos"? A que povos se pode dar esse nome? Evidentemente apenas àqueles que são herdeiros, não só da língua, mas do próprio espírito do Império Romano. Esses, e não outros, têm direito a ser considerados latinos, por pouco que a expressão em geral signifique. Chegou-se ao absurdo de chamar latinos aos povos simplesmente reveladores de qualidades características dos povos do Sul, de climas quentes, suaves, estimuladores da inércia e da paixão. Como se o Império Romano — tão disciplinado e seco de emoções e paixões — se pudesse prestar a uma comparação dessas! Só a França e a Itália são povos latinos, no sentido possível sociológico da palavra. A Itália é directamente herdeira da tradição clássica. A França, pelo seu génio peculiar de raça, predominantemente de lucidez e brilho, é a natural herdeira da parte lógica, simplificadora, um pouco superficial das gentes romanas. (?) Se de tais, e tão pouco certas, considerações, passarmos a uma análise rigorosa das condições civilizacionais, depressa perderemos os últimos restos de dúvidas. II Analogia entre a molécula, célula, órgão e organismo, e a região, a nação, o grupo civilizacional e a civilização. Assim, temos: uma civilização europeia, composta dos grupos civilizacionais seguintes: a) anglo-escandinavo, caracterizado pelo desenvolvimento civilizacional no sentido individualista, libertário (não, é claro, no sentido deteriorantemente anarquístico da palavra)... b) germânico — caracterizado pelo desenvolvimento organizado, estadual, disciplinador, das forças sociais, manifestado pela íntima e consciente relação entre as forças intelectuais e as activas (?)... c) latino (Itália e França), caracterizado pelo exercício superficial das tendências civilizacionais, pela centralização indisciplinada, e pela produção civilizacional género [...] d) oriental (ainda informe e incapaz de produzir elementos civilizacionais) — a Grécia, a Turquia, a Rússia, a Pérsia, os países balcânicos. e) ibérico — composto de Espanha e Portugal e caracterizado por uma espécie de ocidentalização do europeu. A Ameri [...] s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 10. Ibéria Separados, teremos, cada um de nós, um sentido nacional; não temos sentido civilizacional. Poderemos existir mais ou menos digna e decentemente, como qualquer Bélgica ou qualquer Suíça, mas isso não é existência digna de que a ela se aspire. Valemos mais do que isso; temos direito a fazer mais que a existir. A república portuguesa é o primeiro passo dado para a civilização ibérica. Não foi dado, é claro, conscientemente: os nossos republicanos são incapazes de qualquer actividade do cérebro anterior. Mas foi um passo que o Destino fez dar. Deverá esse fenómeno repercutir-se em Espanha?... Na Catalunha deve ter tido efeito, porque foi o sacudir de um jugo; aparentemente talvez, mas são as aparências que impressionam o estrangeiro. Mas não está cada vez mais forte a monarquia espanhola? C> Destino o dirá. Forte e bem orientada começou a ser a monarquia portuguesa sob o governo João Franco, quando caiu moribunda. Querer reimplantar a monarquia em Portugal é dos maiores crimes que se pode meditar contra a Pátria Portuguesa e contra a futura (ou possível) Civilização Ibérica. Nada importa investigar qual o valor de monarquia ou de república, em si, ou em relação aos países da Ibéria. É em relação ao conjunto ibérico que esse fenómeno político tem de ser analisado. Para uma união ibérica de qualquer espécie, seja essa espécie qual for, três coisas são essenciais, e sem elas nada se poderá fazer, e antes de elas se fazerem é inútil pensar sem receio nosso em qualquer aproximação. Essas três coisas são: 1.º a abolição da monarquia em Espanha, 2.º a separação final da península nas suas três nacionalidades essenciais — a Catalunha, Castela e as províncias que conseguiu submergir na sua personalidade, e o estado galaico-português. É absolutamente impensável a solução do problema ibérico sem ser por uma federação; é impensável a federação com a constituição desigual, antinatural, viciosa e falsa, dos estados ibéricos actuais. Se os espanhóis não querem, como é natural, encarar de modo algum essa solução do problema, pedimos que nos desculpem de deixar de pensar no assunto. Continuaria Castela a ter a sua preponderância ibérica, que passaria então a ser uma hegemonia adentro de uma espécie de federação. Não é natural, porque, uma vez quebrada a Espanha nas partes naturais que a compõem, a única razão para a hegemonia castelhana teria deixado de existir — e essa razão é a de perturbar o desenvolvimento natural da civilização ibérica. O grande inimigo da Ibéria é Castela. Para a separação da península nas suas três nacionalidades naturais, só um caminho há a seguir. Se esse caminho for o que o destino traçou (o que ignoro), pode predizer-se como coisa certa a futura civilização ibérica. Esse caminho é a abolição da monarquia em Espanha. É a monarquia castelhana que une e liga as províncias separadas da Espanha. Cesse deveras a monarquia e Espanha cessará, porque é um estado artificial, imposto à natureza, e cujo destino acabou com a colonização da América Espanhola. Se, porém, se não trata de uma amorfa amizade, mas de urna política definida, temos de ver como é que sociologicamente o problema se coloca. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 11. PROBLEMA IBÉRICO (Depois de discutir os factos fundamentais do problema ibérico...) Passemos agora a considerar quais são as circunstâncias internacionais, europeias, que de sua natureza se opõem à unidade espiritual da Ibéria. Essas forças são de três ordens, e são, como acontece nestas coisas, representadas por três nações, cada uma das quais, em virtude da sua psique especial (quer racialmente tal, quer historicamente adquirida —conforme se queira, o que para o caso não importa), representa uma dessas forças. A primeira nação inimiga da Ibéria é a Espanha — no sentido de a actual Espanha, Castela imperando antinaturalmente num agrupamento que não conseguiu absorver, porque não absorveu a Galiza nem a Catalunha. Mas é a Espanha não no sentido, de que já tratámos, de que a sua existência impede a formação da confederação ibérica esse ponto já foi tratado, quando versámos as dificuldades políticas, interiores, para a formação da confederação ibérica. Trata-se, agora que se está examinando o problema sob o ponto de vista internacional, não já da Espanha como conjunto político, mas da Espanha como espírito nacional. (Antes: o espírito ibérico é uma fusão do espírito mediterrânico com o espírito atlântico, por isso as suas duas colunas são a Catalunha e o estado natural galaico-português. Castela (representando por este nome os estados intermédios, que Castela imperatriz de facto conseguiu harmonizar no seu espírito) é apenas região de troca e portanto de estabilização dessas duas influências limites. Não deve ter outro papel que uma espécie de fiel na balança das duas inclinações marítimas. Por isso, a ter papel preponderante (como o que já teve na história) esse papel é tudo quanto há de menos ibérico...). Fortemente aristocrática na sua constituição espiritual, ferrenhamente católica no seu habitus moral, absurdamente tradicionalista no conjunto quotidiano dos seus usos e costumes, Castela apresenta-se como um elemento anteprejudicador de uma confederação, e como um elemento (e é isto que aqui importa) violador da nossa grande tradição árabe — de tolerância e de livre civilização. E é na proporção em que formos os mantenedores do espírito árabe na Europa que teremos uma individualidade à parte. Assim o espírito castelhano é fundamentalmente inimigo, no seu espírito, da Ibéria. Mas estes característicos, que tornam Castela magnificamente incompetente para hegemonizar na Ibéria admiravelmente a dispõem para equilibrar as tendências (em outros sentidos excessivas) dos dois outros povos ibéricos. Por onde se vê que tudo se acha harmonizado pelo Destino para a futura confederação. O segundo grande inimigo da Ibéria é a França. O espírito francês é o grande inimigo do espírito comum às populações ibéricas. Grande inimigo não só na sua constituição espiritual, senão também nos efeitos que tem tido para a degradação e decadência do autêntico espírito ibérico. Herdeira directa da tradição romana, no que ela tem de estreitamente grega, a França representa na Europa não um país criador (como a Itália de onde vem a arte, ou a Inglaterra, de onde nasce a política), mas um país distribuidor e aperfeiçoador dos elementos que os outros povos fornecem. Tão pouco criador é o espírito francês que, para obter a única ideia que dentro dele se realizou, teve de chamar um suíço, Jean-Jacques Rousseau, e para pôr fim magnificamente à anarquia que daí adveio, teve de descobrir um italiano, Buonaparte. Lúcidos, completos no seu nível inferior, os franceses têm sido os corruptores da nossa civilização ibérica. O seu espírito romano, sem a força romana, é fundamentalmente inimigo do nosso espírito romano-árabe, ao mesmo tempo complexo e intenso, e disciplinado e rude. O terceiro inimigo da Ibéria é a Alemanha. Mas aqui temos mais a temer o espírito alemão que a Alemanha propriamente dita. Estes herdaram o espírito romano na sua parte superior (ao contrário dos franceses que lhe herdaram a parte que já neles era secundária, porque basilarmente grega). Mas casaram-no com aquele curioso elemento de incompletidão que é distintivo dos bárbaros do Norte, que não sabem equilibrar duas coisas [...] Nós, ibéricos, somos o cruzamento de duas civilizações — a romana e a árabe. Na França e na Alemanha a civilização romana existe sobreposta ao fundo original, sem outro influxo civilizacional. Somos, por isso, mais complexos e fecundos, de natureza, que a França ou Alemanha, que, quando tomarmos consciência da nossa ibericidade devem existir aproveitadamente no horizonte do nosso desprezo. [... ] Formado o Estado Ibérico, qual deve ser a sua orientação conjunta? Tripla: (1) o domínio espiritual das Américas do centro e do sul, e assim o imperialismo de cultura no Novo Mundo, (2) a conquista definitiva dos territórios do Norte de África, onde vi vem os homens nossos parentes, as raças árabes, berberes, [...]; (3) a destruição militar da França (e da Itália). Assim as etapas que temos de atravessar para a fixação da Ibéria (da Ibéria como potência) são (no que revolucionárias): (1) a queda da monarquia espanhola, e a dissolução da Espanha actual no que império; (2) a destruição do predomínio da França no Ocidente da Europa, por meio do seu aniquilamento militar, dar-lhe, do outro lado, um outro 1870; (3) a conquista do Norte de África — meta tradicional dos nossos maiores. E aqui, onde a França tem já lugar, novamente nos encontramos com a nossa inimiga tradicional. No que preparação (reforma) essas etapas são: (1) a criação da tendência ibérica, da ibericidade espiritual; (2) a reforma interior da República Portuguesa de modo que ela se encaminhe para o estado espiritual próprio desse estado; (a RP é actualmente um grupo ininteligente de gatunos e de assassinos. As palavras são curtas e duras, mas a simplicidade é aqui uma virtude. Não há perigo de o leitor não compreender. Não temos que alterar isto, temos que o substituir de dentro. Mas isso é outro problema, no seu conjunto. No que respeita ao problema ibérico basta que se aponte o que importa, como bastou apontar que é preciso que desapareça a monarquia espanhola, sem que indicássemos — porque o não sabemos — como convém preparar a sua queda). (3) [...] O que supremamente convém é criar, desde já, a ibericidade. Fazer tender todas as energias das nossas almas para um fim, por detrás de todos os fins imediatos que tenham. Esse fim é a Ibéria, a Ibéria como dona espiritual das Américas ibéricas (e não latinas), a Ibéria como senhora da África Setentrional, a Ibéria como destruidora do prestígio e predomínio francês. Vinguemos a derrota que os do Norte infligiram aos árabes nossos maiores. Expiemos o crime que cometemos, expulsando da península os árabes que a civilizaram. A Rep. Port. vale não pelo que vale, mas pela direcção que envolve, que inconscientemente tem. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 12. O assunto, é claro, podia ser muito mais aprofundado. Podíamos levar a nossa análise até ao ponto de tentar destrinçar quais os prováveis resultados culturais dessa ibericidade realizada. Podíamos tentar antever a que consequências de novidade europeia levaria a realização material do espírito ibérico, que nova doutrina religiosa, ou política, ou artística, surgiria do facto consumado de a Ibéria se ter encontrado enfim. Mas isso — resultados de um facto incerto, consequências de um mero sonho — seria tempo perdido como especulação científica, e ocupação ociosa como estímulo prático. O que importa agora não é ver onde nos levaria a Ibéria definitiva no que civilização consumada; mesmo supondo-a realizada de acordo com os desejos aqui expressos, falham os detalhes dessa realização, imprevisíveis, e desses alguma coisa dependeria na formação da unidade espiritual ibérica. O que nos importa agora é, porém, apenas determinar o préespírito ibérico, a atitude liminar no problema de nos unirmos. O que importa é, desde já, se este é o nosso alto intuito, concebermos fortemente a nossa diferença dos outros grupos civilizacionais europeus, e a nossa íntima semelhança, através das nossas necessárias diferenças nacionais. Isso é que importa, e só isso. Ver bem que a nossa missão, seja ela qual for [...] Não é porém impossível fazer dessa futura acção mental ibérica uma ideia vaga — que por vaga possa ser o contorno indeterminado dos factos futuros, sejam eles quais forem (logo que sejam de acordo com ela) que não possa ser desmentido(a). Toda a nação que superiormente se constitui, isto é, que chega a obter uma consciência civilizacional de si própria, representa uma síntese especial de elementos dispersos da civilização a que pertence. O espírito francês é a síntese francesa dos elementos da civilização europeia; o espírito inglês é a síntese inglesa desses elementos; e assim para todos os outros países. Um país vale profundamente na sua civilização pelo grau com que, nacionalizando-os, aprofunda e dá novo sentido aos elementos gerais comuns a todos os países da civilização a que pertence. Um país inferior limita-se, aceitando os elementos gerais de civilização, a imprimir-lhes o cunho nacional suficiente para que não se desnacionalize, recebendo-os. Exemplo: a Suíça, a Holanda, a Bélgica. Este género de países nada de essencial dá à civilização. Podia deixar de existir sem que ela sofresse, e se alguma coisa valem é como buffer states , no sentido superior, fronteiras espessas entre nação e nação definidas. Chamo a estes países conservadores de Civilização. Um país mediamente criador (exemplos: a França, a Alemanha, Castela como tal) não só aceita os elementos vindos do exterior mas também os harmoniza e os intensifica em um determinado sentido; esse sentido o vinco, a psique nacional o habilite a dar-lhes. Assim, desde o princípio da sua existência psíquica definida, o papel da França tem sido o da racionalização da civilização; os franceses são os harmonizadores do conjunto de ideias, de tendências que constituem o fundo civilizacional. Desde o princípio, o papel da Alemanha, parecidíssimo e oposto (no fundo a França e a Alemanha são duas faces da mesma medalha; foi o de transformar valores civilizacionais; por último foi o de disciplinar e concatenar praticamente as forças civilizacionais O papel de Castela-Espanha foi o de opor às correntes centrífugas da Europa o freio (absurdo mas talvez preciso) das [...] A estes países chamo países distribuidores de civilização; de três maneiras distribuem civilização: pela acção imperialista guerreira, que leva na ponta das espadas a secousse psíquica precisa para a renovação civilizacional ao seio ferido das outras nações (Filipe II, Napoleão, Guilherme II); pela transformação de valores que a sua posição geográfica [...] Finalmente há os países que criam civilização. São aqueles que aos elementos gerais que o seu tempo lhes fornece acrescentam, ao sintetizá-los, qualquer coisa que não consiste só na harmonia deles, mas qualquer coisa a mais, qualquer nova direcção não contida em um ou outro dos elementos sintetizados, mas no seu conjunto, e, se em algum dos elementos, vagamente. Tais são, supremamente a Itália e a Inglaterra (únicos países civilizados da Europa) e, em menor grau, em virtude da sua estupenda acção nas descobertas, este sagrado e divino lugar da terra, a quem os Deuses concederam que abrisse as portas do Longe e renovasse na distância o velho mundo. Estas palavras parecerão estranhas, mas são meditadas e cautas. As nossas descobertas são uma obra cujo espantoso sentido ainda não subiu à tona da intuição sociológica contemporânea, em parte porque a sociologia ainda não existe, em parte porque o que dela não existe e para aí está é feito pela parcialidade jesuítica de franceses, pela pesada falta de intuição histórica dos alemães, e pela insularidade ignorante dos ingleses. Um exemplo servirá, e bastará, para dar a medida da estupidez sociológica dos que manejam estes assuntos. Em qualquer tratado de história, o autor, ao tratar das descobertas, cita, sempre, dois nomes ou três, e à roda deles tece a sua pobre parte da coroa de glória dos descobridores. Esses três nomes são Colombo, Vasco da Gama, e Fernão de Magalhães. Ora, se há coisa nítida para o sociólogo, é que o nome supremo nas Descobertas é o Infante D. Henrique, uma das figuras supremas de criador de civilização que o mundo tem visto; de quem Colombo, Gama e Fernão de Magalhães são o braço e o gesto. Tão certo é que na história, como na sociedade em geral, o acto brilhante é que suplanta o acto criador. Veja-se um exemplo que elucidará: quem fala da Revolução Inglesa e como da Rev. Francesa? E contudo a primeira foi a fons et origo da segunda. Por Cromwell e pelos seus homens entrou a República, a República no sentido moderno, de antimonarquia, na Europa. E todos pensam que foi com os grandes agitadores da Revolução de 1893! Seja como for, esse período das descobertas marcou o que somos. Fomo-lo incompletamente, porque agimos inibericamente. Todos nós de aqui — portugueses, castelhanos, catalães — só atingiremos a nossa maioridade civilizacional quando, confederados na Ibéria, pudermos, lidos na desgraça e na experiência triste de tanto passado, afrontar a Europa outra vez, reconstruir o nosso predomínio dos tempos em que o mundo era nosso, de outra maneira, para outros fins, [...] Três são os gritos de morte que devemos trazer no nosso coração: Delenda Gallia! Delenda Germania! Delenda Ecclesia! Na aspiração ao que esses gritos pretendem construamos a nossa alma ibérica. Por uma severa disciplina íntima, inteiramente nossa, tal qual a encontraremos na nossa alma romana e árabe talhemos em nosso espírito profético o destino ibérico futuro. Somos os precursores de uma tragédia divina, gritada ao Atlântico e ao Mediterrâneo. Ansiemos todos, nos nossos versos que menos o anseiam, nos nossos pensamentos que menos o contenham, nas nossas aspirações que menos pareçam vê-lo, o Dia Ibérico, o dia em que dominemos pelo espírito as américas do sul, e do centro, o dia em que o nosso abraço cinja a África Setentrional, o dia em que os pés dos nossos exércitos vitoriosos possam calcar os pavimentos de Paris! Que esta aspiração de todo o passado ibérico, ressurrecto agora numa voz isolada, encontre eco nos corações da Ibéria! Que todos nós, por mais que nos custe, nos compenetremos do nosso destino gladiolado! Quebremos (aos pés — nós, portugueses, as nossas fantasias de repúblicas democráticas e outras invenções francesas, procurando-nos a nós em nós; vós, castelhanos, a ânsia até de conservardes o que tendes, o vosso imperialismo estulto de absorções inúteis, que só serve o Estrangeiro Comum; vós, catalães, a vossa ignóbil agitação operária feita por agentes espirituais da França! Sacrifiquemos, cada um de nós, aquilo que nada vale. Tudo isto vai custar, tudo isto é muito difícil, tudo isto pesa e dói e nos separa de coisas amadas, e de um passado próximo, que, embora fosse um erro, foi o nosso passado. Digamos às nossas tradições mortais (letais) como Cristo da sua Mãe: Quem é a minha Mãe [...] Construamos em nós a Ibéria. Um dia a Ibéria será. Custa muito a um católico ibérico reconhecer que a fé dos papas é inimiga da sua Cidade-Península. Custa muito a um português republicano reconhecer que a sua ideia de república é um insulto que os franceses fizeram à sua nacionalidade. É muito difícil resolver o problema de conservarmos a república sem termos a democracia, importação francesa, do que os franceses trouxeram estragado de Inglaterra. Mas só aquilo que vale a pena custa e dói. Bendita a dor e a pena pelas quais o Mundo se transforma. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 13. A ALIANÇA IBÉRICA Postos estes preliminares, resta examinar, mais profundamente, quais as condições basilares dessa orientação, ibérica, a seguir. Que sentido real tem o exposto, de que devemos, portugueses e espanhóis, agir separados e conjuntos? Em que ponto deve haver entre nós separação, e em que ponto combinação de esforços? A questão é exageradamente simples. Devemos ser separados em tudo o que seja problemas nacionais, juntos em tudo o que seja problemas civilizacionais. Instituições, costumes, convém que tudo isso seja diferente em um, e outro, povo. Orientação perante a Europa, convém que seja em ambos a mesma. Coisas há que nos separam nacionalmente: o facto, por exemplo, de sermos um país colonial, e o de a Espanha já o não ser. Conservemos as outras coisas que nos separam: a república aqui e a monarquia lá (urge que nenhuma simpatia vá de nós para os republicanos espanhóis, gente aliás de curtas vistas em matéria nacional), o anticatolicismo entre nós, e entre eles o catolicismo. Um facto fundamental nos separa; toda a aproximação resultará que um de nós ignora a essência sua, ou ambos a ignoram. Donde adviria um perigo ou para um, ou para ambos. Quando da nossa grandeza, de ambos, nós, forçados pelos resultados das descobertas a assumir um imperialismo, fomos tomar uma atitude espanhola. Daí a nossa queda sob o domínio da Espanha. O facto fundamental que nos separa é este: a Espanha é uma nação composta de várias nacionalidades; nós somos uma nação unitária, homogénea, tanto quanto é possível sê-lo uma nação que não é uma mera Andorra ou São Marino. Resulta desta radical diferença — à qual a diferença fundamental de clima, e portanto de índole, se junta — uma inevitável e lógica dissemelhança de instituições. Ali a monarquia é necessária, a não ser que se queira a Espanha desfeita nas nacionalidades que a compõem; aqui a república basta, e torna se desnecessária a monarquia, porquanto não temos nada a unificar, o país estando, por si, unificado. Só é admissível a monarquia onde não convém haver república. Onde uma ou outra pode existir, deve existir a república, porque é o mais avançado e indisciplinador dos dois sistemas. O inimigo da Ibéria é, em primeiro lugar, a França. A alma francesa é fundamentalmente hostil à alma ibérica em qualquer das suas formas — salvo, talvez, na catalã. Combater a fórmula francesa de civilização deve ser um dos pontos onde se junte o esforço ibérico, e claramente se concentre. A índole profundamente nacionalista da Espanha opõe se ao feitio profundamente cosmopolita de Portugal. Parece haver aqui, já, um elemento que prejudicará toda a conjunção de esforços. Mas não é assim. O ideal pode ser comum, a orientação diversa. Convém, mesmo, que assim seja. Só a direcção geral civilizacional deve ser comum à Espanha e a Portugal. Mais estreita comunidade envolveria aquela aproximação que, como disse, é precisamente uma das coisas a evitar. Como é negando que se afirma, e circunscrevendo que, se define, para que a orientação ibérica se defina e se veja, é preciso dizer lhe o que é que ela deve combater, qual o seu inimigo. Combatendo o irá criando a sua orientação. Esse inimigo é, em primeiro lugar, a França. Para poder haver uma comum orientação ibérica, tem que haver uma coisa qualquer, psíquica; de comum à Espanha e a Portugal. Existe esse elemento, e qual é, se existe? (Porque, se ele não existe, é inútil toda a tentativa de união, onde quer que seja.) Tivemos de comum, em nosso grande período, que ambos tentámos, dum modo ou de outro, impor o catolicismo, religião estranha a uma origem ibérica. Agimos, assim, ambos de modo cosmopolita, porque criámos atitudes nacionais sobre elementos estranhos à nacionalidade. A Espanha, além disto, agiu imperialistamente, segundo um imperialismo de espécie tradicionalmente estranha a ela: e nós mais atenuadamente fizemos o mesmo, seguindo o imperialismo de expansão, mas dum modo diverso do antigo [...] O problema capital da civilização moderna é qual a transformação que devem sofrer as ideias democráticas para que acompanhem o progresso social, com o qual se vão incompatibilizando. Espanha e Portugal, países de fraca educação, estão, por isso mesmo, nas melhores condições para criar aristocracias. Além disso, não temos tradições políticas nenhumas. Nossa obra deve ser neste campo —procurar ibericamente a fórmula nova para as sociedades [...] Criar uma nova literatura, uma nova filosofia — esse é o primeiro passo. Foi dado em Portugal, em filosofia sobretudo, por Leonardo Coimbra, um dos três grandes filósofos da Europa contemporânea (os outros dois são Bergson e Eucken). Cultura e arte sintéticas das da Europa — não há civilização de outro modo — mas orientadas ibericamente, isto é, subordinadas ao conceito fundamental que das coisas faz a alma ibérica Tal conceito difere do das outras nações da Europa neste ponto — em que toda a política e a arte desses outros países se apoia em princípios nacionais, enquanto que nós outros só obtemos princípios nacionais através de sínteses e amálgamas de princípios importados, cosmopolitas. Especialmente é isto verdade no que diz respeito a Portugal, onde a atitude cosmopolita é máxima. Quando nos falta uma compolitização forte, não criamos nada, caímos na nulidade intelectual. Outras nações continuam a ter relevo de vida quando nacionais na sua vida; nós precisamos ser internacionais para poder ser nacionais a qualquer ponto. A cultura estrangeira é analítica, a cultura ibérica é sintética. Outra nação qualquer da Europa precisa apenas duma influência estrangeira para criar uma atitude sua. Nós precisamos de conflictantes influências estrangeiras para isso. Com elementos da Itália, a Inglaterra criou a sua Renascença. Com elementos também italianos, criou a França a sua. Nós, com elementos da Renascença somados aos da Idade Média, católicos. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 15. Iberia A conservação da aliança inglesa é necessária. A Inglaterra é o único país realmente civilizado da Europa. A Itália, que é o outro, foi-o. A sua era passou; talvez volte, porque o seu espírito é criador, e a sua alma próxima dos Deuses. Que à Inglaterra não convirá... Se lhe convir, convir-lhe-á. Gibraltar é um estorvo. Isso, porém, é o menos. É um elemento sentimental. Se no programa do imperialismo ibérico estiver uma aliança com a Inglaterra, contem com o facto de que a Inglaterra não se oporá. A valorização intelectual da Ibéria no estrangeiro. É isso uma coisa que pode começar já. Intelectualmente somos mal conhecidos lá fora, trans-pirenéus. Qual o fim disso? A criação duma personalidade europeia nossa, que nos valorize perante o estrangeiro. As influências franco-germânicas, deleterias para a nossa personalidade ibérica. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 23. Pela rua já serena Vai a noite Não sei de que tenho pena, Nem se é penar isto que tenho... Pobres dos que vão sentindo Sem saber do coração! Ao longe, cantando e rindo, Um grupo vai sem razão... E a noite e aquela alegria E o que medito a sonhar Formam uma alma vazia Que paira na orla do ar... 18-6-1929 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 120. Fundo comum da alma ibérica: seu carácter totalmente sintético perante as influências alheias. Resultante civilizacional: Criação dum tipo de civilização que seja um resumo das civilizações passadas. Papel da Espanha: Síntese dos elementos estrangeiros por subordinação dos modernos aos mais antigos. Papel de Portugal: Síntese dos elementos estrangeiros por subordinação dos antigos aos modernos. A constituição heterogénea da Espanha tem que apoiar todo o seu esforço útil em elementos conservadores. A c. homogénea de Portugal tem que apoiar todo o seu esforço em elementos não conservadores. A Revolução Francesa foi uma nacionalização das teorias políticas da Inglaterra, feita por meio da oposição delas às da França antiga, do absolutismo do antigo regime. A Revolução Inglesa foi uma nacionalização da Reforma da revolta contra Roma, feita por igual meio em relação às forças antigas. A Alemanha de Bismarck foi uma nacionalização como que espontânea, feita contra não forças nacionais, mas forças estrangeiras — as da Rev. Francesa. O império de Filipe II foi a nacionalização directa de forças antigas, estrangeiras, transpostas para Espanha sem alteração — uma reunião da ideia de império e da noção católica. O Portugal das descobertas foi a nacionalização de uma tendência estrangeira. Nas outras nações, nacionalização por análise, isto é, por oposição dos elementos vitalizadores estrangeiros ou nacionais a outros elementos. Na Ibéria, nacionalização por conciliação dos elementos estrangeiros e dos nacionais, opostos ou concordantes. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 14. Tenho pena até... nem sei... Do próprio mal que passei Pois passei quando passou. 1929 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 121. Ibéria Neste capítulo profético entendamos porém o sentido das nossas ideias. Seria absurdo esperar que eu, ou outrem, mesmo com o auxílio de toda esta teoria delineada, pudesse mais que esboçar os resultados culturais que a sua aplicação e realidade futuras trariam. Neste ponto prever seria já ter. O que é possível esboçar e esboçar apenas, é que espécie de síntese resultaria de tal realização, e que elementos essa síntese conteria. O que é possível é ter a visão de como a síntese é feita, e não do que ela é, em verdade e vida, depois de feita. Dissemos que a síntese cultural ibérica devia nascer da conjugação de três elementos, ou atitudes. Baseia-se no nosso comum carácter ibérico, e esse é o fundo ibero-romano-árabe da nossa personalidade psíquica comum. No que síntese cultural positiva ela é isso, entendendo-se, porém, que o é através da absorção assimiladora dos elementos contemporâneos de civilização. É a iberização das correntes civilizacionais europeias que forma a síntese ibérica, que é a transcendência especial de tais correntes somadas na nossa personalidade própria. No que negativa, essa síntese cultural opõe-se, por um lado, ao próprio passado ibérico que foi inimigo da Ibéria: e esse passado resume-se nas doutrinas da Igreja Católica; por outro lado se opõe à cultura francesa, e à cultura alemã, que são as derivadas fortes das iniciais italiana e inglesa. A síntese ibérica é inimiga da cultura francesa porque a lucidez superficial do francês se não pode casar com os elementos árabes, profundos e intensos, da nossa personalidade psíquica, com o elemento sonhador, colorido, incendiado, do nosso arabismo nativo hoje. É inimiga da cultura germânica porque [...] Não é inimiga da cultura italiana e da cultura inglesa, porque estas são culturas fundamentais e não meramente traduzidas, como as outras duas. Opor-nos a elas seria levantar barricadas contra a civilização. Somos a síntese do Mediterrâneo e do Atlântico; a cultura italiana é a flor do Mediterrâneo, a inglesa a do Atlântico no Norte. A França e a Alemanha são países intermédios, meros transmissores e aperfeiçoadores da criação alheia. Na germanofilia castelhana e na francofilia portuguesa estão manifestadas as duas traições culturais da península. Para mim, poeta decadente, para quem a política é apenas o mais perigoso dos divertimentos inúteis, tudo isto tem a importância [...] Se, porém, se não trata de amizade, e de aproximação amistosa, frases que têm, entre as outras apontadas, a desvantagem de não terem sentido; se se trata de qualquer acordo que mais nitidamente se sinta e mais solidamente se veja, o caso é outro, e temos que encarar de frente, sem intuitos de ser complacentes ou mesmo imparciais (a imparcialidade é a forma menos nobre de ser parcial, porque é a mais hipócrita, porque é a única verdadeiramente hipócrita). Na península hispânica, de um lado a outro, nós não somos latinos, somos ibéricos. É preciso assentar nisto, antes de em mais nada. Nada temos, psicologicamente, de comum com os dois países herdeiros da civilização latina propriamente dita — a Itália e a França. Nós não somos latinos, somos ibéricos. Temos — espanhóis e portugueses — uma mentalidade à parte do resto da Europa. Por mais diferenças que nos separem ( e elas deveras existem) estamos mais próximos psiquicamente uns dos outros, do que qualquer de nós de outro qualquer povo extra-ibérico. Têm-se dito coisas como que nós portugueses somos mais parecidos com os franceses, ou com os italianos, do que com os espanhóis; felizmente não é verdade. A que grau de desnacionalização não era preciso que houvéssemos chegado para se poder dizer com justiça que [...] Se somos ibéricos, temos direito a esperar que tudo deve tender para uma política ibérica, para uma civilização ibérica que, comum aos países que compõem a Ibéria, a todos, porém, transcenda (a cada um deles individualmente transcenda). s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 16. O som do relógio Tem a alma por fora, Só ele é a noite E a noite se ignora. Não sei que distância Vai de som a som Rezando, no tique Do taque do tom. Mas oiço de noite A sua presença Sem ter onde acoite Meu ser sem ser. Parece dizer Sempre a mesma coisa Como o que se senta E se não repousa. 26-6-1929 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 122. Iniciação. Há muitas Cabalas, e é difícil acreditar que não possamos atingir a união com Deus, seja o que for que se entenda por isso, a não ser que estejamos familiarizados com o alfabeto hebraico. Há Erros do Caminho, Erros da Estalagem e Erros da Caverna. São Erros do Caminho aqueles em que o próprio caminho é tomado pela sua finalidade. Erros da Estalagem são aqueles em que metade do caminho é tomado pelo todo. São Erros da Caverna aqueles em que a caverna, que é a base do Castelo, é tomada pelo próprio Castelo. (é tomada pela entrada do Castelo). Estes erros são comuns a todos os caminhos e o da Gnose não está mais isento deles do que os caminhos místicos e mágicos. Posso passar sem o ascetismo, mas não sem a verdade, nem creio que Deus se me não manifeste a não ser que eu fique sentado, imóvel, durante cinco horas, ou que seja capaz de respirar naturalmente por qualquer das narinas à escolha. O facto, porém, é que, qualquer que seja o caminho que tomemos, não o devemos fazer antes de termos percorrido os graus preparatórios, os graus de neófito. O Misticismo procura transcender o intelecto (pela intuição), a Magia aspira a transcender o intelecto pelo poder; a Gnose, a transcender o intelecto por um intelecto superior. Mas para transcender uma coisa devidamente, é preciso primeiro passar por essa coisa. A vantagem do caminho gnóstico é que há menos tentação de alcançar o intelecto superior sem passar pelo inferior — uma vez que ambos são intelecto e há uma diferença de quantidade entre um e outro — do que nas vias mística e mágica, onde há uma diferença de qualidade, não de quantidade, entre emoção e intelecto, entre a vontade e o intelecto. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 59. Trad.: Maria Helena Rodrigues de Carvalho Não é grande, nem absoluta nem relativamente, o número de revistas em mais que uma língua que hoje se publicam em todo o mundo. Das poucas que há, a maioria compõe-se de revistas comerciais, e representa um meio termo entre duas edições da revista, cada uma em uma língua. Vendo bem, e em princípio, a ideia de uma revista em duas línguas não se apresenta simpática. Há, porém, uma reserva a fazer a esse preconceito natural. É quando as duas línguas são tão próximas uma da outra, que qualquer delas é inteligível a quem propriamente falando não saiba senão a outra. Não há no mundo duas línguas tão justamente nestas condições como são a espanhola e a portuguesa. Por isso uma revista em estas duas línguas perde quase todo o carácter absurdo que revestiria se houvesse maior distância etimológica entre um e outro idioma. Todo espanhol compreende, lendo, o português; todo português, compreende, lendo, o espanhol. Podem pôr-se, lado a lado, artigos em espanhol que especialmente interessem espanhóis, e artigos em português que especialmente interessem portugueses, sem que o interesse de qualquer deles fique afastado daquilo que especialmente se redigiu para interessar os outros. Tudo está em que esses artigos, que especialmente se destinam a interessar espanhóis ou portugueses, não sejam de um interesse tão restrito que não possam interessar também portugueses ou espanhóis. Quem, como os organizadores desta publicação, tem a técnica segura de como interessar, não encontra dificuldade em consegui-lo desta maneira, que a semelhança dos idiomas torna possível. Daí a índole desta revista, assim como o seu título inevitável . De há tempos para cá se vem fazendo, por um processo de combinação espontânea que vale muito mais, e significa muito mais, que qualquer táctica de política amistosa, uma aproximação mental entre Portugal e Espanha. Dir-se-ia que os dois países repararam por fim no facto aparentemente evidente que uma fronteira, se separa, também une; e que, se duas nações vizinhas são duas por serem duas, podem moralmente ser quase uma por serem vizinhas. Esta aproximação mental não implica, de parte a parte, a abdicação de coisa alguma em que consista essencialmente a independência ou a personalidade de cada uma das nações: duas criaturas podem ser amigos sem ser sócios. Implica tão-somente um estabelecimento de entendimento e de amizade, natural no caso de Portugal e de Espanha, que nenhum conflito de ambições hoje separa, que uma civilização tradicional comum aproxima, e que se encontram mais que nunca ante o problema, comum também, de defender, naquela larga extensão da América que por ambos foi civilizada e aberta à continuidade do progresso, a tradição civilizacional ibérica contra a incursão disruptiva de conceitos civilizacionais estranhos. Não está pois fora de propósito, nem quanto ao intuito, nem quanto à ocasião, que se lance a Revista de que este número é, não espécime, nem mesmo programa, mas unicamente explicação. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 24. Contemplo o lago mudo Que uma brisa estremece. Não sei se penso em tudo Ou se tudo me esquece. O lago nada me diz. Não sinto a brisa mexê-lo. Não sei se sou feliz Nem se desejo sê-lo. Trémulos vincos risonhos Na água adormecida. Por que fiz eu dos sonhos A minha única vida? 4-8-1930 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 122. EPITÁFIO DESCONHECIDO Quanta mais alma Por mais que a alma ande no amplo informe, A ti, seu lar anterior, do fundo Da emoção regressou, ó Cristo, e dorme Nos braços cujo amor é o fim do mundo. 26-6-1929 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 124. Oc. Há três tipos distintos de iniciação—simbólica ou exterior, intelectual (exterior à interior) e vital (interior). Nas iniciações simbólicas, que reforçam a vontade e que, portanto, conduzem à Magia como realização, o candidato não passa por graus de entendimento, mas por graus de intuição, por assim dizer; ele está continuamente à superfície e na aparência das coisas, e, embora ele atinja o grau mais elevado, qualquer que seja a ordem ou ordens por que prossiga, esse grau mais elevado não precisa de corresponder (geralmente não corresponde) a qualquer coisa como um grau paralelo em qualquer das iniciações interiores. Nas iniciações intelectuais, que reforçam o intelecto e que, portanto, conduzem ao Misticismo como realização, o candidato passa por estádios de entendimento, mas não por estádios de vida; ele pode saber muito, mas não precisa de viver aquilo que conhece no mesmo plano em que o conhece. Nas iniciações vitais, que reforçam a emoção e, portanto, conduzem à Alquimia como realização, o candidato vive aquilo que sente e sabe. (Isto está certo?). Não será antes que estas iniciações diferem numa outra medida, enquanto a diferença entre Magia, Misticismo e Alquimia (então e a Gnose?) se encontra noutro plano de interpretação? Estas iniciações não são antes físicas, etéreas e astrais? (ou, talvez, etéreas, astrais e espirituais, ou astrais, mentais e espirituais?). — Possivelmente há três modos pelos quais as iniciações podem ser interpretadas: (I) os três caminhos de realização, mágico, místico e gnóstico, (2) os três estádios de realização, Neófito, Adepto e Mestre, (3) os três graus de realização, astral, mental e espiritual. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 60. Trad.: Maria Helena Rodrigues de Carvalho GLOSA Minha alma sabe-me a antiga Mas sou de minha lembrança, Como um eco, uma cantiga. Bem sei que isto não é nada, Mas quem dera a alma que seja O que isto é, como uma estrada. Talvez eu fosse feliz Se houvesse em mim o perdão Do que isto quase que diz. Porque o esforço é vil e vão, A verdade, quem a quis? Escuta só, meu coração. 9-11-1929 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 124. Oc. Mas o significado real da iniciação é que este mundo visível em que vivemos é um símbolo e uma sombra, que esta vida que conhecemos através dos sentidos é uma morte e um sono, ou, por outras palavras, que o que vemos é uma ilusão. A iniciação é o dissipar — um dissipar gradual, parcial — dessa ilusão. A razão do seu segredo é que a maior parte dos homens não está adaptada a compreendê-lo e, portanto, compreendê-lo-á mal e confundi-lo-á, se for tornado público. A razão de ele ser simbólico é que a iniciação não é um conhecimento, mas uma vida, e o homem deve, portanto, descobrir por si o que mostram os símbolos, porque, assim, viverá a vida deles, não se limitando a aprender as palavras em que são mostrados. Dizer que Cristo é um símbolo do Sol é pôr o processo iniciatório ao invés. É o Sol que é o símbolo de Cristo. Por outras palavras, Cristo é a realidade e o Sol a ilusão, Cristo é a luz, e o Sol a sombra. (O Inefável é a luz; o GA, corpo; o mundo, sombra — a sombra projectada pelo denso quando iluminado pelo subtil. A luz está na circunferência e a sombra lançada para o centro. Isto tem alguma coisa a ver com o pt. dentro do c.?) (Cf. a ideia cabalística do En Soph retirando-se para dentro, manifestando-se dentro e não fora). Iniciar um homem por um ritual complicado e mais ou menos impressivo e depois confiar-lhe, sob promessas de segredo e juras mais ou menos terríveis, que a Primavera vem depois do Inverno — isto nunca podia ter sido o plano de qualquer corpo ou sistema iniciático. Mas tê-lo-ia sido ensinar o contrário — que a Primavera, seguindo-se ao Inverno, é um símbolo de coisas maiores, que o natural é uma figuração do sobrenatural. Isto, feito com mais ou menos pormenor, em símbolo, depois em doutrina, depois em revelação, é a essência de todas as verdadeiras iniciações, de Eleusis a Kilwinning. Ordens de inic.: (I) através de símbolos e (mais tarde) explicações em si próprias simbólicas—cf. Pike; (2) através de doutrina simbólica, verdadeira ao seu nível, e explicações, já não simbólicas; (3) através de comunicação directa, embora não necessariamente falada ou expressa. Não digo que estas coisas representem uma verdade e não digo que o não façam. Digo que este é o significado da iniciação, que é assim que a iniciação existe e que é para estes fins que ela existe. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 60. Trad.: Maria Helena Rodrigues de Carvalho (1) Uma Ordem iniciática é verdadeiramente uma Ordem só quando está em actividade — isto é, quando tem abertos os seus templos, ou o seu templo único, e realiza sessões e iniciações em ritual vivido [?]. Quando em dormência, ou vida latente e simplesmente transmissa, não é propriamente uma Ordem, mas tão-somente um sistema de iniciação, avanço e completamento. São os três termos que competem à conferição, por exemplo, dos três Graus Menores da Ordem Templária de Portugal. (2) Por isso eu disse, legitimamente, que não pertencia a Ordem nenhuma. Não podia legitimamente dizer que não tinha nenhuma iniciação. Antes, para quem pudesse entender, insinuei que a tinha, quando falei de «uma preparação especial, cuja natureza me não proponho indicar.» Essa frase escapou, e ainda mais o seu sentido possível, aos iledores anti-maçónicos. Só posso pois dizer que pertenço à Ordem Templária de Portugal. Posso dizer, e digo, que sou templário português. Digo-o devidamente autorizado. E, dito, fica dito. Ora é à luz dos conhecimentos que recebi pelos três Graus Menores da Ordem Templária que pude ler com entendimento livros e rituais maçónicos. Ausentes esses conhecimentos, estaria lendo às escuras. A iniciação maçónica — que é uma iniciação do primeiro nível — é dada através dos rituais e dos símbolos; os discursos que acompanham o ritual nada conferem. Uns são propositadamente simples e triviais, para que o candidato, se é apto e digno, se vire d'eles para a parte vital do grau; outros são propositadamente confusos e contraditórios, para que obriguem o candidato, se nele há alma iniciática, a meditar, escolher, e, por fim, achar; outros são, como disse Pike (que escusava bem tê-lo dito) (...) Segue de aqui que a leitura, por profanos, de rituais maçónicos, impressos ou manuscritos, os deixa no fim da leitura no mesmo estado de trevas em que estavam no princípio. Falta-lhes a luz com que dissipem essas sombras propositadas; o fio com que, espalhado no solo quando entram no labirinto, de novo os reconduza à entrada. O entendimento dos símbolos e dos rituais maçónicos não pode ser obtido senão por iniciação directa, ou, excepcionalmente, por qualquer preparação espiritualmente equivalente que permita ao simples leitor de rituais visionar emotivamente as cerimónias, sentir no coração aquela vida própria com que os símbolos são almas. Fora d'isso há só uma noite sem madrugada. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 196. O abismo é o muro que tenho Ser eu não tem um tamanho. 1929 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 125. Iniciação Os caminhos do Misticismo e da Magia são muitas vezes caminhos de engano e de erro. O Misticismo significa essencialmente confiança na intuição; a Magia significa essencialmente confiança no poder. A intuição é uma operação da mente pela qual os resultados da inteligência são obtidos sem o uso da inteligência. O poder, no sentido do poder mágico, é uma operação da mente pela qual os resultados do esforço contínuo são obtidos sem o uso do esforço contínuo. Ambos, porém, por mais tempo que levem a operar, são atalhos para o conhecimento. Em certo sentido, tanto o Misticismo como a Magia são confissões de impotência. O místico é um homem que sente que não tem em si a força do pensamento para atingir a verdade pelo pensamento. O mágico é um homem que sente que não tem em si a força de vontade para atingir a verdade (ou o poder) pela força de vontade. A rapariga ociosa que adivinha ou que se deita a adivinhar coisas é uma mística dentro do seu campo superficial; é demasiado preguiçosa para tentar saber. A camponesa que tenta reter o amor do marido por meio de encantamentos e poções é um mágico dentro das suas fronteiras estreitas; ela é demasiado ignorante e demasiado fraca para intentar atingir o seu fim por encantamento directo, por sedução permanente. Em ambos os casos há uma evasão. Isto não quer dizer — ou, pelo menos, não precisa de querer dizer — que os resultados do Misticismo e da Magia estejam necessariamente errados. Quer dizer, contudo, que não há nenhum critério pelo qual possamos distinguir entre um resultado errado e um resultado certo num caminho ou noutro. Na Gnose, onde empregamos o intelecto, temos, pelo menos, o lastro do raciocínio; podemos, pelo menos, comparar um «resultado» com outro, examinar se eles são contraditórios, quer cada um em si, quer em referência um ao outro. Podemos não raciocinar bem, mas raciocinamos. Se errarmos, é porque nos enganamos e não porque estejamos errados, como nos outros dois caminhos. É como quando se soma mal; a falha não está em somar, mas em não somar bem; somar é, porém, o sistema correcto para obter um total. Isto ficará claro, se formos buscar exemplos simples, podíamos dizer correntes, ao Misticismo e à Magia. Um caso simples de Misticismo é o tipo comum de intuição a que se chama «palpite» em linguagem vulgar. Uma pessoa tem um palpite de que em certo número terá o primeiro prémio da lotaria. De vez em quando o palpite sai certo, mas todos sabemos que, por cada vez que sai certo, há milhares de vezes em que sai errado. Se assim não fosse, um clube de apostas não seria o grande negócio que sempre é. Neste caso, na verdade, há um caminho fácil para verificar a exactidão do palpite: a lotaria, uma vez extraída, mostrá-lo-á. Mas como é que se há-de provar ou refutar o palpite do místico de que atingiu a unidade com Cristo? Ele diz que sabe, que sente... Mas o louco que se julga Cristo ou rei de certo país está tão seguro disso como o místico da sua intuição. Tomemos, de novo, um caso simples de Magia — o espiritismo. O espiritismo é magia, porque é evocação dos espíritos dos mortos a esta vida. Faz-se uma sessão, evoca-se o espírito do falecido X, a voz do médium, a mesa pé de galo ou a prancheta anuncia que ele apareceu. Como é que sabemos que sim? A comunicação de coisas conhecidas somente de um dos presentes pode ser uma projecção da mente desse que está presente. A comunicação de coisas somente conhecidas do falecido e depois verificadas pode ser uma comunicação de alguma força ou mesmo espírito, outro que não o do falecido. E quando o espírito dá informação da sua morada presente, por que método nos asseguraremos se essa informação é certa ou errada? Não digo que tudo o que emerge numa sessão ou que emergiu em sessões esteja errado. Nem digo que esteja certo: digo que não há meio de conhecermos a origem da informação assim recebida, e quando a informação diz respeito a outros mundos ou a coisas de outro modo não verificáveis neste, não há meio de conhecermos a sua origem ou a sua verdade. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 63. “Ensaio sobre a Iniciação.” Trad.: Maria Helena Rodrigues de Carvalho F[ranco] M[açonaria] Dá-se entre o judaísmo e a maçonaria uma coincidência externa, como a de dois homens que viajam no mesmo comboio. Não há conluio, mas concordância. Ambos visam fins universais, ambos fins religiosos que se afastam da religião corrente, mas um e outro o fazem por motivos próprios que coincidem mas se não sobrepõem. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 197. Time and space cannot by themselves make individuality. Being is needed. A dead man occupies Time and Space, but has no individuality, no Being. 1907? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 39. Relógio, morre — Momentos vão. Nada já ocorre Ao coração Senão, senão... Bem que perdi, Mal que deixei, Nada aqui Montes sem lei Onde estarei... Ninguém comigo! Desejo ou tenho? Sou o inimigo — De onde é que venho? O que é que estranho? 1-3-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 126. Inic. (Occ.) É difícil, claro, compreender o que se entende por União com Deus, mas pode dar-se uma certa ideia do que isso quer dizer. Se presumirmos que, qualquer que tenha sido o modo (independentemente do erro do uso de um tempo verbal que implica tempo) como Deus criou o mundo, a substancia dessa criação foi a conversão, efectuada por Deus, da sua própria consciência na consciência plural dos seres separados O grande clamor da Divindade Indiana «Oh, pudesse eu ser muitos!» dá a ideia, sem a ideia de realidade. A união com Deus significa, portanto, a repetição pelo Adepto do Acto Divino de Criação pelo qual ele é idêntico a Deus em acto ou em modo de acto, mas, ao mesmo tempo, uma inversão do Acto Divino pelo qual ele continua a estar separado de Deus ou a ser o oposto de Deus; se não, seria o próprio Deus e não seria necessária qualquer união. O Adepto, se conseguir a unidade entre a sua consciência e a consciência de todas as coisas, se conseguir transformá-la numa inconsciência (ou inconsciência de si próprio) que é consciente, repete dentro de si o Acto Divino que é a conversão da consciência individual de Deus na consciência plural de Deus em indivíduos. Mas, assim, ele alcança a pluralidade que Deus atingiu quando da feitura do todo de que ele é parte e, ao repetir o Acto de Deus, ele está realmente a invertê-lo, e, ao invertê-lo, a fazer o caminho de regresso a Deus e, assim, a alcançar a união com Deus. Se representarmos todo este esquema por dois triângulos equiláteros com a mesma base, cada um, por assim dizer, oposto ao outro, teremos uma ideia clara, ou tão clara quanto possível, do método da obtenção da União com Deus. Deus, vértice do triângulo superior, abre para a base e a base estreita-se até ao vértice virado para baixo do triângulo inferior. Do vértice do triângulo inferior há ascensão para a linha base de ambos: assim a descida de Deus é repetida no sentido ascensional e, ao mesmo tempo há ascensão para Deus. Ora isto, seja qual for o modo por que seja considerado, conduz-nos à teoria peculiar dos três tipos de consciência: a Consciência Divina, a Consciência do Mundo e a Consciência Individual. Na primeira a identidade é absoluta, não havendo sujeito nem objecto. Na segunda o sujeito fez de si o seu próprio objecto, e, sendo infinito porque indivisível, torna-se objectivamente infinito, isto é, infinito porque infinitamente divisível. Na terceira, o sujeito fez de si mesmo como objecto o seu próprio sujeito, e tomou consciência de si próprio e, por conseguinte, consciência de si próprio em cada elemento infinitesimal desse objecto. Quanto mais cada sujeito infinitesimal faz de si próprio objecto para si próprio, mais se aproxima do primeiro passo à rectaguarda em direcção à Suprema Consciência. De aqui passará eventualmente à anulação disto e ao regresso ao estádio original da Divina consciência. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 65. “Ensaio sobre a Iniciação.” Trad.: Maria Helena Rodrigues de Carvalho Shaw, minor artist though he be, has nevertheless the virtue of being a stimulant. He stimulates to critical thought, though critical thought, once stimulated, wil1 begin by breaking down all his illusions about mankind, who cares nothing for mankind, and justice, in which no one believes. Mr. Shaw, like most propagandists, is conducive to something else — a self-defeater by nature. A stimulant is something that excites us to be ourselves; thus whisky has led many men to deeds wholly unconnected with barley. Mr. Shaw follows the way of all stimulants: he expects we will agree with him, but that is not the way of stimulants — it is they that must agree with us. Shaw’s capital fault — the capital fault of any man who may want to be considered an artist — is that he has no poetry in him. This means that he has no humanity in him. Shaw is more like the founder of a religion than like a creator of literature, which, at any rate, he is not. He is not a Synge, nor even a Wilde. He has not the unopinions f or that. He has not that lack of opinions which [...]. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 211. Quando o sr. (…) soube do caso, limitou-se, primeiro, a ficar pasmado; segundo, a rir à gargalhada. Nós, ao sabermos também do caso, nem pasmámos, nem rimos, com ou sem gargalhada. Não pasmámos porque não há razão para a gente (se) pasmar de um acto que está certo — certo, bem entendido, com a índole das pessoas ou instituições que o praticam. Não rimos porque nem essas pessoas ou instituições nos dão, por vários motivos, vontade de rir, nem portanto consideramos dignos de alegria nossa os actos pelos quais essas instituições ou pessoas se revelam o que são. Registramos — eis tudo. Registramos o bem que se definem determinadas pessoas — talvez uma só — e instituições quando dão ordens a uma Censura de que se corte qualquer referência favorável, ainda que puramente literária, a um poeta que um dia se lembrou de... defender num jornal a Maçonaria. É só um dedo, um dedinho. E pelo dedo se conhece o Anão. 1934? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 198. Primeiro O DOS CASTELOS A Europa jaz, posta nos cotovelos: De Oriente a Ocidente jaz, fitando, E toldam-lhe românticos cabelos Olhos gregos, lembrando. O cotovelo esquerdo é recuado; O direito é em ângulo disposto. Aquele diz Itália onde é pousado; Este diz Inglaterra onde, afastado, A mão sustenta, em que se apoia o rosto. Fita, com olhar esfíngico e fatal, O Ocidente, futuro do passado. O rosto com que fita é Portugal. 8-12-1928 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 21. Quem vende a verdade, e a que esquina? Quem dá a hortelã com que temperá-la? Quem traz para casa a menina E arruma as jarras da sala? Quem interroga os baluartes E conhece o nome dos navios? Dividi o meu estudo inteiro em partes E os títulos dos capítulos são vazios... Meu pobre conhecimento ligeiro, Andas buscando o estandarte eloquente Da filarmónica de um Barreiro Para que não há barco nem gente. Tapeçarias de parte nenhuma Quadros virados contra a parede... Ninguém conhece, ninguém arruma Ninguém dá nem pede. Ó coração epitélico e macio, Colcha de croché do anseio morto, Grande prolixidade do navio Que existe só para nunca chegar ao porto. 28-3-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 127. Iniciação Como, então, deve um homem que busque a iniciação treinar-se para ela? Como, por outras palavras, deverá ele tomar dentro de si os Graus de Neófito da Ordem Interior? Ele deve começar por familiarizar-se com sistemas filosóficos e com a filosofia que emerge, mal ou bem, das aquisições mais recentes da ciência Com este suporte, ele deve reflectir e comparar, confrontando sistema com sistema, teoria com teoria e parte de cada sistema comas outras partes. Desenvolverá assim a sua inteligência abstracta sem a qual a intuição que ele busca desenvolver mais não será do que emoção. Ele deve começar por se despir de todos os preconceitos dogmáticos, de todas as coisas que foram introduzidas no seu espírito pela educação e pelo hábito. O caminho da iniciação não pode ser alcançado através dos portais de qualquer das igrejas, mas antes através dos portais de todas ao mesmo tempo ou de nenhuma. Seguidamente, ele deve familiarizar-se com sistemas religiosos de todas as espécies, com sistemas filosóficos.... (ut supra). Deve depois elaborar, o melhor que puder, um sistema próprio seu, construído lentamente, com aquilo que ele aprendeu, sem necessariamente o escrever, um sistema, tão coerente quanto ele puder fazê-lo, de interpretação do universo nas triplas linhas de verdade, beleza e conduta. Depois procederá ao abandono do sistema que formar. Terá chegado a amá-lo, mas cabe-lhe agora reconhecer que ele não vale mais do que os outros sistemas filosóficos que ele comparou entre si e, uma vez que estabeleceu o seu próprio sistema, rejeitou. Assim, ele terá atravessado os quatro estádios da tentação do Mundo — o Dogma, a Inteligência Concreta ou Ciência, a Inteligência Abstracta ou Filosofia e a Inteligência Crítica. O Dogma pelo qual ele está preso aos outros; a Ciência pela qual ele está preso à Natureza; a Filosofia pela qual ele está preso aos espíritos de outros; a sua própria filosofia pela qual ele está preso a si próprio, porque o Mundo é tudo isto. Uma vez que passou estes quatro estádios do grau de Neófito, está pronto para a iniciação. Dele depende agora escolher por que caminho a fará—se pelo caminho místico, se pelo caminho mágico ou pelo gnóstico. É mais justo dizer o caminho por onde ele começará a fazê-la, porque a iniciação plena no grau de Adepto inclui os três. No primeiro Grau de Adepto ele tomará a via que escolheu e completará o seu caminho nela; no segundo Grau de Adepto ele tomará uma das outras duas vias; no terceiro Grau de Adepto ele tomará a via que resta. Ele tem de vencer as três tentações que estão subjacentes à Carne — os desejos que são vencidos pelo Misticismo; as indecisões que são vencidas pela Magia; os enganos que são vencidos pela Gnose. Tem de vencer (…) Dir-se-á que isto torna a iniciação uma tarefa muito difícil. Torna-a, porque assim é. Por que é que a iniciação havia de ser fácil? Dir-se-á que só um homem de especial inteligência pode tomar os graus de neófito, uma vez que é necessário ter capacidade de reflexão abstracta para se ser apto em filosofia, e nem toda a gente a possui. Mas por que é que toda a gente havia de estar em condições de ser iniciado? Se se disser que isto é injusto, podemos replicar assim: Porque é que o universo havia de ser justo? — o que é talvez uma resposta errada, mas certamente suficiente, — ou que a questão se baseia no pressuposto de que não há desenvolvimento no mundo; ou, por outras palavras, que o homem termina num curto lapso de vida terrena e que é possível que a reencarnação seja verdadeira quando não há injustiça, mas apenas graus, porque na própria vida exterior há graus de força, beleza, inteligência e outras coisas idênticas. Um homem pode, pelo menos, aspirar à iniciação e, se a inteligência abstracta é o primeiro grau no caminho e ele não tem inteligência abstracta, pode pelo menos aspirar a ela; custa-lhe tanto ou tão pouco aspirar à inteligência como à iniciação, e realmente ele aspira à mesma coisa na ordem própria quando aspira à inteligência. (O místico sem inteligência não atingiu o primeiro Grau de Adepto: ele não fez mais do que atingir o grau intermédio entre os Graus de Neófito e de Adepto, o purgatório vazio da ascensão errada). s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 66. “Ensaio sobre a Iniciação.” Trad.: Maria Helena Rodrigues de Carvalho The truth about such men as Shaw and (...) is that they are barbarians. They break in upon civilisation with the novelty of not belonging to it, and make as much show as a negro in Scandinavia. Their very blackness is their white mark. The real novelty that endures is the one that has taken up all the threads of tradition and weaved them again into a pattern that tradition could not weave them into. The essential ideas of genius are as old as the basis of genius which is the existence of mankind. Each man of genius takes up this old thread-worn garment (...). The other element of notoriety called fame is being a barbarian. By being a barbarian I mean coming into civilisation from outside it; belonging to it by street number but without the soul to understand why streets were made and numbers put to the old tradition of separate doors. All great poets have belonged to a continuation of the same tradition diversified by temperament. Some have done this by giving their individuality to elaborate learning; this is the case of Virgil (learned in his time), Dante and Milton. Others have done this by gathering within their individuality the totality of observation and experience; this is the case of men like Shakespeare and Walt Whitman. The definite moral characteristic of the first is their seriousness, their high seriousness as Matthew Arnold would have said. The definite moral characteristic of the second is their amorality; both Shakespeare and Whitman were indifferent to moral values except in so far as they were susceptible of being converted by temporary emotion into aesthetic values. Both were pederasts, by the bye. (...) The essential thing about the barbarian is that he is wholly modern; he is altogether of his times because the race, to which he belongs, has no civilizacional times before. He has no ancestors outside biology. The common trait of Lenin and Shaw, of Wells and (...) When they appeal to Something outside themselves, they appeal to things like mankind, which is the common expression for the animal species that has the human form and inexistent outside zoology, or science, which has nothing to do with the human mind except being produced by it, but not for it. The negro always wears the latest fashions. The cannibal, if he were here, would always order (have) the latest dishes. Both, for obvious reasons, sometimes feel pessimistic. A verdade acerca de homens como Shaw e (...) é que são bárbaros. Irrompem na civilização com a novidade de quem não lhe pertence, fazendo a mesma vista que um negro na Escandinávia. A sua própria negrura é o seu selo branco. A verdadeira novidade que permanece é a que pega em todos os fios da tradição e os tece novamente num padrão que a tradição não lograria produzir. As ideias essenciais do génio são tão antigas como a base deste último, que é a existência da humanidade. Todo o homem de génio pega nesta velha vestimenta coçada até ao fio. (...) O outro elemento da notoriedade a que se chama a fama é ser-se bárbaro. Por ser bárbaro entendo eu entrar na civilização vindo de algures fora dela; pertencer-lhe pelo número da porta da rua, mas sem alma para compreender qual a razão por que existem ruas e se puseram números na antiga tradição de portas separadas. Todos os grandes poetas têm pertencido a uma continuação da mesma tradição diversificada pelo temperamento. Alguns fizeram-no consagrando a sua individualidade à erudição requintada; é o caso de Virgílio (erudito na sua própria época), Dante e Milton. Outros têm-no feito reunindo na sua individualidade a totalidade da observação e da experiência; é o caso de homens como Shakespeare e Walt Whitman. A característica moral definida dos primeiros é a sua seriedade, a sua elevada seriedade, como diria Matthew Arnold. A característica moral definida dos segundos é a sua amoralidade; tanto Shakespeare como Whitman eram indiferentes aos valores morais, excepto na medida em que estes eram susceptíveis de serem convertidos em valores estéticos pela emoção temporária. Diga-se de passagem que ambos eram pederastas (...). O facto essencial acerca do bárbaro é que é inteiramente moderno; pertence em absoluto à sua época porque a raça de que provém não tem atrás de si qualquer era civilizacional. Não tem antepassados fora da biologia. O traço comum a Lenine e Shaw, Wells e (...). Quando apelam para qualquer coisa alheia a si próprios apelam para coisas como a humanidade, que é a expressão comum para designar a espécie animal de forma humana e inexistente fora da zoologia, ou da ciência, que nada tem que ver com o espírito humano excepto ser produzida por ele mas não para ele. O negro veste-se sempre pela última moda. Um canibal, se aqui os houvesse, mandaria vir sempre os pratos mais modernos. Ambos, por motivos óbvios, se sentem, por vezes, pessimistas. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966.\ - 211. O segredo da M[açonaria] é simplesmente este — que todas as religiões são igualmente verdadeiras, que dizer Júpiter ou Jehovah é, não dizer coisas diferentes, mas como quem diz a mesma coisa em línguas diferentes. Deve haver portanto tolerância para com todas as religiões — tolerância às avessas da do chamado livre pensador, que tolera a todas porque considera todas falsas. Um maçon pode ser tudo menos ateu. Isto está dito nas constituições de Anderson, embora veladamente dito, e a interpretação literal do texto, do G[rande] O[riente] de França, é errónea. Não se podia dizer isso explicitamente porque quase ninguém entraria para a Ordem, se se dissesse. É depois de estar na Ordem, de atingir a sua essência e espírito, que este segredo se atinge. Todas as religiões, embora verdadeiras, são contudo simbólicas; como a própria F[ranco-]M[açonaria]. Isto é, os seus ritos e dogmas, os seus deuses e rituais, são verdadeiros, mas como símbolos, não como realidades. Os inimigos do Símbolo são a Ignorância, que esquece ou não sente que ele é símbolo; o Fanatismo, que (...) E assim matam o símbolo, e o Sentido (a Palavra) do símbolo se perde, a religião se materializa (morre), e só na pessoa do seu entendedor externo (o candidato) pode ser verdadeiramente ressuscitada. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 199. Segundo O DAS QUINAS Os Deuses vendem quando dão. Compra-se a glória com desgraça. Ai dos felizes, porque são Só o que passa! Baste a quem baste o que lhe basta O bastante de lhe bastar! A vida é breve, a alma é vasta: Ter é tardar. Foi com desgraça e com vileza Que Deus ao Cristo definiu: Assim o opôs à Natureza E Filho o ungiu. 8-12-1928 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 22. Tive uma flor para dar Tive uma flor para dar A quem não ousei dizer Que lhe queria falar, E a flor teve que morrer. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 43. Na noite que me desconhece O luar vago, transparece Da lua ainda por haver. Sonho. Não sei o que me esquece, Nem sei o que prefiro ser. Hora intermédia entre o que passa, Que névoa incógnita esvoaça Entre o que sinto e o que sou? A brisa alheiamente abraça. Durmo. Não sei quem é que estou. Dói-me tudo por não ser nada. Da grande noite embainhada Ninguém tira a conclusão. Coração, queres? Tudo enfada Antes só sintas, coração. 18-5-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 129. O ensaio sobre a Iniciação. Havia três razões pelas quais nas religiões pagãs certas verdades, ou coisas supostas serem verdades, eram transmitidas só em segredo e reclusão, por iniciação. A primeira era uma razão social: pensava-se que essas tais verdades eram impróprias para transmissão a qualquer homem, a nau ser que ele estivesse em certa medida preparado para as receber, e que elas teriam resultados sociais desastrosos se fossem tornadas públicas, pois isso significaria que seriam mal compreendidas. «Etiamsi revelare destruere est...» A segunda era uma razão filosófica: supunha-se que, em si próprias, essas verdades não eram de um género que o homem comum pudesse compreender e que lhe poderia advir confusão mental e desequilíbrio na conduta se lhe fossem inutilmente comunicadas. A terceira era, por assim dizer, uma razão espiritual: pensava-se que, por serem verdades da vida interior, essas verdades não deviam ser comunicadas, mas sugeridas, e que a sugestão devia ser impressiva, rodeada de secretismo, para que pudesse ser sentida como de valor; de ritual, para que pudesse impressionar e surpreender; de símbolos, para que o candidato fosse forçado a abrir o seu próprio caminho, lutando por interpretar os símbolos, em vez de se julgar cheio de conhecimento se a comunicação tivesse sido feita por ensinamento dogmático ou filosófico. Não digo que estas três razões se apresentassem claras ou em separado ou em conjunto, embora assim divididas, nos espíritos dos antigos, sacerdotes ou leigos das suas religiões. Mas digo que, quando não por inteligência directa, ao menos por intuição, eles basearam as suas religiões neste esquema divisional. As religiões dos Antigos, e sobretudo as religiões pagãs da Grécia e Roma, que são as que mais nos interessam, uma vez que os nossos espíritos são seus filhos, estavam divididas em três formas. Havia uma forma social, o culto, que era o do homem como cidadão. Havia uma forma individual, a poesia, que era do homem como não-cidadão; cumprido o culto devidamente, ele podia interpretar para si os deuses como entendesse e elaborar as suas lendas como lhe parecesse mais adequado. E havia uma forma secreta, a iniciação, que participava em segredo das características de ambas: era individual porque, mesmo quando a iniciação era colectiva como nos grandes Mistérios pagãos, era sempre o indivíduo o iniciado e não o grupo; era social, porque a iniciação era comunicada em ritual e o ritual é social. O que com os Cristãos raramente está associado ou fundido com a poesia como acontecia com os pagãos. (Não compreenderemos a Idade Média até que compreendamos que a teologia era a sua poesia, que a ausência de poesia então mais não era que a presença da poesia sob outra forma). Todas as religiões, porém, estão no mesmo estado que as grandes religiões pagãs. As três formas de religião serão encontradas de uma forma ou de outra em todas. Nas religiões cristas, por exemplo, temos o culto público, quer seja altamente cerimonial como na Igreja Romana, quer pobre até à nudez como nas seitas protestantes extremistas; temos a religião individual significando a reflexão pessoal sobre os dogmas e fórmulas de fé, e isto é teologia onde (com os pagãos), era antes poesia; e temos a vida interior do cristão, que é a sua iniciação, porque nas religiões cristãs a iniciação é considerada como dada por Cristo, só, misticamente, e não por qualquer sacerdote ou hierofante ritualmente ou ceremonialmente. Por outras palavras — cujo sentido mais exacto será compreendido mais tarde — a iniciação pagã encaminhou-se para a Magia, como fazem todas as iniciações rituais, e a iniciação cristã encaminhou-se para o Misticismo, como fazem todas as iniciações meditativas. Qualquer que seja o número de graus, exteriores ou interiores, na escala de ascensão para a verdade, eles podem ser considerados como três — Neófito, Adepto e Mestre. Na realidade, os graus são dez — quatro para o Neófito, três para o Adepto e três, por assim dizer, para o Mestre. Há realmente também dois intergraus que ficam entre o primeiro e o segundo, e entre o segundo e o terceiro há ordens, estas também não numeradas. Os graus não numerados são graus de noviciado, enquanto os outros são, cada um na sua medida, graus de realização. O Neófito, ao longo dos graus que esta expressão descreve, é essencialmente um aprendiz; o seu caminho é em direcção à realização do conhecimento na esfera exterior. No Adepto, ao longo dos seus três passos, há um progresso na unificação do conhecimento com a vida. No Mestre há, ou diz-se que há, uma distribuição da unidade assim atingida em virtude de uma unidade mais elevada. Uma comparação com coisas mais simples tornará isto mais claro, creio. Suponhamos que o escrever grande poesia é o fim da iniciação. O grau de Neófito será a aquisição dos elementos culturais com que o poeta terá de tratar ao escrever poesia e que são, grau a grau e no que se afigura ser uma analogia exacta: 0) gramática, 1) cultura geral, 2) cultura literária particular, 3) [incompleto no original, e a numeração salta] O grau de Adepto será, extraindo a analogia da mesma maneira 5) o escrever poesia lírica simples como num poema lírico comum, 6) o escrever poesia lírica complexa como em, 7) o escrever poesia lírica ordenada ou filosófica como na ode. O grau de Mestre será, da mesma maneira: 8) o escrever poesia épica, 9) o escrever poesia dramática, 10) a fusão de toda a poesia, lírica, épica e dramática em algo para lá de todas elas. Ao leitor desta analogia literária ocorrerão três observações. A primeira é que se pode ser poeta sem os graus de Neófito, Adepto do primeiro grau de Adepto sem sequer se «tomar» o primeiro grau de neófito. A segunda é que a progressão descrita não corresponde à que habitualmente acontece na vida, seja ela a de um poeta ou a de qualquer outro homem. A terceira é que a função de toda a poesia, lírica, épica e dramática, em algo que fica para além das três, é uma realização que excede a compreensão. Levei o leitor a fazer estas observações para que eu pudesse, replicando-lhes, completar a analogia com uma explicação. Quanto à primeira observação: O primeiro grau de Adepto é, na verdade, o primeiro grau real da iniciação real. Um místico simples, que funde a sua fé e a sua vida, atingiu o começo da iniciação real, enquanto o neófito aperfeiçoado, no qual a fé (ou conhecimento) e a vida ainda estão separados, não a atingiu. Mas se o Adepto espontâneo tiver atingido o Quinto Grau sem ter passado pelos cinco primeiros (que incluem o grau Zero), terá de permanecer largo tempo à entrada da Câmara do Meio, onde se pode adequadamente dizer estar «colocado» o primeiro grau de Adepto. Para passar ao Sexto Grau ele terá, em certo sentido, de voltar ao princípio. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. “Ensaio sobre a Iniciação.” Trad.: Maria Helena Rodrigues de Carvalho Chesterton lives in that atmosphere of half-truth (in that mist of truths) from which truths come mistily. When he is right, he generally manages to be wrong. He has defended the Catholic (Roman) faith with an admirable asymmetry which any Catholic would warmly repudiate; he has based medievalism on a repudiation of modernity which has nothing to do, even by contrast, with the Middle Ages. * There is much more to be said for Edgar Wallace, as a clear human type, than for Bernard Shaw. Edgar Wallace sits firm on his little stool, but Shaw has fallen between all the stools. He is too witty for to-day and not witty enough for to-morrow. The essential reason is that he is a morbid human type. He uses talent for the ends of wit and gives it a sound of genius. He has a bit of each element, with a predominance of wit, which would have made him great indeed, if he had not the degrading seriousness of talent, which in him takes the untoward form of propaganda, an attitude towards life which only the unwitty generally adopt. His propaganda has been very good propaganda, but it has, after all, been no more than propaganda. He set himself up as the advertising manager of his intentious “ideas”, and his plays are no more than the lay-outs of his advertisements. There are things quite worthy of Shaw, and sometimes better because purer, in the advertisements of the best American publicity agents; but the right intuition lies with the business men, who know that their wit will not, and need not, survive the high commercial effect and the speed of the present necessity. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 213. É a espada, vejam bem Que ao mal e ao crime conduz; A espada tem uma coroa E a coroa tem uma cruz. 7-12-1908 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 200. Primeiro ULISSES O mito é o nada que é tudo. O mesmo sol que abre os céus É um mito brilhante e mudo — O corpo morto de Deus, Vivo e desnudo. Este, que aqui aportou, Foi por não ser existindo. Sem existir nos bastou. Por não ter vindo foi vindo E nos criou. Assim a lenda se escorre A entrar na realidade, E a fecundá-la decorre. Em baixo, a vida, metade De nada, morre. s.d. Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 25. Mais triste do que o que acontece É o que nunca aconteceu. Meu coração, quem o entristece? Quem o faz meu? Na nuvem vem o que escurece O grande campo sob o céu. Memórias? Tudo é o que esquece. A vida é quanto se perdeu. E há gente que não enlouquece! Ai do que em mim me chamo eu! 9-6-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 130. [Carta a Armando Teixeira Rebelo -2 Ago. 1907] Hotel Brito, Portalegre 22 de Agosto de 1907 . Venerável porção de existência terrena! Nuns poucos momentos de concatenada actividade mental, não desassistida dos fumos carnais da bebida alcoólica — nada mais nada menos do que vinho — não exclusivo a esta localidade, a minha alma sentiu, como um suspiro mental, a necessidade de dar expressão do seu presente estado e tendências a um cérebro amigável como o teu. Solitário e silente no meu transitório lugar de existência no hotel mencionado no cabeçalho desta explosiva epístola de uma sobrecarregada alma, sentindo em redor de mim um mundo moralmente frio e materialmente quente — abaixo de zero quanto à minha alma e não longe dos 40 quanto ao meu corpo — nestas circunstâncias angustiosas e inspiradoras veio até mim a ideia de que talvez o processo desta composição epistolar possa ser subjectivamente conducente a um alívio do meu fardo terreno neste momento, possa ser o «bálsamo em Gilead» sonhado por Poe, para o meu espírito desgarrado. Daí esta carta. Portalegre é um lugar em que tudo quanto um forasteiro pode fazer é cansar-se de não fazer nada. As suas qualidades componentes parecem-me conter (depois de uma profunda análise), em quantidades relativas e incertas, calor, frio, semiesPãholismo e nada. O vinho é bom (embora não daqui, creio), mas é decididamente alcoólico, especialmente quando a jarra de água está na outra extremidade da mesa e tu te esqueces (quer dizer, eu me esqueço) de o pedir. O estilo desta carta é disso uma prova decisiva. Farei dela registo, para que uma tão brilhante produção do meu espírito não se perca no correio. A desmontagem e embalagem da tipografia está a levar um tempo danado — poeticamente falando, é claro. Apesar disso, os homens têm trabalhado bastante depressa e tenho os olhado e observado com a maior das energias. Acredito sinceramente que, se tivesse que aqui ficar um mês, teria de ir para Lisboa e depois para o Hotel Bombarda. Mal podes imaginar o hiperaborrecimento, o ultra-estafanço-de-tudo, a absoluta sensação de o-que-há-de-fazer-um-tipo num sítio destes, que reinam no meu espírito! Encontrei um livro para ler. Estou ansioso por voltar para Lisboa; penso contudo que ainda terei de ficar aqui mais três dias. O Alentejo visto do comboio Nada com nada em sua volta E algumas árvores no meio, Nenhuma das quais claramente verde, Onde não há vista de rio ou de flor. Se há um inferno, eu encontrei-o, Pois se não está aqui, onde Diabo estará? Passa bem, ó tu F. Nogueira Pessoa P. S. — Não me escrevas para Portalegre. Poderei já aqui não estar. Espera o meu regresso a Lisboa. Aí falaremos então. 2-8-1907 Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas . Fernando Pessoa. (Introduções, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Publ. Europa-América, 1986. - 56. Tradução de António Quadros. 1ª publ. in Vida e Obra de Fernando Pessoa - História de uma Geração . João Gaspar Simões. Lisboa: Bertrand, 1951. Blank verse, the one so called, is an extremely dull medium to write in. Only the subtlest rhythmical faculty can ward off flatness, and it cannot ward off flatness for a long time. Perfect poems can be written in blank verse, that is to say, poems which can be read with interest and attention, and will fulfil and satisfy; but they must be short — “Tithonus”, or “Ulysses” or “Oenone” and the like. When not short, or not sufficiently short, they can hold themselves up only by strong interest, and it is very difficult, except in drama, to carry strong interest along the desert of blank verses. Blank verse is the ideal medium for an unreadable epic poem. All the metrical science of Milton, and it was very great, cannot make of “Paradise Lost” anything but a dull poem. It is dull, and we must not lie to our souls by denying it. One element such a poem may have — quick action, material or mental — and it might escape dullness thereby: action as in Arnold’s “Sohrab and Rustum”, which is marvellously readable (...) In Milton there is very little action, properly such, very little quick action, and the thought is all theological, that is to say, peculiar to a certain kind of metaphysics which does not concern the universality of mankind. The fact is that the epic poem is a Graeco-Roman survival, or very nearly so. Only prose, which disengages the aesthetic sense and lets it rest, can carry the attention willingly over great spaces of print. “Pickwick Papers” is bigger, in point of words, than “Paradise Lost”; it is certainly inferior, as values go; but I have read “Pickwick Papers” more times than I can reckon, and I have read “Paradise Lost” only one time and a half, for I failed at the second reading. God overwhelmed me with bad metaphysics and I was literally God-damned. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 214. Para adorar a beleza E a liberdade amar Fez Deus Portugal tão belo, Pôs-nos Deus à beira-mar (Só aprendemos a sonhar). Sofra um só deve ser pública Toda a dor (...) da opressão Vamos, morte (?] ou república, Suprimir [?] a revolução. 31-12-1908 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 201. Segundo VIRIATO Se a alma que sente e faz conhece Só porque lembra o que esqueceu, Vivemos, raça, porque houvesse Memória em nós do instinto teu. Nação porque reencarnaste, Povo porque ressuscitou Ou tu, ou o de que eras a haste — Assim se Portugal formou. Teu ser é como aquela fria Luz que precede a madrugada, E é já o ir a haver o dia Na antemanhã, confuso nada. 22-1-1934 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 26. This value of the element of foreigeness, so clear in the provincial case of Burns, is evident on higher levels. Much of the glory of Homer, deserved as it is, is due to people who cannot read Greek. His prestige is in part that of a God, because like a God he is both great and half-known. “How dull Milton is!” said an enthusiast once to me. “How different from Homer and Virgil!” I exclaimed. And he agreed at once. Yet Milton is no less dull than Homer — except as in so far as we are inevitably keener critics of the more difficult English tensyllable verse than of the easier and more distant Greek hexameter — and he is certainly less dull than Virgil, the monotony of whose verbal care is unalloyed by thought, such as the theology of Milton, which, even where it is dull, is nevertheless metaphysics. The mental vacuity of the great epic poets is sometimes epic in itself. Some, indeed, escape into lusciousness and pageant, like Spencer, whose “Faerie Queene”, however, no one ever read. (Wilde’s “A gentleman never looks out of the window” is not very funny, but it is quite useful as a definition of a gentleman). s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 215. Terceiro O CONDE D. HENRIQUE Todo começo é involuntário. Deus é o agente, O herói a si assiste, vário E inconsciente. À espada em tuas mãos achada Teu olhar desce. «Que farei eu com esta espada?» Ergueste-a, e fez-se. s.d. Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 27. Anyone who is in any way a poet knows very well how much easier it is to write a good poem (if good poems lie in the man’s power) about a woman who interests him very much than about a woman he is deeply in love with. The best sort of love poem is generally written about an abstract woman. A great emotion is too selfish; it takes into itself all the blood of the spirit, and the congestion leaves the hands too cold to write. Three sorts of emotions produce great poetry — strong but quick emotions, seized upon for art as soon as they have passed, but not before they have passed; strong and deep emotions in their remembrance a long time after; and false emotions, that is to say, emotions felt in the intellect. Not insincerity, yet a translated sincerity, is the basis of all art. The great general who would win a battle for the empire of his country and the history of his people does not wish — he cannot wish — to have many of his soldiers slain (killed). Yet, once he has entered into the contemplation of his strategy, he will choose (without a thought of his men) the better stroke, though it lose him a hundred thousand men, rather than the worse, or even but the slower, action, which may leave him nine-tenths of those men he fights with and for, and whom he generally loves. He becomes an artist for the sake of his fellow-countrymen and he mows down his fellow-countrymen for their strategical sake. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 216. D. PEDRO V Quando Deus viu que o rei D. Pedro Quinto Longe de má pessoa, com acinto Ao bem e à verdade se cingia Assobiou e resmungou «errei Lá vai este destoar, por ser bom rei, D'aquela estuporada dinastia Que eu destinara a exempli[fi]car Perante o mundo o mal da monarquia Nada, volva a infâmia ao seu lugar Se não com este era a obra desfeita Da infâmia completa de governar Que nos Bragança ia tão perfeita.» Matou-o novo pois para não destoar. 1-4-1909 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 203. Quarto D. TAREJA As nações todas são mistérios. Cada uma é todo o mundo a sós. Ó mãe de reis e avó de impérios. Vela por nós! Teu seio augusto amamentou Com bruta e natural certeza O que, imprevisto, Deus fadou. Por ele reza! Dê tua prece outro destino A quem fadou o instinto teu! O homem que foi o teu menino Envelheceu. Mas todo vivo é eterno infante Onde estás e não há o dia. No antigo seio, vigilante, De novo o cria! 24-9-1928 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 28. He (the artist) may not be intelligent, but he must be intellectual. Art is the intellectualisation of sensation (feeling) through expression. The intellectualisation is given in, by and through the expression itself. That is why great artists — even great artists in literature, which is the most intellectual of the arts — are so often unintelligent persons. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 217. Um Deus cansado [de] ser Deus em vão Farto da gente em cuja companhia Ia da suja noite ao porco dia, Para não ser obscuro — o Deus cristão, O Deus do Cristianismo, esse, uma vez Quebrando essa apatia em que repousa, Ou repousava, (…), fez … Mas fez ele alguma vez alguma coisa? Para fazer alguma coisa E não passar a eternidade em branco Fez o João Franco. Depois, como a paciência não lhe sobra, (Que o Cristianismo não o deixa em paz) Deu um golpe de vista à sua obra, E zangou-se; já tenho água salobra Na cabeça: de criar sou afinal capaz. O último que criei foi Adão Deixei ao tempo o resto e foi mau para mim. Em lugar de criar qualquer novo João, Lá fui ressuscitar Caim. 14-2-1910 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 204. Quinto D. AFONSO HENRIQUES Pai, foste cavaleiro. Hoje a vigília é nossa. Dá-nos o exemplo inteiro E a tua inteira força! Dá, contra a hora em que, errada, Novos infiéis vençam, A bênção como espada, A espada como bênção! s.d. Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 30. A classic is a man who expresses himself; a romantic a man who has a lot of self to express and expresses that but no more. It is astonishing, for instance, how much of Shelley is only what Shelley could have been if he had been somebody else. But it is all unfiltered, unsublimed, a splendour of the virtual, a luminous verbalised possibility. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 218. EPITÁFIO A JOÃO FRANCO (...)na tua campa O epitáfio solene que mereces «Foi melhorando, desde a vida à morte. Pois será pó, é podridão, foi trampa.[»] s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 205. Sexto D. DINIS Na noite escreve um seu Cantar de Amigo O plantador de naus a haver, E ouve um silêncio múrmuro consigo: É o rumor dos pinhais que, como um trigo De Império, ondulam sem se poder ver. Arroio, esse cantar, jovem e puro, Busca o oceano por achar; E a fala dos pinhais, marulho obscuro, É o som presente desse mar futuro, É a voz da terra ansiando pelo mar. 9-2-1934 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 31. Sometimes the temperament of the man and the temperament of the environment fit into each other to such an extent that the environment may be said to be no less a parent of the man than his physical parents were. This was the case of Napoleon, who, being wholly Italian, was altogether French. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 218. Sétimo (I) D. JOÃO O PRIMEIRO O homem e a hora são um só Quando Deus faz e a história é feita. O mais é carne, cujo pó A terra espreita. Mestre, sem o saber, do Templo Que Portugal foi feito ser, Que houveste a glória e deste o exemplo De o defender, Teu nome, eleito em sua fama, É, na ara da nossa alma interna, A que repele, eterna chama, A sombra eterna. 12-2-1934 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 32. Realists do small things, romantics great ones. A man must be a realist to be manager of a tin-tackfactory. He must be a romantic to be manager of the world. It needs a realist to find reality; it needs a romantic to create it. Napoleon is only a poet, Cromwell an enthusiast, Caesar a rhetorician. The distance between Henry Ford and John Milton is always longer on the return train. Achievement is death, because it is the end. The romantics are self-survivals, perpetual incarnations of their own selves (...) Civilisation is Graeco-Roman and is therefore in the line of development of the Southern nations. It is still Mediterranean to some extent, though it passed, with Portugal, the Pillars of Hercules and added the world to Rome. Travels by sea like those of Drake, Frobisher, Cook and (as the Patent Office says) “the like” are so insignificant in the sociology of discovery that (it were better patriotism for an Englishman never to mention them at all) it were a wiser patriotism with Englishmen to omit all reference to them except as national incidents of a foreign impulse. Politics and not navigation is the English contribution to the substance of civilisation. England found the sea only after it was told where it was. Os realistas fazem as pequenas coisas, e os românticos as grandes. Para se ser gerente de uma fábrica de tachas, tem de se ser realista. Para se gerir o mundo, tem de se ser romântico. Só um realista pode encontrar a realidade; só um romântico a pode criar. Napoleão é apenas poeta, Cromwell um entusiasta, César um retórico. A distância entre Henry Ford e John Milton é sempre maior no combóio de regresso. A realização é a morte, por ser o fim. Os românticos são auto-sobrevivências, incarnações perpétuas de si próprios (...). A civilização é greco-romana, inserindo-se, portanto, na linha de evolução das nações meridionais. É ainda mediterrânea em certa medida, embora com Portugal passasse para além das Colunas de Hércules e somasse o mundo a Roma. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 218. A crise central da nacionalidade portuguesa deriva da sua impotência para formar escóis. Uma nação vale o que vale o seu escol. As descobertas e as conquistas que se lhes seguiram, a emigração e as guerras que ambas motivaram, arrastavam consigo, como é natural, a parte mais forte, mais audaz, mais competente da nação. Assim se foi destruindo o escol. O pior é que o escol se não renovou. Quer isto dizer que não tornaram a haver circunstâncias criadoras de um escol, ou, pelo menos, de um escol perfeito. Quais são as circunstâncias criadoras de um escol? Um escol é tanto mais perfeito quanto mais: (1) diferente é do resto da população em grau de tudo; (2) quanto mais está contudo unido a esse resto da população por um interesse nacional; (3) acção tem sobre esse resto da população. O escol não quer dizer uma classe, mas uma série de indivíduos. Condições auxiliares do escol: (1) a aristocracia de sangue, pois estabelece a cisão no país. País democratizado, país em que baixa imediatamente o nível do escol; (2) [...] Condições biológicas: (1) não intervenção do estado em matéria biológica ou demótica; Condições económicas : (1) regime concorrencial o mais apertado possível. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 17. O meu livro "Mensagem" chamava-se primitivamente "Portugal". Alterei o título porque o meu velho amigo Da Cunha Dias me fez notar — a observação era por igual patriótica e publicitária — que o nome da nossa Pátria estava hoje prostituído a sapatos, como a hotéis a sua maior Dinastia. «Quer V. pôr o título do seu livro em analogia com "portugalize os seus pés?"» Concordei e cedi, como concordo e cedo sempre que me falam com argumentos. Tenho prazer em ser vencido quando quem me vence é a Razão, seja quem for o seu procurador. Pus-lhe instintivamente esse título abstracto. Substituí-o por um título concreto por uma razão... E o curioso é que o título "Mensagem" está mais certo — àparte a razão que me levou a pô-lo — de que o título primitivo. Deus fala todas as línguas, e sabe bem que o melhor modo de fazer-se entender de um selvagem é um manipanso e não a metafísica de Platão, base intelectual do cristianismo. Reservo-me porém o direito de pensar que tal forma da religião é uma forma inferior. É sem dúvida necessário que haja quem descasque batatas, mas, reconhecendo a necessidade e a utilidade do acto descascador, dispenso-me de o considerar comparável ao de escrever a "Ilíada". Não me dispenso porém de me abster de dizer ao descascador que abandone a sua tarefa em proveito da de escrever hexâmetros gregos. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 53. O burburinho da água O burburinho da água No regato que se espalha É como a ilusão que é mágoa Quando a verdade a baralha. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 47. Dá a surpresa de ser É alta, de um louro escuro. Faz bem só pensar em ver Seu corpo meio maduro. Seus seios altos parecem (Se ela estivesse deitada) Dois montinhos que amanhecem Sem ter que haver madrugada. E a mão do seu braço branco Assenta em palmo espalhado Sobre a saliência do flanco Do seu relevo tapado. Apetece como um barco. Tem qualquer coisa de gomo. Meu Deus, quando é que eu embarco? Ó fome, quando é que eu como? 10-9-1930 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 123. Relat. G.C.P. [ Grémio de Cultura Literária] A nossa ruína cultural, a nossa não lusitanidade íntima, esse é o mal que nos mina; todos os outros, por graves que sejam, podem passar, podem ter solução. Mas para aquilo que, continuado, é a morte mesma, não há solução. Do esforço instintivo da sociedade portuguesa, da operação obscura das leis desconhecidas, pelas quais as sociedades se regem, e que são o comentário frequentemente irónico à vontade inútil dos homens, ao esforço estéril das vontades individuais e conscientes, não podemos esperar nada, embora o possamos esperar. É que não podemos ter confiança no que desconhecemos, nem trabalhar em prol ou contra o que é inevitável e seguro. Do estado nada podemos esperar também, mas, aqui, por uma outra razão. O estado não é português, o estado não é decente, o estado está, desde 1820, na posse de homens cuja obra é a essência da traição e da falência. Procurar o auxílio do estado é tão absurdo como procurar influenciar os homens que o possuem. Não há neles uma centelha de boa vontade patriótica, nem de lucidez portuguesa. Vivem daquilo, e nem vivem daquilo elegantemente. O esforço revolucionário para os deitar abaixo é um gasto espúrio de energia. Quem é que se lhes vai seguir? Não há em Portugal nenhum grupo ou partido, nenhuma reunião de homens duradoura ou ocasional capaz de gerir o país. O que há é péssimo, mas é o que há. Sidónio Pais era Sidónio Pais, e a sua regência foi célebre pela imoralidade, pela profusão de apadrinhamentos, pela prolixa desvergonha nos negócios escuros e nos crimes políticos. Quando esse homem, que tinha as qualidades místicas do chefe de nação, que tinha as qualidades de astúcia precisas para manejar os homens, e as de energia para os compelir, não pôde, honesto como era, romper com a cercadura de ladrões que tinha, não pôde, leal como era, evitar estar cercado por traidores e bandidos, não pôde, nobre na coragem como era, evitar ser rodeado de assassinos e de trauliteiros — que espécie de homem esperamos nós que virá, que faca a obra de regeneração? Quanto aos partidos contrários, quando não aprenderam depois de Monsanto, quando, voltando ao poder, se mostraram ainda mais corruptos do que haviam sido no escuro consulado de Costa e Norton, quando, para se oporem à gerência Sidónio, continuaram, agravando-as, as suas deficiências, e desorganizaram a ordem social que aquele havia deveras posto de pé, e a unidade moral da nação, que aquele com a sua [...] esboçara, que circunstâncias temos nós que esperar que lhes ensinem qualquer coisa? A adversidade só os educou numa maior javardice na vitória. A nossa intervenção na guerra foi uma obra, essencialmente, de comércio escuro, salvo na retórica das palavras e nos ocultos desígnios do Destino. Se acertaram os que nos levaram à guerra, foi por erro. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 23. A desorientação em que temos vivido, a decadência em que temos vegetado, deriva da acumulação de três factores, que em três épocas diferentes intervieram na vida nacional e cuja influência infeliz permaneceu. O primeiro factor — a decadência propriamente dita — data da jornada de Alcácer Quibir, prolonga-se pelo domínio dos Filipes, e até hoje ainda não passou. Lampejos transitórios — a Restauração, o Marquês de Pombal, o Presidente Sidónio Pais — são apenas (salvo o último caso, de cujas consequências não podemos falar ainda) remissões da nossa doença colectiva. O segundo factor — a desnacionalização — entrou com a vinda do sistema monárquico estrangeiro que, implantado primeiro em 1820, se arrastou, através de uma guerra civil constante, latente ou patente, até à sua fixação em 1851, e a corrupção definitiva dos nossos costumes políticos e administrativos, o abandono total do governo à portuguesa. O terceiro factor, prolongamento desse segundo, surgiu plenamente em 1910, com a implantação da República. A desnacionalização tornou-se, nessa altura, degenerescência. Nem a degenerescência se limitava aos partidos que a República trouxe (não há estado social mórbido que seja pertença exclusiva de um partido), mas abrangeu também os velhos partidos monárquicos cuja obra a República, anarquizando mais, apenas continuou. O problema português consiste na destruição da tripla camada de negativismo que assim cobre a Pátria. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 24. Ophelinha: Para me mostrar o seu desprezo, ou, pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da série de «razões» tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-mo. Assim, entendo da mesma maneira, mas dói-me mais. Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Ophelinha pode preferir quem quiser: não tem obrigação — creio eu — de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama. Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as coisas, nem trata os outros como réus que é preciso «entalar». Porque não é franca para comigo? Que empenho tem em fazer sofrer quem não lhe fez mal — nem a si, nem a ninguém —, a quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lha venham acrescentar criando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe afeições fingidas, e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça. Reconheço que tudo isto é cómico, e que a parte mais cómica disto tudo sou eu. Eu-próprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra coisa que não fosse no sofrimento que tem prazer cm causar-me sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido, e creio bem que amá-la não é razão bastante para o merecer. Enfim... Aí fica o «documento escrito» que me pede. Reconhece a minha assinatura o tabelião Eugénio Silva. 1.3.1920. Fernando Pessoa 1-3-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 1. INTRODUÇÃO AO PROBLEMA NACIONAL [Índice] 1. As bases do carácter português (clima). I.      2. As influências históricas. 3. As influências civilizacionais. 4. Condições actuais. 5. O problema da organização da cultura. 6. A organização social e política. 7. A organização militar e das relações exteriores. (rever esta organização de capítulos) s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 12. Durmo ou não? Passam juntas em minha alma Coisas da alma e da vida em confusão, Nesta mistura atribulada e calma Em que não sei se durmo ou não. Sou dois seres e duas consciências Como dois homens indo braço-dado. Sonolento revolvo omnisciências, Turbulentamente estagnado. Mas, lento, vago, emerjo de meu dois. Desperto. Enfim: sou um, na realidade. Espreguiço-me. Estou bem... Porquê depois, De quê, esta vaga saudade? 2-10-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 95. Muito agradeço a sua carta. Muito agradeço a sua carta. Tenho passado muito aborrecido por todas as razões que calcula. Até para tudo ser desagradável, há duas noites que não durmo, pois a angina dá uma saliva constante, e acontece-me esta coisa muito estúpida — eu ter que estar a cuspir de dois em dois minutos, o que não me deixa sossegar. Agora estou ao mesmo tempo melhor e pior do que estava de manhã: tenho menos ardor na garganta, mas tenho outra vez febre, o que de manhã já não tinha. (Notar que esta carta vai escrita no mesmo estilo da sua, por o Osório estar aqui ao pé da cama, de onde eu estou escrevendo, e naturalmente repara de vez em quando para o que eu escrevo.) Não posso escrever mais, com a febre e as dores de cabeça com que estou. Para responder ao que tu perguntas, as outras coisas, meu amorzinho querido, (oxalá o O. não veja isto), teria que escrever muito mais e não posso. Desculpa-me sim? 18/3/1920 Fernando Pessoa 18-3-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 2. INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO PROBLEMA NACIONAL 1. Reconstrução do psiquismo nacional. (a) Do psiquismo nacional aristocrático: pela renovação literária e artística. (b) Do psiquismo nacional nas classes médias: pela educação (mas quem há-de educar os educadores?). (c) Do psiquismo nacional popular: pela insistente propaganda nacional, no bom e (tanto quanto possível) alto sentido. O problema nacional o que é? (1) Criação dum psiquismo nacional. (2) Valorização de Portugal no estrangeiro. (3) Criação da força política das classes médias. (4) Reconstrução individualista da educação. (5) Criação de uma aristocracia capaz de organizar. (Como se prepara a geração capaz de criar uma nova política? Como ir inventando [?], desde logo, adentro da literatura, a política?) s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 13. 19.3.1920 às 4 da madrugada Meu amorzinho, meu Bebé querido: São cerca de 4 horas da madrugada e acabo, apesar de ter todo o corpo dorido e a pedir repouso, de desistir definitivamente de dormir. Há três noites que isto me acontece, mas a noite de hoje, então, foi das mais horríveis que tenho passado em minha vida. Felizmente para ti, amorzinho, não podes imaginar. Não era só a angina, com a obrigação estúpida de cuspir de dois em dois minutos, que me tirava o sono. É que, sem ter febre, eu tinha delírio, sentia-me endoidecer, tinha vontade de gritar, de gemer em voz alta, de mil coisas disparatadas. E tudo isto não só por influência directa do mal-estar que vem da doença, mas porque estive todo o dia de ontem arreliado com coisas, que se estão atrasando, relativas à vinda da minha família, e ainda por cima recebi, por intermédio de meu primo, que aqui veio às 7 1/2, uma série de notícias desagradáveis, que não vale a pena contar aqui, pois, felizmente, meu amor, te não dizem de modo algum respeito. Depois, estar doente exactamente numa ocasião em que tenho tanta coisa urgente a fazer, tanta coisa que não posso delegar em outras pessoas. Vês, meu Bebé adorado, qual o estado de espírito em que tenho vivido estes dias, estes dois últimos dias sobretudo? E não imaginas as saudades doidas, as saudades constantes que de ti tenho tido. Cada vez a tua ausência, ainda que seja só de um dia para o outro, me abate; quanto mais não havia eu de sentir o não te ver, meu amor, há quase três dias! Diz-me uma coisa, amorzinho: Porque é que te mostras tão abatida e tão profundamente triste na tua segunda carta — a que mandaste ontem pelo Osório? Compreendo que estivesses também com saudades; mas tu mostras-te de um nervosismo, de uma tristeza, de um abatimento tais, que me doeu imenso ler a tua cartinha e ver o que sofrias. O que te aconteceu, amor, além de estarmos separados? Houve qualquer coisa pior que te acontecesse? Porque falas num tom tão desesperado do meu amor, como que duvidando dele, quando não tens para isso razão nenhuma? Estou inteiramente só — pode dizer-se; pois aqui a gente da casa, que realmente me tem tratado muito bem, é em todo o caso de cerimónia, e só me vem trazer caldo, leite ou qualquer remédio durante o dia; não me faz, nem era de esperar, companhia nenhuma. E então a esta hora da noite parece-me que estou num deserto; estou com sede e não tenho quem me dê qualquer coisa a tomar; estou meio-doido com o isolamento em que me sinto e nem tenho quem ao menos vele um pouco aqui enquanto eu tentasse dormir. Estou cheio de frio, vou estender-me na cama para fingir que repouso. Não sei quando te mandarei esta carta ou se acrescentarei ainda mais alguma coisa. Ai, meu amor, meu Bebé, minha bonequinha, quem te tivesse aqui! Muitos, muitos, muitos, muitos, muitos beijos do teu, sempre teu Fernando 19.3.1920, às 9 da manhã. Meu querido amorzinho: Parece que foi remédio santo o escrever-te o que está acima. A seguir fui-me deitar, sem esperança nenhuma de adormecer, e o facto é que dormi umas 3 ou 4 horas a fio — pouca coisa, mas não imaginas a diferença que me fez. Sinto-me muito mais aliviado, e, embora a garganta ainda arda e esteja inchada, o facto de o estado geral ter assim melhorado quer dizer, creio bem, que a doença vai passando. Se as melhoras se acentuarem rapidamente, talvez ainda hoje mesmo vá ao escritório, mas sem me demorar muito; e então eu-próprio te entregarei esta carta. Espero aí poder ir; tenho certas coisas urgentes a tratar que posso dirigir aí do escritório, embora não vá eu em pessoa; mas que daqui me é impossível tratar. Adeus, meu anjinho bebé. Cobre-te de beijos cheios de saudade o teu, sempre, sempre teu Fernando 19-3-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 3. PRECISAMOS CRIAR PORTUGUESES O fundo da raça é bom... Qual é o carácter nacional? Quais os efeitos da nossa vida nacional presente sobre ele? O carácter nacional: (a) O que há nele de fundamental a acordar. (b) O que há nele de mau a matar. (c) O que há nele de bom a criar. .Saibamos nós criar portugueses, que sejam homens e estejam livres de defeitos destes — e teremos feito o principal. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 14. O amor, quando se revela, Não se sabe revelar. Sabe bem olhar p'ra ela, Mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente Não sabe o que há-de dizer. Fala: parece que mente... Cala: parece esquecer... Ah, mas se ela adivinhasse, Se pudesse ouvir o olhar, E se um olhar lhe bastasse P'ra saber que a estão a amar! Mas quem sente muito, cala; Quem quer dizer quanto sente Fica sem alma nem fala, Fica só, inteiramente! Mas se isto puder contar-lhe O que não lhe ouso contar, Já não terei que falar-lhe Porque lhe estou a falar... 1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 92. 19/3/1920 Meu Bebé pequenino (e actualmente muito mau): A carta que vai junta é a que mandei ainda agora a tua casa pelo Osório. Espero poder entregar-te as duas amanhã, indo esperar-te à saída do escritório Dupin. Sobre a informação, que te deram a meu respeito, não só quero repetir que é inteiramente falsa, como também dizer-te que a «pessoa de respeito», que deu essa informação a tua irmã, ou inventou por completo, e, sobre ser mentirosa, é doida; ou essa pessoa nem sequer existe, e foi tua irmã que a inventou — não digo que inventou a pessoa, mas que inventou que determinada pessoa lhe disse uma coisa que ninguém lhe disse. Olha, amorzinho: é sempre mau, nessas coisas, julgar que os outros não passam de parvos. Sobre essa «pessoa», e o que dela me disseste (naturalmente porque to tinham dito), terei dois detalhes: (1) que essa pessoa sabe que eu gosto de ti, (2) que «sabe» que não é com ideias sérias que gosto de ti. Ora, comecemos por uma coisa: não há quem saiba se eu gosto de ti ou não, porque eu não fiz de ninguém confidente sobre o assunto. Partamos do princípio que essa «pessoa respeitável» não «saiba», mas calcule que eu gosto de ti. Como há-de haver uma base para calcular isso, é que essa pessoa viu entre nós qualquer troca de olhares, notou entre nós (ou, antes, neste caso, de mim para ti) qualquer coisa. Quer dizer que é pessoa aqui do escritório, ou que aqui vem bastante, ou, ainda, que recebe informações de quem aqui vem bastante. Mas, para poder, ainda que por informações alheias, afirmar que que na verdade eu gosto de ti, essa pessoa, não sendo nenhuma que aqui venha ao escritório, só pode ser alguém ou da família de meu primo (a quem ele tivesse falado das «suspeitas» que tem de vez em quando de eu gosto de ti) ou da família do Osório. Isto são tudo suposições, e mesmo esta de ser uma pessoa da família de gente cá do escritório, é levar muito longe a tolerância para uma afirmação como a de essa pessoa saber que eu gosto de ti. Se já quase ninguém há (ninguém que o saiba por confidência minha, quase ninguém que o «calcule» de qualquer modo) que possa saber ao certo se eu te amo; menos há — aí então não há ninguém — que seja capaz de dizer que eu não te amo com ideias sérias. Para isso era preciso estar dentro de meu coração, e, ainda assim, era preciso ver mal, pois o que se via era asneira. Quanto à afirmação da «mulher» que eu tenho, se não é inventada por ti para te arredares de mim, faz à pessoa respeitável (se ela existe) que informou tua irmã as seguintes perguntas: 1. Que mulher é? 2. Onde é que eu vivi ou vivo com ela, onde é que a vou ver (se nos supõem dois amantes vivendo em casas separadas), há quanto tempo tenho eu essa mulher? 3. Outras quaisquer informações indicando ou definindo essa «mulher». Se toda a história não é invenção tua, garanto-te que dás com uma «retirada» imediata da pessoa que informou, a «retirada» de todos quantos são apanhados a mentir. E se a dita «pessoa respeitável» tiver o descaramento de dar detalhes, basta tu verificá-los, investigá-los. Verás que são mentiras, do princípio ao fim. Ah, o que isto tudo é é um enredo qualquer — muito infame, mas, como muitas coisas infames, muito estúpido — para me afastar de ti! De quem partirá o enredo? Ou não haverá enredo nenhum, e será isto simplesmente um pé que tu arranjas para te veres livre de mim? Sei lá... Suponho tudo; tenho o direito de supor tudo. Mas francamente eu merecia ser mais bem tratado pelo Destino do que estou sendo — pelo Destino, e pelas pessoas. Vamos ver se consigo que esta carta te vá parar às mãos ainda hoje, sob qualquer pretexto. Se não, entregar-ta-ei amanhã, quando aqui nos encontrarmos, ao meio dia e meia hora. Lê bem a carta junta, que te escrevi hoje de madrugada e se desencontrou contigo, pois o Osório a levou quando aqui vieste. Vê o que é escrever uma carta, e depois receber a série de notícias e «graças» que me deste. P.S. Afinal qual é a verdade no meio de tudo isto? Começo a desconfiar de tudo e de todos. Como foi isso de não ires... e depois ires... para o Dupin? Como é que de repente foste fazer confidências a tua irmã? Começo a não perceber bem... Começo a não saber ao certo o que pensar. F. P.S. 2 Mais uma coisa: se a tal «pessoa respeitável» existe (o que duvido), vê que fins pessoais poderá ter para me afastar de ti. Vê se não haverá, quando menos, fins de amizade para com qualquer outro pretendente teu . Mas essa «pessoa respeitável» deve ser parenta do snr. Crosse, com certeza — quanto à existência real. — Amanhã cá te espero no escritório à hora combinada. Ah, meu amor, meu amor: serás tu que me queres fugir para sempre, ou alguém que não quer que nós nos amemos? Teu, sempre teu Fernando 19-3-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 3. Em cada instante que possa decorrer uma eternidade, visto que cada instante, infinitamente divisível, é infinito idealmente, isto é, eterno. A divisão do tempo é uma convenção. Realmente cada divisão dessas (seja qual for) é uma eternidade. O célebre argumento de éternité énubée é falso no que quer provar, por ser inconcebível uma éternité énubée. Se avançamos para o infinito não avançamos realmente, mas estamos essencialmente estacionários. 1907? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 39. PORTUGAL - INTRODUÇÃO Livro I — Portugal como sociedade. Livro II — Portugal como Nação. Livro III — Portugal como Estado. — o caminho a seguir. I —(a) Princípios fundamentais da vida social. (b) Estado de Portugal como sociedade. (c) Estado actual da civ. quanto organizador das sociedades. (d) O que há a fazer em Portugal. (e) Maneira de o fazer. 1. Considerações preliminares sobre a necessidade, a oportunidade e [...] de fazer e publicar este estudo. 2. As três partes em que o estudo se divide. 3. As três maneiras em que tem de ser tratado cada ponto desses: adaptação, constituição essencial das sociedades (estados ou nações); adaptação, psicologia do povo de que se trata, aqui, do povo português; adaptação às circunstâncias históricas da civilização em que esse povo se integra, quer as do passado [...] quer do presente. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 26. É inda quente o fim do dia... Meu coração tem tédio e nada... Da vida sobe maresia... Uma luz azulada e fria Pára nas pedras da calçada... Uma luz azulada e vaga Um resto anónimo do dia... Meu coração não se embriaga Vejo como que em si o dia... É uma luz azulada e fria. 13-7-1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 95. Meu Bebé, meu Bebezinho querido: Sem saber quando te entregarei esta carta, estou escrevendo em casa, hoje, domingo, depois de acabar de arrumar as coisas para a mudança de amanhã de manhã. Estou outra vez mal da garganta; está um dia de chuva; estou longe de ti — e é isto tudo o que tenho para me entreter hoje, com a perspectiva da maçada da mudança amanhã, com chuva talvez e comigo doente, para uma casa onde não está absolutamente ninguém. Naturalmente (a não ser que esteja já inteiramente bom e arranje as coisas de qualquer modo, o que faço é ir pedir guarida cá na Baixa ao Marianno Sant’Anna, que, além de ma dar de bom grado, me trata da garganta com competência, como fez no dia 19 deste mês quando eu tive a outra angina. Não imaginas as saudades de ti que sinto nestas ocasiões de doença, de abatimento e de tristeza. O outro dia, quando falei contigo a propósito de eu estar doente, pareceu-me (e creio que com razão) que o assunto te aborrecia, que pouco te importavas com isso. Eu compreendo bem que, estando tu de saúde, pouco te rales com o que os outros sofrem, mesmo quando esses «outros» são, por exemplo, eu, a quem tu dizes amar. Compreendo que uma pessoa doente é maçadora, e que é difícil ter carinhos para ela. Mas eu pedia-te apenas que fingisses esses carinhos, que simulasses algum interesse por mim. Isso, ao menos, não me magoaria tanto como a mistura do teu interesse por mim e da tua indiferença pelo meu bem-estar. Amanhã e depois, com as duas mudanças e a minha doença, não sei quando te verei. Conto ver-te à hora indicada amanhã — às 8 da noite ou de aí em diante. Quero ver, porém, se consigo ver-te ao meio-dia (embora isso me pareça difícil), pois às 8 horas quem está como eu deve estar deitado. Adeus, amorzinho, faz o possível por gostares de mim a valer, por sentires os meus sofrimentos, por desejares o meu bem-estar; faz, ao menos, por o fingires bem. Muitos, muitos beijos, do teu, sempre teu, mas muito abandonado e desolado 20(?)/3/1920. Fernando 20-3-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 5. There is in genius an obscure element — that obscure element, real but difficult to define, which is called mediunnity when it assumes certain aspects. A case like that of Napoleon makes this clear. Napoleon was the medium of a vast number of tendencies of his age and time; if he had not been such a medium he would not have got hold of that age. He was sent out by it to come in to it, and commanded because it told him to command it. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 198. PORTUGAL O problema do estabelecimento de bases para a definição civilizacional de qualquer nacionalidade só aparece, só tem cabimento, quando essa nacionalidade se encontra num período de separação de um passado institucional que rui para um futuro institucional que ela tacteia. Seria absurdo por um problema nacional quando nenhuma força instintiva nacional espontaneamente põe tal problema. Mas nas horas de intermédio e de dissolução, quando o que é velho falece e o que é novo sofre ainda da inarticulação da infância, compete à inteligência a iniciativa da organização, que o instinto, deposto, já não tem, e o facto do futuro, infante, não logrou formular ainda. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 28. Em torno ao candeeiro desolado Cujo petróleo me alumia a vida, Paira uma borboleta, por mandado Da sua consistência indefinida. 1-9-1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 96. Quando olhaste para trás, Quando olhaste para trás, Não supus que era por mim. Mas sempre olhaste, e isso faz Que fosse melhor assim. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 43. Meu Bebé-anjinho: Não tenho muito tempo para te escrever, nem havia, na verdade, amorzinho mau, muita coisa que dizer-te, que eu não te diga amanhã muito melhor em conversa, no tempo, infelizmente curto, que dura o percurso da Rua do Arsenal até à casa da tua irmã. Não quero que te rales; quero ver-te alegre, como é de teu feitio seres. Prometes não te ralar — ou fazer o possível por não deixares que te ralem? Tu não tens razão nenhuma para te ralar, acredita. Olha, Bebezinho... Nas tuas promessas pede uma coisa, que em tempos me pareceu duvidosa, por causa da minha fraca sorte, mas agora me parece mais, muito mais possível. Pede que o snr. Crosse acerte no alvo de um dos prémios grandes — um dos prémios de mil libras a que concorreu. Não calculas a importância que para nós ambos teria se isso acontecesse! E olha, desde que vi, no jornal inglês recebido hoje, que ele já ia na altura de uma libra (e acabo de verificar que foi num concurso onde as graças dele não foram muito boas), tudo se torna possível. Ele fica, agora, número 12 em cerca de 20000 (vinte mil) concorrentes. Será impossível que ele um dia chegue a nº1? Ah, se isso acontecesse, amorzinho, e fosse num dos concursos grandes (mil libras, e não trezentas só, que não adiantava nada)! Tu compreendes? Vim há pouco da Estrela, de ver o 3º andar dos 70.000 reis. (Para dizer bem, como não está ninguém no 3º andar, vi o 2º, que tem, é claro, as mesmas divisões). Sempre resolvo a troca. É uma casa mais que boa, magnífica! Chega e sobra para minha mãe, irmãos, enfermeira e tia, e para mim também. (Mas aqui há outra coisa a dizer-te, que amanhã te direi.) Adeus, amor; não te esqueças do snr. Crosse, não? Olha que ele é muito nosso amigo e pode ser- nos (a nós ) muito útil. Muitos beijinhos de todos os tamanhos do teu, sempre teu Fernando 22/3/1920 22-3-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 6. Tell me again the music of that tale Thy nurse wit sang so oft by my soul's bed, Whose words and persons from my memory fade, But in the melody remembered. Thou mightst shift all the pawns of that told game And, so the music made it far off be, I shall still hear the tale as if the same, Far bark on seas of the same melody. What fairy castles and closed beauties lie On moonlight of not‑life away from where Loss is, truth kills, what charms must be put by, And but the still‑to‑be keeps fresh & fair. What matter the song, so by it the soul weeps Lost kinship with its antenatal sleeps? 6-11-1920 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 494. It may be admitted that genius is unappreciated in its age because it is opposed to that age; but it may be asked why it is appreciated by the times that come after. The universal is opposed to any age, because the characteristics of that age are necessarily particular; why therefore should genius, which deals in universal and permanent values, be more kindly received by one age than by another? The reason is simple. Each age results from a criticism of the age that preceded it and of the principles which underlie the civilizacional life of that age. Whereas one principle underlies each age, or seems to underlie it, criticism of that one principle is varied, and has in common only the fact that it is a criticism of the same thing. In opposing his age, the man of genius implicitly criticises it, and so implicitly belongs to one or another of the critical currents of the next age. He may himself produce one or another of those currents, like Wordsworth; he may produce none, like Blake, yet live by a parallel attitude to his, risen in that age by no discipleship properly such. The more universal the genius, the more easily he will be taken up by the very next age, because the deeper will be his implicit criticism of his own. The less universal, within his substantial universality, the more difficult will his way be, unless he happens to hit the sense of one of the main critical currents of the age come after. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 199. INTRODUÇÃO AO PROBLEMA NACIONAL O que é uma nação: (1) os vários géneros de agrupamentos humanos — multidão, grupo, sociedade; (2) os vários géneros de agrupamentos naturais — corpo (inorgânico), organismo, organismo social; (3) os vários géneros de sociedades — sociedade primitiva, sociedade improgressiva, sociedade civilizacional. Por nação entende-se aqui um organismo social capaz de progresso e de civilização. A vitalidade nacional: (1) uma nação forte na proporção em que: (a) tem uma individualidade própria; (b) responde facilmente às influências estrangeiras; (c) é capaz de criar novos elementos civilizacionais; (2) os períodos de exaltação e depressão das nacionalidades dependem de leis sociais desconhecidas, cuja acção porém se revela produzindo aqueles resultados; são de três ordens: (a) o período em que uma nação simplesmente tem uma individualidade própria; (b) o período em que uma nação, sobre ter uma individualidade própria, responde facilmente às influências estranhas; (c) o período em que uma nação, além de ter uma individualidade própria, e de responder facilmente às influências estrangeiras, cria elementos civilizacionais (melhor: (a) uma destas coisas; (b) duas destas coisas; (c) as três destas coisas); (3) segundo as nações estes elementos variam; há as: (a) nações criadoras, que são aquelas que no seu período simples, sem ter individualidade própria nem responder facilmente às influências estranhas, são contudo criadoras; estas nações apresentam no seu período médio uma junção dessa qualidade criadora basilar com a de responder a influências estranhas, e no seu período máximo reúnem as três qualidades; (b) nações distribuidoras: são aquelas cujo primeiro período se manifesta pela maneira como respondem às influências estranhas; cujo segundo período se revela através de, além disso, criar uma individualidade; e cujo terceiro período reúne as três coisas; (c) nações tipificadoras: são aquelas que no seu baixo período apenas se revelam como individualidades; que no segundo período se revelam como isso e como criadoras; e no seu terceiro período as três coisas juntas, como de costume. A importância civilizacional das nações é, segundo esta escala: 1.º aquelas que acima de tudo são criadoras, mesmo no seu baixo período; 2.º aquelas que são influenciadas pelo estrangeiro, isto é, canalizadoras, o que é uma espécie inferior de criação, no seu mínimo período; 3.º aquelas que no seu ínfimo período são típicas de si próprias apenas. Formas da vida nacional: A vida nacional apresenta três formas, conforme se encare sob o ponto de vista: (a) da sua constituição como agrupamento de indivíduos (supra I. 1); (b) da sua constituição como organismo social (supra I. 2); (c) da sua constituição como sociedade civilizacional (supra I. 3).— (a) [ … ] s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 15. E, ó vento vago Das solidões, Minha alma é um lago De indecisões. Ergue-a em ondas De iras ou de ais, Vento que rondas Os pinheirais! 1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 97. 23/3/1920 Meu querido Bebezinho: Hoje, com a quase certeza que o Osório não te poderá encontrar, pois, além de ter que esperar aqui pelo Valladas, tem naturalmente que ir levar açúcar a casa de meu primo, quase que de nada me serve escrever-te. Vão, em todo o caso, estas linhas, para o caso de sempre ser possível fazer-te chegar a carta às mãos. Ainda bem que a interrupção de ainda agora foi mesmo no fim da nossa conversa, quando íamos despedir-nos. Era justamente para evitar interrupções dessas que eu escolhi o caminho por onde hoje íamos. Amanhã esperarei à mesma hora, sim Bebé? Não me conformo com a ideia de escrever; queria falar-te, ter-te sempre ao pé de mim, não ser necessário mandar-te cartas. As cartas são sinais de separação — sinais, pelo menos, pela necessidade de as escrevermos, de que estamos afastados. Não te admires de certo laconismo nas minhas cartas. As cartas são para as pessoas a quem não interessa mais falar: para essas escrevo de boa vontade. A minha mãe, por exemplo, nunca escrevi de boa vontade, exactamente porque gosto muito dela. Quero que sintas isto, que saibas que eu sinto e penso assim a este respeito, para não me achares seco, frio, indiferente. Eu não o sou, meu Bebé-menininho, minha almofadinha cor-de-rosa para pregar beijos (que grande disparate!) Mando um meiguinho chinês. E adeus até amanhã, meu anjo. Um quarteirão de milhares de beijos do teu, sempre teu Fernando O Osório leva o chinês dentro de uma caixa de fósforos. 23-3-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 7. Occasion cannot make me weak or strong For mine own soul the true occasion is, Nor shall I measure fact more short or long Except the soul's rod space exceed or miss. Like a revolving many‑coloured sphere My soul turns to the event one casual side, And shows to it what was already there; Its hue with the turned hue the effect decide. So, various by position, not by shape, Outward in truth but by its motion’s seeing, The produced act cannot foreseeing escape Save it take colour of act for shape of being. I am the same; change cannot change me for More than mine own illusion of what is more. 6-11-1920 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 494. It will at once occur to ask how it is that genius comes at all to be appreciated? If it is, in its work, a novel aspect of the permanent in mankind, and if, by virtue of that novel aspect, it falls out with the age it lives in, how is it that, by the very same novelty, it does not fall also out of touch with the generations or the periods, thereafter? There is no mystery in the fact nor difficulty in the explanation. All life, and therefore all social life, is a system of actions and reactions. The character of each period is determined by the fact that it reacts against the period just before it. All social life is convention and formula, and will ever be. Conventions age and formulas become evident. When this happens, a new age sets in, which shouts down rightly as false the conventions and the formulae of the age before, and proceeds at once to acclaim as Nature the equally conventional conventions and the equally formular formulae which it sets up for its own. The least careful observer of social life will notice this. There is no more clearly conventional, formular and artificial age than our own; yet no age has ever shrieked more at the formulas just before — those of what someone has called the Victorian Age. Now genius is precisely in the same case as the next generation. It is also in opposition to the age it lives in. There is therefore a coincidence between the function of a genius and the function of the time after him. And the coincidence becomes confluence because that time after, in opposing the time before, seeks a basis on it, and the basis within it is the man of genius. That man of genius becomes therefore both the creator and the child of the next age. Men of genius either become celebrated in their own time, because they have either talent or wit too; or, not having these, and therefore being cold-shouldered by their age, they are celebrated in the next age. They are never made famous two ages or three off. Be it noted that I refer to genius — not to mere aspects of genius, or to literary curiosities, which may be discovered, forgotten and rediscovered times over. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 200. Meu Ibis Chamado Ophélia: Pasma, ente pequeno e péssimo! aqui te estou escrevendo, contra meu hábito, uso e costume! Parece impossível — mas não há dúvida. A pena corre sobre o papel, tem tinta, e por isso produz letras. Essas letras formam palavras... mas (diga-se a verdade) essas palavras não têm um sentido por aí além. Ibis do Ibis: quero jinhos, quero muitos jinhos. Tenho fome de jinhos, tenho sede de jinhos, tem sono de jinhos. Só jinhos é que não tenho. Amanhã, à 1 hora, passo pela tua casa, como está combinado. Creio que me conhecerás; mas é possível que eu passe disfarçado de vendedor de cautelas, ou de mão de vaca, ou de carroça por concertar. Não sei ainda. Se tiver juízo, irei por meu pé. Se não tiver juízo, irei por meu juízo. Sabes que estou quase pensando em que terei, afinal, tempo de te ir esperar? Se verificar que sim, levo eu mesmo esta carta, e entrego à Ibis do Ibis da Ibis do Ibis. O mais natural, porém, é que (o contrário do que está acima). Nesse caso esta carta irá ter a casa da tua irmã. Mandá-la-ei por alguém, pois é tarde de mais para a deitar no correio. Tu, hoje e amanhã, se tiveres ocasião e te quiseres lembrar de um certo Ibis que gosta um tanto ou quanto de ti, faz o possível por te lembrar. Sim, Nininha do Nininho do Bebé do Ibis da Vespa do Fernando Jinhos x um milhão s.d. Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - II. O meu coração quebrou-se Como um bocado de vidro Quis viver e enganou-se... 1-10-1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 98. Meu querido amorzinho: Hoje tenho tido imenso que fazer, quer fora do escritório, quer aqui mesmo. Vão só duas linhas, para te provar que te não esqueço — como se fosse muito fácil eu esquecer-te! Olha: mudo de Benfica para a Estrela no dia 29 deste mês de manhã; estive agora mesmo a combinar a mudança. Isto quer dizer que no domingo que vem nos não veremos, pois passarei o dia lá em Benfica a arrumar tudo, pois não é natural que tenha tempo para o fazer durante a semana. Estou cansadíssimo, e ainda tenho bastante de que tratar hoje. São 5 horas e meia, segundo me diz o Osório. Desculpa-me eu não te escrever mais, sim? Amanhã, à hora do costume nos encontraremos e falaremos. Adeus, amor pequenininho. Muitos e muitos beijos do teu, sempre teu Fernando 24.3.1920 24-3-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 8. Thou needst not scorn me. All my praise of thee Though't be of that which opens men's desire (Being of thy beauty), from desire is free. My flame upon thine altars has no fire. Beauty should beauty mate, lest by addition It do subtraction suffer. So I name Thy true mate beautiful. Thus my perdition Myself desire and mine own love disclaim. That this renouncement of the very thought Of thy possible love, were't such or no, Gives pain, is sure; yet the pain given does not From the renouncement, but its reason, flow. The gods that fated me not beautiful Fated this just renouncement possible. 5-10-1921 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 496. For Hamlet is, in a different way than was once thought, the essential figurement of his creator. He is a man too great for himself. Such was Shakespeare, such was Leonardo da Vinci. These men had too much soul for accomplishment. It is not the tragedy of inexpression, but the larger tragedy of too much capacity for expression and too much to express even for that capacity. No man reveals himself because he cannot; but men like Shakespeare and Leonardo do not reveal themselves because they can. They are prefigurements of some greater thing than man and are frustrate on the frontier. They are failures, not because they could have done better, but because they have done better. They have surpassed themselves and lost. The lesser geniuses are haunted by their genius, and they are mediums who must be imperfect; but these are perfect mediums (...). To write good prose a man must be a poet because a man must be a poet to write well at all. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 201. Meu querido Bebezinho: Afinal vim a pé de Belém à Estrela. O comboio seguinte saía de Algés ao meio-dia, e eram apenas onze horas quando te deixei. Não estive para esperar por esse comboio, nem por qualquer camião. Meti a caminho até à Calçada das Necessidades (lembras-te dela? e do Largo do Rilvas, por onde também passei?) e de ali directamente à Estrela. Cheguei a casa eram 10 para o meio-dia. Ainda assim foi depressa; e o curioso é que não me cansei nada, mas absolutamente nada. Ainda bem que ficaste hoje mais bem disposta, ao ver o teu Nininho. O Nininho passa amanhã na tua rua entre as horas combinadas — 11 para as 11 e meia. Não sei se hoje me será possível passar à hora que tu indicas no Largo de Camões. Em todo o caso, pode bem ser, pois tenho que ir para casa pelo Príncipe Real, e o meu caminho para o Príncipe Real é sempre pela Avenida e Rua da Alegria. — Verdade seja que não há vantagem em te escrever isto, pois quando receberes esta carta já saberás se me viste ou não hoje a essa hora. Adeus, Bebé do Nininho. Muitos e muitos beijos do teu, mto teu Fernando s.d. Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - III. Comes melão às dentadas Comes melão às dentadas Porque assim não deve ser. Não sei se essas gargalhadas Me fazem rir ou sofrer. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 82. O Regicídio, e, depois, a Revolução, foram os dois fenómenos que chamaram sobre nós, embora imperfeitamente, a atenção do estrangeiro. Quer dizer: em vez de desconhecidos, passámos a ser mal conhecidos. Antes, nada se sabia de nós; passaram a saber-se de nós coisas inteiramente falsas. O conhecimento que o estrangeiro tem de nós oscila entre o nada e o erro. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 175. No fim da chuva e do vento Voltou ao céu que voltou A lua; e o luar cinzento De novo, branco, azulou. Pela imensa constelação Do céu dobrado e profundo, Os meus pensamentos vão Buscando sentir o mundo. Mas perdeu-se como uma onda E o sentimento não sonda O que o pensamento vale. Que importa? Tantos pensaram Como penso e pensarei. 2-10-1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 99. Meu querido amorzinho: Tenho andado hoje todo o dia a monte, não tenho ponto onde estar; quer dizer, tenho andado do Martinho da Arcada para o Martinho do L. do Camões, e ao contrário, todo o dia. Isto é muito maçador, (além de ser dispendioso) para quem já não tem o hábito, e portanto não tem o gosto, de andar a fazer vida de café. Vamos a ver como arranjo a minha vida, para não andar em passeios destes. E tudo isto por causa da firma Felix, Valladas e Freitas, Lda.; visto que o Valladas evidentemente me não quer lá, e a casa é em parte dele, e meu primo não tem alma para se impor, ou, pelo menos, para se opor. Enfim, já te expliquei as coisas ainda agora... Vamos a ver se consigo entregar esta carta ao Osório, para ele ta dar hoje. Oxalá não haja complicação. Olha, Ophelinha: não haverá maneira, lugar e hora de a gente se encontrar um dia qualquer de modo a poder falar um pouco mais do que o quarto de hora que se leva de caminho do Corpo Santo até casa da tua irmã? Amanhã, quando nos encontrarmos à hora do costume, vê se arranjas maneira de me indicar qualquer coisa neste sentido. Continuo cansado, mas agora é o cansaço estúpido de não ter feito nada todo o dia. Quer dizer, não perdi o dia, pois tive uma conversa longa e muito importante (sobre questões de negócios) com um amigo meu. Mas estou cansado e do que tinha que fazer nada (quase) ficou feito. Quero ver se vou hoje mais cedo para Benfica para lá começar a arranjar certas coisas para a mudança. Era excelente se eu pudesse encontrar-te no domingo, de tarde por exemplo. Adeus, amor. Beijos, beijinhos, beijões, beijocos, beijocas, e beijerinzinhos do teu, sempre e muito teu Fernando 25/3/1920 25-3-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 9. Even as great Macchiavel, shut fast from all, His court dress donned to visit his invention, So I, when the commanding Muse doth call, Give to the wide world sleep and inattention. I close the door to all the man in me, To friend, relation, countryman and self, Closeting myself with eternity And both the good and ill of me do shelf. I strive to please Athena, not mankind. No time shall call me out, or place seduce, Nor ache to please, nor fear to offend me blind To the great passion for true beauty's use. Mine own self I displease, if it so fit The claiming tyranny and press of wit. 3-11-1921 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 496. [...] In every case, the nobler the genius, the less noble the fate. A small genius gets fame, a great genius gets obliquy, a greater genius gets despair; a god gets crucifixion. The curse of genius is not, as Vigny thought, that it is adored but not loved; it is that it is neither loved nor adored . Wilde was never so much attested a genius as when the man on the railway platform spat in his face when he was gyved. A great harm has come to many geniuses: their faces are unspat. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 202. Há dois dias que não vejo Há dois dias que não vejo Modo de tornar-te a ver. Se outros também te não vissem, Desejava sem sofrer. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 82. In the first place, it is to be noted that a great number of newspaper notices of revolutions and seditions in Portugal are either grossly exaggerated, or altogether fabrications. There are telegraphic agencies (news agencies) and other (...) who invariably «enlarge» the smallest riot (so long as it takes place in Lisbon) into a serious revolution, in which, according to the well-known Spanish formula, the «steers are knee-deep in blood». But, even discounting all this, the fact is that even real revolutions have been commoner in Portugal than is exactly compatible with any sane political life. The real revolutions are: the 5 th. October (1910), which established the Republic, the royalist rising in the North (1912), the (...) against the «constitution». What is the constitution? (...) they are not so fortnightly as is generally supposed. In these conditions, there is obviously no constitutional life, but a mere dictatorship — not even a «parliamentary» dictatorship, but a pseudo-parliamentary one, for the Parliement is a fiction, not only in the sense in which it may be, and often is, said that all «representative assemblies» do not really represent anything, but even subordinately to the acceptance of that fiction as not one. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 176. O LOUCO E fala aos constelados céus De trás das mágoas e das grades Talvez com sonhos como os meus... Talvez, meu Deus!, com que verdades! As grades de uma cela estreita Separam-no de céu e terra... Às grades mãos humanas deita E com voz não humana berra... 30-10-1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 100. What portion of genius there may be in the present age, it is, in the terms of the case, impossible to determine. Some talent may be suspected. But there is an immense amount of cleverness, and, remarkably so, of expressed cleverness. The growth of the capacity (possibility) of reading, which is sometimes alluded to as the spread of education, has made a market for written cleverness; people who, in another age, would never have written, are now seduced (into) by print, in the same manner as a woman who, in a quiet provincial environment, would run straight by the simple process of not running at all, is now compelled to make a bourgeoisie of her natural prostitution. Whether the present age is favourable or not to the detection of genius, is a point to be amply misunderstood. No age is favourable, in the terms of the case, to the detection of genius. But an age where there are currents and cross-currents of thought and conflicts and cross-conflicts of feeling is apter than a stable and grounded time to appreciate the strange and the untoward. Yet there are difficulties. On the one side, there are too many people writing, drawing and otherwise messing up (passing) art. This establishes confusion. On the other hand, this very multitude of artists makes publicity and self-assertion of the lowest kind the defence against obscurity. The result is that on the confusion produced by great numbers there is superimposed the obstruction deliberately made by coteries, sometimes of one man only. The man of genius has greater possibilities than in the worst darkness of the enlightened ages. He is sure of some public, but he is not sure of being able to meet it. He can reckon on acceptance, but not on getting it. Like the two natural halves of the loving Platonic soul, the genius and his public seek each other, but, as commonly happens in the other matter, they often never meet. (...) s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 202. O teu cabelo cortado O teu cabelo cortado À maneira de rapaz Não deixa justificado Aquele amor que me faz. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 83. É nos períodos de agitação política, não tão profunda que abale tudo, mas bastante profunda para que todos a sintam e a todos doa, que são escritas as obras literárias em que a disciplina da sensibilidade, a construção estudada são características notáveis. A ânsia, que espontaneamente surge nesses períodos, é a ânsia da ordem; e essa ânsia, no seu efeito intelectual, tende para a afirmação dos princípios disciplinadores na literatura. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 177. Lenta e quieta a sombra vasta Cobre o que vejo menos já. Pouco somos, pouco nos basta. O mundo tira o que nos dá. Que nos contente o pouco que há. A noite, vindo corno nada, Lembra-me quem deixei de ser, A curva anónima da estrada Faz-me lembrar, faz-me esquecer, Faz-me ter pena e ter de a ter. Ó largos campos já cinzentos Na noite, para além de mim, Vou amanhã meus pensamentos Enterrar onde estais assim. Vou ter aí sossego e fim. Poesia! Nada! A hora desce Sem qualidade ou emoção. Meu coração o que é que esquece? Se é o que eu sinto que foi vão, Porque me dói o coração? 17-11-1930 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 125. Caminho a teu lado mudo Sentes-me, vês-me alheado... Perguntas, sim ou não, não sei... Tenho saudades de tudo... Até, porque está passado, Do próprio mal que passei. Sim, hoje é um dia feliz. Será, não sei, incerto Num princípio não sei quê Há um sentido que me diz Que isto — o céu largo e aberto — É só a sombra do que é... E lembro em meia-amargura Do passado, do distante, E tudo me é solidão... Que fui nessa noite escura? Quem sou nesta morte instante? Não perguntes... Tudo é vão. 4-11-1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 101. I have outwatched the Lesser Wain, and seen The remnant stars grow pale; but the used night Has to the thought that used it sterile been, Nor lost that use by pressure of delight. My fixed, impatient thought no reason read; What I scarce read my unthought thought made stray; My soul between the living and the dead Was a blown vapour, without place or way. What the morn brought or took I cannot tell, That had no use to bring or use to find. All night I lay under the barren spell. The day cannot dispel what the void wind Ruinous built in the shorn night: its glow Can but the night's made desert brightly show. 18-1-1924 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 498. Posterity, says Faguet, likes only concise writers: la posterité n’aime que les écrivains concis . Men will ever read even though with trouble the immediate temporal, for what private interest, so to speak, there may be in it for them. They will always read a five-hundred page novel on their own times, as they will always read a five-hundred page manuscript on the history of their family, or of their neighbours. But the past will appeal to them only by perfection end brevity. It is curious how many a man, who is a disastrous critic of his contemporaries, is lucid about the past. This is frequently seen in historical writers; and the man who judges Walpole with considerable sociological instinct will be unable to apply the same principles (if he have any) to the elucidation of the current premier. The moment he comes home he goes out. Fame, in respect of the lesser poets and the lesser prosers, will narrow down from anthology to anthology. In a hundred years from now it will be impossible to issue a complete edition of Byron, or of Shelley or of Goethe the poet or Hugo. Even modern selections from them will be further pared down by the stress and storm (?) of time: the hundred pages, in which we now know Wordsworth (to any purpose), will become fifty; the fifty, in which we know Coleridge, will perhaps be no more than ten. Every nation will have its great fundamental books and one or two anthologies of the rest. Competition among the dead is more terrible than competition among the living; the dead are more. Some poets and prose-writers will survive, not by absolute value, but by absolute relativeness. This will keep sweet “Pickwick Papers”, which is not a great work of genius, but is a representative work of the genius of the nineteenth century (and this will be all of Dickens); this will preserve Whitman — how reduced or selected I cannot foresee — , for, great as is the part of place and occasion in the “Leaves of Grass”, there is (...). These books will survive as types. Most of modern literature is written talk, fireside telling with the voice raised, the wrong afflatus, sometimes that sad Letter to Posterity which, as Voltaire said of J. B. Rousseau’s poem of the name, will never reach the addressee. We waste in writing the time we should gain in talking, or, mayhap, we do not waste it, but have no one to talk to by voice, or we like an audience too large for the reach of the larynx, and the patience of the far-off listener. Hence our bright and futile novels, our clever and null satires and essays, our dinner-table poems: things often entertainings frequently superior, always worth doing so long as we do not call them art. But it is true that if we did not think them art we would not do them, little as they are, at all. The concentrated effort required to produce even a small good poem exceeds the constructive incapacity, the meanness of understanding, the futility of sincerity, the disordered poverty of imagination which characterise our times. When Milton wrote a sonnet, he wrote as if he were to live or die by that sole sonnet. No sonnet should be written in any other spirit. An epigram may be a straw, but it should be the straw at which the dying poet grasps. Great art is not the work of journalists, whether they write in periodicals or not. The great scientific influence of the second half of last century was unreceived. It produced materialism instead of the scientific spirit. The man in the street heard of phrenology or astrology or alchemy, and he said they were rot. The scientific spirit would have led him to say nothing or to examine each thing directly. Phrenology was driven out of the scientific field by mere religious prejudice, and it is one of the delights of Nemesis that its gradual reinstalment should have been the work of a Catholic alienist, Grasset. Alchemy has returned with the latter chemistry. Astrology is verifiable, if anyone will take the trouble to verify it. Why the stars influence us is a difficult question to answer, but it is not a scientific question. The scientific question is: do they or do they not? The reason why is metaphysical and need not trouble the fact, once we find that it is a fact. The great novelists, the great artists and the great other things of our time point with pride to their fortunes and to their public. They should at least have the courage to sneer at their past inferiors. Wells should laugh at Fielding and Shaw at Shakespeare; as a matter of fact, Shaw does laugh at Shakespeare. They have celebrity, such as the time can give; they have the fortune which follows upon that celebrity; they have the honours and the position which follow upon either or both of those. They cannot want immortality. What the Gods give they sell, the Greeks said. And English children are told that they cannot have the cake they eat. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 204. Se te queres despedir Se te queres despedir Não te despidas de mim, Que eu não posso consentir Que tu me trates assim. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 83. Nota à margem de não haver ainda Portugal Afirmação [p]ara substituir um Manifesto Vimos criar a sensibilidade portuguesa. Até hoje só tem havido em Portugal a sensibilidade dos outros. Temos vivido por empréstimo a vida eur[o]peia. Salvo quando fizemos as descobertas, fomos sempre atrás dos últimos. Urge (...) Lei de Malthus da sensibilidade. Os estímulos da sensibilidade aumentam em proporção geométrica; a própria capacidade de sentir aumenta apenas em progressão aritmética. Ao princípio, não se distingue bem a distância entre as duas progressões, mas, algum tempo passado, torna-se evidente; tempo depois evidentíssima. Na Renascença ainda no princípio da nossa civilização, existia esta pequena diferença, porquanto a progressão aritmética 2.4.6.8. coincide no seu segundo termo com a progressão geométrica 2.4.8.16 ..... É do romantismo para cá que se acentuou deveras com uma nitidez cada vez maior, a distância cavada pela virtude criadora dos números entre as duas progressões. De aí a incapacidade moderna de sentir o que sente. De aí a falência da sensibilidade contemporânea, enquanto não começou a perceber, por intuição aqui pela primeira vez exprimida em Lei, a sua razão aritmológica de ser. Primeiro avançaram os factos políticos para além da capacidade de os sentir; assim se estabeleceu na nossa civilização o princípio democrático quando nenhuma sensibilidade então, nem ainda, está apta a senti-lo. Com a era das máquinas a distância entre os termos de uma e outra progressão acentuou-se dolorosamente. Terapêutica psíquica Que maneira há de aproximar a sensibilidade da rápida multiplicação dos estímulos? Evidentemente que maneira natural, por assim dizer, não há nenhuma. Mas há uma maneira artificial. Como obter essa artificialização da sensibilidade? Como pode o homem tornar-se, efectivamente, o construtor do seu próprio emotivismo? Mediante três processos: (1) a abolição do preconceito da personalidade. Acabemos com a ideia de que cada indivíduo é só ele-próprio. Todos nós coexistimos ao mesmo tempo que existimos. Todos nós somos todos os outros. (2) A abolição do preconceito da individualidade. Deixemos de aceitar como verdadeira a tese fundamentalmente teológica da indivisibilidade da alma. Somos agregados de células, agrupamentos de psiquismos, de sub-nós, somos inteiramente tudo menos nós-próprios. Submerjamo-nos no mar de nós-próprios, afogados no Universo de lhe pertencermos. (3) A abolição do dogma da continuidade lateral. Não julguemos mais que nós, do presente, somos um laço, um hífen móbil, entre o passado e o futuro. Não somos. Somos sim contínuos mas não com o passado ou com o futuro. A nossa continuidade é toda com o presente — com o presente externo de todas as coisas, e com o presente interno de todas as sensações. Invertamos a ignóbil frase cientista que Bacon trasladou de Hipócrates — a de que a Natureza só se vence obedecendo-se-lhe. Ao contrário, à Natureza só se obedece vencendo-a. Só sendo superiores a tudo é que somos os iguais de tudo. A interpretação futurista é uma visão de míopes da sensibilidade. Olham para o lado da Verdade, mas não lhe distinguem a figura. Avisam-se os incautos e os sujeitos à hipnose do estrangeiro que este manifesto é superior, em todos os sentidos, a todos os manifestos simbolistas, cubistas ou futuristas. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 178. Há uma música do povo, Nem sei dizer se é um fado — Que ouvindo-a há um chiste novo No ser que tenho guardado... Ouvindo-a sou quem seria Se desejar fosse ser... É uma simples melodia Das que se aprendem a viver... E ouço-a embalado e sozinho... É essa mesma que eu quis... Perdi a fé e o caminho... Quem não fui é que é feliz. Mas é tão consoladora A vaga e triste canção... Que a minha alma já não chora Nem eu tenho coração... Se uma emoção estrangeira, Um erro de sonho ido... Canto de qualquer maneira E acaba com um sentido! 9-11-1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 102. ARETHUSA Still Arethusa keeps her course, For, though the corporal dark of earth Stifle, like an unconscious nurse, The impulse for her second birth, Yet her true will must ever be These captive waves that shall be free. So the forgotten water ever With withdrawn life and hid emotion Moves on in darkness, still a river, Towards a sun upon an ocean; And the found place there will not cease To be the river's, not the sea's. So keeps she, under the void dark Of her oppressed seclusion still Her careful self, whose soul shall work Towards the outlet from the hill, Past hived vaults and humid walls And her dropped noise of waterfalls. Uncaught throughout the spell of caves, Forlorn under the mother stone, Still the great destined river craves Its purpose, liquid and alone, And more, yet less, under the hills Its unresisting motion wills. And ever, while time frets the rocks And space shuts dark the godless flow, She runs, a will in waves that flocks Around a darkness for a glow; And onward still, because it is What shall be, and the Gods are this. And, still remembering to forget, Still onward because Fate inclines, Veiled Arethusa still doth wet With purpose the weird cavern shrines, Where, past their blind, dead, solid being, Her watery will moves on to seeing. Dim under phosphorescent zones Of darkness wronged and stalactites, Or complete darkness, where the moans Of waters wail for destined sights, Her course, that knows no day, doth still Work out to day its nightly will. Till, bright at last in the aired arms Of the lone rocks laid in the sea, Bare Arethusa free her charms To light and to its panic glee, And the sea clasp her, as she were Venus there born and mistress there. 6-11-1930 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 498. 1ª publ. in O Louco Rabequista . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. Conciseness and a hold on the reader, which are required in detective stories, are no less required in all forms of literature. Nothing is gained by wearying the reader. Edgar Wallace is more interesting than Walter Scott, but Edgar Wallace is not more interesting than Shakespeare. There is an Edgar Wallace in Shakespeare. The stress and pressure of modern conditions may have many disagreeable aspects, but it has had a very favourable one — the need for conciseness and for deliberate interestingness in a literary work. It was one of Poe’s critical triumphs that he foresaw the necessity of the shorter poems. This was one of his visions of a future, as the detective story was one of his anticipations of it. We need not exclude the epic poem, but we can reduce it to five books — the size of a drama, which should be the limit of literary bulk, that interest may be thorough and maintained. No greatness of everything in verse can triumph over the twenty-four books of the “Iliad” or carry Virgil into the middle of Olympus. Compare the luminous beauty of Tennyson’s original and short “Morte d’Arthur” with the dull good-writing of his later and very long “Idylls of the King”. The constancy of scattered beauty cannot wipe out the unbeautifulness of its being scattered over too long a stretch of verse. The epic poem was really the old correspondence to the human [?] need for the novel. The novel having come, we can omit the epic in the poem. Matthew Arnold’s “Sohrab and Rustum”. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 207. Que te fez assim tão linda Que te fez assim tão linda Não o fez para mostrar Que se é mais linda ainda Quando se sabe negar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 83. Sendo esta revista dada como «de cultura cosmopolita» e, ao mesmo tempo, apresentada e dirigida por quem, do pouco que tem publicado, tem o nome ligado a uma teoria que, se alguma coisa parece e é, é nacionalista, carece o facto de explicação e elucidação. Essa elucidação é fácil e simples. Consigne-se desde já e d'antemão a adesão completa e a manutenção integral que o autor d'este prefácio dá às suas teorias expostas n'A AGUIA. Continua ele a sustentar que o período de máxima vitalidade nacional é aquele em que uma nação mais se entrega a si própria e à sua alma. Nacionalismo fundamental, portanto. Mas há três géneros de nacionalismo. O que pois convém precisar, e naqueles artigos se não precisou, é qual d'esses três nacionalismos é que é o superior, aquele que distingue esses períodos culminantes da vida das nacionalidades. Dos três nacionalismos, o primeiro e o inferior é aquele que se prende às tradições nacionais e é incapaz de se adaptar às condições civilizacionais gerais. É, na literatura, o nacionalismo de Bocage e dos arcades em geral, até Castilho. Caracteriza-o nas suas relações com a civ[ilização] geral o estar sempre em atraso e preso a tradições. O segundo nacionalismo é aquele que se prende, não às tradições, mas à alma directa da nação, aprofundando-a mais ou menos. É o de um Bernardim Ribeiro, no seu grau inferior, e de um Teixeira de Pascoais no seu alto grau. O terceiro nacionalismo é o que n'um nacionalismo real integra todos os elementos cosmopolitas. É, no seu grau inferior, o de Camões; no seu alto grau ainda o não tivemos entre nós, mas há-o em Shakespeare, em Goethe, em (...) — em todos os representantes supremos das culminâncias literárias das nações que aí chegaram. Cada um d'estes nacionalismos tem 3 graus — segundo (...) Nacionalismo tradicionalista — eis o inferior. Nacionalismo integral — eis o médio. Nacionalismo cosmopolita — eis o supremo. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 179. Onde o sossego dorme Como se fosse alguém E à noite negra e enorme Nem luar nem dia vem. Ali, quieto, absorto Em nada já saber, Quero, quando for morto, Consciente esquecer... Deixada a vida incerta, Perdido o gozo e a dor, Sob essa noite aberta Sonhar sem o supor... Até que ao fim de uma era Que o tempo não contou O que eu não reavera Se mude no que eu sou. 19-11-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 96. A esperança como um fósforo inda aceso, Deixei no chão, e entardeceu no chão ileso. A falha social do meu destino Reconheci, como um mendigo preso. Cada dia me traz com que esperar O que dia nenhum poderá dar. Cada dia me cansa da esperança... Mas viver é esperar e se cansar. O prometido nunca será dado Porque no prometer cumpriu-se o fado. O que se espera, se a esperança é gosto, Gastou-se no esperá-lo, e está acabado. Quanta acha vingança contra o fado Nem deu o verso que a dissesse, e o dado Rolou da mesa abaixo, oculta a carta, Nem o buscou o jogador cansado. 22-11-1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 104. The Master said you must not heed What others talk of at their need Under the happy trees they sit That talk of nothing and of wit. Under the silent trees they stand That talk of mirth and no man's land. Under the sulky trees they lie That wonder of the earth and sky. This was the matter of the song No one could sing or well or long. This was the substance of the tale No one could tell unless it fail. This was the subject of the verse The last one made, lest earth be worse. So the collateral nightingale Forgot its music and its tale. So the lark rose and found but air And false dominion everywhere. So the dropt eagle, losing prey, Swept by and owned but the void day. Yet what the secret of all this May be or was none now can guess. Perhaps beyond what thought defines, Like wine drawn from sleep‑smothered vines, There lies some chance that some one may Make shade and sleep of yesterday. But whether this be sense or nought, Surely it was a carefulthought To have the lawn so nicely laid Out and the critics all gainsaid. It was the reason and the home. The rest is why tis right to roam. 2-2-1933 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 502. 1ª publ. in O Louco Rabequista . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. Nothing worth expressing ever remains unexpressed; it is against the nature of things that it should remain so. We think that Coleridge had in him great things he never told the world; yet he told them in the “Mariner” and “Kubla Khan”, which contain the metaphysics that is not there, the fancies they omit and the speculations nowhere to be found Coleridge could never have written those poems if there had not been that in him that the poems do not express by what they say, but by the mere fact that they exist. Each man has very little to express, and the sum of a whole life of feeling and thought can sometimes bear total in an eight-line poem. If Shakespeare had written nothing but Ariel’s song to Ferdinand, he would not indeed have been the Shakespeare he was — for he did write more — but there would have been enough of him to show that he was a greater poet than Tennyson. Each of us has perhaps much to say, but there is little to say about that much. Posterity wants us to be short and precise. Faguet says excellently that posterity likes only short writers. Variety is the only excuse for abundance. No man should leave twenty different books unless he can write like twenty different men. Victor Hugo’s works fill fifty large volumes, yet each volume, each page almost, contain all Victor Hugo. The other papers add up as pages, not as genius. There was in him no productivity, but prolixity. He wasted his time as a genius, however little he may have wasted it as a writer. Goethe’s judgement on him remains supreme early as it was given, and a great lesson to all artists: “he should write less and work more”, he said. This is, in its distinction between real work, which is non-extended, and fictitious work which takes up space — for pages are no more than space — one of the great critical sayings of the world. If he can write like twenty different men, he is twenty different men, however that may be, and his twenty books are in order. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 208. Floriu a roseira toda Floriu a roseira toda Com as rosas de trepar... Tua cabeça anda à roda Mas sabes-te equilibrar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 83. O que é preciso ter é, além de cultura, uma noção do meio internacional, de não ter a alma (ainda que obscuramente) limitada pela nacionalidade. Cultura não basta. É preciso ter a alma na Europa. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 180. A low, sad wind fills the lone night With its one solitary sound. I have forgotten what delight Delight has. In the vague around All sleep is consecrated ground. Alas for all I ever hoped! The sheep crop what it lies beneath. Its grave is where the mountain sloped When mountains were, but now the heath Is all the life above its death. Moan, solitary wind that wakes When the day sleeps! Moan vague and low! That which I never was now slakes Its thirst where reeds cluster round lakes Of silence, or mute rivers go. To‑morrow shall be yesterday Lest life forget what it is ever. I shall myself cast this away That I am now, and myself sever From what of me weeps by this river. This river of the haunted night That under stars I do not see Has neither purpose nor delight, Moan, solitary wind, and be This life's unchanging, shoreless sea! 13-3-1933 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 504. 1ª publ. in Os Dois Exílios - Fernando Pessoa na África do Sul . H. D. Jennings. Porto: Centro de Estudos Pessoanos, 1984. Morena dos olhos baços Morena dos olhos baços Velados de não sei quê, No mundo há falta de braços Para o que o teu olhar vê. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 84. Os três pontos de apoio exteriores d'esta propaganda devem ser Londres, Madrid e o Rio de Janeiro, porque os três países através dos quais convém canalizar a propaganda são aqueles de que essas cidades são capitais. A aliança inglesa, base tradicional da nossa política exterior, faz com que seja de mais importância manter a Inglaterra bem informada a nosso respeito, do que outro país qualquer. A conveniência de uma entente ibérica, em termos e dentro de limites que a aliança inglesa impõe e sugere, e o próprio escrúpulo da nossa independência orienta, conduz à ideia de ser conveniente estabelecer em Madrid um outro foco de propaganda. A necessidade de tornar cada vez mais apertados os naturais vínculos espirituais que nos unem ao Brasil leva a que se não possa dispensar uma propaganda naquela República. Os géneros de propaganda são, porém, diferentes para os três países. Em todos importa que haja a propaganda política e a propaganda comercial, mas essa não precisa de órgãos especiais de propaganda: os consulados e as legações, devidamente orientados, bastam para isso, nem essa necessidade se limita aos três países que acima se especializaram para as necessidades da propaganda. Tanto a propaganda comercial, como a política, podem, nestes casos, ser orientadas desde Lisboa. Na Inglaterra, em Espanha e no Brasil, porém, o caso é diferente d'esse caso geral, e cada caso diferente de outro. Em Espanha o que é mais preciso é a disseminação da nossa literatura, sobretudo da literatura tipicamente portuguesa, para, de certo modo, contrabalançar a disseminação que a literatura espanhola já obteve entre nós. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 181. D. T. The other day indeed, With my shoe, on the wall, I killed a centipede Which was not there at all. How can that be? It's very simple, you see - Just the beginning of D. T. When the pink alligator And the tiger without a head Begin to take stature And demanded to be fed, As I have no shoes Fit to kill those, I think I'll start thinking: Should I stop drinking? But it really doesn't matter... Am I thinner or fatter Because this is this? Would I be wiser or better If life were other than this is? No, nothing is right. Your love might Make me better than I Can be or can try. But we never know Darling, I don't know If the sugar of your heart Would not turn out candy... So I let my heart smart And I drink brandy. Then the centipede come Without trouble. I can see them well. Or even double. I'll see them home With my shoe, And, when they all go to hell, I'll go too. Then, on a whole, I shall be happy indeed, Because, with a shoe Real and true, I shall kill the true centipede ­- My lost soul!... 1935? Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 504. 1ª publ. in Obra Poética . Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Dores Galhoz.) Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960. It is ideas, as distinct from purposes, that make immortality — ideas as form and not as substance. In art everything is form, and everything includes ideas. It does not matter to the judgement of posterity whether a poem contains materialist or idealist notions; it matters whether these notions are high or not, agreeable in their form — even their mental and abstract form — or disagreeable. This would seem to make propaganda not injurious to art, so long as there is art. It is indeed not essentially injurious, but, that it may not so be, it is necessary that, against his own purpose and intent, the artist forget the propaganda in the art. It may be that the “Divine Comedy” is intended to be Catholic propaganda — a rather futile thing in Catholic times; but Dante, when he wrote it, forgot all about the propaganda and wrote poetry. The propaganda does no harm to the poetry, for the simple reason that it did not get there. The result is that a third of Dante’s commentators consider the “Divine Comedy” heretical, and many of these as purposely so. If the poem can be considered as Catholic and anti-Catholic, the propaganda is certainly not very efficacious. The same applies to the kindred and different poem which stands beside the “Divine Comedy” on the sorting of the ages. Milton wrote it down as his purpose to justify the ways of God to man, and his poem contains two heroes — Satan, who revolts against God, and Adam whom God has punished. He has justified the ways of man to God. His poem is set up an epic for one form of Christianity, and the result is that the author was an Arian, his form of Christianity being the absence of Christianity. (His vast learning and experience of the learnt has put everything into his Christian epic; the only thing left out was Christ. Has anyone ever felt Christian after reading “Paradise Lost”?). It may be said that, so long as propaganda is not serious, it is compatible with art. The sacred enthusiasm which lasts only one moment is the right soul with which to defend a noble or ignoble cause and leave it art. The most unpatriotic poem of a great poet is, says Swinburne in defending art for art’s sake, better than the most patriotic one of a bad one. That is true, and it is probably so because the unpatriotic poem was not sincere, and the poet had time to think more about the poetry than about the antipatriotism. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 209. When I ask «is matter infinite or not» putting this as a question of reality I err. For matter is the external sum of our sensations and possesses neither of these characteristics. As a sensation, as a thing perceived, it is necessarily finite, suo genere , in its own kind. It is not finite in opposition to infinite (in the usual sense of the word). It is limited , so that it may be perceived. The sum of sensations must be something to give a general sensation; and by something is meant, if not exactly something finite, necessarily something definite , finite in this sense. 1907? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 39. Quando compões o cabelo Quando compões o cabelo Com tua mão distraída Fazes-me um grande novelo No pensamento da vida. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 84. Frank Palmer Another reason, besides, makes me write. You will excuse me if the following paragraphs are somewhat lengthy, but they could not be very short if were clearly to explain to you what the matter is. By this post I am sending, registered, a number of a review, Orpheu, of which I am part-editor. It is a review of all kinds of advanced literature, from a quasi-futurism to what we here call intersectionism. We intended at some time this year to bring out a supplement (the size of a usual number — 80 pages) in English, for this purpose, and to be quite sure of our way, I should like to know the following things: Considering that the number would be printed here (as is most convenient for our personal supervision, though it would be more perfectly produced in England) what have we to do to sell it there? Would it not be the best method to send it to a bookseller there, who would distribute it over the others? On what conditions is that done, that is to say, what commission does a house in these circumstances require on the price? What would be the highest possible saleable price for a review like the one sent, in England? Would you care to do this for us? If not, could you indicate any one who would? There is another important question. Our review contains certain poems and prose works which are «objectionable» from a strictly moral standpoint. In the present number the central part of Álvaro de Campos «Marine Ode» (Ode Marítima) is in this case. The worst which the English number of the review would have is the poem of mine, written in English, called «Antinoüs» of which I send you a copy herewith (to avoid lengthy and unsatisfactory explanations). Could a review be sold in England with a poem like this inserted? Fundamentally, it is really not quite as «bad» as Shakespeare's sonnets, but no one ever sees anything fundamentally. I should be much obliged if you could answer these questions as soon as you possibly can. I should explain that the publication of the English supplement is not definitely decided on as yet; it is as well, however, to know all particulars as soon as possible, so that our decision may not be hampered or delayed by ignorance of them. Suppose a review or book were really published or introduced into England bearing such a composition, would could happen? I ask this because I am not familiar with proceedings (legal) possible on this line. Here in Portugal, though a fairly stringent law exists on this and kindred subjects, yet only political writers, and that only at periods of great excitement, run any risk. From the moral standpoint, almost any kind of literature can be published, even going into the clearly obscene. 1915 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 182. W. A. Bentley — 1 Palmerston Crescent, Palmer's Green, L., N. 13. Apartado 147, Lisbon, 3lst. October, 1924. Dear Mr. Bentley: Many thanks for your card of the 23rd. September. I have been holding over my acknowledgement of it till the date of publication of my review «Athena». This is now out, and I am sending you a copy, registered, under separate cover. I shall send you copies of the succeeding issues immediately on their publication; and I hope you will find this first number, as also the next ones, both interesting and, in an aesthetic sense, generally instructive. I should very much like to have your opinion on «Athena» when you have time to write me. I have sent two copies to «The Times» — one to «The Times» proper, another to the Literary Supplement. I do not know whether a single copy would not do, and, if it would, to which of these it should be addressed. I have sent no other copies to any British papers because, as far as I know, none but the Supplement publishes, to any purpose, notices of books or reviews of the lesser-known languages. If there be any other papers which do so, could you give me their names when you write me? My reason for sending out these copies to papers whose notices can have no possible direct bearing on the circulation of the review is that we, the editors of «Athena», have found it treated by the local press with even more silence than we had legitimately expected. As you know — or perhaps you do not know —, the spirit of clique and coterie, which is now a typical phenomenon of artistic life all over the world, is especially keen here, for no other reason, of course, than that the smaller the cultural centre, the narrower the cultural spirit, and the more highly developed therefore the particular manifestations of that general provincialism. I give it this name because there is no other name for it: the spiritual provincialism of modern civilization, in contrast with its material cosmopolitanism, is one of the ironical delights of the critical sociologist. Now there is no way to counteract this but to seek some impartiality abroad, and then to make known its results at home. This can generally be obtained, for, with few exceptions and not considering political and sociological cliques, these coteries are purely national and no member of them objects very much to being decently impartial to foreigners: these can seldom be competitors. That is, I suppose, one of the reasons why it is said that «posterity begins at the frontier». I am sure that, if «Athena» could be read by someone with a proper understanding both of its spirit and of the language — a knowledge of the language would be indispensable, for instance, to appraise the «Odes» of Ricardo Reis, whose Portuguese would draw upon him the blessing of António Vieira, as his style and diction that of Horace (he has been called, admirably I believe, «a Greek Horace who writes in Portuguese») —, some sort of justice might be expected. But it could not be expected from a contemporary Portuguese. The better he found it, the deeper the silence into which he would sink his opinion. This is rather lengthy, is it not? But I could not explain it more concisely without leaving out the explanation. Though I am still too conservative to like typing letters to friends, yet I am forced to do so, in their own interest, by the present occult state of my handwriting. I do not know how much «Portuguese sunshine» this letter takes over to you; if something of the day has crept into it, it is sure to carry some, for this is one of our faultless Lisbon days — a sky as if there had never been clouds in the world, a stainless light, and no temperature, one way or another, as in a work of art of the Greeks. Is your memory of Portugal responsive to this? Yours very sincerely, PS. — Please address me as usual — Fernando Pessoa, Apartado 147, Lisbon. 31-10-1924 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 183. Teus olhos de quem não fita Teus olhos de quem não fita Vagueiam, estão na distância. Se fosses menos bonita, Isso não tinha importância. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 84. Dr. Rogelio Buendía, Castelar, 6, Huelva. Lisboa, 20 de Agosto de 1923. Agradeço, meu prezado camarada, a oferta, com que acaba de me honrar, do seu livro «La Rueda de Color». A sua arte meio-moderna, meio-japonesa, feita, em versos contemporâneos, do espírito miniaturista dos haikais , embalou um momento o que sonha em mim. Sem dúvida que a alma do fútil e do transitório, que sente que o é, enche, de sonho a realidade, a sua inspiração impressionista. Há uma razão para isto, como a haveria para o contrário. Toda a vida, porventura, cabe na impressão de um balão veneziano, ou de uma paisagem da China, vista numa porcelana transparente, nas tardes longínquas de um mandarim que nunca existisse. Viver a vida como se bebêssemos por ela uma bebida que entretém sem alimentar constitui uma das razões-de-ser do homem moderno. Mesmo o ser moderno, porém, vai sendo antigo. Felicito-o por se ter esquecido d'isto. Guardo do seu livro uma absurda impressão de Oriente, provavelmente verdadeira. Sou um ocidental extremo, para quem o Oriente começa na fronteira de Espanha. Sou também o contrário d'isto — um ocidental extremo para quem, súbdito do mar e do céu, não há fronteira nenhuma. É com este espírito de universalidade incerta que aprecio o seu livro, que, tendo-o lido, duas vezes lhe agradeço, pedindo-lhe que creia no aplauso e na estima do seu camarada obscuro, (a) Fernando Pessoa. Apartado 147, Lisboa. 20-8-1923 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 185. Tocam sinos a rebate Tocam sinos a rebate E levantaste-te logo. Teu coração só não bate Por a quem puseste fogo. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 84. Todos os dias eu penso Todos os dias eu penso Naquele gesto engraçado Com que pegaste no lenço Que estava esquecido ao lado. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 43. Como às vezes num dia azul e manso No vivo verde da planície calma Duma súbita nuvem o avanço Palidamente as ervas escurece Assim agora em minha pávida alma Que súbito se evola e arrefece A memória dos mortos aparece... 10-11-1925 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 67. O CONTRA-SÍMBOLO Uma só luz sombreia o cais Há um som de barco que vai indo. Horror! Não nos vemos mais! A maresia vem subindo. E o cheiro prateado a mar morto Cerra a atmosfera de pensar Até tomar-se este como porto E este cais a bruxulear Um apeadeiro universal Onde cada um espera isolado Ao ruído — mar ou pinheiral? — O expresso inútil atrasado. E no desdobre da memória O viajante indefinido Ouve contar-se só a história Do cais morto do barco ido 30-1-1926 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 68. LITERATURA DA DECADÊNCIA Tende o poeta usual e puramente de sentimento a cair no defeito da retórica e da pieguice; tende o poeta místico a cair no defeito do excesso de mistura do ideal e do real, do espiritua1 e do terreno; tende, finalmente, o poeta simples e realista a cair no defeito da expressão chã ou trivial. São estes os três defeitos a que costuma descer a poesia sã: exagero do sentimento poético, deficiência do sentimento poético, e confusão do sentimento poético. Mas o género de defeitos em que de ordinário os decadentes caem não pertence a nenhuma dessas categorias. Sem dúvida que os decadentes têm todos os 3 defeitos citados, e vulgarmente os têm — em especial o do prosaísmo. Mas o defeito natural nas obras deles não é nenhurn dos apontados. É um outro mais curioso, o qual consiste na justaposição delirante dos epítetos, na incoerência geral do frasear. É o [...] usual do místico. 1913? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 155. Todos lá vão para a festa Todos lá vão para a festa Com um grande azul de céu. Nada resta, nada resta... Resta sim, que resta eu. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 105. Em torno a mim, em maré cheia, Soam como ondas a brilhar, O dia, o tempo, a obra alheia, O mundo natural a estar. Mas eu, fechado no meu sonho, Parado enigma, e, sem querer, Inutilmente recomponho Visões do que não pude ser. Cadáver da vontade feita, Mito real, sonho a sentir, Sequência interrompida, eleita Para os destinos de partir. Mas presa à inércia angustiada De não saber a direcção, E ficar morto na erma estrada Que vai da alma ao coração. Hora própria, nunca venhas, Que olhar talvez fosse pior... E tu, sol claro que me banhas, Ah, banha sempre o meu torpor! 26-4-1926 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 71. All my heart weeps for Is a cottage left By some one before Time into space crept, A small cottage left Near a silent shore. There the constant waves Murmur like vain rest. There the soft raves Like a soul possessed Of rest that not saves. There the shore‑winds breathe Possibilities Of less cares than wreathe Round our lives their cries From up and beneath. Where that cottage is Rests with wishing it. Is therewhere is bliss? No, nor does bliss fit Into that strange place. Why desire it then? Ah, it's different From the homes of men. There perhaps are blent Dreams and what we ken. There at least alone, Alone by the sea, We shall cease to moan... To moan need not be Where we are alone... These are words. Let sleep Close our eyes to find That small cottage, deep In Farness. We are blind And life is to weep. 1-10-1914 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 448. SOCIOLOGIA LITERÁRIA A poesia (arte toda) da cultura nota-se por não ter nem individualidade nem popularidade (a elevação que possa ter varia segundo o valor da época) Cf. a poesia francesa contemporânea, onde há tão interessantes, e tantos, poetas, mas sem vincada, ou mesmo sem nenhuma, individualidade. Só alguns — Verhaeren, Henri de Régnier, de certo modo sobressaem... Outros tentam sobressair, individualizam-se por artifícios — como Paul Fort escrevendo em disposição de prosa os seus versos. E cf. os futuristas, os cubistas... Tudo isto é a consciente ou inconsciente consciência de carência de originalidade. 1914? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 156. EU, O DOUTOR Entrei uma tarde numa camisaria de onde gastava com o fim imaginado de comprar uma gravata. O caixeiro que estava livre de freguês, e que há muito me conhecia, cumprimentou-me alegremente: «Boa tarde, senhor doutor». «Não sou doutor» disse-lhe, e era (a) verdade. «Porque é que me julga doutor?» «Ah, eu realmente julgava...» respondeu ele limpidamente. Pedi gravatas, escolhi a que preferi, paguei. Nesta altura o outro caixeiro, que também de há muito me conhecia, veio para ao pé do colega. «Boa tarde», disse eu a ambos. Os dois caixeiros inclinaram-se amáveis e sincrónicos, e, como um só, disseram: «Boa tarde, senhor doutor, e muito obrigado». Moralidade. Quando a opinião nos faz doutores, doutores temos que ser. Na vida social, somos o que os outros nos julgam, e não o que até fingidamente somos. A nossa personalidade social, para todos, ou histórica, para os célebres, é uma ideia de nós que nada tem de nós. O estadista que saiba saber isto tem a chave do domínio do mundo. Pode, é claro, faltar-lhe a porta; isso, porém, é já destino. 31-1-1932 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 269. «Fábulas para as Nações Jovens». Andei sozinho na praia Andei sozinho na praia Andei na praia a pensar No jeito da tua saia Quando lá estiveste a andar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 105. Universal lamento Aflora no teu ser. Só tem de ti a voz e o momento Que o fez em tua voz aparecer. 28-9-1926 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 73. Do not think of me. Love me. That shall somehow suffice. …… …… Let us be purposeless Sedately and for a task. We can be nothing this Dashes not with the mask Of being anything... Be we eer on the wing... And towards nowhere flying, Maybe we shall obtain A thought of what our dying May steal from life and pain... 1-10-1914 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 450. Quem quisesse resumir numa palavra a característica principal da arte moderna encontrá-la-ia, perfeitamente, na palavra sonho. A arte moderna é arte de sonho. Modernamente deu-se a diferenciação entre o pensamento e a acção, entre a ideia do esforço e o ideal, e o próprio esforço e a realização. Na Idade Média e na Renascença, um sonhador, como o Infante D. Henrique, punha o seu sonho em prática. Bastava que com intensidade o sonhasse. O mundo humano era pequeno e simples. Era-o todo o mundo até à época moderna. Não havia a complexidade de poder a que chamamos a democracia, não havia a intensidade de vida que devemos àquilo a que chamamos o industrialismo, nem havia a dispersão da vida, o alargamento da realidade que as descobertas deram e resulta no imperialismo. Hoje o mundo exterior humano é desta complexidade tripla e horrorosa. Logo no limiar do sonho surge o inevitável pensamento da impossibilidade. (A própria ignorância medieval era uma força de sonho). Hoje tudo tem o como e o porquê científico e exacto. Explorar a África seria aventureiro, mas não é já tenebroso e estranho; procurar o Pólo seria arriscado, mas já não é. O Mistério morreu na vida: quem vai explorar a África ou [...] o Pólo não leva em si o pavor do que virá a encontrar, porque sabe que só encontrará coisas cientificamente conhecidas ou cientificamente cognoscíveis. Já não há ousadia: basta a coragem física de um bom pugilista [?]. Por isso as mais loucas tentativas de idealização dos nossos aviadores e exploradores não logram ser não ridículas, tão de estatura de alma mediana estas são. É que são homens de ciência, homens de prática. E os grandes homens antigos eram homens de sonho. Os homens diminuem. Gradualmente, cada vez mais, governar é administrar, guiar. Desde que a arte moderna se tornara a arte pessoal, lógico era que o seu desenvolvimento fosse para uma interiorização cada vez maior — para o sonho crescente, cada vez mais para mais sonho. O poeta de sonho é um melódico, um acorrentado na música dos seus versos, como Ariel estava preso na curva [?] de Sycorax. A música é essencialmente a arte do sonho: e o desenvolvimento da música moderno todo, no que valioso e grande, é a composição suprema de quanto aqui teorizamos. O poeta sonhador, porque sonhador, é até certo ponto músico. E para comunicar o seu sonho precisa de se valer das coisas que comunicam o sonho. A música é uma delas. O poeta de sonho é geralmente um visual, um visual estético. O sonho é da vista geralmente. Pouco sabe auditivamente, tactilmente. E o “quadro”, a “paisagem” é de sonho, na sua essência, porque é estática, negadora do continuamente dinâmico que é o mundo exterior. (Quanto mais rápida e turva é a vida moderna, mais lento, quieto e claro é o sonho). Nordau caiu no mais flagrante e grosseiro dos erros de que um raciocinador pode fazer [ser?] vítima em matéria sobre que raciocina. Confundiu em movimento de progresso, porque de diferenciação, com um movimento de regressão; tomou o princípio, hesitante e perplexo como todos os começares, de uma nova forma de arte por uma arte já feita; e não soube destrinçar entre o essencial e o ocasional, o instintivo e o teórico e posição num movimento artístico, porquanto, não descendo à compreensão do unde e do quo da civilização actual [...] Viu os elementos de decadência que o movimento simbolista continha — o que pouco o elogia, porque esses elementos são flagrantes — e não viu o que, por detrás desses elementos, faz de Dante Gabriel Rossetti um grande poeta, e um grande poeta de Paul Verlaine. Nordau fez mais de asneiras e incompreensão: confundia, sob a mesma classificação de “místicos” e “tísicos”, formas de arte diferentes, de diferente significação [...] Havia 3 caminhos a seguir ante este novo estado civilizacional: 1) entregar-se ao mundo exterior, deixar-se absorver por ele, tomando dele a vida oca e ruidosa, o esforço sumamente esforço, a Natureza simplesmente Natureza — e este caminho seguiram Whitman, Nietzsche, Verhaeren, e, entre nós, a corrente que incluiu Nunes Claro, Sílvio Rebelo e João de Barros. 2) Pôr-se ao lado, à parte dessa corrente, num sonho todo individual, todo isolado, reagindo inertemente e passivamente contra a vida moderna, quer pela ânsia medieval, a medievalité , quer pela fuga para o longe no espaço, quer para o estranho e o invulgar na vida — o Longe na vida afinal. Foi o caminho que seguiram Edgar Poe, Baudelaire (fugindo para o Estranho), Rossetti, Verlaine (para a Idade Média e para o Estranho), Eugénio de Castro (para a Grécia), Loti (para o Oriente). 3) Metendo esse ruidoso mundo, a natureza, tudo, dentro do próprio sonho — e fugindo da “Realidade” nesse sonho. É o caminho português (tão caracteristicamente português) — que vem desde Antero de Quental cada vez mais intenso até à nossa recentíssima poesia. Quem quiser compreender o simbolismo tem de contar com a sua tripla natureza. É: 1) uma decadência do romantismo; 2) um movimento de reacção contra o cientismo; 3) um estádio na evolução (ou princípio duma evolução) de uma nova arte Quem não viu isto tudo, não compreenderá o simbolismo. Nordau viu só 1), outros vêem só 2) e 3). O maior poeta da época moderna será o que tiver mais capacidade de sonho. O misticismo e o egotismo, encontrados por Nordau na arte moderna, são os aspectos mórbidos do misticismo equilibrado e do personalismo característico da arte moderna, e que produziram Goethe, tão querido de Max Nordau, no seu primeiro estádio. Em seu carácter, o sonhador mostra certos característicos: A assexualidade, ou parassexualidade, é um, e evidente; é a forma mais flagrante da sua incapacidade para lidar com a normalidade e a realidade das coisas. Aquilo a que se chama a arte moderna, aquilo que é por enquanto a arte moderna, é apenas o princípio de uma arte — ou, antes, a transição entre os dois estádios da evolução civilizacional. Entre o chamado romantismo e a arte que vai agora caminhando rapidamente para o seu auge. O Infante D. Henrique é o perfeito tipo do sonhador. Desde a sua assexualidade até ao seu perfeito sacrifício dos outros — é um sonhador. Mas viveu no tempo em que se podia sonhar. Hoje o sonho é sempre de coisas inexequíveis. O que se concebe como exequível é porque se concebe como cientificamente exequível, e o que se concebe como cientificamente qualquer coisa não pode ser matéria de sonho. 1913? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 156. O BURRO E AS DUAS MARGENS É costume contar-se às crianças, quando começam a estar em idade de começar a ser estúpidas, uma história a propósito de um burro que chega à margem de um rio e não consegue passar para a outra margem. O rio não tem ponte, o burro não sabe nadar, não há barca que o transporte. O que faz o burro? Depois de algum tempo de pensar, a criança diz que desiste. E então a pessoa adulta, que lhe pôs a adivinha, diz: O mesmo fez o burro. O que devia dizer era: És como o burro, porque assim é que a graça tem graça, se é que a tem. Mas a história não se passou assim, e foi o burro mesmo que m'a contou. O burro chegou à margem do rio, e queria passar para a outra margem. Verificou, efectivamente, e nesse particular a história é verídica como se narra, que (a) não havia ponte, (b) não havia barco, (c) ele, burro, não sabia nadar. Então o burro pensou: O que faria um homem no meu caso? E, depois de pensar, pensou: Desistia. Pois bem, decidiu: Sou como o homem. Porque, nesta adivinha, ninguém pensou numa coisa: é que o homem desistia também. Moralidade: A política partidária é a arte de dizer a mesma coisa de duas maneiras diferentes. O melhor é dizer em segundo lugar, porque como é o homem que faz a adivinha, adiante vai o burro. Moralidade: Cuidado com o avesso. Cuidado com os tecidos políticos que se podem virar do avesso. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 270. «Fábulas para as Nações Jovens». Bebezinho querido: Sobressaltou-me a tua carta, e apoquentou-me imenso. O que é que tu tens? Andas agora sempre doente, sempre triste, sempre misteriosa. Nem posso simplesmente apoquentar-me a teu respeito; tenho por força que juntar a essa apoquentação dúvidas, receios vários, coisas por vezes horríveis... Agora não digo mais. Deixaste-me apoquentado de diversas maneiras; mas sobretudo por causa dessa misteriosa doença... Desejo muito as tuas melhoras. Oxalá eu te possa ver e falar amanhã. Muitos beijos do teu, muito teu Fernando 2/7/1920 2-7-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 30. Onda que vens e que vais Onda que vens e que vais Mar que vais e depois vens, Já não sei se tu me atrais, E, se me atrais, se me tens. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 105. Chove. É dia de Natal. Lá para o Norte é melhor: Há a neve que faz mal. E o frio que ainda é pior. E toda a gente é contente Porque é dia de o ficar. Chove no Natal presente. Antes isso que nevar. Pois apesar de ser esse O Natal da convenção, Quando o corpo me arrefece Tenho o frio e Natal não. Deixo sentir a quem quadra E o Natal a quem o fez, Pois se escrevo ainda outra quadra Fico gelado dos pés. 25-12-1930 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 127. PRESSÁGIO Vinham, louras, de preto Ondeando até mim Pelo jardim secreto Na véspera do fim. Nos olhos toucas tinham Reflexos de um jardim Que não o por onde vinham Na véspera do fim. Mas passam... Nunca me viram E eu quanto sonhei afim A essas que se partiram Na véspera do fim. 10-4-1927 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 74. Que essa arte não é feita para o povo? Naturalmente que o não é — nem ela nem nenhuma arte verdadeira. Toda a arte que fica é feita para as aristocracias, para os escóis, que é o que fica na história das sociedades, porque o povo passa, e o seu mister é passar. A nossa arte é supremamente aristocrática, ainda, porque uma arte aristocrática se torna necessária neste outono da civilização europeia, em que a democracia avança a tal ponto que, para de qualquer maneira reagir, nos incumbe, a nós artistas, pormos entre a elite e o povo aquela barreira que ele, o povo; nunca poderá transpor — a barreira do requinte emotivo e da ideação transcendental, da sensação apurada até à subtileza [...] A nossa civilização corre o risco de ficar submersa como a Grécia (Atenas) sob a extensão da democracia, de cair inteiramente nas mãos dos escravos, ou então de ficar como Roma, não nas mãos de imperadores filhos do acaso e da decadência, mas de grupos financeiros sem pátria, sem lar na inteligência, sem escrúpulos intelectuais e sem causa em Deus. O único antídoto para isto é uma lenta aristocratização. É pela arte que, supremamente, essa aristocratização pode ser feita. Raiava, já antes da guerra, no horizonte o triste sinal da plebeização das elites. Bailados, espectáculos e outros desvios semelhantes da arte superior iam tomando vulto. É preciso reagir contra esta corrente. Depois da guerra, é de crer que aumente o espírito patriótico. Nada mais ignóbil. Reporto-me às palavras sublimes de Goethe quando falou de quão pouco o sentimento patriótico sobe até às paragens de ar puro e raro onde vivem os Superiores. Permita-me que lhe recorde aquele passo das conversações com Eckermann em que o Mestre de Weimar registou essa ideia. 1916? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 161. O DESCONHECIDO «Os esotéricos têm relações com os anjos, pela magia profunda dominam os espíritos, sabem a significação íntima e vital dos símbolos, conhecem a matemática profunda em que assentam as almas, «falaram» com os demiurgos, lidaram com os princípios magicamente causais que estão entre Deus e o Mundo, conheceram Cristo, na sua Figura Eterna e na sua Vera Fisiognomia não-simbólica. «Sim, observei, lívido, eles foram aqueles que sem dúvida viram Isis sem véu.» «Não só a Isis viram sem véu, mas com sentidos espiritualizados do seu corpo ao Maior Princípio viram frente a frente. Colheram o auxílio de Asmodeus, de Beelzebuth, de outros. Agora escutai, disse o Desconhecido, baixando a voz que tomou de repente uma entoação de sombra, distante e ao mesmo tempo pavorosamente nítida. Escutai: Pausou um momento. Depois, não sei se lentamente, mas tenho a impressão que sim, disse-me estas palavras assombrosas: «Mas nada d'isso nunca existiu. Os espíritos, os deuses, as Vidas Supremas de que os símbolos falam, os demiurgos, os demónios, os espíritos todos — nunca existiram. São criações dos HERMÉTICOS para uso ilusório dos Esotéricos. Assim como estes só por símbolos não sempre certos dão notícia da sua fé e dos seus poderes aos Esotéricos, aqueles o fazem a eles. Deus mesmo não existe; Deus é uma criação ilusória dos HERMÉTICOS. Existe realmente e verdadeiramente para os Esotéricos, mas verdadeiramente não existe. O mistério é mais profundo do que julgais e de que os Esotéricos julgam. O Mistério É MAIS UNO E INDIVISÍVEL DE QUE DEUS E OS ANJOS. Um grande horror físico descera sobre mim. Eu não sabia para onde pudesse olhar que um terror pessoal não saísse d'esse objecto. Quando ergui os olhos não havia ninguém no quarto, além de mim. O grande Espelho fitava-me ocamente. Com mão trémula acendi o candeeiro. A alegria humilde da luz derramou-se de repente pela sala. Não estava lá ninguém. Eu tinha sonhado então? Não podia determinar se sim, se não. Olhei em volta, cheio de um pavor que morava, rígido, nas minhas mínimas, sentidas, veias. Mas nada de estranho no quarto. Nada? N'uma estante um livro saía para fora, parecia ir cair. Eu tive uma certeza inexplicável de que aquilo era anormal e estranho, de que (se bem que não tivesse reparado para a estante antes) aquele livro não estivera assim há talvez momentos. Quis ir em direcção a ele mexer-lhe, mas um pavor tolheu-me. Por fim pude avançar. Cheguei ao pé da estante, diante do livro, tirei-o para fora. Olhei-lhe para a capa. Era a Bíblia. N'um gesto rápido, como que decididor da minha sorte peguei na Bíblia e abria-a. Não sei porquê um versículo foi a única coisa que imediatamente vi, como se o resto da página estivesse inteiramente branca. Foi esta rigorosamente, a sensação que tive. Abri e li: s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 271. Querida Ibis: Desculpa o papel impróprio em que te escrevo; é o único que encontrei na pasta, e aqui no Café Arcada não têm papel. Mas não te importas não? Acabo de receber a tua carta com o postal, que acho muito engraçado. Ontem foi — não é verdade? — uma coincidência engraçadíssima o facto de eu e minha irmã irmos para a Baixa exactamente ao mesmo tempo que tu. O que não teve graça foi tu desapareceres, apesar dos sinais que eu te fiz. Eu fui apenas deixar minha irmã ao Avda. Palace, para ela ir fazer umas compras e dar um passeio com a mãe e a irmã do rapaz belga que aí está. Eu saí quase imediatamente, e esperava encontrar-te ali próximo para falarmos. Não quiseste. Tanta pressa tiveste de ir para casa de tua irmã! E, ainda por cima, quando saí do hotel, vejo a janela de casa de tua irmã armada em camarote (com cadeiras suplementares) para o espectáculo de me ver passar! Claro está que, tendo visto isto, segui o meu caminho como se ali não estivesse ninguém. Quando eu pretendesse ser palhaço (para o que, aliás, o meu feitio natural pouco serve) oferecia-me directamente ao Coliseu. Era o que faltava agora! Que eu tolerasse a brincadeira de ser dado en spectacle para a família! Se não havia maneira de evitares estares à janela com 148 pessoas, não estivesses. Já que não quiseste esperar-me ou falar-me, ao menos tivesses a cortesia — já que não podias aparecer só à janela — de não aparecer . Ora eu não posso estar a explicar-te estas coisas. Se o teu coração (supondo a existência desse senhor) ou a tua intuição te não ensinam instintivamente estas coisas, eu, por mim, não posso constituir-me em teu professor delas. Quando me dizes que o que mais desejas é que eu case contigo, é pena que me não expliques que tenho ao mesmo tempo que casar com tua irmã, teu cunhado, teu sobrinho e não sei quantas freguesas da tua irmã. Sempre e muito teu Fernando 31/7/1920 Esta carta foi escrita no esquecimento de que tu costumas mostrar as minhas cartas a toda a gente. Se me tivesse lembrado disso — acredita — eu tê-la-ia suavizado um pouco. Mas agora já é tarde; não importa. De resto nada importa. F. 31-7-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 31. Quando há música, parece Quando há música, parece Que dormes, e assim te calas, Mas se a música falece Acordo, e não me falas. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 105. Dá-me um sorriso daqueles Dá-me um sorriso daqueles Que te não servem de nada Como se dá às crianças Uma caixa esvaziada. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 77. Sei que nunca terei o que procuro E que nem sei buscar o que desejo, Mas busco, insciente, no silêncio escuro E pasmo do que sei que não almejo. 10-4-1927 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 75. My heart was trembling in the breeze Like a flag half‑furled and at rest... My heart was trembling in the breeze And all was restless in my breast... My heart was lonely, sick and pale, Silent like rocks in a calm sea... My heart was lonely, sick and pale. It seemed not to belong to me... It sounded in me like a stone Falling within a rivulet... It sounded in me like a stone That doth a silent river fret... Oh, heart too sick for life like this. Oh, peace that sleeps among the hills. O heart too sick for life like this. Oh rest at last for all my ills. 1914 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 450. Lembrou-se, há um tempo para cá, certa gente, degenerada por natureza e critica por predilecção, de protestar, cada qual com o mau “modo” que lhe é modo, contra a obscenidade e a confusão desta ou daquela “literatura”, destoutra ou daqueloutra poesia moderna, etc. Isto, além de revelar a tendência para ter opiniões sobre qualquer assunto, que é um dos estigmas psíquicos de degenerescência, amostra, paralelamente, o hábito mental de não ter ideias, e expor ao público as ideias que se não tem. Assim, neste ponto, nada curaram os autores dos diversos atentados críticos em ver o que seria a obscenidade e a confusão, não se detiveram em procurar o valor real dessa moeda artística. Nem sequer perguntaram a si próprios se na realidade o ser obsceno e confuso não seria mais natural e são do que escrever com clareza e lucidez. De duas coisas uma: ou a ideação literária deve, ou não deve, seguir a norma da ideação vulgar. Ou por ser ideação deve ser apenas um grau superior da ideação normal, ou, por ser literária, e não vulgar, deve ser um género diferente de ideação. Que carácter tem, vista sob o aspecto de se é confusa ou não, a ideação vulgar? Sendo a ideação vulgar aquela que aparece nas conversas vulgares, é nesta prosa de conversa que temos de a fotografar. Que carácter têm as ideias conforme expostas numa conversa usual? São perfeitamente nítidas? Não o são. Tanto o não são que as discussões são geralmente intermináveis, sendo apenas modos de dois ou mais indivíduos levarem muito tempo a chegar a perceber que se não percebem uns aos outros, algumas vezes que se não percebem a si próprios, raras e ilustres vezes que não percebem nada. São perfeitamente confusas? Não são. Se o fossem não só não achariam expressão nas palavras do próprio indivíduo, nem trariam consigo, ao serem expressas, aquela quota parte de compreensibilidade que habilita o outro locutor a julgar que as percebe... A ideação de conversa é, portanto, ao mesmo tempo nítida e confusa. Em que é nítida e em que é confusa ? Vejamos. Se ela não fosse nítida na ideação da ideia, o indivíduo, não tendo essa ideia, não a poria em palavras, porque nem toda a gente pode estar com o Sr. Maeterlinck, constantemente a expor ideias que não tem. Se ela fosse nítida na ideação da expressão da ideia, o interlocutor perceberia o que se diz — o que nunca acontece, e, dado que soubesse o pensamento sobre o assunto, poderia, logo de princípio, dizer se estão ou não naquela espécie de divergência de si-próprios que se chama estar de acordo com outra pessoa. De modo que chegamos a isto: que a ideação vulgar é nítida na ideação da ideia e confusa na ideação da expressão dessa ideia. Ora, a ideação artística, sendo ou um prolongamento, ou uma inversão da ideação normal — uma das duas coisas há-de ser, porque aqui não se pode ser duas coisas opostas, como os católicos são cristãos (espiritualistas) e materialistas — , tem de ser ou — é o caso do prolongamento — , como aquela nítida na ideia e confusa na expressão, ou — e é o caso da inversão — nítida na expressão e confusa na ideia. No primeiro caso temos uma ideia nítida expressa confusamente, o que dá confusão, visto que a ideia, ao ser expressa, se torna confusa; e no segundo caso temos uma ideia confusa expressa nitidamente, o que dá confusão também, visto que uma ideia confusa não pode dar senão confusão, de qualquer modo que seja expressa. 1915? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 162. Servo sem dor de um desolado intuito, De nada creias ou descreias muito. O mesmo faz que penses ou não penses. Tudo é irreal, anónimo e fortuito. Não sejas curioso do amplo mundo. Ele é menos extenso do que fundo. E o que não sabes nem saberás nunca É isso o mais real e o mais profundo. Troca por vinho o amor que não terás. O que esperas, perene o esperarás. O que bebes, tu bebes. Olha as rosas. Morto, que rosas é que cheirarás? Vendo o tumulto inconsciente em que anda A humanidade de uma a outra banda, Não te nasce a vontade de dormir? Não te cresce o desprezo de quem manda? Duas vezes no ano, diz quem sabe, Em Nishapor, onde me o mundo cabe, Florem as rosas. Sobre mim sepulto Essa dupla anuidade não acabe! Traze o vinho, que o vinho, dizem, é O que alegra a alma e o que, em perfeita fé, Traz o sangue de um Deus ao corpo e à alma. Mas, seja como for, bebe e não sê. Com seus cavalos imperiais calcando Os campos que o labor esteve lavrando, Passa o César de aqui. Mais tarde, morto, Renasce a erva, nos campos alastrando. Goza o Sultão de amor em quantidade. Goza o Vizir amor em qualidade. Não gozo amor nenhum. Tragam-me vinho E gozo de ser nada em liberdade. 30-11-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 97. NO JARDIM DE EPÍCTETO O aprazível de ver estes frutos, e a frescura que sai d'estas árvores frondosas, são — disse o Mestre, — outras tantas solicitações da natureza para que nos entreguemos às melhores delícias de um pensamento sereno. Não há melhor hora para a meditação da vida, ainda que seja inútil, do que esta em que, sem que o sol esteja no ocaso, já a tarde perde o calor do dia e parece que sobe vento do arrefecimento dos campos. São muitas as questões em que nos ocupamos, e grande é o tempo que perdemos em descobrir que nada podemos nelas. Pô-las de parte, como quem passa sem querer ver, fora muito para homem e pouco para deus; entregarmo-nos a elas, como a um senhor, fora vender o que não temos. Sossegai comigo à sombra das árvores verdes, em que não pesa mais pensamento que o secarem-lhes as folhas quando vem o outono, ou esticarem múltiplos dedos hirtos para o céu frio do inverno passageiro. Sossegai comigo e meditai quanto o esforço é inútil, a vontade estranha; e a própria meditação, que fazemos, nem mais útil que o esforço, nem mais nossa que a vontade. Meditai também que uma vida que não quer nada não pode pesar no decurso das coisas, mas uma vida que quer tudo também não pode pesar no decurso das coisas, porque não pode obter tudo. E o obter menos que tudo não é digno das almas que solicitam a verdade. Mais vale, filhos, a sombra de uma árvore do que o conhecimento da verdade, porque a sombra da árvore é verdadeira enquanto dura, e o conhecimento da verdade é falso no próprio conhecimento. Mais vale, para um justo entendimento, o verdor das folhas que um grande pensamento, pois o verdor das folhas, podeis mostrá-lo aos outros, e nunca podereis mostrar aos outros um grande pensamento. Nascemos sem saber falar e morremos sem ter sabido dizer. Passa-se nossa vida entre o silêncio de quem está calado e o silêncio de quem não foi entendido, e em torno d'isto, como uma abelha em torno de onde não há flores, paira incógnito um inútil destino. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 272. Querida Nininha pequena: Estarei no Conde Barão à tua espera das 8 às 8 1/2. Estou escrevendo de onde vês pelo papel, e o Osório vai fazer-me o favor de te levar isto, a casa da tua irmã. Olha: estarei no Conde Barão, mas no recanto da Padaria Inglesa entre as duas horas citadas, que, creio, te serão convenientes. Sempre e muito teu, Fernando 2/8/1920 2-8-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 32. As Ilusões 1. A Ilusão do mundo 2. A Ilusão do Amor. a) o sentimento. o s[entimento] não existe b) a posse. a posse não existe c) o gozo. o gozo não existe. 3. A Ilusão da Força A Ilusão da Realidade (?) A. As Ilusões dos Instintos B. As Ilusões do Pensamento. C. As Ilusões do Ideal (a) a Il[usão] da Liberdade (b) a Il[usão] da Felicidade (c) a Il[usão] da Força s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 155. «O Templo de Jano». Trazes uma cruz no peito. Trazes uma cruz no peito. Não sei se é por devoção. Antes tivesse o jeito De ter lá um coração. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 106. O canário já não canta. O canário já não canta. Não canta o canário já. Aquilo que em ti me encanta Talvez não me encantará. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 77. Já não vivi em vão Já escrevi bem Uma canção. A vida o que tem? Estender a mão A alguém? Nem isso, não. Só o escrever bem Uma canção. 7-5-1927 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 76. Now are no Janus' temple‑doors thrown wide To utter thougts of war upon the land. Now doth no double facing God divide Him from himself, that sight of him may brand The symbol of opposed things upon Our hearts that at our eyes on him are thrown. Now do no pagan cults tremble at Mars' name Because bad‑auguring birds like clouds have flown O'er nations' frontiers, nor do oracles frame Strange answers unto ears of armoured chiefs, Replies that leave perplexed their perplexed eyes That know not whether that heart‑pang they hear Is the first grief heralding their peoples' griefs Or the strange cold that the Gods' mysteries Speak to his soul that is to conquest near. No. All is dead that wreathed war round with Gods. Nor omens mute, nor the foiled sacrifice, No dim words spoken by spilt blood on sods. Nay, nor the later sense that vice and sloth, When in a people's heart they nestle both Do on them call the wrath of heaven, us move. Our souls are void, like a stage mummer's cries And our hate and our love mock hate and love. Something of coldness, like the coming winter, Crosses our autumn like a profecy. Round our leaves now no swallows circle and twitter. No more, no more, shall we heart‑wholesome be. There is a sadness that with us doth stay Like a billetted guest, and far away Our ultimate death awaits us like a sea. Alas! that even the poesy of wars Should, like a tired thing, have gone where things go. Alas! alas! that we have come thus far Knowing still the same nothing that we know, To meet more than ourselves, nor no throe That shall be herald of a newer man. And ever as the old woes the cold new woe Fills with its deathless measure our life's span. No, even the Christian manner of love or hate Is dead. No God that lives in us survives The winter in us that snow‑kills God and Fate And has iced o'er the rivers of our lives. With cuirass and with pike we laid aside All that made battle worth the death in it. Our science‑made war‑gestures now deride The great eternal things that war doth fit With helm and armour. With mortal pomp yet pomp. We are on death's side. All is as if were not part of it. All clashes, rings and turmoils as if far. The foiled imagining within our wit Ousts war's clear image with bare thought of war. Our plans are cold, our courage cold, our eyes When they look inwards dream but the far plain And vague, picture‑seen faces and their pain Touches no sense of ours, nor do dreamed cries Rise in us. What cold thing has become of Our very hatred? What way has strength gone? We die as if the sky were not above Our heads and beneath us sand, grass and stone. The great eternal presence of all things No longer doth with us collaborate To lift our hearts up on invisible wings And bid us tremble at the thrill of Fate. The possible fall of empires doth no more Touch us with that great and mysterious dread That John on Pathmos saw rise o'er his head Like a space‑filling sea without a shore. Alas! our nobler fear has gone away Where our weariness pointed. We are blind And learned to blindness. Our wild gestures stray From us like leaves that fall far off with the wind, And we fight clearly, coldly, night and day. These things I thought, knowing that far behind My visible horizon war was slave Of that Invisible Master who doth wave His speechless hand o'er continents and seas And men like reaped things fall, and the blind wind With groping hands that in the night are blind Touches the dead men's faces' mysteries. This I thought when, lo! before me there was A door of iron, or what iron seemed, An unsized portal, and its live‑seeming lock Seemed all the uses of a lock to mock. To see that door was to know none could pass Through it, nor could its other‑side be dreamed. A ribbon of broad stairs led up to it But had no meaning, like a laugh unseen, I looked and the door seemed to sway as hit By blows, but no blows fell on it. That screen Was interposed between me and no scene, Yet, like an eye staring from out the night, It touched my heart cold with its iron mean. And this was not in space nor in a light. Somewhere in me where dreams do themselves show And have an inner meaning God doth know, The door was set, and it seemed to my soul That there since some inner eternity It ever had been and I something had seen, Yet half forgot, that like a half‑shown scroll, Concealed its sense in what it showed to me. And lo! as my heart looked, the door grew clear As a near‑lit thing seen in a black night, And a great sense of a great coming fear Was fear already in my heart's affright. Then as I looked I saw - yet it did seem That in my vision that had ever been - From beneath the strange door down the steps flow A string of silent blood, that step by step, Fell with a motion desolate and slow. The thin red stream seemed conscious of its course Though its course seemed to be none, but to fall. I looked and it fell ever, with a force Of relinquishment to its fall, a knell To some hope in me, and the blood That ever was but a small line did flood All my pained soul and made it red. The spell Of its thin redness spreade o'er my thought's mood And all my thoughts became a great red wall Set up in front of what in me doth brood. Then everything shifted, yet was the same. I looked on as one who sees a child's game And finds its eyes at interest in it And knows not why. A sense of end did hit My power of having feelings with a rain That did with deep red all my dim soul stain As it had stained that soul. Then all the outer world was dashed to night And, though no floor remained, no sides, no light To that space‑missed new world, set far from being, Yet by some clearer virtue of my seeing All I saw was without nor left nor right With a name to it, without a place Even in itself, without an I to see. The mere great door and the red blood's thin trace And all the rest was void and mystery. Then all again seemed changing unto some New, unimaginable and fearful thing. The door and that blood‑line seemed to come A strange new‑featured Face looking out through The Universe's whole frame, traversing It like light an invisible glass - a wing Belonging to no bird our thoughts construe. Then the door seemed to recede - nay, to have Receded, when I knew not, nor was there A when, for Time seem'd as seems a far wave On a wide sea, something gone past. The bare Eternal door seemed to have gone to the end Of a visible infinity, and all That now remained on which my soul could spend Its terror was the blood ever at its fall. Then, though still the same small line of red, The blood seeemed to grow glass and in it I saw A mighty river full of strange things - dead Men, children, wrecks of bridges, cities, thrones, And still the line was a small red line, (...) Of other meaning than that That before God for the clear world atones. But the (...) visions in that line contained Seemed wide as space. The red line seemed a slit In a thin door through which our eyes can see Large fields, a city and the whole sky stained With clouds, and all this in the line could be; And from some unknown where I looked on it. It seemed the edge of a cube opening Sideways to sides of visions, more and more. Now and then across its glass - like being a wing Passed a tremor ran over everything That had in it a clear and tragic being. Then ceased. And from, past space, the door Still held my unconscious consciousness of seeing. It seemed sometimes a bright, red moving veil And through it as through a stained window I guessed A night and stars on a vague pale day pressed, On a same horizon desolate and pale. Then, as I stared, suddenly before me, Like a fan suddenly opened, the blood‑line Took space from side to side, leaving naught to me Left or right of it. Its red (...) fact Became a red Niagara, a cataract. But there were no steps, nothing: it did fall As if drawn in the air, over no edge, and all Was this and this was its own mystery. Then lo! over the edge, no longer now, But empires rolled, and I saw Greece and Rome Pass. And still over the eternal flow Reddened from left to right my inner sight's home Of seeing. And all like to God's blood did come Like a great rain off a huge thorn‑crowned brow. And I saw more and more strange empires roll Down and some I knew not, nor seeing them, guessed. Awhile their falling the fall's brink caressed Then they sunk down somewhere within my soul, And my soul was the soul of all the world, And from my (...) eyes that saw all this Suddenly I felt, as if a flag unfurled, God in me look out at these mysteries. My eyes seemed windows of another sight Of someone set behind my soul in the night Looking through my eyes and my sight, mine own Was but a glass those unknown eyes looked through, And still the vision was blood falling down In cataracts into Mystery, red and slow. I became one with world and Fate and God, And the great River that came on and fell Let me see through its veil of (...) blood The stars shine and a vague moonlight, then fell Something from me. The cataract came more near To my sight; then it seemed into mine eyes To creep to become with them and the fear To pass behind them into some soul (...). Then all that did remain was the stars light And again in the dark infinity My pity and my dread alone with me And my dream's meaning like a paling night. 7-1-1915 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 452. 1ª publ.: «Poesias Inglesas Inéditas de Fernando Pessoa sobre a Primeira Guerra Mundial». Georg Rudolf Lind. in Ocidente , nº 405. Lisboa: Jan. 1972 My dear Marinetti: I have not written you earlier because politics, which I have now almost altogether set aside, and also lust have left me almost no time to fulfil other duties and enjoy other pleasures. But, at any rate, here I am. I was already acquainted with some of the manifestos which you have sent me, and for which I thank you very much. Besides this, I had also read Boccioni’s fine book on futurist painting and sculpture. I am therefore not altogether ignorant in the matter of futurism; I am even to a certain extent on your side. I think, however, that futurism ought to develop very much and to abandon its extreme exclusivism. It seems to me that your idea of history is too little futurist, and that you figure to yourselves a far too regular historic development. In evolution we do not find a regularly ascending line; on the contrary, development takes place in a violent and cataclysmic manner, in which gains are achieved only through fundamental losses. And all this occurs in a very labyrinthic manner which produces vertigo: here you have real futurism in history. Social values are scattered almost haphazard over times and places, and what there is of progress appears only through the loss of something which must be produced anew that the Infinite may at last be established. In the Infinite, which is the supreme futurist aspiration, all values should be realised without the possibility of the loss of any of them. If there be losses in evolution, even through manifest gains, let those losses be but momentary. In no other way can the Infinite emerge, since nothing must be lacking to it. Pre-war modern civilisation, which conceived futurism, possesses new elements which were hitherto unknown. But, on the other hand, it no longer possesses elements, social values, which are as important as its own ones. Something has been gained, but through several losses. Modern civilisation has acquired new aspects of Existence, but it has lost other aspects. It is therefore necessary that the Future should be the supreme synthesis of all that has been lost and of all that exists still, so that it may engender the Infinite, to which nothing is ever lacking, from which no single aspect of Existence is absent. It is this definitive state of Life which must be prepared that we may infinitize ourselves for ever. The Infinite, since it is continuous, is a multiplicity-one, and therefore the civilisation which can be identified with it must not be divided into several peoples, for it must be but one people, the perfect synthesis of all the peoples of the Universe. In this synthesis, nothing must be missing; then all the scattered aspects of Existence, which are the divers peoples and individuals, small worlds of universal impressions, will rule together in the Infinite which will mingle them with each other, without the sacrifice of any of them. In this way, each individual and each people should develop itself as much as possible, and yet their purpose should not be individual or nationalistic, since it must rather act (?) that nothing may be lost before the establishment of the synthesis-Infinity, to which nothing is lacking. If a people were to be sacrificed, that would mean that a multitudinary aspect of Existence would be lost for ever; and for this reason I seek nationalism with a purely ultra-nationalist purpose: synthesis is a total to which nothing is lacking. Now it is not only in space that we must take into consideration the different peoples and civilisations, the several scattered aspects of infinite Existence; we must consider them also through all times, throughout all lost history. Many things have disappeared, and they must emerge again, rejuvenated and infinitized: in each element of the Infinite all the other elements are included, and this because the Infinite is continuous, is pure Unity all through the fact of being Multiplicity. If modern civilisation has a spirit of Inexpression, of essential Void (Vacuum), which is the basis (essence) of your “music-hall sensibility”, the Middle Ages, for instance, know how to live splendidly the spirit of Supernatural which must be made to reappear. Yet in the Middle Ages this spirit is imperfect, because it is not excessive, as it will be when it is combined with the spirit of Void (Vacuum) which is the essence of our civilisation. Infinity-Void, God-Void, this is what must be sought. Through this supernatural, astral Void the forms, the phantoms of Existence, altogether real and altogether false and in an altogether labyrinthic manner glide essentially in Vertigo in each other; each supposes all the others, and creates them in itself, and qua itself, by the excess of its nature, as I short1y make evident, and then each exists but labyrinthically by the others and for the others, that is to say, they all exist only relatively some to the others. The Relative is not the simple Nothingness, and yet it has the spirit of Nothingness all the while it expresses (throughout the fact of its expressing) a creative act, an altogether animic act (an act of pure existence), that which manifests itself (shows itself) in things in their conceiving, in their creating other things, which therefore exist only by them and for them, in fine, only relatively to them. In this way, Life, which is a relativist phantomogeny where there is but Indecision (?), where there is but Vertigo, impregnates itself with Void as well as with Absolute, which is pure Existence, pure creative animism, as I shall shortly make quite evident. This Astral Void, this altogether animic Void-Infinity, this Void-Phantom in Vertigo (in labyrinthizing-Vertigo) is as awful as it is sublime, being the pure Essence of Life. It expresses the absolute creative power (it is the absolutely) infinitely creative act expressed in pure relativity), it is the pure, the divine Animic-Creating, so pure that there is no question of an animism creator of a being, but of an animism in itself, purely in abstract: it is because there is no longer being in this animism that we have a pure void in this pure act of animic existence; and it is this that sublimates awfully (?) the essence of Life, that essence, as sublime as it is awful, of infinite Void-Phantom in Vertigo. If we have here a creative power, we have here doubtless [ly] the spirit of God, the Holy Spirit (Ghost) of Death which is the essence of the whole World! And I refer to Death because we naturally conceive Death as an altogether abstract life, full of spiritual darkness, and of an altogether animized infinite void: animism and void are indeed the things proper to Death. It is therefore a new Religion and a new Church which I wish to (?) announce (?), and both one and the other have a distinctly futuristic character. The rule of the Void in a pure spirit of Relative-Creating, the Indecision-Vertigo of all, the pure gliding (?) of forms-phantoms which are lost each in another in an altogether labyrinthic manner, in a manner distinctly vertigic, all this is markedly futuristic. And it is a glory for Futurism that Religion itself can profit by its doctrines. The Paracletian Church, whose foundation God commands me to announce, is an essentially Futuristic Church! Let us then raise the bloody flag of Revolt against the rotten carcase of the Vatican! Like you, I condemn simple rationalism; yet my opinion is that we must go beyond it. Now to go beyond it, and thus to attain the Infinite, we must traverse it first. The simple intuition, or rather the simple immediate impression of things, is not enough. We must know, understand, feel altogether purely the intimate (inner) reason of things, et how they are engendered (produced). It is true that Futurism seeks in relativity, that is, in what it calls physical transcendentalism, the creative reason of impressions, but it seeks only their physical, outer, superficial and empirical reason, and not their metaphysical, intimate, deep abysmic one! It is only the senses that seek that one, while the metaphysical reason of things is found (out) by pure thought in an altogether emotional purity. I can foresee your objection: “But it is thought itself which we absolutely condemn”. I am not of that opinion; I wish only that thought may transcend itself and attain the supreme state of Vertigo! You are on this side of thought (on the near side of thought); I prefer its pure other side. (...) 1917? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 164. Domingo 15.8.1920 Víbora: Recebi a tua carta má, e, na verdade, não percebo como foi que nos não encontrámos nem ontem nem antes de ontem. Diferença de relógios? Não creio, porque não notei, quer num dia quer noutro, ao chegar à Baixa, que o meu relógio estivesse tão errado. Escrevo-te só estas linhas para te dizer que estarei amanhã ao meio-dia em ponto no fim da Av. das Cortes. Vais ao escritório da R. da Vitória à 1. Isto deve dar-te tempo. O pior é se vais acompanhada. Em todo o caso esperar-te-ei até às 12 1/4. Oxalá estejas melhor; mas isso não é desgosto, é viboridade, ou seja maldade. Sempre e muito teu Fernando Estou escrevendo do Café Arcada ao meio-dia e 3 quartos. Por isso escrevo pouco (contra o meu costume) para ver se passo na tua rua não muito longe da uma hora. 15-8-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 33. 1. Entre o sentimento e a inteligência. 2. Entre o instinto e a razão. 3. Entre o indivíduo e a sociedade. 4. Entre a democracia e a aristocracia. 5. Entre a política e a economia. 6. Entre a arte e a vida. 7. Entre a vida doméstica e a vida pública. 8. Entre a contemplação e a acção. 9. Entre a liberdade e a ordem. 10. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 156. «O Templo de Jano». ESSAY ON THE ELEATIC SCHOOLS I. Xenophanes. ll. Parmenides. III. Zeno. IV. Melissus. V. Gorgias. Vl. Reduction of all systems to the system of the Eleatics. If space exist, it must exist somewhere. Where? In space. And where does this space exist? In another space. But space cannot exist thus, by itself. Space cannot be the reason of its own existence. This can be said only of Being. Therefore space does not exist. But is it logical, is it rational to ask where space exists? Does not the word where presuppose a space? Yes and no. It presupposes a space merely because space becomes necessary to us for the conception or perception of anything, of any object. This brings the argument to where it was that space exists by itself. We do but take space as an object when we ask where it is. But space cannot exist by itself, for what exists by itself is that which bears in its essence, (in its name) the reason of its existence. This can be true but of Being. Therefore space (unless it be identical with Being) does not exist. «The question where does space exist?» is natural to man, but merely because man has need of the idea of space. Either space does not exist, or it exists by itself. By itself only Being can exist. Space is inexistent. 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 40. O guardanapo dobrado O guardanapo dobrado Quer dizer que se não volta. Tenho o coração atado: Vê se a tua mão mo solta. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 106. Rezas a Deus ao deitar-te Rezas a Deus ao deitar-te Pedindo não sei o quê. Se rezasses ao demónio, Eu saberia o que é. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 78. Pelo plaino sem caminho O cavaleiro vem. Caminha quieto e de mansinho, Com medo de Ninguém. 7-5-1927 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 77. Out of a great nebula of Night and Storm Borne upon a great void within our Space, My soul was formed and stares God in the face Out of that silence where there is no Form. The empty carcase of Place The silent ecstasy of Hours, Life, like abandoned flowers, Thought, like a forlorn grace. 5-5-1915 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 464. O futurismo vem a ser uma fotografia abstracta das coisas. Ora toda arte, seja como for, é antifotográfica e concreta... s.d. Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 175. Bebé Nininha? Fiquei hoje não só aborrecido, como também apoquentado. Não te encontrei em Belém, e não sei se foi por não teres podido esperar, por já te teres ido embora (supondo que eu não iria) ou se por estares doente. Como te disse ontem, era provável eu chegar hoje mais tarde. Cheguei quase às seis e meia, faltavam dois ou três minutos. Esperei dez minutos, e, como não aparecesses, calculei qualquer das causas que acima te digo. Vou passar agora pelo Largo de Camões: oxalá te veja à janela de casa da tua irmã. Esta carta é deitada no correio antes: aqui no Terreiro do Paço. Estou escrevendo no Café Arcada: por isso o papel é este, e o sobrescrito um que eu tinha na pasta, feito à máquina para ti. Muitos beijinhos do teu e sempre teu Fernando 18/8/1920 18-8-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 34. 1. O Preconceito Biológico. a) Conceito da sociedade como organismo físico. Seu erro. b) Conceito da saúde individual como socialmente útil. Seu erro. c) Outros erros do conceito biológico da sociologia. d) O conceito da felicidade como fim, seu erro. e) O conceito da (...) 2. O Preconceito Psicológico. (Erro de aplicar às sociedades as leis — reais ou pretensas — da psicologia individual). 3. O Preconceito Militar. (Erros de conceber a sociedade como um todo tal como um exército; d'aqui decorrem os erros da Disciplina como necessária, da Hierarquia como útil, da Obediência como sistema). 4. O Preconceito Religioso. (Erros de conceber a sociedade ou como assente em bases religiosas — a sociedade assenta em bases só sociais — ou em bases antirreligiosas) (Erros iguais e antagónicos). 5. O Preconceito Racionalista (ou, Filosófico). (Erros de conceber a sociedade como regulável intelectualmente, etc.) 6. 0 Preconceito Humanitário. 7. O Preconceito Moral. 8. O Preconceito Feminista. 9. O Preconceito Reformista. 10. O Preconceito Estético. 11. O Preconceito Economístico. 12. Outros pequenos preconceitos. 13. Conclusão. Nietzsche é tratado e refutado sob o heading de «Preconceito Racionalista». O prec[onceito] feminista consiste em supor que forças dadas naturalmente como diversas, ainda que talvez como complementares, possam ser tidas como socialmente identificáveis. O prec[onceito] humanitário consiste em supor que o bem individual é ou o fim ou sequer o meio da civilização para o seu fim. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 157. «O Templo de Jano». Boca que tens um sorriso Boca que tens um sorriso Como se fosse um florir, Teus olhos cheios de riso Dão-me um orvalho de rir. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 78. Não venhas sentar-te à minha frente, nem a meu lado; Não venhas falar, nem sorrir. Estou cansado de tudo, estou cansado E quero só dormir. Dormir até acordado, sonhando Ou até sem sonhar, Mas envolto num vago abandono brando A não ter que pensar. Nunca soube querer, nunca soube sentir, até Pensar não foi certo em mim. Deitei fora entre ortigas o que era a minha fé, Escrevi numa página em branco, «Fim». As princesas incógnitas ficaram desconhecidas, Os tronos prometidos não tiveram carpinteiro Acumulei em mim um milhão difuso de vidas, Mas nunca encontrei parceiro. Por isso, se vieres, não te sentes a meu lado, nem fales, Só quero dormir, uma morte que seja Uma coisa que me não rale nem com que tu te rales — Que ninguém deseja nem não deseja. Pus o meu Deus no prego. Embrulhei em papel pardo As esperanças e ambições que tive, E hoje sou apenas um suicídio tardo, Um desejo de dormir que ainda vive. Mas dormir a valer, sem dignificação nenhuma, Como um barco abandonado, Que naufraga sozinho entre as trevas e a bruma Sem se lhe saber o passado. E o comandante do navio que segue deveras Entrevê na distância do mar O fim do último representante das galeras, Que não sabia nadar. 28-8-1927 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 78. Sorrow came and wept By my side. Slow and light she stept As I walked towards God By my side. But I can never find that Great Abode, And there is darkness in Descried. 5-5-1915 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 464. Tens uma salva de prata Tens uma salva de prata Onde pões os alfinetes... Mas não tem salva nem prata Aquilo que tu prometes. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 44. 1. Em como não há responsáveis por esta guerra. 2. Em como esta guerra não é nem uma guerra de culturas, nem uma guerra política, nem uma guerra comercial. 3. Em como esta guerra é a continuação do estado anterior da política europeia, e só a não viam os estadistas que não mereciam sê-lo. 4. Em como esta guerra, não por ser uma guerra, mas por ser a espécie de guerra que é, implica a falência do cristianismo. 5. Os precedentes morais da guerra, e a decadência da civilização ocidental. 6. O Regresso dos Deuses. 7. Última carta. (a) Demonstração em como a teoria alemã da guerra não é senão a teoria da guerra como guerra e não da guerra como paz. Onde estão os verdadeiros erros dos alemães: (1) em não ter levado mais longe a sua aplicação da teoria, e (2) em não ter condimentado com diplomacia a sua força, entrando na espinhosa tarefa dos torpedeamentos de navios neutrais. Não me queixo das crueldades praticadas sobre não-combatentes, mas das disparatadas peripécias com neutrais. (b) Demonstração em como as crueldades alemãs não são tantas como se indica, ??? (c) Demonstração em como os outros países em beligerância com os Impérios Centrais são tão cruéis como os soldados d'estes, quando a ocasião se proporciona. (d) Os casos do Transvaal, a França na África. (e) A diplomacia dos aliados e a sua analogia com o lado antipático da diplomacia alemã; a diferença está apenas na sua maior habilidade. (f) O pouco escrúpulo que as grandes nações aliadas tiveram sempre para com os chamados direitos das nações pequenas, e a pouca garantia que uma vitória anglo-franco-russa trará para todas as nações pequenas, excepto as que imediatamente entrassem na guerra, e mesmo para essas... (g) see other notes. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 158. «O Templo de Jano». «À tua porta está lama. «À tua porta está lama. Meu amor, quem na faria?» É assim a velha cantiga Que como tu principia. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 106. Uma boneca de trapos Uma boneca de trapos Não se parte se cair. Fizeste-me a alma em farrapos... Bem: não se pode partir. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 78. Durmo. Regresso ou espero? Não sei. Um outro flui Entre o que sou e o que quero Entre o que sou e o que fui. 19-10-1927 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 80. The sky is a great turquoise shining glee, All the earth is gathered up in the blue sea Ev'n the green fields tend thereto in their joy, The whole day playeth like a happy boy Among the dales the hours build with their glee. How happy, had I no cares, would I be! But there is too much sorrow in mere seeing The feminine disease of consciousness Eats like a worm into the source of being. The very thought I live gives me distress. My heart is felt by me like some heavy place. 15-7-1915 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 464. I purpose to examine the problem of celebrity, both occasional and permanent, to investigate in what conditions either sort has happened to men, and to foresee, as far as can be, in what conditions either sort is likely to happen in the future. Celebrity is the acceptance of any man or of any group of men as in some way valuable to mankind. To investigate the problem we shall have to define celebrity. We shall also have to define mankind. 1) Celebrity may be of things or of men. There are celebrated crimes, battles, novels; there are celebrated authors of these. We shall not concern ourselves with the things, but with the men. It is the conditions that produce celebrity that interest us. 2) Celebrity may be incidental or fundamental. A man who is killed in a particularly mysterious manner becomes celebrated by his death. If the case is important, he may be immortal through history as an interesting corpse. We are not interested in incidental but in fundamental celebrity, however unjust it may happen to be. 3) Celebrity may be artificial and natural. A king is naturally famous. He is born into that with the kingdom. We shall not concern ourselves with this sort of celebrity. It varies with manners and customs, with institutions. We shall examine only the problem of artificial celebrity. 4) Celebrity may be good or bad, the second sort being generally called notoriety. The shifting ideas of good and evil sometimes complicate the problem; they are even superimposed in some cases. Where one sees a murderer, another will see a bold man. Where one sees a martyr, another will see a fool. The difficulty of the point has been given, with no intention of giving it, in Proudhon’s famous phrase: “After the tyrants, I know nothing more hateful than the martyrs”. 1925? “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 179. Bebezinho: Tens mais que milhares — tens milhões — de razões para estares zangada, irritada, ofendida comigo. Mas a culpa mal tem sido minha; tem sido daquele Destino que acaba de me condenar o cérebro, não direi definitivamente, mas, pelo menos, a um estado que exige um tratamento cuidado, como não sei se poderei ter. Tenciono (sem aplicar agora o célebre decreto de 11 de Maio) ir para uma casa de saúde para o mês que vem, para ver se encontro ali um certo tratamento que me permita resistir à onda negra que me está caindo sobre o espírito. Não sei o resultado do tratamento — isto é, não antevejo bem qual possa ser. Nunca esperes por mim; se te aparecer será de manhã, quando vais para o escritório, no Poço Novo. Não te preocupes. Afinal o que foi? Trocaram-me pelo Álvaro de Campos! Sempre muito teu Fernando 15/10/1920 15-10-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 35. A. O Império Alemão a) Eliminação dos factores estranhos ao problema. Chap. I. b) Análise do problema.                                          Chap. II. c) Diagnóstico diferencial.                                       Chap. III. B. A Europa não-alemã. a) considerações preliminares: (1) Civilização; (2) Grupos civilizacionais; (3) nações. b) Determinação das linhas gerais da civilização. c) Redução em grupos civilizacionais. C. A Nova Europa a) Resultados certos do conflito — (1) eliminação dos resultados incertos; (2) afastamento dos resultados pouco importantes ou laterais; (3) determinação e estudo dos resultados certos. b) (...) s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 159. «O Templo de Jano». Menina de saia preta Menina de saia preta E de blusa de outra cor, Que é feito daquela seta Que atirei ao meu amor? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 106. O que sinto e o que penso O que sinto e o que penso De ti é bem e é mal. É como quando uma xícara Tem o pires desigual. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 78. O heavy day that comes with so much glee Out of the East. It turquoises the silence of the sea And makes a feast Of blueness of the waves that shiver and flee. O heavy day because my love hath gone And taken away His white arms and his lips like poppies grown Athwart that day When I first saw him and felt my heart moan. My hands are stretched towards his coming, and He cometh not. He seems a woman and his gesturing hand Too oft bath wrought Dreams of strange vice with him through my heart's sand. He is scarce more than a child. His body is white, His arms lie bare Across my neck and cling like a delight Of which my share Is painful like a far sail in the night. Oh, love, return! All this is dreams of thee Return and wake My trembling frame to that vile misery That love doth take For his body when the lovers are such as we. Golden‑haired boy that cannot love me so As I love him, Look, life is short, our lips fade... Ay, I know I am ugly and dim But love a little or seem... Love me and go Yet love ere going, and then let me dream On what was real while life fades and goes slow... 15-7-1915 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 466. There are only two types of constant mood with which life is worth living — with the noble joy of a religion, or with the noble sorrow of having lost one. The rest is vegetation, and only a psychological botany can take interest in such diluted mankind (so general a fungus). * Yet it is admissible to think that there is one sort of greatness in Erostratus — a greatness which he does not share with lesser crashers into fame. He, a Greek, may be conceived as having that delicate perception and calm delirium of beauty which distinguishes still the memory of his giant clan. He may therefore be conceived as burning Diana’s temple in an ecstasy of sorrow, part of him being burnt in the fury of his wrong endeavour. We may fitly conceive him as having overcome the toils of a remorse of the future, and facing a horror within himself for the stalwartness of fame. His act may be compared, in a way, to that terrible element of the initiation of the Templars, who, being first proven absolute believers in Christ — both as Christians, and in the general tradition of the Church, and as occult Gnostics and therefore in the great particular tradition of Christianity, had to spit upon the Crucifix in their initiation. The act may seem no more than humanly revolting from a modern standpoint, for we are not believers, and, when, since the romantics, we defy God and hell, defy things which for us are dead and thus send challenges to corpses. But no human courage, in any field or sea where men are brave with mere daring, can compare with the horror of that initiation. The God they spat upon was the holy substance of Redemption. They looked into hell when their mouths watered with the necessary blasphemy. Thus we may conceive Erostratus, save that the stress of the love of beauty is a lesser thing than the conviction of a sentimental truth. Thus let us conceive him, that we may justify the remembrance. For if Erostratus did this, he comes at once into the company of all men who have become great by the power of their individuality. He makes that sacrifice of feeling, of passion, of (...) which distinguishes the path to immortality. He suffers, that his name may enjoy, like Christ who dies as the man, that he may prove himself the Word. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 180. Ophelinha: Agradeço a sua carta. Ela trouxe-me pena e alívio ao mesmo tempo. Pena, porque estas coisas fazem sempre pena; alívio, porque, na verdade, a única solução é essa — o não prolongarmos mais uma situação que não tem já a justificação do amor, nem de uma parte nem de outra. Da minha, ao menos, fica uma estima profunda, uma amizade inalterável. Não me nega a Ophelinha outro tanto, não é verdade? Nem a Ophelinha, nem eu, temos culpa nisto. Só o Destino terá culpa, se o Destino fosse gente, a quem culpas se atribuíssem. O Tempo, que envelhece as faces e os cabelos, envelhece também, mas mais depressa ainda, as afeições violentas. A maioria da gente, porque é estúpida, consegue não dar por isso, e julga que ainda ama porque contraiu o hábito de se sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz no mundo. As criaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade dessa ilusão, porque nem podem crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por ele a estima, ou a gratidão, que ele deixou. Estas coisas fazem sofrer, mas o sofrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como não hão-de passar o amor e a dor, e todas as mais coisas, que não são mais que partes da vida? Na sua carta é injusta para comigo, mas compreendo e desculpo; decerto a escreveu com irritação, talvez mesmo com mágoa, mas, a maioria da gente — homens ou mulheres — escreveria, no seu caso, num tom ainda mais acerbo, e em termos ainda mais injustos. Mas a Ophelinha tem um feitio óptimo, e mesmo a sua irritação não consegue ter maldade. Quando casar, se não tiver a felicidade que merece, por certo que não será sua a culpa. Quanto a mim... O amor passou. Mas conservo-lhe uma afeição inalterável, e não esquecerei nunca — nunca, creia — nem a sua figurinha engraçada e os seus modos de pequenina, nem a sua ternura, a sua dedicação, a sua índole amorável. Pode ser que me engane, e que estas qualidades, que lhe atribuo, fossem uma ilusão minha; mas nem creio que fossem, nem, a terem sido, seria desprimor para mim que lhas atribuísse. Não sei o que quer que lhe devolva — cartas ou que mais. Eu preferia não lhe devolver nada, e conservar as suas cartinhas como memória viva de um passado morto, como todos os passados; como alguma coisa de comovedor numa vida, como a minha, em que o progresso nos anos é par do progresso na infelicidade e na desilusão. Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do seu amor antigo e inútil. Que isto de «outras afeições» e de «outros caminhos» é consigo, Ophelinha, e não comigo. O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ophelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam. Não é necessário que compreenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha. Fernando 29/XI/1920 29-11-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 36. 1. Chapter studying the evolution of modern civilization… (sketch of chapters) 1. Chapter studying the evolution of modern civilization and leading up to the comprehension of the forces in conflict in the present war. 2. Chapter studying Germany is a product of middle-European situation and defensiveness as a primary state-forming element. 3. The results of the war, such as can be even now foreseen: the great loss of man-power, the renascence of tyranny. 4. A study of the civilizational groups constituting Europe and of the secondary results — the beneficial ones — which will (or may) arise from the German War. 5. The Reformation of Paganism. The forces that have driven Germany to put itself from its very formation, into opposition with the rest of Europe, have, of course, though they created a defensively formed Germany, yet created a Germany, a national spirit. Once created, this German spirit is a positive factor, though its formation on defensive lines, makes its positive characteristics be expressed through the negative ones on which the state is built. One thing is the mental result of the formation of a German nation; another thing are the conditions in which that nation has been formed. Therefore, the demonstration which we have just completed, as to the purely negative character of the central theories of the German governing classes, has not exhausted the matter; we have to see, after that, what other elements have not been reckoned within the enumeration we have made. The German nation would fatally have to build up a theory of social life conformable to the defensive nature of its organisation; but many theories are possible on that basis. Many shades of theory are possible within that line. If one and not another has been followed, the reason is that the typical German mind is at the back of that. We strike bottom here. The German mental attitude is made up of three elements: (1) The defensively-formed nature of its state; (2) the theories it has built up quâ a state opposed to other European states; (3) the theories it has built up as a German state, as an organism composed of German minds. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 160. «O Templo de Jano». Lavas a roupa na selha Lavas a roupa na selha Com um vagar apressado, E o brinco na tua orelha Acompanha o teu cuidado. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 107. LE MIGNON Let them speak ill of me. I do not care Why shouldst thou care that fairer art than I? My lips so oft have rested on thy hair, So oft on thy lips, and so oft On thy white arms that yet pretend to lie On my dreams cushions like a vague thing soft... Let them speak. Life is sweet if thy lips mean Life. Love is sweet if thou art love. The scorners cannot know what kisses screen Our throbbing heart from heart nor prove That full possession our mad love can scene With perverse actions like an empire's end That sinks among the galleys and doth blend Its sunset with the landscape's emerald green. Let them speak. Put thy hand within my hand And let us love as maid and boy are said To love. But we are none and love is red On our hot souls thrill and understand. Oh, to thy bed! Oh to thy bed, fairer than maidens' couches And curtained over with strange care for strangeness, Let's to thy bed and kiss naked while touches Selected from our hotter dreams transcend Lust with thought lust acted upon our frames. The magic misery of our wedded names Shall light the future with impassioned strangeness. Antinous! 1915 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 468. Except when it is the product of chance, or of such purety external circumstances as may be put under the name of chance, celebrity is the result of the application of some sort of special skill, or of intelligence, and of the recognition by others of the special skill or the intelligence which is applied. By special skill anything is here meant which distinguishes the individual from his natural peers: great daring, great violence, great subtlety are special skills in this particular sense, and there is no more essential honour in being a hero than in being a genius, the act or acts which prove the hero or the genius being equally a product of temperament, which is inborn, of education and environment, which no man gives himself, of opportunity and occasion, which very few men can choose or create, if indeed any man does choose or create as an efficient cause. Men may be divided into three portions or lots; and the division may fitly follow the traditional division of the mind — intellect, emotion or feeling, and will. There are men of pure intellect, and these are philosophers and scientists; there are men of pure feeling, and these are mystics and prophets, the passive founders of religions or the mediums of received religious systems; there are men of pure will, and these are statesmen and warriors, leaders of industry as such or of commerce as nothing but commerce. There are three mixed types: men of intellect and feeling, and these are the artists of all kinds; men of intellect and will, and these are the higher statesmen and empire and nation builders; men of feeling and will, and these are the active founders and disseminators of religions (spiritual or material), the believers in the Woman Clothed with the Sun and the believers in democracy. Intelligence presents three high forms, which we can conveniently call genius, talent and wit, taking the last word in the broader sense of bright and active intelligence, of the kind though not of the degree of common intelligence, and not in the particular sense of the capacity for making jokes. These three types of intelligence are not continuous with one another; they are not grades or degrees of one single faculty or function. Genius is abstract intelligence individualised — the concrete embodiment, temperamental and (...), of an abstract faculty. Talent is concrete intelligence made abstract; it is not bound, like genius, to the individual, except in so far as everything that happens in the individual is bound to him because his. Wit is concrete intelligence individualised, has the show and the gestures of genius. That is why it is so easy to mistake great wit for positive genius. Talent, on the other hand, is between both and opposed by nature to both. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 182. A CASA BRANCA NAU PRETA Estou reclinado na poltrona, é tarde, o Verão apagou-se... Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu cérebro... Não existe manhã para o meu torpor nesta hora... Ontem foi um mau sonho que alguém teve por mim... Há uma interrupção lateral na minha consciência... Continuam encostadas as portas da janela desta tarde Apesar de as janelas estarem abertas de par em par... Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo, E a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma... Quem dera que houvesse Um terceiro estado prà alma, se ela tiver só dois... Um quarto estado prà alma, se são três os que ela tem... A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar Dói-me por detrás das costas da minha consciência de sentir... As naus seguiram, Seguiram viagem não sei em que dia escondido, E a rota que deviam seguir estava escrita nos ritmos, Os ritmos perdidos das canções mortas do marinheiro de sonho... Árvores paradas da quinta, vistas através da janela, Árvores estranhas a mim a um ponto inconcebível à consciência de as estar vendo Árvores iguais todas a não serem mais que eu vê-las, Não poder eu fazer qualquer coisa género haver árvores que deixasse de doer, Não poder eu coexistir para o lado de lá com estar-vos vendo do lado de cá, E poder levantar-me desta poltrona deixando os sonhos no chão... Que sonhos?... Eu não sei se sonhei... Que naus partiram, para onde? Tive essa impressão sem nexo porque no quadro fronteiro Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim, E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta, Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta, E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida... Quem pôs as formas das árvores dentro da existência das árvores? Quem deu frondoso a arvoredos, e me deixou por verdecer? Onde tenho o meu pensamento que me dói estar sem ele, Sentir sem auxílio de poder para quando quiser, e o mar alto E a última viagem, sempre para lá, das naus a subir... Não há substância de pensamento na matéria de alma com que penso... Há só janelas abertas de par em par encostadas por causa do calor que já não faz, E o quintal cheio de luz sem luz agora ainda-agora, e eu. Na vidraça aberta, fronteira ao ângulo com que o meu olhar a colhe A casa branca distante onde mora... Fecho o olhar... E os meus olhos fitos na casa branca sem a ver São outros olhos vendo sem estar fitos nela a nau que se afasta, E eu, parado, mole, adormecido, Tenho o mar embalando-me e sofro... Aos próprios palácios distantes a nau que penso não leva. As escadas dando sobre o mar inatingível ela não alberga. Aos jardins maravilhosos nas ilhas inexplícitas não deixa. Tudo perde o sentido com que o abrigo em meu pórtico E o mar entra por os meus olhos o pórtico cessando. Caia a noite, não caia a noite, que importa a candeia Por acender nas casas que não vejo na encosta e eu lá? Húmida sombra nos sons do tanque nocturna sem lua, as rãs rangem Coaxar tarde no vale, porque tudo é vale onde o som dói. Milagre do aparecimento da Senhora das Angústias aos loucos, Maravilha do enegrecimento do punhal tirado para os actos, Os olhos fechados, a cabeça pendida contra a coluna certa, E o mundo para além dos vitrais paisagem sem ruínas... A casa branca nau preta... Felicidade na Austrália... 11-10-1916 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 241. Ophelinha: Gostei do coração da sua carta, e realmente não vejo que a fotografia de qualquer meliante, ainda que esse meliante seja o irmão gémeo que não tenho, forme motivo para agradecimento. Então uma sombra bêbada ocupa lugar nas lembranças? Ao meu exílio, que sou eu mesmo, a sua carta chegou como uma alegria lá de casa, e sou eu que tenho que agradecer, pequenina. Já agora uso a ocasião e peço-lhe desculpa de três coisas, que são a mesma coisa, e de que não tive a culpa. Por três vezes a encontrei e a não cumprimentei, porque a não vi bem ou, antes, a tempo. Uma vez foi já há muito, na Rua do Ouro e à noite; ia a Ophelinha com um rapaz que supus seu noivo, ou namorado, mas realmente não sei se era o que era justo que fosse. As duas outras vezes foram recentes, e no carro em que ambos seguíamos no sentido que acaba na Estrela. Vi-a, uma das vezes, só de soslaio, e os desgraçados que usam óculos têm o soslaio imperfeito. Outra coisa... Não, não é nada, boca doce... Fernando 11/9/1929 11-9-1929 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 37. Preface. Neither is it absurd that the god of war should be taken for the god of impartiality. Impartiality is more positively a state of warfare (an attitude of warfare) than any sectarian position is. To be impartial is to have at least two enemies, to have as many enemies as there are sectarian opinions. It is beside the point, at present, that impartiality is not possible. The intention is possible, and it is the intention that constitutes the attitude. The popular idea of war is vitiated radically by the abrupt vision of war as something opposed to peace. Really, there is never any peace: polemos mater pantôn. The thing called war is only a form of war — the more primitive form. Antagonism grows stronger and stronger till it reaches that depth where it must be physical, like the enmity of two men which passes from antipathy to discussion and from discussion subsides into blows. This may seem trite; but it is trite things that are ever overlooked, in the real sense that people look over them at something else that does not matter. This concept once really present in our minds, it will be clear that the terms in which any war is to be conceived, that, above all, the notion of its causes and of its consequences, is to be a far different thing from the sterile discussion of diplomatic documents and imperialistic ambitions which has hitherto been the chief basis of misunderstanding the War now current. It is as a nation representative of the modern tendency to anti-individualism that Germany is essentially the Enemy. It is as a representative of a force which is as really within England as within Germany itself that Germany is dangerous. Germany is warring on the European world long since, and even now, from within nations outside Germany, from, above all, the very nations now most interestedly involved in war with the Empire of the Hohenzollerns. The invasion of France by Germany began long before 1914, that of England, not realised save by a few airships, began long ago. Not, perhaps, since the philosophers and the romanticists, who cannot be said to have done harm to other nations — because Germany was then another —, but really since them, because they did indubitably prepare the ground for the reception of Germany ideas, they did indubitably give European weight to German influences. But from the time that German state-methods and the German philosophy based on such methods, invaded the sphere of theorists (political theorists) and political triflers with society did Germany begin its great attack on civilization. That such an attack on civilization should culminate in an armed attack is in the logic and expectedness of things. The vast spread of theories proclaming as necessary or as beneficent, or as in any way a thing to be desired, the intervention of the state or of any form of the community or collectivity in the life of the individual, is the first invasion of Germany into the territories of the older-cultured European nations. The enactment of laws gradually more and more mothering the individual, more and more regulating his actions is another act of submission to that influence, to that current, which has culminated in the invasion of Belgium, in submarine warfare and in the deportations from invaded territories. Wherever the liberty of the individual is interfered with, Germany has an outpost. This does not mean that all those theories are German which produce the statesmen who produce them. (...) But this does mean that the modern current which tends to suppress the individual from independent value has its chief representative in Germany, its most frank expression in German methods of organisation, in peace or war, its most radical hold on the mind of the peoples forming the German Empire. Of this there can be no doubt, nor any objection possible to it. No victory shall have been won if the victory is not over the German spirit. How can any nation hope to defeat Germany if it accepts that spirit of action and policy which Germany essentially represents? How can any nation hope to defeat Germany if it does all it can to maintain Germany as what it is to-day and whence it draws its force — the country most representative of the tendencies of present-day civilization? How can a nation be defeated if it is placed on a throne? if it is made representative above all other nations? The moral victory of Germany is already complete. The fact that France has been knocked into a revival of conservative and reactionary influences owing to the war, the fact that England has been forced to establish military Conscription, the numerous and diverse interferences with the individual, in all ways and matters, which the war has absolutely necessitated, are tributes to the triumph of the Kaiser's people. It is easy to object that these are necessities of the moment, which, the war once past, will pass also. Like all easy objections it is false through and through. To believe that these measures are mere passing acts we have to ignore the fact that they are in accordance with all the spirit of law-making which preceded the war, and are therefore in agreement with the spirit and direction of the times; the fact that this war will leave war behind, in one way or another, and that these war measures will still be war-measures in the twilight peace to succeed this physical struggle; that the example of organisation, of strength, given by the German Empire will inevitably stamp itself, as it is already doing, upon the intentions of statesmen and upon the theories of the leaders of what low people call opinion. These measures are absolutely necessitated by conditions of modern life and social organisation? This may be admitted. But that does not make them salutary or just. Making a virtue of necessity never meant that necessity was a virtue, before it was made one. If these measures are absolutely necessary, and if they are, at the same time, bad, the conclusion is a simple one — our civilization is in decay. The man who can live only by virtue of drugs, or walk only by artifices is evidently senile or decrepit. There is no other conclusion. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 161. «O Templo de Jano». Duas vezes te falei Duas vezes te falei De que te iria falar. Quatro vezes te encontrei Sem palavra p’ra te dar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 107. Levas a mão ao cabelo Levas a mão ao cabelo Num gesto de quem não crê. Mas eu não te disse nada. Duvidas de mim? Porquê? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 79. SECOND SIGHT Whene'er thou dost undo Thy dark, strange hair before the wind And the wind takes it up and makes it woo Tumult and violence in the way it sweeps Along the air, mingling, unmingling, undefined In the snake‑like madness it keeps. Then I do know That somewhere whence dreams come And passions go, Somewhere in that world contrary to this, Yet landscaped, peopled as this is, In a great southern sea There is a storm and a hurled wreck On rising rocks that cannot reck For human misery. The two things are but one. Thy floating hair is that great ship undone In a tossed, turbulent, dashed ocean. Neither precedeth nor doth cause the other Nor are the two as brother and brother, But absolutely one, samely the same, They have somehow an equal name Where speech is of the essence of what is. A real sight, like God's, should see the kiss Of the wind through thy hair and the far storm One thing, - ­yet two things because we see two When we conceive them one, the double form Coming to oneness in what we construe. Therefore I grieve when thou letst thy hair take The wind upon its long, thin, changing fingers, For that sight of me that translates that to The sterner meaning in what world I know Only through what in me is not here awake, - That sight of that mad wreck visibly lingers And does in my imagination ache. Alas! all things are linked, and we know not Half the contents of our each casual thought. We never see save one little dreamed bit Of each feeling we have; we pass through it Like rapid travellers that scarce can see What they pass by and what they see see erringly. What is the meaning of my writing this? Nothing, save that this is, I know not why, something I know and must Utter, the purpose of it being with That secret Being that made my body of dust Bear my soul's ignored presence, and that breath Of life that survives my each moment's death. 4-11-1915 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 468. 1ª Publ. in «Oito Poemas Ingleses Inéditos». Georg Rudolf Lind. in Estudos sobre Fernando Pessoa . Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981. Pequenina: Gostei muito da sua carta, mas gostei ainda mais do que veio antes da carta, que foi a sua própria pessoa. Enfim, a viagem entre o Rossio e a Estrela, que não costuma ser uma coisa muito transatlântica de beleza, foi ontem duas vezes agradável, salvo no fim da segunda vez, porque, por ontem, acabou ali. Se tivesse sido, em vez de transatlântica, transvidiana (curiosa e inexplicável expressão!) teria sido preferível até ao preferível a tudo que foi. É exactamente isto que me pergunta, e a que respondo. Não sei escrever cartas grandes. Escrevo tanto por obrigação e por maldição, que chego a ter horror a escrever para qualquer fim útil ou agradável. Prefiro falar, porque, para falar é preciso estar-se presente — ambos presentes, salvo nesse caso infame do telefone, onde há vozes sem caras. Se um dia qualquer, por um daqueles lapsos em que é sempre agradável cair de propósito, nos encontrássemos e tomássemos por engano o carro do Lumiar ou do Poço do Bispo (35 minutos), haveria mais tempo para estarmos encontrando-nos ao acaso. No Domingo, ou seja amanhã, telefono-lhe, mas não creio que passe aí pela Praça do dramaturgo. Não é que não possa, mas é que não acho graça a quarenta e um metros de distância (da esquina da Avenida à janela da sua casa). Confio que possa vê-la e falar-lhe. E se eu lhe telefonasse hoje mesmo? Talvez telefone. Pronto. Quase duas páginas de maçada. Mas ainda ganha... A maçada será sua, mas a tristeza fica comigo. Estas palavras são de um indivíduo, que, aparte ser P pessoa, se chama preliminarmente Fernando 14/9/1929 14-9-1929 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 38. A nossa civilização data da Renascença, atravessa a época da Revolução Francesa e o período «científico moderno». Na sua marcha foi adquirindo vários preconceitos [,] cada grupo característico de cada época que atravessou. Da Renascença datam principalmente os preconceitos propriamente políticos (a Ren[ascenç]a foi a época da segura intuição política — Machiavelli o pensa). São 3: o pre[conceito] religioso (que vem da idade média e envolve o do Império (?); o pre[conceito] militar (que modernamente é o da disciplina); e o pre[conceito] economístico (proveniente da intensa vida económica moderna). Depois, há os preconceitos humanitários que datam da Revolução Francesa: — são 3: (1) o igualitário, que dá homem como igual a homem e com os mesmos direitos; (2) o feminista, que dá a mulher com todos os mesmos direitos que o homem; (3) o internacional, que dá cada nação como tendo os mesmos direitos que outra. Depois, há os prec[onceitos] que provêm da ciência: (1) o biológico; (2) o psicológico; (3) o sociológico. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 162. «O Templo de Jano». Compreender um ao outro Compreender um ao outro É um jogo complicado, Pois quem engana não sabe Se não estava enganado. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 79. Requerimento em 30 linhas Fernando Pessoa, solteiro, maior, abreviado, morador onde Deus é servido conceder-lhe que more, em companhia de diversas aranhas, moscas, mosquitos e outros elementos auxiliares do bom estado das casas e dos sonos; tendo recebido indicação — aliás apenas telefónica — de que poderá ser tratado como [ 10 linhas ] gente a partir de uma data a fixar, e de que o referido tratamento de como se fosse gente seria constituído por, não um beijo, mas a simples promessa dele, a ser adiado indefinidamente, e até ele Fernando Pessoa provar que (1) tem 8 meses de idade, (2) é bonito, (3) existe, (4) agrada à entidade encarregada da distribuição da [ 20 linhas ] mercadoria, e (5) não se suicida antes do assunto, como era sua obrigação natural; requer, para tranquilidade da pessoa encarregada da distribuição da mercadoria, que lhe seja passado atestado em como (1) não tem 8 meses de idade, (2) é um estafermo, (3) nem mesmo existe, (4) é desprezado [ 30 linhas ] pela entidade distribuidora, (5) suicidou-se. ______________________ Acabam as 30 linhas. ______________________ Aqui devia pôr-se «Espera deferimento», mas não espera nada o Fernando ABEL. 18.9.29 18-9-1929 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 39. Por trás daquela janela Cuja cortina não muda Coloco a visão daquela Que a alma em si mesma estuda No desejo que a revela. Não tenho falta de amor. Quem me queira não me falta. Mas teria outro sabor Se isso fosse interior Àquela janela alta. Porquê? Se eu soubesse, tinha Tudo o que desejo ter. Amei outrora a Rainha, E há sempre na alma minha Um trono por preencher. Sempre que posso sonhar, Sempre que não vejo, ponho O trono nesse lugar; Além da cortina é o lar, Além da janela o sonho. Assim, passando, entreteço O artifício do caminho E um pouco de mim me esqueço Pois mais nada à vida peço Do que ser o seu vizinho. 25-12-1930 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 129. REPOSITÓRIO DE CONTRADITAS. 1. A ignorância é que é a inocência. 2. Não-existência do ser-casto. 3. O dogma da não-existência de Deus. A existência de Deus não é racionalmente demonstrável. Isso pode ser por ser falsa. Pode também ser por ser axiomática. É racionalmente indemonstrável a existência das minhas botas. Vendo bem, é absurdo que elas [tenham] existência. O facto de elas não serem naturais torna-as ilógicas. O facto é que toda a realidade é axiomática e irracional. O real é nos dado [.] O racional descobrimos nós; e o que descobrimos não é o que nos é dado; por isso o racional nunca nos parece real. Nenhum argumento provando a existência de Deus vale alguma coisa, como nada valem também os argumentos provando a existência do universo; (...) A suposição de que a vontade da maioria não se manifesta envolve a contradição de existir uma vontade que não se manifesta, quando o característico da vontade é manifestar-se. A hipótese de que em determinado país, regido, por ex[emplo], por instituições rep[ublican]as, a maioria, se estivesse livre de se declarar, se declararia monárquica, é falsa; não há nunca essa liberdade de se declarar. Em nenhuma sociedade ela existe. Se é impossível, não se punha a hipótese. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 163. «O Templo de Jano». À roda dos dedos juntos À roda dos dedos juntos Enrolaste a fita a rir. Corações não são assuntos E falar não é sentir. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 79. It is a common occurrence in the life of religions that gods are often born out of an interpretation of the figured presences of other gods. Thus a god presented with arrows, being no more than Apolle, whose shafts of life pursue the rolling earth, may by a far tribe, to whose eyes a statue might come, be taken for a god of the chase, or a god of war, the symbolic arrows becoming actual in the new interpretation of them. It is my spontaneous intention to use this attitude of primitive ingenuousness with a purely literary art, and to make the god Janus bear, for my personal purpose, a meaning to be drawn, no ways out of his divineness but rather out of the effigies thereof. The god Janus faces two ways and this, which the ancients no doubt meant should be the image and presentation of the severing and scission that war is, I shall recompose to a meaning personal to my purpose. I shall use that fanciful meaning in this work and take the two faces of the god to be a symbol of that impartiality with which I hope, before the Gods, to approach the subject of these essays. It will be claimed that no two things so much differ as the divine meaning of the God and the literary intention I read in his figuring; but that is no matter, for if that thing I claim to have, and in the name of which I image the god thus, is a reality in these pages, justification shall be ample to all of the slight damage done to the antique purity of the fable, and to the human logic of the divine nature. I intend to examine the present war with entirely neutral eyes, looking on the events and the workings that are showed on this visible plane with a heart foregiven to no side, a mind sold to no compassion nor to no admiration, single and simple in that pursuit of truth in which alone, in these evil Christian and humanitarian ages, there can be salvation for that inner discipline which was the pride of the classics and the heritage of the ancient world. In throwing open, therefore, the doors of my Temple of Janus, I do but declare war upon prejudice and passion, setting upon the two horizons of the hour to the double vision of the impartial god. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 164. «O Templo de Jano». Chamam-te boa, e o sentido Chamam-te boa, e o sentido Não é bem o que eu supunha. Boa não é apelido: É, quando muito, alcunha. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 79. Bóiam farrapos de sombra Em torno ao que não sei ser É todo um céu que se escombra Sem me o deixar entrever. O mistério das alturas Desfaz-se em ritmos sem forma Nas desregradas negruras Com que o ar se treva torna. Mas em tudo isto, que faz O universo um ser desfeito, Guardei, como a minha paz, A esperança, que a dor me traz, Apertada contra o peito. 3-4-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 99. Os deuses, não os reis, são os tiranos. É a lei do Fado a única que oprime. Pobre criança de maduros anos, Que pensas que há revolta que redime! Enquanto pese, e sempre pesará, Sobre o homem a serva condição De súbdito do Fado. 27-5-1922 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 43. ou Ricardo Reis? Ah, já está tudo lido, Mesmo o que falta ler! Sonho, e ao meu ouvido Que música vem ter? Se escuto, nenhuma. Se não ouço ao luar Uma voz que é bruma Entra em meu sonhar. E esta é a voz que canta Se não sei ouvir... Tudo em mim se encanta E esquece sentir. O que a voz canta Para sempre agora Na alma me fica Se a alma me ignora. Sinto, quero, sei-me Só há ter perdido — E o eco onde sonhei-me Esquece do meu ouvido. 7-9-1922 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 44. O dualismo é basilar na ciência; na metafísica é‑o o monismo. O ponto de partida da ciência é o dualismo sujeito‑objecto, porque existe. O ponto de partida da metafísica é o monismo dualístico sujeito‑objecto, porque não pode ser. 1914? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 21. O tempo em si contém a possibilidade de todas as durações; o espaço em si a possibilidade de todos os tamanhos, de todas as extensões; a forma em si a possibilidade tanto do círculo como do triângulo, a possibilidade de todas as formas. Assim como o tempo-em-si, isto é, a eternidade, é inconcebível, da mesma maneira a forma em si é impensável . Só compreendemos o tempo quando ele se materializa, se fenomeniza, em uma duração qualquer; só compreendemos a forma quando ela se determina como, por exemplo num círculo ou num triângulo. (Para que a forma seja no espaço é necessário que à nossa concepção de círculo estivesse ligado um tamanho determinado). Tudo isto quer dizer simplesmente uma coisa: que o tempo, a forma, etc., só se tornam perceptíveis quando encontram um objecto. Ora, para isto assim ser, é lógico que o objecto em si não conheça o tempo e o espaço, seja extemporâneo e imenso, anterior a tempo e espaço, se assim se pode falar. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 43. The basis of acting is misrepresentation. The art of the actor consists in employing the author’s drama in showing his acting ability upon it. The piece is like a bar where on the actor shows his gymnastic abilities. He is only limited by the necessary conditions of a bar: he can do only a limited number of things with it, but those he can do in a thousand individual ways. Acting, again, has all the attraction of forgery. We all love a forger. It is a very human and a quite instinctive sentiment. We all adore trickery and counterfeit. Acting unites and intensifies, through the material and vital character of its manifestations, all the low instincts of the artistic instinct — the riddle-instinct, the trapeze-instinct, the prostitute-instinct. It is popular and appreciated for these reasons, or, rather, for this reason. The artist’s thirst for glory is made flesh in the actor’s thirst for applause. All appearance before people is low. All assemblies are crowds, and if not sweaty in body, at least sweaty in emotions. All coarse minds adore speech. To be wordy is itself vulgar. The only thing that renders wordiness interesting is profanity and obscenity, for these things are “in character” therewith. Wordiness without dirty words and coarse phrases is feminine and therefore vulgar. 9-3-1914 Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 114. Por cima da saia azul Por cima da saia azul Há uma blusa encarnada, E por cima disso os olhos Que nunca me dizem nada. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 100. AS CONDIÇÕES DO PRESTÍGIO Descreveu Carlyle a humanidade como sendo um vaso cheio de cobras, cada uma d'elas tentando erguer a cabeça acima das de todas as outras. A frase, aparentemente simples, assenta contudo em uma intuição que conviria que os psicólogos e os sociólogos meditassem de perto — o amor ao prestígio como grande anseio humano, a vaidade como qualidade primária do homem social. Os redactores de projectos igualitários, os sonhadores de organizações sociais salvadoras — últimos crentes no milagre — fariam bem em meditar, podendo, este princípio, tirando d'ele, sabendo, as suas necessárias conclusões. Não é mais a vaidade que a confiança no efeito do valor próprio. A confiança só no valor próprio, que não no efeito d'ele, é outra coisa, e chama-se orgulho. Podem coexistir, podem não coexistir. Tão contraditória é a aparência da condição humana, que, podemos confiar no efeito de nosso valor, sem confiar nesse valor mesmo. É que na vida do espírito a acção precede sempre a consciência; movemo-nos antes que o queiramos. Seja como for, a importância social da vaidade é implícita na definição, (que demos) d'ela. Ao passo que a confiança no valor próprio, porém não no efeito d'ele, — isto é, na aceitação d'ele por outrem — intimida e paralisa o esforço, pelo receio da desilusão e da dificuldade; a confiança no efeito d'esse valor necessariamente estimula para a acção. Há por isso um sinal distintivo, pelo qual se diferençam os orgulhosos dos vaidosos: os orgulhosos são tímidos, os vaidosos são audazes. Há quem seja cumulativamente orgulhoso e vaidoso; quem o é será tímido e audaz ou intermitentemente, ou em manifestações diferentes do espírito. Se a vaidade é mais ridícula que o orgulho, é que é por natureza activa, e se revela sempre; o orgulho, como se esconde, mal pode aparecer onde o escarneçam. Por isto, e ordinariamente, tem-se a vaidade por baixa, e por nobre o orgulho. Nem um, nem outro, é nobre ou deixa de sê-lo. Pela razão já exposta — a essência activa da vida —, a vaidade é mais vulgar, o orgulho — sobretudo o orgulho sem, ou com pouca, vaidade — raro. Da sua raridade se deriva — (assim) como de seu menor ridículo e de sua pouca incidência, por inerte, sobre outrem — o mito da sua nobreza. É a vaidade a mestra do esforço, o sal da acção, o alimento da vida. Todo homem quer ser mais que os outros, dentro da esfera de ambição que a sua fantasia lhe determina. Ser mais rico que outro, mandar mais que outro, ser mais bonito, mais elegante, mais bem vestido — tais são as aspirações normais do último animal da evolução das espécies. D'elas nasce tudo que é social — o bom como o mau, assim o nobre como o mesquinho. O fato melhor do caixeiro, os gestos da condessa, a conquista da Gália por César, a Divina Comédia têm esta comum origem. Não há mister inventar, como Nietzsche, uma «vontade de poder» para disfarce opulento d'esta nudez do egoísmo humano. O pitecantropo vestido é menos dionisíaco do que isso. Como o orgulho vive para dentro, pensando e sentindo, e a vaidade para fora, operando, resulta que, ante o conseguimento alheio, o primeiro movimento de um é o desconsolo e o tédio, da outra o despeito e a inveja. A inveja é a qualidade primária da comparação social: gera as intrigas e as malícias de que se compõe a quotidianidade da vida; estimula rancorosamente o esforço que se vai cansando; é a matriz de quase todas as censuras e de todas as revoluções. Tal é a realidade da vida humana: a vaidade como base, a inveja como meio, o progresso como fim. Certos há, porém, que escapam à inveja do comum dos homens. Ao sentimento, que despertam, e pelo qual fogem a essa inveja, chama-se ordinariamente prestígio. O prestígio é, pois, aquela imposição da nossa personalidade aos outros, que não lhes desperta a inveja. Parece que a primeira condição do prestígio deve ser a superioridade — a superioridade por nós reconhecida. Não é assim. A só superioridade não evita a inveja; há mister que essa superioridade se baseie em uma diferença de qualidade, que não, ou que não só, de grau. A quem não temos por superior, e nos supera nos benefícios da vida, invejamos, invejamos simplesmente. A quem temos por nosso superior, porém como da mesma espécie que nós e nosso superior só em grau, invejamos ainda, porém de diverso modo: invejamos que a Natureza, que não já a Sorte ou o Destino, lhe concedesse as qualidades, por meio das quais nos supera. A quem, porém, sentimos não só superior, senão também diferente, dificilmente invejaremos, salvo se a inveja for uma disposição habitual nossa. Não há contraste sem semelhança. Não podemos comparar-nos com quem nos não parecemos. O nosso superior semelhante faz o que fazemos, porém melhor; o nosso superior diferente faz o que não poderíamos fazer nunca. Por isso um escritor português dificilmente invejará a celebridade de um escritor estrangeiro. Por isso Byron invejava Shakespeare, e só admirava Milton: o intuitivo menor doía-se do intuitivo maior; o grande racional não o ofendia. A primeira condição do prestígio é, pois, necessariamente a diferença — a diferença, porém, desacompanhada de inferioridade. Todos sentimos diferente um louco ou um imbecil; a nenhum damos prestígio. Não falemos ainda de superioridade; falemos só de diferença. A primeira condição do prestígio é a diferença que não é inferior. É que todo o raro, desde que não seja baixo, atrai e preocupa. Como, porém, a diferença tanto mais nos preocupará quanto menos pudermos definir em que consiste, segue que a segunda condição do prestígio é o mistério. Todos os grandes fascinadores se destacam por diferentes, e se insinuam por não se revelarem. Quando ouvirdes dizer que certo homem é «interessante» — é o primeiro adjectivo do prestígio — vereis que se deve entender que de certo modo se não compreende bem o que pensa, o que sente, que carácter tem. Os grandes sedutores usam conscientemente este processo de insinuação; muitas vezes não têm mais mistério que o saber o que o mistério vale. A terceira — mas só a terceira — condição do prestígio é, então, a superioridade. Quando é enorme e sensível envolve já a diferença, e por aí, que não por si, se prestigia. Quando é súbita, deslumbrante envolve já o mistério, e por ele, que não por si, adquire prestígio. De per si — isto é, como superioridade explicável, racional — não é nem o primeiro nem o segundo elemento da sujeição do espírito alheio. São estas as três condições do prestígio. Quem queira analisar o conteúdo d'ele não encontrará mais que isto. O prestígio do homem de génio é d'esta ordem, porque o génio é diferente e misterioso. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 249. Ah, toca suavemente Como a quem vai chorar Qualquer canção tecida De artifício e de luar — Nada que faça lembrar A vida. Prelúdio de cortesias, Ou sorriso que passou... Jardim longínquo e frio... E na alma de quem o achou Só o eco absurdo do voo Vazio. 8-11-1922 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 46. The artist must be born beautiful and elegant; for he that worships beauty must not be unfair himself. And it is assuredly [?] a terrible pain for an artist to find not at all in himself that which he strives for. Who, looking at the portrait of Shelley, of Keats, of Byron, of Milton and of Poe, can wonder that these were poets. All were beautiful, all were beloved and admired, all had in love warmth of land heavenly joy, as far as any poet, or indeed any man can have. 1906? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 119. Fazes renda de manhã Fazes renda de manhã E fazes renda ao serão. Se não fazes senão renda, Que fazes do coração? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 100. Adivinhei o que pensas Adivinhei o que pensas Só por saber que não era Qualquer das coisas imensas Que a minh’alma sempre espera. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 44. Meu querido Bebé pequeníssimo: Estou no Martinho da Arcada, são 3 e meia da tarde, e tenho «completo» o meu dia — isto é, está feito tudo quanto, de alguma importância, eu tinha que fazer antes das 6 horas. (Digo «antes das 6 horas» porque depois das 6 tenho que tratar de assuntos na Estrela). Sabes? Fui há perto de uma hora à Rua de Santa Marta, onde estão agora as cartas dos apartados. Para o snr. Crosse não havia nada (naturalmente a «libra» ou não chegou ainda ou vem registada, e ainda não distribuem os registos); nem havia nada para o Apartado 146, de meu primo. Com grande pasmo meu, porém, encontrei para o apartado 147 (o meu), além de uma carta e um postal para mim, uma carta para minha mãe e outra para um dos meus irmãos ! Como estas cartas têm carimbos de origem de 17 e 18 de Fevereiro, vejo que eles já não estavam no Transval nessa altura. Tenho, pois, por quase certo que embarcaram no «Lourenço Marques» e devem chegar a 4 de Abril, como te disse que chegariam se viessem nesse vapor. Vou agora activar tudo. Vou passar alguns dias bonitos de trabalho. O que vou hoje fazer à Estrela é (não ver a mulher loura de olhos azuis!!!) mas tratar da mudança da mobília de minha mãe para a casa de lá. Estou novamente com dores de garganta, e com medo de recair. Olha que brincadeira que era recair nesta altura, hein?! Já tenho os meus papéis na [ ... ] Adeus, amor; pensa às vezes em mim, quando não estiveres distraída... Estou convencido (por minha parte) que gosto de ti. Sim, creio poder afirmar que tenho para contigo uma certa afeição. Um regimento de beijinhos, do teu, sempre e muito teu Fernando 26/3/1920 26-3-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 10. Hoje, neste ócio incerto Sem prazer nem razão, Como a um túmulo aberto Fecho meu coração. Na inútil consciência De ser inútil tudo, Fecho-o, contra a violência Do mundo duro e rudo. Mas que mal sofre um morto? Contra que defendê-lo? Fecho-o, em fechá-lo absorto, E sem querer sabê-lo. 9-2-1923 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 47. THE HOURS The hours are weary of being hours. Oh, to be aught else! they say. Their task's to age children, hopes and flowers, Paint lips cold and hairs gray. They sicken and sadden and deaden beauty. When they pass and look behind, Lining the path of their ended duty They only weeping fmd. So, Oh, to be something else! they say, For they think they know That the things and thoughts they take away Really fade and go. But they do not know, blind misers screening A robber‑changed false pelf, That everything has Another Meaning - Ay, even God Himself s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 392. Nay, what is man himself but an inane blind insect buzzing [?] against a closed window; instinctively he feels that beyond the glass a great light and a warmness. But he is blind and cannot see it; neither can he see that there is aught between him and the light. So he struggles lazily [?] towards it. He may get farther away from the but nearer than the glass he cannot get. How will Science help him? He may find out the particular roughnesses and nodosities [?] of the glass he may get to know that here it is thicker, there thinner, here coarser and there finer: with all this, kind philosopher, how nearer is he to the light? How nearer is he to seeing. And yet I believe that the man of genius, the poet, does somehow struggle through the glass into the outer light; he feels warmth and gladness at being so much beyond all men [?] but is even he not still bind? is he any nearer to knowing the eternal Truth? 1908? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 120. A MORAL DA FORÇA / ou coisa análoga. Devemos pôr de parte a ideia de haver uma só moral, porque, havendo, distintamente, três tipos de homens, não pode haver a mesma regra de vida para todos os três tipos. «A mesma lei para o leão e para o boi é tirania», disse Blake. É curioso que a divisão vulgar da sociedade em aristocracia, classes médias (ou burguesia) e povo reflecte, embora por vezes artificialmente, esta divisão natural da chamada «humanidade» — coisa que não existe. E é de notar que é contra esta tríplice forma do homem que esbarra todo o preconceito de igualdade, toda a ideia de supor que, sociologicamente, existe «humanidade». A palavra humanidade significa tão‑somente «espécie humana»; é só biológica, e ninguém tem pois o direito de a empregar, porque não corresponde a um facto, em qualquer coisa de ordem social. Os homens dividem‑se em três categorias: (1) os homens naturais, com instintos naturais, directos e simples; (2) os homens civilizados, com a transformação repressiva desses instintos, que todavia subsistem; (3) os homens condutores do mundo, em quem esses instintos são, ou abolidos, ou utilizados como não tendo importância, ou transubstanciados em superinstintos É evidente que a estes três tipos não convém a mesma moral. Para o homem do povo, a coragem, a força, a vitalidade, e as virtudes ou qualidades que nelas assentam, são o sinal do bem. Para o homem das classes médias, a honestidade, a lealdade, (...) são o sinal do bem. Para o aristocrata, (...) Povo: qualidades de vitalidade e energia — força directa. Classes médias — a ) qualidades de força harmonizadas, — honestidade, lealdade, bondade. b ) qualidades de força constrangidas. Aristocracia — a ) qualidades de força abolidas, b ) qualidades de força relegadas a um segundo plano, c ) qualidades de força transubstanciadas. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 223. Todos te dizem que és linda. Todos te dizem que és linda. Todos to dizem a sério. Como o não sabes ainda Agradecer é mistério. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 100. Meu Bebezinho mau e bonito: Mal tenho tempo de te escrever, e assim será durante uns 3 ou 4 dias, com esta trapalhada das mudanças, e — o que é mais — das mudanças à pressa. Nem sei se esta carta te irá parar às mãos hoje; ainda não vi o Osório, e são já perto de 6 da tarde. Estou escrevendo ao meu amorzinho no Café da Arcada. E ainda com mais pressa estou escrevendo porque de aqui a minutos chega aqui o meu primo. Mandei (por um recado deixado no guarda-portão do 42) o Osório vir aqui ter. Vamos a ver se ele ainda leva esta carta. Dei, felizmente, todas as voltas que tinha a dar; só me resta a combinação da mudança da mobília de minha mãe. Vou tratar disso hoje, às 8 1/2, na Estrela. Amanhã, como te disse, não saio de Benfica. Na 2ª feira estarei à tua espera às 8 h nos arredores da porta de casa da tua irmã. Quero ver se arranjo as coisas para que a mudança de terça-feira (ou, pelo menos, que deve ser de terça-feira) e que é a da mobília de minha mãe, seja à tarde; porque, se o não for, lá perdemos outro passeio do meio-dia. Enfim, eu te direi o que for na segunda-feira à noite. O Osório acaba de chegar. Quero despachá-lo antes de vir meu primo. Por isso fecho rapidamente, e bruscamente (desculpa-me, meu amor) a carta. Milhões de beijos do teu, sempre muito teu Fernando 27/3/1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 1. Para que serve a liberdade às plebes? Para que lhes serve, supondo, de resto, que elas a possam obter e usar dela? As plebes são, por sua natureza, aquela parte da sociedade sobre quem incide, quer por divisão social, como a escravatura, quer por compulsão económica, o trabalho manual ou com ele relacionado, o trabalho do artífice. A que serve ao artífice a liberdade? O que [é] à plebe devido não é a liberdade, é a ausência de opressão, que é devida a todos, e o seu direito natural de homens. É esse o direito do homem; esse, e não a liberdade. A que se reduz esse direito? O de não haver mais ingerência na vida das plebes do que a natural; e a natural é a sua condição definida de escravos no tempo da escravatura; e a sua condição económica de compelidos ao trabalho quotidiano e manual, no tempo da chamada concorrência (da concorrência universal). Para que serve qualquer das fórmulas de liberdade à plebe? Para que lhe serve a liberdade de pensamento? De que serve a liberdade de pensamento a quem, por sua condição social, não pode pensar? De resto, é essa uma liberdade que se lhes pode conceder até certo ponto. Que haja uma liberdade que permita ao escravo contemporâneo a sua libertação, que modernamente cada qual faz por si próprio, e não por concessão de um dono — isso é justo. Ao homem da plebe compete a liberdade da oportunidade, mas uma liberdade apertada, restrita, para que só os deveras dignos dela possam passar-lhe pelas malhas. Outra coisa é a liberdade de pensamento, aplicada aos que podem usar dela. Como, porém, fazer a distinção? 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 259. I Paira no ambíguo destinar-se Entre longínquos precipícios, A ânsia de dar-se preste a dar-se Na sombra vaga entre suplícios, Roda dolente do parar-se Para, velados sacrifícios, Não ter terraços sobre errar-se Nem ilusões com interstícios, Tudo velado e o ócio a ter-se De leque em leque, a aragem fina Com consciência de perder-se, Tamanha a flava e pequenina Pensar na mágoa japonesa Que ilude as sirtes da Certeza. 24-9-1923 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 48. “Poemas dos Dois Exílios”. LA CHERCHEUSE Pale with the sense of being mortal, Now dost thou, passing yearning's glades, Knock with cold hands at the hushed portal Of the closed palace of the shades. Thy hands fall and thy wide eyes grope. Oh, le me kiss thy feet and hope! Let us not wish to understand, Bravely despair even of despair; Cold unfelt hand in cold dead hand, Let us set out for mere Somewhere, With bodies by the cold made none, By night to invisibleness done. Perhaps, thus losing earthly goal, Our sense of us numbed to innerness, Sudden we shall find ourselves all Soul, Hand in hand spirits, waked to bliss, Having, through some Gate not in space, Lo! lapsed to everlasting grace. 24-11-1912 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 392. As três qualidades fundamentais do artista são: 1) A originalidade, 2) a construtividade, e 3) o poder de suspensão. E vulgar haver confusões que obscurecem de todo o verdadeiro sentido destas palavras, e é absolutamente importante que essas confusões se desfaçam. Elas resultam, em geral, da adopção de um ideal artístico restrito, por via do qual se vicia a interpretação das coisas. Assim, muitos não sabem propriamente distinguir a originalidade da excentricidade; uma caracteriza o génio, outra manifesta o louco. E, no mesmo ponto, o mais frequente é não se saber avaliar bem a originalidade de um autor, por não se saber, em geral, medir o valor das influências que ele recebe, de onde sucede, bastas vezes, o ser dado como plágio o que é legítima influência. Ora a originalidade é de três espécies: a) de pensamento, b) de modo de manifestar esse pensamento, c) de modo de manifestar essa manifestação; temos, portanto, a) originalidade ideativa, b) originalidade formal (... ) Os românticos confundem em geral o poder de construção com o poder de desenvolvimento, o qual, meramente por si, e desprovido da base de construção propriamente dita, não passa de uma mera facilidade retórica sem grande valor, salvo episódico. Se nesses dois pontos são grandes os erros que se cometem, muito maiores são os que enferma, quase sempre, o conceito geral de “poder de sugestão”. Por esse termo desejo exprimir aquilo que no artista permite tornar inteiramente perspícua a sua intenção e a sua emoção. Importa muito — a distinção é de relevo capital — não confundir “poder de sugestão” com “compreensibilidade”, como importa não confundir perspicuidade com clareza. Sobre confusões destas assenta o erro que sempre houve, da parte das pessoas de escassa sensibilidade, na crítica aos poetas simbolistas e decadentes — todos aqueles que, no seu pleníssimo direito, foram perspícuos sem serem claros. 1916 Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 121. Ethics Toda a vida é essencialmente actividade, e toda a vida consciente, como é essencialmente uma consciência da actividade, tende a ser uma tendência para dar regras a essa actividade; pois a consciência, sendo uma forma da vida, e uma forma da actividade que é a vida, e tende pois a agir. A acção da consciência é pois de regular a vida. Como a actividade do espírito se divide naturalmente em inteligência, emoção e vontade, o regrar da actividade do espírito é feito quanto à inteligência, quanto à emoção e quanto à vontade. O regrar da inteligência é o regrar do compreender e a esse chamamos Ciência. O regrar da emoção é o regrar do sentir, e a esse chamamos Arte. O regrar da vontade é o regrar da acção sobre o exterior e a esse chamaremos Norma. Dessa norma a moral, que é o regrar da acção entre ente vivo e ente vivo, é somente uma parte. A ciência aplicada é uma Norma — uma norma baseada na Ciência. Mas há normas que se não baseiam na ciência — normas puras, que constróem suas regras e as aplicam. Tais são, por exemplo, os jogos, as leis, os processos (incluindo a contabilidade) e, finalmente, a Moral. Tem‑se discutido se a História será uma ciência ou uma arte. Poderemos discutir se será uma ciência, uma arte ou uma norma. Na verdade, se por história entendemos o escrever dela, é uma arte; se por história entendemos o descobrimento das coisas que se passaram, é um preliminar da ciência, ou uma ciência virtual; se por história entendemos o descobrimento das leis que regem as sociedades, então é, ou tende a ser, uma ciência, e mais propriamente se chamará sociologia; se por história entendemos o estabelecimento de regras para nossa conduta social e nacional, então diremos que é uma norma. 1915? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 225. Eu bem sei que me desdenhas Eu bem sei que me desdenhas Mas gosto que seja assim, Que o desdém que por mim tenhas Sempre é pensares em mim. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 100. A tua janela é alta, A tua janela é alta, A tua casa branquinha. Nada lhe sobra ou lhe falta Se não morares sozinha. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 72. 29-3-1920 São só duas linhas, meu amorzinho querido, para te dizer que não contes que eu apareça às 8 horas. Enfim, ao 1/2 dia já nos vimos. Amanhã, para deixar o Pantoja substituindo-me lá em cima, conto poder encontrar-te à hora do costume. Não deixes de esperar um bocadinho, tomamos por ponto central a Livraria Inglesa. A minha mudança lá ficou feita. A mobília não apanhou chuva; eu, porém, é que a apanhei ao vir lá da Estrela. Ainda não falei ao Marianno Sant’Anna para lhe pedir guarida; mas falo-lhe logo. Não me sinto muito bem, mas não estou pior do que estava ao meio-dia, quando te falei. Adeus, Bebezinho, até amanhã. Beijos e mais beijos do teu, sempre teu Fernando 29-3-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 12. Assim nós temos: a) intersecção duma paisagem com um estado de alma, concebido como tal. b) intersecção duma paisagem com um estado de alma que consiste num sonho. c) intersecção duma paisagem com outra paisagem (simbólica esta dum estado de alma — como, por exemplo, «dia de sol» de alegria). d) intersecção duma paisagem consigo própria, operando nela divisão o estado de alma de quem a contempla. Por exemplo: cheio de tristeza contemplo uma paisagem; essa paisagem tem, a par de detalhes alegres, detalhes tristes; espontaneamente o meu espírito escolhe os detalhes tristes (é claro que, em certos estados de tristeza pode escolher os detalhes alegres, mas isso vem a dar no mesmo para a demonstração). Assim dou aos detalhes tristes da paisagem uma importância exagerada; eles passam a formar como que uma segunda paisagem sobreposta ao conjunto da outra, da paisagem real, ou na sua totalidade, ou no seu conjunto menos os detalhes exagerados. Aqui o meu estado de espírito deixa de ser sentido como interior, como paisagem interior mesmo, para ser sentido apenas como perturbação da paisagem exterior. Tem havido, em diversos autores anteriores a nós, certas intuições interseccionistas. Isto de Léon Dierx, por exemplo, é uma intuição do interseccionismo, onde há ainda imperfeição, porque não há simultaneidade dada, mas simultaneidade dada como sucessão. Francamente interseccionista é este trecho do imagista F. S. Flint (...) 1914? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 135. O que a nós verdadeiramente nos caracteriza e define é, não o imperialismo universalista, mas o universalismo imperialista. Éramos essencialmente navegadores e descobridores, e só derivada e corolariamente homens de conquista e de colonização. Nem éramos temperamentalmente guerreiros, excepto na proporção em que o era o espírito do tempo (apoiado pela ânsia religiosa de dilatar a fé), nem tínhamos, ou alguma vez tivemos, população cujo número naturalmente se não pudesse conter dentro das nossas fronteiras. Antes de sermos imperialistas, já éramos universalistas. Isto o revela a nossa primitiva literatura — a dos cancioneiros e novelas de cavalaria —, singularmente desprendida de qualquer dos dois estímulos onde o imperialismo, propriamente dito, tem origem como facto mental, e não necessidade política ou económica: o nacionalismo e o espírito religioso. A exaltação patriótica não aparece. E, onde há notas religiosas, são de um simples cristianismo não-dogmático, e, aqui e ali, o que hoje se chama anticlerical. Em parte era este o espírito da Idade Média, que, assim como era muito menos ignorante do que se julga, assim também era muito menos religiosa do que se crê. O espírito que fez ornar as catedrais e igrejas com bastas decorações obscenas e com caricaturas e sátiras esculpidas ao clero e à religião; e que fez com que paródias do mistério da Trindade e do Sacramento da Eucaristia figurassem nas iniciações das diversas classes do compagnonage (que era uma espécie de pré-maçonaria operativa) — esse espírito, se não era tão antirreligioso como essas manifestações poderiam fazer crer à nossa diferente mentalidade de hoje, não é todavia sinal de uma intensa vida ou profunda crença religiosa. São, até certo ponto manifestações infantis; mas a criança não é, nem pode ser, internamente religiosa: não o pode, por criança, ser mais que externamente. Universalismo medieval Esse universalismo revelou-se mais intenso em nós, porque em nós se revelou nacional. O universalismo medieval procedia, principalmente, da imperfeita formação das nacionalidades; em nós acentuou-se com a perfeita fundação da nossa. E assim haveríamos de seguir, pois em nossa acção imperial consubstanciámos, consciente ou inconscientemente, o, ainda maior, universalismo das descobertas com a exaltação patriótica com que nos empenhámos nelas. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 102. II Dói viver, nada sou que valha ser. Tardo-me porque penso e tudo rui. Tento saber, porque tentar é ser. Longe de isto ser tudo, tudo flui. Mágoa que, indiferente, faz viver. Névoa que, diferente, em tudo influi. O exílio nada do que foi sequer Ilude, fixa, dá, faz ou possui. Assim, nocturna, a áreas indecisas, O prelúdio perdido traz à mente O que das ilhas mortas foi só brisas, E o que a memória análoga dedica Ao sonho, e onde, lua na corrente, Não passa o sonho e a água inútil fica. 24-9-1923 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 49. “Poemas dos Dois Exílios”. SONG Lilies cast and roses throw In the way that she must go Whom the singing planets hymn, Sister of the seraphim! Shifting motes of early sun In the morning freshness spun To light dresses for the breeze - Clothe her coming such as these! Shadows purple, fountain breaths, Low mists such as dawning wreathes Round the tree‑tops - these be made Hers, for whom spring's feast is laid! She to us from heaven descended That dreams might with earth seem blended, And unquietness more blest Mingle with our life's unrest. These the chosen offerings From what earthly deep joy sings - These to her we daily bear Lest she pine for heaven here. 10-11-1916 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 394. O artista como artista sente menos do que os outros homens porque ou produz ao mesmo tempo que sente, e nesse caso há uma dualidade de espírito imcompatível com o estar entregue a um sentimento; ou então depois, mas, para o poder fazer, deve poder lembrar-se e o lembrar-se indica [?] o ter sentido realmente, ainda que sem consciência disso. 1914? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 123. Gato que brincas na rua Como se fosse na cama, Invejo a sorte que é tua Porque nem sorte se chama. Bom servo das leis fatais Que regem pedras e gentes, Que tens instintos gerais E sentes só o que sentes. És feliz porque és assim, Todo o nada que és é teu. Eu vejo-me e estou sem mim, Conheço-me e não sou eu. 1-1931 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 131. A MORAL 1. Moral da Força — a das qualidades que revelam a força. 2. Moral do Domínio — a das qualidades que (...) 3. Moral do Ideal Humildade Ascetismo A moral é aquela noção que os homens têm dos actos como valendo qualquer coisa, fora da relação com a sua utilidade. Antes, em relação com a sua utilidade vital. 1915? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 226. Vem cá dizer-me que sim. Vem cá dizer-me que sim. Ou vem dizer-me que não. Porque sempre vens assim P’ra ao pé do meu coração. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 72. O dinamismo coloca o ponto de partida da sua artificialização da sensibilidade no mundo externo, no objecto a descrever ou a cantar, seja qual for. Ora como a condição fundamental do mundo externo é a impermanência, a força em contínua acção, o Dinamismo interpreta tudo como fugitivo, de passagem. Para o abstraccionismo o ponto de partida é já, não o objecto da sensibilidade, mas o conceito mediato entre esse objecto e a própria sensibilidade. É, por isso, sobretudo intelectual. O Sensacionismo recua ainda mais o ponto de vista da artificialização: ele já não está no conceito mesmo, mas na própria sensação inteiramente subjectiva. 1915? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 136. Em primeiro lugar, e como já o notou João de Castro Osório, Portugal não é propriamente um país europeu: mais rigorosamente se lhe poderá chamar um país atlântico — o país atlântico por excelência. (...) Além d'isso, Portugal, neste caso, quere dizer o Brasil também. Como o império, neste esquema, é espiritual, não há mister que seja imposto ou construído por uma só nação: pode sê-lo por mais que uma, desde que espiritualmente sejam a mesma, que o são se falarem a mesma língua. Acresce que, tanto quanto hoje o podemos ver, há, de origem europeia , só duas nações fora da Europa com alma para poder ter império — os Estados Unidos e o Brasil. Os Estados Unidos, porém, e como já foi dito, estão já no seu império, que é material, e que é o Quinto Império de Inglaterra. (Hipótese oriental — Rússia, Japão, China) s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 104. III Análogo começo, Uníssono me peço, Gaia ciência o assomo — Falha no último tomo, Onde prolixo ameaço Paralelo transpasso O entreaberto haver Diagonal a ser. O interlúdio vernal, Conquista do fatal, Onde, veludo, afaga A última que alaga. Timbre do vespertino, Ali, caricia, o hino Outonou entre preces Antes que, água, comeces. 24-9-1923 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 50. “Poemas dos Dois Exílios”. ANAMNESIS Somewhere where I shall never live A palace garden bowers Such beauty that dreams of it grieve. There, lining walks immemorial, Great antenatal flowers My lost life before God recall. There I was happy and the child That had cool shadows Wherein to feel sweetly exiled. They took all these true things away. O my lost meadows! My childhood before Night and Day! 28-8-1915 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 396. 1ª publ. in Obra Poética . Fernando Pessoa (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Dores Galhoz). Rio de Janeiro: Ed. José Aquilar, 1960. Considerar a ciência como valendo em si alguma coisa é fazer metafísica. A ciência só vale humanamente, só como útil para a vida humana. Em si (por razões já expostas) não vale nada porque o conhecimento científico é puramente relativo[.] s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 253. Em todos os tempos, quaisquer que fossem as religiões que dominassem, os homens sentiram, clara ou obscuramente, a força do Destino . Os pagãos, que tinham um panteão de deuses aparentemente escravos apenas dos seus caprichos, punham, contudo, acima desses deuses todos, a concepção do DESTINO, a que eles eram também obrigados a obedecer. Os cristãos representavam essa força que sentiam como sendo a Vontade de Deus, mas o facto é que todos percebiam como, acima da sua vontade livre ou presa, pairava uma força superior, que lhes talhava as vidas fora dos seus desejos, e, muitas vezes contra eles. Enquanto se tratava de circunstâncias do espírito, de acções humanas, era possível atribuir tudo ao livre‑arbítrio do homem. Mas, quando se reparava na quantidade de coisas da vida que acontecem do exterior, na quantidade de coisas, que, são puramente «acidentais», são, contudo, tantas vezes de uma importância máxima, capital, na vida — verificava‑se que outra coisa havia de se admitir para além da vontade humana. Aqui via‑se uma vida que parecia destinada a grandes obras cortada cerce por um desastre, por um naufrágio, por uma doença. (...) 1915? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 227. Tudo que sou não é mais do que abismo Em que uma vaga luz Com que sei que sou eu, e nisto cismo, Obscura me conduz. Um intervalo entre não-ser e ser Feito de eu ter lugar Como o pó, que se vê o vento erguer, Vive de ele o mostrar 22-4-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 100. A tua irmã é pequena, A tua irmã é pequena, Quando tiver tua idade, Transferirei minha pena Ou fico só com metade? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 101. Cortaste com a tesoura Cortaste com a tesoura O pano de lado a lado. Porque é que todo teu gesto Tem a feição de engraçado? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 73. Meu Bebé pequeno e rabino: Cá estou em casa, sozinho, salvo o intelectual que está pondo o papel nas paredes (pudera! havia de ser no tecto ou no chão!); e esse não conta. E, conforme prometi, vou escrever ao meu Bebezinho para lhe dizer, pelo menos, que ela é muito má, excepto numa coisa, que é na arte de fingir, em que vejo que é mestra. Sabes? Estou-te escrevendo mas não estou pensando em ti . Estou pensando nas saudades que tenho do meu tempo da caça aos pombos ; e isto é uma coisa, como tu sabes, com que tu não tens nada... Foi agradável hoje o nosso passeio — não foi? Tu estavas bem disposta, e eu estava bem disposto, e o dia estava bem disposto também (O meu amigo, não. A. A. Crosse: está de saúde — uma libra de saúde por enquanto, o bastante para não estar constipado). Não te admires de a minha letra ser um pouco esquisita. Há para isso duas razões. A primeira é a de este papel (o único acessível agora) ser muito corredio, e a pena passar por ele muito depressa; a segunda é a de eu ter descoberto aqui em casa um vinho do Porto esplêndido, de que abri uma garrafa, de que já bebi metade. A terceira razão é haver só duas razões, e portanto não haver terceira razão nenhuma. (Álvaro de Campos, engenheiro). Quando nos poderemos nós encontrar a sós em qualquer parte, meu amor? Sinto a boca estranha, sabes, por não ter beijinhos há tanto tempo... Meu Bebé para sentar ao colo! Meu Bebé para dar dentadas! Meu Bebé para... (e depois o Bebé é mau e bate-me...) «Corpinho de tentação» te chamei eu; e assim continuarás sendo, mas longe de mim. Bebé, vem cá; vem para o pé do Nininho; vem para os braços do Nininho; põe a tua boquinha contra a boca do Nininho... Vem... Estou tão só, tão só de beijinhos ... Quem me dera ter a certeza de tu teres saudades de mim a valer . Ao menos isso era uma consolação... Mas tu, se calhar, pensas menos em mim que no rapaz do gargarejo, e no D. A. F. e no guarda-livros da C. D. & C.! Má, má, má, má, má...!!!!! Açoites é que tu precisas. Adeus; vou-me deitar dentro de um balde de cabeça para baixo para descansar o espírito. Assim fazem todos os grandes homens — pelo menos quando têm — 1º espírito, 2º cabeça, 3º balde onde meter a cabeça. Um beijo só durando todo o tempo que ainda o mundo tem que durar, do teu, sempre e muito teu Fernando (Nininho). 5.4.1920 5-4-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 13. O vertiginismo e o interseccionismo excluem todas as outras escolas e teorias. O sensacionismo inclui todas, mas, aceitando-as todas, só não aceita de cada uma a pretensão a ser a única. O abstraccionismo, análise dinâmica da Realidade (...) A Natureza não é, como disse Ardigò, «a continuidade de uma coisa com todas as outras», mas a intra-existência de uma coisa em todas as outras, a coexistência transposta de uma coisa com as outras todas. O dinamismo, (...) encarando cada coisa, cada (...) s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 137. A circunstância curiosa de o dos maiores crentes, se não o maior, no Bandarra ser o Pe. António Vieira, o maior representante cultural da língua portuguesa. O português é a mais rica e mais complexa das línguas românicas, uma das cinco línguas imperiais, é falado, se não por muita gente, pelo menos do Oriente ao Ocidente, ao contrário de todas as línguas menos o inglês, e, até certo ponto, o francês, é fácil de aprender a quem saiba já espanhol (castelhano) e, em certo modo, italiano — isto é, não é uma língua isolada , é a língua falada num grande país crescente — o Brasil (podia ser falada de Oriente a Ocidente e não ser assim falada por uma grande nação). Estes argumentos não pesarão se outras circunstâncias os não apoiarem. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 105. N. do A.: «Bandarra». ........IV Doura o dia. Silente, o vento dura. Verde as árvores, mole a terra escura, Onde flores, vazia a álea e os bancos. No pinhal erva cresce nos barrancos. Nuvens vagas no pérfido horizonte. O moinho longínquo no ermo monte. Eu alma, que contempla tudo isto, Nada conhece e tudo reconhece. Nestas sombras de me sentir existo, E é falsa a teia que tecer me tece. 24-9-1923 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 51. “Poemas dos Dois Exílios”. CHALICE Chalice of my communion With the lost thing that gleams! Communion‑bond of union Between me and my dreams! O chalice of love's most! In thy wine, earth's wine's ghost To lips that are God's flowers, My soul has dipped the host Of my diviner hours. My lips are as lips kissed. My sad soul happy sings. O shining through the mist Of tremulous angels' wings! I feel me God's moon's node, A child again, outside life's road, Remembering how I found me When I awoke from God And felt the world around me. 10-1-1913 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 396. Goethe O homem de génio é um intuitivo que se serve da inteligência para exprimir as suas intuições. A obra de génio — seja um poema ou uma batalha — é a transmutação em termos de inteligência de uma operação superintelectual. Ao passo que o talento, cuja expressão natural é a ciência, parte do particular para o geral, o génio, cuja expressão natural é a arte, parte do geral para o particular. Um poema de génio é uma intuição central nítida resolvida, nítida ou obscuramente (conforme o talento que acompanhe o génio), em transposições parciais intelectuais. Uma grande batalha é uma intuição estratégica nítida desdobrada, com maior ou menor ciência, conforme o talento do estratégico, em transposições tácticas parciais. O génio é uma alquimia. O processo alquímico é quádruplo: 1) putrefacção; 2) albação; 3) rubificação; 4) sublimação. Deixam-se, primeiro, apodrecer as sensações; depois de mortas embranquecem-se com a memória; em seguida rubificam-se com a imaginação; finalmente se sublimam pela expressão. 1932 Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 123. Ouvi-te cantar de dia. Ouvi-te cantar de dia. De noite te ouvi cantar. Ai de mim, se é de alegria! Ai de mim, se é de penar! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 44. I A ciência constitui-se unicamente de factos. Esses factos pretendemos nós explicá-los; não o conseguimos, porém, julgando consegui-lo, porque ignoramos as causas primárias d'esses factos e partimos por conseguinte d'uma base desconhecida. Exemplo: porque é que uma bala, atravessando um vidro, não o quebra e lhe forma apenas um buraco redondo, com o mesmo diâmetro que a bala, facto de todos conhecido? Explicamos nós: porque a velocidade com que a bala vai não dá tempo a que o choque se propague, não permitindo a sua fractura, ou sequer que se rache. Mas com esta resposta nada explicámos, apenas juntámos factos a outros factos; com a explicação d'esse fenómeno apresentamo-lo sob um aspecto e feitio diferente apenas. — Damos uma martelada n'um diamante e não o partimos. Porquê? Porque é duro. Damos n'um vidro e fracturamo-lo porque, explicamos nós, o vidro é frágil. Amolgamos o ferro porque este é maleável. Mas a dureza, a fragilidade, a maleabilidade são os mesmos fenómenos, são factos justapostos a factos, e ficamos encerrados n'um círculo vicioso: quebra-se porque é frágil, é frágil porque se quebra. Nada explicamos, pois. Quanto maior for a série dos factos em harmonia, encadeando-se para nos esclarecer o espírito, tanto mais satisfeito este fica. Um fenómeno desconhecido cai sob a nossa observação — a faísca eléctrica, por exemplo; no nosso espírito surge logo a dúvida, a pergunta: o que é a faísca? E pela observação, pela experiência, encadeamos uma série de factos, electricidades de nomes contrários refundindo-se, vibrações da matéria, ondulações através d'esta, transformações de energia, produções luminosas, etc., tudo o que constitui a faísca; e o nosso espírito fica satisfeito, ainda que nada tivesse explicado, porque não conhece os factos primários. Porque é pois que o nosso espírito se satisfez? s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 254. DE PROFUNDIS ... O sofrimento é um momento muito longo. Não o podemos dividir por estações. Apenas podemos notar os seus modos e registar a sua volta. Para nós o próprio tempo não avança. Revolve. Parece circular em torno de um só centro de dor. A imobilidade paralisante de uma vida da qual cada circunstância está regulada segundo um molde imutável, de modo que comemos e bebemos e deitamo‑nos e rezamos segundo as leis inflexíveis de uma fórmula de ferro: este carácter de imobilidade que faz cada horroroso dia no seu mínimo detalhe como todo outro dia, parece transmitir‑se àquelas forças exteriores a essência de cuja existência é mudar incessantemente. 1910? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 227. Quando me deste os bons-dias Quando me deste os bons-dias Deste-mos como a qualquer. Mais vale não dizer nada Do que assim nada dizer. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 101. Ai, os pratos de arroz-doce Ai, os pratos de arroz-doce Com as linhas de canela! Ai a mão branca que os trouxe! Ai essa mão ser a dela! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 73. Meu Bebezinho: Não te escrevi ontem, afinal, porque estive muito mal disposto em casa; e hoje tive o desgosto e a apoquentação de te não ver, embora estivesse à porta da Livraria Inglesa desde as 10 para o meio-dia e até mais que o meio-dia e meia-hora. Tu estás doente, Bebezinho? Manda-me dizer qualquer coisa, por amor de Deus! Estou escrevendo à pressa, no Café da Arcada para ir entregar a carta ao Osório. Oxalá o encontre. Dá-me notícias tuas, sim? Mil beijos do teu, muito e sempre teu Fernando 8/4/1920 8-4-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 14. Os Directores do ORPHEU julgam conveniente, para que se evitem erros futuros e más interpretações, esclarecer, com respeito à arte e formas de arte que nessa revista foram praticadas, o seguinte: (1) O termo «futurista», que designa uma escola literária e artística possivelmente legítima, mas, em todo o caso, com normas estreitas e perfeitamente definidas, não é aplicável ao conjunto dos artistas de ORPHEU, nem, até, a qualquer d'eles individualmente, ressalvado o caso do pintor Guilherme de Santa Rita, e lamentáveis episódios de José de Almada-Negreiros. (2) Os termos «sensacionista» e «interseccionista», que, com maior razão, se aplicaram aos artistas de ORPHEU, também não têm cabimento. Sensacionista é só Álvaro de Campos; interseccionista foi só Fernando Pessoa, e em uma só colaboração — a «Chuva Oblíqua» em ORPHEU 2. (3) O termo «modernista», que por vezes também se aplicou aos artistas de ORPHEU, não lhes pode também ser aplicado, por isso que não tem significação nenhuma, a não ser para designar — porque assim se designou — a nova escola pragmatista e exegética dos Evangelhos, nascida a dentro da Igreja Católica, e condenada pelo Papa, por excessivamente tendente a procurar a verdade. (4) Os artistas de ORPHEU pertencem cada um à escola da sua individualidade própria, não lhes cabendo portanto, em resumo do que acima se disse, designação alguma colectiva. As designações colectivas só pertencem aos sindicatos, aos agrupamentos com uma ideia só (que é sempre nenhuma) e a outras modalidades do instinto gregário, vulgar e natural nos cavalos e nos carneiros. (5) Os colaboradores de ORPHEU foram os seguintes: Mário de Sá-Carneiro, etc. NOTA — Como não é possível que dois indivíduos de inteligência e personalidade estejam de acordo, por isso que cada um d'eles é um, os directores de ORPHEU assinam ambos esta declaração conjunta com a declaração de «vencidos». 1915? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 138. Vai partir para o Brasil, em uma alta e simbólica missão da Pátria, o poeta Afonso Lopes-Vieira. Vai levar ao chefe do Portugal Novo, em nome do chefe do Portugal Antigo, o sinal da esperança comum a tudo quanto é Portugal. O livro, para cuja oferta se afasta de nós, é o de Luís de Camões, cantor de El-Rei D. Sebastião. O fim, para que olham todos os destinos do Povo, a que pertenceu esse cantor, fechou-os o sapateiro Bandarra na evocação ante-póstuma do mesmo D. Sebastião. Afonso Lopes-Vieira, partindo-se, leva consigo, involuntariamente, o desígnio obscuro transcrito pelo Bandarra. O poeta Afonso Lopes-Vieira, sebastianista quer o queira, quer não, vai levar ao Brasil um poema claro que é uma carta escura — uma carta cifrada cuja decifração não haverá muitos que façam — nem o que a envia, nem o que a recebe, nem porventura o que a transmite. A hora da designação da mensagem, na conferência pública com que a esclareceu, foi a de 29 de Maio de 1928, designada na profecia menor da Pirâmide como a do Aviso Liminar, que uns entenderam mal e outros pior. É que não era com eles... O intérprete inglês das polegadas da Pirâmide regista, sem que a explique, a data de 1557 como Aviso Central da História. De este ano nada reza a história, senão que nele começou a reinar El-Rei D. Sebastião. O poeta Afonso Lopes-Vieira apresentou, na data antecipadamente designada, o sinal antecipadamente designado. Vai levar ao Portugal Novo, não a mensagem, mas a Chamada, do Portugal Inteiro. O resto é com Deus … s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 106. Oiço passar o vento na noite. Sente-se no ar, alto, o açoute De não sei que ser em não sei quando. Tudo se ouve, nada se vê. Ah, tudo é igualdade e analogia. O vento que passa, esta noite fria. São outra coisa que a noite e o vento — Sombras de Ser e de Pensamento. Tudo nos marca o que nos diz. Não sei que drama a pensar desfiz Que a noite e o vento passados são. Ouvi. Pensando-o, ouvi-o em vão. Tudo é uníssono e semelhante. O vento cessa e, noite adiante, Começa o dia e ignorado existo. Mas o que foi não é nada disto. 24-9-1923 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 52. ELEVATION I Before light was, light's bright idea lit God's thought of it, And, because through God's thought light's thought did pass, Light ever was, And from beyond eternity became The living flame That trembles into life and reddens with Our life's soul‑width. Before light was, when yet the night was queen O'er what had been, In God's realized prescience it could be Light from eternity, For no time enters into God's thoughts or Their spaceless Hour. Take thou therefore, my Song, from light the mood Of being, and brood, Like the Dove unbegot, over the abyss Of consciousness, Taking as thy true part that thought of God Whence light issued. Let my words burst into that divine flame That lights its name Of each thing from within with ultimate meaning. Though earth be screening With fixed appearance the Sun in each Thing, Bear, on thy wing High‑lifted, rays from the unrisen Sun Whence life is spun. Soar out, my Song, out of despair and night And catch that light Ere it appear, from neath the horizon Of action, Borne out of dreams by intuition bright Of endless light. Though none believe nor any understand, Yet feel thee fanned With those breeze‑breaths that come up with the morn From the Unborn. Soar like a lark into the coming day And bear thy way Into the possibility of noon Hid in the dawn. No matter that none know what thy words speak. A day shall break Out of eternity as each day bright Out of each night. Thy wings shall touch the slanting light of dawn And, upwards drawn By being light‑struck, shall to light be near When light's yet far. Hope is thy ready and high‑soaring flight Out of the night, Joy is thy touching of the first high rays That day betrays, Life is the course thy flight sequesters from Earth and its nightly doom, And these three things are one in thy belief That pain is brief. II Thou, unseeen Bird, essence of spiritual light, That yet art bright With the epitome of the outer shine, Thou that art mine And yet not mine but general to the earth, Wings of rebirth, Whose song, though in me heard, participates Of all that all elates, Thou point of meeting of me with the wings Hidden in all things, Thou breath, thou vapour, seen and not seen, of Some abstract love, Thou exhalation of the prisoned flight Of all things' weight, Thou that in me art fear, mad splendour, all To ache and enthral, Attract me, take me, o pure flight, and rise With me in thine eyes, Lost, cast, unpetalled and divine, up to What thou dost woo! O Spirit‑Lark that wakest ere the morn And art reborn At each recoming of the sun, and art The wiser part Of all that message is to our low eyes Of what shall rise! Life‑weightless Bird that no meads can attract, But that must act Its fate in air, above our marshes sad And meads low‑laid, In free heights communing with the Great Horn As yet unborn! O sterile Bird that hast no nest nor home But what shall come, That hast no song save in the heights above Nests, homes and love, Nor any thought save for the coming day, Though far away It seem to those who measure yet thy flight But by its height And not by its intention, that is carried From life and married To those diviner hours that winged things Find with their wings! O Bird of ruthless song and untold wishes, Whose high flight reaches Heights not of earth, but of pure air, encumbered With no joys weighed and numbered! Take all my heart in thy purpose of going And make the flowing Down to earth of my song be like thy song, Something strange, strong With distance, eerily half‑perishing From farness! Sing, And let my heart be what thou meanst with singings My life with winging. My hopes and fears with th’tone wherewith thy note To me doth float And the great purpose hidden in my fate With thy mere height! My heart shall thus be happy even if pained, Free even if strained To keep that height of joy whence tremble down Thy songs to our own. My soul may thus be happy, full and free. Oh, happily Raise me from me and lift my life unto That thou dost woo - The light, the sky, the distance and the morn, Till I be unborn Again to pure dispersion in the seas Of the high breeze That speaks to thee, ere light be born, of light, Till the delight Of without being being shall make me Song and sky be! s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 398. ESTÉTICA Um grande artista (literário) nota-se aplicando-lhe a seguinte pergunta critica: tem paixão ou imaginação ou pensamento? Por ex. os “Lusíadas” de Camões têm paixão (o patriotismo), imaginação (o Adamastor, a Ilha dos Amores), mas não falhos de pensamento. Os sonetos de Antero têm sempre pensamento, às vezes imaginação, paixão nunca (Júlio Dantas nada: não é um grande poeta). O arquitecto, o pintor, o escultor não podem mostrar pensamento, nem o pode o compositor musical. Mas os três primeiros podem mostrar imaginação (conquanto não emoção); o segundo emoção, conquanto não imaginação. Vemos assim nitidamente as diferenças entre as artes. O pintor, se quiser dar uma aproximação do pensamento, só pode fazer uma coisa: simbolizar; o escultor menos, o arquitecto nada. O músico nunca pode nem dar nem indicar pensamento. E evidente a razão: a música dá a emoção, as artes da vista a imaginação; ora a emoção não está ligada à razão, mas a imaginação aproxima-se, sendo de perto uma combinação de emoção e razão, tendo o carácter não-rígido da emoção (a mildness ), e a frieza da razão. A música é das artes todas a mais intuitiva, a mais instintiva, aquela em que crianças se tornam notáveis; é que da emoção depende e não da imaginação nem do pensamento, quer dizer, a segunda, mais do que a primeira, indesenvolvida nas crianças. Estas considerações tocaram no símbolo. Ajudam-nos a compreendê-lo. O símbolo é o modo de pensar dos imaginativos (nos que são inintelectuais, habitual; nos que são intelectuais, voluntário, se assim se pode dizer). Primeiramente, primitivamente, o homem, em quem ainda se não tinha diferenciado imaginação e razão, pensou por símbolos, por imagens, por metáforas. ...... A imaginação nasce primitivamente da emoção, e da imaginação nasce depois a razão, como irmã. Mas — não sendo criadas — cada qual está já contida na anterior. Temos assim que a evolução mental humana é do seguinte modo: (inserir esquema da pág. 125) 1º a repetição das sensações forma a memória A sensação, persistindo, vai deixando alguma coisa que pela memória se vai tornando permanente. Esta permanência da sensação é o sentimento. Mas, a par disto o mesmo processo deu-se quanto à inteligência: a memória ideativa (a outra é a afectiva, mas está combinando-se) também se constituiu pela repetição das representações; como se forma, quanto à parte afectiva da psique, o sentimento, forma-se, quanto à parte intelectual, a noção, uma ideia das coisas. A mesma permanência que forma, sentimentalmente, o sentimento, forma intelectualmente a noção. Forma [?] [...] do impulso, repetido — o desejo. Temos assim o segundo grau da evolução mental. Noção — sentimento — desejo. O 1º era aquele em que estavam estes 3 elementos virtuais na vida — sensação-impulso que eram uma unidade mais homogénea. Mas os outros 3 não tinham uma unidade; é preciso não o esquecer. Mais heterogénea, porém, esta unidade começa nos seus 3 elementos a influenciar-se mutuamente, ajudando a desenvolver o que cada um em si tem. Mas os sentimentos e os desejos compelem o ente, quando os sente, a associar-lhes noções que a memória afixara a certos sentimentos e desejos, qua associações no passado. Nasce assim a imaginação. Paralelamente, a influência dos desejos e das noções ou ideias nos sentimentos fazem com que estes, ao ser recordados e incitados por meio de imagens e lembranças, formem uma nova coisa: a emoção (da qual o exemplo é o medo). E com respeito ao desejo o mesmo acontece, sendo o resultado a paixão. (Paixão, emoção e imaginação são três partes de um todo; p. ex: no medo, há imanente a imaginação representativa do perigo, a emoção do medo e a paixão do temor levando à acção de fugir — o que se concebe, o que se sente e o que se é impelido). É este o 4º grau da evolução mental. À medida porém que no cérebro nascem representações imaginativas (i. é, impulsos de [...] imediata) o ente associa-os como sensações: temos o pensamento. Pensamento ainda não distante da imaginação. Todas estas faculdades são, não nos devemos esquecer, desenvolvimentos de uma só: a consciência. Essa consciência entra através de todas essas manifestações. Estas faculdades formam camadas. Por ex., a imaginação artística não é a do período da imaginação, mas sim essa (já radicada) + o pensamento abstracção. 1) A 1ª arte (já das aves) é a música. 2) A memória não é um fenómeno inteligente; é um fenómeno da consciência. 1925? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 124. 1. Chama-se ciência ao modo de actividade (intelectual) humana que investiga as leis — isto é, as relações constantes — das coisas. Não há ciência senão das relações entre as coisas; porque de uma coisa isolada não pode haver ciência, nada se concluindo da existência de uma coisa isolada senão o mero facto de que essa coisa existe. Mesmo a investigação da natureza de uma coisa qualquer não é senão a investigação d'aquilo em que essa coisa difere de, ou se parece com, outras coisas. 2. As relações entre as coisas são de três ordens conforme resultem da mera comparação das coisas umas às outras, das influências de umas sobre outras, ou da origem de uma com respeito às outras (...) A matemática é a ciência que trata das dimensões das coisas, (consideradas simplesmente como coisas) (...) A álgebra trata das dimensões das coisas consideradas abstractamente como dimensões. A aritmética trata das dimensões das coisas consideradas com referência a uma determinada coisa — chamada unidade, nos termos — isto é, com respeito à dimensão — da qual — todas as outras coisas são expressas. A geometria (é aquela parte da mat[emática] que) trata das dimensões das coisas consideradas como existindo no espaço. Tudo quanto existe no espaço tem um volume, isto é, um modo de ser pelo qual é acessível à vista, ou que pode ser considerado como sendo acessível à vista. — Assim uma imaginável estrela qualquer que possa estar tão longe que nenhum telescópio nosso a torne visível, ou uma imaginável parcela mínima de matéria, tão pequena que nenhum microscópio nosso no-lo traga aos olhos, são ainda assim tidas por visíveis — uma se estivesse mais perto ou tivéssemos telescópios mais fortes, outra se tivéssemos microscópios mais aperfeiçoados. Nota. É preciso não confundir volume com massa. O movimento (base da realidade concreta) não é visível; o que é visível é o que se move; o movimento não ocupa espaço (cf. arg[umen]to de Zenão; confusão do movimento com a massa que se move), as coisas que se movem é que o ocupam. A realidade das coisas consideradas estaticamente (sem referência a dinamicamente) é apenas uma realidade abstracta. Ax[iom]a do movimento toma em conta a massa (há aqui um pulo da geometria para a mecânica, porque nada geométrico habilita a compreender a massa ) (não é a massa o essencial: é o movimento; a massa é ela própria (certo ?) um resultado de um movimento) (Por isso a mecânica é a primeira ciência concreta). (Por isso a mat[emáti]ca não tem valor prático senão aplicada, isto é, aplicada a outras ciências que, elas, estão em relação e são directamente aplicadas à realidade) — O que é que distingue o cubo-realidade do cubo-abstracção? — lº a imperfeição ; 2º a massa ; (...) s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 255. Tudo é encontrar qualquer coisa. Mesmo perder é achar o estado de ter essa coisa perdida. Nada se perde; só se encontra qualquer coisa. Há no fundo deste poço, como na fábula, a Verdade. Sentir é buscar. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 228. "Fase confessional", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares , Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986. Tenho uma ideia comigo Tenho uma ideia comigo De que não quero falar. Se a ideia fosse um postigo, Era p’ra te ver passar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 101. Meu Bebezinho mau: Tenho que estar em casa hoje exactamente ao meio-dia. Não posso, por isso, aparecer à hora combinada. Quero ver se consigo encontrar o Osório para ele entregar esta carta entre o meio-dia e o meio-dia e meia-hora. Podes aparecer amanhã nas proximidades da Livraria Inglesa, como de costume, às 11 horas ( onze )? Parece-me que essa hora, pelo menos durante uns dias, será melhor que o meio-dia. Amanhã às onze, se puderes aparecer, eu te explico melhor. Adeus, meu amor pequenino. Imensos beijos do teu, sempre e muito teu Fernando l6-IV-1920 16-4-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 15. Os efeitos da guerra sobre a literatura dependem em parte das consequências políticas da guerra. A determinação d'esses efeitos depende, portanto, da determinação — por enquanto muito difícil, sobretudo nos seus detalhes que para o caso muito importam — d'estas consequências. Há efeitos literários, porém, que a guerra produzirá simplesmente como guerra, independentemente dos seus resultados políticos, só pela perturbação da sua prolongada presença. Não é difícil determinar esses efeitos, que são de três ordens. A literatura das criaturas inferiores — dos Georges Ohnet, dos Anatole France, dos Edmond Rostand — sofrerá uma grande transformação. Essa pobre gente, que, no longo e injusto período de paz entre a guerra de 70 e hoje, se aplicou a ter atitudes superiores, sem que para isso houvesse nascido, passará a interessar-se mais pelas grandes realidades da vida, que a guerra, presença quotidiana da Morte, deixará bem lembradas. Eles tornar-se-ão ao mesmo tempo mais humanos e mais modestos. Abandonarão a difícil tarefa de ter opiniões, mesmo alheias, e sentimentos estéticos, mesmo próprios; passarão a ter uma orientação psíquica plebeiamente comedida, como convém a gente que escreve para o chamado «grande público» (deputados, costureiras e membros das Sociedades nacionais de belas-artes). E assim este género de sapateiros, que hoje tocam o rabecão da arte para os ouvidos da estupidez cosmopolita, passará a trabalhar no único sentido que Deus lhes permitiu — o folhetim patriótico ou amoroso, mais quotidiano do que nunca. A literatura dos novos românticos (futuristas e cubistas) desaparecerá por completo, dada a necessidade de reconstruir as cidades e as pontes. O campo da literatura superior (cuidadosa e esotericamente vedado aos olhares do público) ficará definitivamente entregue à grande geração que completará a céu e estrelas a obra doentia iniciada pelos simbolistas. A grande arte futura levará ao seu luminoso extremo a atitude decadente, que cultivará com escrúpulo. Essa arte será toda de desdém pelo povo, de aversão pelos velhos temas do amor, da glória e da vida, de indiferença pela pátria, pela religião, pela humanidade, por todas as coisas com que a sinceridade dos ignóbeis se preocupa. Será o anarquismo dos superiores, sem explicação, sem utilidade e sem desculpa. Orgulha-me constatar que alguns raios d'essa luz futura tocam já, com seu fulgor mortiço, o pendão do MOVIMENTO SENSACIONISTA, que, revelado primeiro através de «Orpheu», de dia para dia conta em Portugal, seu país de origem, um número maior de aderentes. FERNANDO PESSOA Sensacionista 1915? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 139. EU Sou louco e tenho por memória Uma longínqua e infiel lembrança De qualquer dita transitória Que sonhei ter quando criança. Depois, malograda trajectória Do meu destino sem esperança, Perdi, na névoa da noite inglória O saber e o ousar da aliança. Só guardo como um anel pobre Que a todo o herdado só faz rico Um frio perdido que me cobre Como um céu dossel de mendigo, Na curva inútil em que fico Da estrada certa que não sigo. 24-9-1923 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 53. TO ONE SINGING O voice the angels kissed when unbreathed yet! O lips made spiritual with uttering it! O eyes wild with the lust of the divine In thy felt presence, making thee its shrine! O that this moment of thee were Thyself! That thou ne’er fell'st from this Thou, and the pelf Of gathered days with avarice of living, Touched thee not from this moment of God's giving! O eternal actuality of thee! O by thy voice sculptured immutably In some stone‑flesh of spirit! O set free From being all contained in being seen! O firmament of joy purely serene With spaciousness of soul and stars of song Above thyself, God's human heights among! Sing on, and let thy singing be a couch To that of me which to my soul doth vouch Of God as of a self and of a home! Dissolve me to thy notes! Make me become An outside of myself, and have in me Nought but a selfless sense of hearing thee! Let me pertain to the sounds thou dost voice! Let me be other than I and rejoice Hearing time like a breeze pass by the place Thy song imprisons in its halcyon grace! Thy voice compels to parapets from heaven Dim winged happinesses whence is woven To our souls such a glamour, spirit‑fair, That, feeling it, all life becomes despair And all the sense of life to wish to die. Sing on! Between the music's human cry And thy song's meaning there is interposed Some third reality, less life‑enclosed, Some subtler tenderness than music makes Or words sung, and its moonless moonlight takes Our visionary moods by their child‑hand And our tired steps begin to understand. Sing, nor stop singing till bliss ache too much! O that I could, without moving my hand, Stretch forth some hand imaginary and touch That body of thine thy singing giveth thee! That kiss‑like touch would wake eternity In me again, and, as by a great morn, The night my body makes of me were torn Away from being, and my unbodied shape Would, like a ship doubling the final cape, Come to that sight of port and shiver of coming That God allows to those whose bliss of roaming Is no more than the wish to find His peace And mingle with it as a scent with the breeze. s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 404. Poetas: de construção; de intensidade; de profundeza. A. O tipo normal do poeta de construção é, não um sentimento muito intenso nem muito profundo, mas de certo, médio, modo, intenso, e não necessariamente de igual modo profundo. Tipo do poeta de construção há os gregos no alto grau, e, no baixo grau, Corneille, Racine, etc. B. O tipo normal e puro do grande poeta de intensidade é uma construção firme mas curta, incapaz de construir complexidades, e uma profundeza média. Victor Hugo é o melhor exemplo do tipo puro destes poetas. C. Poeta profundo envolve [?] poeta de pensamento original, visto que nada há de profundo em transferir literalmente pensamento profundo alheio; e pouco transferir não-literalmente é poesia sem um pensamento original para lhe poder dar outra forma. Ainda assim este último é o grau médio, ou entre médio e grande, da profundeza. (Wordsworth’s Ode , Junqueiro, Luz ). O poeta de profundeza é tipicamente incapaz de construir mesmo na extensão do poeta intenso; o pensamento é, de sua natureza, concentrado. Raras vezes é intenso o poeta de profundeza. Tipo de poeta de profundeza é Antero. Outro tipo é Pascoaes, que falha ao querer dar ou construção, ou intensidade. Tipos mistos: Poetas de intensidade e construção: Milton (?), Junqueiro ( “Pátria”) — Junqueiro tem profundeza média — , Dante Poetas de construção e profundeza: Goethe (a construção um tanto estragada pela profundeza) . Poetas de intensidade e profundeza: Wordsworth (?), Coleridge (?), Browning (?). Intensidade é saber manter através do seu desenvolvimento um tema qualquer (Ou, se [...] chamar, arte, que é isso — não há desta intensidade” na Salomé de Eugénio de Castro). 1914? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 127. Nota — Se o movimento não ocupa espaço, o que é ele? Imp[ortante]! — Consoante se admita que o espaço (etc. — abstracto), ou o movimento, ou (...) é a base das coisas, se admitirá que a base delas é a ideia, ou a vontade, ou a emoção. Uma lei é uma relação constante que o espírito nota entre as coisas, e que, pela sua constância pressupõe invariável. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 256. Esperar pelo melhor é preparar‑se para o perder: eis a regra. O pessimismo é bem grande, é fonte de energia. 1910? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 228. Andorinha que vais alta, Andorinha que vais alta, Porque não me vens trazer Qualquer coisa que me falta E que te não sei dizer? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 101. Frescura do que é regado, Frescura do que é regado, Por onde a água inda verte... Quero dizer-te um bocado Do que não ouso dizer-te. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 73. Meu Bebezinho lindo: Não imaginas a graça que te achei hoje à janela da casa de tua irmã! Ainda bem que estavas alegre e que mostraste prazer em me ver (Álvaro de Campos). Tenho estado muito triste, e além disso muito cansado. — triste não só por te não poder ver, como também pelas complicações que outras pessoas têm interposto no nosso caminho. Chego a crer que a influência constante, insistente, hábil dessas pessoas; não ralhando contigo, não se opondo de modo evidente, mas trabalhando lentamente sobre o teu espírito, venha a levar-te finalmente a não gostar de mim. Sinto-me já diferente; já não és a mesma que eras no escritório. Não digo que tu própria tenhas dado por isso; mas dei eu, ou, pelo menos, julguei dar por isso. Oxalá me tenha enganado... Olha, filhinha: não vejo nada claro no futuro. Quero dizer: não vejo o que vai haver, ou o que vai ser de nós, dado, de mais a mais, o teu feitio de cederes a todas as influências de família, e de em tudo seres de uma opinião contrária à minha. No escritório eras mais dócil, mais meiga, mais amorável. Enfim... Amanhã passo à mesma hora no Largo de Camões. Poderás tu aparecer à janela? Sempre e muito teu 27/4/1920 Fernando 27-4-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 16. Manifesto: Toda a arte antiga baseava-se n'um elemento; isto tanto acontece à arte clássica, do paganismo, como à arte da Renascença, como à arte romântica. Só modernissimamente se começou a fazer evoluir a arte para fora d'este vetusto e rígido molde. Os gregos e os romanos (e com eles os homens da Renascença, mais esbatidamente) pretendiam dar a sensação que sentiam perante determinado objecto ou assunto de modo a vincar fortemente a realidade d'esse objecto. Os românticos viram, porém, que a realidade, para nós, não é o objecto, mas sim a nossa sensação d'ele. Curaram mais, por isso, de dar a sensação do objecto, do que o objecto propriamente dito; longe de se afastarem da Realidade, procuraram-na, visto que a sensação do objecto é que é a Realidade verdadeira, e não o objecto concebido como existindo fora da nossa sensação, visto que fora da nossa sensação não existe nada, pois que para nós a nossa sensação é o critério de existência. O homem é a medida de todas as coisas; a frase de Protágoras vale pela verdade, no seu sentido total e abstracto. A interiorização produzida pelo cristianismo levou os homens a reparar (primeiro inconscientemente) para o facto de que a realidade, o facto real, não é o objecto mas a nossa sensação d'ele, onde ele existe. Fora d'isso existirá ou não; não o sabemos. Mas o romantismo viu pouco. O facto é que a Realidade verdadeira é que há duas coisas — a nossa sensação do objecto e o objecto. Como o objecto não existe fora da nossa sensação — para nós, pelo menos, e isso é o que nos importa — segue que a realidade verdadeira vem a ser contida nisto: na nossa sensação do objecto e na nossa sensação da nossa sensação. A arte clássica era uma arte de sonhadores e de loucos. A arte romântica, apesar da sua maior intuição da verdade, era uma arte de homens que adolescem para a noção real das coisas, sem estarem ainda adultos de sentidos perante ela. A realidade, para nós, é a sensação. Outra realidade imediata não pode para nós existir. A arte, seja ela o que for, tem de trabalhar sobre este elemento, que é o único real que temos. O que é a arte? A tentativa de dar dos objectos — entendendo por objectos, não só as coisas exteriores, mas também os nossos pensamentos e construções espirituais — uma noção quanto possível exacta e nítida. A sensação compõe-se de dois elementos: o objecto e a sensação propriamente dita. Toda a actividade humana consiste na procura do absoluto. A ciência procura o Objecto absoluto — isto é, o objecto quanto possível independente da nossa sensação d'ele. A arte procura a Sensação absoluta — isto é, a sensação quanto possível independente do Objecto. A filosofia (isto é, a Metafísica) busca a relação absoluta do Sujeito (Sensação) e do Objecto. Ora a Arte busca a Sensação em absoluto. Mas a sensação, como vimos, compõe-se do Objecto sentido e da Sensação propriamente tal. Intersecção do Objecto consigo próprio: cubismo. (Isto é, intersecção dos vários aspectos do mesmo Objecto uns com os outros). Intersecção do Objecto com as ideias objectivas que sugere: Futurismo. Intersecção do Objecto com a nossa sensação d'ele: Interseccionismo, propriamente dito; o nosso. 1915? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 140. Não: não digas nada! Supor o que dirá A tua boca velada É ouvi-lo já. É ouvi-lo melhor Do que o dirias. O que és não vem à flor Das frases e dos dias. És melhor do que tu. Não digas nada; sê! Graça do corpo nu Que invisível se vê. 5/6-2-1931 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 132. THE FORESELF I had a self and life Before this life and self. When the moon makes woods rife With possible fay or elf, There comes in me a dreaming That is like a light gleaming Somewhere in me away, On seas that I have known And placeless lands that own Another kind of day. I dream, and as a blast Fans into fire an ember, My heart gleams with a past That I cannot remember. And as the ember's glowing Is not fire but fire's showing, I waste the empty pelf Of my mute sense of me. As rain within the sea I fade within myself. There are mazes of I. I am my unknown being. I have, I know not why, Another kind of seeing (Other than this vain vision That is my soul's division From what girds sight about) Where to see is to know, Whose life is faith, and woe Fled by the hand of Doubt. My life has happy hours: 'Tis when I feel not living; And, as the scent of flowers Round flowers a flower‑soul weaving That is a corporate spirit, From myself I inherit, My soul's blood's spirit‑air, A foreself and inself Which is the being‑pelf That with God's loss I share. 10-11-1913 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 406. Quem escreve para obter o supérfluo como se escrevesse para obter o necessário, escreve ainda pior do que se para obter apenas o necessário escrevesse. 1925? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 128. GEOMETRIA Esta obra é pequena, como pequenas eram as naus e as caravelas, com que nós, portugueses, descobrimos o mundo que há hoje, e criámos a civilização que os outros usam. Esta obra é fácil de compreender até onde pode chegar a compreensão. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 257. Let us not curse, let us not sneer at man that the sentiment of this pain is primary and conducive to the sentiment of another’s pain. Let us not smile that it is by egotism and by selfishness that men pass to altruism. Like all human things this is a matter for tears. 1910? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 228. Tenho um lenço que esqueceu Tenho um lenço que esqueceu A que se esquece de mim. Não é dela, não é meu, Não é princípio nem fim. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 102. Ó pastora, ó pastorinha, Ó pastora, ó pastorinha, Que tens ovelhas e riso, Teu riso ecoa no vale E nada mais é preciso. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 73. Meu Bebé mauzinho (e muito): Recebi ontem, no Apartado, as tuas duas cartinhas, a de 25 e a de 27, uma de manhã e outra de tarde. Também passei o dia de ontem sem receber carta tua e muito desconsolado por isso. Ontem não houve meio de te escrever; estou escrevendo hoje, 29, às 7 1/2 da manhã. Acabo de me levantar, e estou aproveitando este sossego para te escrever. Então o meu Bebé tem estado triste ? O Nininho também tem tado . E o Nininho não gostou ontem de, quando passou, ter dado espectáculo, por estarem várias pessoas (não me pus a reparar em quem eram) à outra janela, à janela da esquina. Apenas reparei que essas pessoas estavam a seguir os meus movimentos; por essa razão, embora tencione passar hoje ao meio-dia, como de costume, é possível que o faça só pelo passeio do lado da casa de tua irmã. Não sei se receberás esta carta antes dessa hora, pois naturalmente não terei oportunidade de ta mandar senão à roda dessa hora mesmo. Naturalmente irá pelo Osório. Não, não me tenho esquecido do retrato, mas tive sempre uma certa embirração por tirar retratos. Em todo o caso, tirá-lo-ei. Talvez meus irmãos mesmo mo tirem. O snr. Crosse mandou antes de ontem uma resposta a concurso, e ontem outra; e hoje vai outra ainda. As duas primeiras são de concursos pequenos, e não há esperança neles. A que vai hoje é de um concurso vulgar, de 250 libras. Uma que deve ir por estes dias é que é de mil libras, ou, antes, para o concurso de mil libras, que fecha em 13 de Maio próximo. Há, portanto, tempo. Perguntas se a Rua Saraiva de Carvalho fica longe daqui. Não: fica muito perto; é a rua ao lado desta. Depende, porém, da parte da rua a que te referes. A Rua S. de C. é muito comprida; parte dela é aqui ao voltar a esquina. O princípio é perto do Rato, o fim no Cemitério dos Prazeres. A Rua Coelho da Rocha é perto do fim. Hei-de ver se posso passar hoje (e os dias seguintes) mais umas vezes no Largo. Não sei a que horas, porém, e peço-te que não vás estorvar o que tenhas que fazer, só por estares à janela ou ao pé da janela. Teria muita alegria em te ver cada vez que passasse, mas não desejaria que interrompesses o teu trabalho por isso. Adeus, Bebé pequenino; muitos beijinhos do teu, muito teu Fernando 29/4/1920 P.S. O postal inglês tem por brasão [ ? ] isto: «Nem postal, nem carta, nem nada!» 29-4-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 17. 1. A sensação como realidade essencial. 2. A arte é personalização da sensação, isto é, a substracção da sensação é ser em comum com as outras. 3. 1ª regra: sentir tudo de todas as maneiras. Abolir o dogma da personalidade: cada um de nós deve ser muitos. A arte é aspiração do indivíduo a ser o universo. O universo é uma coisa imaginada: a obra de arte é um produto de imaginação. A obra de arte acrescenta ao universo a quarta dimensão de supérfluo. (?????) 4. 2ª regra: abolir o dogma da objectividade. A obra de arte é uma tentativa de provar que o universo não é real. 5. 3ª regra: abolir o dogma da dinamicidade. A obra de arte visa a fixar o que só aparentemente é passageiro. 6. São estes os três princípios do Sensacionismo considerado apenas como arte. 7. Considerado como metafísica, o Sensacionismo visa a não compreender o universo. A realidade é a incompreensibilidade das coisas. Compreendê-las é não compreendê-las. 1915? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 141. Ou o infinito se pode aplicar à matéria ou não. Admitamos que se pode. Há-de então aplicar-se por multiplicação e por divisão. Dividamos infinitamente o átomo A. Temos A / ¥ = 0 Donde se conclui Ou 1) a matéria é infinitamente multiplicável, mas não infinitamente divisível; Ou 2) a matéria nem é uma coisa nem outra; Ou 3) a matéria não existe, a sua essência sendo zero. 1907? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 62. Sangra-me o coração. Tudo que penso A emoção mo tomou. Sofro esta mágoa Que é o mundo imoral, regrado e imenso, No qual o bem é só como um incenso Que cerca a vida, como a terra a água. Todos os dias, oiça ou veja, dão Misérias, males, injustiças — quanto Pode afligir o estéril coração. E todo anseio pelo bem é vão, E a vontade tão vã como é o pranto. Que Deus duplo nos pôs na alma sensível Ao mesmo tempo os dons de conhecer Que o mal é a norma, o natural possível, E de querer o bem, inútil nível, Que nunca assenta regular no ser? Com que fria esquadria e vão compasso Que invisível Geómetra regrou As marés deste mar de mau sargaço — O mundo fluido, com seu tempo e espaço, Que ele mesmo não sabe quem criou? Mas, seja como for, nesta descida De Deus ao ser, o mal teve alma e azo; E o Bem, justiça espiritual da vida, É perdida palavra, substituída Por bens obscuros, fórmulas do acaso. Que plano extinto, antes de conseguido, Ficou só mundo, norma e desmazelo? Mundo imperfeito, porque foi erguido? Como acabá-lo, templo inconcluído, Se nos falta o segredo com que erguê-lo? O mundo é Deus que é morto, e a alma aquele Que, esse Deus exumado, reflectiu A morte e a exumação que houveram dele. Mas está perdido o selo com que sele Seu pacto com o vivo que caiu. Por isso, em sombra e natural desgraça, Tem que buscar aquilo que perdeu — Não ela, mas a morte que a repassa, E vem achar no Verbo a fé e a graça — A nova vida do que já morreu. Porque o Verbo é quem Deus era primeiro, Antes que a morte, que o tornou o mundo, Corrompesse de mal o mundo inteiro: E assim no Verbo, que é o Deus terceiro, A alma volve ao Bem que é o seu fundo. 26-4-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 101. O GRÉMIO DA CULTURA PORTUGUEZA assenta os seus intuitos nos seguintes fundamentos: (1) Não há separação essencial entre os povos que falam a língua portuguesa. Embora Portugal e o Brasil sejam politicamente nações diferentes, não são nações diferentes, contêm por sistema [?] uma direcção imperial comum, a que é mister que obedeçam. (2) A missão imperial a que têm que obedecer as duas nações que formam o Império Português encontra-se estabelecida nas seguintes origens: (a) como memória e tradição, a fundação da civilização universal moderna pelo Infante D. Henrique, (b) como propósito e utopia, a criação, pelos Sebastianistas, da ideia de um Império Português, designado como o Quinto Império, e formado em bases diversas das de todos os impérios passados, (c) como tipo de acção, a concentração em uma unidade espiritual, a criar progressivamente, da tradição em que assenta a razão histórica do Quinto Império, e da esperança em que reside a razão religiosa d'ele. (3) Acima da ideia do Império Português, subordinado ao espírito definido pela língua portuguesa, não há fórmula política nem ideia religiosa. (4) Para fixação dos meios materiais do Império, há que adoptar a fixação da linguagem, e, antes de mais nada, a ortografia etimológica, excluindo as extravagâncias simplificadoras criadas pela influência da política estrangeira. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 110. THE BRIDGE Kisses on me like dew Pour, and it shall be morn My waked spirit through. My bowed, greyed head adorn With bays, that I may view My shadow crowned and smile even as I rnourn Although my head is bent, Thy feet, sandalled with hope, Pass and are eloquent I' th' way they do not stop. Somewhere i'th' grass they are blent With that of me that does for meanings grope Let us be lovers aye, Out of all flesh agreeing, Lovers in some new way That needs not words nor seeing. Thus abstract, our love may Not ours, be but a vague breath of Pure Being s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 408. A inteligência elabora elementos vindos do exterior, isto é, trabalha sobre dados dos sentidos. Esses dados são de três espécies — os que são propriamente sensações, dados directos dos sentidos; os que resultam da transmissão directa de sensações e impressões alheias, colhida no convívio social; e os que resultam de influências indirectas, impressões colhidas em livros, em museus, em laboratórios. Os dados directos dos sentidos são, em si mesmos, necessariamente limitados, pois cada um de nós é só quem é: não vê senão com os próprios olhos, nem ouve senão com os próprios ouvidos. Não vemos nem ouvimos bem e profundamente senão quando a inteligência, ampliada pelos outros dois factores ou por qualquer deles, amplia as nossas sensações, com as quais insensivelmente colabora. Vemos e ouvimos melhor — no sentido de mais completa e interessantemente — quanto mais ampla e informada é a inteligência que está por trás do nosso ver e ouvir. Por isso com razão disse Blake: “Um néscio não vê a mesma árvore que vê um sábio”. (Um néscio e um sábio não vêem a mesma árvore). Segue, pois, que os dados do exterior serão tanto mais completos e sugestivos quanto maior for a formação da inteligência pelas impressões colhidas no convívio social, ou pelas impressões colhidas em livros, museus, em laboratórios. À soma das primeiras impressões chamamos vulgarmente experiência, cultura à soma das segundas. Estes dois elementos, directo e indirecto, reflectem-se um no outro: o convívio social será um elemento importante ou não na formação mental conforme a cultura da sociedade com que se convive. A cultura é o elemento importante — quer se receba directamente, pela leitura ou o estudo, quer se receba indirectamente, pelo convívio com os que a têm. “Só um parvo”, disse Bismarck, “aprende pela experiência; eu aprendi sempre na experiência alheia”. A cultura, porém, não é um resultado inevitável; não existe se não houver no indivíduo a capacidade de cultura, e existe no indivíduo, como resultado, na proporção em que existe essa capacidade. A cultura é um alimento mental, e o alimento, para que nutra, tem que ser assimilado. Assim o a quem chamamos um homem culto é aquele que tem a capacidade de assimilar cultura, de transmudar as influências culturais em matéria própria do seu espírito, e o que de facto adquire essas influências. De resto, a capacidade de cultura leva o indivíduo inevitavelmente a procurar cultura. Há três tipos de cultura — a que resulta da erudição, a que resulta da experiência translata, e a que resulta da multiplicidade de interesses intelectuais. A primeira é produzida pelo estudo paciente e aturado, pela assimilação sistematizada dos resultados desse estudo. A segunda é produzida pela rapidez e profundeza naturais do aproveitamento do que se lê ou vê e ouve. A terceira é produzida, como se disse, pela multiplicidade de interesses intelectuais: nenhum será profundo, nenhum será dominante, mas a variedade alargará o espírito. Daremos exemplos de todas do que existiram em três grandes poetas: vemos a primeira em Milton, que se preparou conscientemente para a sua obra poética — qualquer que houvesse de ser, pois em jovem não sabia qual seria — pela posse do grego, do latim, do hebreu e do italiano (todos os quais não só lia, mas escrevia), e pelo estudo dos clássicos em as duas primeiras línguas. Vemos a segunda em Shakespeare, pessoa pouco lida e estudada, mas intenso e profundo em aproveitar tudo que via e ouvia, a ponto de involuntariamente simular uma erudição que verdadeiramente não tinha. Vemos a terceira em Goethe, que nem tinha a erudição de Milton nem a ultra-assimilação de Shakespeare, mas cuja variedade de interesses, abrangendo todas as artes e quase todas as ciências, compensava na universalidade o que perdia em profundeza ou absorção. Um poeta que saiba o que são as coordenadas de Gauss tem mais probabilidades de escrever um bom soneto de amor do que um poeta que o não saiba. Nem há nisto mais que um paradoxo aparente. Um poeta que se deu ao trabalho de se interessar por uma abstrusão matemática tem em si o instinto da curiosidade intelectual, e quem tem em si o instinto da curiosidade intelectual colheu por certo, no decurso da sua experiência da vida, pormenores do amor e do sentimento superiores aos que poderia ter colhido quem não é capaz de se interessar senão pelo curso normal da vida que o afecta — a manjedoura do ofício e a arreata da submissão. Um é mais vivo que o outro pelo menos como poeta: de aí a relação subtil entre as coordenadas de Gauss e a Amaryllis do momento. Um é um homem que é poeta, o outro um animal que faz versos. 1924? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 129. (1) A base da geometria é o sólido, considerado apenas como ocupando espaço, isto é, considerado apenas como corpo visível. Por uma série de abstracções, de que aquela é o ponto de partida, se obtêm os vários conceitos, em que a geometria assenta. São pois dois os conceitos fundamentais da geometria: o de sólido, e o de espaço. O espaço é considerado como ilimitado, isto é, como infinito. E este conceito de infinito ou de ilimitado penetra toda a estrutura da geometria, aparecendo já na ideia da produtibilidade infinita da recta, já na noção de encontro no infinito de duas rectas paralelas. O ilimitado, porém, é simplesmente aquilo a que se não pode conceber um limite. Ora o outro conceito, o de sólido, é de uma coisa a que se não pode conceber (...) s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 258. No man is normal, perfect — this is true. A normal man were a man incapable of being affected by disease. For every disease (as I think) predisposition is necessary, a predisposition of the organism to disease. The degree of predisposition is the degree of abnormality. Every disease supposes predisposition to it, even as every real thing supposes its own personality, since it is real. 1910? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 229. Duas horas vão passadas Duas horas vão passadas Sem que te veja passar. Que coisas mal combinadas Que são amor e esperar! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 102. A abanar o fogareiro A abanar o fogareiro Ela corou do calor. Ah, quem a fará corar De um outro modo melhor! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 74. Meu Bebé pequenino: Então o meu Bebé fez-me uma careta quando eu passei? Então o meu Bebé, que disse que me ia escrever ontem, não me escreveu? Então o Bebé não gosta do Nininho? (Não é por causa da careta, mas por causa de não escrever) Olha, Nininha; e agora a sério: achei que tinhas um ar alegre hoje, que mostravas boa disposição. Também pareces ter gostado de ver o Ibis, mas isso não garanto, com medo de errar. Ainda fazes muita troça do Nininho? (A. de C.). Não sei se irei amanhã a Belém; o mais provável, como te disse, é que vá. Em todo o caso, já sabes: depois das 6.30 não apareço, de modo que escusas de esperar pelo Ibis para além dessa hora. Ouvistaste? Muitos beijos e um abraço à roda da cintura do Bebé, Sempre e muito teu Fernando 6.5.1920 6-5-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 18. O Sensacionismo é: 1. Um subjectivismo, como o romantismo. 2. (...) Os 3 elementos do sensacionismo 1. O que começou com Walt Whitman : (...) 2. O que começou com os simbolistas : (...) 3. O que começou no cubismo e no futurismo — (…) 1915? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 142. THE KING OF GAPS There lived, I know not when, never perhaps­ - But the fact is he lived - an unknown king Whose kingdom was the strange Kingdom of Gaps. He was lord of what is twixt thing and thing, Of interbeings, of that part of us That lies between our waking and our sleep, Between our silence and our speech, between Us and the consciousness of us; and thus A strange mute kingdom did that weird king keep Sequestered from our thought of time and scene. Those supreme purposes that never reach The deed - between them and the deed undone He rules uncrowned. He is the mystery which Is between eyes and sight, nor blind nor seeing. Himself is never ended nor begun, Above his own void presence empty shelf. All He is but a chasm in his own being, The lidless box holding not‑being's no‑pelf. All think that he is God, except himself. s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 410. Por um púcaro de barro Por um púcaro de barro Bebe-se a água mais fria. Quem tem tristezas não dorme, Vela para ter alegria. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 44. Manjerico que te deram, Manjerico que te deram, Amor que te querem dar... Recebeste o manjerico. O amor fica a esperar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 74. Meu Bebé pequenino: Pelo papel vês de onde te estou escrevendo. Refugiei-me aqui da chuva, e, como com isso atrasei várias coisas que tinha que fazer, não poderei ir às 6 horas a Belém acompanhar a Nininha até Lisboa. Estou um pouco melhor (de saúde, não de juízo), mas ainda me sinto bastante mal disposto. Amanhã (salvo doença ou outra coisa que estorve) passo na tua rua entre as 11 e as 11.30. Se o Bebezinho quiser estar à janela, vê o Nininho passar. Se não quiser, não o vê (É autor desta última frase o meu querido amigo Álvaro de Campos). Que pena a fábrica em Belém não ter telefone. Se tivesse eu poderia avisar-te de que não ia, nos dias em que não pudesse ir; e escusava a Ibis do Ibis de esperar pelos Ibis. Adeus, Bebé queridinho: muitos beijinhos do mau do teu e sempre teu Fernando 22/5/1920 22-5-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 19. O Sensacionismo: A atitude sensacionista resolve-se em três elementos: (1) Sensacionismo analítico — ou intelectual: Interseccionismo. --- «Chuva Oblíqua», etc. (2) Sensacionismo sintético — (...) 1915? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 143. O nacionalismo é um patriotismo activo. Pretende defender a pátria das influências que possam perverter a sua índole própria, venham essas influências de dentro, como certos regionalismos, venham de fora, como certos extrangeirismos ou internacionalismos. Há porém regionalismos que não só são inofensivos mas proveitosos à nação; há também influências estrangeiras e internacionais que são úteis e aproveitáveis. O caso é que umas e outras sejam assimiladas, isto é, convertidas na substância da índole nacional. Um exemplo, tirado do campo concreto da linguagem, tornará inteiramente claros estes conceitos que, por abstractamente postos, são necessariamente pouco perspícuos. No Norte, ou pelo menos, no Minho, chama-se loquete ao que em português geral se chama cadeado. Não resulta senão desvantagem de admitirmos esse sinónimo inútil, (...) e obscuro para o Português em geral, no uso corrente da língua comum, falada ou escrita. E, em miniatura, o caso do regionalismo anti-nacional. No Alentejo e no Algarve pronuncia-se én o EN que fora d'essas regiões pronunciamos ân. Se se pudesse introduzir este hábito na linguagem falada de nós todos seria uma vantagem, pois não há senão desvantagem em que EN se pronuncie do mesmo modo que AN, de sorte que surja a confusão absurda entre, por exemplo, sanha e senha. É este, em miniatura, o caso do regionalismo nacional. Certas palavras estrangeiras — como football e soirée — são inter[na]cionais, pois que em todas, ou quase todas, as línguas se empregam em sua forma original, sem tradução. Temos o caso do internacionalismo anti-nacional. Contrariamos a índole da nossa língua introduzindo nela termos estrangeiros, que forçosamente desfeiam o discurso; contrariamos a índole da sua pronunciação, pois ou o leitor os pronuncia bem e está falando outra língua em meio do português, isto é, está falando duas línguas ao mesmo tempo, ou os pronuncia mal e se dá o mesmo caso com ainda maior fealdade. O critério nacionalista é o de empregar o termo legitimamente português para a palavra internacional, ou simplesmente estrangeira, que, por haver já esse termo, inútil e desproveitosamente importámos; e fabricar uma palavra nova, de índole bem nossa, para a palavra estrangeira de que não tivéssemos equivalente. Assim, nos dois casos do exemplo, diríamos velada (que já tínhamos) em vez de soirée, e para football fabricaríamos bolapé, ou pedibola ou coisa parecida. Quando porém a palavra internacional, ainda que de origem estrangeira, se integra naturalmente na nossa índole e o seu uso corresponde a uma necessidade cultural, seríamos anti-nacionais se proscrevêssemos o seu emprego. Recusar-nos-emos a nos servir da palavra neurastenia, porque a devemos ao médico americano Beard? Repugnaremos a palavra (...) s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 111. Não é a «alegria pagã» que nós choramos. Não há alegria pagã. A alegria é humana, e houve tanta alegria na Idade Média como na Grécia antiga. Houve talvez mais alegria na Idade Média do que na Grécia antiga, porque os harmónicos não são fatalmente nem tão tristes, mas também nem tão alegres, como os excessivos e os tresloucados. O que nós choramos é a harmonia e a disciplina pagã, a posse de si próprio que o paganismo instintivamente ensinava. O que nós choramos é a clareza no pensamento e, mais do que isso, a clareza na emoção (???). Não desejamos a clareza na emoção. Desejamos a clareza no pensamento. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 246. Dona Rosa, Dona Rosa,/De que roseira é que vem, Dona Rosa, Dona Rosa, De que roseira é que vem, Que não tem senão espinhos Para quem só lhe quer bem? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 74. O Sensacionismo: 1. Elementos da sensação: (a) Os dois elementos basilares da sensação são o sujeito e o objecto. (A metafísica vê as relações do S[ujeito] e do O[bjecto] através do O[bjecto]. A arte vê-as através do Sujeito). (b) Os elementos reais da sensação são: a Consciência, o Sujeito e o Objecto. Sinto, sinto tal coisa, e sinto que sinto. (c) Decompondo mais: os elementos actuais da sensação são: o universo; o objecto; a sensação imediata do objecto; a atitude mental por detrás d'essa sensação imediata; a consciência por detrás d'essa atitude mental. 1. Sensação do Objecto + ideias (objectivas) associadas à sensação do objecto x ideias subjectivas ass[ociadas] à s[ensação] do o[bjecto] (estado de alma na ocasião) + temperamento da criatura. São estes os quatro elementos componentes da sensação, vendo-a como subjectiva, conforme acontece em arte. — A arte clássica suprimia os dois elementos intermédios, ou fundia-os, a dois e dois (S0+ I.O.A.) x (I.S.A. + BT). Era a arte mais adequada a uma representação nítida e universal das coisas — representação, porém, que pecava por falsa. — A arte da Renascença — neo-classicismo, digamos — transformou a fórmula clássica em (SO+IOA) x ISA x BT — O Romantismo, e as correntes nadas d'ele, implantaram a fórmula: (SO + IOA + ISA) x BT — O Sensacionismo procura chegar à fórmula: SO x IOA x ISA x BT 1915? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 144. Ortografia e aristocracia A linguagem falada é popular. A linguagem escrita é aristocrática. Quem aprendeu a ler e a escrever deve conformar-se com as normas aristocráticas que vigoram n'aquele campo aristocrático. A linguagem falada é nacional e deve ser o mais nacional possível. A linguagem escrita é — ou deve ser — o mais cosmopolita possível. Philosopho deve escrever-se com 2 vezes PH porque tal é a norma da maioria das nações da Europa, cuja ortografia assenta nas bases clássicas ou pseudo-clássicas. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 112. O laço que tens no peito O laço que tens no peito Parece dado a fingir. Se calhar já estava feito Como o teu modo de rir. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 74. A palavra falada é um fenómeno natural; a palavra escrita é um fenómeno cultural. O homem natural pode viver perfeitamente sem ler nem escrever. Não o pode o homem a que chamamos civilizado: por isso, como disse, a palavra escrita é um fenómeno cultural, não da natureza mas da civilização, da qual a cultura é a essência e o esteio. Pertencendo, pois, a mundos (mentais) essencialmente diferentes, os dois tipos de palavra obedecem forçosamente a leis ou regras essencialmente diferentes. A palavra falada é um caso, por assim dizer, democrático. Ao falar, temos que obedecer à lei do maior número, sob pena de ou não sermos compreendidos ou sermos inutilmente ridículos. Se a maioria pronuncia mal uma palavra, temos que a pronunciar mal; diremos anecdóta, embora saibamos que se deve dizer anécdota. Se a maioria usa de uma construção gramatical errada, da mesma teremos que usar: diremos «has de tu compreender», embora saibamos que «has tu de compreender» é a fórmula verdadeira. Se a maioria caiu em usar estrangeirismos ou outras irregularidades verbais, assim temos que fazer: «match de football» diremos, e não «partida de bolapé». Os termos ou expressões que na linguagem escrita são justos, e até obrigatórios, tornam-se em estupidez e pedantaria, se d'eles fazemos uso no trato verbal. Tornam-se até em má-criação, pois o preceito fundamental da civilidade é que nos conformemos o mais possível com as maneiras, os hábitos, e a educação da pessoa com quem falamos, ainda que nisso faltemos às boas-maneiras ou a etiqueta, que são a cultura. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 113. Conselho de Estado (sua constit.) Governo Câmara de deputados Municipalização (antepassados das nacionalizações) ou Nacionalizações: “água, gás, tramways, comboios, minas”. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 157. Gabinete — Político — Com iniciativa Presidente da República Ministro do Interior — iniciativa quanto à vida do país interior Ministro do Exterior — em relação aos outros Ministro das Finanças — quanto à administração Ministro da Defesa — quanto à defesa — Colónias (Nenhum das Colónias porque as Colónias administram-se a si (iniciativas com respeito a elas serão de quem?)) Administração — Sem iniciativa Administrador dos Correios e Telégrafos “          da Tesouraria “          dos Negócios Consulares “          dos Cultos Juntas Junta do Exército “    da Marinha “    da Educação “    de (Agric., Com. e Indústria) Fomento (?) Junta Colonial (1 delegado de cada província). Junta [...] Púb.s, Nação, Correios e Telefones. (?) Junta Federativa (1 delegado de cada província). Todas as coisas de que há vida local directa têm juntas na capital (E o Exército? e a Marinha?) — ? Vida local no que de nacional tem, claro está. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 158. Conselho de Estado Secretários de Estado Rei .................... Estrangeiros Condestável ...... Guerra; Armada (Marinha) Alto chanceler ....Interior; Colónias; Emigrados Chanceler do Reino ........... Justiça; Instrução; Artes e Misteres Chanceler do Governo ....... Fazenda; Comércio e Indústria; Comunicações s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 159. 1. Poder administrativo: Municípios. Conselhos Municipais. Ministério. Ex.: O município não é um parlamento em ponto pequeno; é um ministério com papel restrito. 2. Poder legislativo As Cortes. 3. Poder militar O Condestável. Distinguir cuidadosamente as funções dos municípios, conselhos provinciais e cortes. Por ex.: se os conselhos provinciais têm poderes executivos, podem os seus representantes ter assento em Cortes? Há linha ascendente de continuidade entre os conselhos provinciais e as Cortes? O que compete à edilidade? Por ser um corpo relativo a um território restrito acumula o legislativo e o administrativo? Estes poderes dividem-se depois, ao chegar ao Estado? s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 161. Chanceleres (Conselho de Estado) Estrangeiros (Estado) Interior (Governo) Ultramar Tesouro (Fazenda) (O da defesa é o Condestável) Secretários de Estado (Conselho de Administração ou de Governo) Obras Públicas Instrução Comércio (?) Guerra (Exército) e Segurança Pública Marinha Justiça Agricultura x (Finanças) (Fazenda) x (Estrangeiros [...] e consulares) (Alfândegas [...]) x (Trabalho) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 162. De onde é quase o horizonte Sobe uma névoa ligeira E afaga o pequeno monte Que pára na dianteira. E com braços de farrapo Quase invisíveis e frios Faz cair seu ser de trapo Sobre os contornos macios. Um pouco de alto medito A névoa só com a ver. A vida? Não acredito. A crença? Não sei viver. 4-3-1931 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 133. Ah, tudo é símbolo e analogia! O vento que passa, a noite que esfria São outra cousa que a noite e o vento — Sombras de vida e de pensamento. Tudo que vemos é outra cousa. A maré vasta, a maré ansiosa, É o eco de outra maré que está Onde é real o mundo que há. Tudo que temos é esquecimento. A noite fria, o passar do vento São sombras de mãos cujos gestos são A ilusão mãe desta ilusão. 9-11-1932 “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). - 76. Tudo transcende tudo E é mais real e menos do que é. 1915? Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 5. Fausto no seu laboratório FAUSTO: (só) Ondas de aspiração que vãs morreis Sem mesmo o coração e alma atingir Do vosso sentimento; ondas de pranto, Não vos posso chorar, e em mim subis, Maré imensa rumorosa e surda, Para morrer na praia do limite Que a vida impõe ao Ser; ondas saudosas D'algum mar alto Aonde a praia seja Um sonho inútil, ou d'alguma terra Desconhecida mais que a eterna aura Do eterno sofrimento, e onde formas Dos olhos d'alma não imaginadas Vagam, essências lúcidas e (...) Esquecidas daquilo que chamamos Suspiro, lágrima, desolação; Ondas nas quais não posso visionar, Nem dentro em mim, em sonho, barco ou ilha, Nem esperança transitória, nem Ilusão nada da desilusão; Oh ondas sem brancuras, asperezas, Mas redondas, como óleos e silentes No vosso intérmino e total rumor... Oh ondas d'alma, decaí em lago Ou levantai-vos ásperas e brancas Com o sussurro ácido da espuma Erguei em tempestades no meu ser. Vós sois um mar sem céu, sem luz, sem ar Sentido, visto não, rumorejante Sobre o fundo profundo da minha alma! Lágrimas, sinto em mim vosso amargor! Não vos quero chorar. Se vos chorasse Como chegar — tantas! — ao vosso fim? Chegado ao vosso fim que encontraria? Talvez uma aridez desesperada Uma ânsia vã de não poder trazer-vos Outra vez para mim para chorar-vos Em vã consolação inda outra vez! Não haver alma, inda ideia vã! Havê-la e imortal, sonho pequeno De término[?], embora coerente À sua pequenez. Que mais? Havê-la, Havê-la e ser mortal, morrer num Todo Celeste? Vago, vão. Não haverá Além da morte e da imortalidade Qualquer cousa maior? Ah, deve haver Além de vida e morte, ser, não ser, Um Inominável supertranscendente Eterno Incógnito e incognoscível! Deus? Nojo. Céu, inferno? Nojo, nojo. P'ra quê pensar, se há-de parar aqui O curto voo do entendimento? Mais além! Pensamento, mais além! s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 6. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.81). Vico was indeed right when he declared verum and factum to be identical; we must make to know. (Objection: I can understand an engine without having made it. Reply (half‑insufficient): But I cannot understand it as well as if I made it — the various strength of the various metals. Just in the same way as nothing can be its own cause, so nothing can be conscious of itself, or conceive itself: I am conscious of thought, but I am not conscious that I am conscious. No, I reflect, I come to the conclusion that I am conscious — I am not conscious of consciousness. 1908? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 134. Tudo que sinto, tudo quanto penso, Sem que eu o queira se me converteu Numa vasta planície, um vago extenso Onde há só nada sob o nulo céu. Não existo senão para saber Que não existo, e, como a recordar, Vejo boiar a inércia do meu ser No meu ser sem inércia, inútil mar. Sargaço fluido de uma hora incerta, Quem me dará que o tenha por visão? Nada, nem o que tolda a descoberta Com o saber que existe o coração. 9-5-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 104. XXXI I am older than Nature and her Time By all the timeless age of Consciousness, And my adult oblivion of the clime Where I was born makes me not countryless. Ay, and dim through my daylight thoughts escape Yearnings for that land where my childhood dreamed, Which I cannot recall in colour or shape But haunts my hours like something that hath gleamed And yet is not as light remembered, Nor to the left or to the right conceived; And all round me tastes as if life were dead And the world made but to be disbelieved. Thus I my hope on unknown truth lay; yet How but by hope do I the unknown truth get? s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 186. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. O mistério dos olhos e do olhar Do sujeito e do objecto, transparente Ao horror que além dele está; o mudo Sentimento de se desconhecer, E a confrangida comoção que nasce De sentir a loucura do vazio; O horror duma existência incompreendida Quando à alma se chega desse horror Faz toda a dor humana uma ilusão. Essa é a suprema dor, a vera cruz. Querem desdenhar o teu sentir orgulho Oh, Cristo! Então eu vejo — horror — a íntima alma, O perene mistério que atravessa Como um suspiro céus e corações. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 7. HISTÓRIA DA LITERATURA INGLESA Como a história de um povo é, não tanto a história dos seus grandes homens (ou dos seus grandes feitos), mas a história do que eles significam, assim a história da sua literatura é, não tanto a história dos grandes nomes, que a ilustraram, ou dos grandes movimentos, nos quais se manifestaram esses nomes, mas a história do sentido que esses nomes e esses movimentos tiveram. A literatura de um povo é, na sua vera substância, o que esse povo pensou de si mesmo, e do universo, da sociedade, e do indivíduo, através de si-próprio. Por isso a história de uma literatura é, na realidade bem entendida, a história da significação que tiveram as diferentes interpretações que esse povo deu a si-mesmo. A história de uma literatura é a história da evolução de uma consciência nacional. Assim há-de ser entendida, se há-de ser de qualquer modo compreendida. Assim há-de ser escrita, se há-de pretender a ser, de qualquer modo, definitivamente escrita. E é não só de boa índole clássica, como, e por isso, de boa índole humana, que ninguém queira compreender senão para compreender definitivamente, como que ninguém escreva, senão para que o que escreve perdure com a memória dos homens e a existência consciente da humanidade. Pode o esforço conseguir menos, porque os deuses dão o desejo, mas só o Destino o seu consentimento; mas o esforço deve ser de ordem divina, para que o Destino, quando conceda, não conceda senão um resultado divino ao resultado externo do esforço. Disse-se que a história é a mestra da vida; mas a história o que pode ser é mestra da consciência da vida. Para a vida não pode haver mestres, porque as leis fatais, que a regem, têm uma autoridade absoluta, não admitindo divisão de poderes, ou delegação de gerência. Mas para a compreensão da vida, que é pertença abstracta da inteligência, esforço do entendimento fora de querer agir, pode o que se escreve servir de alimento, e o que se compreende tomar-se por estímulo. O historiador, se compreende bem o papel que representa no teatro inútil da vida, deve procurar, não tanto compreender a vida como uma série de estados, mas como uma série de passagens de estado para estado. Cada época é real só para aqueles que viveram nela; para o entendedor, ela não é mais que o caminho por onde a época anterior, ela própria da mesma natureza, passou para a época posterior, também sem natureza diferente. Tudo na vida é intervalo e passagem. Tudo que passa, porém, tem um modo de passar, um caminho por onde passa, e uma razão por que segue esse caminho. O dever do historiador é fazer o roteiro do passado, descobrir a linha contínua que, passando por tantos pontos do tempo, tem, em todo o caso, a sua realidade em ser linha e não em ter passado por esses pontos, em ser uma direcção e não um contacto com os pontos por onde se dirigiu. (...) Na mecânica, aquela parte chamada “estática” não é mais que a introdução aqueloutra, a que se chama “dinâmica”. Estuda-se a paragem para se chegar ao estudo do movimento. E, como a ciência sabe que este conceito de paragem não se ajusta a realidade nenhuma, mas apenas a uma aparência de realidade, a uma coisa que só é real em relação à outra, deve todo o homem de ciência, qualquer que seja a disciplina a que aplica a sua actividade de entendedor, analisar o que, em qualquer forma da realidade representa a paragem apenas como ponto de partida para o que nela representa o movimento. A anatomia é uma introdução à fisiologia. Nos estudos sociológicos, nos estudos que dependem da sociologia, o elemento estático, que encontramos, é o da época. É estudando os característicos de uma época que começamos a fazer história. Mas não devemos nunca deixar durar a ilusão de que essa época verdadeiramente existe mais que o tempo necessário para que essa ilusão nos ajude a compreender a realidade, mais tempo do que o preciso para que essa ilusão nos ajude a compreender que é uma ilusão. A divisão da história em épocas é uma falsidade necessária, um processo de compreensão preliminar, uma introdução à história como não dividida em épocas. s.d. Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 48. Esboço do prefácio: Teoria da História Literária «Quanto ao caso de Nietzsche, acho que v. tem razão — a razão que, em qualquer coisa, se pode ter. «O paganismo de Nietzsche é um paganismo de estrangeiro. Há erros constantes de pronúncia na sua interpretação do helenismo. Ainda se aceita que um alemão europeu (isto é, de antes de Bismark) pudesse compreender a Grécia antiga; mas um alemão, isto é como Nietzsche, um polaco ou checo, ou qualquer coisa sem Europa nem vogais, dificilmente se pode entender a si‑mesmo se quiser falar grego com o espírito. «Nietzsche não foi, como você imagina, o Pascal do paganismo. Foi a falta de Pascal do paganismo. Não pode haver um Pascal do sistema pagão, porque não há sistema pagão; e um Pascal precisa de um sistema de que seja o Pascal. Pascal era um teólogo em verso, que escreveu em prosa. No paganismo não houve teologia, sendo essa a segunda vantagem dele, porque a primeira foi o não poder havê‑la. «De resto, o que em Pascal era uma doença era, ao contrário, também uma doença em Nietzsche. Refiro‑me ao estilo inconsequente, e ao pensamento para o adivinharmos. Pascal, porém, sendo francês, não se contradiz, e, sendo católico, não inova e já está claro nos outros; em Nietzsche a contradição de si‑próprio é a única coerência fundamental, e a sua verdadeira inovação é o não se poder saber o que foi que ele inovou. «São inúmeros, em todo o mundo, os discípulos de Nietzsche, havendo alguns deles que leram a obra do mestre. «A maioria aceita de Nietzsche o que está apenas neles, o que, de resto, acontece com todos os discípulos de todos os filósofos. A minoria não compreendeu Nietzsche, e são esses poucos os que seguem fielmente a doutrina dele. «A única afirmação grande de Nietzsche é que a alegria é mais profunda que a dor, que a alegria quer profunda, profunda eternidade. Como todos os pensamentos culminantes e fecundos dos grandes mestres, isto não significa coisa nenhuma. É por isso que teve tão grande acção nos espíritos: só no vácuo total se pode pôr absolutamente tudo. «O que você acrescenta sobre os deveres morais podia tornar‑se extensivo aos deveres imorais. Chegámos a um ponto da civilização em que há tais exigências de imoralidade que de aqui a pouco toda a gente é decente por falta de espírito de sacrifício. «Enfim, nada importa a não ser a maneira por que nada importa. Seja e]a bela, ou, ao menos, fútil, porque a futilidade tem de comum com a beleza a indiferença à utilidade e à justiça. O resto é absolutamente vida...» Fernando Pessoa 1915? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 135. Parte de carta enviada ou não. Quando eu era pequenino Quando eu era pequenino Cantavam para eu dormir. Foram-se o canto e o menino. Sorri-me para eu sentir! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 95. Sensacionismo. O capítulo sobre a relação entre a arte moderna e a vida moderna. 1. Toda a época civilizacional gira em torno a um princípio que define tal época e lhe dá os seus característicos típicos e predominantes. Podem outros elementos, ou vindos de outras épocas anteriores, ou surgidos, a par desse, citado, elemento típico, dentro da mesma época, caracterizá-la também, para uma análise ou deficiente, ou assintética; mas resultará de um escrúpulo mais exacto de analisar que uma época é sempre definível, e em justiça o é, por um característico predominante, que é o que lhe grava o estigma da sua tipicidade. A época moderna, tomando esta frase no sentido usual de abranger um período que date, aproximadamente, da revolução francesa e venha até aos nossos dias, resume-se tipicamente na acção de um fenómeno principal. Esse fenómeno é a passagem do elemento comercial e industrial da vida para a primeira plana da existência social mercê do acréscimo da vida científica, das invenções e aperfeiçoamentos constantes da ciência. Assim, a nossa época é a época da ciência positiva, isto é, da ciência desenvolvida em todos os seus ramos aplicáveis à prática, e do desenvolvimento dessa própria aplicação. As ciências não directamente, mas indirectamente aplicáveis à prática, como as matemáticas, pouco avanço tiveram — relativamente às outras — nos nossos tempos, e o que sofreram, tipicamente, menos tem sido um avanço, que uma crítica tendente a destruí-las. Basta que se recorde os trabalhos do matemático Poincaré, para que se note bem qual a orientação positiva da nossa época, que às ciências matemáticas, ou procura aluí-las, ou reduzi-las a positivas pela redução delas a meras hipóteses utilizáveis, pragmaticamente certas apenas. Os progressos da ciência e da aplicação da ciência dominam toda a época moderna e dão-lhe o tipo civilizacional. Vejamos qual tem sido, de todas as maneiras, mas cingindo-nos ao principal, o resultado de ser esta a época da ciência. Na esfera nacional o resultado do aumento da ciência foi 1) o aumento espantoso das facilidades de comunicação e de transporte; 2) o aumento, espantoso também, das indústrias e da actividade comercial; 3) o aumento, não menos notável, do mero conteúdo mental da experiência humana, pelo próprio progresso da ciência, entendendo não só a ciência positiva, mas as ciências históricas e outras, cuja investigação foi também beneficiada, não só pelo geral aumento de facilidades, como pela maior ânsia de cultura que elas trouxeram, pela especialização crescente de misteres (intelectuais como os outros) e pela atenção que aos estados eminentes mais merece a dotação atinente à realização de tais estudos. Estes três elementos, evidentemente, não existem separados senão na análise que os separa; na realidade formam um todo harmónico e interagem constante e negativamente. Qual foi o resultado que estes três elementos trouxeram à modalidade da civilização? Da sua convergência esse resultado facilmente se deduz. Traduz-se pela palavra internacionalismo, ou pela sua sinónima cosmopolitismo. A maior facilidade das comunicações tornou fácil, e por fácil, constante, a flutuação de populações, as viagens, as relações comerciais, a emigração, a acção comercial e industrial de importadores e exportadores Esta, por sua vez, tornou maior a própria facilidade de transportes, que a gerara no auge que atingiu. Fatalmente, pois, que o ponto de apoio da mentalidade moderna passou gradualmente a estar naquela parte da vida social que intimamente se relaciona com, e necessariamente se desenvolve por, uma crescente facilidade de comunicações, e esse ponto é a vida comercial, no que vida internacional de exportação e importação. E o acréscimo de vida industrial, que por o aumento das condições científicas paralelamente se dava, maior tornava a actividade comercial que naturalmente a prolonga. Resultou a mentalidade essencialmente comercialista e industrialista das sociedades modernas, com os característicos que, em todo o tempo, corresponderam e foram o resultado de tal vida: o amor ao luxo, a degradação do senso moral pela predominância do instinto mercantil, a indiferença aos fins elevados nas questões sociais e políticas, etc. Mas sobre este ponto passo de leve agora, porque ele não é um resultado internacional, mas individual, das condições modernas da civilização. Resultou, disse, um internacionalismo como fórmula típica das sociedades modernas nas suas relações umas com outras. Esta palavra internacionalismo que significa? Que o sentimento nacional decai, dada a maior necessidade de relacionar-se com o estrangeiro, e dado, também, o golpe que nesse sentimento vibra, por sua natureza, o instinto comercialista; que cada nação, à parte isso, passou a ser mais rica dentro de si própria, passou a resumir em si tudo quanto é típico das outras nações, que a vida de cada cidade da Europa (por exemplo) passou a conter em si elementos típicos da vida de todas as outras cidades, não só da Europa, mas de todo o mundo — isto quer pela presença em todas as colónias de naturais dessas outras nações, quer pelas constantes relações comerciais e intelectuais com essas, quer pela diária informação jornalística, espectacular, cinematográfica. ( . . . ) No campo individual os resultados foram de ordem idêntica. A mentalidade comercialista em todos os tempos produziu determinados resultados: o aumento do amor ao luxo, o enfraquecimento do senso moral, a moleza social até certo ponto... E, assim como para a formação desta mentalidade contribuiu o internacionalismo acima descrito, para a formação desse nacionalismo não menos e não diferentemente contribuiu esta mentalidade, frutos ambos da mesma causa triplamente agente, e que já se mencionou, quando se iniciou este estudo. O curioso e notável é que a mentalidade criada por esta acção da era das máquinas sobre o indivíduo, no que indivíduo, coincide com o que, em outras épocas, é a mentalidade da decadência. E este tipo mental, em que o laço social fraqueja, em que o amor do luxo toma aumento, em que o individualismo se torna nítido e forte, contém com efeito todos os característicos da obscura coisa a que se tem chamado Decadência. Apenas a causação é, nos dois casos, diversa. Quando, na antiguidade, este tipo mental aparecia, e era de feito o tipo mental das decadências, ele resultava, não do aparecimento de um novo factor na vida social, senão do enfraquecimento e perturbação dos velhos factores. Assim, para nos determos apenas no exemplo maior e mais típico, a decadência de Roma não resultou senão da perturbação social produzida pela política do imperialismo, sempre mortal para uma nação, porque um ponto há em que o dominado excede as forças do dominador, e ele nunca sabe parar nesse ponto, tão certo resulta do dominar, como do coçar e comer do prolóquio, que tudo está no começar. Mas a política do imperialismo não foi senão um produto da própria política típica de Roma no auge do seu prestígio, nem foi, ela, um elemento novo, senão na proporção em que trouxe elementos novos. O mesmo se não dá com a era das máquinas na nossa civilização. O internacionalismo, por certo, estava criado com as descobertas dos portugueses, o espalhamento de cultura da renascença italiana, e o princípio das invenções (propriamente tais), como a pólvora, a imprensa, que vieram dar começo à facilidade da vida de relação entre as nações da Europa. Assim, a era das máquinas produziu, nos indivíduos da Europa, um individualismo excessivo, uma ânsia feroz de viver em toda a extensão a vida individual, um abandono correspondente e concomitante, resultante do senso moral, das prisões da religião, dos chamados preconceitos que haviam sido a base da vida nos séculos anteriores. Adentro da vida das nações, encarando agora, não já os indivíduos, nem as nações na relação entre umas e outras, mas cada uma adentro de si, como sociedade, outro foi o fenómeno resultante. Ele foi a crescente separação de classes. O fenómeno industrial alargou o intervalo natural entre o capital e o trabalho; o aumento de cultura alargou o intervalo entre o povo de educação e a aristocracia do pensamento; e o acréscimo constante da democracia, inevitavelmente produzido pela criação de proletariados cada vez mais hábeis e conscientes, veio pôr de pé todas as reacções tradicionalistas e aristocráticas contra esse acréscimo. 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 193. XXXII When I have sense of what to sense appears, Sense is sense ere 'tis mine or mine in me is. When I hear, Hearing, ere I do hear, hears. When I see, before me abstract Seeing sees. I am part Soul part I in all I touch — Soul by that part I hold in common with all, And I the spoiled part, that doth make sense such As I can err by it and my sense mine call. The rest is wondering what these thoughts may mean, That come to explain and suddenly are gone, Like messengers that mock the message' mien, Explaining all but the explanation; As if we a ciphered letter's cipher hit And find it in an unknown language writ. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 188. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Saído apenas duma infância Incertamente triste e diferente Uma vez contemplando dum outeiro A tinha de colinas majestosa Que azulada e em perfis desaparecia No horizonte, contemplando os campos, Vi de repente como que tudo Desaparecer, tomando (...) E um abismo invisível, uma cousa Nem parecida com a existência Ocupar não o espaço, mas o modo Com que eu pensava o visível. E então o horror supremo que jamais Deixei depois, mas que aumentando e sendo O mesmo sempre, Ocupou-me... Oh primeira visão interior Do mistério infinito, em que ruiu A minha vida juvenil numa hora! s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 8. A arte suprema tem por fim libertar — erguer a alma acima de tudo quanto é estreito, acima dos instintos, das preocupações morais ou imorais. A arte nada tem com a moral, quanto ao fim; tem, quanto ao conteúdo. Toda a arte deve dar prazer — o tipo de prazer é que varia. A arte inferior dá prazer porque distrai, liberdade porque liberta das preocupações da vida; a arte superior menor dá prazer porque alegra, liberdade porque liberta da imperfeição da vida; a arte superior dá prazer porque liberta, liberdade porque liberta da própria vida. Um assunto sexual deve ser tratado em arte de modo que não suscite desejo. Para suscitar desejos, serve melhor uma fotografia pornográfica. 13-10-1914? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 53. Mussolini et Hitler s'en tiennent à l'absolue banalité de leurs idées; ils ne sauraient être populaires (et ils le sont (...) ) autrement. Salazar, incontestablement plus intelligent qu'aucun d'eux, veut avoir des idées et c'est là qu'il se perd dans la bêtise et la contradiction. Lui aussi n'a que des idées banales, mais elles sont banales dans un niveau plus élevé. Hitler et Mussolini ont des idées banales d'homme du peuple; Salazar a des idées banales d'homme cultivé. Il lui arrive ce que les anglais appellent tomber entre deux bancs: sa banalité ne touche pas le peuple parce qu'elle est d'origine culturelle; elle répugne aux élites, parce que c'est de la banalité. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 226. If Force be more real than matter, then Form is more than matter. Half a proof of immortality (personal). s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 187. O paganismo da Grécia era um paganismo de homens; o de Alemanha é um paganismo de animais. Na Grécia, para além do Olimpo havia Eleusis e a promessa Secreta e Simbólica da Sobrevivência da alma, que interessa a toda a Humanidade. Na Alemanha não há o que corresponde a Eleusis, nem outra promessa que não a da Sobrevivência da Alemanha, que não tem interesse humano. 1915? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 136. Meia volta, toda a volta, Meia volta, toda a volta, Muitas voltas de dançar... Quem tem sonhos por escolta Não é capaz de parar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 95. Mas, perguntar-se-á talvez, como acomodar este princípio com o da interdependência de funções que limita e integra na vida o princípio, correlativo, da divisão do trabalho social? A resposta é simples. A interdependência das funções heterogéneas da vida social não é do âmbito da consciência humana; pertence, antes, à parte da vida social que é inteiramente pertença das forças naturais que subjazem toda a actividade do homem. O sapateiro, quando faz botas e sapatos, e só botas e sapatos, não está exercendo esse mister com a consciência social de que funciona dentro do princípio da divisão do trabalho social, e de que entre esse mister e outros há uma interdependência. O político, quando faz a sua política, não pensa de momento senão nas suas ambições pessoais e, por vezes, no destino do país que pretende governar; não lhe ocorre, senão em momentos de reflexão, não propriamente políticos, portanto, que está adentro daqueles dois princípios, de que se trata, da vida das sociedades. Por isso o artista, como estes outros membros da vida social, de quem acabámos de falar, não tem senão que exercer a sua arte, curando de a exercer tão bem como possa. Todas as outras considerações lhe devem ser alheias: e assim cumpre o princípio da divisão do trabalho social, e cumpre-o tanto melhor quanto menos deixar entrar para a sua arte elementos de preocupação com tudo quanto a não seja. Com a interdependência dessa sua actividade artística com as outras funções sociais ele não tem com que se preocupar, porque isso está fora da esfera de quanto ele possa fazer. Será, assim, impossível o tipo de uomo universale? Será impossível o indivíduo que seja poeta, homem de ciência e político, por extremo exemplo? Não; isso pode ser, logo que ele seja poeta quando é poeta, político quando é político e homem de ciência quando homem de ciência. Não haverá erro se num desses cargos naturais ele contradisser inteiramente o que exprime nos outros. A contradição está imanente na própria natureza de tais cargos; emana da lei natural pela qual eles existem e se interrelacionam. * Tão pouco se deve o artista preocupar com a verdade do que descreve. É-lhe lícito escrever um poema onde se violem todas as probabilidades — logo que, é claro, a violação dessas probabilidades não implique directamente uma falha na natureza do poema, como seria, por exemplo, o anacronismo num poema histórico, o erro psicológico num drama, etc. A verdade pertence à ciência, a moral à vida prática. A faculdade do espírito que trabalha na ciência é a Inteligência (Observação, Reflexão). A faculdade que trabalha na vida activa é a Vontade. A faculdade de que depende a Arte é a Emoção. Não tem de comum com as outras nada, a não ser o ser humano como elas. Quanto à má influência exercida pela Arte na vida prática, isso é um dos delírios dos avinhados da Inteligência. A arte propaganda faz mal, porque, por ser propaganda, é sempre má arte, e, por ser arte, é sempre má propaganda. * O artista não tem que se importar com o fim social da arte, ou, antes, com o papel da arte adentro da vida social. Preocupação é essa que compete ao sociólogo e não ao artista. O artista tem só que fazer arte. Pode, é certo, especular sobre o fim da arte na vida das sociedades, mas, ao fazê-lo, não está sendo artista, mas sim sociólogo; não é um artista quem faz essa especulação é um sociólogo simplesmente. 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 199. XXXIII He that goes back does, since he goes, advance, Though he doth not advance who goeth back, And he that seeks, though he on nothing chance May still by words be said to find a lack. This paradox of having, that is nought In the world's meaning of the things it screens, Is yet true of the substance of pure thought And there means something by the nought it means. For thinking nought does on nought being confer, As giving not is acting not to give, And, to the same unbribed true thought, to err Is to find truth, though by its negative. So why call this world false, if false to be Be to be aught, and being aught Being to be? s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 188. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Li vaga — inerte — e sonhadoramente li Compreendendo mais do que havia Em frase (...) Fechei tremendo, os livros, e sentindo Como que de detrás da consciência, Negrume transcendendo o que de horror (...) Desde então o constante persistir Do mistério em minha alma não me deixa Quieto o espírito, por meditar Que seja, meditando sempre. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 8. LULLABY My heart is full of lazy pain And an old English lullaby Comes out of that mist of my brain. Upon my lap my sovereign sits And sucks upon my breast; Meantime his love maintains my life And gives my sense her rest. Sing lullaby, my little boy, Sing lullaby, mine only joy! I would give all my singing trade To be the distant English child For whom this happy song was made. When thou hast taken thy repast, Repose, my babe, on me; So may thy mother and thy nurse Thy cradle also be. Sing lullaby, my little boy. Sing lullaby, mine only joy! There must have been true happiness Near where this song was sung to small White hands clutching a mother's dress. I grieve that duty doth not work All that my wishing would, Because I would not be to thee But in the best I should. Sing lullaby, my little boy, Sing lullaby, mine only joy! Oh, what a sorrow comes to me Knowing the bitterness I have While that child had this lullaby! Yet as I am, and as I may, I must and will be thine, Though all too little for thy self Vouchsafing to be mine, Sing lullaby, my little boy Sing lullaby, mine only joy! My heart aches to be able to weep. Oh, to think of this song being sung And the child smiling in its sleep! Upon my lap my sovereign sits And sucks upon my breast; Meantime his love maintains my life And gives my sense her rest. Sing lullaby, my little boy. Sing lullaby, mine only joy! I was a child too, but would now Be the child, and no other, hearing This song low‑breathed upon its brow. When thou hast taken thy repast, Repose, my babe, on me; So may thy mother and thy nurse Thy cradle also be. Sing lullaby, my little boy, Sing lullaby, mine only joy! Oh, that I could return to that Happy time that was never mine And which I live but to regret! I grieve that duty doth not work All that my wishing would, Because I would not be to thee But in the best I should. Sing lullaby, my little boy, Sing lullaby, mine only joy! Ay, sing on in my soul, old voice, So motherfully laying to sleep The babe that quietly doth rejoice. Yet as I am, and as I may, I must and will be thine, Though all too little for thy self Vouchsafing to be mine. Sing lullaby, my little boy, Sing lullaby, mine only joy! Sing on and let my heart not weep Because sometime a child could have This song to lull him into sleep! Yet as I am, and as I may, I must and will be thine, Though all too little for thy self Vouchsafing to be mine. Sing lullaby, my little boy, Sing lullaby, mine only joy! Somehow, somewhere I heard this song, I was part of the happiness That lived its idle lines along. Yet as I am, and as I may, I must and will be thine, Though all too little for thy self Vouchsafing to be mine. Sing lullaby, my little boy, Sing lullaby, mine only joy! Ay, somehow, somewhere I was that Child, and my heart lay happy asleep. Now - oh my sad and unknown fate! s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 346. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. AS ARTES As relações entre a arte e a moral são análogas às entre a arte e a ciência. Não há relação entre a arte e a moral, como a não há entre a arte e a ciência; mas um poema que viola as nossas noções morais impressiona identicamente o homem são como um poema que viola a nossa noção da verdade. Um poeta que canta, elogiando, o roubo, não fará com isso um bom poema; nem o fará um poeta moderno a quem lembre cantar o curso do sol à volta da terras que é uma coisa falsa. Viola a regra do agrado. Agradará a mais gente um poema que, sobre ser belo, seja moral, que um que, sendo belo, seja imoral. As épocas têm mais de comum as suas ideias morais que as suas imoralidades. Só nas épocas de decadência é que a moralidade deixou de ser um ideal; e, mesmo nessas, reconhece-se o seu valor ideal. As relações são entre o artista e o moralista, não entre a arte e a moral. Como é improvável que um grande artista, por isso mesmo que é um grande artista, falseie a verdade, é improvável que falseie a moral. Não pertence esse característico aos de um cérebro típico de criador. O criador de arte para influenciar tem, em geral, como motivo o interesse de influenciar; ao qual falha se cria obra com elementos que tendem a limitar a acção da obra. A tendência moral é reconhecida pela espécie [?] humana como superior à realidade [?] imoral. O poeta imoral corre portanto, na proporção em que é imoral, o risco de não influenciar os espíritos superiores (quando não da sua época, porventura decadente), das outras épocas pelo menos. 1916? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 54. O argumento essencial contra uma ditadura é que ela é ditadura, isto é, que é ilegal. O apresentarem os seus governos obra melhor, em um ou todos os sentidos, do que os governos legalmente constituídos não diminui a sua ilegalidade. Um homem que matasse outro voluntariamente, sem razão nem provocação, não pode esperar que lhe conte como atenuante — nem como tal lh'a contarão — que esse outro era provadamente um elemento daninho, que mais útil é morto do que vivo. Uma ditadura, apesar de ilegal, pode ser todavia justificada pelas circunstâncias, quando num país é tal o estado de anarquia, governamental ou social, que se torna impossível a vida da legalidade. Entre um estado de guerra civil, real ou latente, e um governo de força, por ilegal que seja, que coíba essa anarquia, nenhum homem de recto critério, por liberal ou democrata que seja, hesitará em qual apoie. Sucede porém que até o ilegal, se quer que o consideremos justificado, tem que obedecer a certas normas, isto é, tem que ter, em certo modo, uma legalidade sua. Ora uma ditadura, justificável somente quando não há escolha entre ela e a anarquia, existe, por isso mesmo, só para pôr fim a essa anarquia. O seu papel é portanto limitado à manutenção da ordem até que a anarquia desapareça; desaparecida esta, está findo o papel da ditadura. Se a ditadura não consegue dominar a anarquia ou o espírito anárquico, é que o fenómeno anárquico entrou fundo de mais no espírito da sociedade, e então há uma crise profunda, que, por profunda, nenhum governo, de força ou não, pode debelar. Ou é o fim do país ou, para que este se salve, não há outro remédio senão deixar que a anarquia continue e d'ela saia, pela aprovação de leis naturais e sociais que ninguém conhece, a lenta e dolorosa salvação. E, quando um país está neste estado, a existência do governo de força não terá feito mais, pelas várias reacções que provoca do que ter aumentado essa anarquia. Terá sido, afinal, apenas um elemento anárquico a mais. Sendo o papel da ditadura limitado à manutenção da ordem, o governo de força tem todavia que empregar-se também na resolução de problemas correntes, pois que o Estado não pode deixar de ser administrado. Aqui, porém, deve a ditadura limitar-se a um papel rigorosamente administrativo. É a ditadura, por assim dizer, a suspensão do legislativo pelo executivo; não é a substituição do executivo ao legislativo. Uma ditadura não tem pois que fazer leis. E, na proporção em que, saindo do seu justo papel, as fizer, nessa mesma proporção criará novas inimizades, novos descontentamentos. Por uma parte, não há lei que agrade a toda a gente, e assim cada lei faz o seu grupo de descontentes, que poderão ser muito diversos de lei para lei, de sorte que, somados, esses descontentamentos vão formando lentamente uma atmosfera de descontentamento geral. Por outra parte, o homem ama naturalmente a liberdade, pois ninguém gosta de ser mandado nem se sente grato por imposições que se lhe façam, de sorte que os governos de força (a não ser que os envolva um misticismo qualquer) são tendencialmente antipáticos a toda a gente. Segue que o descontentamento contra uma lei promulgada por um governo de força é naturalmente maior do que contra uma lei de um governo de opinião. E o não ter havido oportunidade de se discutir essa lei dá ao descontentamento um apoio francamente justo e racional. 1935? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 227. Neo‑rom. or Answer to A. P. Existir é estar adaptado a um meio. Estar adaptado a um meio quer dizer: (1) poder tirar desse meio o que é necessário para a manutenção da vida; (2) poder evitar, de uma ou outra maneira, o que nesse meio prejudique a vida e a dificulte ou ameace; (3) poder seguir as alterações que nesse meio se dêem, de modo a que não se dê uma cessação de qualquer das condições anteriores. A adaptação ao meio implica, portanto, a capacidade de agir de três maneiras: (1) retirando do meio o que é necessário, e isto quer dizer escolha, no meio, do que convém à vida; (2) podendo furtar‑se a certas condições do meio. A vida, porém, envolve uma conservação do ser. Adaptação ao meio tem, portanto, de ser norteada segundo a conservação do organismo que vive. Adaptar‑se ao meio envolve, portanto, conservar‑se perante o meio. Existir é estar adaptado a um meio. Nesta adaptação há dois factores: (1) o organismo que vive; (2) o meio em que ele vive. Para que o organismo viva é necessário que as suas relações com o meio não envolvam a destruição do organismo como tal. O organismo como tal é constituído por três factores: (1) a continuidade formal, (2) a coerência, ou coesão, material, (3) a resistência às influências que tendam a alterar essa continuidade formal e essa coesão material. Perseverar no ser, isto é viver, implica, pois, a tendência para perseverar na continuidade formal, para perseverar na material, para resistir às influências que tendam a perturbá‑las. Destas três funções, que formam, porém, apenas uma, a tendência para a continuidade formal é inconsciente, igualmente inconsciente a tendência para a coesão material — isto em todos os casos, físicos ou psíquicos. A tendência para afastar os elementos que as perturbem é que é necessariamente, e em todos os casos, consciente. A adaptação ao meio envolve três elementos (supra). O ente vivo sente o meio como, ao mesmo tempo, (1) necessário à sua existência, (2) oposto à sua existência, (3) coexistente consigo. Assim a adaptação ao meio envolve um triplo fenómeno. O ente vivo está em relação com o meio como (1) necessário a ele, (2) oposto a ele, (3) coexistente com ele No ser inorgânico há simplesmente coexistência com o meio. O meio não lhe é nem necessário (excepto no sentido metafísico, aqui não considerado), nem oposto, excepto na linha das formas físicas, de que aqui se não trata. No organismo, exclusivamente como tal, há simplesmente noção do meio como necessário. A noção do meio como oposto não existe ainda, salvo rudimentarmente talvez. Objectar‑se‑á que o organismo luta contra o meio, pelo menos às vezes assim parece fazer. Mas na realidade, nada disso acontece. O organismo não luta contra o meio, porque lutar contra o meio envolve alteração do meio, envolve esforçar‑se por alterar esse meio. Ora essa função é de ordem necessariamente psíquica. Como tal, um organismo não pode ter essa função. A aparente luta entre o organismo e o meio é apenas a luta pelo necessário nesse meio. Mas a luta contra as coisas que poderão causar a morte; não é essa uma luta contra um meio concebido como oposto? Sem dúvida que o é. Mas, note‑se, não é o meio, aqui, concebido como sempre oposto, mas apenas como oposto naquelas ocasiões em que ele agride a personalidade do organismo. Onde há vida psíquica começa a noção do meio como oposto; a razão é simples. Só onde há vida psíquica é que há propriamente noção do sujeito e do objecto, que é a base de se considerar o exterior como oposto ao interior. A adaptação ao meio faz‑se portanto nas três direcções de se considerar o meio como (1) coexistente, (2) necessário ao ser, (3) oposto ao ser. No inorgânico, como há simplesmente coexistência com o meio, não há adaptação nenhuma. No orgânico, onde há a noção do meio como necessário, a adaptação consiste em retirar do meio o necessário para a conservação do organismo e em evitar no meio o que seja a esse organismo prejudicial. Desde que a vida psíquica se acentue, a adaptação começa a incluir o elemento de adaptação ao meio como oposto. Que espécie de adaptação é essa? É uma adaptação que envolve (1) alteração consciente do meio. Já há aqui, pois, um novo fenómeno; a adaptação do meio ao indivíduo, não do indivíduo ao meio. Ao passo que no orgânico, onde o meio é concebido como necessário, a adaptação é toda ao meio. O organismo altera‑se, move‑se, age, para se pôr de acordo com as condições do meio que lhe sejam úteis. Mesmo processos aparentemente complicados, aparentemente envolvedores de alteração do meio, como nas abelhas, nas formigas, nos castores, são meros aperfeiçoamentos de adaptação seguindo a noção do meio como necessário. Há alteração do meio apenas no sentido do meio, como há alteração do indivíduo no sentido do indivíduo. Mas o homem que se veste por causa do frio altera‑se em relação ao meio, não no sentido do seu organismo (o que seria se neles crescesse pêlo) mas noutro sentido, empregando o próprio meio externo para se vestir. No estado psíquico inferior ao homem há alteração do meio, mas no sentido do meio. Eis a diferença fundamental. A adaptação do psíquico ao físico parte, é claro, do fenómeno fundamental relacionante do físico e do psíquico, a saber, a oposição entre os dois. Para a vida psíquica e física, o exterior é o oposto. 1912 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 187. Sétimo (II) D. FILIPA DE LENCASTRE Que enigma havia em teu seio Que só génios concebia? Que arcanjo teus sonhos veio Velar, maternos, um dia? Volve a nós teu rosto sério, Princesa do Santo Gral, Humano ventre do Império, Madrinha de Portugal! 26-9-1928 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 33. CRITIQUE OF MATERIALISM Materialism asserts that thought is the product of the brain, as excitation is the product of the muscles. Thus all functions are the products of various kinds os movements — thought of motion of the cerebral molecules; feeling, sensation, perception, of the motion of the nerves, along them. We shall now proceed to criticize this dogmatic and metaphysical system — for it is dogmatic and metaphysical and doomed to intellectual death together with its brother system — that of theology and of religion. Matter and motion, or matter or motion or neither matter nor motion. If all be matter and matter produce motion. If all be motion, and motion the only reality, then motion by itself (Heraclitus). Every alters, moves, is displaced. Hypotheses: 1. Matter alone is real. 2. Motion alone is real. 3. Matter and Force are real and consequently with their motion. 4. Neither matter nor force is real. 1. Matter alone is real. In the first place, what is matter, what is this we are called to consider as the basis of all and the reality? Either we have but sensations of the world and correspond (in some way) to reality. Let us then consider what we know, apart from the discussion of sensation. The reality behind all things is obviously that which we find if we abstract and put aside what are merely the properties and the qualities of things. Matter, real matter, is unknown, and the least material thing that can be conceived. But there is one idea of ours which appears to be, but is not, a property: plurality, number, quantity, I mean, (...) Of the innateness of the idea of number. It is said that counting, arithmetics, all numerical things are drawn from experience. This thing is one, that is another, that one further an another still: one, two, three. All is explained, or is it not? Far from it: all is misunderstood. True we may learn to count (or we may not) by adding this thing and that and that other; but, this allowed, it is not yet explained how I know that there is a this thing, and a that thing, and a that other thing. True, we draw our idea of plurality from nature, because we see plurality there . We do but realise as true an innate idea. To see plurality anywhere we must be born to see it. In the same way, we think without knowing the laws of thought. Read Fouillée’s Plato . 137 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 137. A Portuguese once said to me that the worst thing about Portugal was nobody knowing anything about it not even the Portuguese. The phrase, which is no truer nor falser than such phrases usually are, is singularly right in respect to that curious Portuguese literary movement which its authors have called Sensationism. Cubism, futurism and other lesser isms have become well-known and far-talked, because they have originated in the admitted centres of European culture. Sensationism, which is far more interesting, a far more original and a far more attractive movement than those, remains unknown because it was born far from those centres. It is, of course, a younger movement than cubism or futurism. Its authors have never tried to make it far-known. But it is due to them to give the movement that publicity they seem, if not to scorn, hardly to desire. The Sensationists are, first of all, Decadents They are the direct descendants of the Decadent and Symbolist movements. They claim and preach «absolute indifference to humanity, to religion and to fatherland». They do more and go as far sometimes as to assert that aversion. One of the Sensationists nearly got himself lynched by writing to a Lisbon evening paper an insolent letter congratulating himself with the fact that Afonso Costa — the most popular Portuguese politician — had fallen off a tramcar and was at the doors of death. There is no reason to assert that any real malevolence lies at the back of statements of this kind; probably they are simply made «to irritate the native» (as the Portuguese say). 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 202. XXXIV Happy the maimed, the halt, the mad, the blind — All who, stamped separate by curtailing birth, Owe no duty's allegiance to mankind Nor stand a valuing in their scheme of worth! But I, whom Fate, not Nature, did curtail, By no exterior voidness being exempt, Must bear accusing glances where I fail, Fixed in the general orbit of contempt. Fate, less than Nature in being kind to lacking, Giving the ill, shows not as outer cause, Making our mock-free will the mirror's backing Which Fate's own acts as if in itself shows; And men, like children, seeing the image there, Take place for cause and make our will Fate bear. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 190. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Não leio já; queria abrir um livro E ver, de chofre, ali, a ciência toda... Queria ao menos poder crer que, lendo, E em prolongadas horas lendo e lendo, No fim alguma cousa me ficava Do essencial do mundo, que eu subia Até ao menos cada vez mais perto Do mistério... Que ele, inda que inatingido, Ao menos dele que eu [me] aproximava... Não fosse tudo um (...) Como uma criança que a fingir sobe Uns degraus que pintou no chão... Não leio. Horas intérminas, perdido De tudo, salvo de uma dolorosa Consciência vazia de mim próprio, Como um frio numa noite intensa, Em frente ao livro aberto vivo e morro... Nada... E a impaciência fria e dolorosa De ler p'ra não sonhar e ter perdido O sonho! Assim como um (...) engenho Que, abandonado, em vão trabalha ainda, Sem nexo, sem propósito, eu môo E remôo a ilusão do pensamento... E hora a hora na minha estéril alma Mais fundo o abismo entre meu ser e mim Se abre, e nesse (...) abismo não há nada... Ditoso o tempo em que eu sonhava, e às vezes Eu parava de ler para seguir Os cortejos em mim... Amor, orgulho, — Crenças inda! — pintavam os meus sonhos... E com muita insistência[?], eu era (...) O amante de belezas (...) E o rei de povos vagos e submissos; E quer em braços que eu sonhava, ou entre As filas (...) prostradas, eu vivia Sublimes nadas, alegrias sem cor. Mas Hoje nenhuma imagem, nenhum vulto Evoco em mim... Só um deserto aonde Não a cor dum areal, nem um ar morto Posso sonhar... Mas tendo só a ideia, Tendo da cor o pensamento apenas, Vazio, oco, sem calor nem frio, Sem posição, nem direcção, nem (...) Só o vazio lugar do pensamento... s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 9. PRAYER Our lady of Useless Tears, Thine is my heart's best shrine. I am sick with the gorging years, I am drunk with the bitter wine Of having but cares and fears, Of knowing but how to pine. It is useless to pray to thee, But my heart is full of pain. Thy glance would be charity, Even if the look were disdain. Give me that I may be A child like thine again. My sense of me is all tears. I pity my heart too much. O a cradle for my fears And the hem of thy garment to clutch! O wert thou alive and near us, And thy hand a hand that could touch! l do not know how to pray. My heart is a torn pall. See how my hair grows gray. O teach my lips to call On thy name night and day As if that name were all. My fathers' faith doth rise To my lips this sick hour. I pray to thee with mine eyes Rosaries of anguish. O dower My soul.with a least sweet lies Of thy suffering son's power! I have forgotten the taste Of faith, and ache for prayer. My heart is a garden laid waste. O thy hand on my hair Like a mother's hand let rest And let me die with it there! 1913 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 352. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. Com uma de duas qualidades — de duas só — se afirma um homem chefe de um povo, comanda um homem a massa indistinta e informe da nação. São elas o poder oratório e o prestígio militar — a eloquência de um António José de Almeida, a bravura de um Sidónio Pais. Às qualidades de inteligência, por grande que seja, de trabalho, por intenso que possa ser, a essas e a outras, de menor relevo público, como a honestidade, a virtude, o patriotismo, encolhe o povo os ombros, sem sequer pensar em respeitá-las; deixa-as na sombra a que naturalmente pertencem. Convém não esquecer, Senhor Presidente, que uma nação é um teatro e um governo um palco: ninguém comanda a alma de um povo se não tiver nascido, ou se não fizer, actor. É essa a razão do prestígio orgânico da monarquia: o rei nasce no palco e é educado, desde a infância para estar e representar nele. Pode a eloquência ser oca, a bravura postiça: o caso é que uma se ouça e a outra se veja. 1935 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 228. Vaga, no azul amplo solta, Vai uma nuvem errando. O meu passado não volta. Não é o que estou chorando. O que choro é diferente. Entra mais na alma da alma. Mas como, no céu sem gente, A nuvem flutua calma, E isto lembra uma tristeza E a lembrança é que entristece, Dou à saudade a riqueza De emoção que a hora tece. Mas, em verdade, o que chora Na minha amarga ansiedade Mais alto que a nuvem mora, Está para além da saudade. Não sei o que é nem consinto À alma que o saiba bem Visto da dor com que minto Dor que a minha alma tem. 20-3-1931 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 134. O GÉNIO A vida consiste no equilíbrio de duas forças, a de integração e a de desintegração, o anabolismo e catabolismo dos fisiologistas. A anulação da força de desintegração (impossível na matéria orgânica) seria a não‑vida (e, é por isso, que é impossível na matéria orgânica); a anulação da força de integração é a morte. Como o espírito é uma coisa viva (e existe ligado a uma outra coisa viva, que é o cérebro e o sistema nervoso, e, enfim, o corpo), no espírito operam, como em toda a vida, estas forças de integração e de desintegração. E, como no corpo, a anulação da desintegração seria a não existência do espírito; e a anulação da integração o que chamamos loucura. Quanto mais alto um organismo na escala evolutiva, mais complexo é esse organismo; quanto mais complexo mais desintegrável, mais são as forças de desintegração que tem dentro de si. Do mesmo modo, quanto mais alto um espírito, tanto mais complexas as forças de desintegração que em si tem. Só por um agente tóxico, ou um traumatismo violento, podem os animais «endoidecer» — isto é, só por uma desintegração anormal. Aparte isso, não são susceptíveis de loucura; a desintegração do seu espírito é simples, a integração faz‑se sempre sem esforço. Em que consistem as forças de integração no organismo físico? Na resistência fácil e rápida de qualquer agente interno que tente desintegrá‑lo (como no instinto de saciar a fome e a sede, etc.); e na coordenação fácil e rápida dos seus órgãos no sentido de defenderem o organismo, de não tomarem, por assim dizer, caminhos independentes que lhe seriam forçosamente nocivos. Do mesmo modo, as forças de integração do espírito são: a resistência fácil e rápida a qualquer agente externo que tente desintegrá‑lo; a inibição dos seus impulsos anormais; e a coordenação das suas ideias numa unidade. Os dois últimos pontos são claros; não o é o primeiro. De que modo resiste o espírito a uma força externa que o queira prejudicar? (Distinção entre o subjectivo e o objectivo.) (Achar a solução). Quando num indivíduo se dá um desenvolvimento das faculdades mentais de integração, nem que haja um desenvolvimento paralelo das faculdades mentais de desintegração, esse indivíduo é o que se chama um homem de talento. Não havendo um desenvolvimento mais que normal das qualidades de desintegração, o maior desenvolvimento das de integração não é chamado a operar em plena força; tem plena força, mas opera mais lentamente do que poderia. Quando, porém, com esse grande desenvolvimento das qualidades de integração coexista um desenvolvimento igualmente grande das de desintegração — isto é, uma psiconervose — , as qualidades de integração passam a funcionar rápida e profundamente, para se não deixarem arrastar pelas outras. Dá‑se, pelo equilíbrio hipersão de um fenómeno mórbido, uma hiperharmonia do espírito. A essa hiperharmonia chamamos génio. Quer isto dizer que não haja homens de talento com psiconervoses? Não. Mas há duas maneiras de a psiconervose coexistir com um excesso de faculdades de integração. O exame das épocas históricas mostra‑nos que os génios aparecem com mais frequência, nas épocas de desintegração social. Dir‑se‑ia, à primeira vista, que a desordem os gera. Não parece, porém, que assim seja; antes os gera a tendência para resistir à desordem, que não pode ser acentuada senão quando se acentuar a desordem a que resistir. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 191. If error come from sensation, is not materialism refuted? 1910? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 141. Fui passear no jardim Fui passear no jardim Sem saber se tinha flores Assim passeia na vida Quem tem ou não tem amores. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 95. Olhos de veludo falso Olhos de veludo falso E que fitam a entender, Vós sois o meu cadafalso A que subo com prazer. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 67. Sensationism differs from common literary currents in that it is not exclusive, that is to say, it does not claim for itself the monopoly of right aesthetic feeling. Properly speaking, it does not claim for itself that it is, except in a certain restricted sense, a current or a movement, but only partly an attitude, and partly an addition to all preceding currents. The position of sensationism is not, as that of common literary movements, like romanticism, symbolism, futurism, and all such, a position analogous to that of a religion, which implicitly excludes other religions. It is precisely analogous to that which theosophy takes up in respect to all religious systems. It is a well-known fact that theosophy claims to be, root a religion, but the fundamental truth that underlies all religious systems alike. As such, theosophy is in opposition, of course, to those parts of religious systems which exclude other systems and also to those parts of religious systems which seem to it to vitiate the fundamental attitude called religious. That is why theosophy, while it does no oppose protestantism as such, opposes it insofar as it is opposed to catholicism; and why it cannot accept such theories as that of eternal penalties, which vitiate, in its opinion, all that is fundamental and true in the sense of the worship of God’s creation. Even such the position of sensationism is relatively to all artistic movements. It holds, of them all, or of almost all (for we must not allow this term «artistic movements» to be applicable with a universal generosity to every snake that raises its head above that of others in the literary pitcher of modern confusion) that, in their essence, they are right. Spinoza said that philosophical systems are right in what they affirm and wrong in what they deny. This, the greatest of all pantheistic affirmations, is what sensationism can repeat in relation to aesthetic things. Though supreme perfection which is unattainable) is only one, yet relative perfection is several. Homer is as perfect in his way as Herrick in his, though the homeric way is a far superior one. The sensationist admits joyfully both Homer and Berrick to the great brotherhood of Art. There are three central tenets of sensationism. The first is that art is supremely construction and that the greatest art is that which is able to visualise and create organised wholes, of which the component parts fit vitally into their places; the great principle that Aristotle enunciated when he said that a poem was an «animal». The second is that all art being composed of parts, each of those parts must be perfect in itself; as the former was the classic principle of unity and structural Perfection, this is the romantical principle of «fine passages» in what it contains of truth, and excluding the error that makes this all, without attending to the higher classical principle, that the whole is greater than the part. The third tenet of sensationism, quâ aesthetics, is that, every little fragment which builds up the part of the whole should be perfect in itself; this is the principle which is insisted on by exaggeration by all those artists of which the symbolists are part, who, being temperamentally incapable of creating neither great organised wholes, nor even (as the romantics) large eloquent stretches, put their activity into the eggshell (nutshell) of producing beautiful individual lines, or very short perfect lyrics. That is beautiful indeed, when it is beautiful; but it is dangerous to fall into the impression that that is anything but the lowest part of art. These are the tenets of sensationism, quâ artistic philosophy. That is to say, these are the tenets it upholds in so far as it accepts all systems and schools of art, extracting from each that beauty and that originality which is peculiar to it. But sensationism is not only a philosophy of art; besides its attitude of universal acceptance of what is beautiful, it presents an originality of its own. If it were only an aesthetic attitude, it would have no right to call itself anything — sensationism for instance —, anything but a bald, though lucid, artistic philosophy. Quâ novelty, sensationism has three other tenets, and it is here that it begins to be sensationism proper. It holds, first of all, that society is spiritually divided into three classes, which sometimes coincide, and more often do not coincide, with «classes» cammonly socalled. It divides those classes into aristocracy, middle class and the people, but the division, as will be seen, has no (necessary) relation with the common division of society into these elements. For the sensationist, the aristocrat is the person who lives for art, and for whom all things, material or spiritual, have value only in so far as they have beauty. Religion, morality, spirituality, — all these things are worth the beauty they have, or that can be extracted from them. They are neither true nor false; they have no interest for the aristocrat, apart from their aesthetic interest. For the middle-class person, in this classification, the basis of interest of anything is political. The value of everything, for him, is in the relation of the political value he sees in it. It does not matter what his idea of politics is; it may be high or low, just as the aristocrat’s idea of art and beauty may be high or low, the essential thing being that art is the one important thing to him. So for the middle-class man: politics is the one important thing for him, whether he may be a Herbert Spencer or John Jones, a common voter. The plebeian attitude involves no direct interest except a material one. All socialists and most anarchists are structurally plebeians, because they are preeminently occupied with economic considerations. The age of economists is the evil age of art, because the age of plebeian feeling must perforce be the evil age for aristocratic sentiment. Sensationism stands for the aesthetic attitude in all its pagan splendour. It does not stand for any of those foolish things — the aestheticism of Óscar Wilde, or the art for art's sake of other misguided people with a plebeian outlook on life. It can see the loveliness of morals just as it can understand the beauty of the lack of them. No religion is right for it, nor any religion wrong. A man may traverse all the religious systems of the world in one day, with perfect sincerity and tragic soul-experiences. He must be an aristocrat — in the sense in which we use the word — to be able to do it. I once stated that a cultured and intelligent man has the duty to be an atheist at noon, when the clearness and materiality of the sun eats into all things, and an ultramontane catholic at that precise hour after sunset when the shadows have not yet completed their slow coil round the clear presence of things. Some people thought that this was a joke. But l was only translating into rapid prose (this was written in a newspaper) a common personal experience. Having accustomed myself to have no beliefs and no opinions, lest my aesthetic feeling should be weakened, I grew soon to have no personality at all except an expressive one, l grew to be a mere apt machine for the expression of moods which became so intense that they grew into personalities and made my very soul the mere shell of their casual appearance, even as theosophists say that the malice of nature-spirits sometimes makes them occupy the discarded astral corpses of men and frolic under cover of their shadowy semblances (substances). This does not mean that every sensationist should have no political opinion; it means that, as artist, he is bound to have none and all. That excuse of Martial’s, which has roused the ire of many people alien to the [essence] of art: « Lasciva est nobis pagina, vita proba» , that, though his art was impure, his life was not, reproduced after by Herrick, who wrote of himself «His muse was jocund, but his life was chaste», is the exact duty of the artist towards himself. Sincerity is the one great artistic crime. Insincerity is the second greatest. The great artist should never have a really fundamental and sincere opinion about life. But that should give him the capacity to feel sincere, nay to be absolutely sincere about anything for a certain length of time — that length of time, say, which is necessary for a poem to be conceived and written. It is perhaps necessary to state that it is necessary to be an artist before this can be attempted. It is of no use to try to be an aristocrat when you are a born middle-class man or plebeian. 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 204. Ortografia. A palavra falada é imediata, local e geral. Quando falamos, falamos para ser ouvidos imediatamente, com quem está ali ao pé de nós, e de modo a que sejamos facilmente entendidos d'ele, que sabemos quem é, ou calculamos que sabemos e que pode ser toda a gente, devendo nós pois falar como se ele fosse qualquer. A palavra escrita é mediata, longínqua e particular. Quando escrevemos, e tanto mais quanto melhor e mais cuidadosamente escrevemos, dirigimo-nos a quem não nos vai ouvir, que é ler, logo; a quem não está ao pé de nós; a quem poderá entender-nos e não a quem tem que entender-nos, tendo nós pois primeiro que o entender a ele. (exemplo de mas e senão, de há se de etc.) Em resumo, a palavra falada é um fenómeno social, a escrita um fenómeno cultural; a palavra falada um fenómeno democrático, a escrita um aristocrático. São diferentes em substância: são pois forçosamente diferentes os seus respectivos meios e fins. A cultura próxima e a cultura remota. A cultura é um fenómeno pelo qual estamos ligados ao passado pela inteligência; é, em outras palavras, a tradição intelectual. Na palavra falada temos que ser, em absoluto, do nosso tempo e lugar; não podemos falar como Vieira, pois nos arriscamos ou ao ridículo ou à incompreensão. Não podemos pensar como Descartes, pois nos arriscamos ao tédio alheio. A palavra escrita, ao contrário, não é para quem a ouve, busca quem a ouça; escolhe quem a entenda, e não se subordina a quem a escolhe. Na palavra escrita tem tudo que estar explicado, pois o leitor nos não pode interromper com o pedido de que nos expliquemos melhor [.] s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 114. There is no peace save where I am not, The woods are gay where I never pass, Nothing but shadows are where my thought Plunges its feet in the moist dead grass. Nothing save shadows and day elsewhere Waiting for those that await and hope. A horror lays its wind on my hair, And a cold hand does for my cold hand grope. Yet nothing in me save pain merits this, Nothing in me save this merits pain. Oh, Mother of Shadows, whose ice-dead kiss Is madness, hasten towards my brain! 21-7-1916 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 80. XXXV Good. I have done. My heart weighs. I am sad. The outer day, void statue of lit blue, Is altogether outward, other, glad At mere being not-I (so my aches construe). I, that have failed in everything, bewail Nothing this hour but that I have bewailed, For in the general fate what is't to fail? Why, fate being past for Fate, 'tis but to have failed. Whatever hap or stop, what matters it, Sith to the mattering our will bringeth nought? With the higher trifling let us world our wit, Conscious that, if we do't, that was the lot The regular stars bound us to, when they stood Godfathers to our birth and to our blood. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 190. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Quem me amarrou a ser eu Fez-me uma grande partida. Debaixo deste amplo céu, Não tenho vinda nem ida. Sou apenas um ser meu. Nem isso... Anda tudo à volta A retirar-me de mim. Parece uma fera à solta Este mundo que anda assim A servir-me de má escolta. Quando encontrar a verdade Hei-de ver se hei-de fugir, Pelo menos em metade. Depois ficarei a rir Da minha tranquilidade. 16-6-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 105. O Suspiro do mundo: Vida, morte, Riso, pranto É o manto Que me cobre. Natureza, Amor, beleza, Tudo quanto A alma descobre. O Mistério Deste mundo Teu profundo Olhar leu; D'além dele — Cerra a alma De pavor! — Venho eu. Nada, nada Já acalma Tua dor. Tu bem sabes Ser minha voz Mais atroz De mudo horror No que não diz, E só tu sentes E compreendes. Cerra, infeliz Cerra a (tua) alma Ao meu pavor! (Fausto, com os olhos fechados, encolhido na cadeira, treme como que dum grande frio.) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 10. SUMMER MOMENTS I The sky is blue, The glad grass green. My sad eyes woo The alien scene. Oh, could my heart Partake of it And feel no smart Feeling life flit! I have no home, No hours save pain. Sweet breezes, come Into my brain! Great river so Quiet and true, Teach me to go Through life like you! I have no rest. My flowers have faded. What was that quest My will evaded? Even what I wish I care not for. My heart is rich And my love poor. Oh, golden day, Come into me And my soul ray With sunlit glee! Let me be merely A window‑pane You pass through, clearly A warmed no‑pain. I faint and shiver Hearing life come. O passing river, Where is my home? O happy hours That the fields wear, Fresh summer showers! O my despair! O glad horizons! O happy hills! What pain imprisons My struggling wills? What is between Myself and me? What should have been Lest this should be? My life no more Ever to be Than a lone shore Struck by the sea! What fate, what power Of dark despair Makes each fair hour Taste as not fair? Oh, for some rest! Give me a home, A hope, a nest Not to stray from! Somewhere in life Sure there must be Something not strife Waiting for me. Lead me to it, O happy day! Make my heart fit Thy going away! Wake me the hopes At least, though false, My spirit gropes Round prison‑walls. Low voice of streams, Sweet summer's wife - Why made I dreams My only life? II The sun shines. Birds pass. The path lines The grass. I go through The meads, Far from woe And deeds. There is no hope Now here, Nothing to grope For or fear. Nothing: the sky And the green earth; A vague wonder why There was birth. This and no more, This and my soul And the sky o'er This nothing's all. I am again The child I was, Having no pain More than the grass. I live a life Freed from the morrow And forget strife And sorrow. What were the shapes Of fear and hope? Vines show their grapes Down the hill‑slope. This real hour Shall not survive, Yet shall't endure Because I live. So let the glades And the sky's blue In vague soul‑shades My heart come through, Till I become An outward thing, Having no home; A breath, a wing, A portionless Part of the hour, Outside the stress Of being more. Low voices coming Out of the day, Chirping and humming Near and away, Make me a part Of what you are, Spill out my heart, Shake it afar! Let my soul be A dust thrown up To the winds' glee, In the sea's cup! There lost and mixed, There selfless made, No longer fixed And casting shade. This hour must pass Like all I know; Yet, while it was, Fresh was my brow, My eyelids drooped With final ease, I was not cooped In thought's disease. So let me rest This while and deem That life the best That's most like dream. This hot hour is Of that vague size, For I see this Through no clear eyes, But in a dim Abandonment Live in the rim Of my thought's bent, And this thought now's A blade of grass That not even knows Hours pass. III A gentle wind hath risen Out of the heated day. May my soul be forgiven Its dreams! O let me pray That this freshening hour May cling to memory And have years after power To live again in me! 'Tis very little, I know, But it is happiness, And the hours are but few That we can really bless. They are hours like this, freed From belonging to thought, When we have nought to heed Save a breeze that is nought. Let me therefore breathe in Into my memory This hour, and may it begin Again whenever I see My heart grow heavy and hot, My thoughts grow close and late O soft breeze, fan my thought! O calmness, brush my fate! 19-9-1915 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 354. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. A questão da arte moral ou imoral — se a arte deve ser “art for art’s sake”, independentemente da moralidade — , apesar de muito simples de solução, não tem deixado de ocupar desagradavelmente muito pensador, especialmente dos que desejam provar que a arte deve ser moral. Em primeiro lugar demos inteira razão — é evidente que a tem — aos estetas; a arte tem, em si, por fim só a criação de beleza, aparte considerações de ser moral ou não. Se isto é assim quem manda pois à arte ser moral? A resposta é simples: a moral. Manda-o a moral porque a moral deve reger todos os actos da nossa vida e a arte é uma forma da nossa vida. Têm errado aqueles que têm querido achar uma razão, dentro da própria Natureza da arte, para a arte ser moral. Não existe essa razão onde a procuraram. A arte, qua arte, tem por fim apenas a beleza. A razão que a manda ser moral existe na moral, que é exterior à estética; existe na natureza humana. A arte tem duas feições: a feição puramente artística e a feição social. A feição artística é criar a beleza — nada mais. Como a beleza é uma coisa independente do consenso humano (apesar de julgada por ele), como a beleza em si, digamos, é independente de opiniões, a arte na sua (...) social nenhum outro fim tem que a criação da beleza, sem outra consideração moral ou intelectual. Mas a arte tem outra feição. É a feição social. O artista é um homem e um artista. Puramente artista a sua obra, já o dissemos, tem só por fim criar a beleza, só uma responsabilidade — perante a Estética. Mas o artista vive em sociedade, publica as suas obras de arte. Vive em sociedade como artista e vive em sociedade como homem. Como artista o seu fim é um só: agradar. Como homem o seu fim é um só: obter glória. Vemos pois que o artista mostra-se-nos sob 3 feições: como puramente artista (não tendo outro fim que criar a beleza), como ao mesmo tempo artista e homem (querendo ver essa beleza que criou admirada), e finalmente como homem (desejando a glória, no que é comum aos outros homens, geralmente a todos). O primeiro sentimento é puramente impessoal; o segundo é entre pessoal e impessoal — o desejar ver admirada uma obra de arte, conquanto sua, não é inteiramente egoísta; o terceiro é inteiramente pessoal. Cremos ter dado, nestas palavras, a solução definitiva do problema. Ora, segundo estas 3 feições do artista, está ele submetido a diversas leis. Como puramente artista nenhuma outra lei tem que não seguir a estética. Mas já buscando agradar se tem que submeter a outras leis; a natureza da humanidade é uma só, não se divide em estética, moral, intelectual, etc. Só a Estética personalizada é que poderia apreciar uma obra de arte sob o ponto de vista puramente estético. A humanidade não; o amor da beleza é fundamental na sua alma — é arte; mas não só isso reside nela, não só com isso critica e aprecia. Outros elementos entram inevitavelmente essa apreciação. Um grande poema revolucionário agradará mais a um republicano do que a um conservador, admitindo em ambos, quanto a qualidades críticas, a mesma dose de estética. Os homens não apreciam só esteticamente, apreciam segundo toda a sua constituição moral. Por isso coisas grosseiras impuras, lhes desagradam, não na parte estética neles, mas na parte moral que não podem mandar embora de si. 1914? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 55. Quer isto dizer, Senhor Presidente, que uma nação haja sempre de ser governada por chefes acentuadamente tais, que não haja período em que possam estar no poder os inteligentes sem aura e os patriotas sem prestígio? Não o quer dizer. O que porém quer dizer é que esse prestígio de chefe, desnecessário muitas vezes num governo de época normal, é indispensável num governo de época anormal, imprescindível num governo de autoridade. O que porém quer dizer é que o Prof[essor] Salazar, não tendo tal prestígio, nem maneira de o ter, se deixou investir da aparência d'ele. É a sua túnica de Nessus[.J Ninguém pode legitimamente culpar o actual Presidente do Conselho de não ter qualidades que não tem; pode legitimamente fazer-se de, não tendo tais qualidades, pretender tê-las e ter-se colocado em situação de, não podendo tê-las, ser todavia necessário que as tenha. Culpa-se o Prof[essor] Salazar d'isto: de ser incompetente para o cargo que assumiu. 1935 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 229. O HOMEM PERANTE A MORTE Os três conceitos instintivos que o homem tem perante a morte, conceitos simultâneos e diferentes: (1) o de morrer é horroroso, uma espécie de estar inconsciente conscientemente, de ser enterrado vivo; (2) o de morrer é acabar, deixar isto tudo, a tudo indiferente (ir fazer tijolo, na frase completa na negação popular); (3) o de que morrer é nada, episódio numa vida maior, no impulso orgânico que, em seu sentir‑se, transcende o poder sentir‑se acabar. Daqui deriva uma complicação moral no homem, ou, antes, a formação nele de morais diferentes, unificadas apenas, num duplo impulso de repulsa pela morte e inconsciência do ideal, pela predominância centralizadora do instinto. 1935 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 193. Ao contrário do catolicismo, o comunismo não tem uma doutrina. Enganam‑se os que supõem que ele a tem. O catolicismo é um sistema dogmático perfeitamente definido e compreensível, quer teologicamente, quer sociologicamente. O comunismo não é um sistema: é um dogmatismo sem sistema — o dogmatismo informe da brutalidade e da dissolução. Se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido e reunido, e com ele se formar uma figura gigantesca, tal seria a figura do comunismo, inimigo supremo da liberdade e da humanidade, como o é tudo quanto dorme nos baixos instintos que se escondem em cada um de nós. O comunismo não é uma doutrina porque é uma antidoutrina, ou uma contradoutrina. Tudo quanto o homem tem conquistado, até hoje, de espiritualidade moral e mental — isto é de civilização e de cultura —, tudo isso ele inverte para formar a doutrina que não tem. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 141. No dia em que te casares No dia em que te casares Hei-de te ir ver à Igreja Para haver o sacramento De amar-te alguém que ali esteja. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 95. Duas vezes eu tentei Duas vezes eu tentei Dizer-te que te queria, E duas vezes te achei Só a que falava e ria. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 67. Para Orpheu Sentir é criar. Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o Universo não tem ideias. — Mas o que é sentir? Ter opiniões é não sentir. Todas as nossas opiniões são dos outros. Pensar é querer transmitir aos outros aquilo que se julga que se sente. Só o que se pensa é que se pode comunicar aos outros. O que se sente não se pode comunicar. Só se pode comunicar o valor do que se sente. Só se pode fazer sentir o que se sente. Não que o leitor sinta a pena comum [?]. Basta que sinta da mesma maneira. O sentimento abre as portas da prisão com que o pensamento fecha a alma. A lucidez só deve chegar ao limiar da alma. Nas próprias antecâmaras do sentimento é proibido ser explícito. Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica. Deus é toda a gente. Ver, ouvir, cheirar, gostar, palpar — são os únicos mandamentos da lei de Deus. Os sentidos são divinos porque são a nossa relação com o Universo, e a nossa relação com o Universo Deus. [.. .] Agir é descrer. Pensar é errar. Só sentir é crença e verdade. Nada existe fora das nossas sensações. Por isso agir é trair o nosso pensamento. [...] Não há critério da verdade senão não concordar consigo próprio. O universo não concorda consigo próprio, porque passa. A vida não concorda consigo própria, porque morre. O paradoxo é a fórmula típica da Natureza. Por isso toda a verdade tem uma forma [?] paradoxal. [...] Afirmar é enganar-se na porta. Pensar é limitar. Raciocinar é excluir. Há muito que é bom pensar, porque há muito que é bom limitar e excluir. [...] Substitui-te sempre a ti próprio. Tu não és bastante para ti. Sê sempre imprevenido [?] por ti próprio. Acontece-te perante ti próprio. Que as tuas sensações sejam meros acasos, aventuras que te acontecem. Deves ser um universo sem leis para poderes ser superior. São estes os princípios essenciais do sensacionismo. [ . . . ] Faz de tua alma uma metafísica, uma ética e uma estética. Substitui-te a Deus indecorosamente. É a única atitude realmente religiosa. (Deus está em toda a parte excepto em si próprio). Faz do teu ser uma religião ateísta; das tuas sensações um rito e um culto. [...] 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 216. A língua «americana». Imagine o leitor que, referindo-se a um grupo de gente aparentemente alegre e foliona que afinal induzisse ao tédio, o Diário de Notícias dizia, em fundo, «Esta maltosa de rambóias não produz senão chatice». Que entenderia nisto o leitor descaloado? Que um extracto de malte, obtido pela decocção das folhas de uma árvore chamada rambóia, produz simplesmente qualquer espécie de emagrecimento, presumivelmente a cura da obesidade. Em iguais circunstâncias interpretativas se encontra a maioria dos ingleses perante o fraseado dos periódicos americanos, e mormente dos que se destinam aos grandes públicos. Assim como têm vindo substituindo a música europeia pelos jazzes e não sei que mais dos negros, e as humildes valsas de compositores alvos conhecidos pelas produções de Strausses pretamente incógnitos, assim também à riqueza e à majestade antigas da língua inglesa têm vindo a antepor, na falsa energia de um ataque epiléptico verbal, um calão pitoresco e convulsivo. E o pior é que o calão envelhece e passa depressa, como as estrelas de cinema, e quem se entendia pelo calão do equinócio da primavera já se não entende pelo do outono, dado o estabelecimento muito próprio de uma terra de sociedades secretas, de asneira-de-passe semestrais. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 115. Why do I desire What I do not need? Why does my soul, like fire, Or a hot abstract greed, Seek all that is higher? Why, if not because It is a soul? (...) Who can know the cause When it lies in its whole Hidden in (...) laws? Yet this matters not. What matters is pining And that stress of thought That comes of divining What to wish that may not be got. 12-8-1916 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 81. SEPARATED FROM THEE... Separated from thee, treasure of my heart, By earth despised, from sympathy free, Yet winds may quaver and hearts may waver, I'll never forget thee. Soft seem the chimes of boyhood sweet To one who is no more free, But let winds quaver and men's hearts waver, I'll never forget thee. In a dim vision, from school hailing Myself a boyish form, I see, And winds have quavered and men's hearts wavered. But I'll [have] not forgotten thee. Since first thy form divine I saw, While from school I came with glee, Winds have quavered and men's hearts wavered, But I've [not] forgotten thee. Since a simple boyish passion I entertained for thee [,] Though winds have quavered and men's hearts wavered, I've [not] forgotten thee. The stars shine bright, the moon looks love, From over the moonlit sea, Winds have quavered and men's hearts wavered And thou hast forgotten me. Separated from thee, treasure of my heart , By earth despised, from sympathy free, Yet [winds] may quaver and hearts may waver, But I'll never forget thee. 12-5-1901 Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 194 / 196. 1ª publ. in Obra Poética . Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Dores Galhoz.) Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960. O mistério supremo do Universo O único mistério, tudo e em tudo É haver um mistério do universo, É haver o universo, qualquer cousa, É haver haver. Ó forma abstracta e vaga Que tão corrente haver em mim demora Que pensar isto é-me no corpo um frio Que sopra d'além terra e d'além-túmulo E vai da alma a Deus. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 11. EMPTINESS The day sickens into the lakes The colour that its pallor wears. A loss of outline overtakes The landscape, and the horizon bears Like a defeated flag the dim Purposelessness of its dead rim. Let my heart forsake everything. I shall be richer by all I. Every breath, each passing wing Takes me from myself. The whole sky Eats into my self‑consciousness And detracts from my true distress. For my true sorrow is not that The day is sad as I am sad, But that no moment can abate The pain that I but pain have had To take with me and see and feel While life goes by like a mere wheel. No: vaguer things than skies and plains Are dark and lowered o'er in me; My sorrows are more empty pains Than of which plains can symbols be; And my void weight of life and self Resembles nothing but itself. s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 364. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. This problem of immoral art is one that is ever cropping up, centering for the moment round one work or another which puts the vague principles involved in that problem into public focus. There are two aspects to the problem. The first is the abstract philosophical one which consists in the discussion of the relations between art and morals, the aesthetic problem of ethics, if we may so call it, or, putting it the other way, the ethical problem in aesthetics. I am not now concerned with this problem. My object is to discuss the practical problem based upon these two elements — the problem of pornography, we may say. Should government or any authorities control or supervise the exercise of literary or artistic faculties, having regard to their possibly evil influence on the reading, seeing or hearing public? If so, on what bases will that supervision work? We will take the problem as concerned with literature. The only classification admissible in literature, which concerns this problem is into literature proper and mere obscene writing. That obscene writing which is the script equivalent of, say, obscene photographs, in which the only possible justification is obscenity, belongs palpably to a different species than the writing which is literary and in which either obscene elements are superimposed on the literary substructure, or inextricably interwoven with the artistic substance thereof. So that, if authorities are to interfere in this problem, they have to proceed, first, on a palpably aesthetic basis. The question, as all questions, is of degrees. There are works which are palpably only obscene and not literary at all, such as those pamphlets, we have just named, which correspond in written manner to the obscene photographs which we also cited in parallel. And there are, at the other end, products like “Venus and Adonis”, like so many classical poems and prose-works; the difficulty is greatest when we meet with high works of art which are, not only immoral, but frankly apologetic for some species of immorality. It cannot be claimed that the artistic elements involved absolve and extirpate the immorality of the work. Of the two kinds of public that read, one, the lower, does not see the artistic elements and enters into the significance of only the immoral elements contained in the work of art. The other portion of the reading public, that portion which is sensitive to artistic influences, and able therefore to effect a separation between the two kinds of elements which are, by hypothesis, involved in the kind of artistic work we are discussing, is not very far from the other public in reference to effects, for, if the work be really a high work of art, and the immoral elements therefore not foreign to the substance of it, but inextricably wound up with it, these immoral elements are brought all the more into prominence, inasmuch as they gain intensity, beauty and fervour through the artistic way they are put. “Venus and Adonis” is very likely to excite sexual feelings in a feebly educated person; but it is, if anything, still more likely to excite them in a highly educated or highly-sensitive one. The very artistic superiority of the work ensures that effect. The principle that “to the pure all things are pure” is pure fireworks; there are no “pure”. If we wish to prohibit the sale of immoral art, we cannot do so without prohibiting art at the same time. The problem is especially difficult when we have to consider non-extreme works, that is works which are not palpably superior from the artistic standpoint, but which also are not pure obscenity, mere obscenity and no more. When we are at the Shakespeare level, we all more or less agree that it would be tantamount to violence to prohibit the circulation of immoral literature. When we are at the literary level correspondent to the obscene photograph, only the traders in it will not agree to its suppression. But when we are round the popular novelist level, the problem becomes very difficult. To a certain extent works on a literary par with Mr. Hall Caine’s or Miss Marie Corelli’s are literature; though they are unremaining literature — though several people, indeed, might claim for them a superior level. If such works convey obscenity or immorality, what is to be done to them? The central fact is that the problem is elsewhere and its solution rendered impossible until we decide to see that some classification of publics must be entered into, before any light at all breaks into the discussion. For the essential difference between the uneducated and the educated reading of, say, “Venus and Adonis” is that, though both educated and uneducated are very possibly sensually excited to the same degree while reading the work, the after-influence differs, special cases and morbid ones being, of course, not considered. A little after finishing “Venus and Adonis”, the uneducated reader who has not been bored but kept interested by the sexual part of it, remains under the influence of that part of it which interested him, and that is the sexual one. Whereas the educated reader, once past the momentary excitement of the work, remains rather under the influence of the artistic elements. The second distinction to be effected is between adult and non-adult public. An adult is held to be one who is able to shift for himself, which a child is not. So that, in this field, the problem becomes simple: the reading of immoral works, of whatever kind they be, should be forbidden to children, but permitted to adults. Among adults, the distinction follows: there are the educated and the uneducated ones, and the latter are, to a certain extent, in the position of children. So that, if prohibition is to some extent to be decided on, it should be extensive only to the uneducated part of the public. The question of how that is to be effected is quite secondary and solvable, if only approximately, in several ways. 1914? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 57. Um homem que, tendo que presidir a uma distribuição de prémios literários, abre a sessão com um discurso em que enxovalha todos os escritores portugueses — muitos d'eles seus superiores intelectuais — com a fútil imposição de «directrizes» que ninguém lhe pediu nem pediria, e que, pedidas que fossem, ninguém poderia aceitar por não compreender quais sejam — esse homem, que assim, com uma inabilidade de aldeão letrado, de um só golpe afastou de si o resto da inteligência portuguesa que ainda o olhava com uma benevolência, já um pouco impaciente, e uma tolerância, já vagamente desdenhosa, não tem sequer o prestígio limitado que lhe permita governar uma república aristocrática, a aceitação de uma minoria que, ainda que praticamente inútil, fosse teoricamente inteligente. 1935 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 230. Por carácter (em grego ethos) entendo a manifestação social da individualidade. A individualidade manifesta‑se de três maneiras, seguindo as três divisões radicais (não importa agora analisá‑las) da inteligência, sensibilidade e vontade, ou, se melhor julgarem, desejo — a faculdade pela qual nos exteriorizamos. É a esta que se liga o carácter, que é, já o dissemos, a manifestação social da individualidade. Dos outros dois elementos, a sensibilidade é extra-social, porque só ao indivíduo pertence e só a ele Ihe importa, e a inteligência é supra-social, visto estar em relação com um meio mais largo do que o indivíduo, com um meio intenso a que não põe limites o espaço, e que o tempo não encadeia. Mas a inteligência, a sensibilidade, perguntarão, não pertencem ao carácter? Pertencem e não pertencem. Uma coisa é carácter; outra é individualidade. (A individualidade tem 3 formas de se manifestar). O homem, um ser qualquer — é um modo‑de‑sentir posto diante de uma matéria qualquer, em si desconhecida, da combinação da qual com esse modo‑de‑sentir resulta uma representação, idêntica na generalidade, diversa nos detalhes, em todos os homens, em todos os seres, (especialmente nos da mesma natureza). Há pois em cada homem: (1) Uma percepção universal em natureza da realidade, que ele tem de comum com os animais, com tudo que é consciente. (2) Uma percepção geral do mundo que ele tem de comum com os homens ou seres da sua espécie. (3) Uma percepção particular que não tem em comum que lhe é especial a ele, a cada homem — em cada um diversa. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 194. Objection to be made to Christian philosophy is that it is a dualistic system. Christianity holds that there are two realities, two things equally true, equally real. Now to say that truth is of two kinds is to say that there are 2 realities, 2 truths. But this conception is absurd; there cannot be more than one reality, more than one truth. «Realities», «truths» (this last word in its most extensive sense) are not expressions which owe much to logic; nor is it a custom to use them. There cannot be, then, there are not, two realities. Such a conception is impossible. Dualism as a theory of things is a (child) product of philosophic idiocy (childhood). But it may be added, matter and spirit are realities, but they are realities either (says one theory) of different kinds, or (another will say) of different degrees. The first of these two hipotheses is, I believe, already disproved. For I have already said that two realities are impossible, that reality is understood to be one. Realities of two kinds are two realities and no more. But if it be thought that this is not so and that two realities may be conceived, one as infinite and as eternal, another as finite in space and in time; still there is [an] answer for this and a word against it. In the first place reality (for reality is ever a unitary concept) cannot be at the same time eternal and in time, infinite and in space. It has to be one, or it must be the other or, perhaps, other than either of these. It Cannot be both, for then it would be dual, it would lose its quality of reality. It would be possible to answer again: reality is thus dual because dually considered. Dually considered — and by whom? By man? — then either all reality is subjective and there is none, and we have Protagoras again. Or then reality is to be considered in itself and, being considered thus, the first thing to be postulated about it is that there is one reality alone. But these two realities may be said to be objective, not made or thought by us. But objective reality is again and as truly one. If two realities be shown to us then either one is an illusion, or both are illusions, and, in these cases, either the other, or something other than both is the reality. Two kinds of realities are then inconceivable; there is only one reality, no more than one truth. Again, as we have noticed, an hypothesis may be made, that matter and spirit are realities of different degrees. But then, if matter and spirit be realities of different degrees, there are realities of other degrees and we do not take conscience of them. This is extraordinary enough, but it is not sufficient to disprove; there are better things in the same argument. For two, any number of degrees of anything, in any quality, suppose a series in that quality, and a series in any quality supposes an infinite (the quality itself in itself, in the abstract) at the top, and zero of that quality at the foot. Two degrees of reality suppose therefore, if these degrees be truly relative, numerical, none of them is real, the reality is the infinite at the top. There is no reality but reality. On the other hand if these be relative only to each other, if they be two absolutes, one of them is infinity (reality itself) and the other zero (no reality at all). Again is dualism impossible. It may now be said: duality is transitory, spirit is really the only reality. 1908? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 142. Quando apertaste o teu cinto Quando apertaste o teu cinto Puseste o cravo na boca. Não sei dizer o que sinto Quando o que sinto me toca. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 96. Neopaganismo Português [Plano de obras] 1. Alberto Caeiro (1889-1915): O Guardador de Rebanhos, seguido de outros poemas e fragmentos. (Abre o livro uma nota sucinta dos parentes do poeta, que publicam o livro). 2. Ricardo Reis: Odes. (São cinquenta. Abre o livro um curto prefácio do autor). 3. António Mora: O Regresso dos Deuses — Introdução geral ao Neopaganismo Português. 4. Ricardo Reis: Novas Odes. 5. António Mora: Os Fundamentos do Paganismo — Teoria do DuaIismo Objectivista. O Movimento Neopagão Português compõe-se destas cinco obras. As três primeiras deverão ser publicadas em fins de 1917, e as outras duas no ano seguinte. Sendo possível, as primeiras em Outubro 1917 e as outras, quando não possa ser em Maio 1918, em Outubro. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 221. Ex.mo Senhor Director de «O Notícias Ilustrado» Acabo de ler o último número do magnífico «magazine» que V. Exa tão proficientemente dirige. E, com pasmo, vejo em certa altura umas gravuras referentes ao «conto do vigário», acompanhadas duma dissertação com ares de erudita sobre a origem do mesmo. Li a dissertação, analisei as gravuras — e quedei-me absorto pelo espanto! Pois quê? É lá possível que uma publicação, com a categoria de «O Notícias Ilustrado», venha lançar aos quatro ventos da publicidade uma historieta sem pés nem cabeça, impingindo-a aos seus leitores como a origem do celebérrimo conto que tantos papalvos tem levado no embrulho e tanto vigarista tem guindado às mais altas e rútilas esferas da Fama? E, perante esta desconsoladora certeza, senti o rubor subir-me às faces e uma raiva surda cachoar dentro do peito... É que nem uma só das gravuras publicadas está certa, nem uma só das legendas que as acompanham é a reprodução da verdade. Aquilo que em «O Notícias Ilustrado» se vê e lê, é vigário... sem «conto», vigário grotesco, sem fila, sem grupo, sem baratim… Perdoe-me V. Exa a rudeza destas expressões, mas é assim mesmo. Vigarista de profissão, no que tenho muita honra, há uns bons vinte anos que não faço outra coisa do que afanar otários e, felizmente, para glória minha e da prestimosa classe a que pertenço, sou consumado artista no metier... Nunca, em tempo algum, os vigaristas usaram bóinas de apache ou se encostaram, como vadios sem eira nem beira, à estátua de D. José, na risonha e deliciosa esperança de, por essa forma, filarem os bichanços que desembarcam no Terreiro do Paço. Se assim fora, bastaria uma batida da polícia pelo local para os vigaristas irem todos em cana... que e como quem diz: irem todos malhar com os ossos à cadeia… Não, sr. Director! Os vigaristas são homens de linha — tanto assim que a leitura de «O Notícias Ilustrado» lhes é familiar — e sabem trajar como dandys e apresentar-se como aristocratas... O «conto do vigário» é bem diferente do que apresentam as vossas gravuras e isso de notas falsas, pagamentos com notas de cem como se fossem de cinquenta, passamento de recibos e mais lérias, pode ser tudo menos «conto do vigário» e nenhuma relação tem com a sua pretendida origem. No «conto do vigário» — tirante os pobres, porque esses não têm dinheiro para cair — tem caído gente de todas as classes sociais — médicos, lavradores, advogados, padres e juízes, representando garbosamente o clero, a nobreza e o povo... Até agentes da pasma têm levado com o paco pelos crachos — e está bem de ver que a história da corrente de latão fingindo oiro, sobre ser de mínima importância para produzir dinheiro de monta, é demasiadamente ingénua para levar à certa personagens de tão alto coturno mental… Por tudo isto que lhe exponho, sr. Director, fácil é concluir o profundo desgosto que o último número de «O Notícias Ilustrado» me causou. Desgosto duplamente supliciante pela injustiça com que os vigaristas ali são focados e porque tanta inexactidão junta não abona, antes destrói, os legítimos créditos que o dito semanário tão brilhantemente tem sabido conquistar entre o escol intelectual da nossa Terra. O documentário gráfico reproduzido pelo «O Notícias Ilustrado» é, sem blague, uma grave ofensa feita à mentalidade cultíssima e ilustradíssima dos vigaristas, um insulto lançado às faces desses obscuros mas valorosos pioneiros do progresso — tão valorosos que num país de ladrões só roubam a quem os quer roubar e numa terra de cegos obrigam os labregos a abrir os olhos, impedindo-os assim de enriquecer por meios considerados ilícitos e puníveis pelo Código Penal… Acredite, sr. Director, tudo o que «O Notícias Ilustrado» deu à estampa sobre a matéria está falho de senso e de lógica, nenhum serviço podendo prestar aos seus leitores. Por haver uma tão errada noção do «conto do vigário», é que todos caem nele como uns patinhos... Até V. Exa entrava com uns pintores para o primeiro que o achacasse, com essas falsas interpretações que lhe dá… Vou terminar, sr. Director. Mas antes, permita-me que lhe dê a minha palavra de honra de que falo verdade. E se, porventura, V. Exa quiser ter a prova provada, nítida, insofismável, de que não minto, é questão de entrar num acordo com a minha preclaríssima pessoa. V. Exa arranja o otário, fila-o como um vigarista que se presa, eu entro de grupo, manejo o paco, baratino-o... e fica feita a nossa independência para toda a vida. Tudo isto é feito num abrir e fechar de olhos, ponto é que o otário seja bacano e tenha grana, podendo entrar, pelo menos, com oitocentos ou mil pacotes… Sem outro assunto, creia-me: Attº Vº Obg.mo Um vigarista s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 115. «A Origem do Conto do Vigário», de Fernando Pessoa, foi publicado em O Notícias Ilustrado em 18-8-1929. INTERVAL - 3 I could not be thou, being yet not thou Were I not God; so to God my thoughts go (To reach thee, to possess from within To possess from being not from seeing) Because, substance of substance, He alone Can love being all things, and all in each one. Thus is my love (...) religion. And by being born, not born; by being love None; and by being made move, not made to move, But, indefinable and indistinct, Wearing no form nor purpose nor precinct Of use, it hangs, with my soul in its wake An interval between me and thee, between Ourselves and God, between thou being but seen And being loved, abstract absance of place (...) that Life, substance of thou being a living thing Where thought and will and feeling are one thing. Of the two parts of love, becoming other And unbecoming self, I do one choose — The unbecoming, and the other lose. Yet, as to unbecome must be becoming Some other thing, as the end for roaming Makes the thing found where will no matter binds, The unbecoming of me sure love finds. Yet if it finds the loved thing, yet not thee, What thing finds it, that it sought not to be? What but love's own abstraction, interval Between souls. And as aether is purest of all Where filling the mere spaces between things, Because the more unmixed, the love that clings To my large disembodiment is best, Because no object, save love, limits its (…) But here not aether but consciousness is The universal substance, so in this Less difference between this substance and God is there — so, if right I understand, This love which to obtain thee loses thee And which to complete me uncompletes me, Which the mere interval doth occupy Whether neither thy soul nor my soul doth lie, To which my mere love's force abstractly sends My void outgoing, and there my being ends, And so the ends my being had in going Equally endeth — this love thus foregoing The object and the subject to be done By missing into pure Relation; This love finds God by its internal force, For when all things are lost God is the loss. See then how I, starting from me to thee, Have like a sailor that sets out i' th' sea For some shore, and the winds drive him away And this chance casts him on some better bay Than his intention had been to discover. Yet if discovering were intended, ever By what discovered is, where it not willed, The purpose of discovering is filled, And if the unwilled discovery is better, The loss is gam, and that which seemed to fetter The original purpose, the harsh wind, Does lead the unled to where he best can find. Yet this is not the journey's end, for whence The sailor now arrived, to recommence He may begin his voyage original And from the better to the worse recall For as the original purpose, better less, Is in the found included, he may thence His foiled task recompose and now to miss The purpose that his (...) So I, from God, the better may go out To thee, and from within thee, not about Thy presence, enter into thee and be The very personality of thee. 11-5-1917 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 82. ALENTEJO SEEN FROM THE TRAIN Nothing with nothing around it And a few trees in between None of which very clearly green, Where no river or flower pays a visit. If there be a hell, I've found it, For if ain't here, where the Devil is it? 1907 Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 198. 1ª publ.: João Gaspar Simões. Vida e Obra de Fernando Pessoa - História de uma Geração . Lisboa: Bertrand, 1951. MONOTONY Each hot and shaded ember lncludes the outer wet. Let us, my life, dismember Our thoughts into regret. The meaning wind blows colder Upon the wetted pane. Our hearts, alas!, feel older In seeking to live again. The night hurts. Each red ember To hotter redness fret! Alas! When I remember I wish I could forget. What vague and cold gusts enter My soul as by a door! My soul is the living centre Of dreams that are no more. Startle yet more each ember! Make the fire nearer yet! How easy it is to remember When memory means regret! The wetting wind is higher All round my senses lone. My eyes leave not the fire, My lips a vague name moan. Shift uselessly each ember! All our soul is regret. We regret what we remember And regret what we forget. Oh, colder and wilder blowing The wind through the wet gloom! On the grave of my past is glowing A red rose in full bloom. A darkness takes each ember. I stir them not, yet fret. Our life is to remember And our wish to forget. My mystery comes to touch My shoulder till I dread. The red rose is dead. Such As I was is now dead. Could I wish to forget, pale ember, Without pining or regret! Or could I wish to remember Without wishing to forget! s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 366. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. O primeiro grau da poesia lírica é aquele em que o poeta, de temperamento intenso e emotivo, exprime espontânea ou reflectidamente esse temperamento e essas emoções. É o tipo mais vulgar do poeta lírico; é também o de menos mérito, como tipo. A intensidade da emoção procede, em geral, da unidade do temperamento; e assim este tipo de poeta lírico é em geral monocórdio, e os seus poemas giram em torno de determinado número, em geral pequeno, de emoções. Por isso, neste género de poetas, é vulgar dizer-se, porque com razão se nota que um é “um poeta do amor”, outro “um poeta da saudade”, um terceiro “um poeta da tristeza”. O segundo grau da poesia lírica é aquele em que o poeta, por mais intelectual ou imaginativo, pode ser mesmo que só por mais culto, não tem já a simplicidade de emoções, ou a limitação delas, que distingue o poeta do primeiro grau. Este será também tipicamente um poeta lírico, no sentido vulgar do termo, mas já não será um poeta monocórdio. Os seus poemas abrangerão assuntos diversos, unificando-os todavia o temperamento e o estilo. Sendo variado nos tipos de emoção, não o será na maneira de sentir. Assim um Swinburne, tão monocórdio no temperamento e no estilo, pode contudo escrever com igual relevo um poema de amor, uma elegia mórbida, um poema revolucionário. O terceiro grau da poesia lírica é aquele em que o poeta, ainda mais intelectual, começa a despersonalizar-se, a sentir, não já porque sente, mas porque pensa que sente; a sentir estados de alma que realmente não tem, simplesmente porque os compreende. Estamos na antecâmara da poesia dramática, na sua essência íntima. O temperamento do poeta, seja qual for, está dissolvido pela inteligência. A sua obra será unificada só pelo estilo, último reduto da sua unidade espiritual, da sua coexistência consigo mesmo. Assim é Tennyson, escrevendo por igual “Ulysses” e “The Lady of Shalott”, assim, e mais, é Browning, escrevendo o que chamou “poemas dramáticos”, que não são dialogados, mas monólogos revelando almas diversas, com que o poeta não tem identidade, não a pretende ter e muitas vezes não a quer ter. O quarto grau da poesia lírica é aquele, muito mais raro, em que o poeta, mais intelectual ainda mas igualmente imaginativo, entra em plena despersonalização. Não só sente, mas vive, os estados de alma que não tem directamente. Em grande número de casos, cairá na poesia dramática, propriamente dita, como fez Shakespeare, poeta substancialmente lírico erguido a dramático pelo espantoso grau de despersonalização que atingiu. Num ou noutro caso continuará sendo, embora dramaticamente, poeta lírico. É esse o caso de Browning, etc. (ut supra) Nem já o estilo define a unidade do homem: só o que no estilo há de intelectual a denota. Assim é em Shakespeare, em quem o relevo inesperado da frase, a subtileza e a complexidade do dizer, são a única coisa que aproxima o falar de Hamlet do do Rei Lear, o de Falstaff do de Lady Macbeth. E assim é Browning através dos “Men and Women” e dos “Dramatic Poems”. Suponhamos, porém, que o poeta, evitando sempre a poesia dramática, externamente tal, avança ainda um passo na escala da despersonalização. Certos estados de alma, pensados e não sentidos, sentidos imaginativamente e por isso vividos, tenderão a definir para ele uma pessoa fictícia que os sentisse sinceramente (...) 1930? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 67. Destinado assim naturalmente por Deus para executor de ideias de outrem, visto que as não tem próprias, de secretário de prestígio alheio, porque o não pode conquistar seu, o Prof[essor] Salazar quis alçar-se, ou deixou que o quisessem alçar, a um pedestal onde mal se acomoda, a um trono onde não sabe como sentar-se. Não conseguiram os titãs, e eram titãs, escalar o Olimpo; como o conseguirão os anões, condenados, para que possam parecer grandes, ao desequilíbrio constante das andas que lhes ataram às pernas? 1935 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 231. Primeira D. DUARTE REI DE PORTUGAL Meu dever fez-me, como Deus ao mundo. A regra de ser Rei almou meu ser, Em dia e letra escrupuloso e fundo. Firme em minha tristeza, tal vivi. Cumpri contra o Destino o meu dever. Inutilmente? Não, porque o cumpri. 26-9-1928 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 37. Que sabemos nós? Nada. O mistério cerca‑nos e penetra‑nos. A religião com suas infantilidades, a metafísica idealista com os seus delírios são ainda assim superiores ao materialismo porque nelas há a intuição do mistério que o materialismo não tem. Esta falta estigmatiza‑o de falso. * De todas as nossas faculdades a razão é a mais alta, porque é a única que a si é suficiente (self‑sufficient) . * Há quem queira dizer: o problema: o homem é imortal resolve‑se por ter sido lembrado: é falso. * Os Postulados do Racionalismo. Existência de Deus. 1. Há um mistério. Outra busca metafísica: que relação tem esse mistério com o mundo [?] 2. O mundo que vemos não mostra essa verdade: manifesta o mistério silentemente. Como diz Pascal: «La nature ne montre pas Dieu; elle le cache.» Não; a natureza mostra e esconde o mistério. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 195. Of all philosophic systems which are known to be false, the Christian system is the most coherent. By the base (basis) it falls in a moment — a stroke of reasoning overthrows it. But the man is not yet on earth, who will defeat Thomas Aquinas, its great expounder, at all points. 1910? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 146. Toda a noite ouvi os cães Toda a noite ouvi os cães P’ra manhã ouvi os galos. Tristeza — vem ter connosco. Prazeres — é ir achá-los. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 96. Meu coração é uma barca Meu coração é uma barca Que não sabe navegar. Guardo o linho na arca Com um ar de o acarinhar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 68. Alberto Caeiro (1889-1915): O Guardador de Rebanhos, Poemas. Seguidos de outros poemas e fragmentos. Com um prefácio do Dr. Ricardo Reis. Nota dos Editores do Livro. Prefácio do Dr. Ricardo Reis. O Guardador de Rebanhos. O Pastor Amoroso. .Poemas e Fragmentos não revistos. Sumário do Prefácio do Dr. Ricardo Reis: 1. Apresentação das razões por que se fez o prefácio, e divisão do prefácio. 2. A obra de Alberto Caeiro como obra poética em si. 3. A obra de Alberto Caeiro como obra de reconstrução pagã. 4. A obra de Alberto Caeiro considerada no seu conjunto. 5. Fim do prefácio e apreciação geral. s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 222. 1. A letra e não a sílaba é a «unidade» na palavra escrita. (2) A palavra falada compreende-se fixando-se na memória por meio das sílabas que a compõem, a palavra lida fixando-se na memória por meio das letras com que se escreve. Num caso dirige-se à memória auditiva, no outro à memória visual. 3. A palavra escrita é um elemento cultural, a falada apenas social. (4. A base da ortografia é não haver confusão de sentido nas palavras escritas. Basta, pois, que uma determinada série de letras não possa representar mais que uma palavra, como representa bore em inglês, e entre nós representaria choro, se assim grafássemos, não só o choro que se chora, mas, baseado na transliteração latina do Grego, a palavra coro, de canto). A palavra escrita consegue escapar aos equívocos inevitáveis na palavra falada, como o igual som de coser (com agulha) e cozer (ao lume) que o emprego do s e z perfeitamente diferença na escrita. Que é o chamado calembourg senão a demonstração corrente d'isto? s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 118. Let us rest. Every hour is not the next. May this wreathe round with more than emptiness The meaning of the ciphered living text We owe to living and to thought confess. Let us rest. Every hour is not the last. A consolation comes from being late Even at happiness, lest near winds blast The present flower and fate still follow fate. Let us rest. Power is useless and life vain. To ask means to be answered with not giving. To move towards pleasure is to walk on pain, And having to live takes life out of living . So there is no true thought nor just behest, Nor pomp worthing having. Let us rest. 13-1-1919 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 83. ON AN ANKLE A sonnet bearing the imprimatur of the inquisitor-general and other people of distinction and decency I had a revelation not from high. But from below, when thy skirt awhile lifted Betrayed such promise that I am not gifted With words that may that view well signify. And even if my verse that thing would try, Hard were it, if that work came to be sifted, To find a word that rude would not have shifted There from the cold hand of Morality. To gaze is nought; mere sight no mind hath wrecked. But oh! sweet lady, beyond what is seen What things may guess or hint at Disrespect?! Sacred is not the beauty of a queen... I from thine ankle did as much suspect As you from this may suspect what I mean. 1907? Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 200. 1ª publ.: João Gaspar Simões. Vida e Obra de Fernando Pessoa - História de uma Geração . Lisboa: Bertrand, 1951. Hoje que a tarde é calma e o céu tranquilo, E a noite chega sem que eu saiba bem, Quero considerar-me e ver aquilo Que sou, e o que sou o que é que tem. Olho por todo o meu passado e vejo Que fui quem foi aquilo em torno meu, Salvo o que o vago e incógnito desejo De ser eu mesmo de meu ser me deu. Como a páginas já relidas, vergo Minha atenção sobre quem fui de mim, E nada de verdade em mim albergo Salvo uma ânsia sem princípio ou fim. Como alguém distraído na viagem, Segui por dois caminhos par a par. Fui com o mundo, parte da paisagem; Comigo fui, sem ver nem recordar. Chegado aqui, onde hoje estou, conheço Que sou diverso no que informe estou. No meu próprio caminho me atravesso Não conheço quem fui no que hoje sou. Serei eu, porque nada é impossível, Vários trazidos de outros mundos, e No mesmo ponto espacial sensível Que sou eu, sendo eu por estar aqui? Serei eu, porque todo o pensamento Podendo conceber, bem pode ser, Um dilatado e múrmuro momento, De tempos-seres de quem sou o viver? 1-8-1931 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 136. SISTER CECILY Alas for Sister Cecily! To whom prayeth she, Till feet are numb and pained knees torn And pale lips inward driven, Eye‑lifting orisons at morn, Low‑lidded prayers at even? She prayeth to Mary, Mother and Queen, Who still hath been Who keepeth child and maid from harm, Our Lady with eyes of dole, With a lily along her conscious arm And a virgin's aureole. For of the Virgin it is said That she hath bled At seven pains for her sad son And therefore for us all, Whose souls by heavenly hands are spun Out of the same white wool. So to her prayeth Cecily, That all may be Washed pure in the perennial fount Where the saints meet, And given to reach the Shining Mount Though with torn feet. And though she know me not, nor pray For me, oh! may Her prayer for man's woe make me part Of what she says, So a vague rest fall on my heart Because she prays. s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 368. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. Meu prezado camarada: Recebi a sua carta que agradeço, e vou procurar expor em frases sem imagens o sentido daquilo que lhe havia escrito. Devo explicar, antes de mais nada, que, tendo tardado já uns dias em agradecer o seu livro, escrevi uma carta rápida, para não demorar mais. Sucede que, quando escrevo rapidamente, isto é, sem ter tempo de desdobrar em razões o que digo, e concisamente, por escrever rapidamente, o que escrevo assume naturalmente uma forma metafórica, e não lógica. Isto lhe explicará a confusão, ou a obscuridade, que necessariamente existiria na minha carta. O que não havia nela era o dogmatismo que parece supor que continha. Nunca sou dogmático, porque o não pode ser quem de dia para dia muda de opinião, e é, por temperamento, instável e flutuante. Vamos, que consigo o caso não foi grave: já me sucedeu pior, com um poeta espanhol — ainda que porventura um pouco por imperfeito conhecimento da língua — o ser o conciso tomado por seco, e o metafórico por irónico. Em substância, e expondo discursivamente, o ponto de vista que lhe expus é o seguinte: 1) Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade; 2) A sensibilidade é pessoal e intransmissível; 3) Para se transmitir a outrem o que sentimos, e é isso que na arte buscamos fazer, temos que decompor a sensação, rejeitando nela o que é puramente pessoal, aproveitando nela o que, sem deixar de ser individual, é todavia susceptível de generalidade, portanto, compreensível, não direi já pela inteligência, mas ao menos pela sensibilidade dos outros. 4) Este trabalho intelectual tem dois tempos: a) a intelectualização directa e instintiva da sensibilidade, pela qual ela se converte em transmissível (é isto que vulgarmente se chama “inspiração”, quer dizer, o encontrar por instinto as frases e os ritmos que reduzam a sensação à frase intelectual; b) a reflexão crítica sobre essa intelectualização, que sujeita o produto artístico elaborado pela “inspiração” a um processo inteiramente objectivo — construção, ou ordem lógica, ou simplesmente conceito de escola ou corrente. 5) Não há arte intelectual, a não ser, é claro, a arte de raciocinar. Simplesmente, do trabalho de intelectualização, em cuja operação consiste a obra de arte como coisa, não só pensada, mas feita, resultam dois tipos de artista: a) o inspirado ou espontâneo, em quem o reflexo crítico é fraco ou nulo, o que não quer dizer nada quanto ao valor da obra; b) o reflexivo e crítico, que elabora, por necessidade orgânica, o já elaborado. Dir-lhe-ei, e estou certo que concordará comigo, que nada há mais raro neste mundo que um artista espontâneo — isto é, um homem que intelectualiza a sua sensibilidade só o bastante para ela ser aceitável pela sensibilidade alheia; que não critica o que faz, que não submete o que faz a um conceito exterior de escola ou de moda, ou de “maneira”, não de ser, mas de “dever ser”. Na sua aplicação ao seu livro, estas considerações tomam para mim a forma seguinte: 1) a sua sensibilidade é boa, e, por natureza, de tipo intelectual; 2) pode, portanto, ser um poeta espontâneo, sem ter que sobreintelectualizar demais ou recorrer a uma atitude reflexiva ou crítica; 3) para isso, porém, convinha-lhe (a meu ver, bem entendido — mas era a minha opinião, que não a de outrem, que lhe dava), ou a) focar num ponto nítido e universalmente transmissível a intelectualização da sensação, ou b) distribuir mais igualmente a intelectualização pela extensão da sensação. Isto não é, talvez, muito claro; não sei, porém, como o diga melhor. Servir-me-ei de exemplos. Um homem que era, e suponho (embora nada publique, nem talvez escreva) ainda é, o mais curioso espírito crítico português, Manuel António de Almeida, escreveu, em 1912, no “Inquérito Literário” de Boavida Portugal, esta definição da arte moderna: “Uma representação central nítida, em torno da qual bóia todo um nimbo de coisas evocadas.” Isto representa muito bem o que quero indicar como o primeiro processo que lhe sugeri. O segundo seria, servindo-me de uma expressão de igual tipo, “uma representação central vaga, em torno da qual brilham, nítidas, e para lhe destacar o vago, todas as representações secundárias.” É este, meu Camarada, o desenvolvimento mais claro que, de momento, e para não tardar em responder-lhe, posso fazer do que na minha primeira carta lhe disse translatamente . Peço-lhe que creia no verdadeiro apreço de ...... 6-1930 Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 69. Isto não é ser mestre, nem ser chefe: é ser exemplo. Mas igual exemplo nos dão e sempre deram as formigas e as abelhas — cujo Estado Velho está absolutamente bem organizado, e em princípios anti-liberais a que ninguém desobedece sem que seja preciso promover a Abelha Rainha à posição, presentemente mais que régia, da Presidência do Conselho. Realmente é um Estado Novo, porque este estado de coisas nunca antes se viu. 1935 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 232. LITERATURA E SOCIOLOGIA No que atitude teórica para com a Vida, a Civilização é Arte, e Arte vai desde a arte de teorizar (a Metafísica) até às artes menores e inferiores, como a Dança e a Mímica. No que atitude prática para com a Vida, a Civilização é essencialmente Política. No que atitude sinteticamente teórica e prática, a Civilização é Religião, e como a síntese do teórico e do prático deve resumir tudo, assim temos que a história de uma civilização revela‑se através da história de uma religião, que uma civilização pode ser denominada, adjectivada pelo adjectivo formado da religião que a representa. Atitude teórica é, logicamente, a atitude duma civilização para com o Universo em Geral, porquanto o ter uma opinião sobre isso constitui não só a base de todas as teorias possíveis, mas também a mais propriamente teoria que se pode conceber. A atitude prática é uma atitude da civilização para com a sociedade. Uma coisa social prática é logicamente uma atitude da sociedade para consigo própria, visto que para consigo própria ela é a suprema realidade. A atitude prática de uma sociedade é, portanto, a sua Política. 1912? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 196. DA IMPOSSIBILIDADE DE UMA CIÊNCIA DO LEXICON Aos etimólogos. There are more things in heaven and earth, Horatio, Than are known of in your philosophy. (Shakespeare — Hamlet). Certum est quia impossibile est. (Tertuliano). I Compreender uma coisa é fazer dela uma ideia que seja susceptível de definição positiva e completa. Por definição positiva entendo o poder‑se dizer duma coisa o que ela é, e não somente o que ela não é, como acontece por exemplo, com o infinito. Por definição completa entendo uma que inclui todos os atributos da coisa definida. Se um teista, definindo Deus, dissesse que ele «é a causa do mundo», daria uma definição incompleta, pois o ser causa é apenas um atributo; definindo Deus apenas como uma causa não daria o teista sequer uma ideia negativa do que considera a sua essência. II Quanto à nossa compreensão do mundo exterior quatro hipóteses existem: 1ª — Não compreendemos nada, nem viremos a compreender. 2ª — Compreendemos só parte das coisas; a outra parte ignoraremos sempre. 3ª — Não compreendemos tudo actualmente, mas a ciência nos dará essa compreensão. 4ª — Compreendemos tudo. Examinemos em primeiro lugar esta quarta hipótese. Se compreendemos tudo, não há necessidade nem possibilidade de ciência e de filosofia, não há motivo para discussão. Ora a ciência e a filosofia não só existem, mas têm progressos que são talvez indefinidos. Logo não compreendemos tudo. Mas a este argumento pode‑se fazer uma objecção: O objecto de ciência não é as coisas, pois elas são exactamente como nós as vemos, mas as ligações e as relações que existem entre estas coisas, e que têm de ser investigadas, pois não caem sob a nossa percepção imediata. Ora esta já não é a quarta, mas sim a terceira hipótese, que assim podemos expor: «Conhecemos a essência das coisas, mas não completamente as suas relações; à ciência, contudo, é possível a completa explicação destas». Há ainda uma outra fase da terceira hipótese, que nos diz que não compreendemos actualmente a essência das coisas, mas que pela ciência a compreenderemos. A mesma crítica fere ambas as teorias, das quais uma sustenta que compreendemos as coisas, e a outra que as viremos a compreender. Seguindo esta hipótese nas suas duas formas, ou já compreendemos ou a ciência nos fará compreender as ideias de infinito e de eterno que são tão científicas (eternidade da matéria), como metafísicas e teológicas (imortalidade da alma). Presentemente não as compreendemos. De mais a mais é evidente que o raciocínio e a observação nunca podem mudar coisa alguma à nossa percepção directa das coisas; o infinito e o eterno são por sua natureza, e pela nossa, incognoscíveis. O desconhecido à percepção nunca se pode tornar conhecido. A ciência pode explicar, mas não fazer compreender. Provar que estas ou aquelas são as razões das coisas, as essências das coisas, de forma alguma nos faz ter delas uma ideia positiva e completa. A este argumento pode fazer‑se uma objecção grave: O infinito e o eterno não são coisas, são da natureza das relações entre as coisas — da causalidade, da finalidade, etc. Examinemos a questão com simplicidade. O infinito e o eterno ou são coisas, ou são nadas, ou são da natureza das relações entre as coisas. Se são nadas, não há tempo nem espaço; pois que, a haver tempo e espaço, o limite é impensável. Seja tudo um sonho, ainda assim tempo e espaço terão uma existência relativa, uma existência, quanto a nós, suficiente. Havendo pois tempo e espaço, o infinito e o eterno não são nadas. Temos agora a decidir se o infinito e o eterno são coisas, ou se são relações, ou da natureza destas. Esta questão entendo deixar para mais tarde; basta agora mostrar que, quer sejam coisas quer relações, ficam fora da terceira hipótese em ambas as suas formas. Se o infinito e o eterno são da natureza das relações, são, segundo a primeira forma desta hipótese, o que viremos a conhecer, segundo a outra o que já conhecemos. Se eles são coisas, são, segundo a primeira forma, o que já conhecemos, e, segundo a outra, o que viremos a compreender. Ora, como todos sabemos, e como acima já disse, o infinito e o eterno nem são compreendidos nem compreensíveis. Tratemos agora da primeira hipótese, que tanto pode ser a do cepticismo, que é uma espécie de idealismo prematuro, como do idealismo absoluto. Diz o céptico: «Apenas julgo saber». Ora já aqui temos uma coisa certa; sabemos que apenas julgamos saber. Se sabemos isto sabemos alguma coisa. Dizer que é uma ilusão o que sabemos é o mesmo que dizer que as coisas não são como nós as vemos, mas têm por realidade uma existência diferente daquela que aparentam ter. (A realidade do mundo sensível pode ser contestada; mas não se pode contestar que haja uma realidade. A ideia de realidade é equivalente à ideia de ser, à ideia de verdade. E se há uma coisa que se não pode negar, é esta: que o ser existe. É um juízo analítico «a priori», e destes o mais elementar. «Nous avons une impuissance de prouver invincible à tout le dogmatisme. Nous avons une idée de la vérité invincible à tout le pyrrhonisme». Pascal, «Pensées», a. 6, n. 9). Ora esta a segunda hipótese. O mesmo acontece com o idealismo absoluto que tem por conclusão aquilo a que o cepticismo se reduz: que as coisas não são como nós as vemos nem têm a existência que nos mostram ter. A conclusão é a mesma — aquela contida na segunda hipótese. Acabámos de ver que as três hipóteses consideradas eram falsas, e que todas elas, eliminando‑se, nos impunham forçosamente a hipótese restante. Esta é na verdade tão evidente, tão universal quer no conhecimento vulgar, quer em ciência, quer em filosofia, que só por ser forçoso provar tudo é que foi necessário prová‑la. É pois a seguinte asserção a única verdadeira: Conhecemos parte das coisas; uma parte ignoramos e ignoraremos sempre. III Surge agora uma consideração necessária, mais importante e mais difícil, à qual já acima me tinha referido: o incognoscível é imanente às coisas ou não é? Quero dizer, uma coisa qualquer, por exemplo, uma mesa, não é como nós a vemos e realmente existe uma mesa‑em‑si; ou então existe como nós a vemos e o incognoscível é duma categoria inteiramente diferente? Vamos tratar de chegar a uma conclusão considerando o infinito e o eterno, isto é, o espaço e o tempo. Notamos em primeiro lugar que o tempo e o espaço não são perceptíveis, isto é, não caem debaixo da nossa sensibilidade; o que se nos apresenta é o objecto extenso e durável, quero dizer, com extensão e duração. Mas, ao mesmo tempo, só podemos compreender esse objecto se ele tiver uma extensão e uma duração. Vemos portanto que o tempo e o espaço, assim como a forma, a cor, o peso, etc., não sendo coisas, mas sendo contudo necessários a elas para que as compreendamos são atributos gerais, ou condições de sensibilidade. Ora estes atributos servindo a todas as coisas e as coisas manifestando‑se diferentemente através desses atributos, é forçoso conceder que elas têm uma parte sua pela qual se diferençam «a priori». — Um lápis, por exemplo, e uma cadeira têm ambos forma, extensão, peso, etc.; mas há um «quantum» na forma, um «quantum» na extensão, um « quantum» no peso, que fazem estas duas coisas diferentes por meio dos mesmos atributos. — O incognoscível é pois imanente às coisas. Chama‑se‑lhe noumenon e phainoumenon à sua manifestação. IV Vimos que todas as coisas se dividem, por assim dizer, em noumena e phainoumena; o que é o phainoumenon já sabemos; tratemos de considerar mais intimamente o que é o noumenon de uma coisa. Ora notamos imediatamente que o noumenon não sendo o objecto da sensação há‑de ser por força o objecto da ideia dela. Mas, objectar‑se‑á, a ideia de uma coisa qualquer — de um determinado homem, por exemplo, dá‑nos esse homem como uma determinada figura no espaço. Isto é um grande erro: é confundir a ideia com a imaginação reprodutiva. Quando me estão falando de um amigo ausente, tenho durante todo esse tempo a ideia dele, não tenho a imagem mental da sua figura. E contudo nada é mais certo de que pela ideia que tenho dele, ele está mais verdadeiramente conhecido em mim de que se eu fizesse uso da memória imaginativa. A imagem mental é necessariamente consciente; a ideia propriamente dita é inconsciente. A ideia, sendo uma e simples, dá a noção única, completa, vivida, se assim se pode dizer, da essência do ideado, por mais complexo que ele seja. A imagem é sempre complexa e incoerente quanto à essência, à personalidade, por assim dizer, do seu objecto. Continuando esta consideração, a ideia, se materialmente é inconsciente, é por excelência o consciente ideal. Quando me represento pela memória imaginativa um amigo meu, posto que tenha consciência materialmente dessa representação — doutra maneira não a seria — posso estar distraído, se assim o posso dizer, ao ponto de não ter dela consciência ideal, isto é, de não compreender como representação. — Passo distraído por uma rua, vejo um amigo meu e não o conheço. Porquê? Porque tenho consciência de o ver mas n„o de o ver como quem ele é; tenho sensação sem compreensão, consciência material sem consciência ideal. Sem dúvida, perante o bom‑senso (le gros bon sens) isto é, apenas distracção, falta de atenção; será, mas então ser distraído é ter sensação sem compreensão, a ideia do phainoumenon sem a ideia de noumenon. Uma explicação é a decomposição da outra. Um dos exemplos que dei refere‑se à imaginação reprodutiva, outro à percepção exterior. Dei ambos para maior clareza, conquanto só um fosse necessário, porque o mundo exterior sendo da natureza da representação — isto é, necessariamente concebido como no espaço, no tempo, na forma, etc., pode‑se denominar uma imagem forte. Com a ideia acontece o contrário do que vimos acontecer com a sensação e com a representação. Quando me falam de um amigo ausente, sei de quem me falam, logo tenho consciência ideal posto que não material. Quero dizer, compreendo de quem se trata sem ter consciência de compreender. A compreensão é a sua própria consciência. Vemos por isto que a representação por si nada vale, mas que a ideia por si vale tudo. A representação só tem valor quando é, por assim dizer idealizada — isto é, compreendida, ideada como representação. Assim concluímos que o noumenon de uma coisa é o objecto da ideia que fazemos dela — ou a ideia mesmo, se houver identidade ideal entre o sujeito e o objecto. Em outras palavras, e como provámos o noumenon duma coisa é aquilo cuja ideia retirada a essa coisa retire a própria ideia dela. V Como nesta dissertação terei de aplicar a teoria que exponho ao dicionário, e como a palavra dicionário se refere a uma generalidade, tenho agora que considerar se existe noumenon da generalidade, se há generalidade noumenal, como há generalidade phainoumenal. Consideremos em primeiro lugar o que é a generalidade material. Diga‑se desde já, é a soma das abstracções dos atributos da coisa particular, a mais a ideia que transcende essa generalidade e a determina como tal. A generalidade material é pois a possibilidade de todas as coisas particulares do seu género assim como o infinito é a possibilidade de todas as extensões, e a forma, considerada em si, a possibilidade de todas as formas. Cada generalidade material contém o infinito, o eterno, etc., pois contém a possibilidade de todas as extensões, durações, etc., duma determinada categoria. Tudo isto se torna evidente quando consideramos duas generalidades, por exemplo, lápis e mesa, como antes considerámos um lápis e uma mesa particulares. Notamos aqui imediatamente que apesar de tratarmos de generalidades, as duas ideias gerais de lápis e de mesa são inconfundíveis. Cada uma delas contém o infinito, o eterno, o peso‑em‑si, pois contém a possibilidade de todas as extensões, de todas as durações, de todos os pesos; mas transcendendo cada uma destas generalidades há uma ideia que as distingue e diferença inevitavelmente. Assim como a generalidade material é a possibilidade de todas as coisas particulares do seu género, da mesma maneira a generalidade ideal é a possibilidade de todos os noumena dessas coisas particulares. É também evidente que, sendo noumenon, a generalidade ideal há‑de entrar na regra dos noumena, na conclusão a que chegámos no fim da 5ª secção. Nada mais é necessário dizer, pois o único objecto desta secção era provar que existe o noumenon geral para aplicar a teoria na secção seguinte. VI Apliquemos ao dicionário as verdades que acabamos de constatar. Qual é o noumenon do dicionário? Aquilo cuja ideia retirada ao dicionário retire a própria ideia dele. O que é isto? Não é com certeza o formato, nem a encadernação, nem o papel, nem o tipo; posso retirar tudo isto e sustentar que um sábio tenha um dicionário na cabeça. O que nós ideamos quando ouvimos dizer dicionário — é esse o noumenon dele. Ora o noumenon, sendo desconhecido, não pode ser objecto de ciência; não o pode ser portanto o lexicon‑em‑si, isto é, o que nos indica a ideia que está ligada à palavra «lexicon». Só podemos conhecer o phainoumenon. Só pode haver ciência da manifestação do «lexicon» — do formato, da encadernação, do tipo, do papel. Mas é cruel descer do abstracto para o concreto, do ideal para o material, do noumenon para o phainoumenon. Nada sei de papel nem de tipo. Desconheço os formatos. Sinto não poder dizer qual o melhor encadernador em Portugal. O que são os noumena da vida, das coisas? Trevas, escuridão. O que é o noumenon do dicionário, o seu conteúdo, como dizem alguns, a sua matéria? Trevas, escuridão e nada mais. Compreendeis o Infinito, o Absoluto, o Incondicionado? Compreendeis o lexicon‑em‑si? Dizem os livros santos do Oriente falando do Imanente e do Eterno: «Eu sou a luz no que tem luz, a vida no que vive, etc. Porque não diriam eles, porque não acrescentariam, «eu sou o ser no ser, o não‑ser no não‑ser, a etimologia no etimólogo». Junho, 1906 Fernando Pessoa. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 149. Deram-me, para se rirem, Deram-me, para se rirem, Uma corneta de barro, Para eu tocar à entrada Do Castelo do Diabo. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 96. Tenho um desejo comigo/Que hoje te venho dizer: Tenho um desejo comigo Que hoje te venho dizer: Queria ser teu amigo Com amizade a valer. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 68. Ortografia O argumento da uniformização é uma coisa, a base em que uniformizar é outra. Sobre as vantagens da uniformização ortográfica estamos, creio, todos de acordo; não o estamos sobre a ortografia que haja de ser a uniforme. Também não o estaremos, suponho, sobre a imposição da ortografia. Que, tomada certa ortografia por oficial, d'ela use o Estado nas suas publicações, não é mais que inevitável e justo. Sobre o que sejam, para este efeito, «publicações do Estado» haverá um pouco mais de dúvida. Os documentos oficiais, «Diários do Governo», etc. por certo que são publicações do Estado. Os livros de estudo primário — isto é, os por onde se aprenda a ler — usados nas escolas do Estado, também o serão. Que tem, porém, o Estado com os livros que se empregam nas escolas particulares? Que tem com os livros que servem, não para ensinar a ler, mas para ensinar coisas que neles se lêem? A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito. No Brasil a chamada reforma ortográfica não foi aceite, nem ainda hoje, depois de assente em acordo entre os governos português e brasileiro, é aceite. Quis-se impor uma coisa com que o Estado nada tem a um povo que a repugna. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 119. Was it the lyrical nightingale Forgot this music or told this tale? A murmur of sorrow within me moves Among the ghosts of unfound loves, A breath of loss; like a lily faded, By nought but the spell of that music aided. I dream, and the sadness of being alive Is like a mist round the things that strive For an uttered word or a sense of being. What sickness of having no seeing but seeing Haunts with a murmur, thrills with a fear The unnatural sense of my being here? Nothing: the moonlight. Nothing: the breeze. For sure there are, on remoter seas Than mere containing of thoughts and dreams, More earthless sorrows, less lucid gleams. Care, and the fret of not having aught If there, yet weigh not on life and thought. Was it the music that came or ended? Was it that it lost me or that it blended With that of me that was born to hear it? A voiceless sighing incarnate spirit, A murmur of waters that somewhere shine, A moonlight of dreaming it, a curious wine, A splendour of opening vision to stars No separateness from seeing them mars, A clarion of moon-morn issuing from The earliest place before love and home — This, and the music I scarce can hear … Lie still, my heart! be a dream, my fear! 7-6-1919 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 84. Já me não pesa tanto o vir da morte. Sei já que é nada, que é ficção e sonho, E que, na roda universal da Sorte, Não sou aquilo que me aqui suponho. Sei que há mais mundos que este pouco mundo Onde parece a nós haver morrer — Dura terra e fragosa, que há no fundo Do oceano imenso de viver. Sei que a morte, que é tudo, não é nada, E que, de morte em morte, a alma que há Não cai num poço: vai por uma estrada. Em Sua hora e a nossa, Deus dirá. 6-7-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 106. MEANTIME Far away, far away, Far away from here... There is no worry after joy Or away from fear Far away from here. Her lips were not very red, Nor her hair quite gold. Her hands played with rings. She did not let me hold Her hands playing with gold. She is something past, Far away from pain. Joy can touch her not, nor hope Enter her domain, Neither love in vain. Perhaps at some day beyond Shadows and light She will think of me and make All me a delight All away from sight. s.d. Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 202. 1ª publ. in The Athenaeum . London: 30-1-1920 RIVERS Many rivers run Down to many seas. All my cares are one: On what river of these Could my heart have peace? Two banks to each river. None where I may stray Hearing the rushes shiver And seeing the river ever Pass, yet seem to stay. Maybe there is another River, but far from Me. There l may meet the Brother Of my eternity. In what God will this be? 1-3-1913 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 370. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. Estética A composição de um poema lírico deve ser feita não no momento da emoção, mas no momento da recordação dela. Um poema é um produto intelectual, e uma emoção, para ser intelectual, tem, evidentemente, porque não é, de si, intelectual, que existir intelectualmente. Ora a existência intelectual de uma emoção é a sua existência na inteligência — isto é, na recordação, única parte da inteligência, a propriamente tal, que pode conservar uma emoção. 1928? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 72. Chegámos a isto, Senhor Presidente: passou a época da desordem e da má administração; temos boa administração e ordem. E não há nenhum de nós que não tenha saudades da desordem e da má administração. Não sabíamos que a ordem nas ruas, que as estradas, as pontes e as esquadras tinham que ser compradas por tão alto preço — o da venda a retalho da alma portuguesa. Tem todas as qualidades periféricas do chefe. Falta-lhe a principal — que é o ser chefe. 1935 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 233. O primeiro, e o mais abstracto, de todos esses princípios, é o princípio da permanência do ser — que cada corpo, ou cada ente, tem, antes de mais nada, a tendência a continuar sendo o que é, a resistir às forças externas que tendam a desintegrá‑lo. A desintegração total é difícil na proporção da complexidade do corpo; uma molécula é mais fácil de desintegrar do que uma sociedade, porque uma molécula tem uma medíocre capacidade de resistência, ao passo que uma sociedade, pela sua complexidade, tem muitas. Mas, ao contrário, os corpos de mais difícil desintegração total, pela sua complexidade, são, por essa mesma complexidade, de fácil desintegração parcial. O segundo princípio é o de que essa tendência a permanecer tal qual é, deriva, em qualquer corpo, de um equilíbrio, ou, antes, realiza‑se, ou não se realiza, em qualquer corpo, consoante se mantém, ou se não mantém, determinado equilíbrio. Daí o facto de que o corpo inorgânico ou existe ou deixa de existir, ao passo que o corpo orgânico é susceptível, além da morte, de uma coisa chamada a doença. A humanidade não existe sociologicamente, não existe perante a civilização. Considerar a humanidade como um todo é, virtualmente, considerá‑la como nação; mas uma nação que deixe de ser nação passa a ser absolutamente o seu próprio meio. Ora um corpo que passa a ser absolutamente do meio onde vive é um corpo morto. A morte é isso — a absoluta entrega de si‑próprio ao exterior, a absoluta absorção no que cerca. Por isso o humanitarismo e o internacionalismo são conceitos de morte, só cérebros saudosos do inorgânico o podem agradavelmente conceber. Todo o internacionalista devia ser fusilado para que obtenha o que quer, a integração verdadeira no meio a que tende a pertencer. Só existem nações; não existe humanidade. 1928? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 196. O problema essencial da vida, que é o problema da realidade ou da verdade, não existe, nem pode existir em iguais termos para o homem de inteligência superior e para o homem vulgar. O homem de inteligência superior não tem, é certo, melhores elementos para descobrir a verdade do que o mais fechado dos idiotas. O que tem é melhores elementos para compreender porque é que ela se não pode descobrir. Mas a descrença, a que chegam todos os espíritos elevados, em quem a razão predomina sobre o sentimento, sendo para eles tónica, é absolutamente desastrosa para os inferiores. Sem fé, sem crença, o homem vulgar reduz‑se a um bicho; com fé, com crença, o homem superior baixa de posto. De aí o terrível paradoxo, que ataca todo o homem ao mesmo tempo superior intelectual e moralmente; que é inferior não sentir a descrença, e inferior pregar a descrença que sente. O inferior não é capaz de descrença, porque a crença é um estado orgânico dos instintivos. Por isso a descrença, caindo nesse solo impropício, ou se torna um fanatismo às avessas, ou um materialismo sem teoria, ou uma simples estupidez. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 161. Quando te apertei a mão Quando te apertei a mão Ao modo de assim-assim, Senti o meu coração A perguntar-me por mim. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 96. És Maria da Piedade, És Maria da Piedade, Pois te chamaram assim. Sê lá Maria à vontade, Mas tem piedade de mim. 27-2-1935 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 68. Que havia que reformar? Legislar para os mínimos, de que a lei e o pretor não curam? Impor que se deve escrever letra e não lettra, ou o avesso? Para quê? O ponto é duvidoso, e onde há dúvida não pode haver ciência. Sofreu deveras a rigidez da grafia romana, ou a correspondente rigidez de essa disciplina mental, com o escreverem uns litera, outros littera, quando não havia certeza? Mas, se havia que reformar, a reforma não haveria de ser senão em tornar o sistema mais lógico, mais coerente consigo mesmo, onde porventura o não fosse, sobrepondo um critério científico, isto é, crítico ao critério, puramente humanista, isto é, erudito dos originadores do sistema. Em suma, em intelectualizar o critério intuitivo com que o sistema, em seus dois elementos, se formara. Erguer o sistema, por assim dizer, à consciência de si mesmo. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 120. SPELL From the moonlit brink of dreams I stretch foiled hands to thee, O borne down other streams Than eye can think to see! O crowned with spirit-beams! O veiled spirituality! My dreams and thoughts abate Their pennons at thy feet, O angel born too late For fallen men to meet! In what new sensual state Could our twined lives feel sweet? What new emotion must I dream to think thee mine? What purity of lust? O tendrilled as a vine Around my caressed trust! O dream-pressed spirit-wine! s.d. Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 204. 1ª pub. in Contemporânea , nº 9. Lisboa: Mar. 1923. MEANTIME Far away, far away. Far away from here... There's no running after joy Or away from fear, Far away from here. Her lips were not very red Nor her hair quite gold. Her hands played with rings. She did not let me hold. Her hands playing with gold. She is somewhere past, Far away from pain. Joy can touch her not, nor hope Enter her domain, Neither love in vain. Perhaps at some day beyond Shadows and light, She will think of me and make All me a delight, Far away from sight. 15-3-1917 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 372. Publ. in The Athenaeum . Londres. 30-1-1920. Às três subespécies da poesia lírica — a heróica, a elegíaca e a lírica propriamente dita — atribuíam os antigos a protecção de três musas, Calíope para a primeira, Érato para a segunda, e para a terceira Polímnia. Chama-se poesia lírica, em boa razão estética, a toda aquela que não é dramática nem narrativa, e na espécie da poesia chamada narrativa há por certo que incluir a didáctica. A poesia lírica pode exprimir directamente os sentimentos e as emoções do poeta, sem deles querer tirar conclusões gerais, ou lhes atribuir maior sentido que o de serem simples emoções e sentimentos: é esta a poesia propriamente, ou simplesmente, lírica. A esta é que Polímnia rege. Pode também a poesia lírica exprimir não sentimentos ou emoções do poeta, senão o conceito que forma desses sentimentos, ou dos alheios: é esta, propriamente, a poesia elegíaca, que não há mister que seja triste, como o uso vulgar do nome ordinariamente indica. Desta poesia Érato é a musa. Pode, por fim, a poesia lírica dedicar-se a exaltar ou a deprimir a pessoa ou os feitos de outrem, não tanto os comentando, quanto os elevando ou diminuindo: é esta, em seus dois ramos, a poesia heróica e a satírica. A estas legitimamente rege Calíope, se bem que lhe não dessem os antigos a regência da sátira. 1924? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 72. Meu pobre Portugal, Dóis-me no coração. Teu mal é o meu mal Por imaginação. Tão fraco, tão doente, E com a boa cor Que a tísica põe quente Na cara, o exterior. Meu pobre e magro povo A quem deram, às peças, Um fato em estado novo Para que o não pareças! Tens a cara lavada, Um fato de se ver Mas não te deram nada, Coitado, que comer. E aí, nessa cadeira, Jazes, apresentável. (…) O transeunte amável. 8-11-1935 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 235. PROGRAMA GERAL DO NEOPAGANISMO PORTUGUÊS Mau grado as duas fórmulas em que se dividem os representantes desta corrente, a fórmula directamente reconstitutiva do paganismo helénico, e a fórmula simples aplicadora dele às condições modernas, os neopagãos portugueses concordam em uma atitude essencial, sendo por isso que podem constituir uma corrente que, embora pequena, é definida. Em casos destes, em que dois ramos entre si divergentes constituem uma corrente, sucede que a sua união essencial provém de um inimigo comum a combater, da comum aversão, porventura, em que a especificidade da corrente assenta. Aqui essa aversão comum é a religião de Cristo, e os resultados que dela provieram, porque por ela representados, à civilização a que pertencem. Aquele ramo da corrente neopagã portuguesa que se pode designar o ramo ortodoxo, adentro do conceito de paganismo, considera a religião cristã como um produto da decadência romana, que se fixou, porque representa um stado social contínuo. Considera o cristismo em parte como uma mera heresia pagã, heresia que atinge a essência e não a forma, da fé; considera, além disso, o cristismo uma violação das leis de equilíbrio que regem, ou devem reger, a nossa civilização; considera-o ainda como produto de uma degenerescência nas ideias e nos sentimentos de onde deriva o stado perpetuamente mórbido da nossa civilização. O outro ramo do nosso neopaganismo aceita a sensibilidade moderna e os seus resultados mórbidos, reconhecendo-os como mórbidos, mas tendo-os, ao mesmo tempo, por inirradicáveis. Assim, em vez de aspirar a, ou julgar mesmo possível, uma reimplantação do paganismo, julga que o paganismo serve apenas para base eterna da nossa civilização, devendo porém servir de disciplina às emoções criadas pelo cristismo. Publicaremos, na altura em que estiverem prontas, as duas obras teóricas onde se apoia, nos seus dois ramos divergentes, o neopaganismo português: O Regresso dos Deuses de António Mora e O Paganismo Superior de Fernando Pessoa. Antes disso, porém, será publicada aquela obra fundamental de onde parte todo este movimento, sobretudo naquele seu ramo a que chamámos o ortodoxo — O Guardador de Rebanhos, E Outros Poemas e Fragmentos, de Alberto Caeiro (1889-1915). Com efeito é matéria para escândalo íntimo o desleixo em que temos estado, que conservamos ainda fora dos prelos aquela obra em que todos nós, mau grado as nossas divergências, pomos os olhos cheios de admiração. Essa obra, a maior obra poética dos últimos tempos, não devia estar ainda inédita... O ramo representado apenas por Fernando Pessoa crê que assim como, no fundo, o movimento cristista não foi senão uma interiorização do paganismo, assim no fundo o neopaganismo deve seguir a esteira do cristismo, mas no verdadeiro sentido. Ao passo que os neo-pagãos ortodoxos acham que a interiorização do paganismo é frase sem sentido, pois que interiorizar o paganismo é aboli-lo, Fernando Pessoa crê que o erro e a morbidez do cristismo não derivam do facto de ele ter interiorizado o paganismo, mas sim de o não ter sabido interiorizar, de ter errado o caminho para a alma. Em outras palavras, o que havia a fazer ao paganismo para o interiorizar, era descobrir qual o sentido interior do politeísmo, o que era, na sua essência subjectiva, o politeísmo. Mas, de comum, nós, neopagãos portugueses, rejeitamos a obra cristã por completo, na sua forma directa, e nas suas formas indirectas. Assim, rejeitamos: a democracia, todas as formas de governo não-aristocrático, todas as fórmulas humanitárias, todas as fórmulas de desequilíbrio como, por exemplo, o imperialismo germânico ou a democracia aliada; rejeitamos o feminismo, porque pretende igualar a mulher ao homem e conceder à mulher direitos políticos e sociais, quando a mulher é um ser inferior apenas necessário à humanidade para o facto essencial mas biológico apenas da sua continuação; rejeitamos as ternuras anti-científicas, como o vegetarianismo, o anti-alcoolismo, o anti-vivisseccionismo, não admitindo direitos aos animais inferiores ao homem. Rejeitamos o princípio pacifista; rejeitamos os imperialismos modernos, de índole católica todos — todo o sacro império romano que cada Inglaterra ou cada Alemanha ocultamente quer ser. Nisto estamos todos de acordo. Rejeitamos o spartanismo idiota dos eugenistas, e do aperfeiçoamento à máquina das raças. Rejeitamos a fórmula tradicionalista, porque a única verdadeira tradição civilizada é a tradição pagã: as outras são tradições locais estéreis de efeito civilizacional, prejudiciais às nações. Povo conservador, povo morto. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 224. 1. A única realidade social é o indivíduo, por isso mesmo que ele é a única realidade. O conceito de sociedade é um puro conceito; o de humanidade uma simples ideia. Só o indivíduo vive, só o indivíduo pensa e sente. Só por metáfora ou em linguagem translata se pode aludir ao pensamento ou ao sentimento de uma colectividade. Dizer que Portugal pensa, ou que a humanidade sente é tão razoável como dizer que Portugal se penteia ou que a humanidade se assoa. 2. Sendo o indivíduo a única realidade social, não é todavia o único elemento social. Esse indivíduo vive em dois meios ou ambientes — um o ambiente físico, outro o ambiente social, ou sociedade. É esse o valor do elemento sociedade — é o meio, um dos meios, em que o indivíduo vive. O sábio realismo de Aristóteles viu isto bem; e assim se assentou a tese política grega — que a sociedade existe para o indivíduo, que não o indivíduo para a sociedade. Sendo o indivíduo a única realidade social, é o egoísmo a única qualidade real, embora, por disfarces vários e artifícios diversos se construíssem, no decurso da evolução social (não digo do progresso, porque não sei — nem ninguém sabe — se existe progresso) sentimentos altruístas, afinamentos dos instintos. Para que o indivíduo possa ter uma vida social que lhe seja um elemento de desenvolvimento, ou, em outras palavras, para que a sociedade seja um ambiente favorável ao desenvolvimento do indivíduo, é forçoso que se faça assentar essa sociedade num conceito egoísta. Assim se formam naturalmente nações. A nação é o segundo elemento social primário. Os homens não se agrupam fraternitariamente senão por oposição. Sempre nos unimos para nos opormos. Isto é, aliás, um princípio lógico: definir é limitar. Assim como o egoísmo e a vaidade são as qualidades determinantes da vida humana — pois o homem só deveras age para seu proveito ou para suplantar os outros, sendo a guerra a essência de toda a vida (o que já Heráclito havia dito) — assim o egoísmo e a vaidade são as qualidades determinantes dos egoísmos espontâneos chamados nações. 1. Composta de homens, a sociedade, seja ela em sua essência o que for, manifestará forçosamente as mesmas qualidades que esses homens. Em outras palavras, os homens em conjunto manifestarão as mesmas qualidades que manifestam individualmente, tirantes aquelas qualidades que estão ligadas à existência de um organismo físico — o instinto da conservação, o de reprodução, e, em derivação deste segundo, o instinto de família (directa ou indirecta). 2. As qualidades puramente sociais que governam os homens são o egoísmo, a socialidade e a vaidade. Por socialidade entendo o instinto gregário; é ela que ameniza e limita, sem nunca o eliminar nem essencialmente o alterar, o egoísmo, qualidade primária, que se deriva da própria circunstância de haver um ego. A vaidade é a consequência do egoísmo na sua limitação pela socialidade; é a qualidade social humana mais evidente. Todo homem quer ser mais que outro, todo homem quer brilhar. Variam, com as índoles e as aptidões, as maneiras em que o homem quer destacar‑se, mas cada um tem a sua vaidade. 3. Seria impossível a existência da sociedade se nela se não reproduzissem estes fenómenos da vida do indivíduo. Por isso a sociedade se divide em nações, e não é possível «humanidade» em matéria social. Assim como tem que haver um egoísmo individual, tem que haver um egoísmo colectivo — é o que se chama o instinto patriótico. Assim como há uma vaidade individual — tem que haver uma vaidade colectiva — é o que se chama imperialismo. Só não há uma socialidade colectiva, (...) 1915? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 198. Tinhas um vestido preto Tinhas um vestido preto Nesse dia de alegria... Que certo! Pode pôr luto Aquele que em ti confia. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 97. Tu és Maria da Graça, Tu és Maria da Graça, Mas a que graça é que vem Ser essa graça a desgraça De quem a graça não tem? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 68. Segunda D. FERNANDO INFANTE DE PORTUGAL Deu-me Deus o seu gládio porque eu faça A sua santa guerra. Sagrou-me seu em honra e em desgraça, Às horas em que um frio vento passa Por sobre a fria terra. Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me A fronte com o olhar; E esta febre de Além, que me consome, E este querer grandeza são seu nome Dentro em mim a vibrar. E eu vou, e a luz do gládio erguido dá Em minha face calma. Cheio de Deus, não temo o que virá, Pois, venha o que vier, nunca será Maior do que a minha alma. 21-7-1913 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 38. 1ª publ. in Athena, nº 3. Lisboa: Dez. 1924, com o título «Gládio». Ortografia Os dois critérios ortográficos: (a) seguir inteiramente a ortografia latina, incluindo a sua transliteração do grego, ou (b) seguir a ortografia latina, no que latina, fazendo a transliteração do grego segundo a capacidade da nossa própria pronúncia. O segundo critério envolve a exclusão de fórmulas gráficas como o CH, TH, PH, pois que estas aspiradas são irreproduzíveis pela nossa glote, ao passo que a ortografia latina contém somente, contra o sónico, duplicadas, que podemos perfeitamente pronunciar separadas sem prejuízo da índole da nossa pronúncia. O que urge é determinar logicamente um sistema ortográfico. A maior lógica está da parte da manutenção integral do sistema latino, com a transliteração grega como ali é feita, sem curarmos de pronúncia ou não. O problema surge em torno do grupo transliteral CH, que colide com o CH português. A solução lógica seria empregar X ou SH para o som português. (A propósito, X é pronunciado de maneiras diferentes; nesse caso, porque não pronunciar CH também assim?) Talvez seja preferível simplesmente abrir excepção para as palavras onde a colisão seja directa, como CHORO. (Porque é que se escreve «caractére» em francês, omitindo o H?) s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 121. I love this world and all these men because I shall not love them long. That we do die I believe not, bound fast to higher laws, But that we lose this world do not deny. This light that in the sea makes many a light, This breeze so soft when least we feel it most, May be replaced by a diviner sight Or by a truer breeze; but these are lost. Like some strange trick of childhood that was ill Yet had the childhood, in it I regret Perchance in some far world sublime and stiIl, The childhood that I never shall forget — No, nor these toys of sense —this world, these men —, Dear now when had because dear when lost then. 8-10-1933 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 85. EPISODE No matter what we dream, What we dream is true. No matter what doth seem, God doth it view And therefore it is Real as all this. No matter what we wish, We have it elsewhere Now, e' er now, and rich Are we here of there. Inside our felt I God we self‑descry. Sometimes I think hope May make this come true, But I stop, I grope, And life, fear and woe Is all that remains. Wherefore then these pains, This unrest that thrills With a possible joy All the pain that fills Our hope till it cloy? Wherefore this, wherefore If all is unsure? Oh, give me a breeze On a meadow land, And let that breeze please Nor I understand. For all anguish is A vague wish for bliss. 1916 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 372. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. A poesia é a emoção expressa em ritmo através do pensamento, como a música é essa mesma expressão, mas directa, sem o intermédio da ideia. Musicar um poema é acentuar-lhe a emoção, reforçando-lhe o ritmo. 1913? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 73. Há duas expressões humanas de um estado mental — a palavra e a voz. Não há palavras sem voz, mas há voz sem palavras — no grito, no riso, no trauteio — ou, seja, o canto sem palavras. Diferem uma da outra estas duas formas de expressão em que a palavra é, essencialmente, a expressão de um pensamento ou ideia, e a simples voz é a expressão de uma emoção. A voz trémula que afirma, afirma como palavras e nega como voz. A ideia e a emoção desencontram-se onde se juntam. Os animais, que são emotivos mas não pensantes têm voz mas não palavra. De alguns animais, como as formigas e as abelhas, se pode talvez dizer que têm palavra mas não têm voz; e com efeito se entendem e manifestam na sua organização social o que parece ser inteligência. São especulações curiosas, que podiam prolongar muito. Não as queremos prolongar senão até aqui, porque até aqui é que nos servem para o nosso argumento. O mais é a mais. A prosa, que é predominantemente expressão de ideias, nasce directamente da palavra. O verso, que é predominantemente expressão de emoções, nasce directamente da voz. Por isso os primeiros versos não eram ditos mas cantados. A expressão de uma ideia chamar-se-á propriamente explicação, porque expor uma ideia é explicá-la; a expressão de uma emoção chamar-se-á propriamente ritmo, porque expor uma emoção é tirar-lhe o pensamento sem lhe tirar a expressão, vocalizá-la sem a dizer. Como o homem é pensante e emotivo ao mesmo tempo, as duas coisas — salvo em casos puramente animais como o grito, ou puramente artificiais como o trauteio — aparecem-nos juntas. s.d. Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 236. O Conselho Magistral do Neopaganismo Português delegou em mim que escrevesse o volume introdutório da sua propaganda exterior. Devo ao público a explicação de que, tendo procurado, no que possível, esquivar-me e em vão a essa missão honrosa, o fiz pelas razões que vou dar, e que servirão, para os que o assunto interesse, de advertência a pôr à margem de contradições apontáveis no futuro. Julguei abusivamente honrosa a escolha do meu nome para esta tarefa, não porque me julgue incapaz de demonstrar, e por mais de um processo, a verdade e a necessidade do Paganismo, mas porque, emitidos por intermédio meu os princípios essenciais do paganismo (sistema pagão), sofrerão inevitavelmente o desvio que se atribui, no campo da observação pura, ao que os astrónomos (homens de ciência) chamam a «equação pessoal». Vou dizer em que consiste, a meu ver, o desvio que esses princípios sofrem ao coarem-se pelo meu entendimento. Em primeiro lugar, conquanto concorde com os meus camaradas e os meus Mestres no renovamento pagão no que respeita à essência do sistema, dou ao paganismo uma interpretação diversa da da maioria deles; mais lata, me parece, mais doentia, quero crer; mas diferente, e isso é o que importa. Na sua maioria eles são o que posso designar por pagãos ortodoxos, filhos da primitividade grega, crentes imediatos na realidade e na agência dos Deuses. Eu sou um pagão decadente, do tempo do outono da Beleza; do sonolecer [?] da limpidez antiga, místico intelectual da raça triste dos neoplatónicos da Alexandria. Como eles creio, e absolutamente creio, nos Deuses, na sua agência e na sua existência real e materialmente superior. Como eles creio nos semi-deuses, os homens que o esforço e a (...) ergueram ao sólio dos imortais; porque, como disse Píndaro, «a raça dos deuses e dos homens é uma só». Como eles creio que acima de tudo, pessoa impassível, causa imóvel e convicta [?], paira o Destino, superior ao bem e ao mal, estranho à Beleza e à Fealdade, além da Verdade e da Mentira. Mas não creio que entre o Destino e os Deuses haja só o oceano turvo [...] o céu mudo da Noite eterna. Creio, como os neoplatónicos, no Intermediário Intelectual, Logos na linguagem dos filósofos, Cristo (depois) na mitologia cristã. Nisto consiste a minha heterodoxia pagã. Mas consiste só nisto, e no que é campo aberto e questão a discutir. Nem os Mestres, nem os meus condiscípulos, me levam a erro que eu assim creia. Eu, porém, julguei que este conceito, por ser pelo menos um acréscimo ao paganismo essencial, devia inibir de ser escritor do primeiro livro de esclarecimento. Eles não pensam assim. Mais do que, propriamente, o dos neoplatónicos é meu o paganismo sincrético de Juliano Apóstata. Isto diz respeito às divergências relativas aos pontos secundários do paganismo. Outra, porém, existia que me parecia tocar mais perto do coração do sistema. É que a minha demonstração da verdade do paganismo se baseia em argumentos de espécie quase contrária à dos que se serve (...) Finalmente — e isto não diz, já, respeito à equação pessoal de que falei — pareceu-me que era injustamente que o meu opúsculo tomava procedência, quer do apport emotivo do poeta Alberto Caeiro, quer da contribuição filosófica do Dr. António Mora, em cujo livro a demonstração do paganismo é completa. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 228. Life A fight against death with the knowledge, or rather, with the certainty of being conquered. Conciliation of general power with the not‑power of benevolence. But Leibnitz might have reflected on this and on the irony of it, that life is a combat against death with the certainty of being conquered. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 200. Só com um jeito do corpo Só com um jeito do corpo Feito sem dares por isso Fazes mais mal que o demónio Em dias de grande enguiço. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 97. Caiu no chão o novelo Caiu no chão o novelo E foi-se desenrolando. Passas a mão no cabelo. Não sei em que estás pensando. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 69. As coisas que errei na vida São as que acharei na morte, Porque a vida é dividida Entre quem sou e a sorte. As coisas que a Sorte deu Levou-as ela consigo, Mas as coisas que sou eu Guardei-as todas comigo. E por isso os erros meus, Sendo a má sorte que tive, Terei que os buscar nos céus Quando a morte tire os véus À inconsciência em que estive. 21-8-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 107. 1. As palavras derivadas directamente do grego conservam a ortografia do original, segundo a transliteração latina. 2. As palavras derivadas directamente do latim conservam a ortografia latina, salvo se o seu sentido se tornou diferente do sentido latino, quer por acréscimo, quer por limitação. 3. Todas as palavras de derivação diferente ajustam-se às regras ortográficas da pronúncia portuguesa, independentemente de como se escrevessem no original. O alfabeto português não inclui a letra W, nem as letras H e Y com valor consonantal expresso. A letra K subsiste na transliteração do grego e em termos bárbaros — como os derivados de línguas africanas — cujo barbarismo especial se deseja assim indicar. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 122. Mother, my cheeks are wet. Let down my hair and kiss My brow. I seem to forget Even if I think of this. Lullaby to me, mother, Lullaby to me. I loved and was not loved, mother. Kiss me and let me be. Let me sleep as of old, thy hand On my brow, so calm and so deep, That I feel't on my soul, my soul fanned By thy breath on the face of my sleep. I am but a little ship, mother, Lost out in the sea. Lullaby to me, mother, Lullaby to me. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 86. NOTHING The angels came and sought her. They found her by my side, There where her wings had brought her. The angels took her away. She had left their home, their God‑bright day And come by me to abide. She loved me because love Loves but imperfect things. The angels came from above And bore her away from me. They bore her away for ever Between their luminous wings. 'Tis true she was their sister And near to God as they. But she loved me because My heart had not a sister. They have taken her away, And this is all there was. 1914 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 374. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. A tua saia, que é curta, A tua saia, que é curta, Deixa-te a perna a mostrar: Meu coração já se furta A sentir sem eu pensar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 69. Ort[ografia] 1. a regra. — Cada palavra deve, quanto possível, formar uma unidade (ou entidade) gráfica, sendo pois inconfundível com qualquer outra, ainda que essa se pronuncie da mesma maneira e, em certos casos, tenha, até, a mesma origem etimológica. (São exemplos as palavras coser e cozer, carta (no sentido de epistola) e charta (no sentido de mapa ou diploma). (No primeiro caso há, embora a pronúncia seja idêntica, uma diversidade de origem; no segundo caso, sendo a pronúncia e a origem idênticas, há todavia uma notável diferença de sentido, pois a palavra que escreveremos carta se afastou do sentido etimológico, a que a palavra charta continua ligada.) 2. a regra. — Essa diferença de palavra a palavra incide sobre a base consonantal, pois a distinção vocálica é sempre fácil por meio de acentuação. (Isto no caso de pronúncia diferente — note-se.) 3 . a regra. — Sempre que uma palavra nacional se tenha afastado em sentido da palavra latina ou grega de que se deriva, deve fazer-se o possível por nacionalizar a sua grafia, afim de evitar conclusões erróneas baseadas na origem etimológica. (É o caso, por ex., da palavra que escreveremos assunto. Trata-se da forma segunda do particípio passado de assumir (assumpto). A palavra assunto nada tem porém com o assumir-se qualquer coisa; significa simplesmente matéria de conversa ou discussão.) s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 123. [I.] Take me up in thine arms, oh some mother. Take me up in thine arms, make me a child. An endless lack of joy every joy doth smother That rises in me, sudden or great or mild. Take me up in thine arms, rock me to sleep. Rock me to sleep in a great meaningless way. And may I hear, like one who sleeps in a house by a bay, A great loud wind rise like a life from the deep And cease as I fall asleep like a life that passes away. II. All I have wished to do, mother, I have not done. Even what I wish to feel makes mistakes within me. I grow tired, dimly tired, of the calm and constant sun, And restless beside the happier restlessness of the sea. Oh for a boat to believe I might sail in it and go, Beyond the walls of my sensations' world and become A floating absence from my worn self, a discarded woe Trailing behind me likes a ship's trail, shining through My consciousness of having dropt my life like a lamp in a home. III. Mother, my cheeks grow thin with cares I forget to know. With things I forget to feel, nor know how to think, I pine. Mine envy, mother, is with the figure of the sturdy man at the wheel, That does his duty in storms and is salt at soul with good brine. My heart is lost to a perillous life full of achievement and breath. My thoughts are given like gifts to a life I could never live. Teach me how to myself my own life I can forgive. Teach me how to love life, at least how not to fear death, And be all that you teach in the sense of a mute kiss you give. IV. Rock me to and fro in your arms, mother. It is night. There is something of endless motion, of final ceasing of care, In your rocking of me now from now into the light That the cottage lamp sheds on your rocking fire with the same yellow flare. Let me sleep, let me sleep, outsleep the ages and Time. Drift far away from space like a hulk away from shore. Be your arms around me like a land or a day or a clime, Be your casual lips on my brow like forgiveness of crime. Rock me till I lose being, mother, rock me still more. V. My pain outgrows my power to feel pain. I am numb. I am faint. I sicken from having lived no life, but all dreams, dreams, dreams, My soul is poisoned, mother, with an old and mysterious tai[nt] And now that you have stopped rocking full on my brow the lamp gleams. Hide me, mother, from the light for it seems that it sees. Hide me, make me be blurred against your breast and the night. Lo! outside the great swell of the dim and eternal seas! Mother, whom do we wait, to return from beyond the seas? Is it for anyone at sea that the joy of our lamp we light. VI. The wind hath risen, the wind hath risen. Something is colder and truer. Something of life and its mystery creeps into the room. Mother, stop the window chinks, make the door fast and sure. We never know what horror it is that out of the Night may come. We know not whom we await. It may be worse than the dark. It may be shapeless unto our thought and dread as God if he be... Mother, new sounds are creeping like snakes through the darkness. Hark! Is it the wind you fear? Is it the sea you remark? Mother, make me to sleep at once, ere I may hear or see. VII. When will it born. Mother, this fear and this smart, This ache as of something lost or something near to be found, Coils like a viscous impossible manner of snake round the heart And the night, mother, the night without being nor bound!... Put your arms so much around me, so much, so close so fast That they cover the eyes of my fancy and cling round my thought's quick ear. Mother, let us not see if the night will pass or last. Let us not think nor be... Let life be as if past. Let our total and infinite death be the day and the ceasing of fear. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 87. Meu amor é fragateiro. Meu amor é fragateiro. Eu sou a sua fragata. Alguns vão atrás do cheiro, Outros vão só pela arreata. 17-3-1935 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 69. Ortografia A regra central da ortografia é que o mesmo sinal não pode representar, sendo consoante, dois sons diferentes. Podem dois sinais diferentes representar o mesmo som, o que etimologicamente é preciso (coser, cozer), sobretudo para distinguir sentidos diferentes de palavras que se pronunciam do mesmo modo. Isto impõe, na ortografia etimológica, a necessidade de suprimir, antes de vogal, a transliteração CH do grego, dado que colide com o CH português, em palavras como CHORO. É a única transliteração que temos que fazer diferentemente da latina, pois temos o som CH próprio, que em latim não existia. Antes de consoante o CH grego mantém-se pois o CH português se não pronuncia senão antes de vogal. Escrever-se-á chrisma, chrisol, mas carácter, coro, arquipélago. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 124. Vai longe, na serra alta, Vai longe, na serra alta, A nuvem que nela toca... Dá-me aquilo que me falta — Os beijos da tua boca. 3-4-1935 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 69. Certo amigo meu teve, durante algum tempo, a mania do hipnotismo e do "magnetismo". Em virtude disso fazia "experiências" — fitava intensamente diversas nucas, a ver se os seus donos se voltavam para trás; concentrava o olhar sobre diversas pessoas, a quem dava uma ordem mental, a ver se elas a cumpriam. Não sei, não me lembro, que êxito geral, ou média de êxito, obteve desses esforços pelo menos oculares. O que sei e lembro é o que ele uma vez me contou. — Foi o outro dia, disse, na "Brasileira" do Rossio. Eu estava sentado a uma mesa contra a parede. Sentou-se a uma das mesas do meio, perto da minha, um tipo qualquer. Tomou um café e, depois de o tomar, deu sinais de se querer demorar, sem que parecesse esperar alguém. Decidi fazer uma experiência com ele. Concentrei-me, fitei-o firmemente e dei-lhe ordem mental de se ir embora. Fiz isto concentradamente durante uns bons cinco minutos. E V. sabe o que sucedeu? — Não. — Senta-se à mesa um segundo gajo. Veio-me isto irresistivelmente à lembrança ao meditar uma vez casualmente no resultado da apresentação e execução da lei contra as Associações Secretas. O Estado Novo fitou atentamente a Maçonaria, deu-lhe ordem de que se fosse embora. E sentou-se à mesa o Segundo Gajo. Ao Sr. Manuel Mexia [?] Pinto, tão diligentemente amigo da linguagem simbólica, ofereço sorrindo esta pequena alegoria. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 136. Prefácio I. "Associações secretas" II. (Como se deveria responder ao artigo) III. Intermédio cómico (all attacks here) IV. (...) V. (...) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 137. Leve sonho, vais no chão Leve sonho, vais no chão A andares sem teres ser. És como o meu coração Que sente sem nada ter. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 47. AUTO DAS BACANTES Escrito para solenizar a entrada do Sol em Áries, em Março de 1917 Começa por uma série de canções de alegria e de saudação à entrada ou da primavera, ou do dia, ou de ambos, ou, em todo o caso, de Baco. - Segue a lamentação de todos aqueles espíritos que se separaram da vida, e quiseram melhor, mais completo, ou mais puro. - No fim do canto deles surge ruidosamente a passagem das bacantes. Este é o dia, este é o dia Em que de Baco vai explender Toda a alegria. Vinde colher, vinde colher As flores para a vossa orgia. Vinde colher para as perder. Vinde colher pra desfolhar (Este é o dia, este é o dia) As novas flores Que o prado ornam à porfia, Vinde colher por vossas dores 1917 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 70. Prefácio 1. O artigo (3) 2. Dois e dois são quatro (2) 3. Efeitos do artigo (José Cabral) 4. (Alfredo Pimenta) 5. Conclusão Apêndices: (1) O projecto de lei (2) A lei (3) Excertos do artigo T. D. (4) Artigo de Rolão Preto (5) (...) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 138. A Maçonaria nada, pois, tem que ver com qualquer regime ou partido político, excepto se ou quando esse regime ou partido atacam a tolerância ou oprimem a liberdade. Nada tem que ver, por igual, com qualquer religião ou doutrina excepto se essa religião ou doutrina esta nas condições indicadas. No caso que (...) Nesse caso é dever de todo maçon combater quanto possa esse inimigo da liberdade, e é seu dever natural de maçon, independentemente de indicação directa da oficina de que seja obreiro, ou da obediência a que, ele e ela, pertençam. Tolerantes, ou antes indiferentes, de mais têm sido a M[açonaria] e os maçons para com tais doutrinas imprevidentes de mais para com elas quando ainda no início e mais fáceis portanto de combater. Foi esta falta de previsão que levou os maçons, e os liberais profanos em quem directa ou indirectamente influem, a considerar o "Integralismo Lusitano" como uma espécie de garotice miguelista, incapaz de crescer ou de ter força. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 139. Publiquei no Diário de Lisboa de 4 de Fevereiro deste ano o artigo que constitui o texto do presente opúsculo. O texto primitivo vai aqui correcto e anotado. Por correcto entendo que do texto do jornal são eliminados os poucos lapsos tipográficos — por erro ou omissão — que nele se encontravam, e algumas, poucas, palavras substituídas por outras, rigorosamente sinónimas mas mais perfeitamente portuguesas. À parte isso, que é praticamente nada, não há na reprodução do artigo alterações nem acréscimos. Deixo, até, subsistir um lapso meu, no último parágrafo, acerca de uma lei de João Franco. Confundi a matéria da lei de 13 de Fevereiro de 1896 com a de um artigo do Código de Justiça Militar que se publicou pela mesma altura. É neste que se institui a pena de morte para (os) crimes políticos; naquele estabelecia-se o degredo para Timor de indivíduos que professassem ideias anarquistas. Deixo subsistir esse lapso por três razões. A primeira é que não desejo alterar o texto original, tal qual o escrevi e de facto se publicou. A segunda é que o efeito da frase não varia sensivelmente: entre uma condenação à morte por crime político e uma condenação a Timor por ideias políticas não há diferença notável e, se a houver, não é em abono da Lei. A terceira é que, seja como for, a citação nada tem com um assunto do artigo nem com os argumentos nele aduzidos: é um mero remate pitoresco, em que o lapso poderia ter sido muito maior sem que com isso esses argumentos perdessem um átomo do seu peso. Quanto às notas, são simples notas explicativas, que, embora necessárias, ou pelo menos úteis, não tinham cabimento em um artigo de jornal. Constitui excepção a que vai em Apêndice, e é somente uma nota linguística. É porém inofensiva às epidermes mais cetineamente reaccionárias, e creio que alguma coisa elucida sobre o recto emprego, em português, da terminologia maçónica. O resto, que não importa o que seja, fica para mais tarde. Por agora limito-me, a pedido de amigos meus, a não adiar mais a publicação de um texto correcto e anotado do meu artigo. Quanto ao mais, estão os factos no uso da palavra, e não quero interromper o orador. Lisboa, 8 de Julho de 1935 8-7-1935 Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 140. Ninguém exige ao Sr. José Cabral que seja um dos maiores prosadores da língua portuguesa. Não é porém ilegítimo exigir a um homem que tem um curso superior que não escreva como o futuro marido da criada que não tem. Tome chá, mas tome pouco, que é para poder depois dizer, num sofisma verbal, que o tomou em pequeno. Um país cujos subdirigentes são criaturas deste grau de grosseria e de insuficiência (...) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 141. Terceira D. PEDRO REGENTE DE PORTUGAL Claro em pensar, e claro no sentir, É claro no querer; Indiferente ao que há em conseguir Que seja só obter; Dúplice dono, sem me dividir, De dever e de ser — Não me podia a Sorte dar guarida Por não ser eu dos seus. Assim vivi, assim morri, a vida, Calmo sob mudos céus, Fiel à palavra dada e à ideia tida. Tudo mais é com Deus! 15-2-1934 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 40. Há homens que lêem em extensão, há os que lêem em profundidade. O Sr. Antº [?] A.P. não lê nem de uma nem de outra maneira: lê em aparência. Lê o que os outros leram. E depois cita. Nem sequer é um catalogue raisonné, porque, se nele de facto há o catálogo, a razão é que nunca há. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 142. RACIOCÍNIO Uma das regras fundamentais do raciocínio é distinguir o fundamental e o acidental em determinada teoria, distinguir a teoria essencial e a aplicação particular que um ou outro lhe dê. Assim, se discutirmos o problema da existência de Deus, devemos começar por definir o que se entende por Deus nesse problema. Se se entende, como é de presumir, um ente espiritual supremo, criador do mundo, então, nesse sentido, examinaremos o problema, não o misturando com o problema acidental da existência ou não existência de um Deus omnipotente, ou bom, ou infinito. Este último é um conceito particular de Deus, não o conceito geral. É concebível um ente criador finito do mundo; é concebível um criador do mundo que não seja mau nem bom; é concebível um criador do mundo que não seja omnipotente. Cumpre, em suma, distinguir a ideia geral de Deus da ideia particular de Deus na Igreja Católica ou qualquer outra Igreja. Sem fazer esta distinção, não estaremos examinando o problema, mas outro problema. Por isso o que há de fundamental em raciocínio é definir os termos que se vão empregar, ou os que se vão analisar. Muitas discussões resultam frustes e inúteis porque, girando em torno de certo termo, cada contendor dá a esse termo um sentido diferente; de modo que, julgando que estão discutindo a mesma coisa, estão, ao contrário, discutindo coisas diferentes. Já tem sucedido, por este erro, estarem discordando contendores que estão de acordo, e que o verificariam logo se começassem por definir, limitar, compreender o que é que, em suma, estão discutindo. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 140. Citei-lhes propositadamente autoridades maçónicas que já passaram de categoria. Citei Findel, Kloss e Gould (...) os dois primeiros extintos como autoridades, o segundo autoridade na espécie restrita da história. Não li nenhum. Para quê, se em livros sei de muito melhor, e se, em ciência, estou muito mais certo? Deixar de citar o que vale e importa, no desenvolvimento que os conhecimentos maçónicos têm tido nos últimos anos. Todos caíram no logro, incluindo no alçapão involuntário que a tipografia do Diário de Lisboa lhes forneceu, passando-me Kloss para Kiuss. Todos pegaram nesta gralha — eles, jornalistas, que não sabem que há disto. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 143. Uma causa Infinita necessariamente produzirá um efeito infinito. Como o efeito, porém, se opõe à causa, será infinito de outra maneira. O nosso universo, porém, é-nos dado como finito e temporal, pois, se o víssemos infinito e eterno, não o poderíamos ver. O mundo externo, pois, como nós o temos e nele vivemos, não pode ser efeito de uma Causa Infinita, mas, tão somente, de uma das manifestações ou criações finitas da Causa Infinita. Temos, pois, que a Causa Infinita é criadora da Realidade, que é infinita, e que uma Causa Finita é criadora do Universo. O Criador do Mundo não é o Criador da Realidade: em outras palavras, não é o Deus inefável, mas um Deus homem ou Homem-Deus, análogo a nós mas a nós superior. Gradação infinita dos seres... O universo não pode ser infinito, porque infinito é só a infinidade. O universo não pode ser eterno, porque eterna é só a eternidade. Nem pode haver espaço infinito e tempo infinito pois não pode haver dois infinitos. Espaço e Tempo são dois atributos ou manifestações do infinito, que o simulasse sem o ser. Parecem-nos infinitos, parece-nos que são infinitos — são porém somente indefinidos. (As duas Colunas do Átrio. ) No tempo e no espaço decorre a Matéria; só no tempo a Alma; no infinito puro, Deus. Este Infinito é, porém, só Deus manifesto — não manifesto como mundos senão como Deus. Para além, Supremo deveras, está o Deus Imanifesto — a ausência até do Infinito. E isto representa-se: o Deus Manifesto por um Círculo; o Deus Imanifesto por um ponto no centro do Círculo e isto é, em astrologia escrita, o símbolo do sol, que é a sombra de Deus. * A dupla essência, masculina e feminina, de Deus — a Cruz. O mundo gerado, a Rosa, crucificada em Deus. A criação não é uma emanação mas, mais propriamente, uma limitação, uma negação de Deus por si-mesmo. Mais certo será dizer que o universo é a negação de Deus, ou a morte de Deus. Como porém a negação ou morte de Deus é necessariamente divina, o universo contém um elemento divino que [é?] a Lei — elemento ausente , por assim dizer, em abstracto. O único milagre que Deus fez é o universo. A Lei, Fatum, elemento abstracto de Deus e pelo qual Deus está desencarnadamente manifesto no mundo, se opõe o Cristo que é o desejo do Regresso a Deus, o desejo de Liberdade, de não haver Fatum. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 141. O Sr. José Cabral não pode chamar-me falhado da vida, porque o Sr. José Cabral não é, que me conste, nem Deus nem as leis naturais; de quem depende o eu realizar na vida os fins que me propus e aos quais aliás o Sr. José Cabral, não sabendo o que sejam, não pode saber se falhei ou não. O Sr. J. C. não pode chamar-me falhado da literatura, porque o Sr. J. C. não é nem o público, para que possa conferir-me ou negar-me a fama, nem a posteridade, para que possa fazer-me ou não "imortal". Nem vem a propósito, excepto para um cérebro ausente como o Sr. José Cabral, o chamar falhado da literatura a quem acaba de ser premiado pelo Secretariado de Propaganda, que é uma instituição oficial. Voltamos à mesma. Digo: 2 e 2 são 4. Respondem-me que não, porque ainda não consegui comprar um chalet no Estoril. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 144. HERACLITUS 1. All things proceed from a (...) dry and hot and end by being absorbed therein. 2. All things are in perpetual transformation. 3. The metamorphoses of matter are ruled by a Law which neither Gods nor men can modify. * Plato includes in the denominative ideas: 1. What modern philosophy calls universal laws of thought, ethics, taste. 2. What Aristotle will call Categories a general forms in which we conceive all things. 3. What natural science calls types, species, ideas (proper) . * 1. Ideas are real beings. 2. Ideas are more real than objects of the senses. 3. Ideas are the only things which are real by themselves. Objects have but a borrowed reality. Plato perhaps not idealist. He allows the world unreality but not no‑reality. * Idea — eternal being. Matter — eternal not‑being (Plato). * Leibnitzian idea of series. Weber p. 414, Plato a relative idealist, for he allows matter an existence, however inferior. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 102. If we must prove the existence of God it must be independently of the idea of Cause. 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 143. XI Like to a ship that storms urge on its course, By its own trials our soul is surer made. The very things that make the voyage worse Do make it better; its peril is its aid. And, as the storm drives from the storm, our heart Within the peril disimperilled grows; A port is near the more from port we part — The port whereto our driven direction goes. If we reap knowledge to cross-profit, this From storms we learn, when tbe storm's height doth drive — That the black presence of its violence is The pushing promise of near far blue skies. Learn we but how to have the pilot-skill, And the storm's verv might shall mate our will. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 166. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Se a obra de arte proviesse da intenção de fazê-la, podia ser produto da vontade. Como não provém, só pode ser, essencialmente, produto do instinto; pois que instinto e vontade são as únicas duas qualidades que operam. A obra de arte é, portanto, uma produção do instinto. O drama, sendo primariamente uma obra de arte, é-o também. 1916? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 7. A Câmara Corporativa deu o seu Parecer — que parecer, Senhora de Fátima!, —, o Parecer baixou (ou subiu ou atravessou o patamar — desconheço a terminologia do parlamentarismo por grosso —) à Assembleia Nacional, e esta aprovou-o por unanimidade, com emendas que em nada afectam o [...] meu artigo. Creio bem que há aqui que aplicar a velha regra inglesa: Quando a Casa dos Comuns aprova um projecto por unanimidade, o projecto é com certeza asneira. Ver-se-á. Lei do País, não tenho que discutir mais o projecto do Sr. José Cabral. Apontei no meu artigo os inconvenientes que, a meu ver, adviriam da conversão do projecto em lei. Se tive ou não razão não é comigo, nem com qualquer opositor meu: é tão somente com os factos. Nada mais direi, pois, sobre o projecto como projecto, ou sobre a lei como lei. Estão os factos no uso da palavra, (e) não quero interromper o orador. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 145. Aqueles portugueses do futuro, para quem porventura estas páginas encerrem qualquer lição, ou contenham qualquer esclarecimento, não devem esquecer que elas foram escritas numa época da Pátria em que havia minguado a estatura nacional dos homens e falido a panaceia abstracta dos sistemas. A angústia e a inquietação de quem as escreveu, porque as escreveu quando não podia haver senão inquietação e angústia, devem ser pesadas na mão esquerda, quando se tome, na mão direita, o peso do seu valor científico. Serão, talvez e oxalá, habitantes de um período mais feliz, mais propício à realização das ideias completas e dos projectos que datam [?] da inteligência, aqueles que lerem, aproveitando, estas páginas arrancadas, na mágoa de um presente infeliz, à saudade imensa de um futuro melhor. E é preciso que saibam que os seus predecessores na reconstrução da Pátria sofreram, desde as angústias da incompreensão até ao nojo da coexistência com os incompreendedores, toda a mágoa de quem vive [?] firme [?] no seu tempo, e não, como o Precursor do Cristo, vozes clamando no deserto, íncolas muitos da construção dubitativa do poder. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 1. AUTO DAS BACANTES Qual é, senhor, a melhor sorte? Mais vale a vida ou mais querer? Há, além do portal da morte, Melhor viver? Será melhor viver amando E buscar o amor entre a vida, Ou, inda que chorando, Buscar o amor Onde tudo é a sombra e o vago, E o guarda negro a fauce estende Por sobre o desolado lago Haverá escondida margem, Oculta região feliz, Onde outra mais (...) aragem Banhe um amor como se quis? 16-9-1917 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 71. Notes 1. Aristotle defines metaphysics: (1) science of first principles and of first causes and (2) science of being as being (qua being). Also defined «the science of the absolute». Metaphysics contains 3 great theories: 1) Theory of knowledge, 2) theory of being, 3) theory of the first principle of knowledge and of being. [...] 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 104. Goethe truly says that every man’s god is as that man; is not then the God of the greatest man the greatest God. [?] 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 143. XII As the lone, frightèd user of a night-road Suddenly turns round, nothing to detect, Yet on his fear's sense keepeth still the load Of that brink-nothing he doth but suspect; And the cold terror moves to him more near Of something that from nothing casts a spell, That, when he moves, to fright more is not there, And's only visible when invisibie: So I upon the world turn round in thought, And nothing viewing do no courage take, But my more terror, from no seen cause got, To that felt corporate emptiness forsake, And draw my sense of mystery's horror from Seeing no mystery's mystery alone. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 168. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. O que quer Orpheu ? Criar uma arte cosmopolita no tempo e no espaço. A nossa época é aquela em que todos os países, mais materialmente do que nunca, e pela primeira vez intelectualmente, existem todos dentro de cada um, em que a Ásia, a América, a África e a Oceania são a Europa, e existem todos na Europa. Basta qualquer cais europeu — mesmo aquele cais de Alcântara — para ter ali toda a terra em comprimido. E se chamo a isto europeu, e não americano, por exemplo, é que é a Europa, e não a América, a fons et origo deste tipo civilizacional, a região civilizada que dá o tipo e a direcção a todo o mundo. Por isso a verdadeira arte moderna tem de ser maximamente desnacionalizada — acumular dentro de si todas as partes do mundo. Só assim será tipicamente moderna. Que a nossa arte seja uma onde a dolência e o misticismo asiático, o primitivismo africano, o cosmopolitismo das Américas, o exotismo ultra da Oceania e o maquinismo decadente da Europa se fundam, se cruzem, se interseccionem. E, feita esta fusão espontaneamente, resultará uma arte-todas-as-artes, uma inspiração espontaneamente complexa... 1915? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 113. TOMÁMOS A VILA DEPOIS DUM INTENSO BOMBARDEAMENTO A criança loura Jaz no meio da rua, Tem as tripas de fora E por uma corda sua Um comboio que ignora. A cara está um feixe De sangue e de nada. Luz um pequeno peixe — Dos que bóiam nas banheiras — À beira da estrada. Cai sobre a estrada o escuro. Longe, ainda uma luz doura A criação do futuro... E o da criança loura? s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 247. Da Ditadura à República Prefácio A publicação deste livro, tão relativamente sobrevindo à implantação da República, poderá, por razões várias, porém inoportunas, ser [?] arriscada e infeliz. Pode parecer arriscada, porque — dir-se-á — não passou ainda sobre os acontecimentos o tempo suficiente para deles poder ser feita uma análise rigorosa e imparcial. Responderemos, sem custo, que se se tratasse apenas de uma obra histórica, como antigamente a história se entendia, um relato, isto é, de factos, sem grandes pruridos de encontrar o lógico encadeamento das causas, e de todo alheia a uma compreensão sociológica dos acontecimentos — nesse caso, repetimos, se assim escrevêssemos história, bem nos poderiam objectar que era cedo para capazmente o fazer. Seria cedo objectivamente, e cedo subjectivamente. Objectivamente porque pouco tempo decorrera desde os acontecimentos da revolta, e a documentação próxima, por jornalista, e [...], tende a ser fragmentária e [...] Subjectivamente porque o espírito do cronista, não despido ainda das forças que tendem para a parcialidade ou para o entrave da imparcialidade vasta, facilmente poderia cair, cego e confiante, no erro de confiar em si mesmo. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 2. Diary — Begun on March 15 th. 1906 March 15 Curso Superior: Geography and English. Biblioteca Nacional: read Aristotle’s «Logic», translated by S. B. Saint-Hilaire. Returned home 3.30. Thought of dissertation on Female Rights and satiric plea for masculine prostitution. Began «The Door». Read book on Physiognomy. Dined 4.30. Walked out all evening till 9.30. March 16 Holiday. King coming from Madrid. Read a little about Physiognomy. Biblioteca closed of course, so could not go there to continue reading «Organon». Hot day, very hot, just as yesterday. Read Tennyson. Walked out in the evening with Cochado Torres. Returned 9.30. Played quino up to tea‑time. Difficulties in mental execution of Jacob Dumot. Thought of poem on Avenida, to be included in «Revolta». 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 104. Quarta D. JOÃO INFANTE DE PORTUGAL Não fui alguém. Minha alma estava estreita Entre tão grandes almas minhas pares, Inutilmente eleita, Virgemmente parada; Porque é do português, pai de amplos mares, Querer, poder só isto: O inteiro mar, ou a orla vã desfeita — O todo, ou o seu nada. 28-3-1930 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 41. Idea of God Is it a simple or a composed idea? Is it a simple idea like that of colour, of time? No. At least if it be a simple idea (a natural idea) it is unexplainable. No one can say of colour but that it is colour nor of time anything than that it is time. But if the idea be simple it cannot include the idea of personality, the idea of goodness, the idea of creator, etc., and all other ideas. And if so it is simply an idea of the Absolute. And if simply the idea of Absolute it is not in any way the idea of God as theologians understand it. (True, mankind has an intuition of the absolute, but, from its very nature no more than an intuition. Reason working on these data, distorts astray, errs, leads men (...), with Gods, Powers, Superentities. 1910? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 143. Deixaste cair no chão Deixaste cair no chão O embrulho das queijadas. Ris-te disso — e porque não? A vida é feita de nadas. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 90. XIII When I should be asleep to mine own voice In telling thee how much thy love's my dream, I find me listening to myself, the noise Of my words othered in my hearing them. Yet wonder not: this is the poet's soul. I could not tell thee well of how I love, Loved I not less by knowing it, were all My self my love and no thought love to prove. What consciousness makes more by consciousness, It makes less, for it makes it less itself. My sense of love could not my love rich-dress Did it not for it spend love's own love-pelf. Poet's love's this (as in these words I prove thee): I love my love for thee more than I love thee. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 168. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. INTRODUÇÃO À ESTÉTICA Exigir de sensibilidades como as nossas, sobre que pesam, por herança, tantos séculos de tantas coisas, que sintam e portanto se exprimam com a limpidez, e a inocência de sentidos, de Safo ou de Anacreonte, nem é legítimo, nem razoável. Não é no conteúdo da sensibilidade que está a arte, ou a falta dela: é no uso que se faz desse conteúdo. Distinguiremos na arte, como em tudo, um elemento material, e um formal. A matéria da arte, dá-a a sensibilidade, a forma, dirige-a a inteligência. E na forma há, ainda, duas partes a considerar: a forma concreta ou material, que se prende com a matéria mesma da obra, e a forma abstracta ou imaterial, que se prende só com a inteligência e depende de suas leis imutáveis. Três são as leis da forma abstracta, e, como são da forma abstracta, aplicam-se a todas as artes e a todas as formas de cada arte. Abdicar delas é abdicar da mesma arte. Podemos eleger quebrar tais leis; não podemos, porém, elegendo-o, presumir que fazemos arte, pois a arte consiste, mais que em qualquer outra coisa, na obediência a essas leis. As três leis da forma abstracta são: a unidade; a universalidade ou objectividade; e (...). Por unidade se entende que a obra de arte há-de produzir uma impressão total definida, e que cada seu elemento deve contribuir para a produção dessa impressão; não havendo nela nem elemento que não sirva para esse fim, nem falta de elemento que possa servir para esse fim. É uma falha artística, por exemplo, a introdução em um poema de um trecho, por belo que seja, que não tenha relação necessária com o conjunto do poema, como o é, mais palpavelmente, a introdução em um drama de uma cena em que, por grande que seja a força ou a graça própria, a acção pára ou não progride, ou, o que é pior, se atrasa. Por universalidade, ou objectividade, se entende que a obra de arte há-de ser imediatamente compreensível a quem tenha o nível mental necessário para poder compreendê-la. quanto mais altamente intelectual for uma obra de arte, maior será, em princípio, a sua universalidade, pois que a inteligência abstracta é a mesma em todos os tempos e em todos os lugares—dada a espécie humana no nível de tê-la—, enquanto a sensibilidade varia de tempo para tempo e de lugar para lugar. Cumpre esclarecer este ponto. A obra de arte procede de uma impressão ou emoção do artista que a constrói, impressão ou emoção que, como tal, é própria e intransmissível. Se o valor dessa emoção, para quem a sente, é o ser ,própria, deve gozar-se simplesmente, e não exprimir-se. Se o valor dela, porém, é mais alguma coisa, (...). Todos nós sentimos a dor e o delírio do Rei Lear de Shakespeare; esse delírio, contudo, é, diagnosticavelmente, o da demência senil, de que não podemos ter experiência, pois quem cai em demência senil nem pode perceber Shakespeare, nem qualquer outra coisa. Porque é, então, que, sendo esse delírio tão caracterizadamente o do demente senil, o sentimos tanto nós, que não temos conhecimento desse delírio ? Porque Shakespeare pôs nesse delírio só aquela parte que nele é humano, e afastou a que nele seria, ou particular do indivíduo Lear, ou especial do demente senil. Todo o processo mórbido envolve essencialmente ou um excesso, ou um abatimento, de função; ou uma hipertrofia, ou uma atrofia, de órgão. O desvio, que constitui a doença, está na distancia a que fica o excesso, ou o abatimento, do nível da função normal; na dissemelhança que se estabelece entre o órgão hipertrofiado, ou atrofiado, e o orgão são. Assim a doença é, ao mesmo tempo, e no mesmo acto, um excesso ou abatimento do normal, e um desvio (ou diferença) desse normal. Se, apresentando um caso de doença mental, o apresentarmos pelo lado em que é excesso ou abatimento da função normal, com isso mesmo o apresentamos como ligação a essa função, e compreensível para quem a tenha; se, porém, o apresentarmos pelo lado em que é desvio ou diferença, com isso mesmo o apresentamos como desligado ou separado dessa função, e incompreensível, portanto, a quem não esteja no mesmo caso mórbido, o que será pouca gente, senão pouquíssima. As duas maneiras são comparáveis à maneira racional, e à dogmática ou aforística, de apresentar uma conclusão: o raciocinador leva o ouvinte ou lente até à conclusão por um processo gradual, e ainda que a conclusão seja estranha ou paradoxal, torna-se em certo modo aceitável por se tornar compreensível como se chegou até ela; o dogmático põe a conclusão sem explicar como chegou a ela, e sucede, como se não vê relação entre o ponto de partida e o de chegada, que só quem tenha feito o raciocínio necessário, ou quem aceite a conclusão sem raciocínio, pode convir nessa conclusão. Tudo que se passa numa mente humana de algum modo análogo se passou já em toda outra mente humana. O que compete, pois, ao artista que quer exprimir determinado sentimento, por ex., é extrair desse sentimento aquilo que ele tenha de comum com os sentimentos análogos dos outros homens, e não o que tenha de pessoal, de particular, de diferente desses sentimentos. A obra de arte, ou qualquer seu elemento, deve produzir uma impressão, e uma só; deve ter um sentido, e só um; seja sugestivo o processo, ou explícito. Isto se vê claramente no emprego do epíteto em literatura. Muito se tem bradado contra o emprego de adjectivos estranhos, ou juntos a substantivos com os quais não parecem poder ligar-se. Não há, porém, adjectivos estranhos, nem é possível construir uma fase a que se não possa atribuir um sentido qualquer. O que é necessário é que esse “sentido qualquer” seja só um, e não possivelmente um de vários. Ésquilo, numa frase célebre, refere-se ao “riso inúmero das ondas”; o epíteto é daqueles a que é uso chamar ousados, pois que tudo é ousado para quem a nada se atreve. Toda a gente, porém, compreende a frase, nem lhe é atribuível mais que um sentido. Há, porém, uma poetisa francesa que deu a um seu livro o título, mimado desta frase, de “O Coração inúmero”, frase esta que pode ter vários sentidos, porém que não é certo que tenha este ou aquele. A “ousadia” do epíteto é igual no grego e na francesa; uma, porém, é a ousadia da inteligência, a outra a do capricho. Pode ser, no caso de um epíteto desta última ordem, que a sensibilidade de várias pessoas convenha na mesma interpretação, e, ainda, que essa interpretação seja — o que também poderia não acontecer — aquela mesma que lhe o autor deu. Como, porém, a sensibilidade é passageira e local, local e passageira é também a interpretação que dela procede. Estas considerações têm que ser interpretadas em relação às diversas artes, diversamente para cada uma, conforme sua matéria e fim. Aquele trecho musical cuja frescura e alegria me dá a mim a impressão de madrugada, pode dar a outro a impressão de Primavera. Como, porém, não é função da música definir as coisas, senão a emoção que geram, o trecho produziu, em verdade, a mesma impressão em mim e no outro, pois ambos sentimos nele frescura e alegria; o lembrar-me essa frescura a madrugada, e a outro a Primavera, é apenas a tradução pessoal que cada um de nós faz da sensação que recebeu, pois a sensação abstracta de alegria e de frescura é comum à madrugada e à Primavera. A um terceiro esse mesmo trecho poderia evocar, por exemplo, certa cena de amor, ou certa paisagem, sem que em alguma coisa saísse do seu fim próprio, logo que a essa cena de amor e a essa paisagem estejam nele ligadas as ideias de frescura e alegria. Do mesmo modo a frase de Ésquilo “riso inúmero das ondas” não é diversa em mim e num veneziano por em mim evocar o Atlântico e nele o Adriático. 1925? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 7. NO TÚMULO DE CHRISTIAN ROSENCREUTZ Não tínhamos ainda visto o cadáver de nosso Pai prudente e sábio. Por isso afastámos para um lado o altar. Então pudemos levantar uma chapa forte de metal amarelo, e ali estava um belo corpo célebre, inteiro e incorrupto..., e tinha na mão um pequeno livro em pergaminho, escrito a oiro, intitulado T., que é, depois da Bíblia, o nosso mais alto tesouro nem deve ser facilmente submetido à censura do mundo. Fama fraternitatis roseae crucis. I Quando, despertos deste sono, a vida, Soubermos o que somos, e o que foi Essa queda até Corpo, essa descida Até à Noite que nos a Alma obstrui, Conheceremos pois toda a escondida Verdade do que é tudo que há ou flui? Não: nem na Alma livre é conhecida... Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui. Deus é o Homem de outro Deus maior: Adam Supremo, também teve Queda; Também, como foi nosso Criador; Foi criado, e a Verdade lhe morreu... De além o Abismo, Espírito Seu, Lha veda; Aquém não a há no Mundo, Corpo Seu. s. d. «No Túmulo de Christian Rosencreutz». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 249. PREFÁCIO. Considerações pós-revolucionárias O grande mal dos modernos é ter perdido o senso comum sem ter aprendido a raciocinar. Isto é de resto apenas uma forma do mal de hoje: o termo-nos desligado do passado sem nos termos adaptado ainda ao futuro. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 3. Nothing really to be changed in the Organon. «L’Organon est comme un de ces monuments d’architecture auxquells on peut adjoindre des constructions nouvelles, qu’on peut développer par des accroissements devenus indispensables, mais auxquells on ne touche pas, parce qu’ils ne sont jamais à refaire, et que le mieux, c’est de les prendre pour modèles et régulateurs éternels.» B. Saint‑Hilaire — Pref. to Logic XXVI‑XXVII. Order of Organon. Unchangeable. We must also know what kind of Science Logic is and what are its rapports with all the other sciences. Circle in mathematic is imperfect. A circle traced is more or less imperfect representation of the conceived circle. Syllogism not imperfect representation of logical operation, etc. Applied logic in Topica and Refutation of the sophists. Is there in Aristotle no pure logic? Dans les mathematiques tout est démontré parceque tout est nécessaire. The Categories are not only an objective classification of real things (Hamilton), they are besides, a classification of words. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 106. What men have called God exists, but not as a personality. It is the containing of all properties, and so may be said to contain them in their perfection, as containing only the possibility of them. But it cannot be said that this is a personality of them. But it cannot be said that this is a personality. lt is the great Possible and no more. And even were we determined to make this a personality still it is not the ultimate and only reality. The only reality is Being. Being-in-se Being as known — not-being (The possible?) Ideas — Things The Real Real = Ideal Real (R = 1) = Possible 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 145. Deste-me um cordel comprido Deste-me um cordel comprido Para atar bem um papel. Fiquei tão agradecido Que inda tenho esse cordel. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 90. XIV We are born at sunset and we die ere morn, And the whole darkness of the world we know, How can we guess its truth, to darkness born, The obscure consequence of absent glow? Only the stars do teach us light. We grasp Their scattered smallnesses with thoughts that stray, And, though their eyes look through night's complete mask, Yet they speak not the features of the day. Why should these small denials of the whole More than the black whole the pleased eyes attract? Why what it calls «worth» does the captive soul Add to the small and from the large detract? So, out of light's love wishing it night's stretch, A nightly thought of day we darkly reach. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 170. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. 1. A arte é a notação nítida de uma impressão errada (falsa). (À notação nítida duma impressão exacta chama-se ciência). 2. O processo artístico é relatar essa impressão falsa, de modo que pareça absolutamente natural e verdadeira. Quando Ésquilo fala no “riso inúmero do mar”, diz uma coisa pavorosa de todos os pontos de vista, incluindo o quase-gramatical, que se indigna com a justaposição das palavras “riso inúmero”. 1914? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 12. BÁQUICA MEDIEVAL O nosso patrão é pai. Faz-nos o bem. Bebamos à saúde dele, E à nossa também! Não falte trigo p'ra semente, Reméedio ao doente, Nem vinho à gente! O nosso rei é padrinho. Que Deus o ajude! Bebamos à saúde dele E à nossa saúde! Não falte caridade a quem deve, Direito a quem recebe Nem vinho a quem bebe! E vá à saúde da terra, Que é bem preciso! Livre-nos Deus, a nós e a ela, De seca e granizo! Que há três coisas que Deus proibiu - A fome, o frio, E um copo vazio! s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 72. The romanticists, the Coimbra School and the Nephelebats all represent failures in Portuguese literature, in so far as they did not effect 1) a fundamental change in such portions of national consciousness as literary influence can reach and transform, 2) a really coherent body of thought and art conceivable only as Portuguese. That is to say, they did not realise the creation of a national Weltanschauung , as the generally adopted German word defines it. They did not create a definitely Portuguese consciousness of the Universe. They were bound to fail because they had no ground to work upon. No basis had been given them on which to rear the superstructure of their art. Culture-contacts, abundant and mutually contradictory, are effective in vitalising a nation and a literature when they act upon a national consciousness ready to synthetise them. There is no synthesis where there is no criterion for synthesis; for the same reason that you cannot put things into a box if you have not got the box . Properly speaking, neither of the movements cited were movements at all. They were merely tendencies if by tendency we can agree to understand a movement that does not reach realisation. There can be no movement where there is not an element to unify the efforts of a number of individuals, and no number of individuals can be unified without the existence of a national consciousness; they can come together for the reason that they are more or less similar as to temperament, and because individual character, though it may bring men together, separates them still more, once they really work out their souls into definite self-expression. The saudosist movement had to precede the final synthetic movement. The saudosists represent the definite creation of a Portuguese Weltanschauung ; the movement will be complete when that Weltanschauung , once obtained and defined, is brought into European activity through the contact with alien cultures. It is this which Sensationism has taken upon itself to do, and its artists have already done much. The saudosist movement was itself possible only after a succession of culture contacts had so shaken and stirred national consciousness that it had found itself at last. We are entering on the beginning of the Golden Age of Portuguese literature. Portugal has found itself at last, it is at last beginning to shake off the leaden weight of the anti-nationalist tradition represented by the Italianated Camões, by the Spanish followers and by the Frenchified idiocy of which Bocage is one of the lamentable representatives. The contact with rich cultures has only served to stir us to a national wakening. But we do not fall into the narrowness of regionalist movements and such like; we must not be confounded with things like the «Celtic Revival» or any Yeats fairy-nonsense. We are not Portuguese writing for Portuguese; we leave that to journalists and political leaderwriters. We are Portuguese writing for Europe, for all civilisation; we are nothing as yet, but even what we are now doing will one day be universally known and recognised. We have no fear that it will be otherwise. It cannot be otherwise; we realise sociological conditions the outcome of which is inevitably that . We work away from Camões, from all the tedious nonsenses of Portuguese tradition, towards the Future. 1914? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 117. II Mas antes era o Verbo, aqui perdido Quando a Infinita Luz, já apagada Do Caos, chão do Ser, foi levantada Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido. Mas se a Alma sente a sua forma errada, Em si, que é Sombra, vê enfim luzido O Verbo deste Mundo, humano e ungido. Rosa Perfeita, em Deus crucificada. Então, senhores do limiar dos Céus, Podemos ir buscar além de Deus O Segredo do Mestre e o Bem profundo; Não só de aqui, mas já de nós, despertos, No sangue actual de Cristo enfim libertos Do a Deus que morre a geração do Mundo. s. d. «No Túmulo de Christian Rosencreutz». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 250. Na proporção em que Cristo é, não um deus, ou um semi‑deus judeu, mas o Logos abstracto dos gnósticos, ponto intelectual por onde passa a emanação divina — o cristianismo é legítimo, porque é um completamento, um prolongamento, um aprofundamento do paganismo. Tanto é um prolongamento do paganismo que não entra em conflito com ele. Pagãos eram os filósofos neoplatónicos da escola de Alexandria. Se os gnósticos são antipagãos é porque são já a absorção pelo cristianismo do neopaganismo alexandrino; são, mais propriamente, o transcendentalismo contra o materialismo em que havia caído o paganismo decadente. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 107. If in God substance and attributes be identical, then this identity is either real or apparent — either what we call substance and what we call attribute are truly existent yet identical in God or it is only to us that they are existent as separate. According to these philosophers, God is not Good, beautiful, just, but he is goodness , beauty , justice , [...] Now God really is these things, or he is them only to us. If he be these things, he is not pure Being any more, but Being with something else. If God be so only to us, it is clear that in himself he is not so, that in himself he is not possessed of any quality, of any attribute whatsoever. Our conception of him is but a symbol, an anthropomorphic thing. But, it may be objected, God is neither of a composed nature nor of a nature conceivably simple. Both simplicity and composition are human ways of seeing. If this be so, then the final argument is very simple: God is either both of these or neither. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 146. No dia de Santo António No dia de Santo António Todos riem sem razão. Em São João e São Pedro Como é que todos rirão? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 90. XV Like a bad suitor desperate and trembling From the mixed sense of being not loved and loving, Who with feared longing half would know, dissembling With what he'd wish proved what he fears soon proving, I look with inner eyes afraid to look, Yet perplexed into looking, at the worth This verse may have and wonder, of my book, To what thoughts shall't in alien hearts give birth. But, as he who doth love, and, loving, hopes, Yet, hoping, fears, fears to put proof to proof, And in his mind for possible proofs gropes, Delaying tue true proof, lest the real thing scoff, I daily live, i'th' fame I dream to see, But by my thought of others' thought of me. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 170. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Quinta D. SEBASTIÃO REI DE PORTUGAL Louco, sim, louco, porque quis grandeza Qual a Sorte a não dá. Não coube em mim minha certeza; Por isso onde o areal está Ficou meu ser que houve, não o que há. Minha loucura, outros que me a tomem Com o que nela ia. Sem a loucura que é o homem Mais que a besta sadia, Cadáver adiado que procria? 20-2-1933 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 42. A obra de arte é primeiro obra, depois obra de arte. * Em que se distingue a obra de arte de qualquer obra do esforço humano ? Num exemplo simples poderemos vê-lo. Carta, frase falada, M. Jourdain. Intenção ou valor notável. Porém o valor não basta. Ele será nulo, em relação a quem escreveu a carta, ou proferiu a frase, se verificarmos que essa carta foi copiada de outrem, ou que a frase foi reproduzida. Haverá, sim, valor artístico na carta e na frase, porém o artista será aquele de quem a carta é, o que disse a frase. Uma obra de arte, portanto, é, em sua essência, uma invenção com valor. Se não for invenção, o valor pertencerá a quem inventou; se não tiver valor não será obra de arte, pois que importa inventar o que não presta? Uma obra que é uma invenção com valor, de que processos intelectuais procede? Uma invenção é uma ideia nova realizada. Há aqui dois elementos: a ideia, e os meios por que se realize. Em qual dos dois, ou de que modo, reside a essência da ideia nova? Suponha-se um poema, que penso em escrever. Tenho a ideia; os meios, que são os princípios de metrificação e de disposição do assunto, suponha-se que os tenho, porque os saiba, tendo-os aprendido. Com isto, terei certo que farei um poema de valor, supondo sim que é original a ideia que tenho? Se assim fosse, qualquer homem de cultura escreveria um grande poema. Ciente dos meios, e podendo ter uma ideia original, bastar-lhe-ia realizá-la. O que lhe falta? Se, havendo na invenção ideia e meios, e se, supondo-se a posse da ideia e o conhecimento dos meios a empregar, ainda assim se possa dizer que não é certo que a ideia se realize com valor, que elemento especial falta considerar? Este: a ideia original tem que ser sentida em todos os seus detalhes, abrangendo o uso dos meios. Isto é: o acto de invenção envolve uma fusão do fim e dos meios. Mas a fusão do fim e dos meios é o que, segundo vimos, caracteriza o acto de instinto. A invenção de um valor é portanto um acto de instinto. Provado assim, pelo modo directo, pode isto provar-se também pelo absurdo do contrário. Suponha-se que a invenção é um acto da vontade consciente; como esta se divide na determinação e na inteligência, que aquela emprega, a obra há-de provir, ou de uma, ou de outra, ou de ambas juntas. Da intenção já vimos que não vem, e na verdade todos sabemos que a intenção de inventar nunca fez ninguém inventor. Da inteligência não vem, porque o conhecimento dos meios (que é o que a simples inteligência fornece) também não faz inventores, e os que mais conhecem os princípios da poesia e a história dela não são os maiores poetas. E se não pode vir de uma ou de outra, também não pode provir das duas reunidas. O instinto, porém, não origina. O instinto de andar não descobre novos processos de andar. Há no caso da invenção uma fusão do instinto com a inteligência. Não é difícil encontrar uma explicação científica. Por natureza, a inteligência, embora não crie, constantemente se transforma. Um longo uso da inteligência pela humanidade criou um instinto nessa inteligência, e como a inteligência por natureza transforma, e o instinto por natureza operas uma fusão dos dois, ou, por outras palavras, um instinto intelectual será uma qualidade do espírito que transforme operando. Mas a transformação reduzida a acto é precisamente a essência da invenção, pois que a invenção é um acto, e um acto que transforma o que há. A obra de arte, no que invenção de um valor, deriva portanto do que com propriedade se pode chamar um instinto intelectual. * Há, porém, invenções de vários géneros, e nem todas são arte. Invenção foi a de Watt, quando descobriu a máquina de vapor; invenção a de Descartes, quando uma manhã, na cama, viu de repente a geometria por coordenadas. Ambas são invenções de um valor, de nenhuma delas diremos — salvo em qualquer sentido, que por translato não tem cabimento aqui — que é uma obra de arte. O valor da obra de arte é portanto diferente do daquelas outras. Cumpre que distingamos bem em que difere. O que é um valor? Como há diferenças de valores, o valor é uma quantidade... É uma quantidade medida por um princípio ou critério qualitativo. Ao contrário da invenção prática, que é uma invenção com valor de utilidade, e da invenção científica, que é uma invenção com valor de verdade, a obra de arte é uma invenção com um valor absoluto. Como dissemos que a invenção de um valor procede de um instinto intelectual, diremos, da invenção prática, que procede do instinto intelectual da utilidade, da invenção científica, que procede do instinto intelectual da verdade, e assim, da invenção artística, que provém do instinto intelectual (da intensidade). * Como, pois, a obra de arte, para que deveras o seja, nem seja apenas o simulacro de uma, tem de provir do instinto; como, porém, esse instinto, como é intelectual, pode ser imitado nas suas operações pela inteligência; como a obra da inteligência não pode ter valor no género a que pertence, porém pode simulá-lo; como, portanto, o que primeiro temos que fazer é distinguir se uma aparente obra de arte pode ter ou não valor, isto é, provém ou não do instinto, temos primeiro que determinar por que processos objectivos se distingue imediatamente uma obra do instinto intelectual de uma composição da inteligência. Para muitos de nós, bastará o gosto, ou senso estético, para o determinar; esse, porém, não é um princípio objectivo, nem podemos cientificamente propor a outrem que aceite o nosso gosto por critério com que ele aprecie. A inteligência não pode dar-me o desejo de comer; pode porém dar-me o desejo de não comer senão o que me for útil. E quando, em doença, eu não sinta o desejo de comer, vendo, pela inteligência, que devo fazê-lo, para me não desalimentar, guio-me pela utilidade e não pelo simples desejo de comer. Assim o acto de inteligência, quando colabore nas coisas do instinto, ou se substitua ao instinto, distingue-se por isto — que se guia sempre por uma ideia acessória da ideia central do instinto, nunca pela central, para a qual só o instinto pode guiar. Nisto, pois, se encontra a distinção entre a inteligência e o instinto: que o instinto, desde que funcione, acerta sempre com a essência do objecto para que tende, sendo que a inteligência não acerta com a essência nunca, ficando sempre nos acessórios. Entende-se bem que, por ideia central de um instinto, se entende aquela que se define pelo próprio fim do instinto. Assim um produto do instinto difere de um da inteligência em que no primeiro o essencial está com certeza dado, no segundo o essencial está com certeza por dar. * Determinado o processo objectivo, por meio do qual se determine se uma obra é do instinto ou da inteligência, está com isto determinado se essa obra pode ter, ou não, valor, pode valer, ou não, como obra de arte. O ser de instinto, porém, é a condição do valor, não o valor mesmo. Resta, pois, que determinemos em que se diferença, na obra de instinto, o maior do menor; qual o princípio objectivo pelo qual, dada uma obra de instinto, se determina o valor ou força do instinto que realizou tal obra. Vimos que, numa operação do instinto, o objecto se define, relativo a esse instinto por meio de uma ideia geral central, que só o instinto pode dar, assim como, melhor, por meio de outras ideias gerais, acessórias essas, que a inteligência pode simular. Em que pode residir o valor de um instinto? Em que pode um indivíduo ter um instinto de comer mais perfeito que o de outro indivíduo? Não por certo em comer muito, pois, se o valor é uma quantidade média qualitativamente, aqui, onde há só quantidade, não há valor (...). 1916 Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 12. Fragmento de ensaio sobre o drama “Octávio” de Vitoriano Braga Presumo, meu prezado confrade, que menos interessará aos fins do seu inquérito a minha opinião como exclusivamente minha, do que como propriamente representativa daquela corrente na literatura portuguesa a que eu pertenço. Por isso, em vez de lhe falar de mim, como seria certo que eu fizesse, se atendesse à direcção dos seus quesitos, passo a falar-lhe de Orpheu e do Movimento Sensacionista. Mas antes que lhe fale deles, preciso por, como preliminares, duas advertências. Embora — como disse — eu vá falar interpretando a direcção do movimento sensacionista, não devo deixar de apontar que a interpretação é minha, que, embora eu a julgue justa, pode ser errónea, que por certo alguns dos meus camaradas não concordarão com alguns dos meus pontos de vista, nem talvez com o conjunto da minha interpretação. Embora intérprete, sou sempre eu a falar. Não acho escusada esta advertência, porque, a não fazê-la, poderia porventura concluir-se que o que vou expor fosse combinado em comum com os que estão comigo na novíssima corrente literária portuguesa. Outra advertência ainda me compete fazer. No decurso dos parágrafos que seguem terei muitas vezes ocasião de empregar a palavra «arte». Preciso explicar que essa palavra é por mim empregada como sinónima de «literatura», e não num sentido mais lato, que o meu critério estético não admite. Por certas razões, que seria descabido expor aqui, eu considero a literatura como a única verdadeira arte, e as outras «artes» todas como o resultado de sensibilidades incompletas: a pintura, escultura, a arquitectura, por exemplo, como produtos de um incompleto desenvolvimento mental, em que as qualidades de visualização não estão subordinadas ao domínio da inteligência, de modo que não funcionam, como deve toda a sensibilidade para ter um perfeito e humano equilíbrio, através da inteligência, mas independentemente dela, e com outras formas de expressão que não as coadas através da ideia. Por isso não admito que fora da literatura haja realmente arte; tenho as outras artes por representativas de um nível humano inferior ao actual, mas tenho-as por imorredouras, porque haverá sempre gente que mais se satisfaça com essas sub-artes, que com a, essencialmente aristocrática e difícil, arte literária. Para a plebe da sensibilidade existem as artes vitais — a dança, o canto, e a representação teatral. Para a burguesia da sensibilidade existem as artes como a pintura, a escultura, a arquitectura, e, um pouco menos e intermédia, a música. Para a aristocracia da sensibilidade, existe apenas uma arte: a literatura, resumo de todas, transcendentalizando-as através da ideia. (. . .) Da direcção tomada pela literatura europeia creio poder prever-se o seguinte: Continuará havendo, porque haverá sempre, a literatura que não vale nada, e que é feita com certo relevo pelas criaturas de cultura que se dedicam a escrever — o Anatole France, os (...) e todos os outros fabricantes de coisas necessárias para a leitura corrente, mas que nada trazem de novo à arte, nem de rico ao pensamento (à consciência da vida). Creio que todo o futuro da arte europeia está no movimento sensacionista. Preciso explicar, agora, o que é aquilo a que chamo o Movimento Sensacionista. A uma arte assim cosmopolita, assim universal, assim sintética, é evidente que nenhuma disciplina pode ser imposta, que não a de sentir tudo de todas as maneiras, de sintetizar tudo, de se esforçar por de tal modo expressar-se que dentro de uma antologia da arte sensacionista esteja tudo quanto de essencial produziram o Egipto, a Grécia, Roma, a Renascença e a nossa época. A arte, em vez de ter regras como as artes do passado, passa a ter só uma regra — ser a síntese de tudo. Que cada um de nós multiplique a sua personalidade por todas as outras personalidades. 1916 Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 122. Inquérito literário organizado por Eurico de Seabra, em 31 de Abril de 1916 III Ah, mas aqui, onde irreais erramos, Dormimos o que somos, e a verdade, Inda que enfim em sonhos a vejamos, Vemo-la, porque em sonho, em falsidade. Sombras buscando corpos, se os achamos Como sentir a sua realidade? Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos? Nosso toque é ausência e vacuidade. Quem desta Alma fechada nos liberta? Sem ver, ouvimos para além da sala De ser; mas como, aqui, a porta aberta? ...... Calmo na falsa morte a nós exposto, O Livro ocluso contra o peito posto, Nosso Pai Roseacruz conhece e cala. s. d. «No Túmulo de Christian Rosencreutz». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 251. Considerações pós-revolucionárias INTELECTUAIS PORTUGUESES Nada encaram de frente. Pegam de cernelha os problemas. Não raciocinam; lêem. E acontece que, como não raciocinam, lêem mal. Quando escrevem sobre sociologia quem escreve é [...] Bom, impropriamente falando. Mesmo em assuntos nacionais, onde lhes falha a autoridade estrangeira, vingam-se nas nacionais — "Diz Basílio [?] Teles e nós concordamos"; "na autorizada opinião de Sampaio Bruno "; "como muito bem notou, no seu discurso de domingo, o Sr. Dr. Alexandre Braga". Estes são exemplos e o [...] dos primeiros para o terceiro nem é nem não é intencional. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 4. O conhecimento de Ésquilo (Plotino) no original é absolutamente necessário a toda a criatura com pretensões a requintada. [...] 1915 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 108. Personalidade supõe complexidade. Não há personalidade simples? 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 147. Tenho uma pena que escreve Tenho uma pena que escreve Aquilo que eu sempre sinta. Se é mentira, escreve leve. Se é verdade, não tem tinta. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 90. «Vou trabalhando a peneira «Vou trabalhando a peneira E pensando assim assim. Eu não nasci para freira. Gosto que gostem de mim.» 21-11-1934 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 62. XVI We never joy enjoy to that full point Regret doth wish joy had enjoyèd been, Nor have the strength regret to disappoint Recalling not past joy's thought, but its mien. Yet joy was joy when it enjoyèd was And after-enjoyed when as joy recalled, lt must have been joy ere its joy did pass And, recalled, joy still, since its being-past galled. Alas! All this is useless, for joy's in Enjoying, not in thinking of enjoying. Its mere thougth-mirroring gainst itself doth sin, By mere reflecting solid life destroying. Yet the more thought we take to thought to prove It must not think, doth further from joy move. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 172. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Da Ditadura à República (1906 — 1910) I — Causas e Extensão da Decadência Portuguesa A. Origem da Monarquia e 1º Período (até 1640). B. O Absolutismo (1640-1820). C. O Constitucionalismo: (1ª época — Preparação — até 1820). (2ª época — Formação — 1820-1850). D. O Constitucionalismo — 3ª época — Fixação: a) Período de composição [?] 1850-1881; b) Período de [...] 1881-1890; c) Período de dissolução (1881-1906). s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 5. 1. Não tenhas opiniões firmes, nem creias demasiadamente no valor de tuas opiniões. 2. Sê tolerante, porque não tens a certeza de nada. 3. Não julgues ninguém, porque não vês os motivos, mas só os actos... 4. Espera o melhor e prepara-te para o pior. 5. Não mates nem estragues, porque, como não sabes o que é a vida, excepto que é um mistério, não sabes que fazes matando ou estragando, nem que forças desencadeias sobre ti mesmo se estragares ou matares. 6. Não queiras reformar nada, porque, como não sabes a que leis as coisas obedecem, não sabes se as leis naturais estão de acordo, ou com a justiça, ou, pelo menos, com a nossa ideia de justiça. 7. Faz por agir como os outros e pensar diferentemente deles. Não cuides que há relação entre agir e pensar. Há oposição. Os maiores homens de acção têm sido perfeitos animais na inteligência. Os mais ousados pensadores têm sido incapazes de um gesto ousado ou de um passo fora do passeio. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 73. The true method of metaphysical examination has been indicated to us by Descartes — the method of universal doubt. This is so far the true metaphysical method that more recent philosophy has determined that, before we study metaphysics, we must first criticize human knowledge, perception and its limits and capabilities. Our first mental action, when we philosophize is, therefore, to shake off the tyranous prejudice of custom, and, not less, the whole weight of knowledge which may seem most legitimately acquired, and may appear endowed with indubitable correctness. While we thus doubt, however, one thing becomes clear to us, that we, to doubt and to think, must have existence: Cogito, ergo sum — I think, therefore I exist. It is unfortunate that human language cannot furnish a better presentation of the reasoning. It would seem that « Aliquid cogitat ergo sum » — «ought thinks therefore I exist» should be better, but, as I have said, human [language] is unequal to reasoning. Two things are put forth in this reasoning — the proof of the existence of the «ego» and the first of all categories — that of Being. This reasoning moreover has that in it which it will be convenient to consider. When Descartes reasoned in this way up to the «ego» and the first of all categories — that of Being. This reasoning moreover has that in it which it will be convenient to consider. When Descartes reasoned in this way up to the «ego» and thence proved the existence of himself, he seems to have forgotten that the principle of doubt might be further extended — namely to the one idea he did not criticize nor doubt — namely the idea of existence or of Being . It is a natural omission, for it is human to err. Hence it is that he says nothing of the meaning of the words «I exist», which, though commonly very comprehensible, are yet philosophically obscure. Philosophy is all doubt, it is obstinate not to understand. We can understand what Descartes meant, but his words are badly chosen. Let us attempt to correct them. We are here at our wits end with all our logic and our grammar. For if we make the expression of Descartes into « Aliquid cogitat, ergo sum », (Ought ... exist) we produce no sense at all. If we supply what is needed, that the expression becomes : « Aliquid, quod cogitat, ergo sum », we are again guilty of the beforehand introduction of the «ego». Try as we will, the phrase never will yeld, the «ego» in the first place cannot be eliminated. And from this lack of result the very highest result is obtained — namely the very finding of Descartes meaning in philosophical language. True, indeed; and the conclusion is this that the idea of the «Ego» is the very first of the human mind; Being the first category we find. When, at the beginning of this treatise, I had to determine the «ego» by the argument of Descartes: «I think, therefore I exist», and when I say «I exist» the word exist has no explainable meaningg apart from the one intangible in itself. Existence has no real meaning to us except as an intuition. It is, as we shall find, however deep we think, an idea entirely primary, it is incapable of analyses, of decomposition — in other words it is a condition of knowledge. Nay more — it is the first condition of knowledge, as individuality, even in childhood unremembered, it is according by the first Category of all. If to exist be to be conscious, then Descartes reasoning is but a petitio principii , since to be conscious is to think, after Descartes own acceptation, and he has it that to think is to exist. But, as I shall prove, to exist is not to be conscious; existence requires neither time nor space: Being is absolute . 1908? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 108. Doctrine of Satan-God is a material doctrine. An infinitely imperfect God must of necessity be identified with matter. Why say there is a perpetual movement of ideas and that this movement is eternal when by this matter the product of the movement is also eternal? If the movement of ideas as reflected on matter be eternal, why should there be any reality but this reflection? It is to be eternal and must therefore be as it is. To say it will end for us is to exaggerate the part of the individual, itself as depreciated by the theory of the universals. The Author of «Satan-God» is wrong in considering plurality as an attribute of power. Power possesses plurality qua act not in itself. The «movement immobile» supposes number, but number is the basis of manifestation, yet not in Power, but in Act. Because number is the very basis of, necessary basis in, the physical, material world, we must not suppose that it is anything anterior to this world. It is co-extensive therewith. Besides, ideal number contains no idea of alteration. Categories : Being, Property (or Attribute), and Number. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 148. O capilé é barato O capilé é barato E é fresco quando há calor. Vou sonhar o teu retrato Já que não tenho melhor. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 91. Roseiral que não dás rosas Roseiral que não dás rosas Senão quando as rosas vêm, Há muitas que são formosas Sem que o amor lhes vá bem. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 62. XVII My love, and not I, is the egoist. My love for thee loves itself more than thee; Ay, more than me, in whom it doth exist, And makes me live that it may feed on me. In the country of bridges the bridge is More real than the shores it doth unsever; So in our world, all of Relation, this Is true — that truer is Love than either lover. This thought therefore comes lightly to Doubt's door — If we, seeing substance of this world, are not Mere Intervals, God's Absence and no more, Hollows in real Consciousness and Thought. And if 'tis possible to Thought to bear this fruit, Why should it not be possible to Truth? s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 172. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Sir, The purpose of this letter is to inquire whether you would be disposed to publish an Anthology of Portuguese «sensationist» poetry. I am aware of how enterprising you are in this case of new «movements» and this emboldens me to make this inquiry. It is possibly not very easy to explain in such a number of words as may legitimately be contained in a letter, precisely what the movement called sensationism is. I will try, however, to give you some idea of its nature; the extracts which I am enclosing, and which are translations of sensationist poems and parts of poems, will probably fill in the inevitable blanks of this cursory explanation. First as to derivation. It would be idle to pretend of Sensationism that it comes direct from the Gods or dates only from the souls of its creators, without the human concourse of forerunners or influences. But we claim for it that it is as original as any human movement — intellectual or other — can be. That it does represent, both fundamentally (in its metaphysical substance) and superficially (in its innovations as to expression) a new species of Weltanschauung, we have no hesitation in claiming. As, I will not say founder, (for these things must never be said), but at least chief responsible for it, I owe it both to myself and to my fellow-sinners to be no more modest over the matter than social usages absolutely require. As to derivation, then; the enumeration of our origins will be the first element towards anything like an integral explanation of the movement. We descend from three older movements — French «symbolism», Portuguese transcendentalist pantheism, and the jumble of senseless and contradictory things of which futurism, cubism and the like are occasional expressions, though, to be exact, we descend more from the spirit than from the letter of these. You know what French symbolism is, and are of course aware that being at bottom a carrying to extremes of romantic subjectivism, it is besides a carrying to extremes of romantic liberty of versification. It was further an extremely minute and morbid analysis ( [er] synthetised for the purposes of poetical expression) of sensations. It was a «sensationism» already, though a rudimentary one, in relation to ours. It threw the world out of focus in obedience to those mental states the expression of which would have been incompatible with the normal equilibrium (balance) of sensations. From French symbolism we derive our fundamental attitude of excessive attention to our sensations, our consequent frequent dealing in ennui, in apathy, in renouncement before the simplest and sanest things of life. This does not characterise all of us, though the morbid and probing analysis of sensations runs through the whole movement. Now as to the differences. We reject entirely, except occasionally for purely aesthetical purposes, the religious attitude of the symbolists. God has become for us a word «which can conveniently be used for the suggestion of mystery, but which serves no other purpose monal or otherwise — an aesthetic value and no more. Besides this, we reject and abominate the symbolist incapacity for prolonged effort, their inability to write long poems and their vitiated «construction». Portuguese «transcendentalist pantheism» you do not know. It is a pity, because, though not a long-standing movement, yet it is an original one. Suppose English romanticism had, instead of retrograding to the Tennysonian-Rossetti-Browning level, progressed right onward from Shelley, spiritualising his already spiritualistic pantheism. You would arrive at the conception of Nature (our transcendentalist pantheists are essentially poets of Nature) in which flesh and spirit are entirely mingled in something which transcends both. If you can conceive a William Blake put into the soul of Shelley and writing through that, you will perhaps have a nearer idea of what I mean. This movement has produced two poems which I am bound to hold among the greatest of all time. Neither is a long one. One is the Ode to Light of Guerra Junqueiro, the greatest of all Portuguese Poets (he drove Camoens from the first place when he published Pátria in 1896 — but Pátria, which is a lyrical and satirical drama, is not of his transcendental-pantheist phase). The Prayer to Light is probably the greatest metaphysico-poetical achievement since Wordsworfh's great Ode . The other poem, which certainly transcends Browning's Last Ride Together as a love-poem, and which belongs to the same metaphysical level of love-emotion, though more religiously pantheistic, is the Elegy of Teixeira de Pascoaes who wrote it in 1905. — To this school of poets we, the «sensationists», owe the fact that in our poetry spirit and matter are interpenetrated and inter-transcended. And we have carried the process further than the originators, though I regret to say that we cannot as yet claim to have produced anything on the level of the two poems l have referred to. As to our influences from the modern movement which embraces cubism and futurism, it is rather owing to the suggestions we received from them than to the substance of their works properly speaking. We have intellectualised their processes. The decomposition of the model they realise (because we have been influenced, not by their literature, if they have anything resembling literature, but by their pictures), we have carried into what we believe to be the proper sphere of that decomposition— not things, but our sensations of things. Having shown you our origins, and, cursorily, our use of and differences from those origins, I will now more expressly state, as far as that is possible, in a few words, what is the central attitude of Sensationism. 1. The only reality in life is sensation. The only reality in art is consciousness of the sensation. 2. There is no philosophy, no ethics and no aesthetics even in art, whatever there may be in life. In art there are only sensations and our consciousness of them. Whatever love, joy, pain, may be in life, in art they are only sensations; in themselves, they are worthless to art God is a sensation of ours (because an idea is a sensation) and in art is used only [when?] the expression of certain sensations — such as reverence, mystery, etc. No artist can believe or disbelieve in God, just as no artist can feel or not-feel love or joy or pain. At the moment he writes he either believes or disbelieves according to the thought that best enables him to obtain consciousness and give expression to his sensation at that moment. Once that sensation goes, these things become to him, as artist, no more than bodies which the souls of sensations assume to become visible to that inner eye from whose sight he writes down his sensations. 3. Art, fully defined, is the harmonic expression of our consciousness of sensations; that is to say, our sensations must be so expressed that they create an object which will be a sensation to others. Art is not, as Bacon said ,«man added to Nature»; it is sensation multiplied by consciousness — multiplied, be it well noted . 4. The three principles of art are 1) every sensation should be expressed to the full, that is, the consciousness of every sensation should be sifted to the bottom; 2) the sensation should be so expressed that it has the possibility of evoking — as a halo round a definite central presentation — the greatest possible number of other sensations; 3) the whole thus produced should have the greatest possible resemblance to an organised being, because that is the condition of vitality. I call these three principles 1) that of Sensation, 2) that of Suggestion, 3) that of Construction. This last, the great principle of the Greeks — whose great philosopher did indeed hold the poem to be «an animal» — has had very careless handling at modern hands. Romanticism has indisciplined the capacity of constructing which, at least, low classicism had Shakespeare, with his fatal incapacity to visualise organised wholes, has been a fatal influence in this respect (you will remember that Matthew Arnold's classical instinct guided him to an intuition of this). Milton is still the great Master of Building in poetry. Personally, I confess that I tend ever more and more to put Milton above Shakespeare as a poet. But —I must confess — in so far as I am anything (and I try hard not to be the same thing three minutes running, because that is bad aesthetic hygiene) I am a pagan, and I am therefore rather with the pagan artist Milton than with the Christian artist Shakespeare. All this, however, is passim , and I hope you will excuse its insertion into this place. I sometimes hold that a poem — I would also say a painting or a statue, but I do not consider sculpture and painting arts, but only perfected artisans' work — is a person, a living human being, belongs in bodily presence and real fleshly existence to another world, into which our imagination throws him, his aspect to us, as we read him in this world, being no more than the imperfect shadow of that reality of beauty which is divine elsewhere. I hope some Day, after death, I shall meet in their real presences the few children of these I have as yet created and I hope I shall find them beautiful in their dewy immortality. You may perhaps wonder that one who declares himself a pagan should subscribe to these imaginations. I was a pagan, however, two paragraphs above. I am one no longer as I write this. At the end of this letter I hope to be already something else. I carry into practice as far as I can that spiritual disintegration I preach. If I am ever coherent, it is only as an incoherence from incoherence. (...) 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 126. NUN’ÁLVARES PEREIRA Que auréola te cerca? É a espada que, volteando, Faz que o ar alto perca Seu azul negro e brando. Mas que espada é que, erguida, Faz esse halo no céu? É Excalibur, a ungida, Que o Rei Artur te deu. Esperança consumada, S. Portugal em ser, Ergue a luz da tua espada Para a estrada se ver! 8-12-1928 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 45. Da Ditadura à República Capítulo Inicial Coesão social[,] o sinal de uma forte e sã vida social. Falta de coesão social, sinal de decadência: coesão imperfeita, sinal ainda mais grave. A descoesão obtém-se por: (1) indiferença; (2) discussão. A indiferença pode ser curável — a da ignorância, ou incurável —- a do indiferentismo. A discussão pode ser curável —— a luta de regiões a vilas; ou [?] incurável — a luta de classes (classes complementares). (Curável a luta de forças socialmente antagónicas; incurável a luta de forças socialmente complementares.) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 6. CHANGE All things changing, says Heraclitus, no knowledge is possible. My answer is that, all things changing, myself change with them, and so am in a relative stability. Subject and object changing perpetually are stable one in relation to the other. The world is only in perpetual change when contrasted to something immutable. What is this thing which does not change? Descartes will hope to answer with: «It is myself, as a thinking subject.» I believe that Descartes was in this nearly right. I believe that he is wrong in placing the principle of stability in an changeable and sensible thing. It seems rather to me that the principle of unchange is not myself as a thinking subject not even my thoght, but thought, pure reason, inconditioned and absolute. * I do not agree that by pensée Descartes means consciousness. I believe that he means, as he says, thought. « Res cogitans », such is man, he says, a thinking thing. What he means I believe to be this: I in all my life must think of something. Even in hours of layziness I think, I ruminate, I dream — all that I stand for is in my thought. One reason why Descartes should not mean consciousness by pensée is that famous passage where he says that his reason for saying that the soul thinks (pensée) always is the same as urges (makes) him to believe that light shines always although no eyes look upon it. If by pensée he means consciousness, how can he speak of it as unconscious? On the other hand unconscious thought is conceivable. It is, at least, more conceivable nowadays (in the sense of reasoning) than it was then. However it may be unconscious thought, even in that time, though obscure may be conceived. But unconscious consciousness, being a contradiction in terms, is entirely inconceivable. For the rest I have no doubt whatever that Descartes often meant consciousness by pensée. But the confusion was natural, Descartes being an intellectualist [...] of an intellectual nature. Again, the expresssion res cogitans the thing that we think always is most proper to Descartes, as man. [...] It is true that Descartes has no strong sense of what conscious is, in the metaphysical sense he mixes it with thought. There is in Descartes the germ of the theory of the epiphenomenon. The only thing he required to be proved to such a conclusion is that which he had not, and could not then have meant, the knowledge of the relationship of men and of beast, the theory of evolution. [?] 1911? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 113. Emotions live with the objects that cause them and no more. The love of body for body dies with the body, the love of Spirit for Spirit with Spirit endures for ever. God is neither positive nor negative; He is contrary to all human things, beyond all definite human knowledge. He is the middle term, the unknowable term of all entities. With Him all is Present; there is no Past and no Future; for Present has no negative nor positive, but is the inexplicable medium of Past and Future. Since God neither is nor is not, it is obvious that. He can have no negative, for the positive and negative are in the human considerations of life and not-life. If we attempt to obtain a negative to God we cannot find it (unless in the dual humanities), for if we conceive, each term by each, the negative of that which neither is nor is not, we behold in it a thing which «neither is not nor is», being but a grammatical jumble, and the same thing as God Himself. Therefore is God His own negative; that is to say, He has no negative at all. Human considerations: 1. Space. 2. Time. 3. Form. 4. Colour. 5. Weight. Life. 1910? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 149. Baila o trigo quando há vento Baila o trigo quando há vento Baila porque o vento o toca Também baila o pensamento Quando o coração provoca. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 91. «Ribeirinho, ribeirinho,/Que vais a correr ao léu «Ribeirinho, ribeirinho, Que vais a correr ao léu Tu vais a correr sozinho, Ribeirinho, como eu.» s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 63. XVIII Indefinite space, which, by co-substance night, In one black mystery two void mysteries blends; The stray stars, whose innumerable light Repeats one mystery till conjecture ends; The stream of time, known by birth-bursting bubbles; The gulf of silence, empty even of nought; Thought's high-walled maze, which the outed owner troubles Because the string's lost and the plan forgot: When I think on this and that here I stand, The thinker of these thoughts, emptily wise, Holding up to my thinking my thing-hand And looking at it with thought-alien eyes, The prayer of my wonder looketh past The universal darkness lone and vast. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 174. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. THE MAD FIDDLER Not from the northern road, Not from the southern way, First his wild music flowed Into the village that day. He suddenly was in the lane, The people came out to hear, He suddenly went, and in vain Their hopes wished him to appear. His music strange did fret Each heart to wish 'twas free. It was not a melody, yet It was not no melody. Somewhere far away, Somewhere far outside Being forced to live, they Felt this tune replied. Replied to that longing All have in their breasts, To lost sense belonging To forgotten quests. The happy wife now knew That she had married ill, The glad fond lover grew Weary of loving still, The maid and the boy felt glad That they had dreaming only, The lone hearts that were sad Felt somewhere less lonely. In each soul woke the flower Whose touch leaves earthless dust, The soul's husband's first hour, The thing completing us, The shadow that comes to bless From kissed depths unexpressed, The luminous restlessness That is better than rest. As he came, he went. They felt him but half‑be. Then he was quietly blent With silence and memory. Sleep left again their laughter, Their tranced hope ceased to last, And but a small time after They knew not he had passed. Yet when the sorrow of living, Because life is not willed, Comes back in dreams' hours, giving A sense of life being chilled, Suddenly each remembers - It glows like a coming moon On where their dream‑life embers ­- The mad fiddler's tune. 18-4-1915 e 20-4-1917 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 318. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. Considerações pós-revolucionárias ou — Da Ditadura à República A decadência portuguesa atravessou três fases: a primeira vai do tempo de D. Manuel, em que começa, ao da anexação à Espanha; a segunda dura desde 1580 até ao aparecimento, em 1820, do constitucionalismo; a terceira é coextensa [?] com a monarquia constitucional. Ostensivamente a decadência portuguesa tem princípio na anexação à Espanha. Para o sociólogo, porém, o facto de se dar essa anexação prova já uma decadência, um estado anterior de fraqueza, de que esse facto é a manifesta prova.[...] A anexação de um país por outro não é um facto esporádico e meramente tal facto nem se explica por tão externas considerações como a superioridade de países [...] apenas o como , nunca o porquê da questão. Fundamentalmente as (causas sociais e mais a procurar na decadência do país absorvido do que na força do país absorvente. Não há acidentes na história das sociedades, por muito que às vezes assim pareça; nenhum país morre de desastre, como um indivíduo. Morre de doença rápida às vezes, outras de doença lenta, de velhice outras ainda — mas sempre de morte natural, e fundamentalmente não da doença propriamente, mas do estado de predisposição para essa doença [...]. E a própria velhice, no indivíduo como na sociedade, é uma doença — uma doença normal, decerto, mas nem por isso menos doença. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 7. METAPHYSICS Noumenal Soul and the Phenomenal Soul. Now the characteristic of the phenomenon is Law. The phenomenal Soul can hardly escape this rule. The human reason, often on the right path, always has twisted the voyage by its fallacious appeal to reason, by its wish to explain everything so that itself it may understand. Plato on the soul entering the body: the basis of his theory is right; what is wrong is what depends on the reasoning. A noumenal soul can hardly «choose». No sooner had I perceived this frequent and important error than I determined at once to put bright the human intellect, convinced as I was, as Kant had been, before me that man constantly used his reason without knowing its power and capacity. 1911? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 116. Fizeste molhos de flores Fizeste molhos de flores Para não dar a ninguém. São como os molhos de amores Que foras fazer a alguém. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 91. «Vesti-me toda de novo «Vesti-me toda de novo E calcei sapato baixo Para passar entre o povo E procurar quem não acho.» s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 63. XIX Beauty and love let no one separate, Whom exact Nature did to each ocher fit, Giving to Beauty love as finishing fate And to Love beauty as true colour of it. Let he but friend be who the soul finds fair, But let none love outside the body's thought, So the seen couple's togetherness shall bear Truth to the beauty each in the other sought. I could but love thee out of mockery Of love and thee and mine own ugliness; Therefore thy beauty I sing and wish not thee, Thanking the Gods I long not out of place Lest, like a slave that for kings' robes doth long, Obtained, shall with mere wearing do them wrong. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 174. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. THE ISLAND Weep, violin and viol, Low flute and fine bassoon. Lo, an enchanted isle Moon‑bound beneath the moon! My dream‑feet rustle through it Chequered by shade and beam. Oh, could my soul but woo it From being but a dream! Violin, viol and flute. Lo, the isle hangs in air! Through it I wander, mute With too much loss of care. And the air where't doth float No air's, but light of moon. Its paths are known to each note Of viol and bassoon. Yet is it real, that isle, As our clear islands mortal? Do flute, bassoon and viol But ope with sound a portal, And show, somehow, somewhere, To what looks out from me That pendulous island rare In a moon‑woven sea? Maybe 'tis truer than ours. How true are these? But lo! That isle that knows no hours Nor needeth hours to know, And that hath truth and root Somewhere known of the moon, Fades in the fading of flute, Violin and bassoon. s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 322. If thou can do nothing but think good, or wish good to humanity, think it, wish it, for those thoughts of thine and those wishes will be not unavailing. Thoughts live more assuredly than the brain that bears them. Nothing, it is true, can die; but the brain will change one day to aught else; but thoughts will never change, for they belong to the region of the First and the Last whence all things come and to which they move. To that region the material one day shall revert; but the immaterial is already there. Yet not only do thoughts live, but they work to some end by laws mighty and unknown. Say not therefore that prayers are useless, for thou dost not understand the laws which bind the spirit of man. Cry, again do I say it, if thou can do no good to the unhappy, think good towards them, wish good for them, pray that good may come to them; in some way, known to thee or unknown, will those thoughts, wishes, prayers have effect. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 74. Considerações pós-revolucionárias. ou (A legislativa pré-constitucional) O factor — influência da decadência ocidental — teve (e tem) três formas de se apresentar na nossa sociedade: a corrupção, a desnacionalização e o radicalismo político. Sitos [?] socialmente em um período de decadência, estávamos aptos a receber todas as influências decadentes, ainda que originalmente, de outro género. O próprio seguir de conselho [?] alheio produziu o primeiro mal: a desnacionalização. Essa desnacionalização operou-se porém tomando por modelo um país decadente, e, como nós estamos decadentes, tomando, daquele país, o que mais decadente era, e portanto mais fácil, natural e espontaneamente, de integrar na decadência nossa. E entre essas coisas da decadência que em nossa alma [...] se apresentavam, especialmente nos (...) aquelas teorias políticas — socialismo e anarquismo — que mais nitidamente são expressões de um modo de teorizar e de idear doutrinas, isto é, que mais flagrante, posto que maltusianamente (?) são o pensamento de uma sociedade em plena desintegração. À medida que nos sanearmos, iremos deixando de ser anarquistas e socialistas. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 8. Consider the analytic (?) judgement a priori : «Being exists», and its very extraordinary nature. This is not even an analytic subject without increase or decrease. «Being is Being» is the logical statement of the question. Consider these: 1. Bodies are extended. 2. Bodies are weighty. s. Being is being. Analytic judgements a posteriori no one makes or thinks it necessary to make. Kant’s great question: «How are synthetic judgements a priori possible?» Can we say this, for instance: «Being is eternal?» To prove that we have to take the 2 notions of Being and of not‑Being and to oppose them in argument. We say: «If Being began it came either from Being or from not‑Being. If from not‑Being, it is also eternal, because from nothing nothing can come.» 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 117. Se houver alguém que me diga Se houver alguém que me diga Que disseste bem de mim, Farei uma outra cantiga, Porque esta não é assim. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 91. Tua boca me diz sim, Tua boca me diz sim, Teus olhos me dizem não. Ai, se gostasses de mim E sem saber a razão. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 63. XX When in the widening circle of rebirth To a new flesh my travelled soul shall come, And try again the unremembered earth With the old sadness for the immortal home, Shall I revisit these same differing fields And cull the old new flowers with the same sense, That some small breath of foiled remembrance yields. Of more age than my days in this pretence? Shall I again regret strange faces lost Of which the present memory is forgot And but in unseen bulks of vagueness tossed Out of the closed sea and black night of Thought? Were thy face one, what sweetness will't not be. Though by blind feeling, to remember thee! s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 176. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. A Cabeça do Grifo O INFANTE D. HENRIQUE Em seu trono entre o brilho das esferas, Com seu manto de noite e solidão, Tem aos pés o mar novo e as mortas eras — O único imperador que tem, deveras, O globo mundo em sua mão. 26-9-1928 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 49. LYCANTHROPY Somewhere dreams will be true. There is a lonely lake Moonlit for me and you And like none for our sake. There the dark white sail spread To a vague wind unfelt Shall make our sleep‑life led Towards where the waters melt Into the black‑tree'd shore, Where the unknown woods meet The lake's wish to be more, And make the dream complete. There we will hide and fade, Emptly moon‑bound all, Feeling that what we are made Was something musical. 2-5-1915 e 8-4-1917 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 324. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. O Sensacionismo A. 1. As correntes literárias. 2. Esboço da evolução literária. 3. Evolução da literatura portuguesa. 4. A vinda do Sensacionismo. B. 1. O Sensacionismo como filosofia estética. 2. O Sensacionismo como atitude social. 3. O Sensacionismo como corrente nacional. O Sensacionismo como inovação estética. C. 1. O Sensacionismo perante a psiquiatria. 2. O Sensacionismo perante a crítica literária. 3. O Sensacionismo perante a sociologia. 4. Conclusão. * Uma corrente literária sendo, por definição, uma ordem de obras originais, há três modos de correntes literárias: 1. A corrente literária cuja única preocupação consiste em ser nova e original, rompendo com o passado conscientemente, embora inconscientemente esteja ligada a parte dele, como por força tem que acontecer. 2. A corrente literária que procura sintetizar as correntes passadas. 3. Aquela que procura sintetizar as correntes passadas e acrescentar-lhes qualquer elemento, isto é, sintetizá-las através de um critério novo, de uma nova visão das coisas São desta última espécie as mais altas correntes literárias. São aquelas que, reunindo em si quanto de original todas as correntes anteriores trouxeram, sintetizam através da sua virtualidade própria os característicos dessas correntes, e as transcendem com um qualquer característico que lhe[s] é peculiar. Assim: 1. Pretende apenas seguir qualquer corrente, renovando-a (Parnasianismo). 2. Pretende criar uma corrente nova (Simbolismo). 3. Pretende sintetizar todas as correntes passadas através de uma originalidade própria, a qual originalidade comporta um poder sintetizador como um dos seus característicos (Renascença italiana e inglesa). 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 156. Considerações pós-revolucionárias Analisando, porém, detidamente, a situação do partido republicano quando da revolução de 5 de Outubro, facilmente se descobre a razão de todos estes fenómenos. Quando uma nação tão baixo desce como desce como desceu Portugal sob a Monarquia; quando a tão pavoroso estado social se chega como ao que chegou a pátria portuguesa sob (...) a nação, de duas coisas uma pode fazer; se não tem vitalidade, sucumbir lentamente, ingloriamente, (...); se ainda a tem, revoltar-se e dar em terra com o regime representativo das forças decadentes, do país. Em situação social tão pavorosamente degradante, o mero facto de se poder fazer uma revolução, uma sublevação vitoriosa é de extraordinário alcance para o sociólogo. Porque na abjecção suprema, quando essa abjecção o é real e supremamente, não cabe nem na alma colectiva, nem em qualquer parcial (...) o poder revoltar-se eficazmente, dominadoramente. Quando numa situação em aparência abjecta ao último ponto se dá um movimento revolucionário vitorioso, o sociólogo conclui que a vitalidade nacional não está extinta ou senil, mas adormecida apenas. Quando em tão pavorosa decadência moral surge vitoriosamente um movimento [?] de revolução, o sociólogo, analisando, é forçado a compreender que o próprio tacto de haver nessa nação a suficiente socialização [?] de energia e de vitalidade, a suficiente disciplina no querer [?], a suficiente esperança e confiança para não ser [...] mas levar a cabo essa revolução, são indícios de ressurgimento, e indícios, para o sociólogo, dos mais possivelmente [?] certos e indiscutíveis. Nação onde esse facto se dá, como agora entre nós se deu, pode ter de atravessar poucas ou muitas crises, mas ressurgirá certamente. Temos pois como primeiro facto sociológico, como primeira certeza sociológica, que a revolução indica fundamentalmente um começo de ressurgimento nacional. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 9. Manjerico, manjerico, Manjerico, manjerico, Manjerico que te dei, A tristeza com que fico Inda amanhã a terei. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 92. Quero lá saber por onde Quero lá saber por onde Andaste todo este dia! Nunca faz bem quem se esconde... Mas onde foste, Maria? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 63. SPELL From the moonlit brink of dreams I stretch foiled hands to thee, O borne down other streams Than eye can think to see! O crowned with spirit beams! O veiled spirituality! My dreams and thoughts abate Their pennons at thy feet. O angel born too late For fallen man to meet! In what new sensual state Could our twined lives fell sweet? What new emotion must I dream to think thee mine? What purity of lust? O tendrilled as a vine Around my caressed trust! O dream‑pressed spirit‑wine! s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 324. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. The aim of art is not to please. Pleasure is here a means; it is not in this case an end. The aim of art is to elevate. Before this principle then the famous question of art and morality is quite easy of solution. We do not elevate a thing by making it tend towards evil. But is not then philosophy an art? Is not the aim of philosophy to elevate also? It is, for knowledge elevates — it cannot lower anyone. My definition of the end of art is then too wide, too extensive. Considering better, then, the aim of art is elevation of man by the means of beauty. The aim of science is the elevation of man by means of truth. The aim of religion is the elevation of man by means of good. By this classification we can see how it is that religion means so much; how it is so hard to make men relinquish it. It is that religion is the practical art. But I am far from attempting a defence of religion. Indeed it is my hope that we found a religion without God — a religion purely of man, one which has benevolence and kindness as its basis instead of faith an of belief. By religion — be it noticed — I do not mean theology. Theology is, if it be anything, a science, forming a part of metaphysics. Theology, being this, is theory; religion is practical. The creed of Auguste Comte is more religion than theology — it is perhaps even more, for it has not the egoistic element of a care for self-salvation. How do we explain the taste of so many authors for subjects which are coarse, unpleasant, repugnant? How are we to explain the (...) of Zola; how the “Black Cat” of Edgar Allan Poe? One reason for this taste is, I believe, to be found in the scientific and analytic spirit of the author. Another consists in the originality of the subject. Is it in the cultivation of a novelty of sensations? Is such a taste pathologic or is it not? Do these poets and the psychologist [...] Do they, as Baudelaire in his “Le voyage”, descend “au fond de l’enfer pour trouver du nouveau”? In idealistic compositions the symbol must be vague. By vague, however, I do not mean obscure. Its meaning should be grasped as vague in its limits and in its boundaries — in itself it must be clear. The idealistic symbol must resemble those lofty woman [?] creations of Shelley; the outlines, the contours of whose ineffable beauty are uncertain and undestined. The satiric symbol, on the other hand, must be clear, quite clear. If it be vague it ceases to be striking. 1907? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 26. Quando em Março de 1915 surgiu em Lisboa a revista Orpheu, foi-lhe feito, pela gente que representa entre nós aquilo a que em outros países se chama a crítica, um acolhimento adverso e escandaloso. O resultado foi, como se sabe, que essa revista constituiu um sucesso de livraria. A mesma ordem de manifestações acolheu o aparecimento do segundo número, salvo que determinadas peças literárias, que esse número continha levaram a um auge de indignação dispersa a adversa opinião popular a seu respeito. Orpheu passou para as revistas de ano, e para os acasos das conversas particulares. Um incidente pitoresco, acontecido com um dos jornais de Lisboa, veio ornamentar de escândalo político o êxito esplêndido da revista. Algumas pessoas porém terá havido que pensassem decentemente sobre o assunto. Certas curiosidades civilizadas, emergindo de entre o nosso meio de carbonários e de gatunos políticos, quiseram deveras saber a que vinha esta revista. Não podiam acreditar que fosse uma pura blague, por isso que lhe sentiam demasiada força para ser isso apenas. Mas os seus cérebros, desacostumados ainda às manifestações originais e europeias da literatura, não podiam, ao mesmo tempo, julgar inteiramente séria essa tentativa. Urgia, pois, que àquela parte do público ledor que manifestou, ainda que só para si própria, este interesse, os sensacionistas dessem a satisfação de uma explicação integral. Este livro visa a esse fim. Nele procuraremos expor o que seja, em toda a sua opulenta complexidade, o movimento sensacionista português. O que é, pois, o sensacionismo? Os Fundamentos do Sensacionismo 1. — O Sensacionismo difere de todas as atitudes literárias em ser aberto, e não restrito. Ao passo que todas as escolas literárias partem de um certo número de princípios, assentam sobre determinadas bases, o Sensacionismo não assenta sobre base nenhuma. Qualquer escola literária ou artística acha que a arte deve ser determinada coisa; o sensacionismo acha que a arte não deve ser determinada coisa. Assim, ao passo que qualquer corrente literária tem, em gera!, por típico excluir as outras, o Sensacionismo tem por típico admitir as outras todas. Assim, é inimigo de todas, por isso que todas são limitadas. O Sensacionismo a todas aceita, com a condição de não aceitar nenhuma separadamente. O Sensacionismo é assim porque, para o Sensacionista, cada ideia, cada sensação a exprimir tem de ser expressa de uma maneira diferente daquela que exprime outra. Há regras, porém, dentro das quais essa ideia ou sensação tem, basilarmente, que ser expressa? Sem dúvida que as há, e elas são as regras fundamentais da arte. São três: 1.ª — Toda a arte é criação, e está portanto subordinada ao princípio fundamental de toda a criação: criar um todo objectivo, para o que é preciso criar um todo parecido com os todos que há na Natureza — isto é, um todo em que haja a precisa harmonia entre o todo e as partes componentes, não harmonia feita e exterior, mas harmonia interna e orgânica. Um poema é um animal, disse Aristóteles; e assim é. Um poema é um ente vivo. Só um ocultista, é claro, é que pode compreender o sentido dessa expressão, nem é permissível, talvez, explicá-la muito detalhadamente, ou mais do que o nada que já se disse. 2.ª — Toda a arte é expressão de qualquer fenómeno psíquico. A arte, portanto, consiste na adequação, tão exacta quanto caiba na competência artística do fautor, da expressão à coisa que quer exprimir. De onde se deduz que todos os estilos são admissíveis, e que não há estilo simples nem complexo, nem estilo estranho nem vulgar. Há ideias vulgares e ideias elevadas, há sensações simples e sensações complexas; e há criaturas que só têm ideias vulgares, e criaturas que muitas vezes têm ideias elevadas. Conforme a ideia, o estilo, a expressão Não há para a arte critério exterior. O fim da arte não é ser compreensível, porque a arte não é a propaganda política ou imoral. 3.ª — A arte não tem, para o artista, fim social. Tem, sim, um destino social, mas o artista nunca sabe qual ele é, porque a Natureza o oculta no labirinto dos seus desígnios. Eu explico melhor. O artista deve escrever, pintar, esculpir, sem olhar a outra coisa que ao que escreve, pinta, ou esculpe. Deve escrever sem olhar para fora de si. Por isso a arte não deve ser, propositadamente, moral nem imoral. É tão vergonhoso fazer arte moral como fazer arte imoral. Ambas as [coisas] implicam que o artista desceu a preocupar-se com a gente de lá fora. Tão inferior é, neste ponto, um sermonário católico como um triste Wilde ou d'Annunzio, sempre com a preocupação de irritar a plateia. Irritar é um modo de agradar. Todas as criaturas que gostam de mulheres sabem isso, e eu também sei. A arte tem, porém, um resultado social, mas isso é com a Natureza e não com o poeta ou o pintor. A Natureza produz determinado artista para um fim que esse próprio artista desconhece, pela simples razão que ele não é a Natureza. Quanto mais ele queira dar um fim à sua arte, mais ele se afasta do verdadeiro fim dela — que ele não sabe qual é, mas que a Natureza escondeu dentro dele, no mistério da sua personalidade espontânea, da sua inspiração instintiva. Todo o artista que dá à sua arte um fim extra-artístico é um infame. É, além disso, um degenerado no pior dos sentidos que a palavra não tem. É, além disso e por isso, um anti-social. A maneira de o artista colaborar utilmente na vida da sociedade a que pertence — é não colaborar nela. Assim lhe ordenou a Natureza que fizesse, quando o criou artista, e não político ou comerciante. O bom funcionamento de qualquer sociedade depende, como até alguns jornalistas já sabem, da perfeita divisão de trabalho quando o membro de um grupo do trabalho social procura acrescentar ao seu trabalho como tal membro elementos pertencentes ao trabalho de outros. Quando o artista procura dar um fim extra-artístico à sua arte, dá um fim extra-artístico à sua personalidade, e a Natureza, que o criou artista, não quis isso. A indiferença para com a Pátria, para com a Religião, para com as chamadas virtudes cívicas e os apetrechos mentais do instinto gregário são não úteis, mas absolutamente deveres do Artista. Se isto é amoral, a culpa é da Natureza que o mandou criar beleza e não pregar a alguém. Quanto mais instintivamente se fizer essa divisão do trabalho social, mais perfeito será o funcionamento da sociedade, porque, sendo instintiva essa divisão, maior revela ser o estado de espontânea adaptação da sociedade à vida que tem que viver. Por isso o artista deve eliminar de si cuidadosamente todas as coisas psíquicas que não pertencem à arte. É perfeitamente lógico que um artista pregue a Decadência na sua arte, e, se for político, pregue a Vida e a Força na sua política. É , mesmo, assim que deve ser. Não se admite que um artista escreva poemas patrióticos, como não se admite que um político escreva artigos anti-patrióticos. Qual, porém, a relação que existe entre o modo de escrever que, perante o público e os «críticos», tem tipificado o Sensacionismo e esta tese que expomos? Se o Sensacionismo é esta coisa liberal, ampla, acolhedora, que apontámos, em que é que não é errado (porque o não é) chamar Sensacionismo, considerar como tipicamente Sensacionista, essa corrente estranha a que pertencem a maioria das composições de Orpheu, os livros de Sá-Carneiro, excepto Princípio, e outras composições análogas? É muito simples. Dissemos que um dos princípios sobre que assentava o Sensacionismo — mau grado, é claro, ele não assentar em princípio nenhum — é o da expressão ser condicionada pela emoção a exprimir. Dissemos que cada ideia, pela sua virtualidade íntima, pela sua simplicidade ou índole complexa, impõe que se exprima de modo símplice ou complexo. Esta tese — que é a verdadeira tese artística — abrange e admite todas as espécies de expressões, desde a mais simples quadra popular, que só podia ser expressa nessa linguagem e seria mais mal expressa se fosse expressa em linguagem mais complexa, até ao mais avançado desarticulamento de linguagem lógica que se encontra nas páginas de Orpheu. Acontece que a geração a que pertencemos — mercê de razões civilizacionais que seria tão ocioso, como prolixo, estar a expor — traz consigo uma riqueza de sensação, uma complexidade de emoção, uma tenuidade e intercruzamento de vibração intelectual, que nenhuma outra geração nasceu possuindo. Veja-se. Sobre uma vida social agitada, directamente como intelectualmente, pelas complexas consequências da irrupção para a prática das ideias da Revolução Francesa, veio cair todo o complexo e confuso estado social resultante da proliferação sempre crescente das indústrias, do enxamear cada vez mais intenso das actividades comerciais modernas. O aumento das facilidades de transporte, o exagero das possibilidades do conforto e da vantagem, o acréscimo vertiginoso dos meios de diversão e de passatempo — todas essas circunstâncias, combinadas, entrepenetradas, agindo quotidianamente, criaram, definiram, um tipo de civilização em que a emoção, a inteligência, a vontade, participam da rapidez, da instabilidade e da violência das manifestações propriamente, diariamente típicas do estádio civilizacional. Em cada homem moderno há um neurasténico que tem que trabalhar. A tensão nervosa tornou-se um estado normal na maioria dos incluídos na marcha das coisas públicas e sociais. A hiper-excitação passou a ser regra. O aumento das comunicações internacionalizou facilmente isto tudo, com o auxílio que trouxe o aumento da cultura e da capacidade de cultura, que é outra coisa, e mais importante para o caso. De modo que esse estado de espírito, que, de per si, parece que devia caracterizar apenas os países no auge da vida industrial e comercial, foi parar a outros, mais apagados e quietos, e de um lado da Europa ao outro uma rede de nervos define o estado das almas nesta Hora de fogo e de treva. Se isto tudo tivesse acontecido numa época de bases assentes, o resultado seria de menor relevo. Mas acontece num período em que se sofre ainda da dissolução de antigos regimes, em que a morte tocou o princípio monárquico, em que o gusano da crítica esboroou de todo o edifício da fé religiosa. Foi mais longe, mais tarde, o efeito do espírito crítico: como era fatal que acontecesse, ele virou-se sobre os ídolos que mal erguera, as forças defensoras das ideias antigas tomaram-no como arma contra as ideias novas. E, assim, à confiança na ciência, que caracterizara o período darwinista do século ido, à atitude positiva em que cristalizara a mentalidade coeva das descobertas, a cada dia feitas, da física e da química e da biologia, seguiu-se uma crítica a essas próprias ideias, um inquérito sobre as bases em que essas novas fórmulas assentavam. Perguntou-se que maior razão para a certeza teria a metafísica da ciência do que a metafísica da crença: a resposta foi a atitude pragmatista, a atitude neo-espiritualista, as inúmeras formas de atitudes religiosas, desde o neocomtismo católico ao neotomismo da mesma seita, desde a filosofia religiosa de um Ritschl à de um ou outro low ou broad churchman na Inglaterra teológica e pseudo-racionalista. O desenvolvimento da sociologia, que, embora ainda não seja uma ciência, é já, contudo, tanto uma armazenagem de factos como uma direcção do espírito científico, veio aluir mais a segurança dos cientistas das duas gerações anteriores. O papel social das religiões, a (pelo menos aparente) absurdez dos lemas fraternitários e igualitários, passaram a ser assunto de dúvida. A rapidez, a precipitação da época coloriam tudo. É, assim, difícil, cada vez mais difícil, se tornava descortinar, através da poeira da literatura e da ciência das colunas de jornais, quais as forças eternas operando, quais os homens dignos de guiar hoje, quais as permanências, as seriedades, os esteios e os apoios. De modo que chegámos a uma época singular, em que nos aparecem todos os característicos de uma decadência, conjugados com todos os característicos de uma vida intensa e progressiva. A moral familiar e social desceu ao nível da decadência do império romano. O mercantilismo político, a dissolução nacional chegou ao fundo. Mas, com isto tudo, progrediam as indústrias, multiplicava-se o comércio, a ciência continuava descobrindo, dia a dia os confortos aumentavam e as complexidades da vida se tornavam mais complexas. Só, como distintivo de uma decadência, um fenómeno inequívoco havia — o abaixamento no nível dos homens representativos. Ninguém, na literatura, no nível dos grandes românticos, ou mesmo dos mestres realistas. Na arte, idêntica penúria. Na política, o mesmo. E assim em tudo. Na própria ciência, tão inferior no seu nível, então típica do século, o mesmo desnivelamento, o mesmo desgaste na superioridade dos homens condutores. Assim, cada um de nós nasceu doente de toda esta complexidade. Em cada alma giram os volantes de todas as fábricas do mundo, em cada alma passam todos os comboios do globo, todas as grandes avenidas de todas as grandes cidades acabam em cada uma das nossas almas. Todas as questões sociais, todas as perturbações políticas, por pouco que com elas nos preocupemos, entram no nosso organismo psíquico, no ar que respiramos psiquicamente, passam para o nosso sangue espiritual, passam a ser, inquietamente, nossas como qualquer coisa que seja nossa. Qual a arte que deve corresponder a este estado de civilização? Vimos já que o papel da arte é de, ao mesmo tempo, interpretar e opor-se à realidade social sua coeva. ( This must have been well determined before ) . Como interpretar esta época, opondo-se-lhe. Três maneiras são possíveis. Podemos dividir os característicos da época actual em três grupos, como vimos. Temos a decadência proveniente da falência de todos os ideais passados e mesmo recentes. Temos a intensidade, a febre, a actividade turbulenta da vida moderna. Temos, finalmente, a riqueza inédita de emoções, de ideias, de febres e de delírios que a Hora europeia nos traz. A arte moderna deve portanto: 1) ou cultivar serenamente o sentimento decadente, escrupulizando em todas as coisas que são características da decadência — a imitação dos clássicos, a limpidez da linguagem, a cura excessiva da forma, características da impotência de criar; 2) ou, fazendo por vibrar com toda a beleza do contemporâneo, com toda a onda de máquinas, comércios, indústrias (...) 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 158. Eu voltei-me para trás Eu voltei-me para trás Para ver se te voltavas. Há quem dê favas aos burros, Mas eles comem as favas. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 92. O vaso de manjerico O vaso de manjerico Caiu da janela abaixo. Vai buscá-lo, que aqui fico A ver se sem ti te acho. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 64. GOBLIN DANCE First there was but the moon And the black‑tramelled trees In the lunar lagoon Of the forgotten breeze. Then some unseen thing stirred Where the moon‑silence snowed And a vague whirl unheard Vacantly tip‑toed. Slowly, idly, alone, Beyond the eyes of sight, Somewhere invisibly shown, They danced their delight. Their far vagueness wound Round the heart a pain, A phantom fear found Voluble and vain. The heart remembered lives Before loves and homes, Whose rare memory revives Only when this dance comes. A wish for a vague thing soon, A loosened sense of selves, A thing in the soul like moon, Aught in the hopes like elves - Tip‑toe aerial gliding Shadow‑lunar blent, Bending, mingling, hiding, To and fro they went. Left and right, belonging To no place, they swayed. A low pipe, like longing, To their dancing played. There, in the silence dropped Like a thing on the ground, Whirled they awhile, then stopped, Then renewed their round, Till with their slowing turns The cold air grows more bare. Then the mere moonlight returns And there had been nothing there. s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 326. O cravo que tu me deste O cravo que tu me deste Era de papel rosado. Mas mais bonito era inda O amor que me foi negado. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 64. NA FLORESTA DO ALHEAMENTO Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver diz-me que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê... Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho. Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas. Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para que há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer. Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar, entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este... Surge mas não apaga esta, esta da alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam. Que nítida de outra e de ela essa trémula paisagem transparente! ... E quem é esta mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Para que é que tenho um momento de mo perguntar?... Eu nem sei querê-lo saber... A alcova vaga é um vidro escuro através do qual, consciente dele, vejo essa paisagem..., e a essa paisagem conheço-a há muito, e há muito que com essa mulher que desconheço erro, outra realidade, através da irrealidade dela. Sinto em mim séculos de conhecer aquelas árvores e aquelas flores e aquelas vias em desvios e aquele ser meu que ali vagueia, antigo e ostensivo ao meu olhar que o saber que estou nesta alcova veste de penumbras de ver... De vez em quando pela floresta onde de longe me vejo e sinto um vento lento varre um fumo, e esse fumo é a visão nítida e escura da alcova em que sou actual, destes vagos móveis e reposteiros e do seu torpor de nocturna. Depois esse vento passa e torna a ser toda só ela a paisagem daquele outro mundo... Outras vezes este quarto estreito é apenas uma cinza de bruma no horizonte dessa terra diversa... E há momentos em que o chão que ali pisamos é esta alcova visível... Sonho e perco-me, duplo de ser eu e essa mulher... Um grande cansaço é um fogo negro que me consome... Uma grande ânsia passiva é a vida falsa que me estreita... Ó felicidade baça!... O eterno estar no bifurcar dos caminhos!... Eu sonho e por detrás da minha atenção sonha comigo alguém. E talvez eu não seja senão um sonho desse Alguém que não existe... Lá fora a antemanhã tão longínqua! A floresta tão aqui ante outros olhos meus! E eu, que longe dessa paisagem quase a esqueço, é ao tê-la que tenho saudades dela, é ao percorrê-la que a choro e a ela aspiro. As árvores! As flores! O esconder-se copado dos caminhos!... Passeávamos às vezes, braço dado, sob os cedros e as olaias e nenhum de nós pensava em viver. A nossa carne era-nos um perfume vago e a nossa vida um eco de som de fonte. Dávamo-nos as mãos e os nossos olhares perguntavam-se o que seria o ser sensual e o querer realizar em carne a ilusão do amor... No nosso jardim havia flores de todas as belezas... — rosas de contornos enrolados, lírios de um branco amarelecendo-se, papoilas que seriam ocultas se o seu rubro lhes não espreitasse presença, violetas pouco na margem tufada dos canteiros, miosótis mínimos, camélias estéreis de perfume... E, pasmados por cima de ervas altas, olhos, os girassóis isolados fitavam-nos grandemente. Nós roçávamos a alma toda vista pelo fresco visível dos musgos e tínhamos, ao passar pelas palmeiras, a intuição esguia de outras terras... E subia-nos o choro à lembrança, porque nem aqui, ao sermos felizes, o éramos... Carvalhos cheios de séculos nodosos faziam tropeçar os nossos pés nos tentáculos mortos das suas raízes... Plátanos estacavam... E ao longe, entre árvore e árvore de perto, pendiam no silêncio das latadas os cachos negrejantes das uvas... O nosso sonho de viver ia adiante de nós, alado, e nós tínhamos para ele um sorriso igual e alheio, combinado nas almas, sem nos olharmos, sem sabermos um do outro mais do que a presença apoiada de um braço contra a atenção entregue do outro braço que o sentia. A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo-nos, como se houvéssemos aparecido às nossas almas depois de uma viagem através de sonhos... Tínhamo-nos esquecido do tempo, e o espaço imenso empequenara-se-nos na atenção. Fora daquelas árvores próximas, daquelas latadas afastadas, daqueles montes últimos no horizonte haveria alguma coisa de real, de merecedor do olhar aberto que se dá às coisas que existem?... Na clepsidra da nossa imperfeição gotas regulares de sonho marcavam horas irreais... Nada vale a pena, ó meu amor longínquo, senão o saber como é suave saber que nada vale a pena... O movimento parado das árvores: o sossego inquieto das fontes; o hálito indefinível do ritmo íntimo das seivas; o entardecer lento das coisas, que parece vir-lhes de dentro a dar mãos de concordância espiritual ao entristecer longínquo, e próximo à alma, do alto silêncio do céu; o cair das folhas, compassado e inútil, pingos de alheamento, em que a paisagem se nos torna toda para os ouvidos e se entristece em nós como uma pátria recordada — tudo isto, como um cinto a desatar-se, cingia-nos, incertamente. Ali vivemos um tempo que não sabia decorrer, um espaço para que não havia pensar em poder-se medi-lo. Um decorrer fora do Tempo, uma extensão que desconhecia os hábitos da realidade do espaço... Que horas, ó companheira inútil do meu tédio, que horas de desassossego feliz se fingiram nossas ali!... Horas de cinza de espírito, dias de saudade espacial, séculos interiores de paisagem externa... E nós não nos perguntávamos para que era aquilo, porque gozávamos o saber que aquilo não era para nada. Nós sabíamos ali, por uma intuição que por certo não tínhamos, que este dolorido mundo onde seríamos dois, se existia, era para além da linha extrema onde as montanhas são hálitos de formas, e para além dessa não havia nada. E era por causa da contradição de saber isto que a nossa hora de ali era escura como uma caverna em terra de supersticiosos, e o nosso senti-la ela estranho como um perfil da cidade mourisca contra um céu de crepúsculo outonal... Orlas de mares desconhecidos tocavam no horizonte de ouvirmos, praias que nunca poderíamos ver, e era-nos a felicidade escutar, até vê-lo em nós, esse mar onde sem dúvida singravam caravelas com outros fins em percorrê-lo que não os fins úteis e comandados da Terra. Reparávamos de repente, como quem repara que vive, que o ar estava cheio de cantos de ave, e que, como perfumes antigos em cetins, o marulho esfregado das folhas estava mais entranhado em nós do que a consciência de o ouvirmos. E assim o murmúrio das aves, o sussurro dos arvoredos e o fundo monótono e esquecido do mar eterno punham à nossa vida abandonada uma auréola de não a conhecermos. Dormimos ali acordados dias, contentes de não ser nada, de não ter desejos nem esperanças, de nos termos esquecido da cor dos amores e do sabor dos ódios. Julgávamo-nos imortais... Ali vivemos horas cheias de um outro sentimo-las, horas de uma imperfeição vazia e tão perfeitas por isso, tão diagonais à certeza rectângula da vida. Horas imperiais depostas, horas vestidas de púrpura gasta, horas caídas nesse mundo de um outro mundo mais cheio do orgulho de ter mais desmanteladas angústias... E doía-nos gozar aquilo, doía-nos... Porque, apesar do que tinha de exílio calmo, toda essa paisagem nos sabia a sermos deste mundo, toda ela era húmida da pompa de um vago tédio, triste e enorme e perverso como a decadência de um império ignoto... Nas cortinas da nossa alcova a manhã é uma sombra de luz. Meus lábios, que eu sei que estão pálidos, sabem um ao outro a não quererem ter vida. O ar do nosso quarto neutro é pesado como um reposteiro. A nossa atenção sonolenta ao mistério de tudo isto é mole como uma cauda de vestido arrastado num cerimonial no crepúsculo. Nenhuma ânsia nossa tem razão de ser. Nossa atenção é um absurdo consentido pela nossa inércia alada. Não sei que óleos de penumbra ungem a nossa ideia do nosso corpo. O cansaço que temos é a sombra de um cansaço. Vem-nos de muito longe, como a nossa ideia de haver a nossa vida... Nenhum de nós tem nome ou existência plausível. Se pudéssemos ser ruidosos ao ponto de nos imaginarmos rindo riríamos sem dúvida de nos julgarmos vivos. O frescor aquecido do lençol acaricia-nos (a ti como a mim decerto) os pés que se sentem, um ao outro, nus. Desenganemo-nos, meu amor, da vida e dos seus modos. Fujamos a sermos nós... Não tiremos do dedo o anel mágico que chama, mexendo-se-lhe, pelas fadas do silêncio e pelos elfos da sombra e pelos gnomos do esquecimento... E ei-la que, ao irmos a sonhar falar nela, surge ante nós outra vez, a floresta muita, mas agora mais perturbada da nossa perturbação e mais triste da nossa tristeza. Foge de diante dela, como um nevoeiro que se esfolha, a nossa ideia do mundo real, e eu possuo-me outra vez no meu sonho errante, que essa floresta misteriosa enquadra... As flores, as flores que ali vivi! Flores que a vista traduzia para seus nomes, conhecendo-as, e cujo perfume a alma colhia, não nelas mas na melodia dos seus nomes... Flores cujos nomes eram, repetidos em sequência, orquestras de perfumes sonoros... Árvores cuja volúpia verde punha sombra e frescor no como eram chamadas... Frutos cujo nome era um cravar de dentes na alma da sua polpa... Sombras que eram relíquias de outroras felizes... Clareiras, clareiras claras, que eram sorrisos mais francos da paisagem que se bocejava em próxima... Ó horas multicolores!... Instantes-flores, minutos-árvores, ó tempo estagnado em espaço, tempo morto de espaço e coberto de flores, e do perfume de flores, e do perfume de nomes de flores!... Loucura de sonho naquele silêncio alheio!... A nossa vida era toda a vida... O nosso amor era o perfume do amor... Vivíamos horas impossíveis, cheias de sermos nós... E isto porque sabíamos, com toda a carne da nossa carne, que não éramos uma realidade... Éramos impessoais, ocos de nós, outra coisa qualquer... Éramos aquela paisagem esfumada em consciência de si própria... E assim como ela era duas — de realidade que era, a ilusão — assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se o outro não ele próprio, se o incerto outro viveria... Quando emergíamos de repente ante o estagnar dos lagos sentíamo-nos a querer soluçar... Ali aquela paisagem tinha os olhos rasos de água, olhos parados, cheios do tédio inúmero de ser... Cheios, sim, do tédio de ser, de ter de ser qualquer coisa, realidade ou ilusão — e esse tédio tinha a sua pátria e a sua voz na mudez e no exílio dos lagos... E nós, caminhando sempre e sem o saber ou querer, parecia ainda assim que nos demorávamos à beira daqueles lagos, tanto de nós com eles ficava e morava, simbolizado e absorto... E que fresco e feliz horror o de não haver ali ninguém! Nem nós, que por ali íamos, ali estávamos... Porque nós não éramos ninguém. Nem mesmo éramos coisa alguma... Não tínhamos vida que a Morte precisasse para matar. Éramos tão ténues e rasteirinhos que o vento do decorrer nos deixara inúteis e a hora passava por nós acariciando-nos como uma brisa pelo cimo duma palmeira. Não tínhamos época nem propósito. Toda a finalidade das coisas e dos seres ficara-nos à porta daquele paraíso de ausência. Imobilizara-se, para nos sentir senti-la, a alma rugosa dos troncos, a alma estendida das folhas, a alma núbil das flores, a alma vergada dos frutos... E assim nós morremos a nossa vida, tão atentos separadamente a morrê-la que não reparámos que éramos um só, que cada um de nós era uma ilusão do outro, e cada um, dentro de si, o mero eco do seu próprio ser... Zumbe uma mosca, incerta e mínima... Raiam na minha atenção vagos ruídos, nítidos e dispersos, que enchem de ser já dia a minha consciência do nosso quarto... Nosso quarto? Nosso de que dois, se eu estou sozinho? Não sei. Tudo se funde e só fica, fugindo, uma realidade-bruma em que a minha incerteza sossobra e o meu compreender-me, embalado de ópios, adormece... A manhã rompeu, como uma queda, do cimo pálido da Hora... Acabaram de arder, meu amor, na lareira da nossa vida, as achas dos nossos sonhos... Desenganemo-nos da esperança, porque trai, do amor, porque cansa, da vida, porque farta e não sacia, e até da morte, porque traz mais do que se quer e menos do que se espera. Desenganemo-nos, ó Velada, do nosso próprio tédio, porque se envelhece de si próprio e não ousa ser toda a angústia que é. Não choremos, não odiemos, não desejemos... Cubramos, ó Silenciosa, com um lençol de linho fino o perfil hirto e morto da nossa Imperfeição... s.d. Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol. I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. - 251. "Fase decadentista", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares , Vol I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986. Senhor, meu passo está no Limiar Da Tua Porta. Faz-me humilde ante o que vou legar... Meu mero ser que importa? Sombra de Ti aos meus pés tens, desenho De Ti em mim, Faz que eu seja o claro e humilde engenho Que revela o teu Fim. Depois, ou morte ou sombra o que aconteça Que fique, aqui, Esta obra que é tua e em mim começa E acaba em Ti. Sinto que leva ao mar Teu Rio fundo - Verdade e Lei - O resto sou só eu e o ermo mundo... E o que revelarei. A névoa sobe do alto da montanha E ergue-se à luz O claro cimo que a Tua luz banha Sereno e claro e a flux Eu quero ser a névoa que se ergue Para te ver A humanidade sofredora é cega - O resto é apenas ser... 16-11-1915 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 75. Trazes os sapatos pretos Trazes os sapatos pretos Cinzentos de tanto pó. Feliz é quem tiver netos De quem tu sejas avó! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 64. Vem de lá do monte verde Vem de lá do monte verde A trova que não entendo. É um som bom que se perde Enquanto se vai vivendo. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 64. — Há três estados mentais distintos, se bem que se confundam nas fronteiras, como tudo. Há o estado mental anormal mas não louco, e há o estado mental de loucura. »O que é o estado mental normal? É aquele em que há um equilíbrio dos elementos mentais, uma harmonia entre eles, de sorte que os actos do indivíduo se não distinguem dos actos da generalidade dos indivíduos, em tipo, pelo menos, senão em qualidade. »É evidente que os elementos mentais variam em grau de homem para homem, e não há elementos mentais igualmente desenvolvidos no mesmo homem. Se assim é, em que consiste a chamada normalidade, ou seja o equilíbrio entre esses elementos, necessariamente mais acentuados uns do que os outros? Como nasce harmonia da desigualdade? Do facto, evidentemente, de que essa desigualdade é limitada, e de que nenhum elemento é a tal ponto deficiente ou excedente, em relação aos outros, que perturbe a harmonia. E o que é perturbar a harmonia? E essa deficiência ou excedência de tal modo se manifestar que estorve a actividade de outros elementos. Quando, por exemplo, o instinto de ganância está a tal ponto desenvolvido que estorva a acção do senso moral ou social, ou concomitantemente, o instinto oral ou social é a tal ponto atrofiado que não inibe o senso de ganância, há uma ruptura de equilíbrio, e o indivíduo, em que isto se passa, é um anormal. Suponhamos, porém, que o elemento mental emergente, ou por excedência ou por deficiência, é excessivamente emergente. Em vez de estorvar este ou aquele outro elemento mental na sua acção, estorvará mais do que um, e assim, no progresso da escala da anormalidade, a emergência desse elemento irá invadindo o espírito inteiro. Esta invasão do espírito inteiro, por um elemento mental excessivamente deprimido ou exaltado, é o que se chama a loucura. Assim como entre certos estados de anormalidade não há distinção muito fácil, assim entre os estados graves de anormalidade e os estados primitivos da loucura não é, também, fácil a distinção. »Ora a invasão do espírito inteiro, pela deficiência ou excedência de um elemento, revela-se de uma de três maneiras diferentes: pela depressão mental, como na idiotia e na demência; pela confusão mental, como nas loucuras cujo distintivo é o delírio ou a perturbação geral do espírito; e pela viciação central do espírito, como na chamada loucura lúcida ou paranóia. »A loucura caracteriza-se, essencialmente, pela perda da adaptação mental ao que chamamos a realidade, ou seja pela incapacidade de distinguir entre os fenómenos subjectivos. A loucura é sonhar acordado sem dar por isso. »No homem normal, os motivos da acção são normais e as maneiras de executar são normais também. O homem normal é vulgar nos seus motivos e acção e banal na maneira de os executar. No homem anormal, mas não louco, ou os motivos são anormais e a execução é normal, ou os motivos são normais e a execução é anormal. »No homem normal há uma adaptação entre o motivo e a execução; no anormal há uma desadaptação; no louco há uma adaptação falsa. »No homem normal, os motivos da acção são normais e os processos normais também; há uma adaptação de uns a outros. No homem anormal mas não louco, os motivos são anormais e os processos correspondentemente anormais; há a mesma adaptação entre uns e outros. No louco esta adaptação cessa; e, quer os motivos sejam normais ou anormais, e os processos normais ou anormais, ou temos um motivo normal com um processo anormal, ou temos um motivo anormal com um processo normal, ou temos um motivo anormal com um processo anormal, também, mas não ajustado a esse motivo. »Vou dar um exemplo onde isto lhe surgirá claro. Um indivíduo vai por uma rua fora, e um outro, ao passar, pisa-lhe um pé. O homem normal sente a dor, protesta e irrita-se mais ou menos, conforme o seu temperamento particular, mas a sua irritação não excede um certo limite. O homem anormal — se a sua anormalidade é dessa ordem, bem entendido —, irrita-se violentamente e ou descompõe o pisador com uma excessividade que o caso não justifica, ou até, e sem mais, se atira ao ofendente. Aqui a anormalidade consiste no excesso de irritação sentido, mas, admitido esse excesso de irritação, a violência está perfeitamente de acordo com ele, porque o homem normal, se tivesse sentido esse excesso de irritação, agiria do mesmo modo. Suponhamos, porém, que o indivíduo pisado se irrita, cala a sua irritação, fixa o indivíduo que o pisou, e segue meditando naquilo, chegando por fim a construir dentro de si uma longa história em que o transeunte casual é emissário de determinados inimigos seus que o encarregam de lhe pisar o pé para lhe escangalhar o dia ou para o molestar Aqui a reacção ao estímulo exterior está inteiramente fora de conformidade com o estímulo. »Estou-me referindo, é claro, a um tipo especial de loucura. O pisado pode ser louco e reagir simplesmente como um homem normal, ou como o homem simplesmente anormal; é que a sua loucura não é de espécie a reagir loucamente num caso destes. »No caso dessa mulher, o que faria uma mulher normal? Procuraria obter a carta por um meio normal; falhando isso, desistiria de a obter e ou confiava que nada resultasse, ou se resignava ao destino que lhe caíra em cima: poderia, até, numa exaltação temporária, fugir ou suicidar-se. Seria um episódio anormal dentro da normalidade, mas a anormalidade viria das circunstâncias, não da pessoa. »No caso dessa mulher, o que faria uma mulher anormal? Dada a gravidade do caso, agiria de um modo extravagante e anormal, mas consentâneo com a sua perturbação. Em outras palavras, agiria como uma mulher normal, mas excessivamente. Ou fugiria ou se mataria logo, antes mesmo de ver nitidamente o desastre; ou tentaria obter a carta por artes de fascinação e sedução, arranjadas lá como entendesse e sob a pressão da gravidade do assunto; ou roubaria a carta por um golpe de audácia arriscado; ou ministraria qualquer droga ao marido, para lhe tirar as chaves do cofre e roubar a carta. Reagiria como uma pessoa normal, apenas com mais audácia, com mais tensão, ou mais subtileza. »No caso dessa mulher, o que faria uma mulher louca? No caso da loucura de depressão, não faria nada. No caso da loucura de perturbação, ou endoideceria mais, ou endoideceria de vez, se não estivesse ainda plenamente louca; no caso da loucura lúcida, procuraria ou complicar o assunto por qualquer estratagema absurdo e prolixo, ou procuraria roubar a carta por qualquer estratagema extravagante mas banal. Mas banal, meu caro Guedes: chamo a sua atenção para isso. A manha do louco é complexa, subtil, mas sem originalidade. Isto vê-se bem nas composições literárias dos alienados: são extravagantes de ideias ou de expressão, mas, no fundo, duma grande banalidade. E assim se compreende que deva ser; é nas esferas mentais superiores que se elabora a originalidade, e são precisamente as esferas mentais superiores que são atrasadas pela loucura. Restam as esferas mentais inferiores, cuja actividade é puramente imitativa. — Mas então, doutor... — Exactamente... Você vai dizer que o acto desta mulher não está em nenhum dos três casos, que nem é o acto de uma mulher normal, nem de uma mulher anormal, nem de uma mulher louca. — Exactamente, mas então que diabo... —Ora é esse mesmo o ponto que eu quis tornar claro — que o acto desta mulher não está conforme com nenhum dos três tipos de mentalidade humana. É anormal num outro sentido — no sentido lógico, e não psicológico, por assim dizer. Quaresma reacendeu o charuto, enquanto o Guedes não tirava dele a expressão atenta dos olhos. — Se esta mulher procedeu de uma maneira que se não conforma com nenhum dos três tipos de mentalidade humana, é que está presentemente fora desses três tipos. Quer isto dizer que está em qualquer ponto intermédio entre dois desses tipos. Ora quais são os característicos distintivos do processo que ela empregou para roubar a carta? São, evidentemente, a extravagância desnecessária, e a perfeita habilidade ou manha com que essa extravagância foi posta em prática. A extravagância desnecessária é o característico do acto normal. A habilidade, ou manha, pode ser característico da normalidade ou da loucura. Em ambos os casos, porém, a manha é banal; e aqui a manha foi banal; a extravagância está no processo, pois a habilidade com que ele foi posto em prática não sai da banalidade. Chamo a sua atenção para este facto: a habilidade em levar o marido a sair com ela nesse dia, o aparato todo de pôr a carta em cima da mesa, recomendar cuidado à criada, e tudo o mais, são actos de manha banal; simplesmente se ajustam a um processo anormal fundamental. Mas a manha banal do indivíduo normal e a manha banal do louco diferem num ponto: a manha banal do normal é banal porque o normal usa processos banais, e por isso os põe em prática banalmente; a manha do louco é banal porque a ruína mental lhe não permite o emprego da originalidade. E a manha do louco ajusta-se sempre a processos loucos ou a motivos loucos. Aqui temos, pois, ou uma manha banal juntando-se a um processo anormal, ou uma manha de louco juntando-se a um processo anormal. Ora a manha é um emprego da inteligência, e o emprego da inteligência difere, do homem normal para o louco, em que no louco ela serve apenas para dar expressão à loucura, ao passo que no homem normal ela é não só expressiva mas inibitiva, pois são essas, salvo no louco — onde a inibição acabou —, as duas funções da inteligência. Se, portanto, a manha desta mulher fosse normal, o primeiro resultado seria rejeitar o processo extravagante de roubar a carta, inibir o impulso que sugeria que ela a roubasse assim. Como não foi isto que sucedeu, como a manha foi expressiva e não inibitiva também, verificamos que o acto desta mulher é um acto de uma pessoa que está no ponto intermédio entre a anormalidade e a loucura. »Ora, meu caro Guedes, não há classe mental intermédia entre a anormalidade e a loucura. — Bonito! — exclamou o Guedes. — Esse último bocado é que está claríssimo! — Vai ver que está — respondeu Quaresma, rindo. — Não há classe intermédia entre a anormalidade e a loucura, porque não há ponto fixo entre as duas. O espaço entre as duas é dinâmico e não estático. Estar entre a anormalidade e a loucura, não quer dizer estar entre a anormalidade e a loucura: quer dizer estar passando da anormalidade para a loucura. Este facto, meu caro Guedes, é o último acto racional dessa pobre mulher. Em qualquer caso, a paranóia seria inevitável, mas creio que este incidente da carta a fará eclodir mais cedo. O mais grave do caso é o êxito do roubo. — Essa é boa! Porquê? — Porque vai intensificar a exagerada autofilia, que é um dos fenómenos mentais onde a paranóia assenta. Essa mulher está hoje cheia de júbilo do que conseguiu fazer. Sente-se superior a todos na família. A sua tendência para mandar e dominar vai agravar-se de hoje em diante. Essa maior pressão de domínio vai levantar oposições — brandas ou não, mas vai levantá-las. Gradualmente a vida familiar se irá tornando mais difícil; essas oposições e resistências, por brandas que sejam, ir-se-ão acentuando, e sobretudo se irão acentuando para aquela alma concentrada em si mesma. Ela apertará mais a pressão; as resistências aumentarão, por brandas que sempre sejam. Então essa mulher sentirá que tem em seu torno só inimigos. Entrará a pensar o que é que eles lhe quererão fazer. E a paranóia entrará então na fase persecutória. Em outras palavras, a loucura estará declarada. — É uma felicidade para a família, não haja dúvida! — disse o Sr. Guedes. — O que vale é que a metem num manicómio e pronto. — Não é tão pronto como você julga. Em primeiro lugar, na paranóia não se dá com a cabeça nas paredes, nem se dizem disparates. O espírito, centralmente viciado, está perfeitamente lúcido na sua superfície; o raciocínio, sobretudo, por onde a maioria dos leigos mede a loucura, estará intacto. Simplesmente, raciocinará sempre sobre dados falsos, provenientes de um estado alucinatório central. Ela irá para um manicómio, sim, depois de exame clínico que se seguirá ao assassínio que ela praticar, ou (oxalá que assim seja) apenas tentar praticar. — O quê? O doutor prevê que ela tente matar alguém? — Tenho a certeza absoluta. A força da mentalidade dela, a habilidade real que ela tem são os característicos, não do simples perseguido, mas do perseguido-perseguidor, isto é, do perseguido criminoso. Repare você: o espírito dela continuará lúcido, a manha perfeitamente de saúde. Ora imagine você uma criatura que engendrou este roubo da carta a aplicar essa mesma manha a assassinar alguém. O Chefe Guedes passou a mão pela testa. — Caramba! — disse. — É animador. E em quem esse diabo dá o tiro? — Não dá tiro nenhum. A arma será o veneno. — A mais simpática de todas... Arre!... E porquê o veneno, ó doutor? — Você compreende: uma coisa é a mentalidade típica do louco, neste caso a da paranóia, noutra coisa são as qualidades temperamentais da pessoa, independentemente da sua loucura e das qualidades especiais provenientes dessa loucura. Assim como há loucos altos e baixos, louros e morenos, assim há loucos violentos por temperamento, e loucos astutos por temperamento. Evidentemente, que a operação da loucura, sendo em uns e outros idêntica quanto aos resultados gerais, atingirá esses resultados gerais por meios provenientes do temperamento particular de cada louco. Esta mulher tem a mentalidade que acabará na paranóia de perseguido-perseguido. Por esse lado a sua mentalidade levá-la-á ao assassínio, de mais a mais que a sua dureza, a sua frieza, naturais, intensificam a amoralidade desse tipo de loucura. Mas, e à parte isso, ela é por temperamento, não uma expansiva e violenta, como poderia ser, mas uma concentrada e astuta. Este próprio caso da carta no-lo mostrou suficientemente. Quando ela, portanto, chegar ao ponto de loucura necessário para querer matar, para achar necessário matar (lá segundo a mentalidade dela), ela buscará o modo de matar consentâneo com a astúcia e a subtileza, e esse modo é o veneno, que ela obterá com grande facilidade, dada essa mesma astúcia. Acresce que, sendo mulher, tenderia já, por sexo, para as formas de crime características desse sexo, e o veneno, a droga, é a arma que mais facilmente ocorre ao sexo astuto. — E quem envenenará ela, doutor? O seu raciocínio pode chegar até aí?... — Não sei bem se chega, Guedes. Mas quero crer que posso ir até aí. Deve envenenar o marido... Creio bem que sendo quase fatal a conclusão de que ela chegará ao assassínio é de concluir que matará o marido. Vejamos bem. É ao marido que ela esta ligada e portanto no marido que ela verá a maior oposição para começar a imaginar inimizades. É libertando-se do marido que ela se sentirá livre. É ao marido a quem ela mais domina e em cuja resistência sentirá mais viva a inimizade suposta. As resistências alheias — da criada, do próprio petiz, de quem quer que mais seja — ela as atribuirá a manobras do marido. Além disso ela não gosta dele. Tudo isso se concentrará num propósito firme que, não tenho dúvida nenhuma, ela executará com uma grande segurança e firmeza. A paranóia não prejudica os movimentos mentais... s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 125. «A Carta Mágica». 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 A maneira de investigar um caso destes é, começou Quaresma, por três estádios de raciocínio. O primeiro é determinar se de facto houve crime. O segundo é, determinado isso positivamente, determinar como, quando e por que o crime foi praticado. O terceiro é, por meio de elementos colhidos no decurso desses dois estádios de investigação, e sobretudo do segundo, determinar quem praticou o crime. O raciocínio, ou mais latamente a inteligência, trabalha sobre sensações, dados fornecidos pelos sentidos, nossos ou alheios, a que juridicamente se chama testemunho. Quando, uma vez, o raciocínio trabalha sobre esses dados, pesando o que vale o testemunho, comparando uns com os outros, e, quando isso seja possível, por uns dados ir obtendo outros até ali desconhecidos, chegamos à posse do que chamamos «factos». Ao raciocínio que, trabalhando sobre os dados dos sentidos, deles extrai os factos, podemos chamar o raciocínio concreto. Quando os dados procedem de testemunhos verificadamente seguros; quando comparados entre si não há entre eles contradição; quando, ou em si mesmos, ou com outros a cuja descoberta conduzem, são suficientemente abundantes para que os factos resultantes formem um conjunto coerente, harmónico e lógico, que nos permita indubitavelmente verificar qual foi a sua natureza, causa e fins, o acontecimento de que esses factos são os pormenores, então a investigação está concluída e basta o raciocínio para a concluir. Raras vezes, porém, e em raros casos isto acontece, desde que o acontecimento não seja simples, isto é, formado por um pequeno número de pormenores, e estes facilmente verificáveis. Desde que o caso é mais complexo e obscuro temos que lutar com as dificuldades da insegurança dos testemunhos, ... da escassez de dados, o que torna difícil que entre si se comparem, e da falta de relação entre eles, o que torna difícil que através deles se descubram outros ainda ocultos. Ora, em casos de crime, os dados tendem a ser duvidosos, escassos, mal relacionados. Quem comete um crime, salvo se for um crime brusco, de paixão ou loucura, procura deixar o menor número possível de pistas... Daí a escassez de dados, e, em virtude dessa escassez, a falta de relação entre eles, pois entre o que é em pequeno número, as relações têm necessariamente de ser em pequeno número também. Finalmente, em caso de crime, tendem a abundar as razões para haver testemunhos duvidosos. O carácter secreto do crime contribui para [que] o que dele se observa seja imperfeitamente observado; o carácter interessante do crime tende a produzir testemunhos de natureza involuntariamente conjectural, pelos elementos e motivos que sugere... É nesta altura, que, como último recurso lógico, temos que apelar para o raciocínio abstracto. O raciocínio abstracto emprega um ou mais de três processos — o processo psicológico, o processo hipotético e o processo histórico. O processo psicológico é um simples desenvolvimento da acção do raciocínio concreto — consiste em aprofundar a analogia dos dados, não para se saber qual foi a natureza do acontecimento, mas qual foi o estado mental que produziu, ou os estados mentais que produziram esse acontecimento. Certa testemunha diz que certo facto se deu às quatro horas da tarde; outra diz que se deu às quatro horas e meia. O raciocínio concreto procura determinar a qual dessas horas se deu o acontecimento, ou mais profundamente, a que horas se deu, pois pode acontecer não ter sido a nenhuma daquelas. O raciocínio abstracto procura, sabido que uma ou ambas as testemunhas estão erradas, saber por que é que errou ou erraram. O caso pode não ter importância, e daí, pode tê-la. O processo hipotético consiste em, baseando-nos nos poucos factos, ou até dados, que temos, formular uma hipótese do que poderia ter sucedido. Se a comparação de factos ou dados, ou a ausência de novos factos que necessariamente existiram se a hipótese correspondesse à realidade, dão a hipótese por insustentável, então formula-se uma outra hipótese, guiando-nos, sendo possível, pelos lapsos manifestos da primeira; e assim sucessivamente, até chegarmos a uma hipótese que explique os factos conhecidos, e evoque factos verificáveis por conhecer, isto até termos de desistir, por nenhuma das hipóteses que formulamos ser sustentável. Este processo parece mais imaginativo que intelectual, e antes pertencente à natureza do adivinhar que do investigar. Não é bem assim. O produto da imaginação está, por natureza, desapropriado na realidade; o produto da especulação hipotética está essencialmente apropriado nela. No primeiro caso a mente trabalha sem limites (ou sem limites estranhos à própria imaginação e à harmonia e coerência dos seus produtos em si mesmos); no segundo caso, trabalha com o limite dos dados ou factos, poucos que sejam, que lhes servem de fundamento. É este aliás um processo de investigação empregado frequentemente em ciência. Nas coisas, por natureza mais exactas, temos, desde que nos faltem elementos para a solução científica, que adoptar esse processo. Se tivermos duas equações com três incógnitas, não poderemos resolvê-las algebricamente — a não abdicarmos teremos que proceder por hipóteses, indo ao encontro da solução, como em todo o processo hipotético, por aproximações. O processo histórico é análogo ao hipotético, salvo que se serve de exemplos passados, em vez de exemplos conjecturais. Pode dar-se a circunstância de determinado acontecimento ter tais semelhanças com outro acontecimento da mesma ordem, de que há notícias históricas, que à luz do nosso conhecimento do anterior podemos formular, para a explicação do posterior, uma hipótese conjectural sim, como todas as hipóteses, mas não imaginativa. Isto não quer dizer que o processo histórico valha, por si e em si, mais que o hipotético. Um e outro são aproveitáveis e falíveis. O processo histórico parece ser de simples erudição, mas não é bem assim. O processo histórico exige, é claro, o conhecimento da história dos assuntos com os quais se compara aquele que se investiga, exactamente como o processo hipotético exige imaginação. Mas a simples erudição histórica não importa tanto como a maneira de a usar; assim como a simples imaginação importa menos que a maneira de a conduzir. É mister que vamos buscar um exemplo que tenha realmente analogia com o caso que investigamos, e essa analogia nem sempre é imediatamente visual, nem sempre nos pormenores, nem sempre nas pessoas; é às vezes nas causas ocultas, nos intuitos a decifrar, porque ela existe, e o importante é saber vê-la, através das diferenças, pois forçosamente estas existirão entre os dois casos. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 131. «O Caso Vargas». 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 (...) e ainda que em grande parte se deriva de nações, como Grécia e Roma, que precederam o cristianismo. Entre as frases que figuram, oficial e extra-oficialmente, na terminologia doutrinal do Estado Novo, há uma que merece especial reparo, não só porque não é clara, senão porque a sua origem pode ser suspeita. É a frase "civilização cristã". Diz-se que nos devemos governar e orientar conforme a "civilização cristã". Diz-se que espalhámos, nós os primeiros, por todo o mundo a "civilização cristã". Diz-se que o que à Europa cumpre é manter, acima de tudo, a "civilização cristã". O que se nos não diz, nem se nos disse, é o que se entende por "civilização cristã". Ora como a imprecisão verbal não é vício que possa legitimamente ser atribuído, quer ao Presidente do Conselho, quer aos que de mais perto o seguem e com ele laboram, e como todos eles, e acentuadamente o Ministro das Colónias, frequentemente usam daquela frase, convém perguntar que sentido ela comporta, ou se entende que deve comportar. Não é só que o problema em si mesmo é questão que importa resolver: é, mais, que, servindo essa frase frequentemente para definir o teor ou conteúdo da nossa acção imperial, importa sobremaneira esclarecer que conteúdo é esse, para que sobre ele nos não enganemos e contradigamos, estorvando ou confundindo a acção comum que se nos faz mister. A expressão civilização cristã pode significar a civilização criada pelos países cristãos, e, portanto, a civilização europeia presente, quer em Europa, quer fora dela. Sucede, porém, que essa civilização engloba elementos que não são cristãos, como sejam judeus (em toda a parte), maometanos, budistas, e, enfim, indivíduos de variadas religiões, incluindo religião nenhuma. Sucede, ainda, que grande parte dessa civilização, tal qual a tivemos, e muito mais como a temos, foi produzida por elementos que, como a ciência, nada têm que ver com cristianismo, ou por elementos que, como a cultura filosófica, mais têm sido opositores ou dissolventes do cristianismo que frutos dele. Sucede, finalmente, que a amplitude hodierna da nossa civilização, tanto pelos múltiplos e constantes contactos comerciais e culturais que estabeleceu, como pela universalidade de erudição que em si gerou, criou uma ampla consciência das diversidades religiosas, aprofundou as místicas e as dogmáticas das religiões estranhas, e chegou à conclusão de que o cristianismo, como quer que religiosamente se considere, é socialmente não mais que uma religião entre muitas. E, formada como esta a civilização de agora, todos esses espíritos religiosos colaboram nela, todas essas diversidades de crença e de moral nela se confundem e se precipitam. Deixa de ter sentido actual e real a expressão "civilização cristã". Teremos que dizer, ou "civilização europeia", tirando o nome do continente em que teve origem, material como espiritual; ou "civilização greco-romana", tirando o nome das duas pátrias em cujas lições se fundamentou; ou, mais pobremente, porém com menor risco de erro, "civilização moderna". O termo "civilização moderna", se se aplica com justeza à civilização que presentemente temos, deixa contudo de ter cabimento quando se queira transferi-lo à civilização que nós, portugueses, fomos os primeiros a espalhar pelo mundo; preciso lembrar [?] que a que espalhámos não era ainda esta; deixa de o ter, porventura, quanto à civilização que é nosso mister continuar espalhando. No primeiro caso, há que considerar que a civilização, como hoje a temos, não existia então como hoje existe; filha dos nossos descobrimentos, não poderia ser mãe deles. E, no segundo caso, tudo é duvidoso. Se, porém, por civilização cristã se entende um fenómeno religioso, a civilização distintiva do cristianismo, dando os seus componentes não-cristãos como seus simples hóspedes ou asilados, e os seus elementos não-cristãos como matéria religiosamente insignificativa, então há que perguntar ainda: que se entende por "cristianismo"? Entende-se simplesmente a moral universalista e fraternitária que está na base da moral cristã; ou entende-se definidamente a crença na divindade do Cristo; ou, mais dogmaticamente ainda, serve a frase somente de disfarce à ideia de "civilização católica"? s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 116. 2.º fragmento – Tipologia do crime e psicologia do criminoso Ora os crimes são de três espécies — crimes de temperamento, crimes de impulso e crimes de ocasião. São crimes de temperamento aqueles que não são suscitados por uma circunstância externa que os justifique — não direi moralmente, pois nada justifica o crime moralmente — mas intelectualmente; os crimes, quero dizer, que têm uma razão de ser em nada proporcional com eles. O homem que mata outro por motivo trivial, o homem que rouba sem necessidade flagrante de dinheiro ou podendo com um pouco mais de trabalho obter dinheiro por processos honestos — estes homens cometem crimes de temperamento. São crimes de impulso os que são suscitados por circunstâncias externas que, na ordem intelectual, os justificam. O homem que mata a mulher que o trai, o homem que rouba para arranjar um dinheiro que de modo algum poderia arranjar legitimamente, ou legitimamente com a urgência que um pagamento exige — estes homens cometem crimes de impulso. São crimes de ocasião aqueles em que o motivo não chega para justificar intelectualmente o crime, mas em que se dá uma circunstância externa que exerce sobre o indivíduo uma tal tentação, que ele lhe não pode resistir. Temos aqui, evidentemente, três graus de criminalidade latente. Sim, porque, até no criminoso de impulso tem de haver criminalidade latente. Entre os homens a quem as mulheres traem, poucos são, afinal, os que as matam; entre os homens a quem surge uma necessidade urgente de dinheiro, poucos são, afinal, os que o roubam. Há que haver, pois, no criminoso de impulso qualquer esboço do criminoso de temperamento. A diferença está em que a excitação externa tem que ser absolutamente forte — ou, em outras palavras, um motivo absolutamente compelente — para que o crime se realize. No criminoso de ocasião, já a predisposição tem de ser maior, pois, por definição, a excitação, ou circunstância externa, não tem força suficiente para suscitar, por assim dizer, normalmente ao crime. Temos que admitir, portanto, que o criminoso de ocasião é um criminoso de temperamento em que existe normalmente uma inibição da propensão criminosa, inibição esta que uma circunstância externa subitamente dissolve. Em outras palavras, o criminoso de ocasião é um criminoso de temperamento temperamentalmente inibido. Comecemos por investigar o que seja um criminoso de temperamento. Um criminoso é, em primeiro lugar, um anormal; o que é um anormal? um anormal é um ser que não procede habitualmente como os outros seres da sua espécie, e isto quer dizer que não é um ser como os outros da sua espécie, pois o procedimento habitual nasce daquilo que esse ser é. As funções da mente — ou as qualidades da alma, se assim se preferir dizer — são classificadas em três categorias distintas: o intelecto, a emoção e a vontade. Um anormal será, portanto, um indivíduo que, ou não pensa como os outros, ou não sente como os outros, ou não quer como os outros, quando não acumule mais que uma destas disparidades da norma. Ora a vida é essencialmente acção, e a acção procede da vontade. A vontade, por sua vez, é suscitada por uma emoção, pois a simples ideia, ou representação não produz vontade, senão através da emoção, que é a razão de ser da acção. Ora essas três funções da mente relacionam-se entre si da seguinte maneira: surge uma representação da ideia (intelecto); essa ideia produz uma emoção qualquer, essa emoção produz um acto, isto é, suscita um impulso da vontade, e o acto é simples ou completo, fraco ou forte, orientado neste ou naquele sentido, conforme a emoção que a representação suscitou. Isto, porém, desde que o intelecto, emoção e vontade funcionem normalmente. Como a vida é essencialmente acção, é pela vontade que pertencemos à vida, isto é, é pela vontade que estamos ligados aos outros — quase se poderia dizer, usando de uma frase paradoxal, que é pela vontade que somos outros. Pelo intelecto, que está no outro extremo, estamos o menos ligados aos outros; é nas nossas representações que somos mais nós, por isso mesmo que somos intransmissivelmente... A emoção está a meio caminho. Temos, assim, que o criminoso é essencialmente um débil da vontade, não da vontade funcional, como nela seria débil um neurasténico, mas da vontade essencial. Não é a força de vontade que está doente no criminoso, como está no neurasténico, é a própria estrutura da vontade que está afectada. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 134. «O Caso Vargas». 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 Escrevi, em princípios de 1928, um folheto com o mesmo título que o presente. Dou hoje esse escrito por não escrito; escrevo este para o substituir. Não quer isto dizer que repudie tudo quanto nele escrevi, ou que o repudie na essência. Parte do que lá está, está aqui também e ainda. O por que o dou por não feito é que, em suas linhas gerais, estuda mal o assunto, e nas particulares o expõe mal. O título, disse, é o mesmo em um e outro; uso dele porém com diferente propósito. Quando escrevi o outro folheto, em fins de 1927, estávamos ainda longe do Estado Novo e da Nova Constituição, embora já perto, sem que o soubéssemos, da vinda e primeira fase de Salazar. Havia de facto interregno, isto é, a Ditadura era, propriamente, uma ditadura de interregno. Com a votação da Nova Constituição estamos já num regime: o Interregno cessou. Nada importaria, ou importa, o julgar mau o Estado Novo. Existe. O interregno cessou. Parece, pois, que este folheto deveria ter outro título. Sucede, porém, que nele me proponho estudar as causas do 28 de Maio, o tipo de revolução em que se enquadra, e as suas consequências, hoje visíveis, no mesmo Estado Novo. Girando portanto à roda do que se estava obscuramente, e depois claramente, elaborando no interregno 1926-1932 /?/, posso manter o título, porque é verdadeiro. Acresce que não me proponho discutir a Nova Constituição ou o Estado Corporativo; a ambos aceito, por disciplina; de ambos discordo, porque não concordo. Poderia, talvez, intitular o folheto "O Interregno e as Suas Consequências". Creio porém que os títulos grandes não são títulos, porque são descrições, como os sonetos caudatos não são sonetos, porque têm dezassete versos. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 117. Uma Asa do Grifo D. JOÃO O SEGUNDO Braços cruzados, fita além do mar. Parece em promontório uma alta serra — O limite da terra a dominar O mar que possa haver além da terra. Seu formidável vulto solitário Enche de estar presente o mar e o céu. E parece temer o mundo vário Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu. 26-9-1928 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 50. O homem, como aliás todos os animais, tem uma vida psíquica ou mental composta de dois elementos opostos — aquele elemento, vulgarmente resumido na expressão «os sentidos», pela qual entra em contacto com o mundo chamado externo, dele toma conhecimento, e com ele se relaciona; e aquele outro elemento que vai desde a consciência de si à inteligência abstracta, pelo qual entra em contacto com o mundo a que podemos chamar interno — o mundo das suas imaginações, das suas ideias, do seu ser, como o pensa e o sente. Ambos estes elementos são necessários à vida do homem, e ambos eles são necessários em igual porção, isto é, funcionando com igual intensidade, pois, se assim não for, produz-se um desequilíbrio. Para, porém, haver equilíbrio entre duas coisas, é preciso que entre elas haja uma relação. Para que dois corpos se equilibrem nos dois pratos da balança, é preciso que haja a balança. E isto quer dizer que, no fundo, na realidade, a vida psíquica do homem se compõe, não só dos dois elementos que primeiramente se notam, mas de três — esses e um terceiro a que chamaremos o sentido da relação. Ora qualquer elemento constitutivo da pessoa humana, ou animal até, é susceptível de existir em graus vários, dos quais os graus médios, embora sejam infinitos, constituem a chamada «normalidade», e os graus acima e abaixo desse, a «anormalidade», a doença, a morbidez. Isto é verdade tanto no corpo como no espírito, com a diferença que no corpo, que é um composto complicadíssimo, temos variadíssimos elementos a considerar, ao passo que na mente, ou espírito, basta que consideremos, dada a simplicidade da sua constituição, os três elementos que a compõem e definem — o sentido objectivo, o sentido subjectivo e o sentido relacional. Como, por natureza, o sentido objectivo e o subjectivo são opostos, segue que uma exaltação mórbida de um se manifesta, inversa e paralelamente, por uma depressão mórbida no outro, ou vice-versa. O fenómeno é um só — opera em sentidos opostos, nos termos opostos da composição psíquica. O sentido relacional, porém, visto que existe, também é susceptível de doença ou anormalidade; como existe para relacionar os outros dois, o resultado da sua doença será uma perturbação das relações entre o sentido objectivo e o subjectivo, sem que necessariamente haja exaltação de um ou de outro, e correspondente depressão ou exaltação em contrário, a não ser que esse desequilíbrio exista independentemente da doença do sentido de relação. Temos, assim, quatro tipos mórbidos do homem. O primeiro, em que se exalta o sentido objectivo e o subjectivo correspondente se deprime; o segundo, em que se exalta o sentido subjectivo e o objectivo correspondentemente se deprime; o terceiro, em que o sentido de relação se exalta; o quarto em que o sentido de relação se deprime. O primeiro, que é normal nos animais, em quem o sentido objectivo supera em muito o subjectivo, é, quando se dá no homem, o idiota ou o imbecil. O segundo é o louco, que é essencialmente a criatura cuja vida subjectiva se exalta, a ponto de ele perder a noção objectiva das coisas. O terceiro é o homem de génio, que o génio a meu ver, e por este raciocínio, é a exaltação mórbida do sentido de relação, exaltação mórbida que tem o curioso efeito de produzir um excesso de equilíbrio, uma doença de lucidez só lucidez. O quarto, enfim, é o criminoso. O criminoso, direi então, é um idiota relacional. O criminoso não é o louco, embora possa ser louco, pois, como disse, pode coexistir uma doença do sentido de relação com uma doença dos sentidos objectivo e subjectivo. O criminoso não é o idiota mental, embora, pelo mesmo motivo que no outro caso, possa ser idiota mental. O criminoso raríssimas vezes, se alguma, poderá ser um homem de génio, no verdadeiro sentido deste termo, pois, como expus, o crime se baseia precisamente no fenómeno mental contrário de aquilo em que se baseia o génio. O que pode haver é momentos, fenómenos ocasionais, de depressão do sentido de relação, como os pode haver no homem normal. Creio, aliás, que o único caso onde se possa encontrar qualquer coisa parecida com a conjugação do génio autêntico e do crime, é em Benvenuto Cellini. Ora todos estes fenómenos que descrevi podem ser orgânicos ou episódicos. Certas circunstâncias de educação, de meio, e outras mais ocasionais em muito menor grau, podem, até certo ponto, fazer do homem, que salvo elas seria normal, um imbecil. Certas circunstancias, já mais fáceis de produzir, podem fazer de um homem normal um louco. Outras circunstâncias, como certos estimulantes, certos momentos de exaltação espiritual, e outras assim, podem produzir num cérebro não genial faíscas do que, se fosse constante, seria génio. Tal homem, naturalmente normal, e portanto banal, mas inteligente, terá um momento em que escreve um soneto que fica, único dele, numa antologia. Tal outro — e isto é mais vulgar — terá um dito de espírito que mais vulgarmente atribuiríamos a um espírito realmente genial. O dito de espírito é, até, um dos exemplos curiosos do raro fenómeno do génio ocasional — e é de notar quantas vezes nasce do estímulo da sociedade, do vinho, e de outros assim. Do mesmo modo, como todos sabemos, há circunstâncias ocasionais que podem fazer do homem, que diríamos normal e que de facto o é, um criminoso. Tal homem, normalmente moral mas fraco, praticará um desfalque sobre a pressão de circunstâncias desvairantes e da oportunidade traiçoeira. Tal outro, não menos normal, matará a mulher num acesso de raiva contra uma traição. Estes casos, não sendo inteiramente raros, são-no todavia mais do que julgamos. Em muitos casos de crime aparentemente ocasional, encontramos, se procurarmos bem, um fundo de anormalidade, talvez vago, talvez escasso, mas que certa circunstância ocasional violenta conseguiu erguer à superfície. O que distingue, contudo, e a todos será evidente, o criminoso-nato (chamemos-lhe assim) do criminoso ocasional, embora neste haja um vago fundo mórbido, é uma de três coisas: a desproporção entre o estímulo e a reacção criminosa; a reincidência constante no crime; e a premeditação. O crime, porém ocasional ou não, é sempre crime. Como, porém, tanto o crime ocasional (precisamente por ser ocasional, mostra mais claramente e mais destacadamente, visto que se dá sobre um fundo não criminoso ou pouco criminoso, a mecânica do crime) como o homem normal, ou quase normal (em que se dá) nos mais compreensíveis que o anormal, a melhor maneira de estudarmos a mecânica do crime, e, derivadamente, a alma do criminoso, é fazermos uma análise de como surge, numa alma normal ou quase, o impulso realizado ou tentado para o crime. A desproporção entre o estímulo e a reacção criminosa é característica do criminoso louco, isto é, ou do louco que se torna criminoso, ou do criminoso em que há um elemento concomitante de loucura. A constância na prática do crime é característica do criminoso idiota, ou do idiota malévolo, tipo diferente, ou do criminoso em que há um elemento concomitante de inferioridade mental. É no crime com premeditação que surge o exemplo perfeito, direi, até, o exemplo puro do criminoso. Como neste tipo de criminoso se não alia à sua idiotia relacional nenhum fenómeno rnórbido proveniente dos sentidos antagónicos, e seu desequilíbrio próprio, como deste tipo de criminoso deriva a doença que o faz criminoso, exclusivamente de uma perturbação do sentido de relação, não havemos de estranhar que haja crimes de relação em que há qualquer vaga coisa que parece génio. É que em toda a doença há qualquer coisa de esboçadamente pendular — no génio a frequente insociabilidade, que é a mesma coisa, salvo que em menor grau, que a base do crime; no criminoso premeditado a exaltação e clareza de organização que por vezes o converte num verdadeiro estratégico, se bem que num campo limitado. E, a propósito mas entre parênteses: mais tarde terei que tratar do estratégico mais detalhadamente. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 135. «O Caso Vargas». 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 Em muitas matérias, e particularmente naquelas, entre as quais figura a política, que têm contacto com o amplo público, as palavras costumam servir para significar outra coisa. Quer isto dizer que as palavras passam a ter ordinariamente um sentido, ou até mais do que um, que ninguém poderia desprevenidamente deduzir da etimologia, ou sequer da significação corrente, dessas palavras. Uma dessas palavras é nacionalismo; liberalismo é outra. A tal ponto se desviaram, no uso e significação corrente, do uso e significação que legitimamente lhes caberia, que passaram a ser tidas como significando coisas opostas, quando, visto que se reportam a coisas inteiramente díspares, não pode haver entre elas, ou o que significam, qualquer coisa que se pareça com oposição. Por nacionalismo legitimamente se entende um patriotismo que, excedendo o simples patriotismo instintivo e natural de amar a terra onde se nasceu, e a defender por manifestações externas como a palavra e o combate, a procura defender intelectualmente contra a invasão de estrangeirismos que lhe pervertam a índole ou de internacionalismos que lhe diminuam a personalidade. Por liberalismo legitimamente se entende aquele critério das relações sociais pelo qual cada homem é considerado como livre para pensar o que quiser e para o exprimir como quiser ou pôr em acção como entender, com o único limite de que essa acção não tolha directamente os iguais direitos dos outros à mesma liberdade. Como é de ver, estes dois conceitos — nacionalismo e liberalismo — em nada se opõem, em nada se podem opor, um ao outro. O primeiro gira em torno do conceito de Nação — não, note-se bem, de Estado —; o segundo gira em torno do conceito de indivíduo — não, note-se bem, de cidadão. E assim é que o nacionalismo pode ser liberal ou anti-liberal, o liberalismo nacionalista ou anti-nacionalista. Conquanto, porém, nada haja entre estes dois conceitos, pelo qual eles entre si intrinsecamente se possam relacionar, sucede todavia que têm extrinsecamente dois pontos comuns. Em ambos casos se trata da valorização de qualquer coisa; em ambos casos se trata da defesa de qualquer coisa. Os dois conceitos têm pois ainda que em campos diferentes, o mesmo ritmo ou tipo de vibração. O nacionalismo procura a valorização da Nação; o liberalismo procura a valorização do Indivíduo. O nacionalismo busca defender a Nação das influências que a podem desintegrar; o liberalismo busca defender o Indivíduo das influências que o podem diminuir. E assim como o nacionalismo se opõe ao separatismo (ou regionalismo separatista) ao estrangeirismo e ao internacionalismo, assim também o liberalismo se opõe às incursões que sobre o indivíduo podem exercer as influências anti-individuais — a família, a classe, o Estado. Esta comunidade do que chamámos ritmo de vibração pode ligar, e efectivamente liga, extrinsecamente, os dois conceitos. Uma nação é composta de indivíduos, pois que o indivíduo é a única entidade fisicamente real que humanamente existe, visto que nem a família, nem a classe, nem o Estado, têm cabeça, nem sequer pés. De sorte que a valorização do indivíduo envolve necessariamente a valorização da nação; e a valorização da nação, por seus reflexos dinâmicos sobre o indivíduo, paralela e semelhantemente implica a valorização deste. Cumpre, chegados aqui, que façamos uma distinção clara e escrupulosa entre Nação e Estado. Se o pensar claramente fosse uma natural disposição humana, não haveria sequer que pensar em estabelecer tal distinção. Infelizmente a clareza do pensamento, assim como a perspicuidade na expressão dele, são, ao que parece, produtos de espécie aristocrática, embora, felizmente, não intransmissíveis ao amplo público. A Nação é uma entidade natural, com raízes no passado, e, poder-se-ia acrescentar, em linguagem paradoxa mas justa, com raízes também no futuro. O Estado é fenómeno puramente do presente, tanto que se projecta em, e se consubstancia com, o Governo que esteja, de momento, de posse da actividade desse Estado. De posse da Nação ninguém pode estar, pois não há redes, ministeriais ou outras, com as quais se pesque o impalpável. A valorização do Estado, longe de se reflectir em o indivíduo ou a nação, valorizando-os, reflecte-se neles somente para os diminuir. A frase, ou bordão, de Mussolini, Tudo pelo Estado, nada contra o Estado tem a vantagem de ser perfeitamente clara. Diz o que diz. Com ela sabemos onde estamos, embora não queiramos lá estar. A frase portuguesa imitada, Tudo pela Nação, nada contra a Nação , ou quer dizer, velando-se, a mesma coisa que a frase de Mussolini; ou, se quer dizer outra coisa, não quer dizer coisa alguma. Está no mesmo caso que a expressão civilização cristã, à que ninguém ainda conseguiu descobrir qualquer espécie de sentido. O Estado é simplesmente a maneira de a Nação se administrar: rigorosamente, não é uma coisa, mas um processo. Se compararmos — o que nem sempre é válido ou útil — uma nação a um indivíduo, diremos que o Estado é para a Nação o que, no indivíduo, (...). Apareceram recentemente à superfície da terra social uns animais chamados directrizes. Definindo mal e depressa, esta palavra quer dizer que qualquer de nós tem que pensar pela cabeça de outra pessoa. Tal intimava-o ou imposição não pode fazê-la ou pretender fazê-la senão o Estado ou quem nele manda, pois a Nação não se exprime através do Estado mas através dos indivíduos, e mormente através dos homens de génio, que são a concentração individual das forças íntimas da Nação. Ora os homens de génio não impõem directrizes: são-as. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 118. (1) Tipo de inibição: (a) receio (não), (b) moral (não), (c) fraqueza de vontade (sim). (2) Fraqueza de vontade: (a) da vontade de impulso (sim), (b) da vontade de inibição (não), (c) da vontade de coordenação (não) — disposições às avessas destas (isto é, b, c, a). (3) Fraqueza da vontade do impulso: (a) por debilidade mórbida, como no idiota ou imbecil, no louco deprimido e no inferior mental; (b) por debilidade constitucional, como no vadio (este capaz de impulsos súbitos, mas não de impulsividade contínua, e menos capaz de vontade coordenada do que qualquer outro); (c) por excesso de actividade mental (em que esta deficiência liga com a presença de vontade de coordenação, falhando esta apenas se não há uma emoção forte que forneça um elemento impulso por trás). O raciocínio elimina (a) e (b); subsiste (c). (4) Que espécie de actividade mental é que produz a falta de vontade de impulso? Há três: (a) o temperamento imaginativo e especulativo (este incapaz de um esforço de coordenação ainda mais que de um esforço de impulso, e análogo por isso ao vadio, supra); (b) o temperamento artístico e literário, em que a vontade é virada para dentro (cf. Leonardo da Vinci) (Hamlet); (c) o temperamento simplesmente concentrado. Estes variam em que (a) não age senão ocasionalmente em coisas quotidianas e mínimas, em que o esforço é quase nulo, ou ao sabor de entusiasmos factícios; (b) ou age perfeitamente só para dentro, em obras literárias e artísticas, gastando nelas a sua vaga impulsividade, e a sua vontade coordenadora, desistindo até frequentemente nelas pelo excesso de escrúpulo estético ou racional; (c) só age quando uma ideia única, que se apoderou poderosamente do espírito chegou à maturação e, mesmo assim, quase sempre, se não sempre, só quando uma circunstância externa expõe ao próprio essa maturação. (a) É um disperso por natureza, (b) um concentrador, (c) um concentrado. (5) Tipos de concentração: O que é concentração? A fixação de todas as forças do espírito em torno de um elemento……… Há a concentração em torno (a) de uma ideia, (b) de uma emoção, (c) de um propósito. A primeira é a do indivíduo que medita determinada coisa, que só a realiza se uma oportunidade flagrante se oferece, dado que lhe falta a vontade... A segunda é a do indivíduo que sente intensamente determinada coisa, que só realiza se lhe aparece uma oportunidade que, primeiro, esclareça bem para ele mesmo o que ele sente, segundo, mova fortemente a vontade, passando-a para a categoria do concentrado do tipo (a). A terceira é a do indivíduo que tem um propósito firme, para o qual procura oportunidade. No caso presente, trata-se manifestamente do caso (b). (6) Tipos de concentração emotiva: (a) pela emoção atractiva (como a de querer uma mulher), (b) pela atracção repulsiva (como a de odiar alguém), pela emoção abstracta ou intelectual, que não pertence a nenhuma destas categorias, envolvendo as de um sentimento religioso ou misticismo político, etc. Trata-se, neste caso, de (b). (7) Tipos de emoção repulsiva: (a) ofensiva, (b) defensiva, (c) combinação das duas (como quando se quer atacar um indivíduo para tomar posições). Aqui (b). (8) Tipos de emoção defensiva: (a) habitual, isto é, paranóia (excluída neste caso); (b) ocasional (excluída neste caso pela premeditação, etc.); (c) mistura das duas, tendo a intensidade da habitual e a impulsividade (?) da ocasional. O temperamento de (c) tem pois analogia com o temperamento do paranóico no fundo, com o ocasional na superfície. É um paranóico inteiramente lúcido, isto é, tem todos os característicos da paranóia, menos o delírio central, que de facto constitui a paranóia. (Se me é permitido usar de um paradoxo, direi, em conclusão desta série de raciocínios, que o autor deste crime é um paranóico com juízo.) s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 139. «O Caso Vargas». 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 Tomemos para exemplo o caso de um adversário da situação, o Prof. Afonso Costa. Este homem foi o único que cumpriu integralmente, no Governo Provisório, o que prometera na propaganda. Prometeu a lei do Divórcio: fê-la. Prometeu a Lei da Família [?]: fê-la. Prometeu a Lei [...]: fê-la. se as fez bem ou mal, do ponto de vista jurídico, não sei, porque não sou jurista. Sei que prometeu e cumpriu. Não sou, evidentemente, seu correligionário, mas não consigo ser seu inimigo. Nego-lhe o meu apoio; não posso negar-lhe o meu respeito. Sigo o exemplo do Prof. Salazar: política de verdade. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 119. A demonstração de que o soldado é um histero-epiléptico ocasional: (1) O homem é um animal histérico, mas pouco histérico na normalidade. (2) Como histérico é sugestionável, mas, para dar consequências graves, a sugestão precisa ser fortíssima. (3) Na guerra a sugestão é fortíssima porque é colectiva e intensa. (4) A natureza da sugestão guerreira é de ser (a) violenta, (b) contrária à moral vulgar, (c) obnubiladora das inibições normais. A sugestão é portanto epileptóide. Se, pois, o soldado, assassino ocasional, é um histérico-epiléptico ocasional, deduz-se que o assassino-nato é um histero-epiléptico-nato, e que a histero-epilepsia é um fenómeno mental que define a tendência para matar. Para matar há que haver (a) a histero-epilepsia, (b) uma sugestão externa bastante forte para a tornar activa pelo assassínio. (O caso do criminoso passional é intermédio entre o do soldado e o do criminoso-nato.) (Só não pode matar o homem que é incapaz de matar uma galinha — o que tem horror ao derramamento de sangue, ao rasgamento da carne, como o budista, e uma ou outra alma humana nas suas emoções.) s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 140. «O Caso Vargas». 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 The very confused political situation in Spain can be only approximately understood. It cannot be clearly seen within Spain itself, and the extraordinarily divergent statements of Spanish politicians and "intellectuals" prove that abundantly. The confusion of the country is reflected in the minds of those who would explain it; and it certainly is, to some extent, a product of those very minds. But, if we cannot see clear in Spain within Spain, neither is there any chance of a clear understanding of the situation in such countries as Britain or France — to speak of no others -, in which there is an organic ignorance of Spanish conditions and a temperamental unfitness for the understanding of the Spanish mind. Perhaps here from Portugal, which is neither Spain, for in any respect far from Spain, an intermediate, and therefore a relatively clear, vision may to obtained. The present situation in Spain presents a striking analogy with the situation in Portugal in 1910, on the verge of the Republic, which was proclaimed on the 5th of October. But the differences are as striking as the resemblances. As in Portugal then, the monarchy is generally discredited. As in Portugal then, the mass of the population is indifferent to politics, and therefore conservative, and therefore implicitly royalist. As in Portugal then, the only active force in the country is the Republican force; it is a minority, as it was in Portugal, but it is an active minority confronting a passive majority. And, as that active minority overthrew the monarchy in Portugal, there is no assurance at all that the Spanish Republicans will not overthrow the monarchy in Spain. In all countries with an ingrained "constitutional" habit, like Britain, there is a natural disposition to reckon realities on the terms of votes, and to base results on numbers. This is not true anywhere, and it is strikingly false in revolutionary periods. No revolution ever comes out of the heart of a country; no monarchy ever fell with universal or even majority applause. A revolution comes out of a weakening of social cohesion, of a confusion or national ideas, and of the direct action of a minority — of a very small minority — which the majority, however large, is neither organised, nor perhaps even disposed, to resist. The Portuguese Monarchy was overthrown by two regiments, two cruisers and a handful or civilians. The Portuguese Revolution, which no one expected, was caused by the shooting of a Republican leader, Prof. Bombarda, director of the Lisbon Lunatic Asylum, by a madman — an act which no one connected or thought of connecting, with politics. Out of such minorities, and of such absurdities, does triumph emerge. And the Republic thus formed has withstood Royalists risings, which, in one case, involved all the regiments in the North of the country. These are the striking resemblances between present Spain and 1910 Portugal. Yet the differences are no less striking. Though the republican currents are the only really active ones in Spain today, yet they are not gathered into one; in Portugal then the Republican Party presented a united front, and the Socialists and Anarchists which it included — though they aimed individually at more than a Republic — did not at the time think of anything further than just overthrowing the Monarchy. They were thus not only active but cohesively active. The same cannot be said of the present Republican currents in Spain: the mental disorganisation of the country has penetrated everywhere: ideas are unfocussed and there is a consequent dispersion of purposes. This may impair the proclamation, or at least the speedy proclamation, or the Republic, which, nevertheless, everybody in Spain seems to think inevitable. And it is to be desired — if desiring means anything — that a Republic should indeed not be proclaimed in such conditions: it is hardly to be desired that a virtual anarchy should come into reality. Another difference between the two nations and periods, lies in the fact that, whereas no one hated King Manuel in Portugal, the Spanish Republicans and a good number of monarchists do personally hate King Alfonso. The phenomenon was also known in Portugal, but with King Carlos; it is always a dreadful memory for us here in Portugal with what a general sigh of relief Lisbon greeted the news that King Carols had been assassinated. It is perhaps a shameful fact, but it is no less a fact for that. And so important is the personal factor in politics, especially when the person is a king, that there is no knowing to what degree this bitter hatred of the Head or the State may not fuse together the uncohesive radicals and neutralise any attempt to withstand them among those who are not Republicans. The third and most important difference — not now between 1910 Portugal and 1930 Spain, but between the two countries in themselves — lies in the fact that Portugal is a completely unified country, a country speaking from North to South, without dialects, the same language, a country so organically one that its cohesive spirit has passed on to Brazil, which, though so large, has not fallen apart into several republics, Now Spain, far from being a unified country, is not even, in the proper sense of the word, a country at all. It is, at the least, four countries — what is generally called "Spain" within Spain (that is to say, Castile and the other provinces where Spanish is the language, though highly dialectal in some of them), Catalonia, the Basque Provinces and Galicia. These four countries speak different languages. In two cases — Catalan and Basque — the language diverge more from Spanish than does Portuguese, which anyone who reads Spanish can read without learning it, whereas that does not apply to the other two cases; in the third case, Galician, the differences are almost the same as with Portuguese, Galician being, as a matter of fact, an undeveloped Portuguese. The primary cause of the failure of the Spanish dictatorship lies outside any matter of politics or administration. It was, so to speak, a personal matter. The Spanish Dictatorship had no outstanding personality, no distinctive man. There was no Mussolini, as in Italy, no Salazar, as in Portugal now. Primo de Rivera was outstanding politically; he was not outstanding personally. It is the latter distinctiveness that is really important: Salazar is the man with the greatest prestige to-day in Portugal, he is the man who has held together, though a civilian, the Portuguese Military Government, yet he is not the Head of the State, nor even of the Government, being simply the Minister of Finance. Personal prestige, always important in politics, is pre-eminently necessary in personal government of any kind. It is a mistake to suppose that personal prestige is logical; there is always some reason for it, as for everything, but that is not the reason that is generally attributed to it. Mussolini's prestige does not lie in his work for Italy, in his reforms, administrative and otherwise. In the first place the prestige preceded the work; in the second place, the public is always incompetent to appreciate administrative matters. The same happened with Salazar in Portugal: he established his prestige at once when he took office, by a single speech which was so different from the usual political speeches that the country took to him at once. And the public is incompetent to appreciate so deeply technical a thing as his financial reforms. Prestige is always non-technical; that is the long and the short of it. I have heard more than one Portuguese business man complain of the stress of present taxation in Portugal; I have heard him, a few minutes after, praise enthusiastically Salazar, that is to say, the man who had imposed that taxation. And he did not praise him on the score of considering such taxation necessary, or for any such practical reason: the praise and the groan were independent matters, wholly unconnected in the mind of the praising groaner. This is prestige, in all its force and in all its gleaming absurdity. Now it is this sort of prestige that attached to no man in the Spanish Dictatorship. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 120. De la Loi de Nature, représentée par Hiram on passe à la Loi humaine, représentée par Christian Rosencreutz, et ensuite à la Loi de Dieu, représentée par Jesus. Le relêvement rituel du candidat marque le premier passage, et l'instinct est la parole qu'il a perdue. L'ouverture du tombeau de C[hristian] R[osenkreutz] marque le deuxiême passage: en voyant le livre T, que le Second Maître serre contre la poitrine, on trouve enfim l'intuition, soit la parole dans son êtat humain, car l'intuition est l'instinct de l'intelligence, le mariage de ces deux dans des «noces chimiques» dont on a décrit ailleurs, en langage symbolique les grades, ou marches, magiques. La découverte, sans cherche ni difficulté, du tombeau de Jesus, ouvert et vide, marque le passage final, le mariage divin, celui de l'intuition avec la profondeur même de l'âme, l'union avec le Christ. Dans le premier grade de cette vraie initiation le candidat a la tâche de tuer (en soi) les trois assassins du Maître, les trois éléments qui s'opposent (en lui) à la Loi de Nature - le désir du superflu, la croyance à la science et l'impulsion de dominer (la volonté de pouvoir, de Nietzsche); ou, dans un langage plus simple, l'ambition, l'orgueil et la vanité. Cela, du reste, lui est déjá obscurément indiqué, au commencement même de sa vie initiatique, quand il est dépouillé de métaux. Il est dépouillé, techniquement, du fer (armes), de I'argent (qui est la monnaie qui achête) et de l'or (qui est la monnaie qui éblouit) - métaux régis, respectivement, par Mars, Lune et Soleil, significateurs de l'ambition, de la vanité et de l'orgueil. Quand les trois assassins sont tués dans l'âme de l'aspirant, il est prêt pour l'avancement. Dans le deuxiême grade de cette ascension vers Dieu, la tâche du candidat est de retrouver la parole. Pour cela il faut qu'il fasse trois choses: qu'il trouve oú est située Ia voûte mortuaire de C[hristian] R[osenkreutz], qu'il ouvre cette voûte, qu'il ouvre le tombeau et y voit le Maître Parfait, qui porte la Parole contre son sein - ce Livre T (Templi) qui en même temps complête et s'oppose au Livre M (Mundi). Il faut d'abord qu'il sache qu'il est en lui une voûte ou est logée son âme supérieure morte en ce monde. Il faut, ensuite, qu'il la trouve. Il faut, après, qu'il sache ouvrir cette voûte. Il faut, encore, qu'il sache regarder bien ce qu'il y voit. Il faut, finalement, qu'il sache ouvrir le tombeau du Maître et le voir dans la majesté de sa mort vive, incorruptible. Ce sont les cinq points parfais de la grande maîtrise, [les cinq pointes de l'étoile magique, les cinq pétales de la Rose crucifiée.] Par eux il est relevé de cette vie, qui n'est qu'une mort figurative. L'homme n'était pas destiné à être ce qu'il est: il n'est devenu tel que par la Chute. Retrouver la Parole c'est retrouver la vraie Loi Humaine, l'Adam primitif et androgyne, fait ainsi à l'image de Elohim. Faire en soi même le mariage des deux principes - c'est là la Loi Humaine retrouvée, la vraie création de la pierre philosophale. Hiram est l'Homme qui devrait être et sa Parole était cette destinée qui s'est perdue. Nous pourrons retrouver la Parole, non pas retrouver Hiram. Il est vraiment mort, et c'est là le peché originel; nous ne pourrons nous en défaire qu'en nous régénérant, soit en naissant à nouveau. Tel est le sens du mot «néophyte». s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 76. Investiguemos, disse o Dr. Quaresma, qual é a alma do assassino, ou seja, quais são os fenómenos de diferença do normal que se passam nessa alma e a fazem tal. Ora em todo o estudo do anormal seguiremos certos se partirmos do normal, porque este nos é conhecido. Pode parecer difícil partir do normal para o anormal, em geral, e em particular, partir da alma pacífica do homem vulgar para a alma do assassino. Mas não é assim. É fácil, e vulgar, induzir no homem normal o estado de loucura: basta embebedá-lo. É fácil, e vulgar, que se induza no homem normal o estado de homicídio: basta mandá-lo para a guerra. O bêbado procede como um louco, e o soldado procede como um assassino. Em ambos os casos a anormalidade é ocasional. Em ambos os casos a anormalidade é produzida por qualquer coisa externa ao indivíduo — o álcool num caso; a convenção e pressão social no outro. O que temos que estudar é isto: quais são exactamente os fenómenos, pelos quais a bebedeira se aparenta com a loucura? Quais são exactamente os fenómenos pelos quais o soldado se converte no homicida? Conhecidos esses fenómenos, basta que os consideremos como permanentes, em vez de ocasionais, que lhes coloquemos as causas dentro, e não fora, do indivíduo, para termos um conhecimento seguro da alma do louco e da alma do assassino. Tomemos, para exemplo elucidativo, o caso da comparação da bebedeira com a loucura. A semelhança, postas de parte as diferenças externas, é absoluta: a mesma falta de domínio em si mesmo, a mesma emergência de tendências reprimidas, por essa falta de domínio, a mesma incoordenação de ideias, de emoções e movimentos, ou a falsa coordenação de umas ou de outras. Considere-se por um esforço mental que não é difícil essa bebedeira como permanente: tem-se, por intuição própria, pois todos nós nos embebedamos pelo menos uma vez, o conhecimento íntimo de como funciona a alma de um louco. E temos esse conhecimento nos seus pormenores essenciais — a quebra de inibição, a perturbação emotiva, a falta de relação exacta com o mundo externo. Consideremos, agora, o soldado. Por que mata o soldado?... por uma imposição de um impulso externo que lhe oblitera por completo todas as suas noções normais de respeito pela vida e pela lei; esse impulso externo pode ser a Pátria, o dever ou a simples submissão a uma convenção, mas o facto é que é, como o álcool que converteu o outro em louco, uma coisa vinda de fora. A guerra é um estado de loucura colectiva, mas nos seus resultados sobre o indivíduo, difere da bebedeira: a bebedeira dissolve-o, a guerra torna-o anormalmente lúcido, por uma abolição das inibições morais. O soldado é um possesso: funciona nele, e através dele, uma personalidade diferente, sem lei nem moral. O soldado é um possesso, ou um intoxicado, ou uma daquelas drogas que dão uma clareza fictícia ao espírito, uma lucidez que não deve haver perante a profusão da realidade. Direi, até, que não será errado afirmar que os grandes homens de acção são todos possessos, que a verdadeira e sã clareza está somente na investigação científica e no pensamento que se lhe segue — e é curioso que esses misteres mentais, quando continuadamente seguidos, tendem para entibiar a vontade, e indispor para a acção. Em certo modo, todos somos possessos, e a libertação abate-nos como a falta de droga com que nos intoxicávamos. Ora estes fenómenos que se dão no soldado, e pelos quais o homem normal se converte num assassino, têm uma semelhança acentuada com os fenómenos da hipnose, que é precisamente a intromissão num indivíduo de uma mentalidade alheia à dele. Ora os fenómenos da hipnose são sobretudo fáceis de se dar nos indivíduos chamados histéricos, isto é, nos indivíduos que sofrem da neuropsicose a que se chama histeria. Não faço grande caso da designação histeria. Podem chamar-lhe outra coisa qualquer, se quiserem. Mas existe sem dúvida nenhuma um estado nervoso de extrema mobilidade e instabilidade, em que uma sugestão exterior forte opera com uma facilidade notável, porque não encontra resistência, nem na inibição, nem numa fixidez qualquer temperamental. No caso do soldado, há a notar que o indivíduo normal não é histérico, mas a guerra histeriza-o (toda a gente é histerizável), e ao mesmo tempo sugestiona-o. No caso do assassino, temos que considerar, como no do louco em relação ao bêbado, que o impulso, em vez de externo, é interno. O assassino é pois um histérico sugestionado de dentro. Ora este «dentro» pode ser uma de três coisas — um impulso passional e ocasional; ou uma disposição íntima do temperamento; ou (chamo para isto a sua atenção!) uma formação mental-emotiva que cria dentro do indivíduo um ser sugestionador. No primeiro caso, temos o assassino passional, no sentido exacto do termo; quer dizer, o que assassina sob o impulso passional imediato, sem premeditação, por, como diz o povo, perder a cabeça. No segundo caso temos o assassino-nato, o indivíduo em que estão nativamente obliteradas as qualidades morais fundamentais. No terceiro caso temos um assassino a quem os psiquiatras e os criminologistas não têm prestado a devida atenção: o assassino por auto-sugestão prolongada. Se considerarmos, pois, que o assassino é um histérico superficial informado por um impulso epileptóide, teremos que todo o assassino é um histero-epiléptico. Nestas neuropsicoses mistas há, porém, que considerar uma coisa: é que é tão divergente a dosagem das duas neuropsicoses componentes que os histero-epilépticos — com outros mistos, os histeroneurasténicos — são de um grande número de classes e feitios. Temos, assim, três tipos de relação entre a epilepsia e a histeria nos três tipos de assassino. No assassino passional há uma tendência histérica, que, com a epileptização do momento, forma ocasionalmente a histero-epilepsia. No assassino temperamental há exactamente o contrário: há um fundo epiléptico que, com a histerização, por vezes pequena, do momento, forma a histero-epilepsia. No assassino meditado, a histero-epilepsia é radical e, por assim dizer, equilibrada. Não há histerização do momento, não há epileptização do momento: há uma acumulação lenta de impulsos externos, reprimidos na sua reacção imediata, ou de pensamentos que se tornam como impulsos externos. A mentalidade do assassino premeditador tem uma grande analogia com a mentalidade do estratégico. Todos os grandes generais tem sido epileptóides: isso é verificável nas suas biografias. Mas aqueles que têm sido, propriamente, grandes estratégicos, têm sido nitidamente histéricos também. Isto vê-se nos elementos surpreendentemente femininos que há em Frederico o Grande, de um modo escandaloso, e o temperamento de actor de Napoleão (tragediante! comediante! — lhe gritava o Papa). Mas dentro da histero-epilepsia propriamente dita, isto é, radical e equilibrada, podemos distinguir três tipos bem diferentes entre si. Ao tipo em que a epilepsia domina a histeria e por assim dizer, a colora. E ao tipo em que a tal ponto se equilibram, que produzem a impressão duma terceira coisa, como o azul e o amarelo, misturados, dão uma terceira coisa, chamada o verde. Neste crime, dadas as suas características de premeditação e de cuidado na execução, estamos perante um assassino que é um histero-epiléptico radical. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 141. «O Caso Vargas». 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 Desejo, pelo presente escrito, contraditar os princípios expostos no manifesto, um tanto ou quanto alfabético, que o Governo fez por leitura em 30 de Julho, assim como os fundamentos desses princípios, que se contém no relatório falado do Prof. Oliveira Salazar — bois depois do carro (ou hysteron-posteron, como se diz em retórica) na ordem temporal da exposição do Governo. Farei a contradição do modo mais breve e mais útil. Não perderei tempo nem lógica na análise do que o Governo diz. Porei a minha tese, e desenvolvê-la-ei logicamente: da sua prova sairá implícita a desprova da tese contrária, que a contida nos documentos de quem manda. Quero fazer duas advertências preliminares. A primeira é que não importa quem sou. Se eu argumentar, o meu argumento valerá como argumento, e não como meu. Para ter razão não há idoneidade senão a lógica, nem se exige, para se poder argumentar, bilhete de identidade. Escrevi, aliás, em tempos, um folheto defendendo e justificando a ditadura militar em Portugal. Serve isto de explicar que, ao pôr uma tese contrária à do Governo da Ditadura, não ponho uma tese contrária ao Governo da Ditadura. (Esquecia-me de dizer que mantenho o que dizia no folheto já citado.) A segunda advertência é de ordem mais para reparar. A tese do Prof. Salazar é um apanhado, aliás muito lúcido e lógico de princípios políticos já conhecidos — os da chamada "contra-revolução" ou seja os que distinguem e definem as doutrinas dos chamados integralistas. A minha tese, ao contrário, trará, em seu desenvolvimento, resultados de absoluta novidade. Tendo que expor coisas novas, e sendo o cérebro do público sempre um mau receptor, tenho a desvantagem — quase o dever — de que não serei compreendido. Ao público, ou a qualquer pessoa que pareça público não se pode dizer embora melhor senão o que ela já sabe, isto é, aquilo que é absolutamente inútil dizer-lhe. Ora, muito embora em outros campos do escrever eu cultive deliberadamente o inútil não tem essa agricultura cabimento nesta matéria. Peço por isso ao leitor que me releve o incómodo de lhe dizer o que ele não espera. Se este escrito lhe merecer atenção, peço que lhe mereça uma atenção inteligente. Sem esse esforço antinatural, não vale a pena ler o que se segue nem, lido, se poderá compreender. Posto isto, entro no assunto, que irei expondo em tantas breves partes ou divisões, quantas exijam a ordem dialéctica do argumento e a disposição da matéria. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 121. O MARINHEIRO DRAMA ESTÁTICO EM UM QUADRO A Carlos Franco Um quarto que é sem dúvida num castelo antigo. Do quarto vê-se que é circular. Ao centro ergue-se, sobre uma essa, um caixão com uma donzela, de branco. Quatro tochas aos cantos. À direita, quase em frente a quem imagina o quarto, há uma única janela, alta e estreita, dando para onde só se vê, entre dois montes longínquos, um pequeno espaço de mar. Do lado da janela velam três donzelas. A primeira está sentada em frente à janela, de costas contra a tocha de cima da direita. As outras duas estão sentadas uma de cada lado da janela. É noite e há como que um resto vago de luar. PRIMEIRA VELADORA — Ainda não deu hora nenhuma. SEGUNDA — Não se pode ouvir. Não há relógio aqui perto. Dentro em pouco deve ser dia. TERCEIRA — Não: o horizonte é negro. PRIMEIRA — Não desejais, minha irmã, que nos entretenhamos contando o que fomos? É belo e é sempre falso. .. SEGUNDA — Não, não falemos nisso. De resto, fomos nós alguma cousa? PRIMEIRA — Talvez. Eu não sei. Mas, ainda assim, sempre é belo falar do passado... As horas têm caído e nós temos guardado silêncio. Por mim, tenho estado a olhar para a chama daquela vela. Às vezes treme, outras torna-se mais amarela, outras vezes empalidece. Eu não sei por que é que isso se dá. Mas sabemos nós, minhas irmãs, por que se dá qualquer cousa?... (uma pausa) A MESMA — Falar do passado — isso deve ser belo, porque é inútil e faz tanta pena... SEGUNDA — Falemos, se quiserdes, de um passado que não tivéssemos tido. TERCEIRA — Não. Talvez o tivéssemos tido… PRIMEIRA — Não dizeis senão palavras. E tão triste falar! É um modo tão falso de nos esquecermos! ... Se passeássemos?... TERCEIRA — Onde? PRIMEIRA — Aqui, de um lado para o outro. As vezes isso vai buscar sonhos. TERCEIRA — De quê? PRIMEIRA — Não sei . Porque o havia eu de saber? (uma pausa) SEGUNDA — Todo este país é muito triste... Aquele onde eu vivi outrora era menos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada à minha janela. A janela dava para o mar e às vezes havia uma ilha ao longe... Muitas vezes eu não fiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. Não sei se era feliz. Já não tornarei a ser aquilo que talvez eu nunca fosse... PRIMEIRA — Fora de aqui, nunca vi o mar. Ali, daquela janela, que é a única de onde o mar se vê, vê-se tão pouco!... O mar de outras terras é belo? SEGUNDA — Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca... (uma pausa) PRIMEIRA — Não dizíamos nós que íamos contar o nosso passado? SEGUNDA — Não, não dizíamos. TERCEIRA — Por que não haverá relógio neste quarto? SEGUNDA — Não sei... Mas assim, sem o relógio, tudo é mais afastado e misterioso. A noite pertence mais a si própria... Quem sabe se nós poderíamos falar assim se soubéssemos a hora que é? PRIMEIRA — Minha irmã, em mim tudo é triste. Passo Dezembros na alma... Estou procurando não olhar para a janela.. Sei que de lá se vêem, ao longe, montes... Eu fui feliz para além de montes, outrora... Eu era pequenina. Colhia flores todo o dia e antes de adormecer pedia que não mas tirassem... Não sei o que isto tem de irreparável que me dá vontade de chorar... Foi longe daqui que isto pôde ser... Quando virá o dia?... TERCEIRA — Que importa? Ele vem sempre da mesma maneira... sempre, sempre, sempre... (uma pausa) SEGUNDA — Contemos contos umas às outras... Eu não sei contos nenhuns, mas isso não faz mal... Só viver é que faz mal... Não rocemos pela vida nem a orla das nossas vestes... Não, não vos levanteis. Isso seria um gesto, e cada gesto interrompe um sonho... Neste momento eu não tinha sonho nenhum, mas é-me suave pensar que o podia estar tendo... Mas o passado — por que não falamos nós dele? PRIMEIRA — Decidimos não o fazer... Breve raiará o dia e arrepender-nos-emos... Com a luz os sonhos adormecem... O passado não é senão um sonho... De resto, nem sei o que não é sonho. Se olho para o presente com muita atenção, parece-me que ele já passou... O que é qualquer cousa? Como é que ela passa? Como é por dentro o modo como ela passa?... Ah, falemos, minhas irmãs falemos alto, falemos todas juntas... O silêncio começa a tomar corpo, começa a ser cousa... Sinto-o envolver-me como uma névoa... Ah, falai, falai!... SEGUNDA — Para quê?... Fito-vos a ambas e não vos vejo logo... Parece-me que entre nós se aumentaram abismos... Tenho que cansar a ideia de que vos posso ver para poder chegar a ver-vos... Este ar quente é frio por dentro, naquela parte que toca na alma... Eu devia agora sentir mãos impossíveis passarem-me pelo cabelos — é o gesto com que falam das sereias... (Cruza as mãos sobre os joelhos. Pausa). Ainda há pouco, quando eu não pensava em nada, estava pensando no meu passado. PRIMEIRA — Eu também devia ter estado a pensar no meu... TERCEIRA — Eu já não sabia em que pensava... No passado dos outros talvez..., no passado de gente maravilhosa que nunca existiu... Ao pé da casa de minha mãe corria um riacho... Por que é que correria, e por que é que não correria mais longe, ou mais perto?... Há alguma razão para qualquer cousa ser o que é? Há para isso qualquer razão verdadeira e real como as minhas mãos?... SEGUNDA — As mãos não são verdadeiras nem reais... São mistérios que habitam na nossa vida... às vezes, quando fito as minhas mãos, tenho medo de Deus... Não há vento que mova as chamas das velas, e olhai, elas movem-se... Para onde se inclinam elas?... Que pena se alguém pudesse responder!... Sinto-me desejosa de ouvir músicas bárbaras que devem agora estar tocando em palácios de outros continentes... É sempre longe na minha alma... Talvez porque, quando criança, corri atrás das ondas à beira-mar. Levei a vida pela mão entre rochedos, maré-baixa, quando o mar parece ter cruzado as mãos sobre o peito e ter adormecido como uma estátua de anjo para que nunca mais ninguém olhasse... TERCEIRA — As vossas frases lembram-me a minha alma... SEGUNDA — É talvez por não serem verdadeiras... Mal sei que as digo... Repito-as seguindo uma voz que não ouço que mas está segredando... Mas eu devo ter vivido realmente à beira-mar... Sempre que uma cousa ondeia, eu amo-a... Há ondas na minha alma... Quando ando embalo-me... Agora eu gostaria de andar... Não o faço porque não vale nunca a pena fazer nada, sobretudo o que se quer fazer... Dos montes é que eu tenho medo... É impossível que eles sejam tão parados e grandes... Devem ter um segredo de pedra que se recusam a saber que têm... Se desta janela, debruçando-me, eu pudesse deixar de ver montes, debruçar-se-ia um momento da minha alma alguém em quem eu me sentisse feliz... PRIMEIRA — Por mim, amo os montes... Do lado de cá de todos os montes é que a vida é sempre feia... Do lado de lá, onde mora minha mãe, costumávamos sentarmo-nos à sombra dos tamarindos e falar de ir ver outras terras... Tudo ali era longo e feliz como o canto de duas aves, uma de cada lado do caminho... A floresta não tinha outras clareiras senão os nossos pensamentos... E os nossos sonhos eram de que as árvores projectassem no chão outra calma que não as suas sombras... Foi decerto assim que ali vivemos, eu e não sei se mais alguém... Dizei-me que isto foi verdade para que eu não tenha de chorar... SEGUNDA — Eu vivi entre rochedos e espreitava o mar... A orla da minha saia era fresca e salgada batendo nas minhas pernas nuas... Eu era pequena e bárbara... Hoje tenho medo de ter sido... O presente parece-me que durmo... Falai-me das fadas. Nunca ouvi falar delas a ninguém... O mar era grande de mais para fazer pensar nelas... Na vida aquece ser pequeno... Éreis feliz, minha irmã? PRIMEIRA — Começo neste momento a tê-lo sido outrora... De resto, tudo aquilo se passou na sombra... As árvores viveram -no mais do que eu... Nunca chegou nem eu mal esperava... E vós irmã, por que não falais? TERCEIRA — Tenho horror a de aqui a pouco vos ter já dito o que vos vou dizer. As minhas palavras presentes, mal eu as digo, pertencerão logo ao passado, ficarão fora de mim, não sei onde, rígidas e fatais... Falo, e penso nisto na minha garganta, e as minhas palavras parecem-me gente... Tenho um medo maior do que eu. Sinto na minha mão, não sei como, a chave de uma porta desconhecida. E toda eu sou um amuleto ou um sacrário que estivesse com consciência de si próprio. É por isto que me apavora ir, como por uma floresta escura, através do mistério de falar... E, afinal, quem sabe se eu sou assim e se é isto sem dúvida que sinto?... PRIMEIRA — Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em nós!... Mesmo viver sabe a custar tanto quando se dá por isso... Falai, portanto, sem reparardes que existis... Não nos íeis dizer quem éreis? TERCEIRA — O que eu era outrora já não se lembra de quem sou... Pobre da feliz que eu fui !... Eu vivi entre as sombras dos ramos, e tudo na minha alma é folhas que estremecem. Quando ando ao sol a minha sombra é fresca. Passei a fuga dos meus dias ao lado de fontes, onde eu molhava, quando sonhava de viver, as pontas tranquilas dos meus dedos... Às vezes, à beira dos lagos, debruçava-me e fitava-me... Quando eu sorria, os meus dentes eram misteriosos na água... Tinham um sorriso só deles, independente do meu... Era sempre sem razão que eu sorria... Falai-me da morte, do fim de tudo, para que eu sinta uma razão para recordar... PRIMEIRA — Não falemos de nada, de nada... Está mais frio, mas por que é que está mais frio? Não há razão para estar mais frio. Não é bem mais frio que está... Para que é que havemos de falar?... É melhor cantar, não sei porquê... O canto, quando a gente canta de noite, é uma pessoa alegre e sem medo que entra de repente no quarto e o aquece a consolar-nos... Eu podia cantar-vos uma canção que cantávamos em casa de meu passado. Por que é que não quereis que vo-la cante? TERCEIRA — Não vale a pena, minha irmã... quando alguém canta, eu não posso estar comigo. Tenho que não poder recordar-me. E depois todo o meu passado torna-se outro e eu choro uma vida morta que trago comigo e que não vivi nunca. É sempre tarde de mais para cantar, assim como é sempre tarde de mais para não cantar... (uma pausa) PRIMEIRA — Breve será dia... Guardemos silêncio... A vida assim o quer. Ao pé da minha casa natal havia um lago. Eu ia lá e assentava-me à beira dele, sobre um tronco de árvore que caíra quase dentro de água... Sentava-me na ponta e molhava na água os pés, esticando para baixo os dedos. Depois olhava excessivamente para as pontas dos pés, mas não era para os ver. Não sei porquê, mas parece-me deste lago que ele nunca existiu... Lembrar-me dele é como não me poder lembrar de nada... Quem sabe por que é que eu digo isto e se fui eu que vivi o que recordo?... SEGUNDA — À beira-mar somos tristes quando sonhamos... Não podemos ser o que queremos ser, porque o que queremos ser queremo-lo sempre ter sido no passado... Quando a onda se espalha e a espuma chia, parece que há mil vozes mínimas a falar. A espuma só parece ser fresca a quem a julga uma... Tudo é muito e nós não sabemos nada... Quereis que vos conte o que eu sonhava à beira-mar? PRIMEIRA — Podeis contá-lo, minha irmã; mas nada em nós tem necessidade de que no-lo conteis... Se é belo, tenho já pena de vir a tê-lo ouvido. E se não é belo, esperai..., contai-o só depois de o alterardes... SEGUNDA — Vou dizer-vo-lo. Não é inteiramente falso, porque sem dúvida nada é inteiramente falso. Deve ter sido assim... Um dia que eu dei por mim recostada no cimo frio de um rochedo, e que eu tinha esquecido que tinha pai e mãe e que houvera em mim infância e outros dias — nesse dia vi ao longe, como uma coisa que eu só pensasse em ver, a passagem vaga de uma vela. Depois ela cessou... Quando reparei para mim, vi que já tinha esse meu sonho... Não sei onde ele teve princípio.. . E nunca tornei a ver outra vela... Nenhuma das velas dos navios que saem aqui de um porto se parece com aquela, mesmo quando é lua e os navios passam longe devagar... PRIMEIRA — Vejo pela janela um navio ao longe. É talvez aquele que vistes... SEGUNDA — Não, minha irmã; esse que vedes busca sem dúvida um porto qualquer... Não podia ser que aquele que eu vi buscasse qualquer porto... PRIMEIRA — Por que é que me respondestes?... Pode ser. . Eu não vi navio nenhum pela janela... Desejava ver um e falei-vos dele para não ter pena... Contai-nos agora o que foi que sonhastes à beira-mar... SEGUNDA — Sonhava de um marinheiro que se houvesse perdido numa ilha longínqua. Nessa ilha havia palmeiras hirtas, poucas, e aves vagas passavam por elas... Não vi se alguma vez pousavam... Desde que, naufragado, se salvara, o marinheiro vivia ali... Como ele não tinha meio de voltar à pátria, e cada vez que se lembrava dela sofria, pôs-se a sonhar uma pátria que nunca tivesse tido: pôs-se a fazer ter sido sua uma outra pátria, uma outra espécie de país com outras espécies de paisagens, e outra gente, e outro feitio de passarem pelas ruas e de se debruçarem das janelas... Cada hora ele construía em sonho esta falsa pátria, e ele nunca deixava de sonhar, de dia à sombra curta das grandes palmeiras, que se recortava, orlada de bicos, no chão areento e quente; de noite, estendido na praia, de costas e não reparando nas estrelas. PRIMEIRA — Não ter havido uma árvore que mosqueasse sobre as minhas mãos estendidas a sombra de um sonho como esse!... TERCEIRA — Deixai-a falar... Não a interrompais... Ela conhece palavras que as sereias lhe ensinaram... Adormeço para a poder escutar... Dizei, minha irmã, dizei... Meu coração dói-me de não ter sido vós quando sonháveis à beira-mar... SEGUNDA — Durante anos e anos, dia a dia, o marinheiro erguia num sonho contínuo a sua nova terra natal... Todos os dias punha uma pedra de sonho nesse edifício impossível... Breve ele ia tendo um país que já tantas vezes havia percorrido. Milhares de horas lembrava-se já de ter passado ao longo de suas costas. Sabia de que cor soíam ser os crepúsculos numa baía do norte, e como era suave entrar, noite alta, e com a alma recostada no murmúrio da água que o navio abria, num grande porto do sul onde ele passara outrora, feliz talvez, das suas mocidades a suposta... (uma pausa) PRIMEIRA — Minha irmã, por que é que vos calais? SEGUNDA — Não se deve falar demasiado... A vida espreita-nos sempre... Toda a hora é materna para os sonhos, mas é preciso não o saber... Quando falo de mais começo a separar-me de mim e a ouvir-me falar. Isso faz com que me compadeça de mim própria e sinta demasiadamente o coração. Tenho então uma vontade lacrimosa de o ter nos braços para o poder embalar como a um filho... Vede: o horizonte empalideceu... O dia não pode já tardar... Será preciso que eu vos fale ainda mais do meu sonho? PRIMEIRA — Contai sempre, minha irmã, contai sempre... Não pareis de contar, nem repareis em que dias raiam... O dia nunca raia para quem encosta a cabeça no seio das horas sonhadas... Não torçais as mãos. Isso faz um ruído como o de uma serpente furtiva... Falai-nos muito mais do vosso sonho. Ele é tão verdadeiro que não tem sentido nenhum. Só pensar em ouvir-vos me toca música na alma… SEGUNDA –– Sim, falar-vos-ei mais dele. Mesmo eu preciso de vo-lo contar. À medida que o vou contando, é a mim também que o conto... São três a escutar... (De repente, olhando para o caixão, e estremecendo ). Três não... Não sei... Não sei quantas... TERCEIRA — Não faleis assim... Contai depressa, contai outra vez... Não faleis em quantos podem ouvir... Nós nunca sabemos quantas coisas realmente vivem e vêem e escutam... Voltai ao vosso sonho... O marinheiro. O que sonhava o marinheiro? SEGUNDA (mais baixo, numa voz muito lenta) — Ao princípio ele criou as paisagens, depois criou as cidades; criou depois as ruas e as travessas, uma a uma, cinzelando-as na matéria da sua alma — uma a uma as ruas, bairro a bairro, até às muralhas dos cais de onde ele criou depois os portos... Uma a uma as ruas, e a gente que as percorria e que olhava sobre elas das janelas... Passou a conhecer certa gente, como quem a reconhece apenas... Ia-lhes conhecendo as vidas passadas e as conversas, e tudo isto era como quem sonha apenas paisagens e as vai vendo... Depois viajava, recordando, através do país que criara... E assim foi construindo o seu passado... Breve tinha uma outra vida anterior... Tinha já, nessa nova pátria, um lugar onde nascera, os lugares onde passara a juventude, os portos onde embarcara... Ia tendo tido os companheiros da infância e depois os amigos e inimigos da sua idade viril... Tudo era diferente de como ele o tivera — nem o país, nem a gente, nem o seu passado próprio se pareciam com o que haviam sido... Exigis que eu continue?... Causa-me tanta pena falar disto!... Agora, porque vos falo disto, aprazia-me mais estar-vos falando de outros sonhos... TERCEIRA — Continuai, ainda que não saibais porquê... Quanto mais vos ouço, mais me não pertenço... PRIMEIRA — Será bom realmente que continueis? Deve qualquer história ter fim? Em todo o caso falai... Importa tão pouco o que dizemos ou não dizemos... Velamos as horas que passam... O nosso mister é inútil como a Vida... SEGUNDA — Um dia, que chovera muito, e o horizonte estava mais incerto, o marinheiro cansou-se de sonhar... Quis então recordar a sua pátria verdadeira..., mas viu que não se lembrava de nada, que ela não existia para ele... Meninice de que se lembrasse, era a na sua pátria de sonho; adolescência que recordasse, era aquela que se criara... Toda a sua vida tinha sido a sua vida que sonhara... E ele viu que não podia ser que outra vida tivesse existido... Se ele nem de uma rua, nem de uma figura, nem de um gesto materno se lembrava... E da vida que lhe parecia ter sonhado, tudo era real e tinha sido... Nem sequer podia sonhar outro passado, conceber que tivesse tido outro, como todos, um momento, podem crer... Ó minhas irmãs, minhas irmãs... Há qualquer coisa, que não sei o que é, que vos não disse... Qualquer coisa que explicaria isto tudo... A minha alma esfria-me... Mal sei se tenho estado a falar... Falai-me, gritai-me, para que eu acorde, para que eu saiba que estou aqui ante vós e que há coisas que são apenas sonhos... PRIMEIRA (numa voz muito baixa) — Não sei que vos diga... Não ouso olhar para as cousas... Esse sonho como continua?... SEGUNDA — Não sei como era o resto.... Mal sei como era o resto... Por que haverá mais?... PRIMEIRA — E o que aconteceu depois? SEGUNDA — Depois? Depois de quê? Depois é alguma cousa?... Veio um dia um barco... Veio um dia um barco... — Sim sim... só podia ter sido assim... — Veio um dia um barco, e passou por essa ilha, e não estava lá o marinheiro TERCEIRA — Talvez tivesse regressado à pátria... Mas a qual? PRIMEIRA — Sim, a qual? E o que teriam feito ao marinheiro? Sabê-lo-ia alguém? SEGUNDA — Por que é que mo perguntais? Há resposta para alguma coisa? (uma pausa) TERCEIRA — Será absolutamente necessário, mesmo dentro do vosso sonho, que tenha havido esse marinheiro e essa ilha? SEGUNDA — Não, minha irmã; nada é absolutamente necessário. PRIMEIRA — Ao menos, como acabou o sonho? SEGUNDA — Não acabou... Não sei... Nenhum sonho acaba... Sei eu ao certo se o não continuo sonhando, se o não sonho sem o saber, se o sonhá-lo não é esta coisa vaga a que eu chamo a minha vida?.. Não me faleis mais... Principio a estar certa de qualquer coisa, que não sei o que é... Avançam para mim, por uma noite que não é esta, os passos de um horror que desconheço... Quem teria eu ido despertar com o sonho meu que vos contei?... Tenho um medo disforme de que Deus tivesse proibido o meu sonho... Ele é sem dúvida mais real do que Deus permite... Não estejais silenciosas... Dizei-me ao menos que a noite vai passando, embora eu o saiba... Vede, começa a ir ser dia.. Vede: vai haver o dia real... Paremos... Não pensemos mais... Não tentemos seguir nesta aventura interior... Quem sabe o que está no fim dela?.... Tudo isto, minhas irmãs, passou-se na noite... Não falemos mais disto, nem a nós próprios... É humano e conveniente que tomemos, cada qual, a sua atitude de tristeza. TERCEIRA — Foi-me tão belo escutar-vos... Não digais que não... Bem sei que não valeu a pena... É por isso que o achei belo... Não foi por isso, mas deixai que eu o diga... De resto, a música da vossa voz, que escutei ainda mais que as vossas palavras, deixa-me, talvez só por ser música, descontente... SEGUNDA — Tudo deixa descontente, minha irmã... Os homens que pensam cansam-se de tudo, porque tudo muda. Os homens que passam provam-no, porque mudam com tudo... De eterno e belo há apenas o sonho... Por que estamos nós falando ainda?... PRIMEIRA — Não sei... (olhando para o caixão, em voz mais baixa) — Por que é que se morre? SEGUNDA — Talvez por não se sonhar bastante... PRIMEIRA — É possível... Não valeria então a pena fecharmo-nos no sonho e esquecer a vida, para que a morte nos esquecesse?... SEGUNDA — Não, minha irmã, nada vale a pena... TERCEIRA — Minhas irmãs, é já dia... Vede, a linha dos montes maravilha-se... Por que não choramos nós?... Aquela que finge estar ali era bela, e nova como nós, e sonhava também... Estou certa que o sonho dela era o mais belo de todos... Ela de que sonharia?... PRIMEIRA — Falai mais baixo. Ela escuta-nos talvez, e já sabe para que servem os sonhos... (uma pausa) SEGUNDA — Talvez nada disto seja verdade... Todo este silêncio, e esta morta, e este dia que começa não são talvez senão um sonho... Olhai bem para tudo isto... Parece-vos que pertence à vida?... PRIMEIRA — Não sei. Não sei como se é da vida... Ah, como vós estais parada! E os vossos olhos tão tristes, parece que o estão inutilmente... SEGUNDA — Não vale a pena estar triste de outra maneira... Não desejais que nos calemos? É tão estranho estar a viver... Tudo o que acontece é inacreditável, tanto na ilha do marinheiro como neste mundo... Vede, o céu é já verde... O horizonte sorri ouro... Sinto que me ardem os olhos, de eu ter pensado em chorar... PRIMEIRA — Chorastes, com efeito, minha irmã. SEGUNDA — Talvez... Não importa... Que frio é isto?... Ah, é agora... é agora!... Dizei-me isto... Dizei-me uma coisa ainda... Por que não será a única coisa real nisto tudo o marinheiro, e nós e tudo isto aqui apenas um sonho dele?... PRIMEIRA — Não faleis mais, não faleis mais... Isso é tão estranho que deve ser verdade. Não continueis... O que íeis dizer não sei o que é, mas deve ser de mais para a alma o poder ouvir… Tenho medo do que não chegastes a dizer... Vede, vede, é dia já… Vede o dia... Fazei tudo por reparardes só no dia, no dia real, ali fora... Vede-o, vede-o... Ele consola.. Não penseis, não olheis para o que pensais... Vede-o a vir, o dia... Ele brilha como ouro numa terra de prata. As leves nuvens arredondam-se à medida que se coloram.. Se nada existisse, minhas irmãs?... Se tudo fosse, qualquer modo, absolutamente coisa nenhuma?... Porque olhastes assim?... (Não lhe respondem. E ninguém olhara de nenhuma maneira.) A MESMA — Que foi que dissestes e que me apavorou?... Senti-o tanto que mal vi o que era... Dizei-me o que foi, para que eu, ouvindo-o segunda vez, já não tenha tanto medo como dantes... Não, não... Não digais nada... Não vos pergunto isto para que me respondais, mas para falar apenas, para me não deixar pensar... Tenho medo de me poder lembrar do que foi... Mas foi qualquer coisa de grande e pavoroso como o haver Deus... Devíamos já ter acabado de falar… Há tempo já que a nossa conversa perdeu o sentido... O que é entre nós que nos faz falar prolonga-se demasiadamente... Há mais presenças aqui do que as nossas almas.. O dia devia ter já raiado.. Deviam já ter acordado... Tarda qualquer coisa... Tarda tudo... O que é que se está dando nas coisas de acordo com o nosso horror?... Ah, não me abandoneis... Falai comigo, falai comigo... Falai ao mesmo tempo do que eu para não deixardes sozinha a minha voz... Tenho menos medo à minha voz do que à ideia da minha voz, dentro de mim, se for reparar que estou falando... TERCEIRA — Que voz é essa com que falais?... É de outra... Vem de uma espécie de longe... PRIMEIRA — Não sei... Não me lembreis isso... Eu devia estar falando com a voz aguda e tremida do medo... Mas já não sei como é que se fala... Entre mim e a minha voz abriu-se um abismo... Tudo isto, toda esta conversa e esta noite, e este medo — tudo isto devia ter acabado, devia ter acabado de repente, depois do horror que nos dissestes... Começo a sentir que o esqueço, a isso que dissestes, e que me fez pensar que eu devia gritar de uma maneira nova para exprimir um horror de aqueles... TERCEIRA (para a SEGUNDA) — Minha irmã, não nos devíeis ter contado essa história. Agora estranho-me viva com mais horror. Contáveis e eu tanto me distraía que ouvia o sentido das vossas palavras e o seu som separadamente. E parecia-me que vós, e a vossa voz, e o sentido do que dizíeis eram três entes diferentes, como três criaturas que falam e andam. SEGUNDA — São realmente três entes diferentes, com vida própria e real. Deus talvez saiba porquê... Ah, mas por que é que falamos? Quem é que nos faz continuar falando? Por que falo eu sem querer falar? Por que é que já não reparamos que é dia?... PRIMEIRA — Quem pudesse gritar para despertarmos! Estou a ouvir-me a gritar dentro de mim, mas já não sei o caminho da minha vontade para a minha garganta. Sinto uma necessidade feroz de ter medo de que alguém possa bater àquela porta. Por que não bate alguém à porta? Seria impossível e eu tenho necessidade de ter medo disso, de saber de que é que tenho medo... Que estranha que me sinto!... Parece-me já não ter a minha voz… Parte de mim adormeceu e ficou a ver... O meu pavor cresceu mas eu já não sei senti-lo... Já não sei em que parte da alma é que se sente... Puseram ao meu sentimento do meu corpo uma mortalha de chumbo... Para que foi que nos contastes a vossa história? SEGUNDA — Já não me lembro... Já mal me lembro que a contei... Parece ter sido já há tanto tempo!... Que sono, que sono absorve o meu modo de olhar para as coisas!... O que é que nós queremos fazer? o que é que nós temos ideia de fazer? — já não sei se é falar ou não falar... PRIMEIRA — Não falemos mais. Por mim, cansa-me o esforço que fazeis para falar... Dói-me o intervalo que há entre o que pensais e o que dizeis... A minha consciência bóia à tona da sonolência apavorada dos meus sentidos pela minha pele... Não sei o que é isto, mas é o que sinto... Preciso de dizer frases confusas um pouco longas, que custem a dizer... Não sentis tudo isto como uma aranha enorme que nos tece de alma a alma uma teia negra que nos prende? SEGUNDA — Não sinto nada... Sinto as minhas sensações como uma coisa que se sente... Quem é que eu estou sendo?... Quem é que está falando com a minha voz?... Ah, escutai,.. PRIMEIRA e TERCEIRA — Quem foi? SEGUNDA — Nada. Não ouvi nada... Quis fingir que ouvia para que vós supusésseis que ouvíeis e eu pudesse crer que havia alguma coisa a ouvir... Oh, que horror, que horror íntimo nos desata a voz da alma, e as sensações dos pensamentos, e nos faz falar e sentir e pensar quando tudo em nós pede silêncio e o dia e a inconsciência da vida... Quem é a quinta pessoa neste quarto que estende o braço e nos interrompe sempre que vamos a sentir? PRIMEIRA — Para quê tentar apavorar-me? Não cabe mais terror dentro de mim... Peso excessivamente ao colo de me sentir. Afundei-me toda no lodo morno do que suponho que sinto. Entra-me por todos os sentidos qualquer coisa que nos pega e nos vela. Pesam as pálpebras a todas as minhas sensações. Prende-se a língua a todos os meus sentimentos. Um sono fundo cola umas às outras as ideias de todos as meus gestos. Por que foi que olhastes assim?... TERCEIRA (numa voz muito lenta e apagada) — Ah, é agora, é agora... Sim, acordou alguém... Há gente que acorda... Quando entrar alguém tudo isto acabará... Até lá façamos crer que todo este horror foi um longo sono que fomos dormindo... É dia já. Vai acabar tudo... E de tudo isto fica, minha irmã, que só vós sois feliz, porque acreditais no sonho… SEGUNDA — Por que é que mo perguntais? Porque eu o disse? Não, não acredito .. Um galo canta. A luz, como que subitamente, aumenta. As três veladoras quedam-se silenciosas e sem olharem umas para as outras. Não muito longe, por uma estrada, um vago carro geme e chia. 1913 Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Notas explicativas e notas de Eduardo Freitas da Costa). Lisboa: Ática, 1952 - 153. 1ª publ. in Orpheu , nº1. Lisboa: Jan-Mar. 1915 O Prof. Afonso Costa — embora promulgasse em ditadura toda a sua obra, e não permitisse sequer que o parlamento a revisse — cumpriu o que prometeu: as suas leis são a realização daquela parte do programa do partido republicano que a ele, como Ministro da Justiça, cumpria realizar. O chefe democrático — embora nada democrático — é, ou foi, autenticamente um chefe. Faço-lhe justiça constrangidamente, porque preferia dizer mal dele; mas, em suma, faço-lhe justiça, que é o meu dever intelectual. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 122. Popular opinion admits a God; true, but it is but the idea of God, which persists in all men, clothed in the accidents (so to speak) of theology. In India, the idea of God is other; the instinct is the same. Among the negroes the idea is other; the instinct is the same. It is the intellect that diversely clothes the same body. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 112. DIÁLOGO NO JARDIM DO PALÁCIO A. O nosso pai e a nossa mãe foram os mesmos. Nós somos portanto a mesma cousa; somos um só, ainda que pareçamos dois? Ou não somos — e o que interveio entre nossos pais e nós para que pudéssemos ser diversos? O que é que me separa de ti? Estendo a mão e toco-te e não sei o que é tocar-te... Olho-te e não percebo o que é ver-te. Para mim és mais real do que eu própria porque te vejo todo, porque te posso ver as costas e não a mim... Para mim existo apenas de um lado... Oh, se eu pudesse compreender o que estou dizendo! B. Que vês tu de mim? O meu corpo. Tu à minha alma não vês. A. Mas nem a minha vejo, e ao meu corpo mal o vejo. Não o vejo como um corpo se deve ver para parecer real. Olho para baixo para ele, não olho para diante como para ver o teu. Se ao menos eu me sentisse sentindo meu corpo! Mas não me sinto dentro nem fora. Nem sou nem existo, o meu corpo. São — corpo e alma — qualquer cousa que eu não possuo. (Pausa) Ah! e quando nos espelhos que me reflectem me vejo de costas, andando, ou me vejo de lado — encho-me do terror do meu mistério. Sinto-me horrorosamente coexistir comigo [própria]. Ando atada a um meu sonho que sou eu. Quando me vejo de costas nos espelhos parece que tenho um outro ser, que sou outra cousa. Estranho-me por fora... Que horror que não possamos ver mais do que um lado do nosso corpo de cada vez. Que se passará do lado que não estamos vendo quando nós o não estamos vendo? (...) Reparaste já que não podemos ver mais do que dois lados do palácio ao mesmo tempo? Que Deus se estará pousando sempre do lado para que não podemos olhar? Se tu soubesses como a minha vida é pensar nisto! B. Ah, tudo isso não me perturba tanto como a minha voz, quando soa de mim e eu penso que não a criei, nem sei o que ela é, e a trago comigo como uma coisa minha. Falo e reparo nas palavras e no mistério de elas significarem. Nunca te escutaste? Tu nunca te escutaste? Mais do que ver-me de fora, o que os teus espelhos, ainda assim, te conseguem, eu queria ouvir-me de fora! Tapo os ouvidos às vezes, para ouvir a minha voz dentro de mim, e ouço apenas um sussurro, como se estivesse mais perto de mim, e começasse já a conhecer de quem é a voz que é minha. E tenho um medo que não me deixa continuar... A. Ah, e os outros sentidos! A quem te sabes tu na tua boca? Que cheiras tu quando não cheiras nada? E quando tocas com uma mão no teu braço ou na tua face — pensaste já que a tua mão é que toca na tua face e não a tua face na tua mão, mantém a tua face sob a tua mão e será sempre a tua mão que toca, e a tua face a que é tocada. B. Mesmo o tocar nas cousas — que estranho. Se eu tiver aquela pedra na mão, daí a pouco não a sinto já — parece que pertence ao corpo. Que mistério que é tudo! Andamos a dormir para nós próprios. Quanta alma durará o nosso sono? (Uma pausa) A. Às vezes, quando penso muito adentro, sabe-me a que corpo e alma são uma cousa só... Parece-me então que realmente vemos as cousas de dois lados, que a alma das cousas é aquilo que nos parece que não vemos delas... Não, não é isto que eu te quero dizer... Vê, não sei pensar o meu pensamento! B. Sim, compreendo o que não disseste. Mas o corpo não existe, talvez: é a alma vista pela [ ] de si-própria. A. Não. Não é assim. Não é assim. Mas eu não sei como é. B. Vamos jogar, se quiseres, um jogo novo. Joguemos a que somos um só. Talvez Deus nos ache graça e nos perdoe ter-nos criado... Senta-te aqui, defronte de mim e chegada a mim. Encosta os teus joelhos aos meus joelhos e toma as minhas mãos nas tuas... Assim... Agora fecha os olhos. Fecha-os bem e pensa... e pensa... Em que deverás pensar? Não, não penses em nada. Trata de não pensar em nada, de não querer sentir, de não saber que ouves ou que podes ver, ou que podes sentir as mãos, se quiseres pensar que elas existem... Assim, amor... Não movas nem o corpo nem a alma (Uma pausa) B. O que sentiste? A. Primeiro nada… Foi um espanto de ti e de mim... Depois que me esqueci de tudo, meu corpo cessou. Quis abrir os olhos mas tive um grande medo de os abrir. Depois cessei ainda mais... Fui pouco a pouco nem tendo alma. Encontrei-me sendo um grande abismo em forma poço, sentindo vagamente que o universo com os seus corpos e as suas almas estavam muito longe. Esse poço não tinha paredes mas eu sentia-o poço, sentia-o estreito, circular e profundo. Comecei então a sentir o grande horror –– ah, já não poder senti-lo! –– é que esse poço era um poço para dentro de si próprio, para dentro não do meu ser nem do meu ser poço, mas para dentro de si próprio, nem sei como. (…) B. (numa voz muito apagada) Depois? Depois? A. Depois desci... Encontrei no pensamento uma dimensão desconhecida por onde fiz o meu caminho… É como se se abrisse no escuro um vácuo. O súbito pavor de uma Porta… Assim no meu pensamento uno, vácuo abstracto, uma porta se abriu, um Poço por onde fui descendo. Compreendes bem, não compreendes? Foi no pensamento todo abstracto e sem diferenças nem fins, nem ideias, nem ser, que um Poço se abriu… E eu desci, ao contrário do que se desce – ao contrário por dentro do ao contrário… (Pausa) B. Continua, continua... A. Desci mais, sempre mais… e sempre nessa nova direcção. Mas...(ajuda-me a poder dizer isto!) (…) A. Oh, que horror! que horror o que estou sentindo! Arrancam-me a alma como os olhos para não ver! Sabes o que eu sinto? (…) Sinto-o como se o visse — como se o visse e aquilo nem pensar se pode! Ah, agarra-me, tem-me nos teus braços! Aperta-me! Aperta-me tanto que o teu braço me magoe (…). B. Não quero, não quero… Tu não sabes o que senti! A. Não ouso querer não o ouvir... Mas tenho medo… 2.ª O nosso amor é parecido com o sonho porque não é senão a superfície do amor: O meu amor é impossível como realidade, possível só com amor. (…) Cada uma de nós, no nosso amor, não ama senão a si, no amor; sonha em voz alta e é ouvida. Sonha com o corpo, com os beijos, com os braços. 1.ª Dir-lhe-ei que o não amo. Que melhor amante que tu? És mulher como eu e amando-te é a mim que me posso amar. 2.ª Realizar o amor é desiludir-se. Quanto não desiludir-se é acostumar-se. Acostumar-se é morrer. Por mim só amei na minha vida, e amo, a um estrangeiro de quem não vi mais do que o perfil, a um cair de tarde, quando estávamos numa multidão. 1.ª Mas ele sabe que o amas? Se ele não sabe que tu o amas de que serve amá-lo? 2.ª O meu amor é o meu e está em mim e não nele. Que tem ele comigo senão o amo? Se eu o conhecesse a nossa primeira palavra seria a nossa primeira desilusão... (...) Valerá a pena amar o que podemos ter? Amar é querer e não ter. Amar é não ter. O que temos, temos, não amamos. A. Se, apesar de tudo, nós nos amássemos! B. Não, agora já não pode ser. Descobrimos num momento o que os felizes atravessaram a vida sem descobrir, e os mais infelizes levam muito tempo a achar. Descobrimos que somos dois e que por isso não nos podemos amar. Descobrimos que não se pode amar mas só supor que se ama. A. Ah mas eu amo-te tanto, tanto! Tu se dizes isso é porque não imaginas quanto eu te amo. B. Não, é porque sei quanto tu me não podes amar... Escuta-me. O nosso erro foi pensar no amor. Devíamos ter pensado apenas um no outro. Assim, descobrimo-nos, despimo-nos da ilusão para vermos bem como éramos e vimos que éramos apenas como a ilusão nos fizera. No fundo não somos nada senão Dois. No fundo somos uma epopeia eterna — o Homem e a Mulher... (...) A. Oh, meu amor, não pensemos mais, não pensemos mais. Amemos sem pensar. Maldito seja o pensamento! Se não pensássemos seríamos sempre felizes... Que tem quem ama com o saber que ama, com pensar amor, com o que é o amor?... B. Não podemos deixar de querer compreender. (...) Quanto mais penso em tudo, mais tudo se me resolve em oposições, em divisões, em conflitos! Mataste de todo a minha felicidade! Agora mesmo que eu quisesse sonhar, nem isso podia fazer. O mundo é absurdo como um quarto sem porta nenhuma... Que alegria se não pensássemos, e que horror o havermos pensado! A. Agora podemos sonhar... Vem. E não penses mais, não olhes mais para o amor. B. Não... Agora é impossível. Podemos não pensar, mas não esquecer que pensámos... Sejamos fortes e separemo-nos agora para sempre. Oxalá nos possamos esquecer e esquecer que sonhámos o amor e vimos que ele era uma estátua vã... Olha, tolda-se o céu... Levanta-se o vento. Vai chover... A. Já não ouso dizer-te que te amo, mas amar-te-ei sempre. Tu não me devias ter amado... Tu... B. Nada devia ser comigo é... Fomos infelizes, mais nada. A curva desta estrada foi tal que dela vimos o amor e não pudemos amar mais. A. Tu não me amaste nunca. Se tu me tivesses amado, tu não podias dizer isso. Se tu me tivésses amado tu não pensavas no amor, pensavas em mim. Sim, agora está tudo acabado, mas porque entre nós nunca houve senão o meu amor. Amaste-me talvez porque pensaste que eu te amava ou que te devia amar. Não sei porque me amaste, mas não foi por me teres amor... Porque me olhas assim tão diferente e alheado? B. Porque reparo agora em quão pouco sabemos do que somos, do que pensamos, do que nos leva. Subiu-me agora à compreensão o que tudo isto é de complexo e absurdo. Não nos podemos compreender. Entre alma e alma há um abismo enorme. O que nós descobrimos afinal foi isso: eu vejo-o e tu não o queres ver. Mas eu descobri mais, ao reparar que não sei o que devo fazer — é que entre nós e mim próprio se abre um abismo também. Andamos como sonâmbulos numa terra de abismo (…) A. Adeus, sê feliz e esquece-me. Não te demores que chove mais. Na curva da estrada há uma árvore grande onde te abrigares. (...) Vai depressa, vai depressa. Chove mais. (Fica parada a dizer-lhe de vez em quando adeus com a mão, num pranto apagado e tímido). 1913 Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 209. 1ª publ. in Fernando Pessoa et le Drame Symboliste . Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977 1. Manutenção da forma republicana de governo: No interesse do próprio princípio monárquico, isto é, da sua perfeita aplicação, não deve ser por enquanto implantada a monarquia. O país não está ainda preparado para a monarquia, porque a Monarquia a implantar, devendo ser uma modernização do antigo regime português, é a tal ponto diferente de tudo quanto a mentalidade média, educada nas ideias liberais e democráticas, tem estado habituada a pensar, que a instituição de um sistema desses — supondo mesmo que ele já existisse composto e estudado — provocaria um sentimento de estranheza, breve dando em resultado a revolta, pelo aproveitamento dessa estranheza pelas forças liberais, apoiadas no estrangeiro moralmente, e, aproveitando-se dos erros, poucos ou muitos, que fatalmente os contra-revolucionários, uma vez no poder, haveriam de praticar. Depois a implantação da monarquia, quer fosse a monarquia constitucional, tão má quase como a república, quer a outra monarquia, dava como resultado imediato o reaparecimento na cena política das velhas clientelas corruptas e gastas, a cuja acção dissolvente a própria queda da monarquia se deve. Finalmente, para um regime novo, são precisos homens novos. Para a Monarquia Nova, começa por faltar o Rei; faltam os governantes, porque as clientelas antigas assaltariam de novo o poder, corruptas como sempre e mais ainda pelo seu exílio do poder; e faltam finalmente os próprios governados (como acima já se explicou). Dá-se também o caso de a implantação da monarquia, qualquer que fosse, servir de estímulo ao revolucionarismo republicano, e manter portanto sempre aceso o foco de desordem. É preciso ver também que a implantação da monarquia não representaria um acto evolutivo, mas um acto revolucionário, pois quebrava a continuidade social. 2. O que é preciso, pois, é estabelecer uma fórmula de transição que sirva de declive natural para a monarquia futura, mas esteja em certa continuidade com o regime actual. Essa fórmula de transição, já tentada instintivamente por Sidónio Pais, e a república presidencialista, que, por ser república, não perde continuidade com o actual regime, e por restabelecer o poder pessoal começa já a introduzir um dos princípios fundamentais do regime futuro e da tradição portuguesa. A tradição não se reata: reconstrói-se. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 123. Phylosophic Systems The idea of God is born of the idea of Cause, which implies the idea of force. 1º (Describe process by which non-ego is causally distinguished from the ego). 2º In the same causal manner, continuing his half-conscious survey of things man’s first act of reflexion corresponds with exactness to the first work of the brain in its distinction between the ego and non-ego. The brain has already established a world therefore some sensations it feels are not caused by him; it has also established a personality therefore the movements the body makes are preceeded by wild representations. Itself, the mind argues, is the cause of its movements, actions. But what is the cause of the world? Only, it continues to argue, a Force like itself. (After this all the arguments determinative of the personality of God). There are 3 forms of causes the Force in Nature: 1st. Nature was created by it; it exists in nature in so far as the artist’s character on the picture. This is spiritual. Then 2nd. Nature is God. 3d. Nature is the appearance, the manifestation of God. Religion is the philosophy of primitive people. The same faculties enter into its intellectual composition as enter, in greater perfection, in the preparing the elaboration of a system of philosophy. (About primitive man: evidence of senses — miracle [evidence] of reason — truth) One of those cases of external feeling, which is primitive; and internal feeling, which of civilised men is that of the irrational and superrational. What reason conceives simply as above it; primitive reason conceives as contrary to itself. Why? It is simple: Primitive reason follows the senses, and for the senses what is wonderful is not what is above them, beyond them, (they have no means of judging that) but that which jars them, that which is in opposition to them. 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 112. A Outra Asa do Grifo AFONSO DE ALBUQUERQUE De pé, sobre os países conquistados Desce os olhos cansados De ver o mundo e a injustiça e a sorte. Não pensa em vida ou morte, Tão poderoso que não quer o quanto Pode, que o querer tanto Calcara mais do que o submisso mundo Sob o seu passo fundo. Três impérios do chão lhe a Sorte apanha. Criou-os como quem desdenha. 26-9-1928 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 51. Na praia de Monte Gordo, Na praia de Monte Gordo, Meu amor, te conheci. Por ter estado em Monte Gordo É que assim emagreci. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 112. B. Assim, separados, amar-nos-emos sempre. A ponte entre nós será a curva do céu, e assim o nosso amor será eterno. Possuir-te era já o caminho de perder-te. Viver contigo era a maneira de te ir esquecendo. O que concluir de tudo isto? Nada. Dissemos muitas verdades mas elas contradizem-se umas às outras. Os sonhos quando passam na água são repuxos também porque a gente pode senti-los do mesmo modo. Quanto a gente os sente, se depois fechar os olhos, aquilo que se sente transforma-se em repuxos que a gente vê. Eu acho que [há] muito a explorar nas nossas sensações. Há grandes interiores de continentes dentro de nós, com mistérios a desvendar. Quem sabe, amor, se raças diferentes das nossas habitarão esses sítios desconhecidos (inexplorados)? Habituei-me sempre a olhar para as minhas sensações como para uma coisa exterior. — De que havemos de falar? — De qualquer cousa. Do mistério das cousas e das formas das flores. São cousas iguais quando a medida é Deus. O mistério das cousas (...) E as formas das flores foram os primeiros contos de fadas. — Às vezes, quando acordo de noite, sinto parar de repente, para que eu não vá ouvi-lo, o ruído das mãos que estão tecendo o meu destino. Vejo no ar fragmentos do meu futuro, rápidas sombras, e tendo uma vaga intuição da unidade divina do meu ser. Eu sou uma frase divina com um sentido que me escapa. 1913 «Diálogo no Jardim do Palácio». Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 213. 1ª publ. in Fernando Pessoa et le Drame Symboliste . Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977 Interregno O problema que nos confronta é três problemas: como transformar o indivíduo português? como transformar o estado português? como transformar a nação portuguesa? Estes problemas têm que ser aceites na base da sua realidade. Quando se trata de transformar o indivíduo português, trata-se de transformar o indivíduo português actual, e não um indivíduo português abstracto, que se chama, em português, Ninguém. Quando se trata de transformar o estado português trata-se de extrair um estado português da situação de ditadura militar, que é a que existe, e não de outra qualquer coisa que não exista, e de onde, portanto, se não pode extrair coisa alguma. Quando se trata de transformar a nação portuguesa, trata-se de construir a mentalidade nacional sobre os alicerces que há e não sobre os alicerces que já aqui não estão, ou sobre os que hão-de vir, que é a maneira estúpida de dizer os que naturalmente nunca vêm. Temos pois que estudar a maneira de transformar o português presente em ente humano; de transformar o estado português, na sua presente forma transitória, em estado constituído e certo; de dar à nação portuguesa uma orientação definida, partindo de onde estamos, e não de outra parte qualquer. Este problema complexo torna-se simples se nos lembrarmos de olhar para ele, e não para outro lado do espaço social. É no interregno que nascem os Reis. Não se trata, infelizmente, de reis gente, mas de reis metáfora. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 124. To Parmenides the universe is not infinite, for, according the Greek artistic conception, what is infinite is imperfect. Melissus (440) of Samos . Not only a philosopher but a soldier a stateman opposed to the lonic cosmogonies the eleatic doctrine of the world's eternity. Melissus was a materialist. If becoming be impossible, it is useless and absurd to inquire how the universe came to be. Being is infinite in duration and also in space. This last circumstance marks Melissus as a materialist and separates his Philosophy from that of Parmenides, and from that of most Greek systems whose reasoning is that to be infinite is to lack finiteness, consequently to be imperfect. It is an artistic conception. To them the universe is finite and has the form of a perfect sphere. * Zeno , disciple of Parmenides, controversialist of the eleatics, is the inventor of the reductio ad absurdum , father of sophistry and dialectics. The One alone can be conceived; extension, size, movement space cannot be. 1. Suppose a grandeur (limited) exists, it must necessarily be infinitely great and infinitely little. Infinitely great, because, being divisible ad infinitum , it is composed of an infinite number of parts; Infinitely little, because unextended parts, though multiplied ad infinitum , cannot make an extension, a grandeur. 2. Movement cannot be conceived. a) Because the line which separates points of departure and of arrival is composed of points, and, since the point is unextended, of an infinite number of points. Therefore even the smallest distance is infinite and the point of arrival cannot be reached. b) Suppose rapid Achilles as near as you wish to the slow tortoise; he will never catch it up: because, to overtake it, he would have first to cover half the space however small that separates him; and before that half of this half and so on ad infinitum . The infinite divisibility of the line is to him an unsurmontable obstacle. c) It is believed that the arrow flies; it does not: for to attain its end it must cover a series of points in space. It must successively occupy these different points. But to occupy at a given moment any point in space, is to halt: the arrow does not move; its movement is but appearance. 3. But if movement exist, it can but exist in space. Now, if space be real it must be found somewhere, i.e. in another space, and this one in another and so on ad infinitum . Movement is therefore impossible: we cannot admit it to be real without affirming, in absurdity. * Gorgias , of Leontium (...) brought the eleatic principle to its last consequences: nihilism. In his treatise (...) he goes beyond Zeno and demolishes being itself. Argument : Nothing exists. If anything exists, it must be eternal (Parmenides). What is eternal is infinite; infinite Being is neither in time nor in space, which would limit it «tour à tour». It is nowhere, and what is nowhere does not exist. If (what is impossible) anything existed, we could not know it. And if we could know it we could not communicate this knowledge to others. Gorgias’ indiscretion gives rise to the desire of Heraclitus. «Being is nothing (becoming) is all.» Being of Parm[enides] and Zenon is but an abstraction eternal and immutable without positive attributes. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 66. Idea of Cause Homogeneousness of Cause Spirit can but produce spirit. Matter can but produce Matter. Thus my spirit cannot give a football a kick; neither can my body imagine a work of literature. But, in the writing, both mind and body take part. Body in the writing proper, mind in what is expressed. Matter and Spirit produces Matter and Spirit; thus, in reproduction. It needs human frames and minds to produce human frames and mind, i.e. a child. This is already a deeper consideration. Therefore if God be a Spirit he could not have produced the world. More acceptable is the pantheistic hypothesis: God matter and spirit cause of matter and spirit, (i.e. cause of itself ). Likewise acceptable is the materialistic hypothesis: matter the cause of matter. Also acceptable idealistic hypothesis: spirit cause of spirit, (i.e. of itself, all being spirit ). Is this based on the assertion that nothing can cease to be what it is? Is it a kind of continuity? Nothing can cease to be. Then, after death, matter and spirit neither of them disappear. A thing cannot change to anything else. Matter must change to matter. Spirit [must change] to spirit. Is Spirit a function of matter? Does the conservation of energy apply to body and soul? This last problem can only be discussed relatively: absolutely spirit alone exists. Mankind has ever searched, while not denying evil, to make it inferior to and less lasting than good. Thus, Zoroaster Ormuzd and Ahriman, Ormuzd shall in the end conquer. ( Passim , this is false argument. Time (...) bounds ought to terminate, at one stroke, both principles). Similary the Christian theory of evil, as revolted from good. Shelley’s revolt — merely against anthropomorphism. Aristotle gives 4 causes. Material. Formal. Efficient. Final. The first 2 are one, for the stone itself (in a statue) is no subject of thought, the statuary having made nothing of it. The form itself is nothing. Hence 3 ideas, truly Categories of Reasoning: Idea of Thing (Object). Idea of Cause. Idea of End. Are not these 3 in the category of Reason [?] The idea of Cause is relative, because it can only be understood among plurality. Where there is only one there can be no cause. Therefore the idea of Cause is a scientific but not a metaphysical idea. The statement often made: «God is his own cause» is erroneous, because not even (...) can anything be said to be its own cause. * Now the most grave objection against this theory of duty is that this «duty» does not exist. It never has existed, nor ever will exist. There is a sense of good, there is an instinct towards action, there is a sense of ridicule, but there is no sense of duty properly speaking. What we call a «sense of duty» is what I shall term a sense of convention. Duty has never existed as a motive. 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 115. Fica o coração pesado Fica o coração pesado Com o choro que chorei. É um ficar engraçado O ficar com o que dei... s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 112. P - Abri o átrio, Mestre do Átrio, e que o neófito apareça entre as duas colunas. Parareis entre as duas colunas, e fareis o sinal da Ordem. Falareis quando vos for correspondido. P - Que trazes, Mestre do Átrio? R - Um neophyto, cego, nu e pobre. P - Que quer ele? R - A luz, o calor e a vida. P - Onde quer ele a luz, o calor e a vida? R - Nesta Ordem. P - Que o neófito se adiante. R - Está adiantado. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 77. Água que não vem na bilha Água que não vem na bilha É como se não viesse. Como a mãe, assim a filha... Antes Deus as não fizesse. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 55. 26 de Junho de 1929. Meu querido Camarada: Venho agradecer-lhe o seu livro Temas e não saber como agradecer-lhe o estudo, com que nele me honra. Esta carta, ou arremedo de carta, é o prefácio inca­racterístico a outra, que conto não demorar muito em escrever-lhe, em a qual tratarei mais extensamente do seu livro, no conjunto crítico que representa. Escreverei, por ora, só do coração, e para assinalar o quanto me comoveu o estudo em que me analisa. Sou, como é de ver, incompetente, pelo desconhecimento íntimo que cada um, por lúcido que seja, tem de si mesmo, para medir, com metro objectivo, qual seja a porção de justeza abstracta com que concluiu a meu respeito. O que é certo é que me circum-navegou com uma aten­ção vigilante, e que muitos pormenores do seu estudo, eu mesmo (sem reserva de equação pessoal) os re­conheço por fotográficos. É sobre o honroso conceito de valia que não poderei falar decentemente. Comoveu-se, digo, o seu estudo porque me trata como realidade espiritual, e, por assim dizer, reconhece a minha existência como nação independente. Até à próxima carta, que farei por escrever com o cérebro! Esta, como lhe disse, deflagra do coração, no abraço reconhecido que lhe envia o camarada muito dedicado Fernando Pessoa. 26-6-1929 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 31. Interregno Ora, considerando que esta situação representa um facto, temos que considerar o que devemos fazer perante ela; se devemos empenhar-nos em transformá-la, se devemos preocupar-nos em aceitá-la. Ora nela há elementos transformáveis e elementos não transformáveis, pelo menos imediatamente, e a boa orientação reside, sem dúvida, em fazer por transformar os primeiros, e pôr cuidado em como aceitar — pois não há senão que aceitar — os segundos. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 125. The second sophism of Zeno is that of Achilles and the turtle. Bayle explains it perfectly: «Let us suppose a turtle 20 paces in front of Achilles, let his velocity be 20 to 1. While he moves through 20 paces, the turtle move through one; it is therefore yet in front of him. While he covers the 21st pace, it gains the 20th part of the 22nd, and while he gains this 20th part de la partie vingt et unième and so on». Fundamentally this argument is the same as the first. Of this faculty of the mind to pursue the infinite divisibilitg of space Leibnitz made his immortal discovery of integral calculus. Zeno presaw, more than 2000 years before the difficulties resulting from it in the explanation of movement. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 71. First Axiom The force behind the world escapes all conception. In the first place all our conceptions are material, are of the world. What is so to speak, outside the world, is therefore outside conception. [...] Idea of Space is Cause of Space. Thus it is a force. Our consciousness of a mystery of the world shows that we are peculiar animals. 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 120. Este é o riso daquela Este é o riso daquela Em que não se reparou. Quando a gente se acautela Vê que não se acautelou. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 113. P - Quem chega, Mestre do Átrio? R - Um neófito, Mestre do Claustro. P - Como vem? R - Vem cego, nu e pobre. P - Que quer? R - A luz, o calor e a vida. P - Se é cego, como poderá ver-nos? R - Verei eu por ele, Mestre do Claustro, até que ele veja a luz. P - Se é nu, como poderá estar connosco? R - Estarei eu por ele, Mestre do Claustro, até que ele tenha calor. P - Se é pobre, como poderá pagar-nos? R - Pagarei eu por ele, Mestre do Claustro, até que ele tenha vida. P - Como vereis vós por ele, Mestre do Átrio? R - Vendo e amando-o. P - Como vestireis vós por ele, M[estre] do Átrio? R - Vestindo (...) P - Como pagareis vós por ele, M[estre] do Átrio? R - Falando eu. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 78. Ó loura dos olhos tristes Ó loura dos olhos tristes Que me não quis escutar... Quero só saber se existes Para ver se te hei-de amar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 55. Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, e plebeia sociabilizacão de mim, do Interseccionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Génio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu carácter nato quer que eu seja; e meu Génio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser. Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que sou. Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste. O último rasto de influência dos outros no meu carácter cessou com isto. Reconheci — ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de « lançar o Interseccionismo» — a tranquila posse de mim. Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci. 21-11-1914 Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 63. Na quinta entre ciprestes Secaram todas as fontes, As rosas brancas agrestes Trazidas do fim dos montes Vós mas tirastes, que as destes... No rio ao pé de salgueiros Passaram as águas em vão, Com tristezas de estrangeiros Passaram pelos salgueiros As ondas, sem ter razão. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 210. 30 de Setembro de 1929. Meu querido Camarada: Vai à máquina porque assim a letra é clara e a resposta mais livre dos empecilhos da escrita... ...E, antes de responder à sua carta de 26, devo dizer que me não esqueci da carta, que em tempos lhe prometera, com as observações mais minuciosas sobre aquele artigo dos Temas com que honrou a minha exis­tência. Esta existência tem estado reduzida a uma mise­rável contemplação dos desvairos do Sr. Engenheiro Álvaro de Campos; passado este incidente metafísico, terei, suponho, alma sobrante para falar por escrito. Não marco data, porque as datas são ficções do tempo; marco, porém, promessa. Não posso fazer mais por enquanto. E agora respondo à sua carta. Estou disposto, do coração, a apoiar o vosso intuito de publicar as obras de Mário de Sá-Carneiro. Entendo, por mim, e seguindo aquele mesmo critério que expus na nota bibliográfica sobre ele, que esse conjunto das obras dele deve ser formado por: (1) Dispersão, (2) Confissão de Lúcio, (3) Céu em Fogo, (4) Indícios de Ouro, inéditos ainda em conjunto. Elimino o volume Princípio pela simples razão de que não presta, e o mesmo critério me leva a excluir a peça Amizade, que o precedeu, e que nunca li, por imposição do próprio Mário de Sá-Carneiro. Creio, pois, que a edição das obras completas do Mário deverá ser feita em um único volume, por assi­natura antecipada (mediante circulares a nomes escolhi­dos) e em edição limitada rigorosamente ao resultado dessas circulares. Esclareço mais... Convém-‑lhes, em to­dos os sentidos (incluindo nitidamente o financeiro) o fixarem-se de antemão sobre o número de exemplares que hão-de tirar. Fazem circulares, pedindo, simples­mente, a subscrição à edição, e indicando o pagamento contra a entrega do livro. Não peçam pagamento ante­cipado. Se puderem preçar o livro em 30 escudos, fa­çam-no; não o façam passar de 50. Devem, com isso, e orientando devidamente a distribuição de circulares, obter entre 300 a 500 compradores. Não façam desconto às livrarias; estas que assinem pelo mesmo preço, e vendam depois ao preço que quiserem. A propriedade das obras de Mário de Sá-Carneiro, naturalmente, é do pai, o coronel Carlos de Sá Carneiro, que não conheço pessoalmente, nem sei se está em Lis­boa, mas que não creio se oponha, de qualquer modo ou em qualquer sentido, à publicação que tencionam fa­zer. Nem creio que se oporá – como, juridicamente, se poderia opor – a qualquer orientação que eu pudesse dar à publicação das obras do filho, que mais que uma vez me entregou o destino futuro dessas obras, mas, como é de ver, ou verbalmente, ou em uma ou outra carta, e sempre sem valor legal . Quanto ao prefácio, ou estudo preliminar, que espe­ram de mim, tudo depende do tempo, que eu teria para o fazer. Na falta de tempo, bastaria (talvez com um breve acréscimo) aquele mesmo estudo, ou nota, com que abri o n.º 2 da Athena. Diz tudo, e, por isso mesmo, dispensa dizer mais. Tenho, felizmente, o último retrato, que é o espiri­tualmente verdadeiro, do Autor. É um retrato pequeno, tipo bilhete de identidade, mas susceptível de ser am­pliado e reproduzido depois de acordo com essa amplia­ção. O retrato, de que falo, e de que digo que é o espi­ritualmente verdadeiro, não dá o Sá-Carneiro como usualmente era, mas um Sá-Carneiro torturado (o pró­prio olhar o diz), um Sá-Carneiro emagrecido e final, que tem mais verdade que os retratos mais vulgares que ele tinha tirado nas fotografias do grande costume. E é isso mesmo que dá a essa fotografia casual o valor que casual muitas vezes usurpa ao autêntico – a fixação, por uma imposição súbita do Destino, do aspecto em que qualquer alma se revela. Peço que me desculpe a demora de uns dias em responder-lhe, e a incoerência da própria resposta. Tenho estado sujeito, estes últimos dias, a tempestades mentais, que conto aproveitar literariamente, mas que, enquanto se não aproveitam, duram. Se, em virtude dos incidentes atmosféricos da alma, a que acima aludo, esta carta estiver falha em informa­ções, ou em pormenores da resposta que lhe estou que­rendo dar, peço que não hesite em me dizer em que pontos falta que toque, para que efectivamente lhe res­responda. E creia sempre na consideração e no afecto do camarada amigo e grato. 30/IX/1929. Fernando Pessoa. 30-9-1929 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 32. Argument of Gorgias. If not‑being is not‑being, not‑being is not less than being, since not‑being is not‑being and being is being, for which reason, things no more exist than they do not exist. If, however, not‑being exist, being will not exist, for it is the contrary of not‑being. If not‑being exist, it cannot be but that being does not exist; so that thus also nothing would exist, unless being and not‑being be the same. And if really these be the same, thus also nothing will exist, for not‑being does not exist, and so does not also being, since it is held to be the same as not‑being. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 72. Materialism has indeed forgot (ten) that to take away religion sharply, suddenly, brutally from mankind is a crime. It is not that religion is true, but that it is necessary. By religion I do not mean Theology — I do not mean anything with a metaphysical implication. I mean something which attempts to assuage men’s thirst for good only for themselves. 1908? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 121. Tens vontade de comprar Tens vontade de comprar O que vês só porque o viste. Só a tenho de chorar Porque só compro o ser triste. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 113. P - Em que crês? R - Sou cego. P - Quem és? R - Sou nu. P - O que tens? R - Só a mim. P - Queres ser recebido nesta ordem para nela teres a luz? R - Quero, se m’a mostrarem. P - Q[ueres ser recebido nesta ordem] para dela teres a veste? R - Quero, se m'a vestirem. P - [Queres ser recebido nesta ordem] para nela teres guarida? R - Quero, se ela me for dada. P - Companheiros do Átrio, o neófito é cego, nu e pobre. R 1 - Dê-se-lhe a luz, porque sabe que é cego. R 2 - Dê-se-lhe a veste, pois que sabe que é nu. R 3 - Dê-se-lhe guarida, pois que sabe que é pobre. R 4 - Dê-se-[lhe] tudo porque sabe que é nada. P - Porque disseste que eras cego, se não eras cego? R - Sou cego para depois ver. P - Porque pensaste que eras nu, senão estás nu? R - Porque estou nu para ser vestido. P - Porque disseste que eras pobre (...) (Mão sobre o coração) Juro pela minha alma e vida e por tudo quanto, embora eu o não saiba, contenham ou possam vir a conter, que não desvendarei nenhum segredo d'esta ordem, e que o não farei por palavra dita ou palavra escrita, por palavra directa ou translata, nem o dizendo, nem o indicando, nem o fazendo presumir. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 79. O coração é pequeno, O coração é pequeno, Coitado, e trabalha tanto! De dia a ter que chorar, De noite a fazer o pranto... s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 85. Há grandes sombras na horta Há grandes sombras na horta Quando a amiga lá vai ter... Ser feliz é o que importa, Não importa como o ser! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 55. Pertenço a uma geração que ainda está por vir, cuja alma não conhece já, realmente, a sinceridade e os sentimentos sociais. Por isso não compreendo como é que uma criatura fica desqualificada, nem como é que ela o sente. É oca de sentido, para mim, toda essa (...) das conveniências sociais. Não sinto o que é honra, vergonha, dignidade. São para mim, como para os do meu alto nível nervoso, palavras de uma língua estrangeira, como um som anónimo apenas. Ao dizerem que me desqualificaram, eu não percebo senão que se fala de mim, mas o sentido da frase escapa-me. Assisto ao que me acontece, de longe, desprendidamente, sorrindo ligeiramente das coisas que acontecem na vida. Hoje, ainda ninguém sente isto; mas um dia virá quem o possa perceber. Procurei sempre ser espectador da vida, sem me misturar nela. Assim, a isto que se passa comigo, eu assisto como um estranho; salvo que tiro dos pobres acontecimentos que me cercam a volúpia suave de (...). Não tenho rancor nenhum a quem provocou isto. Eu não tenho rancores nem ódios. Esses sentimentos pertencem àqueles que têm uma opinião, ou uma profissão ou um objectivo na vida. Eu não tenho nada dessas coisas. Tenho na vida o interesse de um decifrador de charadas. Mas eu não tenho princípios. Hoje defendo uma coisa, amanhã outra. Mas não creio no que defendo hoje, nem amanhã terei fé no que defenderei. Brincar com as ideias e com os sentimentos pareceu-me sempre o destino supremamente belo. Tento realizá-lo quanto posso. Nunca me tinha sentido desqualificado. Como lhe agradecer ter-me ministrado esse prazer! Ele é uma volúpia suave, como que longínqua. Não nos entendem, bem sei... ...Assim como criador de anarquias me pareceu sempre o papel digno de um intelectual (dado que a inteligência desintegra e a análise estiola). 1914? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 64. Dizem? Esquecem. Não dizem? Disseram. Fazem? Fatal. Não fazem? Igual. Porquê Esperar? — Tudo é Sonhar. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 211. XV Even ye, now old, that to this come as to Your past, your own joy throw Into the cup, and with the younger drink That which now makes you think Of what love was when love was. (For not now Your winter thoughts allow). Drink with the hot day, the bride's sad joy and The bridegroom's haste inreined, The memory of that day when ye were young And, with great paeans sung Along the surface of the depths of you, You paired and the night saw The day come in and you did still pant close, And still the half-fallen flesh distending rose. 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 142. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. 17 de Outubro de 1929. Meu querido Camarada: Muito agradeço a sua carta de 13. Não há que pedir desculpa de demoras a quem, normalmente, teria que pedir cinco desculpas, nesse sentido, por cada justifica­ção alheia... Concordo inteiramente com o que me diz sobre a publicação das obras do Sá-Carneiro, dadas as circuns­tâncias que me expõe. E, nesses termos, acho de acon­selhar que a edição se faça, sendo possível, em dois volumes, porém não com a divisão que lembra, porque essa os tornaria inconformes. Os poemas (Dispersão e Indícios de Ouro) não formam um volume do vulto das prosas. Para se estabelecer um equilíbrio, isto é, um equilíbrio de volume a volume, haveria que formar dois tomos, e da seguinte maneira: (1) Poemas Completos e Confissão de Lúcio, (2) Céu em Fogo. O Céu em Fogo ocupa (estudei já o assunto) o mesmo espaço em pági­nas que os poemas e a Confissão juntos. Isto é para a hipótese de dois volumes. Querendo cindir em volumes pequenos, então o caso é razoavel­mente simples; como o dos dois volumes é simples tam­bém. Em volumes pequenos, a edição seria assim: (1) Poemas Completos (isto é, Dispersão e Indícios de Ouro); (2) A Confissão de Lúcio; (3) Céu em Fogo (metade); (4) Céu em Fogo (segunda metade). Assim, em matéria de páginas, também a edição estaria equi­librada. Reflectindo sobre a questão dos prefácios ou intro­duções, acho preferível seguir o conselho célebre do Punch às pessoas que vão casar – «Não». Sim, acho preferível não pôr prefácios nenhuns. Não explicar ainda é uma das grandes condições de imposição e de vitória. Nem as duas breves páginas que escrevi na Athena de­vem, a meu novo ver, pré-comentar. Fique a obra como é, e sem mais a ser. Quanto à Antologia da Nova Poesia Portuguesa, fi­cam desde já e definitivamente autorizados a escolher o que quiserem de meu ou trans-meu (Caeiro, Campos, Reis e o que mais haja ou possa haver). Sobre poemas inéditos, tenho aproximadamente uma biblioteca vir­tual; mas só de aqui a dois meses – conto nesse intervalo ter percorrido com alguma atenção tudo isso – lhe poderei dizer se há por ali valia que valha, e, ainda assim, no falso critério do crítico de si mesmo. No que diz respeito à colaboração para a Presença, amanhã, ou de aqui a dois ou três dias, o mais tardar, lhe enviarei qualquer coisa. Sim, será um ou outro pro­duto daquelas tempestades mentais de que lhe falei. Mas será obra serena e até lânguida. Assim são os gran­des repousos que se seguem às tempestades que não são mentais; e, se empregamos uma metáfora, é de toda a decência segui-la em regime de paralelas. Abraça-o com grande afecto e grande apreço o sempre e muito seu, Fernando Pessoa. 17-10-1929 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 35. System of Gorgias is idealistic. What it means is that nothing exists of appearance. Gorgias was perhaps a very deep philosopher; if not, he was a happy blunderer. His system makes us reach a conclusion many do not suspect. When he says Being is non‑existent because it is out of time and of space, he is hardly a nihilist. He is an idealist, and very much of one. To most deep philosophers, even to the philosophers of the Catholic Church, God is immense and eternal. To Gorgias, Being in addition held to be non‑existent (as appearance), Being is the only thing existing. The completest idealism results. At least the reasoning leads thither whatever Gorgias may have meant by it, whithersoever he may have meant it to lead. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 73. The abstraction of all Existent things, the universal mind, by which and in which they alone can have life. Thus is seen that by the universal mind I do not mean the ego of Protagoras, nor the sum of every such individual ego . The universal mind is a generalisation (just as those of Plato). The relation between Inf[inity] and numbers is the same as that between force (for the materialist) and the being that have it, atoms, cells, birds, beasts, men. The Force in the Universe is not conceived as the sum of the various particular forces. It is conceived, for otherwise, as containing them. In the same way Infinity is not understood to be the sum of numbers, but is conceived as containing them. The particular forces are by Force (Energy), they exist in virtue thereof. Numbers exist by Infinity (Quantity-in-se) and in virtue of that. The cause being a force (power?) must not the effect be also a force? 1908? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 121. Tens o leque desdobrado Tens o leque desdobrado Sem que estejas a abanar. Amor que pensa e que pensa Começa ou vai acabar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 37. Baila em teu pulso delgado Baila em teu pulso delgado Uma pulseira que herdaste... Se amar alguém é pecado, És santa, nunca pecaste. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 113. Deram-me um cravo vermelho Deram-me um cravo vermelho Para eu ver como é a vida. Mas esqueci-me do cravo Pela hora da saída. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 85. O moinho de café O moinho de café Mói grãos e faz deles pó. O pó que a minh’alma é Moeu quem me deixa só. 12-10-1934 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 55. Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade. A celebridade é um plebeísmo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeísmo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas acções — ridiculamente humanas às vezes — que ele quereria invisíveis, coa-as a lente da celebridade para espectaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade. Depois, além dum plebeísmo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de génio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu génio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele — próprio. Mas, uma vez conhecido, não está mais na sua mão reverter à obscuridade. A celebridade é irreparável. Dela como do tempo, ninguém torna atrás ou se desdiz. E é por isto que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos. Penso às vezes nisto coloridamente. E aquela frase de que «homem de génio desconhecido» é o mais belo de todos os destinos, torna-se-me inegável; parece-me que esse é não só o mais belo, mas o maior dos destinos. Diz-se que os herméticos da Rosa-Cruz, seita esotérica e magista, descobriram, desde o início dos tempos, o segredo da vida eterna, o elixir da vida; que, nunca morrendo, passam de época em época, através dos ciclos e das civilizações, despercebidos, nenhuns e, contudo, pela grandeza da coisa transcendental que criaram, maiores do que os génios todos da evidência humana. Da sua seita é o preceito, que cumprem, de se não darem nunca a conhecer. A sua presença eterna, que vive à margem da nossa transiência, vive também fora da nossa pequenez. Vão-se-me os olhos da alma nessas figuras supostas — e quem sabe a que ponto reais? — que, verdadeiramente, realizam o supremo destino do homem: o máximo do poder no mínimo da exibição; o mínimo da exibição, por certo, por terem o máximo do poder. O sentido das suas vidas é divino e longínquo. Apraz-me crer que eles existam para que possa pensar nobremente da humanidade. s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 66. «Crónicas da Vida que Passa». Escrita para O Jornal, em 1915, não chegou a ser publicada. ABDICAÇÃO Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços E chama-me teu filho. Eu sou um rei Que voluntariamente abandonei O meu trono de sonhos e cansaços. Minha espada, pesada a braços lassos, Em mãos viris e calmas entreguei; E meu ceptro e coroa, — eu os deixei Na antecâmara, feitos em pedaços. Minha cota de malha, tão inútil Minhas esporas, de um tinir tão fútil, Deixei-as pela fria escadaria. Despi a realeza, corpo e alma, E regressei à noite antiga e calma Como a paisagem ao morrer do dia. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 215. 1ª publ. in Ressurreição , nº 9. Lisboa: Fev. 1920. XVI No matter now or past or future. Be Lovers' age in your glee! Give all your thoughts to this great muscled day That like a courser tears The bit of Time, to make night come and say The maiden mount now her first rider bears! Flesh pinched, flesh bit, flesh sucked, flesh girt around. Flesh crushed and ground, These things inflame your thoughts and make ye dim In what ye say or seem! Rage out in naked glances till ye fright Your ague of delight, In glances seeming clothes and thoughts to hate That fleshes separate; Stretch out your limbs to the warm day outside, To feel it while it bide! For the strong sun, the hot ground, the green grass, Each far lake's dazzling glass, And each one's flushed thought of the night to be Are all one joy-hot unity. 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 142 / 144. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. 6 de Dezembro de 1929 Meu querido Camarada: Receberá sem dúvida esta carta com o pasmo so­bressaltado de quem recebe uma mensagem de além­-túmulo, pois por certo tem por igual a morto o signatá­rio sobrevivente. Tenho diante de mim as suas duas car­tas a que devo resposta (à parte o dever-lhe um comen­tário crítico a um indivíduo incerto que sou eu); uma dessas cartas tem a data de 22 de Outubro, outra a de 8 de Novembro. Que desculpa plausível tem quem lhe envia esta resposta com a data insofismável de 6 de Dezembro? Aquela leve alienação mental, que é um dos meus privilégios mais Campos, tem estado permanentemente à minha cabeceira, ainda nas horas em que não estou deitado. Não tenho feito nada, e não tenho escrito nada, nem (a prova existe na ausência de prova) a ninguém. Recebi a Presença, e vejo que anunciaram, e bem, a publicação dos volumes da obra de Mário de Sá-Car­neiro. Subiu-me a vergonha à máquina de escrever: respondo. O melhor que há a fazer, como primeiro movimento prático, é eu passar a limpo o volume que figura como primeiro na publicação, ou seja o que consta dos ver­sos – Dispersão e Indícios de Ouro. Irei fazendo isto por estes dias próximos, e desejava saber se preferiam que fosse enviando as páginas à medida que as vou pas­sando à máquina, ou se lhes é melhor que as envie jun­tas, quando houver transcrito por completo os dois li­vros de poemas, que formam o primeiro volume das obras. É este, aliás, o único ponto difícil para a publica­ção; a Confissão de Lúcio está publicada já, e o Céu em Fogo também. Da Confissão de Lúcio tenho um exem­plar além do meu. Da outra obra, Céu em Fogo, não tenho senão o meu exemplar. Seja como for, isto de momento não importa. O que importa é receberem agora, e sem demora, o material para o primeiro volume. Para a semana começo o traslado. Referindo-me, agora, à forma de publicação, por o que diz respeito a marcar preços, acho que o melhor é pôr a obra à subscrição em conjunto, a tanto por volume, sendo cada volume pago contra reembolso pos­tal, à medida que for saindo. Em outras palavras, a as­sinatura é pelos quatro volumes; o pagamento é por volume. É o mais prático. E a orientação deve, a meu ver, ser de, sendo possível, se publicar um volume por trimestre durante o ano que vem, de sorte que, calhando precisamente haver tantos volumes quantos são os tri­mestres, a obra será publicada toda no espaço de um ano, e com o devido espaçamento. O preço de cada volume, a meu ver, nem deve ser inferior a 20 nem superior a 30 escudos. Esta opinião é puramente comercial; é dada, naturalmente, fora de qualquer noção do género de apresentação que tencio­nam dar ao livro. Creio, porém, que a apresentação deve orientar-se para o preço, que não o preço para a apre­sentação, a não ser que haja uma equivalência de valores. Em que termos, e de que maneira, vão redigir a circular de pedido de assinaturas? É um ponto impor­tante – é, até, um dos pontos mais importantes – em publicações desta ordem. O desleixo que atingiu corporalmente a minha res­posta a este caso do Sá‑Carneiro, com muito mais ra­zão atingiu a resposta aos casos da Antologia e da cola­boração para a Presença. Prometo, porém, enviar em breve colaboração para a Presença. Sobre a Antologia está de pé, firme, dada, a minha autorização; acho pre­ferível não inserir inéditos, mas, se fazem empenho nisso, posso pescar alguns, porventura aceitáveis, no poço da minha indiferença por mim mesmo. Se falhei em responder a qualquer ponto das suas cartas, diga-me. Abraça-o, com a reiteração dos pedidos de desculpa que estão nas linhas e entrelinhas da carta que vai acabar, o camarada muito dedicado e grato, Fernando Pessoa. 6-12-1929 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 37. Duas horas te esperei/Dois anos te esperaria Duas horas te esperei Dois anos te esperaria. Dize: devo esperar mais? Ou não vens porque inda é dia? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 37. ZENO Born at Elea, a man of extreme heroisme and strength of character. He was very eloquent, says Diogenes Laertius, left us works full of sense and erudition, and distinguished himself not less in politics than in philosophy. Having this idea of his character, we can more seriously examine his philosophy than if we preserved the common idea of him. «Zeno pretends», says Aristotle, «that movement does not exist, because the mobile passes by (or through) the middle before it gets to the end». If we consider a space to be traversed, as did the Greeks, putting aside the explanations of modern science as to movement, and if we consider its possibility in our mind, (...) 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 74. lf all things be from a God infinitly good, then good must be in all things. Plurality comes from this unity; is plurality evil? And if it be said that time and space which make the world as it is are principles of evil where do they come? If from a good God, they are good. If from another thing there are 2 principles, as Zoroaste said. Evil again, it is said, is the result of our earthly condition, imperfection is the result of creation. But if creation be by God, creation cannot be evil, since God is considered as good. Again, it may be argued, the world is a manifestation. How the characteristic of a manifestation is that it is the opposite of the thing manifested. The one is manifested as many, the immutable as that which has motion. Therefore then the good is manifested as the bad. The explanation seems to be good. But if this be so, there is, this is a law of manifestation. God is then governed by a law? The Fatum of the romans, the ananke of the greeks is then greater than God himself? God is then not the supreme Being? The contradiction of infinite personality. An infinite personality is no personality at all. Is there a vacuum between bad and good. [?] 1908? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 123. Teus olhos querem dizer Teus olhos querem dizer Aquilo que se não diz... Tenho muito que fazer... Que sejas muito feliz! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 113. Fiz estoirar um cartucho Fiz estoirar um cartucho Contra a parede do lado. Assim farei eu à vida, Que o sonhar fez-me assoprado. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 85. Dizem que não és aquela Dizem que não és aquela Que te julgavam aqui. Mas se és alguém e és bela Que mais quererão de ti? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 56. Por mim, o meu egoísmo é a superfície da minha dedicação. O meu espírito vive constantemente no estudo e no cuidado da Verdade, e no escrúpulo de deixar quando eu despir a veste que me liga a este mundo, uma obra que sirva o progresso e o bem da Humanidade. Reconheço que o sentido intelectual que esse Serviço da Humanidade toma em mim, em virtude do meu temperamento, me afasta, muitas vezes, das pequenas manifestações que em geral revelam o espírito humanitário. Os actos de caridade, a dedicação por assim dizer quotidiana são coisas que raras vezes aparecem em mim, embora nada haja em mim que represente a negação delas. Em todo o caso, reconheço, em justiça para comigo próprio, que não sou mais egoísta que a maioria dos indivíduos, e muito menos o sou que a maioria dos meus colegas nas artes e nas letras. Pareço egoísta àqueles que, por um egoísmo absorvente, exigem a dedicação dos outros como um tributo. 1-1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 68. Toda a noite ouvi no tanque Toda a noite ouvi no tanque A pouca água a pingar. Toda a noite ouvi na alma Que não me podes amar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 38. NATAL Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade Nem veio nem se foi: o Erro mudou. Temos agora uma outra Eternidade, E era sempre melhor o que passou. Cega, a Ciência a inútil gleba lavra. Louca, a Fé vive o sonho do seu culto. Um novo Deus é só uma palavra. Não procures nem creias: tudo é oculto. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 216. 1ª publ. in Contemporânea , nº 6. Lisboa: Dez 1922. Indicação Preliminar. O Ascendente, significador da personalidade, é Balança, signo que é regido por Vénus. Este planeta está em Virgem, que é o seu signo de queda, e opresso pela oposição de Júpiter e pelas quadraturas de Úrano e de Plutão. Está, em compensação, em sextil (que é bom aspecto) com o Medium Coeli . Tudo isto quer dizer o seguinte: (1) Que a personalidade, eivada intimamente de uma certa depressão, é diversamente desarmónica em si mesma, pois que a sua sensibilidade superior (Júpiter) está em conflito com a sua sensibilidade inferior (Vénus); que a sua íntima essência é contrariada, por um lado por desejos ou aspirações (Úrano) que excedem o seu poder de realização, por outro lado por outras causas que não é possível determinar, visto que de Plutão (que as exprime) não há ainda, por há pouco descoberto, suficiente conhecimento astrológico. (2) Que o que salva e compensa esta desarmonia íntima é a harmonia entre o indivíduo e o ambiente, harmonia que o Destino lhe fornece e fornecerá, para equilíbrio do que sofra em si mesmo. Nunca deve buscar a solidão: a sua defesa contra a guerra civil é, ao contrário do que normalmente sucede nas nações, a paz e a união com os outros. O Medium Coeli , significador da vida social, é regido pela Lua, que está em Balança (onde é peregrina; isto é, não está mal nem bem), fora de conjunção com o Ascendente, e, aparte não ter qualquer mau aspecto, com a suprema defesa de estar conjunta com a Cabeça do Dragão, que é o escudo abstracto do Destino. Isto vem apenas dizer, de outra maneira, como que em outra linguagem, o que o Ascendente já dissera. Viva duas vidas separadas, sem que de qualquer d’elas se transborde para a outra — uma, a própria, fechada o mais possível; outra, a social, ampla e sem receio. Mas que a primeira não tente invadir a segunda! Quem é dois tem que ser dois. Mais tarde se dirá mais. O pormenor, como tudo, tem a sua hora. 11-9-1934 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 41. XVII In a red bacchic surge of thoughts that beat On the mad temples like an ire's amaze, In a fury that hurts the eyes, and yet Doth make all things clear with a blur around, The whole group's soul like a glad drunkard sways And bounds up from the ground! Ay, though all these be common people heaping To church, from church, the bridal keeping, Yet all the satyrs and big pagan haunches That in taut flesh delight and teats and paunches, And whose course, trailing through the foliage, nears The crouched nymph that half fears, In invisible rush, behind, before This decent group move, and with hot thoughts store The passive souls round which their mesh they wind, The while their rout, loud stumbling as if blind, Makes the hilled earth wake echoing from her sleep To the lust in their leap. 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 144 / 146. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. 10 de Janeiro de 1930. Meu querido Camarada: Não sei bem qual o género ou tipo de cimento ar­mado em que deve ser construída a desculpa que tenho a apresentar-lhe. Esta carta responde à sua de 8 de Dezembro. Ora não há cimento armado que arcaboice já qualquer desculpa. Respondo, e parece impossível... Orientada a publicação das obras completas do Sá-Carneiro no sentido de serem em quatro volumes, convém espaçar a publicação de modo a sair, ou um volume por trimestre, ficando a publicação concluída no ano corrente, ou um volume cada quatro meses, fi­cando concluída no princípio do ano que vem. Isto não tem grande importância, mas há mais lógica temporal na primeira hipótese. A ordem dos volumes, também a conhecemos e está certa assim: (1) Poemas, (2) Confissão de Lúcio, (3 e 4) Céu em Fogo. Era minha ideia de que não conviesse antepor a qualquer volume prefácio ou nota de qual­quer espécie. Concedo, porém, que um apontamento breve, como o é o que escrevi na Athena, não prejudique, visto que é tão breve, e satisfaça os que estranhassem que as obras se publicassem sem advertência de qual­quer espécie. Quanto à nota biobibliográfica, basta que às não muitas linhas do meu estudo se ajuntem as dez ou doze, em tipo escondido, que contenham as datas de nascimento e morte, o apontamento dos livros publica­dos, e mais nada. Felizmente, em todo o sentido, de todos os sentidos, o Sá-Carneiro não teve biografia: teve só génio. O que disse foi o que viveu. Quanto a preço, não creio que seja aceitável, em sentido nenhum, que se estabeleça distinção entre os volumes em prosa e os em verso. Nem, para uma edi­ção que se vai fazer fechadamente, convém preço abaixo de 30$00 por volume. Crê que haverá dificuldade em que se estabeleça este preço para a generalidade dos vo­lumes? Claro está que o primeiro volume deverá vir acom­panhado do retrato. Tenho o último retrato – o tirado em Paris; é de um Sá-Carneiro emagrecido e cheio de tortura visível. É o verdadeiro retrato. Infelizmente, é pequeno – um retrato tipo passaporte –, mas terei ma­neira, aqui mesmo, de realizar a ampliação condigna, pela qual se forme a gravura. O formato do livro do Adolfo Casais Monteiro estaria bem para os do Sá‑Car­neiro, entendendo-se, porém, que qualquer dos volumes do Sá-Carneiro seria mais extenso. É, pois, ao formato só que me refiro como muitíssimo bem. Agora o caso da maneira de assinar ou subscrever... É assunto que, há pouco tempo, tive que estudar para a hipótese de fazer, eu, uma tradução integral das obras (das autênticas, bem entendido) de Shakespeare. Che­guei à seguinte conclusão: (1) envia-se primeiro uma circular, convenientemente redigida, apresentando, com o espírito publicitário apropriado ao assunto, o plano da publicação; (2) não se pede dinheiro antecipado (ninguém o dará), mas se pede somente que se devolva um talão de compromisso de assinatura, para o paga­mento de cada volume contra reembolso postal; (3) faz-se uma tiragem um pouco acima do número de subscritores, pois, embora haja que contar com a falta de alguns dos subscritores, eles serão substituídos, e até levemente excedidos, por aquele número de cria­turas que não é susceptível de interesse fora da visão nítida e objectiva do volume; (4) não se faz desconto ou preço especial aos livreiros (isto é um ponto fun­damental das edições reservadas, que os livreiros tomam ao mesmo preço que os particulares, e venderão depois ao preço que quiserem); (5) a experiência relativa­mente ao primeiro volume das obras, ou série de publi­cações, orientará quanto ao decurso futuro da edição. O caso das obras completas do Sá-Carneiro diverge, em certos pontos manifestos, do caso da tradução da obra de Shakespeare. Escuso de lhe dizer quais são esses pontos. Mas o que acima expus encerra a matéria fundamental neste caso das edições reservadas. Peço, pois, que meditem essa filosofia do livro e, se em algum ponto estiver pouco lúcida, me digam onde, para que eu esclareça. Durante os dias, que estão entre hoje e o fim do presente mês, mandar-lhes-ei a redacção definitiva da nota da Athena, a pequena nota biobibliográfíca, que lhe deve ser apensa, e o texto completo dos Indícios de Ouro. Diz-me que tem aí a Dispersão; excuso, pois, de passar a limpo o texto desses poemas. O volume de poemas, aliás, compor-se-ia tão-somente da Dispersão e dos Indícios de Ouro. Hesito em se deveria ou não ser incluída a Manucure, ou, sendo incluída na obra, se deveria ser incluída no volume dos poemas, ou no fim da Confissão de Lúcio. Ainda farei por pensar nisso, e dizer o que saiu de o pensar. Logo que me digam se estão de acordo com estas várias considerações, redijo, se quiserem, mas real­mente sem demora, a circular a dirigir aos subscritores possíveis. Um ponto acessório... Como o Sá-Carneiro escrevia em ortografia moderna, isto é, na ortografia denomi­nada «oficial», e vocês dela usam igualmente, poderiam rever aí as provas, de preferência a revê-las eu, pois iriam revendo quanto ao sentido e quanto à grafia para­lelamente. Se editasse eu as obras do Sá‑Carneiro, subor­diná-las-ia (aliás, por impulso próprio e porventura abu­sivo) à ortografia de que uso. Mas, no caso presente, nem é mister que tal se faça, nem, até, convém que se faça. Quando for tratar de passar a limpo, isto é, à má­quina, os Indícios de Ouro, verei qual o poema inédito que de lá se poderá extrair, e enviar-vo-lo-ei. E isto, agora, traz-me ao assunto da minha colabo­ração na Presença. A mesma demora, que incidiu sobre esta carta, afectou a remessa dessa colaboração. Conto poder enviar qualquer coisa em o espaço de poucos dias. Enviarei duas composições – uma de mim eu, outra do á lvaro de Campos. Respondo agora à sua pergunta sobre o publicarem na Presença ou em separata algumas das minhas antigas produções. Podem vocês dispor como quiserem das duas Odes e do Opiário do Álvaro de Campos e da minha Chuva Oblíqua – isto pelo que diz respeito a inserções no Orpheu. O Marinheiro está sujeito a emen­das: peço que, por enquanto, se abstenham de pensar nele. Se quiserem, poderei, feitas as emendas, dizer quais são: ficará então ao vosso dispor, como o estão as composições a que, como tais, acima me refiro. Creio ter respondido à sua carta. Se fui omisso em qualquer ponto, peço que mo indique, para que repare a omissão. E creia-me sempre, com o maior apreço e a maior simpatia, seu muito dedicado e grato, Fernando Pessoa. P.S. – Recebi, de facto, o livro do Casais Monteiro, a quem escreverei amanhã ou domingo. Vale. 10-1-1930 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 40. The childish objection against scepticism that it contradicts itself may have way in the scepticism of Pyrrhon, because such scepticism is dogmatic, but fails if brought against the scepticism of the New Academy. The system of Pyrrhus, because it does not doubt itself, because it admits a certainty somewhere, contradicts itself. The thought of Genesidemus, which is not a system doubts itself even. Again when we say as a reproach to the sceptics that their system is selfcontradictory, we forget that ours also is in contradiction with itself. «All things are uncertain» says the sceptic; «then» it is replied, «it is uncertain that all things are uncertain». «Reason can find truth» we assert. But how do we know that reason can find truth? By a critique of reason. And with what do we criticize reason? With reason. Then reason proves itself? Why cannot, in the same way, doubt prove itself. Plato’s criticism of Protagoras is based upon an equal error. Plato pretends to confound Protagoras by asserting that, since the sophist holds that each man’s sensation is his truth it follows that the system of Protagoras is true only for Protagoras and therefore untrue [...] Scepticism, to begin, is not a system of philosophy. lt is not a theory of things but a theory of knowledge. The argument, so often brought against it, of a self‑contradiction is false, because a theory of knowledge cannot contradict itself. A system of philosophy may imply a contradiction, i.e. a contradiction between it and reason. But reason cannot be in contradiction with reason: neither certitude with certitude nor doubt with doubt. The usual argument against scepticism is childish and ill-conceived. Can there be a critique of scepticism? Can there be a Critique of reason? But does scepticism bear upon reason, or does it bear upon the work of reason or the data of the senses? Not, obviously, upon reason, for it is by reason that its work of destruction is done. «Reason», say the sceptics, «is powerless to attain the truth». As a means it is insufficient. But it proves itself insufficient. The argument of Pascal, that things being related in all senses, to know one completely we must know all, is at the same time false and true. In considering scepticism we have to consider 2 things: what scepticism means by truth, by thing, and what scepticism means by knowledge. For the proposition of Sc[epticism] is: «we cannot ever know anything». By thing that is required to know cannot mean things as we see them, for these we know beyond all doubt. (It cannot be the simple laws of things for these are of the same kind and are obtained by observation). It must mean the essence of things. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 75. Tudo quanto existe é um efeito e todo o efeito tem uma causa. O mundo existe, portanto é um efeito, portanto tem uma eausa. Se essa causa existe, é um efeito, e portanto tem uma causa, e assim até ao infinito. A não ser que a causa do mundo seja infinita; porque então o número infinito das causas está substituído, ou incluído, no infinito da própria causa. Mas a causa produz um efeito que se contém nela. Se a Causa do mundo é infinita, o mundo é infinito também. Havendo, porém, só uma causa e só um efeito, a Causa é Pura Causa e o efeito é Puro Efeito, havendo, porém, oposição de natureza entre a Causa e o Efeito. Sendo Causa e Efeito ambos infinitos, a oposição de natureza deve estar na natureza do Infinito. Há dois infinitos possíveis: o fora-do-número e o inumeral. Como o mundo é plural, será ele o inumeral. A Causa do mundo será o fora-do-número — o Um puro (o indivisível). Dada a oposição entre Causa e Efeito, sendo infinito o efeito vem o Puro Produzir, Causa o Puro Produzir. O Um puro e indivisível é o um não sujeito a condição alguma de divisibilidade. O Um puro não existe, portanto, no espaço, ou no tempo, ou em outra forma qualquer, susceptível de medida. [...] s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 124. Água que passa e canta Água que passa e canta É água que faz dormir... Sonhar é coisa que encanta, Pensar é já não sentir. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 114. O malmequer que colheste O malmequer que colheste Deitaste-o fora a falar. Nem quiseste ver a sorte Que ele te podia dar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 85. Tenho um livrinho onde escrevo Tenho um livrinho onde escrevo Quando me esqueço de ti. É um livro de capa negra Onde inda nada escrevi. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 56. Messieurs Hector & Henri Durville , 23, rue Saint-Merri, Paris Lisbonne, le 10 juin 1919 .Messieurs: Je vous prie d'avoir l'obligeance de m'envoyer — par retour du courrier, si c'est possible — vos catalogues complets, ainsi que des renseignements sur l'Institut du Magnétisme et du Psychisme Expérimental, et surtout sur le cours par correspondance de magnétisme personnel. Peut-être vous sera-t-il plus aisé de me donner des renseignements plus exacts, si, de ma part, je vous éclaircis, dès ce moment, sur ce que je veux et pourquoi. Je vais donc vous donner les éléments préliminaires dont vous aurez sans doute besoin pour me répondre. Inutile de vous expliquer que tout ceci n'a trait qu'a ma demande de renseignements sur le cours par correspondance, auquel je viens de faire allusion. Je veux développer, autant que possible, ce que je puisse avoir de magnétisme personnel, et je veux le développer pour donner, si cela peut se faire, une coordination directionelle extérieure à ma vie. Ceci, ainsi dit, est un peu compliqué, mais j' espère vous le rendre clair au moyen des explications qui vont suivre. Je vous renseignerai d 'abord sur mon tempérament, ensuite sur mes connaissances (d'ailleurs très faibles) ou sujet du magnétisme . Au point de vue psychiatrique, je suis un hystéroneurasthénique, mais, heureusement, ma neuropsychose est assez faible; I'élément neurasthénique domine l'élément hystérique, et cela fait que je n'aie pas de traits hystériques extérieurs — aucun besoin du mensonge, aucune instabilité morbide dans les rapports avec les autres, etc. Mon hystérie n'est qu' intérieure, elle n'est que bien:à moi; dans ma vie avec moi-même j'ai toute l 'instabilité de sentiments et de sensations, toute l'oscillation d'émotion et de volonté qui caractérisent la névrose protéiforme. Excepté dans les choses intellectuelles où je suis arrivé à des conclusions que je tiens pour sures, je change d' avis dix fois par jour; je n'ai l'esprit assis que sur des choses ou il n'y [a] pas possibilité d'émotion. Je sais que penser de telle doctrine philosophique, ou de tel problème littéraire; je n'ai jamais eu d'opinion ferme sur n’importe [le]quel de mes amis, sur n'importe quelle forme de mon activité extérieure. Cérébral intérieur [orig.: antérieure], pourtant, comme la plupart des neurasthéniques-nés, je maitrise presque toujours les résultats extérieurs, ou dynamiques, de ces manifestations intimes. II faut que je sois ou très fatigué, ou très ému, pour que mon émotivité se répande au dehors. Mon humeur est extérieurement égale: je suis presque toujours calme et gai devant les autres. En tant que telle, et parce qu'elle est sous contrôle, mon émotivité ne me fait pas de mal; je l´aime même beaucoup parce qu'elle m'est utile pour la vie littéraire que je mène à côté de ma vie pratique. Je cultive même, avec un soin un peu décadent, ces émotions autant vives que subtiles dont est faite ma vie intérieure. Je n'y veux rien changer. Le mal n´est pas là. Vous avez sans doute déjà vu ou est le point faible; un tempérament tel que je vous l'ai décrit est atteint profondément, non dans l'émotion, non dans l´intelligence, mais dans la volonté. Cette volonté souffre de par l'émotion et de par l´intelligence; je me rapporte à l'émotion telle que je la possède. L'émotivité excessive trouble la volonté; la cérébralité excessive — I'intelligence trop éprise d'analyse et de raisonnement — écrase et amoindrit cette volonté que l'émotion vient de troubler. D'ou para et a-boulie. Je veux toujours faire, à la fois, trois ou quatre choses différentes; mais au fond non seulement je ne fais, mais je ne veux pas même faire, aucune d'elles. L'action pèse sur moi comme une damnation ; agir, pour moi, c'est me faire violence. Tout ce qui en moi est exclusivement intellectuel est très fort, et même très sain. La volonté inhibitrice, qui est la volonté intellectuelle, est très ferme en moi; j'ai, même sous des sollicitations très fortes de l'émotion, la force de ne pas faire. C'est la volonté d'action, la volonté sur l'extérieur, qui me manque; c'est faire qui m'est difficile. Voyons bien le problème. C'est la concentration qui est la substance de toute volonté. Je n'ai de concentration qu'intellectuelle, c'est-à-dire, que dans le raisonnement. Quand je raisonne, je suis absolument maître: aucune émotion, aucune idée étrangère, aucun développement accessoire de ce même raisonnement n'en saurait troubler le cours ferme et froid. Mais toute autre concentration m´est ou difficile ou impossible. Ainsi c'est seulement par l'application centrifuge de cette volonté centripète que je parviens ordinairement à agir avec continuité. Mais ce procédé n'est évidemment valable que pour certains types d'action. Supposez qu'il s'agit d'écrire une lettre assez longue, une lettre commerciale compliquée; étant le gérant pour l'étranger d'une maison de commerce portugaise c'est une chose que j´ai à faire presque tous les jours. Je ne peux le faire que par un classement mental du contenu de la lettre, que par une distribution raisonnée de la matière à communiquer. Je fais ce travail très vite, et le procédé, dans un cas tel que celui-ci, a l'avantage d'être le meilleur, car la lettre n'en est que plus claire et plus convaincante. Imaginez cependant que l'on tâche d'appliquer ce procédé à une action qui soit purement action, qui ne soit purement littéraire, comme celle-là! Le résultat n'en est pas absurde que parce qu'il est nul. L'action coordinatrice devient ici tout à fait inhibitive, et l´action résultante est de ne pas agir. Il n'y a pas de stratégie des petites actions; on ne joue pas des échecs dans la réalité quotidienne. Il ne faut pas, toutefois, exagérer la portée de ces observations. Je ne suis pas tout à fait un cadavre conscient. Mais ma volonté d'action est insuffisante; elle l'est surtout si on la compare avec ma volonté d'inhibition. Cet état de l´esprit, ou plutôt du tempérament est (est-il besoin de le dire?) éminemment démagnétisateur. Ma vie psychique est une espèce de cours de démagnétisme personnel. Vous voyez donc quelle est la raison qui fait que je vous écrive et que je vous fasse subir ces considérations assez longues et assez ennuyeuses. Je veux développer ma volonté d'action, mais je veux le faire sans que mon émotion ou mon intelligence aient de quoi se plaindre. A ce que j´en sais, il n'y a qu'un procédé de développement de la volonté qui n 'écrase pas l'émotion ni ne porte pas d´attente à l´intelligence: c'est la culture magnétique (...). 10-6-1919 Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 69. O MENINO DA SUA MÃE No plaino abandonado Que a morna brisa aquece, De balas traspassado — Duas, de lado a lado —, Jaz morto, e arrefece. Raia-lhe a farda o sangue. De braços estendidos, Alvo, louro, exangue, Fita com olhar langue E cego os céus perdidos. Tão jovem! que jovem era! (Agora que idade tem?) Filho único, a mãe lhe dera Um nome e o mantivera: «O menino da sua mãe». Caiu-lhe da algibeira A cigarreira breve. Dera-lha a mãe. Está inteira E boa a cigarreira. Ele é que já não serve. De outra algibeira, alada Ponta a roçar o solo, A brancura embainhada De um lenço... Deu-lho a criada Velha que o trouxe ao colo. Lá longe, em casa, há a prece: «Que volte cedo, e bem!» (Malhas que o Império tece!) Jaz morto, e apodrece, O menino da sua mãe. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 217. 1ª publ. in Contemporânea , 3ª série, nº 1. Lisboa: 1926. I sit here, writing, at my table, my pens and my lead etc., and suddenly there comes upon me the mystery of the universe and I stop, I shudder, I fear, I wish on the moment to cease to feel, to hide myself, to dash my head against the wall. Happy the man who can think deeply, but to feel thus deeply is a curse. How to describe it? Horror on horror, (…) s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 1. XVIII Io! Io! There runs a juice of pleasure's rage Through these frames' mesh, That now do really ache to strip and wage Upon each others' flesh The war that fills the womb and puts milk in The teats a man did win, The battle fought with rage to join and fit And not to hurt or hit! Io! Io! Be drunken like the day and hour! Shout, laugh and overpower With clamour your own thoughts, lest they a breath Utter of age or death! Now is all absolute youth, and the small pains That thrill the filléd veins Themselves are edged in a great tickling joy That halts ever ere it cloy. Put out of mind all things save flesh and giving The male milk that makes living! Rake out great peals of joy like grass from ground In your o'ergrown soul found! Make your great rut dispersedly rejoice With laugh or voice, As if all earth, hot sky and tremulous air A mighty cymbal were! 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 146. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Apartado 147. Lisboa, 28 de Junho de 1930. Meu querido Camarada: Como de meu costume, escrevo-lhe à máquina, mas assim lê-se. Teria gostado de ter falado mais consigo e com o José Régio quando tive a alegria de os ver actual­mente; mas a pressa não deixou à ocasião mais que o privilégio da oportunidade. Digo o que lhes disse. Vou preparar, pormenorizadamente, o texto do primeiro vo­lume – o dos poemas – das obras do Mário de Sá­-Carneiro. Não foi só o caso, que lhes contei, de eu não ter encontrado durante algum tempo o livro manuscrito dos Indícios de Ouro; desejo confrontar esse texto com os vários textos parciais, que possuo em cartas do Sá­-‑Carneiro, que me enviava de Paris os poemas à medida que os escrevia. Já fiz a busca das cartas, e já tenho quase todos os duplicados dos últimos poemas (só dos últimos é que se trata neste escrúpulo). Conto ter tudo pronto para, durante Julho, passar à máquina o volume de poemas em seu conjunto limpo. Espero levá-los a crer na existência extra-religiosa do milagre, pelo cum­primento desta minha promessa. Há, também, o caso da minha colaboração para Presença. Repito o que lhes disse: o facto de eu não enviar colaboração constante não significa nada que ali­mente o raciocínio. São coisas entre mim e mim. Nunca vocês julguem, ou entrejulguem, que tenho qualquer razão para não enviar colaboração. É tão fácil supor atitudes em quem não é súbdito dessas desconformida­des que tenho sempre receio do que se pense, embora nunca tenha receio do que se pensa. Quando se publica o 27 da Presença?. Desejo en­viar um dos triunfais do Álvaro de Campos e mais uma coisa de meu. Pergunto isto porque não sei se vocês suspendem agora até Outubro, ou se prosseguem, quand même, nos meses débeis. Acabo de receber – acabo de receber literalmente – o número 26 de Presença, e por ele, e por coisas anexas mentalmente a ele, me ocorre pedir-lhe algumas infor­mações que a minha curiosidade me solicita. (1) O que foi o «manifesto a rir» que vocês publi­caram a desrespeito da homenagem ao António Correia de Oliveira? Gostava que vocês me mandassem esses escritos, por episódios que os considerem, sempre que os produzam e publiquem.. Gostava que vocês se lem­brassem sempre mais activamente de mim do que eu me lembro activamente das outras pessoas, embora es­teja abundantemente com elas em alma. Paguem-me o mal aparente com o bem inteiro! (2) Tinha muito empenho em conhecer o texto da conferência que v. fez no Salão dos Independentes. Supus, não sei com que fundamento instintivo, que ela viesse reproduzida neste número (o 26) de Presença. Vejo que, como sempre que tenho palpites, me enganei V. tenciona publicar em breve essa conferência? (3) O que vem a ser o conteúdo de dentro de um manifesto, assinado por três dos rapazes vossos amigos e colaboradores, de que me deram um exemplar na Li­vraria Portugália? Tenho a noção de que a explicação deve estar no verso do manifesto; mas o verso está em branco. A este último respeito, uma coisa me ocorre, mas não sei se me ocorre certa, porque não sei se haverá qualquer relação. Recebi, como você me disse que rece­beria, o livro Rampa do Adolfo Rocha. Passados uns dias – mais do que deveria ser – escrevi-lhe uma carta agradecendo o livro e dando, resumidamente, uma opi­nião. Como escrevi à pressa, para não demorar mais a resposta e o agradecimento, transferi a redacção para o Sr. Engenheiro Álvaro de Campos, cujo talento para a concisão em muito sobreleva ao meu. O resumo da minha opinião, de cuja expressão o citado engenheiro se encarregou, é de que o livro é interessante (é, real­mente, muito interessante) como sensibilidade, mas im­perfeito e incompleto como uso dela; e é o uso da sen­sibilidade, e não a própria sensibilidade, que vale em arte. Não deixei de ser elogioso, até onde pude sê-lo; para além de onde podia sê-lo, confesso que o não fui. Recebi, pouco depois, uma carta do Adolfo Rocha, que me deixou, durante um quarto de hora, perplexo sobre se deveria ou não responder. A carta é de alguém que se ofendeu na quarta dimensão. Não é bem áspera, nem é propriamente insolente, mas (a) intima-me a explicar a minha carta anterior, (b) diz que a minha opinião é a mais desinteressante que ele recebeu a res­peito do livro dele, (c) explica, em diversos ângulos obtusos, que os intelectuais são ridículos e que a era dos Mestres já passou. A carta não tinha, realmente, resposta necessária; achei pois melhor não responder. Que diabo responde­ria? Em primeiro lugar, é indecente aceitar intimações em matéria extrajudicial. Em segundo lugar, eu não pre­tendera entrar num concurso de opiniões interessantes. Em terceiro lugar, eu só poderia responder desdobrando em raciocínios as imagens de que, na minha pressa, o Sr. Engenheiro Álvaro de Campos se servira em meu nome; e isso me colocaria numa situação de prosa ainda mais intelectual e ainda mais de Mestre (com maiúscula) do que a anterior. Desisti. Patere et abstine, recomenda­vam os Estóicos. Abraça-o afectuosamente o camarada admirador e grato, Fernando Pessoa. P. S. – Que quer dizer o nome «Vasco» de uma re­vista que se publica em Marselha? 28-6-1930 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 44. Aos argumentos de Zenão de Eléa os seus contraditores opuseram só três ordens de razões, todas elas falsas: 1) Os que, como o solvitur ambulando atribuído a Diógenes o Cínico, respondem afirmando o facto aparente, o que Zenão não negou como aparente, senão como real; o que é como se eu, afirmando que «vi» o objecto de uma alucinação minha — o que é indubitável, visto que é uma alucinação minha — julgam provar com isso a sua realidade. 2) Os que explicam a sofística de Zenão como inevitável dado que se toma o espaço, ou o movimento, ou ambos, por «realidades». Tal argumento não o é; é concordar com Zenão. Ele mais não afirma que, se forem tidos o espaço e o movimento como reais, se mostrarão, como tais, absurdos, isto é, se mostrarão irreais. 3) Os que, considerando o movimento nem como coisa nem como simples conceito, o consideram todavia como relativamente coisa, como função de um corpo, por assim dizer... Nada importa esta hipótese ao argumento de Zenão. Negado o movimento como função do ser, queda pensada [?], por exclusão da única hipótese contra, a «imobilidade» como função dele. E é isso que constitui um dos pontos essenciais da metafísica dos Eleates. O essencial, na ideia de movimento, é o conceito de posição . Se consideramos a posição de um corpo como um facto estranho a ele, não poderemos responder a nenhum dos argumentos dos Eleates. Desta forma, porém, considerando a posição de um corpo, isto é, o lugar, a porção de espaço, que ocupa (relativamente a outros corpos) como um atributo do próprio corpo, como um elemento diferente da sua própria essência, teremos, ao mesmo tempo, respondido aos argumentos de Zenão e aberto uma porta nova ao problema. Porque assim o corpo que se move vai deixando de ser, por mover‑se, o mesmo corpo, visto que vai mudando de posição, e a posição é, por hipótese, um atributo, ou generalidade definidora ou delimitadora do próprio corpo. Nada se «move»: tudo muda. Chegamos, assim, ao conceito da posição como quarta dimensão. (A posição é o estado temporal de um corpo?) Durar é deslocar‑se. Nada pode durar ficando no mesmo sítio. Assim o tempo é, não uma quarta dimensão do espaço, senão a condição dessa quarta dimensão. Dizendo de outro modo: a posição, sendo a quarta dimensão de um corpo no espaço é a sua segunda dimensão no tempo. (?) O tempo não é uma condição do espaço, senão uma condição do conhecimento — e por isso do conhecimento do espaço. O que espacialmente é mudança de posição é temporalmente mudança de ser. (?) O movimento é o nome que damos ao facto de um corpo deixar de ser o que é essa coisa das duas dimensões, que é a posição. — Mas nas outras, permanece o mesmo? Há corpos simultâneos? Se os há, como o são? O tempo é dimensão de cada corpo? Que quantidade de tempo? O tempo é sinónimo, ou não, de simples existência? Se o tempo fosse uma dimensão não haveria corpos simultâneos. É só «instantaneamente», ou, antes extra‑temporalmente que qualquer corpo existe. O tempo ´faz» com que seja outro corpo. O tempo é uma antidimensão. Toda a linha recta é portanto recta logo que não «dure». Tudo quanto é expresso em termos de tempo, é expresso em termos de aquilo, em termos do que nada pode ser expresso. Serão o tempo e o espaço coordenadas? (O destino de cada ser determinável por elas). (A astrologia explicável como esta coordenação?) A metafísica é uma geometria, ou supergeometria, a três coordenadas — tempo, espaço e ser (consciência)? («Zenão de Eleia, e o Problema do movimento»). A esfera como infinita, ou centros como infinitos. Mas o raio da esfera? s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 80. Swedenborg’s treatment of Cause is very extraordinary. His disciples call mechanichal production of otherness «sequence» and state that Cause is originating power. This does not make, as would appear, a revolution in philosophy: it is only a change of philosophical nomenclature. If in geometry I call a triangle ABC, it is to doubted whether a great geometrical revolution is caused when another man calls it DEF. I call a table a table , but I might call it a door without mischief (except to philology). The word «table» does not contain the idea of table but only five letters T, A, B, L, E, making a certain sound. Is cause unproduced originating power? Absolute cause is without doubt. Is the Absolute cause the only cause existing? Not in our sense. Let us see the rules of Cause: 1. What is Cause? (in the common philosophical meaning of the word). Cause is that by which (in time and in space) a phenomenon is, and without which it would not have been. (Remark: l say «in time and in space» because time and space are conditions of a phenomenon’s existence). 2. Cause is exterior and anterior to effect (by definition) . Another proof. (a) Cause is in space and in time. 3. Cause of same nature as effect. First law . Cause is exterior and anterior to effect. Cause and effect being in space and in time, if anything were not anterior and exterior to its cause, it were synchronous and in the same place (for cause after is not conceivable) it were its own cause, that is, had no cause at all — which is absurd. 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 125. Deste-me um adeus antigo Deste-me um adeus antigo À maneira de eu não ser Mais que o amigo do amigo Que havias de poder ter. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 114. Ó sino da minha aldeia, Dolente na tarde calma, Cada tua badalada Soa dentro da minha alma. E é tão lento o teu soar, Tão como triste da vida, Que já a primeira pancada Tem o som de repetida. Por mais que me tanjas perto Quando passo, sempre errante, És para mim como um sonho. Soas-me na alma distante. A cada pancada tua Vibrante no céu aberto, Sinto mais longe o passado, Sinto a saudade mais perto. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 93. 1ª publ. in Renascença . Lisboa: Fev. 1924. Comi melão retalhado Comi melão retalhado E bebi vinho depois, Quanto mais olho p’ra ti Mais sei que não somos dois. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 86. Olhos tristes, grandes, pretos, Olhos tristes, grandes, pretos, Que dizeis sem me falar Que não há filhos nem netos De eu não querer amar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 56. Sucede que tenho precisamente aquelas qualidades que são negativas para fins de influir, de qualquer modo que seja, na generalidade de um ambiente social. Sou, em primeiro lugar, um raciocinador, e, o que é pior, um raciocinador minucioso e analítico. Ora o público não é capaz de seguir um raciocínio, e o público não é capaz de prestar atenção a uma análise. Sou, em segundo lugar, um analisador que busca, quanto em si cabe, descobrir a verdade. Ora o público não quer a verdade, mas a mentira que mais lhe agrade. Acresce que a verdade — em tudo, e mormente em coisas sociais — é sempre complexa. Ora o público não compreende ideias complexas. É preciso dar-lhe só ideias simples, generalidades vagas, isto é, mentiras, ainda que partindo de verdades; pois dar como simples o que é complexo, dar sem distinção o que cumpre distinguir, ser geral onde importa particularizar, para definir, e ser vago em matéria onde o que vale é a precisão — tudo isto importa em mentir. Sou, em terceiro lugar, e por isso mesmo que busco a verdade, tão imparcial quanto em mim cabe ser. Ora o público, movido intimamente por sentimentos e não por ideias, é organicamente parcial. Não só portanto lhe desagrada ou não interessa, por estranho à sua índole, o mesmo tom da imparcialidade, mas ainda mais o agrava o que de concessões, de restrições, de distinções é preciso usar para ser imparcial. Entre nós, por exemplo, e em a maioria dos povos do sul de Europa, ou se é católico, ou se é anti-católico, ou se é indiferente ao catolicismo, porque a tudo. Se eu, portanto, fizesse um estudo sobre o catolicismo, onde forçosamente teria que dizer mal e bem, que apontar vantagens misturadas com desvantagens, que indicar defeitos aliviados por virtudes, que me sucederia? Não me escutariam os católicos, que não aceitariam o que eu dissesse de mal do catolicismo. Não me escutariam os anti-católicos, que não aceitariam o que eu lhes dissesse de bem. Não me escutariam os indiferentes, para quem todo o assunto não passaria de uma maçadoria ilegível. Assim resultaria inútil esse meu estudo, por cuidado e escrupuloso que fosse — direi, até, tanto mais inútil, porque tanto menos aceitável ao público, quanto mais fosse cuidado e escrupuloso. Seria, quando muito, apreciado por um ou outro indivíduo de índole semelhante à minha, raciocinador sem tradições nem ideais, analisador sem preconceitos, liberal porque liberto e não porque servo da ideia inaplicada da liberdade. A esse, porém, que teria eu que ensinar? Quando muito, certas coisas particulares sobre o catolicismo, na hipótese que me serviu de exemplo, e no caso de lhe ser a ele estranho o assunto. E se a ele, perscrutador cultural como eu, o assunto é estranho, é que nunca o interessou; se nunca o interessou, para que vai ler o que escrevi sobre ele? De aqui parece dever concluir-se que um estudo raciocinado, imparcial, cientificamente conduzido, de qualquer assunto é um trabalho socialmente inútil. Assim de facto é. É, quando muito, uma obra de arte, e mais nada. Vox et preterea nihil. As sociedades são conduzidas por agitadores de sentimentos, não por agitadores de ideias. Nenhum filósofo fez caminho senão porque serviu, em todo ou em parte, uma religião, uma política ou outro qualquer modo social do sentimento. Se a obra de investigação, em matéria social, é portanto socialmente inútil, salvo como arte e no que contiver de arte, mais vale empregar o que em nós haja de esforço em fazer arte, do que em fazer meia-arte. Reconhecendo que todas as doutrinas são defensáveis, e que valem, não por o que valem, senão pela valia do defensor, concentrar-nos-emos mais na literatura das defensivas do que no assunto delas. Faremos contos intelectuais onde, pelo primeiro e imprudente impulso, faríamos estudos científicos. Ser-nos-á indiferente a verdade da ideia: em si mesma; não é mais que a matéria para um belo argumento, para as elegâncias e as astúcias da subtileza. Timbraremos, por um movimento idêntico em sentido inverso, em mostrar a parvoíce das ideias aceites, a vileza dos ideais nobres, a ilusão de tudo quanto o povo crê ou pode crer. Salvaremos assim o princípio aristocrático, que na ordem social se afundou, deixando atrás de si o vácuo de uma universal, monótona escravidão. Seremos dissolventes? Como dissolventes, se não temos acção sobre o público, se nos não lêem senão os que lêem arte pela arte, arte intelectual, arte feita com ideias em vez de ritmos, e esses, pequeníssimo número humano, ou estão já dissolvidos, ou são fortes, pela. inteligência e a cultura, contra toda a dissolução? Dissolvente, socialmente, é a doutrina social do que não está. Foi dissolvente e anti-social, no sentido de prejudicar a ordem e a harmonia dos povos, o cristianismo quando o paganismo era a civilização. Foi dissolvente e anti-social a Reforma, quando a civilização de Europa era católica. Foi dissolvente e anti-social a doutrina da Revolução Francesa, quando a civilização da Europa era o Antigo Regime. São hoje dissolventes todas as doutrinas sociais que reagem contra as dessa mesma Revolução. Quem hoje prega a sindicação, o estado corporativo, a tirania social, seja fascismo ou comunismo, está dissolvendo a civilização europeia; quem defende a democracia e o liberalismo a está defendendo. Quer isto dizer que não há doutrinas dissolventes senão por sua situação ocasional? Quer dizer isso mesmo. A mais «radical» das doutrinas, desde que seja universalmente aceite, é uma doutrina conservadora; a mais «conservadora», se nessa altura se opuser àquela, será radical. Quer isto dizer que não há princípios fundamentais na vida das sociedades? Não quer dizer isso; quer porém dizer que, se os há, nós os não conhecemos. Não há ciência social, não sabemos como nascem, como se conservam ou não conservam, como crescem ou decrescem, como se estiolam ou morrem, as sociedades. A existência da humanidade, se por ela se entende qualquer coisa mais que a espécie animal chamada homem, é tão hipotética e racionalmente indemonstrável como a existência de Deus. Se, porém, por humanidade, se entende a espécie animal chamada homem, então existe para os biologistas, para os médicos — para todos quantos estudam, de um modo ou de outro, o corpo humano; existe como existem os peixes e as aves, e mais nada. Que princípio social se pode erigir em fundamental? Todos e nenhum, conforme a habilidade do argumentador. Há períodos de ordem que o são de estagnação, como a longa vida morta de Bizâncio. Há-os que são «de actividade intelectual, como os da Antiga Monarquia francesa. Há períodos de desordem que são a ruína intelectual dos países em que se dão, como o Império Romano em declínio, ou a época da Revolução Francesa, propriamente dita. Há períodos de desordem fecundos em produção intelectual, como o da Renascença nas repúblicas italianas, como o que abrange o tempo de Isabel e de Cromwell em Inglaterra. Refiro-me à produção intelectual, supondo-a uma vantagem, e, ao menos, parte da civilização. Não insisto nisso, porém, e posso aceitar a doutrina de que a cultura e a arte são um mal, de que é paz e não sonetos o que mais importa à humanidade. Mas quais são as circunstâncias que produzem a paz, quais as que a não produzem? Encontraremos as mesmas causas dando diferentes efeitos, ou, melhor, encontraremos as mesmas circunstâncias com diferentes resultados — o que quer dizer que não são causas, mas coincidências, que qualquer coisa que se considera uma vantagem social, seja uma sinfonia ou o jantar certo, pode aparecer em circunstâncias sociais diferentes, sem que saibamos nunca de onde veio a sinfonia, porque é que se conseguiu que o jantar não faltasse. Acresce que, assim como não há ciência social, assim também não há arte social, finalidade certa da existência das sociedades. Aqui o problema, que era semelhante ao da metafísica, torna-se metafísica mesmo. Para que fim existem as sociedades? Para fazer a felicidade dos que as compõem? Não o sabemos, e o certo é que a felicidade varia de tipo de homem para homem, e há muitos que de bom grado perderiam a mulher, desde que não percam a colecção de selos. (...) s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 74. MARINHA Ditosos a quem acena Um lenço de despedida! São felizes: têm pena... Eu sofro sem pena a vida. Doou-me até onde penso, E a dor é já de pensar, Órfão de um sonho suspenso Pela maré a vazar... E sobe até mim, já farto De improfícuas agonias, No cais de onde nunca parto, A maresia dos dias. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 219. 1ª publ. in Presença , nº 5. Coimbra: Jun. 1927. BABEL — OR THE FUTURE OF SPEECH. A real man cannot be, with pleasure and profit, anything more than bilingual. One language, even if carefully codified in its rules and precisions, is difficult enough to hold and spread out; two are the human limit for any man who is not born to suicide as a philologist of the useless. We must make English the Latin of the wider word. To that end not only does a great population concur, but also a great literature and a great power of a still greater literature. Temos que pactuar com a realidade. Não podemos fazer da língua portuguesa o privilégio da humanidade. Podemos, porém, convertê-la em metade de tal privilégio. Os Deuses não nos concedem mais: não podemos aspirar a mais. Concentremo-nos no português, como ele se houvesse de ser tudo; não esqueçamos porém que ele pode não ser mais que metade de tudo. O Quinto Império todo pelo espírito — metade pelo verbo. Usando do inglês como língua científica e geral, usaremos do português como língua literária e particular. Teremos, no império como na cultura, uma vida doméstica e uma vida pública. Para o que queremos aprender leremos inglês; para o que queremos sentir, português. Para o que queremos ensinar, falaremos inglês; português para o que queremos dizer. Just so different and so renovated by the order will soon be [...] to the particular. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 43. Into the life of no man has the mystery of the world entered so much. So familiarly, might I say. The mys[tery] of the w[orld] finds not alone my thought, but my feeling also. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 2. XIX Set the great Flemish hour aflame! Your senses of all leisure maim! Cast down with blows that joy even where they hurt The hands that mock to avert! Al things pick up to bed that lead ye to Be naked that ye woo! Tear up, pluck up, like earth who treasure seek, When the chest's ring doth peep, The thoughts that cover thoughts of the acts of heat This great day does intreat! Now seem all hands pressing the paps as if They meant them juice to give! Now seem all things pairing on one another, Hard flesh soft flesh to smother, And hairy legs and buttocks balled to split White legs mid which they shift. Yet these mixed mere thoughts in each mind but speak The day's push love to wreak, The man's ache to have felt possession. The woman's man to have on, The abstract surge of life clearly to reach The bodies' concrete beach. Yet some work of this doth the real day don. Now are skirts lifted in the servants’ hall, And the whored belly's stall Ope to the horse that enters in a rush, Half late, too near the gush. And even now doth an elder guest emmesh A flushed young girl in a dark nook apart, And leads her slow to move his produced flesh. Look how she likes with something in her heart To feel her hand work the protruded dart! 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 148. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Apartado 147. Lisboa, 4 de Julho de 1930. Querido Camarada: Muito obrigado pela sua carta de 30 de Junho. Aí vai a colaboração, minha e do Álvaro de Campos, para o próximo número da Presença. Se os interessa, poderei mandar para todos os números de oravante, mas peço que me façam uma espécie de advertência sobre a saída deles, para eu ter uma lembrança que me leve pelo braço até à realização. O que lhe envio do Álvaro de Campos não é, afinal, uma das «triunfais», mas não quero demorar mais. A data está fictícia; escrevi esses versos no dia dos meus anos (de mim), quer dizer a 13 de Junho, mas o Álvaro nasceu a 15 de Outubro, e assim se erra a data para certa. Obrigado também pelo manifesto, que é engra­çado, mas (suponho) local, visto que parte alude inten­sivamente. E obrigado pela indicação sobre a Seara; já tenho o primeiro número onde vem a conferência. De aqui a pouco escrevo-lhe de novo. Dê afectuosas lembranças minhas ao José Régio, se ele aí estiver ou se lhe escrever. Um abraço amigo e grato do Fernando Pessoa. 4-7- 1930 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 48. Dias são dias, e noites Dias são dias, e noites São noites e não dormi... Os dias a não te ver As noites pensando em ti. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 38. O argumento de Zenão não nega o movimento no universo: afirma apenas que o facto de haver movimento no universo mostra que o universo não é uma realidade absoluta, não é o ser — porque o movimento não é (o argumento prova‑o) característica do real, do ser. 1908? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 83. The idea of Cause is a product of experience , is not a priori . Problem of the first Cause. Causing is but transmitting motion (or, alteration). The first Cause must be that which is immutable. Aristotle was right in the essence of his argument. But that which is immutable is Force . Now Force is not, as the speculators of the schools thought, a primary thing which acts and ceases, leaving the world to a force-less motion. Wherever there is motion there also is Force: motion is its material side, its shadow, its representation. Force is not even a thing that exists and ceases to exist to live as motion. Force is motion and motion is force. Force is power; motion is act. Force (Energy) being extra time and space, science and theology are both right one in declaring it immanent, for so, in a sense it is, the other in making it anterior to the world, in time and in space. Act (Motion) is the manifestation of Power (Energy). But Power cannot, in being manifested, become other than itself (unless it contains in itself both contraries). Power = Act. 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 128. Linda noite a desta lua, Linda noite a desta lua, Lindo luar o que está A fazer sombra na rua, Por onde ela não virá. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 114. Trazes um lenço novinho Trazes um lenço novinho Na cabeça e a descair, Se eu te beijar no cantinho Só saberá quem nos vir. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 86. Meu coração a bater Meu coração a bater Parece estar-me a lembrar Que, se um dia te esquecer, Será por ele parar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 56. Caixa Postal 147 Lisboa, 10 de Outubro de 1935 Meu caro Tomás Colaço: De há muito tempo que estou para lhe escrever, e de há muito antes do «estar para» lhe devia ter escrito. Mas o já longo corte de relações entre mim e a mais elementar decência social produz destes resultados; do que lhe diz respeito lhe venho pedir que me desculpe. Sobretudo lhe deveria já ter escrito para lhe agradecer a amabilidade do contínuo envio do Fradique, e para lhe pedir que o não continue a fazer. Não assino, pois nada assino, mas compro avulso. Se compro avulso, e sempre, O Diabo e Bandarra porque não hei-de fazer o mesmo com Fradique? Entendido? E outra vez muito obrigado. Já agora desejo felicitá-lo por o que tem conseguido fazer do Fradique, que é, verdadeiramente, o único semanário literário — ou, até, a única publicação jornalística literária, que temos, fazendo porém uma excepção vaga mas, a meu ver, justa em favor do Suplemento Literário do Diário de Lisboa. Não que esse iguale, ou sequer se aproxime, do Fradique, mas sempre é literário. O resto... Uma coisa que me tem preocupado um pouco, com respeito a V., é se estaria melindrado por eu nunca mais ter aparecido com colaboração, que, aliás, lhe prometera. Deverá V. porém ter reparado que não tenho colaborado em parte alguma. Salvo erro, desde 4 de Fevereiro — data em que publiquei no Diário de Lisboa o artigo Associações Secretas — não publiquei senão um breve poema na revista Momento, revista de rapazes, revista simpática, mas, parece-me, muito mais secreta que as «associações» acima citadas. O facto é que, desde o ano passado, tenho estado sob o influxo de estados nervosos de diversas formas e feitios, que por um longo período me arrancaram da vontade até o desejo de não fazer nada. Tenho-me sentido uma espécie de filme psíquico de um manual de psiquiatria secção psiconevroses. Só agora começo a emergir lentamente para qualquer coisa vagamente parecida com actividade. Tanto assim que finalmente lhe estou escrevendo. Estou agora elaborando e completando várias coisas que, durante o período a que me referi, deixei esboçadas firmemente e incompletei com vigor. Logo que haja qualquer coisa pronta, que me pareça que lhe possa convir para o Fradique, envio-lha ou levo-lha. Isto se V. quiser, bem entendido. E pode contar que será para o Fradique o que primeiro tiver pronto, e, naturalmente, convenha ao seu semanário. Reparo agora que estou falando um pouco no estilo de quem vai fornecer Hamlets em pílulas ou Paraísos Perdidos em comprimidos; e não quero que V. vá descobrir até nestas linhas maquinadas de uma carta particular uma daquelas minhas afirmações de valia própria que V. descobriu que eram um dos meus característicos distintivos. Onde diabo foi V. buscar isso? Já que falei nisto, quero agradecer-lhe a sua crítica à Mensagem. Nela foi V., a meu ver, bom crítico, porque de facto criticou, justificando o que dizia; foi amável, porque não carregou a nota, fácil de carregar adentro do seu critério; e foi, até, bom jornalista, porque exprimiu o que muita gente sente, senão a meu respeito, pelo menos a respeito da Mensagem , ou de como eu sou na Mensagem. Uma coisa: porque se zangou V. tanto com o meu artigo em defesa da Maçonaria? Li o seu artigo, ou carta aberta, duas — não, três — vezes, e não consegui nem perceber o que V. estava dizendo (coisa rara de suceder com o que V. escreve), nem porque é que V. escrevia essas coisas que eu, pelo menos, não percebi. Bem, não lhe levo isso a mal. E, se o levasse, ou, antes, tivesse levado, teria ficado em pleno estado de vingança com o admirável artigo Não! de Rolão Preto. Aliás, nessa história da Maçonaria e anti-Maçonaria, foi o Fradique que marcou, e o único que marcou. Publicou os dois únicos artigos com jeito sobre o assunto — ambos, embora diversamente, concordando comigo. Um é esse do Rolão, que já citei; outro é o do Manuel Maia Pinto (O «T.D.»), que, embora conheça o assunto às manchas e irregularmente, ao menos alguma coisa conhece dele. Nova e especial razão para eu o felicitar. Abraça-o o seu amigo e admirador verdadeiro, ............................. 10-10-1935 Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 80. QUALQUER MÚSICA Qualquer música, ah, qualquer, Logo que me tire da alma Esta incerteza que quer Qualquer impossível calma! Qualquer música — guitarra, Viola, harmónio, realejo... Um canto que se desgarra... Um sonho em que nada vejo... Qualquer coisa que não vida! Jota, fado, a confusão Da última dança vivida... Que eu não sinta o coração! s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 220. 1ª publ. in Presença , nº 10. Coimbra: Mar. 1928. Rua S. Bento, 98, 2. 0 , Lisbon, Portugal 2lst. February, 1906. The Editor «Punch», Bonverie Street, London. Sir, I submit the poem enclosed to your appreciation. In it I have tried merely to attain the ridiculous by the union of the serious and of the grotesque. I have attempted, moreover, to link the ridiculousness of expression thus produced to a lofty, elegiac verse-movement. You will judge how far I have succeeded. I am aware that my manuscript should have been typewritten, but my means do not allow it. I am further conscious that I have no literary experience (none can be expected from a boy of sixteen); and that, for this reason, in the writing of my manuscript I may have injuried Convention rudely: all this I hope will be excused. I have signed my manuscript with a pseudonym; but when a foreigner writes anything — especially a poem — it is better not to father it directly. If my poem be refused, I am afraid you must put it in the waste-paper basket, inasmuch as English stamps are here unobtainable. In hope of success, however, I enclose what I can — an addressed envelope. Awaiting your decision, I am, Sir, Yours faithfully, F.A.N. Pessoa. 21-2-1906 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 44. I sometimes am struck with an astonished fear at my inspirations, at my thoughts, realizing how little of myself is mine (or, is myself). s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 3. XX But these are thoughts or promises or but Half the purpose of rut, And this is lust thought-of or futureless Or used but lust to ease. Do ye the circle true of love pretend, And, what Nature, intend! Do ye actually ache The horse of lust by reins of life to bend And pair in love for love's creating sake! Bellow! Roar! Stallions be or bulls that fret On their seed's hole to get! Surge for that carnal complement that will Your flesh's young juice thrill To the wet mortised joints at which you meet The coming life to greet, In the tilled womb that will bulge till it do The plenteous curve of spheric earth renew! 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 150. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Meu querido Camarada: Já que tenho mantido tão brilhantemente a minha tradição de demorar tudo, quero também manter a tra­dição derivada de lhe pedir desculpa de o fazer. Mando-lhe uma composição minha – aliás feita on­tem – para a Presença ; mas realmente não sei se ainda chegará a tempo. Chamo a sua atenção para um pormenor que é preciso vigiar nas provas – o qual pormenor é dois por­menores. Trata-se de não esquecer as aspas que marcam o poema como «dramático», isto é, falado por terceira pessoa, e de verificar que, como essa pessoa é mulher (e, digamos, bruxa), os adjectivos não saiam no mas­culino onde a pessoa falante se refere a si mesma. Uma advertência: este poema é uma interpretação dramática da «magia de transgressão». Se, por alguma circunstância, achar melhor não o publicar, não hesite em não o publicar. Cerca do fim do mês conto poder escrever-lhe mais demoradamente. Creia sempre na amizade e na admiração do seu muito dedicado, Fernando Pessoa. Lisboa, 16 Out. o 1930. 16-10-1930 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 49. SOCRATES Anaxagoras had said that the true primary Cause was not physical but intellectual. Socrates goes beyond him (v. Plato’s Phaedo) and holds that if such a Cause can choose a thing in preference to another it is for some reason, and this reason cannot but be good, for the supreme intellect would reason ill if it chose for any other reason. To be perfect intelligence the  must choose the good. But, choosing the good, it cannot itself but be good. (Such a cause must act for a certain end — else it were no perfeet intelligence, no Cause at all — and, acting for a certain end must act for the best end possible, else it were not a Perfect Intelligence or a Perfect Cause.) But, acting by its reason for good, the Primary Cause, identifies itself with good. Perfect Intelligence thus supposes all‑goodness. 1912? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 83. O papagaio do paço O papagaio do paço Não falava — assobiava. Sabia bem que a verdade Não é coisa de palavra. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 114. E ao acabar estes versos E ao acabar estes versos Feitos em modo menor Cumpre prestar homenagem À bebedeira do cantor. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 86. Quantas vezes a memória Quantas vezes a memória Para fingir que inda é gente, Nos conta uma grande história Em que ninguém está presente. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 57. Leve, breve, suave, Um canto de ave Sobe no ar com que principia O dia. Escuto, e passou... Parece que foi só porque escutei Que parou. Nunca, nunca, em nada, Raie a madrugada, Ou esplenda o dia, ou doire no declive, Tive Prazer a durar Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir Gozar. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 95. 1ª publ. in Athena , nº 3. Lisboa: Dez. 1924. Não é que não publique porque não quero: não publico porque não posso. Não se entendam estas palavras como dirigidas contra a Comissão de Censura; ninguém tem menos razão de queixa do que eu dessa Comissão. A Censura obedece, porém, a directrizes que lhe são superiormente impostas; e todos nós sabemos quais são, mais ou menos, essas directrizes. Ora sucede que a maioria das coisas que eu pudesse escrever não poderia ser passada pela Censura. Posso não poder coibir o impulso de escrevê-las; domino facilmente, porque não o tenho, o impulso de as publicar nem vou importunar os Censores com matéria cuja publicação eles teriam forçosamente que proibir. Sendo assim para quê publicar? Privado de poder publicar o que deveras interessará o público, que empenho tenho eu em levar a um jornal qualquer o que, por ilegível, lhe não serve, ou que (...) Posso, é certo, dissertar livremente (e, ainda assim, só até certo ponto e em certos meios) sobre a filosofia de Kant (....) 1934? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 83. DEPOIS DA FEIRA Vão vagos pela estrada, Cantando sem razão À última esperança dada À última ilusão. Não significam nada. Mimos e bobos são. Vão juntos e diversos Sob um luar de ver, Em que sonhos imersos Nem saberão dizer, E cantam aqueles versos Que lembram sem querer. Pajens de um morto mito, Tão líricos!, tão sós!, Não têm na voz um grito, Mal têm a própria voz; E ignora-os o infinito Que nos ignora a nós. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 221. 1ª publ. in Presença , nº 16. Coimbra: Nov. 1928. Apartado 147, Lisboa, 15 de Fevereiro de 1934. Meu caro Thomaz Colaço: Desculpe, novamente, a máquina, mas hoje estaria ilegível se escrevesse em verdadeiro escrever, dada a pressa com que tenho que fazer tudo. Recebeu a minha carta, escrita há dias, dizendo que até ao fim da semana (a passada) receberia um novo escrito meu e uma nota em inglês — a tal que lhe convinha? Pois, quanto ao escrito, verifiquei definidamente que estou totalmente desadaptado de escrever com simplicidade. Já do nosso confrade William Shakespeare dizia alguém — o Guizot, creio — que conseguira escrever em todos os estilos, excepto o simples. Assim, ao menos, estou mal em boa companhia. Acho melhor abster-me d'esse género de colaboração. Relendo, ainda ontem, para mim, O Homem de Porlock*, tal qual o escrevi, verifiquei a razão que v. tinha em me pedir para não ir mais longe em dificuldade, mas, ao mesmo tempo, a sua gentileza em me não indicar que tinha ido já longe de mais. Quanto à tal nota em inglês, vou ver o que posso fazer. Conhecendo já melhor — de visu, por assim dizer, e porque é certo assim dizer — a índole de Fradique, talvez consiga arranjar qualquer coisa em inglês que se aproveite. Conto poder enviar-lhe essa tal nota até sábado, ou segunda-feira o mais tardar. Digo «talvez consiga» porque, por qualquer motivo que ignoro, consigo, em geral, ser mais simples em inglês do que em português. Acho que essa Nota deverá ser publicada sem assinatura, dada a sua índole e o fim a que se destina. Não posso prometer-lhe que conseguirei, mas vou tentar. Camarada admirador, 15-2-1934 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 45. Most horrid of all my inability to formulate, not even within myself some system of life or philosophy. I now would think my frame inhabited by the soul of some dead poet, [...] s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 4. XXI And ye , that wed to-day, guess these instincts Of the concerted group in hints Yourselves from Nature naturally have, And your good future brave! Close lips, nude arms, felt breasts and organ mighty, Do your joy's night work rightly! Teach them these things, O day of pomp of heat! Leave them in thoughts suvh as must make the feat Of flesh inevitable and natural as Pissing when wish doth press! Let them cling, kiss and fit Together with natural wit, And let the night, coming, teach them that use For youth is in abuse! Let them repeat the link, and pour and pour Their pleasure till they can no more! Ay let the night watch over their repeated Coupling in darkness, till thought's self, o'erheated, Do fret and trouble, and sleep come on hurt frames, And, mouthing each one's names, They in each other's arms dream still of love And something of it prove! And, if they wake, teach them to recommence, For an hour was far hence; Till their contacted flesh, in heat o'erblent With joy, sleep sick, while, spent The stars, the sky pale in the East and shiver Where light the night doth sever, And with clamour of joy and life's young din The warm new day come in. 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - . 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Apartado 147. Lisboa, 22 de Outubro de 1930. Meu querido Gaspar Simões: Muito e muito obrigado pela sua gentilíssima carta. Como me haveria de desagradar que me honrasse com um comentário ao meu poema? Nada nisso me pode desagradar senão o intervalo entre a sua carta e a visão do escrito impresso na Presença. Quando sai este nú­mero? Como vê, sou directamente modesto, mas com­penso-o com ser, como de facto sou, gratíssimo à sua amizade constante e à sua simpatia animadora. A advertência de publicar ou não o poema deri­vou-me, simplesmente, de eu não poder prever, por não ter elementos para a conhecer, a sua atitude perante assuntos como aquele em que o poema assenta. Podia bem ser que esses assuntos lhe fossem – a si, ou a outrem da Presença – repugnantes ou antipáticos ; e eu não queria que se constrangessem a publicar qual­quer escrito meu que lhes não merecesse simpatia, não só estética, mas também, por assim dizer, pessoal. Sucede que, por eliminar sempre os envelopes das cartas que recebo, dirigi a minha carta anterior para o antigo endereço da Presença, pois o seu novo endereço existia somente – como fora de horas me lembrei – no verso de um dos envelopes eliminados. Na impossibili­dade de recordar esse novo endereço, dirigi a minha carta para a antiga morada, calculando que houvesse aviso, no correio, para a transmissão. Desculpe-me se houve com isto qualquer transtorno ou demora. Regis­tro o seu endereço presente, e o envelope desta carta já vai certo. (Este último parágrafo é bastante intelec­tual, não é?) Creia sempre na amizade e na admiração do camarada muito dedicado e grato, Fernando Pessoa. 22-10-1930 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 51. PHILOSOPHY OF PLATO Shall we say that acts (thingts) are just and good, and that justice and truth do not exist? Can just acts, good actions precede justice, goodness? — Now either these acts are thus in themselves, just and good; or they are just and good only relatively, only in so far as they are perceived, that is to say, or it is the human mind or the human organization that produces them (at least in collaboration with the object). If the acts be in themselves just and good, since it is not only they which possess goodness and justness, how are they good and just? If these acts be only relatively just and good how are they relatively just and relatively good? Because we have in us something to judge things thus. Now since one act is more just than another, since one thing is more extended than another, if this be the product of our mind plus the object,  what part is the object’s, what part our mind’s? Now e observe that in the objects as thus perceived, there are 2 elements: justice and a quantity of justice, in the one case; in the other, extension, space and a certain amount of space. Which of these is the part of the subject, which of these has origin in the object? One of them, we notice, is constant; the other varies. 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 84. Toda a noite, toda a noite, Toda a noite, toda a noite, Toda a noite sem pensar... Toda a noite sem dormir E sem tudo isso acabar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 86. «The central problem of philosophy is philosophy itself posited as problem». Why do you need philosophy? The fundamental idea of Being, or of Reality, or of Truth: this is what we seek in philosophy. Philosophy is the search for Being. What is Being, what is Reality? This is the problem of philosophy. If we could solve it by our mode of reasoning, i. e., by a relation subject‑object (...) Judgements. Analytic and synthetic. How are synthetic judgements a priori possible? How are they possible of Being? All systems of metaphysics (what is called) are those which affirm something of Being, or that something is Being. 1908? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 22. Não digas que, sepulto, já não sente O corpo, ou que a alma vive eternamente. Que sabes tu do que não sabes? Bebe! Só tens de certo o nada do presente. Depois da noite, ergue-se do remoto Oriente, com um ar de ser ignoto, Frio, o crepúsculo da madrugada... Do nada do meu sono ignaro broto. Deixa aos que buscam o buscar, e a quem Busca buscar julgar que busca bem. Que temos nós com Deus e ele connosco? Com qualquer coisa o que é que uma outra tem? Sultão após sultão esta cidade Passou, e hora após hora a vida, que há-de Durar nela enquanto ela aqui durar, Nem ao sultão ou a nós deu a verdade. 30-5-1931 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 65. Trazes o vestido novo Trazes o vestido novo Como quem sabe o que faz. Como és bonita entre o povo, Mesmo ficando para trás! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 57. Primeiro Fausto. Segundo Fausto. Terceiro Fausto. Inês de Castro. Leonor Teles. Sebastião. Teomaquia. Cancioneiro. Itinerário. Legendas. Teatro Menor (d. v.) O Comboio do Sul. Comentário Maior às Profecias do Bandarra. Introdução ao Problema Português. Autos. Antíteses. Na Farmácia do Evaristo. Contos. Shakespeare (tradução). Ilíada (tradução). Odisseia (tradução). Divina Comédia (tradução). Paraíso Perdido (tradução). Eneida (tradução). Prometheus Revinctus. The Duke of Parma. Poems. Alberto Caeiro. Ricardo Reis. Álvaro de Campos (prosa e versos). s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 87. ABAT-JOUR A lâmpada acesa (Outrem a acendeu) Baixa uma beleza Sobre o chão que é meu No quarto deserto Salvo o meu sonhar, Faz no chão incerto Um círculo a ondear. E entre a sombra e a luz Que oscila no chão Meu sonho conduz Minha inatenção. Bem sei... Era dia E longe de aqui... Quanto me sorria O que nunca vi! E no quarto silente Com a Luz a ondear Deixei vagamente Até de sonhar... 28-2-1929 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 223. I see everywhere, not indeed the abstract, but the non-concrete: this is the nature of my abstraction of spirit — not the infinite but the not-finite. In this manner I who was ever in pure abstraction saw nothing but objects in themselves. I fear all things, true, but all things not in all ways, but in one way only, abstractly and dreamingly, as with an opium-eater's consciousness. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 5. I Whether we write or speak or do but look We are ever unapparent. What we are Cannot be transfused into word or book. Our soul from us is infinitely far. However much we give our thoughts the will To be our soul and gesture it abroad, Our hearts are incommunicable still. In what we show ourselves we are ignored. The abyss from soul to soul cannot be bridged By any skill ol thought or trick of seeming. Unto our very selves we are abridged When we would utter to our thought our being. We are our dreams of ourselves, souls by gleams, And each to each other dreams of others' dreams. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 156. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Puseste um vaso à janela. Puseste um vaso à janela. Foi sinal ou não foi nada, Ou foi p’ra que pense em ti Que te não importas nada? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 87. 1. A República Nova. 2. Open Letter. 3. Impermanence. 4. Diálogos sobre a Tirania. 5. Portugal. .—. Caeiro. O Regresso dos Deuses — Fernando Pessoa. R. Reis. d) Prolegómenos a uma reformação do Paganismo — António Mora. e) Novas Odes — R. Reis. .—. Prometheus Revinctus [Poema em inglês, réplica ao «Prometheus Unbound», de Shelley, de que existem vários fragmentos no espólio]. Itinerário. Livro do Desassossego. Ligeia. e) D. Sebastião. 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 88. Trazes a rosa na mão Trazes a rosa na mão E colheste-a distraída... E que é do meu coração Que colheste mais sabida? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 38. GOMES LEAL Sagra, sinistro, a alguns o astro baço. Seus três anéis irreversíveis são A desgraça, a tristeza, a solidão. Oito luas fatais fitam no espaço. Este, poeta, Apolo em seu regaço A Saturno entregou. A plúmbea mão Lhe ergueu ao alto o aflito coração, E, erguido, o apertou, sangrando lasso. Inúteis oito luas da loucura Quando a cintura tríplice denota Solidão e desgraça e amargura! Mas da noite sem fim um rastro brota, Vestígios de maligna formosura: É a lua além de Deus, álgida e ignota. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 225. 1ª publ. in Notícias Ilustrado , nº 20. Lisboa: 28-10-1928. My great terror of Death or not as Death but as not-life. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 6. Eu vi ao longe um navio Eu vi ao longe um navio Que tinha uma vela só, Ia sozinho no mar... Mas não me fazia dó. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 87. This feeling of the bad in me I have not the power to explain; to me, at the time I speak of, it was a source of dread inexpressible. Men form strange theories to themselves of good and evil and of rewards and punishments; the truth they in life cannot know. Very good was it for me and for all mine that up to the age of 15 I was ever home-ridden and kept without effort in my old quiet ways. But at this age I was sent to a school far from home, and here the inner being I so dreaded sprang into action and into human life. When I say that I felt within me much ill, I do not mean that I was foredoomed to a life of infamy or of vice. This, however, do I mean — that there was in me a great inclination to all things that are damnable in man: this I could control or indulge, but once indulged, to some excess, might never perhaps be controlled. I chose to indulge; and from that time forward I took the greatest pleasure in the following of new evil ways. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 7. I am sorry to say that I feel in myself the indication that if I had been born in Spain some (...) centuries ago, I might have made a very good inquisitor. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 8. Men such as I was on earth never knew fear. I was one of the strongest, of the most courageous. I know not therefore how to describe the fears that came to me; for a strong man's fear was a new thing on earth (as ye will think), and a strong man's fear is of all fears the horriblest and most maddening (...) and intensified by the hideous newness of the sensation. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 9. CRÓNICA DECORATIVA I A circunstância humana de eu ter amigos fez com que ontem me acontecesse vir a conhecer o Dr. Boro, professor da Universidade de Tóquio. Surpreendeu-me a realidade quase evidente da sua presença. Nunca supus que um professor da Universidade de Tóquio fosse uma criatura, ou sequer cousa, real . O Dr. Boro — sinto que me custa doutorá-lo — pareceu-me escandalosamente humano e parecido com gente. Vibrou um golpe, que me esforço por desviar de decisivo, nas minhas ideias sobre o que é o Japão. Trajava à europeia, e, como qualquer mero professor existente da Universidade de Lisboa, tinha o casaco por escovar. Ainda assim, por delicadeza, dei-me por ciente, durante duas horas, da sua presença próxima. Preciso explicar que as minhas ideias do Japão, da sua flora e da fauna, dos seus habitantes humanos e das várias modalidades de vida que lhes são próprias, derivam de um estudo demorado de vários bules e chávenas. Eu por isso sempre julguei que um japonês ou uma japonesa tivesse apenas duas dimensões- e essa delicadeza para com o espaço deu-me uma afeição doentia por aquele país económico de realidade. O professor Boro é sólido, tem sombra — várias vezes fiz com que o meu olhar o verificasse — e além de falar e falar inglês, coloca ideias e soluções compreensíveis dentro das suas palavras. A circunstância de que as suas ideias não comportam nem novidade nem relevo apenas o aproxima dos professores europeus, pavorosamente europeus, que conheço. Além disto o professor Boro tem movimento, desloca-se, não sei como, de um lado para o outro, o que, feito perante quem sempre teve o Japão por uma nação de quadro, parada e apenas real sobre transparência de louça, é requintadamente ordinário e desiludidor. Falávamos de política internacional, da guerra europeia, e fizemos várias incursões pelos vários fenómenos literários característicos da nossa época. A ignorância que o professor Boro tinha de futurismo foi a única benzina para a nódoa da sua realidade moderna. Mas há algum professor de alguma Universidade da Europa que siga de perto os movimentos da arte contemporânea? Dados os factos que venho explicando, compreende-se que eu fosse avaro de o interrogar sobre o Japão. Para quê? Ele era capaz de atirar para dentro da minha ignorância uma quantidade de cousas falsas. Quem sabe se ele se atreveria a insinuar pela conversa fora, como cousa normalmente acreditável, que no Japão há problemas económicos, dificuldades de vida para várias pessoas, cidades com lojas reais, campos com colheitas como as nossas, exércitos realmente parecidos com os da Europa e com execráveis aperfeiçoamentos científicos para guerras em verdade contemporâneas? Daqui ele não hesitaria talvez em me afirmar — com que cinismo nem eu meço — que no Japão os homens têm relações sexuais com as mulheres, que nascem crianças, que a gente de lá, em vez de estar sempre vestida como as figuras da louça japonesa, despe-se e veste-se como se fosse europeia. Por isso não tratámos do Japão. Perguntei ao professor se ele tinha tido uma boa viagem, e ele caiu em dizer-me que não — como se um estudioso como eu da porcelana nipónica pudesse admitir que há más viagens para os japoneses, que — delicioso povo! — nem sequer se dá ao trabalho de existir. As chávenas partem-se, não comportam tormentas. A frase «uma tempestade num copo de água» ou «numa chávena», como dizem outros, é puramente europeia. Uma frase houve (casual, quero crer, no professor Boro) que me magoou mais do que outra. Falávamos — eu, é claro, com o desprendimento com que se tratam estes assuntos feéricos — da influência dos mecanismos sobre a psicologia do operário, quando se sabe — claro está — que o operário não tem psicologia. E o professor referiu-se aos progressos industriais do Japão e acrescentou umas palavras, que me esforcei com metade de êxito para não ouvir, sobre (creio) movimentos operários no Japão e um fuzilamento (suponho) de não sei que chefe socialista. Eu há tempos — numa coluna sem dúvida humorística de um diário — vira em um telegrama de Tóquio constando qualquer cousa nesse tom; mas, além de não crer que de Tóquio se mandasse telegramas — visto Tóquio não ter mais do que duas dimensões —, ninguém que como eu tenha estudado a psicologia japonesa através das chávenas e dos pires admite progressos de qualquer espécie no Japão, indústrias japonesas, movimentos socialistas e chefes socialistas, ainda por cima fuzilados, como quaisquer europeus que vivem. Quem como eu conhece bem o Japão — o verdadeiro Japão, de porcelana e erros de desenho — compreende bem a incompatibilidade entre o progresso, indústria e socialismo, e a absoluta não existência daquele país. Socialistas japoneses! uma contradição flagrante, uma frase sem sentido, como «círculo quadrado»! Se nem o inexistente estivesse livre do socialismo! Aquelas figuras deliciosas, eternamente sentadas ao pé de casas do tamanho delas, à beira de lagos absurdos, de um azul impossível, aquém de montanhas totalmente irreais — essas maravilhosas figuras, com uma perfeita e patriótica individualidade japonesa, não pertencem decerto ao horroroso mundo onde se progride, e onde sobre o artista desabam a morbidez do produtivo e a barbárie do humanitário. E vem querer tirar-me estas convicções o professor Boro, da Universidade de Tóquio! Não mas tira. Não é para ser enganado pela primeira realidade que se me atira aos olhos que eu tenho gasto minutos distensos na contemplação científica e estéril de bules e chávenas japonesas. O mais provável, a respeito deste Boro, é que nascesse em Lisboa e se chame José. Do Japão, ele? Nunca. Se ao menos achei achei japonesa a sua cara? Absolutamente nada. Basta dizer que era real e existiu ali diante de mim, duas dolorosas horas, em plena ocupação inestética de todas as dimensões aproveitáveis (felizmente só três) do espaço autêntico. A sua cara parecia-se, é certo, com certas fotografias de «japoneses» que as ilustrações trouxeram há anos, e de vez em quando reincidindo trazem; mas toda a gente que sabe o que é o Japão por nunca lá ter ido, sabe de cor que aquilo não são japoneses. E, de mais a mais, essas ilustrações eram principalmente de generais, almirantes, e operações guerreiras. Ora é absolutamente impossível que no Japão haja generais, almirantes e guerra. Como, de resto, fotografar o Japão e os japoneses? A primeira cousa real que há no Japão é o facto de ele estar sempre longe de nós, estejamos nós onde estivermos. Não se pode lá ir, nem eles podem vir até nós. Concedo, se me forçarem a isso, que existam um Tóquio e um Iocoama. Mas isso não é no Japão, é apenas no Extremo Oriente. O resto da minha vida, doravante, será escrupulosamente dedicado a esquecer o professor Boro e que ele — impronunciável absurdose sentou na cadeira que está agora, na realidade de madeira, defronte de mim. Considero doentio esse facto, alucinatório talvez, e entrego-me com assiduidade a não me lembrar dele mais. Um japonês verdadeiro aqui, a falar comigo, a dizer-me cousas que nem mesmo eram falsas ou contraditórias! Não. Ele chama-se José e é de Lisboa. Falo simbolicamente, é claro. Porque ele pode chamar-se Macwhisky e ser de Inverness. O que ele não era decerto era japonês, real, e possível visitante de Lisboa. Isso nunca. Desse modo não havia ciência, se o primeiro ocasional nos viesse negar o que os nossos estudos assíduos nos fizeram ver. Professor Boro, da Universidade de Tóquio? De Tóquio? Universidade de Tóquio? Nada disso existe. Isso é uma ilusão. Os inferiores e cábulas de nós construíram, para se não desorientarem, um Japão à imagem e semelhança da Europa, desta triste Europa tão excessivamente real. Sonhadores! Alucinados! Basta-me olhar para aquela bandeja, pegar cariciosamente com o olhar naquele serviço de chá. Depois venham falar-me em Japão existente, em Japão comercial, em Japão guerreiro! Não é para nada que, através de esforços consecutivos, a nossa época ganhou o duro nome de científica. Japoneses com vida real, com três dimensões, com uma pátria com paisagens de cores autênticas! Lérias para entretimento do povo, mas que a quem estudou não enganam... 1914 Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 65. 1ª publ. in O Raio , nº 12. Lisboa: 12-9-1914 A situação presente, a chamada República Nova, contrapondo-se por igual à Monarquia e à República Velha, aproveita da intenção instintiva da República Velha o que há de puramente destrutivo, e rejeita o que pretende ser construtivo, isto é, o processo de destruição, a norma em vista da qual se destruiu. E assim a República Nova, aceitando como boa a eliminação da Monarquia, não aceita como boa aquela falsa destruição que consiste em continuar, sem rei, a governar exactamente do mesmo modo. E, aceitando como boa a intenção cultural de destruir a força do catolicismo, reconhece que a eliminação dessa força não pode ser obra governativa senão politicamente — isto é, que o ataque político tem de ser à força política do catolicismo e não à sua força social. Aproveitando a intenção instintiva da República Velha, aceita dos seus pontos destrutivos apenas os princípios abstractos realizados — a abolição da Monarquia, a separação da Igreja e do Estado, a necessidade abstracta de quebrar a indolência económica do nosso povo. Mas, aceitando a direcção imposta pela linha nacional do 5 de Outubro, rejeita os processos empregados, corno não só contraproducentes, mas também insuficientes. A República Velha falhou mesmo como fenómeno destrutivo: destruiu mal e destruiu por maus processos. Destruiu mal porque destruiu pouco. Destruir a Monarquia não é só tirar o Rei: é também, é sobretudo substituir os tipos de mentalidade governantes por outros tipos de mentalidade. E assim, sendo os governantes monárquicos recrutados entre políticos profissionais, bacharéis e caciques, deve a República Nova passar a governar por meio de classes até ali não experimentadas como governantes, porque uma revolução é isso — a substituição de elites, e porque, se a salvação não está nessas classes, é que não está em parte nenhuma. Assim, em vez dos políticos de profissão, passará a governar pelo exército, que é, de espírito, o contrário deles; em vez de bacharéis, empregará comerciantes e industriais; e em vez de caciques, como estes não podem ser eliminados ou substituídos, pois que uma opinião livre de caciques, além de impossível absolutamente, é impossível mesmo relativamente em um país de analfabetos, empregará como solução um sistema de instituições que se furte o mais possível à acção deles, isto é, a República Presidencialista, com inteira separação do Executivo e do Legislativo. Não discuto se, em abstracto, esta forma de República é superior à forma parlamentarista: afirme que é a forma que as circunstâncias de Portugal impõem, pode ser que apenas transitoriamente, ao país. Maravilhosa intuição a do Presidente Sidónio Pais, que, sem ter feito estes raciocínios sociológicos, teve a intuição exacta das conclusões a que eles nos levam, buscando apoio no exército, procurando-o nas classes extra-políticas e esforçando-se por que vingasse a República Presidencialista! A intenção fundamental das forças nacionais sobre as quais se formou o Partido Republicano, a intenção nacionalmente oculta no 5 de Outubro, e por causa da qual a essa Revolução adveio a simpatia e a benevolência do país, foi operar a transformação política, intelectual e económica do país. Como estávamos decadentes em tudo, a intenção nacional por detrás dos revolucionários de Outubro foi fazer uma reforma geral da nação e essa reforma tendia a exercer-se nas três direcções expostas — a política, a cultural e a económica. De há muito, pela propaganda republicana fora, e por toda a propaganda incertamente oposicionista, esta tripla tendência reformadora vinha sendo marcada. Como, porém, os homens que a marcavam pertenciam ao mesmo meio que os representantes da má política, da incultura e da falsa economia nacionais, quando fizeram a sua propaganda e quando, depois, vitoriosos, a foram pôr em prática, visaram realizar de três maneiras esse triplo intuito. Pensaram resolver a questão política pelo processo simples da abolição da Monarquia; pensaram resolver a questão cultural pelo processo simples da abolição (tal a intenção, sem dúvida) do catolicismo; pensaram resolver o problema económico pelo processo do ataque ao capital. Em qualquer das coisas foram servos da confusão da época e do estrangeiro. Vindos ao poder, e posta em prática a sua pseudo-reforma, viu logo o país que a abolição da Monarquia não tinha abolido a política monárquica, porque a imoralidade e o caciquismo continuaram. Era a adaptação dos recém-vindos ao meio governativo. Em um país imoral não se pode governar senão imoralmente. É de ordem biológica a razão. Viu logo o país que o problema cultural ficava na mesma, porque os anticatólicos que tomaram o poder eram tão tirânicos como os católicos que os haviam precedido, tão estúpidos como eles e tão incapazes de visão política e de cultura europeia. Viu logo o país que a política contra o capital redundou em prejuízo dos consumidores, em detrimento do comércio, em hesitação para a indústria. E vendo isto, o país, que é estúpido, virou-se contra os homens da República. É que o país tem a mentalidade dos idiotas e queria milagres. Supunham os portugueses que uma revolução traz benefícios; e supunham bem; mas supunham que os traz logo no dia seguinte e aí mostravam a sua plena (...) Aquelas mentalidades ainda estavam no milagre. Incapazes de pensar cientificamente, não meditaram que o que se segue a uma revolução é a anarquia, anarquia tão profunda quanto o foi a tirania que a precedeu, e contra a qual reagiu essa revolução; e que só depois de ter passado o período anárquico da revolução é que lentamente chega o período das reformas, para o qual, afinal, a revolução foi instintivamente feita. Trinta e um anos durou o período revolucionário da Monarquia Constitucional portuguesa. Oitenta e um anos durou o da República Francesa. Quarenta e oito durou o da Monarquia Constitucional da Inglaterra. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 98. FÁBULA Num fabulário ainda por encontrar será um dia lida esta fábula: A uma bordadora dum país longínquo foi encomendado pela sua rainha que bordasse, sobre seda ou cetim, entre folhas, uma rosa branca. A bordadora, como era muito jovem, foi procurar por toda a parte aquela rosa branca perfeitíssima, em cuja semelhança bordasse a sua. Mas sucedia que umas rosas eram menos belas do que lhe convinha, e que outras não eram brancas como deviam ser. Gastou dias sobre dias, chorosas horas, buscando a rosa que imitasse com seda, e, como nos países longínquos nunca deixa de haver pena de morte, ela sabia bem que, pelas leis dos contos como este, não podiam deixar de a matar se ela não bordasse a rosa branca. Por fim, não tendo melhor remédio, bordou de memória a rosa que lhe haviam exigido. Depois de a bordar foi compará-la com as rosas brancas que existem realmente nas roseiras. Sucedeu que todas as rosas brancas se pareciam exactamente com a rosa que ela bordara, que cada uma delas era exactamente aquela. Ela levou o trabalho ao palácio e é de supor que casasse com o príncipe. No fabulário, onde vem, esta fábula não traz moralidade. Mesmo porque, na idade de ouro, as fábulas não tinham moralidade nenhuma . 1915 Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 69. 1ª publ. in O Jornal , nº1. Lisboa: 4-4-1915 Como é que a República Nova pode continuar a República? O movimento de 5 de Outubro, na sua intenção, não nos seus resultados, foi feito contra o tipo de governantes que havia estado no poder. Continuar a obra da República é, antes de mais nada, realizar a intenção, não direi que levou os revolucionários a combater, mas que pôs a boa vontade e o aplauso da nação inteira por trás dos revolucionários. Todos sabemos que mesmo [os] monárquicos viram com bons olhos o 5 de Outubro. A razão era que esperavam que a revolução trouxesse a reforma. Esta esperança é justa; uma revolução traz sempre uma reforma, mas o que não a traz é imediatamente. O que traz imediatamente é a anarquia, a indisciplina e a desorganização. Isto é, a melhor das revoluções começa por pôr tudo pior do que estava. Como a Revolução não trouxe este resultado milagroso, passou grande número de gente a odiar a República, como se a República fosse adulta nos anos seguintes a nascer — ela, uma instituição para quem os anos contam por menos tempo do que para uma pessoa. E assim se disse "A República faliu" — frase característica das mentalidades estranhas à compreensão científica e em quem o Milagre é ainda o tipo esperado de acontecimento. Temos, pois, que a República Nova, no que continuadora da Velha, tem que continuar a sua obra destrutiva, curando apenas de dirigir essa destruição sobre os verdadeiros pontos em que deve incidir. Esses pontos são três, um só dos quais os da R[epública] V[elha] visaram: (1) Republicana, porque a Monarquia, sendo o sistema concentrador de tudo quanto nos atrasou e fez decair, tem de ser mantido fora do poder, de mais a mais estando ainda seguindo a mesma orientação no exílio, tendo ainda os mesmos vultos que a comprometeram, não tendo ainda mostrado o menor arrependimento pelos defeitos e erros que a afundaram. (2) A substituição do tipo de governante. É aqui o ponto capital, para o qual os da R[epública] V[elha] não olharam, porque não podiam olhar. Uma reforma no governo de um país faz-se substituindo o tipo de governantes. A monarquia caiu, entre outras coisas, porque era governada por bacharéis, políticos profissionais e caciques. Para se levar ao seu fim a República, no que destrutiva, tem esta que se apoiar em classes inteiramente diferentes. Tem que ir às classes que nunca governaram, como forças corporativas. Essas classes são o Exército, o Comércio e a Indústria, e o que se pode chamar os Indiferentes (neste caso as classes cultas que se têm abstido, como classe, de intervir no governo). (3) (...) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 99. Pobre velha música! Não sei porque agrado, Enche-se de lágrimas Meu olhar parado. Recordo outro ouvir-te. Não sei se te ouvi Nessa minha infância Que me lembra em ti. Com que ânsia tão raiva Quero aquele outrora! E eu era feliz? Não sei: Fui-o outrora agora. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 96. 1ª publ. in Athena , nº 3. Lisboa: Dez. 1924. O BANQUEIRO ANARQUISTA Tínhamos acabado de jantar. Defronte de mim o meu amigo, o banqueiro, grande comerciante e açambarcador notável, fumava como quem não pensa. A conversa, que fora amortecendo, jazia morta entre nós. Procurei reanimá-la, ao acaso, servindo-me de uma ideia que me passou pela meditação. Voltei-me para ele, sorrindo. — É verdade: disseram-me há dias que você em tempos foi anarquista… — Fui, não: fui e sou. Não mudei a esse respeito. Sou anarquista. — Essa é boa! Você anarquista! Em que é que você é anarquista?... Só se você dá à palavra sentido diferente... — Do vulgar? Não; não dou. Emprego a palavra no sentido vulgar. — Quer você dizer, então, que é anarquista exactamente no mesmo sentido em que são anarquistas esses tipos das organizações operárias? Então entre você e esses tipos da bomba e dos sindicatos não há diferença nenhuma? — Diferença, diferença, há... Evidentemente que há diferença. Mas não é a que você julga. Você duvida talvez que as minhas teorias sociais sejam iguais às deles?... — Ah, já percebo! Você, quanto às teorias, é anarquista; quanto à prática.. . — Quanto à prática sou tão anarquista como quanto às teorias. E quanto à prática sou mais, sou muito mais anarquista que esses tipos que você citou. Toda a minha vida o mostra. — Hem?! — Toda a minha vida o mostra, filho. Você é que nunca deu a estas coisas uma atenção lúcida. Por isso lhe parece que estou dizendo uma asneira, ou então que estou brincando consigo. — Ó homem, eu não percebo nada!... A não ser..., a não ser que você julgue a sua vida dissolvente e anti-social e dê esse sentido ao anarquismo... — Já lhe disse que não — isto é, já lhe disse que não dou à palavra anarquismo um sentido diferente do vulgar. — Está bem... Continuo sem perceber... Ó homem, você quer me dizer que não há diferença entre as suas teorias verdadeiramente anarquistas e a prática da sua vida — a prática da sua vida como ela é agora? Você quer que eu acredite que você tem uma vida exactamente igual à dos tipos que vulgarmente são anarquistas? — Não; não é isso. O que quero dizer é que entre as minhas teorias e a prática da minha vida não há divergência nenhuma, mas uma conformidade absoluta. Lá que não tenho uma vida como a dos tipos dos sindicatos e das bombas — isso é verdade. Mas é a vida deles que está fora do anarquismo, fora dos ideais deles. A minha não. Em mim — sim, em mim, banqueiro, grande comerciante, açambarcador se você quiser —, em mim a teoria e a prática do anarquismo estão conjuntas e ambas certas. Você comparou-me a esses parvos dos sindicatos e das bombas para indicar que sou diferente deles. Sou, mas a diferença é esta: eles (sim, eles e não eu) são anarquistas só na teoria; eu sou-o na teoria e na prática. Eles são anarquistas e estúpidos, eu anarquista e inteligente. Isto é, meu velho, eu é que sou o verdadeiro anarquista. Eles — os dos sindicatos e das bombas (eu também lá estive e saí de lá exactamente pelo meu verdadeiro anarquismo) — eles são o lixo do anarquismo, os fêmeas da grande doutrina libertária. — Essa nem ao diabo a ouviram! Isso é espantoso! Mas como conci1ia você a sua vida — quero dizer a sua vida bancária e comercial — com as teorias anarquistas? Como o concilia você, se diz que por teorias anarquistas entende exactamente o que os anarquistas vulgares entendem? E você, ainda por cima, me diz que é diferente deles por ser mais anarquista do que eles — não é verdade? — Exactamente. — Não percebo nada. — Mas você tem empenho em perceber? — Todo o empenho. Ele tirou da boca o charuto, que se apagara; reacendeu-o lentamente; fitou o fósforo que se extinguia; depô-lo ao de leve ao cinzeiro; depois, erguendo a cabeça, um momento abaixada, disse; — Oiça. Eu nasci do povo e na classe operária da cidade. De bom não herdei, como pode imaginar, nem a condição, nem as circunstâncias. Apenas me aconteceu ter uma inteligência naturalmente lúcida e uma vontade um tanto ou quanto forte. Mas esses eram dons naturais, que o meu baixo nascimento me não podia tirar. «Fui operário, trabalhei, vivi uma vida apertada; fui, em resumo, o que a maioria da gente é naquele meio. Não digo que absolutamente passasse fome, mas andei lá perto. De resto, podia tê-la passado, que isso não alterava nada do que se seguiu, ou do que lhe vou expor, nem do que foi a minha vida, nem do que ela é agora. «Fui um operário vulgar, em suma; como todos, trabalhava porque tinha que trabalhar, e trabalhava o menos possível. O que eu era, era inteligente. Sempre que podia, lia coisas, discutia coisas e, como não era tolo, nasceu-me uma grande insatisfação e uma grande revolta contra o meu destino e contra as condições sociais que o faziam assim. Já lhe disse que, em boa verdade, o meu destino podia ter sido pior do que era; mas naquela altura parecia-me que eu era um ente a quem a Sorte tinha feito todas as injustiças juntas, e que se tinha servido das convenções sociais para mas fazer. Isto era aí pelos meus vinte anos — vinte e um o máximo — que foi quando me tornei anarquista. Parou um momento. Voltou-se um pouco mais para mim. Continuou, inclinando-se mais um pouco. — Fui sempre mais ou menos lúcido. Sentia-me revoltado. Quis perceber a minha revolta. Tornei-me anarquista consciente e convicto — o anarquista consciente e convicto que hoje sou. — E a teoria, que você tem hoje, é a mesma que tinha nessa altura? — A mesma. A teoria anarquista, a verdadeira teoria, é só uma. Tenho a que sempre tive, desde que me tornei anarquista. Você já vai ver... Ia eu dizendo que, como era lúcido por natureza, me tornei anarquista consciente. Ora o que é um anarquista? É um revoltado contra a injustiça de nascermos desiguais socialmente — no fundo é só isto. E daí resulta, como é de ver, a revolta contra as convenções sociais que tornam essa desigualdade possível. O que lhe estou indicando agora é o caminho psicológico, isto é, como é que a gente se torna anarquista; já vamos à parte teórica do assunto. Por agora, compreenda você bem qual seria a revolta de um tipo inteligente nas minhas circunstâncias. O que é que ele vê pelo mundo? Um nasce filho de um milionário, protegido desde o berço contra aqueles infortúnios — e não são poucos — que o dinheiro pode evitar ou atenuar; outro nasce miserável, a ser, quando criança, uma boca a mais numa família onde as bocas são de sobra para o comer que pode haver. Um nasce conde ou marquês, e tem por isso a consideração de toda a gente, faça ele o que fizer; outro nasce assim como eu, e tem que andar direitinho como um prumo para ser ao menos tratado como gente. Uns nascem em tais condições que podem estudar, viajar, instruir-se — tornar-se (pode-se dizer) mais inteligentes que outros que naturalmente o são mais. E assim por adiante, e em tudo... »As injustiças da Natureza, vá: não as podemos evitar. Agora as da sociedade e das suas convenções — essas, por que não evitá-las? Aceito — não tenho mesmo outro remédio — que um homem seja superior a mim por o que a Natureza lhe deu — o talento, a força, a energia; não aceito que ele seja meu superior por qualidades postiças, com que não saiu do ventre da mãe, mas que lhe aconteceram por bambúrrio logo que ele apareceu cá fora — a riqueza, a posição social, a vida facilitada, etc. Foi da revolta que lhe estou figurando por estas considerações que nasceu o meu anarquismo de então — o anarquismo que, já lhe disse, mantenho hoje sem alteração nenhuma. Parou outra vez um momento, como a pensar como prosseguiria. Fumou e soprou o fumo lentamente, para o lado oposto ao meu. Voltou-se, e ia a prosseguir. Eu, porém interrompi-o. — Uma pergunta, por curiosidade... Por que é que você se tornou propriamente anarquista? Você podia ter-se tornado socialista, ou qualquer outra coisa avançada que não fosse tão longe. Tudo isso estava dentro da sua revolta... Deduzo do que você disse que por anarquismo você entende (e acho que está bem como definição do anarquismo) a revolta contra todas as convenções e fórmulas sociais e o desejo e esforço para a  abolição de todas... — Isso mesmo. — Por que escolheu você essa fórmula extrema e não se decidiu por qualquer das outras... das intermédias?... — Eu lhe digo. Eu meditei tudo isso. É claro que nos folhetos que eu lia via todas essas teorias. Escolhi a teoria anarquista — a teoria extrema, como você muito bem diz — pelas razões que lhe vou dizer em duas palavras. Fitou um momento coisa nenhuma. Depois voltou-se para mim. — O mal verdadeiro, o único mal, são as convenções e as ficções sociais, que se sobrepõem às realidades naturais — tudo, desde a famí1ia ao dinheiro, desde a religião ao Estado. A gente nasce homem ou mulher — quero dizer, nasce para ser, em adulto, homem ou mulher; não nasce, em boa justiça natural, nem para ser marido, nem para ser rico ou pobre, como também não nasce para ser católico ou protestante, ou português ou inglês. E todas estas coisas em virtude das ficções sociais. Ora essas ficções sociais são más porquê? Porque são ficções, porque não são naturais. Tão mau é o dinheiro como o Estado, a constituição da faml1ia como as religiões. Se houvesse outras, que não fossem estas, seriam igualmente más, porque também seriam ficções, porque também se sobreporiam e estorvariam as realidades naturais. Ora qualquer sistema que não seja o puro sistema anarquista, que quer a abolição todas as ficções e de cada uma delas completamente, é uma ficção também. Empregar todo o nosso desejo, todo o nosso esforço toda a nossa inteligência para implantar, ou contribuir para implantar, uma ficção social em vez de outra, é um absurdo, quando não seja mesmo um crime, porque é fazer uma perturbação social com o fim expresso de deixar tudo na mesma. Se achamos injustas as ficções sociais, porque esmagam e oprimem o que é natural no homem, para que empregar o nosso esforço em substituir-lhes outras ficções, se o podemos empregar para as destruir a todas? «Isto parece-me que é concludente. Mas suponhamos que o não é; suponhamos que nos objectam que isto tudo estará muito certo, mas que o sistema anarquista não é realizável na prática. Vamos lá a examinar essa parte do problema. «Por que é que o sistema anarquista não seria realizável? Nós partimos, todos os avançados, do princípio, não só de que o actual sistema é injusto, mas de que há vantagem, porque há justiça, em substituí-lo por outro mais justo. Se não pensamos assim, não somos avançados, mas burgueses. Ora de onde vem esse critério de justiça? Do que é natural e verdadeiro, em oposição às ficções sociais e às mentiras da convenção. Ora o que é natural é o que é inteiramente natural, não o que é metade, ou um quarto, ou um oitavo de natural. Muito bem. Ora, de duas coisas, uma: ou o natural é realizável socialmente ou não é, em outras palavras, ou a sociedade pode ser natural, ou a sociedade é essencialmente ficção e não pode ser natural de maneira nenhuma. Se a sociedade pode ser natural, então pode haver a sociedade anarquista, ou livre, e deve haver, porque é ela a sociedade inteiramente natural. Se a sociedade não pode ser natural, se (por qualquer razão que não importa) tem por força que ser ficção, então do mal o menos; façamo-la dentro dessa ficção inevitável, o mais natural possível, para que seja, por isso mesmo, o mais justo possível. Qual é a ficção mais natural? Nenhuma é natural em si, porque é ficção; a mais natural, neste nosso caso, será aquela que pareça mais natural, que se sinta como mais natural. Qual é a que parece mais natural, ou que sintamos mais natural? É aquela a que estamos habituados. (Você compreende: o que é natural é o que é do instinto; é o que, não sendo instinto, se parece em tudo como o instinto é o hábito. Fumar não é natural, não é uma necessidade do instinto; mas se nos habituarmos a fumar, passa a ser-nos natural, passa a ser sentido como uma necessidade do instinto.) Ora qual é a nossa ficção social que constitui um hábito nosso? É o actual sistema, o sistema burguês. Temos pois, em boa lógica, que ou achamos possível a sociedade natural, e seremos defensores do anarquismo; ou não a julgamos possível, e seremos defensores do regime burguês. Não há hipótese intermédia. Percebeu?... — Sim, senhor; isso é concludente. — Ainda não é bem concludente... Ainda há uma outra objecção, do mesmo género, a liquidar... Pode concordar-se que o sistema anarquista é realizável, mas pode duvidar-se que ele seja realizável de chofre — isto é, que se possa passar da sociedade burguesa para a sociedade livre sem haver um ou mais estados ou regimes intermédios. Quem fizer esta objecção aceita como boa, e como realizável, a sociedade anarquista mas palpita-lhe que tem que haver um estado qualquer de transição entre a sociedade burguesa e ela. «Ora muito bem. Suponhamos que assim é. O que é esse estado intermédio? O nosso fim é a sociedade anarquista, ou livre; esse estado intermédio só pode ser, portanto, um estado de preparação da humanidade para a sociedade livre. Essa preparação ou é material, ou é simplesmente mental; isto é, ou é uma série de realizações materiais ou sociais que vão adaptando a humanidade à sociedade livre, ou é simples propaganda gradualmente crescente e influente, que a vai preparando mentalmente a desejá-la ou a aceitá-la. «Vamos ao primeiro caso, a adaptação gradual e material da humanidade à sociedade livre. É impossível- é mais que impossível: é absurdo. Não há adaptação material senão a uma coisa que já há. Nenhum de nós se pode adaptar materialmente ao meio social do século vinte e três, mesmo que saiba o que ele será; e não se pode adaptar materialmente porque o século vinte e três e o seu meio social não existem materialmente ainda. Assim, chegamos à conclusão que, na passagem da sociedade burguesa para a sociedade livre, a única parte que pode haver de adaptação, de evolução ou de transição é mental, é a gradual adaptação dos espíritos à ideia da sociedade livre... Em todo o caso, no campo da adaptação material, ainda há uma hipótese... — Irra com tanta hipótese! . .. — Ó filho, o homem lúcido tem que examinar todas as objecções possíveis e de as refutar, antes de se poder dizer seguro da doutrina. E, de mais a mais, isto tudo é em resposta a uma pergunta, que você me fez... — Está bem . — No campo da adaptação material, dizia eu, há em todo o caso uma outra hipótese. E a da ditadura revolucionária. — Da ditadura revolucionária como? — Como eu lhe expliquei, não pode haver adaptação material a uma coisa que não existe, materialmente, ainda. Mas se, por um movimento brusco, se fizer a revolução social, fica implantada já, não a sociedade livre (porque para essa não pode a humanidade ter ainda preparação), mas uma ditadura daqueles que querem implantar a sociedade livre. Mas existe já, ainda que em esboço ou em começo, existe já materialmente qualquer coisa da sociedade livre. Há já portanto uma coisa material, a que a humanidade se adapte. É este o argumento com que as bestas que defendem a «ditadura do proletariado» a defenderiam se fossem capazes de argumentar ou de pensar. O argumento, é claro, não é deles: é meu. Ponho-o, como objecção, a mim mesmo. E, como lhe vou mostrar..., é falso. «Um regime revolucionário, enquanto existe, e seja qual for o fim a que visa ou a ideia que o conduz, é materialmente só uma coisa — um regime revolucionário. Ora um regime revolucionário quer dizer uma ditadura de guerra, ou nas verdadeiras palavras, um regime militar despótico, porque o estado de guerra é imposto à sociedade por uma parte dela — aquela parte que assumiu revolucionariamente o poder. O que é que resulta? Resulta que quem se adaptar a esse regime, como a única coisa que ele é materialmente, imediatamente, é um regime militar despótico, adapta-se a um regime militar despótico. A ideia, que conduziu os revolucionários, o fim, a que visaram, desapareceu por completo da realidade social, que é ocupada exclusivamente pelo fenómeno guerreiro. De modo que o que sai de uma ditadura revolucionária — e tanto mais completamente sairá, quanto mais tempo essa ditadura durar — é uma sociedade guerreira de tipo ditatorial, isto é, um despotismo militar. Nem mesmo podia ser outra coisa. E foi sempre assim. Eu não sei muita história, mas o que sei acerta com isto; nem podia deixar de acertar. O que saiu das agitações de Roma? O império romano e o seu despotismo militar. O que saiu da Revolução Francesa? Napoleão e o seu despotismo militar. E você verá o que sai da Revolução Russa... Qualquer coisa que vai atrasar dezenas de anos a realização da sociedade livre... Também o que era de esperar de um povo de analfabetos e de místicos?... «Enfim, isto já está fora da conversa... Você percebeu o meu argumento? — Percebi perfeitamente. — Você compreende portanto que eu cheguei a esta conclusão: fim: a sociedade anarquista, a sociedade livre; meio: a passagem, sem transição, da sociedade burguesa para a sociedade livre. Esta passagem seria preparada e tornada possível por uma propaganda intensa, completa, absorvente, de modo a predispor todos os espíritos e enfraquecer todas as resistências. É claro que por «propaganda» não entendo só a pela palavra escrita e falada: entendo tudo, acção indirecta ou directa, quanto pode predispor para a sociedade livre e enfraquecer a resistência à sua vinda. Assim, não tendo quase resistências nenhumas que vencer, a revolução social, quando viesse, seria rápida, fácil, e não teria que estabelecer nenhuma ditadura revolucionária, por não ter contra quem aplicá-la. Se isto não pode ser assim, é que o anarquismo é irrealizável; e, se o anarquismo é irrealizável, só é defensável e justa, como já lhe provei, a sociedade burguesa. «Ora aí tem você por que e como eu me tomei anarquista, e por que e como rejeitei, como falsas e antinaturais, as outras doutrinas sociais de menor ousadia. «E pronto... Vamos lá a continuar a minha história. Fez explodir um fósforo, e acendeu lentamente o charuto. Concentrou-se, e daí a pouco prosseguiu. — Havia vários outros rapazes com as mesmas opiniões que eu. A maioria era de operários, mas havia um ou outro que o não era; o que todos éramos era pobres, e, que me lembre, não éramos muito estúpidos. A gente tinha uma certa vontade de se instruir, de saber coisas, e ao mesmo tempo uma vontade de propaganda, de espalhar as nossas ideias. Queríamos para nós e para os outros — para a humanidade inteira — uma sociedade nova, livre destes preconceitos todos, que fazem os homens desiguais artificialmente e lhes impõem inferioridades, sofrimentos, estreitezas, que a Natureza lhes não tinha imposto! Por mim, o que eu lia confirmava-me nestas opiniões. Em livros libertários baratos — os que havia ao tempo, e eram já bastantes — li quase tudo. Fui a conferências e comícios dos propagandistas do tempo. Cada livro e cada discurso me convencia mais da certeza e da justiça das minhas ideias. O que eu pensava então — repito-lhe, meu amigo — é o que penso hoje; a única diferença é que então pensava-o só, e hoje penso-o e pratico-o. — Pois sim; isto, até onde vai, está muito bem. Está muito certo que você se tornasse anarquista assim, e vejo perfeitamente que você era anarquista. Não preciso mais provas disso. O que eu quero saber é como é que daí saiu o banqueiro..., como é que saiu daí sem contradição... Isto é, mais ou menos já calculo... — Não, não calcula nada... Eu sei o que você quer dizer... você baseia-se nos argumentos que me acaba de ouvir, e julga que eu achei o anarquismo irrealizável e por isso, como lhe disse, só defensável e justa a sociedade burguesa — não é? — Sim, calculei que fosse mais ou menos isso... — Mas como o podia ser, se desde o princípio da conversa lhe tenho dito e repetido que sou anarquista, que não só o fui mas o continuo sendo? Se eu me tivesse tomado banqueiro e comerciante pela razão que você julga, eu não era anarquista, era burguês. — Sim, você tem razão... Mas então com os diabos...? Vá lá, vá dizendo... — Como lhe disse, eu era, fui sempre mais ou menos lúcido, e também um homem de acção. Essas são qualidades naturais; não mas puseram no berço (se é que eu tive berço), eu é que as levei para lá. Pois bem. Sendo anarquista, eu achava insuportável ser anarquista só passivamente, só para ir ouvir discurso e falar nisso com os amigos. Não: era preciso fazer qualquer coisa! Era preciso trabalhar e lutar pela causa dos oprimidos e das vítimas das convenções sociais! Decidi meter ombros a isso, conforme pudesse. Pus-me a pensar como é que eu poderia ser útil à causa literária. Pus-me a traçar o meu plano de acção. «O que quer o anarquista? A liberdade — a liberdade para si e para os outros, para a humanidade inteira. Quer estar livre da influência ou da pressão das ficções sociais; quer ser livre tal qual nasceu e apareceu no mundo, que é como em justiça deve ser; e quer essa liberdade para si e para todas os mais. Nem todos podem ser iguais perante a Natureza: uns nascem altos, outros baixos, uns fortes, outros fracos, uns mais inteligentes, outros menos... Mas todos podem ser iguais daí em diante; só as ficções sociais o evitam. Essas ficções sociais é que era preciso destruir. «Era preciso destruí-las... Mas não me escapou uma coisa, era preciso destruí-las mas em proveito da liberdade, e tendo sempre em vista a criação da sociedade livre. Porque isso de destruir as ficções sociais tanto pode ser para criar liberdade, ou preparar o caminho da liberdade, como para estabelecer outras ficções sociais diferentes, igualmente más porque igualmente ficções. Aqui é que era preciso cuidado. Era preciso acertar com um processo de acção, qualquer que fosse a sua violência ou a sua não violência (porque contra as injustiças sociais tudo era legítimo), pelo qual se contribuísse para destruir as ficções sociais sem, ao mesmo tempo, estorvar a criação da liberdade futura, criando já mesmo, caso fosse possível, alguma coisa da liberdade futura. «É claro que esta liberdade, que deve haver cuidado em não estorvar, é a liberdade futura e, no presente, a liberdade dos oprimidos pelas ficções sociais. Claro está que não temos que olhar a não estorvar a «liberdade» dos poderosos, dos bem-situados, de todos que representam as ficções sociais e têm vantagem nelas. Essa não é liberdade; é a liberdade de tiranizar, que é o contrário da liberdade. Essa, pelo contrário, é o que mais devíamos pensar em estorvar e em combater. Parece-me que isto está claro... — Está claríssimo. Continue... — Para quem quer o anarquista a liberdade? Para a humanidade inteira. Qual é a maneira de conseguir a liberdade para a humanidade inteira? Destruir por completo todas as ficções sociais? Já lhe antecipei a explicação, quando, por causa da sua pergunta, discuti os outros sistemas avançados e lhe expliquei como e porque era anarquista... Você lembra-se da minha conclusão?... — Lembro... –– ... Uma revolução social súbita, brusca, esmagadora, fazendo a sociedade passar, de um salto, do regime burguês para a sociedade livre. Esta revolução social preparada por um trabalho intenso e contínuo, de acção directa e indirecta, tendente a dispor todos os espíritos para a vinda da sociedade livre, e a enfraquecer até ao estado comatoso todas as resistencias da burguesia. Escuso de lhe repetir as razões que levam inevitavelmente a esta conclusão, adentro do anarquismo; já lhas expus e você já as percebeu. — Sim. — Essa revolução seria preferivelmente mundial, simultânea em todos os pontos, ou os pontos importantes do mundo; ou, não sendo assim, partindo rapidamente de uns para outros, mas, em todo o caso, em cada ponto, isto é, em cada nação, fulminante e completa. «Muito bem. O que poderia eu fazer para esse fim? Só por mim, não a poderia fazer a ela, à revolução mundial, nem mesmo poderia fazer a revolução completa na parte referente ao país onde estava. O que eu podia era trabalhar, na inteira medida do meu esforço, para fazer a preparação para essa revolução. Já lhe expliquei como: combatendo, por todos os meios acessíveis, as ficções sociais, não estorvando nunca ao fazer esse combate ou a propaganda da sociedade livre, nem a liberdade futura, nem a liberdade presente dos oprimidos; criando já, sendo possível, qualquer coisa da futura liberdade. Puxou fumo; fez uma leve pausa; recomeçou. — Ora aqui, meu amigo, pus eu a minha lucidez em acção. Trabalhar para o futuro, está bem, pensei eu; trabalhar para os outros terem liberdade, está certo. Mas então eu? eu não sou ninguém? Se eu fosse cristão, trabalhava alegremente pelo futuro dos outros, porque lá tinha a minha recompensa no céu- mas também, se eu fosse cristão, não era anarquista, porque então as tais desigualdades sociais não tinham importância na nossa curta vida: eram só condições da nossa provação, e lá seriam compensadas na vida eterna. Mas eu não era cristão, como não sou, e perguntava-me: mas por quem é que eu me vou sacrificar nisto tudo? Mais ainda: porque é que eu me vou sacrificar? «Vieram-me momentos de descrença; e você compreende que era justificada... Sou materialista, pensava eu; não tenho mais vida que esta; para que hei-de ralar-me com propagandas e desigualdades sociais, e outras histórias, quando posso gozar e entreter-me muito mais se não me preocupar com isso? Quem tem só esta vida, quem não crê na vida eterna, quem não admite lei senão a Natureza, quem se opõe ao Estado porque ele não é natural, ao casamento porque ele não é natural, ao dinheiro porque ele não é natural, a todas as ficções sociais porque elas não são naturais, por que carga de água é que defende o altruísmo e o sacrifício pelos outros, ou pela humanidade, se o altruísmo e o sacrifício também não são naturais? Sim, a mesma lógica que me mostra que um homem  não nasce para ser casado, ou para ser português, ou para ser rico ou pobre, mostra-me também que ele não nasce para ser solidário, que ele não nasce senão para ser ele próprio, e portanto o contrário de altruísta e solidário, e portanto exclusivamente egoísta. «Eu discuti a situação comigo mesmo. Repara tu, dizia eu para mim, que nascemos pertencentes à espécie humana, e que temos o dever de ser solidários com todos os homens. Mas a ideia de «dever» era natural? De onde é que vinha esta ideia de «dever? Se esta ideia de dever me obrigava a sacrificar o meu bem-estar, a minha comodidade, o meu instinto de conservação e outros meus instintos naturais, em que divergia a acção dessa ideia da acção de qualquer ficção social, que produz em nós exactamente o mesmo efeito? «Esta ideia de dever, isto de solidariedade humana, só podia considerar-se natural se trouxesse consigo uma compensação egoísta, porque então, embora em princípio contrariasse o egoísmo natural, se dava a esse egoísmo uma compensação, sempre, no fim de contas, o não contrariava. Sacrificar um prazer, simplesmente sacrificá-lo, não é natural; sacrificar um prazer a outro, é que já está dentro da Natureza: é, entre duas coisas naturais que se não podem ter ambas, escolher uma, o que está bem. Ora que compensação egoísta, ou natural, podia dar-me a dedicação à causa da sociedade livre e da futura felicidade humana? Só a consciência do dever cumprido, do esforço para um fim bom; e nenhuma destas coisas é um prazer em si, mas um prazer, se o é, nascido de uma ficção, como pode ser o prazer de ter nascido em uma boa posição social. «Confesso-lhe, meu velho, que me vieram momentos de descrença... Senti-me desleal à minha doutrina, traidor a ela... Mas em breve passei sobre tudo isto. A ideia de justiça cá estava, dentro de mim, pensei eu. Eu sentia-a natural. Eu sentia que havia um dever superior à preocupação só cá do meu destino. E fui para diante na minha intenção. — Não me parece que essa decisão revelasse uma grande lucidez da sua parte... Você não resolveu a dificuldade... Você foi para diante por um impulso absolutamente sentimental... — Sem dúvida. Mas o que lhe estou contando agora é a história de como eu me tornei anarquista, e de como o continuei sendo, e continuo. Vou-lhe expondo lealmente as hesitações e as dificuldades que tive, e como as venci. Concordo que, naquele momento, venci a dificuldade lógica com o sentimento, e não com o raciocínio. Mas você há-de ver que, mais tarde, quando cheguei à plena compreensão da doutrina anarquista, esta dificuldade, até então logicamente sem resposta, teve a sua solução completa e absoluta. — É curioso... — É... Agora deixe-me continuar na minha história. Tive esta dificuldade, e resolvi-a, se bem que mal, como lhe disse. Logo a seguir, e na linha dos meus pensamentos, surgiu-me outra dificuldade que também me atrapalhou bastante. «Está bem — vamos lá — que estivesse disposto a sacrificar-me, sem recompensa nenhuma propriamente pessoal, isto é, sem recompensa nenhuma verdadeiramente natural. Mas suponhamos que a sociedade futura não dava em nada do que eu esperava, que nunca havia a sociedade livre, a que diabo é que eu, nesse caso, me estava sacrificando? Sacrificar-me a uma ideia sem recompensa pessoal, sem eu ganhar nada com o meu esforço por essa ideia, vá; mas sacrificar-me sem ao menos ter a certeza de que aquilo, para que eu trabalhava, existiria um dia, sem que a própria ideia ganhasse com o meu esforço — isso era um pouco mais forte... Desde já lhe digo que resolvi a dificuldade pelo mesmo processo sentimental por que resolvi a outra; mas advirto-o também que, no mesmo modo que a outra, resolvi esta pela lógica, automaticamente, quando cheguei ao estado plenamente consciente do meu anarquismo... Você depois verá... Na altura do que lhe estou contando, saí-me do apuro com uma ou duas frases ocas. «Eu fazia o meu dever para com o futuro; o futuro que fizesse o seu para comigo»... Isto, ou coisa que o valha... «Expus esta conclusão, ou, antes, estas conclusões, aos camaradas, e eles concordaram todos comigo; concordaram todos que era preciso ir prà frente e fazer tudo pela sociedade livre. É verdade que um ou outro, dos mais inteligentes, ficaram um pouco abalados com a exposição, não porque concordassem, mas porque nunca tinham visto as coisas assim claras, nem os bicos que estas coisas têm... Mas enfim, concordaram todos... Iríamos todos trabalhar pela grande revolução social, pela sociedade livre, quer o futuro nos justificasse, quer não! Formámos um grupo, entre gente certa, e começámos uma grande propaganda —  grande, é claro, dentro dos limites do que podíamos fazer. Durante bastante tempo, no meio de dificuldades, embrulhadas, e por vezes perseguições, lá fomos trabalhando pelo ideal anarquista. O banqueiro, chegado aqui, fez uma pausa um pouco longa. Não acendeu o charuto, que estava outra vez apagado. De repente teve um leve sorriso, e, com o ar de quem chega ao ponto importante, fitou-me com mais insistência e prosseguiu, clarificando mais a voz e acentuando mais as palavras. — Nesta altura, disse ele, apareceu uma coisa nova. «Nesta altura» é modo de dizer. Quero dizer que, depois de alguns meses desta propaganda, comecei a reparar numa nova complicação, e esta é que era a mais séria de todas, esta é que era séria a valer… «V. recorda-se, não é verdade? daquilo em que eu, por um raciocínio rigoroso, assentei que devia ser o processo de acção dos anarquistas… Um processo, ou processos, quaisquer pelo qual se contribuísse para destruir as ficções sociais sem, ao mesmo tempo, estorvar a criação da liberdade futura, sem, portanto, estorvar em coisa nenhuma a pouca liberdade dos actuais oprimidos pelas ficções sociais; um processo que, sendo possível, criasse já alguma coisa da liberdade futura… «Pois bem: uma vez assente este critério, nunca mais deixei de o ter presente… Ora, na altura da nossa propaganda em que lhe estou falando, descobri uma coisa. No grupo da propaganda — não éramos muitos; éramos uns quarenta, salvo erro — dava-se este caso: criava-se tirania . — Criava-se tirania?… Criava-se tirania como? — Da seguinte maneira… Uns mandavam em outros e levavam-nos para onde queriam; uns impunham-se a outros e obrigavam-nos a ser o que eles queriam; uns arrastavam outros por manhas e por artes para onde eles queriam. Não digo que fizessem isto em coisas graves; mesmo, não havia coisas graves ali em que o fizessem. Mas o facto é que isto acontecia sempre e todos os dias, e dava-se não só em assuntos relacionados com a propaganda, como fora deles, em assuntos vulgares da vida. Uns iam insensivelmente para chefes, outros insensivelmente para subordinados. Uns eram chefes por imposição; outros eram chefes por manha. No facto mais simples isto se via. Por exemplo: dois dos rapazes iam juntos por uma rua fora; chegavam ao fim da rua, e um tinha que ir para a direita e outro para a esquerda; cada um tinha conveniência em ir para seu lado. Mas o que ia para a esquerda dizia para o outro, «venha v. comigo por aqui»; o outro respondia, e era verdade, «Homem, não posso; tenho que ir por ali» por esta ou aquela razão… Mas afinal, contra sua vontade e sua conveniência, lá ia com o outro para a esquerda… Isto era uma vez por persuasão, outra vez por simples insistência, uma terceira vez por um outro motivo qualquer assim… Isto é, nunca era por uma razão lógica; havia sempre nesta imposição e nesta subordinação qualquer coisa de espontâneo, de como que instintivo… E como neste caso simples, em todos os outros casos; desde os menos até aos mais importantes… V. vê bem o caso? — Vejo. Mas que diabo há de estranho nisso? Isso é tudo quanto há de mais natural!… — Será. Já vamos a isso. O que lhe peço que note é que é exactamente o contrário da doutrina anarquista . Repare bem que isto se passava num grupo pequeno, num grupo sem influência nem importância, num grupo a quem não estava confiada a solução de nenhuma questão grave ou a decisão sobre qualquer assunto de vulto. E repare que se passava num grupo de gente que se unira especialmente para fazer o que pudesse para o fim anarquista — isto é, para combater, tanto quanto possível, as ficções sociais, e criar, tanto quanto possível, a liberdade futura. V. Reparou bem nestes dois pontos? — Reparei. — Veja agora bem o que isso representa… Um grupo pequeno, de gente sincera (garanto-lhe que era sincera!), estabelecido e unido expressamente para trabalhar pela causa da liberdade, tinha, no fim de uns meses, conseguido só uma coisa de positivo e concreto — a criação entre si de tirania . E repare que tirania… Não era uma tirania derivada da acção das ficções sociais, que, embora lamentável, seria desculpável, até certo ponto, ainda que menos em nós, que combatíamos essas ficções, que em outras pessoas; mas enfim, vivíamos em meio de uma sociedade baseada nessas ficções e não era inteiramente culpa nossa se não pudéssemos de todo fugir à sua acção. Mas não era isso. Os que mandavam nos outros, ou os levavam para onde queriam, não faziam isso pela força do dinheiro, ou da posição social, ou de qualquer autoridade de natureza fictícia, que se arrogassem; faziam-no por uma acção de qualquer espécie fora das ficções sociais. Quer dizer, esta tirania era, relativamente às ficções sociais, uma tirania nova . E era uma tirania exercida sobre gente essencialmente oprimida já pelas ficções sociais. Era, ainda por cima, tirania exercida entre si por gente cujo intuito sincero não era senão destruir tirania e criar liberdade. «Agora ponha o caso num grupo muito maior, muito mais influente, tratando já de questões importantes e de decisões de carácter fundamental. Ponha esse grupo a encaminhar os seus esforços, como o nosso, para a formação de uma sociedade livre. E agora diga-me se através desse carregamento de tiranias entrecruzadas v. entrevê qualquer sociedade futura que se pareça com uma sociedade livre ou com uma humanidade digna de si própria… — Sim: isso é muito curioso… — É curioso, não é?… E olhe que há pontos secundários também muito curiosos… Por exemplo: a tirania do auxílio… — A quê? — A tirania do auxílio. Havia entre nós quem, em vez de mandar nos outros, em vez de se impor aos outros, pelo contrário os auxiliava em tudo quanto podia. Parece o contrário, não é verdade? Pois olhe que é o mesmo. É a mesma tirania nova. É do mesmo modo ir contra os princípios anarquistas. — Essa é boa! Em quê? — Auxiliar alguém, meu amigo, é tomar alguém por incapaz; se esse alguém não é incapaz, é ou fazê-lo tal, ou supô-lo tal, e isto é, no primeiro caso uma tirania, e no segundo um desprezo. Num caso cerceia-se a liberdade de outrem; no outro caso parte-se, pelo menos inconscientemente, do princípio de que outrem é desprezível e indigno ou incapaz de liberdade. «Voltemos ao nosso caso… V. vê bem que este ponto era gravíssimo. Vá que trabalhássemos pela sociedade futura sem esperarmos que ela nos agradecesse, ou arriscando-nos, mesmo, a que ela nunca viesse. Tudo isso, vá. Mas o que era de mais era estarmos trabalhando para um futuro de liberdade e não fazermos, de positivo, mais que criar tirania, e não só tirania, mas tirania nova, e tirania exercida por nós, os oprimidos, uns sobre os outros. Ora isto é que não podia ser… «Pus-me a pensar. Aqui havia um erro, um desvio qualquer. Os nossos intuitos eram bons; as nossas doutrinas pareciam certas; seriam errados os nossos processos? Com certeza que deveriam ser. Mas onde diabo estava o erro? Pus-me a pensar nisso e ia dando em doido. Um dia, de repente, como acontece sempre nestas coisas, dei com a solução. Foi o grande dia das minhas teorias anarquistas; o dia em que descobri, por assim dizer, a técnica do anarquismo. Olhou-me um momento sem me olhar. Depois continuou, no mesmo tom. — Pensei assim… Temos aqui uma tirania nova, uma tirania que não é derivada das ficções sociais. Então de onde é ela derivada? Será derivada das qualidades naturais? Se é, adeus sociedade livre! Se uma sociedade onde estão em operação apenas as qualidades naturais dos homens — aquelas qualidades com que eles nascem, que devem só à Natureza, e sobre as quais não temos poder nenhum —, se uma sociedade onde estão em operação apenas essas qualidades é um amontoado de tiranias, quem é que vai mexer o dedo mínimo para contribuir para a vinda dessa sociedade? Tirania por tirania, fique a que está, que ao menos é aquela a que estamos habituados, e que por isso fatalmente sentimos menos que sentiríamos uma tirania nova, e com o carácter terrível de todas as coisas tirânicas que são directamente da Natureza — o não haver revolta possível contra ela, como não há revolução contra ter que morrer, ou contra nascer baixo quando se preferia ter nascido alto. Mesmo, eu já lhe provei que, se por qualquer razão não é realizável a sociedade anarquista, então deve existir, por ser mais natural que qualquer outra salvo aquela, a sociedade burguesa. «Mas seria esta tirania, que nascia assim entre nós, realmente derivada das qualidades naturais? Ora o que são as qualidades naturais? São o grau de inteligência, de imaginação, de vontade, etc., com que cada um nasce — isto no campo mental, é claro, porque as qualidades naturais físicas não vêm para o caso. Ora um tipo que, sem ser por uma razão derivada das ficções sociais, manda noutro, por força que o faz por lhe ser superior em uma ou outra das qualidades naturais. Domina-o pelo emprego das suas qualidades naturais. Mas há uma coisa a ver: esse emprego das qualidades naturais será legítimo, isto é, será natural ? «Ora qual é o emprego natural das nossas qualidades naturais? O servir os fins naturais da nossa personalidade. Ora dominar alguém será um fim natural da nossa personalidade? Pode sê-lo; há um caso em que pode sê-lo: é quando esse alguém está para nós num lugar de inimigo. Para o anarquista, é claro, quem está no lugar de inimigo, é qualquer representante das ficções sociais e da sua tirania; mais ninguém, porque todos os outros homens são homens como ele e camaradas naturais. Ora, v. bem vê, o caso da tirania que tínhamos estado criando entre nós não era este; a tirania, que tínhamos estado criando, era exercida sobre homens como nós, camaradas naturais, e, mais ainda, sobre homens duas vezes nossos camaradas, porque o eram também pela comunhão no mesmo ideal. Conclusão: esta nossa tirania, se não era derivada das ficções sociais, também não era derivada das qualidades naturais; era derivada duma aplicação errada, duma perversão, das qualidades naturais. E essa perversão, de onde é que provinha? «Tinha que provir de uma de duas coisas: ou de o homem ser naturalmente mau, e portanto todas as qualidades naturais serem naturalmente pervertidas ; ou de uma perversão resultante da longa permanência da humanidade numa atmosfera de ficções sociais, todas elas criadoras de tirania, e tendente, portanto, a tornar já instintivamente tirânico o uso mais natural das qualidades mais naturais. Ora, destas duas hipóteses, qual é que seria a verdadeira? De um modo satisfatório — isto é, rigorosamente lógico ou científico — era impossível determinar. O raciocínio não pode entrar com o problema, porque ele é de ordem histórica, ou científica, e depende do conhecimento de factos . Por seu lado, a ciência também nos não ajuda, porque, por mais longe que recuemos na história, encontramos sempre o homem vivendo sob um ou outro sistema de tirania social, e portanto sempre num estado que nos não permite averiguar como é o homem quando vive em circunstâncias pura e inteiramente naturais. Não havendo maneira de determinar ao certo, temos que pender para o lado da maior probabilidade; e a maior probabilidade está na segunda hipótese. É mais natural supor que a longuíssima permanência da humanidade em ficções sociais criadoras de tirania faça cada homem nascer já com as suas qualidades naturais pervertidas no sentido de tiranizar espontaneamente, mesmo em quem não pretenda tiranizar, do que supor que qualidades naturais podem ser naturalmente pervertidas, o que, de certo modo, representa uma contradição. Por isso o pensador decide-se, como eu me decidi, com uma quase absoluta segurança, pela segunda hipótese. «Temos, pois, que uma coisa é evidente… No estado social presente não é possível um grupo de homens, por bem intencionados que estejam todos, por preocupados que estejam todos só em combater as ficções sociais e em trabalhar pela liberdade, trabalharem juntos sem que espontaneamente criem entre si tirania, sem criar entre si uma tirania nova, suplementar à das ficções sociais, sem destruir na prática tudo quanto querem na teoria, sem involuntariamente estorvar o mais possível o próprio intuito que querem promover. O que há a fazer? É muito simples… É trabalharmos todos para o mesmo fim, mas separados . — Separados?! — Sim. V. não seguiu o meu argumento? — Segui. — E não acha lógica, não acha fatal esta conclusão? — Acho, sim, acho… O que não vejo bem é como isso… — Já vou esclarecer… Disse eu: trabalharmos todos para o mesmo fim, mas separados. Trabalhando todos para o mesmo fim anarquista, cada um contribui com o seu esforço para a destruição das ficções sociais, que é para onde o dirige, e para a criação da sociedade livre do futuro; e trabalhando separados não podemos, de modo nenhum , criar tirania nova, porque nenhum tem acção sobre outro, e não pode portanto, nem, dominando-o, diminuir-lhe a liberdade, nem, auxiliando-o, apagar-lha. «Trabalhando assim separados e para o mesmo fim anarquista, temos as duas vantagens — a do esforço conjunto, e a da não-criação de tirania nova. Continuamos unidos, porque o estamos moralmente e trabalhamos do mesmo modo para o mesmo fim; continuamos anarquistas, porque cada um trabalha para a sociedade livre; mas deixamos de ser traidores, voluntários ou involuntários, à nossa causa, deixamos mesmo de poder sê-lo, porque nos colocamos, pelo trabalho anarquista isolado, fora da influência deletéria das ficções sociais, no seu reflexo hereditário sobre as qualidades que a Natureza deu. «É claro que toda esta táctica se aplica ao que eu chamei o período de preparação para a revolução social. Arruinadas as defesas burguesas, e reduzida a sociedade inteira ao estado de aceitação das doutrinas anarquistas, faltando só fazer a revolução social, então, para o golpe final, é que não pode continuar a acção separada. Mas, nessa altura, já a sociedade livre estará virtualmente chegada; já as coisas serão de outra maneira. A táctica a que me refiro só diz respeito à acção anarquista em meio da sociedade burguesa, como agora, como no grupo a que eu pertencia. «Era esse — até que enfim! — o verdadeiro processo anarquista. Juntos, nada valíamos, que importasse, e, ainda por cima, nos tiranizávamos, e nos estorvávamos uns aos outros e às nossas teorias. Separados, pouco também conseguiríamos, mas ao menos não estorvávamos a liberdade, não criávamos tirania nova; o que conseguíamos, pouco que fosse, era realmente conseguido, sem desvantagem nem perda. E, de mais a mais, trabalhando assim separados, aprendíamos a confiar mais em nós-mesmos, a não nos encostarmos uns aos outros, a tornarmo-nos mais livres já, a prepararmo-nos, tanto pessoalmente, como aos outros pelo nosso exemplo, para o futuro. «Fiquei radiante com esta descoberta. Fui logo expô-la aos meus camaradas… Foi uma das poucas vezes em que fui estúpido na minha vida. Imagine v. que eu estava tão cheio da minha descoberta que esperava que eles concordassem!… — Não concordaram, é claro… — Repontaram, meu amigo, repontaram todos! Uns mais, outros menos, tudo protestou!… Não era isso!… Isso não podia ser!… Mas ninguém dizia o que era ou o que é que havia de ser. Argumentei e argumentei, e, em resposta aos meus argumentos, não obtive senão frases, lixo, coisas como essas que os ministros respondem nas câmaras quando não têm resposta nenhuma… Então é que eu vi com que bestas e com que cobardões estava metido! Desmascararam-se. Aquela corja tinha nascido para escravos. Queriam ser anarquistas à custa alheia. Queriam a liberdade, logo que fossem os outros que lha arranjassem, logo que lhes fosse dada como um rei dá um título! Quase todos eles são assim, os grandes lacaios! — E v., escamou-se? — Se me escamei! Enfureci-me! Pus-me aos coices. Dei por paus e por pedras. Quase que me peguei com dois ou três deles. E acabei por me vir embora. Isolei-me. Veio-me um nojo àquela carneirada toda, que v. não imagina! Quase que descri do anarquismo. Quase que decidi não me importar mais com tudo aquilo. Mas, passados uns dias, voltei a mim. Pensei que o ideal anarquista estava acima destas quesílias. Eles não queriam ser anarquistas? Sê-lo-ia eu. Eles queriam só brincar aos libertários? Não estava eu para brincar num caso desses. Eles não tinham força para combater senão encostados uns aos outros, e criando, entre si, um simulacro novo da tirania que diziam querer combater? Pois que o fizessem, os parvos, se não serviam para mais. Eu é que não ia ser burguês por tão pouco. «Estava estabelecido que, no verdadeiro anarquismo, cada um tem que, por suas próprias forças, criar liberdade e combater as ficções sociais. Pois por minhas próprias forças eu ia criar liberdade e combater as ficções sociais. Ninguém queria seguir-me no verdadeiro caminho anarquista? Seguiria eu por ele. Iria eu só, com os meus recursos, com a minha fé, desacompanhado até do apoio mental dos que tinham sido meus camaradas, contra as ficções sociais inteiras. Não digo que fosse um belo gesto, nem um gesto heróico. Foi simplesmente um gesto natural. Se o caminho tinha que ser seguido por cada um separadamente, eu não precisava de mais ninguém para o seguir. Bastava o meu ideal. Foi baseado nestes princípios e nestas circunstâncias que decidi, por mim só, combater as ficções sociais. Suspendeu um pouco o discurso, que se lhe tornara quente e fluido. Retomou-o de ali a pouco, com a voz já mais sossegada. — É um estado de guerra, pensei eu, entre mim e as ficções sociais. Muito bem. O que posso eu fazer contra as ficções sociais? Trabalho sozinho, para não poder, de modo nenhum, criar qualquer tirania. Como posso eu colaborar sozinho na preparação da revolução social, na preparação da humanidade para a sociedade livre? Tenho que escolher um de dois processos, dos dois processos que há; caso, é claro, não possa servir-me de ambos. Os dois processos são a acção indirecta, isto é, a propaganda, e a acção directa, de qualquer espécie. «Pensei primeiro  na acção indirecta, isto é, na propaganda. Que propaganda poderia eu fazer só por mim? À parte esta propaganda que sempre se vai fazendo em conversa, com este ou aquele, ao acaso e servindo-nos de todas as oportunidades, o que eu queria saber era se a acção indirecta era um caminho por onde eu pudesse encaminhar a minha actividade de anarquista energicamente, isto é, de modo a produzir resultados sensíveis. Vi logo que não podia ser. Não sou orador e não sou escritor. Quero dizer: sou capaz de falar em público, se for preciso, e sou capaz de escrever um artigo de jornal; mas o que eu queria averiguar era se o meu feitio natural indicava que, especializando-me na acção indirecta, de qualquer das duas espécies ou em ambas, eu poderia obter resultados mais positivos para a ideia anarquista que especializando os meus esforços em qualquer outro sentido. Ora a acção é sempre mais proveitosa que a propaganda, excepto para os indivíduos cujo feitio os indica essencialmente como propagandistas — os grandes oradores, capazes de electrizar multidões e arrastá-las atrás de si, ou os grandes escritores, capazes de fascinar e convencer com os seus livros. Não me parece que eu seja muito vaidoso, mas, se o sou, não me dá, pelo menos, para me envaidecer daquelas qualidades que não tenho. E, como lhe disse, nunca me deu pra me julgar orador ou escritor. Por isso abandonei a ideia da acção indirecta como caminho a dar à minha actividade de anarquista. Por exclusão de partes, era forçado a escolher a acção directa, isto é, o esforço aplicado à prática da vida, à vida real. Não era a inteligência, mas a acção. Muito bem. Assim seria. «Tinha eu pois que aplicar à vida prática o processo fundamental de acção anarquista que eu já tinha esclarecido — combater as ficções sociais sem criar tirania nova, criando já, caso fosse possível, qualquer coisa da liberdade futura. Ora como diabo se faz isso na prática? «Ora o que é combater na prática? Combater na prática é a guerra, é uma guerra, pelo menos. Como é que se faz guerra às ficções sociais? Antes de mais nada, como é que se faz guerra? Como é que se vence o inimigo em qualquer guerra? De uma de duas maneiras: ou matando-o, isto é, destruindo-o; ou aprisionando-o, isto é, subjugando-o, reduzindo-o à inactividade. Destruir as ficções sociais não podia eu fazer; destruir as ficções sociais só o podia fazer a revolução social. Até ali, as ficções sociais podiam estar abaladas, cambaleando, por um fio; mas destruídas , só o estariam com a vinda da sociedade livre e a queda positiva da sociedade burguesa. O mais que eu poderia fazer nesse sentido era destruir — destruir no sentido físico de matar — um ou outro membro das classes representativas da sociedade burguesa. Estudei o caso, e vi que era asneira. Suponha v. que eu matava um ou dois, ou uma dúzia de representantes da tirania das ficções sociais… O resultado? As ficções sociais ficavam mais abaladas? Não ficavam. As ficções sociais não são como uma situação política que pode depender de um pequeno número de homens, de um só homem por vezes. O que há de mau nas ficções sociais são elas, no seu conjunto, e não os indivíduos que as representam senão por serem representantes delas. Depois, um atentado de ordem social produz sempre uma reacção; não só tudo fica na mesma, mas, as mais das vezes, piora. E, ainda por cima, suponha, como é natural, que, depois de um atentado, eu era caçado; era caçado e liquidado, de uma maneira ou outra. E suponha que eu tinha dado cabo de uma dúzia de capitalistas. Em que vinha isso tudo dar, em resumo? Com a minha liquidação, ainda que não por morte, mas por simples prisão ou degredo, a causa anarquista perdia um elemento de combate; e os doze capitalistas, que eu teria estendido, não eram doze elementos que a sociedade burguesa tinha perdido, porque os elementos componentes da sociedade burguesa não são elementos de combate, mas elementos puramente passivos, pois que o «combate» está, não nos membros da sociedade burguesa, mas no conjunto de ficções sociais, em que essa sociedade assenta. Ora as ficções sociais não são gente, em quem se possa dar tiros… V. compreende bem? Não era como o soldado de um exército que mata doze soldados de um exército contrário; era como um soldado que mata doze civis da nação do outro exército. É matar estupidamente, porque não se elimina combatente nenhum… Eu não podia portanto pensar em destruir , nem no todo nem em nenhuma parte, as ficções sociais. Tinha então que subjugá-las, que vencê-las subjugando-as, reduzindo-as à inactividade. Apontou para mim o indicador direito súbito. — Foi o que eu fiz! Retirou logo o gesto, e continuou. — Procurei ver qual era a primeira, a mais importante, das ficções sociais. Seria a essa que me cumpria, mais que a nenhuma outra, tentar subjugar, tentar reduzir à inactividade. A mais importante, da nossa época pelo menos, é o dinheiro. Como subjugar o dinheiro, ou, em palavras mais precisas, a força, ou a tirania do dinheiro? Tornando-me livre da sua influência, da sua força, superior portanto à sua influência, reduzindo-o à inactividade pelo que me dizia respeito a mim. Pelo que me dizia respeito a mim , compreende v.?, porque eu é que o combatia; se fosse reduzi-lo à inactividade pelo que respeita a toda a gente, isso não seria já subjugá-lo, mas destruí-lo , porque seria acabar de todo com a ficção dinheiro. Ora eu já lhe provei que qualquer ficção social só pode ser «destruída» pela revolução social, arrastada com as outras na queda da sociedade burguesa. «Como podia eu tornar-me superior à força do dinheiro? O processo mais simples era afastar-me da esfera da sua influência, isto é, da civilização; ir para um campo comer raízes e beber água das nascentes; andar nu e viver como um animal. Mas isto, mesmo que não houvesse dificuldade em fazê-lo, não era combater uma ficção social; não era mesmo combater: era fugir. Realmente, quem se esquiva a travar um combate não é derrotado nele. Mas moralmente é derrotado, porque não se bateu. O processo tinha que ser outro — um processo de combate e não de fuga. Como subjugar o dinheiro, combatendo-o? Como furtar-me à sua influência e tirania, não evitando o seu encontro? O processo era só um — adquiri-lo , adquiri-lo em quantidade bastante para lhe não sentir a influência; e em quanto mais quantidade o adquirisse, tanto mais livre eu estaria dessa influência. Foi quando vi isto claramente, com toda a força da minha convicção de anarquista, e toda a minha lógica de homem lúcido, que entrei na fase actual — a comercial e bancária, meu amigo — do meu anarquismo. Descansou um momento da violência, novamente crescente, do seu entusiasmo pela sua exposição. Depois continuou, ainda com um certo calor, a sua narrativa. — Ora v. lembra-se daquelas duas dificuldades lógicas que eu lhe disse que me haviam surgido no princípio da minha carreira de anarquista consciente?… E v. lembra-se de eu lhe dizer que naquela altura as resolvi artificialmente, pelo sentimento e não pela lógica? Isto é, v. mesmo notou, e muito bem, que eu não as tinha resolvido pela lógica… — Lembro-me, sim… — E v. lembra-se de eu lhe dizer que mais tarde, quando acertei por fim com o verdadeiro processo anarquista, as resolvi então de vez, isto é, pela lógica? — Sim. — Ora veja como ficaram resolvidas… As dificuldades eram estas: não é natural trabalhar por qualquer coisa, seja o que for, sem uma compensação natural , isto é, egoísta; e não é natural dar o nosso esforço a qualquer fim sem ter a compensação de saber que esse fim se atinge . As duas dificuldades eram estas; ora repare como ficam resolvidas pelo processo de trabalho anarquista que o meu raciocínio me levou a descobrir como sendo o único verdadeiro… O processo dá em resultado eu enriquecer; portanto, compensação egoísta . O processo visa ao conseguimento da liberdade; ora eu, tornando-me superior à força do dinheiro, isto é, libertando- me dela, consigo liberdade . Consigo liberdade só para mim, é certo; mas é que como já lhe provei, a liberdade para todos só pode vir com a destruição das ficções sociais, pela revolução social, e eu, só por mim, não posso fazer a revolução social. O ponto concreto é este: viso liberdade, consigo liberdade: consigo a liberdade que posso, porque, é claro, não posso conseguir a que não posso… E veja v.: à parte o raciocínio que determina este processo anarquista como o único verdadeiro, o facto que ele resolve automaticamente as dificuldades lógicas, que se podem opor a qualquer processo anarquista, mais prova que ele é o verdadeiro. «Pois foi este o processo que eu segui. Meti ombros à empresa de subjugar a ficção dinheiro, enriquecendo. Consegui. Levou um certo tempo, porque a luta foi grande, mas consegui. Escuso de lhe contar o que foi e o que tem sido a minha vida comercial e bancária. Podia ser interessante, em certos pontos sobretudo, mas já não pertence ao assunto. Trabalhei, lutei, ganhei dinheiro; trabalhei mais, lutei mais, ganhei mais dinheiro; ganhei muito dinheiro por fim. Não olhei a processos — confesso-lhe, meu amigo, que não olhei a processos; empreguei tudo quanto há — o açambarcamento, o sofisma financeiro, a própria concorrência desleal. O quê?! Eu combatia as ficções sociais, imorais e antinaturais por excelência, e havia de olhar a processos?! Eu trabalhava pela liberdade, e havia de olhar às armas com que combatia a tirania?! O anarquista estúpido, que atira bombas e dá tiros, bem sabe que mata, e bem sabe que as suas doutrinas não incluem a pena de morte. Ataca uma imoralidade com um crime, porque acha que essa imoralidade vale um crime para se destruir. Ele é estúpido quanto ao processo, porque, como já lhe mostrei, esse processo é errado e contraproducente como processo anarquista ; agora quanto à moral do processo ele é inteligente. Ora o meu processo estava certo, e eu servia-me legitimamente, como anarquista, de todos os meios para enriquecer. Hoje realizei o meu limitado sonho de anarquista prático e lúcido. Sou livre. Faço o que quero, dentro, é claro, do que é possível fazer. O meu lema de anarquista era a liberdade; pois bem, tenho a liberdade, a liberdade que, por enquanto, na nossa sociedade imperfeita, é possível ter. Quis combater as forças sociais; combati-as, e, o que é mais, venci-as. — Alto lá! alto lá! disse eu. Isso estará tudo muito bem, mas há uma coisa que v. não viu. As condições do seu processo eram, como v. provou, não só criar liberdade, mas também não criar tirania . Ora v. criou tirania. V. como açambarcador, como banqueiro, como financeiro sem escrúpulos — v. desculpe, mas v. é que o disse, — v. criou tirania. V. criou tanta tirania como qualquer outro representante das ficções sociais, que v. diz que combate. — Não, meu velho, v. engana-se. Eu não criei tirania. A tirania, que pode ter resultado da minha acção de combate contra as ficções sociais, é uma tirania que não parte de mim, que portanto eu não criei; está nas ficções sociais, eu não a juntei a elas . Essa tirania é a própria tirania das ficções sociais ; e eu não podia, nem me propus, destruir as ficções sociais. Pela centésima vez lhe repito: só a revolução social pode destruir as ficções sociais; antes disso, a acção anarquista perfeita, como a minha, só pode subjugar as ficções sociais, subjugá-las em relação só ao anarquista que põe esse processo em prática, porque esse processo não permite uma mais larga sujeição dessas ficções. Não é de não criar tirania que se trata: é de não criar tirania nova , tirania onde não estava . Os anarquistas, trabalhando em conjunto, influenciando-se uns aos outros como eu lhe disse, criam entre si , fora e à parte das ficções sociais, uma tirania; essa é que é uma tirania nova. Essa, eu não a criei. Não a podia mesmo criar, pelas próprias condições do meu processo . Não, meu amigo; eu só criei liberdade. Libertei um . Libertei-me a mim. É que o meu processo, que é, como lhe provei, o único verdadeiro processo anarquista, me não permitiu libertar mais. O que pude libertar, libertei. — Está bem… Concordo… Mas olhe que, por esse argumento, a gente quase que é levada a crer que nenhum representante das ficções sociais exerce tirania… — E não exerce. A tirania é das ficções sociais e não dos homens que as incarnam; esses são, por assim dizer, os meios de que as ficções se servem para tiranizar, como a faca é o meio de que se pode servir o assassino. E v. decerto não julga que abolindo as facas abole os assassinos… Olhe… Destrua v. todos os capitalistas do mundo, mas sem destruir o capital … No dia seguinte o capital, já nas mãos de outros, continuará, por meio desses , a sua tirania. Destrua, não os capitalistas, mas o capital; quantos capitalistas ficam?… Vê?… — Sim; v. tem razão. — Ó filho, o máximo, o máximo, o máximo que v. me pode acusar de fazer é de aumentar um pouco, — muito, muito pouco — a tirania das ficções sociais. O argumento é absurdo, porque como já lhe disse, a tirania que eu não devia criar, e não criei, é outra. Mas tem mais um ponto fraco: é que, pelo mesmo raciocínio, v. pode acusar um general, que trava combate pelo seu país, de causar ao seu país o prejuízo do número de homens do seu próprio exército que teve de sacrificar para vencer. Quem vai à guerra, dá e leva. Consiga-se o principal; o resto… — Está muito bem… Mas olhe lá outra coisa… O verdadeiro anarquista quer a liberdade não só para si, mas também para os outros… Parece-me que quer a liberdade para a humanidade inteira… — Sem dúvida. Mas eu já lhe disse que, pelo processo que descobri que era o único processo anarquista, cada um tem de libertar-se a si-próprio. Eu libertei-me a mim; fiz o meu dever simultaneamente para comigo e para com a liberdade. Porque é que os outros, os meus camaradas, não fizeram o mesmo? Eu não os impedi. Esse é que teria sido o crime, se eu os tivesse impedido. Mas eu nem sequer os impedi ocultando-lhes o verdadeiro processo anarquista; logo que descobri o processo, disse-o claramente a todos. O próprio processo me impedia de fazer mais. Que mais podia fazer? Compeli-los a seguir o caminho? Mesmo que o pudesse fazer, não o faria, porque seria tirar-lhes a liberdade, e isso era contra os meus princípios anarquistas. Auxiliá-los? Também não podia ser, pela mesma razão. Eu nunca ajudei, nem ajudo, ninguém, porque isso, sendo diminuir a liberdade alheia, é também contra os meus princípios. V. o que me está censurando é eu não ser mais gente que uma pessoa só. Porque me censura o cumprimento do meu dever de libertar, até onde eu o podia cumprir? Porque não os censura antes a eles por não terem cumprido o deles? — Pois sim, homem. Mas esses homens não fizeram o que v. fez, naturalmente, porque eram menos inteligentes que v., ou menos fortes de vontade, ou… — Ah, meu amigo: essas são já as desigualdades naturais, e não as sociais… Com essas é que o anarquismo não tem nada. O grau de inteligência ou de vontade de um indivíduo é com ele e com a Natureza; as próprias ficções sociais não põem pr’aí nem prego nem estopa. Há qualidades naturais, como eu já lhe disse, que se pode presumir que sejam pervertidas pela longa permanência da humanidade entre ficções sociais; mas a perversão não está no grau da qualidade, que é absolutamente dado pela Natureza, mas na aplicação da qualidade. Ora uma questão de estupidez ou de falta de vontade não tem que ver com a aplicação dessas qualidades, mas só com o grau delas. Por isso lhe digo: essas são já absolutamente as desigualdades naturais, e sobre essas ninguém tem poder nenhum, nem há modificação social que a modifique, como não me pode tornar a mim alto ou a v. baixo… «A não ser… A não ser que, no caso desses tipos, a perversão hereditária das qualidades naturais vá tão longe que atinja o próprio fundo do temperamento… Sim, que um tipo nasça para escravo, nasça naturalmente escravo, e portanto incapaz de qualquer esforço no sentido de se libertar… Mas nesse caso…, nesse caso…, que tem ele que ver com a sociedade livre, ou com a liberdade?… Se um homem nasceu para escravo, a liberdade, sendo contrária à sua índole, será para ele uma tirania. Houve uma pequena pausa. De repente ri alto. — Realmente, disse eu, v. é anarquista. Em todo o caso, dá vontade de rir, mesmo depois de o ter ouvido, comparar o que v. é com o que são os anarquistas que pr’aí há… — Meu amigo, eu já lho disse, já lho provei, e agora repito-lho… A diferença é só esta: eles são anarquistas só teóricos, eu sou teórico e prático; eles são anarquistas místicos, e eu científico; eles são anarquistas que se agacham, eu sou um anarquista que combate e liberta… Em uma palavra: eles são pseudo-anarquistas, e eu sou anarquista. E levantámo-nos da mesa. Lisboa, Janeiro de 1922. 1922 Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 70. 1ª publ. in Contemporânea , nº1. Lisboa: Maio de 1922. 1. Qualquer situação política que se definir pelo processo definitivo da conquista do poder deve, não só para que se mantenha, mas para que se mantenha utilmente, atingir uma consciência de si — da sua natureza e dos seus fins — que lhe permita organizar-se como sistema de acção política, isto é, limitar nitidamente a esfera de acção que naturalmente lhe compete, e operar segundo princípios fixos dentro dessa esfera fixa de funcionamento. Em outras palavras, toda a situação política vitoriosa, visto que, por vitoriosa, manifesta aproveitar uma oportunidade, deve, para viver, tomar para princípio basilar um oportunismo; mas, para estabilizar-se, tem que ser, mais do que um oportunismo, um oportunismo científico. E um oportunismo científico quer dizer uma adaptação às necessidades do meio político feita mediante uma análise cuidadosa de qual é, sociologicamente, o sentido essencial desse momento político, isto é, considerando-o não como um jogo de partidos, mas como um jogo de forças nacionais. Sem esse estudo preliminar, esse cuidado anterior à acção, a situação política mais favoravelmente iniciada murcha sem que perceba como, claudica sem saber porquê, ou, se persiste, persiste por dádiva do Destino, como o menino e o borracho, a quem, como diz o provérbio, Deus põe a mão por baixo. É que lhe falta a consciência do fim para que existe, a noção do sentido que tem, o conhecimento completo de si própria como correspondendo a um fim. 2. Aplicando o critério aqui esboçado à situação política criada pela contra-revolução Republicana de 8 de Dezembro, vê-se que temos que determinar, primeiro, qual é o sentido sociológico dessa contra-revolução no processo evolutivo da política geral da nacionalidade portuguesa; segundo, em que princípios oportunistas é que essa situação política é, portanto, obrigada a assentar; terceiro, de que maneira pode pôr em prática esses princípios e remover os obstáculos que se opõem a que ela os ponha em prática. (3) (...) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 100. A República Velha nada alterou das tradições desonrosas da Monarquia. Mudou apenas a maneira de cometer os erros; os erros continuaram sendo os mesmos. Em vez de um regime católico, um regime anticatólico, isto é, um regime que logo arregimentava como inimigos os católicos. Em vez de uma República portuguesa, de um regime nacional, uma república francesa em Portugal. E assim como a Monarquia Constitucional havia sido um sistema inglês (ou anglo-francês) sobreposto à realidade da Pátria Portuguesa, a República Velha foi um sistema francês sobreposto à mesma realidade pátria. No que respeita aos erros de administração — a incompetência, a imoralidade, o caciquismo — ficámos na mesma, mudando apenas os homens que faziam asneiras, que praticavam roubos e que escamoteavam "eleições". De sorte que a República Velha era a Monarquia sem Rei. Por isso é justo dizer que o 8 de Dezembro foi a queda da Segunda Monarquia. Como podia deixar de ser assim? Os homens do Partido Republicano tinham a mesma hereditariedade nacional, tinham vivido no mesmo meio que os da Monarquia; porque milagre teriam uma mentalidade diferente? Se Portugal tivesse regiões diferentes, nitidamente diferentes, se a Revolução de 5 de Outubro tivesse trazido para o poder homens de uma região diferente daquela de onde soessem provir os homens da Monarquia, então haveria homens diferentes no poder. Mas eram os mesmos políticos profissionais, os mesmos advogados da mesma Coimbra, os mesmos copistas da França — como podiam ter mentalidade diferente? Individualidades diferentes seriam, mas como na República Velha não apareceu nenhuma individualidade dominante, não houve diferença mesmo por esse lado. Essa emergência de individualidades — infrutífera em geral, salvo se conseguem vincar, como Napoleão, uma tradição — só pode dar-se com uma convulsão violenta e sangrenta, como foi a Revolução Francesa. O 5 de Outubro foi suave de mais para (...) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 101. UM GRANDE PORTUGUÊS Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário. Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa. Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: «Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma.». «Deixa ver», disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: «Para que quero eu isso?», disse; «isso nem a cegos se passa.» O outro, porém, insistiu; Vigário cedeu um pouco regateando; por fim fez-se negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma. Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos, negociantes de gado como ele, a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia da feira, em a qual se deveria efectuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem. Houve então a troca de outro olhar. O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O Vigário continuou a conversa, e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho. Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as cousas todas certas. E ditou o recibo — um recibo de bêbado, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, e «estando nós a jantar» (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa do bêbado...), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora. Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por escarradamente falsa, e o mesmo fez à segunda e à terceira... E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar. Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atónito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido. Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis. «E se eu tivesse pago em notas de cem», rematou o Vigário, «nem eu estava tão bêbado que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam.» E, como era de justiça, foi mandado em paz. O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do «conto de réis do Manuel Vigário» passou, abreviada, para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua origem. Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade — nem um leve brilho de olhos de Macchiavelli ou Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax. 1926 Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 95. 1ª publ. in Sol, nº1. Lisboa: 30-10-1926; 2ª publ. in Notícias Ilustrado , 2ª série. Lisboa: 18-8-29, com o título “A Origem do Conto do Vigário” A República Nova (Last Chapter) Determinámos que o papel histórico da actual situação é orientar, equilibrar — que não é construir. Não deve, nem pode, construir. Temos porém que buscar uma fórmula política definida (e não definitiva) para o período de transição que atravessamos. Construir é criar de novo, é portanto estabelecer uma nova tradição. Enquanto uma nova tradição não aparece temos que nos nortear pela tradição nacional. Norteando-nos pela tradição nacional, temos de o fazer de modo a adequá-la às circunstâncias. Temos que tirar a média entre as circunstâncias actuais e essa tradição. Qual é a tradição política portuguesa? A tradição verdadeira, entenda-se, verdadeira e geral, representativa do tipo de mentalidade português. A obra destruidora da República Velha não pode ser renegada, excepto no que, pelo exagero que as suas circunstâncias (...) A tradição política portuguesa está ligada ao sistema diversamente intitulado monarquia representativa ou monarquia absoluta. O movimento constitucional que começou em 1820 a acabou em 1851 não foi um movimento com qualquer espécie de alma popular. O povo não tinha nem da monarquia absoluta nem dos seus reis nem dos seus governantes aquela razão de queixa que é das revoluções. Nenhuma tirania feudalista, como a de onde emergiu, essencialmente, a Revolução Francesa, os oprimia, nenhum abuso pessoal, como os de Carlos I, que provocaram a Revolução Inglesa, os havia vexado; nenhuma oligarquia corrupta como a contra quem foi feito depois o 5 de Outubro os enlameava. O movimento constitucionalista não teve alcance nacional e, portanto, não o teve popular. Foi uma manifestação portuguesa de um fenómeno europeu, estrangeiro. Quando muito foi um movimento anticatólico e, mesmo, era da Igreja e da inimixtão do catolicismo com o Estado que derivava a única tirania que o povo, de algum modo, sentisse. Nem, como povo, a sentia, porque arma já então dirigida essencialmente contra as classes médias e cultas, absolutamente separadas do povo naquele estado de decadência, a Inquisição não era motivo senão de um vago ódio popular. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 102. Quando estou só reconheço Se por momentos me esqueço Que existo entre outros que são Como eu sós, salvo que estão Alheados desde o começo. E se sinto quanto estou Verdadeiramente só, Sinto-me livre mas triste. Vou livre para onde vou, Mas onde vou nada existe. Creio contudo que a vida Devidamente entendida É toda assim, toda assim. Por isso passo por mim Como por coisa esquecida. 9-8-1931 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 67. [A PINTURA DO AUTOMÓVEL] Eu explico como foi (disse o homem triste que estava com uma cara alegre), eu explico como foi... Quando tenho um automóvel, limpo-o. Limpo-o por diversas razões: para me divertir, para fazer exercícios, para ele não ficar sujo. O ano passado comprei um carro muito azul. Também limpava esse carro. Mas, cada vez que o limpava, ele teimava em se ir embora. O azul ia empalidecendo, e eu e a camurça é que ficavamos azuis. Não riam... A camurça ficava realmente azul: o meu carro ia passando para a camurça. Afinal, pensei, não estou limpando este carro: estou-o desfazendo Antes de acabar um ano, o meu carro estava metal puro: não era um carro, era uma anemia. O azul tinha passado para a camurça. Mas eu não achava graça a essa transfusão de sangue azul. Vi que tinha que pintar o carro de novo. Foi então que decidi orientar-me um pouco sobre esta questão dos esmaltes. Um carro pode ser muito bonito, mas, se o esmalte com que está pintado tiver tendências para a emigração, o carro poderá servir, mas a pintura é que não serve. A pintura deve estar pegada, como o cabelo, e não sujeita a uma liberdade repentina, como um chinó. Ora o meu carro tinha um esmalte chinó, que saía quando se empurrava. Pensei eu: quem será o amigo mais apto a servir-me de empenho para um esmalte respeitável? Lembrei-me que deveria ser o Bastos, lavador de automóveis com uma Caneças de duas portas nas Avenidas Novas. Ele passa a vida a esfregar automóveis, e deve portanto saber o que vale a pena esfregar. Procurei-o e disse-lhe: «Bastos amigo, quero pintar o meu carro de gente. Quero pintá-lo com um esmalte que fique lá, com um esmalte fiel e indivorciável. Com que esmalte é que o hei-de pintar?» «Com BARRYLOID», respondeu o Bastos, «e só uma criatura muito ignorante é que tem a necessidade de me vir aqui maçar com uma pergunta a que responderia do mesmo modo o primeiro chauffeur que soubesse a diferença entre um automóvel e uma lata de sardinhas». «Perfeitamente . . .» «Com que é que você quer pintar um carro», continuou o Bastos sem me ligar importância, «senão com um esmalte que seja ao mesmo tempo brilhante e permanente? E, ainda por cima fácil de aplicar... Isto do fácil de aplicar é comigo, mas é uma virtude, e as virtudes citam-se... Vá-se embora!...» «Bom...», disse eu. «Isto de esmaltes de nitrocelulose», prosseguiu o Bastos, dando-me um encontrão, não é um assunto de mercenaria a retalho. Tem uma coisa maçadora a que se chama ciência. Sabe o que é? Mas é maçadora para quem prepara as coisas; para nós, que as recebemos preparadas para as aplicarmos, é um alívio e uma alegria. Este BARRYLOID é o produto de longos cuidados feitos no primeiro laboratório de tintas, lacas e vernizes. Percebeu? Não é o primeiro produto do género que apareceu, porque o ser primeiro está bem se se trata de estar numa bicha, mas não se trata de tintas ou de coisas que metam estudo e provas. Não: nas tintas e na prática, a última palavra é que é a primeira.» «Meu caro Bastos...», disse eu. «Só BARRYLOID», respondeu o Bastos, virando-me as costas. «Eu queria agradecer...», prossegui. «Traga o carro», disse o Bastos. Levei-lhe o carro e ele pintou-o a BARRYLOID. E não há camurça, nem chuva, nem poeira da pior estrada, que consiga envergonhar esse esmalte de aço. Sim: o Bastos tratou-me mal, mas tratou bem a verdade. Não há nada como o BARRYLOID. ... Tanto assim que, quando comprei o meu segundo carro, tratei logo de saber se ele vinha já pintado a BARRYLOID. Ele aí está na base da página e no fim da minha história. Passa-se a camurça, mas é preciso usar óculos fumados: o brilho deslumbra. E, o que é mais, deslumbrará, porque dura. A minha camurça dura eternamente. O que se tem gasto muito são os óculos fumados; e os elogios dos amigos que vêem os meus carros pintados a BARRYLOID. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 97. Texto de publicidade às Tintas Baryloid. 1ª publ. in Folhas de Poesia , nº 3. Lisboa: Set. 1958, com o título «O Automóvel ia desaparecendo» O Sentido do Sidonismo As três tentativas para fazer governar as classes médias — João Franco, Pimenta de Castro, Sidónio país — acabaram, duas por um crime, e outra pela mais antinacional das revoluções portuguesas. O conceito vulgar, de que foi o democratismo que nos fez entrar na guerra, é falso, como todos os conceitos vulgares. Foi a Alemanha que nos declarou a guerra, após a "requisição", a que a G. B. nos forçou, dos barcos alemães. Os democráticos não são autores da nossa intervenção na guerra; são apenas autores da propaganda estéril a favor dessa entrada. Quem nos fez entrar na guerra foi a Alemanha, que no-la declarou, e a G. B. que nos forçou ao acto servil pelo qual essa declaração nos veio. Os democráticos não eram tão falhos de senso político que quisessem meter na guerra um país em que não havia nenhum sentimento que solicitasse a ida para a guerra. Demonstrava isso um mau estado do país? Talvez; mas eu aponto o facto, por enquanto não o discuto. A verdade é esta: em Portugal não havia ódio contra os alemães. Nenhuma tradição nossa o estabelecia; os nossos ódios tradicionais eram contra a Espanha, contra a França e contra a Inglaterra. A Alemanha nunca nos fora nada, nem num sentido nem noutro. Havia razões para odiarmos a Alemanha, para a temermos? Por certo, mas não razões susceptíveis de atingir a alma popular, não razões [...] àquelas que criam uma guerra nacional. "Esta guerra não é uma guerra nacional", disse Paiva Couceiro. Disse bem. Só se converteu em guerra nacional depois de termos tropas na frente de França, e, mesmo assim, era frequente regressarem oficiais e soldados que aludiam com mais simpatia ao "amigo boche" do que ao francês, e sobretudo ao inglês, camarada [?]. O contrário foi uma mixórdia da nossa desqualificada imprensa periódica, que nem soube de que (...) e lhe tinha sumido a decência. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 103. CZARKRESKO (Texto inglês original não disponível; consultar a bibliografia indicada.) Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 99. 1ª publ. in O Horror na Literatura Portuguesa . Maria Leonor Machado de Sousa. Lisboa. Instituto de Cultura Portuguesa, 1989 Sidonismo Ao investigar qual seja a verdadeira tradição política de Portugal, importa, antes de mais nada, definir este conceito de tradição. Ele pode ter três sentidos: ou o que passa, sem quebra, de pais a filhos, como, por exemplo, a língua pátria; ou o que (...) O despotismo central equilibrado pela descentralização municipalista. Com o estado perpétuo de guerra, e guerra agónica (?), criado pelos (...), que farão o seguimento, mórbido mas inevitável, das nossas descobertas, o municipalismo desapareceu, para deixar de pé, apenas, e mais forte, o despotismo ou poder absoluto. Quebrando (...) o poder da fidalguia, que mau grado o pouco feudalismo entre nós, ainda assim era uma regionalização, a Monarquia mais aumenta o seu centralismo e o seu poder. Houve, assim, ruptura de equilíbrio. Ficando Portugal, assim, reduzido politicamente a um mero poder central, sem vida aristocrática política, porque a aristocracia foi, politicamente, morta por D. João II, e sem vida popular política porque a vida dos municípios, lentamente apagada sob os últimos reis de Avis, veio a extinguir-se dos Filipes para os Braganças — o poder central, decaindo, decaiu politicamente tudo. Houve, com a Restauração, um renascimento do aristocratismo, mas o Marquês de Pombal esfacelou-o novamente, levando ao fim a obra iniciada por D. João Segundo. Assim, quando o internacionalismo maçónico cindiu Portugal em dois partidos, de instinto atacou a forma política que era a única no Reino — a Monarquia (absoluta). Mas em nome de que classe é que atacou a Monarquia? Não em nome do povo, pois não buscou reconstituir o municipalismo português. Movimento simultaneamente anticatólico (ou anti-ultramontano) e anti-britânico, o constitucionalismo fez cair a Monarquia absoluta, ligada sim ao catolicismo, mas não, ela própria, catolicismo, aliada, sim, da Inglaterra, mas não inglesa. Foi contra o ultramontanismo e contra a baixeza da m[onarquia] absoluta que o liberalismo se ergueu. Mas propriamente não foi contra a m[onarquia] absoluta. Mas os (...) — povo ou mais — nunca distinguem, em uma instituição, a essência dos acidentes, e tornam uma instituição corrupta por essa instituição, tal qual, não por a corrupção dela. Se alguém de novo passou a ter força durante o c[onstitucionalismo], foram as classes médias, mas não as classes médias como classes, porém como indivíduos. As classes médias políticas é que passaram a governar. Nem passaram a governar (e isto é importantíssimo) porque houvessem adquirido importância nacional, senão porque a adquiriram internacional. A rev[olução] constitucional não (foi) feita em favor da burguesia portuguesa, mas em favor da burguesia europeia. (Foi, portanto, um fenómeno extra-nacional.) Foi feita porque a instrução, afinal, alguma coisa progredira, as guerras napoleónicas alguma coisa haviam sacudido as populações (...) o Constitucionalismo foi feito pelo espírito da época contra a m[onarquia] absoluta, não pelo espírito português da época contra essa monarquia. Vimos já que, em grande parte, o liberalismo foi um anti-catolicismo. Veremos agora que foi um anti-nacionalismo. A única tentativa propriamente burguesa foi a "Maria da Fonte", que uma intervenção estrangeira dominou. Sendo um movimento de necessidade nacional, mas não um movimento nacional , o c[onstitucionalismo], pela parte destrutiva, teve razão, pela parte construtiva não a teve. As torças destituídas estavam, de facto, incapazes de governar em Portugal; as que entraram a governar eram capazes de o fazer, mas não em Portugal. Havia outras, que devessem e pudessem governar? Não; não as havia; e a tragédia nacional era essa. Só a m[onarquia] podia governar; só ela, absoluta ou reformada. A monarquia não havia deixado medrar, politicamente, classe nenhuma; tinha-se tornado a única força política existente. Caída, não havia quem a substituísse, porque não havia classe capaz de pensamento político, porque não havia vida política viável em Portugal senão a mon[arquia] absoluta, e essa era inviável, já, num país europeu. Não havia classe com capacidade política; não havia portanto classe com capacidade reformadora. Ora quando uma reforma política se impõe, e não há classe (ou força) política capaz de a fazer, a reforma faz-se porque se impõe, mas faz-se por revolução. Uma revolução é uma reforma feita por classes incapazes de reformar. Onde não há senso político há senso revolucionário Fê-la a burguesia e parte da aristocracia [?], porque era a única classe capaz de acção, foi uma revolução, porque essa classe, única capaz de acção, não era, por para tal não estar treinada, capaz de acção política. Sendo incapaz de acção política, não podia senão substituir à fórmula gasta uma fórmula estrangeira, pois lhe faltou o ímpeto [?] político país criar uma fórmula nacional. Assim, o c[onstitucionalismo] acrescentou à decadência a desnacionalização. Teve, porém, duas vantagens: despertar a burguesia politicamente e, com as revoluções que fez e contra-revoluções que motivou, sacudiu o letargo nacional. As revoluções — as anarquias, mesmo — têm a sua hora histórica, a sua necessidade social; como as guerras o seu tempo e a sua vantagem [...] Não caiamos no conceito absurdo de que a ordem é sempre precisa; por vezes é precisa a desordem (...) Quais foram, porém, os efeitos esperáveis da aplicação a um país de um sistema político inaplicável a ele, estrangeiro a ele, e por uma classe ineducada para governar? Por a classe ser ineducada para governar, ruína da administração; por querer governar reformando, ou seja sem capacidade de governar administrando, a derrocada e o caos político; por ter que governar com princípios estrangeiros a viciação do carácter nacional; por ter que governar inadaptadamente, a sua radicação em oligarquia — isto é, em minoria governante governando [...] fim da relação com as necessidades nacionais e as solicitações da continuidade governativa da vida pátria. Quando, porém, uma classe que obtém o poder passa a governar só negativamente e a construir só fortuitamente, sem apoio em nenhuma tradição, nem suporte em nenhuma força do povo, passa daí a pouco a governar só por governar; passando a governar só por governar, passa a governar só em seu proveito, primeiro político, depois pessoal. Um regime implantado nas condições de um constitucionalismo tem fatalmente que acabar por dar o que dará. Diz (...), com razão, que os nossos presentes condutores têm sido quadrilhas de gatunos. As causas, não nacionais mas gerais, que deram força à burguesia antes, e para, o c[onstitucionalismo], continuaram, no séc. XIX, a dar-lhe força. paralelamente, o c[onstitucionalismo] corrompia, e as classes médias caíram ou na indiferença ou na porcaria da política constitucional. Com o acréscimo da corrupção dos costumes, que modernamente se deu, ficou estragada de todo a classe em que se apoiava o c[onstitucionalismo]. E a instrução, alastrando o influxo das ideias estrangeiras, breve "alargaram" as classes políticas até elas abrangerem o povo — o povo das cidades, é claro — o proletariado pseudo-menos-inculto. A tradição constitucional, ou liberal, preparara a "ideia" republicana que, de um ponto de vista, é apenas o C[onstitucionalismo] num nível mais baixo ou com uma maior amplitude de aderência — o liberalismo popular. Renovou-se o fenómeno que se dera com a queda da velha monarquia. Da parte religiosa do problema já falámos; resta ver a parte exclusivamente política. Toda a criatura sã, em Portugal, se afastava da política. As massas populares, em parte bestializadas, em parte corruptas (...) Deu-se a reacção. Mas quem reagia? Criaturas das mesmas classes que governavam. Criaturas, portanto, com a mesma hereditariedade, vivendo no mesmo meio que os governantes. Criaturas, portanto, moral e intelectualmente idênticas a eles, pois seria o maior dos milagres se, com idêntica hereditariedade e com idêntico meio fossem diferentes. Um ou outro reagia em virtude de [...] e carácter, de legítima e honesta indignação moral. Mas nenhum partido podia reagir senão corruptamente, porque, quando uma sociedade é corrupta, pode haver, e há, indivíduos que o não são; mas não há agrupamentos que o não sejam, ou, se os há, não podem ter acção social, pois só corruptamente se pode agir numa sociedade corrupta. Um partido político, a ser são, tende a não agir, o que é uma contradição com o próprio conceito de partido político; a agir, terá de se integrar nos modos de acção do meio, tinha, na expressão mais moral, que se adaptar ao meio. Pois, à medida que foi tomando forças, o partido republicano foi-se tornando mais corrupto. Era a sua condição de vitória — num meio corrupto, [...] com corruptos. É comparar os homens do [...] de Antero de Quental e M. de Araújo [?] com os safados de [...] e Afonso Costa e do abade Braz, que são os da geração da vitória republicana Os primeiros falham em 31 de Janeiro; os segundos vencem em 5 de Outubro. Eram os adaptados ao meio. E os que sobreviveram, [...], quantas vezes não preferiram haver morrido antes que tivessem de sofrer a alegria da vitória. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 104. CIÊNCIA E RELIGIÃO A ciência não liga com a religião «qua» metafísica. A ciência, não admitindo a metafísica dentro de si, admite todos os sistemas. Perante ela não é possível achar solução ao mistério do universo. O raciocínio que disso trate, como (...), com o êxito que lhe couber. Está fora da ciência quando o faz. A ciência, portanto, nem o ataca nem o admite. Nada tem com ele. Dir-me-ão: mas, a ciência pode criticar o raciocínio. Pode como função ; em si — nunca, porque a ciência não critica as coisas em si — isso pertence à metafísica e a metafísica está, como vimos dizendo, fora da ciência. A ciência não critica as religiões como sistemas de metafísica. A Lógica pura — instrumento da própria metafísica — pode fazê-lo. Mas quando as religiões descem a explicação interior do universo, quando tentam aplicar aos seres nas suas relações (...) as suas conclusões metafísicas, quando a Metafísica religiosa se torna em Física, em Cosmografia — então entra a religião no campo da ciência — e entra mal —1º porque vem da metafísica, e daí não devia vir, pois, como a ciência não invade a razão da metafísica, sem se sujeitar a ficar desfeita na sua teorização, como as «filosofias» deduzidas da ciência não resistem ao embate do raciocínio puro, como, também a ciência a si nem se une destruindo, criando-se, da mesma maneira a metafísica é maltratada pela ciência moral também tornando-se, por assim dizer, metafísica aplicada. A ciência não nega que um Deus criasse o mundo. Não o afirma nem o nega. O que nega é que Deus criou o mundo 4000 anos antes do nascimento de Cristo. Assim, não nega que haja uma alma imortal, nada tem com isso, pois, por mais que entre na apreciação desse problema, o idealismo pode ir-lhe adiante com argumentos fortes e ainda que se não fossem senão como hipóteses — ainda assim são hipóteses que ficam na refutação A ciência não nega, diremos, a existência de uma alma imortal. O que nega é que o homem tenha um livre arbítrio. O que nega é [que] são coisas sobre as quais há liberdade de opinião. Mas não há liberdade de opinião para dizer que o mundo foi criado 4000 anos antes de Cristo, porque não é assim e que quem o diz pode dizê-lo, mas será considerado um agitador ou tolo. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 75. Teus olhos tristes, parados, Teus olhos tristes, parados, Coisa nenhuma a fitar... Ah meu amor, meu amor, Se eu fora nenhum lugar! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 38. PREFÁCIO A QUARESMA É curioso como certos assuntos nos talham a mente conforme a sua natureza. Fui verdadeiramente amigo de Quaresma verdadeiramente me dói a saudade dele, mas ao escrever a seu respeito, assumo, sem querer nem sentir, como aliás sempre faço, a frieza de quem é o meu tema, e não consigo ter uma lágrima em prosa. A personalidade de Quaresma insinua-se no que escrevo meu estilo recusa-se a não ser frio. O mais curioso é que essa individualidade apagada e mortiça, vivendo toda uma vida subjectiva de problemas objectivos, ganhava uma nova e milagrosa energia quando resolvia um problema, sobretudo um problema difícil. O Dr. Quaresma, normal, era um apenso débil à humanidade; o Dr. Quaresma, depois de decifrar, erguia-se num pedestal íntimo, hauria forcas incógnitas, já não era a fraqueza de um homem: era a força de uma conclusão. Não se transformava — não direi tanto –– mas transfigurava-se sem se transformar. Era o mesmo Quaresma, mas tinha o triunfo de ser o Almanaque de Lembranças do ano seguinte, já com o conceito das charadas. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 104. 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 Sidonismo Uma demagogia é um governo apoiado em forças (ou classes) populares e sistematicamente dirigido contra as opiniões, as tradições e os interesses das classes médias. Ora, como as classes médias, por estarem entre o instinto popular e a inteligência dos dirigentes (das aristocracias), são a média do valor nacional, e os depositários da força do país, segue que tudo quanto seja feito sistematicamente contra as classes médias é feito sistematicamente contra a pátria. A não se apoiar nos mon[árquicos], em quem se apoiaria Sidónio? O seu grande partido era os não políticos, a opinião que estava com ele opinião maior, politicamente inorganizada. Ou Sidónio havia de arriscar-se a fracassar politicamente, por falta de apoio político (por forte que fosse o seu apoio nacional), ou havia de ligar-se àquele partido político que, corno os apolíticos, era antidemagógico, embora o fosse por outras razões do que as dos apolíticos. Esse partido era o monárquico. A terceira hipótese — a de um governo apolítico, isto é, [...] s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 105. A crença em Deus assenta em o que podemos chamar um acto de fé racional. Consciente ou inconscientemente, o movimento do espírito é este: (1) Tudo quanto existe é efeito de uma causa; o universo existe; portanto o universo é efeito de uma causa. (2) O efeito não pode conter mais que o que está contido na causa, (pois então seria efeito de mais causas que uma); o universo, no mais alto ponto em que nós o conhecemos, que é o homem, contém a consciência; portanto a causa do universo deve conter a consciência, isto é, deve ser uma Causa consciente. (3) O efeito não pode conter tudo quanto se contém na causa, pois então seria idêntico à causa, e não haveria causa nem efeito; o universo é múltiplo, extenso (no tempo e no espaço, ou no espaço-tempo) e diverso (isto é, composto de coisas não só muitas mas diferentes entre si); portanto a causa do universo tem que conter mais que multiplicidade, ou seja totalidade, mais que extensão, ou seja infinidade, mais que diversidade, ou seja plenitude. Cumpre advertir que totalidade se diferencia de plenitude em que o primeiro é um conceito quantitativo, o segundo qualitativo: assim a totalidade do prazer seria a soma de todos os prazeres possíveis, a plenitude do prazer a concentração em um só prazer do que se acha contido na diversidade de todos. Por qualquer especulação desta ordem, em geral subconsciente ou instintiva, chega o homem à crença racional na existência de Deus. Que é racional, já o vimos, não esqueçamos porém que é simples crença, pois parte de princípios naturais, instintivos, mas dialecticamente contestáveis. Organizado, como é, o espírito do homem, não há demonstrações senão a científica, isto é, a que se baseia ou na observação, ou na experimentação, ou no cálculo, ou em qualquer combinação destas três coisas. Ora, ainda admitindo que o conceito de causa e efeito seja induzível da observação (o que é contestável e, de facto, tem sido contestado), o que é certo é que o que chamamos universo em seu «conjunto» não é susceptível de observação, de experimentação ou de cálculo, pois não temos sentido algum com que o abranjamos, nem sabemos, portanto, o que em esse «conjunto» (e já conjunto é hipótese) o universo seja. A existência de Deus é, pois, indemonstrável, mas é um acto de fé racional, natural portanto — inevitável até — em qualquer homem no uso da sua plena razão. E tanto assim é que o ateísmo anda sempre ligado a duas qualidades mentais negativas — a incapacidade de pensamento abstracto e a deficiência de imaginação racional. Por isso, nunca houve grande filósofo ou grande poeta que fosse ateu. Indemonstrabilidade dos dados dos sentidos — a crença que temos na realidade objectiva do universo é um acto de fé sensual. A ciência mostra a que leis obedecem os seres que povoam esse universo aparentemente objectivo; não demonstra, nem pode demonstrar que essa objectividade seja mais que aparente, que o mundo não seja sonho e ilusão. Num caso há um acto de fé logicamente injustificável, na validade da razão; no outro um acto de fé, igualmente injustificável, na validade dos sentidos. É bom que o ateu saiba que, se o teísta pratica uma imprudência lógica ao ocultar a existência de Deus, o ateu a pratica igual ao ocultar a existência de uma pedra, entendendo eu, por este segundo termo, a imaginação que sabe figurar-se «entes» despidos de todos os atributos. 1915? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 76. PREFÁCIO A QUARESMA «A investigação de qualquer assunto», disse Quaresma, «depende, essencialmente, da plena segurança dos raciocínios; e a plena segurança dos raciocínios depende essencialmente, por sua vez, de três coisas: (l.ª) a determinação primária de quais são, no caso de que se trate, os factos , isto é, aqueles detalhes da realidade que, sendo absolutamente nítidos, sejam de todo incontroversos; (2.ª) a determinação secundária de qual o «facto de conjunto», isto é o facto formado pela relação entre si desses factos primários; (3.ª) partindo desse ponto, qual a história inteira do caso, isto é, indo de indicação em indicação, eliminando, comparando, joeirando, qual a conclusão que vai dando de si o facto conjunto quando devidamente, e progressivamente, analisado. »Nós não vemos só com os sentidos; vemos, misturadamente, com a inteligência também. Elimino, agora, a hipótese, já anormal, da alucinação. Refiro-me apenas à experiência normal. Um exemplo: passo por uma rua e vejo um homem caído no passeio. Instintivamente me pergunto: por que é que este homem caiu aqui? Já aqui vai um erro de raciocínio, e, portanto, uma possibilidade de erro de facto. Eu não vi o homem cair ali. Vi-o já caído. Não é, portanto, um facto, para mim, que o homem caísse ali. O que é um facto, para mim, é que ele está caído ali. Pode ser que tenha caído noutro lugar e que o tenham transportado para ali; muita coisa mais pode ser. Creio ter-lhes mostrado bem como é complicado o que parece tão singelo. É preciso, em qualquer problema, separar-se cuidadosamente, logo no princípio, os dados e as conclusões . . . » s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 104. 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 Quais são os factos de que podemos partir? Factos, que o parecem deveras ser, são cinco: 1. Que o Presidente Sidónio país foi assassinado. 2. Que foi assassinado por um homem chamado JJC, actualmente preso no GC. 3. Que esse homem viera recentemente de fora, de Faro ou de Beja. 4. Que se estabeleceu uma relação entre esse homem e M[agalhães] L[ima], G[rão] M[estre] da M[açonaria] Portuguesa, em vista de se provar que o assassino procurou M[agalhães] L[ima] uma ou mais vezes (isto é incerto) no hotel onde aquele estava, e tinha sobre si, quando foi preso, uma carta comprometendo aquele maçon. 5. Que o Presidente foi avisado do complot e de que por toda a linha estavam homens para o assassinar. Destes factos temos que partir. Comecemos pelo mais nu, pelo mais simples, pelo facto de que o Presidente foi assassinado. Tratando-se de um homem público, e, sobretudo, de um Presidente da República, a questão abre-se em duas hipóteses: se foi assassinado por uma razão individual, se por uma razão política. Como se tratava, evidentemente, de um complot, trata-se, evidentemente de uma razão política. Repare que eu não trago para o caso a tentativa anterior, em Belém, e trago os indicados complots pela linha fora. É que não sei se o primeiro caso tem relação com o assassínio, mas sei que os complots pela linha fora forçosamente têm. Posto isto — que o Presidente foi assassinado por uma razão política — perguntemos: quantas são as razões políticas (e, aliás, individuais mesmo) que podem levar a matar um homem? São, evidentemente, duas: a vingança ou ódio, e o cálculo ou noção de proveito. Suponhamos que o Presidente foi morto por ódio, isto é, por vingança. Nesse caso, como ele dominou uma revolta democrática, como dominou um levantamento bolchevick, e como indispôs consigo (ao que parece) a Maçonaria, de uma de estas agremiações ou grupos devia ter partido o crime, se o intuito foi de ódio. Como se estabeleceu uma relação, imediatamente, entre o criminoso e o Chefe da Maçonaria portuguesa, comecemos por examinar se seria a Maçonaria quem armou o assassino. Que factos nos surgem tendentes a levamos a essa suspeita? Que o criminoso tinha na algibeira qualquer papel ou carta referindo-se a ML, e que diversas vezes procurou (quer falasse ou não) a esse maçon, no hotel onde este estava hospedado. Salta imediatamente aos olhos do raciocinador a excessiva evidência desta prova. Uma sociedade secreta que quisesse mandar matar um chefe de estado, ou outro homem que fosse, decerto não se lembraria — tendo tão extensas ramificações, tantas lojas e outras coisas — de comunicar com esse homem, primeiro, através de um seu membro ostensivo e conhecido como tal, segundo, através nem mais nem menos do que do seu grão-mestre, terceiro, através do seu grão-mestre quase em público, mediante entrevistas em um hotel, com todo o múltiplo testemunho de criados e outros hóspedes. Tal procedimento envolveria um grau de estupidez inconcebível e inconciliável com qualquer plano, sobretudo quando se considera que, por todos os relatos, o criminoso parece ser um indivíduo extraordinariamente astuto. Tal procedimento só seria explicável em duas hipóteses: a de que o criminoso com certeza não seria descoberto ou preso (o que seria absurdo ter como fatal), ou que, descoberto, não trairia essas relações com ML, o que era tão pouco certo que foi precisamente o contrário que aconteceu, encontrando-se logo uma carta que estabeleceu relação entre ML e ele. E em nenhuma destas hipóteses, mesmo, se justificaria que uma associação que tem todos os meios de encontro secreto ao seu dispor, expressamente fosse tornar públicas, pelo lugar , as entrevistas do G[rão] M[estre] com o assassino. Os próprios factos, portanto, pelos quais se pode suspeitar da Maçonaria, revelam, quando analisados, que com certeza não foi a Maçonaria, ou, pelo menos, a Maçonaria de que ML é GM, que armou o assassino do Presidente. Mas, se não foi a Maçonaria, então as insistentes vezes que o criminoso procurou ML, a carta que tinha na algibeira estabelecendo uma relação entre si e aquele, assumem um aspecto especial. Se um certo número de factos apontam directamente para alguém, evidentemente para alguém, e, ao mesmo tempo, analisados, demonstram que esse alguém nada tem com eles, a conclusão fatal é que houve intenção de estabelecer esses factos para implicar, para lançar suspeitas sobre esse alguém. Temos, pois, já algum caminho andado na nossa análise: estabelecemos, 1º que a Maçonaria não é culpada do assassínio do Presidente, 2º que quem é deveras culpado desse crime tentou arranjar de tal modo as coisas que a suspeita caísse sobre a Maçonaria. Chegados a esta conclusão, estamos habilitados a eliminar imediatamente o partido democrático do número dos suspeitos. Porque, sendo admissível que o partido democrático, vencido pelo Presidente, buscasse, por vingança e ódio, assassiná-lo, sendo admissível que, buscando-o, tentasse desviar as suspeitas para cima de outro grupo ou entidade, o que não é admissível é que escolhesse para essa entidade expiatória a Maçonaria, que toda a gente sabe, ou supõe, ser simpática ao partido democrático, como ele a ela, e caindo uma suspeita sobre quem imediatamente envolveria também os democráticos. A análise dos factos permite-nos, pois, eliminar a Maçonaria e o p[artido] d[emocrático] como culpados do assassínio do Presidente. Resta ver se essas culpas devem logicamente cair sobre os homens dos soviets, sobre os bolchevicks de cá ou de toda a parte. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 106. A METAPHYSICAL THEORY Todas as coisas adentro do nosso sistema solar são movimentos em torno a outras coisas, como no próprio exemplo do sistema, o dos vários planetas em torno ao sol. Este nosso sistema solar, obedecendo a essa lei, deve, por sua vez girar, com todos os seus orbes, em torno ao que lhe serve de Sol — ele e outros sistemas solares. Procedendo assim indefinidamente, temos que conceber o sistema do universo como, ao mesmo tempo que tende para um centro cada vez mais centro, tendendo ao mesmo tempo para o infinito. Concebendo agora sem procurar aprofundar esse conceito — o Universo inteiro como um Todo (porque se não é um Todo não é pensável, e por conseguinte não é nada), temos que, por sua vez, lhe aplicar essa Lei das coisas. Como Todo, como Coisa, ele deve girar em torno a um Sol seu, ele e outros sistemas de universos. Mas esse giro, esse movimento não se dá no espaço, porque o espaço é interior ao sistema do Universo no seu conjunto. Portanto é em outra coisa, comparável ao nosso espaço, mas não sendo ele, que o Universo gira. Será possível determinar qual essa coisa? Para que se possa conceber que o indefinido ou infinito Universo gire em volta a qualquer coisa (falando imperfeitamente, como as circunstâncias obrigam) temos que poder reduzir esse Universo à categoria de Coisa. Ora sob que aspecto é que um Indefinido ou Infinito pode ser tido como Coisa, isto é, como objecto limitado? Sob o aspecto de ser pensado. Isto é, nós pensamos o Universo, concebemo‑lo; para o pensamento, portanto, o Universo é uma Coisa. Ele existe dentro do Pensamento como uma coisa. É portanto o Pensamento o espaço onde o Universo gira. Mas gira em torno a quê, e com que possíveis outros Universos ? No Universo — isto é, dentro do Universo — globos materiais giram em torno a globos materiais. No Pensamento, por conseguinte, Universos devem girar em torno a outros universos. Mas qual é a matéria do Universo como Universo? Qual é a matéria que ele tem de comum com os outros universos, aqueles com que ele gira em torno a outro, e esse outro? A sua matéria como conjunto visto de fora é outra do que a sua matéria como conjunto disperso visto de dentro. De dentro é isto a que nós chamamos Matéria, e que tem por base o Espaço. De fora qual será? O que há de real nesse Híper-Sistema? Há a Ser — porque cada Universo fatalmente é ; há a número, porque eles são em número (certo). Mas não há a energia, porque aquilo a que chamamos energia só é concebível adentro do Espaço, e esse não existe ali. A esse Mundo onde os Universos giram chamarei pois o Mundo do Número, assim como o nosso mundo é o Mundo do Espaço. E o Tempo? Transcende ele ou acompanha o Espaço? (Será assim: Mundo do Espaço, Mundo do Tempo, Mundo do Número, girando em torno ao Infinito —, Mundo do Pensamento, Mundo da Consciência. Mundo do Ser). (Devem ser sete). Quando o Ser passa para o Mundo da Consciência, cria assim o ( Espírito) . Quando o Número passa para o Mundo do Tempo cria a Duração. Quando o Número, junto ao Tempo, passa para o Mundo do Espaço cria a Extensão. Ou assim (?): Quando a Consciência (e. gr.) passa para o Mundo do Tempo cria a Emoção (e. gr.). Quando o Ser passa para o Mundo do Espaço cria a... Assim os Universos são cada vez mais complexos, cada vez mais afastados do Mundo Divino, em torno ao qual todos multimodamente giram. Mundo de Deus. Mundo do Ser. Mundo da Consciência. Mundo do Pensamento. Mundo do Número. Mundo do Tempo. Mundo do Espaço. Ver se esta classificação está certa, quanto a organização e quanto a ordem. Ver se há razão para omitir o elemento Vontade ou Força (o elemento dinâmico), aliás importante num sistema que começa por ser um sistema baseado no movimento dos astros. Como se dá a passagem de um Mundo para o outro? A diferenciação do Sujeito e do Objecto só é possível no Mundo do Número, porque estes são Dois. No mundo do pensamento há uma unidade absoluta. Deus e Ser = Deus e Consciência = Deus e Pensamento = (Verdade) Deus e Número = (Infinito) Deus e Tempo = (Eternidade) Deus e Espaço = (Realidade) Ser e Consciência = Ser e Pensamento = Ser e Número = Ser e Tempo = Ser e Espaço = (Matéria) Consciência e Ser = (Alma) Consciência e Pensamento = (Intel. abstracta) Consciência e Número = Consciência e Tempo = (Intel. concreta) (Memória) Consciência e Espaço = (Observação). 1917? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 28. Qualquer sistema de pensar que se ocupa de Deus, da Liberdade e da imortalidade, quer afirmando-as quer negando-as é metafísico. A ciência não nega Deus, nem o livre-arbítrio (no seu sentido restrito) nem a imortalidade; também não os afirma. Nada tem com isso, por uma razão muito simples: a ciência investiga observando directa ou indirectamente (isto é, pela experimentação, que é uma observação provocada). As coisas que não se podem observar pelos sentidos, medir, experimentar, não pertencem a ciência alguma, não podem ser objectos dela. Assim miserável e pomposamente Haeckel quando no seu [...] ensaio metafísico «Os Enigmas do Universo», fazendo metafísica panteísta-materialista. Chama-se a este modo de entender as coisas (o) racionalismo, mas há idiotas que entendem que o racionalismo é ateísta. Não. O racionalismo não é sectário, e o ateísmo como o teísmo — são sectarismos metafísicos. Entre a ciência e a metafísica não há, pois, contradição; há exclusão mútua. São dois modos de encarar os fenómenos. Com a religião como sistema metafísico a ciência nada tem, é com a religião como revelação que a ciência se põe em guerra. Os campos da religião e da metafísica não devem confundir-se. E assim como a ciência não pode erigir-se em metafísica, a metafísica não pode erigir-se em ciência. Nem deve o real subir ao supra-real, ou ultra-real, nem este aquele. Ora a religião é isto justamente. 1913? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 78. Acendeste uma candeia Acendeste uma candeia Com esse ar que Deus te deu. Já não é noite na aldeia E, se calhar, nem no céu. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 50. IX There is a silence where the town was old. Grass grows where not a memory lies below. We that dined loud are sand. The tale is told. The far hoofs hush. The inn's last light doth go. 1920 «Inscriptions». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 120. 1ª ed. in English Poems I-II . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Havia muito tempo que eu não via o Dr. Abílio Quaresma. Neste rodopio e vaivém da vida, que nos torna desleixados por pressa e amnésicos por ter vivido de mais, eu podia confessar a mim próprio — embora com vergonha o fizesse — que já Quaresma há muito me não entrava nas recordações das pessoas conhecidas. Dir-se-ia que estava há muito morto. A vida, com a sua pressa e o seu esquecimento, maltrata assim a nossa sensibilidade. Não foi, portanto, sem um sobressalto, como ante um ressuscitado, que antes de ontem, ao virar a esquina extrema da Rua da Madalena, em baixo para a Rua da Alfândega, esbarrei com o Dr. Quaresma. Avelhantado, acentuadas já excessivamente as rugas da fronte sob o chapéu mal posto, o ar habitual de depressão e de alheamento, ele próprio envelhecido. Em vez do habitual "peralta" de 25 réis — bons tempos — em que os havia! — trazia um cigarro em mortalha barata, mal feito e mal posto na boca. Tudo nele trazia consigo a ideia de uma decadência. A idade não o justificava. Por boas contas, Quaresma não pode ter mais de quarenta anos. Após a minha exclamação de alegria, e o vago gesto com que ele me correspondeu, soube que aquela estranha vida decorria sempre igual, sempre no mesmo quarto alugado no mesmo terceiro andar da mesma Rua dos Fanqueiros. Como dantes, mas mais apertadamente, Quaresma vivia isolado, fumando e meditando. Tinha passado já para ele a sua grande época, que, aliás, nunca foi grande, em que ele foi, no seu género, o maior raciocinador investigador que creio possível existir, embora nenhuma glória aurisse da sua tarefa de amador mestre. Já ninguém lhe ia propor aqueles problemas que outrora o haviam tornado grande para quem observava a solução desses problemas. O seu isolamento era agora absoluto. A sua índole, naturalmente triste, radicara em triste. O desleixo habitual do traje piorara, o descuido geral do gesto e da atitude tornara-se absoluto. Estranhei que ele já de nada se ocupasse, salvo das antigas decifrações — deduzir, por uma série concatenada de raciocínios, por exemplo, em que atitude estava sentado à mesa, quando a escreveu, o autor de uma carta. Nem houve cronista que relatasse o extraordinário raciocínio pelo qual, sem ir ao local do crime, sem contacto algum com alguma das pessoas envolvidas, Quaresma decifrou integralmente o enigma do Roubo da Quinta das Vinhas, hoje, sem dúvida, já esquecido. Nem ficou relato, tão-pouco, de episódios como o de pergaminho roubado, como eu para mim lhe chamo. Um dia talvez, se tiver o tempo mental preciso para disciplinar em mim esses curiosíssimos incidentes, serei eu próprio o coordenador dessa obra de dialéctica prática, pela qual um raciocinador, sem observar (como Sherlock Holmes), vai de dedução em dedução, reconstruindo um crime inteiro, um incidente completo de que só conhece dois detalhes, um quarto de dúzia de factos. Perguntei a Quaresma por que se interessava agora, e ele disse-me que já tinha descido ao nível de decifrador de problemas de xadrez, procurando apenas torná-los interessantes decifrando-os, não como jogador, mas como raciocinador, isto é, arrancando a solução do problema à determinação indutiva de qual o tipo psicológico do inventor do problema, tanto em absoluto, como no momento em que construiu o problema de que se tratasse. Era sempre o mesmo Quaresma, porém quantum mutatus ab ilio! No decurso da nessa conversa lembrei-me, de repente, de lhe perguntar o que pensava do assassínio do Presidente Sidónio Pais, não considerando-o politicamente, mas pelo velho processo do raciocinador. Quaresma sorriu. — Pouco tenho aplicado o espírito agora aos problemas da vida real, e por isso por força que alguma coisa perdi da técnica do raciocínio aplicado à realidade. A concentração intensa sobre um assunto torna o espírito rapidamente inapto para a concentração intensa sobre outro assunto, mesmo que lhe seja, de ordinário, mais familiar e acessível. Como lhe disse, não tenho feito agora senão decifrar, por meio de raciocínio, problemas de xadrez; embora, decifrando-os assim por meio de raciocínio, não me separe tanto da realidade como se os decifrasse por aplicação ao jogo propriamente tal, em todo o caso a constante identidade do assunto de raciocínio torna inapto o espírito a uma aplicação diversa. Além disso, neste caso do assassínio do Presidente, a base de factos é insuficiente para um trabalho capaz da indução. Se me tivesse sido entregue a investigação do caso, eu não partiria a raciocinar senão depois de acumular mais um ou dois pequenos factos. — Mas com os poucos factos que há não é possível chegar a uma conclusão, ainda que aproximada? — Aproximada, talvez, ou, antes, provável, tendo de se notar que os factos podem ser viciados, tais quais eu os conheço: isto é, podem não ser, na verdade, "factos". — Em todo o caso... — Sim, se V. quiser, ser-me-á uma espécie de recordação de antigos tempos... Não esquecendo V. que estou desabituado agora desta espécie de raciocínio e que os factos são de ordem a não admitir que cheguemos a mais que a uma mera probabilidade... — Sim, sim... Mas vamos lá... Quaresma acendeu o cigarro, que se havia apagado . Como antigamente, fitou um pouco o vago antes de começar. Depois, no antigo tom desprendido e preciso de quem desenvolve um teorema estéril para a vida prática, começou: — Sabe V. já  (...) Uma vingança, um crime por ódio é tão natural que fosse planeado pelos bolchevicks, como pelos democráticos; uns, como outros, viram os seus manejos revolucionários dominados pelo Presidente. E, como qualquer grupo tenderia a fazer para se livrar de responsabilidades e represálias, é natural também que os bolchevicks tendessem a atirar com as suspeitas para cima de outro grupo qualquer. Porque escolheriam para isso a Maçonaria? Nada sei das relações que haja, ou possa haver, ou seja natural que haja, entre a M. e os Bs.; mas para o caso nada importa quais elas sejam, pois, quem tenta lançar suspeitas sobre alguém, olha ao aspecto público do acto, cujas suspeitas de Comissão quer lançar, e não a coisas secretas que o público, que é quem há-de suspeitar, desconhece. Suponha-se que os bolchevicks queriam lançar suspeitas sobre alguém. Porquê sobre a Maçonaria? Por uma de duas razões haveria de ser, a ser: ou por ser natural que tal acto partisse da Maçonaria; ou por ser a Maçonaria motivo de aversão especial para eles, e quisessem, não só matar o Presidente, mas, ao mesmo tempo, comprometer uma associação que odiassem. Como, porém, de nada serviria querer comprometer a Maçonaria, se não tivesse aspecto de natural a atribuição a ela do crime, estas razões reduzem-se simplesmente à primeira. Porque é que seria natural atribuir-se este crime à Maçonaria? Por razões possíveis: as suas ligações com o partido democrático, que o Pres. venceu; as suas tendências anticlericais, quando o Pres. protegeu, até certo ponto, os católicos; as suas razões de queixa directas, como fossem os assaltos ao G. Lusitano e ao Club Montanha. Mas, se era por ser "democrática" que era natural atribuir este crime à Maçonaria, a fortiori seria natural atribuí-lo ao P. D. Ora os pseudo-factos arranjados pelos planeadores do crime envolvem directamente a Maçonaria, e não o partido democrático. Se era por ser anticlerical que seria natural atribuir o crime à Maçonaria, (...) Que razões para atribuir o crime a Maçonaria? As suas relações com os democráticos? Era mais simples atribuir o crime aos democráticos. As suas tendências anticlericais? Essa é a razão da sua ligação com os democráticos — estamos portanto na mesma. O assalto recente a dois dos seus centros? Já isso é mais possível. Examinemos o ponto com mais cuidado. Como é evidente a intenção dos autores verdadeiros da morte do Presidente fazer com que a Maçonaria passe por autora dele, pode conceber-se que o assalto à Maçonaria fosse planeado pelos próprios (...) Posta de parte, portanto, a hipótese de que a morte do Presidente (...) Provámos portanto que a morte do Presidente foi um crime político; provámos, depois, que não foi um crime político de ódio ou vingança. Ao prová-lo, demonstrámos que não era responsável desse crime, nem a Maçonaria, nem o P. Democrático, nem o bolchevikismo. Demonstrado que o crime não foi obra de ódio, fica, por isso mesmo, provado que foi obra de cálculo. E, como foi provado que não foi obra da Maçonaria, dos democráticos, ou dos soviets, fica implicitamente provado que não foi obra de qualquer cálculo de qualquer desses grupos. Eis-nos, portanto, na seguinte conclusão: a morte do Presidente foi um crime político, cometido por cálculo e para proveito e não para vingança e por ódio, e que não partiu nem da Maçonaria, nem dos Democráticos, nem dos Soviets. Nesse caso de quem partiu? Ora, se é certo que, para o caso de o assassínio do Presidente ser um crime de ódio, havia só três hipóteses a considerar — a de ser causado pela Mª, a de ser causado pelos Ds., a de ser causado pelos Bs.—, porque só três eram os agrupamentos cuja acção o Presidente dominou, e cuja organização podia realizar um plano de assassínio; o facto é que, para o caso, agora provado, de se tratar de um crime de cálculo, e para proveito político, outras hipóteses, além dessas, são possíveis. Se só aqueles agrupamentos radicais tinham razões, reais ou por eles tidas como reais, para se vingar do Presidente, mais grupos havia que concebivelmente tivessem vantagem em se ver livres do Presidente. O problema aqui toma outro caminho. Temos que investigar não qual desses grupos é (...) Os grupos que tinham razão para ódio sabemos nós quais são; não assim os que teriam interesse em matar o Presidente. No caso do ódio, toda a gente deve saber as razões ; no do interesse, podemos desconhecê-las. Temos que pôr este problema na análise directa dos factos. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 107. TEÍSMO Um dos erros fundamentais do teísmo oficial é querer ao mesmo tempo afirmar que Deus está envolvido em mistério e que sabemos bastante a respeito da composição do seu ser. Ideado Deus, explica-se o mundo com ele até onde se pode explicar, o resto entra na categoria dos mistérios que Deus nos não explicou. Quer dizer, o nosso raciocínio explica perfeitamente a constituição divina, mas a certo ponto pára, e, em lugar de se admitir um erro, lembra-se de repente de se declarar fraco para continuar, sem pensar que a continuação possa desconfirmar o que está dito. 1913? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 79. Dorme enquanto eu velo... Deixa-me sonhar... Nada em mim é risonho. Quero-te para sonho, Não para te amar. A tua carne calma É fria em meu querer. Os meus desejos são cansaços. Nem quero ter nos braços Meu sonho do teu ser. Dorme, dorme, dorme, Vaga em teu sorrir... Sonho-te tão atento Que o sonho é encantamento E eu sonho sem sentir. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 97. 1ª publ. in Athena , nº 3. Lisboa: Dez. 1924. Eu te pedi duas vezes Eu te pedi duas vezes Duas vezes, bem o sei. Que por fim me respondesses Ao que não te perguntei. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 50. Tenho tanto sentimento Que é frequente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço, ao medir-me, Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a errada. Qual porém é verdadeira E qual errada, ninguém Nos saberá explicar; E vivemos de maneira Que a vida que a gente tem É a que tem que pensar. 18-9-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 179. X We, that both lie here, loved. This denies us. My lost hand crumbles where her breasts' lack is. Love's known, each lover is anonymous. We both felt fair. Kiss, for that was our kiss. 1920 «Inscriptions». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 120. 1ª ed. in English Poems I-II . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Um ente, ou Eu, qualquer existe essencialmente porque se sente, e sente‑se porque se sente distinto de outro, ou de outros. Cada ente, visto que é o que é por natureza, e por natureza sente que o é, tende a sentir‑se o que é o mais completamente possível; e, como o que se sente, o sente através de distinguir‑se dos outros, e, portanto, de estar em relação com outros, para sentir‑se o que é o mais completamente possível, deve sentir‑se o que é o mais relativamente, ou relacionadamente, possível. Para se sentir o que é o mais relativamente possível, força é que seja o mais relativo ou relacionado que pode ser, e que seja assim relativo ou relacionado com a maior perfeição, ou intensidade, possível. Quer isto dizer que, para um ente se sentir o mais possível a si‑próprio (o que quer dizer, para ser o mais possível ele‑próprio) tem que sentir o mais absoluta e puramente possível a sua Relação. Ora a Relação só é absoluta quando é com Todo o Relacionável, e só é inteira ou pura quando com cada relacionável é o mais possível, e o mais possível será o mais puramente possível. Assim, para se sentir puramente Si‑próprio cada ente tem que estar em relação com todos, absolutamente todos, os outros entes; e com cada um deles na mais profunda das relações possíveis. Ora a mais profunda das relações possíveis é a relação de identidade. Por isso, para se sentir puramente si‑próprio, cada ente tem que sentir‑se todos os outros, e absolutamente consubstanciado com todos os outros. Ora isto não pode implicar fusão (de qualquer espécie) com os outros, pois assim o ente não se sentiria a si‑próprio: sentir‑se‑á não‑si‑próprio, e não si‑próprio‑outros. Para não deixar de ser si‑próprio, tem que continuar a ser distinto dos outros. Como, porém, nessa altura do relacionar‑se, os outros são outros‑ele, para ser distinto dos outros, ele tem que ser distinto dos outros‑ele. Ser distinto dos outros‑ele só pode dar‑se sendo ele distinto de si‑mesmo. Para ser distinto de si‑mesmo sem ser outros, porque nesse caso não seria ele‑mesmo, nem ser ele‑mesmo, pois então não se distinguiria, ele tem que ser nem outros nem ele‑mesmo, ele tem que ser a Essência de outros e de ele‑mesmo, porque assim, sendo essência d’ele mesmo, de si‑mesmo se distingue — como as próprias palavras, em que isto se diz, distinguem —, e sendo essência comum d’ele e de outros não se distingue dos outros, ou antes se indistingue dos outros pelo próprio processo por que se distingue de si‑mesmo. Como, porém, o qe há de comum entre ele e os outros é a Relação — porque pela Relação é que eles podem fundir‑se ou entreser‑se, e pela relação é que eles se distinguem — segue que é pela Relação que ele se distingue de si‑mesmo. Este si‑mesmo, porém, está, nesta altura metafísica, já indistinto de outros, essa Relação, pela qual ele se distingue de si‑mesmo, é a relação consigo‑mesmo. A esta relação chama‑se Identidade. Ora, se um ser é tanto mais ele‑próprio quanto mais pura e abstractamente é ele‑próprio, e ele‑próprio é fundamentalmente, como se viu, a Relação consigo‑mesmo, segue que será tanto mais puramente ele‑próprio quanto mais pura for essa relação consigo‑mesmo. Ora, como a mais pura Relação é, como já se viu, a pura identificação, a mais pura relação de um ser consigo mesmo será (não a identificação absoluta, pois essa seria a pura não‑relação) mas o consistir a essência desse ente em ser Relação Pura, não sendo esse ente mais que Relação abstracta. Ora se a Relação Pura, Abstracta, é que é a essência do ente, e se o ente puro é o ente puramente distinto de si‑mesmo, segue que o ente puro é a Relação Pura puramente distinta de si‑mesma. Ora relação implica distinção. Temos, pois que a Relação pura puramente distinta de si‑mesma será uma pura distinção puramente distinta de si‑mesma. A distinção pura, porém, é já, por o que é, puramente distinta, visto que é a distinção pura. Por isso a Relação Pura, só por ser a Relação Pura, é pura distinção. Mas se é por isso que é pura distinção, segue que é pura distinção por ser pura identidade, pois que é pura distinção por ser puramente aquilo que é (que é Relação Pura). De aqui se conclui que pura identidade e pura distinção são a mesma coisa; isto é, que a Identidade é a mesma coisa que a Distinção. Um ente qualquer é, pois, essencialmente identidade que é distinção. 1924? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 36. Quanto fui jaz. Quanto serei não sou. No intervalo entre o que sou e estou, A natureza, exterior, tem Sol. Mas, se tem Sol, há Sol. Ao Sol me dou. Não queiras, com submissa segurança, Ter saudade de ter esperança. Tem antes saudade de a não ter. Sê anónimo, súbito e criança. Nada esperes, que nada salvo nada Obtém que[m] espera: é como quem à estrada Lance olhos de esperar que alguém lhe chegue Só porque a estrada é feita para andada. Ninguém suporta o peso mau dos dias Salvo por interpostas alegrias. Bebe, que assim serás o intervalo Entre o que criarás e o que não crias. Quantas vezes o mesmo poente alheio Sobre meu sonho, como um sonho, veio! Quantas vezes o tive por augusto! Tantas, tornado noite, perde o enleio. Bebe. Se escutas, ouves só o ruído Que ervas ou folhas trazem ao ouvido. É do vento, que é nada. Assim é o mundo: Um movimento regular de olvido. 4-10-1932 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 68. Não digas mal de ninguém, Não digas mal de ninguém, Que é de ti que dizes mal. Quando dizes mal de alguém Tudo no mundo é igual. 11-9-1934 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 50. The earliest literary food of my childhood was in the numerous novels of mystery and of horrible adventure. Those books, which are called boy’s books and deal with exciting experiences I cared little for. With a healthy and natural life I was out of sympathy. My craving was not for the probable, but for the incredible, not even for the impossible by the degree, but for the impossible by nature. My childhood was quiet ( . . . ), my education was good. But since I have consciousness of myself, I have perceived in myself an inborn tendency to mystification to artistic lying. Add to this a great love of the spiritual, of the mysterious, of the obscure, which, after all, was but a form and a variation of that other characteristic of mine, and my personality is, to intuition, complete. 1906? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 11. Durmo. Se sonho, ao despertar não sei Que coisas eu sonhei. Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto Para um espaço aberto Que não conheço, pois que despertei Para o que inda não sei. Melhor é nem sonhar nem não sonhar E nunca despertar. 19-9-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 181. Quando as crianças brincam E eu as oiço brincar, Qualquer coisa em minha alma Começa a se alegrar. E toda aquela infância Que não tive me vem, Numa onda de alegria Que não foi de ninguém. Se quem fui é enigma, E quem serei visão, Quem sou ao menos sinta Isto no coração. 5-9-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 166. Ah, como o sono é a verdade, e a única Hora suave é a de adormecer! Amor ideal, tens chagas sob a túnica. Esperança, és a ilusão a apodrecer. Os deuses vão-se como forasteiros. Como uma feira acaba a tradição. Somos todos palhaços estrangeiros. A nossa vida é palco e confusão. Ah, dormir tudo! Pôr um sono à roda Do esforço inútil e da sorte incerta! Que a morte virtual da vida toda Seja, sons, a janela que, entreaberta, Só um crepúsculo do mundo deixe Chegar à sonolência que se sente; E a alma se desfaça como um peixe Atado pelos dedos de um demente... s. d. Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 141. XI I for my city's want fought far and fell. I could not tell What she did want, that knew she wanted me. Her walls be free, Her speech keep such as I spoke, and men die, That she die not, as I. 1920 «Inscriptions». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 120. 1ª ed. in English Poems I-II . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Depois do dia vem noite, Depois do dia vem noite, Depois da noite vem dia E depois de ter saudades Vêm as saudades que havia. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 39. METAFÍSICA A divisibilidade infinita «Idea» dá «cousas». — A ideia de pedra divide‑se num número infinito — porque indefinido na realidade, e infinito na possibilidade — de pedras. A pedra real, como pedra não é infinitamente divisível; é‑o apenas como matéria. Por isso a pedra é real, a matéria não é. A única parte da matéria que é real é a ideia de matéria. Temos, então, que o mundo real não é real? Qual a conclusão? Possíveis: (1) Que a ideia de pedra é real, e a pedra não. (2) Que a pedra é real, e não a ideia dela; pois a pedra não é infinitamente divisível, mas a ideia de pedra é. Mas a ideia de pedra é infinitamente divisível não como ideia, mas como pedra; a pedra é in[finitamen]te divi[sível] não como pedra mas como matéria. Portanto o mundo das ideias é intermediário entre a Realidade e a Consciência. A sua existência não é real, é interpretativa. Temos de um lado Realidade, do outro Consciência. Entre estes temos o Pensamento, forma da C[onsciênci]a e as ideias forma relacionada da Realidade. O critério da Realidade é a indivisibilidade infinita; o da aparência a divisibilidade infinita, porque ser divisíveI é ser destrutível. Assim, na pedra o que é real é a pedra, e não a matéria, ilusão dos sentidos; na ideia de pedra o real é a ideia e não a pedra, porque a ideia de pedra divide‑se em um conjunto de pedras, mas não em um conjunto de ideias. Consciência — Pensamento — Vida — Ideias — Realidade Imaginação onde o sujeito e o objecto se fundem. 1914? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 39. O PAGANISMO SUPERIOR O aperfeiçoamento de qualquer sistema religioso dá-se de uma de três maneiras, ou de mais do que uma das três conjuntamente: a ) pela intelectualização dos seus elementos míticos componentes; b ) pela subjectivização desses elementos; c ) pela sua mera simplificação (complicação) exterior. A intelectualização dos elementos componentes distingue-se da sua complicação pelo facto de que a intelectualização interpreta, ao passo que a mera complicação não interpreta. A intelectualização chega a um resultado extremo, supondo que aceita os elementos (como no caso presente, de facto, se supõe): à redução desses elementos a simbólicos ou símbolos. A complicação não envolve essa obra: apenas os conduz, a cada um, a um conteúdo mais complexo, a um alcance maior, portanto, sobre os sentimentos. O paganismo seguiu um caminho natural ao intelectualizar-se; mas esse caminho foi perturbado pela erupção de elementos bárbaros, orientais, que desvirtuaram o sentido desse movimento. A erupção do elemento oculto, estabelecendo uma base de aproximação com os credos orientais, deixou aberto o paganismo à invasão dos princípios daqueles credos, profundamente anarquizantes do paganismo, e da natureza humana. A essência do paganismo está em 3 coisas: 1) A pluralidade dos deuses como essência de mitologia; 2) A adopção da criação como ideal humano; 3) A concepção do universo essencial como fenómeno essencialmente objectivo. 1916 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 88. Todas as coisas que dizes Todas as coisas que dizes Afinal não são verdade. Mas, se nos fazem felizes, Isso é a felicidade. 12-9-1934 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 50. Viajar! Perder países! Ser outro constantemente, Por a alma não ter raízes De viver de ver somente! Não pertencer nem a mim! Ir em frente, ir a seguir A ausência de ter um fim, E da ânsia de o conseguir! Viajar assim é viagem. Mas faço-o sem ter de meu Mais que o sonho da passagem. O resto é só terra e céu. 20-9-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 182. Passos tardam na relva Entre o luar e o luar, Tudo é eflúvio e selva. Sente-se alguém passar. Passa, pisando leve O chão que o luar desmente, Num pálido hausto leve De pisar levemente. É elfo, é gnomo, é fada A forma que ninguém vê? Lembro. não houve nada. Sinto, e a saudade crê. 5-9-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 167. Aquilo que a gente lembra Sem o querer lembrar, E inerte se desmembra Como um fumo no ar, É a música que a alma tem, É o perfume que vem, Vago, inútil, trazido Por uma brisa de agrado, Do fundo do que é esquecido, Dos jardins do passado Aquilo que a gente sonha Sem saber de sonhar, Aquela boca risonha Que nunca nos quis beijar, Aquela vaga ironia Que uns olhos tiveram um dia Para a nossa emoção — Tudo isso nos dá o agrado, Flores que flores são Nos jardins do passado Não sei o que fiz da vida, Nem o quero saber Se a tenho por perdida, Sei eu o que é perder? Mas tudo é música se há Alma onde a alma está, E há um vago, suave, sono, Um sonho morno de agrado, Quando regresso, dono, Aos jardins do passado. s. d. Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 142. XII Life lived us, not we life. We, as bees sip, Looked, talked and had. Trees grow as we did last. We loved the gods but as we see a ship. Never aware of being aware, we passed. 1920 «Inscriptions». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 120. 1ª ed. in English Poems I-II . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Int[rodução]: Ocultismo Os 3 mundos: o mundo causal, o mundo intelectual e o mundo numérico. A realidade do mundo «material» (tomado este adjectivo na mais lata das acepções) depende do Número. Neste mundo - resultado somos, todos os entes, meros números. Mas os números têm uma lógica, uma razão. Nada mais pressupõem. (Nem sequer pressupõem a consciência deles). Mas os números têm uma ordem. Por isso, acima dos números está a razão dos números. Essa razão é de todo interior aos números. Apenas a concebemos por aquele fenómeno passado entre os números, a que se chama a Lei. Mas essa razão deve ter uma origem, uma causa. Acima, portanto, do próprio mundo racional está o mundo causal. O mundo numérico é regido pelos deuses; isto é em relação ao mundo que concebemos, o politeísmo é a Verdade. Não há o direito a ter outra religião a não ser o politeísmo. No mundo racional já não há deuses, ou antes, esse mundo está acima dos deuses. Esse mundo não é real; isto é, nada há em nós que permita afirmar a sua existência. Nem se pode dizer, é; porque o ser, a realidade são categorias do Número. Portanto, esse mundo racional não pode ser atingido ou pelos sentidos que ensinam a ideia de Realidade, ou pela razão , que ensina a ideia de Lei , ou pela Consciência, que ensina a ideia de Ser. Nenhuma faculdade nossa, nenhum modo de percepção imaginável, nos pode levar até ao mundo racional; o mais que podemos é ver o seu reflexo entre os números. Porque há (1) números , (2) relações entre os números (reflexo da Razão); (3) existência (abstracta) de números e relações entre eles, porque o que há de comum entre os números e as suas relações é serem «coisas» que existem. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 63. Há só ser e não‑ser. A aparência ou é ser ou não‑ser. Se é não‑ser não existe, isto é, não é aparência. Portanto a aparência é o ser. Há ser e não ser. A realidade exterior ou é ser ou é não‑ser. Se é não‑ser não existe; nem é realidade exterior aparente. Portanto a realidade exterior é o ser. Mas os sonhos? (Não vale para eles igualmente o mesmo argumento?) Ser sentido é ser? 1915? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 40. JUSTIFICAÇÃO DO FENÓMENO RELIGIOSO 1. Tudo é determinismo; tudo é determinado. A liberdade é uma ilusão; não passa, no campo real, de uma ilusão necessária à vida. Para agir, no próprio sentido que seja (e assim tem de ser) do determinismo, é preciso crer que a acção é livre. 2. Se tudo é determinado, um critério orientador da vida será tanto mais falso quanto mais levar cada personalidade a confiar apenas no seu esforço. 3. Dada a (que aqui se não analisa) necessidade do superfísico, i.e. do ideal, à vida humana, para que possa, não só agir (o que é puramente vital, conservador da vida), mas evolucionar (o que é já, evolucionador dela), e dado que o ideal tem de ter um carácter libertador — senão não seria ideal — temos que todo o critério de eficácia tem de assentar nestas bases: (1) não estar em desacordo fundamental com o determinismo natural, (2) estar em acordo com o ideal e o seu carácter libertador, (...) A . A religião impondo uma crença, substitui ao determinismo natural um outro determinismo , e, assim, passa a fazer assentar a vida humana em base natural. Assim, a religião tem uma base científica, sociologicamente científica também. O «livre pensamento», tão característico das épocas de decadência, marca a quebra do apoio no determinismo superfísico, no determinismo ideal. Non nisi parendo vincitur ... Só na criação de um determinismo extra [...] natural, é que está a única possível libertação humana. B. Serão, porém, todas as religiões iguais a este respeito? Porque todas sejam determinismos superfísicos, equivaler-se-ão, porventura? É o que, agora, compete analisar. (A religião é representativa de um estado social. É inútil querer uma religião mais perfeita para uma sociedade que não tem em si elementos psíquicos que a sustentem). s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 89. Dás nós na linha que cose Dás nós na linha que cose Para que pare no fim. Por muito que eu pense e ouse, Nunca dás nó para mim. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 51. I was a poet animated by philosophy, not a philosopher with poetic faculties. I loved to admire the beauty of things, to trace in the imperceptible through the minute the poetic soul of the universe . The poetry of the earth is never dead. We may say that ages gone have been more poetic, but we can say (...) Poetry is in everything — in land and in sea, in lake and in riverside. It is in the city too — deny it not — it is evident to me here as I sit: there is poetry in this table, in this paper, in this inkstand; there is poetry in the rattling of the cars on the streets, in each minute, common, ridiculous motion of a workman, who the other side of the street is painting the sign-board of a butcher's shop. Mine inner sense predominates in such a way over my five senses that I see things in this life — I do believe it — in a way different from other men. There is for me — there was — a wealth of meaning in a thing so ridiculous as a door-key, a nail on a wall, a cat's whiskers. There is to me a fulness of spiritual suggestion in a fowl with its chickens strutting across the road. There is to me a meaning deeper than human fears in the smell of sandalwood, in the old tins on a dirt heap, in a match box lying in the gutter, in two dirty papers which, on a windy day, will roll and chase each other down the street. For poetry is astonishment, admiration, as of a being fallen from the skies taking full consciousness of his fall, astonished about things. As of one who knew things in their souls, striving to remember this knowledge, remembering that it was not this he knew them, not under these forms and these conditions, but remembering nothing more. 1910? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 13. Que coisa distante Está perto de mim? Que brisa fragrante Me vem neste instante De ignoto jardim? Se alguém mo dissesse, Não quisera crer. Mas sinto-o, e é esse O ar bom que me tece Visões sem as ver. Não sei se é dormindo Ou alheado que estou; Sei que estou sentindo A boca sorrindo Aos sonhos que sou. 2-10-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 183. O que me dói não é O que há no coração Mas essas coisas lindas Que nunca existirão... São as formas sem forma Que passam sem que a dor As possa conhecer Ou as sonhar o amor. São como se a tristeza Fosse árvore e, uma a uma, Caíssem suas folhas Entre o vestígio e a bruma. 5-9-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 168. Sol nulo dos dias vãos, Cheios de lida e de calma, Aquece ao menos as mãos A quem não entras na alma! Que ao menos a mão, roçando A mão que por ela passe Com externo calor brando O frio da alma disfarce! Senhor, já que a dor é nossa E a fraqueza que ela tem, Dá-nos ao menos a força De a não mostrar a ninguém! s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 98. 1ª publ. in Athena , nº 3. Lisboa: Dez. 1924. XIII The work is done. The hammer is laid down. The artisans, that built the slow-grown town, Have been succeeded by those who still built. All this is something lack-of-something screening. The thought whole has no meaning But lies by Time's wall like a pitcher spilt. 1920 «Inscriptions». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 122. 1ª ed. in English Poems I-II . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. O mundo tem o usufruto da realidade que pertence ao ser. 1915? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 41. In the first case we determine a thing be itself, in which case that thing is said to be indeterminate or, in other words is said to determine itself. But this expression is bad, inasmuch as it gives the idea of a thing being the «determining» whereas it is we that determine, all determination being done by a subject . Determination is the work of an intellect. Being is determined as being and not-being because the principle of negativity is the centre of our intellect. From that basis the principle of contradiction, which only can be when a thing has a contrary. The only thing really free is the Absolute Will or Universal Will which, being indetermined, is thereby absolute or free. Only power can be free, because it is not act . All acts are determined and necessary. Quidquid fit necessario fit . (Schopenhauer?) 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 90. Não sei em que coisa pensas Não sei em que coisa pensas Quando coses sossegada... Talvez naquelas ofensas Que fazes sem dizer nada. 13-9-1934 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 51. Na ribeira deste rio Ou na ribeira daquele Passam meus dias a fio. Nada me impede, me impele, Me dá calor ou dá frio. Vou vendo o que o rio faz Quando o rio não faz nada. Vejo os rastros que ele traz, Numa sequência arrastada, Do que ficou para trás. Vou vendo e vou meditando, Não bem no rio que passa Mas só no que estou pensando, Porque o bem dele é que faça Eu não ver que vai passando. Vou na ribeira do rio Que está aqui ou ali, E do seu curso me fio, Porque, se o vi ou não vi. Ele passa e eu confio. 2-10-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 184. Que linda é quem não és! Teu anonimato vivo Dorme, da cabeça aos pés, Teu corpo, de ti cativo. Teu corpo é teu prisioneiro. Vive na cela de ti, Íntegro, móbil, inteiro, Ébrio de ti e de si. És uma frase perfeita De um livro escrito na vida. E as vozes com que és eleita Deixam-te falsa e esquecida. Entre ti e o que és de bela Grandes paisagens estão. (…) Não existes como estás. Existe-te uma intenção Que teu lindo corpo traz À tona da sensação. És uma alma em cuja vida Puseram teu corpo a ser. Essa beleza vivida És tu, sem te pertencer. Qualquer espírito alto Serviu-se de haveres tu Para esculpir no basalto Do abismo teu corpo nu. E assim olhas-me distante, Mas não te olho. Vejo em ti Não a alma flutuante Que usas, mas teu corpo em si. Bem podes usar em gozo Do corpo que deram teu. Fica sempre misterioso, Filho da terra e do céu. Não te pertence. Passou Na terra como o que tem Mais que tua alma sonhou. Não vives, e ele é alguém. 2-9-1933 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 10. Porque é que um sono agita Em vez de repousar O que em minha alma habita E a faz não descansar? Que externa sonolência, Que absurda confusão, Me oprime sem violência Me faz ver sem visão? Entre o que vivo e a vida, Entre quem estou e sou, Durmo numa descida, Descida em que não vou. E, num infiel regresso Ao que já era bruma, Sonolento me apresso Para coisa nenhuma. 6-9-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 169. Olhando o mar, sonho sem ter de quê. Nada no mar, salvo o ser mar, se vê. Mas de se nada ver quanto a alma sonha! De que me servem a verdade e a fé? Ver claro! Quantos, que fatais erramos, Em ruas ou em estradas ou sob ramos, Temos esta certeza e sempre e em tudo Sonhamos e sonhamos e sonhamos. As árvores longínquas da floresta Parecem, por longínquas, estar em festa. Quanto acontece porque se não vê! Mas do que há ou não há o mesmo resta. Se tive amores? Já não sei se os tive. Quem ontem fui já hoje em mim não vive. Bebe, que tudo é líquido e embriaga, E a vida morre enquanto o ser revive. Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser Motivos coloridos de morrer? Mas colhe rosas. Porque não colhê-las Se te agrada e tudo é deixar de o haver? 20-1-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 70. Sou o Espírito da treva, A Noite me traz e leva; Moro à beira irreal da Vida, Sua onda indefinida Refresca-me a alma de espuma... Pra além do mar há a bruma... E pra aquém? há Coisa ou Fim? Nunca olhei para trás de mim... s. d. Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 144. XIV This covers me, that erst had the blue sky. This soil treads me, that once I trod. My hand Put these inscriptions here, half knowing why; Last, and hence seeing all, of the passing band. 1920 «Inscriptions». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 122. 1ª ed. in English Poems I-II . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Não é então real o mundo externo? É: é, porque é o produto de duas realidades — o espírito receptor e a força sobre ele emitida. Do mesmo modo a alucinação é real para aquele que a tem, pois é um produto de duas realidades, a força externa e um espírito receptor. O «mundo externo» porém é produto de duas realidades diferentes: uma a força externa, outra a soma dos espíritos identicamente constituídos. Mais largamente, o «mundo externo» é o produto da força externa sobre a totalidade dos espíritos, ou sobre o espírito universal que involve e porventura é essa totalidade. Se um espírito consegue impor uma noção ou «alucinação» própria aos outros, torna‑a meio real para eles. Para ser de todo real, é preciso que o espírito consiga impô‑la à universalidade dos espíritos, ou seja ao Espírito universal. Este acto, pelo qual se cria uma coisa, chama‑se um acto mágico, e magia a arte pela qual essa acção se consegue. E como o «non nisi parendo vincitur» se aplica aqui, é preciso, para haver acção mágica, saber como se pode dominar a força externa ao ponto de transformá‑la. 1924? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 41. É , porém, um facto curioso que a religião e a ciência têm a mesma base — a intuição determinista. A noção de lei é fundamental na ciência, e na mentalidade científica; sem que haja uma noção de lei, nem pode haver ciência, nem quem busque fazer ciência. Mas esta mesma noção do determinismo é que é o fundamento da religião; porque a religião não passa na essência, do reconhecimento de que a vida, a acção, tudo quanto somos e representamos, não tem origem ou explicação em nós mesmos, mas está nas mãos de um poder ou poderes desconhecidos. Paralelamente, porém, ao reconhecimento da existência do uma força superior a ele, o homem nota, também, que a acção dessa força, no que se refere às ideias morais e outras (que ele tira da sua vida social), é absurda por vezes, outras vezes injusta, frequentemente inexplicável. O que acontece é por vezes imoral; morre o justo ante o pecador, e a astúcia vale mais que a honestidade muitas vezes. Mas isto acontece umas vezes, e outras o contrário; difícil é determinar qual a lei oculta a que tudo isso obedece. Por isso a religião espontânea da humanidade reconhece que, como há motivos desencontrados e absurdos provindos da complexidade, na vida, assim deve haver, governando-nos, não uma só presença, mas várias; e os mais lógicos entre os Homens reconhecem que essas várias presenças, que nos regem, como não são limitadas na sua regência (?) e contudo produzem por vezes efeitos imorais para nós, e por certo injustos frequentemente, ou têm uma moral diferente da nossa, ou moral nenhuma, ou são, como nós, susceptíveis de caprichos e de volubilidades. Tal a doutrina pagã, que, completada, reconhece, porém, mais alguma coisa. Assim como nós agimos e supomos que produzimos a acção, mas, pensando bem, reparamos na nossa servitude, e que a acção que agimos não é nossa mas produzida, assim chegamos a crer que essa acção das presenças superiores não emana exclusivamente deles, mas de qualquer outra presença, que os governe. E, assim, a lógica do paganismo concebe, e bem, que o Destino se oculta por detrás, e interiormente, à acção dos homens e dos deuses. A ideia cristã, de que há um Deus supremo moralmente caracterizável, e presenças intermédias de várias espécies, primordialmente os anjos, é menos lógica que a ideia pagã. Pondo acima de tudo (no lugar de Deus no cristianismo) o Destino, o pagão reconhecia que o que temos que ter por superior a tudo é a Lei, mas a Lei nem moral nem imoral, nem caracterizável nem não, simples força a que se não pode resistir, compulsão contra a qual não há revolta e da qual não há apelo. 1925? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 92. As gaivotas, tantas, tantas, As gaivotas, tantas, tantas, Voam no rio pró mar... Também sem querer encantas, Nem é preciso voar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 51. It is necessary now that I should tell what manner of man I am. My name, it matters not, nor any other outward detail particular to me. Of my character aught must be said. The whole constitution of my spirit is one of hesitancy and of doubt. Nothing is or can be positive to me; all things oscillate round me, and I with them, an uncertainty unto myself. All for me is incoherence and change. All is mystery and all is meaning. All things are «unknown» symbolic of the Unknown. Consequently horror, mystery, over-intelligent fear. By my own natural tendencies, by the surroundings of my earliest life, by the influence of studies undertaken under the impulse of them (these very tendencies), by all this I am of the internal species of character, self-centred, mute, not self-sufficing but self-lost. All my life has been one of passiveness and of dream. All my character consists in the hatred, in the horror of, in the incapacity pervading all that is me, physically and mentally, for decisive acts, for definite thoughts. I had never a resolution born of a self-command, never an external betraying of a conscious will. My writings were none of them finished; new thoughts intruded ever, extraordinary, inexcludable associations of ideas bearing infinity for term. I cannot prevent my thought's hatred of finish; about a single thing ten thousand thoughts, and tenthousand inter-associations of these ten thousand thoughts arise, and I have no will to eliminate or to arrest these, nor to gather them into one central thought, where their unimportant but associated details may be lost. They pass in me; they are not my thoughts, but thoughts that pass through me. I do not ponder, I dream; I am not inspired, I rave. I can paint, but I have never painted; I can compose music, but I have never composed. Strange conceptions in three arts, lovely strokes of imagining caress my brain; but I let them slumber there till they die, for I have not power to give them their body, to make them things of the world outside. My character of mind is such that I hate the beginnings and the ends of things, for they are definite points. The idea of a solution being found for problems the highest, the noblest, of science, of philosophy, afflicts me; that aught might be determined of God or of the world horrorizes me. That things of most moment should be accomplished, that men should one day all be happy, that a solution might be found to the ills of society, even in its conception maddens me. Yet I am not evil nor cruel; I am mad and that as it is difficult to conceive . Though I have been a reader voracious and ardent, yet I remember no book that I have read, so far were my reading states of my own mind, dreams of my own, nay, provocations of dreams. My very memory of events, of external things is vague, more than incoherent. I shudder to think how little I have in mind of what my past life has been. I, the man who holds that today is a dream, am less than a thing of today. 1910? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 15. No mal-estar em que vivo No mal pensar em que sinto, Sou de mim mesmo cativo, A mim mesmo minto. Se fosse outro fora outro. Se em mim houvesse certeza, Nao seria o fluido e neutro Que ama a beleza. Sim, que ama a beleza e a nega Nesta vida sem bordão Que contra si mesma alega Que tudo é vão. 2-10-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 186. No baile em que dançam todos No baile em que dançam todos Alguém fica sem dançar. Melhor é não ir ao baile Do que estar lá sem lá estar. 4-8-1934 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 39. Amei-te e por te amar Só a ti eu não via... Eras o céu e o mar, Eras a noite e o dia... Só quando te perdi É que eu te conheci... Quando te tinha diante Do meu olhar submerso Não eras minha amante... Eras o Universo... Agora que te não tenho, És só do teu tamanho. Estavas-me longe na alma, Por isso eu não te via... Presença em mim tão calma, Que eu a não sentia. Só quando meu ser te perdeu Vi que não eras eu. Não sei o que eras. Creio Que o meu modo de olhar, Meu sentir meu anseio Meu jeito de pensar... Eras minha alma, fora Do Lugar e da Hora... Hoje eu busco-te e choro Por te poder achar Não sequer te memoro Como te tive a amar... Nem foste um sonho meu... Porque te choro eu? Não sei... Perdi-te, e és hoje Real no [...] real... Como a hora que foge, Foges e tudo é igual A si-próprio e é tão triste O que vejo que existe. Em que és [...J fictício, Em que tempo parado Foste o (...) cilício Que quando em fé fechado Não sentia e hoje sinto Que acordo e não me minto... [...] tuas mãos, contudo, Sinto nas minhas mãos, Nosso olhar fixo e mudo Quantos momentos vãos Pra além de nós viveu Nem nosso, teu ou meu... Quantas vezes sentimos Alma nosso contacto Quantas vezes seguimos Pelo caminho abstracto Que vai entre alma e alma… Horas de inquieta calma! E hoje pergunto em mim Quem foi que amei, beijei Com quem perdi o fim Aos sonhos que sonhei… Procuro-te e nem vejo O meu próprio desejo… Que foi real em nós? Que houve em nós de sonho? De que Nós fomos de que voz O duplo eco risonho Que unidade tivemos? O que foi que perdemos? Nós não sonhámos. Eras Real e eu era real. Tuas mãos — tão sinceras… Meu gesto — tão leal... Tu e eu lado a lado... Isto... e isto acabado... Como houve em nós amor E deixou de o haver? Sei que hoje é vaga dor O que era então prazer... Mas não sei que passou Por nós e acordou... Amámo-nos deveras? Amamo-nos ainda? Se penso vejo que eras A mesma que és... E finda Tudo o que foi o amor; Assim quase sem dor. Sem dor... Um pasmo vago De ter havido amar... Quase que me embriago De mal poder pensar... O que mudou e onde? O que é que em nós se esconde? Talvez sintas como eu E não saibas sentil-o... Ser é ser nosso véu Amar é encobril-o, Hoje que te deixei É que sei que te amei... Somos a nossa bruma… É pra dentro que vemos... Caem-nos uma a uma As compreensões que temos E ficamos no frio Do Universo vazio... Que importa? Se o que foi Entre nós foi amor, Se por te amar me dói Já não te amar, e a dor Tem um íntimo sentido, Nada será perdido... E além de nós, no Agora Que não nos tem por véus Viveremos a Hora Virados para Deus E n'um (...) mudo Compreenderemos tudo. 2-12-1913 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 11. Contemplo o que não vejo. É tarde, é quase escuro, E quanto em mim desejo Está parado ante o muro. Por cima o céu é grande; Sinto árvores além; Embora o vento abrande, Há folhas em vaivém. Tudo é do outro lado, No que há e no que penso. Nem há ramo agitado Que o céu não seja imenso. Confunde-se o que existe Com o que durmo e sou Não sinto, não sou triste, Mas triste é o que estou. 7-9-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 171. Um cansaço feliz, uma tristeza informe O meu espírito intranquilamente dorme. Combati, fui o gládio e o braço e a intenção E dói-me a alma na alma e no gládio e na mão... Meu gládio está caído aos meus pés... um torpor Impregna de cansaço a minha própria dor... s. d. Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 145. I Set ope ali shutters, that the day come in Like a sea or a din! Let not a nook of useless shade compel Thoughts of the night, or tell The mind's comparing that some things are sad, For this day all are glad! 'Tis morn, 'tis open morn, the full sun is Risen from out the abyss Where last night lay beyond the unseeu rim Of the horizon dim. Now is the bride awaking. Lo! she starts To feel the ‘day is home Whose too-near night will put two different hearts To beat as near as flesh can let them come. Guess how she joys in her feared going, nor opes Her eyes for fear of fearing at her joy. Now is the pained arrival of all hopes. With the half-thought she scarce knows how to toy. Oh, let her wait a moment or a day And prepare for the fray For which her thoughts not ever quite prepare! With the real day's arrival she's half wroth. Though she wish what she wants, she yet doth stay Her dreams yet mergèd are In the slow verge of sleep, which idly doth The accurate hope of things remotely mar. 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 126 / 128. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. O Cristianismo é uma corrupção do paganismo transcendental. A direcção do Cristismo está certa; o que está errado é a interpretação dessa direcção. O Paganismo é verdadeiro no seu nível, mas há dois outros níveis. Na própria religião popular dos pagãos o vislumbre possível disto transparece: acima dos Deuses, mais forte do que eles, reina, abstracto, o Destino. Sim, no nível humano, que é o do paganismo, o universo é verdadeiro e certo. Mas para os Deuses a verdade é diversa: os Deuses são aqueles para quem o Real é Ilusório. São a Humanidade Superior; têm uma Realidade divina superior a eles. A direcção do Cristismo — que o universo, apesar de verdadeiro, é ilusório — está certa; mas a sua maneira de entender essa direcção é que está errada. O universo não é ilusório por ser universal, ou por ser imperfeito; é ilusório apenas por ser ilusório. Isso mesmo já havia nisto a melhor filosofia exactamente pagã. 1915? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 93. As ondas que a maré conta As ondas que a maré conta Ninguém as pode contar. Se, ao passar, ninguém te aponta, Aponta-te com o olhar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 51. Quando era criança Vivi, sem saber, Só para hoje ter Aquela lembrança. E hoje que sinto Aquilo que fui. Minha vida flui, Feita do que minto. Mas nesta prisão, Livro único, leio O sorriso alheio De quem fui então. 2-10-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 187. Eu no tempo não choro que me leve A juventude, o já encanecer A cabeça que pouco ainda esteve Sob o Sol solto e a tarde a arrefecer. Nem choro que não me ames, que faleça O amor que vi em ti, que também haja Uma tarde do amar, que desfaleça E a noite fique, (...) Mais que tudo choro já não te amar, Sim, choro a tragédia de não ser o mesmo na alma, De te ser infiel sem infidelidade, De me ter esquecido de ti sem propriamente te aborrecer. Não é o tempo ido em que te amei que choro. Choro não te amar já por isso ser natural. Choro ter-te esquecido, choro não me poder lembrar Com saudade do tempo em que te amei. Isso é que choro, sim, com as verdadeiras lágrimas Que contém em si os piores mistérios — A morte essencial das coisas, O acabar das almas, mais grave que o dos corpos, O abismo onde a única esperança é poder haver Deus E um outro sentido desconhecido a tudo que se teve e se foi Um outro lado, nem côncavo nem convexo à curva da vida. 29-9-1920 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 12. Entre o sono e o sonho, Entre mim e o que em mim É o quem eu me suponho, Corre um rio sem fim. Passou por outras margens, Diversas mais além, Naquelas várias viagens Que todo o rio tem. Chegou onde hoje habito A casa que hoje sou. Passa, se eu me medito; Se desperto, passou. E quem me sinto e morre No que me liga a mim Dorme onde o rio corre — Esse rio sem fim. 11-9-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 173. Não combati: ninguém mo mereceu. A natureza e depois a arte, amei. As mãos à chama que me a vida deu Aqueci. Ela cessa. Cessarei. s. d. Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 146. L. do D. (Prefácio) Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes ou casas de pasto [em] que, sobre uma loja com feitio de taberna decente se ergue uma sobreloja com uma feição pesada e caseira de restaurante de vila sem comboios. Nessas sobrelojas, salvo ao domingo pouco frequentadas, é frequente encontrarem--se tipos curiosos, caras sem interesse, uma série de apartes na vida. O desejo de sossego e a conveniência de preços levaram-me, em um período da minha vida, a ser frequente em uma sobreloja dessas. Sucedia que, quando calhava jantar pelas sete horas, quase sempre encontrava um indivíduo cujo aspecto, não me interessando a princípio, pouco a pouco passou a interessar-me. Era um homem que aparentava trinta anos, magro, mais alto que baixo, curvado exageradamente quando sentado, mas menos quando de pé, vestido com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Na face pálida e sem interesse de feições um ar de sofrimento não acrescentava interesse, e era difícil definir que espécie de sofrimento esse ar indicava — parecia indicar vários, privações, angústias, e aquele sofrimento que nasce da indiferença que provém de ter sofrido muito. Jantava sempre pouco, e acabava fumando tabaco de onça. Reparava extraordinariamente para as pessoas que estavam, não suspeitosamente, mas com um interesse especial; mas não as observava como que perscrutando-as, mas como que interessando-se por elas sem querer fixar-lhes as feições ou detalhar-lhes as manifestações de feitio. Foi esse traço curioso que primeiro me deu interesse por ele. Passei a vê-lo melhor. Verifiquei que um certo ar de inteligência animava de certo modo incerto as suas feições. Mas o abatimento, a estagnação da angústia fria, cobria tão regularmente o seu aspecto que era difícil descortinar outro traço além desse. Soube incidentalmente, por um criado do restaurante, que era empregado de comércio, numa casa ali perto. Um dia houve um acontecimento na rua, por baixo das janelas — uma cena de pugilato entre dois indivíduos. Os que estavam na sobreloja correram às janelas, e eu também, e também o indivíduo de quem falo. Troquei com ele uma frase casual, e ele respondeu no mesmo tom. A sua voz era baça e trémula, como a das criaturas que não esperam nada, porque é perfeitamente inútil esperar. Mas era porventura absurdo dar esse relevo ao meu colega vespertino de restaurante. Não sei porquê, passámos a cumprimentarmo-nos desde esse dia. Um dia qualquer, que nos aproximara talvez a circunstância absurda de coincidir virmos ambos jantar às nove e meia, entrámos em uma conversa casual. A cena altura ele perguntou-me se eu escrevia. Respondi que sim. Falei-lhe da revista Orpheu , que havia pouco aparecera. Ele elogiou-a, elogiou-a bastante, e eu então pasmei deveras. Permiti-me observar-lhe que estranhava, porque a arte dos que escrevem em Orpheu soe ser para poucos. Ele disse-me que talvez fosse dos poucos. De resto, acrescentou, essa arte não lhe trouxera propriamente novidade: e timidamente observou que, não tendo para onde ir nem que fazer, nem amigos que visitasse, nem interesse em ler livros, soía gastar as suas noites, no seu quarto alugado, escrevendo também. s.d. Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol. I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. - 11. Trila na noite uma flauta. É de algum Pastor? Que importa? Perdida Série de notas vaga e sem sentido nenhum. Como a vida. Sem nexo ou princípio ou fim ondeia A ária alada. Pobre ária fora de música e de voz, tão cheia De não ser nada! Não há nexo ou fio por que se lembre aquela Ária, ao parar; E já ao ouvi-la sofro a saudade dela E o quando cessar. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 99. 1ª publ. in Athena , nº 3. Lisboa: Dez. 1924. Todos os dias que passam Todos os dias que passam Sem passares por aqui São dias que me desgraçam Por me privarem de ti. 19-9-1934 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 52. PERSONAL NOTES I have outgrown the habit of reading. I no longer read anything except occasional newspapers, light literature and casual books technical to any matter I may be studying and in which simple reasoning may be insufficient. The definite type of literature I have almost dropped. I could read it for learning or for pleasure. But I have nothing to learn, and the pleasure to be drawn from books is of a type that can with profit be substituted by that which the contact with nature and the observation of life can directly give me. I am now in full possession of the fundamental laws of literary art. Shakespeare can no longer teach me to be subtle, nor Milton to be complete. My intellect has attained a pliancy and a reach that enable me to assume any emotion I desire and enter at will into any state of mind. For that which it is ever an effort and an anguish to strive for, completeness, no book at all can be an aid. This does not mean that I have shaken off the tyranny of the literary art. I have but assumed it only under submission to myself. I have one book ever by me — Pickwick Papers . I have read Mr. W. W. Jacobs' books several times over. The decay of the detective story has closed for ever one door I had into modern writing. I have ceased to be interested in merely clever people — Wells, Chesterton, Shaw. The ideas these people have are such as occur to many non-writers; the construction of their works is wholly a negative quantity. There was a time when l read only for the use of reading. I now have understood that there are very few useful books, even in such technical matters as I can be interested in. Sociology is wholesale [ . . . ]; who can stand this scholasticism in the Byzantium of today? All my books are books of reference. I read Shakespeare only in relation to the «Shakespeare Problem» : the rest I know already . I have found out that reading is a slavish sort of dreaming. If I must dream, why not my own dreams? [...] 1910? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 20. Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva Não faz ruído senão com sossego. Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva Do que não sabe, o sentimento é cego. Chove. Meu ser (quem sou) renego... Tão calma é a chuva que se solta no ar (Nem parece de nuvens) que parece Que não é chuva, mas um sussurrar Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece. Chove. Nada apetece... Não paira vento, não há céu que eu sinta. Chove longínqua e indistintamente, Como uma coisa certa que nos minta, Como um grande desejo que nos mente. Chove. Nada em mim sente... 2-10-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 188. I have wished so oft this mockery might end Of love between us! And it's ended now. Yet I cannot even to myself pretend That the wished thing achieved gives joy enow. Every going is a parting too. Our happiest day doth make us one day older. To get stars we must have darkness also, The fresher hour is likewise the colder. I dare not hesitate not to accept Thy separating letter, yet I wish With some vague jealousy I scarce reject That things were fitted for a different stretch. Farewell! Yet do I smile at this or not? My feeling now is lost in thought. 28-11-1920 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 13. A morte chega cedo, Pois breve é toda vida O instante é o arremedo De uma coisa perdida. O amor foi começado, O ideal não acabou, E quem tenha alcançado Não sabe o que alcançou. E a tudo isto a morte Risca por não estar certo No caderno da sorte Que Deus deixou aberto. 11-9-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 175. Dormi, sonhei. No informe labirinto Que há entre o mundo e o nada me perdi. Em bosques de mim mesmo me embebi, Misto indeciso do que vejo e sinto. Estagno incorpóreo. No infiel recinto Leio o transtorno do que nunca li, E o labirinto nunca está em si, Nem há mundo no incerto e abstracto plinto. Minha alma é um ser que a verdade engana, Memória da partida dos navios Na praia que de espuma se engalana. Não voltaram dos longes os sombrios Barcos, e o luar mole deixa ver A praia com a espuma a escurecer. s. d. Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 147. O meu conhecimento com Vicente Guedes formou-se de um modo inteiramente casual. Encontrávamo-nos muitas vezes no mesmo restaurante retirado e barato. Conhecíamo-nos de vista; descaímos, naturalmente, no cumprimento silencioso. Uma vez, que nos encontrámos à mesma mesa, tendo o acaso proporcionado que trocássemos duas frases, a conversa seguiu-se. Passámos a encontrarmo-nos ali todos os dias, ao almoço e ao jantar. Por vezes saíamos juntos, depois do jantar, e passeávamos um pouco, conversando. Vicente Guedes suportava aquela vida nula com uma indiferença de mestre. Um estoicismo de fraco alicerçava toda a sua atitude mental. A constituição do seu espírito condenara-o a todas as ânsias; a do seu destino a abandoná-las a todas. Nunca encontrei alma de quem possuísse tanto. Sem ser por um ascetismo qualquer, este homem abdicara de todos os fins, a que a sua natureza o havia destinado. Naturalmente constituído para a ambição, gozava lentamente o não ter ambições nenhumas. s.d. Livro do Desassossego. Vol.I. Fernando Pessoa. (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presença, 1990. - 64. Quando, com razão ou sem, Sobre o medo amplo da alma A sombra da morte vem, E que o espírito vê bem, Com clareza mas sem calma, Que sombra é a vida que passa, Que mágoa é a vida que cessa, E ama a vida mais. 10-2-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 72. O DESCONHECIDO Tudo é ilusão (1). A ilusão do pensamento, a do sentimento, a da vontade. Tudo é criação, e toda a criação é ilusão. Criar é mentir. Para pensar o não‑ser criamo‑lo, passa a ser uma coisa. Todos os que pensam ocultistamente criam em absoluto todo um sistema do Universo, que fica sendo real. Ainda que se contradigam: há vários sistemas do universo, todos eles reais. Nós próprios, porque existimos, somos criações também, portanto ilusões. Mas somos criações de quem? Do Deus que nós‑próprios criámos? Como se o criámos nós, e lhe somos portanto anteriores ? Isso é supondo real o tempo, que é outra criação nossa. Tudo é um amontoado de ilusões. Aquilo a que chamamos verdade é aquilo a que também chamamos o ser. Verdadeiro é o que é. Mas o que é é ilusão. Por isso a verdade é a ilusão, é uma ilusão. A que abismo vamos ter? Quanto mais forte o pensamento, o sentimento, a vontade, maior o poder criador. O que a ocultistas é verificável é falso. Há imortalidade, mesmo eternidade da alma, mas isto é falso. Há um Deus eterno, criador do céu e da terra, e isto é falso. Ser é não‑ser. Nunca podemos deixar de criar, por isso nunca podemos deixar de mentir. A própria ilusão é uma ilusão. O que nós não sentimos não existe. O que nós sentimos (...) Só há uma coisa que não pode ser ilusão, porque ela não é criada: é a consciência. Uma só coisa escapa a toda a crítica — a consciência. A consciência não cria, nem é um conceito nosso, porque a não podemos pensar nem como sendo, nem como não‑sendo. Pensar, sentir, querer, são ilusões; mas ter consciência não é uma ilusão. A verdade é da consciência para lá. «Deus» é a consciência da consciência, coisa que não podemos pensar. A consciência não é concreta nem abstracta, não é um ser nem não‑ser. Na proporção em que a consciência é uma ideia nessa é falsa. Existem realmente Deus, céu, anjos, almas imortais e eternas. E contudo nada disso é verdade. Existe e dura eternamente, mas é falso. O niilismo transcendental ... Temos todos a noção de que há qualquer coisa: isso é falso. Não há; não há nem não há. A própria consciência não existe, mas é a única verdade. Não haverá graus na ilusão? Quanto mais criadora uma coisa é mais ilusória. Partindo do nosso espírito, vemos quais as maiores ilusões ... (1) Tudo se reduz a criar. Tudo se reduz a iludir-se. Portanto criar é mentir. 1915? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 44. Quem me dera, quando fores Quem me dera, quando fores Pela rua sem me ver, Supor que há coisas melhores E que eu as pudera ter. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 52. Grandes mistérios habitam O limiar do meu ser, O limiar onde hesitam Grandes pássaros que fitam Meu transpor tardo de os ver. São aves cheias de abismo, Como nos sonhos as há. Hesito se sondo e cismo, E à minha alma é cataclismo O limiar onde está. Então desperto do sonho E sou alegre da luz, Inda que em dia tristonho; Porque o limiar é medonho E todo passo é uma cruz. 2-10-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 189. I cannot well deceive me that there was In my love nobleness, even though ill. Now that the tunnel through which I did pass Yields to the glaring day, I can instil Into my thought a wonder how I could Suppose that way to be a place of staying; Thus being a fool in the way all men should, Yet not the complete fool to take no naying (!!!) 28-11-1920 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 14. Repousa sobre o trigo Que ondula um sol parado. Não me entendo comigo. Ando sempre enganado. Tivesse eu conseguido Nunca saber de mim, Ter-me-ia esquecido De ser esquecido assim. O trigo mexe leve Ao sol alheio e igual. Como a alma aqui é breve Com o seu bem e mal! 12-9-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 176. Meu pensamento, dito, já não é Meu pensamento. Flor morta, bóia no meu sonho, até Que a leve o vento, Que a desvie a corrente, a externa sorte. Se falo, sinto Que a palavras esculpo a minha morte, Que com toda a alma minto. Assim, quanto mais digo, mais me engano, Mais faço eu Um novo ser postiço, que engalano De ser o meu. Já só pensando escuto-me e resido. Já falo assim. Meu próprio diálogo interior divide Meu ser de mim. Mas é quando dou forma e voz do espaço Ao que medito Que abro entre mim e mim, quebrado um laço, Um abismo infinito. Ah, quem dera a perfeita concordância De mim comigo, O silêncio interior sem a distância Entre mim e o que eu digo! s. d. Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 148. III Open the windows and thee doors all wide Lest aught of night abide, Or, like a ship's trail in the sea, survive What made it there to live! She lies in bed half waiting that her wish Grow bolder or more rich To make her rise, or poorer, to oust fear, And she rise as a common day were here. That she would be a bride in bed with man The parts where she is woman do insist And send up messages that shame doth ban From being dreamed but in a shapeless mist. She opes her eyes, the ceiling sees above Shutting the small alcove, And thinks, till she must shut her eyes again. Another ceiling she this night will know, Another house, another bed, she lain In a way she half guesses; so She shuts her eyes to see not the room she Soon will no longer see. 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 130. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Ele mobilara — é impossível que não fosse à custa de algumas coisas essenciais — com um certo e aproximado luxo os seus dois quartos. Cuidara especialmente das cadeiras — de braços, fundas, moles — dos reposteiros e dos tapetes. Dizia ele que assim se criara um interior «para manter a dignidade do tédio». No quarto à moderna o tédio torna-se desconforto, mágoa física. Nada o obrigará nunca a fazer nada. Em criança passara isoladamente. Aconteceu que nunca passou por nenhum agrupamento. Nunca frequentara um curso. Não pertencera nunca a uma multidão. Dera--se com ele o curioso fenómeno que com tantos — quem sabe, vendo bem, se com todos? — se dá, de as circunstâncias ocasionais da sua vida se terem talhado à imagem e semelhança da direcção dos seus instintos, de inércia todos, e de afastamento. Nunca teve de se defrontar com as exigências do estado ou da sociedade. Às próprias exigências dos seus instintos ele se furtou. Nada o aproximou nunca nem de amigos nem de amantes. Fui o único que, de alguma maneira, estive na intimidade dele. Mas — apesar de ter vivido sempre com uma falsa personalidade sua, e de suspeitar que nunca ele me teve realmente por amigo — percebi sempre que ele alguém havia de chamar a si para lhe deixar o livro que deixou. Agrada-me pensar que, ainda que ao princípio isto me doesse, quando o notei, por fim vendo tudo através do único critério digno de um psicólogo, que fiquei do mesmo modo amigo dele e dedicado ao fim para que ele me aproximou de si — a publicação deste seu livro. Até nisto — é curioso descobri-lo — as circunstâncias, pondo ante ele quem, do meu carácter, lhe pudesse servir, lhe foram favoráveis. s.d. Livro do Desassossego. Vol.I. Fernando Pessoa. (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presença, 1990. - 65. Vale a pena ser discreto? Vale a pena ser discreto? Não sei bem se vale a pena. O melhor é estar quieto E ter a cara serena. 18-8-1934? Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 39. NIILISMO — Eremita O sujeito ao ser pensado como sujeito é objecto... O não‑ser para ser não‑ser precisa ser, isto é, ter ser; isto é abstracto mas o argumento agora versa abstracções Metafisicamente, a inversa é igualmente certa. O ser para ser não‑ser precisa não‑ser. Isto vem tudo de que não‑ser e ser são para nós ideias; nunca os podemos considerar absolutamente. Estão por isso sempre desmentindo‑nos. Não são senão pensados. Há sempre mesmo abismo entre eles e a nossa ideia deles. Ora o Universo é pensado. Está, portanto, nas condições de ser apreciado (contingentemente) pelos argumentos de ser e não‑ser. Se o Universo é o não‑ser absoluto, não existe; se é o não‑ser relativo é o ser. Ora se o não‑ser para ser não‑ser tem de ser, se o Universo é o não‑ser, para não‑ser tem de ser, isto no que pensamento. Coincide, portanto, com o facto do universo ser (que nunca podemos eliminar). O Universo é, portanto, o não‑ser. O Universo aparece‑nos como ser. É‑nos impossível pensá‑lo como não‑ser, e temos que pensar, se pensamos. Mas se pensamos o nosso pensamento, o Universo passa a ser não‑ser, porque antes do conhecimento (que é o pensar o pensamento) o Universo incognoscível imediatamente, é o não‑ser. Ora a filosofia é, ou o pensamento ou o pensamento do pensamento. O pensamento não é porque o pensamento é a simples ideia, o simples Experienciar. É, portanto, o pensamento do pensamento, mas o pensamento do pensamento não é, afinal, pensamento? É e não é. É o único pensamento diversificado. O sujeito pensado como sujeito é pensado, ipso facto, por ser pensado, como objecto, mas como objecto contraposto a todos os outros objectos concebidos pensa‑se em Deus, o sujeito substância dele próprio — pensando‑se, isto é, no que pensado, no pensar, pelo acto de pensar, pensado assim. Mas porque havemos de preferir o pensamento reflexo ao pensamento puro? Porque, ou o pensamento é critério de verdade ou não. Se o pensamento é critério de verdade, não pode haver erro em pensá‑lo. Se ele pertence ao objecto é tão legítimo pensá‑lo como ao resto do Objecto. Se não pertence tanto mais o é, porque é o criador do Objecto. Mas não será impensável? Como objecto é, e vamos dar ao caso anterior. Se não é, [critério de verdade] o Universo, que é pensado, e assim, porque assim pensado, é o não‑ser, mas não‑ser é do pensamento. Mas visto que do pensamento não podemos sair, para o pensamento, se o pensamento não é critério de verdade, o pensamento é não‑ser. (A única coisa que o pensamento não pode pensar como não ser é ele próprio. É esta a base do dictum basilar de Descartes). (1) Visto ser‑nos impossível conceber o pensamento em si como não ser, excepto no pensamento pensado, e ele, para ser objecto da filosofia, é pensado que existe, o Objecto, ab initio concebido como oposto ao pensamento é, portanto, para o pensamento formalmente não‑ser. Pensar é irrealizar: e se irrealizar para ser irrealizar precisa ser realizar, pensar é ser. Portanto, o Universo não existe. O que existe não sabemos. O Universo com suas obras (...) nem sequer é uma ilusão. O sujeito puro é impensável. As maiores abstracções — ser ou não‑ser — são elas próprias contraditórias e Objecto. O niilismo é metafísico. Não tem moral. A moral pertence à ilusão e à ciência da ilusão chamada sociologia. O niilismo não é nem optimista nem pessimista. Bem‑Mal são para ele Objecto, não‑ser, portanto. O nosso desesperar como a nossa esperança são Objectos, falsos, ambos, portanto. [...] (1) N.B. Se o pensamento não se pode pensar como não‑ser, é o ser. Não: também não se pode pensar como o ser. É o algo entre o ser e o não‑ser. Como pensamento pensado não se pode pensar ser; como pensamento em si, pode, mas nunca pode atingir‑se. O único noumenon é o pensamento em si. O pensamento deixa de ser em‑si por ter objecto. A filosofia que é o pensamento reflexo, é acto, divino regresso do mundo a Deus, pela consciência da ilusão, (ou é a causa deste mito a ilusão dele, a fé que dele nasce). 1913? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 46. Primeiro NOITE A nau de um deles tinha-se perdido No mar indefinido. O segundo pediu licença ao Rei De, na fé e na lei Da descoberta, ir em procura Do irmão no mar sem fim e a névoa escura. Tempo foi. Nem primeiro nem segundo Volveu do fim profundo Do mar ignoto à pátria por quem dera O enigma que fizera. Então o terceiro a El-Rei rogou Licença de os buscar, e El-Rei negou. * Como a um cativo, o ouvem a passar Os servos do solar. E, quando o vêem, vêem a figura Da febre e da amargura, Com fixos olhos rasos de ânsia Fitando a proibida azul distância. * Senhor, os dois irmãos do nosso Nome O Poder e o Renome — Ambos se foram pelo mar da idade À tua eternidade; E com eles de nós se foi O que faz a alma poder ser de herói. Queremos ir buscá-los, desta vil Nossa prisão servil: É a busca de quem somos, na distância De nós; e, em febre de ânsia, A Deus as mãos alçamos. Mas Deus não dá licença que partamos. s.d. Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 97. PLAN OF LIFE A general plan of life must involve, in the first place, the obtaining of a financial stability of some kind. I put the limit needed for the humble thing I call financial stability at about sixty dollars, forty being for the necessary, and twenty for the superfluous things of life. The way to obtain this is to add to the thirty-one dollars from the two offices (P & FF) [Xavier Pinto e S. e Augusto Franco?] twenty-nine other dollars, origin of which is to be determined. Rigorously, to just live, fifty dollars would do, for, taking thirty-five as a necessary basis, fifteen would cover the rest. * The next essential thing is to fix on a residence where there would be enough room, both room-space and room-convenience, to lodge all my papers and books with due order; and all this without a very large possibility of moving in a short time. It seems that the easiest thing to do would be to hire a house myself — on some basis like eight, or at most nine, dollars — and live there at ease, having dinner carried there (and breakfast) each day, or something of the kind. — But would this be quite convenient? Substitute, in respect to order of papers, my big box by smaller boxes, containing the papers in order of their importance. The big box and the other one at A. S. 's to contain the mere newspapers and reviews I keep. * If a house is let, what furniture? Would it not be better to rearrange things with S.? so as to obtain this I require, we to move if needed for this end? * Which way Fate desire it, that way it shall be. 1913? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 23-25. Dorme, que a vida é nada! Dorme, que tudo é vão! Se alguém achou a estrada, Achou-a em confusão, Com a alma enganada. Não há lugar nem dia Para quem quer achar, Nem paz nem alegria Para quem, por amar, Em quem ama confia. Melhor entre onde os ramos Tecem dosséis sem ser Ficar como ficamos, Sem pensar nem querer. Dando o que nunca damos. 10-10-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 190. Tudo que faço ou medito Fica sempre na metade. Querendo, quero o infinito. Fazendo, nada é verdade. Que nojo de mim me fica Ao olhar para o que faço! Minha alma é lúcida e rica, E eu sou um mar de sargaço — Um mar onde bóiam lentos Fragmentos de um mar de além... Vontades ou pensamentos? Não o sei e sei-o bem. 13-9-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 177. Dai-me rosas e lírios, Dai-me flores, muitas flores Quaisquer flores, logo que sejam muitas... Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas Em me dardes muitas flores, Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço Que me deis flores... Sejam essas as flores que me deis... Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio, Sob o céu cheio de sol! A minha agonia da realidade lúcida! Desejo de chorar absolutamente como uma criança Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa, E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço, Estando eu a chorar naquela posição. O homem que apara o lápis à janela do escritório Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal. Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho! É tão fantástico que estas coisas sejam reais! Olho para ele até esquecer o sol e o céu. E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça. A flor caída no chão. A flor murcha (rosa branca amarelecendo) Caída no chão... Qual é o sentido da vida? s. d. Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 150. Álvaro de Campos? ... este livro suave. É quanto resta e restará duma das almas mais subtis na inércia, mais dedicadas ao puro sonho que tem visto este mundo. Nunca — eu o creio — houve criatura por fora humana que mais complexamente cedesse a sua consciência de si própria. Dandy no espírito, passeou a arte de sonhar através do acaso de existir. Este livro é a biografia de alguém que nunca teve vida. De Vicente Guedes não se sabe nem quem era, nem o que fazia, nem (...) Este livro não é dele: é ele. Mas lembremo-nos sempre de que, por detrás de tudo quanto aqui está dito, além na sombra, misterioso (...) Para Vicente Guedes ter consciência de si foi uma arte, uma moral: sonhar foi uma religião. Ele criou definitivamente a aristocracia interior, aquela atitude de alma que mais se parece com a própria atitude de corpo de um aristocrata completo. s.d. Livro do Desassossego. Vol.I. Fernando Pessoa. (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presença, 1990. - 65. Segundo TORMENTA Que jaz no abismo sob o mar que se ergue? Nós, Portugal, o poder ser. Que inquietação do fundo nos soergue? O desejar poder querer. Isto, e o mistério de que a noite é o fausto... Mas súbito, onde o vento ruge, O relâmpago, farol de Deus, um hausto Brilha, e o mar escuro estruge. 26-2-1934 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 100. Se eu, ainda que ninguém, Pudesse ter sobre a face Aquele clarão fugace Que aquelas árvores têm, Teria aquela alegria Que as coisas têm de fora, Porque a alegria é da hora; Vai com o sol quando esfria. Qualquer coisa me valera Melhor que a vida que tenho — Ter esta vida de estranho Que só do sol me viera! 16-9-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 178. Lembro-me bem do seu olhar. Ele atravessa ainda a minha alma, Como um risco de fogo na noite. Lembro-me bem do seu olhar. O resto... Sim o resto parece-se apenas com a vida. Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa. Olhei para as montras despreocupadamente E não encontrei amigos com quem falar. De repente vi que estava triste, mortalmente triste, Tão triste que me pareceu que me seria impossível Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse, Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada. Fumo, sonho, recostado na poltrona. Dói-me viver como uma posição incómoda. Deve haver ilhas lá para o sul das coisas Onde sofrer seja uma coisa mais suave, Onde viver custe menos ao pensamento, E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais Nem no dia do mês ou da semana que é hoje. Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender, Um coração exageradamente espontâneo, Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real, Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta, Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove. s. d. Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 152. Álvaro de Campos? Terceiro CALMA Que costa é que as ondas contam E se não pode encontrar Por mais naus que haja no mar? O que é que as ondas encontram E nunca se vê surgindo? Este som de o mar praiar Onde é que está existindo? Ilha próxima e remota, Que nos ouvidos persiste, Para a vista não existe. Que nau, que armada, que frota Pode encontrar o caminho À praia onde o mar insiste, Se à vista o mar é sozinho? Haverá rasgões no espaço Que dêem para outro lado, E que, um deles encontrado, Aqui, onde há só sargaço, Surja uma ilha velada, O país afortunado Que guarda o Rei desterrado Em sua vida encantada? 15-2-1934 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 101. Tenho tal sono que pensar é um mal. Tenho sono. Dormir é ser igual, No homem, ao despertar do animal. É viver fundo nesse inconsciente Com que à tona da vida o animal sente. É ser meu ser profundo alheiamente. Tenho sono talvez porque toquei Onde sinto o animal que abandonei E o sono é uma lembrança que encontrei. s. d. Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 154. Põe-me as mãos nos ombros... Beija-me na fronte... Minha vida é escombros, A minha alma insonte. Eu não sei porquê, Meu desde onde venho, Sou o ser que vê, E vê tudo estranho. Põe a tua mão Sobre o meu cabelo... Tudo é ilusão. Sonhar é sabê-lo. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 100. 1ª publ. in Athena , nº 3. Lisboa: Dez. 1924. Quarto ANTEMANHà O mostrengo que está no fim do mar Veio das trevas a procurar A madrugada do novo dia, Do novo dia sem acabar; E disse: «Quem é que dorme a lembrar Que desvendou o Segundo Mundo, Nem o Terceiro quer desvendar?» E o som na treva de ele rodar Faz mau o sono, triste o sonhar, Rodou e foi-se o mostrengo servo Que seu senhor veio aqui buscar. Que veio aqui seu senhor chamar — Chamar Aquele que está dormindo E foi outrora Senhor do Mar. 8-7-1933 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 103. Uma firma, embora individual, ganha sempre em falar no plural. 25-1-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 156. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 1. Lisboa: 25-1-1926. PSICOLOGIA FEMININA DO AMOR O que, subconscientemente, na rapariga honesta torna agradável o namoro, é nitidamente distrinçável. — Um acto agradável é agradável não só no acto mas na antecipação d'ele; e, ausentes certos elementos psicológicos não orientadores (?) d'esse acto, em geral, na antecipação ainda não imediata, porque na antecipação para d'aí a pouco a ânsia de [...], de chegar a ele, amorna (ou, perturba) um tanto o [...] da esperança. — Ora o flirt , o namoro, não é senão, analisada sem escrúpulo a sua essência íntima, uma antecipação da possibilidade de uma cópula. Repare-se que não é a antecipação de uma cópula, o que, por mais directo, é mais perturbante. — O que se chama o prazer puro do amor (no que é namoro ou flirt ) não é senão um prazer muito grande porque isento (e n'esse sentido puro) do elemento perturbante do directo desejo, ou imediata esperança, do coito. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 20. Quinto NEVOEIRO Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, Define com perfil e ser Este fulgor baço da terra Que é Portugal a entristecer — Brilho sem luz e sem arder Como o que o fogo-fátuo encerra. Ninguém sabe que coisa quer. Ninguém conhece que alma tem, Nem o que é mal nem o que é bem. (Que ânsia distante perto chora?) Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro. Ó Portugal, hoje és nevoeiro... É a hora! Valete, Fratres. 10-12-1928 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 104. Nas cartas comerciais onde seja essencial ser-se muito preciso, é conveniente evitar-se aquela precisão verbal excessiva que parece jurídica. Nenhum comerciante gosta de ter, ainda que momentaneamente, a impressão de que é o advogado do correspondente que lhe está escrevendo. A precisão comercial deve ter sempre um ar casual e despreocupado — o da conversa de um homem inteligente. 25-1-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 156. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 1. Lisboa: 25-1-1926. Nenhuma carta deve estar sem resposta mais de 5 dias, sendo nacional, ou 10 dias sendo estrangeira. Uma demora maior obriga legitimamente a apresentar uma desculpa, em geral falsa, e que, ao contrário do que em geral julgam os que pedem desculpa, é quase sempre tida por falsa, mesmo que seja verdadeira. Ou a carta não tem resposta, e não se lhe responde; ou tem resposta, e se lhe responde logo; ou não pode ter resposta logo, e então escreve-se dizendo isso. A fama de ser atencioso e cortês vale mais que uma estampilha. É uma publicidade barata. 25-1-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 156. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 1. Lisboa: 25-1-1926. Evite-se sempre dar a uma casa estrangeira referências no nosso país ou na nossa praça que não sejam bancárias. E mesmo as referências bancárias convém dá-las de um modo a que se pode chamar translato. Faça-se com que o banco local que nos conhece, e nos serve portanto de referência, transmita ao seu correspondente no país estrangeiro respectivo as informações que pode dar a nosso respeito; cite-se depois como referência o banco por intermédio desse seu correspondente. Deve sempre facilitar-se a consulta de referências, a não ser, é claro, que estas sejam falsas. Isso, porém, já não é comércio. 25-1-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 157. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 1. Lisboa: 25-1-1926. A uma firma inglesa, que não seja individual, abre-se a carta com “Dears Sirs”, e fecha-se com “Yours faithfully”. A uma casa americana nas mesmas condições, abre-se a carta com “Gentlemen”, e fecha-se com “Yours very truly”. No caso de firmas individuais, a diferença de fecho permanece, mas a abertura é a mesma — “Dear Sír” — para o inglês e para o americano. 25-1-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 157. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 1. Lisboa: 25-1-1926. Escreve-se sempre em breves palavras — nas mais breves que seja possível — a uma casa inglesa, e desenvolvidamente a uma casa americana. Os ingleses querem ver tudo depressa; os americanos querem ver tudo. 25-1-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 157. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 1. Lisboa: 25-1-1926. Tudo foi dito antes que se dissesse. O vento aflora vagamente a messe, E deixa-a porque breve se apagou. Assim é tudo-nada. Bebe e esquece. Na eterna sesta de não desejar Deixa-te, bêbado e asceta, estar. Lega o amor aos outros, que a beleza Foi feita só para se contemplar. 24-2-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 73. Uma carta em francês nunca fecha com a inclusão da palavra “considération” quando seja para iguais ou para superiores. ”Considération” é só para inferiores. O equivalente francês do emprego português da palavra “consideração” é o emprego ou de “salutations distinguées” ou de “sentiments distingués”.O ponto é digno de referir-se porque há até muitos franceses que o ignoram. 25-1-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 157. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 1. Lisboa: 25-1-1926. O ARQUIVO DE CORRESPONDÊNCIA A organização dos arquivos, e principalmente do arquivo de correspondência entrada e saída — que é o principal —, é um dos pontos mais importantes da organização interna de qualquer escritório, seja industrial ou comercial. Esta organização especial divide-se em três partes: o arquivo de correspondência entrada, o arquivo de correspondência saída e o arquivo de referência a estas duas. Esta divisão não quer dizer que haja necessariamente arquivos materialmente diferentes para a correspondência entrada e saída: quer dizer apenas que a correspondência entrada e a correspondência saída são dois aspectos a tratar separadamente, ainda que as cartas de uma e as cópias das cartas da outra se reunam sob as capas da mesma pasta ou do mesmo dossier. Passamos a indicar os processos mais eficientes de arquivar e coordenar a correspondência entrada, a correspondência saída, e a referência a ambas. Muito contribui para a facilidade de trabalho de um escritório o ter uma boa organização, de fácil consulta, da sua correspondência. Comecemos pelo que é fundamental. A correspondência, entrada e saída, tem que ser consultável por qualquer de três maneiras — por ordem cronológica, por firmas e por assuntos. E, como é de ver, a consulta, de qualquer das três maneiras, tem que ser o mais fácil e o mais perfeita possível. Posto isto, e tendo isto sempre presente, entramos, orientadamente, no assunto. Toda a correspondência, que entra num escritório, deve ser registada, para fins cronológicos, num livro destinado para esse fim. Nesse livro, e na própria carta (ou postal), devem ficar registados não só a data de entrada mas também dois números de entrada — um, por assim dizer, absoluto; o outro, por assim dizer, relativo. O primeiro número é um número de ordem da carta adentro de toda a correspondência; assim as cartas entradas numa ocasião são registadas com números seguidos, em seguimento do das cartas imediatamente anteriores, sendo, é claro, indiferente quais as cartas que tomam precedência de outras quando entram na mesma ocasião. O segundo número é um número de ordem da carta adentro da correspondência da casa que a escreveu. Um exemplo: determinada carta terá a data de recepção 13 de Abril de 1926, e os números 17565/122; quer dizer que esta carta é a 17565ª recebida pelo escritório, e a 122ª recebida da casa que a escreveu. O primeiro número tem, em geral, apenas, a conveniência de dar à carta um sinal distintivo; e, de todos os sinais distintos, é o sinal numérico o mais simples. O segundo número tem um fim mais evidentemente prático: numeradas na devida ordem as cartas de uma firma, é fácil, retirada qualquer delas do arquivo, ou tendo esquecido ali verificar a sua falta, pois é sempre fácil verificar um salto de número. É este, como é de ver, o sistema mais perfeito de registo imediato, e fiscalização futura, da correspondência entrada. Num escritório, porém, que receba todos os dias uma correspondência numerosíssima, e em que urgências de expediente obriguem a prestar a essa correspondência uma atenção imediata, pode parecer que a relativa morosidade deste registo, por depressa que seja feito, constituiu um impedimento do trabalho. Não há obstáculo real. É tudo uma questão de ordem, de disciplina e de adaptação às circunstâncias, que variam de escritório para escritório. Se o escritório tem secções, e a correspondência se pode dividir nitidamente por elas, o registo de entradas pode comportar a mesma seccionação e, dada a cada secção uma letra, a inscrição das cartas entradas pode obedecer a uma numeração seccional, sem prejuízo da numeração da carta adentro das da firma que as escreve. Assim a carta, em vez de ser numerada 17565/122, como no exemplo dado, será numerada B.3452/122, sendo B a secção e 3452 o número de ordem da carta adentro da correspondência entrada nessa secção. Se o escritório tem muita correspondência, mas não comporta divisões em secções, só haverá morosidade no registo de entradas se esse registo foi feito directamente num livro, e portanto por um só empregado. Se, porém, a numeração “absoluta” for feita por numerador mecânico — o que permite a um só empregado “despachar” rapidamente uma grande quantidade de cartas —, e o apontamento das firmas remetentes feito em seguida, em papéis soltos, e com a nota desse número, por diversos empregados, pode, executado esse trabalho, um empregado passar sossegadamente ao livro de entradas o resultado dele, sem em nada estorvar a atenção urgente que tenha que dar-se às cartas, pois já as não terá em seu poder. Faltará a aposição, nas cartas, do número a que chamámos “relativo”; mas esse, que o empregado pode verificar no livro de entradas, pelo exame de entradas anteriores, lança-o ele depois nas próprias cartas que, como será ele o encarregado do arquivo, lhe voltarão às mãos no decurso do dia para que as insira, ou faça inserir, nas respectivas pastas ou dossiers. Que, em matéria de organização, todos devem compenetrar-se de um princípio: nada é difícil nem complexo desde que haja método e ordem. O livro de entrada de correspondência, a que temos estado aludindo, tem uma primeira coluna, onde se insere a data da entrada da carta; uma segunda coluna, onde se insere o número “absoluto” que recebe; uma terceira, onde vai o seu número “relativo”; uma quarta, que é para o nome da firma; e uma quinta, onde se regista a data da resposta (e/ou o número dela, se as cartas expedidas também são numeradas) ou a indicação de que não teve resposta, porque não tinha que tê-la. Esta última coluna tem a vantagem de que por ela, reparando nos espaços que estão em branco, imediatamente se verifica que cartas são aquelas a que falta responder. Há só um elemento do livro de entrada de correspondência que exige uma certa atenção, para que lapsos não se dêem: é a numeração a que chamamos “relativa”. É fácil dar a uma carta, por engano, o mesmo número que o da carta anterior da mesma firma: basta que, ao procurar para trás, no livro de entradas, o nome da firma, se salte a última inserção. Mas contra isto há um remédio antecipado, que é muito simples. Ao dar entrada à carta de uma firma, sublinha-se, ou marca-se de qualquer outra maneira clara, o número da carta anterior; feito isto nunca haverá dúvidas sobre qual é o número da carta imediatamente anterior de uma firma — é aquele que ainda não está sublinhado ou marcado da maneira que se escolheu. O género de erro, a que acabamos de aludir, dar-se-ia com firmas com quem houvesse correspondência frequente, ou quase frequente. Mas com firmas com quem não tivesse havido quase correspondência nenhuma, o mesmo erro se poderia dar, por uma razão oposta. Sendo difícil descobrir, por estar distante, uma carta anterior, ou a carta imediatamente anterior, da firma, é fácil cair-se no erro de supor que a carta entrada é a primeira carta que dela se recebe. Mas contra isto, também, há um remédio antecipado, e seguro. Todos os meses, e no fim de cada mês, se deve passar para o arquivo de fichas ou cartões a nota da correspondência entrada (como, aliás, também da saída). Essa nota será, sem dúvida, apenas uma inscrição numérica nas fichas ou cartões das firmas com quem, ou de quem, existe já correspondência. Para firmas que escrevam pela primeira vez será a abertura de ficha. Se isto se fizer, o encarregado do livro de entradas terá apenas, perante uma carta de firma que estranhe, que procurá-la, primeiro, entre as entradas do mês, e depois, caso ali a não houvesse encontrado, nas fichas do arquivo. Assim verificará, com facilidade e rapidez, que número “relativo” deve dar à carta que entrou. É evidente, porém, que o livro de registo de correspondência entrada pode, pela inserção de mais duas colunas, tornar-se absolutamente seguro de consulta, qualquer que seja o fim com que se queira consultá-lo. As duas colunas referidas ficam entre a terceira (que é a do número “relativo” da carta) e a quarta (que é a do nome da firma). A primeira destas novas colunas regista o número “absoluto” da carta imediatamente anterior da firma; a segunda regista o número “absoluto” da carta imediatamente ulterior. É um género de registo absolutamente análogo ao que vulgarmente se faz nos copiadores para a correspondência expedida e neles copiada; ali se costuma escrever em cada página o número da página onde está a carta anterior da firma e o número da página onde está a carta seguinte. Com o livro de entrada de correspondência assim completamente registado, e o sistema de fichas organizado como se disse, o registo de correspondência entrada fica fácil e imediatamente consultável para todos os fins que se imaginem. A correspondência, uma vez entrada, fica logo em uma de três categorias: correspondência que não tem resposta, correspondência a responder no próprio dia, correspondência a responder mais tarde. Sobre o destino imediato da primeira e da segunda ninguém tem dúvidas nem hesitações; a primeira segue logo para o arquivo; a segunda segue para o arquivo pouco depois, feita que esteja a resposta — no fim do dia, ou na manhã seguinte, o mais tardar. É sobre o destino imediato da correspondência que aguarda resposta que se estabelece divergência. Uns são de opinião que essa correspondência se arquive imediatamente, como a outra, e se aponte de qualquer modo que há que responder-lhe. Outros são de parecer que essa correspondência se retenha, separada do arquivo, em pasta própria, até que a resposta se efectue. Os argumentos em favor dos dois critérios dir-se-ia que se equilibram; a nosso ver, porém, a balança prática pende para o segundo, que é, aliás, o mais seguido, embora sem método. Arquivada a carta que tem resposta, embora não imediata, a necessidade de responder-lhe é lembrada, ou pelo livro de entradas (e da maneira a que já nos referimos), ou por apontamento especial. O livro de entradas, porém, deve estar em poder do encarregado do arquivo, que não é, em geral, quem responde às cartas; a sua função, neste respeito, só poderá naturalmente ser, por assim dizer, fiscal. E quer o livro de entradas quer um apontamento especial são inferiores à própria carta tanto como elementos de lembrança como porque a própria carta não só se lembra mas é, detalhadamente, aquilo a que há que responder. Parece-nos, pois, realmente preferível o sistema vulgar de reter fora do arquivo a correspondência que espera resposta. O que não nos parece preferível é o sistema que, aliás, não é nenhum — que se adopta para essa retenção em grande número de escritórios. Consiste ele em se guardarem essas cartas, sem ordem nem método, e em geral soltas, numa pasta de Assuntos Pendentes, ou coisa que o valha. Este processo peca radicalmente contra dois dos princípios fundamentais da disciplina dos trabalhos de escritório: 1) não haver papéis soltos; 2) pôr por ordem tudo que possa ser posto por ordem. O problema é dos mais simples de resolver: 1) em vez de numa pasta, onde estejam soltas, as cartas ficam numa pasta onde estejam presas; 2) em vez de estarem dispostas ao acaso nessa pasta, estão por ordem alfabética, ou — o que também é ordem, mas pior — por ordem cronológica. Estas considerações fecham o assunto “correspondência entrada”. Nem será preciso, por certo, lembrar que a carta recebida, ao entrar no arquivo, deve trazer indicada a data em que se lhe respondeu, ou o facto de que não tinha resposta. A correspondência saída aparece no arquivo por meio da cópia ou cópias que dela se tiram. O primeiro problema que deparamos é, pois, o do processo de tirar essas cópias. Antes do aparecimento da máquina de escrever não havia, para a cópia das cartas expedidas, processo mais prático que o chamado “copiador”, objecto hoje antipático e, onde o não impõem circunstâncias legais, obsoleto. Com efeito, por aborrecido, lento e imperfeito que seja o processo, por mais que se queira simplificá-lo, de passar, por água e prensa, uma carta ao copiador, ele é de todo o ponto preferível ao único outro processo de cópia antigamente conhecido — o traslado da carta, ou seja, o escrevê-la de novo para dela ficar um duplicado. Com o advento da máquina de escrever e do seu companheiro, o papel químico, suprimiu-se, com ganho de tempo, de perfeição e de eficiência, a velharia do copiador. De tempo, porque no mesmo acto de escrever a carta ele se copia; de perfeição, porque não se emprega água, nem se corre portanto o risco frequente e fácil de se desfear a carta; de eficiência, porque se poderia tirar várias cópias ao mesmo tempo. A invenção do papel químico de cópia — isto é, do papel químico que dá uma cópia que se pode passar por água ao copiador — tornou possível, onde seja necessário que tal se dê, a conjugação do uso do papel químico com o uso do copiador; nem se perde tempo, pois a carta pode ser expedida imediatamente, visto que é a sua cópia, e não da, que é copiada naquele abominável livro. Detestamos o copiador, cuja única vantagem (pois o ser exigido por lei, onde o é, o torna necessário mas não vantajoso) é que forma um registo cronológico automático da correspondência expedida. Onde, porém, tenha que ser usado, recomendamos que se use o papel químico de cópia para esse fim, tendo a máquina de escrever uma fita fixa, ou record; assim o aspecto da carta não sofrerá insulto nem haverá necessidade de demorar, uma vez ela assinada, a sua expedição. Referimo-nos ao copiador como tendo a única vantagem de formar o registo cronológico da correspondência expedida. Em casas que têm forçosamente que empregá-lo, seria absurdo estabelecer outra espécie de registo cronológico, visto essa necessidade ter ao menos esta vantagem. Mas onde não haja necessidade de copiador, o registo cronológico da correspondência saída pode ser exactamente correspondente ao que indicámos para o da correspondência entrada — um livro onde a correspondência saída se regista da mesma forma que no outro se regista a correspondência entrada, e com igual sistema de alusão e de numeração. Quer dizer, a correspondência saída seria numerada do mesmo modo que a entrada, e estes números serviriam para a entre-referência de um livro para o outro: na coluna do livro da entrada que se destina à indicação de quando se respondeu inserir-se-ia o número da carta de resposta; na coluna do livro da saída que se destina à indicação de a quê se respondeu se inseriria o número da carta respondida, podendo ainda acrescentar-se, para elucidação inteira também o número da carta que veio em resposta depois. É evidente que este sistema de entre-referências se pode empregar também entre o copiador e o livro de registo da correspondência entrada. Dissemos no princípio deste artigo — e agora o repetimos —que a correspondência, entrada e saída, tem que ser consultável por qualquer de três maneiras — por ordem cronológica, por firmas e por assuntos. Os dois livros — o de registo da entrada e o de registo da saída —, ou o primeiro livro e o copiador (este perfeitamente registado), estabelecem a consultabilidade por ordem cronológica ou, em outras palavras, formam o arquivo cronológico.Temos que estudar agora como se fazem o arquivo por firmas e o arquivo por assuntos. O arquivo por firmas é de todos o mais importante, porque é o que essencial e frequentemente se consulta.É natural, pois, que em torno a ele surja um número maior de problemas que em torno aos outros dois. Os elementos que constituem este arquivo são elementos directos — a carta que se recebe do correspondente, e a cópia, o papel químico, da carta que se lhe escreve. Quando se não tire mais que uma destas cópias, é para aqui que vai essa cópia única. O primeiro problema que surge nesta matéria é se as cartas recebidas de uma firma e as cópias das cartas para ela devem arquivar-se conjunta e intercaladamente ou, embora juntas, em dois corpos separados. O primeiro processo é aquele em que as cartas e as cópias se arquivam misturadas, e por uma ordem cronológica determinada pelas datas de recepção das primeiras e as datas das cartas de que as segundas são cópias. No segundo processo, as cartas e as cópias firmam, como se disse, dois grupos separados, embora justapostos; e, adentro de cada grupo, segue-se, do mesmo modo, a ordem cronológica, aliás a única possível. O primeiro processo é o quase universalmente seguido; é, contudo, a nosso ver, o pior dos dois. São duas as desvantagens evidentes desse processo: como em geral o papel de cartas do correspondente e o papel de cópias da casa não tem o mesmo formato e corpo, dá-se uma irregularidade de arranjo que terna desagradável o manuseio, como o seria o de um livro que tivesse folhas de diferentes tamanhos; como, também, o que é mais frequentemente preciso é confrontar uma carta com a sua resposta, um sistema que não permita ter as duas lado a lado diante de nós, sem necessidade de desprender ambas de onde estão presas, embaraça muito essa consulta. O segundo processo evita ambos os inconvenientes; e, se tiver havido o cuidado de em cada elemento de um grupo marcar o número ou data de referência ao do outro, a entre-referência dos dois grupos será, não fácil, mas facílima. Só no caso de haver pouquíssima correspondência com uma firma se não tornaria fastidiosa a consulta pelo primeiro processo; mas esta excepção é precisamente daquelas que prova a regra, pois, quando há muito pouca correspondência, a consulta é sempre fácil, qualquer que seja o sistema, desde que se não percam as cartas ou se não arquive Zacarias na letra “B”. O segundo problema que surge nesta questão é o do processo material de arquivo. Deve arquivar-se a correspondência por firmas em dossiers de um para cada firma? Deve arquivar-se em um dossier colectivo, dentro do qual as firmas se disponham por ordem alfabética? Deve adoptar-se um sistema misto, onde o primeiro processo se aplique para as firmas com quem há muita correspondência, e o segundo para aquelas com que a há pouca? Qualquer dos dois sistemas opostos tem vantagens, e o terceiro, que reúne os dois, reúne também em parte as vantagens dos dois. No primeiro sistema há mais facilidade e comodidade de consulta, sobretudo de consulta simultânea de cartas de firmas diferentes. No segundo sistema há mais simplicidade de arquivo, menor risco de desarrumação, a exigência de um espaço mais pequeno. A vantagem maior está, a nosso ver, no sistema misto, desde que se mantenha o dossier colectivo apenas para as firmas com quem há muito pouca correspondência, abrindo-se-lhes dossiers especiais logo que a correspondência comece a tomar algum vulto. E, como defendemos, por preferível, a doutrina da arquivação separada da correspondência recebida e das cópias da expedida, sustentamos que este princípio se mantenha tanto para o dossier colectivo como para os dossiers especiais. Haveria dois dossiers colectivos — um para a correspondência recebida, outro para as cópias da expedida. E para cada caso, cuja correspondência merecesse dossier especial, haveria igualmente dois desses dossiers, do mesmo modo divididos. Distingui-los-ia a cor, sendo constante, através de todo o arquivo, uma cor para todos os dossiers de cartas recebidas e outra cor para os das cópias das cartas enviadas. A identidade de número (ou de nome) nas capas os agruparia a dois e dois. Em tudo isto se trata, evidentemente, apenas da correspondência corrente e próxima; a disposição da correspondência passada, isto é, de anos anteriores, constitui outro problema, de que mais adiante trataremos. O terceiro problema é o da disposição das cartas ou cópias dentro dos dossiers. Devem estar soltas, para que a carta ou cópia fique sem defeito, e a consulta seja fácil? Devem estar presas, para que não seja fácil misturarem-se ou caírem? As vantagens pode dizer-se que se equilibram, porém é conveniente não esquecer que o evitar papéis soltos é um dos elementos de boa ordem em qualquer escritório e, ainda, que a presença de postais e papéis de formato irregular, entre a correspondência, torna fácil a mistura quando ela não esteja presa. Aliás, uma das principais objecções à prisão das cartas e das cópias — mas principalmente das cartas — é aplicável somente ao processo de prisão mais seguido, que é por perfuração. Há processos de prisão de cartas em que se não usa a perfuração, mas a pressão. A perfuração, porém, não tem grandes desvantagens, salvo no caso de postais ou cartas sem margem, em que é difícil não perfurar o texto. Nestes casos, que são relativamente raros, basta colar a carta ou o postal a um papel forte — e transparente, se for preciso — e perfurar este para a fixação no arquivo. O quarto problema é o da velha questão que surge não só neste caso, mas em todo o caso de classificação alfabética de designações compostas de vários nomes: qual é o nome que determina preferivelmente a classificação? Por exemplo: a firma A. J. Silva & Costa, Lda., deve classificar-se em A. J., em Silva, ou em Costa? Não há critério logicamente preferível; adopte cada qual o que preferir. O essencial, porém, é que, adoptado um, se adopte sempre esse; e o risco de erro será reduzido se o arquivo, por firmas, de cartas tiver o seu complemento (como deve ter, e pelas razões abaixo expostas) num arquivo de fichas ou cartões relativos a essas firmas; de cada firma se podem fazer tantos cartões de referência quantas sejam as maneiras por que se pode classificar o nome da firma, e os cartões puramente referenciais limitar-se-ão a referir para o cartão com o nome da firma na disposição em que a classificámos. O quinto problema é o da organização do arquivo de correspondência passada (isto é, de anos anteriores) e das suas relações com o arquivo de correspondência corrente. E a correspondência recente que precisa de ser constantemente consultada; a passada só ocasionalmente o tem que ser. O arquivo de correspondência divide-se, pois, em duas partes — a que deve ser disposta e organizada para fácil consulta imediata; e a que deve estar convenientemente arrumada para consulta pouco morosa em qualquer ocasião. Já tratámos da disposição da correspondência recente, quando estudámos — foi o segundo problema nesta matéria — o “processo material de arquivo”. Resta agora que tratemos do arquivo permanente da correspondência e das suas relações com o arquivo corrente. A grande maioria das casas estabelece o arquivo permanente da correspondência por classificação cronológica: agrupa em “arquivos” relativos a anos, semestres, ou outros quaisquer períodos, e por ordem alfabética de firmas dentro de cada “arquivo”, as cartas recebidas, e as cópias das cartas expedidas, durante esse período. Repudiamos este sistema porque vai contra o próprio princípio do arquivo de correspondência: o ser ele primariamente um arquivo por firmas, e não por ordem cronológica. A nosso ver — e nisto somos coerentes com tudo quanto aqui temos exposto —, o arquivo permanente de correspondência deve obedecer a princípios idênticos aos do arquivo corrente. Em primeiro lugar, em vez de “arquivos” largos e pesados, deve havê-los mais pequenos, porque a comodidade é uma facilitação, e, portanto, um elemento vantajoso na organização. Em segundo lugar, e para cada firma com que há correspondência em certo vulto, deve um “arquivo” ser empregado para a correspondência dela em determinado período, havendo também um “arquivo” idêntico (diferente apenas na cor da capa) para as cópias das cartas para essa firma no mesmo período. Cada um desses “arquivos” terá exteriormente um número, correspondente permanentemente à firma; e os arquivos sucessivos terão uma numeração acessória sucessiva, por exemplo, 23/1, 23/2, 23/3, etc. Para as firmas se manterá o mesmo princípio que no arquivo corrente: agrupá-las em dossiers maiores e ir distribuindo por dossiers menores à medida que a correspondência for tomando vulto. A relação entre o arquivo de correspondência antiga e o de correspondência corrente estabelece-se por meio de fichas ou cartões. Como se viu, o mais conveniente é que cada firma tenha um número, e que com esse número se marque tudo que diz respeito a essa firma. O sistema de fichas ou cartões estabelece a passagem dos nomes para os números e, com isso, agrupa e relaciona automaticamente o arquivo das cartas passadas e o arquivo da correspondência corrente. Estas considerações esgotam o arquivo por firmas, no que há nele de problemas realmente fundamentais. Falta agora tratar do arquivo por assuntos. Na altura em que vamos da explicação da matéria, pouco é preciso dizer a este respeito. Como as cartas recebidas têm que ser arquivadas no arquivo por firmas, e como em cada carta, recebida ou expedida, se pode tratar de mais de um assunto, o arquivo por assuntos deve ser um arquivo por cartões ou fichas, com referências concisas e fáceis às cartas onde os assuntos se tratam. Dado o já exposto, porém, tudo isto é intuitivo. A esse respeito, portanto, nada de especial há que dizer. 25-4-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 158. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 4. Lisboa: 25-4-1926. A COTAÇÃO C.I.F. INCLUI AS DESPESAS COM A FACTURA CONSULAR? Como toda a gente sabe, é elemento necessário em todas as cotações comerciais a indicação do lugar de entrega da mercadoria. São de fácil compreensão as indicações usuais para transacções na mesma praça, ou dentro do país, não surgindo, em geral, mal-entendidos, senão por lapso de redacção ou omissão involuntária ou propositada. Quando, porém, se trata de importadores, e de cotações, para estes, de exportadores estrangeiros, é conveniente saber-se bem o que abrange o sentido das abreviaturas que em geral se empregam para esses fins. A mais simples, e a que menos se presta a complicações é a vulgaríssima F.O.B. (free on board), que, como toda a gente sabe, indica que a mercadoria é posta “livre a bordo”, isto é, que todas as despesas desde que ela entra a bordo, começando pelo frete e pelo seguro, são de conta do comprador. Menos vulgar é a cotação F.A.S. (free along side), que quer dizer “livre ao lado” do navio — isto é, a mercadoria posta no cais, ou em batelão, junto do barco em que há-de ser carregada. São em geral, os americanos que usam — e, ainda assim, poucas vezes — esta fórmula, que importa, em todo o caso, não ignorar. É, porém, com a cotação C.I.F., que indica, como todos sabem, que a cotação inclui o custo da mercadoria, o seu frete e o seu seguro, que pode surgir um ponto de dúvida, e tanto pode surgir que efectivamente surgiu, sendo assunto de uma consulta feita o ano passado à Associação Comercial de Lisboa, e de uma opinião interessante e decisiva de um dos membros da sua Secção de Importação e Exportação — opinião essa que a Direcção desta Câmara de Comércio aceitou e fez sua por unanimidade. Trata-se de saber se o certificado de origem e a factura consular — no caso da consulta tratava-se especialmente da factura consular — se devem considerar incluídos na cotação C.I. F.. A solução seria indiferente se a factura consular não ascendesse por vezes a uma percentagem relativamente alta sobre o preço de factura da mercadoria. E, mesmo que assim não fosse, nunca haveria mal em se compreender bem o assunto. Salvo entendimento em contrário, as casas exportadoras estrangeiras, e nomeadamente as americanas, facturam à parte — isto é, fora do preço C.I.F. — as despesas com a factura consular ou com o certificado de origem. É bom, saber-se que assim fazem. Mas também interessa saber se assim na verdade deve ser. Em Julho de 1924, uma firma importadora de Lisboa formulou à Associação Comercial esta pergunta: «Se a cotação C.I.F. (sem outra indicação) para qualquer mercadoria de um porto estrangeiro para Portugal compreende as despesas com a factura consular, ou devem essas despesas ficar a cargo do comprador?» Consultada a secção de Importação e Exportação sobre este problema, deu um dos membros dessa secção, o Sr. Carlos Moitinho d'Almeida, a seguinte resposta, que, devidamente autorizados, transcrevemos: «A indicação C.I.F. (cost, insurance, freight, isto é, custo, seguro, frete) deve entender-se, evidentemente, como abrangendo apenas aquilo que explicitamente indica. O problema posto pelo nosso consórcio consiste pois em determinar se a factura consular se pode presumir em qualquer das designações componentes da fórmula C.I.F. Pondo de parte o "seguro", que nada pode ter para o caso, temos que considerar se a factura consular se pode ter por parte necessariamente componente quer do "custo" quer do "frete" da mercadoria. »Ora a factura consular é proveniente de uma exigência oficial do país importador, em cuja alfândega tem que ser apresentada; é natural pois que a consideremos, não como parte do "custo", ou mesmo do “frete", da mercadoria, mas como uma espécie de antecipação, ou primeiro documento, das despesas aduaneiras de importação. »Se é assim — e assim parece dever ser — a factura consular deve ficar fora da designação C. I.F., como ficam todas as despesas aduaneiras no país importador. E o uso abona em absoluto este critério; o normal é o vendedor pagar a factura consular por conta do comprador, lançando a débito deste, ordinariamente na própria factura que lhe envia, a importância dela. meu ver, pois, e salvo o caso de designação em contrário a despesa com a factura consular não deve entender-se como incluída na designação C.I.F.» Foi este o parecer que a Direcção da Associação Comercial de Lisboa adoptou, e que parece realmente fixar, de um modo inequívoco, a verdadeira doutrina sobre o assunto. Cumpre porém advertir que há certos ramos do comércio — o do carvão, por exemplo — em que a “designação em contrário”, a que a opinião transcrita se refere, é subentendida. São casos, contudo, de ramos especiais de comércio que obedecem tradicionalmente a condições especiais; e esta é uma delas. O assunto do âmbito da cotação C.I.F. ficará completamente esclarecido com a tradução seguinte (dos parágrafos que interessam) das “condições” impressas de uma grande firma industrial exportadora dos Estados Unidos: «Salvo especificação em contrário ao dar-se a cotação, o seguro nas vendas C.I.F. entende-se ser unicamente o seguro marítimo, e apenas para o destino a que o preço de venda se refere, livre de avaria particular... Outras formas de seguro, quando se desejem, terão que ser explicitamente designadas pelo comprador antes de fechado o negócio, e o custo adicional será de conta dele. »Todas as despesas consulares para legalizar as facturas, selar os conhecimentos ou outros documentos exigidos pelas leis do país a que as mercadorias são destinadas, serão pagas pelo comprador, e não serão incluídas no preço de venda. Salvo combinação em contrário, subentende-se que o vendedor fica autorizado a pagar estas despesas por conta do comprador, adicionando-as ao custo da factura. O vendedor obterá os documentos consulares na qualidade de agente do comprador, tendo este previamente explicado a forma pela qual as mercadorias devem ser declaradas; e, no caso que este o não tenha feito, o vendedor fará as declarações conforme julgar melhor, não sendo em caso algum responsável por multas ou outras despesas motivadas por qualquer erro em que a falta de instruções necessariamente o tenha induzido.» Estes parágrafos, considerados juntamente com o parecer do Sr. Moitinho d’Almeida (que não só estabelece, mas justifica, a doutrina sobre o assunto), envolvem, a nosso ver, uma explicação suficiente da matéria. 25-1-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 167. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 1. Lisboa: 25-1-1926. Conditions of truth: 1. A thing to be possible must involve no contradiction. 2. A thing of many things to become realised, that is to say, the (actual), real of many possibles, must have a sufficient reason for its realisation. We owe these two laws to Leibnitz. The Law of Possibility is internal to a thing; that is to say a thing contains in itself the possibility of its own existence. But nothing contains in itself its own existence ; the reality of a thing does not depend upon itself. Thus the Law of Reality is external to a thing. Hence are taken two other laws which concern the universe more, and are more near to us. These are called the Law of Life and the Law of Persistence in living. Thus an animal, once born, has a possibility of continuing to live unless such a conception involve a contradiction. Again, and in view of the struggle for life, the second law, the Law of Persistence in life causes the animal to depend no more only on itself, but on the environment and in its adaptation to the environment, etc., is the sufficient reason of its existence. These 2 laws may be reduced to one, under 2 names: the law of internal contradiction and the law of external contradiction. An animal that is born has possibility of persisting in life (Law of internal contradiction, for, since it is not dead it can go on living). But if it be born too weak for living, it cannot struggle against the environment and must die (Law of external contradiction). 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 43. Um anúncio difere dum cartaz em que o cartaz deve chamar a atenção e prendê-la no mesmo acto, isto é, de um golpe, ao passo que o anúncio deve chamar a atenção para depois prendê-la. Há, pois, muitos anúncios que são simples cartazes em miniatura. Só por qualquer circunstância particular — estranha portanto à índole do anúncio — pode um anúncio deste género servir o fim a que se destina. E é singular que os alemães, tão notavelmente especialistas por índole e educação, tão constantemente empreguem o anúncio-cartaz, isto é, o anúncio em que o interesse reside no simples aspecto e disposição tipográfica. É o único lapso — mas é um lapso grave — da técnica publicitária alemã. 25-1-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 171. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 1. Lisboa: 25-1-1926. Perfect environment (see Drummond) demands and coexists with non-personality. For just as the infinite, which is the perfect, because nothing can be conceived greater, is entirely different from any number, however great, for it is finite; even so a perfect environment cannot be a material one for however matter strive towards perfection yet it is ever imperfect. And even so, a perfect personality is personality no longer. But the consideration is yet more pregnant. A perfect consideration and a perfect environment are identical, the same. 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 46. Rosmaninho que me deram, Rosmaninho que me deram, Rosmaninho que darei, Todo o mal que me fizeram Será o bem que eu farei. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 39. The organism is of the same thing as its environment. But its environment is a sensation . Therefore... 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 46. O malmequer que arrancaste O malmequer que arrancaste Deu-te nada no seu fim, Mas o amor que me arrancaste, Se deu nada, foi a mim. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 45. The only reality is the eternal present, the undying Now . Time, Space, Colour in itself, Weight in itself, etc., are fiout the abstractions of duration, of extension, of colour, of weight, etc. They are indeterminate, determined by their own selves. Thus the infinite is the indeterminate, (the unsubjective). Then these abstractions are either real or they are not. If real, being indeterminate, self-determined, each of them must contain in itself the reason for its own existence. But the only thing which contains in itself the reason of its own existence is Being. None of these are Being for Being is Being and no more. These are unreal. But since they appear to exist, yet do not exist, they must exist in something by something. But what is this something, where does it exist? But let it be remembered that this where is but expression of our inability to speak but in terms of time, of space, of all these. What is this substratum in which time and space, as well as other properties are contained? 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 47. Teu xaile de seda escura Teu xaile de seda escura É posto de tal feição Que alegre se dependura Dentro do meu coração. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 45. ETERNITY OF NATURE Low organisms are shortest lived. The higher the organism, as a rule, the longer the lif e. The most complex organism must have the longest life. An infinitely complex organism must have an infinite life. Now the most complex organism is that which contains them all. — Nature is eternal. Push further Drummond’s theory: — «Immortality is perfect correspondence with a perfect environment.» Fundamental difference between natural life and spiritual life. Nature is bad . Altruism, goodness, the idea of good generally, make their appearance, in man. They cannot, it is contended, come from nature. (But they do. Pleasure and good). 1907? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 48. O manjerico comprado O manjerico comprado Não é melhor que o que dão. Põe o manjerico ao lado E dá-me o teu coração. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 45. Guia-me a só razão. Não me deram mais guia Alumia-me em vão? Só ela me alumia. Tivesse quem criou O mundo desejado Que eu fosse outro que sou Ter-me-ia outro criado. Deu-me olhos para ver. Olho, vejo, acredito. Como ousarei dizer: «Cego, fora eu bendito»? Como o olhar, a razão Deus me deu, para ver Para além da visão Olhar de conhecer. Se ver é enganar-me, Pensar um descaminho, Não sei. Deus os quis dar-me Por verdade e caminho. 2-1-1932 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 138. 1º publ. in Descobrimento . Lisboa: Inverno 1931-1932. Quantity, number-in-se, infinity, has the quality of an idea. It is by quantity (ideal) that we perceive a plurality of things. Therefore quantity in se produces that plurality. It is in us and numbers are in that way. For if we say it is not in us, but that we (deduce) draw it from nature, we fall into error. First it is impossible to see number without the idea (innate, not philosophic) of Quantity; secondly, it is impossible to deduce quantity from numbers, unless it be that it is found in numbers and in that case it is posterior only philosophically, if we can deduce it is there. And if it be there [...] is it not natural that it should be the productor. When we, looking upon the world, deduce our idea of Energy (Force) do we take that Energy (Force) to be in reality after forces or before them? Is Energy only ideal and forces real things? No. Materialism confounds itself. All philosophy is absolute, or contains an Absolute, be it absolute relativity. And empirism (materialism) making itself absolute at one point, denies idealism not to be so at others [...] It is inconsequent. To be a force with itself material[ism] has to do away with the idea of matter and with the idea of Force. lt must eliminate the infinite altogether. Ideas then produce the exterior universe. Ideas are then forces? Now, either ideas are things (i.e. existent oughts) or they are not and are only appearances. There is more than one idea, there are many, therefore, since there is more than one, there is an infinite number. Number then is anterior to idea. That was a profound thought of the Pythagoreans to place number as the basis of all things. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 49. Rosa verde, rosa verde... Rosa verde, rosa verde... Rosa verde é coisa que há? É uma coisa que se perde Quando a gente não está lá. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 45. Há quase um ano não escrevo. Pesada, a meditação Torna-me alguém que não devo Interromper na atenção. Tenho saudades de mim, De quando, de alma alheada, Eu era não ser assim, E os versos vinham de nada. Hoje penso quanto faço, Escrevo sabendo o que digo... Para quem desce do espaço Este crepúsculo antigo? 23-5-1932 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 140. Manhã dos outros! Ó sol que dás confiança Só a quem já confia! É só à dormente, e não à morta, esperança Que acorda o teu dia. A quem sonha de dia e sonha de noite, sabendo Todo o sonho vão, Mas sonha sempre, só para sentir-se vivendo E a ter coração. A esses raias sem o dia que trazes, ou somente Como alguém que vem Pela rua, invisível ao nosso olhar consciente, Por não ser-nos ninguém. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 101. 1ª publ. in Athena , nº 3. Lisboa: Dez. 1924. Quero dormir. Não sei se quero a morte, Nem sei o que ela é. O que quero é não ser submisso à sorte, Seja ela lei ou fé. Quero poder nos campos prolongados Meu ser abandonar Aos seus verdes silêncios afastados, Que amo só de os olhar. Quero poder imaginar a vida Como eIa nunca foi, E assim vivê-la, vívida e perdida, Num sonho que nem dói. Quero poder mudar o universo De um para outro lado, Como quem junta o seu viver disperso E o ata com o fado. Quero, por fim, ser coroado rei Do nada a que enfim vou. Será minha coroa o que serei, E o ceptro o que sou. 26-8-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 108. By the theologic conception, God, being the infinite of Being, is also the infinite of all its attributes. But the theologians have forgotten to examine the principles they set forth. Let us take Being and one attribute, for instance, Good. Now, in this relation, and according to the theories mentioned, God is infinite Being and also infinite Good. Now what is infinite good? Let us take a series with its infinite and with its zero. (0 ... 1, 2, 3, 4 ... ¥). What is the nature of this infinite? It is the possibility of all numbers. Being the possibility of all numbers, the infinite is itself not a number. We cannot say of it, unless it be in a manner somewhat anthropomorphic , that it is the greatest conceivable number. (Here lies all anthropomorphism). [...] But there is more. The infinite, besides being the possible, is its (infinite) realization. But an infinite realization is the possibility itself. It may be taken as: 1) The possibility of all numbers. 2) The supposed limit of numbers, that is to say, our manner of expressing the fact that they have no limit. 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 52. A rosa que se não colhe A rosa que se não colhe Nem por isso tem mais vida. Ninguém há que te não olhe Que te não queira colhida. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 46. Fúria nas trevas o vento Num grande som de alongar Não há no meu pensamento Senão não poder parar Parece que a alma tem Treva onde sopre a crescer Uma loucura que vem De querer compreender. Raiva nas trevas o vento Sem se poder libertar. Estou preso ao meu pensamento Como o vento preso ao ar. 23-5-1932 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 141. Se alguém bater um dia à tua porta, Dizendo que é um emissário meu, Não acredites, nem que seja eu; Que o meu vaidoso orgulho não comporta Bater sequer à porta irreal do céu. Mas se, naturalmente, e sem ouvir Alguém bater, fores a porta abrir E encontrares alguém como que à espera De ousar bater; medita um pouco. Esse era Meu emissário e eu e o que comporta O meu orgulho do que desespera. Abre a quem não bater à tua porta! 5-9-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 110. PROOF The infinite in a series is that number which is greater than any number conceivable. But the number does not exist which is greater than any conceivable number. Therefore the infinite does not exist. That is to say, it is equal to nothing. Now that which is greater than any conceivable number is either a number or something other than a number. If a number, then since it is evident that [the number does not exist which is greater than any conceivable number]. If not a number, if other than a number, it is either so by nature or by degree. If by nature, the Infinite being the contrary of something is equal to nothing, even though that something be «all» . If by degree, we must suppose, as a pure hypothesis, that it is of such a degree as to make it distinct from number — at the same time a number and not a number. 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 53. Na noite em que não durmo Não dorme O relógio também. Pus na alma esvurmo. É enorme O que a treva contém. Podridão da alma, moribundo Do que me julguei ser, Ouço o mundo. É um vento surdo e fundo, Que do abismo profundo Vela o meu morrer. Indiferente assisto Ao cadaverizar Do que sou. Em que alma ou corpo existo? Vou dormir ou despertar? Onde estou se não estou? Nada. É na treva onde fala O relógio fatal, Uma grande, anónima sala, Uma grande treva onde se cala, Um grande bem que sabe a mal, Uma vida que se desiguala, Uma morte que não sabe a que é igual. 13-3-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 74. Há verdades que se dizem Há verdades que se dizem E outras que ninguém dirá. Tenho uma coisa a dizer-te Mas não sei onde ela está. 2-9-1934 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 46. A morte é a curva da estrada, Morrer é só não ser visto. Se escuto, eu te oiço a passada Existir como eu existo. A terra é feita de céu. A mentira não tem ninho. Nunca ninguém se perdeu. Tudo é verdade e caminho. 23-5-1932 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 142. Sim, vem um canto na noite. Não lhe conheço a intenção, Não sei que palavras são. É um canto desligado De tudo que o canto tem. É algum canto de alguém. Vem na noite independente Do que diz bem ou mal. Vem absurdo e natural. Já não me lembro que penso. Outro; é um canto a pairar Como o vento sobre o mar. 5-9-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 111. UNKNOWN Will              (Power) (Movement)        Idea         Sensation Will              Thought        Feeling * Act has plurality. 0 — x — ¥ x = ¥, ¥ = 0 Being     Not Being         Existence Attributes of Being as plenitude: Power. Being, by asserting itself as Not-Being, determines itself as Existence. Can it not be said that Absolute 0 or absolute ¥ is impossible, since by this it would be finite? In the Series, ¥ is represented by the relative existence of these things and 0 by their imperfection, their relative non-existence. Plurality is the only truly ideal thing. The infinite may be considered successive as being that of plurality. Time and space are the only things which, besides being considered as extensions and durations varying in the series, can also be conceived as series of like extensions or durations. Plurality is an illusion. But without plurality there can be none of the «mouvement immobile» of «Satan-Dieu». For plurality is succession. Is not movement of alteration subordinate to movement of translation? Is it not so by science [?] 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 55. Quando ao domingo passeias Quando ao domingo passeias Levas um vestido claro. Não é o que te conheço Mas é em ti que reparo. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 46. Quem bate à minha porta Tão insistentemente Saberá que está morta A alma que em mim sente? Saberá que eu a velo Desde que a noite é entrada Com o vácuo e vão desvelo De quem não vela nada? Saberá que estou surdo? Porque o sabe ou não sabe, E assim bate, ermo e absurdo, Até que o mundo acabe? 23-5-1932 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 143. Tudo que amei, se é que o amei, ignoro, E é como a infância de outro. Já não sei Se o choro, se suponho só que o choro, Se o choro por supor que o chorarei. Das lágrimas sei eu... Essas são quentes Nos olhos cheios de um olhar perdido... Mas nisso tudo são-me indiferentes As causas vagas deste mal sentido. E choro, choro, na sinceridade De quem chora sentindo-se chorar Mas se choro a mentir ou a verdade, Continuarei, chorando, a ignorar. 5-9-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 112. How does the infinite realise itself? Infinitely, for we can conceive no limit to number. But if, realising itself, it realises itself by itself, the infinite, in becoming other than itself, does not pass from itself, is itself in the other . Is not the infinite the idea of number? Idea of number = idea of plurality. Idea is one, plurality is many in the idea of plurality. One = many. 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 57. Tenho vontade de ver-te Tenho vontade de ver-te Mas não sei como acertar. Passeias onde não ando, Andas sem eu te encontrar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 46. Na sombra do Monte Abiegno Repousei de meditar. Vi no alto o alto Castelo Onde sonhei de chegar. Mas repousei de pensar Na sombra do Monte Abiegno. Quando fora amor ou vida, Atrás de mim o deixei, Quando fora desejá-los, Porque esqueci não lembrei. À sombra do Monte Abiegno Repousei porque abdiquei. Talvez um dia, mais forte Da força ou da abdicação, Tentarei o alto caminho Por onde ao Castelo vão. Na sombra do Monte Abiegno Por ora repouso, e não. Quem pode sentir descanso Com o Castelo a chamar? Está no alto, sem caminho Senão o que há por achar. Na sombra do Monte Abiegno Meu sonho é de o encontrar. Mas por ora estou dormindo, Porque é sono o não saber. Olho o Castelo de longe, Mas não olho o meu querer. Da sombra do Monte Abiegno Que me virá desprender? 3-10-1932 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 144. Treme em luz a água. Mal vejo. Parece Que uma alheia mágoa Na minha alma desce — Mágoa erma de alguém De algum outro mundo Onde a dor é um bem E o amor é profundo, E só punge ver, Ao longe, iludida, A vida a morrer O sonho da vida. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 102. 1ª publ. in Athena , nº 3. Lisboa: Dez. 1924. Tudo, menos o tédio, me faz tédio. Quero, sem ter sossego, sossegar. Tomar a vida todos os dias Como um remédio, Desses remédios que há para tomar. Tanto aspirei, tanto sonhei, que tanto De tantos tantos me fez nada em mim. Minhas mãos ficaram frias Só de aguardar o encanto Daquele amor que as aquecesse enfim Frias, vazias, Assim. 6-9-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 113. Andorinha que passaste, Andorinha que passaste, Quem é que te esperaria? Só quem te visse passar E esperasse no outro dia. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 47. Do vale à montanha, Da montanha ao monte, Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por casas, por prados, Por quinta e por fonte, Caminhais aliados. Do vale à montanha, Da montanha ao monte, Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por penhascos pretos, Atrás e defronte, Caminhais secretos. Do vale à montanha, Da montanha ao monte, Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por plainos desertos Sem ter horizontes, Caminhais libertos. Do vale à montanha, Da montanha ao monte, Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por ínvios caminhos, Por rios sem ponte, Caminhais sozinhos. Do vale à montanha, Da montanha ao monte Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por quanto é sem fim, Sem ninguém que o conte, Caminhais em mim. 24-10-1932 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 146. A nuvem veio e o sol parou. Foi vento ou ocasião que a trouxe? Não sei: a luz se nos velou Como se luz a sombra fosse. Às vezes, quando a vida passa Por sobre a alma que é ninguém, A sensação torna-se baça E pensar é não sentir bem. Sim, é como isto: pelo céu Vai uma nuvem destroçada Que é véu, mau véu, ou quase véu, E, como tudo, não é nada. 10-9-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 114. Nuvem do céu, que pareces Nuvem do céu, que pareces Tudo quanto a gente quer, Se tu, ao menos, me desses O que se não pode ter! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 47. I Sim, farei...; e hora a hora passa o dia... Farei, e dia a dia passa o mês... E eu, cheio sempre só do que faria, Vejo que o que faria se não fez, De mim, mesmo em inútil nostalgia. Farei, farei... Anos os meses são Quando são muitos-anos, toda a vida, Tudo... E sempre a mesma sensação Que qualquer coisa há-de ser conseguida, E sempre quieto o pé e inerte a mão... Farei, farei, farei... Sim, qualquer hora Talvez me traga o esforço e a vitória, Mas será só se mos trouxer de fora. Quis tudo — a paz, a ilusão, a glória... Que obscuro absurdo na minha alma chora? II Farei talvez um dia um poema meu, Não qualquer coisa que, se eu a analiso, É só a teia que se em mim teceu De tanto alheio e anónimo improviso Que ou a mim ou a eles esqueceu... Um poema próprio, em que me vá o ser, Em que eu diga o que sinto e o que sou, Sem pensar, sem fingir e sem querer, Como um lugar exacto, o onde estou, E onde me possam, como sou, me ver. Ah, mas quem pode ser quem é? Quem sabe Ter a alma que tem? Quem é quem é? Sombras de nós, só reflectir nos cabe. Mas reflectir, ramos irreais, o quê? Talvez só o vento que nos fecha e abre. III Sossega, coração! Não desesperes! Talvez um dia, para além dos dias, Encontres o que queres porque o queres. Então, livre de falsas nostalgias, Atingirás a perfeição de seres. Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo! Pobre esperança a de existir somente! Como quem passa a mão pelo cabelo E em si mesmo se sente diferente, Como faz mal ao sonho o concebê-lo! Sossega, coração, contudo! Dorme! O sossego não quer razão nem causa. Quer só a noite plácida e enorme, A grande, universal, solene pausa Antes que tudo em tudo se transforme. 2-8-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 76. Cansa sentir quando se pensa. No ar da noite a madrugar Há uma solidão imensa Que tem por corpo o frio do ar. Neste momento insone e triste Em que não sei quem hei-de ser, Pesa-me o informe real que existe Na noite antes de amanhecer. Tudo isto me parece tudo. E é uma noite a ter um fim Um negro astral silêncio surdo E não poder viver assim. (Tudo isto me parece tudo. Mas noite, frio, negro sem fim, Mundo mudo, silêncio mudo — Ah, nada é isto, nada é assim!) 9-11-1932 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 148. Divido o que conheço. De um lado é o que sou Do outro quanto esqueço. Por entre os dois eu vou. Não sou nem quem me lembro Nem sou quem há em mim. Se penso me desmembro. Se creio, não há fim. Que melhor que isto tudo É ouvir, na ramagem Aquele ar certo e mudo Que estremece a folhagem. 10-9-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 115. I O INFANTE Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma. E a orla branca foi de ilha em continente, Clareou, correndo, até ao fim do mundo, E viu-se a terra inteira, de repente, Surgir, redonda, do azul profundo. Quem te sagrou criou-te português. Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal! s.d. Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 57. Não meu, não meu é quanto escrevo, A quem o devo? De quem sou o arauto nado? Porque, enganado, Julguei ser meu o que era meu? Que outro mo deu? Mas, seja como for, se a sorte For eu ser morte De uma outra vida que em mim vive, Eu, o que estive Em ilusão toda esta vida Aparecida, Sou grato. Ao que do pó que sou Me levantou. (E me fez nuvem um momento De pensamento). (Ao de quem sou, erguido pó, Símbolo só). 9-11-1932 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 150. Deslembro incertamente. Meu passado Não sei quem o viveu. Se eu mesmo fui, Está confusamente deslembrado E logo em mim enclausurado flui. Não sei quem fui nem sou. Ignoro tudo. Só há de meu o que me vê agora — O campo verde, natural e mudo Que um vento que não vejo vago aflora. Sou tão parado em mim que nem o sinto. Vejo, e onde [o] vale se ergue para a encosta Vai meu olhar seguindo o meu instinto Como quem olha a mesa que está posta. 13-9-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 116. II HORIZONTE Ó mar anterior a nós, teus medos Tinham coral e praias e arvoredos. Desvendadas a noite e a cerração, As tormentas passadas e o mistério, Abria em flor o Longe, e o Sul sidério Esplendia sobre as naus da iniciação. Linha severa da longínqua costa — Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta Em árvores onde o Longe nada tinha; Mais perto, abre-se a terra em sons e cores: E, no desembarcar, há aves, flores, Onde era só, de longe a abstracta linha. O sonho é ver as formas invisíveis Da distância imprecisa, e, com sensíveis Movimentos da esperança e da vontade, Buscar na linha fria do horizonte A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte — Os beijos merecidos da Verdade. s.d. Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 58. Sorriso audível das folhas, Não és mais que a brisa ali. Se eu te olho e tu me olhas, Quem primeiro é que sorri? O primeiro a sorrir ri. Ri, e olha de repente, Para fins de não olhar, Para onde nas folhas sente O som do vento passar. Tudo é vento e disfarçar. Mas o olhar, de estar olhando Onde não olha, voltou; E estamos os dois falando O que se não conversou. Isto acaba ou começou? 27-11-1932 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 152. Se há arte ou ciência para ler a sina A que em nós o Destino faz de nós, Dá-me que eu a não saiba e que, indivina, Me corra a vida vagamente e a sós. Que quero eu do futuro que não tenho? Que me pesa hoje, ou alegra, o que serei? Sei, por lembrar, de que passado venho, E, onde hoje estou, incertamente sei. O mais, o que o futuro me dará, Deixo a quem dê e à forma como o dei; Basta a sombra que esta árvore me dá E a sensação de nada mais querer. 13-9-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 117. III PADRÃO O esforço é grande e o homem é pequeno. Eu, Diogo Cão, navegador, deixei Este padrão ao pé do areal moreno E para diante naveguei. A alma é divina e a obra é imperfeita. Este padrão sinala ao vento e aos céus Que, da obra ousada, é minha a parte feita: O por-fazer é só com Deus. E ao imenso e possível oceano Ensinam estas Quinas, que aqui vês, Que o mar com fim será grego ou romano: O mar sem fim é português. E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma E faz a febre em mim de navegar Só encontrará de Deus na eterna calma O porto sempre por achar. 13-9-1918 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 60. Bem sei que estou endoidecendo. Bem sei que falha em mim quem sou. Sim, mas, enquanto me não rendo, Quero saber por onde vou. Inda que vá para render-me Ao que o Destino me faz ser, Quero, um momento, aqui deter-me E descansar a conhecer. Há grandes lapsos de memória Grandes paralelas perdidas, E muita lenda e muita história E muitas vidas, muitas vidas. Tudo isso; agora me perco De mim e vou a transviar, Quero chamar a mim, e cerco Meu ser de tudo relembrar. Porque, se vou ser louco, quero Ser louco com moral e siso. Vou tanger lira como Nero. Mas o incêndio não é preciso. 15-9-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa Sabino e Adelaide . (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 118. P - De onde vens? R - Não sei. P - Onde vais? R - Não me disseram (sei). P - O que sabes? R - O que esperei (Nada). P - Que vês? R - Sou cego. P - Que vestes? R - Estou nu. P - Que tens? R - Só a mim. P - O que queres? R - Ver a luz. P - Que luz? R - A que houver. P - Qual é a que houver? R - A que me for dada. P - Se te a derem, como a verás? R - Com meus olhos. P - Se te a não derem, como a verás? R - Com o meu coração. P - Se te a nem derem nem não derem, como a verás? R - Comigo [? ] P - Que tens ao pescoço? R - O passado. P - Que sentes sobre o peito? R - O futuro. P - Que tens que te a teus pés olha? R - O presente. P - Que sentes? R - A treva, o frio, e o perigo. P - Como os vencerás? R - À treva pelo dia, ao frio pelo sol, ao perigo pela vida. P - E como obterás o dia e o sol e a vida? R - Não ficando cego, nem nu nem eu aqui sozinho. P - Quem te criou? R - Não sei. P - Porque o não sabes? R - Porque nasci. P - Queres sabê-lo? R - Sim, porque morrerei. [Mestre do Átrio] - Basta que me digas sim. O N[eófito ] - Sim. M[estre do ] Á[trio] - A paz seja contigo. Os nn. retomam as espadas. O SL toma na mão direita a esquerda do Neófito e [ … ] - Tenho [? ] . s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 80. IV O MOSTRENGO O mostrengo que está no fim do mar Na noite de breu ergueu-se a voar; À roda da nau voou três vezes, Voou três vezes a chiar, E disse: «Quem é que ousou entrar Nas minhas cavernas que não desvendo, Meus tectos negros do fim do mundo?» E o homem do leme disse, tremendo: «El-Rei D. João Segundo!» «De quem são as velas onde me roço? De quem as quilhas que vejo e ouço?» Disse o mostrengo, e rodou três vezes, Três vezes rodou imundo e grosso, «Quem vem poder o que só eu posso, Que moro onde nunca ninguém me visse E escorro os medos do mar sem fundo?» E o homem do leme tremeu, e disse: «El-Rei D. João Segundo!» Três vezes do leme as mãos ergueu, Três vezes ao leme as reprendeu, E disse no fim de tremer três vezes: «Aqui ao leme sou mais do que eu: Sou um Povo que quer o mar que é teu; E mais que o mostrengo, que me a alma teme E roda nas trevas do fim do mundo; Manda a vontade, que me ata ao leme, De El-Rei D. João Segundo!» 9-9-1918 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 62. Teoria da República Aristocrática Repare-se: não temos receio que a sociedade se democratize. Não pode haver democracia, porque o mero facto de haver sociedade inclui o facto aristocrático. Não se julgue, portanto, que o nosso protesto é contra a democracia como coisa que realmente exista ou ameace poder existir. Não pode, por sua natureza antinatural e autocontraditória. O nosso protesto é contra o quererem fazer democracia quando o facto essencialmente social é absolutamente aristocrático. O nosso protesto representa o nosso pasmo perante a inutilidade de pregar e esforçar-se por pôr em prática doutrinas que, além de realmente impossíveis, prejudicam a existência das sociedades e o bem-estar social. A democracia é uma (...) Se uma sociedade subsiste, o mero facto de ela subsistir prova que nela se dá o facto aristocrático. O que a vida moderna tem conseguido é apenas disfarçar e hipocrisar a operação desse facto, do facto aristocrático. Num país onde haja o sufrágio universal domina o povo? Não domina. Dominam os partidos. Dominam minorias. Isto é — o facto aristocrático persiste, disfarçado e hipócrita. Mas persiste. [...] A República Francesa é uma República oligárquica? Naturalmente. Se o não fosse, não podia existir França. Não há, nas repúblicas, nas sociedades, senão oligarquias. Em Inglaterra, por exemplo, governam o povo, governam as maiorias?... Governam? s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 82. P - Agora, que vos foi dada a luz, baixareis, porém, os olhos para o chão. Não podeis ainda suportar a luz que vem do alto. Que vedes no chão? Branco e negro misturados. O que vedes no chão não é o chão que vedes, mas a matéria e (...) da vida. A vida é luz e sombra, dia e noite, trabalho e repouso, bem e mal. Depois, entrareis este (...) sustentado por 3 colunas - duas que vedes bem, outra de que vedes só o topo [?] [...]. Estas colunas são as que, erguendo-se do olho divino, sustentam o tecto d'este templo onde vedes escritos os sinais do [...]. São elas a presença - da Verdade, do Bem e da Beleza. Passastes também estas duas outras colunas que estão no Átrio d'este Templo, pois o sentido dessa, que não vistes, não vos será revelado agora. Baste-vos que passásseis cego entre elas e sem ter que conhecê-las. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 81. Dorme sobre o meu seio. Sonhando de sonhar... No teu olhar eu leio Um lúbrico vagar. Dorme no sonho de existir E na ilusão de amar. Tudo é nada, e tudo Um sonho finge ser O espaço negro é mudo. Dorme, e, ao adormecer, Saibas do coração sorrir Sorrisos de esquecer. Dorme sobre o meu seio, Sem mágoa nem amor... No teu olhar eu leio O íntimo torpor De quem conhece o nada-ser De vida e gozo e dor. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 103. 1ª publ. in Athena , nº 3. Lisboa: Dez. 1924. V EPITÁFIO DE BARTOLOMEU DIAS Jaz aqui, na pequena praia extrema, O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro, O mar é o mesmo: já ninguém o tema! Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro. s.d. Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 64. As únicas duas fórmulas governativas que podem dar glória e grandeza a uma nação são a monarquia absoluta e a república aristocrática. Sendo a tendência de toda a sociedade a de ser uma oligarquia, ou uma colecção de oligarquias, só podem ser verdadeiramente grandes dois tipos de sistema social — o que destrua todas as oligarquias e o que “organize” a oligarquia. Ora só o poder pessoal, à D. João II, pode esmagar as oligarquias; e só a República aristocrática, oligarquia dos melhores, pode, aceitando o defeito fundamental dos melhores, triunfar dele por dentro. A republica aristocrática é o sistema mais perfeito, porque é o mais estável dos dois. A monarquia absoluta depende de um homem; a república aristocrática é já uma instituição. Todos os outros sistemas de governo são maus. A chamada “democracia” é apenas uma oligarquia complexa, ou uma complexidade de oligarquias. A monarquia constitucional é má porque é a média [?] entre o que morreu e o que não pode existir. A sociedade, verdadeiramente, não é composta de homens, mas de agrupamentos; é, portanto, uma potencialidade de oligarquias. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 80. Vedes, meu Irmão, este pavimento mosaico; ele é a imagem daquele caos regular a que chamamos (a) Natureza. Nele, em quadrados regulares, iguais e opostos, se personifica, simbolizando-a, a estrutura contraditória do mundo - a noite e o dia, em todos os sentidos; a matéria e a força, em todos os modos; o corpo e a alma, em todas as formas. Isto que pisamos é o que somos; mas o que somos, quando o podemos pisar, não é mais que o que parecemos ser. (…) o mal e o bem, em todos os intuitos; o humano e o divino, em todos os métodos [?]. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 82. VI OS COLOMBOS Outros haverão de ter O que houvermos de perder. Outros poderão achar O que, no nosso encontrar, Foi achado, ou não achado, Segundo o destino dado. Mas o que a eles não toca É a Magia que evoca O Longe e faz dele história. E por isso a sua glória É justa auréola dada Por uma luz emprestada. 2-4-1934 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 65. O QUE UM MILIONÁRIO AMERICANO FEZ EM PORTUGAL A colónia Infantil Macfadden em S. João do Estoril Os milionários, e sobretudo os milionários americanos, que são popularmente os típicos, não gozam, em geral, de uma celebridade entusiástica. Do género de consideração que recebem dos que lhes são alheios, é exemplo cómico aquela frase com que Chesterton abre um dos seus contos: «Quer-me parecer que há uma centena de novelas policiárias que começam com a descoberta de que foi assassinado um milionário americano, acontecimento que, por qualquer motivo, é tido como uma espécie de desgraça.» Esta falta de afeição pública é derivada, na sua quase totalidade, da normal inveja humana a quem é muito rico, ou muito poderoso, ou muito inteligente. A inveja, porém, decresce, porque se altera com a admiração, na proporção em que o invejante tem consciência da impossibilidade de atingir a situação do invejado. É difícil o homem qualquer supor-se capaz de uma celebridade ou posição que assente na superioridade intelectual; pode, é certo, negar essa superioridade intelectual, mas então e que inveja não é já a inteligência que nega, mas a posição ou celebridade, que não pode negar. E mais fácil, mas ainda difícil, supor-se um qualquer capaz de uma celebridade de poder; embora atribua a conquista desse poder a qualidades em si mesmas inferiores, come o servilismo ou a hipocrisia, tem que convir comigo, centra vontade, que o servilismo tem que ser firme e a hipocrisia hábil para conseguirem esse fim. O que ele inveja, portanto, sem que o queira ou confesse, não é e poder conquistado, mas a firmeza, ainda que servil, e a habilidade, ainda que hipócrita, com que esse poder se conquistou. O caso do dinheiro é inteiramente diferente O dinheiro é, aparentemente, um fenómeno externo e ocasional, e a fortuna que aquele acumulou em anos de trabalho paciente ou inteligente pode este igualá-la numa grande noite de roleta, num desvairamento feliz na Bolsa, num bilhete único da lotaria. Estes casos, porém, são excepções, nem os ministra a realidade senão para o fim clássico de provarem a regra. As fortunas assim feitas, rapidamente estão desfeitas: o que o vento trouxe, o vento e leva. Não assentando num acto de inteligência ou de vontade não há inteligência que as defenda nem vontade que as possa conservar. O facto é que as grandes fortunas, quando não sejam hereditárias, são quase sempre efeito, em sua origem, de um poderoso exercício da vontade ou da inteligência, e particularmente daquela espécie prática da vontade que estabelece um só fim e dele se não desvia, ou daquela espécie prática da inteligência que consiste na vigilância das oportunidades e no seu aproveitamento imediato. Mais tarde, sim, no desenvolvimento da fortuna, podem entrar outros elementos, mas a vontade ou inteligência original constantemente resguarda e defende o que originalmente criou. Os milionários são, por trás do dinheiro, homens, e à parte esse dinheiro, têm as qualidades e os defeitos que tinham quando o não tinham. Se havia neles, ingenitamente, uma forte tendência filantrópica, será absurdo que se esqueçam de a realizar quando a podem realizar sem dificuldade. A dureza, a implacabilidade, que miticamente se atribuem aos grandes financeiros, são efeito, não do dinheiro, mas da luta; são comuns a eles e aos lutadores por dinheiro que nunca o alcançaram. Conheço pequenos lojistas, caixeiros de praça, donas de casa, que, em virtude da luta comum pelo dinheiro, têm a mesma dureza, a mesma implacabilidade, que o protagonista de Les affaires sont les affaires. O fundo moral é o mesmo; o que a estes falta é o golpe de vista, a inteligência penetrante, a imaginação construtiva; o que estes não atingem é a riqueza e a posição a que, com esse fundo, essas qualidades levam; o de que estes não sofrem é da visibilidade dessa posição. B. Macfadden, milionário americano, é sinceramente um filantropo, e essa sinceridade é tanto mais manifesta e incontestável quando se efectiva por processos que são a aplicação de teorias e de sistemas que constituíram sempre a sua principal preocupação. Começou ele a sua vida prática por, sendo débil, se curar dessa debilidade por processos ginásticos e dietéticos que ele mesmo originou. Começou a sua riqueza por publicar e vender revistas em que esses processos se explicavam e defendiam. Aplica a sua riqueza, em parte, a disseminar gratuitamente esses processes, principalmente na criação de colónias infantis, onde crianças débeis recebem, pela aplicação dos mesmos processos, uma educação física, e até moral, que lhes dá a saúde e a alegria, e as põe no caminho de uma vida sã, forte e independente. Há, pois, uma continuidade absoluta em toda a vida deste homem, uma sinceridade essencial manifestada por essa mesma continuidade. Não se trata de dar um milhão de dólares ou de libras a este ou àquele hospital num gesto impessoal, externo e decorativo — caro, é certo, porém fácil a quem o caro é barato. Trata-se de um acto não só moral mas intelectual e as altas obras sociais são aquelas em que colaboram a moral e a inteligência. Até ao ano passado, as colónias infantis de Macfadden não existiam senão nos Estados Unidos; uma experiência com rapazes italianos — a primeira a sair da antiga norma — foi contudo feita, ainda, nos Estados Unidos, para onde os rapazes seguiram de Itália. O ano anterior, porém, decidiu Macfadden fazer uma experiência, ou, mais propriamente, uma exibição, na Europa: beneficiava um certo número de crianças débeis, e, ao mesmo tempo, fazia uma demonstração a aproveitar, fosse pela Sociedade das Nações, que a registasse para os devidos efeitos como demonstração eficaz; fosse pelo país onde se realizasse, que, verificando os resultados, naturalmente se decidiria a aplicar os processes; fosse por ambos cumulativamente. No caso provável de o país escolhido decidir aplicar às suas crianças — sobretudo às pobres — os processos ali mesmo demonstrados, era, até, possível que Macfadden continuasse a manter, à sua custa, a primitiva colónia demonstrativa, que assim permaneceria como colónia-tipo. Dada a circunstância de a demonstração dever ser, primariamente, levada ao conhecimento da Sociedade das Nações, parece que o país em que se pensou em realizá-la era, como parecia melhor, a Suíça. Macfadden admitia, porém, a possibilidade de ser outro país mais apropriado à experiência. Bastava que fosse apropriado e que fosse europeu. Com este fito encarregou um seu amigo, o jornalista americano Albin E. Johnson, de descobrir qual seria o melhor país, e o melhor local nesse país, para se realizar a demonstração. Sucede que Albin Johnson era — como creio que ainda é — correspondente especial de vários jornais americanos junto da Sociedade das Nações; e sucede que, em virtude dessa situação, veio em 1930 a Portugal, acompanhado de sua mulher, na excursão que aqui fizeram, a convite do Governo português, os jornalistas que ali trabalhavam. Madame Johnson ficou encantada com Portugal e sugeriu a seu marido que fosse este o país indicado a Macfadden para a realização da experiência. Expôs-lhe (foi o próprio Johnson que me contou) que não havia em parte alguma da Europa, que eles ambos conheciam bem, clima igual ao de Portugal, e sobretudo da zona que vai de Lisboa a Cascais, e que, advindo do estabelecimento da Colónia infantil um grande reclame para e país onde se estabelece (dados os numerosos jornais e revistas de que Macfadden é proprietário), era mais justo, à parte o próprio clima, que fosse escolhido Portugal do que a Suíça. Portugal merecia toda a propaganda, e não a tinha; a Suíça tinha, e tem, a sua propaganda automaticamente feita. Johnson concordou imediatamente, e para isso, antes de sair de Portugal, entrou em contacto com quem justamente lhe foi indicado para melhor o orientar no assunto — o Dr. Fernando Lobo de Ávila Lima, meu velho amigo, homem preocupado com problemas educativos, e preocupado sincera e tecnicamente cem eles, sem intuito de propaganda própria ou de comércio ulterior. Assim se realizou a primeira entrevista, a que assisti, e nela ficou assente que seria proposto a Macfadden que a demonstração se fizesse em Portugal. O sistema Macfadden consistia, tanto quanto mais tarde pude averiguar, na reunião de três elementos: vida, quanto possível, ao ar livre; uma dieta simples e estudada; certos exercícios ginásticos, baseados no princípio geral vulgarmente conhecido por ginástica sueca; caracterizam-se todavia por neles se incluírem elementos de dissociação. O propósito, assim buscado e conseguido, é de desmecanizar os movimentos, chamando, pois, a atenção constantemente à superfície. O aluno nunca sabe qual a voz de comando que lhe vai ser dada a seguir, nem a ordem de movimentos em que vai ser feito determinado exercício, nem a forma exacta como vai ser chamado a coordenar certos movimentos. Tudo isto está bem visto e bem pensado. O corpo não é mais do que o instrumento da vontade, a ferramenta de que o espírito se serve para actuar sobre o assunto em que, por esse mesmo corpo, exteriormente existe. O propósito racional da ginástica é, pois, através da educação do corpo, educar a vontade; e a vontade educa-se, primariamente, através da atenção. Os processos ginásticos vulgares, pelos quais se considera o corpo como um cadáver vivo cujo músculos há que assoprar, não servem senão para criar inúteis, fortes, bêbados da musculatura, homens cujo ideal social é o de serem carroceiros sem carroça. Não assim nos verdadeiros sistemas ginásticos, nem, particularmente, no sistema Macfadden. Neste os exercícios tendem, como depois pude observar, para tornar a atenção pronta, rápida intensa, os movimentos inteligentes e disciplinados, e a generalidade de sistema a fazer do indivíduo um ser desperto, livre, maleável, capaz de agir alegremente e depressa, apto a pensar, naturalmente, pela sua própria cabeça. Foi isto que Bernard Macfadden se propôs realizar na Europa, e possivelmente em Portugal. Foi isto que em Portugal, com cinquenta rapazitos pobres, e no curto espaço de seis meses, triunfalmente realizou. Desde o princípio, e embora a minha intervenção no assunto nunca fosse senão, por assim dizer, abstracta e contemplativa, segui com grande interesse as fases, primeiro incertas e para a realização, depois certas e de execução, do seu desenvolvimento. O meu interesse não era o de ser, em qualquer sentido, entendido na matéria, mas o de ver as vantagens que advinham para o país da efectivação do projecto, e também a lembrança de quanto, embora tão longe de atleta, eu devo à ginástica. Quando, em 1907, o Prof. Egas Moniz me passou, para fins ginásticos, para as mãos de Luís Furtado Coelho, para ser cadáver só me faltava morrer. Em menos de três meses e a três lições por semana, pôs-me Furtado Coelho em tal estado de transformação que, diga-se com modéstia, ainda hoje existo — com que vantagens para a civilização europeia, não me compete a mim dizer. Eu não sabia, é certo, se o sistema Macfadden tinha parecenças, excepto gerais, com o de Furtado Coelho, nem se os instrutores da Macfadden teriam a inigualável competência, intelectual e profissional, do meu velho professor e amigo, ou o dom dinâmico, que ele tinha e tem, de imediatamente fazer criar interesse pela ginástica a quem está no estado de não saber ter interesse por coisa alguma. Parti, porém, do princípio que, qualquer que fosse o sistema Macfadden, bastava ser construído por um homem entendido na matéria e que a si mesmo se apresentava como demonstração primária e notável, bastava incluir exercícios ao ar livre e uma dieta sã e simples, para dele necessariamente advirem resultados favoráveis, a quantas crianças ele se aplicasse. Depois de uma ida à América, para conferenciar com Macfadden, do Dr. Fernando Lobo de Ávila Lima, como delegado da Junta de Educação Nacional, ficou definitivamente assente que a demonstração se faria em Portugal. Seguiu-se, um pouco mais tarde, a cedência, pelo Ministério da Guerra, do edifício dos Banhos de Poça, em S. João do Estoril, para a instalação da Colónia Infantil. O Asilo Nun'Álvares cedeu cinquenta rapazes para matéria de demonstração. Começou esta em Novembro de 1931, acabou em Abril de 1932. Foi um triunfo assombroso e completo. Os pequenos sumidos e cabisbaixos, que entraram em Novembro, foram, até Abril, transmudados, por uma alquimia alegre, em crianças verdadeiras. As fotografias individuais, tiradas em Novembro e em Março, mostram flagrantemente, por comparação, a transformação física em cada rapaz. Mas só quem viu e observou pode fazer ideia da correspondente vitalização mental. Para director da Colónia e seu instrutor ginástico, mandou Macfadden a Portugal um especialista dos seus processos, o capitão-aviador Claude De Vitalis. A escolha não poderia ter sido melhor. À parte a sua proficiência técnica, que não sou eu competente para abonar, mas que tanto a escolha de Macfadden como os resultados obtidos abonam por si mesmos, o De Vitalis é um entusiasta carinhoso. Ama o sistema Macfadden e adora as crianças a quem o aplica. Foi, lembro-me bem, com grande e visível mágoa que, quando, quase no fim, visitei a Colónia, ele me disse textualmente, salvo que o disse em inglês: «V. não imagina, meu velho, a pena que me faz deixar estas crianças. Em primeiro lugar tenho simplesmente pena, porque as adoro. Em segundo lugar, se estas Colónias não continuarem, se o seu exempIo não frutificar aqui, para que serviu isto tudo? E o que vai ser destes pequenos? Voltam para onde estavam e para aquilo que os pôs como estavam quando aqui os recebi? Nesse caso, chega a ser uma barbaridade ter-lhes feito o bem que aqui se lhes fez, pois o tiveram simplesmente para o perder.» Faço minhas as palavras do De Vitalis, mas, por princípio e dever, não faço meu o seu vago pessimismo. 10-3-1933 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 206. 1ª publ. in Fama, nº 4. Lisboa: 10-3-1933 Meu irmão, recebeste a Palavra. O que a vida te escondeu, porque é a morte, revelou-to a morte, porque é a vida. [Meu irmão], tudo neste mundo é símbolo e sonho - é símbolo tudo quanto temos, sonho tudo quanto desejamos. O universo inteiro, de que somos parte por castigo e erro, é uma alegoria cujo sentido hoje conheces visto que teus olhos, por fechados, estão abertos, e teus ouvidos, por oclusos, podem enfim ouvir. Sabes já, meu irmão, visto que estás desperto que o sol é negro e a terra vazia; que o que amámos é o que desconhecemos, que o que sonhámos é o que conhecíamos. Teu caminho agora é entre onde cessam os astros e a luz do sol não é lei nem dia. Que o Supremo Arquitecto dos Universos te dê a luz que te mostre a profundeza dos abismos e te permita não regressar senão para ser, quando houveres de o ser, nosso Irmão, nosso Juiz, e nosso Mestre; mas, se assim não for ainda, que a paz seja com o que tiveres que ser! Ave atque vale, frater! 3-9-1934 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 83. VII OCIDENTE Com duas mãos — o Acto e o Destino — Desvendámos. No mesmo gesto, ao céu Uma ergue o facho trémulo e divino E a outra afasta o véu. Fosse a hora que haver ou a que havia A mão que ao Ocidente o véu rasgou, Foi alma a Ciência e corpo a Ousadia Da mão que desvendou. Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal A mão que ergueu o facho que luziu, Foi Deus a alma e o corpo Portugal Da mão que o conduziu. s.d. Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 66. RÉGIE, MONOPÓLIO, LIBERDADE A questão chamada dos tabacos veio trazer de novo à superfície o problema batido e debatido de se se deve preferir o sistema de administração de Estado (que no caso particular dos tabacos é uso denominar régie), o sistema de monopólio privado ou o sistema de concorrência livre. Evidentemente, em qualquer problema desta ordem há três pontos a considerar, ou três interesses — os do Estado, os do comércio ou indústria e os do consumidor. E todos os problemas particulares deste género se apresentam de diverso modo no que respeita a cada um desses interesses. Não é, porém, nosso intuito — nem, dada a índole desta Revista, poderia ser — o tratar particularmente do problema do regime dos tabacos em Portugal. O que pretendemos é servir-nos da oportunidade oferecida por ele, ou, melhor, pelo estado agudo dele, para estudar a questão na sua absoluta generalidade. Limitar-nos-emos pois a estudar imparcialmente — ou tão imparcialmente quanto humanamente seja possível — as vantagens e as desvantagens dos três sistemas de administração comercial e industrial. Nada mais. Considerada em si mesma, a administração de Estado é o pior de todos os sistemas imagináveis para qualquer das três entidades com que essa administração implica. De todas as coisas “organizadas", é o Estado, em qualquer parte ou época, a mais mal organizada de todas. E a razão é evidente. A sociologia é uma pseudociência, ou, pelo menos, uma protociência. Não há ciência social, ou, pelo menos, não a há por enquanto. Em matéria social há só opiniões, tão pouco definitivas e científicas como as que há em matéria artística ou literária. Desconhecemos por completo que leis regem as sociedades, ignoramos por inteiro o que seja, em sua essência, uma sociedade, porquê e como nasce, segundo que leis se desenvolve, porquê e de que modo se definha e morre. Ninguém ainda sequer definiu satisfatoriamente “sociedade”, “progresso” ou “civilização”. A humanidade tem-se entretido — desde a formação, na Grécia antiga, do espírito critico — a idear sistemas políticos e sociais “definitivos” em matéria tão flutuante e incerta como a vida, em assunto ainda tão fora da ciência como a sociedade. É preciso, contudo, que as sociedades, sejam o que forem, se governem; é forçoso que haja um Estado de qualquer espécie. E esse Estado é chamado a governar uma coisa que não sabe ao certo o que é, a legislar para uma entidade cuja essência desconhece, a orientar um agrupamento que segue (sem dúvida) uma orientação vital que se ignora, derivada de leis naturais que também se ignoram, e que pode portanto ser bem diferente daquela que o Estado pretende imprimir-lhe. Assim o mais honesto e desinteressado dos políticos e dos governantes nunca pode saber com certeza se não está arruinando um país ou uma sociedade com os princípios e leis, que julga sãos, com que se propõe salvá-la ou conservá-la. A lei aparentemente mais justa, a lei mais de acordo com os nossos sentimentos de equidade, pode ser contrária a qualquer lei natural, pois pode bem ser que as leis naturais nada tenham com a nossa “justiça” e em nada se ajustem às nossas ideias do que é bom e justo. Por o que conhecemos da operação de algumas dessas leis — por exemplo, a da hereditariedade —, a Natureza parece frequentemente timbrar em ser injusta e tirânica. Ora não há certeza que a Natureza seja mais terna para a vida social do que para a vida individual. Ninguém ainda provou, por exemplo, que a abolição da escravatura fosse um bem social. Ninguém o provou, porque ninguém o pode provar. Quem nos diz que a escravatura não seja uma lei natural da vida das sociedades sãs? Ninguém o pode dizer, porque ninguém sabe quais são as leis naturais da vida das sociedades e essa pode portanto ser uma delas. A velha afirmação de Aristóteles — aliás tão pouco propenso a soluções “tirânicas” — de que a escravatura é um dos fundamentos da vida social, pode dizer-se que ainda está de pé. E ainda está de pé porque não há com que deitá-la abaixo. A essência do que em política se chama “conservantismo” nasce directamente desta nossa ignorância, consiste no receio de infringir leis desconhecidas em matéria onde todas as leis são desconhecidas. É pois evidente que quanto mais o Estado intervém na vida espontânea da sociedade, mais risco há, se não positivamente mais certeza, de a estar prejudicando; mais risco há, se não mais certeza, de estar entrando em conflito com leis naturais, com leis fundamentais da vida, que, como ninguém as conhece, ninguém tem a certeza de não estar violando. E a violação das leis naturais tem sanções automáticas a que ninguém tem o poder de esquivar-se. Pretendendo corrigir a Natureza, pretendemos realmente substituí-la, o que é impossível e resulta no nosso próprio aniquilamento e no do nosso esforço. Os riscos, e pois os prejuízos, da administração de Estado estão evidentemente na razão directa da extensão com que essa administração intervém na vida social espontânea. Máximos nos regimes reformadores, que pretendem organizar de novo uma coisa chamada “sociedade”, que não sabem o que é nem a que leis obedece, esses riscos e essa extensão baixam à medida que a administração de Estado se aproxima da estrita actividade fiscal e tributária que só ao Estado compete, porque só ao Estado pode competir. Mas não é a esta actividade própria e restrita que nos referimos quando examinamos a questão de administração de Estado; referimo-nos a essa administração em geral e, particularmente, à administração pelo Estado de comércios ou indústrias que podem não ser administrados por ele. Pelas razões já vistas, é evidente que, na proporção em que esses comércios ou indústrias forem importantes, e implicarem com a vida da sociedade ou da nação nessa mesma proporção será prejudicial a administração deles pelo Estado. E se essas indústrias ou comércios não tiverem importância nacional ou social, não há razão para que o Estado queira ocupar-se deles. Em qualquer dos casos, pois, a administração do Estado é um erro: num caso é inevitavelmente nociva, no outro francamente desnecessária. Viciosa, assim, em sua própria essência, a administração de Estado sofre ainda a viciação proveniente de ser exercida por e através do tipo de indivíduo que em geral forma o funcionário público. Salvo para as carreiras militares — em que há abertas especiais para a ambição e para a energia —, nenhum homem de verdadeira energia e ambição entra para o serviço fixo do Estado. Não entra porque não há ali caminho para a energia, e muito menos para a ambição. O novelista americano Nathaniel Hawthorne marca isto com extraordinário relevo no prefácio do seu romance A Letra Encarnada. Formado, pois, de um conjunto de homens necessariamente inferiores nas suas qualidades de acção, o serviço público civil resulta universalmente incompetente e desleixado e, derivadamente em sociedades eivadas de qualquer vírus corruptor, mais corrupto que qualquer outro conjunto. Estes elementos fixos, assim tão pouco aptos para o desempenho competente de qualquer função administrativa, ainda que subordinada, são dirigidos, nos estados modernos, por políticos profissionais, isto é, por indivíduos que subiram ao poder por circunstâncias várias, em que a competência administrativa não entra, nem tem que entrar. Aliás, quem tem uma notável competência administrativa emprega hoje a sua actividade em campos mais apropriados que a governação dos países. E se em quase todas as nações assim acontece, assim sobretudo sucede naquelas onde a instabilidade governativa é acentuada; nenhum administrador verdadeiro se sujeita a administrar com risco de descontinuidade e interrupção. A administração de Estado só é admissível quando é inevitável, e só é inevitável num caso anormal, a guerra, e, ainda assim, só para certas indústrias ou comércios. Como porém, nas sociedades chamadas civilizadas, as actividades normais são todas de ordem pacífica, e a guerra, motivando a suspensão de actividades pacificas, implica a suspensão da própria essência do que constituiu uma sociedade civilizada, o facto de que o Estado só pode utilmente administrar um comércio ou uma indústria em tempo de guerra é mais um argumento contra o exercício normal pelo Estado desse comércio ou dessa indústria. A administração pelo Estado de uma indústria ou de um comércio é prejudicial ao Estado, porque todo o comércio ou indústria mal administrado é prejudicial a si mesmo; e é prejudicial à indústria ou ao comércio particular, que por ela fica proibido. Só pode, em certos casos, beneficiar o consumidor; porque pode bem ser que o produto vendido o seja em condições anormalmente favoráveis. Há serviços de Estado em muitos países, que trabalham com deficit previsto para beneficiar o consumidor. Como, porém, esse consumidor é ao mesmo tempo contribuinte, o que o Estado lhe dá com a mão direita, terá fatalmente que tirar-lho com a esquerda. O consumidor é, no fim, quem paga o que deixa de pagar. Seria ridículo e indesculpável que, depois destas considerações essenciais, gastássemos a paciência do leitor com o exame da mitologia de argumentos que se têm apresentado em defesa da “nacionalização”, ou administração de Estado. Nenhum desses argumentos, próprios em geral só para contos humorísticos ou discursos políticos, pode prevalecer contra as considerações orgânicas que apresentámos. Sabemos bem, é certo, que administração de Estado não causa hoje o horror que causava no século que passou. Sabemos bem que está hoje em curso o ataque ao individualismo económico do século dezanove. Mas também sabemos que, assim como há modas no vestuário, assim as há nas ideias. Onde não há ciência, nada leva de vantagem a ideia de hoje sobre a ideia de ontem, porque não representa um acréscimo de conhecimentos. E em matéria social ainda não há ciência. Os monopólios São de duas ordens — os monopólios artificiais e legais, isto é, concedidos pelo Estado, por lei ou contrato; e os monopólios naturais e espontâneos, isto é, formados, em liberdade de comércio ou indústria, pela concentração de empresas, ou pela absorção de umas por outras, ou de várias por uma só. Os chamados trusts são um caso flagrante deste último tipo de monopólio. Trataremos agora dos monopólios legais — dos que o Estado concede ou autoriza por contrato ou lei. Dos monopólios espontâneos, como são produtos especiais da liberdade de comércio e de indústria, trataremos quando tratarmos desta. O monopólio legal é ao mesmo tempo análogo à administração de Estado e diferente dela. Há, evidentemente, várias espécies e graus de monopólios legais, como, aliás, dos outros; e consoante essas espécies e esses graus, se acentuam ou se esbatem as analogias e as diferenças entre eles e a administração de Estado. Trataremos, porém, do assunto com o máximo possível de generalização. A administração de Estado tem característicos próprios, por ser de Estado; são os que já delineámos. Mas, à parte esses característicos, apresenta ela os que são comuns a todas as empresas que não têm que recear concorrência: a artificialidade económica, porque vivem uma vida económica claustral, separada dos contactos e choques com os fenómenos económicos gerais; a incúria técnica, porque estão economicamente garantidas; a tendência para o abuso, porque para o abuso tende instintivamente todo o homem, ou toda a instituição humana, logo que não exista um travão fácil, rápido e natural para os seus actos. E evidentemente por estes característicos que os monopólios — e sobretudo os legais, em que a garantia é absoluta — têm analogia com a administração de Estado. A par destas analogias com a administração de Estado, apresentam os monopólios certas diferenças dela. A primeira diferença consiste na especialização. Um monopólio comercial ou industrial é exercido por uma empresa exclusivamente comercial ou industrial; e como, em geral, a matéria de um monopólio é especial e importante, a empresa, que o detém, não se dedica ordinariamente a qualquer outro comércio ou indústria. O Estado, ao contrário, nem exerce tipicamente as funções comerciais ou industriais, nem pode exercer exclusivamente essas funções. Ora a especialização tende a atenuar, nos monopólios, a incúria técnica que a segurança económica neles estimula. A segunda diferença consiste na temporaridade. Salvo em casos especiais — e como tais, em geral, postos explicitamente —as funções e actividades do Estado, e sobretudo as administrativas, têm um carácter de permanência, de perpetuidade. Os monopólios, ao contrário, têm um prazo; são concedidos por um certo, e determinado, tempo. A sua segurança económica sofre assim, porque a sofre no tempo, uma certa limitação; de absoluta torna-se relativa, e assim o seu principal efeito — a artificialidade económica — perde também o seu carácter absoluto, e em certo modo, e até certo ponto, se diminui e limita. Por outro lado, porém, a temporalidade dos monopólios agrava aquela “tendência para o abuso" a que já nos referimos. Todos tendem para abusar; e quem está em condições de poder fazê-lo fá-lo-á com mais certeza e violência se tiver um prazo marcado para a possibilidade desse abuso. Quanto menor for o prazo, maior tenderá a ser o abuso. Acresce que as empresas comerciais e industriais existem especialmente para auferir lucros, por meio de um serviço qualquer prestado ao público; quanto menor for o prazo que lhes é dado para auferir esses lucros, maiores lucros farão eles por auferir em cada ano desse prazo. A tendência humana para abusar atinge economicamente o seu máximo no regime de monopólio. A terceira diferença consiste na separação das funções administrativas e fiscais. Na administração de Estado é o Estado o fiscal da sua própria administração. Ora isto é duplamente mau. É mau, em primeiro lugar, porque a fiscalização do Estado participa da imperfeição orgânica, (já por nós claramente exposta) dessa instituição necessária. É mau, em segundo lugar, porque ninguém — e sobretudo o Estado, entidade anónima e dispersa — é bom fiscal de si mesmo. Nos monopólios legais, porém, separam-se a administração e a fiscalização: a primeira fica no monopólio, a segunda fica no Estado. Um dos males, portanto, desaparece imediatamente. E, se a fiscalização do Estado não for de urna incompetência extraordinária, ou de uma corrupção extrema, de algum modo se poderá atenuar a tendência para o abuso, que, como vimos, é absolutamente orgânica nos monopólios. Tratado assim, em sua essência e generalidade, o regime do monopólio legal, passamos a ocupar-nos do da liberdade de comércio ou indústria. O regime de liberdade apresenta, a nosso ver, cinco característicos: três que são vantagens, dois que são desvantagens. É natural, estimula a profidência técnica, e tende a manter os preços no mínimo possível: estas são as vantagens. É essencialmente incoordenado e instável e, quando degenera, torna-se uma tirania pior que a de qualquer outro sistema: estas são as desvantagens. O regime de liberdade é natural porque deixa as forças económicas — cuja natureza e leis desconhecemos — entregues a si mesmas; não as complicamos pois com a nossa intervenção ignorante, dificilmente benéfica — a não ser por acaso —, como toda a intervenção ignorante. O regime de liberdade, determinando e estimulando a concorrência, força cada concorrente a aperfeiçoar os seus serviços comerciais ou industriais, para levar vantagem aos outros. Sob outro aspecto, essa mesma concorrência conduz naturalmente cada concorrente a não elevar os seus preços para além dos dos outros, pois que seria o primeiro a perder com isso. Este aspecto da questão é trivial e conhecido. O regime de liberdade é incoordenado porque é individualizante, e é instável porque é incoordenado. O regime de concorrência põe cada concorrente em oposição, não só a cada um dos outros, mas ao conjunto de todos os outros. A congregação ou coordenação de esforços adentro de cada indústria ou de cada comércio torna-se difícil e, na proporção em que se torna difícil, se torna difícil aquele especial aperfeiçoamento dessa indústria ou desse comércio que nasce de ele, ou de ela, tomar consciência plena de si mesmo, o que só pode fazer se os seus elementos componentes e representativos não se repelirem uns aos outros. Além disto, os problemas comerciais e industriais não surgem em abstracto, mas em relação a entidades sociais chamadas nações; e onde uma concorrência nacional se sobreponha a uma concorrência individual, a pulverização oriunda do regime livre deixa desprevenida uma indústria ou um comércio, e uma nação. Acresce, como indicámos, que o que é incoordenado é instável. A certos incidentes ou contingências económicas, que particularmente ou especialmente afectem um certo comércio ou uma certa indústria, esse comércio, ou essa indústria, só pode fazer face se tiver um conjunto, se puder formar um conjunto, com que lhes possa fazer face. E, como os incidentes e contingências económicas são, como todos os fenómenos sociais, complexos e compostos de elementos vários, um conjunto inorgânico é instabilizado imediatamente pelo embate deles, e os elementos incoordenados, que compõem esse conjunto, agitados em sentidos diferentes pelas forças diferentes de que cada incidente ou contingência se compõe. Mas, se a incoordenação social da liberdade económica é um defeito, maior, socialmente, é o defeito que nasce de essa liberdade se coordenar. Como o regime de liberdade económica é essencialmente incoordenado, a coordenação só se forma nele por uma degenerescência do seu princípio basilar. Essa coordenação, ou essa degenerescência, dá-se de uma de duas maneiras — a formação de monopólios espontâneos, ou a sindicação. Ambos estes sistemas nascem do regime da liberdade; ambos, uma vez nascidos, o passam a aluir nos seus fundamentos. Foi por isso que aludimos a estes sistemas como “a degenerescência” do regime de liberdade. Quem não sai aos seus, degenera... O monopólio espontâneo, ou natural, de que os chamados trusts são o exemplo típico, forma-se por agrupamento de empresas, ou por absorção de umas por outras ou várias por uma só. O monopólio espontâneo apresenta os característicos que já indicámos como os do monopólio legal, porém com duas formidáveis excepções: como é natural, e nasce do próprio jogo das forças económicas, tem a força orgânica, a brutalidade íntima, de qualquer força da natureza; como não é legal, não está sujeito a fiscalização, boa ou má, de espécie alguma. Desaba sobre a sociedade como uma tempestade ou um cataclismo, e os governos, não hão-de deixá-lo esmagá-la ou, se o quiserem combater, hão-de colocar-se em situação falsa, pois, não havendo nele nada de ilegal, terão, para o combater, que sair, eles, da legalidade. A sindicação, saída da liberdade como o monopólio espontâneo, é igualmente inimiga dela, e sobretudo das vantagens dela; é-o com menos brutalidade e evidência e, por isso mesmo, com mais segurança. Um sindicato ou associação de classe — comercial, industrial, ou de outra qualquer espécie — nasce aparentemente de uma congregação livre dos indivíduos que compõem essa classe; como, porém, quem não entrar para esse sindicato fica sujeito a desvantagens de diversa ordem, a sindicação é realmente obrigatória. Uma vez constituído o sindicato, passam a dominar nele — parte mínima que se substitui ao todo — não os profissionais (comerciantes, industriais, ou o que quer que sejam) mais hábeis e representativos, mas os indivíduos simplesmente mais aptos e competentes para a vida sindical, isto é, para a política eleitoral dessas agremiações. Todo o sindicato é, social e profissionalmente, um mito. Mais incisivamente ainda: nenhuma associação de classe é uma associação de classe. No caso especial da sindicação na indústria e no comércio, o resultado é desaparecerem todas as vantagens da concorrência livre, sem se adquirir qualquer espécie de coordenação útil ou benéfica. O carácter natural do regime livre atenua-se, porque surge em meio dele este elemento estranho e essencialmente oposto à liberdade. A vantagem pública da não elevação desnecessária de preços desaparece por completo, pois, por haver sindicato, é fácil a combinação e a “frente-única" contra o público e, por esse sindicato ser tirânico, é fácil compelir à aceitação de novas tabelas os profissionais pouco dispostos a aceitá-las. Quanto ao aperfeiçoamento dos serviços comerciais ou industriais, que a concorrência estimula o sindicato diminui-o na própria proporção em que diminui o espírito de concorrência e, como nunca é dirigido por grandes profissionais, mas por políticos de dentro da profissão, pouco pode animar directamente a técnica da indústria ou do comércio que representa. Nem resulta da acção do sindicato qualquer coordenação útil que compense estas desvantagens todas. Não tendo uma verdadeira base de liberdade, o sindicato não coordena a classe como indivíduos; não tendo nunca uma direcção profissionalmente superior, o sindicato não coordena a classe como profissionais; não tendo outro fim senão o profissional e o económico, o sindicato não coordena a classe como cidadãos. Expusemos sucessivamente, analisando-os, o que são, em suas operações económicas e sociais, os regimes de administração de Estado, de monopólio e de liberdade de comércio e indústria. Fizemos o possível para expor imparcialmente as vantagens e desvantagens inerentes a cada um, ou às formas que cada um pode assumir. Repetimos, porém; que essas vantagens e desvantagens são as que pertencem à própria essência e generalidade de cada sistema. Quanto às vantagens e desvantagens da aplicação de cada um a este ou àquele caso particular, depende do caso particular. E nós não nos dispusemos a estudar caso particular nenhum. 1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 107. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 2 e 3. Lisboa: 25-2-1926 e 25-3-1926. Há três maneiras de ensinar uma coisa a alguém: dizer-lhe essa coisa, provar-lhe essa coisa, sugerir-lhe essa coisa. O primeiro processo é o processo dogmático; emprega-se legitimamente ao ensinar coisas sabidas e provadas a criaturas incapazes, por infância ou ignorância, de compreender as provas, se se apresentassem. Assim se ensina gramática às crianças ou aos pouco instruídos, sem entrar em explicações, que seriam inúteis e resultariam frustes, sobre os fundamentos lógicos ou filológicos da gramática. O segundo processo é o processo filosófico; emprega-se legitimamente para transmitir a pessoas com plena formação mental certos ensinamentos, ou cientificamente assentes mas desconhecidos do discípulo, ou puramente teóricos e que portanto ele tem que compreender em seus fundamentos, para os poder criticar. O terceiro processo é o processo simbólico; emprega-se legitimamente para transmitir a pessoas com plena formação mental ensinamentos que exigem a posse de qualidades mentais superiores ao simples raciocínio, e o símbolo é dado para que essa pessoa, recorrendo ao que nela haja de embrionário dessas qualidades, ao mesmo tempo as desenvolva em si e vá compreendendo, por esse mesmo desenvolvimento, o sentido do símbolo que lhe foi dado. O primeiro processo dirige-se à memória e chama-se ensino; o segundo à inteligencia e chama-se demonstração; o terceiro à intuição. A este terceiro processo chama-se iniciação. II Um símbolo é uma coisa exposta em termos de outra coisa, entendendo-se que a segunda (meio de expressão) é por natureza inferior à primeira (coisa expressa). s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 84. VIII FERNÃO DE MAGALHÃES No vale clareia uma fogueira. Uma dança sacode a terra inteira. E sombras disformes e descompostas Em clarões negros do vale vão Subitamente pelas encostas, Indo perder-se na escuridão. De quem é a dança que a noite aterra? São os Titãs, os filhos da Terra, Que dançam da morte do marinheiro Que quis cingir o materno vulto — Cingi-lo, dos homens, o primeiro —, Na praia ao longe por fim sepulto. Dançam, nem sabem que a alma ousada Do morto ainda comanda a armada, Pulso sem corpo ao leme a guiar As naus no resto do fim do espaço: Que até ausente soube cercar A terra inteira com seu abraço. Violou a Terra. Mas eles não O sabem, e dançam na solidão; E sombras disformes e descompostas, Indo perder-se nos horizontes, Galgam do vale pelas encostas Dos mudos montes. s.d. Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 67. Vai alta a nuvem que passa. Vai alta a nuvem que passa. Vai alto o meu pensamento Que é escravo da tua graça Como a nuvem o é do vento. 7-9-1934 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 48. Todas as coisas que há neste mundo Têm uma história, Excepto estas rãs que coaxam no fundo Da minha memória. Qualquer lugar neste mundo tem Um onde estar, Salvo este charco de onde me vem Esse coaxar. Ergue-se em mim uma lua falsa Sobre juncais, E o charco emerge, que o luar realça Menos e mais. Onde, em que vida, de que maneira Fui o que lembro Por este coaxar das rãs na esteira Do que deslembro? Nada. Um silêncio entre juncos dorme. Coaxam ao fim De uma alma antiga que tenho enorme As rãs sem mim. 13-8-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 79. ORGANIZAR As palavras “organizar”, “organização” e “organizador” pode dizer-se que constituem o estribilho teórico da nossa época. E, se o são em quase todas as matérias, sobretudo o são em matéria comercial e industrial, em virtude da reacção, que presentemente se revela em toda a parte, contra a feição um pouco casual, um pouco dispersa, que tiveram o comércio e a indústria no século passado. Interessa portanto saber o que é organizar. Referimo-nos a organizar no sentido completo e abstracto: o que é organizar qualquer coisa, e não especialmente um comércio ou uma indústria, uma fábrica ou um escritório? Sabido, e sabido bem, o que organizar significa em geral, saber-se-á implicitamente o que é organizar determinada coisa em especial, bastando que se apliquem os princípios gerais a este ou aquele caso particular. A palavra “organizar” deriva-se do termo “órgão”, e é aparentada com o termo “organismo”. Organizar é, pois, fazer de qualquer coisa uma entidade que se assemelhe a um organismo, e como ela funcione. Temos, pois, que definir, primeiro, em que consiste um organismo. O termo é biológico, e aplica-se àqueles entes vivos em que se dá determinada complexidade de estrutura e uma concomitante complexidade de funções. Um organismo vital complexo formou-se, no decurso do que se chama “evolução”, por o que os biologistas denominam “diferenciação”, isto é, a formação — lenta e confusa no tempo, definida nos seus resultados últimos — de órgãos especiais, cada um para uma função especial, e concorrendo todos, cada um adentro da sua função, para a manutenção da vida do organismo em seu conjunto. Quanto mais alto o organismo na escala evolutiva, mais complexos os seus órgãos, mais diferenciados; e, quanto mais diferenciados esses órgãos, menos capaz é cada um deles de exercer a função que compete a outro. O fígado, órgão definido do organismo, não pode substituir o baço nas suas funções. O pulmão não pode substituir o estômago, nem o estômago o pulmão. Nos entes vivos inferiores, e indiferenciados, a mesma estrutura faz as funções de estômago e de pulmão; ou, em melhores palavras, por não haver ainda estômago nem pulmão, as funções, que mais tarde competirão a estes, encontram-se, naquele estado rudimentar da vida, concentradas indefinidamente numa só substância. Um organismo é, pois, uma entidade viva em que diferentes funções são desempenhadas por órgãos diferentes, incapazes de se substituirem entre si, e concorrendo todos, na sua entreacção de conjunto, para a manutenção e defesa da vida do conjunto do organismo, ou do organismo como conjunto. Organizar é tornar uma coisa semelhante a um organismo. É fazer dessa coisa um conjunto dividido em partes componentes, a cada uma das quais compete uma função especial, distinta das outras, e concorrendo todas, cada uma pelo exercício da sua função, para a coesão e vitalidade do conjunto. Há, pois, que ter presentes, em toda a organização, três princípios fundamentais: 1), o conjunto deve ser dividido no número de elementos, ou órgãos, que é preciso, e nem em mais nem em menos que esses; 2), cada elemento, ou órgão, do conjunto tem que ter uma função absolutamente distinta da de qualquer outro elemento, e relacionada com a função desse outro apenas pela circunstância do comum concurso para o funcionamento do conjunto; 3), adentro de cada elemento ou órgão do conjunto se observará a mesma distinção de funções que se estabeleceu para o próprio conjunto, visto que cada elemento ou órgão, por distinto e diferenciado, é um conjunto em si mesmo. Todas estas observações são necessariamente abstractas; abstractas, porém, são as coisas essenciais, e a própria compreensão de qualquer coisa é uma abstracção. Organizar é, essencialmente, um fenómeno intelectual. Há muitas coisas que se executam por palpite, imensas que se fazem empiricamente, pelo hábito e a experiência. Mas a organização estável, ou seja a organização propriamente dita, é um trabalho de inteligência. E o que tem a inteligência que fazer para organizar? Cinjamo-nos aos princípios já assentes. O organizador tem, primeiro, que dividir o conjunto a formar nos seus elementos necessários. Tem, depois, que determinar as relações entre esses elementos. Esboça depois — repare-se bem que apenas esboça — a divisão de funções adentro de cada elemento. E esboça só, porque o chefe de organização estabelece um plano geral, em linhas gerais, o que — entenda-se bem — não quer dizer linhas indefinidas; deve deixar a cada chefe de elemento a divisão dos serviços adentro do elemento que lhe compete. E porque apenas esboça o chefe de organização a orientação particular de cada chefe de elemento? Porque defini-la seria substituir-se a esse chefe de elemento adentro do próprio elemento, seria negar a existência de um cargo que estabeleceu; seria, enfim, afastar-se do próprio princípio da organização. E esse princípio — bem é notá-lo — é este: organizam-se organizações de modo a organizar também organizadores. Cada chefe de elemento tem que ser, adentro do elemento de que é chefe, uma reprodução ou imagem do chefe de organização. Assim como o organismo delega, por assim dizer, uma função em determinado órgão, assim o chefe de organização delega determinada função em determinado chefe de elemento. Ora delegar uma função é entregá-la a outrem, tornando-se quem a entrega, por assim dizer, voluntariamente incompetente para o seu exercício. E é este o segredo de toda a organização eficaz: há hierarquia de cargos, não há hierarquia de funções. Um organismo artificial difere de um organismo natural, em primeiro lugar, em ser remodelável como conjunto, e substituíveis as suas partes componentes, mesmo as mais importantes. O organismo natural não é remodelável, nem podem as suas partes fundamentais ser substituídas; e isto porque o organismo natural tem o que se chama vida, e do organismo artificial só por metáfora, ou em linguagem transíata, se pode dizer que a tem. Desta particularidade do organismo artificial, em contradistinção do natural, se derivam consequências práticas importantes. A experiência ensina que a vida é uma coisa flutuante e incerta, cheia, por mais que busquemos prever, de surpresas e contingências imprevisíveis — imprevisíveis, sem dúvida, porque procedem de leis que ignoramos e, provavelmente, em grande parte, ignoraremos sempre. Todo o pensador de sistemas fixos, todo o organizador de conjuntos definidos, sofre fatalmente desilusões, quando não desastres. Em toda a organização prática há pois que contar com o inesperado e indefinido da vida. E o facto de que o organismo artificial é remodelável, e substituíveis todas as suas peças, toma possível, até certo ponto, a preparação para o inesperado, digamos mesmo a previsão do imprevisível. Como se faz essa preparação? Partindo, no tempo, do indefinido para o definido. O organizador de um conjunto deve começar por traçar a organização exclusivamente em linhas gerais, e de organizar no princípio só a rede dos serviços essenciais. Feito isto, põe-se o organismo em marcha; e do contacto com a prática, com os acidentes e contingências da realidade da vida, se vai dando a “definição” do conjunto, se vai enchendo o simples contorno inicial, se vão estabelecendo e concatenando os órgãos e subórgãos do todo. Criada, assim, em suas linhas gerais, pela inteligência — cuja função natural é precisamente o abstracto e o geral —, determinada depois nas suas linhas particulares pela experiência que adquire em marcha — isto é, pela própria vida — a organização consegue ser organização sem ser rígida; é complexa e maleável ao mesmo tempo, porque a vida, ao dar-lhe a complexidade que ela precisava como organização, deu-lhe ao mesmo tempo a maleabilidade da própria vida. Os organizadores chamados “de gabinete” pecam, sem excepção, pela delineação de organismos estudados e escritos até ao último detalhe. Quanto mais inteligentes são, pior sai a obra praticamente, por isso mesmo que sai melhor intelectualmente, e portanto só intelectual. Não contam com o que a realidade é de flutuante e de incerta. Aplicam à elaboração do que pensam que há-de ser uma realidade o processo pelo qual legitimamente se confeccionam os sistemas filosóficos, os poemas épicos e os romances policiais. Há uma segunda diferença, também importantíssima nos seus resultados, entre o organismo artificial e o natural. No organismo natural o sistema hierárquico é simples: o “chefe” é um único — o sistema nervoso e os órgãos subordinados cooperam em igualdade, sem entre eles haver hierarquia. Não é assim nunca nos organismos artificiais. Nestes pode haver por vezes —muitas vezes tem que haver — uma hierarquia complexa e definida. Mas o que há sempre é chefes de elementos, ainda que, como, por exemplo, num escritório pequeno, o chefe seja apenas chefe de si mesmo, por não ser necessário mais ninguém na secção; mas nessa secção ele é efectivamente chefe, porque ser chefe não é só mandar em alguém, mas também mandar em uma coisa; e ter a seu cargo a organização de um serviço, ainda que se possa desempenhá-lo sem auxílio, é ser chefe desse serviço. Resulta desta circunstância que o chefe de elemento é duas coisas ao mesmo tempo: é o técnico desse elemento e é o chefe dele; é, cumulativamente, um prático e um organizador. Assim, adquirindo no exercício da chefia de um elemento não só o íntimo conhecimento desse elemento (que naturalmente já possuía, para que ali fosse posto) mas o íntimo conhecimento de chefia, esse chefe pode ir subindo na hierarquia das chefias até à suprema direcção da organização inteira. Todo o verdadeiro organizador deve fazer do organismo artificial que estabelece não só uma organização adequada aos fins que vise mas uma escola de chefes, um campo de treino de organizadores. Não é outro o grande segredo dos grandes organizadores americanos. 25-4-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 116. 1ª Publ. In Revista de Comércio e Contabilidade , nº 4. Lisboa: 25-4-1926. Um dos erros mais graves, porque dos mais vulgares, e tanto mais vulgar porque se apoia na vaidade, que é a mais vulgar das qualidades humanas, é o do crítico, ou o simples leitor, se erigir, espontaneamente, em crítico absoluto, em autoridade universal. Isto sucede com grande frequência em matéria artística; por vezes, até, em matéria científica. Há quem chegue ao ponto de, sem saber nada, a valer, de medicina, emitir opiniões sobre doenças e casos clínicos. Há, mas isto é mais raro. Um indivíduo qualquer, desconhecedor do que seja o cálculo diferencial, não diz, ao folhear um livro sobre o assunto: «isto é incompreensível«, ou, «este homem não sabe o que diz»; diz simplesmente, «não compreendo isto.» Mas o mesmo indivíduo, se for também desconhecedor de metafísica, já vulgarmente não diz, ao folhear um livro sobre esse assunto: «não compreendo isto«; a sua tendência é para dizer: «que confuso que é este homem!», ou, «isto é incompreensível». É que o ponto técnico da metafísica consiste em pensamentos e ideias, e não nas palavras empregadas, que são as correntes. E se o mesmo indivíduo folhear um livro em que essas ideias metafísicas estejam expostas em verso, redobrarão as suas acusações ao autor por aquilo que é, afinal, a ignorância dele que está lendo. Ninguém, desconhecedor de medicina, pasma de que não compreenda determinado passo de um livro médico escrito cerradamente na terminologia da matéria. Mas qualquer indivíduo, ignorante de metafísica em geral e da de Hegel em particular, se acha apto a querer compreender, a criticar, e, se for sincero, a censurar, o verso hegeliano de Antero: Não-ser, que és o ser único absoluto! São assim a maioria dos leitores e dos críticos. Outros, em menor número, não levam a tal ponto a sua vaidade instintiva, a sua divinização de si mesmos. Não levam a tal ponto, mas a algum ponto a levam. Poderão reconhecer certo poema, ou certo verso, como metafísico, e, sabendo-se incompetentes na matéria, desistir de o apreciar. Mas raras vezes se sentirão incompetentes para apreciar certo tipo de emoção, mais subtil, mais intensa, ou mais complexa, do que as que em si conhecem; aí cairão no «é muito mau», no «que trapalhada», no «isto é incompreensível». Essa presunção, assim vulgarmente tida, assenta contudo num triplo erro. O primeiro erro está em não se reparar que na literatura, visto que a sua matéria, a linguagem, é o veículo das ideias e das emoções, se reflectem, de um modo ou de outro, todos os conhecimentos humanos, e que portanto ela pôde incluir elementos derivados da história, da filosofia, das outras artes, das ciências todas. Certa imagem pôde derivar o seu fulgor de um pensamento metafísico. Certa expressão pôde derivar o seu brilho de uma alusão matemática ou médica. Certo passo pôde derivar toda a sua força de uma alusão histórica. Na proporção em que formos ignorantes da matéria onde a imagem, a frase ou o trecho foi buscar o seu fundamento, nessa mesma proporção seremos incompetentes para nos pronunciar a seu respeito. A crítica exige portanto, como primeira condição, uma cultura vasta, ainda que não profunda, para que convenientemente se compreendam os reflexos literários de fenómenos culturais estranhos à vida comum. O segundo erro está em não se reflectir que na literatura - visto que a sua matéria, a linguagem, é o veículo de todas as emoções, sobretudo das mais profundas, das que não podem caber na acção, das que excedem a capacidade da vontade - se reflectem os temperamentos, isto é as somas das emoções mais profundas, dos que por ela se exprimem. Ora as nossas emoções mais profundas, por isso mesmo que são profundas, são as que mais nos separam do ambiente, imediato ou mediato, social ou cultural, em que vivemos. Mas a mesma circunstância de que são profundas as torna, visto que somos homens, mais próximas na essência, qualquer que deles seja a forma, das emoções comuns a todos os homens de todos os tempos. O que nos afasta dos homens aproxima-nos da humanidade. Quanto mais profundas forem as emoções mais alto será, dado o necessário poder de expressão, o mérito da obra ou das obras. E quanto mais profundas as emoções, mais alto será, também, o seu grau de humanidade, de universalidade. Por isso os maiores poetas da humanidade são também os mais humanos, e porque são os mais humanos são os mais universais. Sucede, porém, que quanto mais nos aproximamos da universalidade, tanto mais nos afastamos da particularidade. O poeta que, no seu tempo, mais se aproxime da universalidade humana, é, por isso mesmo, o que mais se afasta do espírito desse seu tempo, a não ser que nele haja elementos acessórios que, por si, o aproximem do tempo em que vive. Shakespeare, o mais humano e universal dos poetas, não foi compreendido no seu tempo senão como o criador de figuras cómicas, como Falstaff; e o Falstaff que os isabelinos apreciavam era, não o Falstaff-comédia mas o Falstaff-farça, não a humanidade inteira que ele é por dentro mas o palhaço que era por fora (não no Hamlet que ele é por dentro, mas Yorick que ele é por fora): Shakespeare é de todos os tempos por o que nele houve de fundamental, a intuição humana; foi do seu tempo por um elemento que nele havia de acessório, a piada. Resulta de aqui que, quanto maior o poeta, menos será compreendido no seu tempo, ou, pelo menos, na sua geração - isto, acentuo, nos elementos fundamentais que o fazem imortal, não nos superficiais que o fazem célebre. E aqui nos aparece a segunda condição da crítica - o não ser o crítico um homem do seu tempo, o haver nele o poder de, quanto possível, se despir das influências do ambiente, imediato ou mediato, de não tomar como bitolas as figuras do passado, por grandes que sejam e seguras em sua justa grandeza; de saber, de se esforçar por aprender, a distinguir o universal do particular, a humanidade eterna da humanidade contingente da sua geração. Só assim poderá distinguir a originalidade da excentricidade, a extrema originalidade da loucura. Às vezes certa semelhança temperamental entre o crítico e o criticado pode levar aquele a um recto juízo que, sem esse acidente, não seria dado. É caso de fortuna, que dificilmente se repetirá, pois a mesma originalidade dos grandes escritores, distinguindo-os entre si, também fará que essa coincidência temperamental, que acidentalmente com um autor, se torna a dar com outro. Felizmente para os críticos, os poetas ou escritores verdadeiramente grandes são em número escasso, e a distância entre a humanidade fundamental e a aparente extravagância superficial nem sempre é tão grande que seja preciso mergulhar muito, da segunda, para chegar à primeira. Deixando, porém, esses píncaros da crítica, acheguemo-nos às simples encostas da crítica corrente. Aqui o perigo, na ordem do erro que venho citando, é o de se confundir a originalidade com a loucura ou a brincadeira, a singularidade oom o mau gosto, a novidade de expressão com a incompetência para exprimir. Às vezes convém fazer um verso frouxo, errar, até, um verso para obter determinado efeito rítmico que o ritmo regular, em que o poema esteja escrito, estorvaria ou impossibilitaria. Que nesse caso o crítico que o verso errado quer dizer o ritmo certo. Mas até isto, e o mais de que isto é exemplo, é tantas vezes, e para tantos, tão difícil! O terceiro erro vulgar da crítica prende-se um tanto com o segundo: é, aliás, o mesmo erro de outra maneira, ou produzindo um outro efeito. As emoções profundas, se no fundo produzem a universalidade e a humanidade, produzem à superficie, isto é, ao passar para a expressão através dos conceitos, das impressões acumuladas, de tudo quanto constitui o nosso ser social e comunicável, um efeito parecido com a originalidade, mas que não é a originalidade - efeito que pôde coexistir com a originalidade, ou existir sem ela. É o que convenientemente chamaremos a singularidade. Ambas as coisas se baseiam na novidade, mas, ao passo que a originalidade é a novidade no campo mental, a singularidade é a novidade no campo emotivo. Um grande poeta pode não ser, psicologicamente, um «caso» curioso; pôde sê-lo um poeta de menor relevo. O primeiro é forçosamente mais original; o segundo evidentemente mais singular. Ora as dificuldades que cercam a crítica no caso de distinguir entre originalidade e excentricidade acompanham-na no distinguir entre personalidade e afectação (?). Há entre estas duas a diferença que, no físico e visível, existe entre a elegância natural e a que é artificialmente produzida por incidentes de trajo e preparo; e todos sabem que por vezes - e neste campo onde os olhos, mais expertos que o cérebro, decidem - a distinção entre as duas oferece certa dificuldade. Para distinguir entre a personalidade verdadeira e a falsa, força é que o crítico consiga perceber quem o artista é, para ver se é esse quem, ou um quem postiço, que está expresso na obra. O caminho para isso é perguntar-se, ante a obra: Em quem, em que espécie de alma, é que esta expressão seria natural? Se a expressão for artificial, copiada ou de outro modo errada, o crítico sentirá isto: esta expressão não seria natural em ninguém; ou, esta expressão seria natural em X, que este copiou. [? ] Segue de aqui que o verdadeiro crítico há que reunir duas qualidades: uma cultura vasta, embora não seja profunda, para que possa compreender o que de diversos ramos da ciência, da arte ou da especulação, se encontre, de um modo ou de outro, reflectido nas obras de arte; e um grande poder de despersonalização, para que prontamente se integre em estados de espírito alheios aos que lhe sejam frequentes ou conhecidos, e assim possa sentir os sentimentos alheios, os sentimentos que não sente. D'esta segunda qualidade nascerá naturalmente a imparcialidade. Referi-me aqui aos defeitos instintivos e naturais dos que pretendem ser críticos; não me referi aos defeitos artificiais e íacidentais, como seja a intromissão, em crítica de arte, de qualquer elemento, moral, político, filosófico ou religioso. Não há mister que me refira a tais defeitos, pois, ainda que sejam vulgares, todos os reconhecem como defeitos, e o crítico que censura o livro de um católico por ele crítico ser anti-católico, sabe perfeitamente que está sendo um mau crítico. Essa espécie de crítica vale tanto como o que procede de uma antipatia pessoal pelo artista; e é, de facto, no fundo a mesma coisa, pois é uma antipatia pessoal por um motivo impessoal. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 85. IX ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra Suspendem de repente o ódio da sua guerra E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus, Primeiro um movimento e depois um assombro. Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro, E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões. Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovões, O céu abrir o abismo à alma do Argonauta. 10-1-1922 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 69. A tendência moderna para a organização e coordenação, quanto possível perfeita, dos serviços de modo a torná-los mais simples e mais rápidos, deu em resultado a invenção, constantemente crescente, de sistemas, processos, móveis e aparelhos diversa e diferentemente conducentes a esse fim. Alguns desses processos, desses móveis e dessas máquinas são muito engenhosos; quase todos são úteis ou aproveitáveis. Mas o emprego deles, sejam quais forem, deve obedecer sempre a um critério superior. Um sistema não é uma cabeça; um móvel não é gente. Todos os processos e todos os aparelhos resultarão elementos inúteis de organização se as cabeças dos indivíduos que os empregam não estiverem organizadas também. E essas cabeças estarão organizadas se estiver organizada devidamente a mesma parte do corpo do chefe que os dirige. Assim como se podem escrever asneiras com uma máquina de escrever do último modelo, se podem fazer disparates com os sistemas e os aparelhos mais perfeitos para ajudar a não fazê-los. Sistemas, processos, móveis, máquinas, aparelhos são — como todas as coisas mecânicas e materiais — elementos puramente auxiliares. O verdadeiro processo é pensar; a máquina fundamental é a inteligência... 24-4-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 120. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 4. Lisboa: 25-4-1926. Para se avaliar do mérito de um poeta, ou, aliás, de qualquer artista, há três coisas que perguntar, sucessivamente: (1) que pretende ele exprimir? (2) de facto exprime o que pretende? (3) exprime só o que pretende? Se estas três circunstâncias se dão, pôde desde logo afirmar-se que o artista é um artista de mérito; o grau ou nível do mérito é outro assunto, mais difícil de provar ou definir, pois que na nossa opinião dele intervêm elementos individuais, intransmissíveis, como o gosto, a simpatia pelos temas tratados, e outros assim. A primeira pergunta, disse, é esta: que pretende o artista exprimir? Não podemos culpar Cesário Verde de não ter o poder de pensamento de Antero de Quental, porque Cesário não o pretendia ter nem exprimir. Se, porém, determinado poeta, por igual destituído de capacidade filosófica e especulativa, tentar fazer poemas dessa natureza, legitimamente o culparemos de não ter tal capacidade, visto que pretende tê-la. E os versos desse poeta serão maus, desde logo, sem mais; ou pelo menos serão defeituosos em certo pormenor, que é esse. Segue de aqui, corolariamente, que quem exprime de facto o que pretende - é a segunda pergunta - tem necessariamente mérito; pois, se exprime de facto o que pretende, é que pôde exprimi-lo; e, se pôde exprimi-lo, é que essa coisa está «certa» com a personalidade do expressor. O poema, ou obra, será «individual», haverá nela «personalidade». A terceira pergunta, que fecha o ciclo, é esta: exprime o artista só o que pretende? É a pergunta aparentemente mais obscura de todas. Resume-se ela, porém, em se querer saber se à expressão do que se pretende exprimir se agrega matéria estranha, ou por dispensável para a expressão (…) s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 86. X MAR PORTUGUÊS Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. s.d. Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 70. É do pior gosto, e do pior efeito, desculpar-se um chefe com “um erro dum empregado”. Não há erros de empregados. Todo o erro dum empregado é apenas o erro de ter empregados que fazem erros. 25-4-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 120. 1ª Publ. In Revista de Comércio e Contabilidade , nº 4. Lisboa: 25-4-1926. A virtude principal da literatura - o não ser música - é ao mesmo tempo o seu principal defeito. Tem que ser composta e expressa em uma língua qualquer. Tem, portanto, por mais largamente que essa língua seja falada ou conhecida, que se não dirigir plenariamente à maioria do género humano. Aquilo por onde é mais explícita que qualquer outra arte, por isso mesmo é menos universal que ela. Ocorre, pois, perguntar por que processo, em literatura, é alguém universalmente célebre, como, ainda que poucos, há relativamente tantos que o são; porque processo são célebres no espaço, e sobretudo no espaço e no tempo, quando forçosamente, e mormente na poesia, que é a espécie literária mais alta, nenhuma tradução, supondo que existe, pode dar conhecimento da obra em sua completa e verdadeira vida. Porque o certo é que, a maioria de nós, não mentimos nem fingimos quando, ignorantes do grego, sofremos o entusiasmo de Homero, ou, hóspedes e peregrinos no latim, temos o culto de Horácio ou de Catulo. Não mentimos nem fingimos; pressentimos. E esse pressentimento, feito de não sei que misto de intuição, de sugestão e de entendimento obscuro, é uma espécie de tradutor invisível, que acompanha pelas eras fora, e torna universal como a música, a arte dada em linguagem, esse produto de Babel, com cuja queda o homem pela segunda vez caiu. O que há de mais alto neste mundo fala, quer queira quer não, uma linguagem simbólica, entendida por poucos com a verdadeira chave hermética, a inteligência, entendida por mais com o instinto de que há que entender, que é a intuição. São os primeiros, para o caso da obra literária, os que conhecem como naturais a língua em que ela está escrita; são os segundos os que a não conhecem assim, ou de todo a não conhecem, mas que, não conhecendo a língua, conhecem todavia a obra. Mas há mais, e mais estranho. Podemos, por intuição, ou o que quer que seja, figurar-nos a alma e a vida de uma obra poética de que não conhecemos nada, ou, no melhor, não conhecemos mais que uma tradução em prosa, que é outra forma, mais complicada, do mesmo nada. Muitos de nós, porém, nos figuramos, com razoável exactidão, a alma e a vida de obras que nunca lemos, por vagas reminiscências de referencias, por obscuras e casuais alusões, ou de obras, ainda, em idiomas estranhos, e de que não há, ou pelo menos nunca lemos, tradução em idioma que no-lo não seja. Aqui o tradutor invisível opera invisivelmente. Já não intuicionamos: adivinhamos. E como se houvesse em nós uma parte superior da alma que soubesse por condição todos os idiomas e tivesse lido por natureza todas as obras. Afinal, que é uma obra literária senão a projecção em linguagem de um estado de espírito, ou de uma alma humana? E essa obra é o símbolo vivo da alma que a escreveu (compôs), ou do momento dessa alma - uma pequena alma ocasional - que a projectou. Porque não haverá de alma para alma uma comunicação oculta, um entendimento sem palavras, pelo qual adivinhemos a sombra visível pelo conhecimento do corpo invisível que a projecta, e entendemos o símbolo, não por o conhecermos visto, mas por sabermos aquilo de que é símbolo? Quem sabe, até, se em qualquer estado antenatal, não vimos frente a frente a obra em seu espírito, que não no corpo verbal que aqui tem; que, ouvindo aqui só falar nela, desde logo sabemos de que se trata, na sua verdadeira essência e vida; e que, pois, lendo mal, ou nem sequer lendo, não é em nós suscitado, não um entendimento, ainda que intuitivo, mas uma funda e subtil recordação? Quem sabe, ainda, se, nesse estado antenatal, livres ainda do espaço e do tempo, não vimos já tudo, aqui hoje passado ou aqui hoje futuro, sub specie aeternitatis; e assim, se pudermos dispertar em nós essa anamnesis, não estamos hoje, nós mesmos nossos tradutores invisíveis, senhores inconscientes das obras ainda por nascer no decurso futuro do mundo? Não sorrio por isso - ou, melhor, não sorrio sempre, nem prontamente - dos que me falam de Shakespeare sem que saibam o inglês - e escolho Shakespeare para exemplo porque ele é dos poetas mais fielmente casados com a índole e as possibilidades do idioma em que compôs, e, como bom marido, com as maneiras e formas de enganar esse idioma. Não sorrio. Quem sabe se, em qualquer incamação anterior, o que me fala não conheceu Shakespeare como aqui foi, não falou com ele como aqui falou, e não está sendo, sem que ele ou eu o saiba, o tradutor invisível de um grande amigo ignorado? s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 87. OS PRECEITOS PRÁTICOS EM GERAL E OS DE HENRY FORD EM PARTICULAR Deve o leitor ter notado que, em várias alturas deste volume, temos enchido os espaços entre os fins dos artigos e os das páginas com breves preceitos, máximas e considerações de diversa ordem, tendentes muitas a indicar, tanto quanto em nós coube fazê-lo, regras de vida para a realidade, distintas daquelas regras de vida que têm apenas um sentido moral ou educativo. Apreciadas favoravelmente por muitos leitores, têm levantado em outros alguns reparos, assim como os tem levantado o tom por vezes leve ou irónico com que anotámos uma ou outra matéria. Quanto ao tom humorístico de certos trechos e preceitos, não queremos defendê-lo senão com a explicação de que mais vale expor uma coisa com leveza do que com pedantismo. A verdade não vale menos dita com um sorriso do que dita com um ar severo, pela mesma razão que não pesa mais um argumento exposto em linguagem, erudita do que um argumento exposto em linguagem simples. E tudo uma questão de modo de dizer, e mais nada. Mais interessante, porque mais complexo, é o problema que surge em torno da natureza, que a vários tem parecido crua e quase cínica, de alguns preceitos que aqui receberam o relevo da concisão e do itálico. Achamos por isso que nos cumpre, ao fechar este volume, dar do assunto uma breve explicação. E essa explicação servirá de motivo à apresentação de certos novos preceitos, cujo interesse particular participará do interesse geral que pretendemos dar a este artigo. O homem supõe que é um animal racional. Pode ser que o seja e pode ser que o não seja: a psicologia científica contesta a importância e a preponderância da razão na vida individual. São, diz ela, os instintos, os hábitos, os sentimentos e as emoções que verdadeiramente guiam o homem; a razão não serve senão de interpretar para a vontade esses impulsos sub-racionais. Mas o facto é que a própria circunstância de o homem se considerar um ente essencialmente racional faz com que, ainda que de um modo indirecto, a razão assuma, na vida dele, uma importância verdadeira. Ora um dos empregos abstractos da razão é o de formar preceitos, máximas, ou normas intelectuais, para a condução, geral ou particular, da vida. Os preceitos são de três ordens: podemos chamar-lhes (1) preceitos morais, (2) preceitos racionais, (3) preceitos práticos. Os preceitos morais expõem o que devemos fazer para ficarmos de bem com a nossa consciência. Os preceitos racionais expõem o que devemos fazer para ficarmos de bem com a nossa vida. Os preceitos práticos expõem o que devemos fazer para ficarmos de bem com as nossas ambições. Os primeiros são, como diz o nome que lhe demos, invariavelmente morais no que expõem. Os segundos são simplesmente o que se pode chamar sensatos. Os terceiros são muitas vezes pouco morais e, até, pouco sensatos, por isso mesmo que a vida, na sua realidade prática, é frequentemente imoral, e não poucas vezes absurda. Quatro exemplos explicarão os três casos. Exemplo de um preceito moral: Não faças aos outros o que não quiseres que eles te façam. Exemplo de um preceito racional: Conhece-te a ti mesmo. Exemplo de um preceito prático pouco moral: Se quiseres enganar alguém por intermédio de um enviado, engana primeiro esse enviado, porque então ele mentirá com convicção. Exemplo de um preceito pouco “sensato”: Quem não deixa nada ao acaso, pouco fará mal, mas fará muito pouco. O primeiro preceito é, em uma forma ou outra, de diversos sistemas religiosos. O segundo, inscrição num templo grego, é atribuído a um sábio da Grécia que provavelmente nunca existiu. Dos dois últimos, o primeiro é do florentino Guicciardini, e o segundo do inglês Halifax. Nos próprios preceitos portugueses populares, a que chamamos provérbios, encontramos estas três ordens de máximas. Um provérbio moral: Filho és e pai serás; conforme fizeres, assim acharás. Um provérbio racional: Fia-te na Virgem e não corras, e verás o tombo que levas. Exemplo de um provérbio prático: Quem o inimigo poupo, às mãos lhe morre. Ninguém poderá dizer que este último provérbio, que é uma espécie de recomendação do que podemos chamar o homicídio predefensivo, tenha vantagens morais sobre o preceito de Guicciardini, acima citado. É-lhe, aliás, inferior em utilidade, pois o preceito do florentino é universalmente verdadeiro, e o provérbio português é-o apenas em relação a certos inimigos, e a certas circunstâncias. Estas considerações, que, assim ilustradas por exemplos, devem ser claras para todos, servir-nos-ão de base para o estudo do problema. A sociedade é um sistema de egoísmos maleáveis, de concorrências intermitentes. Cada homem é, ao mesmo tempo, um ente individual e um ente social. Como indivíduo, distingue-se de todos os outros homens; e, porque se distingue, opõe-se-lhes. Como sociável, parece-se com todos os outros homens; e, porque se parece, agrega-se-lhes. A vida social do homem divide-se, pois, em duas partes: uma parte individual, em que é concorrente dos outros, e tem que estar na defensiva e na ofensiva perante eles; e uma parte social, em que é semelhante dos outros, e tem tão-somente que ser-lhe útil e agradável. Para estar na defensiva ou na ofensiva, tem ele que ver claramente o que os outros realmente são o que realmente fazem, e não o que deveriam ser ou o que seria bom que fizessem. Para lhes ser útil ou agradável, tem que consultar simplesmente a sua mera natureza de homens. A exacerbação, em qualquer homem, de um ou outro destes elementos leva à ruína integral desse homem, e portanto à própria frustração do intuito do elemento predominante, que, como é parte do homem, cai com a queda dele. Um indivíduo que conduza a sua vida em linhas de uma moral altíssima e pura acabará por ser intrujado por toda a gente — até pelos indivíduos que, sendo também morais,o são com menos altura e pureza. E o despeito, a amargura, a desilusão, que corroem a natureza moral, serão os resultados da sua experiência. Mas também um indivíduo, que conduza a sua vida em linhas de um embuste constante, acabará, ou na cadeia, onde há pouco que intrujar, ou por se tomar suspeito a todos e por isso já não poder intrujar ninguém. Ora é por causa desta dupla natureza real do homem que se engendraram preceitos de dupla natureza — uns dirigidos à formação do homem moral ou social; outros tendentes à sua educação defensiva e ofensiva. Os preceitos que chamámos racionais ocupam um lugar intermédio; não se dirigem à formação da sociedade, nem à educação do egoísmo; são regras para uma vida harmónica e sossegada, que se não estorva a si, nem estorva os outros. O que constitui, porém, a essência de um preceito é que, quer se dirija especialmente à formação do homem moral ou social quer se dirija especialmente à formação do homem individual ou egoísta, o preceito conta sempre com a existência da outra natureza do homem. Como a realidade tem dois elementos — o moral e o prático —, o preceito moral conta sempre com a existência do elemento prático, e o preceito prático conta sempre com a existência do elemento moral. O preceito moral, para ser verdadeiramente preceito, nunca esquece um certo limite. O preceito prático, para ser verdadeiramente preceito, nunca esquece uma certa regra. Nisto se distinguem os preceitos, propriamente ditos, das regras misticamente religiosas, por um lado, e das indicações cinicamente absurdas, por outro. O preceito, moral ou prático, está num ponto intermédio entre o Sermão da Montanha e o Manual do Perfeito Escroque. Do preceito, a que chamámos racional, não é preciso acentuar este carácter médio, porque a própria definição, que dele demos, por si mesma o acentua. Propusemo-nos estudar e explicar o preceito, a que chamamos prático — aquele que frequentemente parece imoral ou insensato. Estamos já, depois do breve estudo que fizemos, em estado de o definir. Um preceito prático é uma regra de procedimento egoísta que não esquece a dupla natureza do homem nem o equilíbrio entre os seus dois elementos. Há assuntos ou circunstâncias em que, pela sua própria natureza, o elemento moral não figura; o preceito que se estabelece para esses será necessariamente imoral. Há assuntos ou circunstâncias em que, pela sua própria natureza, o elemento prático mal figura; o preceito que se estabeleça para esses será necessariamente moral. Há assuntos ou circunstâncias quase sempre anormais, em que, pela sua própria natureza, se deu uma rotura do equilíbrio usual das coisas; o preceito que se estabeleça para esses tem que recomendar que se faça, para equilibrar as coisas, uma rotura de equilíbrio em sentido contrário, resultando pois um preceito que parecerá insensato. Estas explicações, que, embora lúcidas, são abstractas, concretizar-se-ão para o leitor nos novos exemplos, que vamos dar, de cada espécie de preceito prático que mencionámos. Exemplos do preceito prático simples: Todos vêem o que pareces; poucos sabem o que és (Maquiavel). Nunca faças a alguém um favor à custa de outro; pois o primeiro provavelmente esque cerá o favor, mas o segundo com certeza não esquecerá a injúria (Guicciardini). A dissimulação é como a maioria das outras qualidades; é necessária, e é, ao mesmo tempo perigosa. Não a ter torna-nos desprezíveis; tê-la em excesso torna-nos suspeitos. Nada há, porém, de grande nesta qualidade, pois uma criada de quarto a possui ordinariamente em maior grau que qualquer príncipe (Halifax). Exemplos do preceito prático necessariamente imoral: Ou evita fazer mal a alguém; ou, se decides fazer-lhe mal, faze-lhe então todo o mal que puderes. — É melhor matar um homem do que ameaçá-lo de morte, porque os mortos já não pensam em vingar-se. — Os homens são sempre mais prontos em retribuir injúrias do que favores, porque retribuir um favor é uma obrigação e retribuir uma injúria é um prazer. Todos estes primores de moral são de Maquiavel, que, deve notar-se, escreveu principalmente para políticos, e numa época de política subtil e agitada. Mas, salvo em circunstâncias sociais onde em absoluto não tenham cabimento, estes princípios são absolutamente verdadeiros. Exemplo do preceito prático necessariamente moral: A honestidade é a melhor táctica (provérbio inglês). Exemplos do preceito prático necessariamente “insensato”: Nas grandes dificuldades, age sempre antes de pensares (anónimo). — O que não tem remédio, remediado está (provérbio português). Com as explicações que demos, e os exemplos que acabamos de dar, deve o leitor ter ficado sabendo o que é essencialmente um preceito prático. E com esse conhecimento nos terá absolvido do pouco que lhe possa ter parecido cru ou cínico em qualquer das breves máximas que temos espalhado pelas bases das nossas páginas. Cumprido isto, que era uma parte do que prometêramos fazer neste estudo, vamos cumprir a outra parte prometida. Vamos apresentar o último grupo de preceitos práticos que surgiu na publicidade. E mais que recente, é recentíssimo, o seu aparecimento. Devemos esses preceitos, de intuito primordialmente industrial, e, portanto, próprio desta Revista, ao grande fabricante americano, e milionário supremo do mundo, Henry Ford. Os preceitos práticos mais úteis são, como é de esperar, obra, não dos homens inteligentes mais práticos, mas, o que é diferente, dos homens práticos mais inteligentes. Os grandes mestres do preceito prático foram políticos que reflectiram sobre a política. Tal foi Maquiavel, cujos preceitos iluminam principalmente o que há de vil e de mau em todos os homens; tal foi George Saville, Marquês de Halifax, cujas máximas ilustram sobretudo o que há de francamente humano em toda a gente. De Henry Ford, mestre de indústria, haveria a esperar preceitos práticos que esclarecessem as condições essenciais das chefias modernas, pelo menos no campo particular da indústria e do comércio. A vida actual, porém, ou as pessoas que a vivem, tem, ao que parece, um carácter maior de hipocrisia que a Renascença italiana ou a Restauração inglesa. Os preceitos práticos de Henry Ford dão-nos o que parece ser o resultado de só aquela metade da sua experiência que lhe convém dizer-nos. Participam um pouco da atmosfera da Lei Seca. São-nos servidos com água. Tais quais são, porém, vale a pena lê-los. No original — que está no último dos vários livros que Henry Ford vem lançando em explicação da sua vida e reclame dos seus carros — estão dispersos e incoordenados,. Lord Riddell deu-se ao trabalho de os coordenar e concentrar. E, pois, na redacção de Lord Riddell que vamos dar os nove mandamentos industriais do multimilionário americano. Aí vão: I. — Busca a simplicidade. Examina tudo constantemente, para ver se descobres como simplificá-lo. Não respeites o passado. O facto de que uma coisa se fez sempre de certa maneira não prova que não haja uma maneira melhor de a fazer. II. — Não teorizes; faz experiências. O facto de as experiências passadas não terem dado resultado não quer dizer que o não darão as experiências futuras. Os peritos são escravos da tradição. É, pois, preferível entregar a investigação de novos projectos a pessoas enérgicas de inteligência lúcida. Elas que se sirvam dos peritos. III. — O trabalho e a perfeição do trabalho tomam a precedência do dinheiro e do lucro. IV. — Faz o trabalho de modo mais directo sem te importares com regras e leis, nem com as divisões vulgares da disciplina. V. — Instala e mantém todas as máquinas no melhor estado possível e exige um asseio absoluto em toda a parte, para que um homem aprenda a respeitar a sua ferramenta, o seu ambiente, a sua própria pessoa. VI. — Se puderes fabricar uma coisa, que tens que usar em grandes quantidades, a um preço inferior ao por que a compras, fabrica-a. VII. — Sempre que for possível, substitui o homem pela máquina. VIII. — O negócio não pertence ao patrão ou aos empregados, mas ao público. IX. — O salário justo é o salário mais alto que o patrão pode pagar regularmente. Estas regras — dissemo-lo e mantemo-lo — representam apenas metade da experiência industrial e comercial de Henry Ford. Da outra parte, que não deve ter contribuído pouco para o tomar o super-Rockefeller que é, não extrairá ele porventura nunca os mandamentos correspondentes. Contentemo-nos porém com estes, que, em sua espécie, são admiráveis. Contêm ensinamentos que a maioria dos nossos industriais poderia, sem quebra de amor-próprio, gravar na memória e na atenção. Não comentaremos estes preceitos, que aliás, não requerem comentário. Só ao último deles — ou antes, a um seu derivado na política industrial recente de Ford — nos referiremos para fecho deste artigo. Henry Ford acaba de criar em suas fabricas a semana de cinco dias. E acaba de propor à consideração do mundo, como exemplo a seguir, esta redução filantrópica do trabalho dos seus operários. Sucede, porém, que já se sabe que os fabricantes de outros carros baratos americanos estão entrando pelas vendas dos automóveis Ford; que, ao passo que durante anos Ford produzia mais de metade dos automóveis fabricados nos Estados Unidos, produz agora apenas cerca de trinta e cinco por cento do total; que as fábricas Ford se vêem portanto confrontadas com o problema da sobreprodução, forçadas a produzir apenas sessenta e cinco por cento da sua capacidade, e obrigadas pois a trabalhar só quarenta horas por semana... De sorte que, ao proclamar ao mundo como novo lema económico e moral a semana dos cinco dias, Henry Ford, sem ter que inventar para si um novo preceito prático, se limitou a seguir aquele, que é admirável, do mestre Maquiavel: O que fazemos por necessidade, devemos fazer parecer que foi por vontade nossa que o fizemos. 25-6-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 121. 1ª Publ. In Revista de Comércio e Contabilidade , nº 4. Lisboa: 25-6-1926. De além das montanhas, De além do luar, Vêm formas estranhas. São gémeas do vento, São só pensamento. Mudam as entranhas De as ouvir passar. Cavalgada rindo Seu curso do além, Vem vindo, vem vindo, E tremem janelas, Velam-se as estrelas, (E) os ramos, rugindo, Falam como alguém. Mas, súbito, aragem Que perdeu o som, Cessou a passagem Do que tirou calma Aos ramos e à alma. Só se ouve a folhagem Num sussurro bom. E, abrindo a janela, Contemplo, a mal ver, Ao luar uma estrela Tão vaga, tão vaga, Que quase se apaga Quem sabe se ela Vai também levada, Qual tanta faltada, Nessa cavalgada Que passou sem ser? 5-9-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 81. A INUTILIDADE DOS CONSELHOS FISCAIS E DOS COMISSÁRIOS DO GOVERNO NOS BANCOS E NAS SOCIEDADES ANÓNIMAS Escândalos ainda recentes, que se tornaram conhecidos do público através dos relatórios publicados no Diário do Governo, vieram pôr mais uma vez em evidência a inutilidade prática dos Conselhos Fiscais e dos Comissários do Governo — inutilidade reconhecida no estrangeiro pela substituição a essas entidades, realmente fictícias, de outras mais susceptíveis de se desempenhar do mister que a nossa legislação impõe àquelas. Os Conselhos Fiscais e os Comissários do Governo — aqueles mais do que estes — são pontos de apoio da confiança do accionista, que julga que neles encontra o controle da aplicação e a salvaguarda dos capitais que confiou ao Banco ou à Sociedade Anónima adentro, ou junto, da qual eles funcionam. Reconhecendo as Sociedades Anónimas que a melhor forma de chamar o capital é a distribuição ruidosa de grandes dividendos, procuram frequentemente, por meio de lançamentos artificiais, encobrir um estado verdadeiro de pouco desafogo; publicam, para dar uma aparência de prosperidade, relatórios de prosa literária no fim dos quais os accionistas são definitivamente ludibriados pela confiança que lhe traz o inevitável “parecer” do Conselho Fiscal, com o costumado voto de louvor à Direcção, e a indicação aos accionistas que aprovem o Relatório de contas e a distribuição de dividendos que ele consigna. Os accionistas aprovam tudo — uma vezes porque o dividendo é magnífico, outras porque simplesmente confiam na indicação que lhes é dada. E a Direcção e o Conselho Fiscal recebem os respectivos louvores. São homens hábeis, uns; são homens sérios, outros. Tudo está, pois, necessariamente certo. Acontece, porém, que muitas vezes está errado. E é isso que os relatórios recentemente publicados põem em evidência. Quando se cai na suspensão de pagamentos, os accionistas acordam. Mas, como esperavam que o Conselho Fiscal os acordasse, e o Conselho Fiscal dorme por natureza, acordam sempre tarde e perdem... não o comboio, mas o dinheiro. Há Sociedades Anónimas em que não acontece isto. Mas há porventura alguma Sociedade Anónima em que, tanto quanto o sabe o accionista, não possa acontecer isto? Que elementos tem o accionista para poder saber ao certo que isso lhe não pode acontecer? A prosperidade do Banco ou da Companhia? Mas a prosperidade é a que lhe é dada pelos dividendos, e que sabe ele se esses dividendos não são o seu próprio capital e o dos credores da Sociedade Anónima, em vez do lucro autêntico da prosperidade verdadeira de uma sociedade progressiva? Sabe o accionista ao certo se não é assim? Não sabe, porque aqueles elementos em quem delega a fiscalização, 1.º não fiscalizam, 2.º mesmo que fiscalizem, não sabem fiscalizar. Quantos são os membros dos Conselhos Fiscais que examinam a valer as contas da Sociedade Anónima? Quantos são os membros dos Conselhos Fiscais que têm as habilitações precisas, de contabilistas, para esse exame? Salvo casos excepcionais, os membros dos Conselhos Fiscais são escolhidos por serem homens sérios e de boa posição social. Não consta, porém, que a seriedade seja a contabilidade, nem que a boa posição social seja um curso intuitivo de guarda-livros. Escolhem-se homens sérios para os Conselhos Fiscais. Mas os homens sérios podem ser estúpidos — há muitos —; os homens sérios podem ser confiados — há muitíssimos —; os homens sérios podem ser desleixados — há imensos —; e o accionista perde o seu dinheiro, sem que os homens muito sérios deixem de ser muito sérios, o que é uma consolação insuficiente para quem perdeu o dinheiro que fiou da fiscalização incompetente, se não inexistente, dos homens de muita seriedade. Tudo isto, no fundo, é uma comédia sem graça. A Direcção de uma Sociedade Anónima é, por natureza, um conselho técnico de gerência; o Conselho Fiscal de uma Sociedade Anónima é, e por natureza, um conselho técnico de fiscalização. A Direcção produz resultados; o Conselho Fiscal verifica esses resultados. E como os resultados se traduzem por números, isto é, por contas, parece que o Conselho Fiscal deve ser constituído por gente especializada no exame e conferência de contas. E parece também que o Conselho Fiscal deve ser constituído por gente suficientemente independente da Gerência para poder fiscalizar essas contas com independência. O que se faz entre nós? Elege-se um Conselho Fiscal de pessoas de probidade e incompetência e, é claro, de pessoas em magníficas relações de amizade com a Gerência, e portanto com toda a confiança nela. Em resumo: o melhor fiscal dos actos de alguém é um amigo incompetente. É ou não uma comédia? Dos Comissários do Governo nem é bom falar. Dos membros do Conselho Fiscal ainda se pode presumir, visto que são accionistas, um certo interesse pela Sociedade Anónima a que pertencem, se bem que o interesse não crie competência, nem pese mais, na maioria dos casos, que o desleixo natural de quem é incompetente e confiado. Mas dos Comissários do Governo nem essa presumível interesse se pode presumir. São funcionários do Estado, que é, como toda a gente sabe, o mais mal servido de todos os patrões. São nomeados por obscuros lances do xadrez partidário, em prémio de serviços políticos e para que veraneiem todo o ano no seu comissariado; são nomeados para não fazer nada, e é efectivamente o que fazem. Deles, pois, é o Reino dos Céus... Deixemo-los e volvamos à terra. Independência e competência são duas qualidades que se exigem em quem fiscaliza. O ter interesse em fiscalizar é secundário: o doente não percebe mais da doença que o médico, embora seja quem tem mais interesse na cura. Ora, se dependência e competência são as qualidades a exigir ao fiscal, está naturalmente indicado que a fiscalização das Sociedades Anónimas sejam examinadas, e por fim aprovadas, por peritos contabilistas estranhos às Sociedades, e com responsabilidade penal directa. Esses peritos (auditors) têm poderes para examinar toda a escrita, para verificar todas as transacções, para fazer à Direcção todas as perguntas que entenderem dever fazer para cabal desempenho do seu mister. E assim é que deve ser. De todas as formas das sociedades comerciais as Sociedades Anónimas são as que mais se prestam ao abuso e ao desleixo da Gerência, pois que nelas há uma intervenção já teoricamente periódica, mas, em geral, praticamente nula dos sócios (isto é, dos accionistas) na gerência. Há mister, pois, que deleguem em alguém a fiscalização que nem podem, nem em geral sabem, exercer. Delegá-la em Conselhos Fiscais equivale a delegá-la em ninguém, ou a delegá-la na própria gerência a fiscalizar. Não, não há outra solução senão os auditors, os peritos contabilistas — competentes porque são técnicos, independentes porque não pertencem à Sociedade, e responsáveis criminalmente por abuso, ou mesmo desleixo, no exercício do seu cargo. 25-1-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 127. Artigo escrito em colaboração com Francisco Caetano Dias.1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 4. Lisboa: 25-1-1926. PALAVRAS INICIAIS Propriamente falando, não há em comércio, nem em contabilidade, problemas que não sejam fundamentais, pois é sabido que, tanto em uma coisa como em outra — em tudo que envolve método —, um lapso de detalhe pode acarretar consequências desastrosas. Por isso os problemas que aqui se estudarão, embora uma e outra vez pareçam, e só à primeira vista, ser de pouca importância, serão sempre dos primaciais, ou por essência ou por oportunidade, nas matérias a cujo estudo esta Revista se dedica. Não é nosso intuito entrar demasiadamente no que se chama sociologia do comércio, nem carregar demasiado e tecnicamente de mais, a nota jurídica ou qualquer nota especial, onde quer que tenha que ser ferida. Mas se nos afastarmos da especialidade externa, também nos não prenderemos à generalidade abstrusa. Seremos, quanto possa ser, concretos dentro da abstracção natural das teorias e das doutrinas. Toda a teoria deve ser feita para poder ser posta em prática, e toda a prática deve obedecer a uma teoria. Só os espíritos superficiais desligam a teoria da prática, não olhando a que a teoria não é senão uma teoria da prática, e a prática não é senão a prática de uma teoria. Quem não sabe nada de um assunto, e consegue alguma coisa nele por sorte ou acaso, chama “teórico” a quem sabe mais e, por igual acaso, consegue menos. Quem sabe, mas não sabe aplicar — isto é, quem afinal não sabe, porque não saber aplicar é uma maneira de não saber —, tem rancor a quem aplica por instinto, isto é, sem saber que realmente sabe. Mas, em ambos os casos, para o homem são de espírito e equilibrado de inteligência, há uma separação abusiva. Na vida superior a teoria e a prática completam-se. Foram feitas uma para a outra. A índole desta Revista, tanto em matéria de comércio como em matéria de contabilidade, é provar que a teoria e a prática foram feitas uma para a outra. Cada problema que tratarmos faremos por tratá-lo sempre aprofundadamente, e em toda a sua extensão. Tratar um problema é isto. Mas, assim como variaremos o estudo dos problemas, não teremos só um estilo para descrever as soluções que lhes encontrarmos. Se em certo artigo formos solenes, em outro sê-lo-emos menos. Isso não importa. A maneira de tratar os assuntos é como o tom de voz em que se fala: tanto se pode dizer a verdade em voz baixa como em voz alta. Os Americanos, que são quem mais estuda os problemas técnicos, expõem-nos, muitas vezes, humoristicamente. Levam, até, esse género de exposição, em alguns casos, a pontos quase inconcebíveis para nós, Europeus, tantas vezes solenemente incompetentes. Isto é dito em previsão de que se estranhe que não ponhamos na exposição de todas as matérias o ar grave de quem tem uma missão transcendente a cumprir. Não forçaremos, porém essa nota, como não forçaremos nenhuma outra. O nosso intuito é expor de modo que nos possam ler comerciantes feitos e comerciantes por fazer, contabilistas que o são e contabilistas que o não são. Uma ou outra afirmação será escusada para um comerciante ou para um contabilista: é que é para o estudante de comércio ou de contabilidade. Outras irão um pouco além do interesse a supor no principiante destas matérias: é que são para os que já não são principiantes nelas. Assim, doseando, procuraremos expor num estilo e numa maneira que correspondam à medida dos públicos vários a quem nos dirigimos. A esses públicos pertence o decidir, apoiando-nos ou não, se atingimos ou errámos o alvo que nos propusemos. 25-1-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 131. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 4. Lisboa: 25-4-1926. Tenho um relógio parado Tenho um relógio parado Por onde sempre me guio. O relógio é emprestado E tem as horas a fio. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 40. Quando é o tempo do trigo Quando é o tempo do trigo É o tempo de trigar. A verdade é um postigo A que ninguém vem falar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 40. Levas chinelas que batem Levas chinelas que batem No chão com o calcanhar. Antes quero que me matem Que ouvir esse som parar. 25-8-1934 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 40. Não sei que diga. Pertenço à raça dos navegadores e dos criadores de impérios. A falar como sou, não serei entendido, porque não tenho Portugueses que me escutem. Não falamos, eu e os que são meus compatriotas, uma linguagem comum. Calo. Falar seria não me comprenderem. Prefiro a incompreensão pelo silêncio. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 50. Ao longe, ao luar, No rio urna vela Serena a passar, Que é que me revela? Não sei, mas meu ser Tornou-se-me estranho, E eu sonho sem ver Os sonhos que tenho. Que angústia me enlaça? Que amor não se explica É a vela que passa Na noite que fica. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 105. 1ª publ. in Athena , nº 3. Lisboa: Dez. 1924. Em vez da saia de chita Em vez da saia de chita Tens uma saia melhor. De qualquer modo és bonita, E o bonita é o pior. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 40. Em toda a noite o sono não veio. Agora Raia do fundo Do horizonte, encoberta e fria, a manhã. Que faço eu no mundo? Nada que a noite acalme ou levante a aurora, Coisa séria ou vã Com olhos tontos da febre vã da vigília Vejo com horror O novo dia trazer-me o mesmo dia do fim Do mundo e da dor — Um dia igual aos outros, da eterna família De serem assim. Nem o símbolo ao menos vale, a significação Da manhã que vem Saindo lenta da própria essência da noite que era, Para quem, Por tantas vezes ter sempre esperado em vão, Já nada espera. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 106. 1ª publ. in Athena , nº 3. Lisboa: Dez. 1924. A lavadeira no tanque Bate roupa em pedra bem. Canta porque canta e é triste Porque canta porque existe; Por isso é alegre também. Ora se eu alguma vez Pudesse fazer nos versos O que a essa roupa ela fez, Eu perderia talvez Os meus destinos diversos. Há uma grande unidade Em, sem pensar nem razão, E até cantando a metade, Bater roupa em realidade... Quem me lava o coração? 15-9-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 83. Teus brincos dançam se voltas Teus brincos dançam se voltas A cabeça a perguntar. São como andorinhas soltas Que inda não sabem voar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 41. Ela canta, pobre ceifeira, Julgando-se feliz talvez; Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia De alegre e anónima viuvez, Ondula como um canto de ave No ar limpo como um limiar, E há curvas no enredo suave Do som que ela tem a cantar. Ouvi-la alegra e entristece, Na sua voz há o campo e a lida, E canta como se tivesse Mais razões para cantar que a vida. Ah, canta, canta sem razão! O que em mim sente está pensando. Derrama no meu coração A tua incerta voz ondeando! Ah, poder ser tu, sendo eu! Ter a tua alegre inconsciência, E a consciência disso! Ó céu! Ó campo! Ó canção! A ciência Pesa tanto e a vida é tão breve! Entrai por mim dentro! Tornai Minha alma a vossa sombra leve! Depois, levando-me, passai! s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 108. 1ª publ. in Athena , nº 3. Lisboa: Dez. 1924. A nossa vida sem ideais nenhuns, toda quotidiana, quer no presente que0r pelo pensamento do futuro. Perdendo a religião, nada reavemos para a substituir; nem arte, porque a arte é, como religião, para muito poucos; nem ciência, que é para menos ainda, nem filosofia, que é para quase nenhuns. Não me refiro à conducta mas a ideais. Uma sociedade nunca pode ser grande nem pura sem ideais, porque na moral que nasce (...), na moral para uso quotidiano e de quotidiana origem, caberá uma certa decência, uma honestidade (...), razoáveis instintos humanitários, mas não uma nobreza de qualquer espécie, não uma grandeza de carácter. E o ponto importante é este. O ideal é a vida; vamos perdendo o ideal, e a nossa vitalidade vai diminuindo tristemente (…) s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 51. Talhei, artífice de um morto rito, Na esmeralda de haver um mundo feito Um brasão circunscrito No anel em que é perfeito. Fiz dele o símbolo de um prazer morto? De um sonho por haver? Não sei: a nau do sonho não tem porto E é inútil querer. Se isto não tem sentido, as rãs coaxam O sentido que tem. Vou ver se acho nos charcos onde as acham Se afinal sou alguém. 15-9-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 84. Tens uma rosa na mão. Tens uma rosa na mão. Não sei se é para me dar. As rosas que tens na cara, Essas sabes tu guardar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 41. Não é ainda a noite Mas é já frio o céu. Do vento o ocioso açoite Envolve o tédio meu. Que vitórias perdidas Por não as ter querido! Quantas perdidas vidas! E o sonho sem ter sido... Ergue-te, ó vento, do ermo Da noite que aparece! Há um silêncio sem termo Por trás do que estremece... Pranto dos sonhos fúteis, Que a memória acordou, Inúteis, tão inúteis — Quem me dirá quem sou? 27-5-1926 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 110. Há em tudo que fazemos Uma razão (?) singular: É que não é o que queremos. Faz-se porque nós vivemos, E viver é não pensar. Se alguém pensasse na vida, Morria de pensamento. Por isso a vida vivida É essa coisa esquecida Entre um momento e um momento. Mas nada importa que o seja Ou que até deixe de o ser: Mal é que a moral nos reja, Bom é que ninguém nos veja; Entre isso fica viver. 15-9-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 85. Fomos passear na quinta, Fomos passear na quinta, Fomos à quinta em passeio. Não há nada que eu não sinta Que me não faça um enleio. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 41. Pouco importa de onde a brisa Traz o olor que nela vem O coração não precisa De saber o que é o bem. A mim me baste nesta hora A melodia que embala, Que importa se, sedutora, As forças da alma cala? Quem sou, para que o mundo perca Com o que penso a sonhar? Se a melodia me cerca Vivo só o me cercar... 29-9-1926 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 112. OS 3 GÉNEROS DE ARTISTAS. 1. O artista para quem a arte é uma necessidade como que física, directa, como são a de comer e a de beber. Para este a arte é uma função da vida. 2. O artista para quem a arte é um refúgio, um modo de esquecer a vida; como um narcótico, um vício qualquer, um álcool. 3. O artista para quem a arte é uma tarefa, uma missão a cumprir. Do 1.º género são homens como Shelley, Byron - como o «romântico», em geral. Do 2.º género são homens como Verlaine, Baudelaire, e outros assim (incluir Maupassant). Do 3.º grupo são os grandes criadores como Milton. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 52. Meu coração tardou. Meu coração Talvez se houvesse amor nunca tardasse; Mas, visto que, se o houve, o houve em vão, Tanto faz que o amor houvesse ou não. Tardou. Antes, de inútil, acabasse. Meu coração postiço e contrafeito Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido, Talvez, num rasgo natural de eleito, Seu próprio ser do nada houvesse feito, E a sua própria essência conseguido. Mas não. Nunca nem eu nem coração Fomos mais que um vestígio de passagem Entre um anseio vão e um sonho vão. Parceiros em prestidigitação, Caímos ambos pelo alçapão. Foi esta a nossa vida e a nossa viagem. 19-9-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 87. Os alcatruzes da nora Os alcatruzes da nora Andam sempre a dar e dar. É para dentro e p’ra fora E não sabem acabar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 41. Paira à tona de água Uma vibração, Há uma vaga mágoa No meu coração. Não é porque a brisa Ou o que quer que seja Faça esta indecisa Vibração que adeja, Nem é porque eu sinta Uma dor qualquer. Minha alma é indistinta Não sabe o que quer. É uma dor serena, Sofre porque vê. Tenho tanta pena! Soubesse eu de quê!... 14-3-1928 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 113. A miséria do meu ser, Do ser que tenho a viver, Tornou-se uma coisa vista. Sou nesta vida um qualquer Que roda fora da pista. Ninguém conhece quem sou Nem eu mesmo me conheço E, se me conheço, esqueço, Porque não vivo onde estou. Rodo, e o meu rodar apresso. É uma carreira invisível, Salvo onde caio e sou visto, Porque cair é sensível Pelo ruído imprevisto... Sou assim. Mas isto é crível? 19-9-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 88. Ó minha menina loura, Ó minha menina loura, Ó minha loura menina, Dize a quem te vê agora Que já foste pequenina... s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 42. Natal... Na província neva. Nos lares aconchegados, Um sentimento conserva Os sentimentos passados. Coração oposto ao mundo, Como a família é verdade! Meu pensamento é profundo, Estou só e sonho saudade. E como é branca de graça A paisagem que não sei, Vista de trás da vidraça Do lar que nunca terei! s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 115. 1ª publ. in Notícias Ilustrado , nº 29. Lisboa: 30-12-1928. We are all children of Christ, through his grandson Rousseau. This is on our mother's side, also, on our father's date back to some clear pagan god from whom our near ancestors degenerated. The mother in us is more than the father. As in a house governed by women, we are outgoverned well. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 53. Vão na onda militar Os soldados a marchar Com a banda a lhes tocar O como têm que andar... Vou na onda que é a vida Com uma banda escondida A tocar como hei-de estar Entre essa marcha perdida. Vou e durmo o meu caminho, Como, no som do moinho, Dorme o moleiro sozinho. Durmo, mas sinto-me andar. 19-9-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 89. Levas uma rosa ao peito Levas uma rosa ao peito E tens um andar que é teu... Antes tivesses o jeito De amar alguém, que sou eu. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 42. Um muro de nuvens densas Põe na base do ocidente Negras roxuras pretensas. Com a noite tudo acaba. O céu frio é transparente. Nada de chuva desaba. E não sei se tenho pena Ou alegria da ausente Chuva e da noite serena De resto, nunca sei nada, Minha alma é a sombra presente De uma presença passada. Meus sentimentos são rastros. Só meu pensamento sente... A noite esfria-se de astros. 1-5-1929 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 116. I A criança que fui chora na estrada. Deixei-a ali quando vim ser quem sou; Mas hoje, vendo que o que sou é nada, Quero ir buscar quem fui onde ficou. Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou A vinda tem a regressão errada. Já não sei de onde vim nem onde estou. De o não saber, minha alma está parada. Se ao menos atingir neste lugar Um alto monte, de onde possa enfim O que esqueci, olhando-o, relembrar, Na ausência, ao menos, saberei de mim, E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar Em mim um pouco de quando era assim. II Dia a dia mudamos para quem Amanhã não veremos. Hora a hora Nosso diverso e sucessivo alguém Desce uma vasta escadaria agora. E uma multidão que desce, sem Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora. Ah, que horrorosa semelhança têm! São um múltiplo mesmo que se ignora. Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo. E a multidão engrossa, alheia a ver-me, Sem que eu perceba de onde vai crescendo. Sinto-os a todos dentro em mim mover-me, E, inúmero, prolixo, vou descendo Até passar por todos e perder-me. III Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço O que sinto que sou? Quem quero ser Mora, distante, onde meu ser esqueço, Parte, remoto, para me não ter. 22-9-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 90. Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar, Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar, Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida, E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida. A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio; O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é; A glória concede e nega; não tem verdades a fé. Por isso na orla morena da praia calada e só, Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó; Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido, E comecei a morrer muito antes de ter vivido. Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe, Não quero nada do acaso, senão a brisa na face; Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei, Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei. Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar, Quero dormir sossegado, sem nada que desejar, Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu, Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu. 10-8-1929 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 118. (dream) Qualquer coisa de obscuro permanece No centro do meu ser. Se me conheço, E até onde, por fim mal, tropeço No que de mim em mim de si se esquece. Aranha absurda que uma teia tece Feita de solidão e de começo Fruste, meu ser anónimo confesso Próprio e em mim mesmo a externa treva desce. Mas, vinda dos vestígios da distância Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente Sob ele, um rasgo de saudade ou ânsia. Remiu-se o pecador impenitente À sombra e cisma. Teve a eterna infância, Em que comigo forma um mesmo ente. 23-9-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 92. Exmo. Sr. Venho dirigir-me a V. Exa. para lhe fazer uma pergunta que talvez não seja das mais agradáveis, mas que, contudo, se me torna necessária e que me é pedida pela minha consciência. Fui baptizado nessa freguesia nessa igreja, - em (...) de Julho de 1888 - tendo nascido em 13 de Junho do mesmo ano. Ora o baptismo subentende, segundo penso, a integração da vítima na Igreja Católica, obriga o indivíduo, quando ainda ente irracional, a fazer parte duma associação demasiado humana com as teorias da qual o seu raciocínio mais viril talvez não queira concordar. Comigo aconteceu isto: a igreja católica, poderosa e estúpida, irracional e decrépita, sustentando a velha hipótese dum Deus criador, eminentemente estúpido e eminentemente mau a julgar pelo (…) 1907 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 54. Bóiam leves, desatentos, Meus pensamentos de mágoa Como, no sono dos ventos, As algas, cabelos lentos Do corpo morto das águas. Bóiam como folhas mortas À tona de águas paradas. São coisas vestindo nadas, Pós remoinhando nas portas Das casas abandonadas. Sono de ser, sem remédio, Vestígio do que não foi, Leve.mágoa, breve tédio, Não sei se pára, se flui; Não sei se existe ou se dói. 4-8-1930 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 120. Sonhei, confuso, e o sono foi disperso, Mas, quando despertei da confusão, Vi que esta vida aqui e este universo Não são mais claros do que os sonhos são. Obscura luz paira onde estou converso A esta realidade da ilusão. Se fecho os olhos, sou de novo imerso Naquelas sombras que há na escuridão. Escuro, escuro, tudo, em sonho ou vida, É a mesma mistura de entre-seres Ou na noite, ou ao dia transferida. Nada é real, nada em seus vãos moveres Pertence a uma forma definida, Rastro visto de coisa só ouvida. 28-9-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 93. Se acaso, alheado até do que sonhei, Me encontro neste mundo a sós comigo, E, fiel ao que eu mesmo desprezei, Meus passos falsos verdadeiros sigo, Desperta em mim, contrário ao que esperei Desta espécie de fuga, ou só abrigo, Não o ajustar-me com a externa lei, Mas o essa lei tomar como castigo. Então, liberto já pela esperança Deste mundo de formas e mudança, Um pouco atinjo pela dor e a fé Outro mundo, em que sonho e vida são Num nada nulo, igual em escuridão, E ao fim de tudo surge o Sol do que é. 28-9-1933 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 94. JULIANO EM ANTIOQUIA Agir, sabendo Que a acção é vil e o esforço nada. Ir para a frente por dever, mas vendo Que não há estrada. Tomar a pôr altares, templos mortos Aos deuses reerguer, sem ignorar Que as almas são de Cristo já, e há outros Homens (...) O esforço inútil feito por dever E o amor à verdade inaceitável, A teimosia estóica em dever ser. Venceste, Galileu. Mas nada prova Da verdade de ti teres vencido. Constantemente o mundo se renova Um dia é o dia do mal (…) 22-5-1919 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 60. Depende do que se entende pela palavra «iniciado». Chama-se iniciação ao entendimento profundo dos símbolos, sendo considerados símbolos, e não lições directas ou factos históricos, os rituais e (...) de todas as religiões. Assim um cabalista não interpreta os «seis dias» da criação do mundo como sendo «dias» no sentido directo; atribui-lhe outro sentido, que não importa qual seja. Assim um cabalista cristão não toma literalmente a narrativa dos Evangelhos; o nascimento de Jesus, e a sua morte, por exemplo, são por ele considerados como exposições simbólicas. Para um cabalista cristão a Segunda Pessoa da Trindade não pôde nascer em Nazaré (Belém). São três os caminhos da iniciação; servir-nos-emos, para os designar, das palavras de Saint-Martin: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. A iniciação fraternitária consiste na entrada do candidato para qualquer Ordem com fins directamente iniciáticos, seja a Maçonaria seja qualquer Ordem superior a ela que não exija a qualificação maçónica. Este tipo de iniciação é o que convém aos espíritos por natureza pouco desenvolvidos, a quem a «cadeia de união», a participação com outros do mesmo simbolismo, é indispensável para abrirem caminho - se de todo lhes não for vedado abri-lo - através dos graus íntimos, em que a iniciação consiste. O caminho da igualdade consiste na entrada do candidato para qualquer religião (...). Há homens que só podem ser indivíduos em sociedade, isto é, cuja vida é essencialmente subordinada, para seu desenvolvimento, ao contacto com a vida alheia. Há outros homens que precisam, como aqueles, da vida alheia para se completarem em si mesmos, porém não precisam da subordinação, senão da simples coexistência. Há ainda outros, mas são raros, para quem a vida alheia é inútil, quando não daninha; que passam no mundo solitários por natureza, e são indivíduos em si mesmos. A nenhum homem, se nele houver a disposição e o destino, a iniciação é vedada. A cada um dos três tipos de homens convém contudo um dos três tipos de iniciação. Os três tipos de iniciação são a iniciação pela Fraternidade, a iniciação pela Igualdade e a iniciação pela Liberdade. Sirvo-me da expressão trinitária de Saint-Martin, mas deve compreender-se que ela nada tem que ver com os falsos usos que mais tarde se fizeram dela, quer tomando-a como lema ou moto de algumas das Maçonarias (com a notável excepção da inglesa, cujo lema é «temer a Deus e honrar o Rei»), quer tomando-a como lema ou moto de coisas puramente profanas, como a Revolução Francesa, os princípios democráticos, ou o que mais seja. A iniciação por Fraternidade convém aos indivíduos espiritualmente pouco desenvolvidos, e em quem o estímulo das faculdades intuitivas não pôde ser dado senão por meios materiais e grosseiros, como, por sua natureza, são os rituais, a cadeia de união, o contacto com outros em templos telhados. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 61. Texto com a indicação «Goethe» O fenómeno religioso é um elemento dissolvente das sociedades. Ou a religião é tradicional, e é um elemento de estagnação, de resistência ao desenvolvimento social; ou é uma religião nova e é uma perturbação social, como o foi o Cristismo no Império Romano. O pior é que a plebe é estruturalmente religiosa, nem pode ser senão religiosa. Por isso a predominância do espírito religioso numa sociedade representa a predominância do espírito popular, a degradação do espírito de aristocracia e escol, pelo qual as sociedades se governam e progridem. Vemos hoje em conflito, por quase todo o mundo, e por isso entre nós também, duas religiões: o Cristianismo, progressivamente regressante ao tipo católico, e o bolchevismo. O bolchevismo (entendendo por bolchevismo o sindicalismo revolucionário e o comunismo, e não só este último) é um fenómeno reaccionário e religioso. Nada tem de propriamente social, nem podia ter, porque, se o tivesse, não o poderiam adoptar as plebes, incapazes de outra coisa que não de religião. É facil provar o carácter reaccionário do bolchevismo, como é facil provar o seu carácter religioso - mais fácil ainda. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 62. A aristocracia tem por norma a arte; a classe média tem por norma a vida social; o povo tem por norma a religião. Pela palavra religião entende-se a crença numa coisa absolutamente indemonstrável - e em geral impossível - que se crê ser a essência e o fim principal da vida. São religiões não só as religiões assim chamadas, mas também as doutrinas radicais todas, e as crenças sinceras na igualdade humana, na justiça, na fraternidade, e em outros mitos igualmente vazios de realidade e de realização. Para que sejam religiões é preciso, porém, acreditar que são realizáveis. Desde que um homem use desses mitos para ganhar a vida, ou para intrujar o povo - como fazem grande numero de chefes operários - deixa de ser da plebe, e passa a ser da classe superior. Faz muito bem. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 63. A religião é um mal necessário. Nenhum país pode viver sem religião, pela simples razão que a religião é a vida superior e (...) da plebe, e nenhum país pode viver sem plebe. que o sociólogo deve buscar é reduzir esse mal necessário às suas mínimas proporções. Essa redução obtém-se da seguinte, fácil, maneira: (1) procurando agir sobre a plebe de modo a que ela tenha a religião menos emocional e (a) menos emocionalmente pregada possível; (2) procurando limitar quanto possível a acção do fenómeno religioso à plebe, e, não só assim limitá-la, mas também dar-lhes as diversas formas precisas, no que aplicável à plebe, às classes médias e à aristocracia; (3) procurando nacionalizar a religião - isto é, fazer com que ela perca o carácter internacionalizado e humanitário, que sempre tende a ter - porque é uma metafísica, no fundo - e criar-lhe alicerces de nacionalismo. Ponhamos o caso para Portugal. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 64. Necessidade de organizar, em Portugal, o que desde já se possa organizar. Começar por destruir os maus elementos, de modo que os bons, que já existam, possam assomar à superfície. A falta de consciência nacional através de um misticismo de raça, é o pior que temos hoje. Elevar Portugal aos olhos do estrangeiro. Feito isto, tornar-se-á mais difícil pôr insignificantes no poder. …… Organização do sebastianismo, como única força nacional que hoje existe, se bem que dispersa e inutilizada. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 65. Se, como sociólogos, sabemos que qualquer civilização precisa de uma fé para viver, igualmente, como sociólogos, vemos que a fé cristã não é - ela mesma decadente - a que deve existir hoje. A sua decadência o indica. Portanto, fazemos trabalho salutar destruindo-a. Os povos construirão a fé que se lhe seguirá. D'isso não curemos nós; é difícil, senão impossível, antecipar qual a nova crença que uma sociedade adoptará, porque o indivíduo não pode abarcar o pensamento social senão limitada e com clareza, apenas negativamente. O papel individual é destruir; o papel social é construir. Ataquemos pois o que sabemos velho, podre e decadente. A sociedade edificará depois o que haverá de lhe seguir. Destruir implica, socialmente, construir. Destruindo o velho, damos lugar ao novo, seja ele o que for. - É por isso que, sabendo nós que, actualmente, o c[ristianismo] é o velho, o decadente, a esterilidade e o inutil - nós, conquanto não saibamos claramente, nem nitidamente prevejamos o que se lhe seguirá, temos ainda assim a consciência de que, atacando o c[ristianismo] trabalhamos pela nova fé; que desviando [?] e tirando os escombros, preparamos o terreno para o edificio novo; que, arrancando as plantas que degeneraram em bravias, nós deixamos o lugar livre para a semente que germinará em planta, para, no fim, degenerar também em erva daninha, e ser arrancada por outros, para que outras plantas jovens nasçam, e assim indefinidamente e incompreensivelmente no suceder-se dos séculos, e em favor do mistério infinito. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 66. Indicação preliminar: «Epílogo ao Jeschú ben Pandira». Fui sempre, e através de quantas flutuações houvesse, por hesitação de inteligência crítica, em meu espírito, nacionalista e liberal: nacionalista - quer dizer, crente no País como alma e não como simples nação; e liberal - quer dizer, crente na existência, de origem divina, da alma humana, e da inviolabilidade da sua consciência, em si mesma e em suas manifestações. Por isso me foram sempre origem de repugnância e asco todas as formas do internacionalismo, que são três: a Igreja de Roma, a finança internacional e o comunismo. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 67. Nem o Sr. Presidente do Conselho nem o Sr. Ministro das Colónias costumam escrever imprecisamente. Deparo porém [com] uma frase, usada de ambos e mais frequentemente do segundo, que padece de imprecisão. É a frase «civilização cristã». Trata-se do tipo de civilização que se diz que foi um dos elementos que imperialmente expandimos, e que, presumo, deveremos continuar a expandir imperialmente. O emprego de idêntica expressão para o passado e futuro do Império induz, desde logo, numa primeira confusão. A especie de fé que originariamente expandimos foi, não a cristã em geral, mas a católica em particular. Desde logo se deve concluir que a expansão do catolicismo continua a ser hoje uma das nossas missões imperiais. Sucede, porém, que nem as circunstâncias gerais da Europa, nem as nossas em particular, são as mesmas do que quando fizemos, e sobretudo quando iniciámos, os nossos descobrimentos e conquistas. Naquele tempo, primeiro na generalidade da Europa, depois na particularidade, não só nossa mas da maioria dos países, catolicismo e cristianismo estavam consubstanciados, e com eles consubstanciada a rede de actividades a que chamamos civilização. Uma missão civilizacional podia pois considerar-se como naturalmente incluente (incluindo) uma dilatação do catolicismo. Hoje não é assim, nem na Europa em geral, nem em Portugal em particular. Não só a fé cristã está em muitas partes e em muitas almas fortemente abalada, e por vezes abolida e encarada hostilmente, mas onde existe se encontra (não falando já na Igreja Grega) dividida entre o catolicismo, de uma parte, e numerosas espécies de protestantismo, da outra, desde a Igreja de Inglaterra até às extremas esquerdas - os Quakers, os Cientistas Cristãos e os Unitários. Cessou, pois a consubstanciação entre civilização e catolicismo, por isso mesmo que cessou entre cristianismo e civilização. Se, porém, por civilização cristã se entende a civilização europeia, criada e desenvolvida por países que viveram longos séculos de cristianismo, a designação é mais aceitável. Trata-se de uma designação histórica, que não religiosa, e menos ainda civilizacional. Se, porém, se quer dar um nome verdadeiramente histórico, baseado num conceito de origem, à nossa civilização, então será mais claro, mais certo, mais profundo chamar-lhe civilização greco-romana. Lembremo-nos sempre do dito célebre de Sumner Maine: «Excepto as forças cegas da Natureza, tudo quanto neste mundo se move é grego em sua origem.» E através de Roma, enquadrado, apertado, agregada a experiência romana ao pensamento grego, nos veio a cultura grega, substância da nossa civilização. O próprio cristianismo nada teria sido se por trás dele não tivesse estado, insuflando vida e alma aos elementos orientais (hebreus e outros), o ocultismo da Grécia, que formou parte dos textos sagrados, e designadamente os dois escritos atribuídos a S. João e as Epístolas de S. Paulo, fundador social do cristianismo; a metafísica da Grécia, que formou inteiramente o pensamento dos Padres e dos teólogos; o imperialismo romano, que converteu em religião social e depois universal, o que não era mais, no princípio, que um sistema de Mistérios, análogos em género, quando não em espécie, aos mistérios pagãos, como os de Eleusis, e análogos em tipo, quando não em conteúdo, aos da Maçonaria e das Ordens super-maçónicas. Acho pois historicamente justo e sociologicamente mais certo chamar àquela civilização que andámos espalhando, e que deveremos continuar a espalhar, a civilização greco-romana. E, do ponto de vista político, no baixo sentido da palavra, evitar-se-iam confusões que nem a todos aproveitam. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 68. (1) A civilização, a que chamamos europeia, e que é hoje a civilização propriamente dita - pois por ideias e fórmulas europeias se guia, e em acções e motivos europeus tem origem, a civilização das regiões fora de Europa - assenta em quatro princípios, que constituem a sua essência ou individualidade.Não há que perguntar se esses princípios são bons ou maus, aperfeiçoáveis ou inaperfeiçoáveis. O que constitui a essência de uma coisa é aquilo que, retirado a essa coisa, a mesma coisa desaparece. Podemos lamentar, se quisermos, que o passado assim nos formasse, como podemos lamentar, se quisermos, que nascêssemos com a estatura ou as feições que temos; porém a nossa lamentação não pode constituir um desejo, nem informar um propósito. O que somos somos; o que seremos terá que sair do que somos, que não do que poderíamos - se o pudéssemos - ter sido. Quatro são, disse, as bases em que assenta a civilização europeia, quatro os princípios que constituem a sua individualidade ou essência. São eles a Cultura Grega, a Ordem Romana, a Moral Cristã, e a Política Inglesa. Não temos que ver se esses princípios nos são agradáveis, a cada um de nós pessoalmente, ou se nos não são agradáveis. Temos que saber que são e o que são. Nem temos que servir-nos da razão estulta - que, porque é estulta, não é razão, - de que não somos cristãos, ou não somos ingleses; pela mesma razão repudiaríamos o que nos deram a Grécia Antiga e a antiga Roma, pois nenhum de nós hoje é grego da antiguidade ou romano da Roma extinta. É a civilização construída por uma série de criações, cada uma das quais, por uma razão de ambiente próprio e circunstâncias históricas propícias, particularmente compete a determinada nação. Pretender repudiar um princípio formador de civilização porque seja alheio à nossa indole, ou quer dizer que repudiamos a mesma ideia de civilização, que envolve transformação e portanto alteração de «índoles», ou que julgamos a nossa nação apta a produzir em si mesma a civilização inteira, conceito que pode surgir só no cérebro de um megalómano patriótico. Por Cultura Grega entende-se, essencialmente, o racionalismo. O que distinguiu os gregos antigos dos outros povos foi o culto da Razão, da Crítica (com justiça se disse que os gregos criaram o Espírito Crítico), ou, como desde Comte se diria, do Livre Exame. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 69. IV MINUETE INVISÍVEL Elas são vaporosas, Pálidas sombras, as rosas Nadas da hora lunar.. Vêm, aéreas, dançar Com perfumes soltos Entre os canteiros e os buxos... Chora no som dos repuxos O ritmo que há nos seus vultos... Passam e agitam a brisa... Pálida, a pompa indecisa Da sua flébil demora Paira em auréola à hora... Passam nos ritmos da sombra... Ora é uma folha que tomba, Ora uma brisa que treme Sua leveza solene... E assim vão indo, delindo Seu perfil único e lindo, Seu vulto feito de todas, Nas alamedas, em rodas, No jardim lívido e frio... Passam sozinhas, a fio, Como um fumo indo, a rarear, Pelo ar longínquo e vazio, Sob o, disperso pelo ar, Pálido pálio lunar... s. d. «Ficções do Interlúdio». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 72. 1ª publ. in Portugal Futurista , nº 1. Lisboa: 1917. V HIEMAL Baladas de uma outra terra, aliadas Às saudades das fadas, amadas por gnomos idos, Retinem lívidas ainda aos ouvidos Dos luares das altas noites aladas... Pelos canais barcas erradas Segredam-se rumos descridos... E tresloucadas ou casadas com o som das baladas, As fadas são belas, e as estrelas São delas... Ei-las alheadas... E são fumos os rumos das barcas sonhadas, Nos canais fatais iguais de erradas, As barcas parcas das fadas, Das fadas aladas e hiemais E caladas... Toadas afastadas, irreais, de baladas... Ais... s. d. «Ficções do Interlúdio». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 73. 1ª publ. in Portugal Futurista , nº 1. Lisboa: 1917. Passa entre as sombras de arvoredo Um vago vento que parece Que não passou, que passa a medo, Ou que há porque desaparece. O ouvido escuta o não-ouvir, A alma, no ouvido debruçada, Sente uma angústia a não sentir E quer melhor ou pior que nada. É como quando a alma não tem Quem ame, quem espere ou quem sinta, Quando considera(ra) um bem O próprio mal, des[de] que não minta. E entre onde as sombras do arvoredo Sequestram sons e brisas prendem, Este não passar passa a medo E certas folhas se desprendem. Então porque há folhas que caem, Volta a ilusão de haver o vento, Mas elas, caindo hirtas, traem, Que não há brisa no momento. Oh, som sozinho dessa queda Das folhas secas no ermo chão, Oh, som de nunca usada seda Apertada na inútil mão, Com que terrível semelhança A qualquer voz feita em bruxedo, Lembrais a morte e a desesperança, E o que não passa passa a medo. 18-10-1930 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 52. Não sei, ama, onde era, Nunca o saberei... Sei que era Primavera E o jardim do rei... (Filha, quem o soubera!...). Que azul tão azul tinha Ali o azul do céu! Se eu não era a rainha, Porque era tudo meu? (Filha, quem o adivinha?). E o jardim tinha flores De que não me sei lembrar... Flores de tantas cores... Penso e fico a chorar... (Filha, os sonhos são dores...). Qualquer dia viria Qualquer coisa a fazer Toda aquela alegria Mais alegria nascer (Filha, o resto é morrer...). Conta-me contos, ama... Todos os contos são Esse dia, e jardim e a dama Que eu fui nessa solidão... 23-5-1916 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 77. Pessoa Apelido nobre, que veio da Alemanha para Portugal, mas não se sabe quem o trouxe. As suas armas são: Em campo azul, seis crescentes de ouro, em duas palas, orla de negro, filetada de ouro e carregada de sete estrelas de prata, de cinco pontas, ficando três em chefe; elmo d'aço, aberto; por timbre um cometa, de prata, de cinco pontas, ficando com a cauda sobre o elmo. - Outros do mesmo appel[ido] trazem por armas: Em campo azul, seis crescentes de ouro em duas palas, orla azul, carregada de oito estrelas, de prata, de seis pontas. O mesmo elmo e timbre. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 55. Na orla do vento movem Seus corpos mortos as folhas. E ora das árvores chovem, Ora onde inertes não movem A chuva do Outono molha-as. Não há no meu pensamento Vontade com que o pensar, Não tenho neste momento Nada no meu pensamento: Sou como as folhas ao ar Mas elas certo não sentem Esta mágoa inteira e funda Que meus sentidos consentem. Nada são e nada sentem Da minha mágoa profunda. 19-1-1931 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 54. Há no firmamento Um frio lunar. Um vento nevoento Vem de ver o mar. Quase maresia A hora interroga, E uma angústia fria Indistinta voga. Não sei o que faça, Não sei o que penso, O frio não passa E o tédio é imenso. Não tenho sentido, Alma ou intenção... Estou no meu olvido... Dorme, coração... 11-3-1917 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 79. Cai amplo o frio e eu durmo na tardança De adormecer. Sou, sem lar, nem conforto, nem esperança, Nem desejo de os ter. E um choro por meu ser me inunda A imaginação. Saudade vaga, anónima, profunda, Náusea da indecisão. Frio do Inverno duro, não te tira Agasalho ou amor. Dentro em meus ossos teu tremor delira. Cessa, seja eu quem for! 19-1-1931 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 55. Súbita mão de algum fantasma oculto Entre as dobras da noite e do meu sono Sacode-me e eu acordo, e no abandono Da noite não enxergo gesto ou vulto. Mas um terror antigo, que insepulto Trago no coração, como de um trono Desce e se afirma meu senhor e dono Sem ordem, sem meneio e sem insulto. E eu sinto a minha vida de repente Presa por uma corda de Inconsciente A qualquer mão nocturna que me guia. Sinto que sou ninguém salvo uma sombra De um vulto que não vejo e que me assombra, E em nada existo como a treva fria. 14-3-1917 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 81. No chão do céu o Sol que acaba arde. Durmo. Haja a vida com ou sem alarde, Será já tarde quando eu despertar? Mas que me importa que já seja tarde? 12-3-1931 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 56. O sol às casas, como a montes, Vagamente doura. Na cidade sem horizontes Uma tristeza loura. Com a sombra da tarde desce E um pouco dói Porque quanto é tarde Tudo quanto foi. Nesta hora mais que em outra choro O que perdi. Em cinza e ouro o rememoro E nunca o vi. Felicidade por nascer, Mágoa a acabar, Ânsia de só aquilo ser Que há-de ficar — Sussurro sem que se ouça, palma Da isenção. Ó tarde, fica noite, e alma Tenha perdão. 25-12-1918 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 83. Sonhei. Desperto. Um tédio doloroso De ter sonhado, ou então de despertar, Me ocupa o espírito indeciso e ocioso. Sou como o movimento do alto mar, Que parece existir sem avançar. Não me lembro qual foi o sonho ido, Nem se portanto a sua ausência dói. Grandes e vagas coisas hei dormido. Sou como o alto mar quando o Sol foi: Uma novela imensa sem herói. Nem mesmo sei se o sonho deixa mágoas. Que sei eu do que sou ou quero ter? Sou como o alto mar da noite: as águas No mesmo movimento a ter que ser, Um som, um brilho escuro, arrefecer... 13-3-1931 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 57. JULIANO EM ANTIOQUIA O poema simboliza a alma elevada que, num tempo de decadência, luta inutilmente, procura infrutiferamente entravar a corrupção e a degenerescência gerais. O tema (que deve envolver, à parte este ponto central, outros pontos acessórios) é a estada de Juliano na cidade cristã e corrupta de Antiochia, e escolhe para base um momento em que o Imperador sente bem a diferença moral entre si e os que o cercam e a diferença de força entre a sua personalidade isolada e a inteira estrutura decadente da sociedade que o cerca e que ele «governa». No tratamento do tema deve vir penumbrado o fim de Juliano. Quem governa mais longe que só os gestos? Quem pode mandar mais do que o Destino? Mithras, meu pai, (...) Regente inútil de um império extinto, Portador de um cadáver sobre mim, Minha vontade morre no precinto Da minh'alma, sem alma alguma afim. Meus decretos são água tal qual um Homem só a consegue arremessar Sobre o incêndio de um país. Nenhum Salva o que a si se não pode salvar. Minha voz em nenhuma alma calha, Meu trabalho por nada e vil trabalha, Passeio o esforço meu entre desastres. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 56. Poema com a indicação «Legendas» Onde pus a esperança, as rosas Murcharam logo. Na casa, onde fui habitar, O jardim, que eu amei por ser Ali o melhor lugar, E por quem essa casa amei — Decerto o achei, E, quando o tive, sem razão para o ter Onde pus a afeição, secou A fonte logo. Da floresta, que fui buscar Por essa fonte ali tecer Seu canto de rezar — Quando na sombra penetrei, Só o lugar achei Da fonte seca, inútil de se ter. Para quê, pois, afeição, esperança, Se perco, logo Que as uso, a causa para as usar, Se tê-las sabe a não as ter? Crer ou amar — Até à raiz, do peito onde alberguei Tais sonhos e os gozei, O vento arranque e leve onde quiser E eu os não possa achar! 16-2-1920 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 85. Quando é que o cativeiro Acabará em mim, E, próprio dianteiro, Avançarei enfim? Quando é que me desato Dos laços que me dei? Quando serei um facto? Quando é que me serei? Quando, ao virar da esquina De qualquer dia meu, Me acharei alma digna Da alma que Deus me deu? Quando é que será quando? Não sei. E até então Viverei perguntando: Perguntarei em vão. 13-3-1931 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 58. Ah, quanta vez, na hora suave Em que me esqueço, Vejo passar um voo de ave E me entristeço! Porque é ligeiro, leve, certo No ar de amavio? Porque vai sob o céu aberto Sem um desvio? Porque ter asas simboliza A liberdade Que a vida nega e a alma precisa? Sei que me invade Um horror de me ter que cobre Como uma cheia Meu coração, e entorna sobre Minha alma alheia Um desejo, não de ser ave, Mas de poder Ter não sei quê do voo suave Dentro em meu ser. 5-8-1921 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 87. No fundo do pensamento Tenho por sono um cantar, Um cantar velado e lento, Sem palavras a falar. Se eu o pudesse tornar Em palavras de dizer Todos haviam de achar O que ele está a esconder Todos haviam de ter No fundo do pensamento A novidade de haver Um cantar velado e lento. E cada um, desatento Da vida que tem que achar Teria o contentamento De ouvir esse meu cantar. 17-3-1931 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 59. Feliz dia para quem é O igual do dia, E no exterior azul que vê Simples confia! O azul do céu faz pena a quem Não pode ser Na alma um azul do céu também Com que viver Ah, e se o verde com que estão Os montes quedos Pudesse haver no coração E em seus segredos! Mas vejo quem devia estar Igual do dia Insciente e sem querer passar. Ah, a ironia De só sentir a terra e o céu Tão belos ser Quem de si sente que perdeu A alma para os ter! 5-8-1921 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 89. Não tenho quinta nenhuma. Se a quero ter pra sonhar, Tenho que a extrair da bruma Do meu mole meditar. E então, desfazendo a névoa Que há sempre dentro de nós, Progressivamente elevo-a Até uma quinta a sós. Vejo os tanques, vejo as calhas Por onde a água vai pequena, Vejo os caminhos com falhas, Vejo a eira erma e serena. E, contente deste nada Que em mim mesmo faço externo, Gozo a frescura relvada Da não-quinta em que me interno. Vilegiatura impossível, Dou-lhe nós para lembrar, E esqueço-a ao primeiro nível Do meu mole meditar. 30-3-1931 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 60. No entardecer da terra O sopro do longo Outono Amareleceu o chão. Um vago vento erra, Como um sonho mau num sono, Na lívida solidão. Soergue as folhas, e pousa As folhas, e volve, e revolve, E esvai-se inda outra vez. Mas a folha não repousa, E o vento lívido volve E expira na lividez. Eu já não sou quem era; O que eu sonhei, morri-o; E até do que hoje sou Amanhã direi, quem dera volver a sê-lo! ... Mais frio O vento vago voltou. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 91. 1ª publ. in Ilustração Portuguesa , 2ª série, nº 83. Lisboa: 28-1-1922. Passa uma nuvem pelo sol Passa uma pena por quem vê. A alma é como um girassol: Vira-se ao que não está ao pé. Passou a nuvem; o sol volta. A alegria girassolou. Pendão latente de revolta, Que hora maligna te enrolou? 14-8-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 153. Ó Juliano Apóstata, que laço É esse que me prende a quem tu foste, Imperador sombrio e calmo, quem É que em nós ambos é o mesmo alguém? Porque sinto eu teu gesto no meu braço Na m[inha] vida tua morte. Quem foste tu, que hoje me sabes tanto A eu ter sido tu. Porque é que lembro Teu vulto sério, o mando teu augusto, Teu peito de alma, calmo e (...) e justo, Como o por Maio a Junho estéril pranto Quando é Dezembro? Imperador aceite pelas gentes Do teu império em gritos [?] de te querer, Sóbrio, vergado sobre os livros, (...) Agora, renascido, Quero outra vez erguer os deuses mortos. 3-6-1916? Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 57. Guardo ainda, como um pasmo Em que a infância sobrevive, Metade do entusiasmo Que tenho porque já tive. Quase às vezes me envergonho De crer tanto em que não creio. É uma espécie de sonho Com a realidade ao meio. Girassol do falso agrado Em torno do centro mudo Fala, amarelo, pasmado Do negro centro que é tudo. 18-4-1931 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 62. Se penso mais que um momento Na vida que eis a passar, Sou para o meu pensamento Um cadáver a esperar. Dentro em breve (poucos anos É quanto vive quem vive), Eu, anseios e enganos, Eu, quanto tive ou não tive, Deixarei de ser visível Na terra onde dá o Sol, E, ou desfeito e insensível, Ou ébrio de outro arrebol, Terei perdido, suponho, O contacto quente e humano Com a terra, com o sonho, Com mês a mês e ano a ano. Por mais que o Sol doire a face Dos dias, o espaço mudo Lembra-nos que isso é disfarce E que é a noite que é tudo 1-5-1931 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 63. Tece, amor, as grinaldas com que queres Coroar o amor que nem sabemos ter, Com brancas mãos em lento movimento De papoulas e pobres malmequeres... Tece-as para que ao menos o momento Em que as teces nos possa pertencer. Se para coroar o amor as teces Pensas no amor tecendo-as, e assim amas; Se vendo-te, em ti vejo que o conheces Amo contigo o amor em que tu pensas. E um momento o amor queima as suas chamas Na ara das nossas almas já pretensas. Mas se a grinalda é feita, o amor cessou. Se é preciso entre nós o gesto e o gozo Nunca o pensado amor levanta o voo. Nunca da nossa noite de sentir Raiou o sol do acto, e o olhar cobiçou Uma coisa real que vá fruir. No sonho do que nunca pode haver Entre nós, porque há em nós o pensamento, Gastamos o desejo sem o ter. A taça cai do gesto mal seguro Porque pensamos em beber, e o intento Cansa o braço, e é entornado o néctar puro. Viemos, meu amor, no fim da tarde. O que há de sol é o que resta acima Dos montes, poesia baça e sonho que arde, E só pura saudade os céus anima. O nosso olhar não ousa olhar o outro. Outros tiveram por seu tempo o dia Gozaram outros quando o sol era alto, A vergonha que há em nós de sua orgia É a vergonha de nós a não ousarmos. Nós pensamos no amor em sobressalto E para amarmos só nos falta amarmos. Os deuses foram-se, e consigo foi A clareza de alma para (com) a vida. O que ontem era o gozo, é o que hoje dói. O que ontem era a coisa possuída É hoje só a coisa apetecida, Ainda desejada e não ousada. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 39. A doutrina rosacruciana afirma uma dualidade activa de Deus - a sua emissão ou emanação, que é a Força, e a sua retirada (retrait) ou imanação, que é a Matéria. A primeira parte do acto divino, a acção, está neste nosso mundo final representada pelo Homem; a segunda, ou desacção, pela Mulher. Os próprios órgãos sexuaes de um e de outro indicam, por assim dizer, graficamente, esse íntimo sentido. Primitivamente, Homem e Mulher eram um só, na perfeita imagem e semelhança de Deus que, ainda in posse como criador, continha em si as duas naturezas, pois, se as não contivesse, as não poderia desenvolver in acto. «Retirada» a mulher do homem, à imagem e semelhança da «retirada» de Deus do mundo, seguiu-se este mundo que temos, à imagem e semelhança da dualidade activa de Deus. Para que o adepto possa realizar em si, pois tal é o seu mister, a dualidade activa de Deus, é preciso, primeiro, que seja homem, pois a emissão é a primeira condição activa de Deus. É preciso, porém, que em seguida se torne mulher, o que só pode fazer «retirando-se» de ser homem, tornando passivo o que nele se destinara a ser activo. De aí a exigência rosacruciana, não da simples castidade, que é uma «retirada» temporaria ou condicional, e portanto relativa, mas da virgindade, que é a «retirada» absoluta, idêntica, pois, enquanto absoluta, à «retirada» divina. (Acresce, vindo ao mundo físico, que a castidade masculina, sendo completa, como deve ser, compele o sémen formado a recolher, a ser reintegrado pelo corpo, entrando para o sangue. E d'este modo o indivíduo, por assim dizer, se fecunda a si mesmo, sendo, interiormente, a sua própria mulher. Isto é, porém, o simples reflexo no mundo físico…) A Força, emissão de Deus, ou Deus emisso, é representada pelo símbolo fálico, ou seja uma vertical: |. A Matéria, imissão de Deus, é representada pelo sinal contrário, uma horizontal: —. A conjugação das duas, que é Deus na sua manifestação mundana total, é pois, ou a chamada cruz cósmica, +, em por serem iguais as linhas, os quatro braços são iguais; ou o chamado Tau,  , em que as duas linhas devem ser iguais também. A primeira representa o mundo físico na sua generalidade, a segunda o mundo físico na sua particularidade humana, isto é, sexual -não a união, mas a junção, das duas naturezas. As duas linhas, de qualquer dos dois modos unidas, representam, porém, a natureza abstracta do mundo e da humanidade - a Força e a Matéria, o Homem e a Mulher, em sua simples existência e potencialidade. A sua união ou junção activa e fecunda não está ali figurada. Para isso adopta-se um segundo símbolo de Mulher, um símbolo «aberto», cuja razão de ser não carece de explicação. Esse símbolo é o disco ou círculo: O. De aqui partem novos símbolos. O primeiro, indicando a fecundação abstracta e absoluta, é o disco ou círculo com um ponto no meio, ou seja a indicação visível do «centro», ou razão de ser, do círculo: ¤ . É este, simultaneamente, um símbolo fálico, sendo o falo erecto visto de frente. Por essas duas razões se representa o Sol por este símbolo; o Sol é, ao mesmo tempo, o Espaço fecundado, feito vida, o corpo, ou a matéria ou «mulher» de Deus, e o Fecundador, ou «homem» da Terra. Quando se quer representar a Natureza em sua fecundidade, inscreve-se o sinal total do Mundo dentro do círculo, formando o símbolo e, com que naturalmente se designa a Terra. É a fecundidade unindo, cercando, guardando os dois princípios. E quando se quer representar distintivamente a união fecunda dos princópios masculino e feminino, o círculo sobrepõe-se ao Tau, formando o símbolo t , sinal muito usado dos egípcios, cuja Trindade é uma trindade de fecundidade, visto que a formam Pai (Osiris), Mãe (Isis) e Filho (Horus). Neste Tau coroado está todo o mistério da geração dos seres. Até aqui temos estado no âmbito, ou na região, do que podemos chamar a Natureza e a religião natural - a manifestação mundana de Deus. Desde que porém, lembrados por intuição, ou informados por iniciação, da sua origem divina e dos modos de essa origem, entre os homens surja o desejo de regressar a Deus e com ele se […], os homens tendem para Deus como Deus tendeu para o Mundo (que a mesma tendência criou), mas tendem em sentido inverso pois que o caminho e sentido do regresso é o da («retirada» ou imissão de Deus, e não o da sua emissão. Seremos deveras semelhantes a Deus, mas com pólos inversos, pois reproduzimos em nós masculinamente a parte feminina de Deus. O nosso caminho masculino será o caminho feminino de Deus. Intensificaremos o elemento masculino da vida, mas em sentido inverso, anti-fálico. E, como a linha fálica, ou masculina, |, se entende, por uma razão evidente, feita de baixo e para cima - e não como, ao escrever, por conveniência a traçamos -, construiremos o símbolo místico, anti-natural, prolongando para baixo a linha masculina, e fa-lo-emos, pelo mesmo motivo de anti-naturalidade, outro tanto quanto tinha para baixo, igual nisso a qualquer dos outros três braços da cruz cósmica. O símbolo místico ficará:  , que é o que vulgarmente se chama a Cruz Cristã ou Cruz do Calvário. Esta Cruz significa, pois, o mundo em divi-nização, ou o caminho de Deus, ou seja a Redenção. Se agora quisermos integrar na cruz mística, para que nada nela falte, o segundo símbolo feminino, o círculo, não o poderemos colocar senão ao centro da Cruz, como se nela estivesse crucificado; pois a Cruz mística nem é de braços iguais, para que o círculo se lhe possa circunscrever, nem é fechada em cima, como o Tau, para que se lhe possa sobrepor. O segundo símbolo místico será pois: Å. Da simples colocação do círculo resulta que dentro dele ficou uma cruz cósmica, de quatro braços iguais. Quer isto dizer, ao mesmo tempo, que o círculo fica «partido» e que a Terra fica «crucificada». Quer isto dizer que o caminho místico envolve a «quebra» de quanto em nós é tendencialmente «fecundo», e a «crucifixão» de quanto em nós o é realmente. O que em nós é tendencialmente fecundo é a nossa natureza sexual, que pode ser quebrada, isto é, inteiramente repudiada. O que em nós é realmente fecundo é a nossa natureza carnal - a que envolve a necessidade de comer, de dormir, e de outras coisas, da Carne (naturais), do Mundo (sociais), ou do Diabo (artificiais), que não podemos inteiramente repudiar, mas somente limitar. Assim o místico, em sua via divina, repudia, «quebra», a sua sexualidade; comprime, faz sofrer, «crucifica», a sua carnalidade. Por isso os votos místicos fundamentais são os de castidade e c natureza carnal - a que, como alguns, com melhor precisão, têm por hábito dizer. O chamado «terceiro voto», o de obediência, é puramente acidental, existindo só quando o místico está integrado numa Ordem qualquer, e só relativamente a essa Ordem. Não existe, nem poderia existir, para aqueles místicos e adeptos cuja iniciação lhes vem directamente dos Mestres. Está claro que é este o símbolo na sua aplicação ao místico individual. No seu entendimento universal, indica, como é de ver, uma maior amplitude da ideia de Redenção, uma mais perfeita simbolização do Cristo. O que no homem é a sua natureza sexual e carnal é no Cristo a vida, sua natural «mulher», que Ele «quebra» ou repudia, elegendo a Morte como verdadeira Vida; e a Natureza, seu natural «corpo», que ele «crucifica» ou faz sofrer, elegendo a dor por sua natureza verdadeira. Quando o místico atinge o nível de repudiar em si o desejo à vida, de fazer sofrer em si tudo quanto o liga à Natureza, quando tanto o amor como a beleza para ele e nele morreram, identifica-se com Cristo, ascende ao que se chama a União com Cristo - termo da iniciação, começo da vida divina, o que se chama em certa linguagem o Grau de Mestre do Templo. O círculo está «quebrado», e quebrado em cinco elementos, que são as quatro linhas e o centro, seu ponto de encontro ou confluência - os quatro elementos e a Alma; as quatro letras do nome divino e o Shin, letra do Espírito; os quatro lados do quadrado da perfeição e a Diagonal que os nega. Por isso se achou melhor figurar estes cinco elementos do ser quebrado por qualquer símbolo que distintivamente os apresentasse e os revelasse cinco com mais clareza que a contagem, necessariamente abstrusa e aparentemente forçada, das quatro linhas e do centro em que confluem. E assim, e para tal efeito, se figurou o círculo crucificado como tendo a forma de cinco semicírculos de um círculo de metade do original, assim: P . O sinal da Terra está «crucificado» - da Terra, que é a cor e a beleza, e que com seus próprios elementos se crucificou, pois os braços da Cruz do Calvário são extensões dos da Cruz Cósmica que está contida no símbolo da Terra. E assim se veio a conceber esse símbolo de cinco elementos, ou pétalas, como sendo a Rosa, por ser esta flor o sinal externo da Beleza, e ainda o do Silêncio que está no centro da Beleza, e por ser a flor que contém em si os elementos do martírio ou sofrimento, que são os espinhos - elemento que não há em nenhuma outra flor das que possam simbolizar a Beleza. E por isso Àquele que foi a Rosa Crucificada, e em Si crucificou a Rosa, se impôs, em seu martírio, uma Coroa de Espinhos. E por isto se entende que esse elemento de cinco partes, que está crucificado e quebrado, é uma Rosa; e o símbolo cristão completo e final é o símbolo da Rosa-Cruz. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 40. PEDROUÇOS Quando eu era pequeno não sabia Que cresceria. Pelo menos não o sentia. Naquela idade o tempo não existe. Cada dia é a mesma mesa Com o mesmo quintal ao fundo; E quando se sente tristeza Está tristeza, mas não se está triste. Eu era assim E todas as crianças d'este mundo Assim foram antes de mim. O quintal grande estava dividido Por uma frágil grade, alta, de tiras Cruzadas, de madeirinhas, Em horta e em jardim. Meu coração anda esquecido, Mas não minha visão. De ela não tires Tempo, esse quadro onde o feliz que eu fui Dá-me uma felicidade ainda minha! Inútil o teu frio curso flui Para quem das lembranças se acarinha. 22-10-1935 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 42. Em tempos quis o mundo inteiro. Era criança e havia amar. Hoje sou lúcido e estrangeiro. (Acabarei por não pensar.) A quem o mundo não bastava, (Porque depois não bastaria) E a alma era um céu, e havia lava Dos vulcões do que eu não sabia, Basta hoje o dia não ser feio, Haver brisa que em sombras flui, Nem se perder de todo o enleio De ter sido quem nunca fui. 28-5-1930 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 43. Outrora No crepúsculo do Império, Eu, Julião o Apóstata, mandei Os templos dos meus Deuses reerguer. Não é era minha a Hora. Tua era, ó Cristo, e (…) 3-6-1916? Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 58. Regra de vida O homem de génio é um mero depositário do seu génio. Todo o seu esforço deve ser utilizá-lo, preparar-se para utilizá-lo. Se o não fizer, graves contas prestará - não sei se a Deus - com certeza a si-próprio futuro. 27-2-1914 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 44. Toda a revolução é essencialmente inútil. O indivíduo é um produto de dois factores - a hereditariedade e o meio. Dois indivíduos nascidos no mesmo meio são diferentes pela hereditariedade (pois, mesmo que sejam irmãos, há na hereditariedade o factor chamado «variação») e são semelhantes pelo meio. Todo o agrupamento formado em determinado meio - como é formado pela aproximação dos indivíduos seus componentes, e esses indivíduos se aproximam e se entendem por o que há neles de comum, que é o que neles é produto do meio - é pois um reflexo desse meio. O agrupamento que faz uma revolução tem pois a mesma mentalidade e o mesmo carácter que o agrupamento que essa revolução derruba e substitui. Uma revolução pode pois definir-se «um modo violento de deixar tudo na mesma». Como, pois, se reforma uma sociedade? É simples: por um movimento não colectivo, isto é, por um impulso puramente individual. Há dois tipos de indivíduo em que a influência do meio é subordinada à da hereditariedade: são as duas variações extremas chamadas o louco e o génio - variações, aliás, aparentadas, pois o génio, seja o que for socialmente, é biologicamente loucura. Não há reforma social que não parta de um homem de génio. D'esse homem de génio passa para uma pequena minoria, desse pequena minoria para uma minoria maior, até que alastra para a sociedade inteira. Não é, pois, inteiramente absurdo o conceito «providencialista» da vida das sociedades: a civilização é obra de homens de génio, (...) s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 45. A psicologia de qualquer ente humano, como de qualquer agrupamento deve orientar-se no facto seguinte: de que cada espírito, pessoal ou colectivo, tem duas vidas e um aspecto geral proveniente da síntese dessas vidas: a vida que vive para si, a vida que vive para os outros e o modo como estas duas se relacionam, distinguem, penetram ou (...) na formação do indivíduo psíquico. Há em todo o homem - e em toda a sociedade - um instinto materialista e um instinto idealista, interior. Quem passeia, quem passa a vida mesmo entre portugueses, alemães, ingleses - fechando-se para a sua literatura popular ou elevada - não poderá nunca compreender ou conhecer isto, que é um facto certo - de que em cada português, alemão, inglês há, mas não visivelmente e para o exterior, aquele sent[iment]o que um Camões, um Goethe, um Shakespeare traz a público. Os homens de génio são os representantes dessa alma íntima dos povos; falam alto o que a si mesma a dispersa alma nacional segreda no divino silêncio do ser. Dado pois que a literatura nada mais é que a voz do subconsciente nacional, oralizado em certos e determinados indivíduos que a natureza investe - por que obscuras leis sociológicas não sabemos ainda - de poder representativo; dado isto, (...) O génio militar, o génio científico não podem ser pois representativos; não são funções da actividade interior, mas do exterior, ou na sociedade (...). Nem, das artes, é representativo para o psicólogo, quer as artes da visão (arquitectura, escultura, pintura) nem a música. E não o são porque representam parte da alma nacional, não essa alma íntima e completa. A arquitectura dum povo pode dizer-nos se esse povo ama o grande e o sublime; mas isso também a sua poesia alto [?] dirá. A pintura e escultura dum povo podem inteirar-nos do amor da forma, da beleza, da cor que caracterizam essa nação; mas isso também na sua poesia poderá ser visto. A música que os compositores desse país produzem inteirar-nos-á de se esse povo é de ânimo alegre ou triste, d'este ou daquele modo triste, alegre d'este ou desse modo; mas isso também a poesia dum povo mais íntima, mais (...), mais explicativa-mente dirá. As artes inferiores dão luzes sobre esta ou aquela qualidade do sentir, do pensar desse povo; mas nenhuma delas sabe todas essas qualidades, sabe as suas anti-relações. É facil achar a analogia que fixe a significação do que dizemos. As artes da visão serão [?] como os gestos dum indivíduo - forte, nítida e insuficientemente representativos do que sente ou pensa, e nada mesmo das nuances íntimas do que pensa e sente. A música - essa é como a expressão física, mais perto da alma do que o gesto; mais directamente vinda dela do que a própria palavra mas na sua imensa expressão, nada representativa, nada distinta e analítica. A palavra - a palavra sim. N'ela brota, com as suas íntimas qualidades, com as suas contradições, (...) interna, íntima e (...) a alma do indivíduo. Ela, sim, revela tudo. O gesto, a expressão simbolizam a alma. A palavra é a própria alma, manifestando-se o mais materialmente que o pode fazer o que, de natureza, o não é. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 46. «History of a Dictatorship» Vicente Guedes. Contos Ibis. A morte do Dr. Cerdeira. Czaresco. Uma viagem no Tempo. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 186. Às vezes, quando cismo, e incerto vou Através do meu ser em confusão Procuro ver, sentir, sem olhos ler Na minha consciência a alvorecer De que anterior Presença humana sou A reincarnação. Então, aos olhos com que sonho olhando, Meu próprio vulto outro se ergue, e eu sei Que fui, num grande ocaso de (...) gentes Entre sonhos nas almas confluentes Alguém com gesto e mando, Imperador ou rei. Triste, profundamente triste, calmo Sim, calmo como a morte, eu quis fazer Com que em não sei que terra revivesse Um belo culto morto, a incerta messe (…) 3-6-1916 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 59. Não faço visitas, nem ando em sociedade alguma - nem de salas, nem de cafés. Fazê-lo seria sacrificar a minha unidade interior, entregar-me a conversas inúteis, furtar tempo senão aos meus raciocínios e aos meus projectos, pelo menos aos meus sonhos, que sempre são mais belos que a conversa alheia. Devo-me a humanidade futura. Quanto me desperdiçar desperdiço do divino património possível dos homens de amanhã; diminuo-lhes a felicidade que lhes posso dar e diminuo-me a mim-próprio, não só aos meus olhos reais, mas aos olhos possíveis de Deus. Isto pode não ser assim, mas sinto que é meu dever crê-lo. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 47. Tomara poder desempenhar-me, sem hesitações nem ansiedades, d'este mandato subjectivo cuja execução por demorada ou imperfeita me tortura e dormir descansadamente, fosse onde fosse, plátano ou cedro que me cobrisse, levando n'alma como uma parcela do mundo, entre uma saudade e uma aspiração, a consciência de um dever cumprido. Mas dia a dia o que vejo em torno meu me aponta novos deveres, novas responsabilidades da m[inha] inteligência para com o meu senso moral. Hora a hora a (...) que escreve as sátiras surge colérica em mim. Hora a hora a expressão me falha. Hora a hora a vontade fraqueja. Hora a hora sinto avançar sobre mim o tempo. Hora a hora me conheço, mãos inúteis e olhar amargurado, levando para a terra fria uma alma que não soube contar, um coração já apodrecido, morto já e na estagnação da aspiração indefinida, inutilizada. Nem choro. Como chorar? Eu desejaria poder querer (desejar) trabalhar, febrilmente trabalhar para que esta pátria que vós não conheceis fosse grande como o sentimento que eu sinto quando n'ela penso. Nada faço. Nem a mim mesmo ouso dizer: amo a pátria, amo a humanidade. Parece um cinismo supremo. Para comigo mesmo tenho um pudor em dizê-lo. Só aqui lh'o registo sobre papel, acanhadamente ainda assim, para que n'alguma parte fique escrito. Sim, fique aqui escrito que amo a pátria funda, (...) doloridamente. Seja dito assim sucinto, para que fique dito. Nada mais. Não falemos mais. As coisas que se amam, os sentimentos que se afagam guardam-se com a chave d'aquilo a que chamamos «pudor» no cofre do coração. A eloquência profana-os. A arte, revelando-os, torna-os pequenos e vis. O próprio olhar não os deve revelar. Sabeis decerto que o maior amor não é aquele que a palavra suave puramente exprime. Nem é aquele que o olhar diz, nem aquele que a mão comunica tocando levemente n'outra mão. E aquele que quando dois seres estão juntos, não se olhando nem tocando os envolve como uma nuvem, que lhes (...) Esse amor não se deve dizer nem revelar. Não se pode falar dele. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 48. God give me strength to draw, to understand the whole synthesis of the psychology and psychological history of the Portuguese nation! Every day the papers bring me news of facts that are humiliating, (...) to us, the Portuguese. No one can conceive how I sufer with them. No one can imagine the deep despair, the mighty pain that seizes me at this. Oh, how I dream of that Marquis of Tavora who should come and redeem the nation - a saviour, a true man, great and hold that would put us right. But no suffering can equal that when I bring myself to understand that this is no more than a dream. I am never happy, neither in my selfish, nor in my unselfish moments. My solace is reading Antero do Quental. In me, after all, Luther-spirit. Oh, how I understand that deep suffering that was his. I must write my book. I dread what the truth may be. Yet, be it bad, I have to write it. God get the truth be not bad! I should like to have written this in better style, but my power of writing is gone. 5-9-1908 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 49. XIII Emissário de um rei desconhecido Eu cumpro informes instruções de além, E as bruscas frases que aos meus lábios vêm Soam-me a um outro e anómalo sentido... Inconscientemente me divido Entre mim e a missão que o meu ser tem, E a glória do meu Rei dá-me o desdém Por este humano povo entre quem lido... Não sei se existe o Rei que me mandou Minha missão será eu a esquecer, Meu orgulho o deserto em que em mim estou... Mas há! Eu sinto-me altas tradições De antes de tempo e espaço e vida e ser... Já viram Deus as minhas sensações... s. d. «Passos da Cruz». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 57. 1ª publ. in Centauro , nº 1. Lisboa: Out.-Dez. 1916. De aqui a pouco acaba o dia. Não fiz nada. Também, que coisa é que faria? Fosse o que fosse, estava errada. De aqui a pouco a noite vem. Chega em vão Para quem como eu só tem Para o contar o coração. E após a noite a irmos dormir Torna o dia. Nada farei senão sentir. Também que coisa é que faria? 31-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 186. Thomas Crosse: Some Portuguese Poets I have chosen rather lesser known, and injustly unknown, poets: 1. The Poetry of the Song-Books. 2. Cristóvão Falcão and Bernardim Ribeiro. 3. José Anastácio da Cunha. 4. Antero de Quental. 5. Guerra Junqueiro. 6. Cesário Verde. 7. Decadents and Pessimists. 8. The «Sensationists». s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 190. É boa! Se fossem malmequeres! E é uma papoula Sozinha, com esse ar de «queres?» Veludo da natureza tola. Coitada! Por ela Saí da marcha pela estrada. Não a ponho na lapela. Oscila ao leve vento, muito Encarnada a arroxear. Deixei no chão o meu intuito. Caminharei sem regressar. 31-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 187. Possible articles by Thomas Grosse (or some such): A conspectus of the Columbus theories (see what the recent Italian re-Genoa one says). Diogo Pires, otherwise Solomon Molcho. The Myth of King Sebastian. Biomancy (fairly big article). Sophistry, or Curious Proofs and Arguments: from the Greek Sophists (v. Funck-Brentano, Les Sophistes Grecs) through medieval sophists and schoolsmen, to modern sophists, including such theses as Comme Quoi NapoIéon) (See whether some idea can be obtained of Whately's Historic Doubts). (This article can be divided into two - one on Sophistry Proper, the other on Curious Proofs and Arguments). Singularities of Language. (História Trágico-Marítima) (or translate perhaps). Tobacco/Tobacco in Portugal (special) ??? Freemasonry in Portugal (special) ? Kings that will Retum. (the general myth of which the one of King Sebastian is a particular case). The Epigram. (or a little book choosing them). s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 191. Enfia, a agulha, E ergue do colo A costura enrugada. Escuta: (volto a folha Com desconsolo). Não ouviste nada. Os meus poemas, este E os outros que tenho — São só a brincar. Tu nunca os leste, E nem mesmo estranho Que ouças sem pensar. Mas dá-me um certo agrado Sentir que tos leio E que ouves sem saber. Faz um certo agrado. Dá-me um certo enleio... E ler é esquecer. 31-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 188. Parece estar calor, mas nasce Subitamente Contra a minha face Uma brisa fresca que se sente. Assim também — poder comparar É que é poesia — A alma sente-se a esperar, Mas não conhece em que confia. 31-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 190. III Adagas cujas jóias velhas galas... Opalesci amar-me entre mãos raras, E, fluido a febres entre um lembrar de aras, O convés sem ninguém cheio de malas... O íntimo silêncio das opalas Conduz orientes até jóias caras, E o meu anseio vai nas rotas claras De um grande sonho cheio de ócio e salas... Passa o cortejo imperial, e ao longe O povo só pelo cessar das lanças Sabe que passa o seu tirano, e estruge Sua ovação, e erguem as crianças... Mas no teclado as tuas mãos pararam E indefinidamente repousaram... s. d. «Passos da Cruz». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 37. 1ª publ. in Centauro , nº 1. Lisboa: Out.-Dez. 1916. Meus gestos não sou eu. Como o céu não é nada, O que em mim não é meu Não passa pela estrada. O som do vento dorme No dia sem razão. O meu tédio é enorme. Todo eu sou vácuo e vão. Se ao menos uma vaga Lembrança me viesse De melhor céu ou plaga Que esta vida! Mas esse Pensamento pensado Como fim de pensar Dorme no meu agrado Como uma alga no mar. E só no dia estranho Ao que sinto e que sou Passa quanto eu não tenho, Está tudo onde eu não estou. Não sou eu, não conheço, Não possuo nem passo. Minha vida adormeço Não sei em que regaço. 24-10-1913? Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 25. Gradual, desde que o calor Teve medo, A brisa ganhou alma, à flor Do arvoredo. Primeiro, os ramos ajeitaram As folhas que há, Depois, cinzentas, oscilaram, E depois já Toda a árvore era um movimento E o fresco viera. Medita sem ter pensamento! Ignora e espera! 31-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 191. IV Ó tocadora de harpa, se eu beijasse Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!, E, beijando-o, descesse pelos desvãos Do sonho, até que enfim eu o encontrasse Tornado Puro Gesto, gesto-face Da medalha sinistra — reis cristãos Ajoelhando, inimigos e irmãos, Quando processional o andor passasse!... Teu gesto que arrepanha e se extasia... O teu gesto completo, lua fria Subindo, e em baixo, negros, os juncais... Caverna em estalactites o teu gesto... Não poder eu prendê-lo, fazer mais Que vê-lo e que perdê-lo!... E o sonho é o resto... s. d. «Passos da Cruz». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 39. 1ª publ. in Centauro , nº 1. Lisboa: Out.-Dez. 1916. XIV Como uma voz de fonte que cessasse (E uns para os outros nossos vãos olhares Se admiraram), para além dos meus palmares De sonho, a voz que do meu tédio nasce Parou... Apareceu já sem disfarce De música longínqua, asas nos ares, O mistério silente como os mares, Quando morreu o vento e a calma pasce... A paisagem longínqua só existe Para haver nela um silêncio em descida Para o mistério, silêncio a que a hora assiste... E, perto ou longe, grande lago mudo, O mundo, o informe mundo onde há a vida... E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo... s. d. «Passos da Cruz». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 59. 1ª publ. in Centauro , nº 1. Lisboa: Out.-Dez. 1916. Oca de conter-me Como a hora dói! Pérfida de ter-me Como me destrói O meu ser inerme! Ó meu ser sombrio! Ó minha alma tal Como se p'Io rio Do meu ser igual Sempre a mim, e frio De nocturno e meu, Passasse, cantando, Uma louca, olhando Dum barco prò brando Silêncio do céu. 4-5-1914 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 27. Como um vento na floresta, Minha emoção não tem fim. Nada sou, nada me resta. Não sei quem sou para mim. E como entre os arvoredos Há grandes sons de folhagem, Também agito segredos No fundo da minha imagem. E o grande ruído do vento Que as folhas cobrem de som Despe-me do pensamento: Sou ninguém, temo ser bom. 30-9-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 192. V Ténue, roçando sedas pelas horas, Teu vulto ciciante passa e esquece, E dia a dia adias para prece O rito cujo ritmo só decoras... Um mar longínquo e próximo humedece Teus lábios onde, mais que em ti, descoras... E, alada, leve, sobre a dor que choras, Sem querer saber de ti a tarde desce... Erra no anteluar a voz dos tanques... Na quinta imensa gorgolejam águas, Na treva vaga ao meu ter dor estanques... Meu império é das horas desiguais, E dei meu gesto lasso às algas mágoas Que há para além de sermos outonais... s. d. «Passos da Cruz». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 41. 1ª publ. in Centauro , nº 1. Lisboa: Out.-Dez. 1916. Dentro em meu coração faz dor. Não sei donde essa dor me vem. Auréola de ópio de torpor Em torno ao meu falso desdém, E laivos híbridos de horror Como estrelas que o céu não tem. Dentro em mim cai silêncio em flocos. Parou o cavaleiro à porta... E o frio, e o gelo em brancos blocos Mancha de hirto a noite morta... Meus tédios desiguais, sufoco-os, A minha alma jaz ela e absorta Dentro em meu pensamento é mágoa... Corre por mim um arrepio Que é como o afluxo à tona de água De se saber que há sob o rio O que... Brilha na noite a frágua Onde o tédio bate o ócio a frio. 7-8-1914 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 28. Quanto fui peregrino Do meu próprio destino! Quanta vez desprezei O lar que sempre amei! Quanta vez rejeitando O que quisera ter, Fiz dos versos um brando Refúgio de não ser! E quanta vez, sabendo Que a mim estava esquecendo, E que quanto vivi — Tanto era o que perdi — Como o orgulhoso pobre Ao rejeitado lar Volvi o olhar, vil nobre Fidalgo só no chorar... Mas quanta vez descrente Do ser insubsistente Com que no Carnaval Da minha alma irreal Vestira o que sentisse Vi quem era quem não sou E tudo o que não disse Os olhos me turvou... Então, a sós comigo, Sem me ter por amigo, Criança ao pé dos céus, Pus a mão na de Deus. E no mistério escuro Senti a antiga mão Guiar-me, e fui seguro Como a quem deram pão. Por isso, a cada passo Que meu ser triste e lasso Sente sair do bem Que a alma, se é própria, tem, Minha mão de criança Sem medo nem esperança Para aquele que sou Dou na de Deus e vou. 7-10-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 193. VI Venho de longe e trago no perfil, Em forma nevoenta e afastada, O perfil de outro ser que desagrada Ao meu actual recorte humano e vil. Outrora fui talvez, não Boabdil, Mas o seu mero último olhar, da estrada Dado ao deixado vulto de Granada, Recorte frio sob o unido anil... Hoje sou a saudade imperial Do que já na distância de mim vi... Eu próprio sou aquilo que perdi... E nesta estrada para Desigual Florem em esguia glória marginal Os girassóis do império que morri... s. d. «Passos da Cruz». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 43. 1ª publ. in Centauro , nº 1. Lisboa: Out.-Dez. 1916. O meu tédio não dorme. Cansado existe em mim Como uma dor informe Que não tem causa ou fim. 19-6-1915 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 30. Do meio da rua (Que é, aliás, o infinito) Um pregão flutua, Música num grito... Como se no braço Me tocasse alguém Viro-me num espaço Que o espaço não tem. Outrora em criança O mesmo pregão... Não lembres... Descansa, Dorme, coração!... 7-10-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 196. À NOITE O silêncio é teu gémeo no Infinito. Quem te conhece, sabe não buscar. Morte visível, vens dessedentar O vago mundo, o mundo estreito e aflito. Se os teus abismos constelados fito, Não sei quem sou ou qual o fim a dar A tanta dor, a tanta ânsia par Do sonho, e a tanto incerto em que medito. Que vislumbre escondido de melhores Dias ou horas no teu campo cabe? Véu nupcial do fim de fins e dores. Nem sei a angústia que vens consolar-me. Deixa que eu durma, deixa que eu acabe E que a luz nunca venha despertar-me! 14-9-1919 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 37. VII Fosse eu apenas, não sei onde ou como, Uma coisa existente sem viver, Noite de Vida sem amanhecer Entre as sirtes do meu doirado assomo... Fada maliciosa ou incerto gnomo Fadado houvesse de não pertencer Meu intuito gloriola com ter A árvore do meu uso o único pomo... Fosse eu uma metáfora somente Escrita nalgum livro insubsistente Dum poeta antigo, de alma em outras gamas, Mas doente, e, num crepúsculo de espadas, Morrendo entre bandeiras desfraldadas Na última tarde de um império em chamas... s. d. «Passos da Cruz». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 45. 1ª publ. in Centauro , nº 1. Lisboa: Out.-Dez. 1916. ALGA Paira na noite calma O silêncio da brisa... Acontece-me à alma Qualquer coisa imprecisa... Uma porta entreaberta... Um sorriso em descrença... Uma ânsia que não acerta Com aquilo em que pensa. Sonha, duvida, elevo-a Até quem me suponho E a sua voz de névoa Roça pelo meu sonho... 24-7-1916 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 31. VIII Ignorado ficasse o meu destino Entre pálios (e a ponte sempre à vista), E anel concluso a chispas de ametista A frase falha do meu póstumo hino... Florescesse em meu glabro desatino O himeneu das escadas da conquista Cuja preguiça, arrecadada, dista Almas do meu impulso cristalino... Meus ócios ricos assim fossem, vilas Pelo campo romano, e a toga traça No meu soslaio anónimas (desgraça A vida) curvas sob mãos intranquilas... E tudo sem Cleópatra teria Findado perto de onde raia o dia... s. d. «Passos da Cruz». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 47. 1ª publ. in Centauro , nº 1. Lisboa: Out.-Dez. 1916. SCHEHERAZAD O que eu penso não sei e é alegria Pensá-lo; nada sou, salvo a harmonia Interior entre existir e ouvir A música cantar-te e dissuadir Da vida e desta inútil atenção Ao útil dada, morta [?] sensação Real, passada E à minha mente [?] inutilmente dada. 26-11-1916 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 32. IX Meu coração é um pórtico partido Dando excessivamente sobre o mar Vejo em minha alma as velas vãs passar E cada vela passa num sentido. Um soslaio de sombras e ruído Na transparente solidão do ar Evoca estrelas sobre a noite estar Em afastados céus o pórtico ido... E em palmares de Antilhas entrevistas Através de, com mãos eis apartados Os sonhos, cortinados de ametistas, Imperfeito o sabor de compensando O grande espaço entre os troféus alçados Ao centro do triunfo em ruído e bando... s. d. «Passos da Cruz». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 49. 1ª publ. in Centauro , nº 1. Lisboa: Out.-Dez. 1916. O mundo rui a meu redor, escombro a escombro. Os meus sentidos oscilam, bandeira rota ao vento. Que sombra de que o sol enche de frio e de assombro A estrada vazia do conseguimento? Busca um porto longe uma nau desconhecida E esse é todo o sentido da minha vida. Por um mar azul nocturno, estrelado no fundo, Segue a sua rota a nau exterior ao mundo. Mas o sentido de tudo está fechado no pasmo Que exala a chama negra que acende em meu entusiasmo Súbitas confissões de outro que eu fui outrora Antes da vida e viu Deus e eu não o sou agora. 10-12-1917 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 33. X Aconteceu-me do alto do infinito Esta vida. Através de nevoeiros, Do meu próprio ermo ser fumos primeiros, Vim ganhando, e através estranhos ritos De sombra e luz ocasional, e gritos Vagos ao longe, e assomos passageiros De saudade incógnita, luzeiros De divino, este ser fosco e proscrito... Caiu chuva em passados que fui eu. Houve planícies de céu baixo e neve Nalguma coisa de alma do que é meu. Narrei-me a sombra e não me achei sentido Hoje sei-me o deserto onde Deus teve Outrora a sua capital de olvido... s. d. «Passos da Cruz». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 51. 1ª publ. in Centauro , nº 1. Lisboa: Out.-Dez. 1916. L’HOMME Não: toda a palavra é a mais. Sossega! Deixa, da tua voz, só o silêncio anterior! Como um mar vago a uma praia deserta, chega Ao meu coração a dor. Que dor? Não sei. Quem sabe saber o que sente? Nem um gesto. Sobreviva apenas ao que tem que morrer O luar e a hora e o vago perfume indolente E as palavras por dizer. 12-6-1918 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 34. XI Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela E oculta mão colora alguém em mim. Pus a alma no nexo de perdê-la E o meu princípio floresceu em Fim. Que importa o tédio que dentro em mim gela, E o leve Outono, e as galas, e o marfim, E a congruência da alma que se vela Com os sonhados pálios de cetim? Disperso... E a hora como um leque fecha-se... Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar... O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se... E, abrindo as asas sobre Renovar, A erma sombra do voo começado Pestaneja no campo abandonado... s. d. «Passos da Cruz». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 53. 1ª publ. in Centauro , nº 1. Lisboa: Out.-Dez. 1916. Porque vivo, quem sou, o que sou, quem me leva? Que serei para a morte? Para a vida o que sou? A morte no mundo é a treva na terra. Nada posso. Choro, gemo, cerro os olhos e vou. Cerca-me o mistério, a ilusão e a descrença Da possibilidade de ser tudo real. O meu pavor de ser, nada há que te vença! A vida como a morte é o mesmo Mal! 5-3-1919 [?] Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 35. EPISÓDIOS A MÚMIA I Andei léguas de sombra Dentro em meu pensamento. Floresceu às avessas Meu ócio com sem-nexo, E apagaram-me as lâmpadas Na alcova cambaleante. Tudo prestes se volve Um deserto macio Visto pelo meu tacto Dos veludos da alcova, Não pela minha vista. Há um oásis no Incerto E, como uma suspeita De luz por não-há-frinchas, Passa uma caravana. Esquece-me de súbito Como é o espaço, e o tempo Em vez de horizontal É vertical. A alcova Desce não sei por onde Até não me encontrar Ascende um leve fumo Das minhas sensações. Deixo de me incluir Dentro de mim. Não há Cá-dentro nem lá-fora. E o deserto está agora Virado para baixo. A noção de mover-me Esqueceu-se do meu nome. Na alma meu corpo pesa-me. Sinto-me um reposteiro Pendurado na sala Onde jaz alguém morto. Qualquer coisa caiu E tiniu no infinito. s. d. «Episódios - A Múmia». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 61. 1ª publ. in Portugal Futurista , nº 1. Lisboa: 1917. XII Ela ia, tranquila pastorinha, Pela estrada da minha imperfeição. Seguia-a, como um gesto de perdão, O seu rebanho, a saudade minha... «Em longes terras hás-de ser rainha» Um dia lhe disseram, mas em vão... Seu vulto perde-se na escuridão... Só sua sombra ante meus pés caminha... Deus te dê lírios em vez desta hora, E em terras longe do que eu hoje sinto Serás, rainha não, mas só pastora — Só sempre a mesma pastorinha a ir, E eu serei teu regresso, esse indistinto Abismo entre o meu sonho e o meu porvir... s. d. «Passos da Cruz». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 55. 1ª publ. in Centauro , nº 1. Lisboa: Out.-Dez. 1916. No alto da tua sombra, a prumo sobre A inconstância irreal de vida e dias, Achei-me só e vi que as agonias Da vida, o tédio as finda e a morte as cobre. Ali, no alto de ser, sentir é nobre, Despido de ilusões e de ironias. Não sinto as mãos unidas, que estão frias, Não sei de mim, o que fui era pobre. Mas mesmo nessa altura de mistério E abismo de ascensão, não encontrei Paragem, conclusão ou refrigério. Deixei atrás o acaso de viver, O ser sempre outrem, a escondida lei, Caos de existirmos, névoa de o saber. 14-9-1919 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 36. Relembrou, num vislumbre deslembrado, a pátria paisagem algarvia. Viu, num golpe de memória, as amendoeiras de janeiro findo, vasto lençol de flores pelos cimos vistos de alto e o sol quente do inverno frio a alumiar as encostas. Veio-lhe uma saudade duradoura num instante, uma mágoa onde entrava toda a perplexi[dade] [?] de uma vida perdida. Extraviou-se do presente, mas sem alívio. Viu a sua vida de longe, como uma coisa, e chamou por ela o longo instante em que assim a viu. Com uma certeza inconsciente, alheia, a Rua do Ouro continuava a ser, no soslaio do que ficara da sua angústia, o seu mundo exterior imediato. Sentiu a inutilidade de tudo. O que os profissionais da dúvida metódica adquirem ao fim de filosofias, sorveu-o ele de um hausto no minuto em que se desencontrou. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 25g. «Marcos Alves» O cair da noite era lento, pacífico, como que adormecido [?]. O doente sentiu a depressão da derrota, a agoniada tristeza da consciência de não ter feito nada, das suas intenções terem sido inutilidades, reais apenas para ele, sepultas ainda em vida no âmago do seu coração. Quis poder chorar mas tinha - e sentiu-o - a alma como que mirrada, seca, imaleável ao sentimento da dor. Suspirou apenas, mais mental do que fisicamente... Fixou desprendidamente os olhos nas coisas que o rodeavam e angustiou-o passivamente a nitidez da banalidade objectiva de tudo... A grosseria da matéria era parte também das cadeiras, do toucador entre as duas janelas, da cómoda ao outro canto do quarto - nem se virou para a olhar, viu-a subconscientemente, meio por memória dela - e do papel que forrava as paredes, amarelado, já um tanto antigo, com um desenho qualquer de um dragão dourado, amiudadamente banal e oco como coisa, desde a (board above floor) até quase ao tecto. O tecto era de estuque branco, com um floreado no centro no meio do qual havia um gancho para candeeiro. Tudo isto foi-lhe doloroso ver, tão brutalmente real se lhe afigurava, tão mais real do que esperanças, compaixões, mágoas e desesperos. As cortinas das janelas impediam ver para fora, uma porém (...) dum lado mostrava ao longe o azul muito azul do céu, muito azul, muito longe, muito azul, muito de um azul liso, puro e perfeito. Esboçou mentalmente o gesto de encolher os ombros. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 25h. «Marcos Alves» Com cuidadosa astúcia dissimulou a existência do revólver. Foi hábil a maneira como conseguiu, contando primeiro uma história grosseira que sabia interessaria o criado e depois fingindo-se muito cansado e abatido, desviar-lhe a atenção do travesseiro. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 25i. «Marcos Alves» VENDAVAL Ó vento do norte, tão fundo e tão frio, Não achas, soprando por tanta solidão, Deserto, penhasco, coval mais vazio Que o meu coração! Indómita praia, que a raiva do oceano Faz louco lugar, caverna sem fim, Não são tão deixados do alegre e do humano Como a alma que há em mim! Mas dura planície, praia atra em fereza, Só têm a tristeza que a gente lhes vê; E nisto que em mim é vácuo e tristeza É o visto o que vê. Ah, mágoa de ter consciência da vida! Tu, vento do norte, teimoso, iracundo, Que rasgas os robles — teu pulso divida Minh'alma do mundo! Ah, se, como levas as folhas e a areia, A alma que tenho pudesses levar — Fosse pr'onde fosse, pra longe da ideia De eu ter que pensar! Abismo da noite, da chuva, do vento, Mar torvo do caos que parece volver — Porque é que não entras no meu pensamento Para ele morrer? Horror de ser sempre com vida a consciência! Horror de sentir a alma sempre a pensar! Arranca-me, ó vento; do chão da existência, De ser um lugar! E, pela alta noite que fazes mais escura, Pelo caos furioso que crias no mundo, Dissolve em areia esta minha amargura, Meu tédio profundo. E contra as vidraças dos que há que têm lares, Telhados daqueles que têm razão, Atira, já pária desfeito dos ares, O meu coração! Meu coração triste, meu coração ermo, Tornado a substância dispersa e negada Do vento sem forma, da noite sem termo, Do abismo e do nada! 12-10-1919 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 38. Fim Meteu o revólver na boca e estremeceu ao senti-lo frio contra o céu da boca. Mas lembrou-se, não sem prazer [...], que assim se tinha suicidado Antero de Quental. Tirou o revólver e manteve-o na mão, descaída esta sobre a colcha, ao longo da perna. Passaram assim por ele instantes sem tempo, de vida oca e neutra. Acordado para si, reparou de repente que o sol cessara, que tudo era cor de cinza, remoto, alheio, sem paladar para a vista. Veio-lhe pela alma dentro o sentimento da inevitabilidade, da necessidade da morte. Era como se ela estivesse chegando, [...] numa hora, como um comboio, e ele simplesmente à espera. Uma última coisa qualquer caira-lhe da alma - já nem era lúcido. Parára-lhe o saber-se (...)Tornou a meter o revólver na boca. D'esta vez sentiu o frio do cano d'encontro o palato como quem sente uma coisa que não é nada, um pouco da cara d'encontro à mão. A apatia era absoluta. Tornara-se outro. Era a morte já. Faltava o gesto último. Custou-lhe por ser simplesmente um gesto. Tudo isto passou n’um minuto cheio de cinza de vida. Pouco a pouco ela foi morrendo em si. Com o último ver dos olhos semicerrados viu só em torno a si uma bruma de vida… Tudo era indeciso e sem fim. Fechou os olhos e puxou o gatilho… s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 25j. «Marcos Alves» Epílogo M. A (…). De 24 anos de idade, natural de Lisboa, (…) Hereditariedade carregada do lado paterno; um tio morreu tuberculoso, a avó paterna sofre de alienação mental e progénie do bisavô era essa senhora o único filho que sobreviveu, havendo (…). Do lado materno nada parece haver de anormal. M. era de um carácter estranho e infantil, fortemente laivado de ideias religiosas e dum pudor (…). A sua vida sexual foi nula, era indiferente (…) Tentou suicidar-se duas vezes e à terceira tentativa foi bem sucedido. M. [ Alves ] mostrou nitidamente a evolução da paranóia de perseguição (some scientific, german, italian, etc. terms). Do «Tratado de Doenças Mentais» do dr. Florêncio Gomes, Parte III. cap.II. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 25k. «Marcos Alves» Ficções do Interlúdio 1. O Banqueiro Anarquista. 2. Poemas Completos de Alberto Caeiro (1889-1915). 3. Manuscrito de um Sibarita. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 351. JuIy 25 - 1907. I am tired of confiding in myself, of lamenting over myself, of pitying mine own self with tears. I have just had a kind of scene with T[ia] Rita over F. Coelho. At the end of it I felt again one of those symptoms which grow clearer and ever more horrible in me: a moral vertigo. In physical vertigo there is a whirling of the external world about us; in moral vertigo of the interior world. I seemed for a moment to lose the sense of the true relations of things, to lose comprehension, to fall into an abyss of mental abeyance. It is a horrible sensation, one to strike with inordinate fear. These feelings are becoming common, they seem to pave my way to a new mental life, which shall of course be madness. - In my family there is no comprehension of my mental state - no, none. They laugh at me, sneer ar me, desbelieve me; they say I wish to be extraordinary. They neglect to analyse the wish to be extraordinary. They cannot comprehend that between being and wishing to be extraordinary there is but the difference of consciousness being added to the second. It is the sarne case as that of myself playing with tin soldiers at seven and at 14 years; in one they were things, in the other things and playthings at the sarne time; yet the impulse to play with them remained, and that was the real, fundamental psychical state. July 25: I have no one in whom to confide. My family understands nothing. My friends I cannot trouble with these things; I have no really intimate friends, and even were there one intimate, in world's way, yet he were not intimate in the way I understand intimacy. I am shy and unwilling to make known my woes. An intimate friend is one of my ideal things, one of my day-dreams yet an intimate friend is a thing I never shall have. No temperament fits me; there is no character in this world which shows a chance of approaching to that I dream in an intimate friend. No more of this. - Mistress or sweetheart I have none; it is another of my ideals and one fraught, into the soul of it, with a real nothingness. It cannot be, as I dream. Alas! poor Alastor! Shelley, how I understand thee! Can I confide in Mother? Would that I had her here. I cannot confide to her also, but her presence would abate much of my pain. I feel as lonely as a wreck in sea. And I am a wreck indeed. So I confide in myself. In myself? What confidence is there in these lines? There is none. As I read them over I ache in mind to perceive how pretentious, how literary-diary-like they are! In some I have even made style. Yet I suffer none the less. A man may suffer as much in a suit of silks as in a sack or in a tora blanket. No more. 25-7-1907 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 26. O Regresso dos Deuses contém: 1. O Regresso dos Deuses 2. A nova Revelação - Alberto Caeiro. 3. A fase neo-pagã - Ricardo Reis. 4. Milton superior a Shakespeare. 5. Os doentes - Saudosismo. Interseccionismo. Sensacionismo. 6. Princípios fundamentais (as teorias de «Na c [ asa] de s[aúde ] de Cascais»). s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 353. Bem sei que há ilhas lá ao sul de tudo Onde há paisagens que não pode haver. Tão belas que são como que o veludo Do tecido que o mundo pode ser. Bem sei. Vegetações olhando o mar, Coral, encostas, tudo o que é a vida Tornado amor e luz, o que o sonhar Dá à imaginação anoitecida. Bem sei. Vejo isso tudo. O mesmo vento Que ali agita os ramos em torpor Passa de leve por meu pensamento E o pensamento julga que é amor. Sei, sim, é belo, é luz, é impossível, Existe, dorme, tem a cor e o fim, E, ainda que não haja, é tão visível Que é uma parte natural de mim. Sei tudo, sim, sei tudo. E sei também Que não é lá que há isso que lá está Sei qual é a luz que essa paisagem tem E qual o mar por que se vai para lá. 20-9-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 120. O REGRESSO DOS DEUSES - I. POEMAS COMPLETOS DE ALBERTO CAEIRO (1889-1915) 1. Nota dos Editores. 2. Prefácio do Dr. Ricardo Reis. 3. Poemas Completos de Alberto Caeiro: I. O Guardador de Rebanhos II. O Pastor Amoroso III. Poemas Inconjuntos 4. Natividade de Alberto Caeiro, por Fernando Pessoa. 5. Notas para a recordação do meu mestre Caeiro, por Álvaro de Campos. O REGRESSO DOS DEUSES - II. RICARDO REIS, ODES, LIV. I-III. O REGRESSO DOS DEUSES - III. ACESSÓRIOS, POEMAS DE ÁLVARO DE CAMPOS s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 354. Cerca-me um vazio absoluto de fraternidade e de afeição. Mesmo os que me são afeiçoados não me são afeiçoados; estou cercado de amigos que não são meus amigos e de conhecidos que não me conhecem. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 27. Isto indica bem que a ordem de publicação deve ser a seguinte: (1) Caeiro, completo; (2) Ricardo Reis, vários livros das Odes, (3) Notas para a recordação (pois que nelas se fala no próprio Campos), (4) um livro de Álvaro de Campos, (5) a discussão em família. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 355. [ O Iconoclasta ] Trata-se de uma publicação politicamente republicana radical, e por r [ epublicana ] r [ adical ] queremos dizer pura e simplesmente republicana - adversa, de um lado à monarquia, e, do outro, ao socialismo e ao anarquismo; inimiga não só da Igreja mas das religiões todas e da religião em si, porém in(…) às soluções materialistas; não sendo nem materialista nem espiritualista, natural é que seja como é - idealista, ou transcendentalista, se o leitor quiser. Trataremos de encarar as questões pelo seu lado sociológico sempre, e doutrinária e teoricamente, o que não quer dizer que a incitação à revolta não seja um produto escrito dessa doutrina nem que a revolução esteja fora dessa teoria. Tão pouco nos esforçaremos por ser calmos e pacatos. Ao discutirmos quer a monarquia portuguesa quer a Igreja Católica - escolham-se os piores exemplos - mal de nós próprios julgamos se o pudéssemos fazer sem que da própria calma do nosso calmo raciocínio ressumasse o ódio intenso e acalentado que nos enche a alma. [...] s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 166. Excerto de texto manuscrito com quatro páginas e meia. Quer isto dizer que não tenho verdadeiros amigos? Não; eu tenho-os, mas não são meus amigos verdadeiros. Ai daqueles que foram tocados do transcendental e a quem tudo dói por frio, inexpressivo e distante. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 28. II Na sombra Cleópatra jaz morta. Chove. Embandeiraram o barco de maneira errada. Chove sempre. Para que olhas tu a cidade longínqua? Tua alma é a cidade longínqua. Chove friamente. E quanto à mãe que embala ao colo um filho morto — Todos nós embalamos ao colo um filho morto. Chove, chove. O sorriso triste que sobra a teus lábios cansados, Vejo-o no gesto com que os teus dedos não deixam os teus anéis. Porque é que chove? s. d. «Episódios - A Múmia». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 63. 1ª publ. in Portugal Futurista , nº 1. Lisboa: 1917. UM GRANDE POETA MATERIALISTA (Alberto Caeiro) Entre o grande número de casos curiosos que existem na literatura, o caso de Alberto Caeiro é dos mais curiosos. Alberto Caeiro: Século - art[igo ] do Sá-Carneiro. Montanba - art[igo ] do Ribeiro Lopes (?) El Tea - artigo do A.P. Guisado. (S. Miguel) - art[igo] do Côrtes-Rodrigues. Economia - art[igo ] do Carvalho Mourão (?) A Águia - art[igo ] de F. Pessoa. O Mundo - ver se se obtém Santos-Vieira (pelo lado anti-clerical). A República - pelo Boavida Portugal. (Torres de Abreu talvez consiga qualquer coisa. Se Albertino da Silva pudesse falar, mesmo que atacasse!) In England: T-P's Weekly - paper article English (or another) Review - big article Preface to translation France: Art[icle] in Mercure de France. Pref[ace] to translation. Spanish: (through Guisado) and perhaps Renacimento Hawai [?]: (...) s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 356. The refining influence of the pure love, whether for a woman or for a boy, is one of the lovely things of earth. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 29. Da certeza e (...) com que os seus sentidos apreendem a realidade não pode haver dúvida. Vejam-se estes passos: como um silêncio um vago [...] A sua imaginação é curiosamente infantil e límpida. As imagens são por vezes de uma frescura que nos arranca a tudo quanto em nós se acumula de civilizado e nos toma a qualquer coisa do que, não sabendo onde nem como, perdemos. - como o luar... o vento... - como um girassol Isto, que parece tão simples e espontâneo, precisa de uma enorme cultura da visão e audição, da atenção aos fenómenos naturais. Ser-nos-á permitido perguntar (o meu desconhecimento total da poesia do sr. A.C. permite-me isso) se não exige também, e antes disso, uma preliminar cultura literária velada? Se fôssemos sentenciados a imaginar por força que espécie de homem o sr. C. é, diríamos que nos parece ser [...] de vasta cultura latina, por qualquer razão se retira para o campo e aí, abandonando de todo a literatura e a cultura pelo livro, se entrega à natureza com o cérebro assim preparado, e, é claro, mais do que apto a sentir pelo juízo que Deus lhe dera. No meio da sua aparente infantilidade, a poesia do sr. A.C. sabe-me a curiosamente culta [?]; e, conquanto tal pareça, e conquanto pareça e aparente ser ingénua e (...), não conseguimos tirar de nós a impressão de que ela é de um homem cultivado e lido. Não queremos com isto dizer que se trata de uma mistificação [...] s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 357b. «A. C. - Artigo para A Águia» No limiar que não é meu Sento-me e deixo o irreflectido olhar Encher-se, sem eu ver; de campo e céu. Se é tarde ou cedo, deixo de notar. Nada me diz de si qualquer coisa que eu Possa gozar. Pelos campos sem fim Sinto correr, porque na face o sinto, Um vago vento, estranho todo a mim. Não sei se penso, ou em que dor consinto Que seja minha ou desespero sem ter fim, Ou se minto. Na inútil hora Eu, mais inútil que ela, sem sentir Fito com um olhar que já nem chora A Dor ou desdém, dolo ou infiel sorrir, O absurdo céu onde nenhuma coisa mora Para eu fruir. Apenas, vaga Não uma esperança, mas uma saudade Do tempo em que a esperança, como vaga, Dava na praia da minha ansiedade, Me toma e um surdo marulhar meu ser alaga De vacuidade. Mas acordo e com vão Olhar ainda, mas já diferente, Por estar ausente dele o coração, E eu outra vez, nem mesmo descontente, Fito o céu calmo, o campo, a alegre solidão Inconsciente. Nada, só o dia — Se é tarde ou cedo continuo a errar —, Alheio a mim, a tudo dá a alegria De não ter coração com que agitar O corpo. E, quando vier a noite, tudo esfria Mas sem chorar. Isto e eu comigo Posto no eterno aquém das coisas calmas Que a vida externa mostra ao céu amigo — Campos ao sol, vivas flores almas. Isto só e não ter o coração abrigo Nem sol as almas. 16-2-1920 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 41. A meu ver, precisamente o que é grande no sr. A. Caeiro é o modo como utiliza os métodos da poesia espiritualista e idealista para nos tornar completamente bela a sua poesia materialista. Tivesse o sr. A.C. feito poesia absolutamente materialista, e veria como até o próprio materialismo da sua poesia sofreria. É aos armazéns do misticismo e do espiritualismo que a sua Musa vai buscar com que se engalanar. A.C. é um dos maiores poetas da nossa época e da nossa terra. Só uma incompreensão da magnitude e da originalidade da sua obra, ou uma aversão idiota por ele podem esconder isto a qualquer pessoa competente para ter opiniões críticas. A sua obra é assombrosamente original. Mesmo supondo ao seu autor uma cultura que abranja ter lido Whitman - e é aqui que o valor dela se verifica - nada nos explica como derivada, sai, possivelmente, a forma do verso. Mas este é, na verdade, tão casado com a forma das ideias de A.C., tão exactamente tal como não podia deixar de ser, que acho excusado e inútil pesquisar neste (...) Quer conheça Whitman, quer não, o sr. A.C. é igualmente original e é original como ninguém. Esta frase casual e usual cabe magnificamente a uma descrição do seu génio extraordinário. A.C. é original como ninguém. Não conheço, em tudo quanto é literatura, e que eu conheça, poeta tão original. Blake e Whitman lembram logo. Mas a obra do 1.º é plenamente [... ] , e a sua lira filosófica bebe a existência, em parte dos místicos e dos ocultistas, se bem que [... ] . E Whitman não se eleva a uma concepção filosófica que de longe se pareça com virtude [? ] . A.C. é, pois, mais, maior do que ambos esses grandes poetas. A.C. representa uma reacção contra todos os movimentos presentes que têm qualquer coisa de místicos ou de artificiais. O simbolismo, o saudosismo, tanto um como (o) outro são inimigos da obra de A.C. A.C. diz de si próprio que é «Sacerdote da Natureza», o «celeb[rante ] das sensações verdadeiras». Não se repare no orgulho excessivo das frases, sem ler a obra e ver que elas têm, pelo menos, uma justificação subjectiva. Comprehende-se, antes de mais pensar no escritor, que por escrever O G [ uardador ] de R [ ebanhos ] possa escrever de si e da sua obra aquelas palavras excessivas. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 357c. «A. C. - Artigo para A Águia» Se sou alegre ou sou triste?... Francamente, não o sei. A tristeza em que consiste? Da alegria o que farei? Não sou alegre nem triste. Verdade, não sei que sou. Sou qualquer alma que existe E sinto o que Deus fadou. Afinal, alegre ou triste? Pensar nunca tem bom fim... Minha tristeza consiste Em não saber bem de mim... Mas a alegria é assim... 20-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 158. Entendamo-nos bem. Ninguém mais alto do que eu grita a enorme, a flagrante originalidade da obra do sr. A.C., assim como a sua elevação, a sua (...) O que eu contesto no sr. C., dentre os predicados que ele diz ter, é a espontaneidade, a inocência, a perfeita simplicidade. Não creio que ele seja um espontâneo, nem que ele seja um ingénuo, nem que ele seja um (…) Sobretudo não creio na falta de cultura que ele apregoa, nem na sua indiferença por tudo quanto é a Natureza. Mas isto, que eu lhe contesto, não diminui a poesia de A.C. de como ele quer que nós a conheçamos. Antes, penso - e é isto que eu quero frisar flagrantemente - maior, mais alta, mais original, é a obra deste poeta, se ele, em vez de ser um ingénuo e um simples, é um intelectual, um consciente, um culto. Creio ter demonstrado as duas primeiras coisas; a terceira, não a posso demonstrar, mas posso afirmar que a creio. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 357d. «A. C. - Artigo para A Águia» O grande sol na eira Talvez seja o remédio... Não quero quem me queira, Amarem-me faz tédio. Baste-me o beijo intacto Que a luz dá a luzir E o amor alheio e abstracto De campos a florir. O resto é gente e alma: Complica, fala, vê. Tira-me o sonho e a calma E nunca é o que é. 21-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 159. II Não seria possível uma rigorosa análise do livro extraordinário do sr. A[lberto] C[aeiro ] se, preliminarmente, não facilitássemos - senão levássemos - essa análise num afastamento dos elementos perturbadores dele - elementos esses da criação do sr. A.C. Entre as afirmações contidas no seu livro o sr. A.C. faz 5 afirmações, repetida e lapidarmente, a respeito de si próprio como poeta. Essas afirmações entram na lógica da sua obra e da sua filosofia. Concebendo a sua teoria metafísica tal qual a concebe, é natural que o sr. A.C. se conceba a si-próprio como sendo o género de poeta naturalmente concebível como sendo autor de tal obra. Veremos adiante qual é a teoria, e qual é a essência prática do livro do sr. A.C. Por ora fixemo-nos nas suas 5 afirmações a seu próprio respeito. Pretende o Poeta de si-próprio que é (1) um poeta materialista, (2) um poeta concreto, i[sto] é, das coisas sem acréscimo de ideias preconcebidas, (3) um poeta espontâneo, (4) um poeta da Natureza, isto é, anti-metafísico, e (5) um poeta ingénuo e simples. São, repare-se, 5 afirmações diferentes. Noto isto porque parece haver identidade entre algumas. * Vamos contestar, seriatim e radicalmente, estas 5 pretensões do sr. A.C. Antes, porém, precisamos fazer notar que o que vamos contestar não é que a obra do sr. A.C. não seja todas essas 5 coisas que ela pretende ser. Sem dúvida nenhuma que a sua obra é materialista, naturalista, concreta, espontânea de aspecto e origem, simples no modo de sentir e exprimir. Tudo isto - com que extraordinário valor e originalidade, veremos depois - é o livro do sr. Caeiro. Distingamos, porém, na obra, as teorias dos processos, o lugar a que se chega da estrada que para lá se segue. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 357e. «A. C. - Artigo para A Águia» Pois cai um grande e calmo efeito De nada ter razão de ser Do céu, nulo como um direito, Na terra vil como um dever. 21-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 160. A certeza — isto é, a confiança no carácter objectivo das nossas percepções, e na conformidade das nossas ideias com a «realidade» ou a «verdade» — é um sintoma de ignorância ou de loucura. O homem mentalmente são não está certo de nada, isto é, vive numa incerteza mental constante; quer dizer, numa instabilidade mental permanente; e, como a instabilidade mental permanente é um sintoma mórbido, o homem são é um homem doente. Acumulei no parágrafo primeiro deste escrito estes, não só paradoxos, mas paradoxos contraditórios para que desde logo o leitor visse claramente, por não ver claramente, em que rede de ideias nos enleamos se queremos distinguir com qualquer espécie de clareza em que fundamentos assentam os conhecimentos. Passo agora a demonstrar o que disse sucinta e paradoxalmente. Distinguirei, no fenómeno chamado certeza, a parte subjectiva e a objectiva — a certeza em si, e aquilo de que há certeza. Considerada em si, a certeza nada vale. Nenhum de nós tem mais certeza de ter diante de si esta página que tem um perseguido de estar sendo perseguido por numerosos «inimigos», ou um megalómano de ser Jesus Cristo, ou Deus, ou Imperador do Mundo. O lugar das certezas absolutas, inteiras, que não sentem dúvida nem hesitação, é o manicómio. Pode arguir-se que é perfeitamente «demonstrável» que o louco que se julga Jesus Cristo não é realmente Jesus Cristo. É demonstrável como? É demonstrável a quem? Como demonstraremos que ele não é Jesus Cristo? Como lhe o demonstraremos a ele ? Para demonstrarmos, absolutamente, que ele não é Jesus Cristo, ou Deus, ou Imperador do Mundo, ou um bule, um balde ou uma pedra, era preciso que tivéssemos sobre estes objectos ou ideias uma ideia absoluta; ora de todos eles — e, no fundo, igualmente — não temos outra ideia que não a nossa própria, ou, quando muito, a que é comum a nós e a vários outros indivíduos, isto é, não temos senão uma ideia forçosamente relativa; de onde se vê que o mais que podemos objectar (de longe, para maior segurança) a esse a quem chamamos louco é que para nós ele não é Jesus Cristo, ou Deus, ou Imperador do Mundo, ou bule ou balde ou pedra. Isto, vendo melhor, equivale simplesmente a dizer que temos sobre estes objectos (e sobre ele) uma ideia diferente da que ele tem; o que no fundo vem a significar que ele e nós somos pessoas diferentes. Nem nos vale o valermo-nos do argumento (que o não é senão para os mistificadores que inventaram a democracia) [que] daria como falsa a ideia de que a terra gira à roda do sol, quando a não tinha senão Copérnico, e a humanidade em geral tinha a contrária. Nada nos pode provar que, na realidade absoluta, ou do «outro lado» da aparência das coisas, ele não esteja na ciência e nós na ignorância e no atraso. Mas, se é já difícil e incerto o conceber-se possível uma impossível demonstração absoluta disso, ou de qualquer coisa, mais difícil, mais impossível (se a expressão pode empregar-se) seria o demonstrar-lhe a ele que não é Jesus Cristo, ou o que quer que seja que se julga. Suponhamo-nos empenhados (por um propósito que devia valer-nos o internamento ao lado dele) em provar a um doido que se julga bule que ele não é com efeito um bule. Pegamos ingenuamente num bule e pomo-lo defronte dele; feito isto, perguntamos-lhe: «Isto é que é um bule; ora veja bem — o senhor parece-se com isto?» Ele responder-nos-á, ou «isso não é um bule; eu é que sou um verdadeiro bule»; ou «sim senhor: sou perfeitamente igual a esse bule». A este argumento, o que objectaremos, que valha, quer para ele, quer até para nós como racionadores? Não poderemos objectar nada. O que, no fundo, queremos fazer é negar a objectividade das impressões dele. As impressões dele, porém, são dele, que não nossas; ele é que as sente, e legitimamente não pode aceitar — como nós não aceitaríamos se ele quisesse converter-nos ao seu ponto de vista — uma crítica das suas impressões vinda inteiramente do exterior, isto é, vinda de quem as não sente e não pode portanto legitimamente criticá-las. Só se estivéssemos dentro dele, dentro do espírito dele, é que poderíamos criticar as suas impressões, que seriam também as nossas; mas é possível, que então, com esta crítica dentro de si, ele não se julgue já bule — ou (quem sabe?) se julgasse muito mais bule do que dantes. * Posto, assim, e assim assente, que a certeza tem um carácter puramente subjectivo, desde logo reparamos que nenhuma certeza pode verdadeiramente prevalecer objectivamente sobre outra. Numa sociedade, ou agrupamento, onde haja um número a de pessoas e haja 1 com uma certeza e a -1 com outra, nada prova que a «verdade» ou objectividade esteja mais do lado do 1 do que do lado do a -1, pois que a -1 subjectividades não somam objectividade, pela mesma razão que quatro cavalos não somam um elefante. O mais que pode concluir-se de haver a -1 certezas de um lado e 1 do outro é que há a -1 pessoas subjectivamente, ou mentalmente, parecidas — pelo menos em relação ao assunto sobre que estão em certeza —, e 1 pessoa que se não parece com essas. Redunda tudo, em última análise, numa questão de semelhança e dessemelhança temperamental ou mental, e isto nada adianta quanto à «verdade» objectiva do assunto sobre que se dá a divergência de «certezas». Uma objecção desde logo ocorre. O critério da objectividade (dir-se-á) é a mesma objectividade; basta que encontremos um processo de verificação liberto de elementos subjectivos para que, pelo menos em certo modo, a objectividade de um fenómeno se possa determinar. É esse o género de investigação a que chamamos científica. Faz-se ela de três modos — por observação directa, por cálculo, e por observação indirecta (que consiste no emprego de aparelhos especiais) . Quanto mais examinarmos esta objecção, mais profundamente verificaremos que em nenhum ponto ela colhe. A observação directa, evidentemente, deixa-nos no mesmo caso em que estávamos, entregues às nossas subjectividades, corrigendas apenas umas pelas outras e sempre fora da objectividade verdadeira. O cálculo adquire já, aparentemente, uma meia-objectividade, que é a objectividade abstracta da matemática. A matemática, porém, é puramente uma criação do espírito — seja do espírito em plena abstracção, seja do espírito em abstracção de impressões sensoriais primárias, o que para o caso não importa. A «certeza» da matemática é uma certeza só dentro da matemática; o que chamamos 2 somado ao que chamamos 3 dá o que chamamos 5, mas que certeza temos que quando vemos 2 e 3 no mundo «externo» haja ali realmente 2 e 3, e não 4 e 7 por exemplo? Que certeza temos que haja nesse mundo «externo» qualquer coisa efectivamente designável como 2 e 3? O cálculo matemático, longe de nos aproximar de uma «objectividade» certamente objectiva, antes dela nos afasta, pois é apenas um critério subjectivo de verificar impressões que são forçosamente subjectivas: onde julgamos ter uma objectividade temos apenas duas subjectividades. A investigação por meio de aparelhos parece, à primeira vista, oferecer um processo seguro, ou pelo menos mais seguro que qualquer outro, de se chegar à objectividade. Não é assim. Esses aparelhos, sobre serem fabricados por nós, isto é, sob a acção construtiva de impressões nossas, hão, ainda, de ser lidos por nós; e aqui estamos outra vez trazidos à nossa subjectividade. Acresce — para que vamos até ao fim exacto do argumento legítimo — que não sabemos até que ponto podemos influenciar aparelhos. Não é impossível que possamos projectar alucinações, se elas forem suficientemente fortes ou suficientemente emitidas de qualquer modo especial, sobre aparelhos que construímos; é concebível que uma chapa fotográfica possa receber uma emissão de imagens puramente «mentais», que ela possa ser, por assim dizer, hipnotizável. Tanto quanto podemos avaliar, a constituição da matéria parece ser uniforme, e a mesma portanto no nosso corpo e cérebro que nos seres a que chamamos inorgânicos; nem vem para o caso o objectar-se que essa uniformidade e essa matéria também são conceitos nossos, porque não vem para o caso objectar precisamente o que o opositor quer provar. E, se a constituição da matéria é assim idêntica, nada obsta a que creiamos que as imagens mentais são emissisíveis materialmente, são ou fenómenos de emissão etérica, ou qualquer coisa assim, ou acompanhadas por tais fenómenos, e não seja portanto possível que uma chapa fotográfica seja impressionada por essa emissão mental do mesmo modo que o é por uma emissão a que chamamos «luminosa». Assente, pois, que a certeza em si não é certeza, que não há passagem lógica da subjectividade da certeza para a objectividade da verdade ou realidade, resta que investiguemos se essa passagem se pode encontrar estudando nós, não a certeza em si, subjectiva, senão a certeza objectiva, ou seja o conteúdo da certeza, aquilo de que há certeza. Revertamos ao exemplo, propositadamente grotesco, que nos serviu convenientemente de ponto de partida. Vimos já, levando a análise até os seus últimos escaninhos, que, considerada, a certeza em si, e o seu conteúdo como objecto de certeza, não há mais objectividade na nossa certeza de que temos diante de nós esta página de papel que na certeza do megalómano de que é Jesus Cristo ou do delirante de que é um bule. Procuremos agora estabelecer qualquer diferença entre essas duas certezas por meio de seus conteúdos. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 246. Repare-se: O extraordinário valor da obra do sr. A.C. está precisamente em ela ser obra de um místico materialista, de um abstracto que só trata das coisas concretas, dum ingénuo e simples que não pensa senão complexamente, dum poeta da Natureza que o é do espírito, dum poeta espontâneo cuja espontaneidade é o produto de uma reflexão profunda. No mero enunciado disto salta à inteligência a assombrosa originalidade do sr. A. Caeiro. Se ele fosse o absoluto materialista que pretende que é, seria, não um homem, mas uma pedra. E o ser pedra não era, confesse-se, a forma de existência mais apta a exprimir emoções em verso. A.C. é uma impossibilidade realizada. Talvez da imediata e inconsciente noção de ser isso que a sua obra nos dá é que vem o pasmo admirativo que o encontro com essa obra logo nos causa. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 357f. «A. C. - Artigo para A Águia» Grande sol a entreter Meu meditar sem ser Neste quieto recinto... Quanto não pude ter Forma a alma com que sinto... Se vivo é que perdi... Se amo é que não amei... E o grande bom sol ri... E a sombra está aqui Onde eu sempre estarei... 21-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 161. III De quem é o olhar Que espreita por meus olhos? Quando penso que vejo, Quem continua vendo Enquanto estou pensando? Por que caminhos seguem, Não os meus tristes passos, Mas a realidade De eu ter passos comigo? Às vezes, na penumbra Do meu quarto, quando eu Para mim próprio mesmo Em alma mal existo, Toma um outro sentido Em mim o Universo — É uma nódoa esbatida De eu ser consciente sobre Minha ideia das coisas. Se acenderem as velas E não houver apenas A vaga luz de fora — Não sei que candeeiro Aceso onde na rua — Terei foscos desejos De nunca haver mais nada No Universo e na Vida De que o obscuro momento Que é minha vida agora. Um momento afluente Dum rio sempre a ir Esquecer-se de ser, Espaço misterioso Entre espaços desertos Cujo sentido é nulo E sem ser nada a nada. E assim a hora passa Metafisicamente. s. d. «Episódios - A Múmia». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 64. 1ª publ. in Portugal Futurista , nº 1. Lisboa: 1917. Maravilha-te, memória! Lembras o que nunca foi, E a perda daquela história Mais que uma perda me dói. Meus contos de fadas meus — Rasgaram-lhe a última folha... Meus cansaços são ateus Dos deuses da minha escolha... Mas tu, memória, condizes Com o que nunca existiu... Torna-me aos dias felizes E deixa chorar quem riu. 21-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 162. O sol queima o que toca. O verde à luz desenverdece. Seca-me a sensação da boca. Nas minhas papilas esquece. 24-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 163. Gostara, realmente, De sentir com uma alma só, Não ser eu só gente De muitos, mete-me dó. Não ter lar, vá. Não ter calma Está bem, nem ter pertencer. Mas eu, de ter tanta alma, Nem minha alma chego a ter. 24-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 164. Melodia triste sem pranto, Diluída, antiga, feliz Manhã de sentir a alma como um canto De D. Dinis. Vem do fundo do campo, da hora, E do modo triste como ouço, Uma voz que canta, e se demora. Escuto alto, mas não posso Distinguir o que diz; é música só, Feita de coração, sem dizer: Murmúrio de quem embala, com um vago dó De o menino ter de crescer. 24-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 165. Ó curva do horizonte, quem te passa, Passa da vista, não de ser ou estar. Não chameis à alma, que da vida esvoaça, Morta. Dizei: Sumiu-se além no mar. Ó mar, sê símbolo da vida toda — Incerto, o mesmo e mais que o nosso ver! Finda a viagem da morte e a terra à roda, Voltou a alma e a nau a aparecer. 11-1-1922 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 44. Entre o luar e o arvoredo, Entre o desejo e não pensar Meu ser secreto vai a medo Entre o arvoredo e o luar. Tudo é longínquo, tudo é enredo, Tudo é não ter nem encontrar. Entre o que a brisa traz e a hora, Entre o que foi e o que a alma faz, Meu ser oculto já não chora Entre a hora e o que a brisa traz. Tudo não foi, tudo se ignora. Tudo em silêncio se desfaz. 24-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 166. A ciência, a ciência, a ciência... Ah, como tudo é nulo e vão! A pobreza da inteligência Ante a riqueza da emoção! Aquela mulher que trabalha Como uma santa em sacrifício, Com quanto esforço dado ralha! Contra o pensar, que é o meu vício! A ciência! Como é pobre e nada! Rico é o que alma dá e tem. [...] 4-10-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 172. Deixo ao cego e ao surdo A alma com fronteiras, Que eu quero sentir tudo De todas as maneiras. Do alto de ter consciência Contemplo a terra e o céu, Olho-os com inocência... Nada que vejo é meu. Mas vejo tão atento Tão neles me disperso Que cada pensamento Me torna já diverso. E como são estilhaços Do ser, as coisas dispersas Quebro a alma em pedaços E em pessoas diversas. E se a própria alma vejo Com outro olhar, Pergunto se há ensejo De por isto a julgar. Ah, tanto como a terra E o mar e o vasto céu. Quem se crê próprio erra, Sou vário e não sou meu. Se as coisas são estilhaços Do saber do universo, Seja eu os meus pedaços, Impreciso e diverso. Se quanto sinto é alheio E de mim se sente, Como é que a alma veio A acabar-se em ente? Assim eu me acomodo Com o que Deus criou, Deixo teu diverso modo Diversos modos sou. Assim a Deus imito, Que quando fez o que é Tirou-lhe o infinito E a unidade até. 24-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 168. A criança que ri na rua, A música que vem no acaso, A tela absurda, a estátua nua, A bondade que não tem prazo — Tudo isso excede este rigor Que o raciocínio dá a tudo, E tem qualquer coisa de amor, Ainda que o amor seja mudo. 4-10-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 173. Sim, já sei... Há uma lei Que manda que no sentir Haja um seguir Uma certa estrada Que leva a nada. Bem sei. É aquela Que dizem bela E definida Os que na vida Não querem nada De qualquer estrada, Vou no caminho Que é meu vizinho Porque não sou Quem aqui estou. 4-10-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 174. Era isso mesmo — O que tu dizias, E já nem falo Do que tu fazias... Era isso mesmo... Eras outra já, Eras má deveras, A quem chamei má... Eu não era o mesmo Para ti, bem sei. Eu não mudaria, Não — nem mudarei... Julgas que outro é outro. Não: somos iguais. 6-10-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 175. O som contínuo da chuva A se ouvir lá fora bem Deixa-nos a alma viúva Daquilo que já não tem. [...] 1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 176. I became a man of the crowd. I never trusted myself alone. From night unto morn, and from morn unto night I elbowed speedily through crowds, clinging affrightedly to whom I could. Many thought me a thief. But I pressed my body against their bodies as a child clings to its mother during a thunderstorm. I tried to close up my mind's eye as a child seeks to escape the sight of the lightening; I strove to close my mental ears, as a child seeks by burying its head in its mother's lap to hear not the crash of the thunderbolt. And if there were a short gap in the walkers, I would hurry, run, my arms outstretched, eager for the touch of somebody's frame, my own body eager for a shrinking contact. And always, always, amid the shuffle and the tramp of all footfalls, I shivered to hear that firm, inexorable tread. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 10. Na véspera de nada Ninguém me visitou. Olhei atento a estrada Durante todo o dia Mas ninguém vinha ou via, Ninguém aqui chegou. Mas talvez não chegar Queira dizer que há Outra estrada que achar, Certa estrada que está, Como quando da festa Se esquece quem lá está. 11-10-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 177. My susceptibility to some kinds of fright (fear) was great. In the street, a man walking towards me, that is to say, in a contrary direction, pulled out a handkerchief in front of me; I started violently, believing, unconsciously, I think, that he was pulling out an arm or revolver. My short sight - not one the whole very short, but excessively short in what relates to features, to gestures in other people — aided my unbalanced brain. My imagination misinterpreted the character of their glances. I distorted, I knew not how, the value and the gist of their gestures. My very sense of hearing was weak; the words I caught I applied, contorting them, to myself. I saw in every word a term to slight, in each phrase, badly snatched, the shadow and the glimpse of an insult. The people in the street laughed: it was at me. My weak sight did not allow me to kill the illusion. The eye glasses I had in my pocket I dared not put on, for I feared to find my suspicion true. I longed for a great self-esteem, that I might forget myself in myself. I desired, oh, how I desired! - an impulse all to benevolence that I might forget me in others. I longed to die, to drop my personality, to let life drop away. I longed to be freed from everything, far away, very far. I wished to look no more upon the faces of men. In these hours of intense pain I often desired a friend, one that might well comprehend me: my richest dream was of a dog. I often dreamt of having for companion a little child, one picked up stray from the streets. But in my greatest agonies, in the acutest trances of my woe, I desired naught save to forget. Earth, nature, men, ants, beasts, birds - I longed to be at rest from these. I pined for a sleep that nothing within life can give. My thoughts were of death, of the complete mortality of the soul. As I walked along the pavements it seemed that all laughter was of me, that I was the object of all ridicule. […] My ear, halfway weak, appeare to prove supersensitive to conversations not read behind me. The words I caught I misinterpreted for my own pain and suffering. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 11. My dreams were of many kinds but they were all manifestations of one state of mind. I now dreamt of myself a Christ, making a sacrifice of myself, redeeming mankind, now a Luther breaking with old conventions, now a Nero steeped in the lust of flesh and of blood. Now I saw myself in an inner hallucination the darling of crowds, applauded, parading through the (...), now the darling of women, tearing them from their homes, from their old homes, now the hatred of all but the darling of good, sacrificing myself for all. Every thing read, everything heard, all seen - each idea from the outside, each (...), each event was the point of departure of a dream. I carne from a circus and I laid at home daring to imagine myself a clown, with lights around me like an arc. I saw soldiers pass in my mental eye and talk with a vision of myself as captain, leading, ordering, victorious. I read of adventurers and from that moment fully became them. I read of criminals and died of committing crimes till I grew frightened at my brain disorder. According to what I saw to what I heard, to what I read, I lived in all classes, in all ages, in all times, passed through all times, tamed all difficulties, was martyr, victorious in more than a million ways. But erotic, mystic, (...) - all these dreams were rivers tributary to a large me - nay rather they all were portions of a large me: the central point of all these dreams was the exaltation of personality. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 12. IV As minhas ansiedades caem Por uma escada abaixo Os meus desejos balouçam-se Em meio de um jardim vertical. Na Múmia a posição é absolutamente exacta. Música longínqua, Música excessivamente longínqua, Para que a Vida passe E colher esqueça aos gestos. s. d. «Episódios - A Múmia». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 66. 1ª publ. in Portugal Futurista , nº 1. Lisboa: 1917. Sob olhos que não olham — os meus olhos — Passa o ribeiro, que nem sei se é Rápido no lento passar incerto ao pé Dos invisíveis espinhos e abrolhos Da margem, minha estagnação sem fé. É como um viandante que passasse Por um muro de quinta abandonada E, por não ter que olhá-lo, por ser nada Para o seu interesse, o não olhasse, Fiel somente ao nada sem a estrada. 22-11-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 178. O maior triunfo do homem é quando se convence de que o ridículo é uma coisa sua que existe só para os outros, e, mesmo, sempre que outros queiram. Ele então deixa de importar-se com o ridículo, que, como não está em si, ele não pode matar. Três coisas tem o homem superior que ensinar-se a esquecer para que possa gozar no perfeito silêncio a sua superioridade - o ridículo, o trabalho e a dedicação. Como não se dedica a ninguém, também nada exige da dedicação alheia. Sóbrio, casto, frugal, tocando o menos possível na vida, tanto para não se incomodar como para não aproximar as coisas de mais, a ponto de destruir nelas a capacidade de serem sonhadas, ele isola-se por conveniência do orgulho e da desilusão. Aprende a sentir tudo sem o sentir directamente; porque sentir directamente é submeter-se - submeter-se à acção da coisa sentida. Vive nas dores e nas alegrias alheias, Whitman olímpico, Proteu da compreensão, sem partilhar de vivê-las realmente. Pode, a seu talante, embarcar ou ficar nas partidas de navios e pode ficar e embarcar ao mesmo tempo, porque não embarca nem fica. Esteve com todos em todas as sensações de todas as horas da sua vida. Assistiu, olhando pelos olhos e pelos corações dos protagonistas, a todas as tragédias da terra. Com os que renunciaram renunciou. Caiu em todas as batalhas, ficando vencedor de elas. Venceu a sua alegria e a sua dor vencendo toda a alegria e toda a dor do mundo. Ele lembra-se da sua própria voz ter gritado, de entre o povo judeu que se aglomerara: «Nós queremos antes Barrabás». E no momento em que pensou como o tinha sido, o nome de Barrabás lembrava-lhe já que Barrabás era ele, e Cristo também, que o povo não pedira. Quando voltou a querer lembrar-se que homem do povo havia sido, viu que tinha sido todos eles. Se olhava ligeiramente para cima sentia em sonho na sua fronte de mulher os cabelos negros de Maria. Sentia seios. Como eles desviaram a idea para o instinto sexual, ele chorou de repente e sabia que era a Madalena. Estendia as mãos mas lembrou-se de quando Pilatos as lavara da responsabilidade, e o seu vulto aprumava-se, governador romano, na sonhada toga que lhe roçava de leve a sensação ideal da própria pele. Cerrava os olhos, os próprios olhos do sonho, com o cansaço múltiplo d'aquilo tudo, e num último reflexo, antes da apatia, os estandartes do fim d'aquilo tudo, passam, com águias no cimo, num crepúsculo com montes verdes ao fundo. O cansaço de tanta sensação dispersa trazia-lhe uma depressão; e a depressão trazia-lhe os sentimentos depressivos - e entre eles, no limite do cansaço, o da piedade mole e chorosa pelos outros - canto de ama, cantando à noite, quando o pobre que não tinha ninguém encontra Nossa Senhora na estrada vestida de pastora, que o leva pela mão para o céu. A infância lembrada abriu a porta a Cristo que entra pela sua sensação de todas as lágrimas a chorar. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 13. Não tenho que sonhar que possam dar-me Um dia, vero ou falso, as rosas vãs Entre que em sonhos mortos fui achar-me No alvorecer de incógnitas manhãs. Não tenho que sonhar o que renego Antes do sonho e o recusar a ter, Sou no que sou como na vida é um cego A quem causou horror o poder ver. Isto, ou quase isto... Só do sonho morto Me fica uma imprecisa hesitação — Como se a nau  [...] 22-11-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 179. As coisas são, para as nossas sensações, belas. Portanto a beleza in‑se, beleza ideal é uma realidade. Se esta beleza ideal for real, pois que não é da mesma ordem das coisas, e é, quero dizer, uma ideia; ou ambas as ideias e coisas existem realmente, ou uma é mais real que a outra, existindo ambas, ou uma é real e outra irreal, uma verdadeira e a outra falsa. Examinemos estas hipóteses. Por exemplo, dizer que a ideia de espaço e das coisas mensuráveis são igualmente reais, é na minha maneira de ver um juízo errado. Pois as coisas deste mundo existem por ideias. (...) Dizer que as ideias e as coisas são reais, umas mais que outras, é evidentemente mau juízo, não só porque o mundo nos surge por ideias mas também porque a realidade não tem graus. Uma coisa existe ou não existe. Isto é tudo e nada mais é necessário. Mantém‑se a hipótese que uma é verdadeira e a outra falsa. Então qual é a verdade e qual é a aparência? As coisas pelas quais as coisas existem, ou as que existem em virtude de outras? É, pois, evidente que as ideias são reais e as coisas são sombras e falsidade encarnada. — Mas, podem‑nos responder que estas ideias nada são. — Pois bem, se nada forem, então o universo exterior nada é, pois existe por elas. Por ambas razões, o mundo não é nada. É uma sombra e um sonho; é, como disse o velho filósofo, o brincar de uma criança na areia. 1907? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 88. Trad.: Manuela Nogueira Se faço estas análises de um modo lasso e casual, não é senão porque assim retrato mais o que sou. De uma análise propriamente profunda não só sou incapaz, mas sou também artista de mais para a pensar em fazer; pensar em faze-la seria pensar em dar de mim a idea de que sou uma criatura disciplinada e coerente, quando o que sou é um analisador disperso e subtilmente desconcentrado. A minha arte é ser eu. Eu sou muitos. Mas, com o ser muitos, sou muitos em fluidez e imprecisão. Muitos crêem coisas falsas ou incompletas de mim; e eu, falando com eles, faço tudo por deixa-los continuar nessa crença. Perante um que me julgue um mero crítico, eu só falo crítica. A princípio fazia isto espontaneamente. Depois decidi que isto era porque, no meu perpétuo anseio de não levantar atritos, (…) s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 14. Exígua lâmpada tranquila, Quem te alumia e me dá luz, Entre quem és e eu sou oscila. 30-11-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 180. ANTÍNOO Era em Adriano fria a chuva fora. Jaz morto o jovem No raso leito, e sobre o seu desnudo todo, Aos olhos rasos de Adriano, cuja dor é medo, A umbrosa luz do eclipse-morte era difusa. Jaz morto o jovem, e o dia semelhava noite Lá fora. A chuva cai como um exausto alarme Da Natureza em acto de matá-lo. Memória de que el' foi não dava já deleite, Deleite no que el' foi era morto e indistinto. Ó mãos que já apertaram as de Adriano quentes, Cuja frieza agora as sente frias! Ó cabelo antes preso p'lo penteado justo! Ó olhos algo inquietantemente ousados! Ó simples macho corpo feminino qual O aparentar-se um deus à humanidade! Os lábios cujo abrir vermelho titilava Os sítios da luxúria com tanta arte viva! Ó dedos que hábeis eram no de não ser dito! Ó língua que na língua o sangue audaz tornava! [...] 1915 Poemas Ingleses. Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - . Trad.: Jorge de Sena Lá fora a vida estua e tem dinheiro. Eu, aqui, nulo e afastado, fico O perpétuo estrangeiro Que nem de sonhar já sou rico. Não sou ninguém, o meu trabalho é nada Neste enorme rolar da vida cheia, Vivo uma vida que nem é regrada Nem é destrambelhada e alheia. E um século depois terá esquecido Tudo quanto estuou e foi ruído Nesta hora em que vivo. E os bisnetos Dos opressores de hoje, desta louca luta Saberão, mas vagamente, a data — E claramente os meus sonetos. 2-9-1922 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 45. J'enrage. Je voudrais tout comprendre, tout savoir, tout accomplir, tout dire, tout jouir, tout souffrir, oui, tout souffrir. Mais rien de cela, rien, rien. Je reste anéanti par l'idée de ce que je voudrais avoir, pouvoir, sentir. Ma vie est un rêve immense. Je pense quelquefois que je voudrais commettre tous les crimes, tous les vices, tous les actes belles , cruels, grands, boire le beau, le vrai, le bien d'un trait et m'endormir ensuite pour toujours sur le sein calme du Néant. Laissez-moi pleurer. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 15. Na paz da noite, cheia de tanto durar, Dos livros que li, Que os li a sonhar, a mal meditar, Nem vendo que os vi, Ergo a cabeça [...] estonteada Do lido e do vão Do ler e vazio que há e fiz por noite acabada — Não no meu coração. 1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 181. É difícil, claro, compreender o que se entende por União com Deus, mas pode dar-se uma certa ideia do que isso quer dizer. Se presumirmos que, qualquer que tenha sido o modo (independentemente do erro do uso de um tempo verbal que implica tempo) como Deus criou o mundo, a substancia dessa criação foi a conversão, efectuada por Deus, da sua própria consciência na consciência plural dos seres separados O grande clamor da Divindade Indiana «Oh, pudesse eu ser muitos!» dá a ideia, sem a ideia de realidade. A união com Deus significa, portanto, a repetição pelo Adepto do Acto Divino de Criação pelo qual ele é idêntico a Deus em acto ou em modo de acto, mas, ao mesmo tempo, uma inversão do Acto Divino pelo qual ele continua a estar separado de Deus ou a ser o oposto de Deus; se não, seria o próprio Deus e não seria necessária qualquer união. O Adepto, se conseguir a unidade entre a sua consciência e a consciência de todas as coisas, se conseguir transformá-la numa inconsciência (ou inconsciência de si próprio) que é consciente, repete dentro de si o Acto Divino que é a conversão da consciência individual de Deus na consciência plural de Deus em indivíduos. Mas, assim, ele alcança a pluralidade que Deus atingiu quando da feitura do todo de que ele é parte e, ao repetir o Acto de Deus, ele está realmente a invertê-lo, e, ao invertê-lo, a fazer o caminho de regresso a Deus e, assim, a alcançar a união com Deus. Se representarmos todo este esquema por dois triângulos equiláteros com a mesma base, cada um, por assim dizer, oposto ao outro, teremos uma ideia clara, ou tão clara quanto possível, do método da obtenção da União com Deus. Deus, vértice do triângulo superior, abre para a base e a base estreita-se até ao vértice virado para baixo do triângulo inferior. Do vértice do triângulo inferior há ascensão para a linha base de ambos: assim a descida de Deus é repetida no sentido ascensional e, ao mesmo tempo há ascensão para Deus. Ora isto, seja qual for o modo por que seja considerado, conduz-nos à teoria peculiar dos três tipos de consciência: a Consciência Divina, a Consciência do Mundo e a Consciência Individual. Na primeira a identidade é absoluta, não havendo sujeito nem objecto. Na segunda o sujeito fez de si o seu próprio objecto, e, sendo infinito porque indivisível, torna-se objectivamente infinito, isto é, infinito porque infinitamente divisível. Na terceira, o sujeito fez de si mesmo como objecto o seu próprio sujeito, e tomou consciência de si próprio e, por conseguinte, consciência de si próprio em cada elemento infinitesimal desse objecto. Quanto mais cada sujeito infinitesimal faz de si próprio objecto para si próprio, mais se aproxima do primeiro passo à rectaguarda em direcção à Suprema Consciência. De aqui passará eventualmente à anulação disto e ao regresso ao estádio original da Divina consciência. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio. Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - . "Ensaio sobre a Iniciação." Trad.: Maria Helena Rodrigues de Carvalho Be complete in everything, for to be complete in anything is to be right. All roads arrive at the same place. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 16. Tenho as opiniões desmentidas, as crenças mais diversas - É que nunca penso nem falo nem ajo... Pensa, fala, age por mim sempre um sonho qualquer meu em que me encarno no momento. Vem a fala e falo-eu-outro. De meu, só sinto uma incapacidade enorme, um vácuo imenso, uma incompetência ante tudo o que é a vida. Não sei os gestos a acto nenhum real. Nunca aprendi a existir. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 17. Pantaleão. (if necessary give true name). 1. «A Psicose Adiantativa». 2. «As Visões do Sr. Pantaleão». 3. «A Nossa Administração Colonial». 4. «Versos do Sr. Pantaleão». s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 149. Sinto a tristeza tanto - uma sensação física de cansaço mental. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 18. Jean Seul. Full name supposed to be: Jean Seul de Méluret. supposed to be born in 1885 on the lst. of August one year older than Charles Search and three older than Alexander. Task: writing in French - poetry and satire or scientific works with a satirical or moral purpose. 1. «Des Cas d'Exhibitionnisme». 2. «La France en 1950» - Satire. 3. «Messieurs les Souteneurs» - Satire. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 150. Sinto frio n'alma; não sei com que me agasalhar. Para o frio da alma não há manto nem capa, quem o sente não se esquece. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 19. V Porque abrem as coisas alas para eu passar? Tenho medo de passar entre elas, tão paradas conscientes. Tenho medo de as deixar atrás de mim a tirarem a Máscara. Mas há sempre coisas atrás de mim. Sinto a sua ausência de olhos fitar-me, e estremeço. Sem se mexerem, as paredes vibram-me sentido. Falam comigo sem voz de dizerem-me as cadeiras. Os desenhos do pano da mesa têm vida, cada um é um abismo. Luze a sorrir com visíveis lábios invisíveis A porta abrindo-se conscientemente Sem que a mão seja mais que o caminho para abrir-se. De onde é que estão olhando para mim? Que coisas incapazes de olhar estão olhando para mim? Quem espreita de tudo? As arestas fitam-me. Sorriem realmente as paredes lisas. Sensação de ser só a minha espinha. As espadas. s. d. «Episódios - A Múmia». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 66. 1ª publ. in Portugal Futurista , nº 1. Lisboa: 1917. TÁBUA BIBLIOGRÁFICA Fernando Pessoa Nasceu em Lisboa, em 13 de Junho de 1888. Foi educado no Liceu (HIGH SCHOOL) de Durban, Natal, África do Sul, e na Universidade (inglesa) do Cabo de Boa Esperança. Nesta ganhou o prémio Rainha Victória de estilo inglês; foi em 1903 — o primeiro ano em que esse prémio se concedeu. O que Fernando Pessoa escreve pertence a duas categorias de obras, a que poderemos chamar ortónimas e heterónimas. Não se poderá dizer que são anónimas e pseudónimas, porque deveras o não são. A obra pseudónima é do autor em sua pessoa, salvo no nome que assina; a heterónima é do autor fora de sua pessoa, é de uma individualidade completa fabricada por ele, como seriam os dizeres de qualquer personagem de qualquer drama seu. As obras heterónimas de Fernando Pessoa são feitas por, até agora, três nomes de gente — Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos. Estas individualidades devem ser consideradas como distintas da do autor delas. Forma cada uma uma espécie de drama; e todas elas juntas formam outro drama. Alberto Caeiro, que se tem por nascido em 1889 e morto em 1915, escreveu poemas com uma, e determinada, orientação. Teve por discípulos — oriundos, como tais, de diversos aspectos dessa orientação — aos outros dois: Ricardo Reis, que se considera nascido em 1887, e que isolou naquela obra, estilizando, o lado intelectual e pagão; Álvaro de Campos, nascido em 1890, que nela isolou o lado por assim dizer emotivo, a que chamou «sensacionista», e que—ligando-o a influências diversas, em que predomina, ainda que abaixo da de Caeiro, a de Walt Whitman — produziu diversas complicações, em geral de índole escandalosa e irritante, sobretudo para Fernando Pessoa, que em todo o caso não tem remédio senão fazê-las e publicá-las, por mais que delas discorde. As obras destes três poetas formam, como se disse, um conjunto dramático; e está devidamente estudada a entreacção intelectual das personalidades, assim como as suas próprias relações pessoais. Tudo isto constará de biografias a fazer, acompanhadas, quando se publiquem, de horóscopos e, talvez, de fotografias. É um drama em gente, em vez de em actos. (Se estas três individualidades são mais ou menos reais que o próprio Fernando Pessoa — é problema metafísico, que este, ausente do segredo dos Deuses, e ignorando portanto o que seja realidade, nunca poderá resolver.) Fernando Pessoa publicou, ortonimamente, quatro folhetos em verso inglês: Antinous e 35 Sonnets , juntos, em 1918, e English Poems I-II e English Poems III , também juntos em 1922. O primeiro poema do terceiro destes folhetos é a refundição do «Antinous» de 1918. Publicou, além disto, em 1923, um manifesto, Sobre Um Manifesto de Estudantes , em apoio de Raúl Leal, e, em 1928, um folheto Interregno — Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal , que o governo consentiu que se editasse. Nenhum destes textos é definitivo. Do ponto de vista estético, o autor prefere, pois, considerar estas obras como apenas aproximadamente existentes. Nenhum escrito heterónimo se publicou em folheto ou livro. Tem Fernando Pessoa colaborado bastante, sempre pelo acaso de pedidos amigos, em revistas e outras publicações de diversa índole. O que dele por elas anda espalhado é, na generalidade, de ainda menor interesse público que os folhetos acima citados. Abrem-se, porém, mas com reservas, as seguintes excepções: Quanto a obras ortónimas: o drama estático O Marinheiro in Orpheu I (1915 ); O Banqueiro Anarquista in Contemporânea I (1922); os poemas Mar Português in Contemporânea 4 (1922); uma pequena colecção de poemas in Athena 3 (1925); e, em o número I do diário de Lisboa Sol (1925), a narração exacta e comovida do que é o Conto do Vigário. Quanto a obras heterónimas, as duas odes Ode Triunfal e Ode Marítima — de Álvaro de Campos in Orpheu 1 e 2 (1915) o Ultimatum do mesmo indivíduo, em o número único de Portugal Futurista (1917); o livro Odes , de Ricardo Reis, em Athena 1 (1924); e os excertos dos poemas de Alberto Caeiro in Athena 4 e 5 (1925). O resto, ortónimo ou heterónimo, ou não tem interesse, ou o não teve mais que passageiro, ou está por aperfeiçoar ou redefinir, ou são pequenas composições, em prosa ou em verso, que seria difícil lembrar e tediento enumerar, depois de lembradas. Do ponto de vista, por assim dizer, publicitário, vale, contudo, a pena registrar uns artigos em A Águia , no ano 1912, sobretudo pela irritação que causou o anúncio neles feito do «próximo aparecimento do super-Camões». Com a mesma intenção se pode citar o conjunto do que veio em Orpheu , dado o escândalo desmedido que resultou desta publicação. São os dois únicos casos em que qualquer escrito de Fernando Pessoa chegasse até à atenção do público. Fernando Pessoa não tenciona publicar — pelo menos por um largo enquanto — livro nem folheto algum. Não tendo público que os leia, julga-se dispensado de gastar inutilmente, em essa publicação, dinheiro seu que não tem; e, para o fazer gastar inutilmente a qualquer editor, fora preciso um tirocínio para o processo a que deu o seu apelido o saudoso Manuel Peres Vigário, já em cima indirectamente citado. 1928 Presença , nº 17. Coimbra: Dez. 1928 (ed. facsimil. Lisboa: Contexto, 1993). - 250. Charles James Search. in 1.: Charles Search. Supposed to be bom in 1886 and then to be two years older than Alexander. To be precise, born on the 18th. April 1886. Task: solily that of translation. May write the prefaces to his translations if these do not involve analysis, etc., when they will be written by Alexander. Translations to be undertaken: 1. Espronceda's «Student of Salamanca». 2. A. de Quental’s «Complete Sonnets» (together with pessimistic pieces -?-). 3. Couto Guerreiro's «Epigrams». 4. Sonnets (chosen) of Camões. 5. G. Junqueiro - Choice. 6. E. de Queiroz's «the Mandarin». 7. «Some Sonnets from Portugal» (excluding those separatly translated). 8. H. Rosa's Poems (Some). 9. Almeida Garrett - Choice. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 151. NOTA BIOGRÁFICA 1935 Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa. Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.° 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888. Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi director-geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral — misto de fidalgos e de judeus. Estado : Solteiro. Profissão : A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão mas vocação. Morada: Rua Coelho da Rocha,16,1.° dt.°, Lisboa. (Endereço postal — Caixa Postal 147, Lisboa). Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas. Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems III» e «English Poems III» (em inglês também), 1922, e o livro «Mensagem»,1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poemas». O folheto «O Interregno», publicado em 1928, e constituindo uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito. Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali ducado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos. Ideologia política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário. Posição religiosa: Cristão gnóstico, e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais diante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria. Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal. Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo mítico, de onde seja abolida toda infiltração católica-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação». Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima. Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, grão-mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos—a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania. Lisboa, 30 de Março de 1935 1935 Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas . Fernando Pessoa. (Introduções, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Publ. Europa-América, 1986. - 252. ANARQUISMO A Noite e o Caos são parte de mim. Dato do silêncio das estrelas. Sou o efeito de uma causa do tempo do Universo [e que o excede, talvez]. Para me encontrar tenho de me procurar nas flores, e nas aves, nos campos e nas cidades, nos actos, nas palavras e pensamentos dos homens, na luz do sol e nos escombros esquecidos de mundos que já pereceram. Quanto mais cresço, menos sou eu. Quanto mais me encontro, mais me perco. Quanto mais me sinto mais vejo que sou flor e ave e estrela e Universo. Quanto mais me defino, menos limites tenho. Transbordo Tudo. No fundo sou o mesmo que Deus. Na minha presença hodierna têm parte as idades anteriores à Vida, os tempos mais antigos do que a Terra, os ocos do espaço antes que o mundo fosse. Na noite onde nasceram as estrelas comecei a constelar-me de ser. Não há um único átomo da mais longínqua estrela que não colaborasse no meu ser. Porque Afonso Henriques existiu, eu sou. Porque Nun'Álvares combateu, existo. Seria outro - não serei, portanto - se Vasco da Gama não tivesse achado o Caminho da Índia nem Pombal tivesse governado (...) anos. Shakespeare é parte de mim. Para mim trabalhou Cromwell quando arquitectou a Inglaterra. Ao ganhar com Roma, Henrique Oitavo fez-me ser hoje o que eu sou. Para mim pensou Aristóteles e cantou Homero. Neste sentido místico e profundo deveras [... ] , Cristo morreu por mim. Um místico índio que eu não sei se existiu, há 2000 anos colaborou no meu ser actual. Pregou moral Confúncio à minha presença de hoje. O primeiro homem que achou o fogo, o que inventou a roda, o primeiro que ideou a seta - se hoje eu sou eu é porque eles existiram. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 325. Nas grandes horas em que a insónia avulta Como um novo universo doloroso, E a mente é clara com um ser que insulta O uso confuso com que o dia é ocioso, Cismo, embebido em sombras de repouso Onde habitam fantasmas e a alma é oculta, Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo Me farão nada, como frase estulta. Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo. Meu coração, que fala estando mudo, Repete seu monótono torpor Na sombra, no delírio da clareza, E não há Deus, nem ser, nem Natureza E a própria mágoa melhor fora dor. 31-8-1929 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 46. HINO A Pà Vibra do cio subtil da luz, Meu homem e afã! Vem turbulento da noite a flux De Pã ! Iô Pã ! Iô Pã ! Iô Pã ! Do mar de além Vem da Sicília e da Arcádia vem! Vem como Baco, com fauno e fera E ninfa e sátiro à tua beira, Num asno lácteo, do mar sem fim A mim, a mim! Vem com Apolo, nupcial na brisa (Pegureira e pitonisa), Vem com Artémis, leve e estranha, E a coxa branca, Deus lindo, banha Ao luar do bosque, em marmóreo monte, Manhã malhada da âmbrea fonte! Mergulha o roxo da prece ardente No ádito rubro, no laço quente, A alma que aterra em olhos de azul O ver errar teu capricho exul No bosque enredo, nos nós que espalma A árvore viva que é espírito e alma E corpo e mente — do mar sem fim (Iô Pã! Iô Pã!), Diabo ou deus, vem a mim, a mim! Meu homem e afã! Vem com trombeta estridente e fina Pela colina! Vem com tambor a rufar à beira Da primavera ! Com frautas e avenas vem sem conto! Não estou eu pronto? Eu, que espero e me estorço e luto Com ar sem ramos onde não nutro Meu corpo, lasso do abraço em vão, Áspide aguda, forte lião — Vem, está vazia Minha carne, fria Do cio sozinho da demonia. À espada corta o que ata e dói, Ó Tudo-Cria, Tudo-Destrói! Dá-me o sinal do Olho Aberto, E da coxa áspera o toque erecto, E a palavra do Louco e do Secreto, Ó Pã! Iô Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã Pã! Pã, Sou homem e afã: Faze o teu querer sem vontade vã, Deus grande! Meu Pã! Io Pã ! Iô Pã ! Despertei na dobra Do aperto da cobra. A águia rasga com garra e fauce; Os deuses vão-se; As feras vêm. Iô Pã ! A matado, Vou no corno levado Do Unicornado. Sou Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã ! Sou teu, teu homem e teu afã, Cabra das tuas, ouro, deus, clara Carne em teu osso, flor na tua vara. Com patas de aço os rochedos roço De solstício severo a equinócio. E raivo, e rasgo, e roussando fremo, Sempiterno, mundo sem termo, Homem, homúnculo, ménade, afã, Na força de Pã. Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã! Iô Pã! O MESTRE THERION (Aleister Crowley) Tradução de Fernando Pessoa s.d. Presença , nº 33. Coimbra: Jul.-Out. 1931. - . Tradução de Fernando Pessoa do poema de Aleister Crowley. O Mistério da Boca do Inferno [...] UM TESTEMUNHO IMPORTANTE - SOL EM BALANÇA - A TRADUÇÃO (QUASE COMPLETA) DA CARTA MISTERIOSA - ALEISTER CROWLEY ESTAVA EM LISBOA NO DIA 24? Em Novembro do ano passado recebi pelo correio uma circular anunciando a publicação em seis volumes das "Confissões de Aleister Crowley". O nome era-me conhecido, como a toda a gente que vive na civilização, pelo vasto escândalo, erguido pelos jornais ingleses e americanos, que o rodeava. A circular era interessantíssima. Assinei, com sacrifício, a publicação. Em princípios de Dezembro recebi o primeiro volume das "Confissões": só esse e o segundo estão, aliás, ainda publicados. O primeiro volume abre com um horóscopo de Crowley. Como sou astrólogo, estudei atentamente esse horóscopo, e, quando remeti aos editores a importância do volume, pus na minha carta uma nota final: disse lhes que comunicassem ao sr. Crowley que o seu horóscopo estava errado, devendo ele ter nascido um pouco antes da hora que supunha. De aí a dias recebi uma carta de Crowley, agradecendo a minha indicação e achando-a muito aceitável. Assim começaram, à distância, as nossas relações. Quando em fins de Dezembro, recebi o segundo volume, enviei a Crowley três folhetos meus, de versos, em inglês que há bastante tempo publicara. Ao agradecer-mos, Crowley honrou-me com a afirmação de que me desejava conhecer, e de que aproveitaria a primeira viagem propícia, das muitas que fazia, para me vir falar. Assim fez. Tendo que sair de Inglaterra por motivos de saúde, escolheu Portugal — ou, mais propriamente, a Costa do Sol — para estância de repouso. Em 29 de Agosto, recebi um telegrama anunciando que chegava no "Alcântara" e pedindo que o fosse esperar. O "Alcântara" retido em Vigo pelo nevoeiro, chegou a 2 em vez de a 1 de Setembro. Esperei Crowley, e encontrei-o, como se combinara. Datam desse dia as nossas relações pessoais. Crowley vinha acompanhado de uma senhora muito jovem que supus ser inglesa, mas depois soube ser alemã e chamar-se Hanni Larissa Jaeger. Ficaram os dois no Hotel de L'Europe, de onde foram, no dia seguinte, para o Hotel Paris, no Estoril. Encontrei-os (aos dois) só duas vezes depois da chegada — uma vez no Estoril, no dia 7; outra vez em Lisboa, no dia 9. Depois do dia 9 não tornei a ver Miss Jaeger. Em 18 de Setembro recebi uma carta de Crowley, escrita do Hotel Miramar, no Monte Estoril. Dizia me que Miss Jaeger tivera, na noite de 16, um violentíssimo ataque histérico, que havia sobressaltado o Hotel Paris inteiro; que em virtude disso tinha vindo para o Hotel Miramar; mas que, na manhã de 17, Miss Jaeger tinha desaparecido deixando apenas duas linhas a lápis dizendo que "voltava em breve". No mesmo dia 18 Crowley apareceu-me em Lisboa, visivelmente preocupado com o desaparecimento de Miss Jaeger. Disse-me que o que sobretudo o preocupava era a hereditariedade carregadíssima dela, a sua tendência proclamada para o suicídio, e a convicção em que estava de estar sendo perseguida por um mago negro chamado Yorke. Achava pois urgentíssimo descobrir o seu paradeiro. Como me pareceu realmente importante encontrar Miss Jaeger — cuja tendência para o suicídio, com ou sem magos negros, não era tranquilizadora —, fui à Polícia de Segurança, por ser meu amigo o Segundo Comandante, Major Joaquim Marques, e a este expus a situação e pedi que se fizesse o possível para encontrar a desaparecida. Ficaram de a procurar, e sei que de facto a procuraram. Que eu soubesse, não a conseguiram encontrar. Vejo agora, num jornal, que a Polícia (não sei qual) descobriu que ela saíra do país no dia 20, a bordo do vapor "Werra", para a Alemanha, e que era americana e não alemã, tendo até pedido auxílio monetário no Consulado dos Estados Unidos. Registo e duvido. O passaporte dela, como o vi e o tinham no Hotel de L'Europe, era alemão. Crowley ficou em Lisboa, no Hotel L'Europe, desde o dia 18 até ao dia 23, (salvo Domingo, 21, em que foi jogar xadrez a Sintra). Foi durante esta estada em Lisboa que lhe falei mais vezes. No dia 22 disse-me, e no dia 23 repetiu-me, que ia outra vez para Sintra, com que ficara encantado, e que ali se demoraria alguns dias. Despediu-se de mim às dez horas e meia do dia 23, à porta do Café Arcada, no Terreiro do Paço. Nunca mais lhe falei. Quero crer que ainda o vi. No dia 24, vindo da Estrela, de manhã, no carro que desce a Avenida, vi Crowley ou o seu fantasma, dobrar a esquina do Café La Gare para a Rua 1° de Dezembro. No mesmo dia 24, ao atravessar a Praça Duque da Terceira, vi Crowley, ou o seu fantasma, entrar, com outro indivíduo, para a Tabacaria Inglesa. Em nenhum dos casos havia tempo, ou até razão, para lhe falar, nem estranhei muito que viesse a Lisboa um indivíduo que está em Sintra. No dia 25, passando pelo Hotel de L'Europe, perguntei contudo ao porteiro se o sr. Crowley efectivamente estava em Sintra. Respondeu-me que sim, e que se demorava até ao fim da semana. Disse-lhe que perguntava porque tinha visto o sr. Crowley, no dia anterior, nas imediações da Estação do Cais do Sodré; a isto o porteiro respondeu textualmente "é que ele deve ter ido ontem ao Estoril com um amigo que tem em Sintra". Isto, como é de ver, confirmou a minha impressão de cuja justeza não tinha razão para duvidar de ter visto Crowley duas vezes no dia 24. A Polícia Internacional diz que ele passou a fronteira no dia 23. Se assim é, é assim; e nesse caso não foi a ele que eu vi no dia 24. Eu aceitaria de bom grado a indicação da Polícia Internacional; aceitaria, de menos bom grado, a hipótese de que se tratasse de uma mistificação de Crowley, se não fosse uma circunstância contida na carta achada na Boca do Inferno, que me faz reverter, em certo modo, à minha impressão primitiva. A carta, traduzida literalmente, diz o seguinte: L.G.P. Ano 14, Sol em Balança Não posso viver sem ti. A outra "Boca do Infierno" (sic) apanhar-me-á — não será tão quente como a tua. Hisos Tu LiYu. Explico até onde compreendo, e deixo o importante para o fim. "Ano 14" é sem dúvida o ano presente, na cronologia especial adoptada por Crowley, e cuja origem desconheço. "L.G.P.", não sei o que é, mas, pela colocação na carta, deve ser o "nome místico" de Miss Jaeger, ou as iniciais dele. "Hisos" também não sei o que é, mas também pela colocação, suponho ser uma "palavra mágica", entendida só pelos dois. "Tu Li Yu" sei o que é, por Crowley uma vez me ter falado nisso: é o nome de um sábio chinês, que viveu uns três mil anos antes de Cristo e de quem Crowley dizia ser a incarnação presente. E agora o ponto importante: a data é o "Sol em Balança". Ora o Sol entrou no signo de Balança às 18 e 36 minutos do dia 23 de Setembro; nesse signo permanece até cerca de 22 de Outubro. Essa carta foi portanto escrita entre essa hora do dia 23 e a hora em que foi encontrada. Data falsa? Não. Um astrólogo pode pôr datas falsas, como toda a gente, desde que use os algarismos ou formas vulgares. O que nenhum astrólogo, por motivos que não é lícito revelar, ousaria fazer, é falsear uma data escrita em sinais dos astros. Aceito que um astrólogo seja tido por louco, mas então essa superstição é um dos sintomas fatais da sua loucura. Sobre o facto de Crowley assinar a carta, não com o próprio nome, nem com nenhum dos seus nomes ocultos ou maçónicos, mas com o nome representativo do que considera a sua primeira incarnação representativa, ou um seu primeiro "ser essencial", também haveria algumas observações a fazer, e de algum modo viriam para o caso . O que aí está, porém, já basta.» 10-1930 O Mistério da Boca do Inferno - O encontro entre o Poeta Fernando Pessoa e o Mago Aleister Crowley . Victor Belém. Lisboa. Casa Fernando Pessoa, 1995. - . Excerto da reportagem de Augusto Ferreira Gomes. in O Notícias Ilustrado . Lisboa: 5-10-1930. «ALEISTER CROWLEY FOI ASSASSINADO? Um novo aspecto do caso da "Boca do Inferno". Deve estar ainda na memória de todos, porque foi largamente tratado no Diário de Notícias , e ainda mais largamente, com ampla reportagem fotográfica, no Notícias Ilustrado , o estranho caso do desaparecimento em Portugal de Aleister Crowley, o poeta, ocultista e "homem de mistério" inglês, que se sumiu por completo, deixando na Boca do Inferno, onde foi achada em 25 de Setembro, uma carta em linguagem misteriosa, de onde parecia depreender se um suicídio. Mais tarde surgiu, não entre o grande público, mas nos meios restritíssimos dos cafés, a hipótese de uma "blague", cuja base parece ter sido apenas a circunstância insuficiente de o achador da carta ser jornalista e amigo pessoal de Fernando Pessoa, o indivíduo que mais lidara com Crowley aqui em Portugal. Se o suicídio nunca deveras se provou (só o aparecimento do cadáver, como bem pensou a nossa Polícia, o poderia provar), também ninguém pôde provar que houvesse "blague". E o caso, em boa verdade, ficou sempre misterioso. Começou agora a saber-se, ou a constar, mais coisas, vindas de fora de Portugal, e o caso, que parecia em princípio não ter outra explicação senão um suicídio ou uma "blague", tende a assumir aspectos acentuadamente mais sinistros. Há já tempo que se sabe, por exemplo, que logo que constou no estrangeiro o desaparecimento de Crowley, um agente da polícia inglesa apareceu na redacção do Détective , de Paris, a comprar um exemplar de um número de Maio de 1929, onde vinha um extenso artigo sobre Crowley e sobre a sua actividade de espionagem (nunca se soube bem a favor de quem), durante a Grande Guerra. E o que é certo é que o Détective , logo que soube que estava em Paris o sr. Ferreira Gomes, achador da carta na Boca do Inferno, se apressou a entrevistá-lo dedicando uma boa parte do seu número de 30 de Outubro a um extenso relato do acontecimento. Agora constou em Lisboa, sem dúvida por uma daquelas inconfidências que seguem, como sombras, o passo de todos os segredos, que a polícia inglesa tinha chegado à conclusão de que Crowley havia sido assassinado. Ora nós sabíamos que tinha sido o sr. Fernando Pessoa quem tinha estado em contacto mais constante com Crowley, aquando da estada dele em Portugal, e sabíamos também por lho termos ouvido contar que estava em contacto com entidades estrangeiras, amigos e conhecidos de Crowley, que se lhe dirigiram, pedindo informações logo que o desaparecimento constou nos jornais lá de fora. Concluímos, portanto, que, se alguém soubesse alguma coisa do assunto, seria o antigo director do "Orpheu". E, sem medo de "blagues" a ele nos dirigimos. — Não — diz-nos Fernando Pessoa — não há o que v. chama "notícias" do Crowley. Quer o secretário dele, que está em Inglaterra, quer um íntimo amigo dele, que está na Alemanha, continuam a revelar-se, quando me escrevem, desorientados com o caso. Parecem, na verdade, não estar absolutamente convencidos do suicídio, mas também parecem não saber de que é que hão-de estar convencidos. Do que não tenho dúvidas, pelo tom das cartas, é que, se Crowley está vivo algures, um e outro (e são os seus mais íntimos), lhe ignoram por completo o paradeiro. — E você, o que pensa? — Não penso, que é o mais cómodo. A princípio, ao verificar a absoluta autenticidade da carta e a estranheza da sua data e assinatura ("Sol em Balança" e "Tu Li Yu", respectivamente), acreditei em absoluto no suicídio; claramente o disse, porque o acreditava, na Investigação Criminal. Hoje reconheço falhas lógicas no argumento que me serviu para essa conclusão. A data astrológica, provando que a carta foi escrita depois das 6 horas da tarde do dia 23 de Setembro, não prova, na verdade, que Crowley se houvesse suicidado em seguida; e o facto, que me pareceu sinistro, de Crowley assinar com o nome chinês, de que ele uma vez me disse ser "uma das suas incarnações anteriores", não prova nada, pois ele pode bem ter-me mentido, com um propósito antecipado e sabendo as conclusões que eu viria a tirar, ao dar-me, aliás no acaso de uma conversa, essa informação sobre o seu assado longínquo. — Então?... — Então, nada. Também me custa, não sei porquê, acreditar numa "blague". De duas coisas é que eu tenho a certeza. A primeira é de que realmente vi o Crowley no dia 24 de Setembro, quando a Polícia Internacional diz que ele já tinha passado a fronteira. A segunda é que Crowley, não sei com que fim, me ocultou o regresso de Miss Jaeger, em 19 de Setembro. Só pela Polícia e por determinadas entidades estrangeiras é que eu depois vim a saber que ele não só não continuava a ignorar o seu paradeiro, mas até tinha ido com ela ao consulado, onde ela foi buscar auxílio para a sua viagem de regresso à Alemanha. — E ela está na Alemanha? — Está. Ela, afinal, nunca tinha feito mistério da sua partida. Deixou aqui, na Cook e em outros lugares, o seu endereço na Alemanha, para lhe reexpedirem para lá quaisquer cartas que viessem para ela. E já me escreveu duas vezes de lá. Também não parece saber o que é feito do Crowley, a quem, aliás, chama "bandido" numa das cartas. — É verdade! O que é isso que consta da polícia inglesa? — E, rapidamente, indicámos os boatos que corriam sobre conclusões trágicas da investigação daquela polícia. Fernando Pessoa hesita um pouco, mas, depois, diz: — Olhe: isso, assim nitidamente posto, não me tinha constado, mas também não me espanta. Sei com absoluta certeza que estiveram aqui dois agentes investigadores ingleses a tratar do caso Crowley. Logo no dia 29 de Setembro me apareceu aqui, neste escritório, um deles; veio com um disfarce verbal, transparente, tanto que não só eu, mas um amigo meu, inglês, que por acaso aqui estava, imediatamente desconfiámos do "professor de línguas" que nos havia aparecido. Mais tarde soube, de óptima fonte, que este não era um polícia oficial, mas um investigador particular, que aqui estava tratando de outro assunto, e recebeu instruções especiais para tratar deste. Isto explica o seu aparecimento imediato às notícias dos jornais. E também soube depois, por um lapso verbal de um inglês meu amigo, e neste caso informador involuntário, que mais tarde viera aqui um outro indivíduo esse sem dúvida oficial a investigar o mesmo assunto. — E v. sabe alguma coisa das conclusões a que chegaram esses investigadores? — De oficial, nada; nem tenho, excepto por dedução, a certeza da existência dele, que aliás relaciono com essa história do outro agente oficial que visitou o Détective em Paris. Do "professor de línguas" não só tenho a certeza visual e lógica, mas consegui saber, por favor especial, três resultados das suas investigações. Sei que ele conseguiu "levar a sua investigação a bom fim", ou que, pelo menos, supõe que o fez; sei que nem admite a hipótese do suicídio nem a hipótese da "blague"; e sei que, desde o primeiro dia da investigação, me "riscou do caso", com o fundamento, que me deixa perplexo, de que entre Crowley e os jornais havia um elemento de ligação "muito mais íntimo e valioso" do que eu. — Mas uma coisa que não é suicídio nem "blague", o que é que pode ser senão o assassínio? — É, com efeito, o que ocorre; e é por isso que eu lhe disse que, embora sejam novos para mim, não me espantam os boatos sinistros que v. me contou. Posso admitir que quisessem assassinar o Crowley, mas admiti-lo-ia com mais facilidade se pudesse compreender que um indivíduo, antes de ser assassinado, se desse ao trabalho de escrever uma carta (incontestavelmente autentica), dizendo que se suicidava. É ser boa vítima demais... De repente, Fernando Pessoa sorri, leva a mão à carteira, e tira dela um recorte de jornal. — Olhe, já que fala de assassínio, vou-lhe ler um documento curioso. Isto é um recorte do diário inglês Oxford Mail , de 15 de Outubro; é de notar que Crowley era muito conhecido e admirado em Oxford, embora seja Cambridge a sua universidade. O título do artigo é "Aleister Crowley assassinado", "Revelações Espíritas a um Médium de Londres", "Empurrado dos Rochedos Abaixo". É um telegrama ou telefonema de Londres, do correspondente do jornal. É do próprio dia, e diz assim: "Num quarto pequeno e mal iluminado em Bloomsbury, a noite passada, o sr. A. V. Peters, médium londrino, entrou em transe para se obterem algumas indicações sobre o paradeiro do sr. Aleister Crowley, escritor e mago. Do sr. Crowley, cuja projectada conferência sobre "Um Mago Medieval" fora proibida em Oxford, em Fevereiro, não tem havido notícias desde que uma carta dele se encontrou nos rochedos chamados "Boca do Inferno", a 23 milhas de Lisboa, há quinze dias. O sr. Peters declarou que, durante o transe, lhe tinha sido indicado que o sr. Crowley estava morto, e que "tinha sido empurrado dos rochedos abaixo por um agente da Igreja Católica Romana". "Os católicos já anteriormente tinham atentado contra a vida do sr. Crowley", disse o sr. Peters, "e ele estava à espera de ser atacado". Descreveu o lugar como sendo "redondo" como "uma cratera de vulcão", e o sr. Peters acrescentou que "era nas montanhas, ao pé de água". Grande parte da sessão foi ocupada em obter detalhes pessoais sobre o aspecto, ocupações e saúde do sr. Crowley, "para fins de verificação". — E o que se conclui disso? — perguntámos. — Que eu saiba, nada. Pessoalmente, nada tenho contra nem a favor das visões desta ordem. Mas é curioso, não é, depois dos boatos que me trouxe e das conclusões a que ninguém chegou?» 11-1930 O Mistério da Boca do Inferno - O encontro entre o Poeta Fernando Pessoa e o Mago Aleister Crowley . Victor Belém. Lisboa. Casa Fernando Pessoa, 1995. - . Entrevista in Girasol . Lisboa: Nov. 1930. Ter opiniões é a melhor prova da incapacidade de as ter. 1920? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 3. A única realidade para mim são as minhas sensações. Eu sou uma sensação minha. Portanto nem da minha própria existência estou certo. Posso está-lo apenas daquelas sensações a que eu chamo minhas. A verdade? É uma coisa exterior? Não posso ter a certeza dela, porque não é uma sensação minha, e eu só destas tenho a certeza. Uma sensação minha? De quê? Procurar o sonho é pois procurar a verdade, visto que a única verdade para mim, sou eu próprio. Isolar-se tanto quanto possível dos outros é respeitar a verdade. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 220. Sabem todos que a dialéctica platónica decompõe o movimento do raciocínio em três tempos sucessivos — a tese, a antítese, e a síntese. O mesmo íntimo critério preside ao movimento da ode grega, ou de toda ode — a estrofe, em que se determina a ideia; a antístrofe, em que se Ihe opõe a ideia contrária, que a própria posição daquela exige; o epodo, em que se conciliam as duas. Nem sempre assim era na realização da ode; sempre assim deveria ser. Toda opinião é uma tese, e o mundo, à falta de verdades, está cheio de opiniões. Mas a cada opinião compete uma contra‑opinião, seja crítica da primeira, seja complemento dela. Na realidade do pensamento humano, essencialmente flutuante e incerto, tanto a opinião primária, como a que Ihe é oposta, são em si mesmas instáveis; não há síntese, pois, nas coisas da certeza, senão tese e antítese apenas. Só os Deuses, talvez, poderão sintetizar. A estes escritos chamo antíteses porque representam, em sua íntima substância, contra‑opiniões, desmascaramentos, desilusão. À certeza com que cada um pensa o que julga que pensa convém opor a certeza com que se pode pensar o contrário, com que se consegue tornar lógico o absurdo [...] 1915 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 3. PRAGMATISMO O pensamento é um acto individual; a acção é um acto social. Pensar é agir para si ( agir em si). O pensamento é um acto que não se socializa. Pensar que o universo não é real é eliminar o universo para si. É um acto (...). s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 221. FICÇÕES DO INTERLÚDIO I PLENILÚNIO As horas pela alameda Arrastam vestes de seda, Vestes de seda sonhada Pela alameda alongada Sob o azular do luar... E ouve-se no ar a expirar — A expirar mas nunca expira Uma flauta que delira, Que é mais a ideia de ouvi-la Que ouvi-la quase tranquila Pelo ar a ondear e a ir... Silêncio a tremeluzir... s. d. «Ficções do Interlúdio». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 68. 1ª publ. in Portugal Futurista , nº 1. Lisboa: 1917. Dos dois modos de actividade, pelos quais a mente procura conhecer a verdade, o chamado metafísica difere de o chamado ciência — primeiro, quanto à natureza do objecto; segundo, quanto à natureza do método; terceiro, quanto à natureza dos resultados. O objecto da ciência é um dos modos da realidade; o da metafísica é o conjunto da realidade. O método da ciência (...) O resultado da ciência é uma teoria verificável; o da metafísica é inverificável. Um, e outro, é tal qual é pela natureza do objecto, sobre que se emprega. A metafísica, verdadeiramente, é só problema do conhecimento. (1) O que é que conhecemos ou podemos conhecer? (2) Até que ponto? (3) De que maneira? Definição do termo «sentido» — que é o que nos dá a experiência, que nos mostra a realidade. Três sentidos fundamentais: (1) o do espaço, vista, e, em parte, tacto; (2) o do tempo, ouvido; (3) o da vida — tacto, olfacto, gosto, sensações, consciência. Há a acrescentar o sentido do abstracto, que nos dá as ideias como realidades; e o sentido do belo (possivelmente do «valor» — o senso moral e o senso do belo na esfera social), O senso do valor, ou estético, é a última das aquisições humanas. Senso espacial, senso temporal, senso vital, senso intelectual, senso imaginativo. A religião é do senso estético. Época irreligiosa, época inestética. Pouco importa o que o artista individual pensa da religião. A sua imaginação participa da imaginação social ou racional. A evolução vai no sentido de diferenciar o fenómeno social, objecto da ciência da religião, objecto da fé apenas. A religião futura só pode existir se se separar de todo das práticas sociais [...] 1914? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 221. A realidade primordial da vida é a sensação. Mas, como somos conscientes, a nossa atitude superior é de criaturas conscientes das suas sensações, isto é, dá-se não em as nossas sensações directamente, mas em as nossas ideias das nossas sensações. A nossa ideia da nossa sensação passa, pois, a ser o elemento primordial da nossa atitude psíquica superior. Uma ideia não é uma coisa simples, como o não é uma sensação. 1914? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 222. Toda a teoria baseada sobre a ciência tem o defeito capital — que pode não ter a metafísica pura — de ser a ciência variável e já não ser considerado verdade numa época o que o era em época anterior, como aconteceu, por exemplo, com a teoria atómica. Quem sobre a teoria atómica tivesse baseado um sistema metafísico vê‑lo‑ia hoje caído, com a queda, aliás pouco preconcebível, daquela teoria. 1908? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 17. Dormi. Sonhei. No informe labirinto Que há entre a vida e a morte me perdi. E o que, na vaga viagem, eu senti Com exacta memória não o sinto. Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto. A vasta teia, estive-a e não a vi. Obscuramente me desconcebi. 7-7-1930 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 47. 1. Todo o conhecimento vem dos ou pelos sentidos; porém não sabemos quantos são os sentidos (quantos sentidos há). Sentidos chamamos nós àqueles dispositivos da mente pelos quais toma conhecimento (recebe uma impressão de que qualquer coisa existe, e de que essa coisa apresenta determinado aspecto). 2. A razão, ou intelecto, nem percebe, nem cria; tão somente compara, e, por comparação, rectifica e elabora, os dados que os sentidos ministram. A razão, é, portanto, incompetente para determinar uma verdade, por isso que não pode determinar um facto, mas só compará-lo com outros. 3. Os dados de um sentido não podem ser ministrados a quem não possua esse sentido senão por analogia de dados. A essa exposição analógica chama-se um símbolo; e quando o símbolo é de sentido tido por superior para outro tido por inferior, chama-se revelação. O facto de haver um problema não envolve que haja uma solução para ele. O facto de haver um mal não quer dizer que ele possa desaparecer. Não há solução satisfatória para nenhum problema social. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 223. (1) Ontological problem : what is reality? (2) Metaphysical problem : has 2 forms, according to what may be considered reality. If we consider the world we see to be reality, then the met[aphysical] probl[em] is: (...) If not, the met[aphysical] probl[em] becomes: what is the relation between that reality and the world? What is the world, if it be not reality? From the solution of this problem, there follows the solutions of several other problems which depend upon it, for instance, the sociological problem, etc. (3) The moral problem , or the problem of values (Nietzsche) . The problem of relations of body and of soul I consider to be but a particular form of the great problem of matter and of force. This problem is the metaphysical problem. All the problems of science: problems of sociology, of anthropology, of geology and so on, in fine, the problems of cosmology are all parts of the metaphysical problem: The metaphysical problem: (1) Has the world a beginning in time and a limit in space? (2) Is the actual world’s existence necessary or contingent? 1907? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - . There are no past sensations. Memory is a sensation of a sensation. Sensation is always present. (The world is an infinity of presents). Similarly prevision is a sensation of a sensation also future. 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 223. Has space extension? Has colour colour? Does time pass? Is space extended? Colour coloured? Time transitory? 1908? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 19. It is characteristic of the eternal truths which we discuss that they appear as intuitions in all systems, or in almost all; that they in other words are objects of universal comprehension . The differentiation is brought about by the reasoning. s.d.. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 224. O segredo da Busca é que não se acha. Eternos mundos infinitamente, Uns dentro de outros, sem cessar decorrem Inúteis; Sóis, Deuses, Deus dos Deuses, Neles intercalados e perdidos Nem a nós encontramos no infinito. Tudo é sempre diverso, e sempre adiante De [Deus] e deuses vai a luz incerta Da suprema verdade. s.d. “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). - 79. Thus much the world is, it is evident it is; but whether it be so (this) really, or be so (this) ideally, phainoumenal reasoning cannot decide. Let the reader, for the deeper problems of life — nay, for the problems of life itself — consult as metaphysics, where I have started from the Unknown as known, or in the known, to the Unknown in itself. 1908? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 20. I O facto fundamental que nos é permitido observar na existência é o existir nela, como sua essência, um sujeito e um objecto. Não conhecemos outro modo de ser que um em que haja uma coisa que tem consciência e outra coisa de que se tem consciência. Tão impossível é conceber uma existência impensada, insensível, como um pensamento sem objecto. (Tão impossível é, que nos mais [...] sistemas da metafísica Deus se pensa a si, quer dizer é o objecto dos seus pensamentos, objecto ainda assim). Nota: Portanto a crença na realidade absoluta do objecto é puramente metafísica como a de crer na realidade absoluta do sujeito O fundamento da ciência é pois a existência de um sujeito e de um objecto. Pertence ao filósofo das ciências constatar este facto; não Ihe pertence analisá-lo, nem perguntar o que são, em que íntima e absoluta relação se encontra esse sujeito e esse objecto. Investigações dessa ordem pertencem, como veremos, à metafísica. A existência dum sujeito e dum objecto é a fronteira nítida dos países da metafísica e da ciência. Para cá a observação, a experimentação e o raciocínio sobre elas; para lá raciocínio puro. A suprema abstracção da nossa experiência é pois esta: existência dum sujeito e dum objecto e duma relação entre eles. (Assim a ciência não deve nunca ignorar que não pode passar este limite, e que a sua base é um mistério. A ciência não é — devemos lembrar-nos disso sempre — a verdade absoluta, mas a verdade absolutamente relativa). II A natureza íntima do sujeito e do objecto não sabemos nem cientificamente podemos saber. Quanto às suas relações, isto é, às suas relações aparentes alguma coisa podemos investigar, porque essas relações são o mundo. Já o dissemos quando vimos que o mundo consiste de sujeito, objecto, e relações entre eles. Do sujeito e objecto conhecemos apenas a existência, que eles existem. A base dessa realidade é a multiplicidade. Há muitos sujeitos e muitos objectos. (Objectar-nos-ão aqui: «Dizeis que há muitos sujeitos e muitos objectos. Antes dissestes que o supremo absoluto era um sujeito, e um objecto. Ora a realidade dá muitos sujeitos e muitos objectos. A última que os torna em um não é metafísica?» Não. Nós só dizemos um porque não há outro modo de dizer. O mundo implica sujeito e objecto e relação entre estes. Pode ser que esse sujeito seja múltiplo em si mesmo, pode ser que esse objecto também o seja; pode ser que seja um. Mas isso é que pertence à metafísica. Decidir se em si sujeito e objecto é um ou muitos, pertence à metafísica e não à ciência ou à filosofia dela. Reparemos bem, nós não sabemos se há muitos sujeitos; pode ser que seja um sujeito em cada um. Parece evidente que a matéria sendo uma só, o espírito seja também só um. Se a Ciência provar que se pode transformar «matéria» em «força» — o resultado será só em que força e matéria são ambos matéria, Visto que o sujeito não se pode converter no objecto, o exterior no interior. É impossível. Matéria e espírito — eis o dualismo imudável — inconvertível. Não há matéria sem espírito, nem espírito sem matéria. É a frase de Büchner — e se trocarmos força por espírito o [...] já sabemos porque é. Não sabemos como se dão as relações do sujeito e objecto. Sabemos (1) que existem; (2) que são (para nós) fundamentalmente diferentes. 1915? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 224. Eu sou como um que entre o mar que lhe avança Se vê e entre um rochedo alto e (...) Mas com maior horror — ah, quão maior! Perante a morte — aquilo que eu temo Com horror que transcende todo o horror Que os homens hão sentido — lhe aproxima... Coroai-me de espinhos — sou aquele Que mais no mundo tem sofrido. P'ra resignar-se à morte é necessário Não lhe compreender todo o horror, Não lho medir. Perdi A última ilusão que até agora Ninguém perdera, nem o mais audaz Cogitador metafísico — essa que faz Com que o pavor não desça às nossas veias Tornando-se um com a nossa vida. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 170. Sonho sem fim nem fundo. Durmo, fruste e infecundo. Deus dorme, e é isso o mundo. Mas se eu dormir também Um sono qual Deus tem Talvez eu sonhe o Bem — O Bem do Mal que existo. Esse sonho, que avisto, Em mim chamo-lhe o Cristo. Agora o seu ser ausente, Surge o que há de presente Na ausência, eternamente. Não foi em cruz erguida Num calvário da vida, Mas numa cruz vivida Que foi crucificado O que foi, em seu lado, Por lança golpeado. E desse coração Água e sangue virão, Mas a verdade não... Só quando já, descido De aonde foi subido Para ser escarnecido, Seu corpo for baixar Onde se há-de enterrar, O haverei de encontrar. Desde que o mundo foi No mundo à alma dói O que ao mundo destrói. Desde que a vida dura Tem a vida a amargura De ser mortal e impura E assim na Cruz se fez A vida, para que a nós Veja o melhor de nós. O túmulo fechado Aberto foi achado E vazio encontrado. Meu coração também É o túmulo do Bem, Que a vida bem não tem. Mas há um anjo a me ver E a meu lado a dizer Que tudo é outro ser. 2-7-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 145. The path of Ph[ilosophy] is not from the Known to the Unknown, but from the Unknown in the Known to the Unknown in itself. 1908? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 20. Há fenómenos no mundo que sem serem coisas, são reais. Ontem, amanhã são realidades; não são, porém, coisas. A agitação de uma árvore ao vento, não é a árvore, nem é o vento; mas é real. A vida de uma árvore não é a mesma coisa que a árvore, mas é real. Ora estes fenómenos não são coisa. São efeitos. Só os efeitos atingem os nossos sentidos. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 227. Monólogo nas Trevas A qualquer modo todo escuridão Eu sou supremo. Sou o Cristo negro. O que não crê, nem ama — o que só sabe O mistério tornado carne —. Há um orgulho atro que me diz Que sou Deus inconscienciando-se Para humano; sou mais real que o mundo. Por isso odeio-lhe a existência enorme, O seu amontoar de coisas vistas. Como um santo devoto Odeio o mundo, porque o que eu sou E que não sei sentir que sou, conhece-o Por não real e não ali. Por isso odeio-o — Seja eu o destruidor! Seja eu Deus ira! s.d. “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). - 85. Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda, Ó meu guizo de prata, Meu colar de pérolas deixado em cima da cómoda, Minha aliança de ouro em dedos já velhinhos e fieis, Minha cantiga de raparigas ao poente, Ó meu fumo de cigarro, tão inútil e tão necessário, Minha Bíblia para as crianças brincarem, Minha amante que eu queria trazer ao colo como uma filha... Olha, tenho as mãos em febre... Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos... Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles... Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso Porque se eu te tivesse como te quereria ter (Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico) Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder, Nem os olhos secos, muito secos, sob a fronte... Tu não sabes o que tem sido a minha vida!... Tu não sabes que martírio tem sido o meu... Se tu soubesses o que é amar as coisas simples e calmas E não ter jeito para procurar senão as outras coisas! Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia Tenho saudades dela como se não estivesse lá... Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas, Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto... Minha lantejoula, minha casa de bonecas, Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis! Ó meu regimento que passa com a banda à frente, Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços... Ó minha (...) s.d. Poemas de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. (Edição crítica de Cleonice Berardinelli.) Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990. - 325. Álvaro de Campos? Eram varões todos, Andavam na floresta Sem motivo e sem modos E a razão era esta. E andando iam cantando O que não pude ser, Nesse tom mole e brando Como um anoitecer. Em querer cantar quanto Não há nem é e dói E que tem disso o encanto De tudo quanto foi. 1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 150. Crucificado, Não como Cristo numa mera cruz, Mas no mistério do universo. (Sempre Me foi a alma, ao ver a exterior Vaidade monótona do mundo Para ver em cada cousa e abstracto objecto No seu misterioso ali-local de ser, Sempre os meus pensamentos supervistos Como coisas alheias me eram pontes Donde eu partia para perguntar-me Generalidades.) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 171. Ó ambições!... Como eu quisera ser Um pobre bibliófilo parado Sobre o eterno fólio desdobrado E sem mais na consciência de viver. Podia a primavera enverdecer E eu sempre sobre o livro recurvado Sorriria a um arcaico pecado A uma medieval moça e qualquer. A vida não perdia nem ganhava Nada por mim, nenhum gesto meu dava Um gesto mais ao seu profundo E eu lia, a testa contra a luz acesa. Sem nada querer ser como a beleza E sem nada ter sido como o mundo s.d. Poemas de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. (Edição crítica de Cleonice Berardinelli.) Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990. - 367. Álvaro de Campos? Não digas nada! Que hás-me de dizer? Que a vida é inútil, que o prazer é falso? Di-lo de cada dia o cadafalso Ao que ali cada dia vai morrer. Mais vale não querer. Sim, não querer, porque querer é um ponto, Ponto no horizonte de onde estamos, E que nunca atinges nem achas, Presos locais da vida e do horizonte Sem asas e sem ponte. Não digas nada, que dizer é nada! Que importa a vida, e o que se faz na vida? É tudo uma ignorância diluída. Tudo é esperar à beira de uma estrada A vinda sempre adiada. Outros são os caminhos e as razões. Outra a vontade que os fará seus. Outros os montes e os solenes céus. 8-7-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 151. Innateness of the idea of Infinite. The argument against innateness is that we reach infinity, and conceive it (as possible) by multiplication of the finite. Of the finite by what ? By infinity. The idea of infinite is then already supposed. However far we descend, it is still supposed and therefore is innate. What is a thing in itself? It is a thing such as it is without determination by an intellect. But that which is not determined by anything is indeterminate and therefore infinite. The ding an sich has then all the characteristics of the idea . «Things are ideas, their essence being in their perception.» The error of idealists, however, has been to make these ideas belong to the individual «ego», and not, as they do, to the universal «ego», to the atomic mind. By that sin fell Protagoras. Impossible to think without generalities (Socrates). Consider the impossibility of considering a hallucination, a vision as of a nature other than the exterior world. How can we see a thing in Space? How can we through a thing out of ourselves? 2 solutions: If things be real then these are no less reaI since they are seen in the same way. But visions have come to reveal things untrue, hallucinations. Only solution possible in the ideality, of alI things. Characteristics of the world versus visions: 1. A universal «hallucination». 2. A tactile «hallucination». Touch , the primary and essential faculty. Because: 1. There are no cases, nor can there be, of its absence; while there are cases of blindness, of deafness, of inability to smell, of lack of gustation. 2. There are no hallucinations of touch. (Is this true?). 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 227. II SAUDADE DADA Em horas inda louras, lindas Clorindas e Belindas, brandas, Brincam no tempo das berlindas, As vindas vendo das varandas. De onde ouvem vir a rir as vindas Fitam a fio as frias bandas. Mas em torno à tarde se entorna A atordoar o ar que arde Que a eterna tarde já não torna! E em tom de atoarda todo o alarde Do adornado ardor transtorna No ar de torpor da tarda tarde. E há nevoentos desencantos Dos encantos dos pensamentos Nos santos lentos dos recantos Dos bentos cantos dos conventos... Prantos de intentos, lentos, tantos Que encantam os atentos ventos. s. d. «Ficções do Interlúdio». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 69. 1ª publ. in Portugal Futurista , nº 1. Lisboa: 1917. Todos os mistérios do universo São um só: o mistério do universo. Um dia — nunca o sol me-lo trouxera! ( Vi-o esse mistério — claramente Com completa visão e compreendendo Em todo o mistério do mistério Na sua infinidade e concisão! E desde então nunca mais livre fui Mas no horror vivo e (...) Recordando em cada momento essa visão, Desse horror ocupado eternamente Como da vida o calor do sangue Intimamente anseia. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 172. Para quê te falar? Ninguém me irmana Os pensamentos na compreensão. Sou só por ser supremo, e tudo em mim É maior. s.d. “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). - 128. Com teu gesto pintado e exagerado E o teu prolixo modo de sorrir E o teu olhar, sob o torpor copado Da expressão, veludineo em dirigir Tu nada sabes do essencial pecado E uma inocência (...) vem luzir Como uma luz de azeite em descampado No teu gesto ensinado a conseguir. Porque a análise é a vera perversão... O único vício é rebuscar a alma, Dor a dor, sensação a sensação... Tu, a exterior, que mal tens na alma oca? Nada... Ai de nós de quem a vida é calma. E quem é que fica dentro ... (Abre a tua boca!) s.d. Poemas de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. (Edição crítica de Cleonice Berardinelli.) Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990. - 367. Álvaro de Campos? Do fundo do fim do mundo Vieram me perguntar Qual era o anseio fundo Que me fazia chorar. E eu disse: «É esse que os poetas Têm tentado dizer Em obras sempre incompletas Em que puseram seu ser.» E assim com um gesto nobre Respondi a quem não sei Se me houve por rico ou pobre. 14-7-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 153. Ah, não poder dormir (eu não sei como, Não na verdade o quero) eternamente, Acabar não comigo, nem com isto, Mas com tudo, causa, efeito, ser... Ideias vãs que a imaginação Vazia dum momento em quietude Gera sem ilusão, como criança Embriagando-se indolentemente Do cheiro transitório duma flor. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 172. 1ª versão: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.108). ( after useless discussion) Ah qualquer cousa, Ou sono ou sonho, sem doer isole O meu já isolado coração! Se as palavras que eu diga nunca podem Levar aos outros mais do que o sentido Que essas palavras neles têm, e [existo] [Por] fora do que digo, oculto nele Como o esqueleto nesta carne minha, Invisível estrutura do visível, Diferente e essencial... Cai sobre mim, apagamento meu! Querer querer, inútil pedra ao mar! Saco p'ra colher vento, cesto de água, Caçador só do uivar dos lobos longe... s.d. “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). - 109. Quando os povos da Dalmácia Fizeram guerra aos da Grécia Saiu muita gente sécia Da casa do rei da Trácia. Houve disto grande falácia, Lá para as bandas da Fenícia, Porém temendo malícia, De gente tão pouco sócia, Lá se foram para a Beócia Para se curar da icterícia. s.d. Poemas de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. (Edição crítica de Cleonice Berardinelli.) Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990. - 368. Álvaro de Campos? Tenho em mim como uma bruma Que nada é nem contém A saudade de coisa nenhuma, O desejo de qualquer bem. Sou envolvido por ela Como por um nevoeiro E vejo luzir a última estrela Por cima da ponta do meu cinzeiro. Fumei a vida. Que incerto Tudo quanto vi ou li! E todo o mundo é um grande livro aberto Que em ignorada língua me sorri. 16-7-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 154. A nossa época não é para longos poemas, pois o sentido da proporção e construção são qualidades que não possuímos. A nossa época é de poemetos, curtas produções líricas, sonetos e canções. A nossa sobrevivência nas eras vindouras assumirá muito provavelmente a forma de Cancioneiros, como aqueles onde se guardam e sobrevivem os trovadores da Provença e os poetas cortesãos do reinado de D. Dinis. Tudo quanto ficará de várias épocas da nossa poesia será (à excepção de grandes nomes como Dante ou Milton), para cada nação, uma colectânea de poemas como a Antologia Grega, possivelmente [?] mais a concretização de um espírito geral do que a soma de numerosos poemas escritos por muitos indivíduos — afinal (...) uma publicação anónima. Mesmo poemas como Adonais talvez não sobrevivam: os sonhos não sobrevivem. Prometheus Unbound perderá o seu fulgor, e na antologia inglesa do futuro só um ou dois poemas dele extraídos falarão de Shelley à eternidade. O tempo depressa despacha quem o despacha à pressa. Saturno devora os seus próprios filhos, não só no sentido de consumir ele próprio o que produz, mas também no de consumir os que são seus filhos na medida em que mantêm o olhar fixado na sua época e não pedem uma insujeição abstracta ao tempo (a era jupiteriana da alma), ou o lugar imutável da Beleza imortal que Platão amava. Há uma nota de imortalidade, uma música de permanência, subtilmente entretecida na substância de alguns ritmos e nas melodias de alguns poemas. Há um ritmo de outra linguagem em que o ouvido atento pode descortinar a nota da confiança de um deus na sua divindade. Esta nota soa nos sonetos de Milton, em Lycidas ; não soa nos de Shakespeare, mesmo quando falam de algo parecido com ela. Há um equilíbrio, uma calma, uma liberdade que não habitam a febre da inspiração. As sibilas e as profetisas é que são inspiradas, não os próprios Deuses. No Moïse de Vigny, no Booz Endormi de Hugo, ecoa esta nota. De todos os poetas franceses, Vigny é o que anda mais próximo dela, embora não a logre percutir com muita frequência. As épocas vindouras terão demasiados poetas de (...) entre os quais escolher. Não pode sobreviver demasiado. “A posteridade”, disse Faguet, “só gosta de escritores concisos”; isto é verdade, e também de um número conciso de escritores. Demasiado é muito pouco. Há um provérbio infantil segundo o qual não se pode comer um bolo e ficar com ele à mesma; e um outro [...] que não se pode servir ao mesmo tempo Deus e Mammon. Não se pode servir simultaneamente a nossa época e todas as épocas, nem escrever o mesmo poema para deuses e homens. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 284 t. 41a. Trad.: Jorge Rosa Ah que nunca a verdade definida Mate a alma, que vive de não tê-la! Talvez que nunca, ó negra sperança linda!, A alma encontre o horror definitivo Da verdade absoluta, onde se acabe Que ser, que ter, que procurar. Cada Deus seja falso e, onde é, supremo; Sol centro dum sistema de verdades E sistemas solares de ilusão No espaço da verdade sem limite E sem definição — inexistente Para quanto é o sujeito. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 172. Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem achei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é, Atento ao que sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem, Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou. Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser O que segue não prevendo, O que passou a esquecer. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Releio e digo: «Fui eu?» Deus sabe, porque o escreveu. 24-8-1930 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 48. SER: Sou assim a íntima essência Do suspiro, do lamento Do profundo pensamento Que há por nome «Existência». Mais vago e maior eu sou, E quem melhor pensa bem; Eu assim tremendo encontro O ponto final do Além. Nada digo e digo tudo Com meu nome mudo frio; Causa à alma um arrepio Meu simbolizar de tudo; E o pensamento estremece Dum íntimo horror ingente Por que além de mim conhece Que nada há e nada sente. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 77. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). CANTO A LEOPARDI Ah, mas da voz exâmine pranteia O coração aflito respondendo: «Se é falsa a ideia, quem me deu a ideia? Se não há nem bondade nem justiça Porque é que anseia o coração na liça Os seus inúteis mitos defendendo? Se é falso crer num deus ou num destino Que saiba o que é o coração humano, Porque há o humano coração e o tino Que tem do bem e o mal? Ah, se é insano Querer justiça, porque na justiça Querer o bem, para que o bem querer? Que maldade, que [...] , que injustiça Nos fez para crer, se não devemos crer? Se o dúbio e incerto mundo, Se a vida transitória Têm noutra parte o íntimo e profundo Sentido, e o quadro último da história, Porque há um mundo transitório e incerto Onde ando por incerteza e transição, Hoje um mal, uma dor, e [...] , aberto Um só dorido coração?» [...] Assim, na noite abstracta da Razão, Inutilmente, majestosamente, Dialoga consigo o coração, Fala alto a si mesma a mente; E não há paz nem conclusão, Tudo é como se fora inexistente. 1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 155. Jamais houve alma mais amante ou terna do que a minha, alma mais repleta de bondade, de compaixão, de tudo o que é ternura e amor. Contudo, nenhuma alma há tão solitária como a minha — solitária, note-se, não mercê de circunstâncias exteriores, mas sim de circunstâncias interiores. O que quero dizer é: a par da minha grande ternura e bondade, entrou no mau carácter um elemento da natureza inteiramente oposto, um elemento de tristeza, egocentrismo, portanto de egoísmo, produzindo um efeito duplo: deformar e prejudicar o desenvolvimento e a plena acção interna daquelas outras qualidades, e prejudicar, deprimindo a vontade, a sua plena acção externa, a sua manifestação. Hei-de analisar isto; um dia hei-de examinar melhor, destrinçar, os elementos que constituem o meu carácter, pois a minha curiosidade acerca de tudo, aliada à minha curiosidade por mim próprio e pelo meu carácter, conduz a uma tentativa para compreender a minha personalidade. 30-10-1908? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 6. Trad.: Jorge Rosa Mas ah! se a morte, sem ser nada ou noite, Não explicasse nada, e eternamente Vagabundos conscientes do erro eterno, Nossas presenças pávidas girassem Na eterna circunferência do mistério Exuis do abstracto centro! Ah! Quem nos diz Que aquele horror, que toda a vida fita E não quer ver, nos não conduz a outra Espécie de vida, sem ser esta salvo Em não saber mais nada da verdade? Quem diz que quando a vida cessa acaba A ilusão, ou que a morte, libertando Da limitada personalidade, Em outra nos lança, sempre longe Do ignoto ponto onde já nada é falso? Ah! quão melhor não fora, como as aves Ou animais dos montes e das selvas Não conhecer de longe cousa alguma! Porque mistério é que as estrelas fixas Nos ergueram do chão, e a pé puseram, Instável, o seguro animal certo Na sua marcha olhando para o chão? Passam os Deuses, e o próprio uno Deus Não dura. As crenças como nuvens deixam Os homens, e o mistério permanece. Será porém melhor que encontrássemos A verdade, ou que não a achemos nunca? Quem caberá melhor ou a (...) Ou à felicidade? Canto das aves, som dos rios, som Das árvores movendo-se na calma, Quando distais do que eu mal sei que sou! Qual é diferença entre nós que eu (...) 13-6-1917 Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 173. EXISTÊNCIA: Vaga noção abstracta, Inda sou mais que tu! Em mim é visto nu (E compreende-o ninguém) O Mistério     (...)      cru Que mundo e vida têm. Sou nome vago e simples Mas menor verdade sou Ninguém já me abraçou (Compreendeu-me ninguém) Meu nome quem achou Não pôde ir mais além. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 78. Teu perfil, teu olhar real ou feito, Lembra-me aquela eterna ocasião Em que eu amei Semíramis, eleito Daquela plácida visão. Amei-a, é claro, sem que o tempo e espaço Tivesse nada com o meu amor Por isso guardo desse amor escasso O meu amor maior. Mas, ao olhar-te, lembro, e reverbera Quem fui em quem eu sou. Quando eu amei Semíramis, já era Tarde no Fado, e o amor passou. Quanta perdida voz cantou também Nos séculos perdidos que hoje são Uma memória irreal do coração! Quanta voz viva, hoje de ninguém! 21-7-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 157. O meu intenso sofrimento patriótico, o meu intenso desejo de melhorar o estado de Portugal, provocam em mim — como exprimir com que ardor, com que intensidade, com que sinceridade !— mil projectos que mesmo se realizáveis por um só homem, exigiriam dele uma característica puramente negativa em mim — força de vontade. Mas sofro — até aos limites da loucura, juro-o — como se tudo eu pudesse fazer sem, no entanto, o poder realizar, por deficiência da vontade. É um sofrimento horrível que, afirmo-o, me mantém constantemente nos limites da loucura. E, depois, incompreendido. Ninguém suspeita do meu amor patriótico, mais intenso do que o de todos aqueles a quem encontro ou conheço. Não o traio; como sei, então, que não o possuem? Como posso dizer que a sua preocupação não iguala a minha? Porque, nalguns casos — na maior parte, até — o seu temperamento é inteiramente diferente; porque, nos outros casos, a sua maneira de falar revela a ausência de, ao menos, um patriotismo nominal. O fervor, a intensidade — terna, revoltada e ardente — do meu, jamais os exprimirei, [...] Além dos meus projectos patrióticos —escrever República de Portugal aqui uma revolução, escrever panfletos portugueses, dirigir a publicação de obras literárias nacionais mais antigas, fundar um periódico, uma revista científica, etc. — outros planos em que me consumo na necessidade de serem em breve postos em prática [...] conjugam-se para produzir um impulso excessivo que me paralisa a vontade. O sofrimento que isto produz não sei se poderá ser definido como situado aquém da loucura. A tudo isto acrescentem-se ainda outros motivos de sofrimento, alguns físicos, mentais outros, a susceptibilidade a toda a coisa comezinha que possa ser dolorosa (ou que o não seria, até, para um homem normal), acrescentem-se ainda outras coisas, complicações, dificuldades de dinheiro — junte-se isto tudo ao meu temperamento fundamentalmente desequilibrado e talvez se possa suspeitar qual a intensidade do meu sofrimento. 30-10-08 Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 7. Trad: Jorge Rosa Mas o horror supremo do mistério É que veja a Verdade, e o que temo Com o que mais em mim pode temer, É encontrar a Verdade face a face E ter em mim o horror de saber Tudo; Porque o horror de saber tudo é o extremo (...) O que ainda (...) À nossa vida é o não se saber s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 174. SUSPIRO DO MUNDO: Tremo de medo: Eis o segredo aberto. Além de ti Nada há, decerto Nem pode haver: Além de ti Que não tens essência Nem tens existência E te chamas só SER. Oh Nada pode haver! s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 78. 1ª versão: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.88). Como é por dentro outra pessoa Quem é que o saberá sonhar? A alma de outrem é outro universo Com que não há comunicação possível, Com que não há verdadeiro entendimento. Nada sabemos da alma Senão da nossa; As dos outros são olhares, São gestos, são palavras, Com a suposição de qualquer semelhança No fundo. 1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 159. a morte, a incompreendida Revelação do mais que incompreendido s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 174. Nos vastos céus estrelados Que além de espaços estão, Sob a regência de fados Que ninguém sabe o que são, Há sistemas infinitos, Sóis centros de mundos seus, E cada sol é um Deus. Eternamente excluídos Uns dos outros, cada um É universo. Mundo dentro de mundos Infinidades variadas, Abismos muitos, sem fundo (...) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 79. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.79). III PIERROT BÊBADO Nas ruas da feira, Da feira deserta, Só a lua cheia Branqueia e clareia As ruas da feira Na noite entreaberta. Só a lua alva Branqueia e clareia A paisagem calva De abandono e alva Alegria alheia. Bêbeda branqueia Como pela areia Nas ruas da feira, Da feira deserta, Na noite já cheia De sombra entreaberta. A lua branqueia Nas ruas da feira Deserta e incerta... s. d. «Ficções do Interlúdio». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 70. 1ª publ. in Portugal Futurista , nº 1. Lisboa: 1917. A lâmpada nova No fim de apagar Volta a dar a prova De estar a brilhar. Assim a alma sua Deveras desperta Quando a noite é nua E se acha deserta. Vestígio que ergueu Sem ser no lugar De onde se perdeu... Nasce devagar! 3-8-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 160. A primeira nutrição literária da minha meninice foi a que se encontrava em numerosos romances de mistério e de aventuras horríveis. Pouco me interessavam os livros ditos para rapazes e que relatam vivências emocionantes. Não me atraía a vida saudável e natural. Anelava, não pelo provável, mas pelo incrível, nem sequer pelo impossível em grau, mas sim pelo impossível por natureza. A minha infância decorreu serena (...), recebi uma boa educação. Mas, desde que tenho consciência de mim mesmo, apercebi-me de uma tendência nata em mim para a mistificação, para a mentira artística. Junte-se a isto um grande amor pelo espiritual, pelo misterioso, pelo obscuro, que, ao fim e ao cabo, não era senão uma forma e uma variante daquela outra minha característica, e a minha personalidade será completa para a intuição. 1906? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 12. Trad: Jorge Rosa Não sei de que maneira a sucessão Dos dias tem achado este meu ser Que a si mesmo se tem ignorado. Não sei que tempo vago atravessei Nos breves dias de febril ausência De parte do meu ser. Agora Não sei o que há em mim que sobrenada A ignorada cousa que perdi. Cansado já doutra maneira vaga, Sinto-me diferentemente o mesmo; Não sei detidamente o que mudou Em mim, nem sei o que de mim me resta A não ser esta vaga e horrorosa Sufocação da existência inerte Num pavor. Mas a mesma já não é. Sinto pavor, mas já não é o mesmo Pavor, nem é a mesma solidão D'outrora, a solidão em que me sinto. Queimei livros, papéis, Destruí tudo por ficar bem só, Por quê não sei, não sabê-lo desejo. Resta-me apenas um desejo ermo De amar e de sentir, mas não me sinto Educado no ser ou natural Ao sentimento, à emoção, à vida, Mas alheado (...) e negramente E orgulhoso mais por ser distante Do que distante por ser orgulhoso. Pesado fardo da grandeza! Horror! Não a reis ou a príncipes lhes pesa E o responsável ânimo e(...) Como a mim o existir. Pesa-me mais Do que dantes, mas — como o sei? Menos misteriosamente, menos Intimamente. Estou mais apagado E a minha antiga dor imorredoura Mais escondida dentro em mim de mim E eu menos, não sei como, isolado Só de mim mesmo, perdido (...) O último abrigo, horroroso e  (...) Mas com tecto. Como que nu me sinto e exilado Entre coisas estranhas, (...) Só que o horror profundo doutro tempo Já me deixou. Pensava tudo estranho, Hoje, mais vaga — menos (...) -mente Eu sinto tudo estranho, sinto-o, sinto-o Fora do pensamento não sei como E mais perto do mundo vagamente. Neste atordoamento nasce em mim Qualquer coisa de negro e estranho e novo Que pressinto com medo, e que, outrora, Arredado de mim dentro em minha alma, Eu pressentia sem o pressentir, Sem consciência consciente dela. Como a linha de negro num poente Se ergue em negra nuvem e enegrece E cresce, levantando-se e obumbrando O firmamento, sinto despontar Prenúncios de tormento e confusão Num silêncio que insiste dentro em mim. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 83. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.105). Vaga saudade, tanto Dóis como a outra que é A saudade de quanto Existiu aqui ao pé. Tu, que és do que nunca houve, Punges como o passado A que existir não aprouve. 3-8-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 161. Eu era um poeta impulsionado pela filosofia, não um filósofo dotado de faculdades poéticas. Adorava admirar a beleza das coisas, descortinar no imperceptível, através do que é diminuto, a alma poética do universo. A poesia da terra nunca morre. É possível dizermos que as eras transactas foram mais poéticas, mas podemos dizer (...) Há poesia em tudo — na terra e no mar, nos lagos e nas margens dos rios. Há-a também na cidade — não o neguemos — facto evidente para mim enquanto aqui estou sentado: há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia na trepidação dos carros nas ruas em cada movimento ínfimo, vulgar, ridículo, de um operário que, do outro lado da rua, pinta a tabuleta de um talho. O meu sentido interior de tal modo predomina sobre os meus cinco sentidos que — estou convencido — vejo as coisas desta vida de modo diferente do dos outros homens. Existe para mim — existia — um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato. Encontro toda uma plenitude de sugestão espiritual no espectáculo de uma ave doméstica com os seus pintainhos que, com ar pimpão, atravessam a rua. Encontro um significado mais profundo do que os terrores humanos no aroma do sândalo, nas latas velhas jazendo numa montureira, numa caixa de fósforos caída na valeta, em dois papéis sujos que, num dia ventoso, rolam e se perseguem rua abaixo. E que poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus em plena consciência da sua queda, atónito com as coisas. Como de alguém que conhecesse a alma das coisas e se esforçasse por rememorar esse conhecimento, lembrando-se de que não era assim que as conhecia, não com estas formas e nestas condições, mas de nada mais se recordando. 1910? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 14. Trad: Jorge Rosa Tenho pena e não respondo. Mas não tenho culpa enfim De que em mim não correspondo Ao outro que amaste em mim. Cada um é muita gente. Para mim sou quem me penso, Para outros — cada um sente O que julga, e é um erro imenso. Ah, deixem-me sossegar Não me sonhem nem me outrem. Se eu não me quero encontrar, Quererei que outros me encontrem? 26-8-1930 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 50. Meu querido José Régio: Muito lhe agradeço a sua carta de agora, assim como uma de Janeiro, que não exigia resposta, salvo o agradecimento, que é este. Não sei se serei eu, se o Álvaro de Campos, se ambos, quem terá opiniões sobre o cinema. Alguma receberá - pode contar com isso. Enviarei, na mesma ocasião, qualquer escrito. Deverei dizer a segunda vez o que excusava de ter dito a primeira - que podem sempre contar comigo, ou dizendo melhor, e com fabrico de termo plural, comigos? Sempre e muito seu, (a) Fernando Pessoa 14-3-1929 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 428. Sinto horror À significação que olhos humanos Contêm; À prescrutação que dum ser fazem Revelado de gestos e palavras As almas. Não quero entregar-lhes, pois, Em desmando ou abertura do meu ser O que em mim me faz meu. Sinto preciso Ocultar o meu íntimo aos olhares E aos prescrutamentos que olhares mostram; Não quero que ninguém saiba o que sinto, Além de que o não posso a alguém dizer, Mais há que aquilo que dizer não se pode. Não se pode dizer porque não se pode. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 85. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.121). Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou. Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo. Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado. Todas as coisas são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido. O resultado é horror, mistério, um medo por demais inteligente. Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) — por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror da e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida do auto-domínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito. Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil inter-associacões, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. Sei pintar mas nunca pintei, sei compor música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo. O meu carácter é tal que detesto o começo e o fim das coisas, pois são pontos definidos. Aflige-me a ideia de se encontrar uma solução para os mais altos, mais nobres, problemas da ciência, da filosofia; a ideia que algo possa ser determinado por Deus ou pelo mundo enche-me de horror. Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção — enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber. Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro que haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus — mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje. 1910? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 17. Trad: Jorge Rosa Neo-paganismo (Neo-naturalismo) Ricardo Reis (ou António Mora): O Regresso dos Deuses, e outros estudos neo-pagãos. Alberto Caeiro: O Guardador de Rebanhos. O Pastor Amoroso. António Mora: Introdução ao estudo da metafísica. Ricardo Reis: Odes, liv. I a IV Sensacionismo Álvaro de Campos: Arco de Triunfo - cinco odes. («Ao mestre - Alberto Caeiro») Interseccionismo Mário de Sá-Carneiro: A Confissão de Lúcio. Mário de Sá-Carneiro: Dispersão. Mário de Sá-Carneiro: Céu em fogo. Mário de Sá-Carneiro: Indícios de ouro. Alfredo Pedro Guisado: Distância. Alfredo Pedro Guisado: Escadaria. Fernando Pessoa: Episódios. Fernando Pessoa: Teatro estático. Fernando Pessoa: Livro do Desassossego. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 431. O que são os graus místicos, mágicos e alquímicos? O que é o subgrau de Senhor do Limiar? (A confusão psíquica em Cagliostro, Blavastzky, Crowley, é isso?) É o uso da magia uma tentação a evitar? Ou uma força? Caeiro é um acto mágico? E outros assim? A criação artística (ou filosófica) é um acto alquímico (ou mágico?) s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 246. Diferentemente o mesmo Ligado a um meu passado estranho e vago Por um negrume e continuar de dor. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 85. APONTAMENTOS PESSOAIS Deixei para trás o hábito de ler. Já nada leio a não ser um ou outro jornal, literatura ligeira e ocasionalmente livros técnicos relacionados com o que porventura estudo e em que o simples raciocínio possa ser insuficiente. O género definido de literatura quase o abandonei. Poderia lê-lo para aprender ou por gosto. Mas nada tenho a aprender, e o prazer que se obtém dos livros é do género que pode ser substituído com proveito pelo que me pode proporcionar directamente o contacto com a natureza e a observação da vida. Encontro-me agora em plena posse das leis fundamentais da arte literária. Shakespeare já não me pode ensinar a ser subtil, nem Milton a ser completo. O meu intelecto atingiu uma flexibilidade e um alcance tais que me permitem assumir qualquer emoção que deseje e penetrar à vontade em qualquer estado de espírito. Quanto àquilo por que sempre se luta com esforço e angústia, ser-se completo, não há livro que valha. Isto não significa que eu tenha sacudido a tirania da arte literária. Aceito-a apenas sujeita a mim próprio. Há um livro de que ando sempre acompanhado — As Aventuras de Pickwick. Li várias vezes os livros de Mr. W. W. Jacobs. O declínio do romance policial fechou para sempre uma das minhas portas de acesso à literatura moderna. Deixei de me interessar por pessoas que são apenas inteligentes — Wells, Chesterton, Shaw. As ideias desta gente são das que ocorrem a muitos que não são escritores; a construção das suas obras é inteiramente um valor negativo. Tempo houve em que eu lia apenas pela utilidade da leitura, mas agora compreendo que há pouquíssimos livros úteis, mesmo os que versam assuntos técnicos que me possam interessar. A sociologia é [...]; quem pode tolerar tal escolástica na Bizâncio de hoje? Todos os meus livros são de consulta. Leio Shakespeare apenas em relação com o Problema de Shakespeare; o resto já o sei. Descobri que a leitura é uma forma servil de sonhar. Se tenho de sonhar, porque não sonhar os meus próprios sonhos? [...] 1910? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 22. Trad: Jorge Rosa Pouco, logo que seja muito; muitos, logo que haja cada; caos, para que surja tudo. Mário Saa: Poema. Raul Leal: A Vertigem-Besta [ ? ] . Fernando Pessoa: Além-Deus. Almada: (prosa). Sá-Carneiro: (poema ou poemas). Caranguejola ou Aquele Outro . Luís de Montalvor: (poemas). (ou um poema só). Álvaro de Campos. (Soneto antigo). ? Caeiro. 1. Mário Saa: Poema. 2. Raul Leal: A Vertigem-Besta [ ? ] . 3. Sá-Carneiro: Caranguejola ou Aquele Outro . 4. Diniz da Silva: Loucura. 5. Um Soneto Clássico. 6. O Grande Soneto de Ângelo de Lima. 7. O Regresso dos Deuses - António Mora. ? 8. António Botto: Canção (Magnólias). 9. Almada: Prosa. 10. Álvaro de Campos: (…) 11. Ricardo Reis. 12. Caeiro. Confluem nesta revista as 3 correntes, que importam, do pensamento português: os transcendentalistas, os pagãos, e os sensacionistas. Os primeiros crêem que ser é exceder-se; os segundos que ser é (…); os terceiros (…) Todos são bem portugueses, porque todos são excessivos. 1. Mário Saa: Poema. 2. Raul Leal: A Vertigem-Besta [ ? ] . 3. F. Pessoa: Além-Deus, ou Amon-Ra. 4. Almada: Prosa. 5. Sá Carneiro. 6. Ant. Mora. 7. Caeiro. 8. R. Reis. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 432. Segundo António Mora (Prolegómenos, cap. 3), a realidade é a «primeira dimensão», e é representada geometricamente pelo ponto, aliás irrepresentável; a segunda dimensão isto é, a 1ª mais a 2ª é a «vida» (?) já representável, embora falsamente, em geometria, pela linha; a terceira dimensão é a «espacialidade», representada em geometria pelo plano; a quarta dimensão é (...) 1 dimensão         - ponto         - realidade                         - alma 2 dimensão         - linha          - movimento (tempo)         - sentimento 3 dimensão         - plano         - espaço         - representação 4 dimensão         - figura        - espaço-        tempo 5 dimensão         - Para António Mora, a alma é imortal porque é ante-temporal, e a alma é menos real que o corpo «tanto que se não vê» (e esta frase parece de Caeiro). O corpo, contudo, morre e a alma não morre, porque quanto é mais real dura menos. Aliás, quanto mais complexo um corpo mais facilmente se dissocia. Ponto        Realidade        Consciência (ou alma) Linha        Tempo            Sensação (consciência num sentido) Plano        Espaço            Representação Figura       Tempo-espaço Como        Coexistência s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 247. PLANO DE VIDA Um plano geral para a vida deve implicar, antes de mais, alcançar-se qualquer forma de estabilidade financeira. Marquei como limite para essa coisa humilde a que chamo estabilidade financeira cerca de sessenta dólares—quarenta para o necessário, e vinte para as coisas supérfluas da vida. A forma de o alcançar é adicionar aos trinta e um dólares dos dois escritórios (P & FF) vinte e nove dólares de proveniência a determinar. Em rigor, para viver apenas, cinquenta dólares bastariam, pois, tomando trinta e cinco como base necessária, quinze já davam para o resto. * A coisa essencial que vem logo a seguir é residir numa casa com bastante espaço, espaço quanto a divisões e divisões com os requisitos necessários, para arrumar todos os meus papéis e livros na devida ordem; e tudo isto sem grande possibilidade de me mudar dentro de pouco tempo. Parece que o mais fácil seria alugar eu próprio uma casa — à base de, suponhamos, oito ou, quando muito, nove dólares — e viver lá à vontade, combinando que me levassem o jantar (e o pequeno-almoço) todos os dias, ou coisa parecida. Mas seria este sistema absolutamente conveniente? Substituir, no tocante à ordem dos papéis, a minha caixa grande por caixas mais pequenas contendo os papéis por ordem de importância. Na caixa grande e na outra em A. S. ficariam só os jornais e revistas que guardo. * Alugada uma casa, qual o mobiliário? Não seria melhor combinar de novo as coisas com S? De modo a alcançar isto de que preciso, mudando-nos nós, se necessário, para tanto? * Seja como o Destino quiser. 1913? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 2. Trad: Jorge Rosa ATHENA (supondo que é revista, como o Mercure ): (500 rs) 1. António Mora - Alemanha. 2. Alberto Caeiro - O G[uardador] de R [ ebanhos ] . 3. (Leonardo Coimbra - O Pensamento Criacionista). 4. Literatura da guerra Estas páginas são destinadas a reunir todos os elementos dispersos da cultura nacional superior. São abertas a todas as teorias, logo que estas sejam originais e originalmente postas. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 433. The creation of Caeiro and of the discipleship of Reis and Campos seems, at first sight, an elaborate joke of the imagination. But it is not. It [is] a great act of intellectual magic, a magnum opus of the impersonal creative power. I need all the concentration I can have for the preparation of what may be called, figuratively as an act of intellectual magic - that is to say, for the preparation of a literary creation in a, so to speak, fourth dimension of the mind. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 248. METAFÍSICA DO DR. NABOS - Morrer é recordar-nos de que nos esqueceu alguma coisa. - A ideia de Deus é um pano de teatro, (...) - Morrer é morrermos. (O horror de morrer é o de morrermos) - Quem sabe se duas paralelas se não encontram quando a gente as perde de vista? s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 128. Memórias de pensar vivem em mim Desordenadamente desconexas Num atordoamento do meu ser. A lucidez horrorosa d'outrora (E outrora era ontem) já não tenho; Mas sinto-a, não sei como, nesta surda Nocturna confusão aglomerada De (...) e porções de pensamento. Como se um horror (...) que no dia Enchesse de turvo a terra em sol Não acabasse, mas confusamente Rumorejasse silenciosamente Na perturbada paz da noite. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 85. Passam na rua os cortejos Das pessoas existentes. Algumas vão ter ensejos, Outras vão mudar de fato, E outras são inteligentes. Não conheço ali ninguém. Nem a mim eu me conheço. Olho-os sem nenhum desdém. Também vou mudar de fato. Também vivo e também esqueço. Passam na rua comigo, E eu e eles somos nós. Todos temos um abrigo, Todos mudamos de fato, Ai, mas somos nus a sós. 26-8-1930 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 51. Uma causa Infinita necessariamente produzirá um efeito infinito. Como o efeito, porém, se opõe à causa, será infinito de outra maneira. O nosso universo, porém, é-nos dado como finito e temporal, pois, se o víssemos infinito e eterno, não o poderíamos ver. O mundo externo, pois, como nós o temos e nele vivemos, não pode ser efeito de uma Causa Infinita, mas, tão somente, de uma das manifestações ou criações finitas da Causa Infinita. Temos, pois, que a Causa Infinita é criadora da Realidade, que é infinita, e que uma Causa Finita é criadora do Universo. O Criador do Mundo não é o Criador da Realidade: em outras palavras, não é o Deus inefável, mas um Deus-homem ou Homem-Deus, análogo a nós mas a nós superior. Gradação infinita dos seres... O universo não pode ser infinito, porque infinito é só a infinidade. O universo não pode ser eterno, porque eterna é só a eternidade. Não pode haver espaço infinito e tempo infinito pois não pode haver dois infinitos. Espaço e tempo são dois atributos ou manifestações do infinito, que o simulasse sem o ser. Parecem-nos infinitos, parece-nos que são infinitos — são porém somente indefinidos. (As duas Colunas do Átrio.) No tempo e no espaço decorre a Matéria só no tempo a Alma; no infinito puro, Deus. Este Infinito é, porém, só Deus manifesto — não manifesto como mundos senão como Deus. Para além, Supremo deveras, está o Deus Imanifesto — a ausência até do Infinito. E isto representa-se: o Deus Manifesto por um Círculo; o Deus Imanifesto por um ponto no centro do Círculo e isto é, em astrologia escrita, o símbolo do sol, que é a sombra de Deus. * A dupla essência, masculina e feminina, de Deus — a Cruz. O mundo gerado, a Rosa, crucificada em Deus. A criação não é uma emanação, mas mais propriamente, uma limitação, uma negação de Deus por si mesmo. Mais certo será dizer que o universo é a negação de Deus, ou a morte de Deus Como porém a negação ou morte de Deus é necessariamente divina, o universo contém um elemento divino que [é?] a Lei — elemento ausente, por assim dizer, em abstracto. O único milagre que Deus fez é o universo. À Lei, Fatum, elemento abstracto de Deus e pelo qual Deus está desencarnadamente manifesto do mundo, se opõe o Cristo que é o desejo do Regresso a Deus, o desejo de Liberdade, de não haver Fatum. s.d. A Procura da Verdade Oculta - Textos filosóficos e esotéricos . Fernando Pessoa. (Prefácio, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Publ. Europa-América, 1989 (2ª ed.). - 197. Matéria controversa: O Ultimatum de Álvaro de Campos. (1917). O artigo «Athens». «O que é a Metafísica?», de Álvaro de Campos. «Apontamentos para uma Estética não-aristotélica». «Apontamentos sobre os Apontamentos…» (Mário Saa). O Regresso dos Deuses. (Ricardo Reis). O Conceito de Ocidentalidade (FP). (…) Estes documentos, separados alguns por bastante tempo, mas ligados todos por um íntimo fio polémico, são aqui reunidos porque neles reside a única discussão, ou posição, superiormente intelectual que se tenha dado em Portugal em dias recentes, para não dizer mais. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 434. O génio é o conseguimento, pela inteligência racional, do que é próprio conseguir só pela inteligência analógica ou intuitiva, e, por outra, o conseguimento pela inteligência intuitiva do que é próprio conseguir só pela inteligência racional. Tem-se dito, muitas vezes, que o génio é como um prenúncio da humanidade futura. Mais justo fora dizer que é um prenúncio do estado futuro da humanidade, em que se opere a fusão das duas inteligências, ao mesmo tempo que se opera superiormente a vera fusão, no novo Cristo, das duas Naturezas. Para conseguir, pela inteligência racional, o que verdadeiramente só a inteligência intuitiva consegue, é preciso atingir um estado de inteligência em que (1) se vive na abstracção com a mesma vitalidade da alma com que se vive no concreto, (2) se consiga raciocinar sem preconceito mas prisão à pessoa, fazendo a razão, não, como no homem natural, por desenvolvido que esteja, a serva esclarecida da emoção e do desejo, senão, não só a dominadora, mas a liberta dele, (3) se possa imaginar com a inteligência, (...) (3) se erga a inteligência acima da unidade, vivendo a contradição logicamente  como começou a fazê-lo Hegel, seguindo de longe e com maiormente, o traço dado, um pouco ocultamente, mas também um pouco empiricamente, por Heraclito. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 249. N. do A.: «Bandarra» Way of the Serpent. Todo homem, que tenha que talhar para si um caminho para Alto, encontrará obstáculos incompreensíveis e constantes. Se não fossem mais que os obstáculos que se atravessam e estimulam, pelo perigo ou pela resistência directa, bem iria, e os próprios obstáculos seriam o clarim para o avanço. Mas encontrará outros — os obstáculos reles que vexam e vergam, os obstáculos suaves que adormecem e viciam, os obstáculos ternos que o farão, como Orfeu, volver o erro do olhar para o vedado Averno. Cercá-lo-ão, não só resistências duras, como as que os penhascos erguem como tropeço, mas resistências brandas, como as memórias dos vales, e a dos lares nas faldas. E o triunfo consiste na força para, sabendo sentir essas atracções intensamente (pois não sabê-las sentir é não ter alma para a subida), as submeter à emoção superior; sabendo organizar as vontades do amor e da terra, saber submetê-las à vontade do espírito do mundo. Este processo de vitória, figuram-o os emblemadores no símbolo da Crucifixão da Rosa—ou seja no sacrifício da emoção do mundo (a Rosa, que é o círculo em flor) nas linhas cruzadas da vontade fundamental e da emoção fundamental, que formam o substrato do Mundo, não como Realidade (que isso é o circulo) mas como produto do Espírito (que isso é a cruz). s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 31. “O Caminho da Serpente” Assim como a inteligência dialéctica, que tem nome razão, domina e compõe todos os elementos, com que se forma o conhecimento científico, assim também a inteligência analógica, que não tem nome especial, domina e compõe todos os elementos de que se forma o conhecimento oculto. A perfeição da obra material é um todo perfeitamente ordenado, em que cada parte tenha seu lugar e em seus modo e grau concorra para a formação do todo; a perfeição da obra espiritual é a correspondência exacta entre o interior e o exterior, entre a «alma» e o «corpo», de sorte que o conhecimento de um envolva necessariamente o conhecimento completo de outro. A Grande Obra é aquela em que o «metal», sendo composto, segundo a razão, de modo a ser o «ouro», material perfeito, seja, no mesmo acto, composto, segundo a analogia, de modo a ser o «ouro» espiritual simbolizado. Nestas palavras vai a distinção íntima entre a produção artificial do «ouro» segundo a alquimia, e essa mesma produção segundo a ciência. Em ambos casos o «ouro» material será idêntico como matéria, mas o ouro que a ciência produzir não será mais que ouro, pois que, ao fabricá-lo, ela não buscou produzir senão ouro, e o «ouro» que a alquimia produzir será mais que ouro, pois que, ao «fabricá-lo», ela buscou produzir, não só o ouro, senão também o segredo do ouro, ou o segredo áureo. O ouro da ciência será igual ao ouro da Natureza como efeito; o ouro da alquimia igual ao ouro da Natureza não só como efeito, senão também como causa. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 250. N. do A.: «Bandarra» 1ª publ.: Obra Poética e em Prosa. Vol. II. Fernando Pessoa. (Introduções, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. Novembro 1915 …… 15 - Morning began with small disillusion: negative answer from Guimarães and Co (but good because of incompleteness of pamphlet). Day ran on fairly agreeably, with curious small (but subjective) «suspicions», of even slight importance. Between 3 and 4 p. m. received unexpectedly 1 1/2 dollars from Senchi [?] for typing his translations. Day ended well at the Hotel with Aunt Lisbella; [...] except [...] and talkative, made myself agreeable to her and niece, evidently. In early morning 16 (about between 2 and 5) great mental excitement, excellent and important philosophical ideas, completing part my system. Physically uncomfortable, flatulence. Mixture of megalomania and religious ideas (in no way attacking lucidity). Slept at 5 1/2 till about 11 or l6th. This night bit was a remarkable one for mental action. (On coming home at about 11 1/2 p. m. I had slight curious «spirit» terrors.)16 - Got up late, near 11 a. m., as above up to about 4 was ever more or less hazy on account of this. At office good thing: last proofs of D. of R. had arrived: hence solution Aunt Car's question. These proofs, unexpected, wearying. - Could not receive money this evening, however, having arrived necessarily late. - Read Caeiro and R. Reis to Raul Leal: he seemed to like very much and to understand: so good moments. Walked about with Brito, talking aimlessly about «Orpheu». Dined at 9 1/2. Home immediately after. Smoked far less, by will, and by natural effect of it. On the whole an agreeable day. (In morning besides good news in proofs, also agreeable news in Sol's letter, when it refers to Hermano Neves). …… 22 - Same kind of thing, rather agreeable, especially at night, when was very lucid and easy in talk. At night, in semiconsciousness, Janus. 23 - Sarne kind of thing. Worked a little on translation. Same financial fix. 24 - Began same as above, but bettered in afternoon (between 3 and 5) when earned 1 dollar from Franco. The night was very pleasant; mind clear. [...] on going home (about 10:30) a considerable depression fell on me, a wish to express it in writing but an incapacity to do so. 25 - Awoke with sore throat, but this passed. A day lost and not disagreeably, except in so far as known as lost. 26 - A very curious mystical day. Met Cesar Porto. Made the acquaintance (really reacquaintance, though better now), casually, in Livraria Monteiro, of [...]: likes of Orpheu, etc. Lost all time for translation. Had 3 times during day and night fits of a curious form of dizziness - an abstract physical kind; but was all day lucid. Smoked a lot. [...] The day was intensely agreable except as lost. At night, long and very pleasant conversation w[ith] Leonardo Coimbra. …… 29 - A more or less happy and interesting day. Suddenly solved question of M's money by borrowing from him 10 dollars (+ for books) till 7th December. The translation came in, which was easy. A slightly fervent state, but not hurtful, and very slight - met Leal and was glad. At night with Aunt Lisbella at hotel, very pleasant; made eyes with a rather interesting girl who seemed to like me. Felt myself agreeable with them (her and perhaps a sister), though I said little... the Emperor [?], alas! 30 - Day practically wasted, yet agreeable, both because, in spite of a little rain, the sky was blue and fine, and because life ran agreeably. At night was pleased to hear 2 soft references (Cortes-Rodrigues and Perdigão) to my being well-dressed (Oh! me?) and passed a pleasant 1 1/2 hour at hotel making still more eyes (and exchanging) with the girl (17-years old, excellent) and seemed agreeable to her, her sister and even her deaf mother. Spoke to her quite easily and at her eyes even. Alas!... Dezembro 1 …… 6 - Disagreeable day because had a lot of heavy rain on me, crumpling suit, had to wait 1/2 hour in a roadway, and also because translation progressed very little. Yet a short visit during the day to the hotel was good because had to stop very little (owing to retum to office), and thus not bored, and the little girl's sweetness was not all gone, yet my absence was 3 days. Aunt L[isbella] had thought it was on account of my being offended with her at «pôr-me na rua» playfully several nights before... This amusing and agreeable, because of her thinking possible and worrying at it. - A very great depression at night, hardly any money and very much depressed. So much that, on strenght of it began writing letter to Sá-Carneiro and interrupted it, through lack of will to write. (Also waited for Guisado long time and he did not appear). 7 - Better, better. Day better, first. Then worked fairly well, later translation and office (15 letters). No depression; rather the beginning of clear thought, occultistly anti-theosophical. V. Braga, in morning, spoke to me of Coelho de Carvalho's wish for me to translate Faust: but, alas!, gain is hypothetical and afterwards! 11-1915 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 30. Átrio. Cada religião é um mundo à parte, mas mais particularmente o é quando é essencialmente iniciatória. Isto é, uma religião composta de mistérios, no conhecimento dos quais se sobe por grados, é uma espécie de nova região por onde se a alma transforma. Isto é eminentemente verdade da FM [Franco-Maçonaria], que é a única religião moderna de tipo iniciatório puro. Nas outras os graus são estados de emoção; nesta são estados de entendimento, e até o são para o profano, se ele consegue — pois isso não é impossível — entrar, por meio de fio próprio, no labirinto dos seus segredos. É, de facto, uma vida nova, e uma alma nova, a que se ganha no contacto com estes mistérios, e o modo, o tipo, a forma dessa vida nova, não se pode expor nem explicar, pois como é vida propriamente, e não propriamente ideia, não é transmissível verbalmente, nem ainda pelas palavras que claramente dissessem os seus mistérios, se tais palavras se devessem, ou sequer pudessem, dizer ou escrever. Os grados são essencialmente estados; se o não são, nada são. [...] Os graus de iniciação representam estados de conhecimento que são simultaneamente estados de vida. Os primeiros graus são graus de provação, os segundos graus de interpretação, os terceiros graus de compreensão, os quartos, e últimos, graus de reintegração (integração). Na via maçónica estes quatro tipos de graus estão perfeitamente divididos, salvo que os últimos, como até certo ponto os terceiros, estão já fora dela, sendo ela todavia o caminho para eles. É isto que na simbólica dos alquimistas se designa pelos quatro estados da Grande Obra — putrefacção, pois o iniciado tem que morrer para si mesmo, ou, antes que morrer-se. (...) s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 52. “Átrio” O INTERREGNO. - Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal. [...] 4 TERCEIRA JUSTIFICAÇÃO DA DITADURA MILITAR Além de Portugal presente não poder ter vida institucional, nem também vida constitucional, não pode ele, ainda, ter vida de opinião pública. Assim lhe falta também o que é, não só o fundamento interno de todo governo, mas, por uma fatalidade histórica, o fundamento externo de todo governo de hoje. Há só três bases de governo — a força, a autoridade e a opinião. Qualquer forma de governo tem que participar, para ser governo, de todas elas: sem força não se pode governar, sem opinião não se pode durar, sem autoridade não se pode obter opinião. Embora, porém, qualquer governo de todas participe, uma delas haverá em que mais particularmente, em que distintivamente, se apoie. O governo tipicamente de força existe só nas sociedades bárbaras ou semibárbaras; regressa atipicamente nos episódios ditatoriais das sociedades civilizadas. É o governo em que se exprimem aquelas civilizações em formação, em que ainda o estado de guerra é a condição normal e constante; por isso caracteriza também aqueles períodos das civilizações formadas, em que o estado de guerra, civil ou outra, ressurge. Ao governo de força sucede, na linha de passagem das coisas, o de autoridade: a autoridade é a força consolidada, translata, a força tornada abstracta, por assim dizer. A estabilização dos governos de força os converte, passado tempo, em regimes de autoridade. Mas a autoridade não dura sempre, porque nada dura sempre neste mundo. Sendo a autoridade um prestígio ilógico, tempo vem em que, degenerando ela como tudo, a inevitável crítica humana não vê nela mais do que o ilogismo, visto que o prestígio se perdeu. Assim, no decurso das civilizações, se chega a um ponto em que — à parte os recursos incaracterísticos à força — se tem que estabelecer, ou buscar estabelecer, um sistema de governo fundado na opinião, pois não resta outro fundamento para a existência de um governo. Europa, e nós com ela, seguiu este curso fatal. A todos nos confronta um problema político: extrair da opinião um sistema de governo. Não temos outro recurso. Não podemos recorrer à força, porque a força, numa sociedade formada, não é mais que um travão, aplicável só nos perigos e nas descidas; se a quisermos sistematizar, pagaremos o preço por que são penhoradas as sociedades em que se pretende coordenar o ocasional, isto é, realizar uma contradição. Nem podemos recorrer à autoridade, porque a autoridade é incriável e indecretável, e a tradição, que é a sua essência, tem por substância a continuidade, que uma vez quebrada, se não reata mais. Temos pois que encarar, por necessidade histórica, o problema de extrair da opinião um sistema de governo. Se é este o problema, não cuidemos que é outro. Para nos nortearmos neste fito, temos, primeiro, que ver em que consiste a opinião. É o que nunca fizeram nem os defensores nem os críticos dos sistemas que assentam nela. Qualquer opinião é de uma de três espécies, conforme assente no instinto (ou na intuição), no hábito, ou na inteligência. Por instinto se entende aquele fenómeno psíquico, inegável, porém difícil de explicar, pelo qual, nos animais chamados inferiores, a vida se conduz certa sem mostras de "inteligência", ou, até, condições anátomo-fisiológicas, para a existência dela. Nos animais chamados superiores os instintos subsistem, mas são neles perturbados pelo hábito e pela inteligência, que a eles, instintos, são diversamente antagónicos. Nestes animais superiores, e notavelmente em o homem, aparece, ainda, uma forma superior do instinto a que chamamos intuição: dela procedem os fenómenos estranhos, porém reais, a que por comodidade se chamou supernormais — os palpites, a inspiração, o espírito profético. A intuição operando como o instinto, porque é instinto, usurpa, e muitas vezes supera, as operações da inteligência. Os fenómenos do instinto e da intuição têm preocupado, mais que quaisquer outros, a ciência psicológica moderna; assentou ela já na certeza de que o campo do que chamou subconsciente é vastamente maior que o da razão e que o homem, verdadeiramente definido, é um animal irracional. Só por orgulho ou preconceito se pode não ver que a inteligência é — como Huxley abusivamente supunha que a simples consciência era — o que chamou um epifenómeno. Isto é, a inteligência não faz mais que espelhar, esclarecendo-os para nós e, pela palavra, para outrem, os instintos obscuros, as solicitações intuitivas, do nosso temperamento. Por hábito entende-se aquela disposição da índole que é, em sua origem, e em contrário do instinto, estranha ao indivíduo, sendo derivada de um ambiente qualquer. Os preconceitos, as crenças, as tradições — tudo quanto, não procedendo da inteligência, também não procede do instinto — se derivam do hábito. É muitas vezes difícil distinguir uma opinião vinda do instinto de uma opinião vinda do hábito, por isso que o hábito é um instinto imposto, ou artificial — uma "segunda natureza", como com razão se lhe chamou. As manifestações destas quatro ordens de opinião diferençam-se entre si da seguinte maneira: o instinto simples é instantâneo e sintético, é individual, e tem por objecto só coisas concretas; é centrípeto, ou egoísta, pois o será forçosamente o que for ao mesmo tempo individual e concretizante. O instinto superior, ou intuição, difere do instinto simples em que pode ter por objecto o abstracto e o indefinido, e em que, na proporção em que o tiver, deixará de ser centrípeto ou egoísta. O hábito é igual ao instinto simples, salvo em não ser individual; como esse, porém, tem por objecto o concreto e o definido. A inteligência é analítica, é individual e tem por objecto o abstracto. Em toda opinião entra uma parte de cada um destes elementos, pois, na vida é tudo fluído, misturado, incerto, mau de analisar sumariamente e impossível de analisar até o fim. Passando agora de considerar a simples opinião, para atender ao que nos interessa, que é a opinião colectiva ou "pública", desde logo vemos que ela tem que assentar ou no hábito ou na chamada intuição. No instinto simples não pode assentar, porque ele é só individual — da vida, que não da sociedade. Na inteligência não pode também fundar-se, porque a inteligência, por ser a expressão do temperamento, é, por isso mesmo, a expressão de instintos, de hábitos a de intuições, escusando nós pois de atender a ela, quando devemos atender àquilo de que é espelho. O conceito vulgar de democracia, o que pretende basear a opinião pública na soma das opiniões individuais fornecidas pelas inteligências; o que supõe que uma sociedade numericamente mais culta (que não só mais culta em seus representantes superiores) se orienta e governa melhor que uma sociedade quantitativamente menos culta — este conceito é forçosamente erróneo. Acresce que, como não há ciência social, não pode haver cultura sociológica. Se a houvesse, como haveria, sobre os pontos mais simples e essenciais da vida social, divergência de opiniões entre homens da maior cultura? Em que é que a cultura em geral, e a cultura sociológica em particular, orientam socialmente, se o prof. A., da Universidade de X , é conservador, o prof. B., da Universidade de Y, é liberal, e o prof. C., da Universidade de Z, é comunista? De que lhes serve a cultura se entre si divergem num congresso, do mesmo modo que três operários numa taberna? Longe de, como se disse, a "democracia sem luzes " ser um "flagelo", é a democracia com luzes que o é. Quanto maior é o grau de cultura geral de uma sociedade menos ela se sabe orientar, pois a cultura necessariamente se quer servir da inteligência para fundar opiniões, e não há opinião que se funde na inteligência. Assenta ou funda-se no instinto, no hábito, na intuição, e a intromissão abusiva da inteligência, não alterando isso, apenas o perturba. A democracia moderna é a sistematização da anarquia. Sucede ainda, quanto à inteligência, que ela, como é analítica, é desintegrante; como é abstracta, e por isso fria, é incomunicativa; e como é a expressão de um temperamento, e o temperamento é individual, separa os homens em vez de os aproximar. O hábito, ao contrário, "pega-se"; sobretudo se "pega" um hábito social. A intuição, também, transmite-se — transmite-se por uma emissão indefinível, um "fluído", como já se lhe chamou, havendo quem creia, talvez com razão, que esse fluido é não só real, mas material. É só no hábito, pois, ou na intuição, que a opinião pública se pode fundamentar. E é num e noutra que, de facto, se fundamenta. No hábito se baseia aquela opinião pública a que, com razão no termo, chamamos conservadora. A razão de se ser conservador é a mesma de se não poder deixar de fumar. Há, porém, uma diferença, que em certo modo justifica o receio do novo que constitui a essência do conservantismo. Quem deixa de fumar, e se dá mal com fazê-lo, pode tornar a fumar. Mas um hábito social, isto é, uma tradição, uma vez quebrado, nunca mais se reata, porque é na continuidade que está a substância da tradição. Além de que, não sabendo ninguém o que é a sociedade, nem quais são as leis naturais por que se rege, ninguém sabe se qualquer mudança não irá infringir essas leis. Em igual receio se fundamentam as superstições, que só os tolos não têm — no receio de infringir leis que desconhecemos, e que, como as não conhecemos, não sabemos se não operarão por vias aparentemente absurdas. A tradição é uma superstição. É a opinião de hábito que mantém e defende as sociedades; equivale à força que, no organismo físico, resiste à desintegração. A opinião de hábito obra sempre deste modo restritivo; umas vezes é útil porque entrava a decadência , outras é nociva, porque entrava o progresso. Sem a opinião de hábito não existiriam nações; uma nação, aliás, não é senão um hábito. Mas só com a opinião de hábito não existiriam nações progressivas; nem, até, existiriam nações, pois se não teria progredido até a fundação delas. A mais antiga tradição de qualquer país é ele não existir. Na intuição — que, em contrário do simples instinto, vê, como a inteligência, o futuro, que não só o passado — se funda aquela opinião com que se promove o progresso das sociedades, mas, se a do hábito a não equilibrar, também a desintegração delas. Toda fórmula social nova é elaborada e imposta pela intuição, se bem que a sobreposição da inteligência lhe perturbe e corrompa a expressão. Por exclusão de partes se vê que é elaborada e imposta pela intuição. O instinto nada tem com ela. O hábito opõe-se-lhe. A inteligência, por si só, nem tem ciência social em que se funde para a supor boa ou viável, nem experiência social (visto que ela é nova) em que para tal se funde. Só a intuição — a fé, se se quiser — pode crer na virtude e na viabilidade do que ainda se não experimentou. Por isso, com razão se pode dizer que toda opinião anticonservadora é um fenómeno religioso; que todo o partido anticonservador é uma agremiação mística. Toda vida consiste no equilíbrio de duas forças, a de integração e a de desintegração — o anabolismo e o catabolismo dos fisiologistas. A só integração não é vida; a só desintegração é morte. As duas forças assim opostas vivem em perpétua luta e é essa perpétua luta que produz o que chamamos vida. A guerra, disse Heráclito, é a mãe de todas as coisas. Mas, para que a vida subsista, é necessário que as duas forças opostas sejam de intensidade praticamente igual; que se oponha, que se combatam, porém que nenhuma delas sobreleve a outra. A vida é a única batalha em que a vitória consiste em não haver nenhuma. É isso o equilíbrio; e a vida é uma média entre a força que a não quer deixar viver e a força que a quer matar — a diagonal de um paralelogramo de forças, diferente das duas e por elas composta. Se assim é na vida individual, assim será na vida social, que é também vida. Consiste a vida social no equilíbrio de duas forças opostas, que já vimos quais eram. Têm as duas forças que existir, para que haja equilíbrio, e, embora haja equilíbrio, que ser opostas. Um país unânime numa opinião de hábito não seria país — seria gado. Um país concorde numa opinião de intuição não seria país — seria sombras. O progresso consiste numa média entre o que a opinião de hábito deseja e o que a opinião de intuição sonha. Figurou Camões, nos Lusíadas, em o Velho do Restelo a opinião de hábito, em o Gama a opinião de intuição. Mas o Império Português nem foi a ausência de império que o primeiro desejara, nem a plenitude de império que o segundo sonharia. Por isso, por mal ou por bem, o Império Português pôde ser. O equilíbrio das forças vitais não procede, porém, só da sua igual intensidade, se não também da sua igual direcção, em que, em certo modo, essa igual intensidade se funda. As duas forças têm de comum o serem a mesma força, que é o organismo em que vivem, e que diversamente servem de manter. Todo lógico sabe que, para haver contraste entre duas ideias, tem que haver identidade no fundamento delas. Em melhores palavras — para que duas espécies entre si se oponham, têm que ser espécies do mesmo género. Pode opor-se o preto ao branco, porque ambos são cores. Não pode opor-se o preto a um triângulo, porque um é espécie do género cor e o outro é espécie do género forma. Assim, para que nas forças vitais se possa dar oposição com equilíbrio, é mister que, no fundo, pertençam ao mesmo género, o que, em matéria de forças, quer dizer que tendam para o mesmo fim. Esse fim, visto que existem no mesmo organismo, e têm, por assim dizer, uma identidade de localização, é a vida desse organismo. Se a força de integração, que é por natureza centrípeta, se localizar em certos pontos ou órgãos, sofrerá o organismo dissolução ou desvitalização, pois os pontos livres ficarão entregues a uma desintegração completa. Se a força de desintegração, que por natureza é centrífuga, exceder o seu limite orgânico, ficará o organismo ocupado pela força oposta, e do mesmo modo sofrerá a morte ou a desvitalização. Como no individual, assim no social. Se a opinião de hábito tiver, em vez de um fito nacional, um intuito menos que nacional — província, classe, família,... — envolverá em ruína a sociedade, porque a deixara livre à opinião de intuição, que estabelecera o caos em todos os outros elementos sociais. Se a opinião de intuição tiver um intuito mais que nacional — humanidade, civilização, progresso... — do mesmo modo arruinará a sociedade, pois a deixará livre à opinião de hábito, que se apoderará de todos os seus outros elementos. No fundo, como se trata de um sistema de forças, a uma acção corresponde sempre uma igual reacção. A uma acção excessiva corresponderá pois uma reacção igualmente excessiva, e, como um pêndulo que oscile demasiadamente, o sistema acabará por parar. Temos exemplo dos dois casos nos estados paralelos porém inversos, da vida portuguesa sob os Braganças, e da vida presente da Rússia. Nesse nosso período, vivemos concentrados na tradição em nossa vida familial, provincial e religiosa; sucedeu que nos desnacionalizámos completamente na nossa administração, na nossa política e na nossa cultura. No período presente da Rússia, tendo a opinião de intuição excedido por inteiro a nação em favor de uma entidade socialmente mítica chamada "humanidade", a opinião de hábito estabeleceu uma reacção igualmente forte, recuou para trás da família, da província, da religião tradicional, e fixou-se no último elemento social, o indivíduo, que, como tal, é um animal somente. Assim, em virtude da reacção excessiva que provoca, toda doutrina social extrema produz resultados diametralmente opostos aos que pretende produzir. O tradicionalismo orgânico produz estrangeiros; o progressivismo orgânico produz animais. É na comunidade do conceito de nação que está a base para a luta profícua, porque para o íntimo equilíbrio, entre as forças sociais opostas. No caso notável do início dos nossos Descobrimentos, a opinião de hábito se opunha à novidade deles, a de intuição a promovia; porém uma e outra não pensavam fora do ideal de grandeza pátria, ou seja, no fundo, do ideal de império. Assim pôde o Império Português, quando por mal ou por bem, veio a ser, ser informado por toda a alma de Portugal. Já acima esboçámos, em simples exemplo ocasional, qual seja a situação presente de Portugal quanto à sua opinião pública. Concentrados dos Filipes ao liberalismo, numa estreita tradição familial, provincial e religiosa; animalizados, nas classes médias, pela educação fradesca, e, nas classes baixas, bestializados pelo analfabetismo que distingue as nações católicas, onde não é mister conhecer a Bíblia para se ser cristão; desenvolvemos, nas classes superiores, onde principalmente se forma a opinião de intuição, a violenta reacção correspondente a esta acção violenta. Desnacionalizámos a nossa política, desnacionalizámos a nossa administração, desnacionalizámos a nossa cultura. A desnacionalização explodiu no constitucionalismo, dádiva que, em reacção, recebemos da Igreja Católica. Com o constitucionalismo deu-se a desnacionalização quase total das esferas superiores da Nação. Produziu-se a reacção contrária, e, do mesmo modo que na Rússia de hoje, se bem que em menor grau, a opinião de hábito recuou para além da província, para além da religião, em muitos casos para além da família. Surgiu a contra-reacção: veio a República e, com ela, o estrangeiramento completo. Tornou a haver o movimento contrário; estamos hoje sem vida provincial definida, com a religião convertida em superstição e em moda, com a família em plena dissolução. Se dermos mais um passo neste jogo de acções e reacções estaremos no comunismo e em comer raízes — aliás o término natural desse sistema humanitário. É este o estado presente dos dois elementos componentes da opinião pública portuguesa. Ora num país em que isto se dá, e em que todos sentem que se dá, num país onde, sobre não poder haver regime legítimo, nem constituição de qualquer espécie, não pode, ainda, haver opinião pública em que eles se fundem ou com que se regulem, nesse país todos os indivíduos, e todas as correntes de consenso, apelam instintivamente ou para a fraude ou para a força, pois, onde não pode haver lei, tem a fraude, que é a substituição da lei, ou a força, que é a abolição dela, necessariamente que imperar. Nenhum partido assume o poder com o que se lhe reconheça como direito. Toda situação governante em Portugal, depois da queda da monarquia absoluta, é substancialmente uma fraude. A fraude, pune-a a lei; porém, quando a fraude se apodera da lei, tem que puni-la a simples força, que é o fundamento da lei, porque é o fundamento do seu cumprimento. Nisto se funda o instinto que promove as nossas constantes revoluções. Têm-nos elas tornado desprezíveis perante a civilização, porque a civilização é uma besta. Nossas revoluções são, contudo, e em certo modo, um bom sintoma. São o sintoma de que temos consciência da fraude como fraude; e o princípio da verdade no conhecimento do erro. Se, porém, rejeitando a fraude como fundamento de qualquer coisa, temos que apelar para a força para governar o país, a solução está em apelar clara e definidamente para a força, em apelar para aquela força que possa ser consentânea com a tradição e a consecução da vida social. Temos que apelar para uma força que possua um carácter social, tradicional, e que por isso não seja ocasional e desintegrante. Há só uma força com esse carácter: é a Força Armada. É esta a terceira Doutrina do Interregno, a terceira e última justificação da Ditadura Militar. 5 SEGUNDO AVISO Chegados a este ponto os que leram este opúsculo, parecer-lhes-á que, para justificar a Ditadura Militar, não havia mister que o fizéssemos com mais que um só dos fundamentos expostos, nem que, em todos eles, empregássemos razões com tal desenvolvimento. Há, porém, que explicar que o triplo carácter da justificação, assim como o pormenor de toda ela, têm um intuito mais largo que o de só justificar. Para o explicar e o definir, dividamos em três razões o relato do que nos propusemos. Em primeiro lugar, vejamos claro quanto à natureza da coisa justificada. Repetiremos o que já dissemos. Este opúsculo contém uma justificação completa da Ditadura Militar em Portugal presente. Com isso justificámos a Ditadura de hoje, em seus fundamentos. Não falámos, porém, particularmente dela. Nenhuma consideração particular importava ao nosso argumento, que era geral. provámos que é hoje legítima e necessária uma Ditadura Militar em Portugal; triplamente o provámos. Se esta, que o é, é composta como convém que seja, ou se se orienta como convém que se oriente, ou se subsistirá como convém que subsista — tudo isso é estranho à nossa demonstração. Se amanhã a Ditadura Militar cair, não cairá com ela a justificação dela. O ser necessária uma coisa não implica nem que exista, nem que, existindo, subsista; implica tão-somente que é necessária. Em segundo lugar, o fim principal deste opúsculo está, não nele, que é só introdutório, mas nas três partes seguintes do livro de que ele é a primeira. Porém, como ele é introdutório, nele se deviam esboçar não só as matérias por cuja divisão elas são três, mas, mais particularmente, as bases dessas matérias. Da segunda secção deste emergirá a segunda parte do livro, da terceira a terceira, da quarta a quarta; a quinta, já o dissemos, não será mais que a peroração. Nessa secção segunda assentámos na importância do ideal nacional; dele, da sua natureza em Portugal, e da sua preparação aqui, tratará a segunda parte do livro. Nessa secção terceira assentámos na inviabilidade do constitucionalismo inglês; do constitucionalismo viável, que devemos criar para o substituir, tratará a terceira parte do livro. Nessa secção quarta assentámos na definição da opinião pública; de como a poderemos estabelecer e radicar em Portugal tratará a quarta parte do livro. Assim, de secção a parte de livro, tudo se liga, até numericamente. Em terceiro lugar, tendo nós neste opúsculo esboçado as matérias dessas três partes, e definido as bases delas, em nenhuma secção, contudo, definimos as mesmas matérias, o que faremos só nas partes do livro que se lhes reportem. Não dissemos na secção segunda em que consistia um ideal nacional, nem em que deveria consistir o nosso; na segunda parte do livro, que trata da Nação Portuguesa, o faremos. Não dissemos na secção terceira em que consistia a essência do constitucionalismo inglês; na terceira parte do livro, que trata do Estado Português, o definiremos para depois assentarmos na constituição própria desse Estado. Na secção quarta, se, de facto, definimos em que consiste a opinião pública, é que na quarta parte do livro não teremos que defini-la a ela, senão às condições sociais necessárias à sua existência; da Sociedade portuguesa tratará essa quarta parte. Nem dissemos na secção segunda como se extraía um regime do ideal nacional, nem a que ideais convinha este ou aquele regime; tão-pouco dissemos, na secção quarta, qual a maneira de fazer entrar numa constituição política, ou sistema de governo, a opinião pública de uma sociedade: tudo isto fará parte, não da segunda ou da quarta, mas da terceira parte do livro. Como é ela que trata do Estado, nela se projectam as conclusões políticas corolárias da segunda, que trata da Nação, e da quarta, que trata da sociedade; pois no Estado, que é a inteligência do pais, se projectam os seus instintos, que formam a Sociedade, e os seus hábitos, que constituem a Nação. São estes os fins, imediatos e mediatos, do presente opúsculo, que neste ponto concluímos. O que nele escrevemos (de menor monta, contudo, que o que escreveremos no próprio livro) o distingue, na amplitude e precisão dos conceitos, na lógica do desenvolvimento, e na concatenação dos propósitos, de qualquer escrito político até hoje conhecido. Nem há hoje quem, no nosso país, ou em outro, tenha alma e mente, ainda que combinando-se, para compor um opúsculo como este. Disto nos orgulhamos. É este o Primeiro Sinal, vindo, como foi prometido, na Hora que se prometera. O Interregno. Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal. — Lisboa, 1928 2-1928 Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 110. 1ª publ.: O Interregno. Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal . Fernando Pessoa. Lisboa, Núcleo de Acção Nacional, 1928 O Campos foi posto fora de Director das Obras Públicas de Bragança por não trabalhar ou nada fazer seg[undo ] ainda hoje é voz nos habitantes de Bragança; em seguida foi mandado estudar o troço da estrada de Guimarães à Lixa, que depois foi toda alterada por um reles condutor. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 260. Átrio. O caminho dos símbolos é perigoso, porque é fácil e sedutor, e é particularmente fácil e sedutor para os de imaginação viva que são precisamente os mais fáceis de induzir-se em erro e, também, de romancear para os outros, formando fraudes por vezes inocentes, por vezes um pouco menos que isso. Nada há mais fácil que interpretar qualquer coisa simbolicamente; é ainda mais fácil que interpretar profecias. Sucede, ainda, que os grandes símbolos são relativamente simples, prestando-se assim a uma série infinita de interpretações Figure-se o leitor, imaginando, quantos valores simbólicos se não poderão atribuir às duas colunas no átrio do Templo de Salomão, ou, aliás, a quaisquer duas colunas em qualquer parte. Tudo quanto, na vida ou no sonho, é composto de uma dualidade — e quase tudo na vida ou no sonho envolve uma dualidade qualquer —, tudo isso se pode supor simbolizado por aquelas duas colunas. Elas, porém, não podem destinar-se a simbolizar tudo quanto se queira. Algum, ou alguns, hão-de ser os veros sentidos íntimos delas. O que se pergunta, pois, é isto: que critério temos nós para determinar, entre tantos símbolos possíveis, quais são os que são deveras aplicáveis, os verdadeiros? Para isto existe o critério do quíntuplo sentido: cada coisa tem na simbólica, cinco sentidos; e esses cinco sentidos estão uns dentro dos outros, sendo cada um o desenvolvimento do anterior. Quando Pike diz que há, para a maioria dos símbolos maçónicos quatro atribuições distintas, diz bem, pois, como é de ver, exclui o sentido literal, ou profano, que é o primeiro dos cinco e não entra na consideração dele. Quando, porém, passa a dizer que um é o sentido moral, outro o político, vai mal, pois que o sentido político não é o desenvolvimento do sentido moral, mas uma coisa de outra ordem. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 51. “Átrio” O INTERREGNO. - Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal. [...] 3 SEGUNDA JUSTIFICAÇÃO DA DITADURA MILITAR Alem de não ter vida institucional legítima, não pode Portugal, também, ter vida constitucional alguma. A palavra "constituição" pode receber dois sentidos: (1) simples forma constituída de governo, seja esse governo embora uma monarquia absoluta; (2) forma de governo em imitação do espírito da constituição inglesa. O primeiro é o sentido abstracto, o segundo o sentido histórico, da palavra. Portugal presente não pode ter constituição, no primeiro sentido da palavra, porque, como já se disse, não pode ter regime político, e a constituição, neste sentido, é somente a definição do regime. E Portugal presente não pode nem deve ter constituição, no segundo sentido da palavra, pela razão mais forte ainda, porém mais complexa, que se vai expor. Como na Europa semibárbara — à parte certas repúblicas, mais ou menos do género, porém não da espécie, das cidades-estados dos antigos — não havia outro sistema geral de governo senão a monarquia absoluta, é claro que não podia haver despotismo ou tirania senão através desse sistema. Ora o espírito humano, como é essencialmente confuso e, por isso, simplista, não distingue habitualmente o particular do geral. Assim, mais ou menos claramente se formou a ideia de que despotismo e absolutismo eram a mesma coisa. Ainda hoje há quem confunda a significação dos dois termos. Os factos, porém, olham para outro lado. Todo o homem, Ou grupo de homens, que manda, tende, em virtude do egoísmo natural da alma humana, a abusar desse mando. Só não abusa se, ou quando sente que não pode abusar, ou que perderá mais abusando do que não abusando. Mas há só uma coisa que faz sentir ao governante que não pode abusar: é a presença sensível, quase corpórea, de uma opinião pública directa, imediata, espontânea, coesiva, orgânica, que todos os povos sãos possuem em virtude do instinto social que os torna povos, e cuja pressão oculta os seus governantes sentem sem que essa opinião pública tenha sequer que falar, e muito menos que delegar ou eleger quem por ela obre ou fale. Por isso, disse Hume, e disse bem, que não há verdadeiro governo, ainda o mais autocrático, que se não apoie na opinião pública. Ora, pensando, por uma parte e por erro, que a monarquia absoluta era essencialmente má, e sentindo, por outra parte e com metade de razão, que a opinião pública é a essência de toda a vida governativa, foi o espírito europeu levado inevitavelmente a buscar uma fórmula pela qual essa opinião pública se coordenasse estruturalmente, se constituísse em órgão limitador ou substituidor do poder régio. Confusamente, incoerentemente, se esboçaram, desde a mesma Idade Média, doutrinas norteadas por este fito: umas eram derivadas do exemplo, em geral treslido, das cidades-estados dos antigos, outras surgiram espontaneamente da especulação medieval, muito mais espaçosa do que se supõe nesta matéria; e a algumas delas encorajou a Igreja, a quem convinha disseminar doutrinas antimonárquicas nas universidades, para hostilizar o poder dos reis, frequentemente em conflito com o dela. Estes fantasmas de doutrina tomaram subitamente corpo, como seria de supor, no primeiro verdadeiro embate entre a monarquia absoluta e qualquer força que incarnasse definidamente esse impulso adverso. Deu-se o caso em Inglaterra, no conflito, em grande parte nacional e especial, entre a monarquia dos Stuarts, conscientemente "de direito divino", e a oposição a ela, que assumiu episodicamente, e em contrário do sentimento da maioria, a forma republicana. Nasceu por fim, depois de pesados anos de perturbações, o chamado constitucionalismo, fórmula de equilíbrio espontâneo, provinda de antigas tradições nacionais em que o fermento de todas as doutrinas anti-monárquicas diversamente se infiltrava. O principal teorista do sistema, tal qual finalmente veio a aparecer, foi Locke, em seu Ensaio sobre o Governo Civil. Ora o mesmo simplismo do espírito humano, que o leva a confundir o particular e o geral na teoria, o conduz a os não distinguir na prática. Assim, sem considerar se a solução política inglesa não seria particularmente inglesa, e portanto inaplicável a outros povos, em outras circunstâncias de passado e de presente, os pensadores políticos europeus erigiram em dogma a constituição de Inglaterra. A fórmula constitucional inglesa passou a ser, para eles, uma espécie de descoberta científica, não só universalmente verdadeira, como o são os dados da ciência, mas também absolutamente perfeita, como o são as expressões das leis naturais. E, como o povo inglês rapidamente se distanciou, no gozo de verdadeira liberdade e de uma vida social superior, de todos os outros povos de Europa, viram, aparentemente, a prática a confirmar a teoria. Daí a intoxicação constitucional, que haveria de produzir, numa amplidão doutrinária exaltada, a Revolução Francesa, pela qual as doutrinas, já metafísicas, do constitucionalismo inglês se derramaram depois por todo o mundo. A ninguém ocorreu, parece, que a liberdade, em qualquer povo, é a simples expressão da sua força espontaneamente coesiva em resistir a qualquer tirania, nem que a liberdade e a superioridade social inglesas provinham, não de uma fórmula que é uma abstracção, mas da saúde social, da forte opinião pública directa, que estavam por trás dessa fórmula e lhe davam a vida real, como a haveriam dado, no mesmo sentido, a qualquer outra. Assim, de uma intuição central justa, embrulhada em erros e por eles sufocada, nasceu em Europa, e alastrou a todo o mundo civilizado, a superstição constitucional. Consiste ela em crer que a fórmula constitucional inglesa é universal, sendo pois aplicável a qualquer povo civilizado, em quaisquer circunstâncias; e que é perfeita, dado que seja a verdadeira fórmula de traduzir para uma norma política aquilo a que se chama opinião pública. Ambas as teses são demonstravelmente erróneas. A primeira a todos o deve parecer, ainda que por simples intuição. É evidente, ou deveria sê-lo, que o regime que particularmente convém a um povo representa uma adaptação às particularidades desse povo, e deve ser, portanto, inadaptável em princípio às particularidades, forçosamente diferentes, de outro povo qualquer. À parte esta razão, porém, há uma outra, de mais peso. Só pode ser universalmente aplicável o que é universalmente verdadeiro, isto é, um facto científico. Ora em matéria social não há factos científicos. A única coisa certa em "ciência social", é que não há ciência social. Desconhecemos por completo o que seja una sociedade; não sabemos como as sociedades se formam, nem como se mantém nem como declinam. Não há uma única lei social até hoje descoberta; há só teorias e especulações, que, por definição, não são ciência. E onde não há ciência não há universalidade. O constitucionalismo inglês, ou outra teoria social qualquer, é portanto inaplicável à generalidade dos povos, convindo só, porventura, ao povo onde apareceu e onde, portanto, é em certo modo natural. O que resta saber porém, é se, no próprio povo inglês, o constitucionalismo inglês dá bom resultado. Se não der, as duas teses ruem juntas, pois o que é mau onde é natural — embora viável por ser natural — será duas vezes mau onde for artificial, pois aí nem viável será. Leva-nos isto, pois, ao exame da segunda crença da superstição constitucional — a de que o constitucionalismo inglês realmente representa a projecção política da opinião pública. Essa crença, vai desmenti-la por nós, e melhor que o faríamos nós, um inglês moderno, homem culto e experimentado, político por hereditariedade e por vocação. Diz assim Lord Hugh Cecil, filho do Marquês de Salisbury, a p. 235 e seguintes do seu livro intitulado Conservantismo: "Torna-se altamente interessante e importante inquirir onde está o centro do poder que domina, em última análise, a Casa dos Comuns e a autoridade ilimitada que, pela constituição, essa Casa exerce. É interessante e importante, porém não é muito fácil. Pode dizer-se que o poder está no Gabinete, isto é, nos quinze ou vinte homens predominantes do partido em maioria. "Mas isso nem sempre será verdade. Pode às vezes haver discordâncias no Gabinete. Qual é a força que então determina que a decisão seja dada num sentido ou noutro? Ou, ainda aparecerá às vezes no Gabinete uma questão para decidir e trará já uma solução tão fortemente apoiada pelo partido, que o Gabinete se veja constrangido a adoptar essa solução. Onde está o poder a que até o Gabinete tem que obedecer? A melhor resposta é que a autoridade suprema num partido é em geral exercitada pelos mais activos e enérgicos dos organizadores partidários sob o comando de um ou mais dos principais chefes do partido. Às vezes o chefe nominal do partido está entre estes homens; outras vezes não esta. Mas eles derivam a sua força, não só da sua situação pessoal, mas de que, de um modo ou de outro, influem no que se pode chamar a Guarda Pretoriana do Partido, isto é, os seus elementos mais activos e ardentes. Se isto é assim, temos graves razões de receio. A Casa dos Comuns nomeia o Executivo e tem domínio absoluto sobre a legislação. O partido em maioria na Casa dos Comuns domina absolutamente a Casa dos Comuns. Esse partido é, por sua vez, dominado pelos seus elementos mais ardentes e enérgicos, sob o comando dos políticos a quem esses são mais afectos. Quer isto dizer que a suprema autoridade do Estado está nas mãos de partidários extremos e nas mãos dos estadistas que mais admirados são por esses partidários extremos. É quase impossível conceber uma forma menos satisfatória de governo. Isto, contudo, é que é a realidade. A aparência é que a Casa dos Comuns representa o povo. Mas, de facto, o povo nem tem a voz dominante na escolha da Casa dos Comuns, nem domínio real sobre ela, uma vez escolhida. O Povo tem, na prática, só a liberdade de escolher entre os candidatos partidários que são submetidos à sua escolha. São os partidários ardentes — a Guarda Pretoriana — quem escolhe os candidatos; os eleitores têm somente que determinar se querem ser representados pelo nomeado dos Pretorianos Conservadores ou pelo nomeado dos Pretorianos Liberais, ou, em casos mais raros, podem escolher um candidato, não menos disciplinado, nomeado pelo Partido Laborista. Os independentes podem propor-se, e algumas vezes se propõem à eleição. Mas as eleições, nas condições modernas, são a tal ponto matéria de organização e mecanismo que é com grande desigualdade que um independente se pode bater contra os candidatos nomeados pelos partidos. O triunfo de uma candidatura independente é a coisa mais rara deste mundo. A única verdadeira influência que têm os independentes está no desejo dos chefes partidários de lhes obter os votos. Mas até isto tem na prática um alcance limitado. Há assuntos controversos sobre os quais os partidários ardentes, de um lado e de outro, sentem tão fortemente que quasi nada se importam da opinião do público não partidário. E, quando a Casa está eleita, a influência da opinião pública fica semelhantemente limitada. "Alguma coisa se fará para obter apoio na próxima eleição geral; mas, sempre que os homens do partido do governo realmente se empenhem num assunto, correrão todos os riscos para fazer vingar a sua política. sobretudo o farão quando o assunto de que se trate envolva o crédito pessoal de um dos chefes da sua confiança. O facto formidável é que a mais alta autoridade do nosso Império imenso e único se encontra alternadamente nas mãos de dois grupos de homens veementes, intolerantes e desequilibrados." Estas palavras têm já quinze anos, porém valem hoje como então; nada, salvo o aumento do Partido Laborista, existe de novo na situação que elas descrevem, e esse aumento não pesa senão em converter em "três" a palavra "dois" no fim do texto. E estas palavras são, não só do político experiente, por herança e vocação, que dissemos ser seu autor, mas de um homem que é ele mesmo político partidário. É um dos casos em que, contra a norma jurídica, a confissão do réu tem valia. O réu, porém, não confessou tudo. Uma polémica recente e episódica, entre chefes liberais ingleses, trouxe à atenção pública um dos pontos da vida partidária em que ordinariamente se não reparava. Isto de que os fundos partidários são secretos, secretos os nomes dos indivíduos que frequentemente entram com grandes somas para os cofres dos partidos. Isto complica o assunto e a Guarda Pretoriana. Quem entra com grandes somas para um cofre partidário raras vezes o fará por teorismo. Fá-lo, em geral, com outro fito. E, visto que deu, fará por que se faça aquilo para que deu. O partido, ou a sua Guarda Pretoriana, fará, visto que recebeu, por merecer o que recebeu. Assim, nesta noite moral, se podem subtilmente esboçar e subtilmente se infiltrar na substância da vida política orientações inteiramente antinacionais; pois, como a este propósito se observou, não sabendo ninguém quem são os magnos financiadores dos partidos, ninguém tem a certeza que não estejam ligados a elementos estrangeiros, cuja política secretamente imponham. Nem se alegue que este estado de coisas nada tem com o constitucionalismo, propriamente dito. O constitucionalismo envolve e motiva a existência de partidos; estes partidos fazem uns aos outros uma guerra política; e a guerra política, como a guerra, assenta em duas bases — dinheiro e segredo. É assim, pois, que opera o constitucionalismo inglês no país onde é natural, e, portanto, em certo modo orgânico; onde é antigo, e, portanto, ainda mais natural; onde mais tem sido aperfeiçoado, e, portanto, onde deve estar mais livre de erros. E, se assim é neste país, como o não será nos outros, onde não é natural, nem antigo, nem, por não ser antigo, poderia ter sofrido o que propriamente se chama um aperfeiçoamento? Nos países onde, como em Inglaterra, existe um ideal nacional, e, em certo grau uma opinião pública espontânea — aquela opinião pública natural, orgânica, não eleitora, de que acima falamos — os malefícios essenciais do constitucionalismo são diminuídos. São, porém, diminuídos por elementos externos, e não internos, a ele. A pressão de um ideal nacional, se é forte e constante, faz-se sentir no próprio Parlamento, nos próprios partidos, pois estes existem adentro da nação; a pressão de uma opinião pública espontânea, se é forte, do mesmo modo que a sentiam os reis absolutos, assim a sentem também o Parlamento e os partidos, que recuam, como faziam os reis, ante os seus impulsos mais evidentes. Parece, por isto, que, se o parlamento e os partidos podem ser, como o eram os reis, sensíveis às manifestações directas da opinião pública, tanto faz que haja reis como Parlamento e partidos; parece que basta que haja ideal nacional, e que haja opinião pública verdadeira, pois estes se farão sentir ao Parlamento e aos partidos, e assim os compelirão ao recto caminho. Infelizmente a analogia é errónea. O rei absoluto podia (com grave risco próprio) contrariar o ideal da Nação. O rei absoluto podia (com certo risco próprio) contrariar a opinião do seu povo. Mas o rei absoluto não podia sofismar ou perverter esse ideal ou essa opinião, pois não tinha contacto interno com a opinião pública, que não representava e de quem não dependia, e o ideal nacional, enquanto activo, não se manifesta senão como uma parte da opinião pública. Os partidos, porém, como têm um ideal político distinto do ideal nacional (sem o que não seriam partidos), ora sobrepõem aquele a este, ora o infiltram neste, assim o pervertendo. Os partidos, ainda, como têm que ter a aparência de se basear na opinião pública, buscam "orientá-la" no sentido que desejam, e assim a pervertem; e, para sua própria segurança, buscam servir-se dela, em vez de a servir a ela, e assim a sofismam. Em Portugal, porém, não há (como se disse) ideal nacional, nem há (como se dirá) opinião pública. Recebemos, assim, em sua plenitude os malefícios do constitucionalismo. Somos nós os perfeitos constitucionais. Os problemas nacionais suscitados pela presença do constitucionalismo, se são graves em qualquer outro país, são, pois, entre nós gravíssimos. Temos que dar-lhes uma solução qualquer, permanente ou provisória, mas certamente imediata. Ora como, segundo se viu na transcrição acima feita, o mal do constitucionalismo está na sua essência, visto que é radicalmente nocivo até onde é natural, não há outro remédio para ele, onde nem seja natural, senão a sua simples eliminação. Mas, se o eliminamos, o que poremos em seu lugar? Por que norma governativa o substituiremos? Onde houvesse um regime, ou a possibilidade imediata de um regime, tentaríamos extrair da substância desse regime uma norma governativa, própria e especial. Mas onde, como em Portugal presente não há regime, nem possibilidade imediata de o haver, a única solução é, eliminando o constitucionalismo, o não substituir por coisa nenhuma, parecida ou diferente dele. Em outras palavras, há que criar, que estabelecer como coisa definida, o Estado de Transição. Sendo o Estado de Transição, em matéria nacional, a condição de um país em que estão suspensas, por uma necessidade ou compulsão temporária, todas as actividades superiores da Nação como conjunto e elemento histórico, o certo é que não está suspensa a própria Nação, que tem que continuar a viver e, dentro dos limites que esse estado lhe impõe, a orientar-se o melhor que pode. Os governantes de um país, em um período destes, têm pois que limitar a sua acção ao mínimo, ao indispensável. Ora o mínimo, o indispensável social é a ordem pública, sem a qual as mais simples actividades sociais, individuais ou colectivas, nem sequer podem existir. Os governantes naturalmente indicados por um Estado de Transição são, pois, aqueles cuja função social seja particularmente a manutenção da ordem. Se uma nação fosse uma aldeia, bastaria a polícia; como é um nação, tem que ser a Força Armada inteira. É esta a segunda Doutrina do Interregno, a segunda justificação da Ditadura Militar. [...] 2-1928 Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 110. 1ª publ.: O Interregno. Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal . Fernando Pessoa. Lisboa, Núcleo de Acção Nacional, 1928 CANÇÃO TRISTE Sol, que dá nas ruas, não dá No meu carinho. A felicidade quando virá? Por que caminho? Horas e horas por fim são meses De ansiado bem. Eu penso em ti indecisas vezes, E tu ninguém! Não tenho barco para a outra margem, Nem sei do rio Ah! E envelheceu já tua imagem E eu sinto frio. Não me resigno, não me decido, Choro querer... Sempre eu! Ó sorte, dá-me o olvido De pertencer! Enterrei hoje outra vez meu sonho Amanhã virá Tornar-me triste por ser risonho, E não ser já. 1917 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 31. Átrio. Os caminhos do simbolismo, sobretudo desde que se entra na estrada mística ou interpretativa, são cheios de ilusões, de devaneios e de fraudes. O profano a eles não sabe em que fundar-se do que lê nos autores da especialidade, de tal modo se misturam, nas obras de quase todos eles, o sentido certo, a fantasia delirante e a fraude consciente e semiconsciente. E isto é extensivo às próprias personalidades dos mistos e dos epoptas antigos e modernos. É fora de dúvida que Cagliostro era um charlatão; não é menos fora de dúvida que era também, e paralelamente, um alto iniciado É fora de dúvida que Madame Blavatzky era um espírito confuso e fraudoso; mas também é fora de dúvida que recebera uma mensagem e uma missão de Superiores Incógnitos Nos nossos dias há um exemplo estrondoso da mesma mistura, não o cito explicitamente por motivos fáceis de compreender. Estas coisas desorientam os profanos, e ainda mais os sinceros que os curiosos. É natural que o indivíduo, dentro ou fora da O. M, que saiba que o REAA — que nem é e. nem ant. nem ac. — é baseado numa complexa sobreposicão de fraudes, incluindo um diploma falsificado, imediatamente conclua que todo o rito é da mesma ordem e do mesmo valor que esses seus títulos. Esta conclusão seria errónea. Há muito de valia no rito, mas o pior é que o elemento fraudulento se introduz na própria substância da estrutura dos graus e dos rituais, de sorte que só quem tenha conhecimentos superiores aos que o rito inteiro ministra pode, em certo modo, destrinçar o que está certo do que é falso ou errado; e, pela natureza das coisas, os que estão passando através do rito raras vezes terão graus ou conhecimentos que excedam o conteúdo dele e portanto os habilitem a conhecer o caminho. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 51. “Átrio” O Espírito é a Relação Pura; não existe senão em relação ao Objecto. Assim quando dizemos «inconsciência» entendemos uma consciência sem objecto nesse momento. De tal modo a noção de relação a um objecto é parte, não da Consciência Pura mas do Espírito que vive e conhece. Como, porém, o Espírito se prova ou se conhece como Objecto, segue há 2 espécies de Objectos — o Absoluto e o Relativo, sendo este o Espírito. O Absoluto, a Realidade é o que chamamos o Mundo Exterior. O Relativo é o Espírito, a Consciência Relativa; ora isto, ao dar-se como Objecto, necessariamente se dá como de natureza oposta à Realidade, porque, se assim se não desse, não era o Espírito que se concebia a si próprio, não a simples consciência que concebia a Realidade. Esta Consciência relativa, ao tomar conhecimento de si mesma, pensa-se como, ao mesmo tempo que consciente de si, consciente da Realidade. A Consciência da Realidade se chama sensação; a de si Pensamento. Como a Realidade é puramente, a sensação dá a verdadeira Realidade, salvo uma definição lógica — se o não for, haverá ilusão ou alucinação; como porém o Espírito é só em Relação à Realidade, não existindo puramente, o Pensamento não dá a Realidade, porém só uma relação com a Realidade. (A Verdade é a concordância da noção com a Realidade ; a certeza a concordância do pensamento com a sensação). As ideias abstractas. Podemos nós conceber o abstracto sem ter uma sensação dele? 1915? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 197. Camões é Os Lusíadas. O lírico, em que os inferiores focam a admiração que os denota inferiores, era, como em outros épicos de sensibilidade também notável, apenas a excedência inorgânica do épico. Não ocupa Os Lusíadas um lugar entre as primeiras epopeias do mundo; só a Ilíada, a Divina Comédia e o Paraíso Perdido ganharam essa elevação. Pertencendo, porém, à segunda ordem das epopeias, como a Jerusalém Libertada, o Orlando Furioso, a Faerie Queene — e, em certo modo, a Odisseia e a Eneida, que participam das duas ordens, — distingue-se Os Lusíadas não só destas epopeias, suas pares, senão também daquelas, suas superiores, em que é directamente uma epopeia histórica. A vastidão impressiva de fábula, que uma época requer, buscaram-a os antigos e os grandes modernos já na lenda ou na história indirecta, já no Além. Em aquelas se fundamentam, de diverso modo, a Ilíada, a Odisseia, a Eneida, a Jerusalém de Tasso; na lenda absoluta, ou fantasia pura, o poema de Spencer e o Orlando; no Além — o Além pagão do Cristismo — a epopeia de Dante e a de Milton. A Camões bastou a história próxima para lenda e Além. O povo, que cantou, fizera da ficção certeza, da distância colónia, da imaginação vontade. Sob os próprios olhos do épico se desenrolou o inimaginável e o impossível se conseguiu. Sua epopeia não foi mais que uma reportagem transcendente, que o assunto obrigou a nascer épica. Este Apolónio podia ter falado com seus Argonautas, este Homero ter ouvido da boca dos companheiros de seus Ulisses os terrores da Caverna do Ciclope e a notícia imediata do encantamento das sereias. Em certo modo viveu o que cantou, sendo, assim, o único épico que foi lírico ao sê-lo. Essa sua singularidade, que é uma virtude, é, como todas as virtudes, origem de vários defeitos. Resta dizer, de Camões, que não chegou para o que foi. Grande como é, não passou do esboço de si próprio. Os sobrehomens da nossa glória constelada — o Infante e Albuquerque mais que todos — não cabem no que ele podia abarcar. A epopeia que Camões escreveu pede que aguardemos a epopeia que ele não pôde escrever. A maior coisa nele é o não ser grande bastante para os semi-deuses que celebrou. 1924 Fotobibliografia de Fernando Pessoa . (Organização, introdução e notas de João Rui de Sousa. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988 - 107. 1ª publ.: «Luiz de Camões glorificado pelos poetas da nossa terra» in Diário de Lisboa, 4-2-1924. Way of the Serpent. O caminho da Serpente está fora das ordens e das iniciações, está, até, fora das leis (rectilíneas) dos mundos e de Deus. O carácter maldito, o aspecto repugnante, da Cobra, traz marcado a sua Oposição ao Universo — profundo e obscuro Mistério Magno. Ela é o Espírito que Nega, mas nega mais, e mais profundamente, do que em geral se entende ou se pode entender. Nega o bem no seu baixo nível, em que é só Serpente e tenta Eva; nega a verdade no seu segundo nível, em que é (…) nega o bem e o mal no seu terceiro nível, em que é Satã; nega a verdade e o erro no seu quarto nível, em que é Lúcifer; (ou Vénus); nega-se a si mesma e a tudo no seu quinto nível, e fuga, em que é SS, a Revelação Suprema. (…) e a si mesma se tenta e se mata. Todos os caminhos no mundo e na lei são rectilíneos; o caminho da Serpente é a evasão dos caminhos, porque é, substancial e potencialmente, a Evasão Abstracta, o reconhecimento da verdade essencial, que pode exprimir-se, poeticamente, na frase de que Deus é o cadáver de si mesmo; a descoberta do Triângulo Místico em que os três vértices são o mesmo ponto, o segredo da Trindade e do Deus Vivo, que, em certo modo, é o Homem Morto em e através de Deus Morto. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 35. “O Caminho da Serpente” Idea of Truth. Is it superior to the ideas of Good and of Beautiful? 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 198. Way of the Serpent. No seu feitio de S (que, se se considerar fechada, é 8, e, deitado, igualmente serpentino, Infinito), a Serpente inclui dois espaços, que rodeia e transcende. (O primeiro espaço é o mundo inferior, o segundo o mundo superior.) Em outra figuração serpentina — a da cobra em círculo, a boca mordendo a cauda —reproduz-se, não o S, de que a letra é sinal, mas o círculo, símbolo da terra, ou do mundo tal qual o temos. No feitio de S a Serpente evade-se das duas Realidades e desaparece dos Mundos e Universos. A ilusão é a substância do mundo, e, segundo a Regra, tanto no mundo superior como no mundo inferior, no oculto como no patente. Assim, quando fugimos do mundo inferior, por ele ser ilusório, o mundo superior, onde nos refugiamos, não é menos ilusório; é ilusório de outra, da sua, maneira. Só a Serpente, contornando os infinitos abertos — ou os círculos «incompletos» — dos dois mundos foge à ilusão e conhece o princípio da verdade. A magia e a alquimia têm ilusões como a ciência e a sexualidade, que são as suas figurações no baixo mundo. Construímos ficções, com a nossa imaginação, tanto na terra como no céu. O mago, que evoca determinado demónio, e vê aparecer materialmente esse demónio, pode crer que esse demónio existe; mas não está provado que ele exista. Existe, porventura, só porque foi criado; e ser criado não é existir, no sentido real da palavra. Existir, no sentido real da palavra, é ser Deus — isto é, ter-se criado a si mesmo; em outras palavras, não depender substancialmente de nada e de ninguém. A G. O. [Grande Obra] é a libertação, no homem, de Deus, a crucifixão do desfolhável no morto, do perecível no perecido, para que nada pereça. A G. O., em outras palavras, é a criação de Deus. A magia e a alquimia são caminhos de ilusão. A verdade está só no instinto directo (representado nos símbolos pelos cornos) e na linha directa da sua ascensão ao instinto supremo; no instinto directo, cuja forma activa é a sexualidade, cuja forma intermédia é a imaginação, fantasia, ou criação pelo espírito, cuja forma final é a criação de Deus, a união com Deus, a identificação abstracta e absoluta consigo mesmo, a verdade. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 30. “O Caminho da Serpente” Ah, bate leve, mais levemente! Eu julguei morto meu coração Na hora passa, como demente Ophelia indo para a corrente, Não sei que incerta minha emoção, Julguei-te morto, coração triste, Que nada fazes salvo doer. Julguei-te morto, e ainda existe Na tua cinza algum fogo e resiste Em ti ainda o mal de sofrer. …… Coração triste, vibras incerto, Gemes na tua desolação. Que oásis falso no teu deserto Não foi esta vaga miragem perto Da tua inútil consolação! …… Recolhe, monge definitivo Ao peito aonde te abrigas (…) …… Sê firme, crê que ninguém deseja O teu asilo ou o teu abrigo. Em teu deserto nada viceja. Quem queres tu que te queira... Coração triste, vive contigo. …… Abdica e vive de não viver! …… Pobre criança que queria ter Em toda a vida canções de amor (…) 26-7-1917 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 32. AGNOSTICISMO IDEALISTA A. Cepticismo absoluto ou negativo. B. Cepticismo relativo ou positivo. C. Cepticismo transcendental. A. O que nega que se pode saber a verdade. B. O que nega que a lógica nos leva à verdade, que a lógica seja critério da verdade. (Sendo o critério outro). C. O que afirma que a lógica, ainda que não nos leve à verdade, leva-nos à verdade a que se pode levar. Classificação : A. (...) B. (a) O critério da verdade não é a lógica, mas é intelectual (i. e. opinião comum). (b) O critério da verdade não é a lógica, mas qualquer coisa não intelectual (pragmat[ismo]). (c) O critério da verdade não é a lógica, mas transcende-a (intuicionismo). ou (a) ... outra coisa intelectual. (b) ... qualquer sentimento (fé) . (c) ... qualquer vontade ou coisa para a acção (pragmatismo) . C. (...) * A. O critério da verdade é a lógica, e essa desprova-se. B. O critério da verdade não é a lógica. C. O critério da verdade é a lógica mas essa vai além de si própria. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 199. Tales: (20 in number) [/] words The Madman's Tale (daughter lost)      5000 The Squire's Tale (soldier went to the wars/ever waiting)      5000 The Soldier's Tale (evils of war)      6000 The Business Man's Tale (a tale of bankruptcy, awe and terror)      6000 The Musician's Tale (love of music-men perish in flames)      5000 The Townsman's Tale (2 enemies, friends - calamity from verandah)      6000 The Author's Tale (writer dies with thousands of thoughts to utter, in agony)      6000 The Tramp's Tale (a mother's love - what it can do)      6000 The Pauper's Tale (Evils and woes of poverty)      6000 «The Philanthropist» (a study of man)      30000 «The Atheist» (a study of religion)      40000 «The Schoolmaster's Tale». (of a weak boy)      5000 s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 135. Atribuído inicialmente a David Merrick e depois a C. A. Anon. SS. As infiltrações de uma linha na outra são sempre feitas de Alta Ordem para Baixa Ordem, nunca entre Ordens de igual nível. Assim os Chefes Secretos da Maçonaria podem fazer infiltrações nas Ordens Menores das outras linhas — na Igreja e na Ordem menor da linha da Fraternidade. Os Chefes Secretos da Igreja podem fazer o mesmo, como já fizeram, na Maçonaria, onde há ritos que são desta origem. E é sabido que o mesmo sucedeu com as ordens maiores dependentes da Fraternidade; à acção delas deve a Maçonaria grande parte da sua formação. Tudo isto se passa, ou por combates no Além, ou por entendimentos no Abismo, e está acima da nossa compreensão humana. O que nunca há, nem pode haver, é infiltração de igual para igual. O mais que pode haver, neste caso, é erro ou confusão humana. Um Católico pode, de facto, entrar para a Maçonaria, ou, pelo menos, para alguns dos seus ritos, pois ela o não exclui—pelo menos por essa só razão. Mas é mau católico o que entre para a Maçonaria, pois a Igreja expressamente proíbe aos seus fiéis que ingressem em qualquer sociedade secreta, de mais a mais profana. (Nunes quis fundar uma O. C. dentro da M. Isso estava de antemão condenado…….) (As provas da OC. Sob elas ficou esmagado Antero de Quental, que nunca passou de escudeiro. A sua associação com elementos maçónicos e semelhantes em parte contribuiu para a sua derrota astral. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 38. “Subsolo” TEORIA DO AGNOSTICISMO IDEALISTA The argument 1. Temos uma ideia de verdade, que é, em base, a ideia de ser. 2. O mundo não é a verdade nem o ser. Não podemos descobrir essa verdade — na impossibilidade que temos de uma causa infinita, etc. 3. Se a não podemos descobrir, é que o mundo, como nos é apresentado no espírito, não a é. A ideia de infinito não nos vem da experiência, do mundo — porque essencialmente, o infinito é inexperienciável. É uma dedução metafísica nossa. — Tudo quanto concebemos como essencial , não o encontramos no mundo; julgamo-lo ali, às vezes, mas por dedução. A objecção de que o infinito entra na matemática envolve uma falta de subtileza no compreender. A m[atemátic]a trata do número (e da quantidade); como o infinito é, negativamente concebido, quantidade; isto é, como o infinito é quantidade visto que é não-quantidade, a matemática tem que o considerar. Como coisa positiva, porém, é que o infinito não entra na ciência. Tendo todas as ideias, todos os sistemas uma parte de erro e uma parte de verdade, todos são ad infinitum (indefinidamente) substanciais representações. [...] s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 199. Tales of a Madman . 1st series I. «The Devil's Voice» II. «The Case of the Science Master» III. «The Wandering Jew» s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 136. Subsolo. Nas doutrinas secretas dos Templários estão os quatro segredos, que o haviam de ser depois da Maçonaria, assim como de todas as Ordens. O primeiro, contido nas cores branca e preta da bandeira dos Templários, e nos signos Virgem e Scorpio do zodíaco, é o chamado Segredo do Grau de Mestre (entendendo-se Mestre do Templo). O segundo, contido na cruz vermelha, é o da Encarnação de Cristo, e é a chave não só de toda a religião cristã, senão também da sua verdadeira origem histórica, por trás das alegorias evangélicas. O terceiro, contido na colocação da Cruz, à esquerda, sobre o ombro, é a chave da Ordem, e portanto de todas as Ordens. O quarto, contido nos três graus, com que a Ordem é formada, é a chave do Governo Secreto do Mundo; também é conhecido por o Segredo da Cavalaria. (Cavaleria) 3.° porque o é da Manifestação. [...] J ben H, erg como C. cerca de 96 (ou 100?) anos depois. (A divisão em séculos — tempo a m. e a inc. de J ben H). [...] Para operar, os Templários da Escócia serviram-se da Associação ou Grémio Secreto de Pedreiros ou Construtores de Catedrais, que, tendo em si princípios ocultos que datam de tempos remotos, tinham todavia perdido a Palavra (isto é, o Sentido, Logos) do ritual que conservavam e das estruturas que erguiam. Nesse rito morto introduziram os Templários da Escócia a Palavra que traziam, erguendo-o; e, se o fizeram, é porque as analogias eram perfeitas. A redacção alegórica perfeita foi por fim atingida no Evangelho de (ou segundo) S. João, que, com o Apocalipse de igual atribuição, e as Epístolas de Paulo forma o corpo doutrinário essencial do Cristianismo, como também da Maçonaria. (Os Joanitas, e o derrame da tradição essencial quanto à origem do Chmo.) s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 46. “Subsolo” Consciousness is neither in time nor in space. That it is not in space is no news; but it will be necessary to prove that it is also not in time. We have proved already that what is in time must also be in space, and what is out of time must also be out of space. This is our first argument. Secondly, we can argue as follows: to have consciousness of time, that is to say, for my consciousness to perceive time it is necessary that consciousness should be anterior to and dependant on time. The consciousness of time gives us the impression that consciousness moves along with time, or with phenomena within time; it is purely an illusion: for to say my consciousness moves along with time, that I am conscious of time is wrong, for it is supposing time before we have established it. From conscience therefore one only Category comes, which is first in the list we are making; this is the Category of being. The kind of spiritual operation called mediate consciousness has no existence at all, as consciousness . It is not, I mean, a part of consciousness. The proof of this is very simple. It is through this operation that we know we have consciousness; if we give this faculty the name consciousness, we shall find that we are conscious of being conscious, which is impossible. We have proved that consciousness is the inmost faculty of the mind, anterior even to time and to space. Another consciousness to be conscious of this is impossible; only one consciousness can exist. For true consciousness being out of time and out of space, cannot by any means be detected by anything backward of itself, for that thing would have to be out of time and of space itself and would have to detect something which itself out of time and space which we could not perceive. If it were thus, we could not perceive it, for we perceive things only in time and in space. No, what has been called mediate consciousness in analysis, reasoning, reflects whatever you Will; but it is unphilosophic to call it in any a way a consciousness. 1908? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 200. Escuta-me piedosamente. Não vale a pena amar-me não, Mas o que o meu coração sente - Ah, quero que te passe rente À ideia do teu coração... Quero que julgues que podias Se quisesses, amar-me. Só Saber isso consolaria Minha alma erma de alegria... Ter a certeza do teu dó!... Teu dó, o teu quase carinho... Qualquer sentimento por mim... Que não me deixasse sozinho... Eu posso construir um ninho, Com o pouco que me vem de ti... Eu tenho de mim tanta pena Queria ao menos que tu também Viesses ter pena serena Não de mim mas da minha pena, Essa pena que ninguém tem. 1917 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 33. SUBSOLO As Ordens Maiores, e sobretudo os Graus Mágicos dessas Ordens, têm que ser atacados, quando o sejam, com as armas próprias do grau. Atacá-las com armas de outro grau é desencadear as forças magicamente defensoras do grau atacado; e, como estas são de ordem superior àquelas que se empregam para o ataque, desencadeia-se sobre o inimigo, sobretudo se vitorioso no grau onde atacou, tudo quanto está magicamente de guarda ao grau atacado. (Nas próprias Ordens Menores há que haver cuidado, quando se atacam, em que o ataque incida sobre aquilo que se ajusta aos processos de ataque. Se o ataque é a actividades externas da ordem, deve incidir sobre os indivíduos, deixando a Ordem intacta. Se o ataque é às ordens mesmas, deve incidir sobre a sua íntima natureza e ser feito por processos não externos. É por isso um erro crasso atacar a Maçonaria sempre que se quer atacar a sua actividade abusiva, política ou outra. A Maçonaria, sendo uma Baixa Ordem, é contudo uma Ordem magicamente selada pelos seus Superiores Secretos; e todo o ataque que, com o pretexto de ser às suas actividades inferiores, se faz à própria Ordem incide contra forças mágicas, pois que, em vez de ser dirigido contra os chefes secundários, passa a sê-lo contra os chefes superiores. Há um terrível exemplo histórico da imprudência profana de atacar uma Ordem — neste caso uma Alta Ordem — com processos inferiores. A Ordem dos Templários tornara-se satanista; era chefe do seu rito satânico o Mestre Externo do Templo, o Adepto Exempto Jacques de Molay. Querendo, com justa razão, atacar o Satanismo da Ordem, a Igreja, ou ignorante dos processos de o fazer, ou já levada por forças mágicas adversas, dissolveu a Ordem dos Templários, e fê-lo por processos materiais; mais, supliciou o Adepto Exempto que era o seu chefe supremo; pior, supliciou-o pelo Fogo. Tão poderosas eram as forças mágicas armazenadas nos Templários que o erro de processo produziu o retorno individuado chamado a Reforma; e o retorno foi tanto mais violento, e tanto mais duradouro, quanto se empregou para exterminar o Grão-Mestre o processo do Fogo, sendo que os iniciados da Ordem o eram do Fogo. Assim o Adepto Exempto, em vez de passar a Mestre do Templo recebeu logo o grau de Mago, apto a pronunciar a palavra do aeon seguinte. E ele pronunciou-a contra a Igreja. Toda a acção contra as ordens, baixas ou altas, tem que ser orientada no nível a que elas pertencem, e pelos processos que competem a esse nível. Tut-ank-amen… abertura física do túmulo. Milton, «Comus», o erro mágico. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 42. Men are prone to take dreams for things, false things for things true and to hold reality by nothingness . s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 203. Time and space are ideas and ideas cannot be external to that which forms them and which alone can form them. (Enigma of world’s etternity insoluble). The fundamental condition of all consciousness is the antithesis of subject and of object. Spencer . The fundamental of all cause is the synthesis , nay, the identity of subject and of object. C. R. Anon. So indeed Spencer asserts, saying that the identity of Subject and Object is the annihilation of both. The bad belong necessarily to the whole of the universe which is perfect; because this whole demanded that all possible beings, in all possible degrees, should be produced. St. Augustine — De libero arbitrio I, 14; II, 1-19-20; III, 9. Lib 3. Qu. 41. Philosophy of the Fathers Tennemann (Cousin). Vol. I, pages 307 (and 317) - 322, generally. Particularly to p. 330. Campanella — Tennemann II-63. Spinoza. Here at last the genius appears, true genius, having that which Descartes had not the fearlessness and the lack of respect for the established. Honours to the master-thinker who, prosecuted, hated, accurst, stood by truth, lived for truth, suffered for (the sake of) truth! 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 203. Ah, o horror metafísico da Acção! Os meus gestos separam-se de mim E eu vejo-os no ar, como as velas dum moinho, Totalmente não meus, e sinto dentro Deles a minha vida circular! Sou sempre o mesmo, sempre o mesmo, sempre! Sempre o que tudo vê e tudo sente No seu sentido misterioso e enorme... Sempre... Nada me cura nem me apraz! Ah qualquer coisa Que anulasse meu ser e mo deixasse!... s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 149. Pouco a pouco O mundo volta a ser do pensamento Regressa a ser sentido. E por onde subira, Por esses degraus de mistério Desceu o mundo, de mistério a etéreo De etéreo a alma só perante a lira. Pouco a pouco, Lento e suave, Como o voo De uma ave Que se cansa Regressa o mundo ao mundo Orfeu, que se afasta, avança Pouco a pouco, pelo (...) profundo. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 149. I have discovered that the human mind in all its operations manifests, although simple, a three fold character in that simplicity. And the study of this triple nature of all mental actions is useful because it gives us, among other things, a critical idea of the nature of reasoning and of the kind of reasoning which is of value, of the kind which is not. I was first led to these observations by the consideration of perception. Let us consider this mental action in relation, say, to a piano. Take firstly the case of a civilized man, who knows of course what a piano is. In childhood the idea of piano has been acquired, it is now, practically, a primary idea, in his mind, a kind of Category already. Now when this man sees a piano, the operation which takes place is this: the idea of piano passes out of him so to speak into the piano itself and returns to him individualized — as the notion of a particular piano, which is of a certain size, of certain colour, of a certain make. The general passes into the particular and returns to itself particularized. Let us now consider the same case in a negro, in a savage who has never seen a piano, nor ever heard of it. In his case the primary idea is not the idea of piano, it is the idea of colour, of form, of size and others of the same kind. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 205. Se nos houvessem dito que era de um materialista que havia de emanar a mais original e mais límpida poesia, a poesia mais puramente poesia, de hoje, não nos levaríeis a mal que duvidássemos. Se nos falassem num místico materialista, mas um místico com todas as qualidades de requinte espiritual do místico, e ao mesmo tempo o mais absoluto e radical dos materialistas, nem nos daríamos ao trabalho de virar as costas ao grosseiro paradoxo. Se alguém nos dissesse que haveria um poeta de hoje que apareceria com uma poesia inteiramente nova, o total contrário da poesia - encolheria talvez os ombros, quem não (...). Alberto Caeiro realiza estas contradições todas. Saudamos nele o mais original dos poetas modernos, um dos maiores poetas de todos os tempos… s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 357g. «A. C. - Artigo para A Águia» Pol [ itical ] Sufr [ age ] Em matéria de assuntos sobre que se possam ter opiniões, há (1) assuntos sobre os quais há ciência, (2) assuntos sobre os quais não há ciência mas há experiência, (3) assuntos sobre os quais não há ciência nem experiência. Sobre os primeiros, é evidente que pode haver opiniões técnicas, e que essas, em princípio, deverão prevalecer sobre as dos que não são técnicos ou peritos; mas aqui mesmo há que distinguir entre os assuntos sobre que há ciência certa — como, por exemplo, o coeficiente de dilatação dos metais —, e aqueles sobre que há ciência teórica, como, por exemplo, a constituição da matéria. E é de notar que muitas inovações teóricas na ciência, assim como muitas invenções na aplicação dela, têm sido recebidas com muito mais hostilidade, ignorância real e aversão pelos peritos do que pelos leigos na matéria. É que o perito é até certo ponto escravo do que sabe, que é o que sabe até ali; enquista nisso, e é mais rudemente inimigo de qualquer inovação do que o leigo, visto que essa inovação perturba e agride as suas ideias preconcebidas, ao passo que o leigo ou não tem ideias preconcebidas, por não ter nenhumas, que se perturbem, ou tem ideias vagas, que não têm força para o fanatizar. Nos assuntos em que não há ciência mas experiência, o caso é já mais difícil, pois que há três tipos de experiência — a própria, a próxima e a remota. Explicarei isto melhor, e por exemplos. A opinião de um chefe político sobre um sistema político que ele próprio aplicou ou tentou aplicar, é experiência própria. A opinião desse chefe político sobre um sistema político que se aplicou já no seu país ou no seu tempo, é experiência translata, mas próxima. A opinião do mesmo chefe político sobre um sistema político que se aplicou na Grécia Antiga ou na China é experiência remota, derivada, não de observações como a experiência próxima, mas de leituras ou relatos. E aqui o valor das opiniões é muito mais incerto; não havendo ciência, depende tudo muito mais da pessoa do que da matéria. (...) Nos assuntos em que não há ciência nem experiência todas as opiniões são válidas, porque ninguém tem base para elas. Não vale mais, pois, nessa matéria a opinião de um homem culto que a de um ignorante; o culto poderá expor melhor o que pensa, poderá dar em argumentos o que o ignorante dará por palpites ou por afirmações. Como, porém, nem ciência há nem experiência, nada obsta a que o palpite do ignorante seja mais justo que a argumentação do sábio, visto que nessa matéria não é ele sábio. A história fornece sobrados exemplos de casos em que a massa popular, por um instinto irracional, “pensou” melhor, quanto a certa coisa política, do que os estadistas ou os reis ou conselheiros deles. (O que deu certo numa terra pode dar errado noutra, e vice-versa...) Não pesa o argumento de que um ignorante não pode escolher um deputado ou governante, porque todos nós que não somos advogados assim escolhemos os nossos advogados, todos que não somos médicos os nossos médicos, todos que não somos arquitectos os nossos arquitectos. Escolhemos como? Por uma soma de vários factores a que poderemos dar o nome colectivo de “sugestão”. O que é preciso é fazer com que seja possível o eleitor, em democracia, escolher o eleito por sugestão, e não ser-lhe este imposto à força ou por fraude. Não é preciso mais nada. E assim se fará a verdadeira experiência da democracia — experiência essa que até aqui se não fez, sendo por isso que se não pode dizer que a democracia falhou, senão que falharam várias formas Imperfeitas dela, ou, melhor dizendo, várias formas da ausência ou da perversão dela. 1919 Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 60. ANÁLISE Tão abstracta é a ideia do teu ser Que me vem de te olhar, que, ao entreter Os meus olhos nos teus, perco‑os de vista, E nada fica em meu olhar, e dista Teu corpo do meu ver tão longemente, E a ideia do teu ser fica tão rente Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me Sabendo que tu és, que, só por ter‑me Consciente de ti, nem a mim sinto. E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto A ilusão da sensação, e sonho, Não te vendo, nem vendo, nem sabendo Que te vejo, ou sequer que sou, risonho Do interior crepúsculo tristonho Em que sinto que sonho o que me sinto sendo. Do sonho e pouco da vida. 12-1911 Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 162. O DESTINO: As minhas mãos invisíveis Pesam sobre o mundo E as coisas, insensíveis Ao seu condestinar profundo, Dormem no sonho de verdade Chamado a sua liberdade. Todos são malhas de uma rede Que no seu desfazer Julgam que vivem e têm sede De em si crer. s.d. - 153. Sufrágio Sobre a composição (?) do eleitorado — isto é, se deve ser individual ou corporativo o voto. Quanto a ser individual, há o seguinte: (1) o indivíduo é a única realidade social, (2) a corporação, a região, etc., são entidades cujo interesse pode facilmente entrar em conflito com o interesse do estado, ao passo que os interesses do indivíduo com menos facilidade podem assim entrar, (3) como as corporações, as regiões, etc., são compostas de indivíduos, o voto corporativo equivale a um voto diferido ou translato, ou indirecto, produzindo resultados estranhos, como o equivalerem-se perante o voto corporações diferentes em número de gente, etc. Se não se concorda com o sufrágio individual, ou então se abole por completo, e o regime é uma tirania ou uma ditadura; ou se lhe sobrepõe qualquer coisa tida por superior, e isso equivale a dizer que a assembleia eleita por sufrágio directo passa a ser consultiva em vez de soberana — problema esse que está fora do nosso âmbito, como desde o princípio se disse. (E a assembleia, continuando a ser eleita por sufrágio individual, passa a ser consultiva apenas.) 1919 Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 63. DOBRE Peguei no meu coração E pu‑lo na minha mão, Olhei‑o como quem olha Grãos de areia ou uma folha. Olhei‑o pávido e absorto Como quem sabe estar morto; Com a alma só comovida Do sonho e pouco da vida. 20-1-1913 Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 162. Quero fugir ao mistério Para onde fugirei? Ele é a vida e a morte O Dor, onde me irei? s.d. “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). - 75. The external world is a tactile hallucination. There are visual, aural, (auditive), olfactory, gustatory hallucinations. But there are not tactile hallucinations. lntercomunication of the senses: smell and taste closely communicated. So are (Silva Cordeiro told) auditive and visual sensation; there is never one without the other. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 208. Não creio ainda no que sinto - Teus beijos, meu amor, que são A aurora ao fundo do recinto Do meu sentido coração... Não creio ainda nessa boca Que, por tua alma em beijos dada, Na minha boca estaca e toca E ali (...) fica parada. Não creio ainda. Poderia Acaso a mim acontecer Tu, e teus beijos, e a alegria? Tudo isto é, e não pode ser. …… 2-2-1920 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 34. T[eoria] do Suf[rágio] Pol[ítico] Resolvida assim, tanto quanto é humanamente possível, a dificuldade da representação justa da opinião na formação da assembleia representativa, resta resolver, tanto quanto se possa, o outro problema: o da votação adentro da própria assembleia. É evidente, desde logo, que a importância dessa votação varia conforme a soberania existente na assembleia votante. Se essa assembleia não é soberana, estando sujeita a um veto superior, ou a uma fiscalização de outra Câmara, ou se essa assembleia é, como na monarquia pura, meramente consultiva, não importa muito o que decide, visto que verdadeiramente não decide. Mas no caso de a soberania nacional estar inteiramente representada nela, importa, e muito, que haja uma regra para evitar abusos do acaso de votação, e para salvaguardar as minorias quando sejam suficientemente grandes para praticamente valerem o mesmo que a maioria. Concordarão todos que se uma assembleia soberana votar a abolição da monarquia por 132 votos contra 131, ou coisa parecida, essa assembleia está votando um estado de guerra civil. E porquê? Porque em matéria de tal magnitude, não pode o acaso de um só voto, a vontade de um só homem — o votante que votou a república em vez de a monarquia — decidir do destino de uma nação contra 131 homens. (Dividir as leis conforme a sua importância, em 3 grupos. Para 1.º grupo, a maioria tem de ser de 2 a 1, isto é, dois terços dos votos da maioria; para o 2.º grupo, a maioria será de 3 para 2, isto é, três quintos dos votos serão da maioria; para o 3.º grupo, qualquer maioria serve.) (Ou em dois grupos, para maior simplicidade. 1919 Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 61. HORA MORTA Lenta e lenta a hora Por mim dentro soa (Alma que se ignora!) Lenta e lenta e lenta, Lenta e sonolenta A lua se escoa... Tudo tão inútil! Tão como que doente Tão divinamente Fútil — ah, tão fútil Sonho que se sente De si próprio ausente... Naufrágio ante o ocaso Hora de piedade... Tudo é névoa e acaso Hora oca e perdida, Cinza de vivida (Que Poente me invade?) Por que lenta ante olha Lenta em seu som, Que sinto ignorar? Por que é que me gela Meu próprio pensar Em sonhar amar?... Que morta esta hora! Que alma minha chora Tão perdida e alheia?... Mar batendo na areia, Para quê? para quê? P'ra ser o que se vê Na alva areia batendo ? Só isto? Não há Lâmpada de haver — — Um — sentido ardendo Dentro da hora — já Espuma de morrer? 23-3-1913 Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 163. Com o coração estranho Escutei essa canção Esse mundo donde venho E este nosso onde me tenho Qual é a ilusão? 21-6-1909 Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 154. Mais que a existência É um mistério o existir, o ser, o haver Um ser, uma existência, um existir — Um qualquer, que não este, por ser este — Este é o problema que perturba mais. O que é existir — não nós ou o mundo — Mas existir em si? s.d. “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). - 88. Teoria do Suf[rágio] Pol[ítico] Os cinco princípios em que a teoria assenta: (1) eliminação de círculos ou constituências; (2) voto delegativo; (3) votação durante o espaço de um mês e contra o estilo de recenseamento (bilh. ident.); (4) voto obrigatório (estudar penalidade); (5) votam homens maiores letrados, mulheres maiores e independentes, iletrados, de ambos os sexos, proprietários. 1919 Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 62. Oca de conter‑me Como a hora dói! Pérfida de ter-me Como me destrói O meu ser inerme! Ó meu ser sombrio! Ó minha alma tal Como se pelo rio Do meu ser igual Sempre a mim, e frio De nocturno e meu, Passasse, cantando, Uma louca, olhando Dum barco para o brando Silêncio do céu. 4-5-1914 Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 178. Lágrimas, chorar-vos-ei E a vida em vós, pouco a pouco, E chorando ficarei Num silêncio d'alma louco. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 154. Todo o mundo de seres e relações Aos meus olhos (...) se dissolve Em irrealidades e vazias Admirações de ser. Espanta-me De ver que há existência e existências. E reflectindo perco-me em profundos Pensamentos, bases uns doutros ainda Mais profundos, até nada entender. Tenho quase um sorriso ao ver-te, mundo, Existir — sóis, estrelas, firmamentos, Extensões que sufocam de terror, Cidades, palácios (...) Poetas (...) — ah, que diversidades E tudo sendo. O mistério do mundo, O íntimo, horroroso, desolado, Verdadeiro mistério da existência Consiste em haver esse ou um mistério! É esta a fórmula que encerra tudo... Todo o vácuo e horror do pensamento E que profundamente ponderar Não podemos sem dores de terror E esvaimentos d'alma de pensar. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 56. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.87). COMO ORGANIZAR PORTUGAL Quando a guerra findou — como se a guerra alguma vez findasse, ou houvesse neste mundo senão guerra! —, quando, enfim, esta guerra de há pouco findou, passou a ser assunto de primeiro plano aquilo, já bastante discutido, a que mais vulgarmente se chamou “os problemas da reconstrução”. A frase é inglesa, e, como participa da nebulosidade mental que caracteriza os ingleses, susceptível de ser mal interpretada. Se o termo diz respeito ao mero restabelecimento das vias normais da vida pacífica, tem cabimento etimológico; se diz respeito à reconstituição das indústrias estagnadas, à reedificação das cidades destruídas, tem cabimento também. A frase porém tem um sentido vulgar arbitrariamente mais lato: quando se diz “reconstruir”, quer, em geral, dizer-se simplesmente “organizar”. E esta ideia de organização não tem origem simplesmente na necessidade de preencher lacunas, que a guerra abrisse, ou de reparar estragos, que os exércitos fizessem. Tem uma, de certo modo, mais vergonhosa origem. Durante quatro anos suportaram os aliados embates sobre embates dos Alemães. Aguentaram-os conforme os Deuses foram servidos, ora bem, ora mal, ora confiando, ora descrendo, até que o mais velho dos Deuses, o Tempo, lhes concedeu a vitória. E durante esses quatro anos, e através da dura experiência que eles foram, aprenderam — com que proveito, ainda se não sabe — pelo menos uma coisa. Repararam que a força da Alemanha provinha, não da valentia notável dos componentes individuais dos seus exércitos, não da perícia especial dos seus chefes militares, mas de ser na guerra o que era na paz, e na disciplina particular da vida guerreira o que era no geral de toda a sua vida — uma nação plenamente organizada, coerindo dinamicamente em virtude de uma aplicação inteligente e estudada dos princípios de organização. A inveja é mãe do estímulo, como a curiosidade o é da ciência; da inveja da organização alemã nasceu o falar-se tanto em organizar tanta coisa. Se é fácil, porém, falar em organizar, menos fácil é, ao que parece, organizar deveras, ou, pelo menos indicar como se organize. Nem se pode conceber época mais inapta para tomar sobre si o encargo intelectual que a palavra “organização” comporta. Os homens do nosso tempo, destituídos por completo do senso das realidades, extraviados por hipotéticos “direitos”, “justiças” e “liberdades” da noção científica das coisas, não logram, nem mesmo em teoria, visionar a construção da prática. Um século, ou mais, de “princípios de 89”, um século, ou mais, de “liberdade, igualdade, fraternidade” tornou o geral dos europeus, salvo os alemães, obtuso para aquelas noções concretas, com as quais seguramente se constrói o futuro. E um estudo, como este, da organização, devia, para ser completo, começar pela eliminação crítica de quanto lixo a loucura dos séculos mortos, os idealismos fustes do século passado deixaram nas almas; por uma análise — fácil, afinal — que mostrasse como desde a Revolução Francesa o espírito humano, no que político, retrogradou, e como as ideias de liberdade, de igualdade e de fraternidade, como as têm entendido desde Babeuf aos bolchevistas, não são mais que restos laicos da ideologia cristã, drogas de reclame para uso das plebes por educar. Isto, porém, estorvaria o intuito directo deste estudo, que é o de determinar em que princípios deve ficar assente qualquer teoria da organização social e, em especial, da organização social portuguesa. Suponhamos que queremos organizar a sociedade portuguesa; como a organizaremos? É evidente que o problema da organização se divide em três partes, uma das quais compete ao teórico, e as outras duas ao prático. Temos, primeiro, a determinação do plano ou norma, segundo o qual se vai organizar; temos, depois, a colocação, nos lugares que lhes competem, dos homens competentes que hão-de efectivar, na prática, essa organização; temos, por último, a coordenação dinâmica dos esforços desses homens, a maneira especial de pôr a organização em marcha. A primeira parte é de pura teoria, a segunda e a terceira pertencem já à prática. Para a primeira não há senão regras; para a segunda e a terceira não há outra regra senão a realidade, nem outra norma, na segunda parte, senão a intuição na escolha dos homens, e, na terceira, o espírito prático de coordenação de esforços. Não nos interessa — escusado é dizê-lo — senão aquela parte que é teoria, e é dessa que vamos tratar. As outras duas partes, que competem aos práticos, não nos interessam porque não podem ser objecto de estudo, nem para elas há regras que se possam dar. Antes, porém, de entrarmos na teoria, propriamente dita, vejamos bem de que espécie de teoria é que se trata. E que há duas espécies de teorias — a teoria puramente científica e interpretativa, e a teoria preliminar da acção. A cada uma delas corresponde um modo determinado de análise, uma atitude especial do espírito. A análise de um problema para o compreender não é igual à análise do mesmo problema para aplicar à prática a sua solução. Compreender envolve esmiuçar o mais possível; resolver envolve simplificar: há, portanto, oposição entre as atitudes do espírito em um e outro caso. Quem estuda um problema para o compreender não tem diante do seu espírito senão esse problema; quem estuda um problema para o resolver e aplicar tem diante do seu espírito duas coisas — o problema e a realidade a que há-de ser aplicada a sua solução. No primeiro caso, a atenção tem que concentrar-se apenas sobre o problema; no segundo, tem que estudar qual a média entre o problema e a realidade. Não é só que o escrúpulo normalmente excessivo da compreensão entibia, de ordinário, a vontade; isso é com o teorista e não com a teoria, e só lhe pode fazer realmente mal se ele pretende ser, além de planeador, o chefe prático da execução do seu plano. É que toda a realização é a diagonal do paralelogramo de forças, cujos lados são a ideia a aplicar e a realidade a que ela se aplica. Quanto mais concretamente plausível seja a teoria que se tenta aplicar, mais facilmente será aplicada; ou, em outras palavras, e para me servir da imagem justa que empreguei, quanto mais pequeno for o ângulo entre a linha-força da teoria e a linha-força da realidade, menor será o desvio de ambas, da diagonal da realização. Esta é a parte que compete à teoria. A intensidade da força aplicada, que graficamente se representa pelo comprimento da linha, pertence já à prática. Dela não trataremos nem podemos tratar. Aplique-se, agora, esta doutrina. Tratando de organizar, tratamos de organizar qualquer coisa; determinemos primeiro que coisa é essa, para que, desde o princípio, possamos limitar a nossa investigação a um ponto concreto. Não se trata — é bem de ver — de uma teoria da organização abstracta, da organização atitude mental que tanto pode ser aplicada a um poema como a um estado, a um tratado de filosofia como a uma empresa de comércio. O que procuramos organizar é a sociedade portuguesa; é sobre esse ponto, e sobre esse apenas, que temos que fazer incidir a nossa investigação. O estudo desse ponto, porém, desdobra-se em três partes. Para a análise, a sociedade portuguesa é, primeiro, sociedade, e depois sociedade portuguesa; temos, portanto, que investigar, primeiro, em que princípios deve assentar a organização de qual- quer sociedade, e, depois, por que aplicação especial desses princípios deve ser organizada a sociedade portuguesa. São estas as duas primeiras partes, mas como nelas apenas se assentam princípios, uma terceira parte, derivada e complementar daquelas, será o estudo dos processos a adoptar para realizar a organização, cujos princípios estabeleçam. Na investigação dos princípios em que deve assentar a organização de qualquer sociedade tropeçamos, logo de começo, num obstáculo — a ausência de ponto de apoio científico para tal determinação. Tomando a imagem da química, podemos dizer que a ciência chamada sociologia está ainda no seu período alquímico. De forte e seguro, em matéria sociológica ou política, pouco temos — nós, humanidade em geral—a não ser a Política de Aristóteles, fruto de toda a experiência política da Grécia antiga, e O Príncipe, de Machiavelli, fruto de toda a experiência política da Renascença. Um como outro, habitantes de pequenos estados, onde as engrenagens da política estavam patentes, podiam colher ensinamentos que São vedados aos súbditos de grandes nações, onde a profusão de elementos acidentais e heterogéneos obscurece as grandes linhas, as linhas simples, da realidade substancial. Desde a Revolução Francesa, sobretudo, se perdeu por completo o senso das realidades sociais, em proveito de teorias abstractas, de sentimentalismos vagos, de imperialismos místicos e mistos. E de então para cá, na era dos grandes estados e do internacionalismo crescente, que a progressiva facilidade de comunicações e de relações instaurou, ficou sendo completa a obnubilação do senso político. Foi em meios como estes que nasceram as modernas teorias sociológicas. Não admira que a nada cheguem e de nada sirvam, e que se possa dizer que estamos ante elas como os velhos diplomatas recomendavam que se estivesse, para aprender, ante o célebre governo da Sicília: esse governo era uma perfeita lição de administração, pois bastava ver o que ele fazia e fazer o contrário, para se acertar. Privados, assim, de apoio científico — pois a própria Política de Aristóteles é mais uma colecção de apontamentos admiráveis do que uma obra cientificamente coerente — não temos remédio senão entrar sozinhos, e sem mais recursos que a própria lógica, na investigação do problema. Não vamos, porém, investigar quais as leis fundamentais e eternas, pelas quais as sociedades se regem; tal empresa seria, simplesmente, a de escrever um tratado de sociologia. O nosso fim, como já se explicou, é apenas ver o problema em relação à prática; basta, portanto, no caso presente, que descubramos qual a lei, o princípio que serve de esteio às sociedades; se for na verdade fundamental, tal qual é nos servirá para o nosso fim prático. Limitemos, ainda mais, o problema. escusamos de procurar o princípio fundamental de todas as espécies de sociedades; basta que procuremos o que serve de base às sociedades civilizadas ou progressivas. Mais do que isto não é preciso, pois a uma sociedade civilizada e progressiva (embora atrasada e perturbada) se hão-de aplicar, por fim, as nossas conclusões. Vemo-nos, assim, livres do que Summer Maine disse ser um problema capital da sociologia — qual a distinção fundamental entre as sociedades susceptíveis e as insusceptíveis de progressos? Ora, se considerarmos uma sociedade progressiva, a própria designação está dizendo que o seu princípio fundamental se liga com o progresso. Escusamos de definir progresso; e assim nos vemos livres de um outro dos pesadelos da sociologia. Para o nosso caso, basta determinar a dinâmica do progresso, sem examinar o conteúdo lógico do termo. O progresso, seja o que for, e quer se considere bom quer mau, é, com certeza, uma alteração, e uma alteração envolve o abandono de certos hábitos, de certos costumes, de certas normas e atitudes que, por serem velhas, se tornaram queridas, e, por serem usuais, se tornaram necessárias. A alteração chamada progresso incide, portanto, quando não sobre os instintos, pelos menos sobre os hábitos dos indivíduos, ou da maioria dos indivíduos, que compõem uma sociedade. Ora o homem, como todos os animais, é essencialmente uma criatura de instintos e de hábitos; a ciência psicológica terá descoberto pouco, mas, isso, pelo menos, descobriu. A essência do progresso é, portanto, uma coisa que choca os homens no que têm de mais humano; a atitude instintiva da maioria dos homens perante o progresso é, portanto, a resistência a ele. a resistência é grande, patente e forte, se a alteração que se tenta fazer é notável e fere ou muitos hábitos ou hábitos muito arreigados; de ordinário, e na normalidade do progresso, como este é lento, a resistência é fraca, e opera como freio e não como obstáculo. Temos, pois, que, nas sociedades progressivas, o que há de fundamental se resume em duas forças — uma que tende a fazer progredir, outra que tende a resistir ao progresso. Ora a ciência constata que tudo quanto vive, vive em virtude do equilíbrio de duas forças — uma força de integração e uma força de desintegração. A vitalidade de qualquer ser está na razão directa do equilíbrio destas duas forças; com elas essa vitalidade diminui. A sociedade, como é composta de entes vivos, é, evidentemente, regida por esta mesma lei; e isto embora não se queira ter a sociedade por um organismo. Basta que seja composta de entes vivos para que lhe seja aplicada a lei fundamental da vida. Nós constatámos, nas sociedades progressivas, a existência, precisamente, de duas forças. Aplicando a este caso especial aquela lei geral, podemos já concluir que no equilíbrio das forças de progresso e de resistência ao progresso reside a vitalidade de uma nação. É quanto precisávamos saber de fundamental. Resta agora que formemos uma ideia clara dos fenómenos que se dão em qualquer sociedade civilizada quando se dá uma ruptura de equilíbrio pelo predomínio de uma, ou de outra, daquelas duas forças. Quando a ruptura de equilíbrio se dá pelo predomínio excessivo da força conservadora, dá-se uma estagnação, um entorpecimento, e o grau dessa estagnação depende do grau do predomínio da força conservadora. Por atrasada, porém, que seja essa sociedade progressiva, algumas classes haverá, visto que ela é progressiva, que não estejam dispostas a aceitar essa estagnação. Essas classes buscarão progredir, institiva ou conscientemente, e esse seu esforço produzirá, tarde ou cedo, dois resultados funestos. O primeiro é que perderão o contacto com as classes estagnadas do país, dando-se assim uma quebra de coesão social, e, portanto, uma baixa de vitalidade, por sua vez, atingindo-os, ou aos seus descendentes, diminui-lhes tudo quanto trabalha para o progresso — o poder de pensar originalmente, a imaginação construtiva, a vontade directora. O segundo é que, perdido o contacto com as outras classes do país, os progressivos são fatalmente levados a viver mentalmente com o estrangeiro, e assim se desnacionalizam, abrindo ainda mais o abismo entre eles e os outros, que, na sua estagnação, permanecem agarrados ao passado e às tradições nacionais.E, quando a baixa de vitalidade nacional por fim atinge as classes progressivas, essa vida com o estrangeiro, perdidas já as qualidades que originam e orientam, transforma-se em servilismo desnacionalizado, em mimetismo idiota das coisas que vêm de fora. Quando a ruptura de equilíbrio se dá pela predominância da corrente progressiva, acontece que as outras classes, não podendo acompanhar esse progresso (se o pudessem acompanhar não se rompia o equilíbrio) e não se adaptando portanto a ele, passam a reagir violentamente, e o país cai na anarquia. como do mesmo modo, que no caso contrário, um abismo se abre entre as duas partes do país, temos a mesma perda de coesão e, portanto, de vitalidade nacional. E como uma dessas partes, não coerindo com a outra, passa a viver mentalmente do estrangeiro, temos aqui também, mas em maior escala, o fenómeno de desnacionalização, que no caso oposto também se notou. Há, em dois pontos, semelhança entre os resultados dos desequilíbrios; em ambos os casos perda de coesão e de vitalidade nacional, em ambos os casos desnacionalização de parte do país. A explicação é simples. É que esses fenómenos são os que caracterizam todas as decadências, e as decadências são, por igual, a estagnação em que uma sociedade superconservadora se enterra, e a anarquia em que cai uma sociedade superprogressiva. No intuito, cuja razão já expliquei, de simplificar o problema, tenho estudado apenas os seus traços fundamentais. Isto não quer dizer que ele não seja, quando estudado com um fim puramente científico, muito mais complexo e que não haja, nos períodos de estagnação, fenómenos de anarquia, nem nos de anarquia, fenómenos de estagnação. Esses fenómenos, porém, são, em cada um dos casos, secundários; vinco apenas, em cada caso, o fenómeno fundamental e definidor. Isto posto, passarei desta análise geral ao estudo particular do problema português. Encarando o problema português com o mesmo critério, e, portanto, com o mesmo propósito de simplificação, constata-se, sem grande trabalho, que na nossa vida nacional se deu uma grande ruptura de equilíbrio, e, muito depois, duas outras perturbações, de carácter secundário, e subsidiárias daquela. Onde quer que se coloque o início da nossa decadência — da decadência resultante do formidável esforço com que realizamos as descobertas e as conquistas —, aí se deve colocar o início da grande ruptura de equilíbrio que se deu na vida nacional. Com a dispersão por todo o mundo e a morte em tantos combates, precisamente daqueles elementos que criavam o nosso progresso, o nosso pequeno povo foi pouco a pouco ficando reduzido aos elementos apegados ao solo, aos que a aventura não tentava, a quantos representavam as forças que, numa sociedade, instintivamente reagem contra todo o avanço. E um dos casos mais visíveis da criação de uma predominância das forças conservadoras. Com isto, visto à luz do que se explicou, queda revelado o porquê da nossa decadência. Todos os fenómenos se seguiram, que na devida altura detalhei, como o seguimento fatal da supertradicionalização. O que restava de progressivo desnacionalizou-se depressa. Cavou-se um abismo entre esses e a maioria do país. Em uns e outros, o nível intelectual, o nível cultural e o nível da vontade prática e útil foi baixando. Um ou outro homem de maior destaque surgia e desaparecia e a sua obra, quando não morria com ele, morria pouco depois, pois não havia coesão social, por onde se propagasse, nem interesse intelectual, por onde, ao menos, se mantivesse. A Restauração, livrando-nos da maior vergonha externa, não nos livrou, nem trouxe quem nos livrasse, da vergonha interna paralela. Ficámos independentes como país e dependentes como indivíduos. Tornámos a ser portugueses de nacionalidade, mas nunca mais tornamos a ser portugueses de mentalidade. Nem portugueses, nem nada. Só da obra do Marquês de Pombal alguma coisa ficou, e isso não pela energia do homem, nem mesmo pelas suas grandes qualidades de organizador, mas pelo ponto de apoio que deu a essa obra — o desenvolvimento industrial e comercial do país. No fim deste estudo se verá a que vem esta observação. O que Pombal criou, porém, sumiu-se com as invasões francesas. Depois delas a nossa desnacionalização teve o seu período abísmico: só o nome da nossa independência nos ficou. Pode, à primeira vista, parecer que a implantação do constitucionalismo representa uma reacção do espírito progressivo contra o peso do tradicionalismo. O constitucionalismo, porém, foi uma coisa muito diferente: foi um simples fenómeno de desnacionalização. Longe de suspender a nossa decadência, vincou bem que estávamos em decadência. Uma reacção do espírito progressivo procuraria reformar a nossa antiga monarquia, procuraria estimular energias, modificar o nosso modo de não ser económico. Reacção do espírito progressivo foi a obra de Pombal. O constitucionalismo, porém, não fez senão trazer-nos um regime político inteiramente estranho a toda a nossa vida nacional, inteiramente inadaptável a todas as condições, materiais como culturais, da nossa verdadeira índole. Destruiu e espoliou inútil e estupidamente, tendo em mira apenas a nossa impossível adaptação a um regime que nenhum sentimento português queria, e que a toda a inteligência verdadeiramente portuguesa instintivamente repugnava. O resultado foi aquela política que todos nós conhecemos, e que em oitenta anos o afundou. Foi isto o constitucionalismo — um 1640 feito por Miguel de Vasconcelos. O único bem que o constitucionalismo trouxe proveio de um dos seus maiores males. As grandes convulsões sociais, as revoluções, as guerras civis, embora politicamente nada produzam, têm ao menos a vantagem de sacudir energias letárgicas; e é a este género de mal do constitucionalismo que devemos a eclosão, no século passado, de individualidades de destaque relativo, se bem que inegável. De obra política, porém, não deixou senão um abismo maior entre as classes sociais e uma desnacionalização mais adiantada e corrupta. O que se diz do constitucionalismo pode dizer-se, sem perigo de errar, da implantação da República. Nenhuma reacção do espírito progressivo a instaurou; foi um fenómeno, ainda mais adiantado, da nossa decadência, da nossa desnacionalização. Se o regime constitucional pouquíssimos pontos de contacto tem com quanto em nós seja português, a república francesa que implantaram em Portugal não tem, então nenhuns. Uma reacção verdadeira do espírito progressivo, se achasse indispensável acabar com o sistema constitucional, só o teria feito para reconstruir o nosso antigo sistema de regime, ainda que o fizesse (conceda-se) sob uma forma republicana. Dizer da República que a sua vinda foi motivada pelos erros e crimes do constitucionalismo vale o mesmo que se se dissesse que a vinda do constitucionalismo fora motivada pelos erros e crimes da velha monarquia; em ambos os casos a justificação é incompleta, pois esses erros e esses crimes podem ser razão para se deitar abaixo o que, com efeito, se derrubou, mas não têm nada que ver com o ter-se posto lá o que, nos dois casos, lá se pôs. Eis, pois, a nossa situação: fundamentalmente, uma ruptura de equilíbrio social por predominância dos elementos retrógrados e improgressivos; secundariamente, uma crescente desnacionalização, pois que a República levou o vírus do estrangeirismo a um maior número de classes do que a monarquia constitucional. As condições do problema estão postas. Vamos, agora, à sua solução. É evidente que a organização reconstrutiva a dar a uma sociedade onde se deu uma ruptura de equilíbrio varia consoante se trate de uma ruptura de equilíbrio por superprogressivismo ou por supertradicionalização. A supertradicionalização é um mal mais fundo, mas menos grave, que o excesso de espírito progressivo. O ponto é intuitivo: é mais fácil fazer ir para a frente mais depressa quem para lá vai indo muito devagar, do que fazer voltar atrás quem vá indo para a frente muito depressa. A base mental da supertradicionalização é a falta de educação e de vitalidade do espírito, no geral do povo; e, nas classes desnacionalizadas, uma educação escassa e viciada. A base mental do desequilíbrio oposto, é, em todas as classes, uma educação viciada, de onde deriva a acção excessiva de umas e a reacção violenta de outras. Ora o resultado psíquico de uma falta de educação é a ignorância, a estupidez, a falta de interesse, a carência de atenção e de vontade; o remédio a empregar deve atingir, portanto, directamente, as qualidades intelectuais, deve ser de ordem a produzir uma transformação mental da maioria do povo, de todo o povo mesmo, pois, produzida que seja na maioria apática, esta ou vitaliza ou esmaga a minoria desnacionalizada. Na educação viciada o caso é diferente, porque a educação viciada atinge primordialmente os sentimentos, e dá marcantemente a perversão do carácter; aqui, como é de ver, o remédio deve incidir directamente sobre os sentimentos, sobre as qualidades afectivas. Na supertradicionalização, a decadência revela-se directamente pela estagnação e o atraso, e apenas secundariamente pela descoesão social e pelo estrangeirismo; o remédio, portanto, sobre dever ser uma transformador mental, deve ser directamente adaptado a quebrar o atraso da nação. No superprogressivismo, a decadência revela-se directamente pela anarquia e a desnacionalização; o remédio, nesse caso, sobre dever ser um transformador afectivo, deve tender directamente a unir as classes desunidas e fortalecer o patriotismo de todas. No caso do superprogressivismo, o remédio é já patente. Há só um processo de transformar afectivamente uma nação inteira, aproximando, ao mesmo tempo, as classes desunidas e fortalecendo o patriotismo. Esse remédio é a guerra — uma guerra qualquer, preferivelmente justa, em que violentamente se lance a nação. É, sem dúvida, o processo germânico, a doutrina germânica. Mas isso é para mim uma garantia de que este raciocínio seguiu certo. Sempre que, em matéria de organização uma teoria é bem pensada, leva-nos a uma conclusão que os alemães já praticaram. O caso do remédio para o excesso de espírito progressivo não é, porém, o que nos interessa. No caso do superconservantismo, o remédio a aplicar tem de ser um transformador mental, criador de interesse e de energia, e, ao mesmo tempo, uma cura para o atraso da nação. Ora há só um género de transformação, aplicável a uma nação inteira, e pela qual se lhe avive o espírito e se lhe desperte interesse e vontade: é uma transformação profissional. E, como se trata de um país atrasado, e todos os países atrasados são predominantemente agrícolas, é evidente que a única transformação profissional a fazer, e que preenche todas as condições exigidas, é a industrialização sistemática d o país. Educação simultaneamente da inteligência e da vontade, transformador ao mesmo tempo da mentalidade geral e do atraso material do país, o industrialismo sistemático, sistematicamente aplicado, é o remédio para as decadências de atraso, é, portanto, o remédio para o mal de Portugal. E se, de há muito, esse remédio nos tem sido necessário, na conjuntura presente, em que, pelas condições da indústria moderna, pode ser rápido e, pelas condições gerais da civilização, tem que ser urgente, passa de ser uma necessidade para ser a primeira de todas as necessidades. Detalhar esse plano fundamental, assentar as suas bases práticas, estabelecer o modo de lhe dar realização — nenhuma destas coisas é objecto deste estudo ou assunto da minha competência. O que me cabia fazer está feito. 1919 Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 10. 1ª publ. in Acção , nº1. Lisboa: 1-5-1919 As tuas mãos terminam em segredo. Os teus olhos são negros e macios Cristo na cruz os teus seios (?) esguios E o teu perfil princesas no degredo... Entre buxos e ao pé de bancos frios Nas entrevistas alamedas, quedo O vento põe seu arrastado medo Saudoso a longes velas de navios. Mas quando o mar subir na praia e for Arrasar os castelos que na areia As crianças deixaram, meu amor, Será o haver cais num mar distante... Pobre do rei pai das princesas feias No seu castelo à rosa do Levante! 24-6-1914 Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 179. UMA VOZ: Quando a noite suave! desce — Sombra de mãos em perdão — Ó mão da Tristeza tece, O Manto da Solidão. Tece-o qual uma mentira, Que o meu triste coração Quer vesti-lo p'ra cobrir O nu da desilusão. OUTRA VOZ: Enche a taça da minha alma Da bebida do sofrer Que transborde fria e calma Sobre a mão do esquecer; Do que dá o amargor Às lágrimas ... Quero ver Se encontro aí mais amor Para a bebê-lo morrer. TERCEIRA VOZ: Cava-me a cova profunda, Quero em sossego dormir; Não na terra — é pouco funda; Vai a minha cova abrir Do sonho na solidão E põe ao meu Por laje o meu coração Que inda não soube sorrir. UMA VOZ TRISTE: Um canto e outros, mas tudo triste, Soluços qu'rendo-se a si esquecer; A lira velha disso que existe Tem sons que fazem estremecer. Um canto e outros, mas tudo vago Como a íntima alma do soluçar Que monstro mira (...) lago Que faz as águas leve vibrar? Um canto e outros, mas tudo inútil As mãos descola vai a lira ao chão; O canto é meio febril e fútil De fingir vida na solidão. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 155. O REGRESSO DOS DEUSES — I. POEMAS COMPLETOS DE ALBERTO CAEIRO (1889-1915). 1. Nota dos Editores. 2. Prefácio do Dr. Ricardo Reis. 3. Poemas Completos de Alberto Caeiro: I. O Guardador de Rebanhos II. O Pastor Amoroso III. Poemas Inconjunctos 4. Natividade de Alberto Caeiro, por Fernando Pessoa. 5. Notas para a recordação do meu mestre Caeiro, por Álvaro de Campo. OREGRESSO DOS DEUSES — II. RICARDO REIS, ODES, LIV. I-III. O REGRESSO DOS DEUSES — III. ACCESSÓRIOS, POEMAS DE ÁLVARO DE CAMPOS s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 19. [FAUSTO]: O casamento A separação  (...)    em si Nada valem. Perante o pensamento São fórmulas vazias. Mas o homem, Na sua vida humana e colectiva, Não vive em metafísica. O real Puerilidade tem, contradições Necessárias a ele. O pensamento Não, a lei da vida. Tu não vês Que o mais real que há, base de tudo, O movimento, uma contradição Suprema é e [...]. Tu não leste De que formas de elixir (...) O próprio ser, a própria vida são Qual fórmulas perante o pensamento? Pertence aos ignorantes e aos doidos Desfazer convenções... [ANTÓNIO?] Sim, mas os génios? FAUSTO: Esses, porque são doidos. Ignorando As leves e ligeiras convenções Que excessos do útil e do usual As fórmulas são às necessidades Da vida do homem. Só a decadência Generaliza e se despreza. Mas eu, se frio estou e confrangido Até ao seio d'alma, não perdi O sentimento de dever perante Os homens pr’a que busque vãos e inúteis Impossíveis progressos, semi-doido Semi-inconsciente da loucura. E o raciocínio em mim não dorme nunca E esse obriga-me a desdenhar as fracas, Vazias teorias que pretendem Por sentimentos a verdade obter E por razões vãs de sentimento nadas. Nojo, sim tudo, filho! nojo, nojo! O homem vive em inconsciência, nasce E vive e morre inconscientemente Sem sequer do mistério aperceber-se, Mais perto que palavras, do que o cerca. Pensar, sentir, amar — ah, se tu visses Como eu o fundo da inconsciência vã Em que tudo se move. Se pudesses Compreender... Bem sei, António, Mal transpuseste o limiar da porta Já meus (...) argumentos desdenhaste. Ou por doido me tens, ou por muito Escravo do passado. Eu! Mas assim é: Consciente só... (ia a dizer eu) sim, Conscientes poucos. Havendo isto, há a vida; não a havendo Mais vida já não há. E assim de todas As vidas existimos — da do mundo À da sociedade humana, António. Impulsos jovens Que roubam a capa ao pensamento E parecem ao longe raciocínios, Mas a quem o pensamento não conhece. Eu que levei a vida a conhecê-lo Em tão débeis palavras não me engano. É [...] a ilustração, António, mas é certa. A humanidade E as suas mágoas, dores está acima De nossa frágil preocupação De novidade e (...) progresso. Eu amo a humanidade — antes amei-a (Que eu já não amo nada) se inda sinto Como que amor por ela é por lembrança Ou instinto daquilo que senti. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 57. Being is that by which, outside which nothing can be conceived. (If anything be conceived it is within being). Being is that in which nothing can be conceived but Being. E.g. if time be anything real it is identical with Being. But if time be Being, Being is time, which is false, for, by observation immediate, Being is Being and no more. * Pure Being cannot be conceived as having anything (for ex. world) dependent on it, for that would be something in some way conceived beyond Being, outside Being. If what is thought to depend be a reality, it is Being. If a realitg of another kind... If an illusion, a manifestation... Being is that in which nothing can be conceived but Being. For if anything (for example Good) could be conceived, it would follow that pure Being is imperfect or, in other words, is not pure Being, for it were not self‑sufficient. 1908? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 23. A OPINIÃO PÚBLICA [b] Demonstrado, assim, que a Democracia moderna é radicalmente anti-social, pois que um dos seus princípios fundamentais, o do sufrágio político, é substancialmente antagónico, por “intelectual”, ao não intelectualismo que caracteriza as manifestações do instintivismo social e da “opinião pública”, manifestação dele e base reconhecida de toda a vida política, resta, neste capítulo, que provemos que a Democracia moderna é por igual antipopular e antipatriótica. A demonstração far-se-á contrapondo o segundo dos princípios “democráticos”, o liberalismo, ao segundo dos princípios do instintivismo social, a conservatividade; e contrapondo o terceiro dos princípios “democráticos”, o pacifismo, ao terceiro dos princípios do instintivismo social, que é o antagonismo. Assim se provará, no primeiro caso, o carácter antipopular da Democracia moderna, e, no segundo caso, o seu carácter antipatriótico. Ao comparar os princípios “liberais”, ou liberalistas, com a essência conservativa do instintivismo social, temos que, logo de início, excluir uma possibilidade de erro ou de confusão, que é a que resultaria de se confundir o sentido de conservatividade com a significação de conservantismo. Quando tivermos que considerar a opinião pública como fenómeno sempre tradicionalista (o que já provámos que era), será ocasião de encarar o problema do conservantismo, propriamente dito, isto é, da atitude usualmente designada como conservadora. O que nos preocupa agora, na análise comparativa do liberalismo da Democracia moderna e da conservatividade do instintivismo social, é a definição diferencial dessa conservatividade. E, como o nome sugere conservantismo por semelhança etimológica, cumpre, antes de mais nada, distinguir: Quando, no anterior artigo, determinámos quais os característicos fundamentais do instinto, e, portanto, da opinião pública (que havíamos provado ser uma síntese de instintos, e não de ideias), notámos que um desses característicos do instinto era o não se adaptar (adaptando, antes, as coisas a si), sendo nisso o contrário da inteligência, essencialmente adaptativa. A essa peculiaridade do instinto chamámos, porventura mal, conservatividade. Tal, porém, é o sentido que, adentro deste estudo, o termo comporta. A conservatividade entende-se, portanto, aqui como sendo aquela peculiaridade do instinto, pela qual ele tende a conservar-se tal qual é, não originando nem criando, e procurando, ante qualquer fenómeno externo, adaptá-lo a si. Resulta de tal peculiaridade que, se há tendência fundamental do instinto, é a de fazer com que todas as coisas, com as quais entre em contacto, se convertam na sua própria substância — substância dele, instinto. Ora esta atitude dá como resultado nos indivíduos componentes da camada propriamente instintiva, isto é, da quase totalidade da nação, o egoísmo como fenómeno distintivo. O que na generalidade do instinto se caracteriza por a tendência não adaptativa, caracteriza-se na particularização individual do instinto por a tendência centrípeta. Ora, como são as camadas populares (assim vimos) as que concentram em si, com menos desvio e mais segura detenção, o instintivismo social, como são elas que são sãmente depositárias do instinto de sociedade, segue que estas camadas são por igual depositárias do egoísmo como determinação individual desse fenómeno geral. E segue imediatamente que para uma teoria ser antipopular, para ser feita contra o povo, contra os seus instintos e contra a sua alma, basta que essa teoria seja antiegoística. Basta que se lance em uma sociedade uma teoria, pela qual se ataque o egoísmo, para se lançar uma teoria, pela qual se ataca o povo. Só nas épocas de decadência e de esgotamento social, quando o valor humano do indivíduo se abate e o seu dinamismo social afrouxa, pode uma doutrina altruísta criar raízes na alma popular. Tal o caso das doutrinas liberais na nossa época incerta e decadente. Tal o caso da invasão negra do cristismo, com a sua morbidez e a sua indisciplina, na decadência do império romano, no crepúsculo dos velhos deuses pagãos, por quem vieram ao mundo as virtudes cívicas e a harmonia e a disciplina das almas. Há, evidentemente, uma excepção. Esse egoísmo nasce da espontânea aplicação particular do instintivismo social; mas esse instintivismo social tem por base (como já vimos) o sentimento patriótico. Ora onde tudo é instinto — e assim é nos depositários essenciais do instintivismo social —, só se contraria ou equilibra a acção de um instinto pela acção de um outro instinto, igualmente forte. O egoísmo individual e o sentimento patriótico têm a mesma base instintiva; o indivíduo normal e são, portanto, só deixa de ser egoísta pela solicitação do sentimento patriótico. Quando não há razão patriótica em jogo, o homem são é absolutamente egoísta; e a objecção, que imediatamente ocorre, do sentimento de família, cai em falso, pois que o sentimento de família, é, no homem são, apenas um prolongamento complicado do instinto sexual. Isto no homem são dizemos: o que acontece no homem doente não nos interessa saber. Não custa a ver que o princípio liberalista, ou igualitário, inteiramente se contrapõe ao egoísmo são dos homens. Busca o liberalismo a abolição de privilégios, a abolição de diferenças sociais entre os homens; e leva isto mais ou menos longe — teoricamente, consoante a ousadia ou indisciplina mental dos teorizadores; praticamente, segundo o grau de perturbação social que se atravesse. A abolição de privilégios parece, a princípio, que deve ser concordante com o egoísmo natural dos homens, pois que a abolição do privilégio de determinado homem pode favorecer o egoísmo de mil homens, que não tenham tal privilégio; e, se há aqui egoísmo ferido, é por certo apenas o do desprivilegiado. Tal benefício, porém, é aparente. Em outra parte está o ponto fundamental, e nele o erro. Ao destruir privilégios, o liberalismo parte de um princípio social falso, porque de um princípio antiegoísta. Parte do princípio de que o privilégio é um estorvo, e não de que ele é uma vantagem; isto é, encara o privilégio do lado de quem o não tem, e não do lado de quem o tem. Fazendo isto, o liberalismo encara o privilégio do lado antiegoísta; e, portanto, socialmente falso. Encara o privilégio como uma coisa que não deve haver. Se fosse uma doutrina socialmente sã, devia encará-lo como uma coisa que devia haver em mais abundância, visto que, para quem o tem, é uma vantagem. Tal aplicação do princípio seria — é certo — absurda, mas o absurdo estaria na extensão da aplicação, e não em o próprio princípio; no liberalismo, porém, o princípio é, já de per si, absurdo, de sorte que qualquer aplicação que dele se tente virá sempre eivada do vício de origem. Neste critério antiegoísta está, pois, o erro do liberalismo; e tanto é erro que veremos a espontânea operação do princípio e do critério contrários — primeiro, em uma sociedade bárbara, e, portanto, próxima dos próprios instintos e livre de perversões acumuladas; segundo, na nossa própria sociedade pervertida e decadente, por o que de fundamental opera por baixo da aparência igualitária ou liberalista. Como época bárbara, brutalmente instintiva, não temos melhor, ou mais estudado, exemplo que a Idade Média. E qual o critério de “liberdade” na Idade Média? O povo medieval tinha a liberdade como uma regalia, como um privilégio, como qualquer coisa que essencialmente valia por os outros a não terem. Qualquer citação de uma autoridade competente poderá servir para autenticar esta asserção. Melhor que quaisquer outras servirão as palavras do Prof. A. W. Pollard, na sua History of England: «Em 1215 uma “liberdade" era a posse, por uma pessoa definida ou um grupo definido de pessoas, de privilégios bem definidos e tangíveis... O valor de uma “liberdade" estava em que, pelo seu gozo, não se era como os outros homens» (p. 53). No que respeita à época presente, com os seus preconceitos liberalistas e igualitários, veremos que eles em nada impedem a operação instintiva, em plena afirmação igualitária, do fundamental egoísmo humano. Escolheremos para exemplo a mesma classe — a classe popular —, e iremos colher a amostra naquela parte da classe popular que mais extremo “liberalismo” estadeia — os infelizes mentais cuja ignorância sociológica e desconhecimento da história os leva a ter ideias socialistas ou parecidas, demência terminal do liberalismo. Vemos, com efeito, que esses pobres diabos busquem espontaneamente qualquer resultado de acordo com a base liberalista e igualitária da sua doutrina? Não o vemos. O que encontramos, é, ao contrário, a tendência para substituir aos pretensos “privilégios” do capital uns outros “privilégios” — os do chamado “trabalho”. A tendência espontânea é para a inversão dos factores, não para a sua igualização. E a célebre “ditadura do proletariado”, último avatar da ignorância e da asneira, revela, com a ingenuidade mental característica dos seus criadores, aquele naturel que revient au galop, quanto mais o querem escorraçar. Um povo, de resto, sobretudo se se sentiu oprimido, pode a princípio simpatizar com o movimento liberalista; mas, tarde ou cedo, de desconfiar dele, passa a odiá-lo. O caso é simples. Ou o liberalismo segue o seu caminho lógico e justo, ou não o segue. Se o segue, entra, mais tarde ou mais cedo, em conflito com privilégios que a ele, povo, tocam já de perto; porque privilégios todos os têm, reais ou esperados. Se o não segue, que é o que em geral acontece — dada a impossibilidade radical da operação do liberalismo e os atritos que quotidianamente encontra ao tentar existir — vai o liberalismo gradualmente desviando-se do seu primitivo intuito, porventura sincero, e torna-se uma mera arma de espoliação para os políticos sem escrúpulos, modo-de-viver dos Lloyd Georges e dos Clemenceaux da charlatinice política internacional. Mero implemento de ambiciosos, quando não positivamente de ladrões, o liberalismo acaba por despertar as iras do povo, quando o caso se não dê de no povo, por decadente, já não haver a possibilidade sã da ira legítima. O caso é, pois, que, sendo assim antiegoísta, o liberalismo é radicalmente antipopular. Para se ser “liberal” é preciso ser-se inimigo do povo, não ter contacto nenhum com a alma popular, nem a noção das noções instintivas que lhe são naturais e queridas. Teoria, de resto, originada por emissários da aristocracia inglesa, no seu conflito com a velha monarquia; espalhada, depois, por homens de letras franceses, mais como arma contra a Igreja que contra o ancien régime, o liberalismo ainda hoje se conserva fiel à sua origem extrapopular. Hoje, porém, são os transviados do povo quem teoriza — os infelizes que saíram do povo e, perdido o contacto com ele e com os seus instintos naturais, não subiram, porém, a nenhuma das aristocracias que o esforço pode conquistar, eternos intermédios da vida social, sem cultura verdadeira, sem posição conquistada, sem valor interna ou externamente definido. Escravos de todas as invejas e de todas as falências, o seu subconsciente indisciplinado espontaneamente os leva a colaborar em quanto seja obra de dissolução social, traidores naturais a tudo, excepto à sua própria incompetência para tudo. Tão triste e débil época é a nossa que as próprias teorias falsas desceram de categoria nas pessoas dos seus sequazes! Feito, assim, por quem ou não é povo, ou já não sabe sentir como povo, que admira que este sistema venha eivado de todos os vícios anti-instintivistas, de todas as raivas antinaturais? Ainda se o liberalismo compensasse o ser antiegoístico com o ser, de qualquer forma, um aspecto do sentimento patriótico; se, por exemplo, a teoria liberal tivesse por base o ser aplicada só a determinada nação — a dos seus teóricos — com o fim, absurdo mas explicável, de dar a essa nação a superioridade, pelo “gozo da liberdade”, sobre todas as outras, até certo ponto, talvez o liberalismo, equilibraria o mal que lhe advém da outra parte da sua tese. Mas se há traço característico do liberalismo é o de ser extensivo a toda a humanidade, de ser uma panaceia universal. E, assim, nem esta defesa, absurda que fosse, lhe resta. O assunto comportaria, a não ter que limitar-se, uma série muito mais extensa de considerações, entre as quais a menos interessante não seria, por certo, a demonstração de que um povo são é espontaneamente aristocratista ou monárquico; de que nunca um povo foi liberal ou democrático; de que nunca um povo defendeu, de seu, senão os seus egoísmos, indivíduo a indivíduo, e a sua pátria, colectivamente; que nunca, nunca, excepto por doença da socialidade, ou perversão da decadência, os seus “direitos”, as suas “justiças” foram assunto por que um homem do povo desse o esforço de se levantar de um banco ou de tirar as mãos das algibeiras. Deixemos, porém, o assunto, e esses “direitos” e “justiças” aos que forçaram o comércio do ópio sobre os chineses, estrangularam as crianças irlandesas com os cabelos maternos, e deixaram morrer as mulheres bóeres nos campos de concentração do Transval. Consideremos agora a oposição, mais fácil de determinar, entre o instintivismo social, no seu característico antagonismo e a Democracia moderna, no pacifismo que a caracteriza. O patriotismo — vimos nós e demonstrámos — é a base do instinto social, é, mesmo, o único instinto social, verdadeiro; não é, de resto, mais que um egoísmo colectivo, ou, melhor, a forma colectiva do egoísmo, base de toda a vida psíquica. Demonstrámos também que, ao contrário da inteligência — que busca compreender e, pois que o busca, não pode odiar aquilo cuja compreensão a atrai —, o instinto odeia tudo quanto não seja ele, que o instinto é, portanto, radicalmente antagonista. Da fusão destas duas constatações se vê que o sentimento patriótico é forçosamente antagonista; que, portanto, a atitude normal de qualquer nação com relação às outras é o ódio; que a guerra é, por conseguinte, o estado natural da humanidade, não sendo a paz, evidentemente, mais que um estado de preparação para a guerra. E esta a velha tese do povo inglês, do dammed foreigner (“o raio do estrangeiro”); é esta a teoria para sempre célebre de Heraclito, quando, comentando o desejo de Homero de que as guerras cessassem de vez, diz que se as guerras cessassem, a própria vida cessaria, porque «a guerra», diz, «é a mãe de todas as coisas». E assim é. Atraso ainda da evolução humana? pecado original pesando sobre a raça dos homens? Seja o que for, tal é a dura lei, e por certo a tese cristista da maldade fundamental dos homens tem mais base que a tese romântica e liberal da sua bondade inata. Homo homini lupus é uma das tristes certezas da vida. A tese, com efeito, pode ser alargada, e aplicada não só ao egoísmo nacional como também ao egoísmo dos indivíduos. Se o amor é a fonte de toda a vida física, o ódio é a fonte de toda a vida psíquica. E do ódio entre homem e homem que a civilização nasce, é da concorrência entre homem e homem que o progresso surge, é do conflito entre nação e nação que a humanidade recebe o seu impulso. Só a paz é infecunda, só a concórdia é improfícua, só o humanitarismo é anti-humanitário. E assim morre, ante a análise sociológica, o último dos falsos princípios da Democracia moderna. E como vimos que a base do instintivismo social é o sentimento patriótico; como vimos que o instinto é radicalmente antagonista, sabemos, por conclusão, que não há instinto patriótico que não seja antagonista e guerreiro. No que pacifista, portanto, a Democracia moderna é radicalmente inimiga do sentimento patriótico, radicalmente antipatriótica e antinacional. Contrapusemos, assim, sucessivamente aos três princípios fundamentais do instintivismo social, base de toda a saúde das colectividades e das nações, os três princípios fundamentais do fenómeno de baixo intelectualismo chamado a Democracia moderna. Vimos que à não-intelectualidade do instintivismo se opunha a pseudo-intelectualidade princípio do sufrágio, e que assim, e por esse seu princípio, a Democracia moderna é anti-social. Vimos que à conservatividade do instintivismo se opunha a pseudo-intelectualidade do instintivismo se opunha o pseudo-altruísmo nivelador do liberalismo, e que assim, e por esse seu princípio, a Democracia moderna é antipopular. Vimos que ao antagonismo do instintivismo social se opunha o pacifismo fraternitário, e que assim, e por esse seu princípio, a Democracia moderna é antinacional e antipatriótica. E assim demonstrámos que a análise escrupulosa do que seja a opinião pública, e de quais as bases psíquicas de uma vida social sã e assente em essa opinião, leva inevitalvelmente ao esfrangalhamento integral do conceito moderno de Democracia. Cumpre juntar a estas considerações só mais uma, tendente a esclarecer o aparecimento, nestes argumentos, de uma condicionação constante. Dissemos sempre “Democracia moderna”, e não foi sem razão que o dissemos. “Democracia”, de per si, comporta, além deste, dois outros sentidos possíveis. Podia entender-se, sem este escrúpulo nosso, que o nosso argumento negativo era extensivo também à democracia antiga dos pagãos, sistema muito diferente, solidamente assente, como era, na dupla base da escravidão e da aristocracia, e vacinado assim contra grande número de doenças sociais. Podia também entender-se que o nosso argumento visasse a democracia monárquica (tal, na verdade, se pode dizer que era) da Idade Média. Mas essa, sobre ser bárbara, e, portanto, para o caso, insignificativa, era, por bárbara, sã, e por isso (como em um argumento casual se viu) livre da justa injúria do nosso argumento analítico. Por isso acentuámos constantemente que os resultados destrutivos do nosso raciocínio se entendiam constantemente só com a Democracia moderna. Resta, agora, que demonstremos a segunda parte da nossa tese primária. Provámos que a opinião pública era um instinto; provámos que a opinião pública era sempre tradicionalista. Vimos já o que se podia deduzir de ser a opinião pública um instinto. Vamos ver agora o que se pode deduzir de ser a opinião pública sempre tradicionalista. É este o ponto em que entra em discussão aquele conservantismo, que nos cumpriu, há pouco, que distinguíssemos cuidadosamente da conservatividade, então tratada. Se a opinião pública é sempre tradicionalista, segue que o impulso manifestado dessa opinião será sempre no sentido de se conservar o que está, as tradições do país, os hábitos e costumes do povo. Mas para se afirmar em apoio ao que já existe, ou ao que é hábito ou tradição existir, não há, evidentemente, necessidade de afirmação; ninguém pede o que já há. Há, porém, uma excepção: é quando isso, que já há, esteja ameaçado.Temos, pois, como primeira conclusão, que a opinião pública nunca se afirma sendo contra alguém, que o tradicionalismo nunca se manifesta senão contra o antitradicionalismo. Quer dizer, não há nunca indicações positivas da opinião pública; todas as suas indicações são negativas, mau grado o seu carácter afirmativo de violência. A opinião pública nunca pede que: pede sempre que não. O corolário imediato a tirar desta conclusão é que não há revoluções nacionais; os únicos movimentos revolucionários que podem ser na verdade nacionais são as contra-revoluções. E no capítulo de revoluções, propriamente, só podem considerar-se nacionais as que são feitas contra um domínio estrangeiro, reacções essas, também, do tradicionalismo insultado no que tem de mais fundamental — a tradição maior de todas, a da independência da pátria. Por isso são revoluções nacionais o 1.º de Dezembro de 1640 e o 8 de Dezembro de 1917; por isso o não são, sendo meros fenómenos de baixa política, a rebelião que implantou o constitucionalismo, e a sublevação que instaurou a república. Por isso os ídolos populares, quando não sejam (como César ou Napoleão) chefes militares,como seu apelo fundamental ao instinto guerreiro e patriótico, são sempre chefes de momentos contra-revolucionários. (Napoleão ainda, Bismarck, Sidónio Pais.) Mesmo figuras secundárias, como Carlos II de Inglaterra, ou D. Miguel I, de Portugal, tiveram a aura nacional que compete aos representantes supremos das contra-revoluções. A revolta popular contra o domínio estrangeiro e a revolta popular contra o domínio de revolucionários nacionais são, no fundo, da mesma origem, partem ambas do mesmo instinto — a tradição ferida, ou no seu conjunto patriótico, ou no seu hábito político e social. Digo mal, digo pouco: há entre as razões para os dois tipos de revolta uma identidade absoluta. Visto que existem revoluções, e visto que (como se viu) não existem revoluções nacionais, conclui-se que toda a revolução é um acto de desnacionalização, uma invasão estrangeira espiritual. E a história assim o confirma — quer no caso da Revolução Francesa, que foi uma intrusão de ideias inglesas; quer no estabelecimento dos vários constitucionalismos e repúblicas modernos, intrusão, nos vários países, de uma indestrinçável mixórdia anglo-francesa. De modo que com verdade se pode dizer que não há revolta nacional que não seja contra o estrangeiro — quer ele seja o estrangeiro de fora, quer ele seja o estrangeiro de dentro. E assim, como há verdade popular só nesses movimentos, a Democracia moderna, sobre ser provada falsa em toda a extensão dos seus princípios, queda provada também falsa em toda a extensão dos seus processos, que são os revolucionários. Ser revolucionário é servir o inimigo. Ser liberal é odiar a pátria. A Democracia moderna é uma orgia de traidores 1919 Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 59. 1ª publ. in Acção , nº 1 e 3. Lisboa: 19-5-1919 e 4-8-1919 A ÍBIS A Íbis, a ave do Egipto Pousa sempre sobre um pé O que é Esquisito. É uma ave sossegada, Porque assim não anda nada. s.d. Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 567. Ao teu seio irei beber O conforto de sofrer. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 155. Não, não vos disse... A essência inatingível Da profusão das cousas, a substância Lógica e      (...)      do caos dos seres, Furta-se até a si mesma. Se entendeste Neste ou naquele modo o que vos disse, Não o entendestes que lhe falta o modo Per que se entenda. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 59. 1ª versão: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.80). A OPINIÃO PÚBLICA [a] Entre as várias superstições verbais, de que se alimenta a pseudo-inteligência da nossa época, a mais vulgarmente usada é a da “opinião pública”. E, como acontece com todas as superstições que conseguem deveras enraizar-se mas que não conseguem nunca tornar-se lúcidas, este critério instintivo respeitador da opinião pública em palavras (porque sente que há por detrás da frase uma realidade), mas pouco respeitador dela em actos (porque não sabe definitivamente que realidade é essa), é ao mesmo tempo o esteio e o vício das sociedades modernas. E o seu esteio porque é o esteio de todas as sociedades, na sua realidade verdadeira; é o seu vício porque as sociedades modernas têm da opinião pública um conceito absolutamente errado. Esse conceito provém do erro fundamental das teorias democráticas, profundamente antipopulares; e a origem do erro está na mentalidade do século dezoito, onde esse conceito, tal como o temos, se gerou. No decurso destas considerações os vários pontos, em que já aqui se toca, ficarão devidamente esclarecidos. Todos nós sentimos, qualquer que seja a nossa política, que, em último resultado, toda a política, para que seja mais que um oportunismo de egoístas, tem de se conformar com a “opinião pública”, com a pressão insistente de uma opinião geral. Todos nós temos a intuição natural ou adquirida, de que uma nação vale o que vale a sua “opinião pública”; porque, como a essência de uma política estável e fecunda consiste na sua conformação com a opinião pública, pressupõe-se, na nação em que tal política é possível, um estado da opinião pública que persistentemente compila os políticos, os governantes, sob pena de deixarem de o ser, a conformar-se com as suas imposições. O princípio, no que tem de instintivo e de direito, é a tal ponto um produto da experiência humana da política, do instinto humano da realidade social, que encontramos a invocá-lo, nos seus argumentos partidários, criaturas dos partidos mais diversos e antagónicos, homens, mesmo, que têm pelas doutrinas e pelos sistemas democráticos a mais explícita e confessada das aversões. Ao monárquico aristocratista, que defende não só a monarquia, mas ainda a monarquia antidemocrática, vê-lo-emos, nos atalhos do argumento, embrenhar-se por afirmações como esta —  «que tal país deve ter uma monarquia, porque a maioria dos seus habitantes é monárquica». Um argumento ocasional como este, sobretudo por o que tem de espontâneo e de instintivo, parece, à primeira vista, que anula, ou que corrige, uma teoria como aquela. Anulará ou não, corrigirá ou não: isso depende dos detalhes dessa teoria, que para o caso não vêm, e do conteúdo lógico do termo “opinião pública”, que ainda se não analisou. O caso, por enquanto, é que, qualquer que seja a nossa política, estamos todos instintivamente de acordo em que a política se deve conformar com a “opinião pública”. O que precisamos, portanto, determinar, para que devidamente nos orientemos no assunto, é, primeiro, que espécie de coisa é essa “opinião pública”, com a qual uma política fecunda tem que se conformar, se essa “opinião pública” na verdade coincide com a “opinião das maiorias”, se essa “opinião pública”, dado que coincida com a “opinião das maiorias”, pode ser manifestada pelo sufrágio; e, segundo, em que princípios, em que regras, assenta, por que processos se produz, essa “conformação” da acção dos governantes com a “opinião pública”, qual a maneira por que na verdade a interpretam ou servem, e não apenas dizem servi-la e interpretá-la. E, para que o estudo não seja de pura teoria, mas tenha o seu complemento teoricamente prático, estudaremos, depois de o que é a “opinião pública” e de como se governa com ela, de que modo se pode agir sobre a “opinião”, por que forma ou formas se pode despertá-la, agitá-la, pô-la em movimento. Já por este enunciado analítico deve o leitor começar a compreender que o problema é mais complexo do que parecia quando era apenas uma frase que toda a gente julga que compreende; que há talvez, nas distinções a fazer, possibilidades até aqui insuspeitas; que o hipotético monárquico, de quem acima se falou, não caía porventura em contradição com a sua teoria aristocrática no argumento das “maiorias”, de que ocasionalmente se serviu. E deve notar-se que, como não estudaremos o problema senão nas suas linhas gerais e essenciais, as conclusões, a que formos levados, não serão os resultados mínimos, a que essa análise, assim feita, conduz. Se a análise fosse, desde o princípio, minuciosa, e as conclusões, que se tirassem fossem, portanto, todas as que se pudessem tirar, chegaríamos a resultados que, embora lógicos e verdadeiros, chocariam, por certo, demasiado as almas “liberais” de grande número de leitores. Para os chocar bem basta o que não omitimos. Isto dito, passemos ao problema. A psicologia moderna, que, embora ainda imperfeita, é já definidamente uma ciência, chegou, entre outras, a uma conclusão que só por culpa da Natureza é diametralmente o postal àquela ideia dos homens em que o século dezoito apoiava as suas «filosofias». O século dezoito julgava, com a tradição, que o homem é um animal racional. A ciência moderna sabe, e com certeza, que o homem é um animal irracional. A ciência psicológica sabe que, no homem como nos animais, o inconsciente, ou subconsciente, predomina sobre o consciente; que o homem é, na sua essência, uma criatura de instintos e de hábitos, e apenas por acréscimo e superficialidade, um ser “intelectual”. Com as pseudoconclusões metafísicas que se possam tirar deste facto, a ciência nada tem; ela limita-se a constatar o facto, que é aquele. Qualquer que seja o grau das nossas inteligências, nós somos, na acção, irmãos dos animais: instintos, e não razões, nos levam; sentimentos, e não ideias, nos conduzem. Este facto, que, no que se refere ao indivíduo humano, ou pelo menos a certos tipos de indivíduo, é um pouco mais complexo do que acima se expôs, volve à simplicidade, com que ali está dito, quando passa a ser aplicado, não já a indivíduos, mas a agrupamentos humanos, e sobretudo aos agrupamentos humanos definidos e duradouros, a que se dá o nome de sociedades. Deixemos o problema, que para o caso não vem, de como se constituíram as primeiras sociedades, de para que fim foram constituídas, e de com que grau de intenção os homens as constituíram. Olhemos para qualquer sociedade já constituída e definida. De que modo coexistem os homens adentro dela? A vida de uma sociedade é fundamentalmente uma vida de acção. As relações dos indivíduos adentro dela são fundamentalmente relações entre as actividades, entre as acções, deles. As relações dessa sociedade com outras sociedades — sejam essas relações de que espécie forem — são relações de qualquer espécie de actividade, são relações de acção. É, portanto, pela acção que o indivíduo é social. E, portanto, pelas faculdades que conduzem à acção que o indivíduo é directamente social. Ora, como a ciência constata que são os instintos, os hábitos, os sentimentos — tudo quanto em nós constitui o inconsciente, ou o subconsciente — que levam à acção, segue que é pelos seus instintos, pelos seus hábitos, pelos seus sentimentos — e não pela sua inteligência — que o indivíduo é directamente social. Por que espécie de instintos, porém, é que o indivíduo é directamente social? Alguns dos seus instintos, como o instinto de conservação e o instinto sexual, são sociais, apenas indirectamente. Servindo-os, o indivíduo serve, em último resultado, a sociedade a que pertence, porque, mantendo a sua vida, mantém a vida de um elemento componente da sociedade a que pertence, e, propagando a espécie, contribui para a continuidade de vida dessa sociedade; mas nem um, nem outro, desses instintos tem um fim directamente social. O serviço desses instintos envolve, ao contrário, um grau maior ou menor de concorrência, de luta, com outros indivíduos. Esses instintos, portanto, embora necessários à sociedade, são de ordem individual e não social. Ora se a característica dos instintos individuais, embora úteis à sociedade, é que levam a um antagonismo com outros indivíduos, por certo que a característica dos instintos propriamente sociais será que levam ao contrário de um antagonismo desses, porque, se o não fizessem, não seriam propriamente sociais. Se pelos seus instintos individuais um homem toma consciência de si como em oposição aos outros homens, e portanto como diferente deles, pelos seus instintos sociais, ao contrário, define-se para si como em colaboração com eles, isto é, como seu semelhante. Os instintos propriamente sociais são, pois, aqueles pelos quais um indivíduo se sinta semelhante de outro indivíduo, por divergentes que sejam as suas actividades, por antagónicos que sejam os que sejam os seus temperamentos. Não esqueçamos, porém — porque, esquecendo-o, iríamos muito longe —, qual é o fim restrito deste estudo. Ele é a determinação do que seja, essencialmente, a “opinião pública”. Não estamos fazendo um estudo socilógico completo do conteúdo integral do instinto da sociedade; estamos fazendo um estudo sociológico limitado a uma feição especial deste instinto. Tenhamos isto presente, para limitarmos ao que é rigorosamente necessário a nossa demonstração. “Opinião pública” quer dizer a opinião geral corrente em uma sociedade. Investigar quais sejam os fundamentos da “opinião pública” quer dizer, portanto, investigar quais sejam os fundamentos de uma opinião geral corrente em uma sociedade: e isso implica que investiguemos, apenas, quais as condições mentais que motivam a existência, em uma sociedade, de uma opinião geral, ou “pública”. E, como se trata de uma opinião geral, isto envolve, em final análise, que determinemos quais as condições, que motivam, em uma sociedade, a possibilidade da existência de uma opinião susceptível d e generalidade, capaz, por sua natureza, de se tornar extensiva a todos os homens que compõem essa sociedade. Tanto basta para que vejamos que a investigação, em que íamos, dos instintos sociais deve limitar-se à constatação de qual seja o instinto social fundamental. E o instinto social fundamental será aquele pelo qual um indivíduo se sinta mais íntima e profundamente semelhante do maior número possível de indivíduos. Isto posto e esclarecido, podemos regressar à linha do nosso raciocínio. A vida social, vimos, é essencialmente acção. A constatação de semelhança entre dois indivíduos resume-se, portanto, na constatação, entre eles, de uma semelhança de acção. A constatação de semelhança profunda e extensível a um grande número de indivíduos assenta, portanto, na constatação, entre esses indivíduos, da semelhança entre eles naquelas suas acções que mais demonstram uma semelhança ou dissemelhança profunda entre os indivíduos, e naquelas suas acções que maior semelhança ou dissemelhança estabelecem entre o maior número possível de indivíduos. Ora as acções que mais demonstram uma semelhança ou dissemelhança profunda entre os indivíduos são aquelas que derivam do que em cada indivíduo haja de mais profundo. E as acções que estabelecem uma semelhança ou dissemelhança entre o maior número possível de indivíduos são aquelas que, por mais naturais, mais gerais, mais repetidas, são por isso comuns a um grande número de indivíduos, sendo, através delas, constatada fácil, imediata, e constantemente a semelhança ou dissemelhança entre os indivíduos. Segue, portanto, que a acção que mais implica a semelhança ou dissemelhança entre vários indivíduos é aquela que, sendo a mais natural, a mais geral e a mais repetida, seja ao mesmo tempo a que represente o que em cada indivíduo haja de mais profundo. Quando, porém, nos referimos ao que em cada indivíduo há “de mais profundo”, entendemos “de socialmente mais profundo”; não nos reportamos àqueles seus instintos profundos, que são de natureza individual. Esses, dada a natureza do problema, não nos interessam. Mas a base comum dos instintos individuais e sociais profundos, a base, de resto, de todo o instinto profundo, é a hereditariedade. O que temos, enfim, que determinar é por que acção se manifesta natural, geral e constantemente o que no instinto social há de hereditário. Ora a acção mais natural, geral e constante, que se dá na sociedade, é a acção de falar. A mais simples de todas as acções sociais é a de falar com outra pessoa; sendo porém, a mais simples é a que imediatamente nos põe em contacto com o que nessa pessoa há de mais profundo e íntimo. Mas falar não é possível, no sentido de conversar, senão quando os interlocutores se entendam. Falar, portanto, no sentido social, pressupõe falar a mesma língua. Falar a mesma língua pode envolver, evidentemente, aquele elemento de hereditariedade, que marcámos como necessário neste problema: é quando a língua, que os interlocutores falem, seja a língua herdada e materna de todos eles. Encontrámos, portanto, a acção social que estabelece entre vários indivíduos a relação imediata de semelhança extensa e profunda: é o falarem a mesma língua materna. E, com isso, queda revelado qual é o instinto social fundamental: é o instinto chamado patriotismo. A conclusão parece mesquinha, e inútil, para ter chegado só a ela, tão longo raciocínio. Reparemos atentamente, porém, para qual é exactamente o valor da conclusão a que chegámos, considerando, sobretudo, a maneira por que chegámos a ela. Tivemos a vantagem de chegar a essa conclusão por meio de uma análise cuidadosa, que a estabelece definitivamente. Já com isso, com o não ser essa conclusão uma mera hipótese ou uma tese dogmaticamente dada por verdadeira, ganhámos alguma coisa. O valor principal da conclusão está, porém, no que ela envolve, e que só nitidamente se determina considerando o raciocínio que a ela conduziu. O que estabelecemos? Que a base da opinião pública para que possa, com efeito, ser considerada opinião pública, é apoiar-se no instinto social fundamental; que o instinto social fundamental é o patriotismo; que a base da opinião pública, portanto, é o instinto patriótico. Qual é, porém, o conteúdo lógico do termo “instinto patriótico”? Vimos que o instinto da língua materna, é o tipo mais flagrante do instinto patriótico; se determinarmos em que se baseia, fundamentalmente, esse instinto da língua materna, teremos a base de todos os instintos de que se compõe o instinto patriótico. Ora a língua materna é um hábito, mas um hábito que tem a especialidade de ser um hábito hereditário; é um hábito aprendido, não no meio social directo, mas no meio social hereditário. O característico do instinto patriótico é, portanto, ser composto de hábitos sociais hereditários. Ora um hábito social hereditário tem um nome conhecido: chama-se uma tradição. Se a opinião pública se baseia, pois, no instinto patriótico; se o instinto patriótico é, em última análise, o instinto das tradições nacionais; segue que a base da opinião pública é a tradição nacional, que não pode haver opinião pública senão tradicionalista. E a confirmação prática da conclusão, tê-la-emos se repararmos que o país típico da “opinião pública”, a Inglaterra, é, ao mesmo tempo (e sabemos já que é porque isso é a mesma coisa) o país típico do tradicionalismo, em que a própria liberdade é defendida, não como “liberdade” propriamente, mas como o “privilégio tradicional do povo inglês”. Fixemo-nos. A opinião pública é, então, duas coisas. É, primeiro, um fenómeno de instinto; é, segundo, um fenómeno sempre tradicionalista. Vejamos a que conclusões leva esta constatação; o que é que se deduz de ser a opinião pública um fenómeno de instinto, e o que é que se deduz de ser a opinião pública um fenómeno sempre tradicionalista. A opinião pública, sendo um fenómeno do instinto, manifesta-se, como todo o instinto, não intelectualmente. Ora, como o próprio da inteligência é definir e esclarecer, conclui-se que a opinião pública nunca se define, nunca explica em termos de ideias o seu conteúdo instintivo. E um estado de mera tendência; é uma atmosfera, uma pressão, de modo nenhum uma orientação ou uma atitude. A opinião pública, como todo o instinto, manifesta-se conservativamente. O instinto não origina, não cria, não se adapta. A opinião pública nunca se adapta, nem se procura adaptar; adapta as coisas a si, ou procura fazê-lo. Ante uma novidade, ou a absorve e a converte em sua substância, ou a rejeita. Assim é o instinto. A qualidade que busca adaptar-se às coisas não é o instinto, é a inteligência. A opinião pública, por fim, como todo o instinto, é radicalmente antagonista. A inteligência, perante o não-ela, como busca compreender, não odeia, porque se aproxima; e, quando chega a compreender, em geral tolera, e por vezes ama. “Compreender”, disse-se, “é amar.” Não é assim o instinto. O que ele não sente como seu, sente como contra si. «Quem não é por mim é contra mim» é a divisa do instinto, e, portanto, da opinião pública. A que conclusão levam estas constatações simples? Ao esfrangalhamento integral do conceito moderno de Democracia, à demonstração de que a Democracia, como modernamente se compreende, é essencialmente inimiga da opinião pública, e, portanto, anti-social, antipopular e antipatriótica. Vejamos isto nos seus detalhes. A Democracia moderna, o sistema político que nasceu da Revolução inglesa, e inundou a Europa através do fenómeno inglês chamado a Revolução Francesa, assenta em três bases: o princípio do sufrágio como base da vida política; o princípio chamado “liberalismo”, cuja substância consiste na tendência para abolir os privilégios especiais, de certas classes ou de certas pessoas, e de estabelecer entre os homens a maior igualdade possível; e o princípio a que melhor se pode chamar “pacifismo”, que significa que a vida das sociedades, essencialmente comercial e industrial, é só episodicamente, ou por um resto de “atraso”, guerreira, e que a paz entre os povos é o estado normal, ou que deve ser normal, na vida social. E isto que resume o lema «liberdade, igualdade, fraternidade», que a Revolução Francesa converteu em Santíssima Trindade para uso de quem não tem religião. É fácil demonstrar que os “princípios” democráticos são essencialmente dirigidos contra a opinião pública, contra o povo, e contra a própria essência de toda a vida social, que a Democracia é o resumo de tudo quanto seja antipopular, anti-social e antipatriótico. A opinião pública, vimos, não se define. O voto é uma definição. O voto é a expressão de uma opinião individual; a opinião pública não é susceptível de expressão pelos indivíduos. É uma atmosfera que os envolve e que eles criam em conjunto, não em cada um de per si; é uma síntese orgânica, não uma soma mecanicamente feita. O voto é, mais, a expressão de uma convicção política, isto é, de uma ideia; ora o instinto, e tal é a opinião pública, tem por natureza não ter ideias. A opinião pública, sendo um instinto, localiza-se, em qualquer sociedade, essencialmente nos indivíduos em quem o instinto predomine; por isso ela se localiza na maioria real da sociedade, pois que na maioria dos homens o instinto domina as manifestações da inteligência, e por isso ela se localiza no “povo”, não só porque ela é a maioria, mas porque a sua educação inferior o habilita a representar com menos perturbação os impulsos fundamentais do instinto. Ora o sufrágio, como, pelas razões que já foram expostas, não exprime a opinião pública, não exprime a opinião da maioria real do país, nem do povo, detentores da opinião pública verdadeira. O sufrágio representa apenas, quando muito, a maioria política organizada, que perante a maioria real da sociedade é uma minoria, e, em geral, uma pequena minoria. E nem isto, mesmo, representa. Os resultados de uma eleição demonstram apenas a organização dos partidos políticos, vencendo, em geral, aquele partido cuja organização puramente partidária deriva da superioridade dos organizadores partidários, resulta que os resultados de uma eleição provam apenas o poder ditatorial que adquiriram os poucos indivíduos que são dirigentes do partido vencedor. Tanto isto é assim que é assim em Inglaterra, o país onde o sistema representativo moderno nasceu, e onde, ainda, mais limpamente correm os actos eleitorais. E o que se dá em Inglaterra? Vai dizer-no-lo um homem que é político tanto por hereditariedade como por actividade própria. Eis o que se lê a pág. 237 do livro Conservantismo de Lord Hugh Cecil, filho do Marquês de Salisbury: «Pretende-se que a Casa dos Comuns representa o povo. A verdade, porém, é que nem o povo tem voz activa na escolha da Casa dos Comuns, nem controle definido sobre ela, uma vez escolhida. Na realidade, a única coisa que o povo tem é ocasião de escolher entre os candidatos partidários apresentados à sua escolha. São os partidários ardentes — a Guarda Pretoriana — quem escolhe os candidatos, e os eleitores têm apenas que determinar se preferem ser representados pelo nomeado dos Pretorianos Liberais, ou pelo nomeado dos Pretorianos Conservadores, ou, em casos mais raros, podem escolher um candidato, não menos partidariamente disciplinado, que o Partido Laborista nomeia. Os Independentes podem, na verdade, propor-se, e às vezes propõem-se. Mas as eleições, nas condições modernas, são a tal ponto uma questão de organização e de engrenagens que um Independente poucas esperanças tem de vencer contra os candidatos nomeados pelos partidos. A vitória eleitoral de um Independente é a coisa mais rara deste mundo. A única verdadeira influência, que os Independentes podem ter, deriva do interesse que os gerentes dos partidos têm em conseguir os votos deles. Mas mesmo isto tem um efeito limitado. Porque há polémicas em que os partidários ardentes têm um interesse demasiado para que estejam dispostos a fazer concessões ao público extrapartídário... O facto formidável é que a autoridade suprema do nosso Império imenso e sem igual está alternadamente nas mãos de dois bandos de homens veementes, intransigentes e desequilibrados.» Não quer isto dizer que nenhum país democrático seja governado de acordo com o instinto chamado a opinião pública. Onde a opinião pública é forte, coerente e rápida, eleitores, e sobretudo eleitos, sentem a sua pressão, e não ousam governar contra ela. Mas isso acontece em todo o país onde a opinião pública seja sã e forte, qualquer que seja o regime político desse país. Num caso destes a Democracia, essencialmente antipopular, não logra fazer o mal que pode; mas algum mal faz, porque há sempre, a estorvar o contacto directo entre a opinião pública verdadeira e os governantes, a pseudo-opinião que saiu das urnas, que constantemente perturba e obscurece as indicações instintivas da alma nacional. Num regime natural — aristocracia ou monarquia pura — podem existir outros males e defeitos, mas nenhum tão grave como este. É que o princípio do sufrágio político é, na sua essência, como vimos, não só não-social, mas anti-social. Admiti-lo em uma sociedade é fazer-lhe escolher veneno para alimento. Nas sociedades tradicionalistas são talvez os Mortos que mandam; nas sociedades democráticas, porém, é a Morte que manda. 1919 Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 59. 1ª publ. in Acção , nº 1 e 3. Lisboa: 19-5-1919 e 4-8-1919 Fiquei doido, fiquei tonto... Meus beijos foram sem conto, Apertei-a contra mim, Aconcheguei-a em meus braços, Embriaguei-me de abraços... Fiquei tonto e foi assim... Sua boca sabe a flores, Bonequinha, meus amores, Minha boneca que tem Bracinhos para enlaçar-me, E tantos beijos p'ra dar-me Quantos eu lhe dou também. Ah que tontura e que fogo! Se estou perto dela, é logo Uma pressa em meu olhar, Uma música em minha alma, Perdida de toda a calma, E eu sem a querer achar. Dá-me beijos, dá-me tantos Que, enleado nos teus encantos, Preso nos abraços teus, Eu não sinta a própria vida, Nem minha alma, ave perdida No azul-amor dos teus céus. Não descanso, não projecto Nada certo, sempre inquieto Quando te não beijo, amor, Por te beijar, e se beijo Por não me encher o desejo Nem o meu beijo melhor. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 35. O CARRO DE PAU O carro de pau Que bebé deixou... Bebé já morreu O carro ficou... O carro de pau Tombado de lado... Depois do enterro Foi ali achado... Guardaram o carro Guardaram bebé. A vida e os brinquedos Cada um é o que é. Está o carro guardado. Bebé vai esquecendo. A vida é p'ra quem Continua vivendo... E o carro de pau É um carro que está Guardado num sótão Onde nada há... s.d. Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 569. O Fausto Negro (Prólogo no Inferno) TECEDEIRAS A TECER: Teçamos, teçamos O pano da vida. Teçamos, teçamos Com louca lida. De negro, de negro Com pontos dourados, De negro, de negro Com breves bordados. Teçamos a rede Da vida em tear Que a morte tem sede Da rede rasgar. Teçamos, teçamos Pr'a cedo acabar. UMA VOZ: Toda de negro, toda escura Rede da vida tece aqui (...) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 159. Gela-me a ideia de que a morte seja O encontrar o mistério face a face E conhecê-lo. For mais mal que seja A vida e o mistério de a viver E a ignorância em que alma vive a vida, Pior me relampeja pela alma A ideia de que enfim tudo será Sabido e claro — e este mistério imenso, Que não entendo já, do que é de grande Para não ser sabido e adivinhado, Me pesa n'alma, venha a ser sabido E a realidade em todo o seu horror Desabe sobre a minha consciência Condenada ao horror de ser consciente. Pudesse eu ter por certo que na morte Me acabaria, me faria nada E eu avançara para a morte, pávido, Mas firme do seu nada. Mas para este mistério do universo Que solução de realidade outra Que uma realidade enfim real E terrível de real, e pavorosa De ter de ser com consciência suportada? s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 59. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.130) Pia número SEIS, Para quem se penteia com bolos-reis. Pia número SETE, Para quem canta até que o telhado se derrete. Pia número OITO, Para quem parte nozes quando é afoito. Pia número NOVE, Para quem se parece com uma couve. Pia número DEZ Para quem cola selos nas unhas dos pés. E, como as mãos já não estão frias, Tampa nas pias! s.d. Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 576. UMA VOZ: Eu sou o Espírito de Alegria, Minha mortalha minha mão fia, Fia-a contente de ter que fiar. Por isso a fia sem a acabar, Fia de noite, fia de dia, Fia, fia, fia, fia, Fia de noite e de dia fia. Bem sei que a obra é para tristeza, Mas há o fazê-la que a faz beleza, Bem sei que a morte é seu fio e a dor Constante no fiar. Mas fia com amor. E por isso cumpre-me a minha alegria Minha mão (...) que fia e fia, Fia de noite, fia de dia, Fia, fia, fia, fia Fia de dia e de noite fia. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 160. Só uma cousa me apavora A esta hora, a toda a hora: É que verei a morte frente a frente, Inevitavelmente. Ah, este horror, como poder dizer? Não lhe poder fugir! Não podê-lo esquecer! E nessa hora em que eu e a Morte Nos encontrarmos O que verei? o que saberei? O que não verei? o que não saberei? Horror! A vida é má e é má a morte, Mas quisera viver eternamente Sem saber nunca, (...) e inconsciente Isso que a morte traz e  (...) Não me tenta o mistério Nem desejo saber O que é que vai do berço ao cemitério No ardor chamado viver. A verdade apavora-me e confrange, Perturba-me como a ninguém. Que o tempo cesse! Que pare e fique sempre este momento! Que eu nunca me aproxime desse Horror que mata o pensamento! Envolvei-me, fechai-me dentro em vós E que eu não morra nunca. Odeio a vida, amarga-me e horroriza. Mas a morte — oh a morte, velada O próprio horror dentro em mim paralisa Deixando a dor funda e estagnada. Horror! Horror! O tempo, oh vidas com vida! Mistérios menores onde esquecer Se pode a mor dor indefinida, Menos horrorosos porque não sabeis dizer Esse segredo que dito deveis trazer. Não me deixeis morrer... 1-3-1909 Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 60. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.135). Quando, há quatro anos quase, eu tive ocasião de mostrar a Alberto Caeiro, em Lisboa, a que princípios conduziu a sua obra, ele negou que ela a tais princípios conduzisse. Para Caeiro, objectivista absoluto, os próprios deuses pagãos eram uma deformação do paganismo. Objectivismo abstracto, os deuses já eram a mais no seu objectivismo. Ele bem via que eles eram feitos à imagem e semelhança das coisas materiais; mas não eram as coisas materiais, e isso lhe bastava para que nada fossem. As coisas, para mim, têm um outro sentido. Os deuses gregos representam a fixação abstracta do objectivismo concretizador. Nós não podemos viver: sem ideias abstractas, porque sem elas não podemos pensar. O que devemos é furtar-nos a atribuir-lhes uma realidade que não derive da matéria de onde as extraímos. Assim acontece aos deuses. As ideias abstractas não têm realidade verdadeira: têm, porém, uma realidade humana, relativa apenas ao lugar que o animal homem tem na terra. Os deuses pertencem à categoria das abstracções, no que respeita à sua relação com a realidade, mas não pertencem a essa categoria como abstracções, porque o não são. Como as ideias abstractas nos servem para nos conduzirmos entre as coisas, os deuses servem-nos também para nos conduzirmos entre homens. Os deuses são portanto reais e irreais ao mesmo tempo. São irreais porque não são realidades, mas são reais porque são abstracções concretizadas. Uma abstracção concretizada passa a ser pragmaticamente real; uma abstracção não concretizada não é real mesmo pragmaticamente. Platão, erigindo em pessoas abstractas as ideias, seguiu o velho processo pagão da criação de deuses; colocou, porém, os seus deuses longe demais. Uma ideia só se torna um Deus quando é devolvida à concreção. Passa então a ser uma força da Natureza. Isso é um Deus. Se isto é uma realidade ou não, não sei. Pessoalmente creio na existência dos deuses; creio no seu número infinito, na possibilidade de o homem ascender a deus. O criador de civilização é uma força da Natureza; é portanto um deus, ou um semi-deus. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 399. Prefácio a Caeiro Meu pensamento é um rio subterrâneo. Para que terras vai e donde vem? Não sei... Na noite em que o meu ser o tem Emerge dele um ruído subitâneo De origens no Mistério extraviadas De eu compreendê-las..., misteriosas fontes Habitando a distância de ermos montes Onde os momentos são a Deus chegados... De vez em quando luze em minha mágoa Como um farol num mar desconhecido Um movimento de correr, perdido Em mim, um pálido soluço de água... E eu relembro de tempos mais antigos Que a minha consciência da ilusão Águas divinas percorrendo o chão De verdores uníssonos e amigos, E a ideia de uma Pátria anterior À forma consciente do meu ser Dói‑me no que desejo, e vem bater Como uma onda de encontro à minha dor. Escuto‑o... Ao longe, no meu vago tacto Da minha alma, perdido som incerto, Como um eterno rio indescoberto, Mais que a ideia de rio certo e abstracto... E p'ra onde é que ele vai, que se extravia Do meu ouvi‑lo ? A que cavernas desce? Em que frios de Assombro é que arrefece? De que névoas soturnas se anuvia? Não sei... Eu perco‑o... E outra vez regressa A luz e a cor do mundo claro e actual, E na interior distância do meu Real Como se a alma acabasse, o rio cessa... 5-11-1914 Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 1093. 1ª publ. in Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues.(Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). The twentieth century has at last found its poet - not in the sense that this poet sings the 20th century, but in the sense that a poet has at last appeared who represents an absolute novelty, something altogether unconnected with literary traditions of any kind whatever. It is natural to say that the 20th century has found its poet for no other reason than this - that the extraordinary originality of this poet happens in the 20th century. The Rime of the Ancient Mariner in relation to its time is, if anything, less original than A.C.'s astonishing volume - The Keeper of Sheep - (O G[uardador] de R[ebanhos]) which has just appeared in Lisbon. No one in P[ortuguese] literary milieux had ever heard of him. He appeared suddenly. And his contribution to Portuguese, and European literature, breaks away, as we have said, from all truths and currents that were valid in the past or are active today. A.C. is the poet of absolute materialism. This is his first originality; there never was, properly speaking, a poet of materialism... The second creation is that C. puts into his absolute materialism a poetical colour and intensity which we have been accustomed to find only in the highest spiritualistic poetry. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 358. [VICENTE]: Todos, oh mestre, têm horror à morte... FAUSTO: Ah não me ofendas com palavras vãs O horror do pensamento. Ninguém Como eu teve esse horror, nem poderá Nas veias e na alma e no sangue Tê-lo tão íntimo, tão internado Tão feito um comigo. Ah, São as primeiras, únicas palavras Em que a outro mostrei parte do ser. Tu não as compreendeste, nem podias, Nem nunca poderás. Tenta esquecer... Nunca mais me ouvirás falar assim... Estava ainda só comigo n'alma E falava comigo respondendo-te. Mas dize-me a que vinhas. [VICENTE]: Vinha... eu... Eu vinha... ah... eu vinha procurar-vos Para falar... nada... Já me retiro. Estais febril, mestre, sim, sim, vejo bem E os vossos olhos brilham não sei como, Que... FAUSTO: Dize. [VICENTE]: Que... FAUSTO: O quê? [VICENTE]: Que me apavora. FAUSTO: Escuta, aproxima-te, é a primeira Vez que direi o que te digo. Tu Não compreenderás talvez ainda, Nem nunca... a essência do que digo Nunca, ai nunca. Escuta-me Vicente, São as últimas palavras que direi. Não compreendes isto, Não tomes susto. Escuta. O mundo Encerra um sonho como realidade E em cada seu fragmento — não me entendes ( Vive todo. Interpenetração de (...) E complexos mistérios desconhecidos. As figuras de sonho não conhecem O sonho (...) de quem são figuras, Porque o mundo não só é (...) sonhado Mas é dentro dum sonho um outro sonho Em que sonhados são os sonhadores Também. Tu compreendes? [VICENTE]: Vagamente. FAUSTO: Possas tu sempre assim compreender Como todos na terra que existiram Menos um. [VICENTE]: Cristo? FAUSTO: Cristo? Quem é Cristo? Ah ri-te, ri-te desta distracção, Desta pergunta minha, de alheado Que ando do meu próprio ver e ouvir Feito. Deixemos isto, pois Lembra-me Uma cousa a que podes responder. Diz-me que pensas Do orgulho? De imperadores, reis E príncipes da terra e seu orgulho? Que pensas? [VICENTE]: Eu? Do orgulho? Julgo-o vão. FAUSTO: Todo o orgulho vão? [VICENTE]: Todo o orgulho. Assim mo ensinaram, assim creio E assim razoável me parece. FAUSTO: Mas o orgulho do génio, desse que sente Retratar-se no espírito soturno A ilusão de existir definida Em mistérios e abismos e visões? E o desse? [VICENTE]: O talento é dom de Deus. Não sei que orgulho haverá em tê-lo Como se fora cousa produzida Pelo próprio. Por que quereis saber? FAUSTO: Eu? Nada. O talento é dom de Deus. E o orgulho não é dom de Deus? [VICENTE]: Por, parecendo humano que é nascido Da vã contemplação, como direi? Da maravilha de si mesmo. Eu, Se fosse talentoso — não o sou ( A Deus diariamente o agradecia. Dar-me-ia prazer, mas não orgulho. FAUSTO: Bem agradeço-te. Deixa-me agora. Preciso de pensar Lembrou-me súbito Uma cousa... Logo te verei. Continuaremos. [VICENTE]: Mestre, até então. FAUSTO: (só) Em todo os raciocínios em que vivo Aquele (...) nunca fizera. Como aquelas palavras me feriram! Sim, por que ter orgulho — para quê? Mas — ah, quantos problemas e mistérios Essas palavras dum inconsciente Me abrem no pensamento. Que intenso Atropelar de (...) e teorias De raciocínios, conclusões d'espírito Mal geradas dentro em mim, Não poder apagar este tormento; Não poder despegar-me deste ser; Não poder esquecer-me desta vida... s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 61. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.134). IRONIA Faz um a casa onde outro pôs a pedra. O galego Colón, de Pontevedra, Seguiu‑nos para onde nós não fomos. Não vimos da nossa árvore esses pomos. Um império ganhou para Castela, Para si glória merecida — aquela De um grande longe aos mares conquistado. Mas não ganhou o tê-lo começado. 1922 Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 1169. 1ª publ. in Contemporânea , nº4. Lisboa:1922. 1. Cover. 2. Title-Page. 3. Dedication. 4. Preface. 5. Index. 6. Press Notices. 7. Stories for the Drawing Room. 8. Stories for the Smoking Room. 9. Stories which may be told to be very carefully selected audiences, but which really ought never to have been printed. Copyright in Great Britain, San Marino and Andorra. _______________________________ 1. STORIES BY EFBEEDEE PASHA STORIES _______________________________ 2. AS TOLD AND RE-TOLD EVEN UNTO THE Nth DEGREE WITH THAT VERVE, VIM, VIGOR AND ESPRIT WHICH ONLY HE CAN ACHIEVE BY EFBEEDEE PASHA Author’s Motto: Lorrrd, send us a guid conceitio’ oorrsels. _______________________________ 3. TO MY TRIED AND VERY TRUE FRIEND A. H. FRISBEE, ESQ., AT PRESENT OF THIS CITY DO I DEDICATE THIS LITTLE BOOK EFBEEDEE PASHA LISBON, - - - - - - - s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 224. Quem sabe se morrendo eu passarei Apenas para outro grau de ignorância Outra forma do mesmo atroz mistério, Outro e novo mistério e enfim o mesmo? Se noutra espécie de outra terra eu for Continuar a ignorância e o medo Do Essencial? Assim deve ser Porque a verdade deve ser o mais Profundo que se pensa e não o menos, O mais inexplicável, não o menos E, fora do absurdo, o mais absurdo... Ah, não morrer e não morrer nunca, ainda Que me quebrassem dores todo o corpo Que grão a grão de carne endurecida Apodrecesse em mim... Tudo, tudo, tudo Mas ficar-me a vida! Nunca ir Ao encontro do abismo do Possível Aonde apesar de tudo talvez haja A Verdade... Pode a Verdade Suma ser velada Sempre para nós... E a morte revelar-nos Outra qualquer Verdade falsa e eterna Que seja um pavor toda e nada seja, Mas seja tudo quanto eternamente Possamos ver e ter... Oh horror, oh abismo Ah ter que ir, que seguir, e ver ao fundo Um fim de estrada, e um precipício e o som Não sei de quê ao fundo!... s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 64. OBRAS ATLÂNTICAS A PUBLICAR: Absorpção artística: Fernando Pessoa: As Sete Salas do Palácio Abandonado. Poemas, tentativas de absorpção das outras artes. Mário de Sá-Carneiro: ------ etc. etc. Reconstração pagã: Alberto Caeiro: “O Guardador de Rebanhos” Versos. (Reconstrução da sensibilidade pagã) Ricardo Reis: “Odes” (Reconstrução da estética pagã) António Mora: Dissertação a favor da Alemanha ( António Mora: “Prolegómenos a uma reformação do Paganismo.” (Teoria geral do paganismo novo) António Mora: “Os fundamentos do Paganismo” (contra-tese e “Crítica da Razão Pura” de Kant, e tentativa de reconstruir o Objectivismo pagão). s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 226. O amor que eu tenho não me deixa estar Pronto, quieto, firme num lugar Há sempre um pensamento que me enleva E um desejo comigo que me leva Longe de mim, a quem eu amo e quero. Inda de noite, quando durmo, espero A manhã em que torne a vê-la e amá-la. …… s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 36. Desejava querer fugir de mim. ali. ali. ali e...e...e... Palavras, não sois nada! O que é Deus? Uma palavra, Pouco mais que um som. E um som? Nada. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 65. O nosso mundo é real e o Deus que tem — O Deus das fés, das crenças, com seu céu ( É absolutamente verdadeiro, É a realidade, é o criador, É a Vida e a fonte da Eterna Vida... Mas nada disso é a Verdade real... E o próprio Deus não sabe qual é ela... Ele próprio tem o seu mistério, e pesa Sobre o que nele seja o Pensamento O mesmo Górgona que sobre nós pesa... Ele é sim, infinito e verdadeiro, Ele sim o eterno criador Que está além do tempo, e o espaço, e o (...) Mas não é mais que um sol porque girando Em torno ao Ser absoluto... e este é apenas O sol centro dum sistema dos Inúmeros sistemas De que a Verdade Essencial é feita! Sim, iremos, seres imortais Sim, iremos a Deus e eternamente Aí estaremos... E tudo isso é certo... E tudo isso é falso, é tudo falso. Outra e fechada sempre é a Verdade... Outro é Deus do que Deus... e antes são reais Outros seres do que o ser [...] s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 65. Surpreendeu-me de repente, ao tomar para uma pequena clareira, uma figura imponente que, de toga à romana, a cabeça de todo branca artística no descoberto, recitava numa voz (bela voz! disse eu ao dr. Gomes) o princípio das lamentações de Prometeu no drama de Ésquilo. Ao aproximar-nos viu-nos e apressando ligeiramente o declamar para chegar ao fim desse período, virou-se para nós, chegado esse, e saudou o meu acompanhador. Vi então bem o internado. Alto e de uma bizarria com a qual o seu trajo antigo maravilhosamente quadrava, cabelo t[odo] branco, barba branca de todo e um olhar vivo e altivo, onde talvez apenas o observador precauto qualquer luz acharia que traisse a alienação do espírito. O dr. Gomes apresentou-me; fui grave e respeitosamente saudado e confesso que senti, a par de minimamente aquela vaga inquietação e receio que os loucos soem inspirar, um como que respeito - quase veneração por aquela nobre figura. Seguimos lentamente pela rua abaixo, no meio o dr. Gama Nobre, e eu à direita, falando primeiramente em coisas insignificantes - eu e o alienista, porque o visitado respondia pouco e distraidamente. Eu, que estava depois de o ver mais ansioso de lhe ouvir a exaltação da antiguidade, levei enfim a conversa para as proximidades do meu desejo referindo-me ao trecho de Ésquilo que o nosso advento surpreendeu na boca do dr. Gama Nobre. A m[inha ] referência teve o efeito desejado. - Mas Ésquilo, disse Gama Nobre, Ésquilo - a Grécia, de onde vem, a antiguidade clássica, a verdadeira e única civilização para chegar à qual o mundo foi obscuro desde a sua criação, e depois da qual tornou a escurecer! Tudo antes disso foi pré-histórico, tudo depois disso proto-histórico! E quedou-se numa exaltação entristecida, a face ensombrada e o olhar (...) e brilhante. - Este m[eu ] amigo, disse o dr. Gomes, gostava naturalmente de ouvir o dr. falar-lhe circunstanciadamente da civilização antiga. Talvez mesmo pudesse, recordando-a hoje, fazer propaganda dela (Gomes piscou-me o olho) aos degenerados homens de hoje... - Propaganda? exclamou o dr. Gama Nobre, Propaganda! Não há propaganda a fazer! Há a lamentar o perdido bem e (...) o mal presente. Degenerámos, porque temos vindo, há 20 séculos, degenerando. Isto não se cura. Não há remédio hoje. Arranjamo-nos com [ o] que podemos na nossa decadência e na n [ ossa] escuridão. O que foi, foi. O que se perdeu, perdido está. Propaganda?! e teve um sorriso triste e um erguer de ombros entre desdenhoso e terminante. - Mas ao menos, intervim - eu desejaria que o dr. me explicasse em que estamos decadentes e às escuras. Eu não compreendo bem assim de chofre... - Se quer ter a paciência de me ouvir, e quer demorar a sua atenção no meu argumento, desde o princípio até ao fim... - Ora essa... - Bem... Não há perigo, dr., de sermos interrompidos?... Não gosto de interrupções... Um argumento é um argumento... Para se poder falar... Não, não nos sentemos (isto para mim que olhara para um banco), sejamos peripatéticos. Andando pensa-se melhor do que sentado. Nenhum pensador concebe sentado alguma ideia digna de concepção. Sentam [ -se] para escrever - e, ai deles - o que a ideia escrita tantas vezes lhes [...]! O dr. Gama Nobre recompôs a toga com um gesto digno e alçando um pouco, como que para se incutir mais clareza no pensamento para mais clareza pôr na voz, começou a sua exposição. Não sei quanto tempo - horas ou minutos - durou aquele (...) memorável. Para mim tempo desaparecera. Não sei que voltas demos no decorrer daquele argumento. O espaço cessara para mim. O meu sorriso inicial desapareceu pouco a pouco. Só que era já o princípio do crepúsculo quando acabei de ouvir. E assim como num sonho, sentindo, como num sonho, ruiu em torno de mim toda a estrutura (...), que eu recebera por sólida, da civilização moderna. Mas lembro-me nitidamente de tudo o que disse o argumentador. O relembrador da antiguidade falou assim: II - Peço-lhe que me ouça quanto possível sem pasmo, o menos possível atento à quotidianidade e uso (...) das coisas que eu vou destruir. Imagine-se, podendo, um habitante de outro planeta, vindo hoje aqui por uma queda estranha. Faça quanto puder de conta que a vida de hoje lhe não é a essência inconsciente do seu psiquismo, a base inobstrusiva da sua assumida ideação. Peço-lhe isto para que q[uan ] to possa, me meça os argumentos não como estranhezas ou novidades, mas como argumentos apenas. É apenas lealdade para com a lógica que eu lhe peço. Posto isto, entro na minha tese. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 229. N. do A.: «Na casa de saúde de Cascais». Oligarquia das Bestas Alexandre Braga é um aborto de um imaginativo conservado em álcool. Os acontecimentos tiram dele um som agradável mas falhado como uma faca batendo num copo esvaziado e rachado. Esvaziado digo, e não vazio, para que até o inútil da metáfora se nos torne útil por completante. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 79. MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO (1890-1916) Atque in perpetuum, frater, ave atque vale! CAT . Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares. Quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo. Como porém o homem não pode ser igual dos Deuses, pois o Destino os separou, não corre homem nem se alteia deus pelo amor divino; estagna só deus fingido, doente da sua ficção. Não morrem jovens todos a que os Deuses amam, senão entendendo-se por morte o acabamento do que constitui a vida. E como à vida, além da mesma vida, a constitui o instinto natural com que se a vive, os Deuses, aos que amam, matam jovens ou na vida, ou no instinto natural com que vivê-la. Uns morrem; aos outros, tirado o instinto com que vivam, pesa a vida como morte, vivem morte, morrem a vida em ela mesma. E é na juventude, quando neles desabrocha a flor fatal e única, que começam a sua morte vivida. No herói, no santo e no génio os Deuses se lembram dos homens. O herói é um homem como todos, a quem coube por sorte o auxílio divino; não está nele a luz que lhe estreia a fronte, sol da glória ou luar da morte, e lhe separa o rosto dos de seus pares. O santo é um homem bom a que os Deuses, por misericórdia, cegaram, para que não sofresse; cego, pode crer no bem, em si, e em deuses melhores, pois não vê, na alma que cuida própria e nas coisas incertas que o cercam, a operação irremediável do capricho dos Deuses, o jugo superior do Destino. Os Deuses são amigos do herói, compadecem-se do santo; só ao génio, porém, é que verdadeiramente amam. Mas o amor dos Deuses, como por destino não é humano, revela-se em aquilo em que humanamente se não revelara amor. Se só ao génio, amando-o, tornam seu igual, só ao génio dão, sem que queiram, a maldição fatal do abraço de fogo com que tal o afagam. Se a quem deram a beleza, só seu atributo, castigam com a consciência da mortalidade dela; se a quem deram a ciência, seu atributo também, punem com o conhecimento do que nela há de eterna limitação; que angústias não farão pesar sobre aqueles, génios do pensamento ou da arte, a quem, tornando-os criadores, deram a sua mesma essência? Assim ao génio caberá, além da dor da morte da beleza alheia, e da mágoa de conhecer a universal ignorância, o sofrimento próprio, de se sentir par dos Deuses sendo homem, par dos homens sendo deus, êxul ao mesmo tempo em duas terras. Génio na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida. Só a arte, que fez ou que sentiu, por instantes o turbou de consolação. São assim os que os Deuses fadaram seus. Nem o amor os quer, nem a esperança os busca, nem a glória os acolhe. Ou morrem jovens, ou a si mesmos sobrevivem, íncolas da incompreensão ou da indiferença. Este morreu jovem, porque os Deuses lhe tiveram muito amor. Mas para Sá-Carneiro, génio não só da arte mas da inovação nela, juntou-se, à indiferença que circunda os génios, o escárnio que persegue os inovadores, profetas, como Cassandra, de verdades que todos têm por mentira. In qua scribebat, barbara terrafuit . Mas, se a terra fora outra, não variara o destino. Hoje, mais que em outro tempo, qualquer privilégio é um castigo. Hoje, mais que nunca, se sofre a própria grandeza. As plebes de todas as classes cobrem, como uma maré morta, as ruínas do que foi grande e os alicerces desertos do que poderia sê-lo. O circo, mais que em Roma que morria, é hoje a vida de todos; porém alargou os seus muros até os confins da terra. A glória é dos gladiadores e dos mimos. Decide supremo qualquer soldado bárbaro, que a guarda impôs imperador. Nada nasce de grande que não nasça maldito, nem cresce de nobre que se não definhe, crescendo. Se assim é, assim seja! Os Deuses o quiseram assim. 1924 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 149. 1ª publ. in “Athena”, nº 2. Lisboa: Nov. 1924. Oligarquia das Bestas Acabei de escrever. Detenho-me cansadamente na meditação do quanto, afinal de tudo, é mesquinho e vão o impulso do nosso instinto ainda que quando universo do ferrão de uma justa indignação. Há qualquer coisa de dolorosamente ridículo em estar a uma mesa (...) diante de um tinteiro, a odiar em voz alta homens e coisas. Faz sorrir, ao determo-nos em pensar-nos depois, o ver que Af. Costas, Alexandres Bragas, Bernardinos Machados e radicais lisbonenses e portugueses são realmente e objectivamente parte do universo, da Vida, do mundo, lugares psíquicos onde se encontram as forças basilares e primordiais do dinamismo universal. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 80. LUÍS DE MONTALVOR Há duas espécies de poetas — os que pensam o que sentem, e os que sentem o que pensam. A terceira espécie apenas pensa ou sente, e não escreve versos, sendo por isso que não existe. Aos poetas que pensam o que sentem chamamos românticos; aos poetas que sentem o que pensam chamamos clássicos. A definição inversa é igualmente aceitável. Em Luís de Montalvor (Luís da Silva Ramos), autor de um livro de POEMAS a aparecer em breve, a sensibilidade se confunde com a inteligência — como em Mallarmé, porém diferentemente — para formar uma terceira faculdade da alma, infiel às definições. Tanto podemos dizer que ele pensa o que sente, como que sente o que pensa. Realiza, como nenhum outro poeta vivo, nosso ou estranho, a harmonia entre o que a razão nega e o que a sensibilidade desconhece. O resultado — poemas subtis, irreais, quase todos admiráveis — pode confundir os que esperam encontrar na originalidade um velho conhecimento, e no imprevisto o que já sabiam. Mas para os que esperam o que nunca chega, e por isso o alcançam, a surpresa dos seus versos é a surpresa da própria inteligência em se encontrar sempre diferente de si mesma, e em verificar sempre de novo que cada homem é, em sua essência, um conceito do universo diferente de todos os outros. E como, visto que tudo é essencialmente subjectivo, um conceito do universo é ele mesmo o próprio universo, cada homem é essencialmente criador. Resta que saiba que o é, e que saiba mostrar que o sabe: é a essa expressão, quando profunda, que chamamos poesia. Não nos ilude Luís de Montalvor na expressão essencial dos seus versos: vive num mundo seu, como todos nós; mas vive com vida num mundo seu, ao passo que a maioria, em verso ou prosa, morre o universo que involuntariamente cria. Palavras estranhas, porém verdadeiras. Como poderiam ser verdadeiras se não fossem estranhas? 1927 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 155. Lacunas completadas segundo o original. 1ª publ. in “O Imparcial”. Lisboa: Junho. 1927. Oligarquia das Bestas III A análise do dinamismo social permite a constatação de que as sociedades se dividem, na sua linha geral de Vida evolutiva e tendência política em três grupos: os indiferentes, os equilibrados e os em desequilíbrio. Os primeiros não contam politicamente senão pela significação que para o sociólogo tem a sua computação [?] numérica. São de várias espécies, mas não importa aqui indicar, analisando, mais do que as duas subdivisões em que o género político primariamente se (re)parte. São os indiferentes por natureza e os indiferentes por decadência. Todo o homem normal e são se interessa — são também o país — na vida política, colaborando nela. Nos períodos de decadência social e, portanto individual, a indiferença pela política, o ignorá-la com o sentimento, ou o medo das reformas precisas, não ter ou energia ou tendência para, com o limitado esforço as querer melhorar — eis a indiferença patológica. Caracteriza ela todos os períodos decadentes. A outra é a indiferença natural — a dos entes sociais por natureza indiferentes à política. Mulheres, crianças, etc. O aparecer nestes de tendências políticas é igual sinal de degenerescência colectiva. É fenómeno social observável em paralelismo com a indiferença dos por natureza não-indiferentes nas épocas de desintegração social e das nacionalidades. A indiferença dos cidadãos representa a perda do sentimento social; igual perda mostra a actividade política, por exemplo, das mulheres, que não têm, na normalidade evolutiva, função citadina outra do que a meramente conjugal e materna. Seguem-se a estes, na nossa análise, os equilibrados. É o grupo cuja predominância na vida social representa uma sã vida da nação. Igualmente se dividem estes em dois grupos: os conservadores e os liberais. É da luta — luta sempre [...] e eleitoral — entre estes que vem a evolução normal e hígida de um país. São como que as duas rodas do carro do Estado. Os conservadores são aqueles que desejam e pretendem que o progresso político ou financeiro da nação se faça por alteração social produzida dentro dos moldes políticos e sociais dessa nação. São liberais aqueles cuja teoria do progresso inculca a ideia de que ele se faz por uma lenta alteração da sociedade, não tanto nem somente dentro dos moldes estabelecidos, mas mais e também por uma progressiva alteração dos próprios moldes em que essa vida social se encontra vazada. Para o conservador os moldes ficam em forma e tamanho. Muda o conteúdo. Para o liberal os moldes alargam-se mas a sua forma fica. As lutas entre conservadores e liberais são geralmente difíceis de seguir nitidamente porque, dado serem ambos equilibrados, os dois partidos frequentes vezes se interpenetram em partes e secções se [...] e misturam. O estudo ainda que superficial da vida política inglesa no séc. XIX — a mais equilibrada do mundo, (não houve muitas [...] em Inglaterra no séc. XIX) a mais exemplar de civismo e sinceridade conservadora e liberal mostram quanto é difícil discriminar literais e conservadores num período nacional normal e são. Resta analisar a terceira categoria política, a terceira ordem de elementos políticos. Dividem-se os desequilibrados em dois partidos, na aparência e na intenção consciente opostos, na realidade política e na finalidade social inconsciente absolutamente complementares e idênticos — os reaccionários e os radicais. O primeiro olhar lançado sobre estas duas faces da [...] força desintegrante dos povos e das civilizações permite constatar a absoluta identidade de psiquismos, flagrante sobremaneira pela concordante oposição à parte progressiva, equilibrada e de [...] que é a base da vida sã da sociedade. Essa oposição é flagrante pela diferença de modo de idear, de agir e de socialmente ter [...] Ao passo que conservadores e liberais aceitam os moldes gerais da sociedade com as diferenças já acima citadas, os reaccionários pretendem estupidamente conservar não só todos os moldes sociais instituídos mas a vida social inalterável sempre nesses moldes; os radicais (...) idiotamente a um desprezo completo desses moldes na sua noção de progresso. Da basilar divergência de ambos os grupos de desequilibrados em referência ao equilibrismo, nasce a diferença absoluta de métodos. Conservadores e liberais lutam eleitoralmente e procuram cada um para dominar encontrar força na opinião e apoio numericamente superior em urna. Os reaccionários, porém, como querem manter um estado de coisas impossível e cuja evolução ou progresso seria tão absurda que nem sequer [...], vêem-se instintivados pelo seu psiquismo a empregar a força e a violência para entravar o inevitável progresso social. Os radicais, como querem destruir de vez e desprezando Saturno os moldes da actualidade social, quer — socialistas e [...] — em proveito da implantação de moldes inteiramente inconciliáveis com a noção de sociedade e de vida social, quer — radicais amorfos — para lhes substituir instituições possíveis e atingíveis mas extemporâneas ou prematuras, para chegar às quais é preciso preparação e propaganda; vêem-se, como os seus irmãos, os reaccionários, igualmente na obrigação de empregar a violência e a força. Ambos desprezam a ideia — instintiva e natural em toda o homem normal — de progresso e evolução, para se proporem, uns entravá-lo, outros (...) Facilmente se vê como ideações tão aparentemente divergentes nascem do mesmo fundamental modo de ser psíquico, caracterizado nuns e noutros por uma biforme perturbação do substrato da vida social, originária numa má conformação cerebral nos reaccionários ou radicais de temperamento e por um nervosismo menos mórbido mas susceptível de ser morbidamente influenciado nos [...] radicais e reaccionários. Aparecendo em todas as épocas de decadência curável ou total, indiferentes mórbidos e desequilibrados, apresentando ao sociólogo significações sintomáticas tristemente concorrentes, oferecem contudo ao político aspectos para serem diferentemente tidas em consideração. Nenhum perigo advém, directamente, para o Estado da indiferença doentia para a política, ou, psiquiatricamente dizendo, da perda do sent[imento] social. A perturbação e desvairamento do mesmo sentimento, ou seja, a reacção e o radicalismo, oferecem por serem [...] da natureza, e não pessoais, um aspecto de obstrusiva perturbação que mesmo ao cidadão indiferente, apanhado de repente no meio dum tumulto radical ou reaccionário, não é fisicamente lícito ignorar. Sabido, porém, que reacção e radicalismo sempre exprimem em voz alta uma decadência e que são inevitavelmente (...) de motim e (...), cumpre, levando a análise mais longe, examinar qual a sua missão e finalidade social e em que condições essa finalidade — [...] de um ou mais de um caso [?] — é desta espécie ou daqueloutra. Sabemos como apareceram, e que é por uma decadência social qualquer, vincada e [...] de degenerescência de que os dois movimentos são identificadamente portadores. Resta averiguar qual o fim deles numa sociedade decadente, uma vez aí aparecidos, e de que efeitos, nestas condições ou naquelas, são eles por sua vez causas. De duas coisas uma: ou a sociedade decadente em que aparecem reacção e radicalismo — estão sempre de natureza juntos, como a convexidade e a concavidade de um arco de círculo — está decadente para sempre e em dissolução final, ou está transitoriamente decadente e em vista de apodrecer nela desse [?] certo estado institucional de coisas a que outro estado tem a obrigação determinada de seguir. No primeiro caso — o de uma decadência definitiva — reacção e radicalismo são a dupla forma do princípio desintegrador que tem por fim escangalhar completamente a vida social em todas as suas formas, reduzindo a nada o equilibrismo, forçando a empregar força por uns ou por outros e finalmente ou reduzido à potencial indiferença dos decadentes, ou absorvido por uma ou outra forma de destruição social. Isto vai no extremo degenerativo dos campos, até ao aluir anárquico e impotente da nacionalidade geralmente pela intervenção de outros países — pelo retalhar [...] do território onde os restos dos que foram equilibrados fitam numa indiferença que já não espera [...] se é dolorosa, a morte da nacionalidade, e a liquidação em subversão abjecta ou eliminação artilhada dos restos dos entes degladiantes [,] elementos reaccio-radicais. É para avançar — ressalvada a alteração crítica que produziu o aparecimento de [...] factores novos [...] (...) a França contemporânea. Na segunda hipótese, [...] se torna que o fim da reacção é o fim inconscientemente (...) e patriótico de que um mórbido retardamento social manifestado por uma tiranização crescentemente polimorfa e omnipotente, produziu a revolução que eliminaria o sistema oligárquico que tiraniza e a instituição em cujo nome a tirania é exercida. Paralelamente com a reacção cresce, crescendo com ela [e organizando-se quanto mais ela se desorganiza] o radicalismo até pela revolução, [...] Digo o radicalismo porque é ele que, conquanto, e justamente porque mórbido, quem pode fazer uma revolução. Toda a revolução é baseada em princípios radicais e por [...] ultra-reformados que, uma vez vitoriosos e postos no poder, geralmente e normalmente, homens que não entraram nela, se dissipa completamente para dar lugar à gerência do equilibrismo higidamente conservador e liberal. Se o radicalismo não fosse mórbido não (não tomaria origem para a acção num meio decadente onde até as decadências surgem para a acção eficaz) poderia fazer uma revolução porque, para alterar a ordem pública, mesmo com razão, para lutar contra patriotas, é preciso uma causa de [...]; a falta de acção da ordem social e a perda de sentimento [?] que é usual para com compatriotas. A necessidade de uma revolução, a heroicidade, a isenção e [...] que nela possam ser postas não escapam, perante o sociólogo, de trair o estigma de (...) ainda que transitoriamente, (...) (dif[erença] entre a org[anização] eficiente e social — transitória neste (...)) Assim, nascido o radicalismo do estado mórbido social, mórbido ele próprio por ser filho de quem é, ele, feita a revolução, vai crescendo à medida que vai nascendo a normalidade, e na proporção em que for restabelecida esta de todo ou quase de todo, de todo ou quase de todo morrerá o espírito reaccionário-radical. IV Temos pois que o fim social do aparecimento do espírito radical-reaccionário é a produção de uma revolução, que, no caso da nação moribunda [?] é mais um estado revolucionário, é prolongado e (...), e no caso da sociedade transformada geralmente rápida (...) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 81. O PROVINCIANISMO PORTUGUÊS Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro. O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela — em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia. Se há característico que imediatamente distinga o provinciano, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. Recordo-me de que uma vez, nos tempos do « Orpheu », disse a Mário de Sá-Carneiro: «V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é vítima da educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam todas dentro de si». O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção. Diga-se incidentalmente: é esta uma das explicações do socialismo. Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam. O Infante D. Henrique, com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não viu contudo que prodígio estava criando — toda a civilização transoceânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a existência dos Estados Unidos. Dante adorava Vergílio como um exemplar e uma estrela, nunca sonharia em comparar-se com ele; nada há, todavia, mais certo que o ser a « Divina Comédia » superior à « Eneida ». O provinciano, porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse, não seria provinciano. É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redacções, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz. Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu, durante uma das fomes na Irlanda, e como sátira brutal à Inglaterra, um breve escrito propondo uma solução para essa fome. Propõe que os irlandeses comam os próprios filhos. Exarnina com grande seriedade o problema, e expõe com clareza e ciência a utilidade das crianças de menos de sete anos como bom alimento. Nenhuma palavra nessas páginas assombrosas quebra a absoluta gravidade da exposição; ninguém poderia concluir, do texto, que a proposta não fosse feita com absoluta seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma proposta dessas não poderia ser feita a sério. A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses chamam detachment — o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele «desenvolvimento da largueza de consciência», em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não se ser provinciano. O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queirós. É o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsciência dela. Neste capítulo, « A Relíquia », Paio Pires a falar francês, é um documento doloroso. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais, quebradores da imperturbabilidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco. Compare-se Eça de Queirós, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista. Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos. 1928 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 159. 1ª publ. in “Notícias Ilustrado”, série II, nº 9. Lisboa: Agosto. 1928. Carta a um herói estúpido I. Li, sem entusiasmo e sem pasmo, o relato das tristes palavras que Vossa Heroicidade pronunciou no Funchal. É tarde, bem sei, para comentar as suas afirmações. Num país onde os fundadores das instituições são desterrados por aqueles que se apossaram da mangedoura. Nestas circunstâncias de entusiasmo exterior fez Vossa Heroicidade a sua entrada triunfal em Lisboa. Sabe o que vem encontrar? Sim, sabe entre que gente se encontra? Eu começo por protestar contra o que há de anti-patriótico e de racialmente amnésico nos epítetos jogados entusiasticamente à sua heróica cabeça. Trataram-no com tais requintes de epitetação que dir-se-ia ser o Sr. um homem da estatura de Albuquerque ou de D. João de Castro. Perdemos a noção das proporções. Ainda há pouco profanavam o nome de Nun'Alvares na pessoa aliás simpática, de Paiva Couceiro. Antes disso uns meliantes quaisquer pintaram o nome de Pombal nas democráticas costas de Costa. E esse tacanho sub-Clémenceau impou da glória da alcunha. As bestas que nos governam e as hipo-bestas que escrevem naqueles erros de (...) chamados os nossos jornais não têm uma obscura intuição da diferença entre um criador de civilizações e um mero soldado valente. Quando muito, o sr. pertence ao nível dum soldado que combateu nas primeiras conquistas, ainda que lhe falte a unidade psíquica que lhes vinha da fé e a (...) Os nossos políticos não são gente. Nenhum deles mostra ter tido na sua vida uma daquelas crises espirituais donde se emerge talvez ferido para sempre, mas psiquicamente homem, personalidade espiritual. São ateus pela mesma razão que o é um burro ou uma árvore. São portugueses porque, por desgraça nossa, nasceram adentro da nossa fronteira, oriundos de gente que secularmente assim tinha feito. Nenhum detalhe psíquico os mostra portugueses. Nenhuma centelha [?] lhes acende um momento o olhar. São vazios e estúpidos. Só sabem comer e manobrar para comer. A ignóbil figura de D. Carlos I, que o Diabo guarde, é ainda o símbolo de Portugal: O facto fundamental disto tudo é que a Monarquia ainda existe. Vivemos ainda na Monarquia. A subserviência, a indisciplina, a desorganização dos homens; a desonestidade, a corrupção, a opressão dos quadros governativos; a incúria com que fazem a educação como o fomento, o exército e a marinha como o comércio e a indústria em que mudaram estas coisas, se não em refinarem, se não porque tudo piorou, pelo menos porque tudo progrediu, e onde o facto é a crise, progredir é piorar. A admiração das pobres criaturas talassas pela figura nula e indigesta de P. Manuel, em que se sente inferior ao entusiasmo e ao êxtase que assinalaram nas ondas portuguesas a passagem de Costa? Cada vez mais corruptos, cada vez mais indisciplinados, cada vez mais à mercê do estrangeiro; vendidos ao perigo espanhol por Costa, (...) O facto de esse homem, que em nenhuma outra parte mandaria fora da regedoria ou junta de paróquia que condiz com a sua mentalidade rudimentar, teria a posse dum partido, e através dele duma pátria. Nada há mais ignóbil que este facto que hoje é o primeiro nas consciências portuguesas — que, na real realidade, as nossas vidas e liberdades, o nosso e a nossa (...) estão à mercê desta Ordem de Cacilhas. Como é natural, a revolta atingiu o máximo nos adversários. Esta opressão, que todos nós sentimos, esta vergonha de estarmos sendo governados por bacalhoeiros da política, que roubam no peso da própria retórica, (...) s.d. «Carta a um herói estúpido». Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 82. O CASO MENTAL PORTUGUÊS Se fosse preciso usar de uma só palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria «provincianismo». Como todas as definições simples esta, que é muito simples, precisa, depois de feita, de uma explicação complexa. Darei essa explicação em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto é, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer país, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade. Por mentalidade de qualquer país entende-se, sem dúvida, a mentalidade das três camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental — a camada baixa, a que é uso chamar povo; a camada média, a que não é uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreensão, por elite. O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás, que sejam sempre erradas. Por natureza, forma o povo um bloco, onde não há mentalmente indivíduos; e o pensamento é individual. O que caracteriza a segunda camada que não é a burguesia, é a capacidade de reflectir, porém sem ideias próprias; de criticar, porém com ideias de outrem. Na classe média mental, o indivíduo, que mentalmente já existe, sabe já escolher — por ideias e não por instinto — entre duas ideias ou doutrinas que lhe apresentem; não sabe, porém, contrapor a ambas uma terceira, que seja própria. Quando, aqui e ali, neste ou naquele, fica uma opinião média entre duas doutrinas, isso não representa um cuidado crítico, mas uma hesitação mental. O que caracteriza a terceira camada, o escol, é, como é de ver por contraste com as outras duas, a capacidade de criticar com ideias próprias. Importa, porém, notar que essas ideias próprias podem não ser fundamentais. O indivíduo do escol pode, por exemplo, aceitar inteiramente uma doutrina alheia; aceita-a, porém, criticamente, e, quando a defende, defende-a com argumentos seus — os que o levaram a aceitá-la e não, como fará o mental da classe média, com os argumentos originais dos criadores ou expositores dessas doutrinas. Esta divisão em camadas mentais, embora coincida em parte com a divisão em camadas sociais — económicas ou outras — não se ajusta exactamente a essa. Muita gente das aristocracias de história e de dinheiro pertence mentalmente ao povo. Bastantes operários, sobretudo das cidades, pertencem à classe média mental. Um homem de génio ou de talento, ainda que nascido de camponeses, pertence de nascença ao escol. Quando, portanto, digo que a palavra «provincianismo» define, sem outra que a condicione, o estado mental presente do povo português, digo que essa palavra «provincianismo», que mais adiante definirei, define a mentalidade do povo português em todas as três camadas que a compõem. Como, porém, a primeira e a segunda camadas mentais não podem por natureza ser superiores ao escol, basta que eu prove o provincianismo do nosso escol presente, para que fique provado o provincianismo mental da generalidade da nação. Os homens, desde que entre eles se levantou a ilusão ou realidade chamada civilização, passaram a viver, em relação a ela, de uma de três maneiras, que definirei por símbolos, dizendo que vivem ou como os campónios, ou como provincianos, ou como citadinos. Não se esqueça que trato de estados mentais e não geográficos, e que portanto o campónio ou o provinciano pode ter vivido sempre em cidade, e o citadino sempre no que lhe é natural desterro. Ora a civilização consiste simplesmente na substituição do artificial ao natural no uso e correnteza da vida. Tudo quanto constitui a civilização, por mais natural que nos hoje pareça, são artifícios o transporte sobre rodas, o discurso disposto em verso escrito, renegam a naturalidade original dos pés e da prosa falada. A artificialidade, porém, é de dois tipos. Há aquela, acumulada através das eras, e que, tendo-a já encontrado quando nascemos, achamos natural; e há aquela que todos os dias se vai acrescentando à primeira. A esta segunda é uso chamar «progresso» e dizer que é «moderno» o que vem dela. Ora o campónio, o provinciano e o citadino diferençam-se entre si pelas suas diferentes reacções a esta segunda artificialidade. O que chamei campónio sente violentamente a artificialidade do progresso; por isso se sente mal nele e com ele, e intimamente o detesta. Até das conveniências e das comodidades do progresso se serve constrangido, a ponto de, por vezes, e em desproveito próprio, se esquivar a servir-se delas. É o homem dos «bons tempos», entendendo-se por isso os da sua mocidade, se é já idoso, ou os da mocidade dos bisavós, se é simplesmente párvuo. No pólo oposto, o citadino não sente a artificialidade do progresso. Para ele é como se fosse natural. Serve-se do que é dele, portanto, sem constrangimento nem apreço. Por isso o não ama nem desama: é-lhe indiferente. Viveu sempre (física ou mentalmente) em grandes cidades; viu nascer, mudar e passar (real ou idealmente) as modas e a novidade das invenções; são pois para ele aspectos correntes, e por isso incolores, de uma coisa continuamente já sabida, como as pessoas com quem convivemos, ainda que de dia para dia sejam realmente diversas, são todavia para nós idealmente sempre as mesmas. Situado mentalmente entre os dois, o provinciano sente, sim, a artificialidade do progresso, mas por isso mesmo o ama. Para o seu espírito desperto, mas incompletamente desperto, o artificial novo, que é o progresso, é atraente como novidade, mas ainda sentido como artificial. E, porque é sentido simultaneamente como artificial é sentido como atraente, e é por artificial que é amado. O amor às grandes cidades, às novas modas, às «últimas novidades», é o característico distintivo do provinciano. Se de aqui se concluir que a grande maioria da humanidade civilizada é composta de provincianos, ter-se-á concluído bem, porque assim é. Nas nações deveras civilizadas, o escol escapa, porém, em grande parte, e por sua mesma natureza, ao provincianismo. A tragédia mental de Portugal presente é que, como veremos, o nosso escol é estruturalmente provinciano. Não se estabeleça, pois seria erro, analogia, por justaposição, entre as duas classificações, que se fizeram, de camadas e tipos mentais. A primeira, de sociologia estática, define estados mentais em si mesmos; a segunda, de sociologia dinâmica, define estados de adaptação mental ao ambiente. Há gente do povo mental que é citadina em suas relações com a civilização. Há gente do escol, e do melhor escol — homens de génio e de talento — , que é campónio nessas relações. Pelas características indicadas como as do provinciano, imediatamente se verifica que a mentalidade dele tem uma semelhança perfeita com a da criança. A reacção do provinciano, às suas artificialidades, que são as novidades sociais, é igual à da criança às suas artificialidades, que são os brinquedos. Ambos as amam espontaneamente, e porque são artificiais. Ora o que distingue a mentalidade da criança é, na inteligência, o espírito de imitação; na emoção, a vivacidade pobre; na vontade, a impulsividade incoordenada. São estes, portanto, os característicos que iremos achar no provinciano; fruto, na criança, da falta de desenvolvimento civilizacional, e assim ambos efeitos da mesma causa — a falta de desenvolvimento. A criança é, como o provinciano, um espírito desperto, mas incompletamente desperto. São estes característicos que distinguirão o provinciano do campónio e do citadino. No campónio, semelhante ao animal, a imitação existe, mas à superfície, e não, como na criança e no provinciano, vinda do fundo da alma; a emoção é pobre, porém não é vivaz, pois é concentrada e não dispersa; a vontade, se de facto é impulsiva, tem contudo a coordenação fechada do instinto, que substitui na prática, salvo em matéria complexa, a coordenação aberta da razão. No citadino, semelhante ao homem adulto, não há imitação, mas aproveitamento dos exemplos alheios, e a isso se chama, quando prático, experiência, quando teórico, cultura; a emoção, ainda quando não seja vivaz, é contudo rica, porque complexa, e é complexa por ser complexo quem a terá; a vontade, filha da inteligência e não do impulso, é coordenada, tanto que, ainda quando faleça falece coordenadamente, em propósitos frustes mas idealmente sistematizados. Percorramos, olhando sem óculos de qualquer grau ou cor, a paisagem que nos apresentam as produções e improduções do nosso escol. Nelas verificaremos, pormenor a pormenor, aqueles característicos que vimos serem distintivos do provinciano. Comecemos por não deixar de ver que o escol se compõe de duas camadas — os homens de inteligência, que formam a sua maioria, e os homens de génio e de talento, que formam a sua minoria, o escol do escol, por assim dizer. Aos primeiros exigimos espírito crítico; aos segundos exigimos originalidade, que é, em certo modo, um espírito crítico involuntário. Façamos pois incidir a análise que nos propusemos fazer, primeiro sobre o pequeno escol, que são os homens de génio e de talento, depois sobre o grande escol. Temos, é certo, alguns escritores e artistas que são homens de talento; se algum deles o é de génio, não sabemos, nem para o caso importa. Nesses, evidentemente, não se pode revelar em absoluto o espírito de imitação, pois isso importaria a ausência de originalidade, e esta a ausência de talento. Esses nossos escritores e artistas são, porém, originais uma só vez, que é a inevitável. Depois disso, não, evoluem, não crescem; fixado esse primeiro momento, vivem parasitas de si mesmos, plagiando-se indefinidamente. A tal ponto isto é assim, que não há, por exemplo, poeta nosso presente — dos célebres, pelo menos — que não fique completamente lido quando incompletamente lido, em que a parte não seja igual ao todo. E se em um ou outro se nota, em certa altura, o que parece ser uma modificação da sua «maneira», a análise revelará que a modificação foi regressiva: o poeta ou perdeu a originalidade e assim ficou diferente pelo processo simples de ficar inferior, ou decidiu começar a imitar outros por impotência de progredir de dentro, ou resolveu, por cansaço, atrelar a carroça do seu estro ao burro de uma doutrina externa, como o catolicismo ou o internacionalismo. Descrevo abstractamente, mas os casos que descrevo são concretos; não preciso de explicar, porque não junto a cada exemplo o nome do indivíduo que mo fornece. O mesmo provincianismo se nota na esfera da emoção. A pobreza, a monotonia da emoção nos nossos homens de talento literário e artístico, salta ao coração e confrange a inteligência Emoção viva, sim, como aliás era de esperar, mas sempre a mesma, sempre simples, sempre simples emoção, sem auxílio crítico da inteligência ou da cultura. A ironia emotiva, a subtileza passional, a contradição no sentimento — não as encontrareis em nenhum dos nossos poetas emotivos, e são quase todos emotivos. Escrevem, em matéria do que sentem, como escreveria o pai Adão, se tivesse dado à humanidade, além do mau exemplo já sabido, o, ainda pior, de escrever. A demonstração fica completa quando conduzimos a análise à região da vontade. Os nossos escritores e artistas são incapazes de meditar uma obra antes de a fazer, desconhecem o que seja a coordenação, pela vontade intelectual, dos elementos fornecidos pela emoção, não sabem o que é a disposição das matérias, ignoram que um poema, por exemplo, não é mais que uma carne de emoção cobrindo um esqueleto de raciocínio. Nenhuma capacidade de atenção e concentração, nenhuma potência de esforço meditado, nenhuma faculdade de inibição. Escrevem ou artistam ao sabor da chamada «inspiração», que não é mais que um impulso complexo do subconsciente que cumpre sempre submeter, por uma aplicação centrípeta da vontade, à transmutação alquímica da consciência. Produzem como Deus é servido, e Deus fica mal servido. Não sei de poeta português de hoje que, construtivamente, seja de confiança para além do soneto. Ora, feitos estes reparos analíticos quanto ao estado mental dos nossos homens de talento, é inútil alongar este breve estudo, tratando com igual pormenor a maioria do escol. Se o escol do escol é assim, como não será o não escol do escol? Há, porém, um característico comum a ambos esses elementos da nossa camada mental superior, que aos dois irmana, e, irmanados, define: é a ausência de ideias gerais e, portanto, do espírito crítico e filosófico que provém de as ter. O nosso escol político não tem ideias excepto sobre política, e as que tem sobre política são servilmente plagiadas do estrangeiro — aceites, não porque sejam boas, mas porque são francesas ou italianas, ou russas, ou o quer que seja. O nosso escol literário é ainda pior: nem sobre literatura tem ideias. Seria trágico, à força de deixar de ser cómico, o resultado de uma investigação sobre, por exemplo, as ideias dos nossos poetas célebres. Já não quero que se submetesse qualquer deles ao enxovalho de lhe perguntar o que é a filosofia de Kant ou a teoria da evolução. Bastaria submetê-lo ao enxovalho maior de lhe perguntar o que é o ritmo. 1932 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 165. 1ª publ. in “Fama”, nº 1. Lisboa: Nov. 1932. CARTA A UM HERÓI ESTÚPIDO Li, sem entusiasmo e sem pasmo, as declarações que Vossa Heroicidade fez no Funchal, a propósito de questões políticas, onde se mostrou, mais uma inútil vez, que a coragem física não é, em geral, acompanhada duma grande lucidez intelectual. Permitiu-se Vossa Heroicidade, fresca ainda do cativeiro e mais fresca ainda dos aplausos de quantos pobres diabos a ilha da Madeira pôde reunir, fazer considerações, que só a um sociólogo competia ousar, sobre o modo como o nosso país fora administrado pelo Sr. General Pimenta de Castro. Foi uma péssima ideia. Por fácil que lhe houvesse parecido dizer umas quantas coisas estúpidas sobre o modo como a ditadura recente se havia comportado internacionalmente, permanece o facto de que essas coisas foram estúpidas e o facto de as ter dito um herói, longe de esbater o ridículo fundamental das coisas extremamente estúpidas quando ditas sobre assuntos graves, mais o pôs em relevo. Quem lhe meteu na cabeça, ó desgraçado varredor de feiras africanas, que a habilidade para as arremetidas violentas facilitava com certeza a competência sociológica? Quem lhe insinuou, desgraçado, que o facto de ter feito frente ousada a umas tropas germânicas lhe concedia jus de opinião política? Decerto que, inexperiente no modo como os homens intrincadamente lidam uns com os outros, o cérebro futurista já pela confusão de aplausos que lhe proporcionaram, o sr. julgou ter competência para apreciar os seus superiores políticos e procedeu no caso com o plebeísmo fundamental de todas as criaturas fisicamente valentes. Se um campeão de pesos — um campeão, por exemplo, do arraché — se pusesse a escrever sonetos, baseado, para si próprio, no facto de que conseguira erguer, em determinada posição de braço, uns tantos excessivos quilos, toda a gente riria da sua precipitada audácia que julgara o êxito no esforço muscular competência bastante para tentar o êxito no esforço poético. E contudo o seu caso, meu desgraçado e estúpido herói, não passou deste ridículo comenos. A circunstância de se ter batido heroicamente em Naulila pareceu-lhe que lhe dava azo psíquico a arcar com ideias abstractas e com noções sociológicas, e, assim, o sr. ousou largar em público, através de um discurso que foi condenado a pronunciar, opiniões que, normalmente admissíveis na lazeirenta competência dos moços de esquina, não têm contudo mais relevo do que as opiniões normalmente características do género de artistas citado. Pobre parvo heróico, que ousou pronunciar sobre um dos melhores ditadores da nossa história um labéu inútil de traidor quasi, quando o único labéu que daí resta é o de estúpido para si. Vá para casa, ou vá para a guerra. Deixe a sociologia e a política. Que diable alliez-vous faire dans cette galère? Nada, meu pobre muscular, meu pobre sem-nervos, nada. Para casa, para a guerra, para o esforço físico, desgraçado. Deixe aos outros, aos competentes, a análise da situação política. Erga-se, herói, e cale-se, parvo. De onde lhe veio a ideia, ó simples soldado!, que podia ter opiniões sobre assuntos políticos, e que são, em sua essência última, sociológicos? Quem lhe transtornou o cérebro a tal ponto que lhe pareceu provável que as sombras de ideias que usualmente --habitam as almas confusas dos práticos, podiam ser por si emitidas com o aspecto firme de noções políticas? Que bebedeira de celebridade o levou pela mão, perfidamente, até conseguir que lançasse para a publicidade das gazetas esses pobres e tacanhos conceitos, próprios de qualquer recruta analfabeto, que se permitiu ter a propósito da ditadura do general Pimenta de Castro? Onde estudou Vossa Heroicidade a sociologia? Em que loba Romana bebeu este Rómulo de Naulila o leite da ciência do governo? Em vez da atitude comedida e modesta que compete a um homem cuja acção é militar e prática, este indivíduo aventurou-se, com uma coisa que já não é ousadia, porque aqui é estupidez, até formular opiniões sobre a situação do país de que não sabe nada, das condições políticas do país, que não conhece, da atitude dos grupos aristocráticos portugueses, cujo representante espontâneo, o ditador recentemente deposto por uma revolução estomacal, foi das figuras que mais vincou o protesto necessário das elites portuguesas contra este domínio de carbonários e de ladrões, de arruaceiros e de gatunos, que lá vai para cinco anos nos conturba. Que sabe o sr. disso, para que venha assim estupidamente insultar os seus superiores não só hierárquicos, mas intelectuais também? Sabe por acaso que o general Pimenta de Castro tinha consigo todo o país, menos a parte revolucionária, menos a Junta dos Interesses Próprios, menos esse prolongamento fadista da monarquia que enxameia aí pelas esquinas e deu azo a um professor espanhol que escrevesse a nosso respeito nacional palavras que ardem, porque são justas, e nos fazem corar, porque nos descreveu? A indignação sobe e cresce quando se vê que este homem, que podia estar alto e digno na modéstia intelectual da sua atitude de combatente, vem galgar por cima dos muros da sua competência para nos fazer discursos que seriam desculpáveis em Costa (chefe de assassinagem) e admissíveis em qualquer dos espanhóis do interior que compõem o partido democrático. Num livro, que preparo, demonstrarei sociologicamente que esta revolução de 14 de Maio não foi mais do que uma reconstrução republicana dos princípios monárquicos de governo, agravada pela indisciplina que, como revolução, causou, e, como revolução feita por autênticos penitenciários, mais que causou. Que sabe o sr. da Alemanha, salvo que teve que se defrontar — e heroicamente o fez — com os seus soldados? Que sabe o sr. da sua atitude na guerra da razão fortíssima porque ela faz esta guerra, das causas íntimas deste conflito todo? Não sabe nada, é claro, e ninguém lhe levaria a mal não saber nada, se não se tivesse permitido — estranha coisa num herói, que não costuma rebaixar o inimigo — fazer lamentáveis considerações a respeito deste país. Que longe que o sr., e todos os que estão consigo, andam das aspirações profundas da alma nacional, que não andam aí pelas ruas de Lisboa, nas mãos dos carbonários, mãos cujo polegar, na maioria dos casos, o posto antropométrico não desconhece (...) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 83. Apartado 147, Lisboa, 11 de Dezembro de 1931. Meu querido Gaspar Simões: Muito obrigado pela sua carta, que acabo de receber, e pela página do jornal de Málaga. Não faz mal não ter vindo na «Presença» 33 o trecho do guarda-livros ou o soneto do Álvaro de Campos; ainda bem que veio a tradução do Hino a Pan . Essa, sim, é que me comprometeria se estivesse ausente. E porquê zangar-se comigo por ter dado ao « Descobrimento » colaboração extensa? Estou pronto a dá-la de igual extensão à « Presença » . Em um e outro caso considero, porém, a índole da publicação. Não julgo justo enviar-lhe colaboração que vá absorver-lhe três páginas, sobretudo devendo a « Presença » entregar o melhor e maior do seu espaço aos poetas e prosadores mais jovens, intercalando apenas os da minha idade por amizade para connosco, aplauso nosso para convosco e enchimento de intervalos. Feitas estas considerações antepreliminares, e que são a resposta à sua carta, vou ver se consigo fazer a crítica ao seu livro « Mistério da Poesia »; incluirá a crítica ao seu estudo a meu respeito, visto que é inserto no livro, apesar de eu lha ter prometido há já muito tempo. Deve v. Compreender, antes de mais nada, que vou fazer a crítica assim mesmo, escrevendo corrente e directamente à máquina a que estou sentado, sem procurar fazer literatura, ou frases, ou quanto não surja espontaneamente no decurso mecânico de escrever. Como não trouxe comigo o seu livro, terei que indicar em vez de citar, onde haja (se directamente houver) razão para isso. Aviso isto para que v. não veja um vago propositado onde há somente não ter trazido o livro. De há muito que tenho uma alta opinião do seu talento em geral e das suas qualidades de crítico em particular. Quero que, antes de mais e acima de tudo, reconheça isto, e que isto é a minha opinião fundamental. O que porventura se manifeste de discordância no seguimento desta carta atinge tão-somente os acidentes e os pormenores. Prova-lhe, aliás, este meu conceito da sua inteligência o facto — que talvez não tenha elementos para notar — de que uso para consigo das palavras « admiração» e «admirador», que não costumo distribuir ao acaso; «apreço» é o até onde vou onde não posso, a bem comigo, ir mais longe. A meu ver, « O Mistério da Poesia » marca, na evolução do seu espírito e da expressão dele, um estádio intermédio entre « Temas » e um livro seu futuro. « O Mistério da Poesia » é essencialmente — a meu ver, sempre — um livro de estádio intermédio: é mais profundo e mais confuso que « Temas ». O Gaspar Simões cresceu mentalmente — cresce-se mentalmente até aos 45 anos — e está atravessando uma fase de uma doença do crescimento. Sente a necessidade de explicar mais, e mais profundamente, do que fez em « Temas », mas em parte, não atingiu ainda o comando dos meios de aprofundamento, e, em parte, busca aprofundar pontos da alma humana que não haverá nunca meios para aprofundar. De aí — sempre, a meu ver — o que de febril, de precipitado, de ofegante estorva a lucidez substancial de certas observações, e priva outras, centralmente, de lucidez. À parte o que vejo nisto de uma simples manifestação de evolução íntima, creio que se entrega um pouco mais do que deveria às influências e sugestões do meio intelectual europeu, com todas as suas teorias proclamando-se ciência, com todos os seus talentosos e hábeis proclamando-se e proclamados génios. Não o acuso de não ver isto; na sua idade nunca isto se vê. Pasmo hoje — pasmo com horror — do que admirei — sincera e inteligentemente — até aos 30 anos, no passado e no (então) presente da literatura internacional. Comigo isto deu-se tanto com a literatura como com a política. Pasmo hoje, com vergonha inútil (e por isso injusta) de quanto admirei a democracia e nela cri, de quanto julguei que valia a pena fazer um esforço para bem da entidade inexistente chamada o «povo», de quão sinceramente, e sem estupidez, supus que à palavra «humanidade» correspondia uma significação sociológica, e não a simples acepção biológica de «espécie humana». Entre os guias que o induziram no relativo labirinto para que entrou, parece-me que posso destacar o Freud, entendendo por Freud ele e os seus seguidores. Acho isto absolutamente compreensível, não só pelas razões gerais acima expostas, mas pela, particular, de que o Freud é em verdade um homem de génio, criador de um critério psicológico original e atraente, e com o poder emissor derivado de esse critério se ter tornado nele uma franca paranóia de tipo interpretativo. O êxito europeu e ultra-europeu do Freud procede, a meu ver, em parte da originalidade do critério; em parte do que este tem da força e estreiteza da loucura (assim se formam as religiões e as seitas religiosas, compreendo nestas, porque o são, as de miticismo político, como o fascismo, o comunismo, e outras assim); mas principalmente de o critério assentar (salvo desvios em alguns sequazes) numa interpretação sexual. Isto dá azo a que se possam escrever, a título de obras de ciência (que por vezes, de facto, são), livros absolutamente obscenos, e que se possam «interpretar» (em geral sem razão nenhuma crítica) artistas e escritores passados e presentes num sentido degradante e Brasileira do Chiado assim ministrando masturbações psíquicas à vasta rede de onanismos de que parece formar-se a mentalidade civilizacional contemporânea. Compreenda-me v. bem: não quero com isto sequer supor que seja este último pormenor do Freudismo o que fez, a v., passes hipnóticos. Mas foi este pormenor que criou o vasto interesse no Freudismo em todo o mundo, e que, portanto, fez a publicidade do sistema. Foi por um processo idêntico que, tendo o Junqueiro derivado a sua celebridade do fenómeno extraliterário de atacar a Igreja Católica (em que intimamente cria) e os «burgueses» (de cuja classe era excessivo ornamento), nós, no meu tempo, o passámos a admirar literariamente, e ainda que não concordássemos com qualquer daqueles dois elementos que haviam criado a celebridade pela qual o líamos e admirávamos. Ora, a meu ver (é sempre «a meu ver»), o Freudismo é um sistema imperfeito, estreito e utilíssimo. É imperfeito se julgamos que nos vai dar a chave, que nenhum sistema nos pode dar, da complexidade indefinida da alma humana. É estreito se julgamos, por ele, que tudo se reduz à sexualidade, pois nada se reduz a uma coisa só, nem sequer na vida intra-atómica. É utilíssimo porque chamou a atenção dos psicólogos para três elementos importantíssimos na vida da alma, e portanto na interpretação dela: 1 °-o subconsciente e a nossa consequente qualidade de animais irracionais; 2.° — a sexualidade, cuja importância havia sido, por diversos motivos, diminuída ou desconhecida anteriormente; 3. ° — o que poderei chamar, em linguagem minha, a translação , ou seja a conversão de certos elementos psíquicos (não só sexuais) em outros, por estorvo ou desvio dos originais, e a possibilidade de se determinar a existência de certas qualidades ou defeitos por meio de efeitos aparentemente irrelacionados com elas ou eles. Já antes de ter lido qualquer coisa de ou sobre Freud, já antes de ouvir falar nele, eu tinha pessoalmente chegado à conclusão marcada (1) e a alguns resultados dos que incluí sob a indicação (3). No capítulo (2) tinha feito menos observações, dado o pouco que sempre me interessou a sexualidade, própria ou alheia — a primeira pela pouca importância que sempre dei a mim mesmo, como ente físico e social, a segunda por um melindre (adentro da minha própria cabeça) de me intrometer, ainda que interpretativamente, na vida dos outros. Não tenho lido muito do Freud, nem sobre o sistema freudiano e seus derivados; mas o que tenho lido tem servido extraordinariamente — confesso — para afiar a faca psicológica e limpar ou substituir as lentes do microscópio crítico. Não precisei do Freud (nem ele, que eu saiba, me esclareceria esse pormenor) para saber distinguir a vaidade do orgulho, nos casos em que podem confundir-se, por meio de manifestações em que essas qualidades surgem indirectamente. Não precisei também do Freud para, no próprio campo da indicação (2), conhecer, pelo simples estilo literário, o pederasta e o onanista, e, adentro do onanismo, o onanista praticante e o onanista psíquico. Os três elementos constitutivos do estilo do pederasta, os três elementos constitutivos do estilo do onanista (e a divergência, em um deles, entre o praticante e o psíquico) — para nada disto precisei de Freud ou dos freudianos. Mas muitas outras coisas, neste capítulo e nos outros dois, de facto Freud e os seus me esclareceram: nunca me havia ocorrido, por exemplo, que o tabaco (acrescentarei «e o álcool») fosse uma translação do onanismo. Depois do que li neste sentido, num breve estudo de um psicanalista, verifiquei imediatamente que, dos cinco perfeitos exemplares do ananista que tenho conhecido, quatro não fumavam nem bebiam; e o que fumava abominava o vinho. O assunto obrigou-me a cair no sexual, mas foi para exemplificar, como v. compreende, e para lhe dizer quanto, criticando embora e divergindo, reconheço o poder hipnótico do freudismo sobre toda a criatura inteligente, sobretudo se a sua inteligência tem a feição crítica. O que desejo agora acentuar e que me parece que esse sistema e os sistemas análogos ou derivados devem por nós ser empregados como estímulo da argúcia crítica, e não como dogmas científicos ou leis da natureza. Ora o que me parece é que v. se serviu deles um pouco neste último sentido, sendo portanto correspondentemente arrastado, por o que há de pseudocientífico em muitas partes desses sistemas, o que conduz à falseação; por o que há de audaz em outras partes, o que conduz à precipitação; e por o que há de abusivamente sexual em outras, o que conduz a um rebaixamento automático, sobretudo perante o público, do autor criticado, de sorte que a explicação, sinceramente buscada e inocentemente exposta, redunda numa agressão. Porque o público é estúpido? Sem dúvida, mas o que faz o público público, que é o ser colectivo, por isso mesmo o priva da inteligência, que é só individual. A Robert Browning, não só grande poeta, mas poeta intelectual e subtil, referiam uma vez o que havia de indiscutível quanto à pederastia de Shakespeare, tão clara e constantemente afirmada nos Sonetos. Sabe o que Browning respondeu? «Então ele é menos Shakespeare!» (If so the less Shakespeare he!). Assim é o público, meu querido Gaspar Simões, ainda quando o público se chame Browning, que nem sequer era colectivo. Nestas considerações, feitas em tom mental de conversa solitária, e assim transmitidas à rapidez da máquina, vai a maior parte da crítica que tenho que fazer, adversamente, ao « Mistério da Poesia ». Elas versam, para falar pomposamente, um dos aspectos metodológicos do seu livro. Mas há nele também elementos de pressa escusada e de precipitação crítica a que qualquer questão de método é alheia. Se v. confessadamente não tem os elementos biográficos precisos para ajuizar do que poderia ser a alma do Sá-Carneiro, por que se baseia na falta de elementos para formar um juízo? Tem v. a certeza, só porque eu o digo e repito, que tenho saudades da infância e que a música constitui para mim — como direi? — o meio natural estorvado da minha íntima expressão? E repare que cito o estudo sobre Sá-Carneiro, que, dada a sua falta de elementos, é admirável de espírito crítico, e o estudo a meu respeito que peca só por se basear, como verdadeiros, em dados que são falsos por eu, artisticamente, não saber senão mentir. Concretizo. A obra de Sá-Carneiro é toda ela atravessada por uma íntima desumanidade, ou, melhor, inumanidade; não tem calor humano, nem ternura humana, excepto a introvertida. Sabe poquê? Porque ele perdeu a mãe quando tinha dois anos e não conheceu nunca o carinho materno. Verifiquei sempre que os amadrastados da vida são falhos de ternura, sejam artistas, sejam simples homens; seja porque a mãe, lhes falhasse por morte, seja porque lhes falhasse por frieza ou afastamento. Há uma diferença: os a quem a mãe faltou por morte (a não ser que sejam secos de índole, como o não era o Sá-Carneiro) viram sobre si-mesmos a ternura própria, numa substituição de si-mesmos à mãe incógnita; os a quem a mãe faltou por frieza perdem a ternura que tivessem e (salvo se são génios de ternura) resultam cínicos implacáveis, filhos monstruosos do amor natal que se lhes negou. Concretizo mais, agora comigo. Nunca senti saudades da infância; nunca senti, em verdade, saudades de nada. Sou, por índole, e no sentido directo da palavra, futurista. Não sei ter pessimismo, nem olhar para trás. Que eu saiba ou repare só a falta de dinheiro (no próprio momento) ou um tempo de trovoada (enquanto dura) são capazes de me deprimir. Tenho, do passado, somente saudades de pessoas idas, a quem amei; mas não é saudade do tempo em que as amei, mas a saudade delas queria-as vivas hoje, e com a idade que hoje tivessem, se até hoje tivessem vivido. O mais são atitudes literárias, sentidas intensamente por instinto dramático, quer as assine Álvaro de Campos, quer as assine Fernando Pessoa. São suficientemente representadas, no tom e na verdade, por aquele meu breve poema que começa, O sino da minha aldeia. . . O sino da minha aldeia, Gaspar Simões, é o da Igreja dos Mártires, ali no Chiado. A aldeia em que nasci foi o Largo de S. Carlos, hoje do Directório, e a casa em que nasci foi aquela onde mais tarde (no segundo andar; nasci no quarto) haveria de instalar-se o Directório Republicano. (Nota: a casa estava condenada a ser notável, mas oxalá o 4. ° andar dê melhor resultado que o 2. °). Depois destas concretizações, ou coisa parecida, desejo regressar (se ainda tiver cabeça, pois já estou cansado) a um ponto metodológico. A meu ver (cá estão as três palavras outra vez), a função do crítico deve concentrar-se em três pontos: (1) estudar o artista exclusivamente como artista, e não fazendo entrar no estudo mais do homem que o que seja rigorosamente preciso para explicar o artista; (2) buscar o que poderemos chamar a explicação central do artista (tipo lírico, tipo dramático, tipo lírico elegíaco, tipo dramático poético, etc.); (3) compreendendo a essencial inexplicabilidade da alma humana, cercar estes estudos e estas buscas de uma leve aura poética de desentendimento. Este terceiro ponto tem talvez qualquer coisa de diplomático, mas até com a verdade, meu querido Gaspar Simões, há que haver diplomacia. Nada disto, creio, precisa ser esclarecido, salvo, talvez, o que indiquei como (2). Prefiro — até para abreviar — explicar por um exemplo. Escolho-me a mim mesmo, porque é quem está aqui mais perto. O ponto central da minha personalidade como artista é que sou um poeta dramático; tenho continuamente, em tudo quanto escrevo, a exaltação íntima do poeta e a despersonalização do dramaturgo. Voo outro — eis tudo. Do ponto de vista humano — em que ao crítico não compete tocar, pois de nada lhe serve que toque — sou um histero-neurasténico com a predominância do elemento histérico na emoção e do elemento neurasténico na inteligência e na vontade (minuciosidade de uma, tibieza de outra). Desde que o crítico fixe, porém, que sou essencialmente poeta dramático, tem a chave da minha personalidade, no que pode interessá-lo a ele, ou a qualquer pessoa que não seja um psiquiatra, que por hipótese, o crítico não tem que ser. Munido desta chave, ele pode abrir lentamente todas as fechaduras da minha expressão. Sabe que, como poeta, sinto; que, como poeta dramático, sinto despegando-me de mim; que, como dramático (sem poeta), transmudo automaticamente o que sinto para uma expressão alheia ao que senti, construindo na emoção uma pessoa inexistente que a sentisse verdadeiramente, e por isso sentisse, em derivação, outras emoções que eu, puramente eu, me esqueci de sentir. Agora vou parar. Vou reler esta carta, fazer quaisquer emendas que forem precisas, e enviar-lha. Além disso, sou instantemente solicitado a acabar de escrever à máquina por um amigo meu, ainda mais bêbado do que eu, que acaba de chegar e não estima embebedar-se sozinho. O «vou reler esta carta» quer, pois, dizer que a vou reler logo, ou amanhã. Não deverei fazer emendas, salvo as do que saiu errado entre mim e a máquina. Se v. achar qualquer ponto mal esclarecido, diga, que eu direi. E v. não esqueceu, é claro, que o que aí vai é feito sem preparação nenhuma — atirado pelas páginas fora com a rapidez com que a máquina pode ceder ao pensamento decorrente. Não, não esqueci que não referi o que haverá possivelmente de errado no seu conceito do meu entendimento emotivo da música. Saltei esse pormenor porque me estorvava a rapidez da exposição e porque não sei nada a respeito dele. Mas essa vontade de música é outra das graças do meu espírito dramático. É conforme as horas, os locais, e a parte de mim que esteja virada a fingir para os locais e as horas. Nem esqueci, é claro, que, lá para trás nesta carta, escrevi qualquer coisa sobre «afiar a faca psicológica» e «limpar ou substituir as lentes do microscópio crítico». Registo, com orgulho, que pratiquei, falando do Freud, uma imagem fálica e uma imagem iónica; assim sem dúvida ele o entenderia. O que concluiria não sei. Em qualquer caso, raios o partam! E agora estou, definitivamente, cansado e sedento. Desculpe o que as expressões tenham falhado às ideias e o que as ideias tenham roubado à mentira ou à indecisão. Um grande abraço do seu muito amigo e admirador FERNANDO PESSOA P. S. — Houve um ponto da sua carta a que não respondi ou me referi. É o que trata da nota do « Descobrimento » sobre Camilo Pessanha. Quero referir-me simplesmente à influência que o Pessanha pudesse ter tido sobre o Sá-Carneiro. Não teve nenhuma. Sobre mim teve, porque tudo tem influência sobre mim; mas é conveniente não ver influência do Pessanha em tudo quanto, de versos meus, relembre o Pessanha. Tenho elementos próprios naturalmente semelhantes a certos elementos próprios do Pessanha; e certas influências poéticas inglesas, que sofri muito antes de saber sequer da existência do Pessanha, actuam no mesmo sentido que ele. Mas quanto ao Sá-Carneiro... Eu conhecia, de cor, quase todos os poemas do Pessanha, por mos ter várias vezes dito o Carlos Amaro. Comuniquei-os ao Sá-Carneiro, que, como é de supor, ficou encantado com eles. Não vejo, porém, que tenham influenciado o Sá-Carneiro em qualquer coisa. Uma grande admiração não implica uma grande influência, ou, até, qualquer influência. Tenho uma grande admiração por Camões (o épico, não o lírico), mas não sei de elemento algum camoniano que tenha tido influência em mim, influenciável como sou. E isto por uma razão precisamente igual como à que explica a não-influência de Pessanha sobre Sá-Carneiro. É que o que Camões me poderia «ensinar» já me fora «ensinado» por outros. A exaltação e a sublimação do instinto de pátria são fenómenos inensináveis em sua substância: ou temos naturalmente o sentimento patriótico, ou o não temos; ou temos a capacidade de exaltar e sublimar os nossos sentimentos ou a não temos. (E, à parte isto, o sentimento patriótico é uma das coisas mais correntes em todas as literaturas, sendo, aliás, a sublimação construtiva do ódio, que é tão necessário à existência como o amor — a outra coisa igualmente corrente em todas as literaturas). E a construção e amplitude do poema épico, tem-as Milton (que li antes de ler os « Lusíadas ») em maior grau que Camões. Ora Sá-Carneiro tinha em si mesmo, ou de outras influências, tudo quanto o Pessanha lhe poderia dar, quando primeiro ouviu, como ele diz, «dos seus versos». Isto explica, ao mesmo tempo, a não-influência e a grande admiração. Muito seu, F. P. 1931 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 175. 1ª publ. in “Presença”, nº 48. Coimbra: Julho. 1936. Li , sem entusiasmo e sem pasmo o relato das tristes palavras que Vossa Heroicidade pronunciou no Funchal. No seu discurso de agradecimento, falou de questões políticas, e mais uma inútil vez se mostrou que a coragem física não é, quase nunca, acompanhada duma grande lucidez intelectual. Permitiu-se Vossa Heroicidade, fresca ainda do cativeiro e mais fresca ainda dos aplausos madeirenses, fazer considerações, que só a um sociólogo competia ousar, sobre o modo como o nosso país fora administrado pelo Sr. General Pimenta de Castro. Não fez — bem sei — uma dissertação sobre o assunto. Não foi tão longe o seu desvario. Mas meia dúzia de frases em que se referiu à atitude do recente ditador perante o representante da Alemanha, na curta frase elogiosa com que fez o seu magro possível por consagrar o 14 de Maio, deu azo de sobra — dado que o sr. era, ao momento, uma figura consagrada pelos aplausos e, e investida portanto dum relevo patriótico — a que se lhe possam dirigir estes comentários. Direi mais, talvez: deu azo de sobra a que seja um dever fazer-lhe estes comentários qualquer pessoa que os possa fazer. Temos então que Vossa Heroicidade, em quatro ou cinco frases claríssimas, nos deixou ver que entendia que o governo do Sr. Pimenta de Castro tinha sido antipatriótico e maléfico: que a revolução que o derrubou, tinha sido, portanto, um benefício; que a campanha, que aí se tem feito, insistindo pela nossa entrada na guerra, tem sido amplamente justificada. Conclui-se, também, do seu discurso [,] que pensa a respeito dos alemães a costumada série de coisas que os nossos jornais nos impingem diariamente. Sabe-se que o sr. quer que se vingue o desastre de Naulila. Não me lembro se disse mais alguma coisa que seja de interesse fixar. O que refiro basta, e sobra, para definir a sua atitude e justificar os meus comentários. Parecerá talvez estranho que se vá agora fazer comentários a opiniões há tanto tempo expostas. É que essas opiniões, emitidas por qualquer dos intrujões políticos que por aí andam, não assumem categoria para que alguém as discuta. Sob o ponto de vista intelectual, é claro, que, por o sr. as emitir, também não a assumem, dado que a sua competência sociológica e política me parece dever ser acentuadamente negativa. A sua figura, porém, ganhou um certo relevo — creio que merecido — e a sua opinião, sendo aparentemente a de um bravo soldado, etc., etc., e não de um político profissional, pode parecer mais digna de atenção. Sem dúvida que a algumas pessoas deve ter impressionado. Pode pensar-se que, na sua voz, directa e simples, de soldado que cumpriu o seu dever, fala, não a suspeita dos políticos, mas a alma franca e ingénua do povo, que a sua opinião tem, portanto, um carácter representativo da essência da alma nacional. A este propósito é que a sua opinião pode ser perigosa . Por isso eu, que julgaria inútil comentar qualquer opinião dessas, quando a falasse um político, dou uns momentos de atenção ao seu discurso no Funchal (...) tépida ainda dos aplausos madeirenses. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 84. «Carta a um herói estúpido». Nada. Passaram nuvens e eu fiquei... No ar limpo não há rasto. Surgiu a lua de onde já não sei, Num claro luar vasto. Todo o espaço da noite fica cheio De um peso sossegado... Onde porei o meu futuro, e o enleio Que o liga ao meu passado? 25-10-1933 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 125. Meu caro Côrtes-Rodrigues: Não poderei ter a sua tese pronta às 2 horas. Além de terem aparecido várias cartas que escrever no escritório, tenho umas extensas provas a rever. Por isso lhe deixo esta nota no Estácio. Pelas 4 ¼ devo ter a sua tese pronta. Apareça aí pelas 5 no escritório. E olhe: se a porta estiver fechada, bata, que eu estou lá. Mas não apareça mais tarde do que as 5 ¼. Se puder, telefone-me. O seu Fernando Pessoa 19-X-1915. 19-10-1915 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 66. [Carta a José Osório de Oliveira - 1932] Recebi, há cinco minutos, a sua pergunta: «Quais foram os livros que o banharam numa mais intensa atmosfera de energia moral, de generosidade, de grandeza de alma, de idealismo?» Respondo, como vê, imediatamente. Diz-me que é uma pergunta feita por António Sérgio, a quem não conheço pessoa1mente, mas por quem tenho a maior consideração. É mais uma razão para responder depressa; não é, infelizmente, uma razão para poder ser lúcido ou explícito, visto que se trata de um assunto em que, até agora, nunca reflecti. Como, porém, em todas as dificuldades da vida se deve sempre agir antes de pensar, vou responder antes de saber o que digo, e a resposta terá assim o selo régio da sinceridade. Ponho uma questão prévia. Os termos da pergunta pressupõem que a energia moral, a generosidade, a grandeza de alma e o idealismo sejam pessoas abstractas do meu convívio quotidiano. Infeliz, ou felizmente, não o são. Não digo que as não conheça, mas não as conheço com aquela intimidade com que conheço o capricho, a insinceridade e o devaneio — por vezes, até o devaneio lógico, que tem sido uma das minhas principais exterioridades . Traduzo, pois, a pergunta para o seguinte: quais foram os livros que mais me transmudaram em mim mesmo para aquela pessoa diferente que todos nós desejamos ser? Para isto tenho uma resposta-aquela, imediata e impensada, a que acima me refiro, e que deve conter a verdadeira. Em minha infância e primeira adolescência houve para mirn, que vivia e era educado em terras inglesas, um livro supremo e envolvente — os « Pickwick Papers », de Dickens; ainda hoje, e por isso, o leio e releio como se não fizesse mais que 1embrar Em minha segunda adolescência dominaram meu espírito Shakespeare e Milton, assim como, acessoriamente, aqueles poetas românticos ingleses que são sombras irregulares deles; entre estes foi talvez Shelley aquele com cuja inspiração mais convivi. No que posso chamar a minha terceira adolescência, passada aqui em Lisboa, vivi na atmosfera dos filósofos gregos e alemães, assim como na dos decadentes franceses, cuja acção me foi subitamente varrida do espírito pela ginástica sueca e pela leitura da « Dégénérescence », de Nordau. Depois disto, todo o livro que leio, seja de prosa ou de verso, de pensamento ou de emoção, seja um estudo sobre a quarta dimensão ou um romance policial, é, no momento em que o leio, a única coisa que tenho lido. Todos eles têm uma suprema importância que passa no dia seguinte. Esta resposta é absolutamente sincera. Se há nela, aparentemente, qualquer coisa de paradoxo, o paradoxo não é meu: sou eu. Fernando Pessoa 1932 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 189. 1ª publ. in “Diário de Lisboa”, Maio. 1936. Cantigas de portugueses Cantigas de portugueses São como barcos no mar — Vão de uma alma para outra Com riscos de naufragar. s.d Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 35. Império O conflito é entre pares, ou semelhantes (completamente?). Assim, na época moderna, há dois grupos de línguas - as do Norte e as do Sul, da Europa; denominam-se, em geral, germânicas e latinas, respectivamente. De tendência pertence em cada grupo destes a vitória cultural à língua mais capaz de exprimir, à mais rica não só em termos e frases, como também em capacidade de expressão, em riqueza gramatical, por assim dizer. Poder-se-á dizer nesta língua o que não pode dizer-se nas outras. Das línguas ditas latinas é a portuguesa a mais rica e a mais complexa. O inglês, a língua mais rica da Europa pela junção dos elementos “anglo-saxões” com os latinos, (...) naturalmente, enferma de uma estrutura do verbo relativamente acanhada e que só com uma prolixidade de emprego dos verbos auxiliares de certo modo se redime. (…) Condições imediatas do Império de Cultura: (1) Uma língua apta para isso, isto é: (a) rica, (b) gramaticalmente completa; (c) fortemente “nacional”. (2) O aparecimento de homens de génio literário, escrevendo nessa língua, e ilustrando-a: (a) de génio universal e (...) dentro da humanidade; (b) de génio de perfeição linguística; (c) (a concorrência de outros factores culturais para o conteúdo dessas obras de génio). (3) A base material imperial para se poder expandir (ainda mais) essa língua, e impô-la. (Imposição material): (a) número de gente falando-a inicialmente; (b) extensão da situação geográfica; (c) conquista e ocupação perfeita [?]. Complexidade vocálica (mais que consonantal); a complexidade tónica (...) Condições imediatas do Império de Cultura: (isto é, condições (sociais) que produzem as outras) (1 ) Uma língua será tanto mais rica quanto mais a nação houver sido composta, no seu início e fundação como tal, de elementos culturais diferentes. Assim, das línguas europeias, a língua inglesa, que se compõe do duplo elemento cultural germânico e latino, é a mais rica de todas. Segue-se-lhe a espanhola e portuguesa, e principalmente a portuguesa, em que (1) dois elementos culturais — o latim e o árabe — concorrem. A maior base cultural assim facilitada [?] para a “capacidade imperial” da língua. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 80. Acontece que, enquanto estas sinistras coisas se passam nas ruas e nas praças, outras se preparam, lentamente, na divina sombra das almas. Assim é que, pouco tempo depois de proclamada a República, apareceu no Porto a "Renascença Portuguesa". Nucleou essa instituição florescente em torno ao alto pensamento português do Poeta Teixeira de Pascoaes. Desviou-se depois, é certo, do seu nítido primeiro intuito. Abandonou a flagrante intenção portuguesa com que começara. Mas no fundo essa intenção ainda existe, e enquanto exista a grande Alma lusitana de Pascoaes, tal corrente, creio, existirá. Sem plena consciência, é certo, mas com um sagrado instinto patriótico, Pascoaes e os que o seguiram procuraram chegar a um conceito português da Vida. É a primeira tentativa que no género se fez em Portugal. Os poetas da "Renascença" puseram-se a elaborar — como poetas, por certo, mas pelos poetas é que estas coisas começam — uma atitude perante o sistema do Universo, que se revelasse portuguesa inteiramente. Com efeito, não há outro problema hoje de mais importância do que o de criar uma alma portuguesa. A antiga alma nacional, mesmo que ainda existisse, já não servia. E preciso, para que haja um Portugal Novo, haver uma Nova Alma Portuguesa. Para que possa haver uma política nacional, uma cultura nacional, qualquer coisa nacional, seja o que for, o primeiro passo a dar é espiritual, é criar aquela fonte nacional donde essas coisas todas, depois inevitavelmente partirão. Ora o dever de todo o homem que representa qualquer coisa em Portugal, hoje, é o de, afastado de toda a malandragem que faz política, prestar o seu auxilio, pequeno que seja, a essa criação de Portugal. Eu não quero que o sr. preste o seu, ainda que (embora fosse tolice) não tosse crime pedir-lho. Quero apenas apontar-lhe este facto — que cada acto, cada gesto que um português hoje faça, e tenda a conservar, apoiar ou animar as forças dissolventes da nossa sociedade, que são os restos dos partidos monárquicos e quase todos os políticos republicanos, qualquer gesto, digo, que tenda a conferir a essa turba-multa de escrocs e de imbecis um milímetro espiritual de prestígio, não só vale pelo facto maléfico de prestar auxílio a gente inteiramente desprezível e antipatriótica (o que já de si é mau), mas pesa sobretudo porque contraria ou tende a contrariar a obscura acção daqueles que, por muito amar a Pátria, querem ter Pátria para amar. Isto, que aqui está, não é nada. Ponha no nosso passado olhos de homem que cumpriu o seu dever. Isto, que aí vê, satisfá-lo? Isto satisfaz alguém que não coma disto? Ou que não seja um pobre instrumento nas mãos dos políticos? Peço-lhes apenas o silêncio. Deixe que as grandes forças ocultas da alma nacional lentamente se infiltrem. Bem sei que o sr. seria incapaz de as combater. Faço-lhe, sem mais pensar no caso, essa precipitada justiça. Mas auxiliar aquilo que cumpre destruir é prejudicar essa construção futura, porque é fortalecer aquilo que depois terá de ser destruído. São estas algumas das considerações que, como representante duma das correntes intelectuais do país, julgo do meu dever fazer-lhe. Muitas outras há, porventura, que nesta ocasião devessem ser feitas; não as farei porque não vale a pena. E é quase insultuoso, desprimoroso, para um simples soldado estar-lhe dirigindo reflexões de ordem política e sociológica, onde ele nada percebe senão a superfície das palavras e a dispersa significação dos conceitos. Permita que lhe renove o protesto da minha admiração pela sua valentia, e do meu desprezo pela sua precipitada estupidez. Ouso esperar que, quando os fumos da embriaguez popular lhe houverem passado, o seu espírito possa adquirir aquilo que, mais do que outra coisa importa que um homem tenha — a justa noção do lugar que ocupa na sociedade, e a compreensão apurada dos limites que esse lugar impõe à sua actividade. Deixe a política aos políticos; que faz o sr. entre eles senão trabalhar para desdouro do seu nome honrado? Deixe as opiniões sobre política aos sociólogos; que espera o sr. merecer deles, senão o desprezo, metendo-se a entendido em questões onde eles, estudiosos do assunto, tantas vezes hesitam e se não pronunciam? Capitão Aragão: a disciplina é uma coisa mais importante que Vossa Heroicidade julga. Vai mais fundo, e é mais larga, que a mera arregimetação militar. Ela representa o equilíbrio e a lucidez no esforço, a noção que cada um deve ter do seu papel na sociedade, e do preciso valor que o seu feitio e competência têm na República. Não sirva partidos políticos: eles não são mais que aquelas "quadrilhas de ladrões" de que José Dias Ferreira falava. Os tempos não mudaram, porque em cinco anos não se altera uma sociedade. O meio social é o mesmo, com a anarquia por cima; e por isso os vícios são os mesmos, com a indisciplina agravada e a confusão maior. Só com um lento trabalho, primeiro puramente intelectual e educativo, que vá entrando pouco a pouco, de cima, na sociedade, ela se pode transformar; só daqui a muitos anos (Deus sabe quantos!) pode haver realmente a república em Portugal, a decência na administração pública, a plena consciência portuguesa em Portugal. Tanto quanto em si caiba, não prejudique o trabalho de sapa intelectual daqueles que são mais portugueses que o sr., que sabem mais das coisas sociais ao que o sr., que visam muito mais altos, e muitos maiores destinos à sua Pátria, do que qualquer "vingança de Naulila" ou "simpatia pela causa dos aliados" ou outra qualquer sucata sociológica da loja de quinquilharia desta pré-república. Cale-se, e acorde, abra os olhos! Isto de Pátria não é coisa com que o sr. — que é um homem de coração e de pulso — possa estar a brincar, como se fosse um tranquiberneiro qualquer de qualquer dos partidos políticos. Os gatunóides que têm andado a calabriar pela nossa administração pública não merecem duas palavras da sua estúpida mas honrada atenção ... (...) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 85. «Carta a um herói estúpido» Eu me resigno. Há no alto da montanha Um penhasco saído, Que, visto de onde toda coisa é estranha, Deste vale escondido, Parece posto ali para o não termos, Para que, vendo-o ali, Nos contentemos só com o aí vermos No nosso eterno aqui... Eu me resigno. Esse penhasco agudo Talvez alcançarão Os que na força de irem põem tudo. De teu próprio silêncio nulo e mudo, Não vás, meu coração. 28-10-1933 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 126. All things in the world are subject to classification in the form of a series, of which the beginning is zero and the end infinity , that is to say which has no beginning and no end. Yet in consideration of this it is necessary to give these negations a positive aspect, and to say that the Series begins in zero and ends in infinity. Good and evil are thus subjected to the series; if we make good the term, zero is absolute ill and absolute good is infinity. 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 64. Porque o olhar de quem não merece O meu amor para outro olhou, Uma dor fria me enfurece, Decido odiar quem me insultou. Vil dor, vil causa e vil remédio! Quanto melhor não fora achar-se No antigo sem-amor, com tédio, Mas sem dor de que envergonhar-se! 15-2-1920 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 37. Lisboa, 14 de Janeiro de 1916. Meu caro Côrtes-Rodrigues: Dentro do seu caderno, na competente página, encontrará a Cavalgada, passada a limpo. Não se esqueça de ver se me obtém a informação que lhe pedi, a informação astrológica, nem de ma deixar amanhã na Livraria Brasileira. Muito e sempre seu Fernando Pessoa 14-1-1916 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 67. [Prefácio a ACRÓNIOS, de Luís Pedro] O progresso da poesia, isto é, o das formas poéticas — pois da mesma poesia, que é a verdade viva, não pode haver progresso, nem Homero foi ainda superado — , obedece àquela dura lei a que todo progresso obedece; em outras palavras, é um caso particular de um fenómeno geral. Designa-se por progresso a aquisição de uma coisa que é uma vantagem social por meio da perda de outra coisa, que era uma vantagem social também. É caso típico o da formação da Europa moderna: surgiu através da criação, diversa e colorida, das nacionalidades distintas; resultou na perda do influxo romano e do uso universal da língua latina, pelos quais as nações da Europa tinham naturalmente a fraternidade que hoje se busca em vão, porque artificialmente. As formas poéticas, adentro da nossa civilização — isto é, da Grécia até nós — , atravessaram três estádios distintos: o estádio quantitativo, da poesia grega e latina, em que o ritmo se fundava na quantidade das sílabas, pressupondo e exigindo uma exactidão e musicalidade de dicção e pronúncia que hoje nem sequer concebemos; o estádio silábico, em que o número das sílabas no verso, a acentuação, e artifícios como a rima e a estrofe rimada faziam por compensar a perda da antiga precisão quantitativa; o estádio rítmico, em que se não cura de quanto seja regra, ou o pareça, mas se reduz a poesia, tão-somente, a uma prosa com pausas artificiais, isto é, independentes das que são naturais em todo o discurso e nele se indicam pela pontuação. Cada estádio, ou, antes, cada forma pela qual cada estádio se distingue, tem, como tudo, vantagens e desvantagens. A poesia quantitativa, apertadíssima, obrigava todavia a uma disciplina verbal de tal ordem que se reflectia no mesmo pensamento; por isso a poesia grega e latina é de uma notável clareza e limpidez. A poesia silábica, menos apertada, se dissolve a disciplina do pensamento, mantém, contudo a da emoção; é preciso sentir claro, por obscuro que se pense, para lançar equilibradamente o movimento estrófico, alinhando e rimando. A poesia rítmica nem disciplina a inteligência nem a emoção, a não ser que estas estejam disciplinadas em, e por, si mesmas; segue, porém, todos os movimentos do espírito, como a sombra os do corpo, mas, como esta, se nos não precavermos no onde estamos, com grandes e desmedidas distorções. A primeira estorva a emoção em proveito do pensamento; a segunda estorva o pensamento em proveito da emoção; a terceira a ambos estorva, ou tende a estorvar, em proveito do que, transcendendo pensamento e emoção, é a mesma individualidade. É regra de toda a vida social que, quanto mais liberdade nos é dada, menos podemos dar a nós mesmos. Se me fecharem num subterrâneo, tenho liberdade de fazer muita coisa sem risco de cair do telhado abaixo. No telhado, em pleno ar livre, tenho que ver melhor onde ponho os pés. A vantagem e desvantagem da poesia rítmica, ou livre, é que ela exige de nós que nos disciplinemos com uma força e uma segurança que as poesias menos livres nos não exigiam, pois elas mesmas tinham em si com que disciplinar-nos. Isto é vantagem porque a disciplina assim adquirida é mais íntima e profunda; é desvantagem porque é muito mais difícil de adquirir. Diz-se que todos os caminhos vão dar a Roma; mas, se assim é, alguns hão-de ir para lá muito tortos. Há dois caminhos direitos entre dois pontos: o que vai de um ponto ao outro em linha recta; e o que dá a volta ao mundo até chegar lá, em complemento da mesma linha. Figura o primeiro, no caso presente, a poesia livre; figura o segundo a poesia presa. O segundo é mais fácil, porque dá mais espaço para se dar por ele; o primeiro é mais difícil, porque temos que estar certos d esde o princípio. 1932 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 193. 1ª publ. in “Prefácio” a Acrónios . Luís Pedro. Lisboa: 1932. Eu tenho um colar de pérolas Eu tenho um colar de pérolas Enfiado para te dar: As pérolas são os meus beijos, O fio é o meu penar. 27-8-1907 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 35. Distingamos, no problema, os dois problemas de que se compõe: (1) é possível que Portugal seja uma grande potência espiritual? (2) sendo possível, será provável que o venha a ser? Em outras palavras: (1) tem Portugal condições para ser uma grande potência espiritual? (2) tem o meio civilizacional condições para evocar, ou trazer à superfície, a virtualidade dessas condições, para converter em real esse potencial? Quanto às condições, a capacidade, há que observar o seguinte: (1) a primeira coisa em que Portugal se tornou notável na atenção da Europa foi um fenómeno literário — até certo ponto, e em certo modo derivadamente, a poesia dos Cancioneiros: mais acentuadamente os romances de cavalaria, e designadamente o Amadis. É pouco? Não foi pouco para a época; e para a investigação que estamos fazendo é tudo. Temos, pois, que o primeiro afloramento civilizacional deste país foi um fenómeno de cultura, isto é, de espírito; (2) Portugal surgiu definitivamente na civilização europeia pelas descobertas, e as descobertas são um acto cultural; mais que um acto cultural, são um acto de criação civilizacional. Criámos o mundo moderno; porém a nossa primeira descoberta foi descobrir a ideia de descoberta; (3) de todos os países europeus (ressalvada a minha ignorância de alguns deles), Portugal é o único em que o tipo superior de mentalidade teve progresso, que não regresso, do princípio do século dezanove para cá. Em todos os outros países, os valores superiores sofreram degeneração. A. W. Benn, no seu livro sobre a Inglaterra Moderna, querendo definir o seu estado actual (no romper do século presente), intitulou o capítulo em que o faz “O Eclipse do Génio”. Para ele o fenómeno típico da Inglaterra moderna é a morte do génio. E mostra como, em todos os ramos da vida superior, as figuras representativas e notáveis vão sendo cada vez mais mesquinhas à medida que se desenrola o século dezanove, e chega o século vinte. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 75. Propriamente o seu gesto heróico não foi o gesto heróico dum mero soldado. Quanto muito o sr. foi um sargento valente. Não se lhe pode dar maior categoria intelectual na valentia. O seu gesto não foi dum chefe, como parece ter sido o do tenente Marques, postergado pelo sr. por não pertencer ao partido democrático. No fundo, aqui não há heroísmo nem patriotismo: há uma questão política, mais um dos estafados manejos espanhóis do nosso célebre partido democrático. O leopardo, diz-se em provérbio, não pode mudar as pintas. Os democráticos, também, não podem mudar de feitio. O seu gesto foi heróico, mas não foi português. Nada há de português no seu gesto, porque nada pode haver de português nos gestos de quem não tem um conceito português da vida. Na acção militar de um Mousinho de Albuquerque (os seus manes que me desculpem a comparação consigo!) há uma certa lusitanidade, qualquer coisa de consciência de estar pertencendo a uma linhagem de heróis que outrora mandaram nos mares e se fizeram obedecer pelos ventos. E a carta ao Príncipe Real, publicada, morto já Mousinho, pelo cuidado amigo do sr. (...) Gaivão, revela plenamente que o aprisionador do Gungunhana tinha um conceito português da vida. Conceito espantosamente medieval, é certo, monárquico duma maneira estranha nesta época oca de lealismos; mas, sem dúvida possível, um conceito português da vida e das coisas, tradicionalista até ao delírio. Estava no passado aquela alma heróica, mas estava no passado em Portugal. A sua alma onde é que está? Com quem está? Nem o sr. o sabe. O sr. diz que tem consciência de ter cumprido o seu dever. Qual era, afinal, o dever que o sr . tinha de cumprir? O de se bater pela Pátria? Decerto que o cumpriu. O de, como militar, se bater até à última? Parece tê-lo cumprido. Mas o seu dever de chefe, porque o sr. é um oficial e não um sargento ou um cabo; o seu dever de, por oficial, representante duma aristocracia portuguesa? Esse dever, cumpriu-o? Seria ironia imperdoável da minha parte querer pretender que o sr. o cumpriu. Ora, desde que o dever por si cumprido não passou do dever do soldado, do mero soldado, cumpria-lhe continuar nessa linha de conduta, que pode comportar nobreza e altivez, mas que só as comporta pelo escrúpulo no silêncio e na modéstia. O sr., porém, ousou mostrar opiniões políticas, manifestar adesão a uma corrente política. Isto é, tendo cumprido um dever de mero soldado, o sr. passou a emitir opiniões que competem apenas a um oficial. Isto é que não pode ser, não tem jeito, não se lhe pode admitir. Talvez a consciência disso lhe ditasse esse justo gesto de não querer aceitar a sua promoção. Com o seu gesto concordarão todos, não porque ele seja modesto, mas porque é lógico. O seu gesto, não pede promoção, pede louvor; não requer eminência, mas recompensa. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 86. «Carta a um herói estúpido». Lisboa, 4 de Maio de 1916. Meu querido Côrtes-Rodrigues: Não lhe tenho escrito. Tenho atravessado uma enorme crise intelectual. E agora estou muito pior, com a enorme tragédia que nos aconteceu a todos. O Sá-Carneiro suicidou-se em Paris no dia 26 de Abril. Não tenho cabeça para lhe escrever, mas não quero deixar de lhe comunicar isto. Claro está que a causa do suicídio foi o temperamento dele, que fatalmente o levaria àquilo. Houve, é claro, uma série de perturbações que foram as causas ocasionais da tragédia. Ele suicidou-se com estricnina. Uma morte horrorosa. Já tencionara suicidar-se três vezes — em 3 de Abril a primeira. Uma grande desgraça! Naturalmente Orpheu publicará uma plaquette, colaborada só pelos seus colaboradores, à memória do Sá-Carneiro. Logo que v. puder, portanto — quanto antes melhor — v. mande-me qualquer coisa breve (o mais esmerado possível) à memória dele. Não se esqueça. O bom era se o mandasse pelo próximo vapor. E dê-me notícias suas. Não as tenho tido. Meus cumprimentos a seu Pai. Um grande abraço do Sempre e muito seu Fernando Pessoa Na casa A. Xavier Pinto e C.ª Rua de S. Julião, 101, 1.º LISBOA (Note a nova morada) (Lembro-me agora que v. já a conhece; esteve cá, até, com o Fernando Bravo, uma vez). 4-5-1916 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 67. [Carta a Adolfo Casais Monteiro - 13 Jan. 1935] Caixa Postal 147 Lisboa, 13 de Janeiro de 1935. Meu prezado Camarada: Muito agradeço a sua carta, a que vou responder imediata e integralmente. Antes de, propriamente, começar, quero pedir-lhe desculpa de lhe escrever neste papel de cópia. Acabou-se-me o decente, é domingo, e não posso arranjar outro. Mas mais vale, creio, o mau papel que o adiamento. Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que nunca eu veria «outras razões» em qualquer coisa que escrevesse, discordando, a meu respeito. Sou um dos poucos poetas portugueses que não decretou a sua própria infalibilidade, nem toma qualquer crítica, que se lhe faça, como um acto de lesa-divindade. Além disso, quaisquer que sejam os meus defeitos mentais, é nula em mim a tendência para a mania da perseguição. À parte isso, conheço já suficientemente a sua independência mental, que, se me é permitido dizê-lo, muito aprovo e louvo. Nunca me propus ser Mestre ou Chefe-Mestre, porque não sei ensinar, nem sei se teria que ensinar; Chefe, porque nem sei estrelar ovos. Não se preocupe, pois, em qualquer ocasião, com o que tenha que dizer a meu respeito. Não procuro caves nos andares nobres. Concordo absolutamente consigo em que não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz com um livro da natureza de « Mensagem ». Sou, de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou, à parte isso, e até em contradição com isso, muitas outras coisas. E essas coisas, pela mesma natureza do livro, a « Mensagem » não as inclui. Comecei por esse livro as minhas publicações pela simples razão de que foi o primeiro livro que consegui, não sei porquê, ter organizado e pronto. Como estava pronto, incitaram-me a que o publicasse: acedi. Nem o fiz, devo dizer, com os olhos postos no prémio possível do Secretariado, embora nisso não houvesse pecado intelectual de maior. O meu livro estava pronto em Setembro, e eu julgava, até, que não poderia concorrer ao prémio, pois ignorava que o prazo para entrega dos livros, que primitivamente fora até fim de Julho, fora alargado até ao fim de Outubro. Como, porém, em fim de Outubro já havia exemplares prontos da « Mensagem », fiz entrega dos que o Secretariado exigia. O livro estava exactamente nas condições (nacionalismo) de concorrer. Concorri. Quando às vezes pensava na ordem de uma futura publicação de obras minhas, nunca um livro do género de « Mensagem » figurava em número um. Hesitava entre se deveria começar por um livro de versos grande — um livro de umas 350 páginas — , englobando as várias subpersonalidades de Fernando Pessoa ele mesmo, ou se deveria abrir com uma novela policiária, que ainda não consegui completar. Concordo consigo, disse, em que não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz, com a publicação de « Mensagem ». Mas concordo com os factos que foi a melhor estreia que eu poderia fazer. Precisamente porque essa faceta — em certo modo secundária — da minha personalidade não tinha nunca sido suficientemente manifestada nas minhas colaborações em revistas (excepto no caso do Mar Português parte deste mesmo livro) — precisamente por isso convinha que ela aparecesse, e que aparecesse agora. Coincidiu, sem que eu o planeasse ou o premeditasse (sou incapaz de premeditação prática), com um dos momentos críticos (no sentido original da palavra) da remodelação do subconsciente nacional. O que fiz por acaso e se completou por conversa, fora exactamente talhado, com Esquadria e Compasso, pelo Grande Arquitecto. (Interrompo. Não estou doido nem bêbado. Estou, porém, escrevendo directamente, tão depressa quanto a máquina mo permite, e vou-me servindo das expressões que me ocorrem, sem olhar a que literatura haja nelas. Suponha — e fará bem em supor, porque é verdade — que estou simplesmente falando consigo). Respondo agora directamente às suas três perguntas: (1) plano futuro da publicação das minhas obras, (2) génese dos meus heterónimos, e (3) ocultismo. Feita, nas condições que lhe indiquei, a publicação da « Mensagem » , que é uma manifestação unilateral, tenciono prosseguir da seguinte maneira. Estou agora completando uma versão inteiramente remodelada do Banqueiro Anarquista , essa deve estar pronta em breve e conto, desde que esteja pronta, publicá-la imediatamente. Se assim fizer, traduzo imediatamente esse escrito para inglês, e vou ver se o posso publicar em Inglaterra. Tal qual deve ficar, tem probabilidades europeias. (Não tome esta frase no sentido de Prémio Nobel imanente). Depois — e agora respondo propriamente à sua pergunta, que se reporta a poesia — tenciono, durante o verão, reunir o tal grande volume dos poemas pequenos do Fernando Pessoa ele mesmo, e ver se o consigo publicar em fins do ano em que estamos. Será esse o volume que o Casais Monteiro espera, e é esse que eu mesmo desejo que se faça. Esse, então, será as facetas todas, excepto a nacionalista, que « Mensagem » já manifestou. Referi-me, como viu, ao Fernando Pessoa só. Não penso nada do Caeiro, do Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos. Nada disso poderei fazer, no sentido de publicar, excepto quando (ver mais acima) me for dado o Prémio Nobel. E contudo — penso-o com tristeza — pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida. Pensar, meu querido Casais Monteiro, que todos estes têm que ser, na prática da publicação, preteridos pelo Fernando Pessoa, impuro e simples! Creio que respondi à sua primeira pergunta. Se fui omisso, diga em quê. Se puder responder, responderei. Mais planos não tenho, por enquanto. E, sabendo eu o que são e em que dão os meus planos, é caso para dizer, Graças a Deus! Passo agora a responder à sua pergunta sobre a génese dos meus heterónimos. Vou ver se consigo responder-lhe completamente. Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriarmente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos — felizmente para mim e para os outros — mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo — os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher — na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas — cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem — e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia... Isto explica, tant bien que mal , a origem orgânica do meu heteronimismo. Vou agora fazer-lhe a história directa dos meus heterónimos. Começo por aqueles que morreram, e de alguns dos quais já me não lembro — os que jazem perdidos no passado remoto da minha infância quase esquecida. Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos). Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um eu, tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar. Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu primeiro heterónimo, ou, antes, o meu primeiro conhecido inexistente — um certo Chevalier de Pas dos meus seis anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo, e cuja figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade. Lembro-me, com menos nitidez, de uma outra figura, cujo nome já me não ocorre mas que o tinha estrangeiro também, que era, não sei em quê, um rival do Chevalier de Pas... Coisas que acontecem a todas as crianças? Sem dúvida — ou talvez. Mas a tal ponto as vivi que as vivo ainda, pois que as relembro de tal modo que é mister um esforço para me fazer saber que não foram realidades. Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. Teve várias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. Ocorria-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu sou, ou a quem suponho que sou. Dizia-o, imediatamente, espontaneamente, como sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja história acrescentava, e cuja figura — cara, estatura, traje e gesto — imediatamente eu via diante de mim. E assim arranjei, e propaguei, vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas que ainda hoje, a perto de trinta anos de distância, oiço, sinto, vejo. Repito: oiço, sinto vejo... E tenho saudades deles. (Em eu começando a falar — e escrever à máquina é para mim falar — , custa-me a encontrar o travão. Basta de maçada para si, Casais Monteiro! Vou entrar na génese dos meus heterónimos literários, que é, afinal, o que V. quer saber. Em todo o caso, o que vai dito acima dá-lhe a história da mãe que os deu à luz). Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis). Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro — de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos . E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua , de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro. Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via . E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos — a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem. Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria. Quando foi da publicação de « Orpheu », foi preciso, à última hora, arranjar qualquer coisa para completar o número de páginas. Sugeri então ao Sá-Carneiro que eu fizesse um poema «antigo» do Álvaro de Campos — um poema de como o Álvaro de Campos seria antes de ter conhecido Caeiro e ter caído sob a sua influência. E assim fiz o Opiário , em que tentei dar todas as tendências latentes do Álvaro de Campos, conforme haviam de ser depois reveladas, mas sem haver ainda qualquer traço de contacto com o seu mestre Caeiro. Foi dos poemas que tenho escrito, o que me deu mais que fazer, pelo duplo poder de despersonalização que tive que desenvolver. Mas, enfim, creio que não saiu mau, e que dá o Álvaro em botão... Creio que lhe expliquei a origem dos meus heterónimos. Se há porém qualquer ponto em que precisa de um esclarecimento mais lúcido — estou escrevendo depressa, e quando escrevo depressa não sou muito lúcido — , diga, que de bom grado lho darei. E, é verdade, um complemento verdadeiro e histérico: ao escrever certos passos das Notas para recordação do meu Mestre Caeiro , do Álvaro de Campos, tenho chorado lágrimas verdadeiras. É para que saiba com quem está lidando, meu caro Casais Monteiro! Mais uns apontamentos nesta matéria... Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Alvaro de Campos. Construi-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mas seco. Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos — o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma — só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário . Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre. Como escrevo em nome desses três?... Caeiro por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. (O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer «eu próprio» em vez de «eu mesmo», etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. O difícil para mim é escrever a prosa de Reis — ainda inédita — ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea, em verso). Nesta altura estará o Casais Monteiro pensando que má sorte o fez cair, por leitura, em meio de um manicómio. Em todo o caso, o pior de tudo isto é a incoerência com que o tenho escrito. Repito, porém: escrevo como se estivesse falando consigo, para que possa escrever imediatamente. Não sendo assim, passariam meses sem eu conseguir escrever. Falta responder à sua pergunta quanto ao ocultismo (escreveu o poeta). Pergunta-me se creio no ocultismo. Feita assim, a pergunta não é bem clara; compreendo porém a intenção e a ela respondo. Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, subtilizando até se chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não. Por estas razões, e ainda outras, a Ordem Extrema do Ocultismo, ou seja, a Maçonaria, evita (excepto a Maçonaria anglo-saxónica) a expressão «Deus», dadas as suas implicações teológicas e populares, e prefere dizer «Grande Arquitecto do Universo», expressão que deixa em branco o problema de se Ele é criador, ou simples Governador do mundo. Dadas estas escalas de seres, não creio na comunicação directa com Deus, mas, segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir comunicando com seres cada vez mais altos. Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico (incluindo práticas como as do espiritismo, intelectualmente ao nível da bruxaria, que é magia também), caminho místico, que não tem propriamente perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama o caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeiro de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara , sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm. Quanto a «iniciação» ou não, posso dizer-lhe só isto, que não sei se responde à sua pergunta: não pertenço a Ordem Iniciática nenhuma. A citação, epígrafe ao meu poema Eros e Psique , de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal, indica simplesmente — o que é facto — que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência desde cerca de 1881. Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do Ritual, pois se não devem citar (indicando a ordem) trechos de Rituais que estão em trabalho. Creio assim, meu querido camarada, ter respondido, ainda com certas incoerências, às suas perguntas. Se há outras que deseja fazer, não hesite em fazê-las. Responderei conforme puder e o melhor que puder. O que poderá suceder, e isso me desculpará desde já, é não responder tão depressa. Abraça-o o camarada que muito o estima e admira. Fernando Pessoa 1935 Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas . Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de Antoónio Quadros.) Lisboa: Publ. Europa-América, 1986. - 199. 1ª publ. inc. in Presença , nº 49. Coimbra: Jun. 1937 A terra é sem vida, e nada A terra é sem vida, e nada Vive mais que o coração... E envolve-te a terra fria E a minha saudade não! 19-11-1908 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 35. Portugal Se o nosso imperialismo é um imperialismo cultural, ou, em outras palavras, se é um imperialismo cujo ponto de apoio é a Cultura, é evidente que, para a sua organização dinâmica, se deve apoiar aos elementos a que culturalmente pertence ou com que culturalmente se conjuga; sendo certo que se não deve de esquecer que um imperialismo, embora cultural, é sempre um imperialismo, isto é, que, embora uma política cultural, é sempre uma política. Ora os laços culturais são de três ordens, se os considerarmos não só como cultural, senão também como políticos. Vimos já (?) que há, primeiro, nações, depois grupos civilizacionais, finalmente a civilização. A determinação do sentido cultural de um país tem, portanto, que definir-se pela sua determinação em relação a si própria, ao grupo civilizacional a que pertence, e à civilização em geral. Em relação a si própria o critério definidor é a língua, que é o que define a nação para si mesma. A nação que pretenda a um imperialismo cultural deve, portanto, começar por unificar os elementos que falam a sua língua, porque não há império sem unificação, nem, portanto, império cultural sem unificação cultural. Há três casos possíveis neste caso da unificação: ou só a nação de que se trata fala a sua língua, e em toda a parte dessa nação se fala essa língua e nenhuma outra; ou a nação de que se trata inclui povos que, embora culturalmente falem a sua língua, falam naturalmente outra; ou a nação de que se trata exclui povos, que não pode integrar em si, que falam a mesma língua. O melhor exemplo da primeira é a Itália, que não tem senão dialectos e em que todos falam italiano, sem que haja colónia alguma italiana, no sentido superior e nacional da palavra “colónia”. O melhor exemplo da segunda é a Espanha, que inclui a Catalunha e Euzkadi, que falam línguas diferentes do espanhol. Para o terceiro exemplo serve Portugal, que, sendo uno no continente, tem, por exemplo, uma colónia espiritual, o Brasil, onde se fala a mesma língua mas que é inevitavelmente, por uma razão geográfica de distância, um povo diferente. Para cada espécie de povo destes, posto que esteja o problema do imperialismo cultural, esse problema se põe de modo diferente. Portugal, na determinação do apoio do seu imperialismo cultural, tem que buscar, primeiro, o Brasil, que tem por língua nacional o português. Portugal, na determinação do seu apoio em grupo civilizacional, tem que buscar a Ibéria, de cuja personalidade espiritual participa. . .. Portugal, na determinação do seu apoio civilizacional, isto é, puramente político, tem que buscar a Inglaterra (e os países de língua inglesa ?????) para apoio político da sua política externa. Portugal não difere no género, senão na espécie, das outras regiões da Ibéria. Isto é, os inimigos culturais de Portugal são os inimigos culturais da Ibéria, e vice-versa. Como se trata de grupo civilizacional, a questão, aqui, não é política; e por isso pode haver inimigos políticos de Portugal que o não sejam de Espanha, e de Espanha que o não sejam de Portugal. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 83. O sr. não se bateu pela Pátria. Não se podia bater pela Pátria, porque não tem Pátria por que se bater. Não me refiro agora, já, à circunstância de o sr., não tendo um conceito português da vida, não poder ser, por isso, considerado português. Refiro a outra, e mais grave, circunstância, com a qual o sr. nada tem. Refiro-me ao facto de que nenhum de nós tem Pátria. O português é hoje um expatriado no seu próprio país. Somos uma nação, não uma pátria; somos um agregado humano sem aquela alma colectiva que constitui uma Pátria. Somos... Sei lá o que nós somos? sabe alguém o que nos somos, salvo o lugar por onde um cataclismo vai passar (...) Com efeito, porque somos nós uma Pátria; antes, quero dizer, porque o não somos nós? Sabe o que é uma Pátria? Não espere que eu venha fazer lirismos: pergunto, concretamente e en sociologue , o que vem a ser uma Pátria? Uma de duas coisas, e nenhuma terceira: um conjunto humano tornando consciência de si-próprio como diferente de outros conjuntos. De que modo pode esse conjunto humano ter essa especial consciência de si próprio? De uma de duas maneiras, e de nenhuma outra maneira. Ou tem essa consciência pela continuidade de vida nacional, pela consciência das tradições especiais que fazem esse conjunto tal e não tal outro: e esta é a maneira tradicionalista de ser uma Pátria: ou tem essa consciência através de ter criado um novo conceito de vida, da sociedade, do mundo, que lhe é próprio, que se distingue dos outros conceitos de vida, w eltanschaaungen, dos outros países, quer eles os tenham — aos deles — por tradição, quer, também por criação recente. Eu explico melhor. Quando os filósofos e literatos alemães do fim do séc. XVIII e princípios do séc. XIX ergueram aquele monumento artístico e filosófico de onde saiu a geração de criadores que causou a Alemanha actual, essa gente ergueu, no seio da Alemanha, um novo conceito inteiramente novo das coisas — conceito inteiramente novo que, por ter nascido na Alemanha, se mostrou Alemão. Na impossibilidade de reatar as tradições germânicas, criaram uma Alemanha nova. Ali aí está nos seus resultados, e eu quero crer que o sr., apesar de herói e coisas anexas, terá a suficiente lucidez para confessar que é uma coisa razoavelmente forte e grande. Isto é o exemplo do conceito antitradicionalista de Pátria. Pessoalmente, adiro a este conceito; julgo inútil e mesquinha a cura escrupulosa de seguir as tradições. O Portugal das descobertas não seguiu tradição nenhuma: criou-se. Repare agora para o momento português actual. Qual das duas coisas lhe aparece aí a denunciar-lhe que Portugal é uma Pátria? Quebrámos com todas as tradições; até aqui nada há de mau. Resta saber se lhes substituímos qualquer coisa nova que seja de criação portuguesa. É assim? Qual é essa coisa? Os princípios em que assenta esta coisa a que se chama a República Portuguesa. Esses princípios são franceses. São tudo menos nacionais. Que diabo!, não é preciso ver muito pela história fora para perceber isso. Mais nos valera uma experiência fenomenalmente absurda no campo social ou institucional, mas que fosse nossa, que fosse originaria de aqui, que, portanto, tivesse o poder patriótico, ou patriotizante, de nos distinguir dos outros países. Mas não há nada disto. Não há Portugal: há uma mistura ignóbil de "estrangeiros do interior" (como com razão, se bem que de outro ponto de vista, se lhes chamou) a governar-nos e a estropiar-nos o resto do que somos. Entre outras coisas o sr, deve ter ouvido chamar traidor a Paiva Couceiro. Deve também ter ouvido denunciar e conspurcar uma frase, que se atribui aos nossos monárquicos, de que "antes Afonso XIII que Afonso Costa". Quero fazer — não propriamente a defesa — mas a explicação destas duas coisas — da atitude de Couceiro e a da frase atribuída aos monárquicos. As considerações, que acabo de exarar, devem dar-lhe a intuição de como essa defesa pode ser feita. Paiva Couceiro é um espírito ferrenhamente tradicionalista. Podemos não concordar — já disse que não concordo — com esse conceito tradicionalista. Mas ele é sem dúvida um conceito de nacionalidade. É preferível a conceito nenhum. Dentro do tradicionalismo pode haver patriotismo; fora dele, e não havendo a criação de novos ideais absolutamente nacionais, não vejo que patriotismo possa haver. Paiva Couceiro viu erguer-se uma instituição, a que alguns maduros e um grande número de gatunos chamaram "a nossa querida República" — e deve ter sentido, senão o pensou lucidamente — que essa instituição vinha arrancar tudo quanto restava — e não era muito — das tradições nacionais, sem lhes substituir absolutamente nada que mostrasse que era uma república portuguesa. Couceiro viu, ou deve ter sentido, que tal República, ou que quer que fosse, representava, nessas condições um atentado contra a Pátria. Era um factor de dissolução nacional. Não agia senão destrutivamente sobre quanto se pudesse considerar como energizador das almas portuguesas, ermo congregador das almas portuguesas numa única lusitana. Por isso o tradicionalista Paiva Couceiro sentiu a necessidade de conspirar. Ele foi sempre um grande soldado e um grande patriota; continuou sendo o mesmo soldado e o mesmo patriota. A sua superioridade moral sobre os estrangeiros da nossa República é incomensurável. No seu tradicionalismo exaltado, ele é, apesar de tudo, um português. Eles não são nada, nada, nada. Estrangeiros, e estrangeiros estúpidos; que nem sequer vieram trazer à administração pública aquela honestidade cuja ausência na monarquia lhes serviu de trampolim para as campanhas oposicionistas. A monarquia portuguesa, é certo, era um regime de ladrões e incompetentes. Mas era um regime que estava cá há oito séculos, que, pelo menos exteriormente. estava identificado se não com a nacionalidade, pelo menos com a existência ostensiva da nacionalidade. Substituí-lo por um regime que, além de não ser nacional de modo nenhum, continuava as mesmas tradições (estas sim!) de gatunagem e de incompetência., agravando, se talvez não a gatunagem, por certo que a incompetência — eis uma coisa para que não valia a pena ter derramado sangue, perturbado a vida portuguesa, criado maior soma de desprezos por nós do que os que já havia no estrangeiro. Não concordo, talvez, nem com uma única das ideias que formam a base do conceito português da vida que Couceiro tem. Mas reconheço nele um português. Como português, não posso deixar de, por isso, simpatizar com ele. Nem por sombras me ocorre que possa haver comparação entre a sua atitude — se bem que, para mim, errónea — e a estrangeirada atitude a que estes bandalhos da República chamam "patriotismo". Quanto à frase, ou expressão de desejo, que "antes Afonso XIII do que Afonso Costa", se a acho (seja ela de quem for) absurda e abjecta, confesso que a compreendo, que compreendo que se houvesse emitido. Aqui como no caso de Couceiro — os conceitos, que expus, acerca do que constitui uma Pátria devem auxiliá-lo a compreender também. O domínio espanhol significaria uma grande desgraça, uma grande vergonha, e um grande desastre nacional. Era a perda da nossa independência — não é assim? — o arrazamento da nossa Pátria? Mas que diabo é isto em que vivemos? Vivemos como portugueses? Como vivemos, se não somos governados por homens orientados portuguesmente? como, se são estrangeiras as ideias que nos "orientam"? como? se de independência nacional temos apenas o nome e o espectro da coisa? Para que serve uma independência nacional, se não é para se viver nacionalmente? Que diabo de independência nacional tem um desgraçado país que é internacionalmente um feudo da Inglaterra, que é nacionalmente um feudo do anti-português Afonso Costa? Se a perda declarada da nossa independência seria (e sê-lo-ia) uma desgraça e uma vergonha, em que é (salvo na absoluta evidência exterior) menos vergonha e menos desgraça a triste situação em que estamos? Um Portugal onde internacionalmente só se pode ser inglês; onde nacionalmente só se pode ser francês (pois que francesas sejam as ideias republicanas que nos "governam") — um Portugal onde, portanto, tudo se pode ser ("tudo" é um modo de falar) menos português, que espécie de "Portugal independente" é que é? Que independência há nisto? Triste gente que se contenta com a triste aparência das coisas, e não vê um palmo adiante das sensações quotidianas, para dentro da sua alma súbdita e oprimida! Há mais ainda. Estas ideias estrangeiras que hoje formam a fórmula pseudogovernativa da nossa sociedade, são, além de estrangeiras, revolucionárias; isto é, trazem consigo um duplo poder de desintegração social. Dificilmente se concebe um mais desgraçado estado nacional. É este o estado do país a que o sr., coberto de certa glória, regressa. São estes os homens a que o sr. vem dar o apoio da sua voz. Está contente? Sente-se português? Para que lhe pergunto eu isto? Estas perguntas, afinal, têm mais que uma colocação retórica no discurso? A estes inimigos internos da sua Pátria vem o sr. trazer o auxílio do algum prestígio que alcançou. Nesse caso vá mais longe. O sr. será um herói, mas é também um mau patriota e um mau português. Será um soldado valente, mas é também um parvo. Afinal para que lhe estou eu dizendo isto? Para que serve dizer isto, explicá-lo, raciociná-lo, quando sem dúvida toda essa chinfrineira de celebridade feita em seu torno não obedece senão a qualquer plano do partido democrático? Porque, no fundo disto tudo, a única realidade é o Costa. Sim, aqui, na realidade real, não há o sr., nem o seu heroísmo, nem Naulila, nem alemães, nem coisa nenhuma. Há o Costa e o seu partido. E se lhe tenho chamado — ao sr. — parvo e estúpido durante o decurso desta carta, compreende bem que é porque, supondo-o um homem de coração e um patriota, o considero apenas como inconscientemente servindo interesses políticos que, no fundo, são da mais escura espécie, e, no melhor, não são mais que interesses eleitorais e governativos. Limito-me ao conceito fácil de que o sr. é estúpido, porque não posso admitir que um homem que se bateu heroicamente, que cumpriu o seu dever nas linhas de fogo, que se viu frente a frente com as realidades fundamentais da vida — a morte, a guerra e a Pátria — venha, de consciência lúcida e caso pensado, servir os interesses baixos e reles dum partido de arruaceiros e de gatunos. Não creio que o sr. tivesse pensado bem que a sua voz ia ser uma espécie de defesa de Ambaca, das bínubas, das minas da Panasqueira., (...) — de todo esse rosário ateu de escândalos e de traições que constitui os serviços que o partido democrático tem prestado... à Espanha. Espanhóis do interior — é o que são esses homens em cujo proveito se ergueu um momento da sua voz. Traidores por temperamento e quotidiano gesto — eis do que não passam os indivíduos de forma humana que a sua glória vem servir e o seu nome prestigiar. Bem precisados de prestígio — na verdade — estão eles! Mas não há ninguém que lhes possa dar prestígio. Se eles conseguissem erguer do túmulo Nuno Álvares, o Infante D. Henrique e Afonso de Albuquerque, e os conseguissem inscrever no Centro da Rua Ivens, o que resultaria era um grande desprestígio para esses vultos da nossa história. Moralmente já nada salva aquela caranguejola de patifes. Oxalá, moral ou fisicamente, haja alguma coisa que salve isto! Enfim... Enfim... Mas não é verdade que é duro chegar-se a este ponto? Não é verdade que dói e envergonha um português ver que a este ponto se chega? Naulilas, cativeiros, regresso, vivas, heroísmos, promoções... E no fundo disto tudo não haver outra realidade senão uma manobra eleitoral do partido democrático! s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 87. «Carta a um herói estúpido» A minha camisa rota (Pois não tenho quem me a cosa) É parte minha na rota Que vai para qualquer cousa, Pois o estar rota denota Que a minha [...] Mas sei que a camisa é nada, Que um rasgão não é mal, E que a camisa rasgada Não me traz a alma enganada, Em busca do Santo Graal. 31-10-1933 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 127. Lisboa, 4 de Setembro de 1916. Meu querido Côrtes-Rodrigues: Se v. tem estado desterrado, eu sem desterro também o tenho estado. V. não imagina! Tenho passado estes últimos meses a passar estes últimos meses. Mais nada, e uma muralha de tédio com cacos de raiva em cima. Agora estou numa fase melhor, com episódicas antemanhãs de seu-eu-verdadeiramente. Uma longa história de Depressão, com detalhes lentes-de-aumentar vindas do Exterior ... Enfim... Não me sobra o tempo para lhe relatar porque gradações de mim-e-as-coisas se me infiltrou este mal-de-viver. Mas alguns factos marcam estádios na minha depressão: uma grave doença de minha mãe, que a levou até à possibilidade da morte, mas de que hoje, felizmente, parece estar de todo salva; o suicídio do Sá-Carneiro; a loucura do Cunha Dias (um rapaz meu antigo amigo, muito falador e vivo, que v. várias vezes deve ter visto na Brasileira) — tudo isto e eu... Intercaladamente, várias coisas de menor importância, mas adquirindo relevo por eu estar com relevo para as sentir; fenómenos nem-bons-nem-maus, mas ao princípio perturbadores, como o aparecimento em mim de fenómenos de mediumnidade... Isto tudo e a Vida ... De modo que as únicas notícias que lhe posso dar de mim é que não, mas agora melhor. (A frase é exactamente assim, por o meu privilégio de não me exprimir). Estou agora saindo de um período de esterilidade literária quase total, período que tem durado muito. Estou-me reconstruindo. Quando tornar a escrever-lhe — o que será para a outra mala — espero poder dar-me por RECONSTRUÍDO EM SETEMBRO DE 1916. Além disso, vou fazer uma grande alteração na minha vida: vou tirar o acento circunflexo do meu apelido. Como (nas circunstâncias adiante indicadas) vou publicar umas coisas em inglês, acho melhor desadaptar-me do inútil, que prejudica o nome cosmopolitamente. Vai sair Orpheu 3. É aí que, no fim do número, publico dois poemas ingleses meus, muito indecentes, e, portanto, impublicáveis em Inglaterra. Outra colaboração do número: Versos do Camilo Pessanha (a propósito; «não cite isto a ninguém»), versos inéditos do Sá-Carrneiro, A Cena do Ódio do Almada Negreiros que está actualmente homem de génio em absoluto, uma das grandes sensibilidades da literatura moderna, prosa do Albino de Meneses (não sei se v. conhece) e, talvez, do Carlos Parreira, e uma colaboração variada do meu velho e infeliz amigo Álvaro de Campos. Orpheu 3 trará, também, quatro hors-textes do mais célebre pintor avançado português — Amadeu de Sousa Cardoso. A revista deve sair por fins do mês presente. Para a mala que vem já lhe poderei dar notícias mais detalhadas. Agora vou responder aos pontos da sua carta que têm resposta: O que se tem publicado, de interesse para v., tirando o «Manifesto anti-Dantas» do Almada, é: Luz Poeirenta, de Silva Tavares. (Livro inteiramente sensacionalista, tanto que é dedicado à minha pessoa); Praias do Mistério, de Augusto de Santa-Rita. (Este deve já v. saber o que é, pois sem dúvida o autor já lho terá mandado); e não me lembro de mais nada. Mando-lhe por este correio um exemplar suplementar que aqui tinha do «Manifesto anti-Dantas». Quanto ao livro do Raúl Leal, v., evidentemente, só pode aludir a um volume intitulado A Liberdade Transcendente, que ele publicou há uns anos; não sei onde arranjar esse livro, mas tratarei de fazer o que possa para lho conseguir. O Leal está em Madrid em muito mau estado mental. Tentou há meses suicidar-se, atirando-se para debaixo de um automóvel. Mas escapou, mesmo sem contusões, porque o chauffeur desviou o carro. Agora sei que pensa em se ir alistar como voluntário no exército francês; mas há tempos que não tenho notícias dele. Bem. Isto já é ter-lhe escrito alguma coisa. Escreva v. também. Apresente os meus cumprimentos a seu Pai, e sinta-se abraçado pelo seu muito amigo e dedicado Fernando Pessoa 4-9-1916 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985 - 68. [Carta a Adolfo Casais Monteiro - 20 Jan. 1935] Caixa Postal 147 Lisboa, 20 de Janeiro de 1935. Meu querido Camarada: Muito obrigado pela sua carta. Ainda bem que consegui dizer alguma coisa que deveras interessasse. Cheguei a duvidar de que o fizesse, pela maneira precipitada e corrente como lhe escrevi, ao sabor da conversa mental que estava tendo consigo. Respondo e com igual espontaneidade, portanto falta de método e de arrumação, à sua carta agora recebida. Mas, enfim, qualquer coisa respondo. Sigo ao acaso os pontos a que tenho de responder. Quanto ao seu estudo a meu respeito, que desde já, por o que é de honroso, muito lhe agradeço: deixe-o para depois de eu publicar o livro grande em que congregue a vasta extensão autónima do Fernando Pessoa. Salvo qualquer complicação imprevista, deverei ter esse livro feito e impresso em Outubro deste ano. E então V. terá os dados suficientes: esse livro, a faceta subsidiária representada pela « Mensagem », e o bastante, já publicado, dos heterónimos. Com isto já o Casais Monteiro poderá ter uma «impressão de conjunto», supondo que em mim haja qualquer coisa tão contornada como um conjunto. Em tudo isto, reporto-me simplesmente a poesia, não sou porém limitado a esse sorriso das letras. Mas, quanto a prosa, já me conhece, e o que há publicado é o bastante. Até à data, que indico como provável para o aparecimento do livro maior, devem estar publicados o Banqueiro Anarquista (em nova forma e redacção), uma novela policiária (que estou escrevendo e não é aquela a que me referi na carta anterior) e mais um ou outro escrito que as circunstâncias possam evocar. É extraordinariamente bem feita a sua observação sobre a ausência que há em mim do que possa legitimamente chamar-se uma evolução qualquer. Há poemas meus, escritos aos vinte anos, que são iguais em valia — tanto quanto posso apreciar — aos que escrevo hoje. Não escrevo melhor do que então, salvo quanto ao conhecimento da língua portuguesa — caso cultural e não poético. Escrevo diferentemente. Talvez a solução do caso esteja no seguinte. O que sou essencialmente — por trás das máscaras involuntárias do poeta, do raciocinador e do que mais haja — é dramaturgo. O fenómeno da minha despersonalização instintiva a que aludi em minha carta anterior, para explicação da existência dos heterónimos, conduz naturalmente a essa definição. Sendo assim, não evoluo, VIAJO. (Por um lapso na tecla das maiúsculas saiu-me, sem que eu quisesse, essa palavra em letra grande. Está certo, e assim deixo ficar). Vou mudando de personalidade, vou (aqui é que pode haver evolução) enriquecendo-me na capacidade de criar personalidades novas, novos tipos de fingir que compreendo o mundo, ou, antes, de fingir que se pode compreendê-lo. Por isso dei essa marcha em mim como cornparável, não a uma evolução, mas a uma viagem: não subi de um andar para outro; segui, em planície, de um para outro lugar. Perdi, é certo, algumas simplezas e ingenuidades, que havia nos meus poemas de adolescência; isso, porém, não é evolução, mas envelhecimento. Creio ter dado, nestas palavras apressadas, qualquer vislumbre de uma ideia nítida do em que concordo com, e aceito, o seu critério de que em mim não tem havido propriamente evolução. Refiro-me, agora, ao caso da publicação de livros meus num futuro próximo. Não há razão para se preocupar com dificuldades nesse sentido. Se quiser realmente publicar o Caeiro, o Ricardo Reis e o Álvaro de Campos, posso fazê-lo imediatamente. Sucede, porém, que receio a nenhuma venda de livros desse género e tipo. A hesitação está só aí. Quanto ao livro grande de versos, esse, como qualquer outro, tem desde já a publicação garantida. Se penso mais nesse do que noutro, é que acho mais vantagem mental na publicação dele, e, apesar de tudo, menos risco de inêxito na sua edição. Quanto à publicação do Banqueiro Anarquista em inglês, também aí não haverá, creio eu, mas por outras razões, dificuldade notável. Se na obra houver capacidade de interesse para o mercado inglês, o agente literário a quem eu a enviar, a colocará mais tarde ou mais cedo. Não será preciso recorrer ao apoio do Richard Aldington, cuja indicação todavia, muito lhe agradeço. Os agentes literários (respondo agora à sua pergunta sobre o que são) são indivíduos, ou firmas, que colocam os livros ou escritos dos autores junto de editores ou directores de jornais, que eles, melhor que os autores, avaliam quais devem ser, mediante uma comissão, em geral de dez por cento. Neste ponto, sei o que hei-de fazer e a quem me hei-de dirigir — coisa rara, aliás, em mim, em qualquer circunstância prática da vida. Abraça-o o camarada amigo e admirador Fernando Pessoa 1935 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 211. 1ª publ. in “Diário Popular”. Lisboa: Set. 1943. Deixa que um momento pense Deixa que um momento pense Que ainda vives ao meu lado... Triste de quem por si mesmo Precisa ser enganado! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 36. Para justificar a sua aspiração (de agora) a um império cultural, tem Portugal, além da tradição quebrada desse império, isto é, da indicação inicial nesse sentido, a felicidade de não ter tido até agora uma grande literatura, mas uma literatura escassa e pequena, de modo que está quase tudo por fazer nesse campo, o que torna possível o fazer tudo, e como deve ser feito. “Fará paz em todo o mundo”, diz o Bandarra de D. Sebastião. E a paz em todo o Mundo, só numa fraternidade por enquanto imprevisível, mas que por certo exigirá um meio de comunicação igual - uma língua. Que mal haverá em nos prepararmos para este domínio cultural, ainda que não venhamos a tê-lo? Não queremos derramar uma gota de sangue; e ao mesmo tempo nos não furtamos à ânsia humana de domínio. Não caímos portanto na esterilidade do universalismo humanitário, mas também não caímos na brutalidade do nacionalismo extracultural. Queremos impor uma língua, que não uma força; não hostilizamos raça nenhuma, de nenhuma cor, como em geral não temos hostilizado, porque podemos ter sido por vezes bárbaros, como todos os imperiais de conquista, mas nem fomos mais, senão menos, que outros, nem nos pode ser contado como defeito que excluíssemos os de outra cor da nossa casa ou da nossa mesa. Assim nos nossa índole prepara para aquela fraternidade universal que a teosofia anteprega, e que é, de há tanto tempo, a doutrina social íntima dos Rosa Cruz. Se falharmos, sempre conseguimos alguma coisa — aperfeiçoar a língua. Na pior hipótese, sempre ficamos escrevendo melhor. Servimos imediatamente a cultura geral e a civilização: quando mais não fizéssemos, não houvéramos que acusar-nos de ter pecado. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 89. O proletariado organiza-se. Inaugurou-se há dias, em Lisboa, a Associação de Classe dos Monárquicos. Os operários manuelistas merecem-me a mesma simpatia e consideração que os outros sempre me mereceram; e seria, da minha parte, tão cruel como indelicado fazer referências menos bondosas a quem procura ganhar honradamente a vida e, achando cheias as profissões usuais, se aproveita da necessidade de uma nova profissão, e por isso, por vezes, a exerce incompetentemente. Quando surgiu a indústria automobilista, foi preciso criar a classe dos chauffeurs; ninguém, a não ser um ou outro atropelado mais plebeu, se revoltaria decerto contra a imperícia inicial dos guiadores dos carros. Estavam aprendendo o ofício — o que é natural — e ganhando a sua vida — o que é respeitável. Depois ficaram sabendo da sua arte, e, embora a maioria continue guiando mal, o facto é que são chauffeurs definitivamente. Ora o critério de humana tolerância que se aplica aos chauffeurs — como a todas as outras classes operárias que o progresso vai tornando precisas, triste seria que o não quiséssemos aplicar aos artistas monárquicos, excluindo-os assim, abusivamente, da grande família proletária, à qual tão dignamente pertencem. A maior prova de falta de espírito humanitário seria notar-lhes os defeitos da obra, como se se tratasse de um operariado com tradições. Assim, o facto do Sr. Crispim, da Nação , nunca ter graça, não lhe deve ser levado a mal. Ele não a tem naturalmente. Também ninguém nasce chauffeur ou bailarino russo. Quem sabe o que a aplicação e boa vontade podem conseguir? Quem nos diz que não teremos um dia a surpresa do Sr. Crispim nos aparecer com espírito? O que acontece com a graça do Sr. Crispim acontece também, é claro, com o talento do Sr. José de Arruela e a lógica do Sr. Cunha e Costa. E com respeito a esses outros artífices que se ocupam das partes mais técnicas da indústria monárquica, também o desalento me parece prematuro. É o caso, por exemplo, do meu amigo João do Amaral (não o especializo se não para o saudar), de qual — um santo rapaz, e até inteligente — vê-se que, como os outros, não está ainda à vontade na tecnologia da classe. Porque a gente vê que aquilo do El-Rei e Sumo Pontífice é ferramenta com que ainda não sabem lidar. Fica-nos sempre a impressão de que há peças que saltam no rodar daqueles engenhos lógicos, que há laqueios, folgas e outras coisas feias nestas engrenagens da dialéctica integralista. Dos outros defeitos que a classe ostenta — a falta de cultura, a precipitação nas conclusões, a frequente grosseria nos ataques — seria quase ignóbil falar, dado que tais têm sempre sido, em toda a parte, as infelicidades de origem das agremiações plebeias. 21-4-1915 Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 88. 1ª publ.: “Crónicas da Vida que Passa” in O Jornal , nº 18, Lisboa, 21-4-1915 Como varia A sensualidade, a inteligência, A vontade, o (...) de um a outro, Assim varia em todos a intuição Do universal mistério. Sentem todos Uns vagamente, outros conscientemente O mistério, mas eu mais do que todos. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 132. Canta onde nada existe O rouxinol para seu bem (?), Ouço-o, cismo, fico triste E a minha tristeza também (?) Janela aberta, para onde Campos de não haver são O onde a dríade se esconde Sem ser imaginação. Quem me dera que a poesia Fosse mais do que a escrever! Canta agora a cotovia Sem se lembrar de viver... 7-12-1933 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 128. Meu querido Côrtes-Rodrigues: Há não sei quantos anos que lhe não escrevo: há tanto tempo que teria agora tanto que contar-lhe que não posso contar-lhe. Só quando falarmos — quando, encontrando-nos, falarmos longamente — poderei contar tudo quanto há a contar desde que nos perdemos de vista e de escrita. V. o que tem feito? Notícias suas, de certo modo, tenho-as sempre tido, ou pelo Rocha (que acaba de me transmitir as saudades que me envia) ou pelo Duarte de Viveiros. Esta carta é apenas para lhe escrever — escrever dizendo seja o que for, tornar a falar-lhe, ainda que por escrito... Tanta saudade — cada vez mais tanta! — daqueles tempos antigos do Orpheu, do paùlismo das intersecções e de tudo mais que passou! V. não imagina, apesar da enorme influência que ficou do Orpheu                                 diminuído, moral e intelectualmente                                 tudo. V. tem visto a Contemporânea. É, de certo modo a sucessora do Orpheu. Mas que diferença! que diferença! Uma ou outra coisa relembra esse passado; o resto, o conjunto... Escreva-me v., escreva-me sempre que possa. O meu endereço é o mais simples possível: apenas Caixa Postal 147, Lisboa. Se extraviar esta carta e esquecer portanto o 147, lembre-se que basta pôr: Fernando Pessoa - Caixa Postal — Lisboa. Mesmo sem número me chega às mãos. Dê-me notícias suas, extensas se puder. Um enorme abraço saudoso e amigo do Sempre e muito seu Fernando Pessoa 4-8-1923. 4-8-1923 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985 - 71. Como Fernando Pessoa vê António Botto. O seu lirismo e a sua paixão. O livro « Ciúme » de António Botto representa uma nova fase da sua fase de sempre. Certos elementos, dos que compõem a essência dos seus poemas, emergem neste livro mais declarada ou distintivamente do que em seus livros anteriores. É esta a diferença, que poderá ser tida por pequena ou por grande consoante a sensibilidade de cada um e a reacção dessa sensibilidade perante uns e outros poemas — os da fase anterior e os da presente. De um modo geral, ainda que concreto, pode dizer-se que a obra poética de António Botto gira e se anima em torno de quatro ideias, ou estados mentais — a emoção sem paixão, a inteligência das superfícies, o sentimento contraditório, e a ironia emotiva. Estes quatro elementos não são, porém, diversos, desconexos ou simplesmente justapostos: derivam de um mesmo fundo temperamental, que por todos eles igual e concordantemente se manifesta. Por emoção sem paixão entendo, como sem dificuldades entenderá qualquer, que os estados emotivos do poeta não comportam, nem envolvem, nenhum aprofundamento ou intensificação. António Botto não analisa emotivamente as suas emoções, nem de tal modo nelas se concentra que automaticamente se animem, aqueçam, se convertam em paixões. Com análise emotiva das emoções — oposição implícita à análise intelectual delas — quero significar aquele estado em que o poeta, ou homem, se concentra sonhadoramente no que sente, e assim o multiplica, o desdobra, o sente diversa e divididamente. Tal estado merece o nome de paixão, não porque envolva intensidade, mas porque implica absorção. Em António Botto não se dá tal estado. As suas emoções são simples e directas, embora os seus sentimentos — isto é, os prolongamentos temperamentais dessas emoções — sejam porventura complicados. Isto, porém, é já outro assunto, de que mais adiante se tratará. Se não existe em António Botto essa análise emotiva das emoções, tão-pouco existe, ainda menos existe a paixão propriamente dita — aquela exaltação da emoção por meio da qual esta exclui todo outro elemento, e, concentrando-se num ponto ou fito, imprime ao espírito uma unidade emotiva. Por inteligência das superfícies entendo, como é intuitivo, aquela inteligência que se preocupa tão-somente com os aspectos exteriores das coisas — quer os seres externos, a que comummente chamamos coisas, quer aqueles seres internos, que são as nossas ideias e emoções. Se António Botto pouco se preocupa com a análise emotiva das suas emoções, tão-pouco, ou menos ainda, se preocupa com a análise intelectual delas. Deixa-as passar e fita-as bem. Se por vezes lhes desdobra os mantos, todavia nunca as interroga. «Deixa-me ver como és por fora», diz ele a cada coisa que sente. Isto ficará mais claro, ou, se se preferir, menos obscuro, se compararmos a acção da inteligência das superfícies com a dos outros tipos de inteligência, a que podemos chamar a inteligencia de aprofundamento e a inteligencia de definição. A primeira busca ir até ao fundo das coisas, à alma e essência dos seres, e pode ser intuitiva e é até por isso mesmo extra-intelectual. A segunda, atenta ao mesmo fito, não pretende consegui-lo por um processo de sondagem, mais análogo à visão que ao entendimento: procura antes, por uma análise paciente da superfície, deduzir dela o fundo, ver nela não o que ela é, mas o que simboliza ou figura. Por isso, na exposição, a inteligência de aprofundamento é normalmente gnómica ou analógica a de definição normalmente raciocinada ou discursiva. E que esta vive mais do processo do que do intuito dele. É evidente que a inteligência de definição de pouco ou nada serve a um poeta; o seu ritmo é de natureza oposta ao ritmo da emoção, em que a poesia assenta: dá-se uma interferência de ondas, e portanto uma anulação de efeitos, como em Boileau ou Pope, que são prosadores em verso. E a inteligência de aprofundamento, se deveras pode servi-lo muitas vezes estorva com o que dá e confunde com o que afirma; são duas visões simultâneas — uma do fundo, outra da superfície; só quando, o que é raro, exactamente se sobrepõem, surge, como no « Kubla Khan » de Coleridge, uma grande obra de arte, e então como que sobrenatural. Uma e outra valem mais, para o poeta, nos seus reflexos do que nas suas presenças: servem-no desde que ele se não sirva delas. Assim Poe, prodigioso raciocinado, escreveu poemas admiráveis, sem sombra de raciocínio porque sabia raciocinar: o raciocínio ausente está presente no facto de esses poemas não serem, como em substância são, simples loucura. Assim Shakespeare, prodigioso aprofundador, escreveu versos espantosos, sem sombra de aprofundamento, porque sabia aprofundar: a frase, naturalmente, vive da luz que lhe ministra uma presença que lhe é estranha. Por sentimento contraditório quero dizer aquela subtileza da emoção consigo mesma, pela qual imediatamente compreende que traz sempre em si dois elementos opostos. Toda emoção sentida é a diagonal de um paralelogramo de forças: vive de ambas e a ambas anula. Como toda a vida é, de um modo ou de outro, um sistema de atracção e repulsão, tudo quanto sentimos contém obscuramente duas forças, essas duas forças; e há certos estados de sentimento — entendendo este como a permanência, consciente ou inconsciente, da emoção — em que a diagonal se decompõe, talvez por fraqueza em sentir, nas duas forças de que se forma. Então o espírito toma consciência de cada emoção como dupla, de cada sentimento como a contradição de si mesmo. O homem sente que, ao sentir, é dois. É o odi et amo de Catulo. Foi sempre esta uma das feições mais constantes, e mais características da obra poética ou outra, de António Botto. Sempre ele se mostrou sentindo o contrário do que estava a sentir. Sempre ele disse, ao mesmo tempo o avesso do que dizia. O mesmo ritmo de todos os seus versos traz, no fluxo audível, o sussurro implícito do refluxo que se lhe vai seguir. A ironia emotiva nasce naturalmente do sentimento contraditório, desde que a paixão não intervenha, ou a inteligência não seja de aprofundar ou definir. Se a paixão intervém, a contradição do sentimento sofre-se com revolta. Se a inteligência aprofunda ou define, a contradição do sentimento repele-se com raiva. Se, como em António Botto, nem uma nem outra coisa se dá, a contradição do sentimento aceita-se com um sorriso — um sorriso triste, talvez; mas um sorriso triste é, em si mesmo, uma contradição e uma ironia. Que está, afinal, no fundo de tudo isto? Um temperamento conscientemente emotivo, que, por emotivo exclui tanto a paixão como as formas intensas da inteligência; que, por consciente, conhece as suas contradições e se alimenta da ironia delas. Em resumo, António Botto. E assim o que a análise dividira em quatro, tem a mesma lógica que reconhecer que a vida reunira em um. Em seus livros anteriores, António Botto afirmara-se mais como só um emotivo sem paixão e um contraditório de sentimentos. Neste, melhor consigo, estabelece-se como também um inteligente das superfícies e um ironista das suas emoções. Em outras palavras, revela-se, agora, o total de si mesmo. E isto, que se diz em poucas palavras, levou tantas para dizer que se ia dizer! 1935 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 217. 1ª publ. in “Diário de Lisboa”. Mar. 1935. Morto, hei-de estar a teu lado Morto, hei-de estar a teu lado Sem o sentir nem saber... Mesmo assim, isso me basta P’ra ver um bem em morrer. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 36. É um imperialismo de gramáticos? O imperialismo dos gramáticos dura mais e vai mais fundo que o dos generais. É um imperialismo de poetas? Seja. A frase não é ridícula senão para quem defende o antigo imperialismo ridículo. O imperialismo de poetas dura e domina; o dos políticos passa e esquece, se o não lembrar o poeta que os cante. Dizemos Cromwell fez , Milton diz . E nos termos longínquos em que não houver já Inglaterra (porque a Inglaterra não tem a propriedade de ser eterna), não será Cromwell lembrado senão porque Milton a ele se refere num soneto. Com o fim da Inglaterra terá fim o que se pode supor a obra de Cromwell, ou aquela em que colaborou. Mas a poesia de Milton só terá fim quando o tiver o homem sobre a terra, ou a civilização inteira, e, mesmo então, quem sabe se terá fim. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 90. Quisera Do pensamento e sentimento dessas Almas ser testemunha subjectiva. De que está cheia aquela vacuidade, E em que pensam, se não pensam nunca. Outro mistério — o de vários seres, Formas talvez de um mesmo que os transcende, Compreendendo-se (...) por serem Profundamente o mesmo. E assim acrescendo-se Assim (...)     numa espécie De egoísmo transcendental. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 132. Durmo, cheio de nada, e amanhã É, em meu coração, Qualquer coisa sem ser, pública e vã Dada a um público vão. O sono! este mistério entre dois dias Que traz ao que não dorme À terra de aqui visões nuas, vazias, Num outro mundo enorme. O sono! que cansaço me vem dar O que não mais me traz Que uma onda lenta, sempre a ressacar, Sobre o que a vida faz?! 11-12-1933 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 129. Não sei se a alma no Além vive... Não sei se a alma no Além vive... Morreste! E eu quero morrer! Se vive, ver-te-ei; se não, Só assim te posso esquecer. 20-11-1908 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 36. O instinto de conhecer, se por vezes incide sobre o que pode de facto ser matéria de ciência - porque de observação exacta, de cálculo corrigível, de experimentação renovável -, tem que incidir muitas vezes sobre o que é impossível de observar em condições científicas, de reduzir a qualquer espécie de precisão. Mas o instinto de conhecer não desiste, em seu ímpeto espiritual. Não podendo conhecer com a inteligência, conhece com o sentimento, que é a inteligência do desejo. E onde não pode observar, crê; onde não pode calcular, adivinha; onde não pode pôr à prova, profetiza. Este estado de alma é o misticismo, que é o ter um sentimento nítido de uma coisa que se não sabe o que é. Se assim é - e assim parece que é -, resulta que em toda matéria humana em que não pode haver ciência tem necessariamente que haver misticismo. E, como nesse género de matéria os assuntos sociais se contêm, toda a sociologia, e derivadamente toda política, pois que a política é a sociologia que se ignora, tem que ser essencialmente uma mística. Se o não for, é um mero alto comércio sem lucro das nações. Todo político que tenha um ideal, real ou fictício, é - triste é dizê-lo -uma espécie profana de Santa Teresa de Jesus. Tendo, pois, toda política que assentar essencialmente numa mística, com maior razão terá que fazê-lo aquela política que não vise interesses ou problemas imediatos no tempo ou limitados no espaço. Não há mister de mística quando se é regedor, de pouca quando se é vereador; mas é já precisa alguma quando se é governador civil, por muito que pese aos que o são ou têm sido. Para que a mística tenha força há mister que deriva da própria essência do assunto em que nasce, e se não agregue ou sobreponha a ele. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 94. O PRECONCEITO REVOLUCIONÁRIO 1. De como todas as revoluções são desnacionalizações. 2. Utilidade social das revoluções. 1. Definição de “revolução” e de “espírito revolucionário”. 2. Psicologia do espírito revolucionário. 3. Condições sociais, em que se dão as revoluções. 4. Inutilidade intelectual das revoluções: ( a ) o princípio de continuidade, ( b ) 0 princípio de (...) O estado mental do homem que crê na eficácia social directa das revoluções é exactamente o mesmo do do homem que crê na realidade dos milagres. A crença na eficácia das revoluções pressupõe a crença na intervenção antinatural da vontade humana no curso natural das coisas sociais. Não é mais absurdo supor que determinado taumaturgo inverte, por o uso de qualidades inanalisáveis, as leis físicas e naturais [?], do que supor que um grupo de homens nascido no mesmo meio que outro grupo, educado da mesma maneira, sofrendo as mesmas influências, e com hereditariedade social idêntica, pode, substituindo-se a esse outro grupo e por o simples facto de ter ideias diferentes, agir diferentemente na vida social. Isto é tão simples! O estado social permanece o mesmo agravado com a anarquia que resulta da substituição violenta de uma situação administrativa por outra. Os antigos detentores do poder, por imorais e corruptos que fossem, tinham, ao menos, pelo uso do poder, certa noção inevitável de como usá-lo, conheciam, pelo menos, como administrar. Os recém-vindos, iguais moralmente a eles por serem produto do mesmo meio, levam para o poder a falta de prática do poder; são fatalmente piores — intelectualmente piores. Assim, os governos revolucionários, sendo tão imorais como os governos anteriores, são intelectualmente mais incompetentes. Em toda a revolução há sempre três elementos causais: (1) a imoralidade e corrupção dos governos — e a ideia de se fazer uma revolução em vez de uma reforma quer dizer que a noção se tornou incompetente para resolver os seus problemas de governo sãmente; (2) a divisão de ideias principalmente religiosas, no país; (3) a desnacionalização. Quando, por uma prolongada decadência, um país caiu em letargo e desagregação, um movimento revolucionário pode ser salvador. Não é, porém, salvador directamente, nem como movimento revolucionário, nem como portador de determinadas ideias, ou de determinadas tendências. O que nele há de salvador é, precisamente, o que de menos salvador parece — a anarquia que estabelece, a desorganização violenta que cria. Quando uma nação caiu em letargo, em desorganização, esse próprio letargo faz com que não tenha forças para sair dele, essa própria desorganização a impossibilita de organizar uma saída dela, uma nova vida. Para que de um estado de letargo se passe a um estado de acção construtiva, é mister que o letargo seja sacudido, para que as forças deveras activas apareçam; é mister que a desorganização chegue a um estado agudo, para que os mais letárgicos se convençam de que têm que agir ou que ajudar a agir; é mister, por último, que a destruição, a anarquia, se torne patente, para que as forças latentes, que se tornaram activas, dêem a si próprias, não só um fim activo, como também um fim construtivo. A única utilidade das revoluções é serem destrutivas, e tornar patente a necessidade da construção; é serem anárquicas, e tornarem patente a necessidade da ordem; é serem sempre estrangeiras, e estimularem, por reacção a acção contra-revolucionária, sempre nacional. Não são as ideias revolucionarias de 89 que deram à França do século passado a sua relativa grandeza: essa grandeza, tal qual era, resultou da libertação de forças forçadas a serem construtivas pelo espectáculo de destruição que a Revolução lhes deu. 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 46. Quereria Sentir a vida dos animais, Mas senti-la Sem abandonar a personalidade Minha, para senti-la como tal, E conhecê-la como tal sentida. Minha curiosidade não tem fim; Há em mim muito mais de aspiração Do que a mim mesmo posso evocar; Muito desejo        (...)        e abafado De muita estranha sensação. Mas sei Que todas são apenas várias formas Da aspiração central do meu sofrer. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 133. Tenho esperança? Não tenho. Tenho vontade de a ter? Não sei. Ignoro a que venho, Quero dormir e esquecer. Se houvesse um bálsamo da alma, Que a fizesse sossegar, Cair numa qualquer calma Em que, sem sequer pensar, Pudesse ser toda a vida, Pensar todo o pensamento — Então [...] 11-12-1933 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 130. Se ontem à tua porta Se ontem à tua porta Mais triste o vento passou — Olha: levava um suspiro... Bem sabes quem to mandou... 20-11-1908 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 36. É este o dever português. Tudo mais - políticas, economias, a mesma independência da nação - nada vale senão porque conduza, e na proporção em que conduza, a este fim. O prazer é para os cães, o bem-estar material é para os escravos, o homem tem a honra e o domínio. O bem-estar do povo, a justiça social - todas estas coisas são legitimamente desejos dos nossos instintos humanitários, se somos sãos de espírito; porém os instintos humanitários, não [são] as mais altas qualidades sociais. Essa elefantíase da civilização que é a Alemanha, como o é a quase toda a América. Quando uma nação atravessa uma crise profunda, e tem uma larga percentagem de analfabetos, há uma esperança: que na educação desses analfabetos esteja, como quase sempre estará, em grande parte a solução da crise. Mas quando uma nação atravessa uma crise profunda, e é uma nação culta, toda a esperança de salvação é diminuta, porque não há material novo em ela a que recorrer. Uma nação culta livra-se com relativa facilidade das crises menores, de que uma nação que o não é com dificuldade se tira, por ter uma menor capacidade de reacção; é das grandes crises que a nação culta dificilmente se tira. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 88. 5 Diálogos 1. Definição do conceito de Tirania. 2. Formas de Tirania. 3. Reacções contra a Tirania. 4. Evolução da Tirania. 5. As conclusões filosóficas. 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 64. «Cinco Diálogos sobre a Tirania» Um dia Pensei na fama e em mim o sonho veio Da glória: ver-me (...) e conhecido, Ouvir em lábios belos o meu nome E (...) querendo conhecer-me... Mas isto, mal sonhado era, já trazia Consigo um amargor estranho e (...) Que explicar não podia e que não posso. Antes de fama ter, tinha-lhe horror! E eu desejava a fama a que temia. É que sentia já talvez a vaga Necessidade de fechar em mim Toda a força do vivo pensamento Que a palavra trai sempre. Mas era mais Aquele horror à fama que eu amava E que, querendo não podia qu'rer. Era talvez um vago conhecer Do vazio de tudo. Pois se a terra Acabará, seus (...) e (...) Com ela não acabarão? Não sei. Talvez além do acabar exista O haver o mistério (...) no Ser. Não sei; sei só que um dia, num repente, A abster-me decidi de fama e glória Para... Mas para quê? Para pensar Amarga e mudamente e, dia a dia, Sentir verter em mim o fel Da desolada desesperação. Escrever, mas o que é que escreveria? Se eu sei esta verdade; além do ser Há o mistério; se sei esta e nenhuma outra, Que verdade daria eu ao mundo? E não dar-lhe verdade grão mal era. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 133. Náusea. Vontade de nada. Existir por não morrer. Como as casas têm fachada, Tenho este modo de ser. Náusea. Vontade de nada. Sento-me à beira da estrada. Cansado já do caminho Passo pra o lugar vizinho. Mais náusea. Nada me pesa Senão a vontade presa Do que deixei de pensar Como quem fica a olhar... s.d. Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 131. The five poems which form this volume, though each is obviously independent of any other and of all, are neverthless linked by the circumstance that they are or represent stages in historical psychology. They express five concepts of the world, considered through the sexual emotion, and are thus weltanschauungen of the instinctive. The first poem, Antinous, represents the Greek concept of the sexual world. Like all primitive concepts, it is elaborate; like all innocent concepts, it is substantially perverse. That it may show up as primitive, the emotion depicted is purposely a non-primitive one; that it may blossom as innocent, it is developed into a metaphysics, but, as is right in innocence, the metaphysics is added to, not put into, the substance of the main theme. The second poem, Epithalamium, represents the Roman concept of the sexual world. It is brutal, like all colonial emotion; bestial, like all natural things, when they are secondary, as they were with men like the Romans, who were animals guarding a state. In this poem there is no metaphysics. In this poem there could be no perversity. The setting, as in Antinous, has no converse with the theme. A normal Christian marriage is the setting; against that dull black scenario the animalism of the Roman instinct is made to stand out like a naked monster born of the world. The third poem, Prayer to a Woman's Body, represents the Christian concept of the sexual world. It has nothing to do with the Christian concept of the world itself, as, indeed, the normal Christian has nothing to do with it. The confusion of the sensual and of the spiritual, which the Christian mystics apply to saints of the other sex, (...) s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 38. Entreguei-te o coração, Entreguei-te o coração, E que tratos tu lhe deste! É talvez por estar estragado Que ainda não mo devolveste... s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 37. Cinco Diálogos As páginas inúteis, que seguem, são a expressão, tão artística quanto o assunto torna possível, do que as ideias agitadas pela guerra recente sugerem a um espírito perscrutador. Elas são o resultado de uma especulação estéril sobre o conflito entre a Brutalidade, representada pelos Alemães, e a Estupidez, que os Aliados encarnavam. O papel da Inteligência é não aceitar o Instinto. Que a Brutalidade ou a Estupidez vencesse, era indiferente para a Inteligência. Que a Estupidez haja vencido já lhe não pode ser indiferente. Estas páginas são um protesto contra o vencedor numa luta, onde, vencesse quem vencesse, era pena que não vencesse o outro. [...] 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 65. «Cinco Diálogos sobre a Tirania» Outrora quis a fama — e não a quis, Que a fama, a popularidade, o ser Conhecido, falado — quando não visto — Confrange-me dum terror que não compreendo. Violação do meu ser se me aparenta Um desvergonhamento, não sei como. Hoje um desgosto imenso e (...) D'altos fins e de empresas elevadas Boceja-me no espírito turvado (No) coração vago de não sentir. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 134. O vento sopra lá fora. Faz-me mais sozinho, e agora Porque não choro, ele chora. É um som abstracto e fundo. Vem do fim vago do mundo. Seu sentido é ser profundo. Diz-me que nada há em tudo. Que a virtude não é escudo E que o melhor é ser mudo. 27-12-1933 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 132. A Inocência Perdida Tinha um campo alegre, Mas no ardor da febre Devastei-o, e então Semeei-lhe amores E nasceram flores De desilusão, Tinha um barco lindo que pela água ia, Como nuvem branda pelo brando céu Carreguei-o d'oiro que o labor trazia E soçobrou logo que vogar queria E eu fiquei nas ondas sem o barco meu. A jarra preciosa está partida E nada valem os fragmentos seus; A imagem do templo está caída; Partiu-se. Era de barro. Os seus crentes, perdeu-os. Junta os fragmentos da jarra divina E a jarra não fazem; Volta ao altar a imagem Já não é o que foi. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 44. A caixa que não tem tampa A caixa que não tem tampa Fica sempre destapada. Dá-me um sorriso dos teus Porque não quero mais nada. 11-7-1934 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 37. Cinco Diálogos FRANCISCO — O conceito de tirania é de definição tão difícil como qualquer outro conceito. Mas creio poder defini-lo assim: sou vítima de tirania quando sou forçado a fazer qualquer coisa, a deixar de fazer qualquer coisa, ou a deixar fazer qualquer coisa, em virtude de um princípio exterior, que não aceito, e a submissão ao qual me não é proveitosa. ANTÓNIO — Essa definição tem o ar de abranger coisas de mais. FRANC.º — Vamos ver. Que a tirania consiste, essencialmente, no exercício de força sobre o tiranizado, não pode haver dúvida; nem a pode haver que o resultado do exercício dessa força é ou de o obrigar a fazer urna coisa, ou de o inibir de fazer urna coisa, ou de inibir de intervir para que uma coisa se não faça. É certo ou não? ANT. º— É certo. FRANC.º — Bem. Essa compulsão, de que o tiranizado é vítima, deve provir de um princípio exterior. Se, com uma aplicação forte da vontade, da minha própria vontade, me obrigo a um acto que me repugna, corno, por exemplo, trabalhar, ou me inibo de praticar um acto que me agradaria, como por exemplo, sair de dia, não sou tiranizado; porque de mim próprio parte a força que me obriga. Por isso é necessário, na tirania, que o princípio actuante seja exterior à vítima dela. ANT.º — Bem. FRANC.º — Sobre ser exterior, esse princípio deve não ser, ou não ter sido, aceite pelo tiranizado. Se, sendo católico, ou por herança que não rejeitei, ou por adesão que dei, me pesam as observâncias e os ditames da religião católica, não posso, em todo o caso, dar-me por vítima de uma tirania nisso, pois que, embora essa compulsão derive de um princípio exterior a mim, a esse princípio aceitei-o. Ele torna-se, por assim dizer, interior a mim, torna-se meu. ANT.º—Justo. FRANC.º — Finalmente, sobre ser exterior e não aceite por mim, o princípio da tirania deve ser exercido sem que vise a meu proveito pela compulsão a que me obriga. Este ponto da definição, que é o último, é muito importante. A compulsão legal, em vista da qual sou inibido de matar o próximo, supondo que tendo a fazê-lo, que nenhuma razão moral me inibe de o fazer, e que tal morte me é proveitosa, redunda em todo o caso em urna compulsão proveitosa para mim, pois a mesma lei que proíbe que eu mate, proíbe também que eu seja morto. Refiro-me, é claro, às leis dos países civilizados. ANT.º— Sim, o raciocínio tem a vantagem de não morar em Portugal. FRANC.º — Temos, pois, que a tirania é o exercício de força; de força para obrigar alguém a fazer, a não fazer ou a deixar fazer qualquer coisa; que é exercida em virtude de um princípio exterior ao indivíduo tiranizado; que esse princípio não é por ele aceite; e que da aplicação desse princípio nenhum beneficio, mediato ou imediato, para ele resulta. Defini? ANT.º — Não sei. FRANC.º — Mas que te parece sem que o saibas? ANT.º— Que não esclareceste suficientemente o valor da palavra “princípio” nessa definição. Tu dizes: «força exercida em virtude de um princípio...» Que deve entender-se por esse “princípio”? FRANC.º — Ah, eu explico... Com “princípio” quero simplesmente significar “origem de força”. Qualquer força é exercida em virtude de existir, antes de mais nada, e existe em virtude de ter uma razão para isso, boa ou má que seja. Ora eu, reflectindo que toda a razão de toda a existência é susceptível de receber uma base filosófica ou sociológica — falsa ou verdadeira que seja — escolhi a palavra “princípio” em vez da palavra “origem”, para indicar que, nas considerações que terei ocasião de te fazer, visarei, ao discutir as várias forças que se podem empregar como tiranias, a origem, ou “princípio” dessas forças... Compreendes? ANT.º — Lamentavelmente. O erro capital de todas as definições perfeitas é a perfeição. Uma coisa perfeita deixa sempre suspeitas de não-existência. Espero que nas considerações com que me ameaças, não esquecerás discutir a tirania da perfeição. Não me refiro à que atormenta os artistas inferiores, porque essa é a tirania da imperfeição, mas à que atormenta os espíritos cândidos pelos assombrosos lapsos da matéria. Esta noite, por exemplo, é absolutamente desigual: vê, por isso, que perfeita. Nada lhe falta, nem o seu esta... FRANC.º — Bem: Deixemos isso. Escuta agora bem. Determinado o conteúdo perfeito do termo “tirania”, quero agora determinar qual é a essência do princípio de tirania, isto é, o que é que há de comum a todas as forças que actuam, ou são capazes de actuar, no sentido de serem tirânicas. ANT.º — Dize. FRANC.º — A essência da tirania é a força que nos compele, e a força que nos compele, ou nos compele absolutamente ou relativa — isto é, condicionalmente. Quero dizer ou nos obriga absolutamente a fazer ou deixar de fazer urna coisa, sem que possamos tomar outro partido; ou nos obriga a fazer ou deixar de fazer uma coisa, castigando-nos ou sujeitando-nos a prejuízos e a males vários se tomamos outro partido. O assassino, que, encontrando-me, me desfeche em pleno coração um tiro certo, obriga-me a morrer; o indivíduo que, apontando-me urna pistola, me obrigue a assinar um documento que eu não quero assinar, não me obriga absolutamente a assiná-lo, mas obriga-me condicionalrnente, pois é, natural que eu prefira assiná-lo a receber o “castigo” da morte. É bom ver claramente estes detalhes simples e intuitivos: vendo-os, e notando-os, estaremos aptos a não perder pé no assunto. «Ora tirania absoluta há só uma: a da Natureza. O indivíduo que me obriga a morrer por me dar um tiro no coração, não me obriga a morrer pelo facto de me dar um tiro, senão em virtude de, por disposição da Natureza, ser mortal um tiro no coração. Sendo o tiro efectivamente no coração, eu não tenho escolha entre morrer e não morrer: mas essa ausência de escolha não parte do indivíduo, mas da Natureza, que assim dispôs as coisas. Na tirania humana, de quem dificilmente se poderá escolher mais duro exemplo, que o outro que apontei, há sempre o elemento condicional. Tenho de escolher entre assinar o documento e morrer. Tenho a liberdade da escolha. Mas (e aqui é que o elemento tirânico se revela), qualquer das coisas que eu escolha é má para mim. Nessa escolha forçada entre um mal e o outro mal consiste a tirania. »(A única tirania absoluta é a do Destino. A Natureza, a não ser para um pessimista, não é tirânica; e, se é tirânica para o pessimista, a tirania verdadeira está no Destino, que deu a esse homem o temperamento de pessimista. A Natureza, repito, não é tirânica. Suponha-se, por exemplo um indivíduo com tendências para bêbado, para amar excessivamente o álcool. Se cede ao prazer de beber, pagará com doenças e mal-estares. Mas o mal que lhe advém foi precedido de um prazer. Se se abstém de beber, não sofrerá, por essa causa, os tais males; de modo que, sacrificando um prazer, ganhou um bem. Não há aqui tirania, porque há compensação. Só o Destino, porque obriga absolutamente, pode ser tido por tirânico; porque a esse indivíduo, que usei para exemplo, ou o Destino o marcou para bêbado ou para não bêbado, e, em qualquer dos casos, o que ele escolhe já está escolhido.) »Se a essência da tirania é a força, a primeira condição para se ser tirano é possuir força. Ora só há três formas de força: a força física, o número e a astúcia (...) ou habilidade. Assim, numa luta de rua, por exemplo, onde se suponha que os contendores são de igual valentia e denodo, um é vencido em virtude de o outro ou ser mais forte, ou vir em auxílio dele outro ou outros, ou ser mais hábil ou astuto na maneira de se bater. Mas uma coisa é evidente desde já: é que a astúcia ou habilidade não é força, mas apenas uma maneira de suprir a fraqueza ou de aumentar a força. E também é evidente que, para o caso de que trato — que é a tirania social — nada importa a força física directa. Por isso resta, como única força capaz de tiranizar, a força do número. Isto é, a essência da tirania é ser exercida por uma maioria. Em outras palavras, a tirania é democrática. A. —Alto! Isso é bom de mais. 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 66. «Cinco Diálogos sobre a Tirania» No meio das grandezas e das glórias Das alegrias, luzes (...) Do inconsciente universo natural, Abre-se ao pensamento de repente Negro abismo profundo e (...) E uma vacuidade transcendente Absorve negramente o mundo inteiro, Numa sufocação arrepiada De terror íntimo, de terror vago Tudo se esvai da mente e só lhe fica Um vazio tão negro, tão profundo Um poço de compreensão tão cercado Que a alma de horror quer não viver não só Pelo horror, mas também por esse horror Transcender o universo e aparecer Em lugar dele ao fundo pensamento Subitamente. Não é a dor de já não poder crer Que m'oprime, nem a dor de não saber Mas apenas completamente o horror De ter visto o mistério frente a frente De tê-lo visto e compreendido em toda A sua infinidade de mistério. É isto que me alheia, que me traz Sempre mostrado em mim como um terror... E maior terror há-o? s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 134. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.89). Sopra o vento, sopra o vento, Sopra alto o vento lá fora; Mas também meu pensamento Tem um vento que o devora. Há uma íntima intenção Que tumultua em meu ser E faz do meu coração O que um vento quer varrer; Não sei se há ramos deitados Abaixo no temporal, Se pés do chão levantados Num sopro onde tudo é igual. Dos ramos que ali caíram Sei só que há mágoas e dores Destinadas a não ser Mais que um desfolhar de flores. 28-12-1933 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 133. (Então vindas d’Além de Deus, como um arrepio, mesmo do Ser sem falar; insinuam-se no vácuo estas palavras:) O INOMINÁVEL: No meu abismo medonho Se despenha mudamente A catarata de sonho Do mundo eterno e presente. Formas e ideias eu bebo E o mistério e horror do mundo Silentemente recebo No meu abismo profundo. O Ser-em-si nem é o nome Do meu ser inominável; No meu mundo Maëlstrom, O grande mundo inestável, Como um suspiro se apaga, E um silêncio mais que infindo Acolhe o morrer da vaga Que em mim se vai esvaindo. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 44. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.84). A tradição — tirania que parte do povo (mais mulheres (...)). A convenção — tirania que parte das classes médias. A moda — tirania que parte das aristocracias. A convenção é a menos tirânica de todas três. Maneiras de a Inteligência dominar: (1) A Inteligência é, acima de tudo, organizadora; (2) é, depois, corruptora; (3) é, finalmente, domadora (acção do génio literário, artístico, e científico). Aplicando estes processos ao povo, a Inteligência consegue, não domá-lo, mas inibir [?] a sua tirania. Organizar um povo é destruir-lhe a espontaneidade. Estar em maioria não basta para provar que se tem razão, nem que se representa a Inteligência. Podem defender-se teorias tão tirânicas, ou mais do que as do momento. 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 67. «Cinco Diálogos sobre a Tirania» A essência de mistério o seu horror Está não só em nada compreender Mas em não saber porque nada se compreende. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 135. Vai lá longe, na floresta, Um som de sons a passar, Como de gnomos em festa Que não consegue durar... É um som vago e distinto. Parece que entre o arvoredo Quando seu rumor é extinto Nasce outro som em segredo. Ilusão ou circunstância? Nada? Quanto atesta, e o que há Num som, é só distância Ou o que nunca haverá. 1-2-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 134. Sou mais que o SER que transcende Criatura e Criador. Se esse SER ninguém entende, Ele a mim e ao meu horror Menos. Vida, pensamento, Tudo o que nem se adivinha... É tudo como um momento Numa eternidade minha. Mais que mundo e eternidade Num, siIente cataclismo, Mais que ideia, ser, verdade, Acaba no meu abismo. E essas águas que esvair Se vêm ao meu profundo — Ninguém as ouve a cair, Nem eu me concebo um fundo. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 45. Cinco Diálogos sobre a Tirania Sobre a tirania da tradição e da hereditariedade (esta natural) há a tirania [...] do espírito da época. 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 68. Enquanto nesta vida É possível, com subterfúgios mil, Esquecer-se (...) não pensar, Fechar-se em imaginações (...) Mas na morte — oh horror que mais eu temo! — O grande Facto iniludível jaz. Este perpétuo, dorido hesitar Do pensamento temo e (...) Não me horroriza tanto, como o ter De resolver na Morte esse problema. O Mistério é um Facto: eis o horror, Eis todo o horror expresso. É um Facto no qual vida, universo, Seres, (...) Cidades com seus comércios, lidas É um livro de sonho aberto. Proporções gigantescas e interiores Tomam do sonho a ilusão e a aparência. Não é a dúvida que me tortura; É a certeza do (...) Facto, Para o qual me é impossível ou cerrar Ou pensar em cerrar os olhos d'alma. E a existência desse Facto inerente A tudo que aparece e que (...) Uma irrealidade transparente, Horrorosa, (...) perturbadora, Onde mão invisível vai escrevendo Desconhecido lema suspeitado De horror inconcebido. A consciência clara deste Facto, Mais que imanente, alheia-me de tudo E de todos, raivoso e (...) Ao vê-los como vão, rindo e chorando Felizes! — outros Não haverá maneira d'esquivar-nos D'encontrar o que houver? É haver esse Facto e encontrá-lo Que faz o horror da minha vida inteira (Olhei de frente a frente a Verdade Para poder sequer fingir sorrir.) Pudesse eu a sonhar passar a vida Mas ao Facto (...) da Morte É impossível fugir. Queira, não queira, Acorrentado à inevitabilidade O homem sobe inconsciente ou (...) Para ela. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 135. Tudo transcende tudo; Intimamente longe de si mesmo E infinitamente, o universo A si mesmo, existindo, se ilude. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 49. A Tirania As três formas de tirania: (a) A Força. (b) O Número. (c) O Hábito (o Passado). ( d ) (...) A tirania revolucionária, que é o vivermos sujeitos não aos hábitos de ontem, mas aos hábitos de depois de amanhã; a tradição do passado é má, mas a tradição do futuro ainda é pior. Ex.: A tirania é a limitação da personalidade de alguém em virtude de um princípio que ele não aceita e contra o qual não se revolta (e que não tentou substituir). Se vivemos em monarquia, há tirania se os poderes constituídos prendem os indivíduos que são republicanos só por o serem; mas não há tirania, mas simples defesa, se prendem os que se revoltaram contra a monarquia. Prender um homem que se manifestar assim por escrito é tirania. 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 69. «Cinco Diálogos sobre a Tirania» Ah, o horror de morrer! E encontrar o mistério frente a frente Sem poder evitá-lo, sem poder... s.d. “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). - 130. Não é medo que faça estremecer Nem olhar trás de si, nem recear Inda que vagamente incoerentemente... Não tão humano horror: Este é o horror Do mistério, do incompreendido. Ah mas o estremecer do pensamento É horroroso além de todo o horror. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 49. Cinco Diálogos FRANCISCO — O fenómeno aristocrático tem sido, sempre, mal compreendido, e, assim, as defesas, que há, do princípio aristocrático têm sido todas apoiadas em bases falsas. Têm escolhido razões de conveniência social, e razões de (...) para defender a existência de uma aristocracia. A verdade, porém, é que a legitimidade da aristocracia, ou das aristocracias, tem outro, e profundo, ponto de apoio. — A base das aristocracias é apenas a Sorte. ANT.º —A sorte? Como, a sorte? FRANCISCO — Eu explico. Há, evidentemente, três espécies de aristocracias — a que provém da hereditariedade, e consiste em vantagens de posição social, de poder, ou de dinheiro que o indivíduo tem simplesmente por ter nascido em tal família; a que provém directamente da natureza e consiste em um indivíduo nascer com mais inteligência, ou melhor senso moral, ou mais intensa força de vontade do que outro; e a que provém directamente da sorte, que provém de um indivíduo ser levado por caminhos na vida em que vence, ao passo que outros caem, a que faz com que a sorte grande saia a este e não àquele, a que, numa frente de batalha, estes sejam mortos, aqueles feridos, e escapem de todo os outros. Ora, no fundo, qual é a base da aristocracia, em todos estes casos, senão a sorte? Em que entra a minha vontade (supondo-lhe uma existência actuante e livre) para o que deriva da hereditariedade natural, que me dá o meu temperamento e o meu carácter, para o que deriva da minha hereditariedade social, que me dá a posição social, financeira, doméstica, de onde parti? Em que contribui a minha vontade, mesmo supondo-a livre, para os desastres que na vida me acontecem, para as doenças que tenho, para tanta e tanta coisa? Tudo é a sorte. A sorte é a base da aristocracia. ANT.º — Não vejo que esse argumento, ou essa hipótese, possa deixar de servir a um democrata. Ele pode aceitá-la e continuar sendo democrata. Pode dizer, até: Bem, se tudo é sorte, deixemos tudo à sorte. Nivelemos os pontos de partida — isto é, eliminemos a hereditariedade social, como tu lhe chamaste — para que, partindo todos do mesmo ponto, fiquem entregues apenas à linha do seu destino. FRANCISCO — Entendamo-nos. Em primeiro lugar, o teu hipotético democrata — supondo-o capaz de conceber um argumento desses — ainda pode ir mais longe... Pode dizer que, igualadas as condições de vida, cessando as diferenças excessivas, de algum modo isso se deve reflectir na própria hereditariedade natural, restringindo um pouco a variação. Mas todo esse argumento está errado. A democracia é uma tese tão falsa, que mesmo os argumentos, que os democratas não são capazes de ter, são fracos. O ponto é o seguinte. Não podendo a sorte ser eliminada do decurso da vida do indivíduo, tentemos eliminá-la do princípio da vida. A hereditariedade natural não está na nossa mão, mesmo supondo que possa ser atingida por uma transformação na hereditariedade social. O único ponto onde se concebe que possamos tocar é na sorte no princípio da vida. Como lhe poderemos tocar? O que é que se quer fazer? Fazer com que a sorte de cada indivíduo seja melhorada no princípio dessa vida — que ele parta de um ponto o menos desvantajoso possível. Nivelando todos — isto é, supondo que há maneira de se conseguir um mesmo ponto de partida para toda a gente — sucederá que, como não há igualdade natural nem do puro destino, este nivelamento será em alguns casos um desnivelamento. Há indivíduos cuja utilidade social deriva de terem um ponto de partida favorável no seu destino; se esses tivessem o mesmo ponto de partida que os outros, teriam uma utilidade muito menor. E, mesmo, considerando a questão do ponto de vista do puro destino, temos que a hereditariedade natural e a social derivam do destino vital do pai e da mãe, de modo que o nivelamento projectado só serve para uma geração: a geração seguinte já estará desnivelada. — De modo que não podemos corrigir, ou tentar corrigir a desnivelação do destino pela igualdade. O que podemos é conceder a alguns indivíduos um ponto de partida melhor do que a outros: isto é, a maneira de condicionar e corrigir a desigualdade do Destino que é a aristocracia. A aristocracia, assim, surge-nos no seu verdadeiro aspecto — é uma libertação. A “sorte”, mesmo, é uma libertação. O privilégio é a única forma de liberdade possível no mundo; porque, sendo a liberdade absoluta impossível, a única liberdade possível é a isenção. O povo, modernamente, tomou sobre si o ser defensor do dogma cristão do livre-arbítrio; o povo medieval, mais são, compreendia a liberdade de outra maneira. E, assim, aquilo a que a gente medieva chamava liberdade era a isenção de qualquer coisa, um privilégio qualquer — o contrário do que modernamente se chama “liberdade”. Escolhendo libertar parte dos indivíduos, não podemos entregar essa escolha a nós mesmos, pois, como desconhecemos o destino futuro de cada um, ignoramos a quem deve ser dado um ponto de partida melhor. Entregamos isso, pois, à natureza, apoiando na hereditariedade natural a hereditariedade social. Isto é, fazendo com que as vantagens de ponto de partida de cada indivíduo derivem da situação paterna. Este critério determinista é aquele em que se apoia o aristocratismo. O espírito científico tem o seu primeiro progresso quando se aplica aos acontecimentos do mundo exterior, propriamente quase do mundo inorgânico (ou orgânico inferior) e elimina a noção de acaso, substituindo-a por a noção de lei natural. Atinge o segundo estádio do seu desenvolvimento quando torna a noção de lei extensiva aos fenómenos superorgânicos e elimina a noção de livre-arbítrio. Mas só chega à maioridade quando acaba por fim com a noção de acaso por completo, reconhecendo que nada na vida se furta à lei, que, assim como temos uma hereditariedade certa, temos um destino fatal — que desde a nascença está talhado para [:] em que ano, em que mês, em que dia e a que hora, em que casa, de que doença havemos de morrer. O determinismo é apenas a timidez do fatalismo. Todas as civilizações científicas — que são duas, a grega e a árabe — foram profundamente fatalistas. Não concordas com isto? ANTÓNIO — Concordo. E um esplêndido prefácio para um Tratado de astrologia. FRANCISCO — A Grécia e os Árabes foram os maiores astrólogos (porque dos Egípcios e dos Caldeus sabemos apenas que o foram). A ciência culmina na Astrologia. O auge da ciência é o reconhecimento de que nada existe fora da lei: que tudo vive no Destino. A ciência chegará à sua perfeição quando, conhecendo o determinismo como verdade, reconhecer a Astrologia corno ciência como só não reconhecem, aliás, os que nunca a estudaram detidamente, nem sabem que, se nela há erros, não são mais que os erros de diagnóstico na medicina, que ninguém nega que seja uma ciência, ou que tenha uma base científica. 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 70. «Cinco Diálogos sobre a Tirania» Os mistérios profundos e horrorosos; Haver isto que há, este ser E haver um ser, maior horror ainda De poucos, ou dum só, compreendido. E haver eu ser eu. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 137. Cinco Diálogos A. — Bismarkizas. O que é isso senão afirmar que a força vence o direito? F. — Não, não é isso. Dizer que a força vence o direito quer dizer que a força é mais forte que o direito; e isso quer apenas dizer que a força é forte, o que já a palavra diz. O que deveras vence o direito não é a força, é a organização da força, a inteligência da força. O direito o que é? Um equilíbrio de forças constituído em regras de continuação de equilíbrio. Se a força vence o direito, há uma ruptura de equilíbrio. Mas se há uma ruptura de equilíbrio é que não havia equilíbrio. 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 71. «Cinco Diálogos sobre a Tirania» Já estão em mim exaustas, Deixando-me transido de horror, Todas as formas de pensar (...) O enigma do universo. Já cheguei A conceber como requinte extremo Da exausta inteligência que esse Deus, Que ensinam as igrejas com aqueles Seus atributos       [...] [...]        — existir realmente Realmente existir e que houvesse Mas fosse sonho, e não sonho nosso... Sim cheguei a aceitar como verdade O que nos dão por ela, e a admitir Uma realidade não real Mas sim sonhada como esse Deus cristão. Mas isto, cuja ideia formidável Cheia de horríveis possibilidades Negra e profunda me  (...) A mente, abandonei, não sem tremer, No caos do meu ser, onde jazem Juntamente com ela espectros negros De soluções passageiras, apavoradoras, Momentâneas, momentâneos Sistemas horrorosos, pavorosos, Repletos de infinito. Formidáveis Não só por isto mas também por serem Falhados pensamentos e sistemas Que por falharem só mais negro fazem O poder horroroso que os transcende A todos, infinitamente a todos. Oh horror! Oh mistério! Oh existência! Para que lado não me virarei Onde abrirei os olhos — olhos d'alma — Que o mistério não me atormente, e eu Não avance tremendo para ele? E... Para que falar? O que dizer? Tudo é horror e o horror é tudo! s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 50. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.78). 5 Diálogos sobre a Tirania A luta por ser uma minoria é essência de toda a aspiração das maiorias com ambições. Mas uma maioria não pode ser minoria senão não tendo razão, isto é, erigindo em princípio forte, maioritário por si [?],a razão a que falta. A contemplação não é o refúgio dos inferiores; é o refúgio inferior dos superiores. Onde quer que caia uma organização social, seja ela qual for, a Inteligência foi vencida. F. — Demonstrar é a forma mais incómoda de crer. Todo o raciocínio começa numa crença no raciocínio, e acaba na crença nas conclusões do raciocínio. Raciocinar (Demonstrar) é crer devagar. Raciocinar é apenas levar tempo a chegar (até) ao próprio temperamento. Quem passear todo o dia uns cinco metros pelo seu quarto acaba por ter percorrido léguas (em vaivém). Mas o mal é que nunca damos um passo para fora do próprio corpo, nem andamos nunca para fora do andar (Andar). A que tirania quer fugir quem tem o próprio temperamento por tirania imediata. Quem não tem de seu um movimento, quem não tem uma ideia fora do cérebro paterno, que liberdade quer? Contra que tirania se revolta? Meu filho: tenho visto muita coisa neste mundo mas não vi ainda a liberdade. 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 72. «Cinco Diálogos sobre a Tirania» [Retrato de Frederick Wyatt] Of dreamers no one was a greater dreamer than he. He was eternally incompetent to take stock of reality. His attitude before things was always a false and uneasy one, always oscillating from one extreme point of view or manner of action to the other extreme. This concerned just as much and as deeply his fundamental views - if we can speak of the fundamental views of one who had none - as his most trifling actions. It is as possible to consider him an idealist (I use the word in its metaphysical sense) as a materialist: he would be the first to wonder which he was. His political opinions were in a perpetual fluctuation between an excessive anarchism and the arrogance of a through aristocrat. In his life - his unreal life as he would have called it sometimes - he was sure to be either of a childish and morbid shyness or of an impetuous and clumsy boldness. The worst was that he was not even consistent in the line of action he chose: sometimes he would shrink into a sudden and incongruous shyness in the midest of a recklessly insane act, at others he would suddenly break out from shyness in the strangest and insanest manner. My great and sincere friendship for him cannot hinder me from being still rather amused on recalling the way several Portuguese poor people - the washerwoman, for instance - used, with a curious and evidently spontaneous community of expression, to refer to him when speaking to me: O seu amigo, coitadinho! (Your friend, poor gentleman!). They would very possibly have been perplexed to explain what the coitadinho (so untranslatably Portuguese!) meant there. But they all felt, in their characteristic warm-heartedness, that there was some inexplicable thing to be pitied about him. Now that I remember this, I cannot omit a still cuter expression that a neighbouring barber once used and which was reported to him and to me and stung him greatly: It is a pity he is not mad; it would have been better like that. It is perhaps the best casual wordportrait of him, as I easily perceived, because it hit his character off so justly and yet showed how terrible evident even to a […] casual and (...) observers was suffering he thought he hid in himself from all eyes. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 195. Concordar não posso Em que alguém mais do que eu tenha sentido O mistério completo do universo Completo e profundo. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 51. To whom can Caeiro be compared? To very few poets. Not, be it at once said, to that Cesário Verde to whom he refers as if to a literary ancestor, though a kind of fore-degenerate ancestor. Cesário Verde had on Caeiro the kind of influence which may be called merely provocative of inspiration, without handing on any kind of inspiration. An example familiar to the reader is Chateaubriand's very real influence on Hugo, a man totally different, personally, literarily and socially. (...) The very few poets to whom Caeiro may be compared, either because be merely reminds, or might remind, us of them, or because he may be conceived of as having been influenced by them, whether we think it seriously or not, are Whitman, Francis Jammes and Teixeira de Pascoaes. He resembles Whitman most. He resembles Francis Jammes on some secondary points. He reminds us strongly of Pascoaes because his attitude towards Nature, being essentially a metaphysical, a naturalistic and what may be called an absorbed attitude, as is that of Pascoaes, yet Caeiro is all that inverting what Pascoaes is in the same way. Caeiro e Pascoaes. Tanto Caeiro como Pascoaes encaram a Natureza de um modo directamente metafísico e místico , ambos encaram a Natureza como o que há de importante, excluindo, ou quase excluindo, o Homem e a Civilização e ambos, finalmente, integram tudo o que cantam nesse seu sentimento naturalista. Esta base abstracta têm de comum: mas no resto são, não diferentes, mas absolutamente opostos . Talvez Caeiro proceda de Pascoaes; mas procede por oposição, por reacção. Pascoaes virado do avesso, sem o tirar do lugar onde está, dá isto — Aberto Caeiro . Caeiro, like Whitman, leaves us perplexed. We are thrown off our critical attitude by so extraordinary a phenomenon. We have never seen anything like it. Even after Whitman, Caeiro is strange and terribly, appallingly new. Even in our age, when we believe nothing can astonish us or shout novelty at us, Caeiro does astonish and does breathe absolute novelty To be able to do this in an age like ours is the definite and final proof of his genius. He is so novel that it is sometimes hard to conceive clearly all his novelty. He is too new, and his excessive novelty troubles our vision of him, as all excessive things trouble vision, though it is quite a novelty for novelty itself to be the thing to be excessive and vision-troubling. But that is the remarkable thing. Even novelty and the way of being new are novelties in Caeiro. He is different from all poets in another way than all great poets are different from other great poets. He has his individuality in another way of having it than all poets preceding him. Whitman is quite inferior in this respect. To explain Whitman, even on a basis admitting him all conceivable originality, we need but think of him as an intense liver [lover?] of life and his poems come out of that like flowers from a shrub. But the same method does not hold about Caeiro. Even if we think of him as a man who lives outside civilization (an impossible hypothesis, of course), as a man of an exceptionally clear vision of things, that does not logically produce in our minds a result resembling The Keeper of Sheep . The very tenderness for things as mere things which characterises the type of man we have supposed (posited) does not characterise Caeiro. He sometimes speaks tenderly of things, but he asks our pardon for doing so, explaining that he only speaks so in consideration of our «stupidity of senses», to make us feel «the absolutely real existence» of things. Left to himself, he has no tenderness for things, he has hardly any tenderness even for his sensations. Here we touch his great originality, his almost inconceivable objectiveness (objectivity). He sees things with the eyes only, not with the mind. He does not let any thoughts arise when he looks at a flower. Far from seeing sermons in stones, he never even lets himself conceive a stone as beginning a sermon. The only sermon a stone contains for him is that it exists. The only thing a stone tells him is that it has nothing at all to tell him. A state of mind may be conceived resembling this. But it cannot be conceived in a poet . This way of looking at a stone may be described as the totally unpoetic way of looking at it. The stupendous fact about Caeiro is that out of this sentiment, or rather, absence of sentiment, he makes poetry. He feels positively what hitherto could not be conceived except as a negative sentiment. Put it to yourselves: what do you think of a stone when you look at it without thinking about it? This comes to this: what do you think of a stone when you don't think about it at all? The question is quite absurd, of course. The strange point about it is that all Caeiro's poetry is based upon that sentiment that you find it impossible to represent to yourself as able to exist. Perhaps I have not been unsuccessful in pointing out the extraordinary nature of Caeiro's inspiration, the phenomenal novelty of his poetry, the astonishing unprecedentedness of his genius, of his whole attitude. Alberto Caeiro is reported to have regretted the name of «sensationism» which a disciple of his — a rather queer disciple, it is true — Mr. Álvaro de Campos, gave to his attitude, and to the attitude he created. If Caeiro protested against the word as possibly seeming to indicate a «school», like Futurism, for instance, he was right, and for two reasons. For the very suggestion of schools and literary movements sounds badly when applied to so uncivilized and natural a kind of poetry. And besides, though he has at least two «disciples», the fact is that he has had on them an influence equal to that which some poet — Cesário Verde, perhaps — had on him: neither resembles him at all, though, indeed, far more clearly than Cesário Verde's influence in him, his influence may be seen all over their work. But the fact is — these considerations once put aside — that no name could describe his attitude better. His poetry is «sensationist». Its basis is the substitution of sensation for thought, not only as a basis of inspiration — which is comprehensible — but as a means of expression, if we may so speak. And, be it added, those two disciples of his, different as they are from him and from each other — are also indeed sensationists. For Dr. Ricardo Reis, with his neo-classicism, his actual and real belief in the existence of the pagan deities, is a pure sensationist, though a different kind of sensationist. His attitude towards nature is as aggressive to thought as Caeiro's; he reads no meanings into things. He sees them only, and if he seems to see them differently from Caeiro it is because, though seeing them as unintellectually and unpoetically as Caeiro, he sees them through a definite religious concept of the universe — paganism, pure paganism, and this necessarily alters his very direct way of feeling. But he is a pagan because paganism is the sensationist religion. Of course, a pure and integral sensationist like Caeiro has, logically enough, no religion at all, religion not being among the immediate data of pure and direct sensation. But Ricardo Reis has put the logic of his attitude as purely sensationist very clearly. According to him, we not only should bow down to the pure objectivity of things (hence his sensationism proper, and his neo-classicism, for the classic poets were those who commented least, at least directly, upon things), but bow down to the equal objectivity, reality, naturalness of the necessities of our nature, of which the religious sentiment is one. Caeiro is the pure and absolute sensationist who bows down to sensations quâ exterior and admits no more. Ricardo Reis is less absolute; he bows down also to the primitive elements of our own nature, our primitive feelings being as real and natural to him as flowers and trees. He is therefore religious. And, seeing that he is a sensationist, he is a pagan in his religion; which is due, not only to the nature of sensation once conceived of as admitting a religion of some kind, but also to the influence of those classical readings to which his sensationism had inclined him. Álvaro de Campos — curiously enough — is on the opposite point, entirely opposed to Ricardo Reis. Yet he is not less than the latter a disciple of Caeiro and a sensationist proper. He has accepted from Caeiro not the essential and objective, but the deducible and subjective part of his attitude. Sensation is all, Caeiro holds, and thought is a disease. By sensation Caeiro means the sensation of things as they are, without adding to it any elements from personaI thought, convention, sentiment or any other soul-place. For Campos, sensation is indeed all but not necessarily sensation of things as they are, but of things as they are felt. So that he takes sensation subjectively and applies all his efforts, once so thinking, not to develop in himself the sensation of things as they are, but all sorts of sensations of things, even of the same thing. To feel is all: it is logical to conclude that the best is to feel all sorts of things in all sorts of ways, or, as Álvaro de Campos says himself, «to feel everything in every way.» So he applies himself to feelling the town as much as he feel the country, the normal as he feels the abnormal, the bad as he feels the good, the morbid as the healthy. He never questions, the feels. He is the undisciplined child of sensation. Caeiro has one discipline: things must be felt as they are. Ricardo Reis has another kind of discipline: things must be felt, not only as they are, but also so as to fall in with a certain ideal of classic measure and rule. In Álvaro de Campos things must simply be felt. But the common origin of these three widely different aspects of the same theory is patent and manifest. Caeiro has no ethics except simplicity. Ricardo Reis has a pagan ethics, half epicurean and half stoic, but a very definite ethics, which gives his poetry an elevation that Caeiro himself, though, mastership apart, the greater genius, cannot attain. Álvaro de Campos has no shadow of an ethics; he is non-moral, if not positively immoral, for, of course, according to his theory it is natural that he should love the stronger better than the weak sensations, and the strong sensations are, at least all selfish and occasionally the sensations of cruelty and lust. Thus Álvaro de Campos resembles Whitman most of the three. But he has nothing of Whitman's camaraderie: he is always apart from the crowd, and when feeling with them it is very clearly and very confessedly to please himself and give himself brutal sensations. The idea that a child of eight is demoralised ( Ode 11, ad finem ) [ Ode Triunfal ] is positively pleasant to him, for the idea of that satisfies two very strong sensations — cruelty and lust. The most Caeiro says that may be called immoral is that he cares nothing for what men suffer, and that the existence of sick people is interesting because it is a fact. Ricardo Reis has nothing of this. He lives in himself, with his pagan faith and his sad epicureanism, but one of his attitudes is precisely not to hurt anyone. He cares absolutely nothing for others, not even enough to be interested in their suffering or in their existence. He is moral because he is self-sufficient. It may be said, comparing these three poets with the three orders of religious spirits, and comparing sensationism for the moment (perhaps improperly) with a religion, that Ricardo Reis is the normal religious spirit of that faith; Caeiro the pure mystic; Álvaro de Campos the ritualist in excess. For Caeiro loses sight of Nature in nature loses sight of sensation in sensation, loses sight of things in things. And Campos loses sight of sensation in sensations. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 335. A NOVA POESIA PORTUGUESA SOCIOLOGICAMENTE CONSIDERADA I Ao movimento literário representativo e peculiar da nascente geração portuguesa tem sido feito pela opinião pública o favor de o não compreender. E esse movimento que, sobretudo na poesia, com crescente nitidez acusa a sua individualidade representativa, não tem sido compreendido, porque uma parte do público, a que tem mais de trinta anos, está inadaptalizável, por já velha, a esse movimento, e consta, perante ele, de incompreendedores natos; porque outra parte, ou por circunstâncias de bacharelosa espécie educativa, ou por descuidada na manutenção espiritual do sentimento de raça, ou ainda por sentimentos de desviado e estéril entusiasmo, gerados por absorção na intensa e mesquinha vida política nossa, está colocada num estado de pseudo-alma descritível como sendo de incompreendedores de ocasião; e porque a outra, restante, aquela de quem são os novos poetas e literatos e os que os acompanham no obscuro sentimento racial que os guia, não tomou ainda consciência de si como o que realmente é, porquanto o movimento poético actual é ainda embrião quanto a tendências, nebulosa quanto a ideias que de si ou de outras coisas tenha. Urge que — pondo de parte misticismos de pensamentos e de expressão, úteis apenas para despertar pelo ridículo, que a sua obscuridade para os profanos causa, o interesse alegre do inimigo social — com raciocínios e cingentes análises se penetre na compreensão do actual movimento poético português, se pergunte à alma nacional, nele espelhada, o que pretende e a que tende, e se ponha em termos de compreensibilidade lógica o valor e a significação, perante a sociologia, desse movimento literário e artístico. II Em primeiro lugar, é evidente que aquilo a que se chama uma corrente literária deve de algum modo ser representativo do estado social da época e do país em que aparece. Porque uma corrente literária não é senão o tom especial que de comum têm os escritores de determinado período, e que representa, postas de parte as inevitáveis peculiaridades individuais, um conceito geral do mundo e da vida, e um modo de exprimir esse conceito, que, por ser comum a esses escritores, deve forçosamente ter raiz no que de comum eles têm, e isso é a época e o país em que vivem ou em que se integram. E se a literatura é fatalmente a expressão do estado social de um período político, a fortiori o deve ser, adentro da literatura, o género literário que mais de perto cinge e mais transparentemente cobre o sentimento e a ideia expressos — e esse género literário é a poesia. Não é isto, porém, que de momento importa. Saber pela 1iteratura as ideias de uma época só pode ter interesse para a posteridade, que não tem outro meio de a tornar presente ao seu raciocínio. O que nos ocupa é saber se a literatura nos poderá ser um indicador sociológico, se nos pode ser ponteiro para indicar a que horas da civilização estamos, ou, para falar com clareza, para nos informar do estado de vitalidade e exuberância de vida em que se encontra uma nação ou época, para que, pela literatura simplesmente, possamos prever ou concluir o que espera o país em que essa literatura é actual. E é precisamente isto que a priori se não pode imaginar. Reportemo-nos, pois, à evidência analisada dos factos. Desbravemos, porém, o terreno, aclarando alguns termos essenciais e simplificando, para não sermos longos, as condições da análise projectada. Por vitalidade de uma nação não se pode entender nem a sua força militar, nem a sua prosperidade comercial, coisas secundárias e por assim dizer físicas nas nações; tem de se entender a sua exuberância de alma , isto é, a sua capacidade de criar, não já simples ciência, o que é restrito e mecânico, mas novos moldes , novas ideias gerais , para o movimento civilizacional a que pertence. É por isso que ninguém compara a grandeza ruinosa de Roma à super-grandeza da Grécia. A Grécia criou uma civilização, que Roma simplesmente espalhou, distribuiu. Temos ruínas romanas e ideias gregas. Roma é, salvo o que sobremorre nas fórmulas invitais dos códigos, uma memória de uma glória; a Grécia sobrevive-se nos nossos ideais e nos nossos sentimentos. Servir-nos-ão de material para a análise duas nações apenas -a Inglaterra e a França; e isto porque, tendo essas uma unidade nacional, uma continuidade de vida e uma influência civilizacional acentuada, o problema se limita sirnplesmente à análise que desejamos fazer, sem impor, como imporia o estudo de qualquer nação ou mais complexa, ou mais afastada no tempo, uma prévia análise diferencial. A escassez do material, porém, importa apenas quando é superficial a análise; porque, se pour expliquer un brin de paille il faut démonter tout le système de l'univers , ao raciocinador ideal bastaria, visto que o sistema do universo se acha logicamente contido no brin de paille , analisá-lo bem, a ele brin de paille , para deduzir o sistema do universo. Tomaremos a Inglaterra e a França para material de análise. E tomaremos períodos nítidos, pois que o espaço não permite a co-análise de períodos literária ou politicamente embrionários. III A história literária da Inglaterra mostra três períodos distintos, ainda que subdivisíveis em subperíodos — o isabeliano, que vai de 1580, aproximadamente, até a um ponto pouco mais ou menos coincidente com o fim da República; o tratável de « neo-clássico» que, pouco depois começando, ocupa quase todo o século XVIII, começando porém a morrer desde 1780, aproximadamente; e o moderno, que vem desde então até aos nossos dias. Destes três períodos o primeiro impõe-se como, por muito, o maior, não só por ser mais alto o tom poético geral do período, mas também porque as suas culminâncias poéticas — Spencer, Shakespeare e Milton — põem na sombra quantos nomes ilustres os outros dois períodos apresentem. — O segundo período é inferior aos outros dois: o tom poético é aquele, intolerável, que a França do ancien régime derramou pela Europa de que tinha a hegemonia social. — O terceiro período contém figuras que, sem serem supremas, são como Coleridge, Shelley ou Browning, grandes indiscutivelmente. Vejamos agora a que períodos políticos estas épocas literárias correspondem. A época isabeliana corresponde ao período da vida inglesa cuja realização foi feita pela República e na pessoa, preeminentemente, de Cromwell. Foi um período criador ; nele deu a Inglaterra ao mundo moderno um dos grandes princípios civilizacionais que lhe são peculiares — o de governo popular , princípio que depois a Revolução Francesa, parcarnente criadora, simplesmente transformou no de democracia republicana . — O segundo período da vida política inglesa, o que vem desde a queda da República, culmina na revolução, de mera substituição dinástica, de 1688, e vem morrer por 1780 nas almas , e de facto com a reforma eleitoral de 1832, é absolutamente nulo e estéril para a Inglaterra; nele, ela nada criou, nem mesmo a sua própria grandeza, visto que a hegemonia social na Europa era então da França. Neste segundo período a Inglaterra não fez senão ir realizando, apática e frouxamente, o princípio de governo popular que havia criado. — Também no terceiro período a Inglaterra nada criou de civilizacional; criou a sua própria grandeza e nada mais — visto que a hegemonia europeia tem sido mais sua do que de outra nação no século XIX, conforme o vincaram para a história Nelson, em Trafalgar, e Wellington, em Waterloo. Virando-nos agora para a França, e desprezando, como já dissemos, o embrionário e informe, vemos igualmente três períodos, incoincidentes, porém, no tempo, com os três períodos ingleses. O primeiro período acompanha o ancien régime , culmina no tempo de Luís XIV e dura até ao fim do século xvm, emprestando o tom à literatura europeia. O segundo período, o romântico, começa depois da queda do ancien régime e vai terminando à medida que o republicanismo se vai realizando nas almas, de 1848 a 1870, aproximada mas incorrectamente. De então para cá, em seguida ao período (de 1871 a 1881 pouco mais ou menos) de lenta consolidação republicana, vem o terceiro período, aquele a que caracterizam o realismo, o simbolismo e outros anti-romantismos. Vejamos agora como se nos mostram os correspondentes períodos políticos. O primeiro, ancien régime , foi um período em que a França nada criou para a civilização , visto que criou apenas a sua própria grandeza e a correspondente hegemonia social europeia, cujo reflexo longínquo e fraquejante é a influência de que ainda goza. O segundo período é aquele que, precipitando-se na prematura Revolução Francesa, se vai realizando só depois, nas almas , de 1848 a 1870, pouco mais ou menos, e é neste período que a França cria para a civilização a ideia de democracia republicana. Não a cria, é claro, tão criadoramente como a Inglaterra de Cromwell, que a origina no mundo moderno; torna-a porém mais intensa e nítida, desenvolve-a — o que é também, ainda que secundariamente, uma criação. Finalmente, no terceiro período, o de 1870 para cá, a França nada cria para a civilização, nem mesmo a sua própria grandeza cria, visto que decai em valor europeu: vai vivendo, como a Inglaterra no segundo período, e realizando, apática e despiciendamente, o princípio de democracia republicana que em anterior período criara. Posto isto, analisemos. Em primeiro lugar, é evidente a analogia, quanto a valor civilizacional, e, portanto, a vitalidade nacional, entre o primeiro período francês e o terceiro inglês, entre o segundo período francês e o primeiro inglês, e entre o terceiro período francês e o segundo da Inglaterra. Tão perfeita é a analogia social e civilizacional como a analogia literária. A literatura inglesa atinge o seu auge no primeiro, a francesa no segundo período. São relativamente ricas, a inglesa no terceiro período, a francesa no primeiro. E a inglesa no seu período segundo e a francesa no terceiro seu estão no mesmo nível de abatimento literário perante os outros períodos. — Vemos, pois, que o valor dos criadores literários corresponde ao valor criador das épocas a que correspondem; de modo que a literatura não só traduz as ideias da sua época mas — e é isto que importa que fixemos — o valor da literatura, perante a história literária, corresponde ao valor da época, perante a história da civilização. Avançando na análise, porém, revela-se-nos que a posição cronológica das literaturas se dá, relativamente aos correspondentes movimentos sociais, de modo diverso nos três períodos. Assim, no primeiro período, o criador, da Inglaterra, o movimento literário que culmina em Shakespeare (entre 1590 e 1610) precede o movimento político, que só começa ao decair ele. E, em França, o movimento romântico vai decaindo à medida que se vai realizando nos espíritos o correspondente, e socialmente exuberante, movimento político. — No segundo período inglês e terceiro francês, análogos como já vimos, a corrente literária vem depois da corrente política que lhe corresponde; como em França se vê pelo aparecimento dos movimentos simbolista, realista e outros, claramente, nos anos que sucedem àqueles em que se consolidou a república; e em Inglaterra pelo facto de Pope, em quem a corrente literária culmina (Dryden, talvez maior, é um poeta de transição, pertencente em parte ainda ao período anterior), ser da geração seguinte à dos consolidadores da nova fórmula, característica da época, a de monarquia constitucional. — No terceiro período inglês e primeiro francês temos a coincidência no tempo entre a corrente e culminâncias literárias e o movimento e culminâncias políticos. É sob Luís XIV que a vida literária é de mais valor, e o movimento reformista inglês (de 1770 a 1832), que envolve em si as causas da hegemonia inglesa moderna e inclui as guerras em que ela se fixou, coincide com o romantismo britânico. Examinemos agora quais os característicos interiores destas correntes literárias. As correntes literárias do segundo período inglês e do terceiro francês — aqueles períodos em que essas nações nada criaram, nem para os outros nem para si — oferecem como mais importante facto espiritual a desnacionalização da literatura ; visto que a literatura inglesa do século XVIII é vazada em moldes franceses e a literatura francesa de 1880 para cá é tudo menos francesa de espírito. Assim, para dar o único exemplo que o espaço pode admitir, o simbolismo, essencialmente confuso, lírico e religioso é absolutamente contrário ao espírito lúcido, retórico e céptico do povo francês. — As correntes literárias do terceiro período inglês e primeiro francês — as dos períodos em que os países criaram a sua própria grandeza e hegemonia social, mas, de civilizacional, nada-mostram um equilíbrio entre o espírito nacional e a influencia estrangeira : assim, a influência alemã é patente mas não dominante no romantismo inglês e a influência da antiguidade tão importante como a do espírito nacional na literatura dos séculos XVII e XVIII em França. — Finalmente, nos períodos criadores — o primeiro inglês e segundo francês — temos na literatura o espírito nacional patente e dominante , absorvendo e absolutamente eliminando qualquer influência estrangeira que haja. Assim, nada mais francês do que Vítor Hugo com a sua retórica, a sua pseudo-profundeza, a sua lucidez epigramática, em pleno seio do lirismo, onde não está bem. E Spenser, Shakespeare e Milton — mas Spenser e Shakespeare mais do que Milton — são ingleses, inconfundivelmente. IV Ainda que rápida, já há nesta análise elementos para a apreciação ponderada da moderna poesia portuguesa. O primeiro facto que se nota é que a actual corrente literária portuguesa é absolutamente nacional , e não só nacional com a inevitabilidade bruta de um canto popular, mas nacional com ideias especiais, sentimentos especiais, modos de expressão especiais e distintos de um movimento literário completamente português: e, de resto, se fosse menos, não seria um movimento literário , mas uma espécie de traje psíquico nacional, relegável da categoria de movimento de arte para a, para este caso sociológico nula, de um mero costume característico. O segundo facto a notar é que o movimento poético português contém individualidades de vincado valor: não são Miltons nem Shakespeares, mas são gente que se extrema, além de pelo tom , que é da corrente, pelo valor mesmo, dentre os contemporâneos europeus, com excepção de um ou dois italianos, e esses não integrados em movimento ou corrente alguma que, distintiva ou nacional, tenha sombra de direito a ser comparada com a hodierna corrente poética lusitana. O terceiro e último facto que se impõe é que este movimento poético dá-se coincidentemente com um período de pobre e deprimida vida social, de mesquinha política, de dificuldades e obstáculos de toda a espécie à mais quotidiana paz individual e social, e à mais rudimentar confiança ou segurança num, ou de um, futuro. Vistos estes elementos sociológicos do problema, salta aos olhos a inevitável conclusão. É ela a mais extraordinária, a mais consoladora, a mais estonteante que se pode ousar esperar. É ela de ordem a coincidir absolutamente com aquelas intuições proféticas do poeta Teixeira de Pascoaes sobre a futura civilização lusitana , sobre o futuro glorioso que espera a Pátria Portuguesa. Tudo isso, que a fé e a intuição dos místicos deu a Teixeira de Pascoaes, vai o nosso raciocínio matematicamente confirmar. É que os característicos que acabamos de descobrir no nosso actual movimento poético indicam, absolutamente, a sua analogia com as literaturas inglesa do primeiro, e francesa do segundo período, e, portanto, impõem que se conclua daí a fatal analogia com as épocas de que aquelas literaturas são representativas. A analogia é absoluta. Temos, primeiro, a nota principal da completa nacionalidade e novidade do movimento. Temos, depois, o caso de se tratar de uma corrente literária contendo poetas de indiscutível valor. E note-se — para o caso de se argumentar que nenhum Shakespeare nem Vítor Hugo apareceu ainda na corrente literária portuguesa — que esta corrente vai ainda no princípio do seu princípio, gradualmente, porém, tornando-se mais firme, mais nítida, mais complexa. E isto leva a crer que deve estar para muito breve o inevitável aparecimento do poeta ou poetas supremos, desta corrente, e da nossa terra, porque fatalmente o Grande Poeta, que este movimento gerará, deslocará para segundo plano a figura, até agora primacial, de Camões. Quem sabe se não estará para um futuro muito próximo a ruidosa confirmação deste deduzidíssimo asserto? Pode objectar-se, além de muita coisa desdenhável num artigo que tem de não ser longo, que o actual momento político não parece de ordem a gerar génios poéticos supremos, de reles e mesquinho que é. Mas é precisamente por isso que mais concluível se nos afigura o próximo aparecer de um supra-Camões na nossa terra. É precisamente este detalhe que marca a completa analogia da actual corrente literária portuguesa com aquelas, francesa e inglesa, onde o nosso raciocínio descobriu o acompanhamento literário das grandes épocas criadoras. Porque a corrente literária, como vimos, precede sempre a corrente social nas épocas sublimes de uma nação. Que admira que não vejamos sinal de renascença na vida política, se a analogia nos manda que o vejamos apenas uma, duas ou três gerações depois do auge da corrente literária? Ousemos concluir isto, onde o raciocínio excede o sonho: que a actual corrente literária portuguesa é completa e absolutamennte o princípio de uma grande corrente literária, das que precedem as grandes épocas criadoras das grandes nações de quem a civilização é filha. Que o mal e o pouco do presente nos não deprimam nem iludam: são eles que confirmam o nosso raciocínio. Tenhamos a coragem de ir para aquela louca alegria que vem das bandas para onde o raciocínio nos leva! Prepara-se em Portugal uma renascença extraordinária, um ressurgimento assombroso. O ponto de luz até onde essa renascença nos deve levar, não se pode dizer neste breve estudo; desacompanhada de um raciocínio confirmativo, essa previsão pareceria um lúcido sonho de louco. Tenhamos fé. Tornemos essa crença, afinal, lógica, num futuro mais glorioso do que a imaginação o ousa conceber, a nossa alma e o nosso corpo, o quotidiano e o eterno de nós. Dia e noite, em pensamento e acção, em sonho e vida, esteja connosco, para que nenhuma das nossas almas falte à sua missão de hoje, de criar o supra-Portugal de amanhã. 1912 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 15. 1ª publ. in “A Águia”, 2ª série, nº 4. Porto: Abr. 1912. A EDUCAÇÃO DO ESTÓICO O ÚNICO MANUSCRITO DO BARÃO DE TEIVE Manuscrito encontrado numa gaveta. Para não deixar o livro em cima da mesa do meu quarto, sujeito assim ao exame de mãos suspeitamente limpas dos criados do hotel, abri, com certo esforço, a gaveta, e meti-o lá, empurrando-o para trás. Esbarrou em qualquer coisa, pois a própria gaveta não era tão pouco funda. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 196. N. do A.: «a impossibilidade de fazer arte superior» Às vezes passam Em mim relâmpagos do pensamento Intuitivo e aprofundador Que angustiadamente me revelam Momentos dum mistério que apavora; Duvidosos, deslembrados, confrangem-me De terror que entontece o pensamento E vagamente passa, e o meu ser volve À escuridão e ao menor horror. No sangue frio que nas veias minhas Gira, no ar que sorvo, luz que vejo, Circula, entra, nada-me uma dor; E eu talvez à ternura outrora afeito (Se o pensamento me não dominasse) Sinto — como não sei — a alma mirrada E pálida no ser. Não é apenas, (...), o pensamento Que assim me traz; é o pensamento fundo, A consciência funda e absoluta De todos os problemas minuciosos Do mundo, transsentidos no meu ser. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 51. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p. 98). REINCIDINDO I No Dia, de 24 de Abril, o autor de uma Carta de Coimbra , intitulada A literatura e o futuro , faz sobre o nosso anterior artigo considerações adversamente críticas. Em si, essa Carta que poderia ter sido mais oferenda a qualquer deus que o fosse da lógica, não tem excepcional importância similirrefutatória. Mas como, sobre dar expressão pelo menos pública, e até certo ponto lúcida, a dúvidas e pasmos que o nosso artigo, especialmente pelo modo-de-enunciar as conclusões, causou, a Carta nos dá ensejo de, sem que num ápice hajam de ser alteradas essas conclusões, clarificar uns pontos e intensificar outros, respondemos-lhe, e, ao mesmo tempo, continuando o nosso sumário estudo da grande corrente literária, que entre nós começa a abrir caminho, esperamos poder tornar, pela lógica, mais próximo da possibilidade de compreender, que concebivelmente entre bacharéis haja, aquilo com que terminava o nosso estudo — com «ressurgimentos assombrosos», «supra-Camões» e todas as outras alegorias. Importa, porém, declarar, antes de tudo, que nem para nós, autor dele, oferece o nosso anterior escrito coisa que se pareça com perfeição em matéria racionativa. Em sete páginas não se pode clara e completamente pôr uma argumentação analítica que, para ser rigidamente exaustiva, sem pressas que a carência de tempo, ou dogmatismos e axiomatismos que a escassez de espaço impõe, tem de se deixar estender, em plena liberdade, por uma quase centena de páginas. Notamos isto, ainda que mal pareça, para que ocasionais como-que-falhas dialécticas — esses dogmatismos e pressas citados — não nos sejam registados em desprimor de sinceridade ou certeza, ou de possibilidade, que em nós haja, de irrefutabilizar, desenvolvido que possa ser o raciocínio, as conclusões últimas da nossa análise construtiva. II Qualquer corrente literária tira os característicos que o raciocinador lhe pode encontrar de uma tripla relacionação sociológica. Essa tripla relação revela-se à nossa análise como sendo: 1. °, com o movimento social da nação em que aparece; 2. °, com as outras correntes literárias, nacionais ou estrangeiras, passadas ou contemporâneas; 3. °, com a alma do povo a que pertence. Esgotando, por uma análise minuciosa, os característicos de uma corrente literária em face destes três elementos sociológicos, aqui logicamente normativos, tê-la-emos caracterizado nítida — e diferencialmente. A análise esboçada no nosso anterior artigo, e feita sobre os períodos inglês e francês de máxima grandeza literária e social, levou-nos a atribuir ao movimento literário, que corresponde a uma época criadora, três característicos — o preceder o movimento social criador, o ter novidade e o ter nacionalidade. Isto é, como se vai ver, incompleto, ainda que não erróneo. Vamos agora arrancar às épocas criadoras, aos seus períodos literários, o seu segredo sociológico, em tudo que a sua tripla relacionação sociológica, citada, possa envolver. Paralelamente, iremos apontando as coincidências dos característicos, que essas épocas nos forem revelando, com os característicos, que chemin faisant incontestabilizaremos, da nossa actual corrente literária. Preaclaremos, porém, a questão, resolvendo em seus elementos historicamente — isto é, cronologicamente — constitutivos, a corrente literária característica das épocas de máxima grandeza nacional. Colheremos assim, de começo, uma impressão exterior desse movimento literário. Toda a corrente literária desta espécie suprema é subdivisível em três subperíodos — um, precursor , em fins do período literário antecedente; outro, aquele que constitui essencialmente a corrente; e, último, aquele em que se dissolve a alma desse período em elementos aurorealmente característicos do período literário subsequente. — Assim, no período em questão, da Inglaterra temos o subperíodo precursor com ...Dan Chaucer, whose sweet breath Preluded those melodious bursis, that fill The spacious times of great Elizabeth With sounds that echo still; a figura culminantemente típica de Chaucer, e neste o por onde ele se mostra precursor é mais o aparecer de figuras de certa grandeza do que o surgir de figuras pré-indicadoras do espírito da corrente. O sinal da vindoura grandeza nacional (literária, primeiro) está apenas no valor da precursora figura literária. Chaucer é inegavelmente inglês; mas não é completamente e tipicamente inglês, reconhecível imediatamente como inglês, como depois, na corrente, propriamente, o serão Spenser, Shakespeare e mesmo Milton. De resto, se essa figura precursora precontivesse elementos espiritualmente distintivos do período em si, o período teria já ipso facto , começado com ela. — Em França, o subperíodo precursor trai-se maximamente na figura de Rousseau-poeta, expressão esta que não se explica por quaisquer versos que Rousseau (trata-se, é claro, de Jean-Jacques) escrevesse, mas pelo elemento essencialmente poético que a prosa de Rousseau contém, e que é — como compulsada, a mais mal-apreciadora história da literatura francesa revelará-o que há nele de, por envolver o princípio do sentimento da natureza, alvorescentemente indicador do vindouro romantismo francês. E se Chaucer está a mais distância do princípio do verdadeiro período inglês, do que Rousseau do francês, repare-se em quão mais lenta é a evolução social pré-isabeliana da Inglaterra do que a evolução pré-revolucionária da França. O período — o verdadeiro período — subdivide-se, por sua parte, em três estádios, classificáveis de sua juventude, virilidade e velhice. O primeiro estádio é, em Inglaterra, o que vai de Wyatt e Surrey até Spenser e onde aparece já o tom , o espírito da época, incompletamente caracterizado com relação ao que se vai tornar no estádio subsequente, mas amplamente típico e grande no grande poeta Spenser; em França, o de André Chénier e de Chateaubriand-poeta (tomada esta expressão no já indicado sentido), onde, com igual nitidez, se percebe a nacionalizada rotura com o período anterior, num tom poético inadivinhável ainda em Rousseau, em quem parece apenas preexistir com uma tendenciada artificialidade. — O segundo estádio é aquele em que o espírito da época se intensifica, se alarga a toda a amplitude de que a sua alma é capaz, se torna mais ele , e, por isso, gera os máximos poetas. É, em Inglaterra, o estádio-Shakespeare. É, em França, o de Lamartine, Hugo, Musset. — Finalmente, no terceiro estádio, o espírito da época como que se torna mais rígido, mais reflectido, por mais cansado: a intensidade desce para meditatividade. É, em Inglaterra, o período de Milton e dos líricos jacobitas. Em França, é o estádio de Leconte de Lisle, de Sully-Prudhomme. — Por último, há uma espécie de sobrevivência vaga do espírito da época, mas já sob a forma essencial e espiritual da época subsequente. O que a época moribunda empresta a essa subsequência próxima é um resto de vida, manifestado por uma intensidade e relativa grandeza nos poetas em que alvorece a época seguinte, que, por ter sido a outra a máxima, da nação, forçosamente lhe há-de ser inferior. É o caso de Dryden e dos liristas carolinos que, ainda que se veja que são já o princípio de um outro período, traem ainda, numa certa grandeza e intensidade, a glória de que são sucessores. É o caso de Verlaine, o mais notável dos iniciadores da sua época poética, dando ainda uma intensidade, que lhe vem do contacto que teve com o período anterior, à sua desnacionalizada obra lírica. — E se em França as épocas mais se sobrepõem, é fácil ver que a extraordinária rapidez do movimento social moderno é a causa imixtora dos fenómenos. Vejamos, agora, se, sob este ponto de vista exterior, a actual corrente literária portuguesa alguma analogia oferece com as outras correntes que estudámos. Note-se, primeiro, quando a nossa corrente principia. O seu tom especial e distintivo, quando começa a aparecer? É fácil constatá-lo. É com o Só de António Nobre, com aquela parte da obra de Eugénio de Castro que toma aspectos quinhentistas, e com Os Simples de Guerra Junqueiro. Começa, portanto, pouco mais ou menos coincidentemente com o começo da última década do século XIX. Fixado o início do período, procuremos o precursor. Continua a não haver dificuldade: o precursor é Antero de Quental. É exactamente análogo a Chaucer e a Rousseau-poeta em, a par de não ter ainda nacionalidade (compare-se o seu tom com o de António Nobre, inferior como poeta, mas superior como português ), ter já plena originalidade, isto é, ser já nacional por não ser inspirado em elemento algum poeticamente estrangeiro; originalidade que nem Junqueiro, na primeira fase, que é a coincidente com Antero, nem outro qualquer — inacionalizado ainda aquele por huguesco, os outros por huguísmos, parnasianismos ou simbolismos — se pode considerar como tendo. — Igualmente marcado está o primeiro estádio da corrente literária propriamente dita. Vimos em que obras começa: é fácil ver que vai desde elas até à «Oração à Luz», de Junqueiro, e à «Vida Etérea» de Teixeira de Pascoaes, onde começa a aparecer já o segundo estádio, onde se vê a corrente, ao continuar-se, tomar um aspecto outro absolutamente. O modo de exprimir intensifica-se, complica-se de espiritualidade, o conteúdo sentimental e intelectual alarga-se até aos confins da consciência e da intuição. A nova fase de António Correia de Oliveira, o aparecimento de novos poetas, escrevendo já no novo estilo, marcam nitidamente a existência do segundo estádio. Como, por enquanto, a nossa corrente literária não tem mais idade do que esta, a analogia não pode aspirar a abranger mais. No que abrange, porém, a analogia é perfeita. Exteriormente, o nosso actual movimento literário, até onde chega, assemelha-se às máximas correntes literárias da França e da Inglaterra. Apliquemo-nos agora a esmiuçar se igual analogia, interior, justifica uma total aproximação sociológica. III Retomemos a tripla relacionação, já notada, em que cada época literária deve estar para com o movimento social, as correntes literárias, e a alma nacional. Do estudo dessa relacionação constará o espírito da corrente. Um a um examinemos os três elementos da questão. Comecemos pelo primeiro. Em que relação está o movimento literário, correspondente às grandes épocas criadoras, com o movimento social que há nessas, ou caracteriza essas épocas? Em três relações especiais se nos deve mostrar essa relação — com respeito aos característicos sociais — 1.°, do período a que o período literário sucede ; 2. °, do período com que coincide ; 3. °, do período que precede . Vejamos a que espécie de período social sucedem as grandes épocas literárias inglesa e francesa. Esse período é, em Inglaterra, o período pré-Tudor: em França, é o fim do reinado de Luís XV, e todo o de Luís XVI. Que têm, de análogo, estes dois períodos sociais? São ambos períodos de apagada e estéril vida política, de despotismo fácil, de agitação nula e como que servil, se agitação chega a haver-períodos onde se parece ter ficado numa estagnação social, paz ou guerra que haja. Do grande período subsequente só há pré-indicação na literatura, porque é neste período que aparecem os precursores do magno período literário que se vai seguir. Vivem neste período Chaucer em Inglaterra, Rousseau em França. — Ora a actual corrente literária portuguesa sucede à parte pré-revolucionária do nosso período constitucional, porquanto, começando com a última década do século XIX, a qual corrente literária coincide no seu início com o movimento de 31 de Janeiro. Politicamente estéril, infecundo-e servilmente agitado, nulo de grandezas e de utilidades, o nosso período constitucional é socialmente análogo àqueles da França e Inglaterra que citámos. Basta, para lhe apontar a nulidade política, indicar que foi um período constitucional que nem constitucional foi. O constitucionalismo nunca esteve implantado entre nós. Se houve no mundo período reles e mesquinho, foi reles e mesquinho esse. Até aqui está, portanto, a nossa corrente literária em coincidência com as outras, nesta especial relacionação social. Continua a haver coincidência no que diz respeito ao vislumbrar apenas literário do período que se segue. Foi no período constitucional pré-revolucionário que apareceu Antero de Quental, em que já vimos o precursor da nossa corrente literária. Passe-se agora a considerar o período político com que o período literário coincide . O período literário inglês começa no reinado de Henrique VIII, de quem Wyatt e Surrey são contemporâneos, e acaba em coincidência aproximada com a revolução, de substituição dinástica, de 1688. O período francês coincide com o período social que se estende desde a grande revolução até 1870, pouco mais ou menos. Que tem de distintivo o período social inglês que se nos revela coincidente com a magna corrente literária inglesa? Que tem de analogamente distintivo o período francês correspondente? A agitação revolucionária ou transformadora é o que ambos têm de distintivo. Do período francês 1789-1870 é inútil falar neste respeito. Do período inglês note-se que começa com Henrique VIII, sob quem a Inglaterra rompeu com Roma e a religião católica (primeiro facto indicador de uma transformação que se nota na história da Inglaterra) e atravessa todo o período maximamente transformador que vai daí até Cromwell. — Paralelamente, a corrente literária portuguesa rompe coincidentemente com o movimento de 31 de Janeiro, primeiro sinal de transformação política, e vai acompanhando toda a agitação transformadora que é de hoje em Portugal e cujo segundo passo, vitoriosamente transformador este, foi o que pôs ponto, em 8 de Outubro de 1910, ao período revolucionário (1891-1910) do constitucionalismo português. Note-se bem: o que importa é que o período de 1890 até ao, e através do, presente é um período transformativo; não vem por enquanto para o caso o valor ou durabilidade que se queira atribuir ou não atribuir a essa transformação. Esse ponto pertence à parte final do artigo, é para quando hajam de ser tiradas as conclusões gerais. Depende, evidentemente, de se provar ou não a analogia absoluta entre o actual período social português e os magnos períodos da história da França e da Inglaterra. Se essa analogia se não provar, haverá azo para discussões e argumentos. Mas se se provar — veremos que se provará — a mais arguta especiosação monarquista nada valerá contra a valorização-na hipótese, sociologicamente irrefutabilizada — do movimento republicano português. — Repare-se, porém e ainda, em uma outra semelhança que aproxima de todo o nosso período social e aqueles a que o estamos comparando: é que, a par de serem períodos de transformação política, esses períodos, no estádio coincidente com aquele em que estamos, traem uma assombrosa desmoralização na vida nacional, desmoralização que herdam de períodos anteriores, mas que neles se agrava de uma anarquização e tumultização da vida política que mesmo a quem de longe os estuda perturbam e entontecem. Comparem-se o período da Revolução Francesa e o período isabeliano com os períodos políticos respectivamente anteriores. — Levada a análise até esta relativa minúcia, a analogia torna-se flagrante para além de quanto se poderia esperar. O terceiro ponto a analisar — o que diz respeito ao período político que as grandes épocas literárias precedem — não oferece, é claro, interesse analógico, dado que não passámos ainda do princípio do segundo estádio do período literário. Mas é bom fixar os característicos desse período, para, caso a nossa época ofereça analogia em todos os pontos analisáveis, se poder concluir que o futuro se encarregará, inevitavelmente, de neste ponto também a mostrar análoga. Já no anterior artigo estudámos este ponto. Vimos que, depois do auge, ou segundo estádio, da corrente literária, vem, coincidindo com o terceiro estádio, a época vincadamente e terminantemente criadora. Passada ela, e já em coincidência com o princípio do período literário seguinte, vem a fixação do sistema político criado — o constitucionalismo em Inglaterra, a república em França, cada qual o sistema em acordo com o carácter do povo a que pertence. A república inglesa, e, em França, os vários constitucionalismos e republicanismos precursores, representam épocas de transição, maximamente criadoras por maximamente transformadoras e porque introduziram o elemento novo (o de governo popular em Inglaterra, o de democracia em França) que, equilibrado por fim com os elementos tradicionais, fixaram o tipo de governo novo e nacional — em Inglaterra a monarquia liberal, em França a república conservadora. Esta fixação final coincide, como já apontámos, com o fim do terceiro estádio do grande período literário e princípio do período literário seguinte. IV Analisemos agora, para o mesmo fim perscrutador de coincidências, quais os caracteres especiais apresentados pelas correntes literárias, nacionais ou estrangeiras. Analisados, os períodos literários inglês e francês que vêm acompanhando o nosso estudo revelam, sob o aspecto exclusivamente literário ora em vista, três elementos distintivos — a novidade (ou originalidade ), a elevação , e a grandeza . Por elevação entendemos o tom literário geral, por grandeza o conter grandes figuras individuais, grandes poetas. Todos os três elementos são indispensáveis para a caracterização inconfundível do período. Se originalidade bastasse, faria candidatura a magno período literário um que podia ser original numa espécie poética secundária, como um novo epigramatismo, um novo género de poesia artificial: está no caso a poesia dos trovadores provençais. Por isso, sobre novidade, há nestes períodos elevação. Mas elevação só pode ser verdadeiramente e completamente elevação quando — ao contrário do que acontece com o simbolismo francês, que não caracteriza um grande período criador — é universalizada, intensificada por poetas à altura dessa elevação. A não ser assim, queda-se, como a citada corrente francesa, sempre próxima da mera esquisitice e extravagância, do puro delírio às vezes, constantemente imperfeita e deselevada da altura a que, em um ou outro verso, em raríssimas poesias, intermitentemente atinge. De modo que já um mero raciocínio a priori nos dá como característico indissoluvelmente triplo das correntes literárias supremas a originalidade, a elevação do tom , e a grandeza nos seus representantes individuais. — É inútil apontar quão novos, sob todos os pontos de vista, são, cada qual no seu tempo, o isabelianismo e o romantismo francês: desde o modo de pensar ante os homens e as coisas até ao modo de exprimir, tudo é original. De igual inutilidade é referir que o tom desses períodos literários é elevado, e que há neles grandes figuras de poetas. Resta saber se aqui há, também, coincidência entre os característicos dos períodos francês e inglês e os do período actual português. Novidade, temos; o próprio crítico de «O Dia» não a nega, antes se confessa apavorado por ela. Basta comparar « Os Simples» , a «Pátria» , a «Oração à Luz» , a «Vida Etérea» e, de resto, tudo mais quanto na nova corrente esteja, ao que haja em qualquer outra corrente literária nacional ou estrangeira, e de qualquer tempo, para ver que há entre nós um modo de pensar, de sentir, de exprimir tão inconfundivelmente original como o do romantismo francês ou o do isabelianismo, se não mais original ainda. E, quanto a elevação, basta reparar na altura inspiracional do tom poético geral do nosso período, ver como nos menos notáveis poetas da corrente a expressão tem uma feição, um relevo, estranhos e inconfundíveis. Ainda que o espaço seja para pouco, duas expressões, que qualquer ledor das coisas do tempo reconhecerá como probamente citáveis como representativas, podem aduzir-se aqui, para alívio de cépticos. Tomemos isto, de Teixeira de Pascoaes, A folha que tombava Era alma que subia, e isto, de Jaime Cortesão, E mal o luar os molha, Os choupos, na noite calma, Já não tem ramos nem fôlha, São apenas choupos d'Alma. Em nenhuma literatura do mundo atingiu nenhum poeta maior elevação do que estas expressões, e especialmente a extraordinária primeira, contêm. E elas são representativas. Citamo-las não só para comprovação da elevação, como também para indicação da originalidade do tom poético, da nova poesia portuguesa. Haverá, é claro, quem não sinta a elevação e a originalidade daqueles versos. O raciocinador, porém, limita-se a apresentar raciocínios. Não é obrigado a uma preliminar distribuição de inteligência. Resta o terceiro ponto: a grandeza. Haverá aqui, também, analogia? Tanto quanto a juvenilidade da nossa corrente literária permite a aproximação, a analogia não nos parece menos flagrante. A comparação só pode versar sobre o primeiro estádio dos três períodos, e, para mais auxílio, sobre o subperíodo precursor. Quanto a este, Antero de Quental nada tem de temer de Rousseau-poeta, ou de Chaucer mesmo, considerado tudo. E repare-se que Antero teve co-precursores de mais valor que os contemporâneos ( co-precursores ) de Rousseau e de Chaucer. No que respeita ao primeiro estádio, o poema supremo do nosso, a «Pátria» , de Junqueiro, escusa de se acanhar na comparação com Chateaubriand-poeta, ou mesmo com a «Faerie Queene» , de Spenser. Com respeito ao primeiro, a superioridade do nosso poeta é manifesta. Com respeito ao segundo, a questão de superioridade é caso para argumentos. Porque, se não há dúvida que em originalidade e exuberancia imaginativa o poema de Spenser sobreleva ao de Junqueiro, também se não pode negar que em intensidade lírica, em espírito dramático, em poder de construção poética, a «Pátria» domina a «Faerie Queene» . De modo que, se há neste mundo analogias e absolutos, entre a nossa actual corrente literária e as máximas, que nos vêm servindo para a comparação, há, nos pontos já analisados, uma analogia absoluta. V Falta, agora, examinar os característicos das magnas épocas literárias em face da alma do povo que as produz. A análise é fácil e será, por isso, rápida. O primeiro característico, neste respeito, destas correntes, é a sua não popularidade , o segundo a anti-tradicionalidade , e o terceiro, mas o primacial e basilar, a nacionalidade . Isto é, estas correntes interpretam completamente a alma nacional; como, porém, a interpretam com plena elevação — o que já sabemos quanto a elevação — , com total largueza espiritual, desdobrando-lhe as inconscientes tendências filosóficas ou religiosas em detalhes intelectuais e espirituais, traduzindo a alma popular para arte suprema, forçosamente se colocam fora da compreensão popular, entendendo por compreensão popular tudo quanto não seja a compreensão de uma elite ou aristocracia de inteligência. Daí a sua não-popularidade , máxima na época em que existem, por agravada pela novidade do tom poético, menor nas épocas subsequentes, mas anulada nunca. Redizendo, estas correntes, filiadas absolutamente na alma do povo, não a exprimem : representam-a , interpretam-a . Ninguém negará a absoluta nacionalidade do isabelianismo, como inglês, e, como francês, do romantismo da França. Tão-pouco se pode negar a não-popularidade das duas correntes, máxima na primeira, cuja mera forma de expressar mesmo a um indivíduo culto fere como extremamente complexa e intelectualizada, menor na segunda, que ainda assim está longe de popularmente acessível, tanto que a corrente é classificada por um crítico francês como sendo faite pour des cénacles et des coteries . Ora, como estas correntes são as de máxima nacionalidade dos seus respectivos países; como, portanto, as correntes anteriores forçosamente haveriam sido, ou menos, ou nada, nacionais, a plena nacionalidade das correntes máximas importa uma quebra com o espírito dessas anteriores correntes, envolve, pois, anti-tradicionalidade . Quando a corrente anterior é desnacionalizada, a quebra com ela é flagrantíssima e consciente — e combativamente feita: é o caso do romantismo francês ante o chamado «classicismo» da época precedente. Quando a anterior corrente é, porém, não tanto desnacionalizada, mas antes incompletamente nacional, a quebra é feita inconscientemente, naturalmente, inagressivamente. É o caso do isabelianismo, que rompe com a simplicidade e incompleta nacionalidade do seu precursor Chaucer, única quase-tradição com que, aliás, podia romper, visto que, sobre ser o máximo período da literatura inglesa é — e é o que para o caso importa — o primeiro, no tempo, não tendo, portanto, época literária anterior com cujo espírito quebrasse. Retomemos a parte essencial e analógica do nosso estudo. A anti-tradicionalidade e não-popularidade do tom poético do nosso actual período literário são flagrantes, flagrantíssimas. Poucos movimentos literários se têm colocado mais acima da compreensão geral, pela complexa intelectualização ou misticização do seu exprimir-se; poucos se afastaram tanto de toda a tradição literária da sua terra. Resta saber se esses dois característicos se devem a uma completa interpretação da alma nacional. É fácil provar que sim. Há, porém, dois modos de o provar. Um — longo — é por uma análise analogial da alma portuguesa e dos característicos espirituais da nova corrente poética. Há outro método, mais simples, mais directo, e menos duvidoso. Vejamos. Os novos poetas portugueses não tiram da tradição os elementos constitutivos do espírito da sua corrente — isto já vimos; tão-pouco tiram esses elementos de correntes literárias estrangeiras — já o verificámos quando foi preciso constatar a novidade do tom poético deste período. Então de onde os tiram? Tira-os cada poeta da sua própria alma, no que tem de individual e peculiar? Nesse caso não haveria corrente literária, mas poetas isolados. Ora, como realmente há corrente literária, é forçoso admitir que o que a produz é o que nas almas há de superindividual, o que elas têm de comum. E o que elas têm é uma de três coisas — a raça , o meio nacional , ou o meio civilizacional , isto é, europeu . O meio europeu não é, porque então a corrente literária basear-se-ia nas correntes literárias estrangeiras contemporâneas, o que não acontece, provada, como está, a sua novidade . O meio nacional também não é, pois que então reproduziria o espírito do meio, que é ou nulamente, ou catolicamente, religioso: e ela é religiosa e não-católica. Não há senão que admitir, portanto, que reproduz a alma da raça. E como é anti-tradicional, não a reproduz misturando-lhe elementos passados; como é não-popular, não a reproduz misturando-lhe elementos pouco espirituais ou pouco intelectuais, populares no mau sentido do epíteto. Quer dizer, pois, que a nova corrente interpreta a alma nacional directamente , nuamente e elevadamente . Quer dizer que é absolutamente idêntica às grandes correntes literárias da França e da Inglaterra. Resulta, portanto, provada, ponto por ponto, detalhe por detalhe, a analogia entre a nossa corrente literária e as grandes correntes literárias precursoras dos grandes períodos criadores de civilização. VI Tirem-se, rapidamente, as tónicas conclusões finais. São três. A primeira é que para Portugal se prepara um ressurgimento assombroso, um período de criação literária e social como poucos o mundo tem tido. Durante o nosso raciocínio deve o leitor ter reparado que a analogia do nosso período é mais com o grande período inglês do que com o francês. Tudo indica, portanto, que o nosso será, como aquele, maximamente criador. Paralelamente se conclui o breve aparecimento na nossa terra do tal supra-Camões. Supra-Camões? A frase é humilde e acanhada. A analogia impõe mais. Diga-se «de um Shakespeare» e dê-se por testemunha o raciocínio, já que não é citável o futuro. — A segunda conclusão é que, tendo o movimento literário português nascido com e acompanhado o movimento republicano, é dentro do republicanismo, e pelo republicanismo, que está, e será, o glorioso futuro, deduzido. São duas faces do mesmo fenómeno criador. Fixemos isto: ser monárquico é, hoje, em Portugal, ser traidor à alma nacional e ao futuro da Pátria Portuguesa. — A terceira conclusão é que o republicanismo que fará a glória da nossa terra e por quem novos elementos civilizacionais serão criados, não é o actual, desnacionalizado, idiota e corrupto, do tripartido republicano. De modo que é bom fixar isto, também: que se ser monárquico é ser traidor à alma nacional, ser correligionário do sr. Afonso Costa do sr. Brito Camacho, ou do sr. António José de Almeida, assim como de vária horrorosa subgente sindicalística, socialista e outras coisas, representa paralela e equivalente traição. O espírito de tudo isso é absolutamente o contrário do espírito da nova corrente literária. Tudo ali é importado do estrangeiro, tudo e sem elevação nem grandeza, popular com o que há de mais Mouraria na popularidade. Para nada de morte lhes faltar, nem anti-tradicionais são: herdaram cuidadosamente os métodos de despotismo, de corrupção e de mentira que a monarquia tão como seus amou. Não nos admire que isto assim seja. No reinado de Isabel, período da Inglaterra que corresponde ao nosso actual, ainda nada se vislumbrava do princípio de governo popular que havia de ser criação da época. Conservemo-nos, por enquanto, absolutamente portugueses, rigidamente republicanos, intransigentemente inimigos do republicanismo actual. Brevemente começará a raiar nas nossas almas a intuição política do nosso futuro. Talvez o supra-Camões possa dizer alguma coisa sobre o assunto. Esperemos, que ele não se demora. No entretanto, sursum corda ! Sabemos que o futuro será glorioso. Confiemos nele. Por enquanto abstenhamo-nos de agir, a não ser negativamente, para combater, e apenas pela palavra e pelo escrito, os portugueses estrangeiros que nos desgovernam, e isso só se a indignação no-lo impuser como desabafo. A hora da acção ainda não chegou. Primeiro, virá a teoria política da época. Depois virá o pô-la em prática. E quando a hora chegar, virá — não tenhamos dúvida — o homem de força que a imporá, eliminando os obstáculos, que são esta gente de agora, monárquicos e republicanos. Suavemente, se puder ser, será a transformação feita, a criação começada. Mas se assim não for, se esta gente de hoje não curar de se tornar portuguesa, confiemos, sem horror, que o Cromwell vindouro os saberá afastar, aplicando-lhes, por triste necessidade, a ultima ratio de Napoleão, de Cavaignac, e do Coronel Conde de Galliffet. 1912 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 27. 1ª publ. in “A Águia”, 2ª série, nº 5. Porto: Maio. 1912. Caminhamos sobre abismos Ai de quem o sente. A noite, uma noite funda Cerca-nos, ai de quem conhece Como ela é funda, como é inescrutável. Pulsam-me as veias Alucinadamente e um terror novo Obtém-me, o terror de mim mesmo. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 51. A NOVA POESIA PORTUGUESA NO SEU ASPECTO PSICOLÓGICO I Qualquer fenómeno literário — corrente, ou grupo, ou individualidade — é susceptível de ser considerado sob três aspectos e sob três aspectos tem de ser considerado para ser completamente compreendido. Esses três pontos de vista são o psicológico, o literário e o sociológico. Isto é, qualquer fenómeno da literatura tem de ser estudado — 1. °, em si, directamente como produto de alma ou de almas; 2. °, nas suas relações e filiação exclusivamente literárias, como produto literário; 3. °, na sua significação como produto social, como facto que se dá adentro de, e por, uma sociedade, explicado por ela e explicando-a, tido, pois, como indicador sociológico. No estudo — suponha-se — de uma qualquer corrente literária, importa pouco sob qual dos três aspectos primeiro a examinarmos, logo que sob todos os três aspectos sucessivamente e completamente o assunto se raciocine. Como fenómeno literário, como fenómeno psíquico, como fenómeno social, sucessivamente analisada, os três aspectos de uma corrente interexplicam-se e completam-se, fornece cada qual elementos especiais e essenciais para a interpretação sintética e integral da corrente. Nem o estudo total, nem qualquer dos estudos parciais, fica completo sem estarem completos, e coordenadamente completos, todos os três. Por isso a nossa análise da actual corrente literária portuguesa — iniciada e feita sob o ponto de vista sociológico em dois anteriores artigos — só ficará completa e esses artigos em toda a sua extensão lógica compreensíveis, quando, neste escrito e em outro, juntarmos à análise sociológica uma dupla análise complementar, primeiro psicológica, e literária depois. Começámos pela análise sociológica porquanto, sendo essa a mais envolventemente explicativa das três, de princípio ficava, posta ela inicialmente, abrangido em todo o seu valor e superfície o movimento literário estudado. Levou-nos essa análise sociológica a conclusões que não pareceriam estranhas, talvez, aos habituados a seguir raciocínios, mas que, ainda assim, eram de desorientar os de inteligência menos afeita a ler nas entrelinhas da concisão dialéctica. O nosso anterior estudo, partindo de uma análise dos períodos máximos das literaturas inglesa e francesa — tomados esses para exemplos — e da sua relação com as máximas, e — provou-se — homócronas épocas sociais, veio, por uma aproximação, detalhe a detalhe feita, a constatar a semelhança completa do nosso actual período, tomada a literatura como indicador sociológico, com aquelas grandes épocas, chamadas a depor, do mesmo representativo modo, as literaturas suas. Daí as naturais, referidas, conclusões sobre a vindoura grandeza lusitana. Esses detalhes, esses, por assim dizer, traços fisionómicos por onde a parecença entre os três períodos se colhia flagrante, eram do número, completo, de nove; três diziam respeito à relação entre os períodos literários máximos e as épocas políticas, ou antecedentes, ou contemporâneas ou subsequentes; e estes três pontos eram os exclusivamente sociológicos. Os outros seis, sumariamente então tratados, por não serem para sociologia puramente — referiam-se à originalidade , à elevação , e à grandeza dos representantes individuais dos períodos, e à nacionalidade , anti-tradicionalidade , e carácter não-popular dos mesmos. Ficou, no artigo citado, esgotada e provada quanto possível — dada a juvenilidade da nossa actual corrente literária — a semelhança sociológica. Igualmente, no quarto capítulo, se provou que, constatadas que fossem a originalidade , a elevação e a grandeza de uma corrente literária, a sua anti-tradicionalidade ficava provada na sua originalidade — como seria original se se baseasse em tradições? — a sua não-popularidade provada na sua elevação — como ser popular sendo espiritualmente e metafisicamente complexa? — e, provado isto, de si ficava também provada a nacionalidade , o carácter nacional da corrente, visto que, como ali mais cingentemente provámos, originalidade absoluta só da alma de uma raça pode subir à tona da sua literatura. Poesia absolutamente original e poesia absolutamente nacional são expressões interconvertíveis. Tudo está agora, portanto, em provar a originalidade , a elevação e a grandeza das figuras individuais . Compete isto em parte a uma análise psicológica, e em parte a um estudo literário. Da análise psicológica sairá caracterizada a corrente literária, e, assim sendo, a sua originalidade ou não-originalidade, a sua elevação ou não-elevação quedarão, ipso facto , em relevo — relevo que o estudo propriamente literário acentuará, rebuscando a filiação exclusivamente literária da corrente e a importância dessa filiação — se influência nítida e constante, como a do estilo francês dos séculos XVII e XVIII sobre as outras literaturas europeias; se mera ocasionação, mero ponto de partida, breve abandonado e excedido, como a da Renascença da Itália perante o estilo da época isabeliana em Inglaterra. — Esse mesmo estudo literário, analisando o grau da construtividade, de intensidade e de individualidade que se revelem nas obras da corrente, dirá da grandeza dos seus poetas. II Sabido que uma corrente literária é a expressão pela literatura de uma comum noção do mundo, da arte e da vida — posto de parte o que é individual, por individual precisamente — o estudo psicológico de qualquer corrente envolve o destrinçar-lhe na alma a sua tripla unidade de atitudes. Que três aspectos são esses do seu espírito uno? O primeiro é sua metafísica — isto é, o conceito do universo e das coisas que subjaz as manifestações dessa corrente. O segundo é a estética — curando bem que por isto se não quer dizer as suas teorias de arte (essas pertencem, como parte da sua teoria das coisas, à sua metafísica), mas o seu modo de ser literário, a sua alma literária. O terceiro é a sua sociologia , e isto significa as teorias sociais, 1.°, que constituem a aspiração da corrente; 2.°, que, determinando-se, se alteram, na fixação directa em estudos já extraliterários, propriamente sociológicos; e 3.°, que, encontrando-se com realidades sociais, se sintetizam, realizando-se numa nova fórmula vivida , perdendo ao realizar-se o que de impraticável tivessem. Claro está que a parte última deste estudo é puramente sociológica; mas isso inevitável, dado que uma corrente literária é basilarmente, e representativamente, uma corrente social; tanto assim que — como o temos indicado teoricamente já aqui, e praticamente na feição realizada do nosso anterior artigo — um estudo literário completo é, em grande parte — e máximo e ultimamente mesmo — um estudo sociológico. Posto isto, encaremos a metodologia desta análise. O método analítico a empregar varia ligeiramente conforme qual dos três aspectos do psiquismo de uma corrente se investiga. Assim, ao determinar a estética da corrente, a análise incide directa sobre as obras dos poetas, porque estes, representando o máximo de emoção e de requinte revelador de expressão, mais do que os prosadores são representativos do momento-alma da raça e dos processos mentais que da inconsciência divina do povo sobem, feitos arte e consciência, para a interpretação estremecida dos seus versos. — Ao inquirir da metafísica , a análise divide-se entre as obras de arte — destacando sempre, por sua superior representatividade, os poetas — e as que dão expressão directa, racionada e intencionalmente filosófica, ao conceito do universo, característico do momento racial. Reportarmo-nos, nessa análise, só às obras metafísicas, ou apenas às obras literárias, seria — não diremos impossibilitar, mas por certo dificultar a investigação. É que — por estranho que de relance pareça — tanto o poeta como o filósofo ao interpretarem, cada um de seu modo, as intuições metafísicas de uma época, ao mesmo tempo as revelam e as escondem. Revelam-nas porque são poeta e filósofo, e, portanto, desdobradores em consciência e raciocínio do que a raça e a hora acumulam no fundo das suas almas. Escondem-nas — o poeta, porque a emoção, ainda que surgindo directamente do fundo intuitivo, é, de sua natureza, atraiçoadora da precisão intelectual; o filósofo, porque a actividade de raciocínio, vantajosa em tornar precisas as intuições fundamentais que a raça lhe dá, é, de seu carácter, destruidora dos processos emotivos que, eles só, surgindo directamente do fundo oculto da alma, podem conservar a essas intuições fundamentais a sua cor primitiva, o seu preciso tom intuicional. E, mais, tanto poeta como filósofo, sendo individualidades, acrescentam cada qual ao comum fundo de raça o seu especial temperamento, elemento esse que fatalmente desvirtuará uma interpretação exacta, superpessoal, do metafisismo da época. A alma de uma época está em todos os seus poetas e filósofos, e em nenhum; é por isso que é em todos e em nenhum que a nossa análise se encontra obrigada a procurá-la. — Semelhante método tem de ser aplicado no estudo da sociologia da corrente, mais complexo, porém, aqui, porque a três fontes, que não a duas, tem o raciocínio de ir beber. Os literatos, os filósofos e sociólogos-teoristas, e os acontecimentos finais e solucionais do período são essas três fontes. Como na nossa actual corrente não há, por ser ainda cedo, sociólogos-teoristas, e como os acontecimentos de criação social, que caracterizarão a época, só virão, como sempre, no fim do período, que ora avança apenas para o seu auge literário, releve-se-nos que não entremos em uma análise inutilmente extensa da forma como esta investigação deverá ser feita. Só temos um elemento — poetas — para essa dedução: veremos mais adiante o que, só com ele, se pode fazer, firmando-nos desde já na consciência de que essa dedução fatalmente será incompletíssima, uma simples intuição quase, um mero vislumbre de adivinhar. Vejamos agora, reportando-nos à nossa já feita divisão dos máximos períodos em estádios, em que hora dos períodos temos de ir procurar esses poetas, esses filósofos que servem à nossa análise para nos revelar a alma da corrente. Verifica-se, sem dificuldade, que a estética de uma corrente fica determinada (é natural) quando, ao entrar no seu segundo estádio, ela atinge a sua capacidade máxima de expressão. É o estádio-Shakespeare no período inglês, o estádio-Hugo no da França, logo que fica formado o estilo de Shakespeare e o de Vítor Hugo. Atingida e fixada essa máxima capacidade de expressão, sucede um alargamento de ideação que pouco depois chega ao auge, coincidentemente, pouco mais ou menos com o meio do segundo estádio e estendendo-se até ao princípio do terceiro até que, variando, se prolonga por este dentro. É em coincidência com este auge ideativo da poesia que geralmente aparecem os filósofos do período. Quanto à sociologia da época, só nos poetas desde o auge ideativo do segundo, e pelo terceiro estádio, e nos filósofos e tratadistas do mesmo tempo se poderá trair, posteriores um pouco, porém, os tratadistas e os filósofos. Os poetas do princípio do estádio segundo só a um raciocínio muito pacientemente perscrutador de obscuras intuições inconscientemente proféticas poderão entre-sugerir uma ideia do género de essa futura realização social. Como em anterior artigo mostrámos, a nova poesia portuguesa desde a «Oração à Luz» que entrou no segundo estádio. Podemos, portanto, arrancar-lhe o segredo da sua estética, nitidamente; com menos nitidez, e aproximadamente, entrever a sua metafísica: e, para que o estudo se não trunque, procurar dizer a cor dos longes vagos da sua sociologia ainda indecisos no horizonte da história. III Perscrutemos qual a estética da nova poesia portuguesa. A primeira constatação analítica que o raciocínio faz ante a nossa poesia de hoje é que o seu arcaboiço espiritual é composto de três elementos — vago , subtileza e complexidade . São vagas , subtis e complexas as expressões características do seu verso, e a sua ideação é, portanto, do mesmo triplo carácter. Importa, porém, estabelecer, de modo absolutamente diferencial, a significação daqueles termos definidores. Ideação vaga é coisa que é escusado definir de exaustivamente explicante que é de per si o mero adjectivo; urge, ainda assim, que se observe que ideação vaga não implica necessariamente ideação confusa , ou confusamente expressa (o que aliás redunda, feita uma funda análise psicológica, precisamente no mesmo). Implica simplesmente uma ideação que tem o que é vago ou indefinido por constante objecto e assunto, ainda que nitidamente o exprima ou definidamente o trate; sendo contudo evidente que quanto menos nitidamente o trate ou exprima mais classificável de vaga se tornará. Uma ideação obscura é, pelo contrário, apenas uma ideação fraca ou doentia. Vaga sem ser obscura é a ideação da nossa actual poesia; vaga e frequentemente — quase caracteristicamente obscura é do simbolismo francês, cujo carácter patológico mais adiante explicaremos. — Por ideação subtil entendemos aquela que traduz uma sensação simples por uma expressão que a torna vivida, minuciosa, detalhada — mas detalhada não em elementos exteriores, de contornos ou outros, mas em elementos interiores, sensações — sem contudo lhe acrescentar elemento que se não encontre na directa sensação inicial. Assim Albert Samain, quando diz Je ne dis rien, et tu m'écoutes Sous tes immobiles cheveux, desdobra a sensação directa de um silêncio à deux , opressivo e nocturno, na tripla sensação de silêncio, de almas que falam nesse silêncio, e da imobilidade dos corpos, mas não dá outra impressão do que a, intensa, desse silêncio. Do mesmo modo, nos versos de Mário Beirão Charcos onde um torpor, vitreo torpor, se esquece, Nuvens roçando a areia, os longes baços... Paisagem como alguém que, ermo de amor se desse, Corpo que estagna frio a beijos ou a abraços, há simplesmente um desdobrar, como em leque, de uma sensação crepuscular, que cada termo maravilhosamente intensifica , mas não alarga . Finalmente, entendemos por ideação complexa a que traduz uma impressão ou sensação simples por uma expressão que a complica acrescentando-lhe um elemento explicativo, que, extraído dela, lhe dá um novo sentido. A expressão subtil intensifica , torna mais nítido ; a expressão completa dilata , torna maior . A ideação subtil envolve ou uma directa intelectualização de uma ideia ou uma directa emocionalização de uma emoção: daí o ficarem mais nítidas, a ideia por mais ideia, a emoção por mais emoção. A ideação complexa supõe sempre ou uma intelectualização de uma emoção, ou uma emocionalização de uma ideia: é desta heterogeneidade que a complexidade lhe vem. São de ideação complexa, por exemplo, os versos de Mário Beirão A boca, em morte e mármore esculpida, Sonha com as palavras que não diz; de Teixeira de Pascoaes A folha que tombava Era alma que subia; e expressões como choupos d'alma de Jaime Cortesão ou o ungido de universo de Guerra Junqueiro. Feita esta constatação, que nos leva ela a concluir? Subtileza e complexidade ideativas vêm a ser, como da anterior exposição se depreende, modos analíticos da ideação: desdobrar uma sensação em outras — subtileza — é acto analítico, e acto analítico, ainda mais profundo, o de tomar uma sensação simples complexa por elementos espiritualizantes nela própria encontrados. Ora a análise de sensações e de ideias é o característico principal de uma vida interior. A poesia de que se trata é, portanto, uma poesia de vida interior, uma poesia de alma, uma poesia subjectiva. Será então uma nova espécie de simbolismo? Não é: é muito mais. Tem, de facto, de comum com o simbolismo o ser uma poesia subjectiva; mas, ao passo que o simbolismo é, não só exclusivamente subjectivo, mas incompletamente subjectivo também, a nossa poesia nova é completamente subjectiva e mais do que subjectiva. O simbolismo é vago e subtil; complexo, porém, não é. É-o a nossa actual poesia; é, por sinal a poesia mais espiritualmente complexa que tem havido, excedendo, e de muito, a única outra poesia realmente complexa — a da Renascença, e, muito especialmente, do período isabeliano inglês. O característico principal da ideação complexa — o encontrar em tudo um além — é justamente a mais notável e original feição da nova poesia portuguesa. Mas a nossa poesia de hoje é, como acima dissemos, mais do que subjectiva. Absolutamente subjectivo é o simbolismo: daí o seu desequilíbrio, daí o seu carácter degenerativo, há muito notado por Nordau. A nova poesia portuguesa, porém, apesar de mostrar todos os característicos da poesia de alma, preocupa-se constantemente com a natureza, quase exclusivamente, mesmo, na natureza se inspira. Por isso dizemos que ela é também uma poesia objectiva. Quais são os característicos psíquicos da poesia objectiva? Fácil é apontá-los. São três, e a sua diferença dos característicos da poesia de alma assenta sobre isto — que, ao passo que a observação da alma implica análise, a da natureza, a do exterior, envolve síntese, visto que qualquer impressão do exterior é sempre uma síntese, e uma síntese complexa, de impressões secundárias, memórias, e obscuras e instantâneas associações de ideias. São três, dizíamos, os característicos da poesia objectiva. O primeiro é a nitidez , revelada na forma ideativa do epigrama , chamando assim, convenientemente, à frase sintética, vincante, concisa: quando, exemplificando, dissermos que o tipo da poesia objectiva, apenas epigramática, é a dos séculos XVII e XVIII, em França especial e originantemente, teremos dado ideia clara do que por nitidez e epigrama no caso presente entendemos. O epigrama, porém, subjaz, como forma ideativa, toda a poesia do exterior, assim como o seu contrário, o vago , é base de toda a poesia contrária, a de alma. Epigramática como nenhuma é a poesia de Vítor Hugo, que é muito mais do que epigramática. Epigramática é — e este ponto é que urge notar — a nossa actual poesia, e por ser, ao mesmo tempo vaga e epigramática é que ela é grandemente, magnificamente equilibrada. A frase choupos d'alma , por exemplo, sendo — como apontámos — complexa no que de poesia subjectiva, é epigramática no que de poesia objectiva; é mesmo tipicamente epigramática, com a sua forma sintética, de contraste. Da sua complexidade íntima vem a sua beleza espiritual; do seu epigramatismo de forma nasce o seu perfeito equilíbrio e completa e perceptível beleza. Do mesmo são epigramáticas as frases citadas de Mário Beirão, o segundo trecho, e de Teixeira de Pascoaes. A actual poesia portuguesa possui, portanto, equilibrando-lhe a inigualada intensidade e profundeza espiritual, o epigramatismo sanificador da poesia objectiva. — Segundo característico da objectividade poética é aquilo a que podemos chamar a plasticidade; e entendemos por plasticidade a fixação expressiva do visto ou ouvido como exterior , não como sensação, mas como visão ou audição. Plástica neste sentido, foi toda a poesia grega e romana, plástica a poesia dos parnasianos, plástica (além de epigramática e mais) a de Vítor Hugo, plástica, de novo modo, a de Cesário Verde. A perfeição da poesia plástica consiste em dar a impressão exacta e nítida (sem ser exactamente epigramática) do exterior como exterior, o que não impede de, ao mesmo tempo, o dar como interior, como emocionado. É o que se dá nos quatro versos, em primeiro lugar citados, de Mário Beirão que a uma objectividade (plasticidade) perfeita unem uma perfeita subjectividade (subtileza). Outros exemplos se poderiam citar. Basta, porém, aquele que, por representativo, serve de prova de que a nossa actual poesia possui igualmente o segundo elemento característico da poesia objectiva; elemento esse que é mais um a equilibrar-lhe a profunda espiritualidade. — Mais um característico possui, e é o máximo, a poesia objectiva — é o a que poderemos chamar imaginação , tomando este termo no próximo sentido de pensar e sentir por imagens ; e isto dá à poesia objectiva deste género, quando intensamente inspirada, uma rapidez e um deslumbramento que, em alto grau, entusiasmando, deixam, quando sem elemento de pura espiritualidade, uma inquietante impressão de grandeza oca. É o caso dos românticos todos e, maximamente de Vítor Hugo — é isto que, dissemos, ele tem além do epigramatismo e da plasticidade — e daí vem o fenómeno desse poeta dar a alguns uma impressão de desmedida grandeza, a outros de uma oca grandiosidade: cymbale lhe chamou, desdenhando, Renan, possuidor do vago tão desconhecido de Vítor Hugo. A este máximo grau de objectividade não subiu ainda a nova poesia portuguesa: prova-o ao ouvido o seu movimento geralmente lento, quando a imaginação imprime sempre ao verso uma rapidez inignorável. A «Oração à Luz» , porém, obra máxima da nossa actual poesia, tem já vislumbres desse final elemento objectivo. A nossa poesia caminha para o seu auge: o grande Poeta proximamente vindouro, que incarnará esse auge, realizará o máximo equilíbrio da subjectividade e da objectividade. Diga da sua grandeza esta sugestão para raciocinadores. Super-Camões lhe chamámos, e lhe chamaremos, ainda que a comparação implícita, por muito que pareça favorecer, anteamesquinhe o seu génio, que será, não de grau superior, mas mesmo de ordem superior ao do nosso ainda-primeiro poeta. Há mais uma observação a fazer para a completa caracterização psicológica da nossa nova poesia. Deduz-se do que se acha concluído acerca da plena e inigualada subjectividade e da quase-total objectividade dessa poesia. Resultam deste modo de ser três coisas. A primeira é o já citado equilíbrio seu. A segunda é que, sendo ao mesmo tempo, e com quase igual intensidade, poesia subjectiva e objectiva, poesia da alma e da natureza, cada um destes elementos penetra o outro; de modo que produz essa estranha e nítida originalidade da nossa actual poesia — a espiritualização da Natureza e, ao mesmo tempo, a materialização do Espírito , a sua comunhão humilde no Todo, comunhão que é, já não puramente panteísta, mas, por essa citada espiritualização da Natureza, superpanteísta, dispersão do ser num exterior que não é Natureza , mas Alma . Decorre daqui uma terceira coisa. Esta interpretação das duas almas da sua alma una obriga a nova poesia portuguesa a ser puramente e absorvidamente metafísica: ser outra coisa seria para ela descer. Por isso não tem ela poetas de amor, ou poetas «sociais», ou outros assim, de género não-metafísico. Na nova poesia portuguesa todo o amor é além-amor, como toda a Natureza é além-Natureza. Pode o amor, cantado por um dos nossos actuais poetas, ser amor nas duas quadras de um soneto; nos tercetos é já oração. E assim com todo o outro género de poesia geralmente submetafísica. Quaisquer poemas da corrente podem servir de exemplo. De um canto à luz tira Junqueiro uma das maiores poesias metafísicas do mundo, poesia que se pode comparar só a «Ode on the Intimations of Immortality» de Wordsworh. Em um assunto aparentemente amoroso, Teixeira de Pascoaes, transcende logo o amor, torna-o degrau para a religiosidade; é da Elegia que se trata. Ora, de ser a nossa nova poesia absorventemente metafísica há uma conclusão a tirar. Poesia metafísica implica emoção metafísica; emoção metafísica é simplesmente sinónimo de religiosidade. A actual poesia portuguesa é, pois, uma poesia religiosa. Prova-o materialmente o seu uso de expressões tiradas do culto religioso — com outra religiosidade usadas, claro está — como ungir , sagrar , etc. É de todo religioso o tom geral e imediatamente perceptível da nossa actual poesia. — Há mais: a religiosidade da nossa actual poesia é uma religiosidade nova , que não se parece com a de nenhuma outra poesia, nem com a de qualquer religião, antiga ou moderna. Contrasta-se nisto com o simbolismo, que não tem religiosidade própria; e não a tem porque a que tem é católica ou quase-católica; vem do passado, é morte-ponto de capital importância, porque mostra nitidamente o carácter degenerativo e mórbido do simbolismo. Mas que religião nova é essa que se adivinha na nossa nova poesia? Não de todo, mas aproximadamente, vai mostrar-nos a análise, em que vamos entrar, da metafísica da nova poesia portuguesa. IV Seguindo o método estabelecido na segunda secção deste artigo, o nosso raciocínio, incidindo directamente sobre a obra dos nossos novos poetas, devia poder deduzir, com qualquer coisa como facilidade, as ideias metafísicas orgânicas no seu espírito. Acontece, porém, que a íntima complexidade e novidade da nossa actual poesia torna essa análise directa extremamente difícil. A primeira constatação que o raciocínio faz na análise de que se trata é de que a nossa poesia novíssima é completamente e absorventemente metafísica e religiosa; a segunda constatação é, porém, a da fluidez, incerteza e carácter indefinido dessa religiosidade e desse metafisismo. É perto de impossível encontrar os nossos novos poetas fixos sobre um ponto metafísico qualquer: nem a ideia que fazem de Deus ou da natureza se apresenta de princípio nítida, nem sequer é deduzível das suas obras se têm ou não ideias de algum modo definidas sobre, suponha-se, a imortalidade da alma ou a autodeterminação da vontade. A única imediata constatação que a análise pode sem custo fazer é que a poesia dos nossos novos poetas é 1 — panteísta, 2 — não-materialista, 3 — diversa de qualquer poesia propriamente espiritualista, mas contendo elementos característicos do espiritualismo. Para além desta quase que visual constatação, o problema toma uma complexidade que desconcerta e perturba. Sendo isto assim, vemo-nos forçados, para elucidação do assunto, a orientar de outro modo a nossa análise. A dificuldade de a fazer de modo directo leva-nos a concluir que, com mais probabilidade de segurança, só a poderemos fazer diferencialmente. Mas diferencialmente como? Seguindo a linha evolutiva da poesia europeia no que metafísica, destacando os períodos culminantes dessa poesia, fixando a direcção metafísica dessa evolução e os característicos metafísicos do último grande período, e depois, comparando a nossa nova poesia a essa, perante a qual ela se deve mostrar fatalmente ou uma decadência, ou uma reacção, ou uma continuação superior, um novo estado evolutivo. Autoriza-nos a esta análise deste modo diferencial, em primeiro lugar o facto de, estando Portugal integrado na civilização europeia, a sua poesia estar também inevitavelmente, e por isso a significação dessa poesia só se poder obter, na sua essência última, sociológica ou metafísica, por uma comparação com o período literário importante que europeiamente a precedeu — obtida preliminarmente a significação evolutiva desse período e, daí, deduzindo, os prováveis característicos do período literário que se lhe seguirá; para que, da coincidência ou incoincidência dos patentes característicos metafísicos da nossa nova poesia com a desse deduzido período, aptamente se avalie se esta poesia representa o estádio poético europeu seguinte, ou se tem de ser relegada para o lugar secundário e restrito de mera poesia ou de decadência ou de reacção. — Esta análise diferencial é-nos, em segundo lugar, autorizada e imposta pelo facto de, sendo uma corrente literária, em sua essência, a expressão de um novo conceito do universo, e um conceito do universo sendo simplesmente uma metafísica, a análise dos períodos literários sob o ponto de vista metafísico ser a análise do que neles é realmente típico e fundamental; donde se conclui que esta, a análise metafísica e diferencial da nossa nova poesia, mais do que outra qualquer análise, que anteriormente fizéssemos, porá em nudez e evidência o que de fundamentalmente grande e novo a nossa nova poesia literariamente contenha e sociologicamente represente. Para ampla segurança desta análise e natural preparação para a síntese ulterior, temos que: 1.° — estabelecer quais sejam os períodos capitais e evolutivamente marcantes da literatura europeia; 2.° — fixar, digressando, para podermos proceder com segura clareza, quantos e quais sejam os sistemas metafísicos definidamente fundamentais; 3. ° — determinar, aplicando esta constatação àquela, quais os sistemas metafísicos intimamente e caracteristicamente almas daquelas culminantes épocas de evolução; 4. ° — concluir, comparando as metafísicas dessas épocas, de que sistema para que sistema, ou de que espécie de sistemas para que espécie de sistemas, evolui a metafísica da poesia europeia, e, portanto, a alma da civilização da Europa; 5 ° — deduzir — determinada essa linha de íntima evolução espiritual, e fixado qual o último grande período literário europeu e qual a sua metafísica — qual deva ser a metafísica do grande período que se lhe deve seguir; 6.° — comparar a metafísica da nossa actual poesia tornada nítida e classificada por um confronto definidor com os sistemas metafísicos preliminarmente descobertos, com a metafísica deduzível como devendo ser a desse novo grande período da literatura da Europa. Dessa comparação sairá determinada, não só definitivamente qual a metafísica da nossa nova poesia (o que imediatamente pretendemos saber), mas também qual a significação sociológica que haja em ter essa poesia a metafísica que se descobrir que tem (o que é o fim imediato e último de todos estes nossos artigos). Isto é, se se constatar que a Alma Portuguesa está criando, através da sua actual Poesia, um novo conceito emocional — e portanto colectivo e nacional — do Universo e da Vida, e que esse conceito é aquele que na linha evolutiva da alma europeia representa um novo estádio criador, ter-se-á estabelecido uma analogia irrefutável entre o actual período literário e os que, nos períodos máximos das nações maximamente criadoras de civilização, precedem um grande período de vida nacional socialmente criadora, e, de resto, já são esse grande período na sua expressão poética, isto é, na sua mais alta e permanente expressão. Por outras palavras: se aquilo se verificar, terá já começado a dilatação da alma europeia que representará uma Nova Renascença, ainda que essa dilatação exista, por enquanto, apenas na alma do país donde essa Nova Renascença raiará para o que na Europa estiver acordado para a receber. V Precisamos, pois, antes de tudo fixarmo-nos sobre quais sejam os períodos capitais da literatura da Europa. Não é difícil conhecê-los. Num período literário tudo está ligado, e à grandeza do período — entendendo por grandeza o seu valor criador de novos elementos espirituais de civilização — corresponde infalivelmente a grandeza individual dos seus representantes. Escusamos, mesmo, de nos deter no exame do número desses grandes representantes de cada período. Basta tomar conta intelectual do representante máximo de cada período, e compará-lo aos representantes máximos dos outros períodos. É uma questão de altitude espiritual. A grandeza de um período literário mede-se pela grandeza individual do seu máximo representante. Mas porque? Por uma razão muito simples. Se a grandeza literária de um período consiste no valor do que ele é capaz de criar de espiritual é evidente que uma das maneiras — a mais flagrante — de medir esse valor é ver o valor do que ele é capaz de criar de espiritual dentro de si próprio ; isto é, a altura espiritual e criadora a que ele é capaz de elevar os seus próprios elementos espirituais, isto é, as individualidades que em si contém. Ora, a altura e poder criador a que foi capaz de se elevar nas almas mede-se evidentemente pela altura e poder criador da alma que mais alto se elevar. Não temos, portanto, que medir o valor criador de um período literário com outra coisa que não seja o valor do seu máximo literato — isto é, geralmente, porque a poesia é a mais alta manifestação do espírito, do seu máximo poeta. Homero e Shakespeare, as duas culminâncias da literatura, provam dos períodos a que pertencem que são — como todos admitem que são — os dois maiores e mais criadores na vida da humanidade. Guardemos, pois, desta análise uma tripla constatação: l.ª — que um período literário é sociologicamente importante quando nele se notam figuras importantes de literatos, e, especialmente de poetas; 2.ª — que a importância sociológica de um período literário se mede pela sua máxima figura; e 3.ª — que, portanto, a humanidade só mostra, em certo período, um verdadeiro avanço espiritual, isto é, um aumento de poder criador, quando o maior poeta desse período é superior aos máximos poetas de todos os períodos anteriores. Esta última, corolária, constatação é iluminadora da história. Assim, na superioridade de Homero a quantos poetas anteriores se divisem, lê-se claramente o aumento de poder criador que a humanidade no seu período grego trai sobre anteriores períodos; e assim como Homero é o primeiro máximo poeta de pleno e integral equilíbrio, a Grécia Antiga é o primeiro povo plena, lúcida e integralmente criador que na história nos aparece. A inferioridade de Vergílio a Homero mostra que da Grécia para Roma a humanidade não avançou, que nenhum novo elemento espiritual lhe nasceu — o que nos indica nitidamente que Roma constituiu, não uma civilização, mas o prolongamento inferior e decadente da civilização grega. Só na Renascença nos aparece uma figura culminante, Shakespeare, que acusa sobre Homero alguma — não importa quanta — superioridade. Isto indica que a Renascença marca uma evolução real do espírito humano, o atingir de um grau já supergrego de poder criador. Como, desde a Renascença, ninguém ainda apareceu de quem se possa pretender que é superior, ou mesmo igual a Shakespeare, forçoso é que se conclua que a humanidade, se entrou já em período de verdadeiro avanço espiritual sobre a Renascença, não chegou ainda à culminância desse período. Posto isto, ponhamos a nossa atenção no desenvolvimento da nossa análise. Na literatura da Europa há só dois períodos a que se pode chamar grandes sem escrúpulos de adjectivador. O primeiro é a Renascença, o movimento — para o nosso caso, apenas literário — que começou em Dante, culminou em Shakespeare e acabou com Milton. O segundo é o Romantismo, entendendo por Romantismo o movimento literário principiado na Alemanha, com a sua culminância em Goethe, continuado na Inglaterra, com Shelley por figura máxima, e acabado em França, com Vítor Hugo por poeta principal. O «romantismo» dos outros países é coisa, além de inferior e dependente destes, em alguns casos com outra significação. Isso não importa agora. Cinjamo-nos à corrente representativa e central. Estabeleçamos agora o valor relativo da Renascença e do Romantismo. Pela nossa constatação de há pouco, quanto ao modo de avaliar a grandeza dos períodos literários, notamos sem hesitação que a Renascença é superior ao Romantismo. Nesse caso, que valor tem, ante a Renascença e como vindo após ela, o movimento romântico? Visto que o seu valor é inferior, ele só pode ser uma de três coisas: ou uma decadência da Renascença, ou uma reacção contra a Renascença, ou o princípio de uma Nova Renascença, que em sua culminância será superior, mas que pode não o ser em seu início, como Dante, o maior poeta do início da Renascença, é inferior a Homero. Vejamos. Partindo da constatação, que adiante se fará — e que é, de resto, tão evidente que quase se pode dar como feita — de que o espiritualismo é a metafísica da Renascença, torna-se evidente que, se o Romantismo é uma decadência da Renascença, não pode a sua metafísica ser senão uma decadência do espiritualismo, e não poderá conter, portanto, elementos outros do que espiritualistas. Ora, o Romantismo contém caracteristicamente um elemento panteísta — pouco importa, por enquanto, se puro ou não. Se tem um elemento a mais , não pode ser uma decadência da Renascença. Tão-pouco pode ser uma reacção contra a Renascença. Se o fosse, a sua metafísica seria inteiramente oposta à da Renascença, isto é, seria de todo antiespiritualista. Ora, como veremos, o elemento espiritualista encontra-se presente — com mais ou menos, e por vezes com grande, nitidez — na poesia representativa dos românticos. Não é, pois, o Romantismo uma reacção contra a Renascença; envolve, sim, uma reacção, mas é contra outra poesia claramente antiespiritualista essa — a poesia do século XVIII. Por exclusão de partes temos, portanto, infalivelmente que concluir que o romantismo é, não já uma época , mas o princípio de uma época ; não é a Nova Renascença, mas o movimento precursor dessa Renascença Nova. Constatada a inferioridade do Romantismo à Renascença, não há outra hipótese a admitir. VI Na classificação dos sistemas filosóficos temos a considerar duas coisas: a constituição do espírito e os fins a que tende na sua actividade metafísica. O espírito humano, por sua própria natureza de duplamente — interiormente e exteriormente — percipiente, nunca pode pensar senão em termos de um dualismo qualquer; mesmo que se esforce por chegar, e até certo ponto chegue, a uma concepção altamente monística, dentro dessa concepção monística há um dualismo. Mesmo que dos dois elementos constitutivos da experiência — matéria e espírito — se negue a realidade a um, não se lhe nega a existência como irrealidade , como aparência — o que transforma o dualismo espírito-matéria em dualismo realidade-aparência; mas realidade-aparência é, para o espírito, um dualismo. O género de dualismo, porém, depende de, é condicionado por, o que se considera a Realidade Absoluta, a realidade realmente real; e é a procura dessa realidade que é o fim da especulação metafísica. O espírito não pode admitir duas realidades: a ideia de realidade absoluta envolve a ideia de unidade. Mesmo, portanto, que o espírito admita, como em alguns sistemas — e flagrantemente no espiritualismo clássico — acontece, dois princípios, com igual objectividade, reais, é forçado a admitir que o género de realidade de um desses princípios é superior ao da do outro. Temos, pois, que todo o sistema filosófico envolve um dualismo e um monismo. A constituição do espírito impõe-lhe, por mais que ele lhe queira fugir, que pense dualisticamente; a noção de realidade obriga-o a pensar monisticamente. O espírito não pode construir um sistema pura e integralmente monístico; e um sistema puramente dualístico não seria um sistema filosófico. Todo o sistema filosófico sendo, portanto, a tentativa para reduzir a um monismo o dualismo essencial do nosso espírito, é de subentender que represente uma sistematização de elementos da Experiência em torno àquela parte da Experiência — matéria ou espírito — que o filósofo, por causas que, em sua essência, são de temperamento, considera a Realidade. Temos, pois, que, consoante para o filósofo o espírito ou a matéria se apresenta como a realidade essencial, um de dois sistemas pode directamente surgir — o espiritualismo ou o materialismo. — Para o materialista a forma essencial de realidade, seja ela especializadamente qual for no seu especial sistema, é sempre uma realidade de que forma parte inalienavelmente um elemento ou espacial , ou, pelo menos, de inconsciência . — Para o espiritualista, através das várias formas que pode tomar o espiritualismo, há sempre de central e essencial um elemento, o elemento consciência, que é o que o espírito imediatamente concebe como sua base própria. Daqui partem todas as teorias características do espiritualismo — a imortalidade da alma (concebida impossibilidade de anular a consciência), o livre-arbítrio (concebida superioridade do consciente sobre o inconsciente) e a existência de um Deus clara ou obscuramente tido como pessoal, isto é, como consciente . A ideação metafísica pode, porém, tentar monismo de outro modo mais queridamente absoluto. Não há, é certo, outros elementos da Experiência que não a matéria e o espírito; o pensamento, porém, de certo modo tenta suprimir este dualismo. E de três modos o pode fazer: 1.° Negando toda a realidade objectiva a um dos elementos da Experiência, isto é (consoante já passim vimos), reduzindo o dualismo ao minimamente dualístico (ainda que impossivelmente de todo monístico) dualismo de realidade-aparência. Conforme é o espírito ou a matéria o elemento eliminado , temos o materialismo absoluto ou o espiritualismo absoluto. — 2.° Admitindo a realidade igual de ambos os elementos da Experiência; ora, como isto resulta num absurdo de sistema — dado que a existência de duas , iguais , realidades é impensável — fatalmente essa dupla realidade tira o seu carácter de realidade de ser, basilarmente, a dupla manifestação de qualquer coisa em sua essência tida por nem matéria nem espírito, ainda que somente existente e real naquelas suas manifestações. Se essa substância as transcendesse, isto é, fosse outra coisa, existisse substancialmente à parte da sua manifestação através de matéria e espírito, estaríamos então piorados para três realidades — 3. ° Negando a realidade a ambos elementos da Experiência, considerando-os apenas como a manifestação, não real mas ilusória , de uma transcendente e verdadeira e só realidade. — Temos assim, além dos citados materialismo e espiritualismo absolutos, no segundo sistema citado o panteísmo, e no terceiro o transcendentalismo. O leitor reparou que no primeiro género de sistemas acima expostos há duas formas — uma materialista, outra espiritualista. O mesmo acontece ao panteísmo e ao transcendentalismo. É que, por mais que abstractamente ideemos, realmente não temos outros modelos por onde idear senão espírito e matéria. Mesmo, portanto, que concebamos um Transcendente, inconscientemente e involuntariamente o teremos de conceber como feito à imagem da matéria ou à semelhança do espírito. Assim, temos um panteísmo materialista e um panteísmo espiritualista. O primeiro — o de Espinosa — é o que encerra o que Espinosa, não se sabe porquê, chama Deus, nos seus atributos. Estes, são como que o corpo de Deus; mas para além desse corpo, Deus não é nada. É só o corpo de si próprio. Vê-se que o modelo é materialista; tanto quanto um panteísmo pode ser materialista, é-o o sistema de Espinosa. — O panteísmo espiritualista admite Deus substância de tudo, mas permanecendo Deus e diverso através da sua manifestação por seus atributos. Faça-se uma distinção subtil, que tem de ser subtilmente compreendida: para o panteísta materialista tudo é Deus; para o panteísta espiritualista Deus é tudo. Se houvesse sido pensado coerentemente, e despidamente de influências de estreita teologia, teria sido este o sistema de Malebranche. Com o transcendentalismo acontece o mesmo. Importa fixar bem a diferença entre o panteísmo e o transcendentalismo, tanto mais que estabelecemos nós estes termos independentemente de como tenham sido usados antes, assim como, de resto, fazemos esta classificação de modo absolutamente original. — Para o panteísmo de qualquer das duas espécies, matéria e espírito são manifestações reais de Deus, exista ele (panteísmo espiritualista) ou não (panteísmo materialista) como Deus além das suas duas manifestações. Para o transcendentalista, matéria e espírito são manifestações irreais de Deus, ou, antes, para não errarmos, do Transcendente, o Transcendente manifestando-se como a ilusão, o sonho de si próprio. — Dos transcendentalistas, para o transcendentalista materialista (Schopenhauer), a essência real, de que as coisas são a ilusão, é qualquer coisa vaga cujo carácter essencial é ser inconsciente ; ora, como a consciência é a base dos sistemas espiritualistas, temos aqui um sistema que, apesar de transcendentalista, o é antiespiritualista — , isto é, materialisticamente. — É escusado definir o tanscendentalismo espiritualista, que representa a hipótese contrária. Um outro sistema pode, porém, surgir, limite e cúpula da metafísica. Suponha-se que a um transcendentalista qualquer esta objecção se faz: O Aparente (matéria e espírito) é para vós irreal , é uma manifestação irreal do Real. Como, porém, pode o Real manifestar-se irrealmente? Para que o irreal seja irreal é preciso que seja real: portanto o Aparente é uma realidade irreal , ou uma realidade real — uma contradição realizada. O Transcendente, pois, é e não é ao mesmo tempo, existe à parte e não à parte da sua manifestação, é real e não real nessa manifestação. — Vê-se que este sistema é, não o materialismo nem o espiritualismo, mas sim o panteísmo, transcendentalizado; chamemos-lhe pois o transcendentalismo panteísta . Há dele um exemplo único e eterno. É essa catedral do pensamento — a filosofia de Hegel. O transcendentalismo panteísta envolve e transcende todos os sistemas: matéria e espírito são para ele reais e irreais ao mesmo tempo, Deus e não-Deus essencialmente. Tão verdade é dizer que a matéria e o espírito existem como que não existem, porque existem e não existem ao mesmo tempo. A suprema verdade que se pode dizer de uma coisa é que ela é e não é ao mesmo tempo. Por isso, pois, que a essência do universo é a contradição — a irrealização do Real, que é a mesma coisa que a realização do Irreal — , uma afirmação é tanto mais verdadeira quanto maior contradição envolve. Dizer que a matéria é material e o espírito espiritual não é falso; mas é mais verdade dizer que a matéria é espiritual e o espírito material. E assim, complexa e indefinidamente... Se um pouco nos alongámos na exposição do transcendentalismo panteísta, breve se verá que tínhamos razões para isso. De resto, o leitor que tenha bem em mente a orientação do nosso raciocínio e os característicos, ainda que superficialmente lembrados, da nossa nova poesia, deve já suspeitar a que vem esta menos breve exposição no meio de umas breves considerações. VII Ao passar à análise da filosofia dos dois grandes períodos literários da Europa e perscrutação de qual a linha evolutiva dessa filosofia, importa, antes de tudo, distinguir entre a «filosofia» pensamento individual e a « filosofia» sentimento poético. — Tanto a filosofia do filósofo como a do poeta são questões de temperamento, mas, ao passo que o temperamento do filósofo é intelectual, o do poeta é emocional; ora, o que é intelectual é essencialmente individual , e o que é emocional é essencialmente colectivo e, portanto, quando se dá num indivíduo, representativo da colectividade a que ele pertence. É, portanto, a filosofia do poeta, e não a do filósofo, que representa a alma da raça a que ele pertence. Encarada a questão sob outro ponto de vista, isto ainda mais nitidamente se percebe. Na obra de filosofia a forma nada vale: a ideia é tudo. Na obra de poesia a ideia e a forma estão ligadas numa dupla unidade, unidade imaginativa , isto é, unidade que vem da fusão da emoção e da ideia que em sua essência é o acto de imaginar . Ora, a imaginação depende da organização dos sentidos do indivíduo; um visual imagina de modo inteiramente diverso que um auditivo, um indivíduo de intensa vida interior e pouca atenção ao mundo externo, de modo diferente de ambos. De que depende a organização dos sentidos? Sem dúvida alguma, da hereditariedade. E a hereditariedade que é que mais transmite e grava? Os característicos de raça. O acto de imaginar é o que, pois, em linha directa descende da alma da raça. E como o mais alto grau de imaginar é o do poeta, é na poesia que vamos buscar a alma da raça, e na filosofia dessa poesia aquilo a que se pode chamar a filosofia da raça. — O espaço não permite que nitidamente, ou mais argumentadamente, se exponha este problema. Para o nosso limitado caso, o pouco que aqui se expôs deve bastar. Consideremos, pois, qual a filosofia do primeiro grande período poético da Europa — a Renascença. Constata-se sem dificuldade qual ela seja. É o espiritualismo puro e simples, em uma ou outra das suas duas formas. Ocorrerá perguntar: mas não foi a Renascença inimiga do espiritualismo? Do da idade-média foi, mas esse era um espiritualismo inferior. Da forma católica e aristotélica foi inimiga a Renascença; mas foi para ser mais e mais puramente espiritualista, foi para se lançar no maior espiritualismo da Reforma e de Platão. Platonista foi, de resto, toda a poesia lírica de algum valor da Renascença. É uma das provas, a mais flagrante. Como vimos, o espiritualismo é o sistema que tem seu centro de realidade na consciência : logicamente, em seu temperamento, um espiritualista é um homem que dá atenção superiormente à vida interior e inferiormente à vida exterior. Toda a poesia da Renascença é de supor, portanto, que gire sobre assuntos humanos e não na Natureza. Assim é: o que de supremo tem a poesia da Renascença é a poesia épica — isto é, de acção humana — , e a poesia dramática (renascença inglesa, culminando em Shakespeare), de acção humana mais essencialmente ainda. Com isto, fica tirada a prova real. No Romantismo surge-nos imediatamente o contrário. Cessa, a não ser em arremedo débil de influências da Renascença, a poesia épica e dramática; nasce a verdadeira poesia da Natureza, e aparece um novo género de poesia amorosa. É comum a ambas um característico basilar: perante a Natureza ou perante o amor, o indivíduo comove-se até perder a individualidade, entrega-se . Mas não se entrega como (no caso da poesia religiosa e amorosa, não da Natureza) por vezes o poeta na Renascença fazia, por humildade; aqui, no Romantismo, entrega-se para viver uma vida mais ampla . Ora, o indivíduo não se entrega — e menos então se entrega para viver — a qualquer coisa exterior que não considere como real . Temos, pois, em última análise, que o romântico representativo se sente parte de uma Natureza real, ainda que espiritualmente real. Estamos em pleno sentimento panteísta. Com efeito, desde o panteísmo materialista de Goethe ao panteísmo espiritualista de Shelley, o romantismo nada é senão panteísmo. Posto isto, ficamos sabendo quais as «filosofias» da Renascença e do Romantismo, e vendo qual a linha evolutiva da filosofia da poesia europeia, qual, portanto, a evolução da alma da civilização da Europa. Evolui — o que de resto se podia ter concluído a priori , mas foi melhor que de outro modo se concluísse — do mais simples para o mais complexo; parte do espiritualismo e avança até ao panteísmo, e daí, inevitavelmente, subirá para a complexidade máxima do transcendentalismo, até chegar ao limite, o transcendentalismo panteísta. Por que característicos, por assim dizer, exteriores se pode conhecer o sentimento transcendentalista? Nas duas formas menos complexas do transcendentalismo, o materialista e o espiritualista, o indivíduo sente-se, como o panteísta, parte de um Todo, mas com a diferença que, para ele, esse Todo é sentido como irreal, como ilusório. Decorre daqui que o poeta transcendentalista (materialista ou espiritualista) fatalmente será um poeta pessimista. Mesmo que, transcendentalista espiritualista, conceba como vagamente espiritual o Transcendente, esse Transcendente, por sua própria, concebida, natureza, é sentido como Mistério, e mesmo onde levanta abate. — Percorrendo todo o Romantismo não encontramos este sentimento; apenas, em Alfred de Vigny, e nos seus descendentes, já pós-românticos, há um vago arremedo dele. Mas, ao atentar bem nos característicos que deduzimos como devendo ser os da poesia transcendentalista, revela-se-nos imediatamente que estamos em Portugal e em plena descrição da poesia de Antero. Concluímos, pois, que especiais condições de raça fazem do sentimento transcendentalista apanágio de Portugal. Se o transcendentalismo sob forma de emoção começou entre nós, entre nós deve continuar. Vejamos, pois, se a sua forma mais alta e complexa, o transcendentalismo panteísta, foi, acaso, atingida já. Não é preciso mais do que atentar na mera expressão da nossa nova poesia para nos encontrarmos em pleno transcendentalismo panteísta. Logo no vestíbulo da investigação nos aparece a característica contradicão deste sistema. « Materialização do espírito», e « espiritualização da matéria», « choupos d'alma», quedas que são ascensões, folhas que tombam que são almas que sobem — não é preciso mais, repetimos. Eis, em seu pleno estado emotivo, o transcendentalismo panteísta. Quanto mais se analisa, mais claramente isto se revela. Para os nossos novos poetas, uma pedra é, ao mesmo tempo, realmente uma pedra e realmente um espírito, isto é, irrealmente uma pedra... Mas para que continuar? A evidência de certas provas, quando o que fica provado traz consigo tudo em que pusemos a nossa esperança e a nossa fé, embriaga de alegria para além de se poder ficar com a lucidez intacta e o poder de exprimir em equilíbrio. E quais são, enfim, as conclusões últimas de quanto neste artigo expusemos? São aquelas em que através de todos os nossos artigos temos insistido. Se a alma portuguesa, representada pelos seus poetas, encarna neste momento a alma recém-nada da futura civilização europeia, é que essa futura civilização europeia será uma civilização lusitana. Primeiro, porém, consoante todas as analogias no-lo impõem, a alma portuguesa atingirá em poesia o grau correspondente à altura a que em filosofia já está erguida. Deve estar para muito breve, portanto, o aparecimento do poeta supremo da nossa raça, e, ousando tirar a verdadeira conclusão que se nos impõe, pelos argumentos que já o leitor viu, o poeta supremo da Europa, de todos os tempos. É um arrojo dizer isto? Mas o raciocínio assim o quer. VIII Feito assim o esboço psicológico da nossa actual poesia, no que respeita à sua estética e à sua metafísica, resta concluir aproximadamente qual deva ser a resultante social das forças da Raça cujo primeiro assomo à tona da realidade ora e apenas se está fazendo nessa, citada, poesia. Melhor dizendo, qual será a criação social a que vai chegar a alma da Raça, por enquanto no seu início de despertar e revelada apenas, por isso, na forma directamente espiritual, a literatura? Só muito informemente, por razões que já expusemos, essa criação social, em seu género e especialidade, é antevisível. Mas se é antevisível de algum modo e até certo ponto, de que modo e até que ponto o é? — Determinada a metafísica da nova corrente, queda revelado definitivamente, em sua essência última e central, o que essa corrente espiritualmente é e representa. Vimos que essa corrente se traduz por um metafisismo claramente definível como transcendentalismo panteísta: resta saber o que dá o transcendentalismo panteísta posto em tendência social . Daqui não resultará claramente definida qual essa criação social — como ficar definida ao raciocínio, se ainda se não definiu nas almas? — mas resultará ficar atingida na sua fisionomia longínqua. Sendo o transcendentalismo panteísta um sistema essencialmente envolvedor de uma fusão de elementos absolutamente opostos, segue-se que a criação resultante da nova alma lusitana deverá envolver, em seu resultado definitivo e último, o estabelecimento de qualquer nova fórmula social onde uma fusão dessas se dê. Uma rápida análise, aqui eliminada, determina facilmente que o raciocínio permite profetizar que a futura criação social da Raça portuguesa será qualquer coisa que seja ao mesmo tempo religiosa e política, ao mesmo tempo democrática e aristocrática, ao mesmo tempo ligada à actual fórmula da civilização e a outra coisa nova. Inútil será apontar quão flagrantemente esta dedução vaga e precisa decorre da constatação já feita sobre o carácter fundamental, metafisicamente patente, de alma lusitana. Igualmente inútil deve ser notar quanto essa futura fórmula deve distar do cristianismo e, especialmente do catolicismo, em matéria religiosa; da democracia moderna, em todas as suas formas, em matéria política; do comercialismo e materialismo radicais na vida moderna, em matéria civilizacional geral. E, finalmente, é da mesma inutilidade acrescentar, acentuando e especializando a sua divergência da democracia, que as formas extremas ou perturbadas desta — anarquismo, socialismo, etc. — serão varridas para fora da realidade, mesmo do sonho nacional; os humanitarismos morrerão ante essa nova fórmula social, de portuguesa origem, mais alta, provavelmente, em sentimento religioso do que outra qualquer que tenha havido, mais rude e cruel talvez em prática social do que o mais rude militarismo comercialista. Console-nos isto, desde já, no meio de ver, de leste a oeste de Portugal, a nossa sub-humanidade política e a nossa proletariagem humanitariante. Tudo isso, que afinal é estrangeiro, morrerá de por si, ou à boca dos canhões do nosso Cromwell futuro. E a nossa grande Raca partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas «daquilo de que os sonhos são feitos». E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal antearremedo, realizar-se-á divinamente. 1912 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 45. 1ª publ. in “A Águia”, 2ª série, nº 9, 11 e 12. Porto: Set., Nov. e Dez. 1912. Quanto mais claro Vejo em mim, mais escuro é o que vejo. Quanto mais compreendo mais, Menos me sinto compreendido. Ó horror Da vida paradoxal deste pensar... s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 52. 1ª versão: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966 p.106). UMA RÉPLICA AO SNR. DR. ADOLFO COELHO Mais uma réplica contra a pacatez dos depoimentos desde o dia 3 do corrente veem sendo publicados na República. Agora é o colaborador da Águia, snr. Fernando Pessoa, que vem responder ao ilustre filólogo e lente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, snr. Adolfo Coelho, que não crê no super-Camões. Meu caro amigo — O convite geral feito na sua secção de inquérito literário, e aquele com que verbalmente honrou a obscuridade ou a juventude do meu nome, foram, como sabe, de princípio aceites por mim para, no seu jornal, levantar a luva que inquiridos vários arremessaram à Renascença Portuguesa . Lançado, porém, que por mim fui no caminho da contra-argumentação, breve verifiquei que, tendo por dever meu responder a tudo quanto no seu inquérito se dissesse contra a Renascença Portuguesa , as dimensões escritas da resposta excederiam, e de muito, as dimensões de um artigo de jornal; ao passo que a nulidade do meu nome, por mais que o meu raciocínio lhe fosse capa para o público, impedia-me de, sequer, pensar em pedir-lhe a inserção de artigos sobre artigos, discutindo, ponto por ponto, a como que argumentação dos adversários da nossa novíssima poesia. Resolvi, por isso, guardar para folheto a resposta extensa e completa a quantos simulacros de objecções várias competências nominais houvessem deixado cair nas suas colunas. Preparo esse folheto, que a Renascença Portuguesa editará. Nessa atitude me conservaria, se o Prof. Adolfo Coelho não tivesse feito incidir uma parte do seu depoimento sobre um artigo meu, publicado na A Águia , e que visa precisamente a explicar, na sua significação sociológica, a nossa novíssima poesia; chamado assim, como que por meu nome, à baila jornalística, sinto-me com o direito e o dever de abrir uma clareira na minha renúncia à publicidade maior e a valer-me, na extensão de um artigo, do seu amável convite. Os argumentos que empregarei contra as objecções do Prof. Adolfo Coelho servir-me-ão, ao mesmo tempo e de sumário modo, de resposta geral a outras adversas referências feitas à Renascença Portuguesa e à nossa nova poesia; porquanto, explicativos como são daquelas, implícita resposta levam a todos os seus inimigos. Isto não exclui — bom é que se note — a mais detalhada resposta no folheto. Apenas a prepara e imperfeitamente a resume. Por ora, pois, responderei apenas às vagas objecções feitas contra o carácter renovador e grande da nossa novíssima poesia pelo Prof. Adolfo Coelho no seu quase erudito artigo. Esse artigo é sereno e aparentemente lúcido e motivado; infelizmente, quem se der ao trabalho de lhe procurar o fio condutor de uma lógica, encontra-lhe uma íntima desconexão, desmentindo a sua fisionomia de ligado e conexo. Seja como for, perscrutemos em que se baseia o Prof. Adolfo Coelho para descrer de uma renascença literária em Portugal e de ser a nossa poesia novíssima representativa dessa renascença. Cinge-se a duas considerações, que era indispensável que estivessem submersas em elementos acidentais e anedóticos. Essas duas objecções, que não pecam por explícitas nem por argumentadas se perdem, são: 1. ° — que a nossa nova poesia não mostra avanço, especialmente no que diz respeito à grandeza individual dos seus representantes, sobre a poesia da geração de 1860 a 1870; 2.° — que não mostra avanço espiritual — isto é, em compreensão da Natureza, expressão de emoções, etc., — sobre qualquer outra corrente poética — a romântica, suponha-se, consoante exemplos indicados de Byron e Vítor Hugo. Concretizando mais: para o Prof. Adolfo Coelho a nossa novíssima poesia nem pela grandeza dos seus poetas, nem pela originalidade e grandeza do seu carácter geral se impõe como poesia característica de uma renascença; ou mesmo de um grande período poético. Isto é o essencial e o basilar do artigo; o resto ou provém disto ou não tem nada que ver com o caso. As duas considerações citadas reduzem-se, para o contra-argumentador, a uma só. É que a grandeza dos poetas de uma corrente literária está sempre em relação com a originalidade, o equilíbrio e a nacionalidade (isto é, o carácter nacional) dessa corrente. Não se pode apontar em toda a história literária movimento que tenha surgido com carácter de originalidade, equilíbrio e nacionalidade que não tenha sido representado por, revelado através de grandes figuras de poeta, e grandes na precisa proporção em que essa corrente é nacional, original e equilibrada. Assim, as duas poesias que mais se nos oferecem como brotando inesperadas e originais do seio dos seus povos, são a poesia grega e a poesia da Renascença — preeminentemente, a da renascença inglesa. A primeira surge como que virgemente, anadiomenicamente, do oceano escuro do tempo; liga-se por episódios e elementos míticos à anterior poesia da Índia, mas a sua essência, a sua alma , a sua assombrosa alma lúcida e profunda, é-lhe original e própria. De modo igualmente flagrante rompe da noite da idade chamada média a poesia que, começando em Dante, culmina em Shakespeare e acaba em Milton. Todas as outras épocas literárias são inferiores a estas duas em originalidade. Todas descendem muito mais evidentemente do passado do que estas. O próprio Romantismo não destaca da Renascença ou mesmo do século XVIII como a Renascença surge da idade média e a poesia grega do que lhe é anterior. Isto é incontestável. Ora é precisamente nos dois períodos verificados como os maiores da literatura em matéria de originalidade que aparecem as maiores obras individuais, as maiores figuras individuais de poetas. Porque é fora de dúvida, para quem tenha mais do que um vácuo de compreensão, que as alturas máximas da poesia estão na Ilíada e em Shakespeare, e, logo abaixo, nos dramaturgos gregos e nos dois épicos supremos da Renascença. Dante e Milton. De modo que a questão se reduz simplesmente a procurar o grau de originalidade, equilíbrio e nacionalidade no actual período poético português; se essas forem constatadas grandes, inevitavelmente se terá de conclui ou que os novíssimos poetas nossos são grandes poetas, ou caso seja impossível considerá-los como tais, que brevemente surgirão grandes poetas ou, pelo menos, um grande poeta da nossa nova poesia. Mas a questão pode ser posta à prova mais restritamente analisando. Em primeiro lugar, escusamos de perscrutar a nacionalidade de uma poesia; se se prova a sua plena e equilibrada originalidade, fica ipso facto , provado o seu carácter de absolutamente nacional. Porque se a poesia de uma nação é em certo período em absoluto original, donde lhe poderá vir essa originalidade, esse poder de ser diversa e outra do que todas as outras poesias, se não de ser a genuína e suprema interpretação do que esse país tem de essencialmente diverso e outro do que outros países — e isso é ser tal país e não outro, é a raça . Fica, portanto, restrita a nossa investigação a constatar a existência ou não existência, na nossa nova poesia, de origialidade e equilíbrio. Mas mesmo isto é escusado. O caso é saber constatar originalidade: pois que a perfeita e verdadeira originalidade não existe sem equilíbrio perfeito. Vejamos porquê. Primeiro, em que consiste o equilíbrio de um psiquismo qualquer, individual ou colectivo? Essencialmente no grau da sua atenção ao mundo exterior; e quanto mais ele é atento ao mundo exterior, tanto maior seu equilíbrio é. E em que consiste a originalidade? Em ter ideias inteiramente próprias e individuais; e «inteiramente individuais e próprias» quer dizer inteiramente subjectivas. Como, porém, o espírito elabora impressões vindas do exterior, a originalidade será tanto maior quanto maior for o número de impressões do exterior que o espírito é capaz de acolher e elaborar para a originalidade; isto é, quanto maior for a sua atenção ao mundo exterior; quer dizer, pois, quanto maior for o seu equilíbrio. Portanto, originalidade verdadeira e perfeita envolve equilíbrio, nunca é senão originalidade equilibrada. Mas como é que se pode medir a originalidade de uma corrente literária? Em que é que consiste, propriamente, essa originalidade? Vejamos primeiro o que é uma corrente literária. É manifestamente uma comunidade de ideias ou instituições, característica de poetas e literatos de uma época. Qual é a base de uma comunidade de ideias? Um fundamental conceito igual das coisas, uma igual atitude perante o universo e a vida. Que é um comum conceito do universo e da vida? Um comum conceito do que constitui a realidade. O ponto único, portanto, para onde tem de convergir a nossa atenção é este — se a nova poesia portuguesa envolve qualquer conceito novo do que é a realidade, se a sua atitude perante o universo e a vida é uma atitude inteiramente nova. Ora Portugal pertence à civilização europeia ocidental; a sua evolução, literária ou outra, tem vindo integrada, portanto, na evolução literária ou outra, dessa civilização. E visto que essa civilização tem, em literatura porque em tudo, uma linha evolutiva, se a nossa nova poesia traz qualquer coisa de original em si, essa originalidade deve ser o princípio de um novo estádio na linha evolutiva da civilização em que Portugal está integrado — nova Renascença, portanto, que de Portugal se derramará para a Europa, como da Itália para a Europa se derramou a outra Renascença. Mas se essa originalidade, a ser verdadeira, representará um novo estádio na geral linha evolutiva literária da Europa, a sua natureza deve ser de certo modo deduzível dos anteriores estádios da evolução literária europeia. O que temos, portanto, que fazer é analisar os estádios anteriores da evolução literária da Europa moderna, deduzir dessa análise quais devam ser os característicos do estádio literário seguinte, e depois comparar esses característicos deduzidos com os característicos da nossa novíssima poesia. Se houver coincidência, teremos provado a nossa tese. Os dois estádios literários da civilização europeia moderna são a Renascença e o Romantismo. Analisemos os característicos destes, deduzamos depois os prováveis característicos do período literário que se lhes deve seguir e comparemos finalmente esses característicos com os da nova poesia portuguesa. Qual é a atitude da Renascença perante o universo e a vida? Que é que para ela constitui essencialmente a Realidade? É a alma e só a alma: a Renascença não tem o sentimento da Natureza. Vejamos. Quais são as formas poéticas da Renascença? São ou poemas de amor (Petrarca), ou poemas de acção humana (os poetas épicos) ou dramas (Shakespeare e os dramaturgos do seu tempo). São portanto três formas de poesia de Alma, só de Alma — visto que tratam ou do sentimento que liga as almas — o amor — ou de acção humana, acção de almas, portanto; ou, no seu poeta culminante, Shakespeare, mais completamente ainda de almas em acção. Quanto à Natureza, os poetas da Renascença não a sentem, por mais nitidamente que a vejam: assim, o mais observador de todos eles, Shakespeare, não é poeta perante a Natureza, é observador simplesmente. Descreve o que vê em maravilhosos versos; mas nenhuma simpatia o liga a essa Natureza que tão nitidamente vê. Dá-se com o Romantismo o caso inverso. Para os românticos a única verdadeira Realidade é a Natureza; da Alma conhecem só cada um a sua alma individual. Daí o carácter inteiramente diverso da poesia romântica em relação à da Renascença. A sua noção da acção humana é fraca e descontínua, de modo que são incapazes de elaborar uma epopeia. A sua fraqueza psicológica é conhecida: os únicos romanticos capazes de alguma intuição psicológica, Goethe e Shelley, apoiam-se ao passado, à tradição da Renascença, na figura de Shakespeare, para beber psicologia. E o resultado? Grande como é em outras coisas, Goethe-psicólogo não se pode medir, não digamos já com Shakespeare, mas mesmo com outros dramaturgos -Webster, por exemplo — da época shakespeareana. Shelley, para escrever « The Censi », estudou atentamente os processos shakespeareanos — e o que resultou, ainda que belo, não se pode comparar em intuição dramática sequer com a obra de outros tais que Webster. Esta diferença entre os poetas da Renascença e os do Romantismo colhe-se flagrantemente no modo como pensam. Os poetas da Renascença pensam por ideias ou por abstracções: os românticos pensam por imagens . Isto é, os primeiros pensam em termos de Alma, os segundos em termos de Natureza. Nenhum romântico poderia escrever um soneto como a o Alma minha gentil , tão despido de imagens, tão directamente exprimindo a alma. Ora, sendo estes os característicos dos dois grandes períodos da poesia europeia moderna, será possível deduzir deles os característicos que deverá ter o grande período da poesia que se lhes seguirá? A dedução não é fácil; é facílima. Para a Renascença a Realidade é a Alma; para o Romantismo a Realidade é a Natureza. Ora, como o nosso conhecimento não tem outros além da Alma e da Natureza, a nova Renascença (chamemos-lhe assim) não tem outra coisa que tomar para Realidade. A sua originalidade só poderá vir portanto de uma fusão do psiquismo da Renascença com o psiquismo do Romantismo . Não há outra hipótese concebível. Essa fusão, porém, produz um facto curioso — a coexistência de dois sentimentos da Realidade, uma dupla noção de Realidade. Mas só pode haver noção de uma Realidade; a Realidade é concebível só como uma. Resulta, portanto, que para a Nova Renascença a Realidade deverá ser fusão de Natureza e Alma . A realidade será pois Natureza-Alma . Isto é, pela Nova Renascença a Natureza será concebida como Alma . Ora eu creio que o professor Adolfo Coelho é suficientemente inteligente para perceber que estamos em plena descrição da nova poesia portuguesa. Os característicos que deduzimos como devendo infalivelmente ser os da poesia da Nova Renascença coincidem em absoluto com os característicos patentes da nossa novíssima poesia . Provas? Devem ser escusadas para qualquer criatura capaz de seguir um raciocínio e ler uma página. Leia o professor Adolfo Coelho as poesias características dos nossos novíssimos poetas; medite todos os artigos de Teixeira de Pascoaes — cada verso trai o conceito de Natureza-Alma, cada frase desses artigos o exprime. Para não fugir, porém, ao exemplo directo e individual, examinemos aqueles dois trechos citados por mim e re-citados pelo professor Adolfo Coelho, cuja erudita incompreensão não encontrou diferença entre eles e uma estância, citada, de Byron, inteiramente diversa no seu sentimento, perfeitamente romântico, de Natureza como Natureza. O primeiro trecho é este, de Jaime Cortesão: E, mal o luar os molha, Os choupos, na noite calma, Já não têm ramos nem fôlha, São apenas choupos de alma. Aqui temos, flagrantissimamente, o material concebido como espiritual — choupos de alma . Vejamos o outro trecho: são os dois versos de Pascoaes: A fôlha que tombava Era alma que subia. Aqui temos o acto material , que é a queda de uma folha, concebido como acto espiritual ; e repare o professor Adolfo Coelho que Pascoaes não compara a queda da folha à ascensão da alma — a queda da folha é, materialmente , a subida da alma. Comparando estes maravilhosos trechos a trechos de Byron e de Vítor Hugo, mostrou o professor Adolfo Coelho que não sabe olhar para além das palavras, e da mera gramática das frases. Eu bem sei que o professor Adolfo Coelho não pode sentir a nossa nova poesia; ouso esperar que possa compreendê-la de longe, através do meu raciocínio. Que provámos, pois? Que a nossa nova poesia é a poesia auroral de uma Nova Renascença, que é uma poesia perfeita e plenamente original. Mas, como acima vimos, se é perfeitamente original, é equilibrada: erram, portanto, os que a consideram doentia e confusa, lançando sobre ela a sombra da sua própria incompreensão. Se é original e equilibrada resulta, como acima provámos, que é inteiramente nacional : erram, portanto, quantos falam em estrangeirismo a propósito dela. Se é original, equilibrada e nacional produz ou produzirá, como acima o mostrámos, grandes e máximas figuras de poeta: erra, portanto, o professor Adolfo Coelho, primeiro, quando acha inferiores os nossos novíssimos poetas, e depois quando considera messianismo a ideia de um super-Camões, isto é, de um poeta máximo, inevitavelmente maior do que aquele poeta verdadeiramente grande, mas longe de ser um Dante ou um Shakespeare. São estas, meu caro amigo, as considerações que julgo indispensáveis como resposta ao professor Adolfo Coelho. Servem, ao mesmo tempo, como viu, para responder a outros adversários da Renascença Portuguesa . Repliquei com perfeita serenidade, 1. ° porque o professor Adolfo Coelho com isenção de dureza escreveu, e 2. ° porque de outro modo não poderia escrever em atenção à sua pessoa e ao seu jornal. Para o folheto que preparo reservo o tratar no tom que julgar merecido alguns indivíduos pouco inteligentes ou menos correctos, que tem deposto no seu inquérito. Desculpe-me o espaço que lhe tomei e disponha sempre do seu amigo e admirador, Fernando Pessoa. 1912 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 77. Lacunas completadas segundo o original: «Inquérito à vida literária» in “República”, Lisboa: Set. 1912. Pretendo, neste opúsculo, estudar a situação política de Portugal, servindo-me para isso dum facto — a revolução de 14 de Maio. Isto é, pretendo estudar a situação política de Portugal através deste mero facto. De maneira que será preciso prefaciar esse estudo duma justificação do método seguido. Devo explicar ao leitor antes de mais nada, corno julgo possível e útil fazer este estudo desta maneira. Para estudar a situação política de Portugal há dois métodos possíveis: o primeiro seria ir buscar as causas da actual situação política, que seriam encontradas num estudo da situação política anterior, ver como a República saiu da Monarquia Constitucional. Mas para isso era preciso estudar as causas da Monarquia Constitucional. Para isso era preciso ir retrocedendo por toda a história de Portugal, que, porém, ainda havia de ser precedida duma teoria sociológica da evolução social, para que o estudo pudesse ser compreendido. De maneira que, para chegarmos a uma compreensão justa da actual situação portuguesa, teríamos que escrever um tratado de sociologia. Não talo já na dificuldade da tarefa; reporto-me apenas à sua demorada elaboração, prejudicadora dos intuitos que me levam a escrever este opúsculo e que requerem urgência, pois que são o esclarecimento, que julgo necessário, da situação em que estamos politicamente. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 59. Lisboa, 22 de Janeiro de 1913. Meu prezado Camarada: Uma constitucional perturbação da vontade e uma ânsia, paralelamente paralisante, de sobre tudo dizer tudo, sem falha, falta ou fraqueza, fazem com que eu ponha em tudo que faço uma demora que acaba por me apavorar até à acção, e que comece essa acção por um pedido de desculpa de tanto ter demorado. No caso presente o que eu tencionava fazer era um ligeiro, epistolar estudo sobre a sua individualidade, agradecimento de raciocinador pela oferta, que amavelmente me fez, das suas duas plaquettes , dedicação de psicólogo ao interesse que o seu espírito me desperta e, desde que primeiro o li, me despertou, e fraco retribuir, crítico e frio, da alta e lusitana emoção que os seus versos me têm dado. Mas, no momento actual, inteiramente trágico, da minha vida, em que sou o Atlas involuntário de um mundo de tédio, que quase fisicamente e localmente me pesa sobre os ombros, as minhas faculdades de análise tornaram-se-me uma coisa que eu sei que tenho mas que não sei onde está. Vêm estas considerações egotistas para explicar que roce, talvez, tão flagrantemente pelo banal e pelo pouco a apreciação que segue, das suas duas poesias. Num ou noutro ponto dessa apreciação cairei — dada a impossibilidade que há em mim de querer não analisar — no impulso de esmiuçar e destecer, mas, não podendo, pelas razões já ditas, aplicar-me a esse trabalho completamente, esquivar-me-ei a ir até onde era de meu desejo ser levado. A meu ver é o meu querido amigo (permita-me que assim o trate) o primeiro dos poetas da novíssima geração. Eu chamo, é claro, novíssima geração àquela que apareceu posteriormente à de Pascoaes, Correia d'Oliveira e Lopes-Vieira, à que é propriamente já e apenas do século vinte. Entre os poetas dessa geração creio que o meu amigo é princeps . Ao especial sentimento da Natureza que a todos é peculiar, e em que tomaram (sem o saber, é claro) o facho das mãos de Tennyson, mais alumiando-o, até a chama ser outra, de maior, na alma altíssima da nossa Raça, fazendo escuro o brilho dos ingleses europeiamente antecessores; à subtileza de subjectividade que quase todos têm, e que é o simbolismo traduzido portuguesmente para divino; — a estes dois elementos junta o meu amigo o elemento heróico que os ergue e levanta. Não quero com isto dizer que entre os outros poetas da actual corrente este elemento heróico não exista. O que digo é que em si esse elemento está em pleno equilíbrio com os outros, o que torna o seu voo lírico mais alto, mais límpido, e mais aguentadamente largo. O que com este último adjectivo adverbiado descrevo é que é, para mim, mais importante e de interesse na sua obra. A poesia só de Natureza, por alta que seja, tira o indivíduo demasiadamente de si para o deixar saber construir uma poesia um pouco extensa conexamente: o caso de Wordsworth, que criou a poesia da Natureza, e, com duas excepções, falhou toda a poesia mais do que pequena, é típico. A poesia apenas subjectiva faz com que o indivíduo se extravie de si dentro de si próprio: é, ainda mais que a da Natureza, encurtadora do fôlego espiritual. Escuso de lhe apontar o caso representativo dos simbolistas, os mais puros-subjectivos que a poesia tem tido. — Ora, consoante eu apontei num dos meus artigos n' A Águia , o que dá o especial valor à nossa poesia novíssima é que equilibra a poesia da Natureza, em alto grau inspirada, com a poesia da Alma, em grau tão alto sentida. Mas houve uma coisa que ali não disse, não de propósito, mas porque me escapou naquela primeira análise do assunto. E que há um terceiro elemento, e nesse ainda a nossa nova poesia é pecadora: é a construção , aquilo a que se pode chamar a organicidade de um poema, aquilo que nos dá, ao lê-lo, a impressão que ele é um todo vivo, um todo composto de partes , e não simplesmente partes compondo um todo . — Ora de onde vem a construção ? — isto é, de que qualidades nasce? Eu mostrei que quer a poesia subjectiva, quer a poesia objectiva dá, sendo só ou subjectiva ou objectiva, uma falta, muitas vezes de equilíbrio, e sempre de fôlego. Possuídas em grau igual estas duas formas ideativas, resulta equilíbrio com certeza, mas fôlego não resulta. É que, quer o sentimento do Exterior, por intenso e complexo que seja (e quanto mais intenso ou mais complexo pior) como o sentimento do espírito, por subtil que seja (e tanto mais quanto mais subtil), são, quanto no caso é possível, de sua natureza estáticos ; e da sua combinação, como é de ver, nada resulta que não estático. — Ora construir implica esforço, quer este esforço seja consciente ou inconsciente, rápido ou demorado. À base da construção , poética ou outra, sendo pois de sua natureza um dinamismo , logo se compreende como os sentimentos estáticos que são o da Natureza (que é apenas um complexo contemplar ) e o do Espírito (que é somente um subtil contemplar-se ) conduzam à falência construtiva. (É de notar, naturalmente, que o carácter estático do sentimento da Natureza do da Alma é relativo; puramente estático, quedava-se sem gestos de expressão dentro de si próprio, e nunca dali resultaria arte). Posto isto, que a construtividade poética parte de uma faculdade qualquer, dinâmica de essência, com só mais um passo atingiremos a compreensão de quais são essas faculdades. O dinamismo pode ser de três espécies, evidentemente. Ou é dinamismo do Espírito para o Mundo Externo, ou do Mundo Externo para o Espírito, ou uma síntese destes dois dinamismos especiais. Temos pois que os poetas capazes de construir têm uma de três faculdades. Ou têm aquilo a que chamarei o impulso heróico , que é o dinamismo de dentro para fora, a ânsia de dominar as coisas, de sobrepor à Natureza a individualidade própria. — Ou tem aquilo a que chamarei o impulso religioso , que é o dinamismo de fora para dentro (e que é bom não confundir com o outro sentimento religioso, que é a mais alta manifestação do sentimento da Natureza, mas a que falta o impulso , por ser de mais subjectivo, meditativo apenas), e que vem a ser ânsia, contrária à outra, de se submeter, sem se abandonar (como o místico) a um Deus — impulso de outro modo heróico também, porque essa submissão traz consigo o sentimento contrário ante a Natureza e os homens. — Ou, finalmente, têm o impulso construtivo puro, que, sempre com certo grau de consciência, ainda que inspiradamente, ajusta o interior ao exterior, o detalhe ao todo. Este, que é realmente sintético dos outros, é de espécie e origem diversa. Os homens da Renascença — que foram, na época moderna, os grandes construtivos, tao superiores nisto aos Românticos, por maiores que fossem estes em sentir a Natureza e o Espírito — tinham um ou outro daqueles dinamismos. Os épicos de género guerreiro tinham o primeiro: é mesmo a intensidade do «dinamismo heróico» que aguenta e vivifica Os Lusíadas , e os salva de serem vítimas das pequenas faculdades puramente-críticas de Camões. Milton tem o segundo género de dinamismo. O terceiro parece-me que o encontro em Shakespeare, onde, por exemplo no caso das várias edições do Hamlet , nas constantes alterações, claramente estudadas e cautas, que, ao mesmo tempo que mais e mais deteatrizam (sic) a obra, mais a tornam ligada , e una . Ora, para entrarmos enfim em casa, o que com grande alegria noto no meu amigo como destacando-o entre os novos poetas é a sua capacidade construtiva. O género dessa capacidade é o «dinamismo heróico». Como adiante direi, este dinamismo não está ainda em si plenamente desenvolvido. Fica, pois, feita a descrição do que me parece ser o seu valor como poeta. Ao alto e religioso sentimento da Natureza e ao subtil sentimento do espírito que caracteriza os novos poetas, junta o meu amigo um sentimento heróico que o ergue acima deles, ainda que haja entre eles quem tenha com mais misticidade o sentimento da Natureza e (outros) com mais subtileza o sentimento do Espírito. Passemos aos seus defeitos. Resultam da descrição feita das suas qualidades. São três. O primeiro nasce da própria natureza do dinamismo heróico. O segundo nasce da posse não plena desse dinamismo. O terceiro nasce de aplicações falsas que de vez em quando faz do seu género de dinamismo. Vamos ao primeiro. Por vezes, o meu amigo tem tendência a embriagar-se de heroísmo: resulta daí que, de vez em quando, a sua voz é demasiado alta para o assunto ou para o trecho, as imagens demasiado heróicas para a ocasião. Nas intercalações que faz na Sinfonia da Tarde há disto. Nao é defeito muito importante, e é daqueles a que se costuma chamar «defeitos das qualidades». O segundo defeito pode-lhe fazer mal num poema longo. Na Sinfonia da Tarde há, naquelas mesmas intercalações que já citei — no facto de as ter feito , com prejuízo da curva perfeita da poesia — uma prova desta posse incompleta da sua qualidade principal. Contra este travers é preciso mais cuidado Creio que crescerá para fora dele. É da juventude do seu impulso heróico, parece-me, e não de falha constitucional nele. Contra o terceiro defeito é que eu mais o quereria aconselhar, com toda a franqueza e lealdade crítica que nestas linhas estou pondo. Mas a poesia recente onde o podia ter mostrado — a Esta História ... — está perfeitamente livre dele, está singularmente ligada, conexa, una. É uma das poesias de amor mais perfeitas que há na língua portuguesa. — Onde este seu defeito estava patente era naqueles seus sonetos em tom de ternura que publicou n' A Águia antiga e na actual. Esses — permita-me que lhe diga — são falências absolutas. Essencialmente heróico, o seu espírito só maneja bem o sentimento amoroso quando, como na História , o pode heroicizar. O amor-ternura n 'est pas votre fait . É isto que eu chamo a «aplicação falsa» do seu dinamismo. Noto-lhe tudo isto por lealdade. Mas nao quero que julgue que este defeito lhe diminui o valor do seu género. A espécie de sentimento amoroso que há na História é, mesmo superior a quanto amor-ternura se imagina. Não compreendo muito bem, portanto, como desceu da altura da sua inspiração para aí fazer figura num nível que é inferior ao seu. Tenho a mão cansada e o espírito desconexo. Esta carta é sincera, mas tem um ponto ridículo. É que tendo-lhe eu dito lamentosamente que não analisava, fui analisando e analisando. E que confusamente e tortamente analisei! A minha crítica ao seu espírito de poeta, por sincera que seja, nem é digna da sua individualidade, nem mesmo das horas normais do meu raciocínio. Desculpe-me tudo isto — desde a desconexão à caligrafia — e creia que ninguém mais do que eu admira a sua Alma de poeta e de português, ou mais deseja que ela suba sempre, para uma arte cada vez mais lusitana e perfeita. Disponha sempre do seu Camarada dedicado e comovido admirador Fernando Pessoa 1913 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 89. 1ª publ. in Poesias Escolhidas , de Jaime Cortesão. Lisboa: Arcádia, 1960. Panfleto O Sr. Af[onso] C[osta] não entrou na história por uma porta falsa. O governo provisório não pode assim ser designado. Mas entrou por porta legítima com chave falsa. A esta metáfora [...] a justiça, quasi agradecida. O grande oposicionista parlamentar encontrou no governo o seu Waterloo. Os canhões da sua enérgica eloquência ficam encravados na lama da política construtiva e a grandeza da sua inteligência falha-lhe por razões mais desculpáveis do que [...] Resta-lhe a Santa Helena do seu cartório de advogado onde pode, mais agradavelmente do que o original da metáfora, passar a grande homem aposentado, aureolado pelo afastamento e olhando, com a pose que melhor lhe parecer, por sobre os mares de (...) em direcção às terras da popularidade, donde a ambição o exilara. [...]'s occupation's gone. Fora da política oposicionista, o Sr. Dr. Af[onso] C[osta] era apenas o Sr. Dr. Af[onso] C[osta], ilustre deputado republicano e lente longínquo da Universidade de Coimbra. (...) O [...] que tem penas [?] pode, graças à sugestão, levar uma mão [?] longa [?] em certos terrenos, mas nem o leva direito, nem o leva a toda a parte. Chegado ao ponto de subir a escada da política construtiva, vai mal ao coxo a sugestão de o não ser. Os degraus são muito altos e para dar pulo de um ao outro é preciso mais musculatura nos membros inferiores. Isto é exageradamente metafórico, mas hiperbolicamente certo. A base disto é verdadeira. Se a frase é estilo [?] a mim se deve. Fala a verdade e eu redijo. Argumentei sempre, a sós comigo, isto: que um parlamentar tão brilhante como o Sr. Af[onso] C[osta] ou seria um extraordinário estadista, ou uma nulidade em construir [?] — Encarregou-se o destino — felizmente — de eliminar a primeira hipótese. O Sr. Afonso Costa pertence, p oliticamente, ao passado; [... ] — Trabalha lutando pela República. Trabalha mais ainda, deixando de trabalhar. Foi passando, [. . .], a sua presença nas fileiras combativas. A sua ausência é fecunda. [...] Provocador — foi-o com a liberdade. Deve agora ser [...] s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 60. AS CARICATURAS DE ALMADA NEGREIROS A arte chamada satírica é aquela cujo intuito consiste traduzir um objecto, sem erro de tradução, para inferior a si-próprio. Baseia-se por isso em um dos três sentimentos donde essa intenção pode nascer — o ódio ou aversão, o desprezo, e o interesse fútil, e consciente de ser fútil, que é uma espécie de desprezo carinhoso. A revolta, o riso, o sorriso — eis as três manifestações que consoante o sentimento gerador, tenta produzir com respeito ao objecto que trata. Toda a outra arte procura tornar o seu objecto superior a si-próprio, busca nele uma qualquer espécie de além-ele. Desde que a intenção da arte deixe de ser o tornar o objecto superior a si-próprio, passa fatalmente a ser o torná-lo inferior a si-próprio, visto que a via média não existe, porque (pois que a arte é essencialmente interpretação) uma coisa é igual a si-própria nunca na arte, mas só na vida. Basta considerar um objecto futilmente, como meramente interessante , para o inferiorizar, visto que cada Coisa ou Sensação, momento espacial ou psíquico do Mistério, ou, pelo menos, da Vida, basta que seja considerada sem uma consciência clara ou obscura de que é isso, para ser ipso facto traduzida para inferior a si-própria. Daí o existir, além do ódio (que produz a revolta) e o desprezo (que produz o riso), o interesse fútil (que produz o sorriso) como sentimento gerador de obra satírica, propriamente assim chamada. Daí o carácter basilarmente negativo da arte satírica. Acontece porém que toda a arte é criação; ora sendo toda a arte criação, e sendo toda a criação, por sua natureza, afirmação, resulta que a arte satírica, que é negativa, encerra em sua essência o paradoxo de que é grande na proporção em que sai para fora de ser satírica. Quanto mais satírica menos satírica. Aí estão o «Dom Quixote» e «A Tale of a Tub» a pedirem que os citemos como exemplos. Não se julgue porém que isto — mera constatação — leva escondido o puxar para desprezível a arte de satirizar. Nessa arte, como na outra, pode haver, e em cada um dos seus três géneros, brilhantismo, talento e génio. Pode haver mesmo um artista genial em nos dar o interesse fútil das coisas; basta que no-lo dê com a plena dolorosa consciência dessa futilidade. E isso é porque (voltemos ao mesmo paradoxo) já essa dor da consciência do fútil nos leva para além da sátira. Porque o génio satírico é aquele que, quer faça sátira pelo ódio, quer pelo desprezo, quer pelo interesse fútil, nos dá o além odioso, o além ridículo, o além fútil. O talento , em qualquer dos três géneros, será aquele que cegantemente, multiformalmente, nos der o fútil como fútil, o ridículo como ridículo o odioso como odioso. — O meramente inteligente ou brilhante será aquele que, não sem individualidade, mas sem vincada forma pessoal e acentuado polimorfismo, nos der o que ao seu género convenha. Se, de posse destes claros elementos para a crítica, nos aproximarmos da obra de Almada Negreiros, agora exposta em Lisboa, não teremos dificuldade para pragas em lhe encontrar classificação. Almada Negreiros pertence aos satiristas que se aplicam a dar a futilidade das coisas. A sua arte é suavemente para o sorriso. Não tem nem ódios nem desprezos, pelo menos artisticamente; por isso a sua arte não nos deixa na alma rasto de revolta ou eco de gargalhada. Ele observa interessadamente, mas não traz, pelo menos por enquanto, sentimentos profundos para a sua observação. Vê, acha curioso, e fixa em traço e cor o sorriso da sua alma atenta. Isto, porém, é uma classificação de espécie, não de valor. O que nos importa saber é o valor do artista dentro do género a que pertence. Que Almada Negreiros não é um génio — manifesta-se em não se manifestar. Nada de dolorosamente consciente de quanto o fútil simboliza e resume das coisas da Vida. Um ou outro assunto é tratado mais a sério; mas nem esse sério leva em si pequena porção que seja de individualidade e especialidade, nem, mesmo, o sério é o doloroso. Mas que este artista tem brilhantismo e inteligência, muito e muita — eis o que está fora de se poder querer negar. Mas terá talento? O ponto para quem quer discutir é este. Eu creio que ele tem talento. Basta reparar que ao sorriso do seu lápis se liga o polimorfismo da sua arte para voltarmos as costas a conceder-lhe inteligência apenas. É interessante de vários modos, interessado de várias maneiras na futilidade da Vida, apanhando-lhe ora este, ora aquele, momento de espuma, sem consciência, infelizmente, de que essa espuma é a orla de um mar antigo, vasto e misterioso. E o seu polimorfismo — a que atribuí-lo, cingindo-nos criticamente só a ele? Será poliaptidão do artista, incerteza em encontrar-se, ou uma assemelhável imitação ou adaptação a vários géneros? Creio na Síntese, sempre, e aqui ela vem em meu auxílio. Porque me parece que de todos estes três elementos se forma o multiforrnismo do artista. Há qualquer coisa de procurar ; há, infelizmente, também qualquer coisa de achar (nos outros); — mas há também, para quem sabe ver, nitidamente personalidade e originalidade através de essas influenciações e tentativas. 1913 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 99. 1ª publ. in “A Águia”, 2ª série, nº 16. Porto: Abr. 1913. (...) psíquicos são igualmente característicos de todos os homens de acção, de todos os tempos; eles seriam, se existissem, absolutas peias, constantemente atrasando os gestos. E, finalmente, se, passando para a esfera da Vontade, fôssemos mostrar que Costa é intolerante, duma energia despótica, (...) o mesmo reparo merecíamos que nos fizessem. Porque essa condição da vontade impõe-se que exista em todo o homem de acção, em todo o condutor de homens. Sem ela, ele não o seria. Mas — e aqui é que começa a haver a análise legítima — dentro desses detalhes psíquicos, dentro da incapacidade de abstracção, da ausência de sentimentalidade vulgar, da dureza e agressividade da vontade, cabem muitos graus, muitos matizes, muitas diversidades. Entram aqui em jogo, já, outros factores, precisamente aqueles que dependem do meio onde o meneur vive, da gente que conduz, representando-a. No ponto de vista ideativo, Costa distingue-se por uma instabilidade ideativa quase absoluta, limitada apenas por aquelas ideias, das quais não pode abdicar, porque, se delas abdicasse, abdicaria do seu poder. Isto é, a sua instabilidade ideativa não o leva a passar de republicano para monárquico; tal erro ser-lhe-ia mortal, nem podia tal erro ser cometido por quem é um meneur, um condutor de homens. Mas, à parte essas ideias que ele tem de ter por força, sob risco de perder a sua influência, muda de ideias como a gente dos outros partidos muda de camisa. Hoje germanófilo, anglófilo amanhã; etc.... Instabilidade de ideias, feitio destrutivo como legislador (A[ntónio] J[osé] d'A[lmeida], que é um histérico evidente, oscila entre o destrutivo e o construtivo e não fica só no destrutivo). No campo sentimental, a inteira falta de generosidade, de magnanimidade, de tolerância, nem por ímpetos. No campo volitivo, (...) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 61. PARA A MEMÓRIA DE ANTÓNIO NOBRE Quando a hora do ultimatum abriu em Portugal, para não mais se fecharem, as portas do templo de Jano, o deus bifronte revelou-se na literatura nas duas maneiras correspondentes à dupla direcção do seu olhar. Junqueiro — o de « Pátria » e « Finis Patriae » — foi a face que olha para o Futuro, e se exalta. António Nobre foi a face que olha para o Passado, e se entristece. De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas. Têm subido a um sentido mais alto e divino do que ele balbuciou. Mas ele foi o primeiro a pôr em europeu este sentimento português das almas e das coisas, que tem pena de que umas não sejam corpos, para lhes poder fazer festas, e de que outras não sejam gente, para poder falar com elas. O ingénuo panteísmo da Raça, que tem carinhos de espontânea frase para com as árvores e as pedras, desabrochou nele melancolicamente. Ele vem no Outono e pelo crepúsculo. Pobre de quem o compreende e ama! O sublime nele é humilde, o orgulho ingénuo, e há um sabor de infância triste no mais adulto horror do seu tédio e das suas desesperanças. Não o encontramos senão entre o desfolhar das rosas e nos jardins desertos. Os seus braços esqueceram a alegria do gesto, e o seu sorriso é o rumor de uma festa longínqua, em que nada de nós toma parte, salvo a imaginação. Dos seus versos não se tira, felizmente, ensinamento nenhum. Roça rente a muros nocturnos a desgraça das suas emoções. Esconde-se de alheios olhos o próprio esplendor do seu desespero. Às vezes, entre o princípio e o fim de um seu verso, intercala-se um cansaço, um encolher de ombros, uma angústia ao mundo. O exército dos seus sentimentos perdeu as bandeiras numa batalha que nunca ousou travar. As suas ternuras amuadas por si próprio; as suas pequenas corridas de criança, mal-ousada, até aos portões da quinta, para retroceder, esperando que ninguém houvesse visto; as suas meditações no limiar; ...e as águas correntes no nosso ouvido; a longa convalescença febril ainda por todos os sentidos; e as tardes, os tanques da quinta, os caminhos onde o vento já não ergue a poeira, o regresso de romarias, as férias que se desmancham, tábua a tábua, e o guardar nas gavetas secretas das cartas que nunca se mandaram... A que sonhos de que Musa exilada pertenceu aquela vida de Poeta? Quando ele nasceu, nascemos todos nós. A tristeza que cada um de nós traz consigo, mesmo no sentido da sua alegria é ele ainda, e a vida dele, nunca perfeitamente real nem com certeza vivida, é, afinal, a súmula da vida que vivemos — órfãos de pai e de mãe, perdidos de Deus, no meio da floresta, e chorando, chorando inutilmente, sem outra consolação do que essa, infantil, de sabermos que é inutilmente que choramos. 1915 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 115. 1ª publ. in “A Galera”, nº 5-6. Coimbra: Fev. 1915. Esta lei de imprensa pouco tem sido atacada. Claro está que uma injustiça nem por ser sociologicamente justificável deixa de ser uma injustiça. Mostra que o sr. dr. Af[onso] C[osta] não tinha realmente a noção do que era a dignidade da imprensa. Acordamos quanto a essa noção que era difícil obtê-la experimentalmente em Portugal, e mesmo no estrangeiro, onde as coisas estão, em geral, [...] piores. Mostra também que o culto [?] [...] da justiça é tão obtuso para o que seja o papel da imprensa — ainda que esse papel seja o que ela nunca preenche — em que ele falava, e em que o Mundo falou. Os seus argumentos contra a lei de imprensa nem por serem certos (alguns) deixavam de ser argumentos de deputado da oposição, e não de deputado do povo. Atacar um p[rojecto] de lei em nome de certos princípios e evitá-los ao legislar no assunto; dizer na oposição uma coisa e servindo-se de certa espécie de ideias que [...] dizem morais, e intelectuais mesmo, e chegar ao poder e fazer nitidamente o contrário — o que é isto senão monarquismo e monarquismo puro, do monarquismo que nos trouxe ao estado em que estamos e que, criticando-se [?] na república em certos países que inconscientemente (...) "Dignidade de imprensa", "saudosismo", (...) — [...] aguentaram o Sr. Dr. Af[onso] Costa, quando eminente parlamentar. Com estas ideias verbalmente morais e justas agredia ele com o aplauso de muita gente, incluindo alguns entendidos, e outros entendidos, no sentido em que entendidos se entendem. (...) Tão falho nisto de intenções sérias e de sentimentos justos, como havemos de supor que em outros assuntos, ainda que os resolva a sabor da maioria (...), não os resolva atrapalhadamente e apenas com o fito imoral de agradar e (...)? Se precisamente o Sr. V. F. [...] intenções (...) na lei de imprensa, na de associação [?] e outras é o que nos dá o direito de concluir que o augusto (...) nas opiniões do exército era um estratagema, uma tentativa de solução legal e não uma manifestação do espírito justiceiro ou interessado, como não ver que o caso do Sr. Afonso Costa — barrete frígio à parte — é o mesmo precisamente que a lei de imprensa (a lei ultra-celerada) trai um estado de alma que não se coaduna com a atribuição ao indivíduo, cujo é a alma que tem esse estado, de intenções inteiramente incompatíveis com um desejo sincero de servir o país, o povo, entendendo-se por país [...] não só aquela parte do território nacional que está fora das paredes da casa do Sr. Dr. Afonso Costa — [...] Benfica — (...), e por povo toda a gente portuguesa, no número da qual entram, além do Sr. Afonso Costa e da sua família, os restantes membros da nossa nação, incluindo o Sr. (...) e o Sr. Homem Cristo. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 62. ANTÓNIO BOTTO E O IDEAL ESTÉTICO EM PORTUGAL António Botto é o único português, dos que conhecidamente escrevem, a quem a designação de esteta se pode aplicar sem dissonância. Com um perfeito instinto ele segue o ideal a que se tem chamado estético, e que é uma das formas, se bem que a ínfima, do ideal helénico. Segue-o, porém, a par de com o instinto, com uma perfeita inteligência, porque os ideais gregos, como são intelectuais, não podem ser seguidos inconscientemente. A obra de António Botto, no que realmente típica, resume-se, por ora, no seu último livro, « Canções ». Que essa obra se distingue com facilidade da obra de qualquer outro poeta, português ou estrangeiro — todos, que possam ver, o podem ver. Já não é tão fácil explicar em que consiste, distintivamente, essa diferença. Algum interesse haverá em determiná-lo. Nasce o ideal da nossa consciência da imperfeição da vida. Tantos, portanto, serão os ideais possíveis, quantos forem os modos por que é possível ter a vida por imperfeita. A cada modo de a ter por imperfeita corresponderá, por contraste e semelhança, um conceito de perfeição. É a esse conceito de perfeição que se dá o nome de ideal. Por muitas que pareça que devem ser as maneiras por que se pode ter a vida por imperfeita, elas são, fundamentalmente, apenas três. Com efeito, há só três conceitos possíveis de imperfeição, e, portanto, da perfeição que se lhe opõe. Podemos ter qualquer coisa por imperfeita simplesmente por ela ser imperfeita; é a imperfeição que imputamos a um artefacto mal fabricado. Podemos, por contra, tê-la por imperfeita porque a imperfeicão resida, não na realização, senão na essência. Será quantitativa ou qualitativa a diferença entre a essência dessa coisa imperfeita e a essência do que consideramos perfeição; quantitativa como se disséssemos da noite, comparando-a ao dia, que é imperfeita porque é menos clara; qualitativa como se, no mesmo caso, disséssemos que a noite é imperfeita porque é o contrário do dia. Pelo primeiro destes critérios, aplicando-o ao conjunto da vida, tê-la-emos por imperfeita por nos parecer que falece naquilo mesmo por que se define, naquilo mesmo que parece que deveria ser. Assim, todo o corpo é imperfeito porque não é um corpo perfeito; toda a vida imperfeita porque, durando, não dura sempre; todo o prazer imperfeito porque o envelhece o cansaço; toda a compreensão imperfeita porque, quanto mais se expande, em maiores fronteiras confina com o incompreensível que a cerca. Quem sente desta maneira a imperfeição da vida, quem assim a compara com ela própria, tendo-a por infiel à sua própria natureza, força é que sinta como ideal um conceito de perfeição que se apoie na mesma vida. Este ideal de perfeição é o ideal helénico, ou o que pode assim designar-se, por terem sido os gregos antigos quem mais distintivamente o teve, quem, em verdade, o formou, de quem, por certo, ele foi herdado pelas civilizações posteriores. Pelo segundo destes critérios teremos a vida por imperfeita por uma deficiência quantitativa da sua essência, ou, em outras palavras, por a considerarmos inferior — inferior a qualquer coisa, ou a qualquer princípio, em o qual, em relação a ela, resida a superioridade. É esta inferioridade essencial que, neste critério, dá às coisas a imperfeição que elas mostram. Porque é vil e terreno, o corpo morre; não dura o prazer, porque é do corpo, e por isso vil, e a essência do que é vil é não poder durar; desaparece a juventude porque é um episódio desta vida passageira; murcha a beleza que vemos porque cresce na haste temporal. Só Deus, e a alma, que ele criou e se lhe assemelha, são a perfeição e a verdadeira vida. Este é o ideal a que poderemos chamar cristão, não só porque é o cristianismo a religião que mais perfeitamente o definiu, mas também porque é aquela que mais perfeitamente o definiu para nós. Pelo último dos mesmos critérios teremos a vida por imperfeita por a julgarmos consubstanciada com a imperfeição, isto é, não existente, porque a não existência, sendo a negação suprema, é a absoluta imperfeição. Teremos a vida por ilusória não já imperfeita, como para os gregos, por não ser perfeita, não já imperfeita, como para os cristãos, por ser vil e material; senão imperfeita por não existir, por ser mera aparência, absolutamente aparência, vil portanto, se vil, não tanto com a vileza do que é vil, quanto com a vileza do que é falso. É deste conceito de imperfeição que nasce aquela forma do ideal que nos é mais familiarmente conhecida no budismo, embora as suas manifestações houvessem surgido na Índia muito antes daquele sistema místico, filhos ambos, ele como elas, do mesmo substrato metafísico. É certo que este ideal aparece, com formas e aplicações diversas, nos espiritualistas simbólicos, ou ocultistas, de quase todas as confissões. Como, porém, foi na Índia que as manifestações formais dele distintivamente apareceram, poderemos ser imprecisos, porém não seremos inexactos, se dermos a este ideal, por conveniência, o nome de ideal índio. Pela própria natureza do seu ideal, é a civilização helénica essencialmente a civilização artística. Fazer arte é querer tornar o mundo mais belo, porque a obra de arte, uma vez feita, constitui beleza objectiva, beleza acrescentada à que há no mundo. Para que esta actividade lembre e preocupe, é mister haver um critério objectivo de beleza ou de perfeição. Ora, dos três critérios de perfeição só o dos gregos tem objectividade. Que impulso natural pode ter para criar obras de arte, formas que pertencem ao mundo e à vida, quem, como o cristão, tem o mundo por pó e mal, a vida por vileza e pecado, ou quem, como o místico da Índia, tem toda a Aparência por ilusão absoluta, flor que nasceu murcha na haste da Mentira? Se a criação artística não procedesse de um instinto irreprimível nas comunidades civilizadas, nunca teria havido arte índia, nem cristã. E a arte cristã, por certo, ter-se-ia aproximado mais da imperfeição estrutural e formal da arte índia, se não fosse que o helenismo é um elemento componente do cristianismo, e que a arte dos povos cristãos, tendo a dos gregos por exemplar, se guia, nas suas manifestações superiores, pelos princípios assentes como fundamentais pelo preceito e exemplo dos clássicos. Há, porém, uma outra razão, esta mais emotiva e profunda, para que o ideal helénico seja, de todos, o que mais directamente conduz à criação artística. O cristão é metafisicamente feliz. Tem os olhos da alma postos naquela perfeição divina em que não há mudança nem cessação. Pesa-lhe pouco a vileza do mundo: viver e ver são para ele um mal-estar transitório. Ao índio nada dói o haver mundo; volta para o lado o rosto, e contempla em êxtase o Todo a que nem o Nada falta. É metafisicamente feliz também. Qutra é a vida espiritual do homem de ideal helénico. Esse vê que a vida é imperfeita, porque é imperfeita; porém não rejeita a vida, porque é na mesma vida que tem postos os olhos. Mesmo que veja no mundo dos deuses aquela beleza suprema, pela qual anseia, anseia também por essa beleza nos homens. «A raça dos deuses e dos homens é uma só», disse Píndaro; a uns deve pertencer o que aos outros pertence. Por isso, dos três idealistas, é o heleno o único que não pode rejeitar aquela vida a que chama imperfeita. O seu ideal é, portanto, humanamente o mais trágico e profundo. De aqui o que resulta? A carência de uma fé religiosa, de uma confiança, moral ou metafísica, no Além, reduz as almas vis ou à materialidade animal, ou à estéril ficção de um milénio do estômago — o socialismo, o anarquismo, e todos os plutocratismos invertidos que se lhes assemelham; por isso os mais cépticos dos gregos e dos romanos nunca pretenderam que se destruísse a fé religiosa das plebes por estulta e irrisória que a julgassem. Se é este, porém, o efeito do ideal puramente objectivo nas almas inferiores, nos espíritos superiores, que são os susceptíveis de criar, o efeito é outro. Não podendo buscar consolação espiritual na religião, força é que a busquem na vida. Como, porém, encontrá-la na vida, se a vida é imperfeita, e o imperfeito, por sua natureza, não pode construir ideal, porque o ideal é perfeição? Aperfeiçoando a vida, para que a sua imperfeição lhes doa menos. Aperfeiçoando-a como? Objectivamente não pode ser, porque a acção humana sobre o universo é menos que limitadíssima. É portanto só subjectivamente que se pode aperfeiçoá-la, aperfeiçoando o conceito e o sentimento dela. A consolação e o repouso, no que podem atingir-se, só a Arte, portanto, os pode dar. A Arte é, com efeito, o aperfeiçoamento subjectivo da vida. A calma, o equilíbrio, a harmonia, característicos distintivos, com outros, que os não contradizem, da arte grega, provam bem que não é abusiva a atribuição desta íntima direcção lógica ao caminho do instinto helénico para o ideal estético absoluto. Quando o heleno pretende pôr em arte o seu ideal, isto é, quando o ideal helénico assume o aspecto criador ou activo, são três as formas de manifestação por que se revela. Na primeira, e mais alta, dessas formas, o heleno, vendo que a vida é imperfeita, busca criar, ele, a perfeição, substituindo a arte à vida; e busca incluir em cada obra, para que a substituição seja perfeita, ou toda a vida ou um aspecto supremo da vida. É esta a forma intelectual e construtiva do ideal estético absoluto; Homero e Vergílio dos antigos, Dante e Milton dos modernos, são os representantes máximos dela. As obras destes poetas mostram a preocupação severa da perfeição absoluta, revelada tanto na estruturação harmónica de um conjunto pleno de significação, quanto na execução escrupulosa de todos os elementos seus componentes. Na segunda, e média, dessas formas, o heleno sentindo que a vida é imperfeita, busca aperfeiçoá-la em si próprio, vivendo-a com uma compreensão intensa, vivendo de dentro, com o espírito, a essência do transitório e do imperfeito. E esta a forma emotiva e dolorosa do ideal estético absoluto; foi este conceito da vida o que criou a tragédia, desconhecida, como espécie emotiva e estética, antes dos gregos. Na terceira, e ínfima, dessas formas, o heleno, vendo e sentindo vagamente a imperfeição das coisas, porém sem força espiritual, quer para construir uma perfeição que as substitua, quer para se consubstanciar emotivamente com a sua imperfeição, decide aceitá-las como se fossem perfeitas, escolhendo em cada uma aquele momento, aquele gesto, aquela passagem que de tal modo encheu a nossa capacidade de sensação que naquele momento, naquele gesto, naquela passagem, a sentimos perfeita. É esta a forma sensual do ideal estético absoluto; forma débil, porque não a energiza uma reacção da inteligência, vazia, porque a emoção lhe não dá corpo, mas por isso mesmo, porque é estética e mais nada, propriamente classificável de ideal estético, sem qualificação. De que maneira, por que processo reconheceremos o esteta, propriamente tal, na sua obra? Quais são os sinais necessários da aplicação do ideal estético? Como distinguiremos, se se trata de poetas, o esteta do poeta simples, que canta simplesmente o prazer e a vida, porque lhe não cabe mais na alma? Como distinguiremos o esteta do cristão revoltado, que procura o pecado só porque é pecado, e blasfema, embora subtilmente, só para ter a consciência da blasfémia? Em outras palavras, como distinguiremos o esteta do satânico menor? A distinção não apresenta dificuldade, desde que nos representemos com clareza em que consiste necessariamente a aplicação activa do ideal estético. Se o ideal estético consiste na consideração vaga de que a vida é imperfeita, e que só é perfeita, num momento feliz, a nossa sensação dela, força é que essa consideração não atinja um alto grau de absorção metafísica ou moral; porque, se for altamente metafísica haverá consciência de mais para poder haver ilusão, e, se for altamente moral, haverá dor de sobra para que a ilusão possa agradar. O primeiro característico da arte do esteta é pois a ausência de elementos metafísicos e morais na substância da sua ideação. Como, porém, os ideais helénicos procedem todos de uma aplicação directamente crítica da inteligência à vida, e da sensibilidade ao conteúdo dela, essa ausência de metafísica não será uma ausência de ideias metafísicas, nem essa ausência de moral uma ausência de ideias morais. Há uma ideia que, sem ser metafísica nem moral, faz, na obra do esteta, as vezes das ideias morais e metafísicas. O esteta substitui a ideia de beleza à ideia de verdade e à ideia de bem, porém dá, por isso mesmo, a essa ideia de beleza um alcance metafísico e moral. A célebre «Conclusão» da « Renascença » de Pater, o maior dos estetas europeus, é o exemplo culminante desta atitude. Nisto se distingue a obra do esteta da obra do artista simples, em quem os elementos metafísicos e morais são ausentes, não por diferença de ideal, senão por ausência dele. Se, porém, o esteta substitui a ideia de beleza à ideia de verdade e à de bem, o certo é que, por isso mesmo que as substituiu por outra, se não interessa pelas ideias de bem e de verdade. Não é por isso, propriamente, nem céptico nem imoral; o propósito de ser céptico revela uma preocupação metafísica, o de ser imoral uma preocupação ética, e o carácter negativo de ambas as preocupações não as torna menos preocupações. Nisto claramente se distingue o esteta do mau cristão decadente, como Baudelaire ou Wilde. Se tivermos presentes estas considerações na análise do livro de António Botto, não nos será difícil determinar que esse livro representa uma das revelações mais raras e perfeitas do ideal estético, que se podem imaginar. Que a substância do livro é altamente intelectual, revela-o o estudo cuidado da forma e ritmo, a escolha severa dos momentos representativos, a falta de espontaneidade emotiva que em cada verso se manifesta. Tudo é pensado, tudo é crítico e consciente. Não há, porém, como seria de esperar de uma inteligência tão constantemente empregada, metafísica nenhuma, nem explícita nem implícita, interesse nenhum pelas ideias como tais. É uma inteligência que dirige, porém não pensa; que compreende, porém não aprofunda; que guia, porém não se preocupa. Nem positivamente, nem negativamente, sugere o livro « Canções » qualquer metafísica. Duas ideias centrais governam a inspiração do poeta, e lhe servem de metafísica e de moral. São as ideias de beleza física e de prazer. A análise do conteúdo dessas duas ideias, tais quais se nos apresentam nas « Canções », revelará o esteta inequivocamente. No modo como apresenta a primeira delas, o poeta afasta-se de toda a espécie de moralidade; no modo como apresenta a segunda, de toda a espécie de imoralidade. Das três formas, que podemos conceber, da beleza física — a graça, a força e a perfeição — , o corpo feminino tem só a primeira, porque não pode ter a beleza da força sem quebra da sua feminilidade, isto é, sem perda do seu carácter próprio; o corpo masculino pode, sem quebra da sua masculinidade, reunir a graça e a força; a perfeição só aos corpos dos deuses, se existem, é dado tê-la. Um homem, se se guiar pelo instinto sexual, e não pelo instinto estético, cantará, como poeta, só o corpo feminino. Essa atitude representa uma preocupação exclusivamente moral. O instinto sexual, normalmente tendente para o sexo oposto, é o mais rudimentar dos instintos morais. A sexualidade é uma ética animal, a primeira e a mais instintiva das éticas. Como, porém, o esteta canta a beleza sem preocupação ética, segue que a cantará onde mais a encontre, e não onde sugestões externas à estética, como a sugestão sexual, o façam procurá-la. Como se guia, pois, só pela beleza, o esteta canta de preferência o corpo masculino, por ser o corpo humano que mais elementos de beleza, dos poucos que há, pode acumular. Foi assim que pensaram os gregos; foi esse pensamento que Winckelmann, fundador do estetismo na Europa, descobrindo-o neles, reproduziu, como no passo célebre que Pater transcreveu, e que parece feito para servir de prefácio a um livro como « Canções »; «Como é confessadamente a beleza do homem que tem que ser concebida sob uma ideia geral, assim tenho notado que aqueles que observam a beleza só nas mulheres, e pouco ou nada se comovem com a beleza dos homens, raras vezes têm instinto imparcial, vital, inato da beleza na arte. A pessoas como essas a beleza da arte grega parecerá sempre falha, porque a sua beleza suprema é antes masculina que feminina». Ora é este conceito puramente estético, da beleza física que é, como todos sabem, porque escandalizadamente se notou, uma das duas ideias inspiradoras das « Canções ». Disse eu que António Botto se afasta de toda a moralidade no modo por que canta a beleza física, e que se afasta de toda a imoralidade no modo por que canta o prazer. De que modo canta ele o prazer? Que modo há-de cantar o prazer que, sem ser moral (porque se o fosse, estaríamos fora do caso estético), se afaste da imoralidade? Para com o prazer há três atitudes possíveis — aceitá-lo, rejeitá-lo, aceitá-lo com moderação. A cada uma destas atitudes correspondem graus vários de moralidade e de imoralidade, porque pode haver moralidade no modo de aceitar o prazer, e imoralidade na maneiras de rejeitá-lo. Aqui, porém, trata-se de quem aceita o prazer, e só o prazer; não temos portanto que considerar as outras hipóteses. Aceite o prazer, e só o prazer, de que modo pode ele ser aceite? Pode ser aceite como alegria, ou como forma da alegria, e é esta a maneira moral, porque é natural, de aceitar o prazer. Pode ser aceite como excitação, como, por assim dizer, a única forma agradável da dor, pois que toda a excitação — tomada a palavra no sentido vulgar, e não no fisiológico — tem um fundo de dor; e é esta a maneira imoral, porque é a antinatural, de aceitar o prazer. Pode, finalmente, ser aceite simplesmente como prazer, como, em sua essência, nem alegre nem triste, porém a única coisa que pode encher o vácuo absurdo da existência. Deste conceito de prazer não se pode dizer que seja moral nem imoral, logo que se não esqueça que se está considerando o prazer só, isolando-o de qualquer outro elemento da vida. Quem leia com atenção normal o livro « Canções », não tardará que veja, é este último o conceito que António Botto forma do prazer, que é neste sentido de compreendê-lo que ele o canta. « Canções » é um hino ao prazer, porém não ao prazer como alegria, nem como raiva, senão simplesmente como prazer. O prazer, como o poeta o canta, nem serve de despertar a alegria da vida, nem de ministrar um antídoto a uma dor substancial constante; serve apenas de encher um vácuo espiritual, a ser conceito de vida a quem não tem nenhum. Há neste livro, sim, a intuição do fundo trágico do ideal helénico, do fundo trágico de todo o prazer que sabe que não tem além. Essa intuição, porém, se é do que é trágico, não é trágica em si. Este prazer não tem a cor da alegria, nem a da dor. «A alegria» disse Nietzsche, «quer eternidade, quer profunda eternidade». Não é, nem nunca foi assim: a alegria não quer nada, e é por isso que é alegria. A dor, essa, é o contrário da alegria, como a concebia Nietzsche: quer acabar, quer não ser. O prazer, porém, quando o concebemos fora da relação essencial com a alegria ou com a dor, como concebe o autor deste livro, esse, sim, quer eternidade; porém quer a eternidade num só momento. Resulta destas considerações, que me esforcei por fazer lúcidas e concisas, a determinação exacta de que António Botto, no seu livro « Canções », se revela um dos tipos mais perfeitos e mais íntegros do esteta, que se podem imaginar. Que importância tem este facto? A de representar uma raridade. O tipo perfeito do esteta é raríssimo na civilização cristã, ou de origem cristã, e mais que raro, porque, até às « Canções », desconhecido, em Portugal. A razão dessa raridade, quer em toda a Europa, quer em Portugal, e o valor que nela haja, são relativamente fáceis de compreender. O ideal estético é, como se viu, uma das formas — a mais ténue e vazia — do ideal helénico; mas, por isso mesmo que é a mais ténue e vazia delas, é a mais explicitamente representativa daquele ideal. Para que apareça um tipo de esteta é necessário um meio social análogo ao meio social helénico. Ora o meio social europeu, se é certo que modernamente, e em algumas das suas manifestações, de certo modo se aproxima, tanto quanto pode ser, do meio social da Grécia antiga, é em todo o caso, radicalmente diferente dele. Segue que o aparecimento na Europa moderna de um tipo íntegro de esteta só pode dar-se por um desvio patológico, isto é, por uma inadaptação estrutural aos princípios constitutivos da civilização europeia, em que vivemos. Este desvio patológico é, porém, no caso dos grandes estetas europeus o elemento predisponente, se bem que, por isso mesmo, radical, do seu estetismo; a ele se acrescenta uma mergência prolongada do espírito na atmosfera helénica, que lhe cria um perpétuo contacto, ainda que só intelectual, com a Grécia antiga e os seus ideais. Da acção deste segundo elemento sobre o primeiro o esteta desabrocha. São desta origem os estetismos de Winckelmann e de Pater, quase, em verdade, os únicos tipos exactos do esteta que a civilização europeia pode apresentar. Como, porém, este estetismo tem uma base cultural, resulta que tem a plenitude e a largueza que distinguem todos os produtos culturais, em contraposição aos naturais seus semelhantes, e por isso de algum modo transcende a estreiteza específica do ideal estético, sem todavia deixar de lhe pertencer. Como os elementos culturais são inteiramente negativos na obra de António Botto, vemo-nos forçados a assentar em que o seu estetismo nasce de um simples desvio patológico, sem solicitação cultural eficiente. Este processo de ser esteta apresenta uma singularidade notável: é um desvio patológico sem desequilíbrio, porque todos os ideais gregos (e portanto o estético, que é um deles) são essencialmente equilibrados e harmónicos. Ora um desvio patológico equilibrado é uma de duas coisas — ou o génio ou o talento. Ambos estes fenómenos são desvios patológicos, porque, biologicamente considerados, são anormais; porém não são só anormais, porque têm uma aceitação exterior, tendo, portanto, um equilíbrio. A esse desvio equilibrado chamar-se-á génio quando é sintético, talento quando é analítico; génio quando resulta da fusão original de vários elementos, talento quando procede do isolamento original de um só elemento. Adentro do ideal estético, os casos de Winckelmann e de Pater representam o génio, porque a tendência para a realização cultural imanente no seu estetismo ingénito é, por sua natureza, sintética, o caso de António Botto representa o talento, porque o ideal estético, dada a sua estreiteza e vacuidade, representa já o senso estético isolado de todos os outros elementos psíquicos, e, no caso de António Botto, esteta simples, esse isolamento não se modifica, como no estetismo culto, pelo reflexo nele da multiplicidade dos objectos de cultura. Temos, pois, por demonstração severamente conduzida, que o livro « Canções » é uma obra de talento, tendo além desse, o valor acessório e especial de ser o único exemplo, que eu saiba, na literatura europeia, do isolamento espontâneo e absoluto do ideal estético em toda a sua vazia integridade. À parte este valor, que pertence àquela obra em absoluto, isto é, como obra e não como obra em português, o livro « Canções » tem, para nós em Portugal, um outro aspecto de valor, já de ordem relativa. É que é o único exemplo em Portugal da realização literária, de qualquer espécie, do ideal estético. Facilmente o verificará quem houver lido com atenção o que estabelecemos sobre os característicos do esteta. Artistas tem havido muitos em Portugal; estetas só o autor das « Canções ». 1922 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 119. 1ª publ. in “Contemporânea”, nº 3. Lisboa: Julho. 1922. Vem o Sr. Afonso Costa,.. Aquilo é que é uma besta! Empurramo-lo ao poder e agora fere-nos, estando nós por detrás dele. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 63. ATHENA Tem duas formas, ou modos, o que chamamos cultura. Não é a cultura senão o aperfeiçoamento subjectivo da vida. Esse aperfeiçoamento é directo ou indirecto; ao primeiro se chama arte, ciência ao segundo. Pela arte nos aperfeiçoamos a nós; pela ciência aperfeiçoamos em nós o nosso conceito, ou ilusão, do mundo. Como, porém, o nosso conceito do mundo compreende o que fazemos de nós mesmos, e, por outra parte, no conceito, que de nós formamos, se contém o que formamos das sensações, pelas quais o mundo nos é dado; sucede que em seus fundamentos subjectivos, e portanto na sua maior perfeição em nós — que não é senão a sua maior conformidade com esses mesmos fundamentos — , a arte se mistura com a ciência, a ciência se confunde com a arte. Com tal assiduidade e estudo se empregam os sumos artistas no conhecimento das matérias, de que hão-de servir-se, que antes parecem sábios do que imaginam, que aprendizes da sua imaginação. Nem escasseiam, assim nas obras como nos dizeres dos grandes sabedores, lucilações lógicas do sublime; em a lição deles se inventou o dito, o belo é o esplendor do vero, que a tradição exemplarmente errónea, atribuiu a Platão. E na acção mais perfeita que nos figuramos — a dos que chamamos deuses — aunamos por instinto as duas formas da cultura: figuramo-los criando como artistas, sabendo como sábios, porém em um só acto; pois o que criam, o criam inteiramente, como verdade, que não como criação; e o que sabem, o sabem inteiramente, porque o não descobriram mas criaram. Se é lícito que aceitemos que a alma se divide em duas partes — uma como material, a outra puro espírito —, de qualquer conjunto ou homem hoje civilizado, que deve a primeira à nação que é ou em que nasceu, a segunda à Grécia antiga. Exceptas as forças cegas da Natureza, disse Sumner Maine, quanto neste mundo se move, é grego na sua origem. Estes gregos, que ainda nos governam de além dos próprios túmulos desfeitos, figuraram em dois deuses a produção da arte, cujas formas todas lhes devemos e de que só não criaram a necessidade e a imperfeição. Figuraram em o deus Apolo a liga instintiva da sensibilidade com o entendimento em cuja acção a arte tem origem como beleza. Figuraram em a deusa Athena a união da arte e da ciência, em cujo efeito a arte (como também a ciência) tem origem como perfeição. Sob o influxo do deus nasce o poeta, entendendo nós por poesia, como outros, o princípio animador de todas as artes; com o auxílio da deusa se forma o artista. Com esta ordem de símbolos — e assim nesta matéria como em outras — ensinaram os gregos que tudo é de origem divina, isto é, estranho ao nosso entendimento, e alheio à nossa vontade. Somos só o que nos fizeram ser, e dormimos com sonhos, servos orgulhosos neles da liberdade que nem neles temos. Por isso o nascitur que se diz do poeta, se aplica também a metade do artista. Não se aprende a ser artista; aprende-se porém a saber sê-lo. Em certo modo, contudo, quanto maior o artista nato, maior a sua capacidade para ser mais que o artista nato. Cada um tem o Apolo que busca, e terá a Athena que buscar. Tanto o que temos, porém, como o que teremos, já nos está dado, porque tudo é lógico. Deus geometriza, disse Platão. Da sensibilidade, da personalidade distinta que ela deterrnina, nasce a arte per o que se chama a inspiração — segredo que ninguém falou, a sésame dita por acaso, o eco em nós do encantamento distante. A só sensibilidade, porém, não gera a arte; é tão somente a sua condição, como o desejo o é do propósito. Há mister que ao que a sensibilidade ministra se junte o que o entendimento lhe nega. Assim se estabelece um equilíbrio; e o equilíbrio é o fundamento da vida. A arte é a expressão de um equilíbrio entre a subjectividade da emoção e a objectividade do entendimento, que, como emoção e entendimento, e como subjectiva e objectivo, se entrepõem, e por isso, conjugando-se, se equilibram. Tem a arte, para nascer, que ser de um indivíduo; para não morrer, que ser como estranha a ele. Deve nascer no indivíduo per, que não em, o que ele tem de individual. No artista nato a sensibilidade, subjectiva e pessoal, é, ao sê-lo, objectiva e impessoal também. Por onde se vê que em tal sensibilidade se contém já, como instinto, o entendimento; que há portanto fusão, que não só conjugação, daqueles dois elementos do espírito. A sensibilidade conduz normalmente à acção, o entendimento à contemplação. A arte, em que estes dois elementos se fundem, é uma contemplação activa, uma acção parada. É esta fusão, composta em sua origem, simples em seu resultado, que os gregos figuraram em Apolo, cuja acção é a melodia. Não tem porém valia como arte essa dupla unidade senão com seus elementos não só unidos mas equivalentes. Pobre de sensibilidade e de pessoa, a arte é uma matemática sem verdade. Por muito que um homem aprenda, nunca aprende a ser quem não é; se não for artista, não será artista, e da arte que finge se dirá o que Scaliger disse da de Erasmo: «ex alieno ingenio poeta, ex suo versificator» — poeta pelo engenho alheio, versificador pelo próprio. Pobre de entendimento, porém, e da objectividade que há nele, no génio sobressai a loucura, em que se funda; no talento a estranheza, em que se fundamenta; no engenho a singularidade, em que tem origem. O indivíduo mata a individualidade. Na arte buscamos para nós um aperfeiçoamento directo; podemos buscá-lo temporário, ou constante, ou permanente. Nossa índole, e as circunstancias, determinarão a espécie, que é também o grau, de nossa escolha. Aperfeiçoamento temporário, não o há senão o do esquecimento; porque, como forçosamente o que temos de mau está em nós, o aperfeiçoarmo-nos temporariamente, isto é, sem aperfeiçoamento, não pode ser mais que o esquecermo-nos de nós, e da imperfeição que somos. Ministram por natureza este esquecimento as artes inferiores — a dança, o canto, a representação — , cujo fim especial é o de distrair e de entreter, e que, se excedem esse fim, também a si mesmas se excedem. Aperfeiçoamento constante quer dizer, não o aperfeiçoamento, senão a presença constante de estímulos para ele. Não há estímulos, porém, senão exteriores; serão tanto mais fortes, quanto mais exteriores; serão tanto mais exteriores, quanto mais físicos e concretos. Ministram por natureza este estímulo constante as artes superiores concretas — a pintura, a escultura, a arquitectura — , cujo fim especial é o de adornar e de embelezar. Constantes como aperfeiçoamento, são porém permanentes como estímulos dele; de aí o serem superiores. Podem elas, contudo, admitir, como todo concreto, uma animação do abstracto; na proporção em que, sem desertarem de seu fito, o fizerem, a si mesmas se excederão. O aperfeiçoamento permanente não pode dar-se senão por aquilo que no homem é já mais permanente e mais aperfeiçoado. Operando e animando nesse elemento do espírito se fará o homem viver cada vez mais nele, se o fará viver uma vida cada vez mais perfeita. É a abstracção o último efeito da evolução do cérebro, a última revelação que em nós o destino fez de si mesmo. É ainda a abstracção substancialmente permanente; nela, e na operação dela a que chamamos razão, não vive o homem servo de si, como na sensibilidade, nem pensa superfícial do ambiente, como com o entendimento: vive e pensa sub specie aeternitatis , desprendido e profundo. Nela, pois, e por ela, se deve efectuar o aperfeiçoamento permanente do homem. As artes que por natureza ministram tal aperfeiçoamento são as artes superiores abstractas — a música e a literatura, e ainda a filosofia, que abusivamente se coloca entre as ciências, como se ela fora mais que o exercício do espírito em se figurar mundos impossíveis. Assim, porém, como qualquer das artes superiores pode descer ao nível da ínfima, quando se dê o fito que naturalmente convém àquela, assim também as inferiores e as concretas podem, em certo modo, alçar-se ao da suprema. Assim é que toda arte, seja qual for seu lugar natural, deve tender para a abstracção das artes maiores. Três são os elementos abstractos que pode haver em qualquer arte, e que podem portanto nela sobressair: a ordenação lógica do todo em suas partes, o conhecimento objectivo da matéria que ela informa, e a excedência nela de um pensamento abstracto. Em qualquer arte é dado, em maior ou menor grau, manifestarem-se estes elementos, ainda que só nas artes abstractas, e sobretudo na literatura, que é a mais completa, possam manifestar-se inteiramente. A mesma abstracção é também o estádio supremo da ciência. Tende esta para ser matemática, isto é, abstracta, à medida que se eleva e se aperfeiçoa. É pois no nível da abstracção que a arte e a ciência, ambas se alçando, se conjugam, como dois caminhos no píncaro para que ambos tendam. É este o império [de] Athena, cuja acção é a harmonia. Como, porém, toda ciência, se tende para a matemática, tende, com isso, para uma abstracção concreta, aplicável à realidade e verificável em seus movimentos físicos; assim toda a arte, por mais que se eleve, não pode desprender-se do entendimento e da sensibilidade, em cuja fusão se criou e teve origem. Onde não houver harmonia, equilíbrio de elementos opostos, não haverá ciência nem arte, porque nem haverá vida. Representa Apolo o equilíbrio do subjectivo e do objectivo; figura Athena a harmonia do concreto e do abstracto. A arte suprema é o resultado da harmonia entre a particularidade da emoção e do entendimento, que são do homem e do tempo, e a universalidade da razão, que, para ser de todos os homens e tempos, é de homem, e de tempo, nenhum. O produto assim formado terá vida, como concreto; organização, como abstracto. Isto estabeleceu Aristóteles, uma vez para sempre, naquela sua frase que é toda a estética: um poema disse, é um animal. Existe ainda o preconceito, nascido ou de se atender só às formas inferiores da arte, ou de se atender inferiormente a qualquer delas, de que a arte deve dar prazer ou alegria. Ninguém cuide esquecendo os grandes fins dela, que a arte suprema deve dar-lhe alegria, ou, ainda quando o satisfaça, satisfação. Se a arte ínfima tem por dever o entreter, se a média tem por mister o embelezar, elevar é o fim da suprema. Por isso toda arte superior é ao contrário das outras duas, profundamente triste. Elevar é desumanizar, e o homem se não sente feliz onde se não sente já homem. É certo que a grande arte é humana; o homem, porém, é mais humano que ela. Ainda por outra via a grande arte nos entristece. Constantemente ela nos aponta a nossa imperfeição: já porque, parecendo-nos perfeita, se opõe ao que somos de imperfeitos; já porque, nem ela sendo perfeita, é o sinal maior da imperfeição que somos. É por isto que os gregos, pais humanos da arte eram um povo infantil e triste. E a arte não é porventura mais em sua forma suprema, que a infância triste de um deus futuro, a desolação humana da imortalidade pressentida. 1924 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 139. 1ª publ. in “Athena”, nº 1. Lisboa: Out. 1924. Afonso Costa A tão poucos dias de nascença para a política construtiva se mostre já tão (...) e desempenada besta, tão musculadarnente habilitado e hábil em atirar parelhas de decretos a tudo quanto é indestrutivo e extra[...] nas ideias de liberdade e de democracia. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 64. Quase anónima sorris E o sol doura o teu cabelo. Porque é que, pra ser feliz, É preciso não sabê-lo? 23-9-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 101. É daqueles homens (Af. Costa) a quem o epíteto ilustre anda sempre atado como uma lata ao rabo dum cão, a pertencer-lhe, tanto como a lata ao cão pertence. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 65. Porque esqueci quem fui quando criança? Porque deslembra quem então era eu? Porque não há nenhuma semelhança Entre quem sou e fui? A criança que fui vive ou morreu? Sou outro? Veio um outro em mim viver? A vida, que em mim flui, em que é que flui? Houve em mim várias almas sucessivas Ou sou um só inconsciente ser? 1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 102. Ser consciente é talvez um esquecimento. Talvez pensar um sonho seja, ou um sono. Talvez dormir seja, um momento, Voltar o spirto nosso a ser seu dono. Quem me diz que o rochedo bruto e quedo Não é o verdadeiro consciente — O êxtase perene de uma mente Que deixa o corpo hirto ser rochedo? Só a morte o diz — mas quem me diz que o diz? 1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 103. Oligarquia das Bestas Não podendo (A[fonso] C[osta]) fazer mais nada, é homem para mandar assassinar. Tudo depende do seu grau de indignação. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 67. ... Mas eu não ouso. Ó horror e tortura! O transcendente horror de um ser humano! Beijar na boca uma consciência, um ser humano! Beijar na boca uma consciência, um ser, O mistério encarnado em nu e sólido. A nudez(...) Há entre alma e alma um abismo. Saber Que me está vendo uma alma em  (...), nudez E acto de amor! Não a nudez da estátua, Mas a nudez viva, cheia de olhar-me Até que me apavoro de pensá-lo. Nem tenho gestos para saber amar, Nem alma para tirar ao mero-oco Pensar aqueles gestos, o horror Que vem de eles saberem a mistério. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 106. Uma névoa de Outono o ar raro vela, Cores de meia-cor pairam no céu. O que indistintamente se revela, Árvores, casas, montes, nada é meu. Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono. Sim, sinto-o eu pelo coração, o como. Mas entre mim e ver há um grande sono. De sentir é só a janela a que eu assomo. Amanhã, se estiver um dia igual, Mas se for outro, porque é amanhã, Terei outra verdade, universal, E será como esta               [...] 5-11-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 104. Oligarquia das Bestas A equil.[...]  — de J[oão] F[ranco] a A[fonso] C[osta] Entre os dois venha o diabo e escolha. E se se sentir embaraçado [?] que os leve a ambos; que é caso para lhe rezarmos uma missa negra. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 68. Horror! Conhecer intimamente O transcendente horror dum corpo humano! Sentir o mistério doutra vida Tão intimamente perto... quase nosso E como que carnalizar em hórrida Intranscendência o mistério em si. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 107. Que suave é o ar! Como parece Que tudo é bom na vida que há! Assim meu coração pudesse Sentir essa certeza já. Mas não; ou seja a selva escura Ou seja um Dante mais diverso, A alma é literatura E tudo acaba em nada e verso. 6-11-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 105. Sociologia, etc. Comparação da Alemanha com Portugal no que respeita à sucessão dos “períodos”. A sucessão na Alemanha tem sido manifestamente C. A. (B). Temos no primeiro período um movimento de ordem activa, com o seu máximo representante em Lutero. Temos depois, no período seguinte, um movimento de ordem intelectual, cujas figuras culminantes são Goethe e Kant, e que no seu período construtivo prático teve por figuras (antes, Frederico II da Prússia), (depois) o chanceler Bismarck. Estudar, neste assunto, o movimento romântico alemão, comparando-o ao movimento saudosista. Notar as diferenças, o carácter talvez mais profundamente nacionalista do movimento português. — Dar-se-á o caso curioso de as duas evoluções se fazerem em sentido inverso, isto é, de o movimento saudosista vir antes da culminância do período literário, ao passo que o romantismo alemão veio depois? Isto, se assim é, o que significa? Compará-lo com o caso, parecido, do trajecto aparentemente inverso do nosso período (suposto) A com o período A inglês que acaba na Revolução. — Estudar bem a formação do período A literário na Alemanha, e do p[eríodo] A em Portugal. Estudar também o correspondente movimento social. — Reparar que o que Frederico II fez, embora seja importante sob o ponto de vista da narração histórica, visto que a Prússia era importante, não parece importante sob o ponto de vista civilizacional. A que corresponde esse período entre nós? Realmente o que fez Frederico II? Valorizou a Prússia para si própria. Deu-lhe a base nacional para toda ulterior evolução e criação de uma hegemonia. Que período nosso corresponde a esse? As guerras liberais? A Revolução de 1910? Possivelmente, e possivelmente o movimento “liberal” geral que começa num e acaba no outro destes elementos. O facto é que a Revolução trouxe em verdade uma base nacional para qualquer obra futura. Frederico II não fez nada melhor no que criador. — Em Portugal há um movimento de ordem activa culminando nas descobertas. A esse segue-se o movimento literário que Camões representa supremamente. Será o seguinte o esquema sociológico dos períodos A: (?) a) Consolidação do sentimento nacional por uma manifestação activa, de ordem útil para o interior da nação apenas; b) Consolidação total do sentimento nacional e expressão integral dele por um movimento literário e artístico próprio e supremo. c) Consolidação criadora e exterior da nacionalidade por uma exposição nacional de uma ideia política (ou religiosa) criada, acrescentada à civilização. A Alemanha é talvez a maior das nações “distribuidoras” de civilização. As distrib(uidoras) seriam pois: Alemanha, França, Espanha. Todas as nações compostas. Mas a Itália? Não é composta também? E a Inglaterra? Só Portugal é que o não é? E não são simples as nações de outra ordem civilizacional — Suécia, Holanda, etc.? Comparação do disciplinismo de Goethe com a obra integradora de Bismarck, com o carácter disciplinado do povo alemão. Que criou a Alemanha em C? — A atitude protestante. (?) Recordar Lutero. Que criou então a Inglaterra? Essa, por certo, o parlamentarismo. E nada sob o ponto de vista religioso? (Qual a função exacta do fenómeno religioso? O puritanismo, ao justo, o que vale, não só em si, como civilizacionalmente?) Que criou a Al[emanha] em A? — Em filosofia o criticismo. Em literatura o romantismo. Em política, o quê? O critério de disciplina social, talvez... Reparar que em C o que a Alemanha criou não deu fruto puramente filosófico. Deu fruto puramente religioso e por assim dizer popular — o protestantismo; ao passo que em A, o que a Alemanha criou de religioso, de atitude religiosa, teve correlativo fruto no pensamento puro, o criticismo. Portugal — Em C criou o cosmopolitismo, pelas descobertas. O génio português, pode-se concluir, é eminentemente cosmopolita, ou cosmopolitizador. O da Alemanha, essencialmente de pensamento e religião, criou, através de Lutero e dos reformadores, uma atitude religiosa. Em Inglaterra, Bacon, em A. Criação da atitude científica conscientemente tal. Depois, no campo político, criação do parlamentarismo. (Finalmente, no campo religioso, criação...) Carácter do povo português: Individual — a ternura caracteriza-o essencialmente. Social — o seu cosmopolitismo, o seu poder de sintetizar em si todas as correntes estrangeiras, como os descobridores. (Mas não houve síntese mais completa na Inglaterra? Houve, mas aí foi uma síntese psíquica, dos elementos psíquicos. Em Portugal, em C, foi uma síntese dos movimentos activos, práticos, da Renascença. A Itália contribuiu com a síntese dos movimentos artísticos (?) Inglaterra e Itália — A; B: C (Itália será AB ou AC?) Portugal e Alemanha — C: A: B Espanha: A. B. C (??) França: B. A. C. Combinações possíveis: ABC — ACB — BAC — BCA—  CAB — CBA Haverá uma nação para cada uma destas fórmulas, e será isto, por ex., certo (NB — a Alemanha): ABC — Inglaterra. ACB — Itália.      Não: e a Espanha e a França? BAC — Alemanha. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 42. (after running away. (He never loves)) Não sei viver! nem fui para viver Destinado; porquê então a vaga Aspiração que tenho? s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 107. Do seu longínquo reino cor-de-rosa, Voando pela noite silenciosa, A fada das crianças vem, luzindo. Papoulas a coroam, e, cobrindo Seu corpo todo, a tornam misteriosa. À criança que dorme chega leve, E, pondo-lhe na fronte a mão de neve, Os seus cabelos de ouro acaricia — E sonhos lindos, como ninguém teve, A sentir a criança principia. E todos os brinquedos se transformam Em coisas vivas, e um cortejo formam: Cavalos e soldados e bonecas, Ursos e pretos, que vêm, vão e tornam, E palhaços que tocam em rabecas... E há figuras pequenas e engraçadas Que brincam e dão saltos e passadas... Mas vem o dia, e, leve e graciosa, Pé ante pé, volta a melhor das fadas Ao seu longínquo reino cor-de-rosa. 1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 106. A Guerra Alemã Investigação sociológica da sua origem e sentido. I. Os Fundamentos da Civilização Europeia. II. A Guerra Alemã. III. A Europa Moderna Sociologicamente Considerada. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 30. (Antes do monólogo da treva) (...) e alucinadas pré-sensações Impelem-me, desvairam-me, ocupam Tumultuariamente e ardentemente O doloroso vácuo do meu ser. Incapaz de pensar, apenas sinto Um atropelamento do sentir E confusões confusas, explosão De tendências, desejos, ânsias, sonhos Desatenuadamente dolorosos. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 107. Entre o sossego e o arvoredo, Entre a clareira e a solidão, Meu devaneio passa a medo Levando-me a alma pela mão. É tarde já, e ainda é cedo. [...] 1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 108. Olha-me rindo uma criança E na minha alma madruga. Tenho razão, tenho esperança Tenho o que nunca me basta. Bem sei. Tudo isto é um sorriso Que é nem sequer sorriso meu. Mas para meu não o preciso Basta ser de quem mo deu. Breve momento em que um olhar Sorriu ao certo para mim... És a memória de um lugar, Onde já fui feliz assim. 1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 171. (1) A civilização a que chamamos europeia, e que é hoje a civilização propriamente dita — pois por ideias e fórmulas europeias se guia, e em acções e motivos europeus tem origem, a civilização das regiões fora da Europa — , assenta em quatro princípios que constituem a sua essência e individualidade. Não há que perguntar se esses princípios são bons ou maus, aperfeiçoáveis ou inaperfeiçoáveis. O que constitui a essência de uma coisa é aquilo que, retirado a essa coisa, a mesma coisa desaparece. Podemos lamentar, se quisermos, que o passado assim nos formasse, como podemos lamentar, se quisermos, que nascêssemos com a estatura ou as feições que temos; porém a nossa lamentação não pode constituir um desejo, nem informar um propósito. O que somos somos, o que seremos terá de sair do que somos, que não do que poderíamos — se o pudéssemos — ter sido. Quatro são, disse, as bases em que assenta a civilização europeia, quatro os princípios que constituem a sua individualidade ou essência. São eles a cultura grega, a Ordem romana, a Moral Cristã e a Política Inglesa. Não temos que ver se esses princípios nos são agradáveis, a cada um de nós pessoalmente, ou se nos não são agradáveis. Temos que saber que são e o que são. Não temos que servir-nos da razão estulta - que, porque é estulta, não é razão — de que não somos cristãos, ou não somos ingleses; pela mesma razão repudiaríamos o que nos deram a Grécia Antiga e a antiga Roma, pois nenhum de nós hoje é grego da Antiguidade ou romano da Roma extinta. É a civilização construída por uma série de criações, cada uma das quais, por uma razão de ambiente próprio e circunstâncias históricas propícias, particularmente compete a uma determinada nação. Pretender repudiar um princípio formador de civilização porque seja alheio à nossa índole, ou quer dizer que repudiamos a mesma ideia de civilização, que envolve transformação e portanto alterações de “índoles”, ou que julgamos a nossa nação apta a produzir em si mesma a civilização inteira, conceito que pode surgir só no cérebro de um megalómano patriótico. Por cultura grega entende-se, essencialmente, o racionalismo. O que distinguiu os gregos antigos dos outros povos foi o culto da Razão, da Crítica (com justiça se disse que os gregos criaram o Espírito Crítico) ou, como desde Comte se dizia, do Livre Exame. Sem livros sagrados propriamente ditos, sem sacerdócio propriamente organizado, os gregos antigos, mau grado uma ou outra perseguição individual ao raciocínio individual (como no exemplo supremo da de Sócrates) mais por obscuros motivos políticos do que propriamente por motivos religiosos, sofriam de poucas peias sobre o exercício da razão. Acresce que a mitologia que tinham, essencialmente ateológica e sincrética, tornava a religião uma espécie de poesia ou de lenda, e cada qual modelava ou remodelava, a seu talante, as histórias e as índoles dos Deuses; as deidades dos gregos — como depois as dos romanos, porém mais estreitamente, pois a mente romana era utilitária e prática, que não poética e especulativa — eram palpavelmente criação dos homens; nem admira que, em tal sistema, aos homens fosse dado o ascenderem a deuses. «A raça dos Deuses e dos Homens é uma só», disse Píndaro; e nesse verso resumiu um aspecto da religião helénica. O Prof. J. B. Bury intitula “A Razão Livre” o primeiro capítulo, que trata da Grécia e de Roma, da sua História da Liberdade de Pensamento. Este conceito grego sofria apenas limitação em uma circunstância política: grande número de pensadores, e ainda mais estadistas, da Antiguidade tinham a religião, embora fosse falsa, por necessária à plebe rude, capaz de compreender certos raciocínios, porém não de originar um raciocínio. Os romanos, como tinham da cívica e da política, como práticos que eram, e fora da prática estúpidos, preocupação maior que os gregos, notavelmente se apegaram a esta preocupação. Consiste a cultura grega, base principal da nossa civilização, na supremacia da Razão sobre os outros elementos do espírito. Quer isto dizer, primeiro, que qualquer coisa é aceitável na proporção em que se nos apresenta racional; que o que emana da autoridade ou da tradição não tem como tal valor nenhum, adquirindo-o somente quando a razão o abona. Quer isto dizer, segundo, que os nossos sentimentos, as nossas fantasias, os nossos desejos e esperanças nada valem e nada significam se neles não pusermos a razão, isto é, se não estabelecermos neles aquele equilíbrio que existe nos raciocínios. Quer isto dizer, terceiro, que as nossas sensações ou impressões das coisas externas, nenhum valor têm se não ajustarem a essas coisas, se as não abonar uma conformidade com a realidade. Racionalidade, harmonia, objectividade: é esta a tripla manifestação, através da qual se define a Cultura Grega, essência da nossa civilização, por que essência da inteligência, ou parte superior, dela. Sempre que a nossa civilização tem contrariado o espírito de racionalidade, de harmonia e objectividade, a nossa civilização tem decaído. Decaiu em toda a parte onde a Inquisição, ou outra qualquer tirania semelhante, pôs peias ao pensamento individual. Libertou-se onde se estabeleceu a Reforma — não que o espírito dos Reformadores fosse, de per si, mais tolerante que o dos católicos; mas a necessidade de livre exame abriu, mau grado seu, as portas à Razão. E onde a Razão entra, entra a Grécia; e onde a Grécia entra, entra a civilização. É evidente que este racionalismo não pode existir sem um certo individualismo, isto é, sem uma certa liberdade do indivíduo para pensar e expor o que pensa. Não devemos, porém, confundir esse individualismo com o individualismo político, que é o que hoje imediatamente se entende por individualismo. Pode haver individualismo sem haver propriamente liberdade. Frederico o Grande da Prússia concedia a mais larga liberdade de pensamento; porém não pode ser descrito como regime liberal aquele em que ele era rei absoluto. Fixemos, pois, isto, e só isto: a Cultura Grega, essência da nossa civilização, caracteriza-se pelo Racionalismo. O racionalismo define-se pelo espírito de racionalidade nas ideias e na exposição delas, de harmonia nos sentimentos e nas suas entre-relações, de objectividade nas impressões e na maneira de analisá-las. (2) Recebendo dos gregos este espírito, os romanos definiram-no melhor, limitando-o; definir, aliás,é limitar, e é-o mesmo definir no sentido de contornar. O racionalismo grego assentava em, ou produzia, um individualismo que invadia a esfera moral política. O grego, amante que fosse da sua cidade, frequentemente não hesitava em traí-la, por paixão política, nascida de um individualismo excessivo. Alcibíades, ateniense dos atenienses, não hesitou em indicar aos Lacedemónios a melhor maneira estratégica de invadir o território de Atenas. Ora foi este extravasamento individualista do racionalismo que o espírito altamente político, e pouco mais que altamente político, dos romanos, se empregou em domar e limitar. Entendamo-nos bem: os romanos não deram a si mesmos o destino de limitar o individualismo grego. Os homens raramente, os povos nunca, têm tamanha consciência do seu papel histórico. Nem consistiu o papel de Roma em propriamente limitar o individualismo grego, reduzindo-o a simples racionalismo. Essa limitação foi consequência do papel histórico de Roma; Roma criou um elemento civilizacional de onde se derivou essa limitação. Esse elemento é o conceito de Estado, como elemento, não nacional, mas civilizacional. Roma criou o conceito de Estado como missão histórica, distinto do de Estado como simples império, ou simples nação. Criado esse conceito, ou ainda, mesmo, em via de criação, compreende-se que a vida cívica e política assume um valor acentuado, e os deveres do indivíduo para com o Estado um relevo notável. O conceito grego típico (excepto no caso incaracterístico da estéril Esparta) de que a sociedade existe para o indivíduo, que não este para ela, sofre uma limitação. Na Grécia, e sobretudo em Atenas, há esboços do conceito que haveria de ser historicamente romano; mas é que na Grécia, e sobretudo em Atenas, existe tudo ou claramente ou em embrião, porque a Grécia, mãe de toda a civilização, a tudo trouxe no ventre fecundo. (3) A subordinação, pelo menos relativa, do indivíduo ao Estado deixava livre aquele na esfera intelectual, e o racionalismo grego subsistia. Mas, como, dada a mistura antiga do moral e do cívico, a indistinção, comum na Grécia e típica em Roma, entre o indivíduo moral e o indivíduo político, a subordinação política invadia uma esfera individual não propriamente política, e que, quando se desse a diferenciação haveria de querer libertar-se. Ora, assim como a política romana veio sofrear as consequências políticas do racionalismo grego, assim a religião cristã veio sofrear as consequências morais do estatismo romano. O passo célebre do Evangelho, que distingue entre o que é de Deus e o que é de César, resume, como um só passo, a essência da operação. O Cristianismo, historicamente considerado, é um produto complexo. A sua essência, ou parte metafísica, é grega, é platónica; e com razão se pode dizer que foi Platão o vero fundador do Cristianismo. Elevada a filosofia de Platão às transcendências místicas da Escola de Alexandria, infiltrou-se esta, através de interpretações várias da Cabala judaica, numa qualquer seita herética dos judeus — presumivelmente os Essénios —, e daí, agregando mitos (na maioria assírio-babilónicos) e fragmentos vários de coisas históricas, veio a formar-se o Cristianismo, que, depois de uma luta, cujo resultado esteve um tempo incerto, com uma religião rival, o Mitraísmo, finalmente venceu e assoberbou o Império: quanto à pessoa do Fundador do Cristianismo, a própria existência dela é indeterminável; a complexa inautenticidade dos Evangelhos, as interpolações das Epístolas de Paulo, as falsificações de textos e de testemunhos na primitiva literatura da seita, tornam hoje impossível qualquer opinião que timbre em presumir de segura. S. Paulo, omitindo das cartas que lhe atribuem dois ou três textos reconhecidamente interpolados, não conhece um Cristo com biografia, senão uma abstracção redentora e divina. A máxima probabilidade — mas não passa de probabilidade — é que o sistema houvesse tomado por núcleo a vaga figura do Jeshu ben Pandira, que, segundo o Talmude (em passo insuspeito, pois o não relaciona com Cristo) foi pendurado numa árvore e lapidado na véspera da Páscoa, em Lídia, no reinado de Alexandre Janneo — isto é, cerca de 100 anos antes da nossa era. Tudo isto, porém, pouco importa. O que importa, no nosso caso, é que a religião que, viesse de onde viesse, apareceu na história com o nome de Cristianismo, veio contrariar com um individualismo especial e novo o conceito estadista do Império Romano. Herdando deste, em cuja substância se criou, o imperialismo, o espírito de expansão e universalidade, e assim sobrepondo ao seu fundo judaico um proselitismo que os Hebreus desconhecem, surgiu no Império em uma espécie de concorrência com ele, como força dissolvente e anarquizante — o bolchevismo da época. Todos os argumentos sociais, de que hoje nos servimos contra o bolchevismo, puderam os Romanos empregá-los contra esta força estranha e desintegrante. Nos seus resultados últimos, porém, o Cristianismo não foi desintegrante: foi tão-somente limitador do elemento que Roma trouxera à civilização, como o havia sido Roma do elemento que trouxera a Grécia. Havia uma diferença. Roma procedeu, como civilização, directamente da Grécia; o Cristianismo não procedeu directamente de Roma, senão dos resultados de Roma — isto é, de diversas forças abrangidas pelo Império Romano, e, pela existência deste, postas em possibilidade de contacto e de entreinfluência. A essência prática do Cristianismo está no conceito de que o indivíduo humano — alma imortal criada por Deus e remível por seu Filho da condição pecaminosa em que a queda a lançara — tem em si mesma, como tal, um valor superior maior que o de todos os poderes e pompas da terra, porque é um valor de outra ordem. Deste conceito se deriva estoutro - que o indivíduo moral é distinto do indivíduo político, e a ele superior. Deus está acima do Imperador, e a salvação da alma acima do serviço do Império. E as consequências últimas do conceito primário são estas: o critério moral é absoluto, o critério político ou cívico é relativo. O Estado está acima do cidadão, mas o Homem está acima do Estado. Nenhum Estado, nenhum Imperador, nenhuma lei humana podem obrigar o indivíduo a proceder contra a sua consciência, isto é, contra a salvação da sua alma. O inferior não pode obrigar o superior. É nisto que consiste a essência da moral cristã, a terceira base da civilização em que vivemos. Ainda onde desapareceu o Cristianismo, subsiste a moral que ele criou, porque a sua criação foi moral, que não religiosa; como religião o Cristianismo é sincrético.(...) s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 31. (Depois do amor — na treva) Eis-me enfim só, oh desejado horror Eis-me enfim ante ti, oh Universo! Eis-me aqui, lama e (...) mistério, Excluído de ti, o eterno expulso Que não pedia a vida. Eis-me aqui. Pudesse eu pôr no seu desmedimento O ódio (...)       e afrontar-vos Com a expressão desse ódio, oh silêncios, Oh noites ao pensar! eu morreria De haver interpretado em tanto horror Um mor horror que interpretar não pode O que há-de ser palavra ou pensamento. Eis-me aqui, oh abismo explicado! Eis-me aqui o maior dos seres todos, Quebrando aos pés do pensamento forte A cruz de Cristo e as fórmulas mortais [...] Eis-me aqui! O que há para mim senão vacuidade No mundo (...), o que me destinastes? O vazio? O silêncio? A escuridão? Desses-me o instinto deles, não a plena Torturação da luz. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 107d. Não quero ir onde não há a luz, Do outro lado abóbada do solo, Ínfera imensa cripta, não mais ver As flores, nem o curso ao sol de rios, Nem onde as estações que se sucedem Mudam no campo o campo. Ali, no escuro, Só sombras múrmuras, êxuis de tudo, Salvo da saudade, eternas moram; Região aos mesmos íncolas incógnita, Dos naturais, se os tem, desconhecida. Ali talvez só lírios cor de cinza Surgirão pálidos da noite imota. Ali talvez só gelo com as águas, Como a cegos, serão, e o surdo curso, No côncavo sossego lamentoso, Se acaso à vista habituada aclare, Será como um cinzento tédio externo. Não quero o pátrio sol de toda a terra Deixar atrás, descendo, passo a passo, A escadaria cujos degraus são Sucessivos aumentos de negrume, Até ao extremo solo e noite inteira. Para que vim a esta clara vida? Para que vim, se um dia hei-de cair Da haste dela? Para que no solo Se abre o poço da ida? Porque não Será sem fim  [?...] 16-11-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 109. Talvez que Deus não seja real e exista Talvez não seja Deus e exista, e seja Como nós o pensamos Deus p'ra nós. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 23. A civilização a que pertencemos assenta em quatro fundamentos: a Cultura Grega, a Ordem Romana, a Moral Cristã, a Universalidade Moderna, esta última criada pela Itália, quanto à formação de nacionalidades distintas, que nela primeiro emergiram em semelhança dos estados-cidades dos gregos e romanos; por Portugal, pelos descobrimentos, quanto à conversão da simples civilização europeia em civilização mundial; pela Inglaterra (...) A civilização a que todos pertencemos — entendendo por “todos” todo o mundo — assenta em três fundamentos, que a precederam. Esses fundamentos são a Cultura Grega, a Ordem Romana, e a Moral Cristã. Da Grécia nos vem o espírito e a forma da nossa cultura. De Roma nos vem o espírito e a forma da nossa política. Da religião de Cristo nos vem o espírito e a forma da nossa vida interior. A estes três fundamentos originais da civilização, primeiro da Europa, depois do mundo inteiro, se ajuntou, desde o fim da Idade Média e princípio da Renascença, um quarto fundamento. É difícil de lhe dar um só nome, mas esse nome poderá ser a Liberdade Europeia, porque os três movimentos criadores que o formaram tendem todos, ainda que diversamente, para uma libertação do homem. O primeiro movimento começou na Itália e consistiu, através da renovação do espírito grego, na destruição da fraternidade humana, quer pela formação de nacionalidades, quer pelo movimento anti-romano que, por um lado progressivamente destituiu a língua latina de língua da humanidade civilizada, e, por outro lado, preparou a reforma, que haveria de destruir a fraternidade católica da Europa. Assim Europa se libertou do excesso de Roma e da Humanidade. É contra a humanidade que se faz todo progresso; por isso é reaccionário todo movimento, como o bolchevista, em que se pretenda introduzir a ideia fuste de humanidade. O segundo movimento começou em Portugal, e foi o dos Descobrimentos. Pouco importa discutir se tal ou tal outro ponto da terra era ou não era conhecido antes de o descobrirem os Portugueses. Os descobrimentos dos Portugueses não valem como descoberta, mas como sistema. Foi Portugal que primeiro sistematizou a descoberta e revelação do mundo. Sociologicamente, pois, os descobrimentos (sejam os de espanhóis, de franceses, de ingleses, ou de quem quer que seja) são todos portugueses. Historicamente, serão o que forem; a história porém não é nada, senão (não é mais que) o armazém de factos ou pseudofactos sobre os quais trabalhe a sociologia. O primeiro movimento começou na Itália, e teve um triplo aspecto, nem todo ele realizado na mesma Itália que o iniciou. Representa a libertação do homem das peias teológicas, pela colocação da arte e da filosofia fora do alcance da teologia e da moral. Isto começou a Itália pela reintrodução do espírito pagão que é a base (pela cultura grega) da nossa civilização. Representa a libertação do homem das peias humanitárias, pela criação, marcadamente clara nas cidades-estados de Itália, mas paralelamente desenvolvendo-se em toda a Europa, das nacionalidades distintas, criando cada vez mais rivalidades, desfraternizando progressivamente a humanidade como o progresso exige. Representa finalmente a libertação do homem (...) s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 31. FAUSTO: (vindo de casa [...]) É isto amor? Só isto! Sinto como O cérebro oscilante, um gozo Mas o coração pesado, frio, e mudo. Sinto ânsias, desejos Mas não com meu ser todo. Alguma cousa No íntimo meu, alguma coisa ali, Fria, pesada, muda permanece. Para isto deixei eu a vida antiga Que já bem não concebo, parecendo Vaga já. Já não sinto a agonia muda e funda Mas uma menos funda e dolorosa Mas mais terrível raiva e (...) De movimentos íntimos, desejos Que são como rancores. Um cansaço violento e desmedido De existir e sentir-me aqui e um ódio Nascido disto vago e horroroso A tudo e todos por não saber A causa exacta de tudo. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 108. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.125). Nesta vida, em que sou meu sono, Não sou meu dono, Quem sou é quem me ignoro e vive Através desta névoa que sou eu Todas as vidas que eu outrora tive, Numa só vida. Mar sou; baixo marulho ao alto rujo, Mas minha cor vem do meu alto céu, E só me encontro quando de mim fujo. Quem quando eu era infante me guiava Senão a vera alma que em mim estava? Atada pelos braços corporais, Não podia ser mais. Mas, certo, um gesto, olhar ou esquecimento Também, aos olhos de quem bem olhou, A Presença Real sob o disfarce Da minha alma presente sem intento. 11-12-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 111. LUCIFER: Como quando o mortal, que a terra habita, Aprende que esse céu todo estrelado É cheio de outros mundos, na infinita Pluralidade do criado, E um abismo se lhe abre na consciência E uma realidade invisível gela, Seu sentimento da existência, E um novo ser-de-tudo se revela, Assim, pensando e, a meu modo, vendo Na interna imensidão do espaço abstracto, Fui como deuses vários conhecendo, Todos eternos e infinitos sendo, Os astros. E vi que Deus, se é tudo para o mundo, Se a substância e o ser do nosso ser Não é o único Deus mais que profundo. Há infinitos de infinitos. Por isso, Deus é eterno e infinito, e tudo, Sim mesmo o tudo que é, Deus o transcende. Porém muita ciência a mais ascende Que a esse único Deus que a tudo excede. Além do transcender-se que Deus é. E ergui então a voz amargurada, Porque o conhecimento transcendente Deixa a alma exânime e gelada. E clamei contra Deus o além-Deus, Disse aos meus pares o segredo ominoso. Eterno condenado, errarei sempre Sempre maldito, Porque este mundo (...) Só sendo mais que Deus eu poderia Transcender o infinito do infinito E nascer para o inumerável dia... Como, banido, o arqueiro Filoctetes Sou só na alma porque vi o abismo. Excluso eterno (...) A vida pávida que cismo. Sou morte, porque sei que o infinito, É limitado, e assim Deus morre em mim. Deus sabe que é uno, um e infinito, Mas eu sei que Deus, sendo-o, não o é. Mais longe que Deus vai meu ser proscrito. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 23. A civilização europeia assenta em cinco tradições fundamentais, fora das quais só há desequilíbrio e ruína. Elas são como a forma íntima do nosso organismo psíquico; afastarmo-nos delas é afastarmo-nos da civilização. Essas cinco tradições são as seguintes: A tradição helénica, que constitui a base cultural da nossa civilização. Caracteriza-se a tradição helénica pelo individualismo intelectualista. Romperam esta tradição, envolvendo os povos europeus em decadência e ruína, (1) o espírito romano, que se afastou do individualismo, (2) o espírito cristão, que se afastou do intelectualismo, (3) o espírito romântico e revolucionário dos nossos tempos, que se afastou ou ora de um, ora de outro — sendo individualista e anti-intelectual nos românticos, e intelectual mas colectivista na reacção germânica contra eles. A tradição romana, que constitui a base da política externa da nossa civilização. Resume-se a tradição romana no imperialismo. Esta tradição foi menos quebrada que a anterior, porque o imperialismo tem mais força sobre a imaginação do homem que as duas ideias componentes da tradição helénica. Em todo o caso, (...) Por imperialismo não se entende o agrupamento artificial de várias nações em uma só, mas a tendência de toda a nação para converter em sua substância psíquica as outras nações. Voluntariamente, foi esta tradição menos quebrada que a anterior, porque o imperialismo tem mais força sobre a imaginação do homem que as duas componentes da tradição helénica. Involuntariamente, porém, foi quebrada bastantes vezes, já pelos imperialismos espúrios de Carlos Quinto e os Filipes, de Bismarck, já pelo imperialismo errado de Napoleão, que, para a invasão cultural, levava uma base errada na cultura revolucionária francesa. Só de certo modo realizaram a tradição imperial, por ordem cronológica, os Portugueses nas suas colónias, os Espanhóis nas deles, e, acima de todos, os Ingleses. A tradição monárquica e aristocrática, base da política interna das nações componentes da civilização europeia. Nos tempos modernos esta tradição, verdadeiro fundamento da nossa civilização e da ordem que lhe é própria, tem sido escandalosamente quebrada, pelos vários constitucionalismos, pelas (...) A tradição nacionalista, nascida no fim da Idade Média e de então para cá prolongada. A tradição económica, representada pelos três princípios da propriedade individual, do capitalismo e do regime de concorrência. Não há idiota de cátedra, ou alienado de fábrica que não seja inspirado por Momo para erguer-se contra estes três princípios económicos, em os quais a nossa civilização assenta. Pode ser que em outra época da terra, que em outro planeta, que em uma terra de outro sistema solar outros princípios sejam válidos para a manutenção da civilização e de tudo o que ela representa. Entre nós, europeus, não. São ne varietur. A ciência não é fruto do nosso arbítrio. A tradição helénica tem como inimigos — à parte os políticos humanitários e radicais, que, sendo mentalmente da raça dos escravos, são inimigos de todos os valores civilizacionais — todas as formas do cristianismo e sobretudo as protestantes (por serem mais hebraicas); (...) A tradição romana tem por inimigos os humanitários. A tradição monárquica e aristocrática os republicanos, os monárquicos constitucionais e, entre a plutocracia, a de origem internacional, isto é, judaica. São inimigos intelectuais do helenismo todos os que põem as fórmulas acima do individualismo, ou a emoção acima da razão. [...] A própria tradição hermética, por assim dizer intelectual e aristocrática, como era lógico que fosse, foi invadida pelo teosofismo hindu, estruturalmente seu inimigo, fortemente emotivo e passivo e trazendo consigo a doutrina repugnante e ímpia da igualdade dos sexos e das raças (e das classes em que a sociedade se divide). Nem os santuários do Oculto (aparentemente) escaparam à souillure romântica. Bases de uma doutrina tradicionalista (para uso de europeus) A ciência foi desviada do seu curso intelectual. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 32. Seja: Já que este audaz e imenso pensamento Me desliga de tudo e me faz negro Estranho e alheio à existência humana, O riso, o pranto, o amor, Visto que tudo me é estranho e outro E eu isolado estou, já que não sei Onde a causa ou a essência disto tudo, Já que conheço que essa íntima essência Foge do nosso sentimento e que eu Não a posso odiar, amar, sentir-me Para com ela, Odeie o que odiar eu possa, odeie Este universo todo, de que sou Isolado, arrancado, desligado, Com que doridamente coexisto Sem o compreender nem conceber Nem amar. Suba a ele o meu ódio. Sóis, estrelas, natureza inteira Sou vosso inimigo d’alma todo (...) o meu ódio todo contra vós. Só de o dizer sinto-me mais frio e negro Na consciência de mim. Se ainda nutro Resto ou lembrança de alegria ou dor Renego-a e tomo sobre mim o luto Do      [...]     ódio infinito Ao universo inteiro. Para quê Nascer homem,     (...) (...)        em mim Os meios e (...) de sentir ( Cérebro e coração e sangue e vida ( E achar-me longe, negramente longe Do sentimento? s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 109. Vejo passar os barcos pelo mar, As velas, como asas do que vejo Trazem-me um vago e íntimo desejo De ser quem fui, sem eu saber que foi. Por isso tudo lembra o meu ser lar, E, porque o lembra, quanto sou me dói. 1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 112. MOTE Teus olhos contas escuras, São duas, Avé Marias Dum rosário d’amarguras Que eu rezo todos os dias. GLOSA Quando a dor me amargurar, Quando sentir penas duras, Só me podem consolar Teus olhos, contas escuras. Deles só brotam amores; Não há sombras d’ironias; Esses olhos sedutores São duas Avé Marias. Mas se a ira os vem turvar Fazem-me sofrer torturas E as contas todas rezar Dum rosário d’amarguras. Ou se os alaga a aflição Peço p’ra ti alegrias Numa fervente oração Que rezo todos os dias! 31-3-1902 Fotobibliografia. Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de João Rui de Sousa. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988. - 25. 1ª publ. in O Imparcial. Lisboa: 18-7-1902. Mas Deus não terá Deus? Não haverá Como dos brutos até o homem, uma Ladeira ou escadaria entre os supremos? s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 25. German War etc. Mas uma civilização de tipo individualista, espalhada por um extensíssimo território, forçosamente devia adquirir um vinco especial. O próprio factor individualista devia tomar o cunho nacionalista, quando consideramos as diversas raças inclusas no âmbito do império romano. E o próprio facto de existirem essas raças, preexistente a qual tipo civilizacional, devia, já, impelir para um tipo individualista, não agora, pelo reflexo do individualismo nas nações, mas, ao invés, pelo reflexo das nacionalidades nos indivíduos. A civilização actual nasceu do desmembramento do Império Romano. [Ao] Dizer que ela nasceu do desmembramento desse Império importa dizer que ela nasceu da decadência do Império Romano. Isto é, tomou por suas características fundamentais os traços típicos de decadência do Império Romano. Durante a Idade Média foi pouco a pouco eliminando o que nesses característicos da decadência romana era realmente decadência, ao passo que ia fortalecendo e estabelecendo o que neles era a individualidade deles, descontada a parte de decadência que continham, e que eram, e que era apenas decadência em relação ao estado civilizacional anterior, que era Roma, e não em relação ao estado civilizacional futuro, que é o nosso, e que, por ser baseado nesses próprios característicos, os torna, em relação a si, não característicos de decadência, mas, ao contrário, verdadeiras bases, normais e hígidas da sua estrutura e tipicidade civilizacional. A desagregação do Império Romano devia produzir determinado número de fenómenos, fenómenos esses estranhos à psique fundamental de Roma (fosse essa psique devida ao que fosse), e provenientes do factor Império, sobreposto ao factor Roma. O Imperialismo Romano difere de todos os imperialismos antigos. Em quê? De que elementos era constituído o Imperialismo Romano? Isto é, o que levava ele consigo, explícita — ou implicitamente, até onde chegava e se estabelecia? Esses elementos eram três: (1) a cultura grega — esse era o fundo e a base, porque (a) foi ao contacto dela que se definiu como tipo civilizacional a índole, até ali meramente guerreira, de Roma, o imperialismo até ali puramente de conquista, tornado depois de cultura. O próprio direito romano não é senão um produto da combinação do pensamento grego e da experiência romana. (2) A índole romana, profundamente administrativa e organizadora. (3) O cosmopolitismo. O cosmopolitismo está imanente em todos os imperialismos e na acção de todos os impérios. Mas o cosmopolitismo no império romano difere de outros no seguinte: (a) era um cosmopolitismo localmente organizado, em virtude da influência da índole administrativa de Roma. (b) Era um cosmopolitismo permeado, em todas as suas secções, não só por um tipo de administração, mas por um tipo de cultura, cujos elementos vinham através da língua falada e dos pensamentos contidos na índole definida de tal língua; aqui se vê o papel da cultura grega no imperialismo romano. (c) Era um cosmopolitismo reunindo e enfeixando uma heterogeneidade extraordinária de raças, extremamente diversas entre si, as quais não consistiam em meras hordas de meros bárbaros, mas em criaturas com esboços definidos de pré-civilização — aptas portanto a receber plenamente a influência romana, e aptas a adaptá-la a si segundo as respectivas índoles. Neste cosmopolitismo Roma enfeixou três tipos de raças: raças puramente bárbaras e atrasadas, incapazes de receber a civilização que o Império lhes dava, e que tarde ou cedo haviam de soar falso adentro da psique imperial; raças relativamente aptas a receber essa civilização, como as que existiam nos lugares que hoje ocupam as nações da Europa; e raças que haviam já tido uma civilização sua, como a Grécia, a Palestina e uma parte da África Setentrional (?). Quando se deu a dissolução do Império Romano, algum fenómeno geral se havia de dar que marcasse bem a existência de tal dissolução. Esse fenómeno foi a religião cristã . s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 35. (Diálogo na treva?) Cresce em mim uma onda de agonia E de calado horror que surge e salta Pelas cavernas fundas da minha alma E em fissuras ocultas do meu ser Aponta-as aparecendo, uma onda turva Duma maré silenciosa e escura Que cresce e ocupa-me e me afoga em mim. Quero fugir-lhe e soerguer-me, abrir Um voo e ela sobe-me, silente, Em     (...)  naufragadora. Cresce em mim e eu transido desse horror Vejo sempre mais perto do que cria Sempre em remotas dobras elevando-se Das solidões do meu ser e cada vez Mais dentro em mim. Sois um desejo, uma ânsia, uma agonia? O que quereis, que me impelis subindo Não sei para que horror velando um fim? Para que sou eu vosso? Aonde levais Esta alma que só sabe resistir? Ergueis-me Em guerra contra o ser, e eu odeio O que vejo em minha frente, O Imediato. Por isso, oh mares, sóis, estrelas, ventos, Oh enigmas parados numa vida De enigmas cheia desprendidamente, Eu dou-vos vida só para odiar-vos, Eu não sou vosso. Deste dia avante Sou o inimigo de ser, sou o hórrido, (...) O crime eterno de não ter razão De existir e fitar-me. Digo adeus A tudo que se pode amar ou crer, A tudo que na terra vive ou dorme. Cousas com um sol exterior vão [...] Eu faço-vos escuras do meu ódio. Caia uma treva imensa na minh’alma Para com tudo, seja eu a noite, Esquecendo-se em ser. Sobe, Avassala-me, túrbida corrente, Mas tu e eu em ti. Ciência, Eu substituo-vos a escuridão Da essência do meu ser e vosso ser. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 110. À minha querida mamã Ó terras de Portugal Ó terras onde eu nasci Por muito que goste delas Inda gosto mais de ti. 26-7-1895 Vida e Obra de Fernando Pessoa - História de uma Geração. João Gaspar Simões. Lisboa: Bertrand, 1951. - 55. German War, etc. Ora, parece que, sendo a constituição fundamental do imperialismo romano a cultura grega, a administração romana e o cosmopolitismo europeu, essas devem ser, fundamentalmente, as bases da nossa civilização, por isso que ela assenta no império romano, como origem. Mas repare-se que ela assenta, não no império romano propriamente dito, senão no império romano decadente, e nos princípios que saíram de tal império, quando decadente. Ora a decadência do império romano envolveu o que toda a decadência envolve: (a) uma separação e dissolução, ou, antes, desconexão, dos princípios que formavam a base desse império; (b) a criação de novos elementos dependentes da acção do factor decadência sobre as circunstâncias civilizacionais em que se deu, no tempo das quais se deu; (c) a dissolução e corrupção geral característica de todas as decadências. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 36. MARIA: Onde vais? onde vais? ah volta, volta! Parece-me sentir que (...) por onde vais. FAUSTO: Na noite, para o Mal, como o Universo Mas mais Deus do que ele. Adeus. Adeus. Adeus. E para sempre. (A voz de Maria crescendo em tom e em angústia) Fausto! Fausto! Fausto! (Cai desmaiado. Ouve-se, apenas, na noite, o sussurro do vento nos pinheirais.) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 111. No soul more loving or tender than mine has ever existed, no soul so full of kindness, of pity, of all the things of tenderness and of love. Yet no soul is so lonely as mine — not lonely, be it noted, from exterior, but from interior circumstances. I mean this: together with my great tenderness and kindness an element of an entirely opposite kind entered into my character, an element of sadness, of self - centredness, of selfishness therefore, whose effect is two - fold: to warp and hinder the development and full internal play of those other qualities, and to hinder, by affecting the will depressingly, their full external play, their manifestation. I shall analyse this, one day I shall examine better, discriminate, the elements of my character, for my curiosity of all things, linked to my curiosity for myself and for my own character, leads to one attempt to understand my personality . * It was on account of these characteristics that I wrote, describing myself, in The Writers Day: One like Rousseau... A misanthropic lover of mankind. I have, as a matter of fact, many, too many affinities with Rousseau. In certain things our characters are identical. The warm, intense, inexpressible love of mankind, and the portion of selfishness balancing it — this is a fundamental characteristic of his character and, as well, of mine. 30-10-1908? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 3. Roçou-me O [...] pelo rosto o manto seu E o seu manto é de Mal e Escuridão. Coroou-me rei e a coroa que me deu É um sinal de servidão. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 25. Sens. or Book of War (introd.) A Renascença, com cujo advento a nossa civilização começou, teve origem em três elementos, de diversa parte contribuídos para a sua formação. O primeiro, no tempo, foi o elemento individualista, cuja primeira forma (produzida pela vida independente das primeiras cidades que se destacaram da amorfa internacionalidade medieval), foi a revolta contra a autoridade da Igreja. Este elemento individualista teve uma tripla origem. No que individualismo político, e, daí, nacionalismo (por ser o espírito nacional o prolongamento colectivo do instinto individualista) (...), ele foi produto da vida independente que pouco a pouco foi caracterizando as cidades que se destacaram da amorfa internacionalidade medieval. No que individualismo puro e simples, isto é, individualismo consciente e directamente tendente a ser individualismo, nasceu ele no influxo da cultura greco-romana, e mais grega que romana, em que consiste, tipicamente, aquilo a que se chama a Renascença . Esta intromissão, na Europa medieva, dos elementos culturais, e, portanto, um pouco das condições culturais, da Antiguidade trouxe resultados que se podem cindir em três partes. A consciência da civilização pregressa (?), da avita (?) beleza pagã, aquela antiqua pulchritudo de que falava Agostinho, lentamente deslocou os valores recebidos pela acção da religião católica. Começando nos eruditos, descendo aos poetas e aos artistas (outros), esse conceito fundamentalmente inimigo das regras de vida, pessoal como social, da Igreja, foi-se infiltrando na vida das nações, aluindo, a pouco e pouco, a moral cristã, a política cristã, a soma sintética de atitudes contidas na psique do cristianismo. O gosto apurou-se primeiro porque espontaneamente se apurava no contacto com as obras presentes dos antigos; segundo, porque da comparação do latim medievo com as puras fontes da latinidade clássica o desdém nascia por essa reles forma da língua que ficara deslustrando a sua própria origem; terceiro, porque (...) Por outro lado, o ideal do herói antigo ia ganhando as imaginações, e os princípios que haviam alentado a fúria e a gala do cavaleiro andante e do cruzado sumiam-se na admiração que vaporavam as páginas de Plutarco, e a contemplação, nas páginas de um Heródoto, de um Tucídides ou de um Tito Lívio, da outra forma de herói que caracterizara a Antiguidade. Outra ainda foi a influência individualista da cultura antiga. E foi esta a mais directa. Em contacto com ideais que se antolhavam a todos mais belos, mais perfeitos, e de maior nobreza que os presentes as mentes dos homens da Renascença espontaneamente se tornavam inimigas ou de todo, ou de parte, do sistema que os rodeava e mergia, e em que haviam sido nados e nutridos. Paralelamente — e é este o terceiro elemento tendente ao individualismo — a revolta contra a autoridade religiosa da Igreja e, implicitamente, contra toda a autoridade política dela emanada, recebia um estímulo constante e directo na existência temporal e política da Sé Romana. O Papa era um príncipe da terra, com sua política e com a sua diplomacia, e estas, como todas as políticas e as diplomacias todas, mormente num tempo onde a guerra não havia ainda deixado de ser uma realidade, se não quotidiana deveras, pelo menos quotidiana como conceito, abriam constantes conflitos com outros estados, com outros potentados, com outras cidades independentes. Pouco pesava essa dissidência constante quando sobre a Europa pairava ainda inabalada a crença católica pura. Mas quando outros elementos vieram, nem diremos aluí-la, mas basta que poder criticá-la, outro resultado fatalmente promanaria da constante fricção entre o estado papal e outros estados. Quando se repara que, nesta época, se dava já o acréscimo da consciência política adentro das cidades da Itália, e que as facções traziam constantes as suas lutas intestinas (?), breve se vê como, pouco a pouco, cisão após cisão se abriria com a predominância primeiro política, depois mesmo religiosa, da Sé Católica. Além do estabelecimento, que então se fez, do Individualismo como uma das colunas em que assentasse (assentaria) a nossa civilização moderna, dois outros elementos, como disse, apareceram, e são esses os outros dois em que assenta, também, tal civilização. O segundo — dando o Individualismo como primeiro — é o espírito científico. Nada espanta tanto o investigador superficial que não seja tão superficial que se não lembre disso, como a incompetência, a incapacidade científica dos Romanos. Espanta, deveras, quando se repara na sua essencial apetência prática, na sua habilidade, sobretudo, para as artes materiais da vida, políticas como não políticas. Nas artes que tendem para o conforto, para a facilitação e para a segurança da vida foram mestres os Romanos. Nas que, embora venham a ter essa aplicação (nem se concebe que a não tragam implícita), representam primariamente, ou um trabalho da observação e da inteligência, como as descobertas, ou daquela e da imaginação, como as invenções, não deixaram os Romanos rastro; grega foi a invenção, e, árabe depois, para finalmente ser moderna. Passou inusada por Roma. Da Idade Média, e pela Renascença, foram surgindo pouco a pouco as ciências, próprias como aplicadas. A invenção da imprensa, a descoberta da pólvora, a dos instrumentos náuticos, a (...) com uma fiada de tais descobertas e invenções se foi construindo o muro do templo da nossa era. As nossas descobertas marítimas, no que obra científica, entram, pelos seus efeitos nesta categoria. O terceiro elemento foi o internacionalismo.Este é porventura o mais importante de todos, quando consideramos a importância pelo quanto o elemento é típico da civilização que designa. Individualismo e espírito científico teve a Grécia Antiga (a Hélade), e tais são — acrescido outro elemento, que para o caso não vem — as bases da sua existência civilizacional. Mas todas as civilizações que precederam a nossa foram, rigorosamente (se bem analisarmos), apenas monopolíticas, entendendo por tal termo que nelas, quando não estava o foco da civilização num só estado, a língua civilizacional era, em todo o caso, só uma. A coexistência do grego e do latim na era, já, da força romana, não tem sentido contrário, porquanto não se trata — como no caso das nações modernas — de duas nações em grau aproximado de força e vida, mas de duas nações que nitidamente se sucedem, velha uma e outra nova, no uso da civilização. (posse da civ.) O internacionalismo começou por três causas. A primeira foi a série de contactos, ainda no período medieval, entre a civilização cristã e outras, como a sarracena; prosseguiu depois pelo aumento dos contactos comerciais com o Oriente. O acréscimo da vida comercial das cidades, primordialmente as da Itália, levou a um grau importante estes contactos, e assim começou a aparecer o espírito internacionalista da civilização moderna. Anterior a ele, outro elemento — e esse fundamental — existira. É o de o império romano ter abrangido gentes falando línguas diversas. A dissolução do império foi criando nações, ou esboçando-as, e as cidades depois as radicaram, mas o facto de ter havido o império deixou sempre uma tendência aglutinante (?), de modo que, separadas estas nações, nelas permaneceu a comum tradição romana, nelas perdurou a memória de terem formado parte de um conjunto. Assim, separadas, não se separaram; individualizando-se, não se dissociaram de todo umas das outras. Vieram, finalmente, as nossas descobertas marítimas, que criaram o elemento colonialista da civilização moderna. E a nossa glória imarcescível que a civilização europeia é numa das suas partes importantes criação nossa. Por nós existe hoje uma civilização americana. Por nós há cidades e civilizações na África, na Austrália, na Índia na Ásia longínqua. Tudo quanto, longe da Europa, é europeu, a nós o deve. De nós descende a grandeza presente do Japão, como a existência colonial da Inglaterra. Que, se nós o não houvéssemos feito, outros o fariam, não é argumento que se empregue. Porque não é precisa a hipótese, onde há o facto. E o facto é que fomos nós que o fizemos. Não se nos fale em Colombo ou em Cabot. Colombo, supondo mesmo que fosse italiano — como hoje se desprovou, mostrando-o galego — é sociologicamente português porque portuguesa é a iniciativa das descobertas, a ideação científica delas, a construção do conjunto das descobertas como obra civilizacional, e todos, portanto, quantos colaboraram em descobrir naturalizaram-se portugueses com o fazê-lo. E, se se replicar que não era essa a ideia nítida e certa do Infante nem da Escola de Sagres, replique-se que nunca ideia de nenhum actor importante da história é produzir exactamente o que produz, é representar exactamente o papel que o Destino lhe manda que represente. Alonguei-me, assim, digressando um pouco, porque estou farto e doido da longa injustiça que a nosso respeito são todas as histórias da Europa. O que vale é que elas são bem justas a propósito dos seus autores universalmente e sem excepção (tão baixa jaz ainda a intuição das causas históricas!) incompetentes para formar uma apreciação sociológica dos eventos sociais. Estas várias causas que colaboraram em produzir, tanto a Renascença, como, por isso os fenómenos básicos da nossa civilização, não estão separadas na realidade, senão na análise que fizemos. Elas são intricadas e interimplexas, e isto tanto na sua acção como na sua origem Tudo é uno, e uma civilização, porque é uma vida, um organismo psíquico vastíssimo e muito complexo, é una, organicamente indivisa, inséctil, (...) s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 34. O luar parece que se torna mais álgido, mais branco, mais morto, as sombras mais escondidas em si, mais negras, o silêncio maior. Um vento frio faz sussurrar os pinhais e casando-se com a algidez do luar (...) De vez em quando renasce, sussurra e passa, sussurrando. A estrada, ao luar, é luar até onde se perde, de repente, curvando, nas sombras que o pinheiral projecta no caminho. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 111. Não poder Tarde Adivinhar (...) o teu segredo E o teu mistério ilúcido ignorar E o que tens que (...) esta emoção Encontrar   (...)    e o sentido, Vaga desesperança quase amarga, Da sensação que dás. Dás-me um aumento Da muda comoção indefinida Que sonha dentro em mim, uma ânsia como Que um esquecer de mal lembradas cousas, Ou de esquecidas vago relembrar, Intensas, rumorosas, torturadas, Mágoas de quem (a) existir se sente, Inconsolável desesperação, Vazia plenitude do sofrer. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 25. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.90). A guerra actual é uma guerra entre dois princípios sociológicos, entre dois critérios de civilização. Vendo bem, aprofundando este confuso embate de raças, povos e nações, encontra-se, em última busca, dois princípios em conflito. Um desses princípios é representado pela Alemanha; o outro é representado, numa das suas formas, pela França, na outra das suas formas pela Inglaterra, e a Rússia, terceira força aliada a estas (porque as pequenas nações em guerra não representam, nenhuma delas, um critério civilizacional distinto) opõe-se, por outro detalhe, à doutrina social representada pela Alemanha. A Itália e a Áustria, é claro, não significam coisa nenhuma. O princípio representado pela Alemanha resume-se em poucas palavras. É este: A Pátria está acima da Civilização. Isto é, uma Pátria, uma nacionalidade, deve, para os seus elementos componentes, valer mais que o movimento civilizacional geral a que ela pertence e em que se integra. É claro que um país em que se sustente, acima de todas, esta teoria da civilização deve mostrar característicos especiais. Como a civilização se manifesta através do Indivíduo e pelos seus efeitos sobre indivíduos; como se manifesta através do Indivíduo no sentido de se manifestar em homens de génio, em inventores, em sábios, criadores de elementos civilizacionais; como se manifesta em favor do indivíduo, criando-lhe facilidades, comodidades, complexidades de vida — um estado que ponha a Pátria acima da civilização deve, ipso facto, colocar o Estado acima do Indivíduo, deve, em tudo quanto possa ser, subordinar o indivíduo ao Estado. Assim , sem que possa contestar-se, faz a Alemanha. É evidente, em seguida, que um critério desta ordem deve ser nitidamente militarista. A própria contraposição da ideia de Pátria à de Civilização leva a uma contraposição da ideia da Pátria à das outras nações, visto que a Civilização — para quem não pode pensar abstractamente, como os estadistas — se manifesta ostensivamente nas outras nações. Toda a criatura que hoje luta com a Alemanha deve saber que está lutando pelos princípios seguintes: 1. A Civilização está acima da Pátria. 2. O Indivíduo vale mais que o Estado. 3. A Cultura vale mais que a Disciplina. Pelo mero facto de fazer guerra, a Alemanha ganhou uma vitória moral. O facto da guerra chamou o patriotismo em todas as nações. Bastou isso para a Alemanha ter a sua vitória moral. Não estará a verdade na união os dois critérios, na fusão das duas ideias civilizacionais? O facto é que nem a Pátria está acima da civilização nem a civilização acima da Pátria. Uma coisa depende da outra, é pela criação de pátrias fortes e grandes que uma civilização grande se cria. Do mesmo modo é pela criação de indivíduos fortes que um estado forte se cria, e pela criação de uma forte cultura que uma forte disciplina se estabelece. Mas se o homem, do fundo da sua humanidade, se pode horrorizar com as crueldades praticadas pelos alemães na Bélgica — e triste será o coração humano que com elas se não confranja —, o sociólogo, o estudioso calmo dos factos sociais, erguido pela ciência acima do coração, deve reconhecer que essas crueldades (admitindo-as todas sem crítica) são, em parte, as crueldades inerentes ao estado de guerra e ao impulso da invasão, em parte efeitos do desespero de uma nação que se sente arriscada a perder uma guerra se não age rapidamente e confrangentemente (qual a Alemanha, entalada já entre a ofensiva russa e a francesa, e com o perigo inglês às portas, pelo menos como possibilidade), e, em parte, a uma realização das doutrinas do estado-maior alemão, doutrinas essas que serão bárbaras, que serão cruéis (e com efeito, e inegavelmente o são), mas que merecem a consideração atenta que o sociólogo deve a toda a doutrina de acção social que assenta em bases de experiência e de espírito prático. Isto parecerá porventura frio, duro, cruel, um raciocinar sem humanidade nem compaixão; mas o facto é que onde a ciência começa, o sentimento acaba, e, ou havemos de encarar este problema com a dura frieza da investigação científica, ou, abjectamente, nos havemos de deixar cair na inferioridade intelectual da compaixão e dos instintos humanitários normais. Os argumentos que valem para demonstrar o quanto o sociólogo cauto se deve precaver contra os impulsos normais da compaixão no caso das crueldades alemãs, servem também para pô-lo de sobreaviso quando se considere o caso do ataque à Bélgica como a um pequeno estado. Considera-se que a Alemanha, ao atacar a Bélgica, atacou o princípio das pequenas nacionalidades. É falso. Atacou uma pequena pseudonacionalidade. A Bélgica, para o sociólogo, não tem direito a existir. Não o tem, como o não tem a Áustria, por exemplo. Nenhuma destas nações é um povo, nenhuma tem a unidade social que o sociólogo reconhece necessária para utilmente tomar parte na civilização. O sociólogo não pode portanto, lamentar a Bélgica neste ponto, por isso que o sociólogo não pode admitir a existência da Bélgica como país, porque ela não é um povo. Se tudo quanto há de fundamental na fórmula civilizacional típica da Ibéria é antagónico aos princípios civilizacionais postos em prática instintiva pelos dois países propriamente latinos, como é que um sociólogo poderá dizer que a Ibéria é composta de povos latinos? Se esses princípios civilizacionais característicos da Ibéria mais se parecem com aqueles que a Alemanha representa, como é que se poderá, com razão sociológica, invocar a “latinidade” da Ibéria como impulso que a deva levar a combater a Alemanha? Esse impulso instintivo antes a levaria a apoiá-la. Compenetremo-nos bem, nós todos, Espanhóis e Portugueses, de que acima das nossas pátrias, que queremos distintas e independentes, há a Ibéria, a formação de uma fórmula ibérica de civilização a impor à Europa, gasta já dos princípios emanados da França, da Itália, das gentes anglo-escandinavas e das próprias gentes civilizacionalmente germânicas. Não é possível uma futura civilização espanhola, nem uma futura civilização portuguesa. O que é possível é duma futura civilização ibérica, formada pelos esforços da Espanha e de Portugal Todas as forças que se oponham a uma aliança, a um entendimento entre Portugal e Espanha devem ser desde já condenadas como inimigas. Essas forças são: os conservadores, sobretudo os católicos, e a Igreja Católica acima de tudo, que tem por ânsia íntima a união ibérica; a maçonaria, que é também estrangeira de origem e é agora um organismo estranho metido na carne da Ibéria; a França, que, com a sua cultura especial, tem envenenado, por excesso, a alma, ou as almas, da Ibéria. A Inglaterra, que politicamente tem espezinhado os países ibéricos. Olhemos bem para estes inimigos. Mas há quem tenha a coragem de os combater? Duvido. Duvido da alma ibérica bem formada capaz de compreender que é preciso combater ao mesmo tempo o catolicismo e a maçonaria, tão vergadas ao peso de antigas escravaturas as almas ibéricas se encontram. Para a criação da civilização Ibérica é preciso a rigorosa independência das nações componentes dessa civilização. É um erro crasso supor que a fusão imperialista facilita a actividade civilizacional. Antes a entrava. Veja-se como se abaixou o nível intelectual da Alemanha depois da fundação do Império. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 38. My intense patriotic suffering, my intense desire of bettering the condition of Portugal provoke in me — how to express with what warmth, with what intensity, with what sincerity! — a thousand plans which, even if one man could realise them, he had to have one characteristic which in me is purely negative—the power of wilI. But I suffer — on the very limit of madness, I swear it— as if I could do all and was unable to do it, by deficiency of will. The suffering is horrible. It holds me constantly, I say, on the limit of madness. And then ununderstood. No one suspects my patriotic love, intenser than that of everyone I meet, of everyone I know. I do not betray it; how do I then know they have it not? How can I tell their care is not such as mine. Because in some cases, in most, their temperament is entirely different; because, in the other cases they speak in a way which reveals the non - existence at least of a name patriotism. The warmth, the intensity — tender, revolted and eager —, of mine I shall never express, [...] Besides my patriotic projects — writing of Portugal Republic — to provoke a revolution here, writing of Portuguese pamphlets, editing of older national literary works, creation of a magazine, of a scientific review, etc .— other plans, consuming me with the necessity of being soon carried out [...] combine to produce an excess of impulse that paralyses my will. The suffering that this produces I know not if it can be described as on this side of insanity. Add to all this other reasons still for suffering, some physical, others mental, the susceptibility to every small thing that can cause pain (or even that to a normal man could not cause any pain), add this to other things still, complications, money difficulties — join this all to my fundamentally unbalanced temperament and you may be able to suspect what my suffering is. 30-10-08 Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 4. Aos homens tu produzes palidezes Da sensação não tristes sempre, a alguns Um mais acentuado sentimento De tristeza; mas em mim, ah tarde! trazes, Em mim m'acordas e m'intensificas Meu desolado e vago natural. Qu'importa? Tudo é o mesmo. A mim, quer seja Manhã inda d'orvalho arrepiada, Dia, ligeiro em sol, pesado em nuvens Ou tarde (...) Ou noite misteriosa e (...) Tudo, se nele penso, só me amarga E me angustia. Tenho no sangue o enigma do universo E o seu pavor que outros não conhecem E alguns talvez, mas não profundamente. Só a mim me foi dado sentir sempre. E se às vezes pareço indiferente E em mim mesmo calmo, é apenas O excesso da dor e do horror Cuja constante (...) me dói. s.d Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 26. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.90). Cap: A Guerra Presente Os capítulos antecedentes habilitaram por certo o leitor a ver, com a precisa nitidez, qual o íntimo sentido desta guerra. Ele terá visto, guiando-se pelas explicações que tenho ido desdobrando, que nesta guerra, como causas, andam envolvidos elementos de três ordens. No fundo, esta guerra , com o todas as grandes guerras, é uma guerra religiosa. Digladiam-se, pela primeira vez, claramente, na civilização moderna, as forças pagãs renascentes e as forças cristãs na decadência. Porque esta civilização é uma civilização cristã, e porque, por isso mesmo, onde está o espírito cristão, está uma maior adaptação às circunstâncias civilizacionais, é natural que a Alemanha seja derrotada. O carácter à parte da sua civilização, precisamente porque à parte, isola a nação que o criou, e coloca-a na contingência de erguer o mundo inteiro contra si, o que é quase uma indicação de derrota. Mas, se a Alemanha se encontra menos adaptada do que qualquer outra nação presente às condições modernas (cristãs) de civilização, não esqueçamos ver que ela se encontra adaptada a mais fundamentais condições, de que as actuais de civilização. A Alemanha está de acordo com as condições fundamentais da vida social; a essas se adaptou. Mas esta guerra, fundamentalmente religiosa, é, por fora disso, civilizacional. Digladiam-se dois tipos cristãos de civilização — o tipo imperialista, e o tipo sentimental. Porque a Alemanha, pertencente a um tempo de civilização cristã, não podia, por pagão que fosse o seu espírito, sequer viver se não se apoiasse em determinados elementos do espírito cristão. Apoiou-se no mais pagão de todos — o imperialismo, criando-se através duma visão evocadora do Sacro Império que foi seu. Por fora, ainda, deste conflito religioso primeiro e depois civilizacional, digladiam-se várias ambições imperialistas e comerciais. É o lado puramente exterior da guerra presente. As causas económicas nunca valem senão como instigadoras e representativas das profundas causas psíquicas, visto que as sociedades são fenómenos psicológicos, na sua essência de sociedades. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 39. One of my mental complications — horrible beyond words — is a fear of insanity, which itself is insanity. I am partly in that state betrayed as his by Rollinat in the opening poem (I think) of his Névroses . Zmpises, criminal some, insane others, reaching, amid my agony, a horrible tendency to action, a terrible muscularity, felt in the muscles, I mean — these are common with me and the horror of them and of their intensity — greater than ever now both in number and in intensity — cannot be described. s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 6. Ambos à beira do poço Ambos à beira do poço Achamos que é muito fundo. Deita-se a pedra, e o que eu ouço É teu olhar, que é meu mundo. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 48. A vida é má e o pensamento é mau, Mas eu temo com mudo e íntimo horror A morte, pois concebo-lhe como essência, Olhando-a do movimento e (...) da vida, Uma monotonia não sei qual, Cujo pressentimento desvaria O meu incoerente pensamento. Essa monotonia que me nasce Da incompreensão, de nela suspeitar Diferença suprema do viver, Pavoroso contrário do bulício E movimentação da vida vã Que inda assim entretém meus olhos tristes; Essa ideia de (...) monotonia — Imovidamente concebi-a [ ?] — Faz-me o horror elevar-se até loucura Conscientemente, pavorosamente. E eu sinto um arrepio de pavor, Em torno meu o mundo oscila, o ser Oscila, e a consciência de sentir Desfaz-se em sensações de pensamento E distúrbios obscuros de ideação, Embebidos num sonho de sentir E sonhado sentimento de sonhar. Horror supremo! E não poder gritar A Deus — que Deus não há — pedindo alívio! A alma em mim se ironiza, só pensando Na de pedir ridícula vaidade, Interrupção da determinação E férrea lei do mundo. Górgias, antigo Górgias, que dizias Que se alguém algum dia compreendesse, Atingisse a verdade, não podia Comunicá-la aos outros — já entendo O teu profundo e certo pensamento Que ora não compreendia. Tenho em mim A verdade sentida e compreendida, Mas fechada em si mesma, que não posso Nem pensá-la. Senti-la ninguém pode. Cada homem tem em si — eu chego a crer E tu Platão sonhaste-o — a verdade, Sem consciência de a possuir. Pois o inanalisado sentimento E inanalisável, de viver, De existir, da existência, e do existente Não tem em si verdade? Pois o Ser Mesmo na inconsciência não é Ser... Mas inconsciência como? Nada sei. Eu quero desdobrar em conhecidos A unidade da verdade que eu Possuo dentro em mim e certa sinto, E ela não pode assim ser desdobrada. Negro horror d'alma! Ah como estou só! No isolamento negro de quem pensa E além naquele de quem sabe E nada dizer pode! Como eu desejaria bem cerrar Os olhos — sem morrer, sem descansar, Nem sei como — ao mistério e à verdade, E a mim mesmo — e não deixar de ser. Morrer talvez, morrer, mas sem na morte Encontrar o mistério face a face. Só, tão só! Olho em torno e vejo o riso, As lágrimas (...) e não percebo Qual a essência e (...) disso tudo. Sinto-me alheio pelo pensamento, Pela compreensão e incompreensão. Ando como num sonho. Compungido Pelo terror da morte inevitável E pelo mal da vida que me faz Sentir, por existir, aquele horror - Atormentado sempre. Objectos mudos Que pareceis sorrir-me horridamente Só com essa existência e estar-ali, Odeio-vos de horror. Eu quereria (Ah pudesse eu dizê-lo — não o sei) Nem viver nem morrer — não sei o quê, Nem sentir nem ficar sem sentimento... Nada sei... Serão frases o que digo Ou verdades? Não sei... eu nada sei... Não posso mais, não posso, suportar Esta tortura intensa - o interrogar Das existências que me cercam... Vamos, Abramos a janela... Tarde, tarde... E tarde... Eu outrora amava a tarde Com seu silêncio suave e incompleto Sentido além Da base consciente do meu ser... Hoje... não mais, não mais me voltarão As inocências e ignorâncias suaves Que me tornavam a alma transparente... Nunca mais, nunca mais eu te verei Como te vi, oh sol da tarde, nunca, Nem tu, monte solene de verdura, Nem as cores do poente desmaiando Num respirar silente. E eu não poder Chorar a vossa perda (que eu perdi-vos), Mas nem as lágrimas poder achar - Por amargas que fossem — com que outrora Eu me lembrava que vos deixaria. Nem em vós o mistério me abandona, Nem a vossa beleza em mim ignora Que vós, da beleza a própria essência, Inomináveis são! E mais sublime Apenas o mistério em vós; e não Como nas cousas simples horroroso... Nas cousas[?] que em meu quarto contemplando Me horrorizo... Estremeço, como sinto Atrás de mim o mistério! Já não ouso Voltar-me e ver... E ver! Delírio insano... Ver? A que loucura, a que delírio A sensação aguda do mistério Me leva... Nunca mais eu terei paz... Céus, montes pedir-vos não poder Que entorneis na minha alma esse segredo Que vos faz existir e eu sentir-vos! Não poder oração de arte negra (Puerilidades não! para quê citá-las?) Provocar a verdade a que se mostre... Se mostre como? Oh, minha alma amarga, Cheia de fel, e eu não poder chorar! Quem sente chora, mas quem pensa não. Eu, cujo amargor e desventura Vem de pensar, onde buscaria lágrimas Se elas para o pensar não foram dadas? Já nem sequer poder dizer-vos: Vinde, Lágrimas, vinde! Nem sequer pensar Que a chorar-vos ainda chegarei! (Cai de joelhos ante a janela, a cabeça sobre os braços, olhando distraidamente para longe) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 26. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.102). UMA VOZ: Silente, medonho, Embebido em sonho Sombrio e profundo É o mistério do mundo. SEGUNDA VOZ: Tecido de horrores, Mordido de dores Agudas de medo, E do mundo o segredo. TERCEIRA VOZ: Submerso É o Ser do universo. UMA VOZ DOLORIDA Mesmo que além do mundo (...) não seja Ainda assim há-de sonho e dor, Boca que ri, o lábio que beija Seu ódio ter, ter o seu horror. Nem só além do mundo há tristeza, Silente horror o mistério tem, Nem que humilde e com singeleza Seja aqui DOR corno HORROR além. Há muita voz — ouvi com espanto - A quem dá o mundo (...) de chorar Não só pensar tão triste o canto, Basta viver, para soluçar. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 30. I have thoughts which, if I could bring them forth and make them living, would add a new lightness to the stars, a new beauty to the world and a greater love to the heart of men. 1907? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 9. (após as canções da tarde) Com o súbito frio do crepúsculo Entra em minh'alma um frio mais subtil Corporeamente entra o mistério em mim E eu comungo a presença ausente sua. Sua presença (...) se volve eucaristia De sombra. Sua carne e o seu sangue De universo e além me tornam seu. Terras, céus A irrealidade do mundo A realidade de Deus, Tudo sorvo em meu mistério Tudo é irreal ante mim, Ó infinitos! Transcendo o que não tem fim. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 31. Quero ser livre insincero Sem crença, dever ou posto. Prisões, nem de amor as quero. Não me amem, porque não gosto. Quando canto o que não minto E choro o que sucedeu, É que esqueci o que sinto E julgo que não sou eu. De mim mesmo viandante Olho as músicas na aragem, E a minha mesma alma errante É uma canção de viagem. 26-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 172. Sonhos dentro de sonhos, Involuções do sonhar, Os pensamentos são medonhos Quando se querem aprofundar; E os corações ficam tristonhos, tristonhos Quando se sentem sentir pensar. ilusões dentro d'ilusões Atormentando o descrer; Descrenças e crenças são ambas visões São ambas sonhar, são ambas crer. 14-12-1908 Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 31. Considerações pós-revolucionárias É que, ignorantes inteiramente da sociologia, estranhos de todo à intenção social das coisas — os (...) do Correio da Manhã não sabem o que é uma revolução. Julgam que é um movimento guerreiro feito por um certo número de indivíduos, quando afinal a revolução é feita por uma sociedade, por intermédio de, e inconsciente delegação em um certo número de indivíduos. É uma divisão do trabalho social. Uma revolução é ostensivamente uma derrubação violenta de um regime, feita por alguns — poucos ou muitos — indivíduos. A revolução é uma expressão de opinião. É uma expressão violenta. A expressão violenta da opinião de vários indivíduos é um motim [?]; quando se trata, porém, da expressão de opinião de uma sociedade inteira é uma revolução. Antes, a opinião de um corpo social socialmente pensando. Um facto mínimo pode parecer às vezes dar vitória a um lado. Mas é que nesse facto, para esse facto, convergiram todas as causas sociais que fizeram essa revolta; nele e por ele se manifestaram. A causação social é [...], indestrinçavelmente complexa; mas o sociólogo que não sabe como as coisas se dão [?], sabe completamente [?] o que elas significam. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 40. Iconoclasta COMO PREPARAR A REVOLUÇÃO 1. O que é uma rev[olução]. la. Espécies de revolução. 2. Estado de espírito preciso para a produzir eficazmente. 3. Estado material preciso. 4. Preparações precisas. Preparar tudo, depois excitar pela imprensa e, obtida a correspondente reacção e o correspondente sentimento anti-reaccionário agudo, dar, de vez e a fundo, o golpe. (...) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 41. Considerações pós-revolucionárias Para compreendermos o actual estado de coisas, precisamos estudar: 1º O que é uma revolução e quantas espécies de revoluções há; 2º A que [...] de estado social correspondem essas revoluções; finalmente, a que espécie pertence a revolução portuguesa [...] e, consequentemente, qual o estado social que interpretou. Sairá desta análise, se a bem fizermos, o justo entendimento da actual situação portuguesa. (Evitar-se-á assim o emprego do conceito de representação?) 1. Motim. 2. Revolta (sublevação). 3. Revolução. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 42. Considerações pós-revolucionárias O facto de um certo número de indivíduos saírem, armados, para a rua e após (...) luta, vencerem os defensores dos poderes instituídos não é a revolução — é apenas o acto revolucionário. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 43. Da Ditadura à República Vantagens do efeito moral sobre as populações estúpidas. Uma revolução militar tem defeitos e vantagens. Tem defeitos como o de lançar a indisciplina precisamente onde a indisciplina é um crime, o de dar o precedente de revolta em quem, por estar sempre sob disciplina, facilmente se pode julgar sob opressão, o de quebrar a unidade (porque é de supor que nem todos os oficiais, pelo menos, sejam do partido monárquico de espírito, pelo menos a unidade superficial, que lhe e necessária mais do que a uma outra corporação qualquer. Tem a única e (...) vantagem de incutir nos revoltosos um outro amor pela instituição que o seu esforço criara, sentimento altamente útil quando nenhum sentimento patriota se pode desprezar. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 44. Considerações pós-revolucionárias Se tem havido um, ainda que difuso [?], pensamento colectivo, tendência colectiva para resistir, a revolução teria falhado. Mas ainda que houvesse mais resistentes individuais do que os pouquíssimos que houve, o movimento da resistência, por não ser colectivo, por não estar em qualquer alma colectiva necessariamente, como fracassou, fracassaria. Podia derramar-se mais sangue, mas a inutilidade de o derramar seria precisamente a mesma do que a daquele que se derramou e que, com a ausência [?] de um ou dois homens, podia não ter sido derramado. Movimento revolucionário que por causas [?] mínimas [...] ter ganho ou perdido tendo ganho, transcende para o sociólogo essas causas mínimas, e (...), na pequenez delas, a sua intensidade, inevitabilidade [?]. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 45. L. Portugueses Fausto (ou Outro Fausto): horror da morte puro e simples, por mistério. Frei Gil de Santarém : horror da morte por cortar os prazeres à vida; like real Faust-legend. Paracelso (?): desejo de vida eterna, por vida eterna, por viver simplesmente. Separate editions: Portugal: Água Estagnada: «Catástrofe» e outos poemas s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 198. Considerações pós-revolucionárias (vers la fin) Qual será, porém para o sociólogo, a razão de tantos erros? Na intuição que presidiu à escolha dos actuais governantes está naturalmente a causa imediata; e assim sendo na natureza especial da própria revolução devemos, escrupulosamente, analisando, encontrar as razões sociais dessa deficiência última. Vimos já o que é uma revolução: é — dissemos, definindo — a substituição de uma corrente social por outra no estado por (...) Fazendo agora convergir sobre a própria ideia de revolução uma mais destrinçante análise, veremos que três géneros há de movimentos revolucionários Temos, em 1º lugar, o movimento súbito e quasi, quando não de todo, incruento — quer por destituição; feita pelo povo com a abstenção das forças de guerra, quer directamente por estas com pronunciamento militar. Em segundo lugar, temos a revolta em que, por um combate rápido e já de origem inclinado para um certo lado, se dá a destituição. Há, em terceiro lugar, o caso de uma prolongada (...) (sem contudo ter o carácter de uma guerra civil) um regime o outro substitui. É bom, porém, que se conte que, fazendo uma classificação desta ordem, não pretendemos que, estudadas por ela todas e quaisquer revoltas, em uma das três categorias se integrem, completa e (...)mente. Fazemos uma abstracção. A complexidade, diversidade e interpenetração dos factores sociais (...) Se em qualquer país se pudesse reduzir o problema político à forma mais abstracta e pura, arredando dele todos os factores estranhos (...), sem dúvida que a revolução que se desse teria o carácter de um pronunciamento, pacificamente e rapidamente feito. Quer isto dizer que se os factos sociais fossem reduzidos a uma simplicidade enorme, isso se daria, dando-se então — exclusivamente nesse caso — a revolução no seu momento exactamente oportuno — exactamente como, não havendo elementos perturbadores a criança [...] os nove meses de vida intra-uterina. É o 1º caso acima apontado. Em qualquer dos outros casos, a revolução é prematura. Porém alguém objectou que revolução prematura e coisa sem sentido, porque o dar-se a revolução é precisamente o indício de que da então se devia dar. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 46. Nos jardins municipais As flores também são flores. Assim, na vida e no mais, Que a vida é de estupores, Podemos todos ser nossos E fluir como quem somos. Quando a casa é só destroços É que a fruta é só de gomos. 1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 77. [...] 182. Dança Árabe = G 183. «De crisantemos, só crisantemos» =12-XI-14 = 4x5 184. Indo para casa  = 17-XI-14  = 185. Raio de Sol = 17-XI-14 186. A D. Egas Moniz = 13-XI-14  =  soneto 187. Na mesa ao canto do café =18-XI-14 = 4x6 188. Versailles (sonetos paúlicos) = 189. «Tarde, tarda»  =  G 190. «nevoentos desencantos»  = 191. Hora absurda  = 192. Fausto — Tragédia subjectiva = 193. Inês de Castro — tragédia = 194. Portugal — poema em 6 cantos = 195. A Múmia  = 196. Outras Paisagens  = 197. «Roxeou não podermos ser...»  = 198. Ode ao Encoberto  = 199. «...raiou a aurora, raiou a aurora»  = 200. «Como quem, passando um arco às vezes...» = [etc.] s.d. - . O observador imparcial chega a uma conclusão inevitável: o país estaria preparado para a anarquia; para a república é que não estava. Grandes são as virtudes [de] coesão nacional e de brandura particular do povo português para que essa anarquia que está nas almas não tenha nunca verdadeiramente transbordado para as coisas! Bandidos da pior espécie (muitas vezes, pessoalmente, bons rapazes e bons amigos — porque estas contradições, que aliás o não são, existem na vida), gatunos com seu quanto de ideal verdadeiro, anarquistas-natos com grandes patriotismos íntimos de tudo isto vimos na açorda falsa que se seguiu à implantação do regime a que, por contraste com a monarquia que o precedera, se decidiu chamar República. A monarquia havia abusado das ditaduras; os republicanos passaram a legislar em ditadura, fazendo em ditadura as suas leis mais importantes, e nunca as submetendo a cortes constituintes, ou a qualquer espécie de cortes. A lei do divórcio, as leis de família, a lei de separação da Igreja do Estado — todas foram decretos ditatoriais, todas permanecem hoje, e ainda, decretos ditatoriais. A monarquia havia desperdiçado, estúpida e imoralmente, os dinheiros públicos. O país, disse Dias Ferreira, era governado por quadrilhas de ladrões. E a república que veio multiplicou por qualquer coisa — concedamos generosamente que foi só por dois (e basta) — os escândalos financeiros da monarquia. A monarquia, desagradando à Nação, e não saindo espontaneamente, criara um estado revolucionário. A república veio e criou dois ou três estados revolucionários. No tempo da monarquia, estava ela, a monarquia, de um lado; do outro estavam, juntos, de simples republicanos a anarquistas, os revolucionários todos. Sobrevinda a república, passaram a ser os republicanos revolucionários entre si, e os monárquicos depostos passaram a ser revolucionários também. A monarquia não conseguira resolver o problema da ordem; a república instituiu a desordem múltipla. É alguém capaz de indicar um benefício, por leve que seja, que nos tenha advindo da proclamação da República? Não melhorámos em administração financeira , não melhorámos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na república não era possível, porque era perigoso, insultar até verbalmente o Sr. Afonso Costa. O sociólogo pode reconhecer que a vinda da república teve a vantagem de anarquizar o país, de o encher de intranquilidade permanente, e estas coisas podem designar-se como vantagens porque, quebrando a estagnação, podem preparar qualquer reacção que produza uma causa mais alta e melhor. Mas nem os republicanos pretendiam este resultado nem ele pode surgir senão como reacção contra eles. E o regime está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados morais, nos serve de bandeira nacional — trapo contrário à heráldica e à estética porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português — o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que por direito mental, devem alimentar-se. Este regime é uma conspurcação espiritual. A monarquia, ainda que má, tem ao menos de seu o ser decorativa. Será pouco socialmente, será nada, nacionalmente. Mas é alguma coisa em comparação com nada absoluto que a república veio [a] ser. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 47. Porque, ó Sagrado, sobre a minha vida Derramaste o teu verbo? Porque há-de a minha partida A coroa de espinhos da verdade [?] Antes eu era sábio sem cuidados, Ouvia, à tarde finda, entrar o gado E o campo era solene e primitivo. Hoje que da verdade sou o escravo Só no meu ser tenho[,] de a ter[,] o travo, Estou exilado aqui e morto vivo. Maldito o dia em que pedi a ciência! Mais maldito o que a deu porque me a deste! Que é feito dessa minha inconsciência Que a consciência, como um traje, veste? Hoje sei quase tudo e fiquei triste... Porque me deste o que pedi, ó Santo? Sei a verdade, enfim, do Ser que existe. Prouvera a Deus que eu não soubesse tanto! 1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 78. Obras, [...] ditas em 12-1-1914 Em Português: 1. As Sete Salas do Palácio Ab. 2. Gládio. 3.Auréola. 4. Inês de Castro. 5. Fausto 6. Trilogia dos Gigantes 7. D. Sebastião (poema sinfónico). 8. Livro do Desassossego. 9. Teatro d’Extase. 10. Crónicas imprevistas. 11. Contos matafísicos (3v.). 12. Na farm. do Evaristo 13. Quaresma, Decifrador. 14. Três histórias. 15. Sátiras. 16. Críticas. 17. Marcos Alves. 18. Tratado de Sociologia 19. Tratado de Estética. 20. O Ind.mo Integral. 21. A Moral da Força. 22. Estudos sociológicos. 23. O Mito de W.m Shakespeare. Em Francês: 1. Faute de mieux vers Em Inglês: 1. The five Gates of the City 2. The Voyage and Other Poems 3. The Duke of Parma 4. Prometheus Rebound 5. Marino 6. The Isle of Fools 7. Satires 8. Pamphlets 12-1-1914 Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 200-1. Da Ditadura à República Até agora, na história da humanidade, uma vez esta saída da primitiva "homogeneidade incoerente e indefinida", não tem sido concebível modo de organização da socied. outro que um nitidamente estadual. Isto é, o modo de existir social anarquístico (não tem na história exemplo, a não ser que se remonte — e é mais em imaginação do que em ciência que se remonta — a uma tão animal primitividade que a própria imaginação, que a ideia reconhece, por a reconhecer anti-social, como fora da raciocinativa para a discussão sociológica. Vê-se, pois, que toda a vida social, no que política, se resume, primariamente, na espontânea cisão funcional (e como vai ver-se, é necessariamente estrutural) dos indivíduos em governantes e governados; e, por isso, o único aspecto sociológico do poder político cifra-se na consideração de como em qualquer sociedade os governantes se formam, se diferenciam se relacionam com os governados. É, assim, mais útil e orgânico na vida social, do que parece, o escolher dentro das formas de governo, e quiçá, na base, nada mais de como a cisão de governantes e governados se faz porque, no resto do mundo dessa cisão nascerá para o raciocínio o envolvido inter-relacionamento de classes que essa cisão intrinsecamente importa. Procurou-se, em princípio, desvendar quais as características essenciais de toda a classe de governo, correndo o raciocínio sobre todas as guerras de sociedade(s). Uma dessas características é logo evidente: toda a classe governante é sempre uma minoria . Porque, claro é — governar é uma especialização. A diferença entre uma aristocracia e uma democracia é que numa aristocracia os governantes são uma classe , especialista pelos hábitos e tradições e aprendizagem de governo, corno os sapateiros, os alfarrabistas e outros artistas no seu ramo; ao passo que numa democracia os governantes são, não uma classe, mas uma acumulação de indivíduos. Por isso a natureza essencial de uma democracia é ser individualista. Toda a democracia que o não for falta e trai a sua natureza de democracia. Na democracia pura não há limite a esse acesso individual; na democracia limitada há-de (...) No regime monárquico o rei ocupa a mesma posição que no regime democrático ocupa o povo; é em ambos os casos ilusória a força política e muito real a aplicabilidade política. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 48. Quando já nada nos resta É que o mudo sol é bom. O silêncio da floresta É de muitos sons sem som. Basta a brisa pra sorriso Entardecer é quem esquece. Dá nas folhas o impreciso, E mais que o ramo estremece. Ter tido esperança fala Como quem conta a cantar. Quando a floresta se cala Fica a floresta a falar. 9-8-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 79. — Só a Arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes — tudo isso passa. Só a arte fica, por isso só a arte vê-se, porque dura. 1914? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 3. Trilogia da Noite 1. Fausto.(a consciência) 2. Jesus (Christo) (a ilusão) 3. (Um dominador) ((...)) Meu pai, meu p. porque me abandonaste(s)? (Judas a symbol.) (Satan [...] then) Frei Gil Paracelso s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 201. Da Ditadura à República Divisão do trabalho estranhamente perfeita na República portuguesa e na sua factura. A destruição foi inteiramente obra de não idealistas. Enquanto os idealistas se não organizarem para a actividade social não haverá construções . Os únicos construtivos em Portugal são os idealistas; não há outros (profundo sintoma!) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 49. O horror de me sentir viver, De me sentir um sonho ante outros sonhos... Horroroso sonhar, o horror de ver-me Mais que ignorante do que é isto tudo. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 91. O sol doirava-te a cabeça loura. És morta. Eu vivo. Ainda há mundo e aurora. 1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 81. O valor essencial da arte está em ela ser o indício da passagem do homem no mundo, o resumo da sua experiência emotiva dele; e, como é pela emoção, e pelo pensamento que a emoção provoca, que o homem mais realmente vive na terra, a sua verdadeira experiência, regista-a ele nos fastos das suas emoções e não na crónica do seu pensamento científico, ou nas histórias dos seus regentes e dos seus donos,[?]. Com a ciência buscamos compreender o mundo que habitamos, mas para nos utilizarmos dele; porque o prazer ou ânsia só da compreensão, tendo de ser gerais, levam à metafísica, que é já uma arte. Deixamos a nossa arte escrita para guia da experiência dos vindouros, e encaminhamento plausível das suas emoções. É a arte, e não a história, que é a mestra da vida. 1925? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 3. 1. As Sete Salas do Palácio Abandonado. 2. Auréola (Poemas). 3. Episódios. 4. Gládio. (Portugal) 5. Manhã de Névoa (poesias sebastianistas). 6. Trilogia dos Gigantes. 7. Fausto. 8. Inês de Castro. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - . O rio que passa dura Nas ondas que há em passar, E cada onda figura O instante de um lugar. Pode ser que o rio siga, Mas a onda que passou É outra quando prossiga. Não continua: durou. Qual é o ser que subsiste Sob estas formas de estar, A onda que não existe, O rio que é só passar? Não sei, e o meu pensamento Também não sabe se é, Como a onda o seu momento Como o rio [?] 26-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 173. Tudo isto Desde os céus e as estrelas Até às pequenezes íntimas Me horroriza por ser E (...) compreendo Até ao negro da compreensão Aborreço-me da possibilidade de vida eterna; o tédio de viver sempre deve ser imenso. Talvez o infinito seja isso. Só o tédio de o pensar é horroroso. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 91. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.94). A aranha do meu destino Faz teias de eu não pensar. Não soube o que era em menino, Sou adulto sem o achar. É que a teia, de espalhada Apanhou-me o querer ir... Sou uma vida baloiçada Na consciência de existir A aranha da minha sorte Faz teia de muro a muro... Sou presa do meu suporte. 10-8-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 82. Science describes things as they are; art as they are felt, as they are felt to be. The essential thing in art is to express; what is expressed does not matter. 1909? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 4. Portuguese Books B. 1. «Desde Camões». 2. «Ondas». 3. «Lágrimas» 4. «Outro Fausto» 5. «Briareu». 6. «Typhon».    (Os Gigantes 7. (...) 8. «Auto da Verdade» 9. «Agulhas e Alfinetes» (por J.M. e outros intelectuais) 10. «Ritmos Bárbaros» 11. «Em metro clássico» 12. «Poesias lusitanas» (x) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 202. Apartado 147. Lisboa, 22 de Outubro de 1932. Meu querido Gaspar Simões: Muito obrigado pelas suas duas cartas, a última de 6 de Outubro. Tem sido, de facto, a falta de saúde, ou pelo menos, um pedaço de falta de saúde, que me tem levado a demorar tanto o escrever-lhe de novo e o enviar-lhe a colaboração para a Presença. Não sei se lhe disse: tive uma espécie de intoxicação geral, à qual se sobrepunha e sobrepõe, ante et post (pois que em parte provocou a intensidade da intoxicação, e em parte se agravou com essa intensidade), o que, se não é uma neurastenia aguda, lhe copiou com êxito as feições e as maneiras. Tem sido, mais particularmente, a acção desta última inacção que me tem tido preso – já de mim tão natu­ralmente idóneo para as clausuras da vontade. Não tive tempo de completar a Nota para o Casais Monteiro; espero, porém, completá-la em breve, e v. poderá publicá-la no outro número da Presença. Está claro que era neste que deveria vir, e, se não fosse a minha incompetência presente para fazer qualquer coisa, neste poderia vir, pois a Nota nada tem de difícil na redacção. Como, porém, outra colaboração é uma ques­tão de simplesmente copiá-la (e até isto me tem sido mentalmente difícil), aí lhe envio um pequeno poema. Espero que chegue a tempo para este número da revista. Sempre e muito seu, Fernando Pessoa. 22-10-1932 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 93. O único mistério no universo É haver um mistério do universo. Sim, este sol que sem querer ilumina A terra e as árvores, e as estações todas; As pedras em que eu piso, as casas brancas, Os homens, o convívio humano, a história, O que se passa — tradição ou fala — Entre alma e alma — as vozes, as cidades — Tudo nem traz consigo a explicação De existir, nem tem boca com que fale. Por que razão não raia o sol dizendo O que é? Por que motivo sossegado Existem pedras sob os meus passos, e ar Que eu respiro, e eu preciso respirar? Tudo é uma máquina monstruosa e absurda. Com todo o corpo e o ver [?], terra da alma, Ignoramos. Por que há? Por que há um universo? Por que é um universo que é este? Por que é assim composto o universo? Por que há? Por que há o que há? Por que há mundo, e porque é que há mundo assim? For que há aqui, dores, consciência e diferença? s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 92. Ah, só eu sei Quanto dói meu coração Sem fé nem lei, Sem melodia nem razão. Só eu, só eu, E não o posso dizer Porque sentir é como o céu, Vê-se mas não há nele que ver. 10-8-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 83. Art is self-expression striving to be absolute. 1913? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 4. Poesia Português Livros: Gládio Água Estagnada Trilogia dos Gigantes Fausto Inês de Castro Inglês Ascension, and other poems. The Voyage, and other poems. The Poems of  Frederick Wyatt The Duke os Parma — A Tragedy Marino — A Tragedy. Prometheus Rebound. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 202-3. Apartado 147. Lisboa, 3 de Fevereiro de 1933. Meu querido Gaspar Simões: Muito obrigado pela sua carta de 25 de Janeiro. Compreendo perfeitamente a sua hesitação sobre se o seu livro teria sido recebido, e no devido tempo. Foi, e a culpa é minha em lho não ter agradecido mais cedo. O facto é, porém, que lhe queria escrever uma carta crítica e pormenorizada, mais ou menos como lhe es­crevi a propósito do seu livro anterior. Mas nem o que ainda resta e se arrasta do meu estado neurasténico me tornou isto fácil, nem tive, como da outra vez, a intui­ção de ao menos agradecer sumariamente o envio do livro, para depois, e com vagar, me referir a ele como queria e devia. Não é esta, ainda, a carta de crítica. Mas posso desde já dizer-lhe que muito apreciei o Elói. Não só me agra­dou em conjunto, mas alguns pormenores, começando pela abertura, me agradaram particularmente. Depois lho direi como quero e devo. Por agora, desejo somente agradecer-lhe, enfim, o livro, e pedir-lhe desculpa da demora em escrever-lhe. O exemplar para o António Botto veio junto com o meu – junto no mesmo correio, não no mesmo invó­lucro. No mesmo dia lho deixei no Café Arcada. Se esse exemplar, portanto, não foi recebido pelo António Botto, é que no Arcada lho não entregaram. O certo é que che­gou, que o recebi e que o deixei para ele. Desse lapso que não houve não culpe portanto o editor. Quando sai a próxima Presença? Até quando posso enviar colaboração? É claro que a posso enviar sem­pre; há sempre, pelo menos, um pequeno poema, para ser alguma coisa e não deixar de colaborar. Enviar-lho-ia hoje mesmo, se aqui (no escritório onde estou escre­vendo) tivesse qualquer poema ou lembrança dele dis­ponível. Que notícias há do Hourcade? Sempre e muito seu, Fernando Pessoa. 3-2-1933 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 95. Temo a verdade. Ignorar é amar. Toda esta terra, Estes montes (...) não os amara tanto Se soubera o que são, e enfim os vira Como os não vejo. Pudesse eu sem termo Gozar, sofrendo embora a ilusão Sem que a quebrasse. Como são tristes Os sonhos meus, inda que lhes pese, Só porque sonhos são, que não a vida, Assim serem.  [?] s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 92. No meu sonho estiolaram As maravilhas de ali, No meu coração secaram As lágrimas que sofri. Mas os que amei não acharam Quem eu era, se era em si, E a sombra veio e notaram Quem fui e nunca senti. 10-8-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 84. O valor de uma obra de arte é tanto maior quanto é puramente artístico o meio de manifestar a ideia. 1915? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 4. Apartado 147. Lisboa, 18 de Fevereiro de 1933. Meu querido Gaspar Simões: Acabo, literalmente, de receber a sua carta de on­tem, e, desta vez, respondo, em verdade, imediatamente. Dado o vosso amável desejo de que haja sempre colaboração minha na Presença, envio uma brevíssima composição do Ricardo Reis, escrita há dias e que por acaso ainda tinha na algibeira. Assim posso correspon­der à sua indicação de enviar na volta do correio. Quanto à colecção de autores portugueses e o modo como eu poderia figurar nela, escrever-lhe-ei daqui a uns dias. Desejo poder dizer-lhe qualquer coisa que de facto eu possa cumprir. O mais provável será eu poder fornecer, para a colecção, um dos «livros» do meu Cancioneiro, que deve dar qualquer coisa como 120 pá­ginas. Digo «o mais provável», porque é simples questão de escolher entre coisas que já existem. Em todo o caso, como acima digo, de aqui a dias lhe direi. Muito agradecia se me pudesse enviar, registrado, o número dos Cahiers du Sud. Dois dias depois lho devolverei, registrado também. De aqui encomendarei um exemplar para mim. Um abraço do seu admirador e muito amigo, Fernando Pessoa. 18-2-1933 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 96. Só a inocência e a ignorância são Felizes, mas não o sabem. São-no ou não? Que é ser sem no saber? Ser, como a pedra, Um lugar, nada mais. s.d. “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). - 97. Lâmpada deserta, No átrio sossegado. Há sombra desperta Onde se ergue o estrado. No estrado está posto Um caixão floral. No átrio está exposto O corpo fatal. Não dizem quem era No sonho que teve. E a sombra que o espera É a vida em que esteve. 10-8-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 85. O mistério de tudo Aproxima-se tanto do meu ser, Chega aos olhos meus d'alma tão perto Que me dissolvo em trevas e imerso Em trevas me apavoro escuramente. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 11. 1ª versão: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.75). A Arte é apenas e simplesmente a expressão de uma emoção. Um grito, uma simples carta pertencem um à arte de cantar, à literatura a outra, inevitavelmente. O próprio gesto é artístico segundo é ou não interpretação de uma emoção. Porque no gesto há o fim do gesto e a expressão desse fim. Uma coisa reporta-se à vontade, a outra à emoção. Elegância ou deselegância de um gesto significam conformidade ou não-conformidade com a emoção que exprime. Assim uma estátua da dor é a fixação dos gestos que mostram a dor — e será tanto mais bela quanto mais justa e exactamente representar por esses gestos a emoção da dor, quanto mais adaptados em tudo forem esses gestos ao mostrar essa emoção. 1910? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 5. N. do A.: H[istory] of a D[ictatorship] ou Estética Apartado 147. Lisboa, 25 de Fevereiro de 1933. Meu querido Gaspar Simões: Muito obrigado pelo empréstimo do exemplar dos Cahiers du Sud. Devolver-lho-ei na segunda‑feira. Não estou, é claro, tão livre de vaidade que não ficasse muito contente com o artigo do Hourcade. Não lhe escrevo por enquanto, a agradecer, pois acabam aqui de me infor­mar – alguém que falara com o Bourdon, que não conheço – que era provável que o Hourcade viesse para Lisboa, contratado para a Faculdade de Letras. Sabe v. alguma coisa disso? Muito me agradaria que fosse verdade. Quero, agora, referir-me ao assunto que deixei sus­penso – o de um livro meu para a colecção da Presença. Reflectindo – que era o que ia fazer –, encontrei qual­quer coisa de preferível a um dos livros do Cancioneiro. De preferível em três sentidos – mais breve (embora, é certo, não muito mais breve), muito superior, e muito mais de acordo com a publicação de coisas «novas» que será por certo a intenção dos livros projectados. Propo­nho-me dar-lhe O Guardador de Rebanhos do Caeiro, completo, com os seus 49 poemas. Está nas condições que acima lhe indiquei, e está pronto, salvo qualquer revisão verbal, que se pode fazer no próprio processo de o passar a limpo. O meu primitivo intuito, quanto a Caeiro, era de publicar, num só livro, os Poemas Completos (O Guar­dador de Rebanhos, O Pastor Amoroso, Poemas Incon­juntos). Sucede, porém, que não tenho reunidos ainda todos os poemas inconjuntos, nem sei quando os terei; e, ainda, que esses precisam de uma revisão de outra ordem, já não só verbal mas psicológica. E o que, como acima disse, não sucede com O Guardador de Rebanhos, como, aliás, não sucede com os cinco ou seis poemas do Pastor Amoroso. Diga-me o que pensa deste propósito, assim como de outro, que também agora me ocorreu, e que expo­nho a seguir. Querem vv. publicar, num desses volumes, os Indí­cios de Ouro do Sá-Carneiro? E o livro inédito dele, e esse está pronto, tal qual é, a ser publicado. Não é o caso das Obras Completas, sobre as quais há a dificul­dade de eu querer procurar, através do grande número de cartas que tenho, outros poemas não incluídos nos Indícios de Ouro, e dignos de figurar nessa edição defi­nitiva. Acresce que ainda não perdi de todo a esperança de que algures, na posse não sei de quem, possa existir o original do primeiro capítulo do Mundo Interior, ma­ravilhoso trecho de prosa que o Sá-Carneiro me leu aqui em Lisboa e de que sei que não houve continuação. Publicando o livro de poemas do Sá-Carneiro con­seguem, de certo modo, justificar-se perante os leitores da Presença do não aparecimento da anunciada edição das obras completas dele. É, aliás, assunto que poderia ser referido, passim num breve prefácio. A obra do Sá-Carneiro – salvo os tais inéditos possíveis – ficaria assim inteiramente publicada. Se v. acha isto bem, ou acha bem ambos os istos, diga-me quando quer os originais. E, se houver inconve­niente na publicação dos dois livros, já v. sabe que deve publicar o do Sá-Carneiro, de preferência ao meu. De facto, e para dizer qualquer coisa parecida com a verdade, gostaria que vv. publicassem O Guardador de Rebanhos. Teria eu assim o prazer de serem vv. que apresentassem o melhor que eu tenho feito – obra que, ainda que eu escrevesse outra Ilíada, não poderia, num certo íntimo sentido, jamais igualar, porque procede de um grau e tipo de inspiração (passe a palavra, por ser aqui exacta) que excede o que eu racionalmente poderia gerar dentro de mim, o que nunca é verdade das Ilíadas. Sou devedor a vv. de tantas e tão acumuladas gen­tilezas que dar-lhes menos que o meu melhor, podendo dar esse melhor, não seria desculpável. Abraça-o o amigo e admirador sempre reconhecido, Fernando Pessoa. 25-2-1933 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 97. Em cada Consciência o Grande Horror Mostra através da máscara os seus olbos. E o carnal, Em toda a sua extensão De nudez da carne e da alma, mirra Minha alma do pavor de colocar A mão, na escuridão, sobre a fronte Do Mistério. A cópula dos entes, o contacto Carnal das almas, pávido encontrar-se Do horror de uma alma com o de outra alma, Do mistério de um ser com o de outro ser, Quintessenciar-se local, tangível Do Mistério, (...) Escrever Em palavras de carne, sentindo O horror e o mistério do Universo. Com que gesto de alma Dou o passo de mim até à posse Do corpo de outro, horrorosamente Vivo, consciente, atento a mim, tão ele Como eu sou eu. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 93. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.121). Ah, como incerta, na noite em frente, De uma longínqua tasca vizinha Uma ária antiga, subitamente, Me faz saudades do que as não tinha. A ária é antiga? É-o a guitarra. Da ária mesma não sei, não sei. Sinto a dor-sangue, não vejo a garra. Não choro, e sinto que já chorei. Qual o passado que me trouxeram? Nem meu nem de outro, é só passado: Todas as coisas que já morreram A mim e a todos, no mundo andado. É o tempo, o tempo que leva a vida Que chora e choro na noite triste. É a mágoa, a queixa mal definida De quando existe, só porque existe. 14-8-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 86. ARTE — IDEALIZAÇÃO Todo o material da arte repousa sobre uma abstracção: a escultura, p. ex., desdenha o movimento e a cor; a pintura desdenha a 3ª dimensão e o movimento portanto; a música desdenha tudo quanto não seja o som; a poesia baseia-se na palavra, que é a abstracção suprema, e por essência, porque não conserva nada do mundo exterior, porque o som—acessório da palavra — não tem valor senão associado — por impercebida que seja essa associação. A arte, portanto, tendo sempre por base uma abstracção da realidade, tenta reaver a realidade idealizando. Na proporção da abstracção do seu material está a proporção em que é preciso idealizar. E a arte em que mais é preciso idealizar é a maior das artes. 1915? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 5. Apartado 147. Lisboa, 2 de Abril de 1933. Meu querido Gaspar Simões: Tantas foram as complicações de ordem prática e urgente que desabaram sobre mim o mês passado que só hoje – domingo – pude começar a passar a limpo os Indícios de Ouro do Sá-Carneiro. Aí lhe mando o que já passei, que é quase metade do livro. Ir-lhe-ei mandando o resto à medida que o for trasladando. Envio, e enviarei sempre, dois exemplares, pois pode ser conveniente v. ter um duplicado, e nada custa tirá-lo quando se escreve à máquina. Logo que esteja pronto o traslado dos Indícios de Ouro, farei o do Guardador de Rebanhos. O Sá-Carneiro aceitava a ortografia moderna, sim­plificada, oficial – ou como se lhe queira chamar. Não sei se vocês seguem um critério de uniformização orto­gráfica nos livros da colecção; seja como for, no caso do Sá-‑Carneiro isso está certo, pois assim ele queria e fazia, pedindo às vezes que lhe emendassem a ortografia, para ficar certa com a oficial, onde ele tivesse dúvidas se escrevera realmente de acordo com ela. Não garanto que esteja tudo rigorosamente certo por esse critério. V., porém, fará o necessário para que fique certo. Há, possivelmente, erros de grafia do pró­prio Sá-Carneiro, e alguns haverá meus, por lapso, ao copiar. Há porém algumas observações a fazer, relati­vas a pontos onde se não deve emendar, ou alterar, embora pareça melhor de outra maneira. Os pontos re­sumem-se a três: (1) Certas palavras (por ex. Ouro ou oiro) que se escrevem indiferentemente com OU ou OI, escreve-as o Sá-Carneiro umas vezes de uma maneira, outras vezes da outra; isto correspondia, como sei, a um impulso rítmico, e não deve portanto alterar-se. (2) Há que manter as maiúsculas como ele as pôs, embora por vezes não seja fácil perceber porque delas usou, e outras vezes o uso seja absurdo e até contraditório dentro do mesmo poema. Nisto, como v. compreende, também se não deve tocar. (3) O mesmo se aplica à pontuação, extraordinariamente irregular e fantasista, mas a que o Sá‑Carneiro ligava uma grande importância. Várias ve­zes eu repontei com ele por causa de traços onde con­viria pôr vírgulas, ou ponto-e-vírgulas, etc. Mas ele, apesar de pronto a anuir em outras coisas, nesta nunca anuía. Concordava muitas vezes comigo, mas tinha amor a essa pontuação especial. Por isso se lhe não deve tam­bém tocar. Creio que são estas as únicas observações que há a fazer. Depois de estar completo o traslado do livro, enviar-‑lhe-ei uma nota preliminar, ou projecto dela, para v. ver se tem cabimento. Pensei, primeiro, em mandar, para prefácio, as breves linhas que escrevi, com o mesmo sentido, na Athena. Acho melhor não as incluir. Mas é por certo essencial que se diga qualquer coisa (uma página ou duas bastará) sobre os Indícios de Ouro a sua publicação agora, etc. Propriamente falando, os Indícios de Ouro acabam numa composição chamada Último Soneto, publicada já ou na Athena ou noutro lugar (neste momento não me lembro) ; e o soneto que começa: «Que rosas fugi­tivas foste ali!» e acaba «Onde a minha saudade a Cor se trava». Para além disto há os três sonetos O Fan­tasmo, El-Rei e Aquele Outro (publicados na Athena), um poema Crise Lamentável, que está inédito, e os ver­sos finais (que vieram na Athena também), aquela es­pécie de pré-epitáfio com que fecham os poemas ali insertos – Ora confesso que não sei se deixe os Indícios de Ouro fechados com o Último Soneto, se lhe agregue estes outros poemas. Há argumentos em favor de qual­quer das coisas: por um lado o livro estava natural­mente completo com o último Soneto a fechá-lo; por outro lado o Sá‑Carneiro, numa das suas últimas cartas, dizia-me que, quando publicasse o seu livro de versos, juntasse estes poemas. O natural seria esta segunda hi­pótese. Receio, porém, que apareçam outros poemas, que ele se esquecesse de mencionar, entre as muitas car­tas que me escreveu de Paris por essa altura e pouco antes, e que não tive ainda ocasião de reunir e examinar com cuidado, carta a carta. Ora estes poemas, a apare­cer, formariam, com os tais suplementares, os Últimos Poemas do Sá-Carneiro, e assim deveriam figurar nas Obras Completas, não aqui neste livro. Se v. tiver alguma opinião que ache que me pode habilitar a ver claro nisto, dê-ma. 3 de Abril. Por efeito da acção vulgar do tempo normal, não­-eínsteiniano, tive ontem que interromper esta carta na altura em que v. a vê interrompida. Estive hoje a rever o que tinha passado a limpo, e a fazer certas emendas, sobretudo as que derivavam de uma comparação do texto escrito do Sá‑Carneiro com o texto impresso no Orpheu, naqueles poemas do livro que saíram no n.º 1; fiz prevalecer, é claro, o texto do Orpheu, pois esse foi revisto, com o devido cuidado, pelo Sá‑Carneiro e por mim. Esquecia-me de apontar que, não para poupar papel mas tempo, copiei os poemas a fio; suponho, contudo, que v. os fará imprimir em páginas separadas. Assim estão, é claro, no próprio livro manuscrito do autor. Esta carta deve seguir amanhã, e não ainda hoje, e é possível que eu consiga arrancar uns minutos con­secutivos ao comércio de Lisboa para avançar o tras­lado do livro. Interrompo outra vez. 4 de Abril. Fecho esta carta sem adiantar nada no traslado dos poemas. Vai assim, para não demorar mais. Retomarei amanhã o trabalho de copiar. Estive, agora mesmo, a completar a revisão pelo Orpheu dos poemas que lá vie­ram. Mas, enfim, isto sempre foi um pouco apressado, embora não creia que vão muitos erros: na leitura das provas se fará o necessário para tudo ficar certo, ou, pelo menos, o mais certo possível. Tive pena que a sua estada em Lisboa, aquando da sua conferência , coincidisse com alguns dias de maior invisibilidade minha. O Almada Negreiros disse-me que v. me tinha procurado, ou que me ia procurar – ele não esclareceu bem qual das coisas era –, mas, se v. me foi procurar em qualquer lugar onde eu costumo estar ou passar, ninguém me deu indicação a esse respeito. Isto me desculpará perante v. de qualquer lapso mais con­creto, se porventura houvesse ocasião de mo atribuir. Sempre e muito seu, Fernando Pessoa. P. S. – Desculpe o atabalhoado desta carta, em to­dos os seus capítulos, máquinas de escrever diferentes, etc. À força de ter tantas coisas que fazer, todas ao mesmo tempo, estou com a alma não‑euclidiana. Outro dia serei (espero) de uma geometria mental mais da velha tradição. 2-4-1933 3-4-1933 4-4-1933 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 100. Não me concebo amando, nem dizendo A alguém «eu te amo», sem que me conceba Sob uma outra alma que não é a minha Toda a expansão e transfusão de vida Me horroriza como a avaro a ideia De gastar e gastar inutilmente, Inda que no gastar se esboce gozo, Um terror como de crime, Uma frieza como ante o impossível Tolhe a própria visão dum meu amor Dentro em meu ser. Sentir amor, talvez, Pois quem sabe o que está fadado (...)  ;mas amar, amar, Nunca... não só o horror de (...) Mas o pudor de dizer o que sinto E ser amante aos olhos e ouvidos Duma alma consciente, o entregar-me Eu, o mistério de uma consciência, Ao mistério duma outra consciência. O poder estar inerte e (...) Que só concebo como meu. A vida é o esquecer-se continuamente Mas eu, nesta minha intensa vida, Vivi em mim tão solitariamente, Que não sei esquecer-me, nem tirar De mim meus olhos d'alma; e em cada gesto De amor que eu fazia, analisá-lo Até lhe descobrir o horror e (...) Da essência do mistério; e ao ver tão perto Como entre minhas mãos o revelado Horror de tudo, logo deixarei A possibilidade de amar Cair delas tremendo. Do universo A alma misteriosa eu sempre atento Em toda a parte vejo; se já estas Inanimadas cousas que me cercam Me dão, nas muitas horas em que as fito, Não com os sentidos mas com a alma logo, Directamente como com a vista, Me torturam, no auge do terror Pelo mistério que não são e são; Quanto mais — oh horror de o conceber! — Ao ouvir vozes íntimas de alma De um ser amante — minhas ou para mim — Ao ouvir assim perto, ao ver assim Próximo da minha alma sempre atenta Uma voz do mistério feito vida — Quanto mais, como se a solução Do mistério mesmo me turbasse Até à morte de terror e espanto, Não se me esfriaria em medo a alma Ao ver em um olhar brilhar o horror De haver consciência e existências. Não é o acanhamento virginal Que da própria luxúria se perturba, Nem o ideal pudor, por delicada A alma, do que em amar é grosseria Inevitavelmente; não o medo De ser inapreciado ou ser troçado; Nem terror de impotência a Ser (...) Me ocupa. É mais negro sentimento Mais íntimo, mais frio e mais ligado Ao que, de continuado pensamento, Me é o que eu chamo a alma que é minha. E isto Decerto lograria a incompreensão Que primordial não é no meu temer E a troça da alma no olhar espreitando E (...) de quem é Diferente de todos e de tudo, Como um universo à parte, grande nisto Mas sem poder d'alguém ser entendido Senão por louco, ou desvairado ou triste, Injúrias de insuficiência e acanhamento De compreensão. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 93. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p. 22). Vinha elegante, depressa, Sem pressa e com um sorriso. E eu, que sinto co a cabeça, Fiz logo o poema preciso. No poema não falo dela Nem como, adulta menina, Virava a esquina daquela Rua que é a eterna esquina... No poema falo do mar, Descrevo a onda e a mágoa. Relê-lo faz-me lembrar Da esquina dura — ou da água. 14-8-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 88. Quem passa e me olha ou me conhece mal sabe Vendo-me apenas um cansado e triste O que em mim há distante disto tudo! Como é que a negra e lúcida verdade Pode chegar às almas Que na luz concebem? Tudo o que vive Ao sol deste existir e quer o sol Brilhe sem nuvens, anuviado seja Ou (...) — vive à luz E não suspeita o que é a escuridão Das cavernas da alma, esquecida De luz e vida, e onde a existência íntima Tem outra forma, outro ser e outro (...) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 11. Porque a arte dá-nos, não a vida com beleza, que, porque é a vida, passa, mas a beleza com vida, que, como é beleza, não pode perecer. A cada conceito da vida cabe não só uma metafísica, mas também uma moral. O que o metafísico não faz porque é falso, e o moralista não faz porque é mau, o esteta não faz porque é feio. 1930? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 6. Apartado 147. Lisboa, 11 de Abril de 1933. Meu querido Gaspar Simões: Muito obrigado pelas suas duas cartas – uma que se cruzou com a minha, a outra chegada agora mesmo. Acabei ontem de passar a limpo os Indícios de Ouro. Vou ainda rever a minha transcrição, para eliminar desde já quaisquer erros que haja; de sorte que só amanhã lhe mandarei essa parte final do livro. O caso de o livro incluir ou não os últimos poemas resolveu-se-me automaticamente à medida que eu o ia passando a limpo. Os Indícios de Ouro, apesar de cons­tituídos por poemas vários, e escritos sem intenção de formar um livro com esta ou aquela unidade, têm con­tudo uma nítida congruência íntima; representam, atra­vés dos vários poemas, uma fase absolutamente clara da vida mental do autor. A Caranguejola – que v. conhece da Athena, e que é o penúltimo poema do livro propriamente dito – destoa nitidamente do conjunto, e do mesmo modo destoam os tais últimos poemas. Visto isto, omiti do livro a Caranguejola, passando-o a limpo até fechar com Último Soneto. O Sá-Carneiro várias vezes – e baseando-se sempre no instinto de uma morte prematura, naturalmente por­que sentia que a daria a si mesmo – me falou da publi­cação, depois da morte dele, de qualquer livro que dei­xasse, dizendo-me que fizesse do livro o que quisesse e como quisesse. Esta autorização tem, evidentemente, li­mites – limites que qualquer pessoa, recebedora de tal encargo, a si mesma impõe. Creio, porém, que não excedo esses limites, antes me conformo absolutamente com o encargo, fazendo o livro consistir no que vai tras­ladado, e deixando os outros poemas para formar uma parte final e suplementar do volume que, nas Obras Completas, contenha os poemas. Refiro-me, não só aos últimos poemas que tenho, mas ainda aos tais outros possíveis que porventura venham a aparecer entre as cartas de Sá‑Carneiro. (Isto responde implicitamente à sua pergunta, se os últimos poemas por si podem dar um livro; está claro que não, pois, ainda com o que venha a aparecer, não passarão de uns dez ou doze, sendo por enquanto, com a Caranguejola , seis. Mas, como vê, o meu critério é outro). No decurso desta semana farei a nota preliminar para os Indícios de Ouro; devo enviar-lha, o mais tardar, na segunda-feira próxima. Por essa altura deve v. tam­bém já ter aí completo O Guardador de Rebanhos. Esse também tem um breve prefácio, que seguirá mais tarde ; mas, enfim, o que v. quer é ter os originais. Nisto, aliás, não tenha receio. A demora tem sido devida a uma falta absoluta de tempo, como lhe disse. Dada a constituição do livro do Sá-Carneiro da ma­neira que acima indiquei, acho que está certíssimo que se publique na Presença o único poema dos Últimos que está inédito. Ela aí vai. Compreenderá logo por que ra­zão não veio na Athena: a magnifica (e dolorosa) bruta­lidade de expressão na quadra «seguir pequenas» era estranha à índole daquela revista, ao passo que o não é à da Presença, como o não seria à do Orpheu. Quanto à minha colaboração, seguirá amanhã, com o resto dos Indícios de Ouro. Parece-me que isto abrange quanto lhe queria dizer hoje. Qualquer coisa, que me haja esquecido, direi amanhã. Um abraço do seu muito amigo e admirador, Fernando Pessoa. 11-4-1933 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 104. O horror metafísico de Outrem! O pavor de uma consciência alheia, Como um deus a espreitar-me! Quem me dera Ser a única consciência animal Para não ter olhares sobre mim! Dos olhos de cada um me fita, vivo, O mistério de ver; e o horror de verem-me Abisma-me. Não posso conceber-me outro, ou pensar Que a consciência que de mim é gémea Possa ter outra forma, e um conteúdo Diferentemente diferente. Só vejo Homens, bichos, as feras e as aves, Horrivelmente vivas e fitando. Sou como um Deus supremo que se houvesse Reconhecido em mim o único, E a cujo olhar inúmero se abeira O horror de mais inúmeros olhares. Ah, se em mim se reflecte o transcendente Brilho além de Deus! s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 96. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.120). Ah não poder tirar de mim os olhos, Os olhos da minh'alma da minh'alma (Disso a que alma eu chamo)! Só sei de duas cousas, nelas absorto Profundamente: eu e o universo, O universo e o mistério e eu sentindo O universo e o mistério, apagados Humanidade, vida, amor, riqueza. Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais Eu ou tu? Tu que vives inconsciente , Ignorando este horror que é existir, Ser perante o pensamento Que o não resolve em compreensões, tu Ou eu, que, analisando e discorrendo E penetrando (...) nas essências, Cada vez sinto mais desordenado Meu pensamento louco e sucumbido, Cada vez sinto mais como se eu, Sonhando menos, consciência alerta, Fosse apenas sonhando mais profundo... E esta ideia nascida do cansaço E confusão do meu pensar, consigo Traz horrores inúmeros, porque traz Matéria nova para o mistério eterno, Matéria metafísica em que eu Me perco a analisar. Pensar fundo é sentir o desdobrar Do mistério, ver cada pensamento Resolver em milhões de incompreensões, Elementos (...) Oh tortura, tortura, longa tortura! s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 12. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.86). OS DESVIOS IDEATIVOS DA POESIA MODERNA Emoção que não seja vaga, pensamento que o seja não prestam. Os modernos poetas franceses têm o contrário: são nítidos e (...) na emoção e vagos, deploravelmente vagos na ideia. Uma obra literária procura sentimentos que têm que ver com: a ideia, a emoção, a imaginação (que vem a ser uma combinação inteira de ideia e emoção). A ideia deve ser nítida, a emoção vaga, a imaginação, como é composta essencialmente de ambos, ao mesmo tempo vaga e nítida.— A arte deve dirigir-se a estas 3 faculdades, que não a uma ou duas delas isoladamente. 1913? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 6. É brando o dia, brando o vento. É brando o sol e brando o céu. Assim fosse meu pensamento! Assim fosse eu, assim fosse eu! Mas entre mim e as brandas glórias Deste céu limpo e este ar sem mim Intervêm sonhos e memórias... Ser eu assim, ser eu assim! Ah, o mundo é quanto nós trazemos. Existe tudo quanto existo. Há porque vemos. E tudo é isto, tudo é isto! 15-8-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 154. Apartado 147 Lisboa, 11 de Abril de 1933. Meu querido Gaspar Simões: Mais uma falha — esta às avessas. Em vez de lhe mandar amanhã o resto dos Indícios de Ouro, vai já hoje. E vai hoje também um pequeno poema meu, para a Presença. Ficamos assim em ordem, quanto ao ime­diato. Durante a semana passarei a limpo O Guardador de Rebanhos, como disse na carta junta. Os dois prefá­cios não tardarão. Não tenho empenho em o arreliar – velha tradição minha que convém quebrar, como, aliás, a maioria das tradições, excepto as que não existem. Não mando página para frontispício ou título dos Indícios de Ouro, pois isso já se sabe o que é: Mário de Sá-Carneiro – Indícios de Ouro – Poemas... e o mais o que for de editorial, etc. Mas para tudo isso o Tempo nos dará tempo. Sempre e muito seu, Fernando Pessoa. 11-4-1933 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 104. Quando se amam, vívidos, Dois seres juvenis e naturais, Parece que harmonias se derramam Como perfumes pela terra em flor. Mas eu, ao conceber-me amando, sinto Como que um gargalhar hórrido e fundo Da existência em mim, como ridículo E desusado no que é natural. Nunca, senão pensando no amor, Me sinto tão longínquo e deslocado, Tão cheio de ódios contra o meu destino De raivas contra a essência do viver. E nasce então em mim de tal sentir, Um negrume de tédio e ódio imenso Que torna os grandes crimes e os mais torpes Inadequadas cousas ao que sinto Em sua humilde e popular vileza. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 96. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.122). O pensar, e o pensar sempre Dá-me uma forma íntima e (...) De sentir, que me torna desumano. Já irmanar não posso o sentimento Com o sentimento doutros, misantropo Inevitavelmente e em minha essência. Toda a alegria me gela, me faz ódio, Toda a tristeza alheia me aborrece, Absorto eu na minha, maior muito Que outras. E a alegria faz-me odiar Porque eu alegre já não posso ser, E, conquanto o não queira assim sentir Sinto em mim que a minha alma não tolera Que seja alguém do que ela mais feliz. O rir insulta-me por existir, Que eu sinto que não quero que alguém ria Enquanto eu não puder! Se acaso tento Sentir, querer, só quero incoerências De indefinida aspiração imensa, Que mesmo no seu sonho é desmedida. E às vezes com pensar sinto crescer Em mim loucuras de (...) E impulsos que me transem de terror Mas são apenas   (...)   e passam. Mais de sempre é em mim (quando não penso E estou no pensamento obscurecido) Uma vaga e (...) aspiração Quiescente, febril e dolorosa Nascida do   (...)   pensamento E acompanhando-o comovidamente Nas inércias obscuras do meu ser. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 13. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.117). Apartado 147. Lisboa, 1 de Julho de 1933. Meu querido Gaspar Simões: Muito obrigado pela sua carta. Aí lhe envio colabo­ração para a Presença , mas não sei se servirá. Confor­mei-me com a sua indicação de a matéria não ser muito pequena. Escolhi por isso esse poema do Álvaro de Cam­pos. O pior é que talvez seja muito grande. Se for, diga-me, e enviarei então qualquer outra coisa de menor extensão; mas, nesse caso, v. arrisca-se a que seja um dos tais poemas milimétricos, por eu não ter tempo de copiar outro. Isto é uma simples indicação e não uma ameaça: não desejo que Presença fique submersa na Tabacaria Campos. Quando quer v. que eu lhe envie o prefácio para os Indícios de Ouro? E até quando posso eu enviar-lhe o original de O Guardador de Rebanhos? Diga-me pra­zos errados, antecipados por diplomacia, para, se eu tardar, afinal não haver atraso. Soube aqui há dias que afinal poderia não se dar o caso de o Hourcade vir para cá. Depreendi do que me disseram que houve qualquer pseudoconcorrente, de fora de Lisboa, que levantou, ou fez levantar, obstá­culos. V. tem qualquer indicação ou informação? Seria para mim, como v. compreende, um formidável prazer que o Hourcade viesse para Lisboa. Sempre e muito seu, Fernando Pessoa. 1-7-1933 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 108. Vendo passar amantes Nem propriamente inveja ou ódio sinto, Mas um rancor e uma aversão imensa Ao universo inteiro, por cobri-los. s.d. “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). - 123. Fausto perante o povo alegre Alegres camponeses, raparigas Alegres e ditosas, Como me amarga n'alma essa alegria! Vendo-a, que bem sinto que nunca a tive! Nem em criança, ser predestinado, Alegre era eu assim; no meu brincar Nas minhas ilusões de infância eu punha O mal da minha predestinação. Ao ver vosso dançar, ouvindo Vossas cantigas Sobe em mim um amargor que me estonteia E me faz odiar e desejar. Odiar o quê e desejar o quê? Não sei: sei que odeio e que desejo. Folgai — sinto a ironia dessa vida — Danças e cantos e a morte avança... Mas que importa? Tendes razão — se tendes! - Vem a morte e nos leva, e a Vossa vida Envolvida em inconsciências fundas Foi contudo feliz, enquanto a minha... Que dizer dela? Oh horror! horror! Não nasce em mim nem sombra de alegria Longínquo e exilado. Acabemos com esta vida assim! Acabemos! o modo pouco importa! Sofrer mais já não posso. Pois verei — Eu, Fausto, aqueles que não sentem bem Toda a extensão da felicidade Gozá-la? Eu que adaptado tenho A sensações profundas todo o ser Não as sentir? Ferve a revolta em mim Contra a causa da vida que me fez Qual sou. Eu morrerei e deixarei Neste mundo isto apenas: uma vida Sem prazer e sem gozo, sem amor, Só imersa em estéril pensamento E desprezo (...) da humanidade. Mas eu, como entrarei naquela vida? Eu não nasci para ela. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 14. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.114). Apartado 147. Lisboa, 22 de Janeiro de 1934. Meu querido Gaspar Simões: Escrevi-lhe, aqui há tempos, enviando colaboração, minha e do Álvaro de Campos, e em ambos os casos breve, para a Presença. Não sei se recebeu essa minha carta – a carta, escrita muito à pressa, era em cinco ou seis linhas somente – nem, portanto, a colaboração que ela incluía. Não digo isto por essa colaboração não ter vindo no número da Presença que há dias recebi: poderia ter chegado tarde, ou poderia não lhes ter con­vindo, tanto mais que não era grande coisa, de à pressa que a extraí dos meus montes de papéis. Digo isto por­que soube, através do Hourcade, que já uma carta mi­nha anterior para si se havia extraviado. Dirigi esta última para o endereço que vem como o da redacção da Presença – Rua J. A. Aguiar, 65, pois o Hourcade me disse dever ser esse o melhor endereço seu. Esta vai endereçada do mesmo modo. Peço que, logo que a re­ceba, me diga, num simples postal, que a recebeu. Assim saberei como e para onde escrever-lhe. Compreendo perfeitamente o que me diz sobre o atraso, aliás inevitável, nas edições da Presença. Tudo isso, de facto, o Hourcade me tinha explicado. Conta v., de facto, editar os Indícios de Ouro antes de Maio? Per­gunto isto para lhe poder enviar o prefácio em tempo. À parte isto, dê-me, sempre que puder, notícias suas. Renovo-lhe as (rápidas) felicitações, que lhe enviei na minha carta rápida, por ter recebido o Prémio da Imprensa. E isto me lembra que nunca lhe escrevi qualquer coisa de explícito e desenvolvido sobre o Elói. Um dia será. Enfim, tendo tanta gente tanta razão de queixa de mim, nesta matéria de correspondência, não é v., ainda assim, o que tem mais... Um abraço do amigo e admirador de sempre, Fernando Pessoa. 22-1-1933 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 109. Meu ruído de alma cala. E aperto a mão no peito, Porque sob o efeito Da arte que faz trejeito, O que é de Cristo fala. Cega, porca, lixo Da vida que n'alma tem, Esta criança vem. Que Deus é que do além Teve este mau capricho? 26-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 175. Perdido No labirinto de mim mesmo, já Não sei qual o caminho que me leva Dele à realidade humana e clara Cheia de luz, onde sentir-me irmãos. Por isso não concebo alegremente, Mas com profunda pesadez em mim, Esta alegria, esta felicidade, Que odeio e que me fere. Ouvir um riso Amarga-me a alma — mas por quê não sei. Sinto como um insulto esta alegria... Toda a alegria. Quase que sinto Que rir é rir... não de mim mas, talvez Do meu ser. Um insulto ao mistério estar a rir E tendo o horror, do poder durar eterno Do incompreendido! Estranho! Felicidade, (...) composto De sensualidade e infantilismo... Como te posso eu ter, felicidade? s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 15. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.116). Apartado 147. Lisboa, 8 de Fevereiro de 1934. Meu querido Gaspar Simões: Muito lhe agradeço a sua carta de 24 de Janeiro. Vejo que, de facto, perderam, aliás incompreensivel­mente, duas cartas minhas para si. A primeira, escrita há já bastante tempo, não tinha importância de maior: consistia em umas poucas linhas perguntando para quando seria preciso o prefácio aos Indícios de Ouro. Deu-se o caso de, pouco depois, aqui aparecer o Hour­cade, que me pôde elucidar sobre a marcha das coisas a este respeito – o que, aliás, v. mais tarde fez, quando me escreveu. A segunda carta era, como carta, as três ou quatro linhas a que ultimamente me referi; essa continha cola­boração para a Presença. Não se perdeu grande coisa, e a Presença ganhou, com a perda dessa carta. A cola­boração, como creio que já lhe disse, foi extraída à pressa do apressado; não digo que manchasse a Pre­sença, mas o certo é que a não ilustraria muito – no mais «conservador» dos critérios, como costumam dizer os Ingleses. Endereço esta carta como fiz à última, cumulativa­mente para si e para a Redacção de Presença; como essa de facto chegou, espero que esta chegue também. Se o não maçasse, pedia, porém, que me avisasse da che­gada. (É curioso que, pondo eu o nome e endereço de remetente em todos os envelopes, as duas outras cartas, as perdidas, tenham sido de facto perdidas em abso­luto). Vai junto um pequeno poema, colaboração para o próximo número de Presença. Espero que convenha, e que chegue a tempo. Não se esqueça de me dizer a tempo quando quer o Prefácio, que pode, aliás, ser curtíssimo, para os Indí­cios de Ouro. Um abraço do camarada amigo e grato, Fernando Pessoa. P. S. – Sobre a colecção da Athena: de momento não a posso obter. Espero poder fazê-lo em breve. Então, e sem mais demora, lha enviarei – e com muito prazer. 8-2-1934 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 110. Sua inconsciência alegre é uma ofensa Para mim. O seu rir esbofeteia-me! Sua alegria cospe-me na cara! Oh, com que ódio carnal e espiritual Me escarro sobre o que na alma humana Cria festas e danças e cantigas E veste ao horror e íntima dor de ser Esta capa de risos naturais. Com que alegria minha cairia Um raio entre eles! Com que pronto Criaria torturas para eles Só por rirem a vida em minha cara E atirarem à minha face pálida O seu gozo em viver, a poeira que arde Em meus olhos, dos seus momentos ocos De infância adulta e toda na alegria! Eu sou o Aparte, o Excluído, o Negro! Ó Ódio, alegra-me tu sequer! Faze-me ver a Morte roendo a todos, Põe-me na vista os vermes trabalhando Aqueles corpos! Tenham filhos, vejam Seus filhos afogados ante os olhos, As filhas violadas a seu ver. Quanto empeçonha a vida dos triviais, Essa dores da carne e do costume Que humilham e esporeiam, lhes ocupem O que da vida fica após dançarem! Mas nem o ódio me embriaga! Eu fico Torturado na cruz do ódio meu Inutilmente, como um Cristo (...) Em terra de gentios. Ó febre em que estremece, frio, O meu ser. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 15. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.117). Ao ouvi-los rir Parece-me ouvir chasquear de mim Um demónio horroroso e transcendente, E simbólico de algo do mistério Ou do universo. E vendo-os todos como Que intérpretes inconscientes desse Torturador obscuro, tomo ódio A esta ridente humanidade toda, Folgo de lhes pensar torturas n'alma, Com que perdessem esse riso e até As lágrimas na dor e no pavor. Acordo ao conceber quanto eu odeio Mais do que isto, mais que a humanidade, Mas o universo todo, o transcendente Conteúdo horrendo do meu pensamento, Com um ódio adaptado a essa grandeza, E uma impotência de mostrar esse ódio Que essa grandeza, aumentando-o, tolhe. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 17. Estou acima do que agrada aos grandes Ou aos cultos apraz, a sós comigo E com o mistério. Tornei a minha alma exterior a mim. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 17. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.90). OS FASTASMAS DO ENCOBERTO Sabendo nós já que o triplo reaparecimento do Encoberto se dá em 1640, em 1888 e em 2198, será por certo curioso investigar que relação numérica definível existe entre os aparecimentos do Encoberto e os de seus fantasmas. Apareceu D. João IV em 1640, Pombal em 1750 (que foi quando, com a ascensão de D. José, foi chamado ao poder), e Sidónio em 1917 (que foi quando verdadeiramente apareceu, como o verdadeiro Sidónio). Temos, pois, que há coincidência no tempo, ou sincronismo, entre os primeiros aparecimentos do vero e do falso Encoberto. Entre os segundos aparecimentos (1750 e 1888) há uma diferença de 138 anos. De aqui é pois de concluir, como é de uso nestes cálculos de aritmética mística, que entre os terceiros aparecimentos, o falso e o vero, do Encoberto deve haver duas vezes 138 anos, porque, sendo 138 anos a diferença entre os segundos aparecimentos, e nula a diferença entre os primeiros (que coincidiram no tempo), segue que a diferença entre os terceiros será duas vezes a diferença entre os segundos... Duas vezes 138 faz 276, o que, somado a 1917, perfaz 2193. Faltam, pois, 5 anos para a data que seria de esperar, 2198. Para que a contagem na base estabelecida, 276, desse a data verdadeira, seria preciso que a data de partida fosse 1922. Ora 1922 foi o ano da viagem aérea ao Brasil — ano este que, como já vimos, o mesmo Bandarra sinalou no último corpo das suas Trovas... Temos pois que [...] s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 70. É abismadamente curioso E transcendentemente negro e fundo Ver os seres, os entes a mover-se A rir a (...), a falar, a (...) Na luz e no calor; e neles todos Um mistério que torna tudo negro E faz a vida horror incompreendido. Uma noite de Tudo que é um Nada Um abismo de Nada que é um Tudo. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 17. O OUTRO IMPÉRIO O princípio ou lei fundamental da ciência chamada sociologia é que não há ciência chamada sociologia. Ignoramos por completo como é que as sociedades nascem, como e por que crescem, como e por que morrem, partindo, é claro, de que se possa dizer [que] elas deveras nascem, crescem e morrem, o que ninguém pode ao certo afirmar. Não há um único princípio a que possamos chamar uma lei da sociologia. Há na prática empirismos mais ou menos felizes, na teoria doutrinas mais ou menos coerentes. Não há mais nada além disto, que aliás é nada. Qualquer de nós, modernos, sobre quem pesa a experiência inútil das eras e a especulação estéril dos séculos, pode nesta matéria evolver, com mais ou menos brilho, determinado princípio aparente, determinada lei conjectural. Não tardará que descubra que já o formulara Aristóteles ou Platão, ou, na falha deles, qualquer dos outros especuladores políticos, sofistas, estóicos [?] e outros da Grécia onde [?] ainda estamos. Não sei se há progresso, nem ninguém sabe o que se entende pela palavra progresso, seja como for o que isso for [?I em sociologia não há progresso, pois que não pode haver progresso ou qualquer outra coisa que não existe. Filhos do Caos e da Noite, o erro e a dúvida são o nosso pão de cada dia, e parece que os apreciamos, visto que oramos para o pedir. Estamos [...] onde já estavam os gregos, salvo que a complicação dos nossos fenómenos sociais faz que forçosamente observemos muito menos bem, e a nossa indisciplina mental que necessariamente raciocinemos muito pior. O espírito humano tem uma ânsia natural de conhecer; revela-o a criança insistentemente, e a criança — ser absurdo, sentimental e desamparado — é o tipo exacto (perfeito) da humanidade. Pode dizer-se, corrigindo um exagero retórico da Igreja, que o homem é um animal que aspira a ser racional. Resto, talvez, daquele fogo divino que Prometeu parece não ter tido tempo suficiente para [... ] A distribuir equitativamente entre os homens... s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 93. O IMPERIALISMO PORTUGUÊS Assim como o primeiro dever de um homem feito - em relação tanto a si próprio e no seu interesse, como em relação aos outros e no interesse da sua utilidade social - é determinar a que carreira ou modo de vida melhor se adapta o seu tempera mento, ou, em outras palavras, fazer a sua Vontade perguntar à sua Inteligência: “Que vim eu ao mundo para fazer?”; assim é o primeiro dever de uma nação constituída - tanto em relação a si própria, como em relação aos seus deveres para com a civilização a que pertence, e a humanidade em geral determinar a que função civilizacional melhor se adapta a feição natural do seu psiquismo colectivo, ou, em outros termos, fazer as suas classes políticas perguntar às suas classes filosóficas: “Para que existo eu como nação? Que fim existo para servir na história da civilização e do mundo (humanidade e civilização)?” É uma das sábias disposições da Natureza, e do seu mentor abstracto, cujo nome melhor é ainda o nome antigo de Destino, que o homem, ente político, servindo os interesses expansivos do seu temperamento, sirva, concomitante e interpenetradamente, os interesses da sociedade a que pertence, sendo assim altruísta por egoísmo e social por ser individual. Do mesmo modo e pela mesma disposição da natureza, a Nação, animal civilizacional, servindo os interesses expansivos da sua [...] colectiva, serve, concomitante e interpenetradamente, os interesses do conjunto civilizacional, a que pertence, sendo assim humana por ser nacional, e [...] E assim como o homem físico, tendo a sua base nas células de que o corpo se compõe, e que são a substância biótica do seu corpo, tem, para chegar ao conjunto orgânico que é na verdade o seu corpo, que passar pelos órgãos, que são [...]; [...] Como o homem psíquico, tendo a sua base na emoção, que é a substância consciente do seu espírito, tem, para chegar à vontade que é o contorno do seu corpo psíquico e o fim da sua pessoa mental, que passar pela inteligência; [...] Assim a humanidade, tendo a sua base no indivíduo, que é a substância socialmente inconsciente do seu todo, tem para chegar à civilização, que [...] passar pela nação, que é o órgão da civilização, a Inteligência e consciência [? ] da humanidade. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 81. República Perguntar-se-á, porém: dado mesmo tudo isso, o partido republicano, chegado ao poder, dará melhor que os partidos monárquicos? Ou continuá-los-á atenuada, posto que realmente? Não é difícil a resposta. Porque, conforme provámos, o partido republicano é um partido nacional, a sua administração será patriótica e (...) Porque, conforme provámos, o p. r. é um partido são (na sua maior parte, na sua parte representativa) esperamos dele uma administração sã. E quando se houver provado prático fazendo com êxito a transformação das instituições, diremos que, porque o fez, obteve a 3ª qualidade que ainda de certo modo lhe falta: que é um partido prático e apto a governar. As nódoas que ainda tem, duvidosos caracteres que ainda se acham nele — impõe-nos o raciocínio a que acreditemos em que, sendo essencialmente em si o partido republicano um partido nacional e são, na sua administração fará a última revolução — a revolução dentro de si, afastando do seu seio, com os devidos agradecimentos pelo seu anterior concurso, sem violência mas sem transigências, os indesejáveis que ainda lhe são nódoas e gente parcamente representativa. Exactamente esse saneamento eliminará a representatividade dessa gente que hoje, no estado ainda não de todo puro do partido, de certo modo representa alguma coisa; essa alguma coisa sendo o não estar o partido ainda puro em absoluto. Todo o raciocínio, quando tem disposto, contém em si a resposta a todas as objecções que se lhe possam fazer. Resta porém desfazer uma — e a última objecção. É a que nos pergunta se a República está adaptada a Portugal, se, corno instituições, as inst[ituições] republicanas nos convêm. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 20. OS GRUPOS CIVILIZACIONAIS Assim como no corpo físico os órgãos se agrupam em grupos de órgãos, para que formem o corpo total; assim como no espírito as várias tendências, que constituem o temperamento, o constituem por grupos em que se reúnem; assim também no corpo civilizacional as várias nações se organizam em grupos. Não são as alianças históricas, embora as alianças históricas sejam em geral a sombra disforme desse princípio, sendo antinaturais por vezes, como antinaturais são certas nações, as heterogéneas na sua composição. São as “alianças” civilizacionais, as aproximações naturais de nações entre quem há diferenças suficientes para não poderem, sem dano da civilização, constituírem uma nação, mas não tão grandes que possam cavar entre elas um abismo psíquico impassável [ ?]. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 82. Considerações pós-revolucionárias Dada a situação de Portugal, era impossível que o partido republicano fosse um partido educado, de todo consciente e inteiramente são. O estado de pavoroso abatimento moral da pátria é que gerou o republicanismo e a revolução; ora este estado de abatimento impedia que qualquer forma de actividade do país fosse sã e (...) de todo. O partido republicano era uma actividade dentro do país: não podia por isso ser moralmente equilibrado e justo. Na sua razão de ser vem envolvida a sua razão de ser desculpável [?]. O partido republicano, não podendo pois representar uma regeneração, porque era impossível (...) no estado do país, representava, porém — o que é diferente — uma tendência para a regeneração. Foi em não ver isto que errou o Sr. A[fonso] C[osta] — aprecia-o como uma multidão e não como um partido, corno um estado e não como uma tendência. O que admira é que seja tão tolerante [?] em relação ao que podia ser, dadas as condições do país. Os homens vis e reles do partido representam com efeito o estado actual desse partido. Mas o partido transcende-os a eles, Eles mostram que o partido, como está, não está ainda bem, porque os estroinas [?] não tinham aqueles [...] dirigentes. Mas o facto de haver partido de (...) [...] s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 21. O SEBASTIANISMO - INTRODUÇÃO Princípios essenciais: 1. Onde há forma há alma. A forma é o que torna tal coisa tal coisa. Assim uma árvore tem forma. Uma batalha, que é tal, e não tal outra, tem forma também. Quanto maior é a coisa, mais a sua forma lhe é própria. Não se pode restituir a uma batalha a sua forma. Uma vez dada, ela não se repete. Os acontecimentos têm alma. Os acontecimentos são homens. 2. A metempsicose. A alma é imortal e, se desaparece, torna a aparecer onde é evocada através da sua forma. Assim, morto D. Sebastião, o corpo, se conseguirmos evocar qualquer coisa em nós que se assemelha à forma do esforço de D. Sebastião, ipso facto o teremos evocado e a alma dela entrará para a forma que evocámos. Por isso quando houverdes criado uma coisa cuja forma seja idêntica à do pensamento de D. Sebastião, D. Sebastião terá regressado, mas não só regressado modo dizendo, mas na sua realidade e presença concreta, posto que não fisicamente pessoal. Um acontecimento é um homem, ou um espírito sob forma impessoal. 3. A profecia é a visão dos acontecimentos na sua forma corpórea. É o contrário do que acima expomos. Uma batalha que se vai dar aparece com uma forma humana ou outra antes de se dar. Porque pode ter uma forma humana, porque realmente a tem. 4. A profecia pode às vezes (ou sempre) aplicar-se a várias coisas. Isto não invalida a profecia. É que vários acontecimentos, são um acontecimento só, isto é, um só ente sob várias formas. Assim se uma profecia representar possivelmente D. Sebastião, D. João IV, D. Pedro IV (ou V) e a República e mais coisas, isto não quer dizer que a profecia seja falsa. Quer dizer que toda a profecia é de uma coisa sob várias formas, e ela exprime o essencial que atravessa todas essas formas. 5. Com D. Sebastião morreu a grandeza da Pátria. Se a Pátria tornar a ser grande, voltará, ipso facto, D. Sebastião, não só simbolicamente falando, mas realmente. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 65. Da Ditadura à República A República veio muito cedo. Não é que o partido republicano estivesse mal organizado; se o estivesse não teria vencido. Não é que estivesse organizado numa orientação má — não era a melhor, mas era, com referência aos outros, a melhor, por certo. O que o partido republicano não estava é suficientemente nacionalizado. Era insuficientemente português, posto que insuficientemente republicano. Aquele espírito português que surge, evidente e nítido, na obra dos poetas, desde António Nobre a Afonso Lopes Vieira — esse entrava mediocremente na composição do psiquismo geral do partido da República. É justamente aquela parte do partido que mais se integrou no sentimento nacional português — a que representa António José d'Almeida — essa era, essencialmente, a mais sã, a mais patriótica e a mais (...) do partido. A outra — a que tinha por chefes B[ernardino] M[achado] e Afonso Costa — essa era mais meramente política, mais especialmente ocupada em fazer política contra a monarquia do que patriotismo pela República. Representam o ódio à monarquia, substituto positivo, porque todos os substitutos são positivos; mas envolvendo uma ideia negativa. Os outros — os da chefia de António José d’Almeida tinham o ódio à monarquia por causa do amor à República. Na boca do chefe a palavra povo tem uma significação nacional, ou tinha (...) que nas bocas dos outros — mera fórmula contrastada à de "monarquia" — não tinha (nem tem). A frase "povo português" dita pelo Dr. António José d'Almeida traz consigo hoje um momento de poesia num vago sabor com reflexo (...) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 22. O sebastianismo, fundamentalmente, o que é? É um movimento religioso, feito em volta duma figura nacional, no sentido dum mito. No sentido simbólico D. Sebastião é Portugal: Portugal que perdeu a sua grandeza com D. Sebastião, e que só voltará a tê-la com o regresso dele, regresso simbólico - como, por um mistério espantoso e divino, a própria vida dele fora simbólica - mas em que não é absurdo confiar. D. Sebastião voltará, diz a lenda, por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco, vindo da ilha longínqua onde esteve esperando a hora da volta. A manhã de névoa indica, evidentemente, um renascimento anuviado por elementos de decadência, por restos da Noite onde viveu a nacionalidade. O cavalo branco tem mais difícil interpretação. Pode ser Sagitário, signo do zodíaco, e conviria, em tal caso, perceber o que a referência indica, perguntando, por exemplo, se há referência à Espanha (de quem, segundo os astrólogos, Sagitário é signo regente), ou se há referência a qualquer trânsito de planeta no signo de Sagitário. O Apocalipse porém, fornece outra hipótese sobre este assunto. De difícil interpretação, também, é a Ilha. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 68. Considerações pós-revolucionárias (?) Dizem, por exemplo, que o partido rep[ublicano] não tem homens. Lembremos primeiro que não é do partido rep[ublicano] que se trata — é da república. Podia ser que o p[artido] rep[ublicano] não tivesse homens; tem-nos a república, porque é o país. Os desconhecidos... Assim temos alguns apreciáveis jovens jornalistas (.,.) Cândido Reis — quem sabia o que ele tinha de [...] Assim que homens parecia haver para a revolução? Não é verdadeiro que parecia não haver ninguém para a fazer? E ela fez-se. (Fez-se e ganhou por pouco. É a [...] que adiante reportámos.) O caso é acordar o país; os homens não tardarão a aparecer. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 23. O SEBASTIANISMO — SUA RENASCENÇA 1. Uma religião é um fenómeno ligador de almas, porque é qualquer coisa que elas têm de comum; é um fenómeno imaginativo; é um fenómeno de autoridade. É, assim, um critério moral tanto como metafísico, estético tanto como político. 2. Uma religião é socialmente útil quando se aproxima de preencher três condições: (1) ser nacional, isto é, diferente das religiões dos outros países, porque assim apoia-se no patriotismo, o mais radical dos sentimentos sociais, e ao mesmo tempo intensifica-o; (2) ser popular, isto é, quanto possível saída não se sabe donde, formada não se sabe como; (3) ser quanto possível susceptível de evolução e adaptação. Isto ao contrário da arte: A arte é (1) internacional; (2) é antipopular; (3) é insusceptível de progresso salvo por substituição (ex.). 3. Em Portugal haverá qualquer fenómeno religioso sobre o qual possamos assentar as bases de uma vida nova? Toda a pretensão de uma Renascença na vida nacional que não assente em bases religiosas cairá, pela base, que, a não ser essa, não será nenhuma. Há primeiro o Catolicismo. Mas o catolicismo principia por ser estrangeiro. Por isso une falsamente o povo, une-o: (1) a um potentado temporal estrangeiro; (2) une-o a outros povos, isto é, desnacionaliza-o; (3) [ … ] Além disso o catolicismo tem fortes elementos antipopulares; a única coisa que ele tem de popular é ser a crença tradicional do povo, mais nada. É, de resto, um sistema complexo de metafísica, mais hábil do que decente religiosamente, de uma moral forçada e doentia, e de uma estética superficial, ao passo que a estética religiosa deve buscar afectar o espírito (para a estética exterior, uma feira basta). O catolicismo, mais, é dificilmente susceptível de evolução. Temos nós outro fenómeno religioso? s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 66. Da Ditadura à República ou Iconoclasta ou Considerações pós-revolucionárias O partido republicano enfermava, e a República enferma, de três defeitos — é demasiado socializante, demasiado não nacional e demasiado política. Estes três defeitos são realmente um só — a imperfeição do partido e esta imperfeição resulta do pavoroso estado social do país, de que a monarquia é culpada. De maneira que não pode dar como expressão da verdade o paradoxo de que o que há de mau no partido republicano é devido à monarquia e o defeito principal do partido é ser monárquico e mais monárquica a parte radical do que a parte conservadora. Mas se disséssemos que o que há mau na República é devido à monarquia, já se não adivinharia o [...] de paradoxal: a sua verdade é flagrante. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 24. Pousa um momento, Um só momento em mim, Não só o olhar, também o pensamento. Que a vida tenha fim Nesse momento! No olhar a alma também Olhando-me, e eu a ver Tudo quanto de ti teu olhar tem. A ver até esquecer Que tu és tu também. Só tua alma sem tu Só o teu pensamento E eu onde, alma sem eu. Tudo o que sou Ficou com o momento E o momento parou. 12-12-1919 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 15. E ou jazigo haja Ou sótão com pó, Bebé foi-se embora. Minha alma está só. 26-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 176. Sebastianismo É a seguinte a tese do Novo Sebastianismo: 1º — Uma nação é um organismo psíquico em que, como em todos os organismos, lutam, sustentando-o, forças de desintegração e de integração, forças que tendem a dissolvê-lo e forças que tendem a conservá-lo, e que (estas últimas) não seriam postas em movimento se não fosse a acção das outras. O que conserva é, de sua natureza, estático; o que destrói dinâmico; o que conserva só se torna dinâmico em virtude de ter de reagir contra o dinamismo das forças de desintegração. As forças de integração, no caso dum país, são: (1) A homogeneidade (mais ou menos grande segundo os povos) do carácter nacional, cuja acção integradora consiste em nacionalizar todos os fenómenos importados do estrangeiro, que se dêem na vida social; a vitalidade duma nação — a verdadeira e real vitalidade — mede-se pela facilidade, prontidão e eficácia com que se nacionaliza o importado. Uma nação nestas condições importa o maior número de elementos possível , porque dos elementos de desintegração, logo que a integração seja real, é que nasce a vida; por isso ela, importando o maior número de elementos possível, vitaliza-se o mais possível, e, como tem um largo poder de integração (isto é, de nacionalização), nada tem que temer dessas importações. — Este género de forças de integração é característico de tal nação como nação . — (2) A coordenação de forças sociais — isto é, o poder de, agindo de modo a excitarem-se e contraírem-se mutuamente, não agirem nunca de modo a que essa mútua excitação seja aniquiladora de umas ou outras; esta força de integração vê-se na atitude psíquica dos indivíduos que formam as correntes sociais de opinião e classe: se cada classe ou opinião procura dominar a outra ou as outras, há nos espíritos, agindo, a força integrativa da coordenação; se procura exterminar a outra ou as outras, o que há nos espíritos é um predomínio manifesto da força de desintegração ( ex, ex, ex ). Estas forças de integração são aquelas que uma nação tem como organismo . — (3) A socialização das forças individuais — isto é, o carácter e acções de cada indivíduo serem tais que a sua livre, espontânea, mesmo anárquica, actividade seja, por uma íntima organização do seu psiquismo fatalmente uma força socializadora. É assim que um homem de génio, que cria uma obra literária, pratica um acto altamente individual — o mais individual de todos os actos humanos —; mas, tanto pela acção que tem sobre a sociedade o idealizado da sua obra, como pelo carácter representativo (do seu povo) da sua arte, como pelo orgulho que advém ao povo de ele lhe pertencer, faz obra altamente social. A única arte anti-social é a arte fraca e débil. Toda a grande arte é, ipso facto , um fenómeno social importante e útil, mesmo que trate assuntos chamados “decadentes”. Por isso a decadência artística e literária é o fenómeno mais representativo da decadência essencial duma nação. — As forças de desintegração neste caso são as que tendem a que cada indivíduo, agindo, aja de modo absolutamente individual . — Estas forças de integração são aquelas que uma nação tem como sociedade . É fácil cair em erro nestes pontos. Assim, interpretando mal a natureza do primeiro género de forças de integração, caíram os integralistas franceses e portugueses no erro tradicionalista, confundindo tradição com carácter nacional, isto é, confundindo as cristalizações desse carácter, ou então os estádios passageiros nascidos da adaptação desse carácter a várias circunstâncias de época, com o carácter em si. — Semelhantemente, no segundo género, condundiram coordenação com ordem. Pode dar-se uma perfeita coordenação social num período de lutas revolucionárias. Aqui, como no outro ponto, confundiram causa e efeito. A ordem, é em geral, um resultado da perfeita coordenação das forças sociais; mas a perfeita coordenação das forças sociais nem sempre produz a ordem. Só a coordenação de certas forças, de certa ordem de forças, é que produz a ordem. — No terceiro género de forças de integração, também os integralistas fizeram uma confusão: confundiram a ordenação individual com o individualismo absoluto, e não viram que um indivíduo pode agir anarquicamente e de modo absolutamente social ao mesmo tempo e por essa mesma acção. Daí a teoria da autoridade, teoria do anti-individualismo, que não são mais do que confusões e incompreensões. As forças de desintegração são de três ordens: (1) Forças de destruição - aquelas que produzem a Morte. São as forças do exterior, de cuja acção o organismo vive, mas de cuja acção ele morre se não se pode adaptar a elas. A Morte vem sempre de fora (ex.) - Assim, na vida das sociedades, o meio, o exterior, de que elas vivem, é o Estrangeiro, são as elaborações gerais da civilização a quem essas nações pertencem; se as sociedades conseguem nacionalizar os elementos que recebem do estrangeiro têm uma vitalidade grande; se o não conseguem, têm uma baixa vitalidade. Mas (e isto é importante) quando não podem nacionalizar esses elementos, não os importam. O tradicionalismo é um sinal de baixa vitalidade social. Importam-nos apenas nas suas exterioridades - (ex.) As literaturas duma época decadente, como seja, entre nós, a de D. Maria I, vivem da admiração do passado, e só adoptam do estrangeiro o que está de acordo com o passado nacional. Bocage não adopta dos estrangeiros senão o que Camões poderia adoptar também. Isto é um pequeno exemplo, que dispensa outros. [...] (2) Forças de descoordenação - as que produzem a Doença. São aquelas forças que produzem perturbações orgânicas donde resulta, não já - pelo menos directamente - uma desadaptação ao Meio, mas uma desadaptação dessas forças umas às outras. Assim uma atrofia ou hipertrofia de qualquer órgão; isto produz um mau funcionamento de todos os outros órgãos, especialmente os que mais ligados estão a esse - Nas sociedades, dá-se isto quando determinadas forças sociais usurpam indevida quantidade de energia social. As forças sociais são (a) forças de conservação social - etc., etc., etc., (ex.). (3) Forças de desintegração propriamente ditas — as que produzem a actividade independente dos elementos orgânicos, as que tendem, por ex., a libertar a actividade das células da actividade de conjunto. Estas tendem para a Decadência. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 67. Da Ditadura à República ou Considerações pós-revolucionárias Havia, finalmente, aquela teoria cujo defensor mais compenetrado, coerente e de todo lógico era o grande jornalista Homem Cristo. Essa teoria — postas de parte as acidentais e inessenciais incoerências de expressão e (...) jornalísticas (...) — era, em essência, a seguinte: dominar o país por uma reacção forte e (...) militar e, designadamente, disciplinadora, eliminando, por meios extremos sendo preciso, os elementos discordantes [?] do partido republicano; continuar isto até que o partido republicano combatesse apenas pela palavra e não incitasse a mais do que ao voto contra a monarquia; manter rigorosamente, com honestidade, energia e luta inflexíveis, esta disciplina, até que, por votação parlamentar, se proclamasse a república. Então, ou se continuaria a disciplina militariforme [?], sendo preciso, ou se [...] da nação, já que ela [estaria] disciplinada e, mesmo porque isto provava, democratizada e apta para a República. Esta teoria — (...) — punha-a Homem Cristo em prática propagandista. Para isto, porém, faltavam os homens. Havia bandalhos, débeis e palacianos, e, para a executar, eram essencialmente precisos caracteres essencialmente honestos, fortes e justos — mais justos do que monárquicos ou religiosos. O próprio homem que, pela sua honestidade pessoal e imediata e pela sua tenacidade mais apto era para o cargo era, não só pela sua instabilidade mental, mas também por não ser de todo honesto, nem de todo fino, nem de todo independente, inepto. O facto dessa inadaptação prova-o o miserável fim da sua ditadura. Só falha quem deve falhar. O homem previsto para preencher (...) de H[omem] C[risto] devia saber não falhar, desconhecer a derrota. Gomo o podia Franco [?] fazer? Não tinha, nem intelectual nem moralmente, bases para tal cargo. Essa energia e [...] demonstram que era apenas uma energia vã, numa vitória circunscrita à sua vitória meramente. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 25. Meu ser vive na Noite e no Desejo. Minha alma é uma lembrança que há em mim. 12-12-1919 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 16. O FADO E A ALMA PORTUGUESA Toda a poesia - e a canção é uma poesia ajudada - reflecte o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste. O fado, porém, não é alegre nem triste. É um episódio de intervalo. Formou-o a alma portuguesa quando não existia e desejava tudo sem ter força para o desejar. As almas fortes atribuem tudo ao Destino; só os fracos confiam na vontade própria, porque ela não existe. O fado é o cansaço da alma forte, o olhar de desprezo de Portugal ao Deus em que creu e também o abandonou. No fado os Deuses regressam legítimos e longínquos. É esse o segredo sentido da figura de El-Rei D. Sebastião. 14-4-1929 Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 98. 1ª publ. in Notícias Ilustrado , 2ª série, nº 44, Lisboa, 14-4-1929 A morte! Quanto mais eu pondero nela, mais Me desocupa todo o sentimento Normal e nítido que me criava Uma como inconsciência que fazia Com que o mistério não vivesse sempre Comigo. Agora cada vez mais longe Me encontro do (...) e natural s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 174. Considerações pós-revolucionárias O que está acontecendo é a eliminação dos inúteis do partido, que podiam ser úteis para a destruição, mas que para a construção não servem. Vê-se agora que o papel dos Afonsos Costas, dos A. J. d'Almeidas, etc., era exclusivamente destruir, para que viessem outros construir depois. Vê-se que são indivíduos incapazes de tudo quanto seja governar, desde a intuição das circunstâncias até à noção (...) E se estes grandes homens do partido se mostram tão [...] construtivos (...) Não há compreensão das circunstâncias nem do que é um povo ou o governar um povo. Como muito bem apontou o Sr. Homem Cristo, são todos radicais. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 26. A lembrada canção, Amor, renova agora. Na noite, olhos fechados, tua voz Dói-me no coração Por tudo quanto chora. Cantas ao pé de mim, e eu estou a sós. Não, a voz não é tua Que se ergue e acorda em mim Murmúrios de saudade e de inconstância, O luar não vem da lua Mas do meu ser afim Ao mito, à mágoa, à ausência e à distância. Não, não é teu o canto Que como um astro ao fundo Da noite imensa do meu coração Chama em vão, chama tanto... Quem sou não sei... e o mundo?... Renova, amor, a antiga e vã canção. Cantas mais que por ti, Tua voz é uma ponte Por onde passa, inúmero, um segredo Que nunca recebi — Murmúrio do horizonte, Água na noite, morte que vem cedo. Assim, cantas sem que existas. Ao fim do luar pressinto Melhores sonhos que estes da ilusão. 1-1-1920 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 17. Uma maior solidão Lentamente se aproxima Do meu triste coração. Enevoa-se-me o ser Como um olhar a cegar, A cegar, a escurecer. Jazo-me sem nexo, ou fim... Tanto nada quis de nada, Que hoje nada o quer de mim. 23-10-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 55. Quinto Império - Primeiro Aviso 1. Entrevista com António Alves Martins. 2. Resposta ao Inquérito de Augusto da Costa. 3. Prefácio ao Q. I., de Ferreira Gomes. 4. O Quinto Império. 5. O Império Português. _________________ [...] 1. Resposta a um pequeno inquérito. 2. Resposta a um grande inquérito. 3. Prefácio a um livro profético. 4. O Quinto Império. 5. O Império Português. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 96. Afastai-vos de mim, outrora horror De mim pensado, e um grato sono pesa Já sobre o que me sinto. Como quando A fadiga, em princípio de dormirmos, Se torna um prazer vago e um começo Do sono em que a percamos, assim pouco A pouco um múrmuro cessar da mente Me inebria de sombras e me esquece De mim, e me anoitece lentamente. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 174d. Considerações pós-revolucionárias O que ora está acontecendo é a eliminação, por contacto com a m[onarquia], dos elementos perniciosos que havia no p[artido] rep[ublicano]; Se o partido rep[ublicano] tivesse sido, na oposição, composto por homens todos capazes e honestos, não haveria uma rev[olução]. mas sim uma reforma simplesmente, porque pelo conceito de representação esse facto dessa inteira honestidade desses homens indicaria um estado social de tal ordem que era impossível haver a reacção que houve, e a resistência [?], por pequena que fosse, que se fez. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 27. Longe de mim em mim existo À parte de quem sou, A sombra e o movimento em que consisto. 1920 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 19. Chove. Que fiz eu da vida? Fiz o que ela fez de mim... De pensada, mal vivida... Triste de quem é assim! Numa angústia sem remédio Tenho febre na alma, e, ao ser, Tenho saudade, entre o tédio, Só do que nunca quis ter... Quem eu pudera ter sido, Que é dele? Entre ódios pequenos De mim, estou de mim partido. Se ao menos chovesse menos! 23-10-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 56. Já oiço o impetuoso Circular ruído de arrastadas folhas, E num vago abrir d'olhos na luz sinto As amarelidões e palidezes Onde o outono sopra nuamente. Deixá-lo que assim seja — que me importa? Como um fresco lençol eu quereria Puxar sombra e silêncio sobre mim E dormir — ah dormir! — num deslizar Suave e brando para a inconsciência Num apagar sentido docemente. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 175. 1ª versão: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.104). Gnomos do luar que faz selvas As florestas sossegadas, Que sois silêncios nas relvas, E em almas abandonadas Fazeis sombras enganadas, Que sempre se a gente olha Acabastes de passar E só um tremor de folha Que o vento pode explicar Fala de vós sem falar, Levai-me no vosso rastro, Que em minha alma quero ser Como vosso corpo, um astro Que só brilha quando houver Quem o suponha sem ver. Ah, sentir tudo de todos os feitios! Não ter alma, não ter Só diversos modos — Seja eu leitura variada Para mim mesmo! Assim eu que canto ou choro Quero velar-me e partir. Lembrando o que não memoro, Alguém me saiba sentir, Mas ninguém me definir. 26-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 177. Considerações pós-revolucionárias Há uma coisa chamada cunha; e essa coisa ao entrar, entra pela porta mais delgada. São assim os partidos revolucionários; o partido que entra e força a entrada é o partido informe, intelectual e moralmente. Para ser revolucionário exige-se ser influenciado por certos sentimentos e ter coragem — mais nada. O resto — o modo especial (que pode ser o mais absolutamente egoísta possível) em os sentimentos sérios provarem a acção do indivíduo, é inteiramente inessencial. Caluniar — não lavar os pés, ou, o que é pior, a cara, o que é para os olhos sociais mais gravemente evidente. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 28. Pudesse eu como o luar Sem consciência encher A noite e as almas e inundar A vida de não pertencer! 1920 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 20. Vem dos lados da montanha Uma canção que me diz Que, por mais que a alma tenha, Sempre há-de ser infeliz. O mundo não é seu lar E tudo que ele lhe der São coisas que estão a dar A quem não quer receber. Diz isto? Não sei. Nem voz Ouço, música, à janela Onde me medito a sós Como o luzir de uma estrela. 14-11-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 57. Do eterno erro na eterna viagem, O mais que saibas na alma que ousa, É sempre nome, sempre linguagem O véu e a capa de uma outra cousa. Nem que conheças de frente o Deus, Nem que o eterno te dê a mão, Vês a verdade, rompes os véus, Tens mais caminho que a solidão. Todos os astros, inda os que brilham No céu sem fundo do mundo interno, São só caminhos que falsos trilham Eternos passos do erro eterno. Volta a meu seio, que não conhece Enigma ou deuses porque os não vê, Volta a meus braços, neles esquece Isso que tudo só finge que é. Meus ramos tecem doceis de sono, Meus frutos ornam o arvoredo; Vem a meus braços em abandono Todos os Deuses fazem só medo. Não há verdade que consigamos, Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver... Doceis de sono tecem meus ramos. Dorme sob eles como qualquer. 20-11-33 Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 175. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.80). Iconoclasta (..) desde o grande orador, que é o Sr. Ministro do Interior, até ao Sr. T[eófilo] Braga, chefe honorário da intelectualidade portuguesa. O Sr. B[ernardino] M[achado], ministro para uso externo. Não sei cuja situação politicamente futura seja mais para desagradar à inveja: se a de António José de Almeida condenado à morte, se a de Costa condenado à vida. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 29. Desperto sempre antes que raie o dia E escrevo com o sono que perdi. Depois, neste torpor em que a alma é fria Aguardo a aurora, que já tantas vi. Fito-a sem atenção, cinzento verde Que se azula de galos a cantar. Que mau é não dormir? A gente perde O que a morte nos dá pra começar. Oh Primavera quietada, aurora, Ensina ao meu torpor, em que a alma é fria, O que é que na alma lívida e colora Com o que vai acontecer no dia. 14-11-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 58. Empresa Ibis. Livros traduzidos a editar. Verso. J. L. Runeberg: Algumas poesias. Ésquilo: Tragédias. (trad. De Vicente Guedes). Shakespeare: Obras: (1) Tragédias. (2) Comédias. (3) «Histórias». Byron: Caim. (trad. Vicente Guedes). Shelley: Prometeu Liberto. (trad. Vicente Guedes). s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 185. D'outra vida mais bela A esperança já desesperada, A gélida e constante aspiração. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 176. Tudo quanto sonhei tenho perdido Antes de o ter. Um verso ao menos fique do inobtido, Música de perder. Pobre criança a quem não deram nada, Choras? E em vão. Como tu choro à beira da erma estrada. Perdi o coração. A ti talvez, que não te tens dado, Daria enfim... A mim... Sei eu que duro e inato fado Me espera a mim? 1920 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 21. Clareia cinzenta a noite de chuva, Que o dia chegou. E o dia parece um traje de viúva Que já desbotou. Ainda sem luz, salvo o claro do escuro, O céu chove aqui, E ainda é um além, ainda é um muro Ausente de si. Não sei que tarefa terei este dia; Que é inútil já sei... E fito, de longe, minha alma, já fria Do que não farei. 14-11-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 59. Quê? Eu morrer? Morrer? (...) onde centralizar Sensação (...) e pensamento, Suprema realidade, único Ser Passar, deixar de ser! A consciência Tornar-se inconsciente? E como? O Ser Passar a Não-Ser? É impensável. E contudo é impensável o Real. — Vida (...) inconsciente — E ela é o Real. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 176. Lisboa, 26 de Outubro de 1930. Meu querido Gaspar Simões: Muito obrigado pela sua carta, que acabo, literal­mente, de receber. Nada há de especial a indicar na génese do poema O Último Sortilégio. Escrevi-o a 15 deste mês, à noite, em seguida a escrever três quadras muito simples. Tanto estas, como ele, foram produtos directos e espontâneos. Causou-lhe estranheza, talvez, o assunto. Isso, po­rém, procede de v. desconhecer outros poemas meus, inéditos, do mesmo género. Tenho um, incompleto, Lucífer, que vai muito além deste na mesma direcção; e esse é já antigo. A mesma nuvem paira sobre os cinco poemas a cujo conjunto chamei Além‑Deus, e que es­crevi há ainda mais tempo; são cinco pequenos poemas, completos, e estiveram para ser publicados (chegaram a ser impressos) num Orpheu 3 que foi frustrado de cima. E, além destes, há ainda outros poemas, incluindo um soneto sobre o Gomes Leal, que deve conhecer, pelo menos da Antologia do Salão de Outono. Deveras e realmente, não posso dar-lhe explicação nenhuma sobre a génese particular deste poema. Sobre a génese geral dessa ordem de poemas é que talvez ha­veria alguma coisa a dizer. Mas isso não tem interesse estético nem psicológico. Estou agora um pouco mais dinâmico; conto poder enviar-lhe dentro de muito pouco tempo o original para o volume de poemas nas obras do Sá-‑Carneiro. Já tenho a maior parte dos manuscritos originais, que quero con­ferir com o próprio livro manuscrito; esses manuscritos originais existiam em cartas para mim, e tenho tido um certo trabalho em congregar essas cartas. Abraça-o o camarada amigo, admirador e grato, Fernando Pessoa. 26-10-1930 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 52. Outros terão Um lar, quem saiba, amor, paz, um amigo. A inteira, negra e fria solidão Está comigo. A outros talvez Há alguma coisa quente, igual, afim No mundo real. Não chega nunca a vez Para mim. «Que importa?» Digo, mas só Deus sabe que o não creio. Nem um casual mendigo à minha porta Sentar se veio. «Quem tem de ser?» Não sofre menos quem o reconhece. Sofre quem finge desprezar sofrer Pois não esquece. Isto até quando? Só tenho por consolação Que os olhos se me vão acostumando À escuridão. 13-1-1920 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 22. A Lua (dizem os Ingleses) É feita de queijo verde. Por mais que pense mil vezes Sempre uma ideia se perde. E era essa, era, era essa, Que haveria de salvar Minha alma da dor da pressa De... não sei se é desejar. Sim, todos os meus desejos São de estar sentir pensando... A Lua (dizem os Ingleses) É azul de quando em quando. 14-11-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 60. Eu procurei primeiro o pensamento, Eu quis, depois, a imortalidade... Um como o outro só deram ao meu ser A sombra fria dos seus vultos negros Na noite eterna longe dos meus braços... Eu procurei depois o amor e a vida P'ra ver se ali esqueceria a dor Do pensamento e da ciência firme Da certeza da morte. Mas o amor É para quem guardou a alma inteira, E não podia haver amor pr'a mim. Depois na acção cega e violenta, onde eu Afogasse de vez toda a consciência Da vida, quis lançar meu frio ser... Mas aquilo da alma condenada Que me fizera em tudo um espectador, De mim, do mundo, do que quer que fosse, Proibiu-me outra cousa que assistir Aos [...] dos outros e aos meus Friamente de fora, sempre tendo No fundo do meu ser o mesmo horror... Ah, mas cansei a dor dentro de mim... E hoje tenho sono do meu ser... Dormir, dormir, de dentro d'alma, como Um Deus que adormecesse e cujo sono Fora um repouso de tamanho eterno E feliz absorção em infinito De inconsciência boa. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 176. Minha mulher, a solidão, Consegue que eu não seja triste. Ah, que bom é ao coração Ter este bem que não existe! Recolho a não ouvir ninguém, Não sofro o insulto de um carinho E falo alto sem que haja alguém: Nascem-me os versos do caminho. Senhor, se há bem que o céu conceda Submisso à opressão do Fado, Dá-me eu ser só — veste de seda —, E fala só — leque animado. 27-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 179. Apartado 147. Lisboa, 18 de Novembro de 1930. Meu querido Gaspar Simões: Desculpe não ter respondido ainda à sua carta de 7: não queria responder sem lhe enviar os meus folhetos de versos em inglês, e só hoje é que consegui desencan­tar o embrulho onde estavam. Envio-lhos por este correio, sob invólucro separado. São os English Poems I-II (Antinous e Inscriptions) e III (Epithalamium), e os 35 Sonnets; não lhe envio a primeira edição do Antinous (1918, folheto igual aos 35 Sonnets), porque esse poema foi reconstruído e aper­feiçoado, dando aquele que abre os English Poems pos­teriormente publicados. Se, porém, tem qualquer inte­resse, de ordem bibliofílica, em ter também esse proto­ -Antinous, tenho exemplares, e posso enviar-lhe um. Diga. Não sei, realmente, quais são os seus conhecimentos da língua inglesa; mas devo advertir que é preciso conhe­cê-la realmente para compreender o texto complexo e compacto desses poemas, e particularmente dos Sone­tos . Pode ser, porém, que a sua intuição e cultura artís­ticas, assim como o seu conhecimento de outros escritos meus, em português, supram o que me diz ser – não sei se com modéstia sublinhada – a sua débil ciência da língua inglesa. Uma explicação. Antinous e Epithalamium são os únicos poemas (ou, até, composições) que eu tenho es­crito que são nitidamente o que se pode chamar obscenos. Há em cada um de nós, por pouco que especialize instintivamente na obscenidade, um certo elemento desta ordem, cuja quantidade, evidentemente, varia de homem para homem. Como esses elementos, por pequeno que seja o grau em que existem, são um certo estorvo para alguns processos mentais superiores, decidi, por duas vezes, eliminá‑los pelo processo simples de os exprimir intensamente. É nisto que se baseia o que será para v. a violência inteiramente inesperada de obscenidade que naqueles dois poemas – e sobretudo no Epithalamium, que é directo e bestial – se revela. Não sei porque es­crevi qualquer dos poemas em inglês. Outra explicação, esta desnecessária. Os dois poe­mas citados formam, com mais três, um pequeno livro que percorre o círculo do fenómeno amoroso. E percor­re-o num ciclo, a que poderei chamar imperial. Assim, temos: (1) Grécia, Antinous; (2) Roma, Epithalamium; (3) Cristianidade, Prayer to a Woman's Body; (4) Im­pério Moderno, Pan-Eros; (5) Quinto Império, Anteros. Estes três últimos poemas estão inéditos. Explicarei isto melhor, omitindo, porém, por não ser ainda a ocasião de a dar, a explicação da sucessão dos impérios e o seu íntimo sentido. O conteúdo dos poemas não é o que define os «impérios» a que eles se reportam. Assim, Antinous, que é grego quanto ao sen­timento, é romano quanto à colocação histórica. Epitlha­lamium, que é romano quanto ao sentimento, que é a bestialidade romana, é, quanto ao assunto, um simples casamento em qualquer país cristão; e o mesmo sucede com os outros três poemas, ou, antes, sucede indirecta­mente, pois nenhum deles tem colocação precisa no tempo, mas só no sentimento. Quando digo que os dois primeiros são os únicos poemas nitidamente obscenos que tenho escrito, não digo mal; os outros três poemas, excepto uma ou outra frase casual no terceiro, nada têm que se possa qualificar de obsceno. Estou com muito interesse em ver o seu estudo na Presença. Basta que o veja aí; não é preciso, como numa outra carta me disse, mandar-mo antes de o publi­car. O título não me alarma nada, sendo certo, porém, que, de per si, não o compreendo definidamente. O es­tudo, contudo, mo explicará. Noto, aliás, que não dá o título como definitivo, mas como provável. Se ele define bem as conclusões do estudo, deve mantê-lo. Tem, com certeza, o dom de interessar. Outra coisa muito diferente. Recebi, no dia 13, na minha caixa postal, uma carta sua (pelo envelope e letra nele) para o António Botto. Contra todos os precedentes, extraviei essa carta. Peço-lhe desculpa disso, e aviso-o, para que possa ter a maçada de escrever de novo. Não expliquei o caso ao António porque há uns quinze dias que o não vejo; a correspondência que vem para ele, para a minha caixa postal – e que pode sempre para ali ir, pois não costumo extraviar as cartas –, deixo-‑lha logo no Café Arcada, onde ele vai frequente­mente, mas a horas a que eu raras vezes posso ir. Um grande abraço do seu amigo certo, admirador e obrigado, Fernando Pessoa. 18-11-1930 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - ‑Casa da Moeda, 1982). - 53. Cansado até dos deuses que não são... Ideais, sonhos... Como o sol é real E na objectiva coisa universal Não há o meu coração... Eu ergo a mão. Olho-a de mim, e o que ela é não sou eu. Ente mim e o que sou há a escuridão. Mas o que são a isto a terra e o céu? Houvesse ao menos, visto que a verdade É falsa, qualquer coisa verdadeira De outra maneira Que a impossível certeza ou realidade. Houvesse ao menos, sob o sol do mundo, Qualquer postiça realidade não O eterno abismo sem fundo, Crível talvez, mas tendo coração. Mas não há nada, salvo tudo sem mim. Crível por fora da razão, mas sem Que a razão acordasse e visse bem; Real com coração, inda que [...] 10-7-1920 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 24. As lentas nuvens fazem sono, O céu azul faz bom dormir. Bóio, num íntimo abandono, À tona de me não sentir. E é suave, como um correr de água, O sentir que não sou alguém. Não sou capaz de peso ou mágoa. Minha alma é aquilo que não tem. Que bom, à margem do ribeiro Saber que é ele que vai indo... E só em sono eu vou primeiro, E só em sonho eu vou seguindo. 25-12-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 61. Monólogo à Noite Tenha eu a dimensão e a forma informe Da sombra e no meu próprio ser sem forma Eu me disperse e suma! Toma-me, ó noite enorme, e faz-me parte Do teu frio e da tua solidão, Consubstancia-me com os teus gestos Parados, de silêncio e de incerteza, Casa-me no teu sentido de (...) E anulamente... Que eu me torne parte Das raízes nocturnas e dos ramos Que se agitam ao luar... Seja eu p'ra sempre Uma paisagem numa encosta em ti... Numa absoluta e (...) inconsciência Eu seja o gesto irreal do teu beijo E a cor do teu luar nos altos montes Ou, negrume absoluto teu, que eu seja Apenas quem tu és e nada mais... Suspende-me no teu aéreo modo, Comigo envolve as estrelas e espaço! E que o meu vasto orgulho se contente De teu ter infinito, e a vida tenha Piedade por mim próprio no consolo Da tua calma inúmera e macia... s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 177. Apartado 147 Lisboa, 1 de Dezembro de 1930. Meu querido Gaspar Simões: Muito lhe agradeço a sua carta de 24 de Novembro, assim como as suas boas palavras a respeito dos meus poemas em inglês. Não é preciso dizer-lhe que é com o maior interesse que aguardo o próximo número da Presença ... Não sei bem o que lhe envie para o número 30. De momento, prefiro não enviar trecho algum das tra­duções de Shakespeare; todas elas estão sujeitas a revi­são, e não conto sequer olhar para elas dentro de um mês ou dois. O que posso prometer é mandar qualquer trecho delas para a Presença logo que esteja em condi­ções mentais de o enviar. Para o número 30, ou lhe enviarei qualquer trecho do Livro do Desassossego, ou, se puder fazê‑lo, qualquer dos trechos que formam as Notas para a Recordação do Meu Mestre Caeiro do Álvaro de Campos, que são, a meu ver, das melhores páginas do meu engenheiro. Concluo que prefere poemas; de aí esta indicação de um propósito. O que lhe poderei enviar, se quiser, é o oitavo poema de O Guardador de Rebanhos, do Caeiro, ou seja o poema sobre a vinda de Cristo à terra, que não pu­bliquei na Athena por o que é de ofensivo para a Igreja Católica; nem isso convinha à Athena como publicação em geral, nem estava certo, sendo católico o Ruy Vaz, director comigo da revista e proprietário dela. O poema é um pouco extenso, contra a norma do Caeiro: deve tomar três colunas ou quatro da Presença. Este poema está pronto, e não há senão que copiá-lo. Uma coisa: há notícias do Hourcade? Não digo do tal artigo a meu respeito: digo dele em absoluto. Abraça-o com muito afecto o seu amigo e admira­dor de sempre. Fernando Pessoa. 1-12-1930 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 56. Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa Substitui o calor. P'ra ser feliz tanta coisa é precisa. Este luzir é melhor. O que é a vida? O espaço é alguém para mim. Sonhando sou eu só. A luzir, em quem não tem fim E, sem querer, tem dó. Extensa, leve, inútil passageira, Ao roçar por mim traz Uma ilusão de sonho, em cuja esteira A minha vida jaz. Barco indelével pelo espaço da alma, Luz da candeia além Da eterna ausência da ansiada calma, Final do inútil bem. Que se quer, e, se veio, se desconhece Que, se for, seria O tédio de o haver... E a chuva cresce Na noite agora fria 18-9-1920 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 27. Tão linda e finda a memoro! Tão pequena a enterrarão! Quem me entalou este choro Nas goelas do coração? 25-12-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 62. Epílogo? (Fausto (numa cama) acordando, abre as olhos) Vivo! Pois vivo ainda! Torno a ver-te, Pálida luz, silente luz da tarde, Que ora me enleias dum calado horror! Onde estou? Onde estive? Ferve em mim, Numa quietação indefinida, Um eco de tumultos e de sombras E uma coorte como de fantasmas Oscilantes. E luzes, cantos, gritos, Desejos, lágrimas, chamas e corpos, Num referver (...) e misturado Numa esvaída confusão nocturna, Como tendo piedade de deixar-me Sinto passar em mim, como visões. Nem com esforço recordar-me posso Se são fantasmas ou vagas lembranças; Não me lembro de vida alguma minha E o necessário esforço desejado P'ra recordar-me não o posso ter. A forte central luz do meu pensar Qu'iluminando forte e unamente Fazia o meu ser um, já se apagou. Restam-me sombras e dispersas luzes Tremeluzentes vãs cintilações Que me cansam de vagas e ilusórias. Para quê sofrer mais? Não haverei Ainda o sono que me pede a mente Atormentada de febrilidades E erros esvaídos de sentir? Já me cansa e me doi sentir-me a mim, E perceber que existo e que há uma vida Comigo, vaga e desprendidamente, Qual vinho numa taça. E já não tenho Força para entornar a taça e enfim Acabar. Nem desejo nem espero Nem temo, n'apatia do meu ser. Para que pois viver? Quero a morte, E ao sentir os seus passos Alegremente e apagadamente, Me voltarei lento para o seu lado Deixando enfim cair sobre o meu braço Minha cabeça, olhos cerrados, quentes De choro vago já meio esquecido. Mas onde estou? Que casa é esta? Quarto Rude, simples — não sei, não tenho força Para observar — quarto cheio de luz Escura e demorada que na tarde Outr'ora eu... Mas qu'importa? A luz é triste, Eu conheço-a. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 178. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.91). Na margem verde da estrada Os malmequeres são meus. Já trago a alma cansada — Não é disso... é de Deus. Se Deus me quisesse dá-la Havia de achar maneira... A estrada de cá da vala Tem malmequeres à beira. Se os quero, colho-os, e tenho Cuidado com os partir. Cada um que vejo e apanho Dá um estalinho ao sair. São malmequeres aos molhos, Iguaizinhos para ver. E nem põe neles os olhos, Dá a mão pra os receber. Não é esmola que envergonhe, Nem coisa dada sem mais. É pra que a menina os ponha Onde o peito faz sinais. Tirei-os do campo ao lado Para a menina os trazer... E nem me mostra o agrado De um olhar para me ver... É assim a minha sina. Tirei-os de onde iam bem, Só para os dar à menina — E agradeceu-me a ninguém. 31-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 180. Apartado 147. Lisboa, 6 de Dezembro de 1930. Meu querido Gaspar Simões: Muito obrigado pela sua carta de ontem. Devolvo imediatamente, revistas, as provas do meu poema. Para o número 30 lhe enviarei o poema do Caeiro e algumas das «notas» do Álvaro de Campos. Já estão escritas, de modo que não é preciso senão passá-las a limpo. São apontamentos soltos, uma espécie de biogra­fia espiritual anedótica do Caeiro pelo seu discípulo. Diz v. que mande «mais um poema» do Caeiro. Aquele em que lhe falei já é bastante longo, e não há outro que fique certo junto dele. Uma das «notas» do Álvaro de Campos diz respeito a este poema. Li com muito interesse, e muito lhe agradeço, as notícias que me dá do Hourcade. Como v. se interessou tanto por O Último Sortilégio, envio-lhe, como simples curiosidade, a tradução que fiz, do inglês, de um «poema mágico» a valer – o Hino a Pã, que constitui o prefácio do tratado Magia do Mestre Therion. Este poema não é para se publicar, mas só para v. ler. Também lhe peço que o não mostre a muita gente. Não digo que se não pudesse publicar, mas o ponto é que, para isso, seria precisa a autorização do Mestre Therion; e o Mestre Therion desapareceu, não se sabendo se suicidou (como a princípio eu mesmo acreditei), se simplesmente se escondeu, se foi assassi­nado (estranha hipótese, em princípio, mas que, ao que me consta, é – ou pelo menos foi – a do polícia inglês que aqui esteve a investigar o caso). Abraça-o afectuosamente o seu amigo e admirador de sempre, Fernando Pessoa. 6-12-1930 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 58. Há um frio e um vácuo no ar. Está sobre tudo a pairar, Cinzento-preto, o luar. Luar triste de antemanhã De outro dia e sua vã Esperança e inútil afã. É como a morte de alguém Que era tudo que a alma tem E que não era ninguém. Absurdo erro disperso No espaço, água onde é imerso O cadáver do universo. É como o meu coração Frio da vaga opressão Da antemanhã da visão. 23-2-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 63. Vejo que delirei. Nem delirando fui feliz; mas fui-o Apenas para obter esse cansaço Que não obtive outrora: desejar A morte enfim. Eis a felicidade Suprema: recear nem duvidar, Mas estar de prazer e dor tão lasso A nada já sentir, longe de mim Como era antigamente: e também longe Dos homens do (...) natural Estranho! com saudade só me lembro Do meu grão tempo de infelicidade, Saudade não, e um orgulho (que é só O que dela me resta hoje) e não quero Àquele tempo regressar. Já nada quero! Caí e a queda assim me transformou! Saudosamente ainda me lembra D'ultra acordado estar, mas a queda Tirou já o desejo de voltar (Se pudesse). Deixou só um sentimento De desejar eterna quietação Ânsia cansada de não mais viver; Ambição vaga de fechar os olhos E vaga esperança de não mais abri-los. Meu cérebro esvaído não lamenta Nem sabe lamentar. Tumultuárias Ideias mistas do meu ser antigo E deste, surgem e desaparecem Sem deixar rastos à compreensão. E ainda com elas, sonhos que parecem Memórias dessa infância, dessas vozes Já deslembradas, vãs, incoerentes, Amargas, vãs desorganizações Que nem deixam sofrer. Vem pois, oh Morte! Sinto-te os passos! Grito-te! O teu seio Deve ser, suave e escutar o teu coração Como ouvir melodia estranha e vaga Que enleva até ao sono, e passa o sono. Nada, já nada posso, nada, nada... Vais-te, Vida. Sombras descem. Cego. Oh Fausto! (Expira) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 179. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.129). Apartado 147. Lisboa, 19 de Dezembro de 1930. Meu querido Gaspar Simões: Começo a enviar-lhe a colaboração prometida para o n.º 30 da Presença. Vai junto o Oitavo Poema de O Guardador de Rebanhos do Alberto Caeiro. Espero que goste dele. De aqui a uns dias – naturalmente na segunda-feira –, lhe envio as notas (algumas) do Ál­varo de Campos sobre o Caeiro. Fiz o possível por transcrever o poema que vai junto em ortografia moderna, visto que é a que vocês usam na Presença, e fica sempre mal o desacordo orto­gráfico adentro de uma publicação qualquer. Se é certo que, por diversas razões, uso da ortografia antiga, isso não quer dizer que me importe que vocês ponham o que eu enviar para a Presença em ortografia moderna, ainda que eu me não tenha lembrado de o fazer. V. fica desde já autorizado em absoluto a reortografar como melhor lhe parecer ou convier o que eu enviar para aí. Se na transcrição do poema do Caeiro errei qualquer ponto ortográfico, apesar de desejar conformar-me com a ortografia moderna, v. emende. Um abraço do amigo e admirador de sempre, Fernando Pessoa. 19-12-1930 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 59. E toda a noite a chuva veio E toda a noite não parou, E toda a noite o meu anseio No som da chuva triste e cheio Sem repousar se demorou. E toda a noite ouvi o vento Por sobre a chuva irreal soprar E toda a noite o pensamento Não me deixou um só momento Como uma maldição do ar. E toda a noite não dormida Ouvi bater meu coração Na garganta da minha vida. 1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 65. Apartado 147. Lisboa, 4 de Janeiro de 1931. Meu querido Gaspar Simões: Muito obrigado pela sua carta, pelos dois exempla­res da Presença e, mais ainda, pelo seu artigo, que muito me agradou. Há pontos que acho certos, outros que não acho certos, outros, ainda, sobre os quais eu mesmo estou incerto. Mas, à parte o facto honroso e agradável da própria existência do artigo, ele agra­dou-me, deveras, em seu conteúdo. Mais tarde, e mais demoradamente, lhe reduzirei a pormenores o que aí vai sumariamente dito. Calculei que lhe agradasse o Oitavo Poema do "Guardador de Rebanhos", mas verifico, com novo pra­zer, que de facto lhe agradou. Vão juntas as cinco no­tas escolhidas das Notas para a Recordação do Meu Mestre Caeiro, do Álvaro de Campos; espero que lhe agradem também. Só ontem tive tempo para fazer a escolha e a cópia. O Mestre Therion não é heterónimo meu; é sim­plesmente o «nome supremo» do poeta, mago, astrólogo e «mistério» inglês que em vulgar se chama (ou cha­mava) Aleister Crowley, que também se designava por «A Besta 666». O Hino a Pã é uma espécie de prefácio ao trabalho intitulado Magick (Magia), que foi publi­cado em Paris, em quatro tomos. Crowley mandou vir de Inglaterra um tratado desses para mim; recebi-o, por sinal, já depois de o Crowley ter desaparecido de Lis­boa em circunstâncias misteriosas. Lembrei-me um dia de traduzir o Hino a Pã, o que fiz, conforme o meu critério de traduzir verso, em abso­luta conformidade rítmica com o original. Mandei a v. o poema para, como lhe disse, v. ver o que é propria­mente um «poema mágico», em comparação com um simples «poema a respeito de magia», como é o meu Último Sortilégio. Reflecti, depois de lhe escrever, sobre o que lhe havia dito de o poema não dever ser publicado. Não vejo, afinal, inconveniente nisso, se v. achar interes­sante publicá-lo. Tem, pelo menos, a vantagem de ser singular: não creio que haja em português (natural ou traduzido) outro poema precisamente dessa ordem. Pode, pois, v. publicá-lo se quiser. Para esse fim lhe envio uma nova cópia, em que ajustei (creio) a ortogra­fia, e fiz umas pequenas modificações. Um abraço do amigo e admirador muito grato, Fernando Pessoa. 4-1-1931 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 60. Apartado 147. Lisboa, 4 de Janeiro de 1931. Meu querido Gaspar Simões: Muito obrigado pela sua carta, pelos dois exempla­res da Presença e, mais ainda, pelo seu artigo, que muito me agradou. Há pontos que acho certos, outros que não acho certos, outros, ainda, sobre os quais eu mesmo estou incerto. Mas, à parte o facto honroso e agradável da própria existência do artigo, ele agra­dou-me, deveras, em seu conteúdo. Mais tarde, e mais demoradamente, lhe reduzirei a pormenores o que aí vai sumariamente dito. Calculei que lhe agradasse o Oitavo Poema do "Guardador de Rebanhos", mas verifico, com novo pra­zer, que de facto lhe agradou. Vão juntas as cinco no­tas escolhidas das Notas para a Recordação do Meu Mestre Caeiro, do Álvaro de Campos; espero que lhe agradem também. Só ontem tive tempo para fazer a escolha e a cópia. O Mestre Therion não é heterónimo meu; é sim­plesmente o «nome supremo» do poeta, mago, astrólogo e «mistério» inglês que em vulgar se chama (ou cha­mava) Aleister Crowley, que também se designava por «A Besta 666». O Hino a Pã é uma espécie de prefácio ao trabalho intitulado Magick (Magia), que foi publi­cado em Paris, em quatro tomos. Crowley mandou vir de Inglaterra um tratado desses para mim; recebi-o, por sinal, já depois de o Crowley ter desaparecido de Lis­boa em circunstâncias misteriosas. Lembrei-me um dia de traduzir o Hino a Pã, o que fiz, conforme o meu critério de traduzir verso, em abso­luta conformidade rítmica com o original. Mandei a v. o poema para, como lhe disse, v. ver o que é propria­mente um «poema mágico», em comparação com um simples «poema a respeito de magia», como é o meu Último Sortilégio. Reflecti, depois de lhe escrever, sobre o que lhe havia dito de o poema não dever ser publicado. Não vejo, afinal, inconveniente nisso, se v. achar interes­sante publicá-lo. Tem, pelo menos, a vantagem de ser singular: não creio que haja em português (natural ou traduzido) outro poema precisamente dessa ordem. Pode, pois, v. publicá-lo se quiser. Para esse fim lhe envio uma nova cópia, em que ajustei (creio) a ortogra­fia, e fiz umas pequenas modificações. Um abraço do amigo e admirador muito grato, Fernando Pessoa. Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - . A estrada, como uma senhora, Só dá passagem legalmente. Escrevo ao sabor quente da hora Baldadamente. Não saber bem o que se diz É um pouco sol e um pouco alma. Ah, quem me dera ser feliz. Teria isto, mais a calma. Bom campo, estrada com cadastro, Legislação entre erva nata. Vai atar a alma com um nastro Só para ver quem ma desata. 31-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 183. Lisboa, 7 de Fevereiro de 1931. Meu querido Gaspar Simões: Muito obrigado pela sua carta de 20 de Janeiro. Não é, talvez, rigorosamente preciso que v. perca tempo enviando-me provas do original, enviado por mim, que aí tem. Confio na sua revisão. Verifico apenas que, na cópia que lhe mandei da minha tradução do Hino a Pã, segunda página, deixei de pôr, algumas vezes, o circun­flexo na exclamação «Iô!». Na verdade, não devia ser preciso, mas pu-lo porque quis evitar que qualquer des­prevenido se pusesse a pronunciar «io» como na palavra «rio». Convém por isso pôr «iô» em todos os casos. Mais tarde lhe enviarei uma opinião pormenorizada, como me pede e eu prometi, sobre o seu estudo a meu respeito. Abraça-o, com o afecto e a admiração de sempre, o muito seu, Fernando Pessoa . 7-2-1931 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 62. Apartado 147. Lisboa, 4 de Abril de 1931. Meu querido Gaspar Simões: Muito obrigado pela sua carta de 2. Recebi, sim, a Presença, e achei o número muito bom. Apreciei muito o seu estudo sobre o Raul Brandão. Quanto à dispo­sição gráfica da minha colaboração, está perfeitamente bem: em que é que v. supunha que eu pudesse achar imperfeita? Com muito prazer lhe enviarei colaboração para o número seguinte, e, como é o número de aniversário, e vocês querem naturalmente incluir o maior número pos­sível de colaboradores que o têm sido, enviarei colabo­ração minha e dos heterónimos todos. Escusado é dizer que cada uma será breve: pautar-nos-emos todos pela norma (em extensão) do Ricardo Reis. O mais duvidoso nestas coisas – como em tudo – é o Álvaro. Deram-me muito prazer as notícias que me dá sobre o Hourcade. Ele tem sido amabilíssimo para mim, e gos­tava, ou de lhe escrever, ou que ele me escrevesse. Dê-lhe v. a minha morada – isto é, o meu endereço postal – dizendo-lhe que me escreva directamente, pois terei nisso muito prazer; ou então dê-me a morada dele, para que eu lhe escreva. Vejo pela sua nota preliminar à sua tradução do artigo do Hourcade no último número da Presença que ele tem já publicado artigos sobre Portugal, e um sobre mim. Gostaria de conhecer esses artigos. Basta que v. me indique onde vêm – revista ou jornal, e res­pectivo número ou data – e eu o obterei. Peço-lhe, em todo o caso, o favor de escrever logo que possa ao Hourcade, dizendo-lhe nunca me mostra­ram nem o Carlos Queirós, nem qualquer outra pes­soa – traduções algumas de poemas meus. Não vejo o Carlos Queirós há muito tempo: é muito natural que ele me tenha procurado nos lugares do costume – onde tenho agora sido infrequentíssimo – e tenha desistido de me achar. O que eu não quero é que o Hourcade julgue que tomei conhecimento das traduções e lhe não disse nada, nem directa nem indirectamente. Em muitas coisas pertenço à seita dos adiistas, e sou autenticamente futurista no sentido de deixar tudo para amanhã. Nisto, porém, em que estava sendo devedor de um favor a alguém, não poderia demorar. Peço-lhe, pois, instantemente que, logo que possa, transmita ao Hourcade a notícia da minha ignorância das traduções, enviando-lhe, no mesmo tempo, os meus agradecimentos e as minhas lembranças afectuosas. Abraça-o, com a amizade e a admiração de sempre, o muito seu, Fernando Pessoa .lçlçlçlç P. S. – Apoquenta-me que v. vá ter a maçada de copiar a minha colaboração no Orpheu. Gostava de po­der enviar exemplares dessa revista, mas o facto é que não tenho senão os meus, e até desses não sei onde estão. Nem me posso oferecer para eu mesmo copiar — como seria justo — essa colaboração, pois estou num período — que durará, pelo menos, até ao fim do mês — em que não tenho tempo para nada. 4-4-1931 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 62. Apartado 147. Lisboa, 6 de Junho de 1931. Meu querido Gaspar Simões: Muito obrigado pela sua carta de 30 de Maio. Não sei ao certo, nesta altura, o que é que está inédito dos Indícios de Ouro, do Mário de Sá‑Carneiro. Como conheço muito bem todos os poemas, sempre me parece que já estão todos publicados. Um ou outro (dois, ou três o máximo) estarão inéditos. Parece-me que a se­gunda Canção do Declínio é um deles, mas não o afirmo. Com mais facilidade poderá v. saber isso, saber se se lembra de a ter lido. Desconta-se, claro está, a publi­cação no Orpheu 3 que nunca saiu, mas de que foram impressas algumas folhas. Esta canção veio lá, mas isso não foi publicação. Mando-lha junta. Só de aqui a uns dois meses terei reunida a corres­pondência do Mário de Sá‑Carneiro para mim. Há, com certeza, algumas cartas publicáveis em todos os sentidos. Depois lhe direi. Abraça-o o amigo e admirador de sempre, Fernando Pessoa. 6-6-1931 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 65. Neste terceiro corpo das suas Trovas aplica-se o Bandarra a desvendar misteriosamente, não já “sapatarias”, isto é, simples factos importantes e concretos (porque, sendo ele sapateiro, são as coisas da sapataria o símbolo para ele dos factos importantes e concretos), mas “mais altas profecias”, em que passa além desses simples factos e vê períodos largos, grandes movimentos das nações, culminâncias da civilização. De todos os “corpos”, de que se compõem as profecias do Bandarra, é este o mais ordenadamente disposto, em os seus seis sonhos e a introdução que o abre. É de notar que nos outros corpos das trovas o Bandarra este ocupa de factos nítidos, precisos, concretos, sempre, é claro, de importância para o país, não sempre porém os de mais importância, porque há movimentos aparentemente obscuros em as nações que, por vezes, têm uma importância maior que factos que todos vêem e estão, por assim dizer, nas alturas humanas. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 45. TERCEIRO CORPO DAS PROFECIAS DE [ ... ] BANDARRA Em vós que haveis de ser quinto Depois de morto o segundo, Minhas profecias fundo Co estas letras que aqui pinto. AQI — Arma, Quies, Intellectus. VOS — Vis, Otium, Scientia. Var.: VOS. a) Manuel I, quinto da Din. de Avis, vindo depois de D. João Segundo. b) D. João Quinto, sucessor de D. Pedro Segundo. c) Quinto Império, sucessor do Segundo. (Qual é este?) II. Inda o trono está por vir Já vos vejo erguido cedro: Pouco vai de Pedro a Pedro Se a rama o tronco medir. a) Tantos eram os homens de valor (petra) no 1.º império português que de uns a outros pouca distância vai no tempo se os avaliarmos pelos resultados, pois na idade são vários. b) [...] c) Do fim da Igreja Católica ao seu [?], por assim dizer, [...] não há quebra real de continuidade, pois sempre dura qualquer coisa de fundamental. a) Ainda está por vir o verdadeiro Império e já ele existe. b) Ainda está por aparecer D. José, em cujo reino os Braganças atingem o máximo, já o auge, aqui dado, existe. c) É longamente preparado este Império, e existe já em toda a sua essência necessário antes da sua efectuação definitiva. III. Fiz trovas de ferro, e prata, Dignas de qualquer tesouro, Hoje quanto faço é ouro Que em vós, Senhor, se remata. a) Ferro = Armas; Prata = Quies; Ouro = Inteligência ([...]) b) Ferro = profecias de pormenor prata = p. de [...] ouro =  p. da realidade. c) [...]. IV. Não conto sapatarias Que noutros tempos sonhei O que agora contarei São mais altas profecias. Não faço, como em outros escritos anteriores, profecias de mero pormenor; estas são de coisas fundamentais. V. A giesta não se torce, Muito amarga o sargaço: Tudo quanto agora faço São bocados de erva doce. VI. Faço trovas mui inteiras, Versos muito bem medidos, Que hão de vir a ser cumpridos Lá nas eras derradeiras. VII. Eu componho, mas não ponho As letrinhas no papel, Que o devoto Gabriel Vai riscando, quanto eu sonho. Sonho Primeiro VIII. Vejo, mas não sei se vejo; O certo é que me cheira Que me vem honrar à beira Um Grande do pé do Tejo. (1) [...] (2) António Vieira (3) [...] IX. Formas, cabos e sovelas Lavradinhas com primor Mandareis abrir, Senhor, Muitos folgarão de vê las. (1) (literal) (2) Interpretação conforme o que se pensava dele (1) (literal) (2) Muito bem escrito (3) Muito bem interpretado. Mas ai! que já vejo vir O Presbítero maior Arriscar todo o primor Que outra vez há de surgir. Var.: “a riscar”. (1) Cardeal [...] (2) M[arquês] de Pombal (3) [...] Sonho Segundo XI. Augurai, gentes vindouras, Que o Rei, que daqui há de ir, Vos há de tornar a vir Passadas trinta tesouras. (a) II ン 31 = 62; 1578 + 62 = 1640 [Independência] (b) X ン 31 = 310; 1578 + 310 = 1888 [Grandeza] (c) XX ン 31 = 620; 1578 + 620 = 2198 [Império] O Pastorzinho na serra Grita que tenham cuidado, Que se vai perdendo o gado Por mais que gritando berra. XIII. Desamparar o cortiço Uma abelha mestra vejo; As outras com muito pejo Não têm asas para isso. (a) [...] (b) [...] XIV. Irão tempos de lazeiras Virão tempos de farturas; Os frades terão tristuras Por acudirem as freiras. XV. Este sonho que sonhei É verdade muito certa, Que lá da Ilha encoberta Vos há de vir este Rei. Sonho Terceiro XVI. Sonhei que estava sonhando, Que passados cem Janeiros Os Portugueses primeiros Se levantarão em bando. 100 janeiros depois do que segue (a) 1640 + 101 = 1741 (b) 1811 + 101 = 1912 (c) [...] XVII. Ergue se a águia Imperial Com os seus filhos ao rabo; E com as unhas no cabo Faz o ninho em Portugal. Vai se embora a á[guia] i[mperial] levando as suas consequências [?] materiais mas deixando as consequências [?] espirituais. (a) Filipe IV da Espanha (ignorância e depressão) (b) Napoleão (perversão) XVIII. Põe um A pernas acima Tira lhe a risca do meio, E por detrás lha arrima, Saberás quem te nomeio. (a) IV = Filipe IV (b) N = Napoleão (c) IV = JU = Ju(deus)? XIX. Tudo tenho na moleira. O passado e o futuro. E quem for homem maduro Há de me dar fé inteira. maduro para interpretar. XX. Vejo sem abrir os olhos Tanto ao longe como ao perto; Virá do mundo encoberto Quem mate da águia os polhos. (a) M. de Pombal (= Sebastião) (b) [...] Sonho Quarto XXI. Lá para as bandas do Norte Vejo como por peneira Levantar uma poeira Que nos ameaça a morte. XXII. Vosso grande capitão, Ó povo errado e perverso, Já caminha com o erço, E vós dormindo no chão. XXIII. Na era que eu nomear Terá fim a heresia; Verás certa a profecia, Se bem souberes contar. XXIV. Põe três tesouras abertas, Diante um linhol direito, Contarás seis vezes cinco, E mais um, vai satisfeito. 31+ 31= 62 (1578 + 62 = 1640) 31 = 341 (1578 + 341 = 1919) XXV. Muito rijo bate o vento Na parede da Igreja; Alguém caída a deseja, No levantar vai o tento. XXVI . Mas ai! do calçado a obra Logo requer o solário; Porém não há muita sobra Se não dobra o campanário. Sonho Quinto XXVII. Vejo, vejo, dizer vejo, Andar a terra ao redor; E o borborinho sem dor Resolve um e outro sexo. Descreve o B[andarra] as épocas em que Portugal terá o Império. XXVIII. Rugia a porca do sino, O sino não badalava, A grimpa se revirava, E o sino andava a pino. XXIX. Meto a sovela nas viras, E vejo pelo buraco Os ossos de Pêro Jaco No penedo das mentiras. XXX. Que belamente que soam As Profecias direitas! Depois que forem perfeitas Verão que a terra povoam. XXXI . Doutos e sandeus conhecem Pelo volver das estrelas Puras verdades mais belas Que inda os Judeus não merecem. Sonho Sexto XXXII. Quando o sonho é verdadeiro Dá se uma luz muito clara Sonho agora, que uma vara Vai dando luz a um outeiro. Var.: lei (1) o castigo (2) cajado do pastor (3) ceptro a vara mágica XXXIII. O outeiro é Portugal E a vara castelhana Da minha pobre choupana Vejo esta vara Real. (1) Domínio espanhol (2) [...] (3) Império na Europa (não “Castela” ) — está ao Oriente? O ceptro XXXIV. Dará fruto em tudo santo, Ninguém ousará negá-lo, O choro será regalo E será gostoso o pranto. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 44. Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro hábito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opiniões continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez não seja tarde para estabelecer, sobre tão delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude científica. Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentada sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo própria. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural. A coerência, a convicção, a certeza, são além disso demonstrações evidentes — quantas vezes escusadas — de falta de educação. E uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é maçá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade. Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter, não crenças religiosas, opiniões políticas, predilecções literárias, mas sensações religiosas, impressões políticas, impulsos de admiração literária. Certos estados de alma da luz, certas atitudes da paisagem têm, sobretudo quando excessivos, o direito de exigir a quem está diante deles determinadas opiniões políticas, religiosas e artísticas, aqueles que eles insinuem, e que variarão, como é de entender, consoante esse exterior varie. O homem disciplinado e culto faz da sua sensibilidade e da sua inteligência espelhos do ambiente transitório: é republicano de manhã, e monárquico ao crepúsculo; ateu sob um sol descoberto, e católico ultramontano a certas horas de sombra e de silêncio; e não podendo admitir senão Mallarmé àqueles momentos do anoitecer citadino em que desabrocham as luzes, ele deve sentir todo o simbolismo uma invenção de louco quando, ante uma solidão de mar, ele não souber de mais do que da Odisseia. Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam dessa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida. Quando é que despertaremos para a justa noção de que a política, religião e vida social são apenas graus inferiores e plebeus da estética — a estética dos que ainda a não podem ter? Só quando uma humanidade livre dos preconceitos da sinceridade e coerência tiver acostumado as suas sensações a viverem independentemente, se poderá conseguir qualquer coisa de beleza, elegância e serenidade na vida. 1915 Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 5. 1ª publ.:”Crónica da vida que passa”. in O Jornal , nº 2. Lisboa: 5-4-1915. Bandarra A interpretação inicial dos cinco impérios, que é que está em o Velho Testamento, é [...]. Por esta interpretação, ingénua nos seus preconceitos, e rudimentar na sua forma, concebe-se o império sob a forma exclusiva e material de império de conquista. É de presumir que o Quinto Império, esperado neste esquema profético, fosse o Império Hebreu, por isso que os profetas o eram, e, dada a ingenuidade da sua visão, era natural que caíssem no erro egocêntrico comum a todos os profetas que profetizam com intenção. Esta divisão dos cinco impérios, ou, antes, dos quatro, por comparação com os quais se deduzirá o que deverá ser o quinto, peca, como disse, por ingénua. Temos, primeiro, que alargar o conceito de império; sem isso não é ele digno de se profetizar a respeito dele, ou, a profetizar-se, a profecia é estreita, nacional, quase sectária. O império judeu é impossível porque a ideia de império (no seu alto sentido) é sincrética, ou, antes, é de um império sincrético — isto é, de uma império que resuma várias coisas, concentre várias influências, seja uma síntese e não uma simples extensão força. Por isso, e partindo da nossa civilização, adentro da qual estão os próprios judeus, que para a formação dela contribuíram — não predominantemente, porém somente como um elemento dela —, se formou a nova divisão dos quatro impérios, pela qual se possa deduzir, até certo ponto, a natureza e o carácter do quinto. A divisão é: Império Grego (sintetizando todos os conhecimentos, toda a experiência dos antigos impérios pré-culturais); o Império Romano (sintetizando toda a experiência e cultura gregas e fundindo em seu âmbito todos os povos formadores, já ou depois, da nossa civilização); o Império Cristão (fundindo a extensão do Império Romano com a cultura do Império Grego, e agregando-lhe elementos de toda a ordem oriental, entre os quais o elemento hebraico); e o Império Inglês (distribuindo por toda a terra os resultados dos outros três impérios, e sendo assim o primeiro de uma nova espécie de síntese — fundindo a cultura grega, em nenhum lugar tão marcada como em Inglaterra, pois que Milton é o mais grego dos poetas modernos ( quote M. Arnold) — a extensão e imperium dos romanos, a moral cristã, em parte alguma tão activa como nos países de língua inglesa, onde é máxima a actividade cristã, como se vê pelas seitas numerosíssimas que revelam essa especulação constante)... O Quinto Império, que necessariamente fundirá esses quatro impérios com tudo quanto esteja fora deles, formando pois o primeiro império verdadeiramente mundial, ou universal. Este critério tem a confirmá-lo a própria sociologia da nossa civilização. Esta é formada, tal qual está hoje, por quatro elementos: a cultura grega, a ordem romana, a moral cristã, e o individualismo inglês. Resta acrescentar-lhe o espírito de universalidade, que deve necessariamente surgir do carácter policontinental da actual civilização. Até agora não tem havido senão civilização europeia; a universalização da civilização europeia é forçosamente o mister do Quinto Império. Em geral concebe-se como cristão esse Império, e a ele se alude como, seguindo-se ao Reino de Anticristo, sendo a Segunda Vinda do Cristo. A hipótese, não emergindo necessariamente dos factos — nem dos sociológicos, nem dos proféticos — é contudo aceitável. Não a defenderemos; não a opugnaremos. Contra a primazia, neste ponto imperial, da religião cristã, tem-se oposto o igual direito a uma primazia, que podem invocar as religiões maometana, budista, e outras. Se, porém, o império universal, ou quinto império, há-de ter um carácter religioso, o que, não estando provado, é contudo provável, não é de supor que seja fora do cristianismo. Das duas outras religiões, que poderiam concorrer a esse império maior, a maometana é estreita. A budista, sobretudo na forma teosófica em que se tem espalhado, é mais aceitável como universal, pois, de facto, pretende ser não propriamente uma religião, senão o espírito de todas elas. Sucede, porém, que o budismo está fora do esquema moral da civilização europeia, dentro da qual se há-de dar, ainda que universalizando-se, a formação do quinto império. Qualquer que seja esse quinto império, há-de incluir e sintetizar os quatro que o precederam, pois assim foi cada um deles incluindo, e sintetizando os que vieram antes dele. Ora a cultura grega, a ordem romana, a moral cristã mesmo, em alguns dos seus pormenores, estão fora do esquema budista. De todas as religiões, só o cristianismo tem o preciso carácter sincrético: formado com a base da metafísica grega, distribuído com a base do imperialismo romano, construído já com um sincretismo que inclui as religiões orientais, incluindo aquelas de onde o budismo emergiu, o cristianismo absorverá ainda com facilidade o individualismo inglês, que veio depois, por isso que o cristianismo é essencialmente individualista, como a cultura grega, em que obscuramente se funda. O que não poderá ser é o cristianismo católico. Esse tornou-se incapaz de um sincretismo novo; nem poderia incluir o individualismo inglês, que lhe é oposto, e que, como é o distintivo do quarto império, terá que entrar como elemento no quinto, dada a lei de formação dos impérios adentro de uma civilização. Há a hipótese, que já foi posta, de uma religião nova. Que apareça uma religião nova, aceitamo-lo. Não o aceitamos, porém, adentro do esquema dos cinco impérios. Concedemos que possa ser depois, passados todos os cinco impérios e a nossa civilização também, pois supomos que não será eterna, visto que nada o é neste mundo. A morte do cristianismo, concedemos que se dê, porém fora dos nossos “tempos”. Será sem dúvida aquilo a que os profetas do nosso esquema chamam o “fim do mundo” ou o “juízo final”, dada a confusão que ordinariamente se estabelece no espírito do profeta entre o fim do que ele considera o mundo com o fim do próprio mundo. Já aludimos a este tipo de confusão, com o mesmo género de exemplo, quando houvemos de nos referir ao carácter do pensamento profético. Aliás, este triunfo final do cristianismo encontra-se acentuado nas poucas profecias que temos sobre o assunto, e às quais podemos atribuir, no profeta, uma independência das suas próprias opiniões e desejos — único fundamento para tomar a profecia como profecia a valer, e não como expressão de um sonho próprio. Uma é a do verso de Nostradamo, posto no fim das centúrias para que se repare que se reporta ao fim das “coisas” — isto é, da civilização a que pertencemos. Religion du nom des mers vaincra, sendo que o cristianismo é a religião dos mares, governada pelo signo de Pisces, e nascido o seu fundador de Maria, que quer dizer “mares” em latim. A outra é a profecia, ainda mais curiosa, de S. Francisco de Paula. Este diz que haverá uma “religião nova” — repare-se bem, “nova”— (Lusitanus torce inutilmente a frase, ao interpretá-la; se S. Francisco de Paula quisesse dizer uma religião velha para que havia de chamar-lhe nova?); mas essa religião será imposta ou desenvolvida por uns a quem chama “crucíferos”. O serem crucíferos indica que a religião é cristã, pois a cruz é o símbolo essencial do cristianismo (embora exista, porém, só acessoriamente, na simbologia de outras religiões); mas o ser a religião “nova” indica que não é cat61ica, pois para S. Francisco de Paula, que era, claro está, cat61ico, um cristianismo não cat61ico é uma religião nova. A profecia de Nostradamo é aceitável, por “imparcial”, pois assim são todas as profecias desse homem extraordinário; essas e as do Terceiro Corpo do nosso Bandarra. A profecia de S. Francisco de Paula é igualmente aceitável, pois é evidentemente “imparcial” a profecia de um católico que, embora involuntariamente, profetiza a queda da sua própria religião s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 41. Na Rússia — ao contrário do que se tem dito — continuam as perseguições políticas. Acaba de ser enforcado, por traidor, o coronel russo Miasoyedoff. Provou-se, com efeito, que ele era traidor. Estava vendido aos alemães, a quem inteirava de planos militares... Então em que é isto uma perseguição política? Não nos deixemos sugestionar senão pela verdade. Examinemos o que seja uma traição. Um traidor é simplesmente um individualista. A traição, longe de ser um acto condenável, não passa duma opinião política — filosófica, mesmo, como no fundo são todas as opiniões políticas. A guerra é uma substituição, na moral e na acção, do critério inibitivo pelo critério expansivo. Toda a vida social, normalmente, se rege por princípios que têm por base a inibição da acção dos instintos, de modo que eles não prejudiquem os outros. Na guerra acontece o contrário. Ali os instintos são, organizadamente, desencadeados. O fundo humano da violência e combatividade aparece. Passa a ser legítima a solução animal das questões. Age só o egoísmo absoluto, a luta pela vida, descarnadamente. Só se trata de prejudicar os outros. Ora um traidor é uma criatura que, por dinheiro ou outro interesse pessoal, compromete os interesses da pátria. Isto é, segue um critério egoísta, segue o instinto do lucro, de interesse pessoal. E isto vem a ser servir-se precisamente da mesma moral que a da guerra. A sua divergência está em que dá a essa moral uma interpretação individualista, ao passo que a interpretação comum é solidarista. E uma questão de política ou de filosofia. Ora não se deve matar uma criatura por causa das suas opiniões filosóficas. Mas, dirá um incauto, a traição, seja o que for, compromete a pátria, a colectividade; é um perigo enorme, que se não pode tratar de leve. Nesse caso deviam ser enforcados, como Miasoyedoff; os estadistas que lançam um país numa guerra de que ele não saia vencedor. Esses comprometem toda a pátria, de uma só vez, e não se pode dizer, como do traidor, que o fazem por uma interpretação filosófica da guerra, diversa da interpretação corrente. Fazem-no utilizando a interpretação corrente, o que é muito mais hábil, mas, por isso mesmo, muito mais imoral. 1915 Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 27. Artigo inserido na coluna “Crónica da vida que passa”. in O Jornal , nº 12. Lisboa: 15-4-1915. Bandarra Concebendo a verdade só como católica romana, nem compreendendo outro género de império que não o de guerra e conquista, era forçoso que os nossos maiores interpretassem as profecias do Bandarra, e outras semelhantes que nos atribuíam no futuro o Quinto Império, como designando-nos para chefes e verdadeiros universalizadores da Igreja Católica Romana, como conquistadores pelas armas, para ela e para nós, de toda a extensão do mundo. Não tinham luzes que lhes permitissem ver, que por Igreja Católica, ou Universal, outra coisa se podia designar que não uma Igreja que a si mesma se designando de Romana, com isso mesmo se condenava na matéria, e que por Império se pudesse entender o domínio sobre outros povos, porém não necessariamente o domínio deles pelas armas, ou por qualquer outra arte, a elas ligada, com que os antigos imperadores efectuavam o domínio verdadeiro de suas conquistas. A tolerância é impossível ao crente verdadeiro de qualquer fé, sobretudo se ela excede os limites estreitos do feiticismo e da simples superstição, sem que atinja ainda o sincretismo dos pagãos e dos ocultistas. Quem tem a sua religião por verdadeira, e por certa só dentro dela a salvação das almas, não pode senão considerar como um crime de tal vulto, que excede todos os crimes deste mundo, o pregar outra religião, que não essa, ou o desviar dela aqueles que só nela terão sua salvação. Nada há pois que pasmar do espírito perseguidor dos inquisidores, dos puritanos, e de todos quantos têm deveras uma fé que supõem universal. Nem outra ordem de fé era possível a populações que viviam ainda num grau imperfeito de cultura e de civilização. Podemos lamentar os mártires dessas perseguições, como os das perseguições aos cristãos, fruto de um cuidado análogo, da segurança e da unidade do Império; mas nem devemos culpar os perseguidores como a criminosos, nem lamentar os mártires mais do que lamentamos aqueles sofrem as injustiças da sorte. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 86. Tão vago é o vento que parece Que as folhas fremem só por vida. Dorme um calar em que se esquece Em que é que o campo nos convida? Não sei. Anónimo de mim, Não posso erguer uma intenção Do saco em que me sinto assim, Caído nesse verde chão. Com a alma feita em animal, A quem o sol é um lombo quente. Aceito como a brisa real A sensação de ser quem sente. E os olhos que me pesam baixo Olham pela alma o campo e a estrada. No chão um fósforo é o que acho. Nas sensações não acho nada. 31-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 184. Nisto de manifestações populares, o mais difícil é interpretá-las. Em geral, quem a elas assiste ou sabe delas ingenuamente as interpreta pelos factos como se deram. Ora, nada se pode interpretar pelos factos como se deram. Nada é como se dá. Temos que alterar os factos, tais como se deram, para poder perceber o que realmente se deu. É costume dizer-se que contra factos não há argumentos. Ora só contra factos é que há argumentos. Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica. Nisto de manifestações — ia eu dizendo — o difícil é interpretá-las. Porque, por exemplo, uma manifestação conservadora é sempre feita por mais gente do que toma parte nela. Com as manifestações liberais sucede o contrário. A razão é simples. O temperamento conservador é naturalmente avesso a manifestar-se, a associar-se com grande facilidade; por isso, a uma manifestação conservadora vai só um reduzido número da gente que poderia, ou mesmo quereria, ir. O feitio psíquico dos liberais é, ao contrário, expansivo e associador; as manifestações dos “avançados” englobam, por isso, os próprios indiferentes de saúde, a quem toda a vitalidade acena. Isto, porém, é o menos. O melhor é que, para quem pensa, o único sentido duma manifestação importante é demonstrar que a corrente da opinião contrária é muito forte. Ninguém arranja manifestações em favor de princípios indiscutíveis. Tão-pouco se aglomeram vivas em torno a um homem a quem é feita uma oposição sem relevo ou importância. Não há manifestações a favor de alguém; todas elas são contra os que estão contra esse alguém. É por isso este, e não o “homenageado”, quem fica posto em relevo. Quanto maior a manifestação, mais fraco está o visado; maior se sente a força que se lhe opõe. Toda a manifestação é um corro-a-salvar-te de quem não pensa contribuir para a salvação,senão com palmas e vivas. É este o ensinamento que toda a criatura lúcida tira das manifestações populares. Quando a uma criatura, que está em evidência ou regência, se faz uma manifestação que resulta pequeníssima, conte tal criatura com o apoio dum país inteiro. Se a manifestação fosse grande, tremesse então. É que os seus partidários teriam sentido, por uma intuição irritada, a grandeza da oposição a ele, e isso os chamaria em peso para a rua, para, com suas muitas palmas e vivas, aumentar a ele e a si próprios a ilusão duma confiança que enfraquece. 1915 Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 54. 1ª publ.: “Crónica da vida que passa”. in O Jornal , nos. 15 e 18. Lisboa: 18 e 21-4-1915. Pontos relativos ao Q[uinto] Império ser cristão: Celui qui aura la charge de destruire. Plus aux rochers qu'aux vivants. Rochers são os católicos pois são “pedras”, de Pedro. Vivants são os que mantêm a “vida”, isto é, a perpétua transformação do cristianismo — os protestantes, se se quiser. Par terre et ciel aux oriens tempeste. Domínio não só material mas espiritual; no Infante, pela guerra e as missões; no Príncipe [...]. O Império será cristão, será universal, será sincrético. Um império que tem que fundir em si o terceiro, que é o cristão, não pode incluí-lo excluindo Cristo, pois isso seria não incluí-lo, senão excluí-lo. É aceitável o critério que coloca o Reino do Anticristo para depois do Quinto Império. Esse Anticristo significa a dissolução da nossa civilização, que fatalmente se há-de dissolver, como todas, e tudo neste mundo. Depois, diz-se, virá o Fim do Mundo com a vitória de Cristo. Mas este “fim do mundo”, já sabemos que significa a morte da religião cristã. Quanto à vitória de Cristo, o Juízo Final, e frases semelhantes — são expressões tiradas já do mundo. Morta a civilização cristã na terra, só noutro mundo se poderá continuar — o que nem afirmaremos, nem negaremos, pois de tal não sabemos, nem podemos presumir, nada. Curioso caso interpretativo (RL): considerar o Império do Espírito Santo como o da Morte, e seguido ao do Anticristo, que por sua vez segue ao do Verbo. Isto acomoda-se ao que vai dito, sobretudo se se reparar na palavra “morte”. A inteligência analógica, cujo grau ínfimo é a citação e a alusão, com que se tanto ilustra o discurso, e cujo grau maior é (a interpretação das) profecias e dos símbolos. A interpretação das profecias é uma fusão da inteligência analógica com a racional (fenómeno sincrético!). “ Religion du nom des mers vaincra” — Três vezes vencerá — depois da Renascença, depois do período moderno, depois do período da terceira “tribulação”. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 59. Oligarquia das Bestas 1. Introdução 2. Da patologia social 3. Divisões da patologia social 4. Aplicação à sociedade portuguesa 5. O radic[alismo] port[uguês] — os partidos ó. (...) — os indivíduos 1915 Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - . Bandarra Assim temos que no Quinto Império haverá a reunião das duas forças separadas há muito, mas de há muito aproximando-se: o lado esquerdo da sabedoria — ou seja a ciência, o raciocínio, a especulação intelectual, e o seu lado direito — ou seja o conhecimento oculto, a intuição, a especulação mística e cabalística. A aliança de D. Sebastião, Imperador do Mundo, e do Papa Angélico figura esta íntima aliança, esta fusão do material e do espiritual, talvez sem separação. E o próprio Segundo Advento, ou nova encarnação de mesmo Adepto em que outrora Deus projectou o seu Símbolo, ou Filho, não faz senão figurar de outro modo esta mesma aliança suprema. Não é pois para uma absorção mística que avançamos, sendo para a conjugação clara dos dois poderes da Forca, dos dois lados do Conhecimento. Far-se-á a aparente conquista da inteligência material (?) pela espiritual e da espiritual pela material (?). De aí o ser o Império Português ao mesmo tempo um império de cultura e o mesmo império universal, que é outra coisa. A “paz” que o Bandarra diz que haverá em todo o Mundo será a paz de não haver diferenças religiosas, a de “um só deus será conhecido”, como ele diz ainda. E isto tudo durará o tempo que tiver que durar, porque nada há perene ou eterno, e o mesmo Deus que criou este Mundo não: é porventura mais que um de muitos “deuses”, criador de um de muitos “universos”, misteriosamente coexistentes, todos eles porventura descritíveis como infinitos e eternos. O mistério — di-lo mais alto ocultismo — é maior não só que o Universo, mas que o mesmo Deus. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 40. Oligarquia das Bestas 1. ( I + II ): Introdução alegórico satírica 2. (...) : Análise sociológica do radicalismo 3. (...) : Análise psicológica dos radicais 4. (...) : Donde são recrutados os radicais 5. (...) : O nosso radicalismo original [?] ó. (...) : Os nossos radicais 7. (...) : Os nossos radicais perante o nosso estado 8. (...) : Satírica [...] 9. (...) : Conclusão 1915 Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - . Criança, era outro... Naquele em que me tornei Cresci e esqueci. Tenho de meu, agora, um silêncio, uma lei. Ganhei ou perdi? s.d. Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 182. Bandarra Pertencem os Lusíadas à espécie ínfima do género supremo em literatura. Podermos vir a ter esse império não prova, é certo, que viremos a tê-lo; porém se o não pudermos ter é que com certeza o não teremos. Preparemos o caminho dos grandes génios portugueses, ainda, que contra a voz profética, eles não venham nunca. Teremos perdido o jogo, porém ganhado a experiência dele. O esforço de um alto propósito é, de per si, um resultado desse alto propósito, o que se nos acrescenta de grande por pensarmos sempre em grandes coisas é o primeiro efeito dessas grandes coisas. Não se poderá dizer que nunca se realiza um alto propósito, se ele chega a ser um alto propósito. Já, com sê-lo, em certo modo se realizou. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 91. Neo-ro[mantismo] mon[árquico] Outra tem de ser, por força, a atitude do sociólogo equilibrado. A observação lúcida, mesmo que não profunda, do fenomenismo social impõe, sobretudo, uma conclusão. Essa conclusão é decisivamente contrária àquela a que chegam os tradicionalistas. O observador dos factos sociais constata, em primeiro lugar, que o fenomenismo das sociedades é extraordinariamente complexo. Causas de toda a ordem colaboram na produção de qualquer facto social. A toda a hora actuam nas sociedades factores de ordem económica, de ordem política, de ordem moral, de ordem estética mesmo; a cada momento encontramos as consciências individuais explicáveis apenas por complexos (e, por complexos, confusos) agrupamentos de razões económicas, intelectuais, morais. Quanto maior é a importância do facto social, maior é o número de causas a abranger para a sua explicação; mas, ao mesmo tempo, como que para nos compensar do nosso esforço em querer explicá-lo, mais nítido há-de ser o concurso dessas causas para que, colaborando, pudessem produzir um fenómeno de ordem importante e decisiva. A vida social quotidiana é feita de coisas instáveis, imprecisas, porque a multidão de causas que actua não age no mesmo sentido. Olhando de alto os factos culminantes da história humana, nós não os podemos compreender senão como tendo sido produzidos pela concorrência de factores diversos; é possível que esses factores, no fundo, se reduzam a um só, mas, para os fins práticos da sociologia, é escusado ir buscar esse factor, cuja determinação, de mais a mais, dando de barato que não constitua metafísica sociológica, é em todo o caso dificílima. Um facto como a Revolução Francesa não pode, senão por um delirante, ser interpretado como causado por determinada filosofia, ou, mesmo, determinada política. Quando um facto social tem tal relevo, quando assim exprime todo um estado social, por força que há-de ser a soma , ou síntese, de toda uma série de causas várias, que, concorrendo, o produzem. Quando muito, se quisermos, por exemplo, atribuir a Rousseau a Revolução Francesa, temos de tornar o nome “Rousseau” num sentido especial, considerando nele, não a obra de um homem mas um fenómeno intelectual representativo e esclarecedor de ocultas correntes sociais, de ordem política, de ordem económica, de ordem moral. Dir-se-á que nunca nenhum dos tradicionalistas franceses ou portugueses quis insinuar (embora seja difícil não o crer) que Rousseau tinha sido autor da Revolução Francesa, no sentido em que se pode dizer que um assassino é autor de um assassínio. Mas o que é certo é que os tradicionalistas de que se trata, sempre têm falado como se tal fosse a sua crença; e sem dúvida ela é espontaneamente tal, pois que a sua ideação seja espontaneamente absurda. No caso, que se citou para exemplo, só é permissível aludir a Rousseau como ao autor da Revolução Francesa, se se entender por isso que Rousseau é, já, o princípio da Revolução Francesa. Assim, sim. Como os factos sociais, quaisquer que sejam as suas causas, são, no fundo, factos psíquicos, pois que se passem entre psiquismos individuais, é sempre permissível, e sempre elucidadora, a comparação com os factos que se passam na alma dos indivíduos; nem o processo oferece dificuldades ou perigos de maior, senão a quem não cure bem em não fugir das analogias impossíveis. Em qualquer indivíduo, de carácter complexo (as sociedades não poderão nunca ser comparadas, pois que sejam complexas, a indivíduos de carácter simples), uma acção qualquer é o produto da combinação das suas faculdades. As acções de mínima importância (excluído, é claro, o caso de um indivíduo doentio) têm em geral uma causa simples. Mas as grandes acções da vida são resultantes de uma multidão de causas psíquicas. A importância da acção a praticar põe em jogo toda a atenção dos vários elementos componentes da psique do indivíduo; assim como a importância de uma acção social põe em jogo todos os elementos sociais. É de medíocre lucidez qualquer dos processos modernamente seguidos para interpretar os fenómenos sociais — os processos, quero dizer, que reduzem a uma só causa todas as causas sociais. Tal é o chamado materialismo hístrico, que reduz tudo a causas económicas; tal, também, uma teoria, como a dos tradicionalistas, que atribuem a Revolução Francesa a causas puramente intelectuais. Na impossibilidade (pelo menos prática) de reduzir a uma só a causação social, temos que tomar em conta todas as causas, que nos pareça estarem agindo, e ver em que é que concorrem, em que é que se entravam. Daí poderemos explicar os resultados. Agindo umas sobre as outras, as várias causas sociais vão assim criando uma unidade de direcção na vida da colectividade, de modo que dão a impressão de serem uma causa apenas. Tal sociedade, em tal época, ostenta determinada tendência económica, determinada tendência política, determinada tendência intelectual. Estas tendências (aliás já criadas por causações anteriores e complexas) interpenetram-se, misturam-se. Como a sociedade é uma, uma tem de ser a direcção geral da sua vida, embora múltiplas sejam as tentativas de direcção que nela se esbocem. Não há uma causa apenas na vida de uma sociedade em certo momento; o que há é uma sociedade apenas. Assim a Revolução Francesa. Ela é um produto complexo das doutrinas dos enciclopedistas, da situação económica da plebe francesa, da corrupção política do antigo regime monárquico. As três causas entreactuam. Como a situação económica terrível dessa plebe cria uma revolta virtual, esse espírito de revolta aceita dos enciclopedistas o que o favorece e afasta o resto. Aceita o anticatolicismo de Voltaire, e espontaneamente rejeita o seu aristocratismo. Aceita de Rousseau a sua sentimentalidade anticonvencional, mas não todas aquelas partes (nem sempre secundárias) da sua doutrina, que iriam contra essa revolta virtual. Por seu lado, as causas políticas...... ( and quote what doctrines are non-accepted from Rousseau). Se houvesse o mal-estar económico do povo francês sem que existisse, concomitantemente (e efeitos da mesma causa), a incapacidade política do tempo, a revolta, dando-se, tomaria outro rumo que não o rumo antimonárquico, que tomou. Se não houvesse a doutrinação dos enciclopedistas, mesmo que a revolta tomasse um carácter antimonárquico, não tomaria o carácter que tomou, porque não teria as teorias, que teve, a seu serviço. Mas, na realidade, estas causas colaborantes já estavam imixtas, umas nas outras, antes de se definirem como tais. A teorização de Rousseau e dos enciclopedistas já representava sentimentos que, sem a noção do mal-estar do povo, não seriam, pelo menos tão nitidamente, representados. A incompetência política dos governantes da França pré-revolucionária não existiria, pelo menos àquele ponto, se houvessem sido mais fáceis os problemas económicos a resolver; nem portanto haveria a revolta latente contra essa incompetência política. Sem a incompetência política não haveria a desgraça económica, que houve. Sem a incompetência política não nasceria tão nitidamente nos enciclopedistas a ideia destrutiva, de que conduziram os lábaros. Assim, cada fenómeno social nos aparece como, ao mesmo tempo, causa e efeito de qualquer dos outros fenómenos. Que interpretação tem isto? Só pode ter uma: que, por detrás de todas estas causas concorrentes, está uma causa única de que elas são manifestações, por cuja interacção constante, esse íntimo fundo nacional mais e mais se define e se realiza. Que realidade fundamental é essa? Seja o que for, é o que constitui a realidade essencial da vida social. Mas não há interesse em investigar o que seja. Não o há, porque, para o sociólogo prático, não é o fundamental, o inatingível que importa; é as suas manifestações — é através dessas manifestações que o político pode agir sobre esse fundo irredutível e insaisissable da sociedade. Mas estas causas, que estudámos, têm, ao menos, uma gradação, quanto a importância? Importará mais a causa económica que a política, a política que a intelectual — ou, vice-versa, em qualquer dos casos? O que vemos que diferencia essas causas é a amplidão que têm. A causação económica atinge a grande maioria da população. A causação política, uma minoria mais restrita. A causação intelectual, uma minoria pequena. Há uma ascensão. A causação intelectual não age, directamente, sobre o factor económico. Age mediatamente, através do factor, intermédio, político. (Não se pode alegar que esses três factores não cooperavam. Cooperavam; para mal, para a destruição social, mas cooperavam. Todos destruiam. As várias forças sociais cooperam sempre; não podem deixar de cooperar. O incooperante liquida, porque não age.) É de medíocre interesse prático procurar saber em que consiste, fundamentalmente, essa má direcção social. Quer seja numa dissolução de vínculos sociais, ou outra coisa qualquer, não importa. O que se trata de saber é como agir para modificar. (No fundo, é claro, há um determinismo fatal, que leva as sociedades para certo destino. Mas, pragmaticamente, não podemos pensar nesse fim. Temos que crer na possibilidade do esforço, visto que não conhecemos o futuro.) Apesar, porém, de atingir toda a sociedade o facto económico, e o facto intelectual uma pequena parte, não se deve julgar que o factor intelectual não altera, mesmo como intelectual, o fundo económico. Descendo dos teoristas aos políticos, e dos políticos à maioria sobre quem é primária a pressão económica, a teoria vai tomando formas diversas, deformando-se para se adaptar. Vai ganhando uma forma colectiva. Por sucessivas reascensões aos teoristas vai gradualmente tomando uma forma mais nítida como teoria ao serviço das causas económicas, e, redescendo, vai tornando cada vez mais precisa, conforme possível, a noção das coisas que a maioria tenha. Chega-se a um ponto em que há uma conformidade quase perfeita, tão perfeita quanto é possível, entre a teoria dos teoristas aceites e o sentimento das massas: é o momento da acção social. A sociedade atingiu, então, aquilo a que rigorosamente se pode chamar um estado religioso, porque formulou uma teoria que tem todos os característicos de uma religião, desde a base intelectual até ao sentimento fundamental. Com que fenómeno social se parece esse estado? Com o fenómeno religioso. Com efeito, não há, no fundo, na vida das sociedades, outra coisa que não fenómenos religiosos. A Revolução Francesa foi um fenómeno religioso. Não se diga que há entre as nações de Rousseau e de um camponês uma diferença fundamental. A mesma diferença há entre a noção de Deus que tem um teólogo católico e a que tem um camponês tão católico como ele. O fenómeno religioso é isto. Na realidade, o espectáculo a que assistimos é a lenta agonia, talvez do cristianismo, por certo da religião católica. São vãs todas as pretensas “renascenças” da fé, tão vãs como os movimentos de aparente vitória do paganismo, desde que o cristianismo entrara a dominar o império romano. Ora, viremos o problema. Se tudo é essencialmente religião e fenómenos religiosos, se a mudança social é essencialmente apenas mudança de ideias religiosas, então, determinando nós o que é, essencialmente, a religião teremos determinado qual o fundo mutável das sociedades. Ora uma religião é essencialmente (1) uma metafísica, (2) uma moral, (3) uma série de ritos (?) Nada admira que Racine ou Corneille seja mais disciplinado do que Victor Hugo. Aquelas almas estreitas e secas o que é que têm que disciplinar? Muito pouco. Parcos de ideação metafísica, pobres de emoção lírica, que grandeza há em que tenham aquele frio equilíbrio que acompanha, salvo no caso de loucos, a ausência de emoções e de ideias que o perturbem? Que há para admirar em que um indivíduo, que não tem tendências alcoólicas, domine a tendência para o álcool? Que há de honroso ou de forte num indivíduo de temperamento frio e calmo em dominar aqueles impulsos de cólera ou de sensualidade que não existam nele? Se quisermos ver se a época pré-romântica foi forte, foi disciplinada, vamos ver como foram, em matéria de disciplina, aqueles que realmente tiveram emoções fortes, aqueles que na verdade foram ricos de ideias. Temos um Aggripa d'Aubigny; será este mais disciplinado do que Hugo? Temos um Pascal: será este desordenado e grande espírito mais disciplinado do que qualquer filósofo romântico? Temos, em plena época de influência clássica, em Inglaterra, um Shakespeare; pondo de parte a grandeza, Shakespeare será mais conexo, mais disciplinado do que Hugo? E Rabelais, e Montaigne, que nasceram ainda bem longe da corrupção romântica? Se diferença há, é toda a favor dos românticos. Salvo em dois casos — o de Dante e o de Milton...... O argumento contra o romantismo porque seja indisciplinado cai, pois, pela base. As criaturas ricas de ideias e de emoções são sempre temperamentalmente indisciplinadas. O romantismo mostra uma riqueza de vida muito maior do que a dos magros e pobres clássicos. Que admira que seja maior a indisciplina entre os românticos? À medida que o romantismo avança, caminhar-se-á para a disciplina. Os próprios escritores da Action Française, com o seu ímpeto anti-romântico, fazem, neste sentido, embora eles próprios românticos, uma obra útil. Disciplina deveras, houve-a só na Grécia antiga, e, em grau menor, em Roma; entende-se disciplina com emoções ricas, que valesse a pena disciplinar. E que, livres ainda do peso bárbaro do cristianismo, esses puros espíritos pagãos tinham ainda a noção da ordem e do equilíbrio, que Cristo veio tirar. E tinham a riqueza da sua imaginação, a liberdade das suas ideias. A sua religião era, em grande parte, só exterior. 1915 Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 9. De todos os povos de Europa somos aquele em que é menor o ódio a outras raças ou a outras nações. É sabido de todos, e de muitos censurado, o pouco que nos afastamos das raças de cor diferente, quando [...]. O nosso antigo impulso imperial — embora o viciasse, como a todos os impulsos de domínio material, o egoísmo humano — pretendia, antes de mais nada, a descoberta de novas terras, e depois a conversão ao cristianismo das populações delas. É injusto supor-se que a ideia de conquista tivesse de princípio grande parte na nossa vida imperial. Nunca tivemos uma ânsia verdadeira de conquista. Nossa posição geográfica, de uma parte, nossa pequenez, de outra, no-lo inibiam. Fruto destas condições mésicas, somos assim. O que de ódio nasceu em nós contra castelhanos, contra franceses, contra ingleses (contra alemães nunca verdadeiramente chegámos a ter ódio, tão pouco somos dados a isso), derivou de justas causas, de agressões, de perigos e de explorações de que temos sido vítimas. ( Verify ) Os índios da Índia inglesa dizem que são índios, os da Índia portuguesa que são portugueses. Nisto, que não provém de qualquer cálculo nosso, está a chave do nosso possível domínio futuro. Porque a essência do grande imperialismo é o converter os outros em nossa substância, o converter os outros em nós mesmos. Assim nos aumentamos, ao passo que o imperialismo de conquista só aumenta os nossos terrenos, e o de expansão o número de os imperialismos da Besta da cabala e de Apocalipse. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 87. I. a) Má orientação da ciência contemporânea b) Especialmente má em sociologia c) Ex. a ideia de civilização ainda [...] d) Ainda assim, dá-lhe intuitivamente certo sentido II. a) Definição de civilização b) Os três grupos constitutivos de povos c) Conclusão III. Desprezando os estados civilizacionais pré‑helénicos, analisaremos a evolução da civilização, perseguindo-a na sua sombra — a evolução do conceito de vida. Essa evolução confirmará o nosso conceito unificado de civ. grega e romana e de civ. cristã. Não que não sejam 2 civilizações, mas são mais ligadas que a [...] anteriormente [...] são. sub‑civ. grega sub‑civ. romana sub civ. (...) IV. civ. greco‑romana V. período de barbárie (?) sub‑civ. da Renascença sub‑civ. de ( . . .) (séc. XVIII) VI. sub‑civ. Romântica VII. sub‑civ. moderna (Nova Renascença) s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - . A teoria dos períodos nacionais 1,2,3 — Grécia, Inglaterra 3,1,2 — Roma, Alemanha (Prússia) 1,2,3 — Grécia, Inglaterra 2,1,3 — França 1,3,2 — Espanha 3,1,2 — Roma, Alemanha 1. Nacionalismo sintético, ruptura com o passado 2. Nacionalismo analítico, crítico com respeito ao passado, mas apenas crítico 3. Nacionalismo tradicionalista s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - . Eu amo tudo o que foi, Tudo o que já não é, A dor que já me não dói, A antiga e errónea fé, O ontem que dor deixou, O que deixou alegria Só porque foi, e voou E hoje é já outro dia. 1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 31. A manhã de nevoeiro. Por manhã entende-se o princípio de qualquer coisa nova — época, fase, ou coisa semelhante. Por nevoeiro entende-se que o Desejado virá “encoberto”; que, chegando, ou chegado, se não perceberá que chegou. A primeira vinda, 1640, mostra isto bem: a data marca o princípio de uma dinastia, e a vinda de D. Sebastião foi “encoberta”, foi através de nevoeiro, pois julgando todos — em virtude de sua simbologia primitiva — que o Encoberto era D. João IV, em verdade o Encoberto era o facto abstracto da Independência, como aqui se viu. Na Segunda Vinda, em 1888, por pouco que possamos compreender, compreendemos contudo que a profecia tradicional se cumpre: sabemos que 1888 é “manhã”, porque é o princípio do Reino do Sol — por onde se notará que melhor não pode haver para que se simbolize por “manhã”—, e, estando nós já a 37 anos dessa data, sem que ainda possamos compreender o que nela se deu, não pode haver dúvida do carácter encoberto, nevoento, da Vinda Segunda de D. Sebastiã o. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 56. Sociologia França — período máximo      213 Temos cultura [-] Enciclopedistas, Voltaire, Rousseau acção [-] Revolução, Napoleão cultura [-] Romantismo, etc Na Alemanha, in máximo, também, temos: acção [-] Frederico cultura [-] Goethe, Kant acção [-] Bismarck      312 ou 213 Na Inglaterra, ibid., temos: acção [-] Henrique VIII, Imperialismo no s. XVIII cultura [ - ] Shakespeare, Romant. acção [-] Cromwell, Imp.º no s. XIX      123 Em Portugal, in mínimo, temos: cultura [-] D. Diniz acção [-] Descobertas cultura [-] Camões, etc      312 Em Espanha, sed in maximo, o mesmo do que Portugal      123 — Haverá só acção e cultura nos termos do problema? Ou         haverá um terceiro elemento? Suponha‑se que são 3 — A B C Teríamos vários tipos nacionais: A B C A C B B A C B C A C A B C B A — Será Acção, Cultura, acção+ cultura? Nesse caso haveria as nações que (1) começam pela cultura para chegar à acção e daí passar à (...) (2) começam pela acç.+ cult. e depois se dissociassem [?] — Será Acção, Cultura, Expansão?      Influência Teríamos: França (1 ): I. A. C. Alemanha (2): A. C. I. Inglaterra (1) : A. C. I. (?) Não pode ser, assim torna-se impossível o período (...) Ingl. — acção — cultura — acção + cultura      ACB França — cultura — acção — acção + cultura      CAB Portugal — cultura — acção — acção + cultura      CAB? Alemanha — (...) s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - . Onde, em jardins exaustos Nada já tenha fim, Forma teus fúteis faustos De tédio e de cetim. Meus sonhos são exaustos, Dorme comigo e em mim. s.d. Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 183. Há um murmúrio na floresta, Há uma nuvem e não já. Há uma nuvem e nada resta Do murmúrio que ainda está No ar a parecer que há. É que a saudade faz viver, E faz ouvir, e ainda ver, Tudo o que foi e acabará Antes que tenha de o esquecer Como a floresta esquece já. 8-3-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 32. O vento tem variedade Nas formas de parecer. Se vens dizer-me a verdade, Porque é que ma vens dizer? Verdades, quem é que as quer? Se a vida é o que é, Então está bem o que está. Para que ir pé ante pé Até ontem e até já E até onde nada há? Enrola o cordão à roda Do teu dedo sem razão. Tudo é uma espécie de moda E acaba na ocasião. Quem te deu esse cordão? 8-3-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 33. Já ouvi doze vezes dar a hora No relógio que diz que é meio-dia A toda a gente que aqui perto mora. (O comentário é do Camões agora:) «Tanto que espera! Tanto que confia!» Como o nosso Camões, qualquer podia Ter dito aquilo, até outrora. E ainda é uma grande coisa a ironia. 8-3-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 34. Paisagens, quero-as comigo. Paisagens, quadros que são... Ondular louro do trigo, Faróis de sóis que sigo, Céu mau, juncos, solidão... Umas pela mão de Deus, Outras pelas mãos das fadas, Outras por acasos meus, Outras por lembranças dadas... Paisagens... Recordações, Porque até o que se vê Com primeiras impressões Algures foi o que é, No ciclo das sensações. Paisagens... Enfim, o teor Da que está aqui é a rua Onde ao sol bom do torpor Que na alma se me insinua Não vejo nada melhor. 8-3-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 35. O mau aroma alacre Da maresia Sobe no esplendor acre Do dia. Falsa, a ribeira é lodo Ainda a aguar. Olho, e o que sou está todo A não olhar. E um mal de mim a deixa. Tenho lodo em mim — Ribeira que se queixa De o rio ser assim. 27-3-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 37. Charles Dickens Mr. Pickwick belongs to the sacred figures of the world’s history. Do not, please, claim that he has never existed: the same thing happens to most of the world’s sacred figures, and they have been living presences to a vast number of consoled wretches. So, if a mystic can claim a personal acquaintance and clear vision of the Christ, a human man can claim personal acquaintance and a clear vision of Mr. Pickwick. Pickwick, Sam Weller, Dick Swiveller — they have been personal acquaintances of our happier hours, irremediably lost through some trick of losing that time and space have nothing to do with. They have lapsed from us in a diviner way than dying, and we keep their memory with us in a better manner than remembering. The human trammels of space and time do not bind them to us, they owe no allegiance to the logic of ages, nor to the laws of living, nor to the appearances of chance. The garden in us, where they live secluded, gathers in flowers of all the things that make mankind copious and pleasant to live with: the hour after dinner when we are all brothers, the winter morning when we all walk out together, the feast-days when the riotous things of our imperfection — biologic truths, political realities, being sincere, striving to know, art for art’s sake — lie on the inexistent other side of the snow-covered hills. To read Dickens is to obtain a mystic vision — but, though he claims so often to be Christian, it has nothing to do with the Christian vision of the world. It is a recasting of the old pagan noise, the old Bacchic joy at the world being ours, though transiently, at the coexistence and fullness of men, at the meeting a good [?] part of perennial mankind. It is a human works, and so women are of no importance in it, as the old Pagan criterion has it, and has it truly. The women of Dickens are cardboard and sawdust to pack his men to us on the voyage from the space of dream. The joy and zest of life does not include woman and the old Greeks, who created pederasty as an institution of social joy, knew this to the final end. Dickens’ women are dolls, but all women are dolls. As some thinkers upheld it at Nicea (?), women have no souls. Their existence is bi-dimensional to the tri-dimensional psychism of men. Women are merely ornaments to man’s life — of his life as an animal, as enabling him to satisfy an instinct, of his life as a social being, as enabling him to continue the society he lives in and, working for, creates anew, of his life as an intellectual being as a decorative part of the outer world, with landscapes, china, pictures, old furniture... [...] s.d. Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 326. Vão breves passando Os dias que tenho. Depois de passarem Já não os apanho. De aqui a tão pouco Ainda acabou. Vou ser um cadáver Por quem se rezou. E entre hoje e esse dia Farei o que fiz: Ser qual quero eu ser, Feliz ou infeliz. 28-3-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 38. Tennyson “In Memoriam” should be taken as the example of Tennyson’s human depth, “Tithonus” and “Oenone” of his half-sensuous perfection, and the “Idylls of the King” of his general poetic decadence. The verse of this latter work is in many places abominable; Tennyson’s fine music of paragraph is often lost, and at times even his melody of line. Tennyson must not be judged by the “Idylls of the King”, or must then be judged unjustly. 1908? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 330. Fito-me frente a frente E conheço quem sou. Estou louco, é evidente, Mas que louco é que estou? É por ser mais poeta Que gente que sou louco? Ou é por ter completa A noção de ser pouco? Não sei, mas sinto morto O ser vivo que tenho. Nasci como um aborto, Salvo a hora e o tamanho. 30-3-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 39. Keats I cannot think badly of the man who wrote the “Ode to a Nightingale”, nor of him who, in that “to the Grecian Urn”, expresses so human an idea as the heart-rending untimeness of beauty. We all have felt that tearful sensation. Mothers, how many of ye, in looking at your bright children and at their heavenly fairness, have not wished such small, lovely forms could be preserved for ever and unchanged. Lover, when looking upon the form of thy mistress hast thou not felt thy heart oppressed because such beauty should one day be no more, nay, should grow old and, may hap, unbeautiful. Have we not all wished the immortality of someone that we know, have we all not felt that same pain at feeling that none are immortal. The statue of roman Venus hath looked, century after century, upon us in its nude beauty, hath charmed generations by its form and liveth now to charm others. But where art thou whom she looked upon? Some faces, fair, perhaps, as her face; some forms, beauteous, perhaps, as her form, where are they now, animated as they were by the fire that she has not? Apollo Belvedere still stands, but what of the millions of fair youths and maidens that have looked upon him? Their fairness went dwindled to old age, rotted in horrible death, and the uninspired image stands beautiful for ever and ever before us. If we had but each of us an Aurora who would not be content to be a Tithonus, though thin-rocked, [...] and feeble. 1908? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 331. Em plena vida e violência De desejo e ambição, De repente uma sonolência Cai sobre a minha ausência, Desce ao meu próprio coração. Será que a mente, já desperta Da noção falsa de viver, Vê que, pela janela aberta, Há uma paisagem toda incerta E um sonho todo a apetecer? s.d. Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 40. Friedrich Nietzsche O próprio Nietzsche asseverou que uma filosofia não é senão a expressão de um temperamento. Não é assim, suficientemente. As teorias de um filósofo são a resultante do seu temperamento e da sua época. São o efeito intelectual da sua época sobre o seu temperamento. Outra coisa não podia suceder (ser). Assim, pois, a filosofia de Friedrich Nietzsche é a resultante do seu temperamento e da sua época. O seu temperamento era o de um asceta e de [um] louco. A sua época no seu país era de materialidade e de força. Resultou fatalmente uma teoria onde um ascetismo louco se casa com uma (involuntária que fosse) admiração pela força e pelo domínio. Resulta uma teoria onde se insiste na necessidade de um ascetismo e na definição desse ascetismo como um ascetismo de força e de domínio. Donde a assumpção da atitude cristã da necessidade de dominar os seus instintos, tornada aqui — mercê da contribuição fornecida pela loucura do autor — a necessidade de dominar toda a espécie de instintos, incluindo os bons, torturando a própria alma, o próprio temperamento (noção delirante). 1915? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 333. SÁ CARNEIRO Nesse número do Orpheu que há-de ser feito Com rosas e estrelas em um mundo novo. Nunca supus que isto que chamam morte Tivesse qualquer espécie de sentido... Cada um de nós, aqui aparecido, Onde manda a lei e a falsa sorte, Tem só uma demora de passagem Entre um comboio e outro, entroncamento Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento; Mas, seja como for, segue a viagem. Passei, embora num comboio expresso Seguisses, e adiante do em que vou; No términus de tudo, ao fim lá estou Nessa ida que afinal é um regresso. Porque na enorme gare onde Deus manda Grandes acolhimentos se darão Para cada prolixo coração Que com seu próprio ser vive em demanda. Hoje, falho de ti, sou dois a sós. Há almas pares, as que conheceram Onde os seres são almas. Como éramos só um, falando! Nós Éramos como um diálogo numa alma. Não sei se dormes [...] calma, Sei que, falho de ti, estou um a sós. É como se esperasse eternamente A tua vida certa e conhecida Aí em baixo, no café Arcada — Quase no extremo deste [...] Aí onde escreveste aqueles versos Do trapézio, doriu-nos [...] Aquilo tudo que dizes no «Orpheu». Ah, meu maior amigo, nunca mais Na paisagem sepulta desta vida Encontrarei uma alma tão querida Às coisas que em meu ser são as reais. [...] Não mais, não mais, e desde que saíste Desta prisão fechada que é o mundo, Meu coração é inerte e infecundo E o que sou é um sonho que está triste. Porque há em nós, por mais que consigamos Ser nós mesmos a sós sem nostalgia, Um desejo de termos companhia — O amigo como esse que a falar amamos. 1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 184. Não sei ser triste a valer Nem ser alegre deveras. Acreditem: não sei ser. Serão as almas sinceras Assim também, sem saber? Ah, ante a ficção da alma E a mentira da emoção, Com que prazer me dá calma Ver uma flor sem razão Florir sem ter coração! Mas enfim não há diferença. Se a flor flore sem querer, Sem querer a gente pensa. O que nela é florescer Em nós é ter consciência. Depois, a nós como a ela, Quando o Fado a faz passar, Surgem as patas dos deuses E a ambos nos vêm calcar. Está bem, enquanto não vêm Vamos florir ou pensar. 3-4-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 41. Victor Hugo The difficulty however becomes sensibly greater when we pass from the mere attempt to classify Victor Hugo as a poet to trying to understand him as a mind. He is a philosophical poet — thus much is clear from the choice he makes of his themes, from the poems he rises most in, from the whole habits and trend of his mind, which habitually treats philosophically the simplest themes. He meets a beggar and the beggar becomes the beggar for him: he generalises him, distinctly a philosopher’s act. He takes the smallest, most everyday objects for his theme and draws from them conclusions widely transcending their apparent scope — and this is philosophical work. But his mind is the reverse of philosophic. He thinks in images not in ideas — that is the first obstacle; and all philosophical thought, properly so called, is — it is hardly necessary to say so — the contrary of that. Every small thought is for him an image; every great thought a vision. He is perpetually at Patmos, too perpetually, if perpetuity admit the saying this. — But he is not only a visioner, he is, besides, confused in his thought, in his vision-thought. He merges accessory images into larger ones, confuses the vision itself by partial metaphors, which rise on the swell of line by line composition. But this is not all. He is, if not evidently, at least overapparently insincere in his philosophical theories: “ Ce que dit la bouche d’ombre” overwhelms, but does not leave an impression of having been thought through feeling, of having pervaded qua theory the whole being of the poet. It gives us an impression analogous to that of Pope’s philosophy in the “Essay on Man”: that of having been poetically conceived, not spiritually felt. To refer to opposites, the contrary impression is given by Wordsworth in the great “Ode” or in the “Tintern Abbey” lines: here it seems that a sincere faith does make itself visible in poetry. It was on an intuition of this that Renan called Victor Hugo cymbale. This, however, is the product of the non-subjective character of his poetry. It seems to issue from outside the soul, somewhere from the circumference of the mind. What Lowell said of Poe can be applied to Victor Hugo, though in another sense: in Victor Hugo indeed the heart seems to be crushed out by the mind; not, however, as in Poe, by the evident prevalence of the intellect (...), but by some approximate and distant psychic fact — the almost-evident crushing out by the theme of the conviction of the theme. In Victor Hugo the intellect is not great. But his sensibility is not great, either. The perusal of his poetry leaves in us the impression of a powerful and unfeeling mind. There is something exterior, gestural, in all he writes; the bitter rest hatred seems calculated as his intensest philosophy seems circum-thought rather than thought. His private life helps in this: no act of his stamps him as possessed of anything resembling sensitiveness. On the contrary, his fundamental coarseness (...) pierces through every cover he or others ever tried to put upon him. Goethe wrote lyrical poems with greater show of feeling than Hugo [...] This is of course dramatic power, in part. He may not feel really the state of mind he describes, but he ever thinks himself with feeling it). 1912? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 334. Victor Hugo - A poesia de V. Hugo é apenas a glorificação de lugares comuns. Victor Hugo tem o grande defeito dos temperamentos retóricos: as ideias são nele momentâneas, são inspirações realmente e não propriamente ideias, tanto que, a maior parte das vezes, se apresentam aos sentidos do poeta, interiormente, não ao pensamento. Por momentaneidade das ideias quero dizer que Victor Hugo, quando tem uma ideia brilhante e lúcida, não sabe tirar dela as conclusões lógicas, não sabe fazê-la o ponto de partida de uma associação lógica de ideias, de um raciocínio qualquer. Como essa ideia se lhe apresenta sob a forma de uma imagem, associa [-a] a outras imagens, não casualmente a ideias, associa-a pelo que ela tem de imagem, não pelo que ela tem de ideia. É o mal de todos os inspirados, de todos os “videntes”. São “parciais” mentalmente; não pensam, têm ideias. Assim Victor Hugo contradiz-se, justapõe ideias às vezes nitidamente insusceptíveis de justaposição lógica, outras vezes pontos de partida para raciocínios que inevitavelmente levam a conclusões antitéticas. Análise, não tem nenhuma; não analisa, compreende. Quem compreende não se compreende a si. Quem compreende pura e simplesmente compreende aos bocados. Victor Hugo pode ter a intuição de um todo, ou de uma parte; nunca a de partes de um todo, nem da relação de um todo com as suas partes. O modo mental de Victor Hugo de acordo que é o vulgar, levado a um alto ponto; é por ser o vulgar que não pode ser o supremo. Tem-se observado que Victor Hugo é um primitivo no psiquismo; que não pensa senão por imagens. Não é só isso, Pensa epigramaticamente. O seu pensamento é do género cujo mais vulgar representante é o epigrama trivial. (...) O pensamento chamado epigramático distingue-se por associar ideias de dois modos apenas: por semelhança e contraste. Ora isto indica um modo de pensar especial: por imagens. Victor Hugo pensa por imagens. Ora aquele em cujo espírito tudo se apresenta como imagem só de dois modos pode associar ideias: pela sua semelhança ou dissemelhança Com efeito uma imagem qualquer só, dentro da sua ordem mental, duas coisas pode evocar: imagens parecidas ou desaparecidas. 1912? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 338. 6-3-1913 Meu caro amigo: Chegaram as provas e é urgente devolvê-las, corrigidas. Veja se pode estar amanhã (7) na «Brasileira» do Chiado ao meio-dia em ponto. Não podendo, poderá aparecer à uma e meia no mesmo local? Pontualmente, entende-se. Cito duas horas para haver menos risco de coincidência com horas suas. Não se esqueça de trazer o original. - Se não aparecer, terei de corrigir as provas eu, porque têm que seguir amanhã. Disponha sempre do seu muito dedicado >               Fernando Pessoa 6-3-1913 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 33. Victor Hugo Mas essas constantes frases colossais de Victor Hugo? Essas frases realmente suprem o lirismo essencial, são o lirismo de superfície. O verdadeiro lírico dispensa grandes frases, belezas de metáforas, imagens sublimes; o mistério da sua arte está nisso mesmo. Canta com a alma e da alma, não com a inteligência, imaginativa ou não. É evidente que se, além do seu lirismo essencial, o grande lírico tiver a beleza de superfície também, será tanto maior. Só que essa beleza, por natureza de superfície, essas frases, essas metáforas, essas imagens, serão pelo grande lírico transmutadas para lirismo puro. O lirismo far-lhes-á perder o seu carácter superficial. São desta ordem as frases célebres, as imagens célebres de Shakespeare, essa segunda Natureza, mais espiritual do que a primeira. Quem lê Victor Hugo, pensa que o homem que escreveu aqueles poemas pode ter sido um sincero, mas também pode não o ter sido. A sinceridade não é evidente. Eis o que não acontece com o verdadeiro lírico. Do patriotismo de Victor Hugo, ou da sua grande intensidade, um crítico pode, sem ser por isso coisa que se pareça com estúpido, duvidar; Mas ninguém pode duvidar do patriotismo de Camões. Veja-se, como é lírica através dos obstáculos da expressão mitológica e da grandiloquência este dístico final de uma estância de Camões: “Hipocrene”. E que a grandiloquência lírica é diferente da grandiloquência retórica. Os retóricos têm a grande vantagem de serem facilmente compreendidos por grandes e de não perderem muito com a tradução, porque as frases epigramáticas e retóricas passam com facilidade de língua para língua. O lírico não. É quase impossível traduzir poesia lírica; precisa um tradutor lírico também, mas perde sempre. A pior poesia é esta. Que fica dos sonetos de Shakespeare em uma tradução? O que fica das suas canções espalhadas pelos dramas? Quem poderá reproduzir por tradução uma poesia lírica de Shelley? Como traduzir bem um soneto de Antero, sem desaparecer, pelo menos, aquela música suave, triste e penetrante, íntima de lirismo, que é parte psicologicamente componente da grandeza lírica de Antero? E, para último e flagrantíssimo exemplo, tomemos o célebre soneto de Camões “Alma minha gentil”. Traduzido, nenhum estrangeiro compreende onde esteja a beleza daquela linguagem sem imagens, metáforas nem frases, directa e simples, quando é justamente aí que a beleza toda está, una com o movimento lírico contínuo e íntimo do ritmo inquebrado e dolorido. Um grande poeta retórico ou epigramático pode ser lido em tradução, sendo ela boa; quem não sabe a língua, escusa, havendo essa boa tradução, de por tão pouco a estudar. Mas quem quiser ler um poeta lírico não pode aceitar tradução alguma, por fiel que seja mesmo à alma do poeta. Tem de aprender a língua em que a poesia foi escrita. A tradução de um poeta lírico só serve para dar uma ideia do que ele escreveu e sobre o que escreveu; o leitor dela deve porém estar sempre premunido com uma certeza: a de que essa tradução por boa que seja é ao mesmo tempo incompleta e falsa. A atitude dos maiores críticos com respeito a Victor Hugo é facilmente explicável. Sentem instintivamente que ali não está o lirismo supremo, mas sentem inquietamente que o poder imaginativo é enorme. Deficientes em análise voam e revoam em torno ao enigma sem o compreenderem bem. Confesse-se: realmente causa certa inveja ver a extraordinária exuberância imaginativa de um poeta que, ainda assim, não é um imaginativo supremo; causa certa inveja a facilidade dentro da inconsciência com que tudo aquilo é tumultuosamente dito. Ou desejamos que o que ele diz seja mais estúpido, ou então que ele tenha mais consciência e compreensão das sublimidades que diz, ou, melhor que se acham expressas no espírito dele. O caso é porém que, se fosse sem valor o que ele escreveu, o problema cessava; e se ele tivesse consciência absoluta da grandeza do que diz, isto é, se analisasse os seus pensamentos, não seria capaz de os ter daquele modo, expressos daquela maneira e com aquela exuberância. A grandeza e a pequenez do homem são as duas faces da sua natureza. É ocioso tentar conceber no reverso de uma moeda de tostão o reverso de um vintém ou de uma libra. Que não é um lírico supremo? Decerto que o não é. Mas, perguntar-se-á, não será isto um erro, devido à forma das suas poesias, aos alexandrinos, às parelhas, à própria língua francesa, imaleável, suavemente dura, musicalmente rígida? Não; a poesia lírica gera a sua própria forma; a forma da poesia corresponde sempre ao pensamento. Se a forma não é lírica, não o pode ser a ideia. E uma língua não servir para o lirismo indica apenas que o povo que a fala não serve para o lirismo; e, se o povo é de natureza não-lírico, como pode ser lírico um membro desse povo ? Nada mais simples e fácil de compreender. A poesia lírica pura e suprema conhece-se por se manifestar através de um quase nada de pensamento e de emoção. Assim nos seguintes trechos eminentemente líricos o que é que há de intelectual ou de nitidamente e coerentemente emotivo: cravo roxo verde pino Claro está que quanto maior for a ideia, mantendo-se igual o lirismo, tanto maior será a poesia lírica. Outro característico da poesia lírica essencial — é realmente outro aspecto do mesmo característico — é o facto de que quanto menos poética em si a forma, mais a poesia lírica essencial a transmuta para uma forma suprema. Assim as três línguas europeias onde maior poesia lírica pura e essencial existe são a inglesa, a alemã e a portuguesa, que são, qualquer delas, inferior em música às línguas francesa, espanhola e italiana. E dos ingleses o maior lirista é o escocês, justamente quem mais áspera e impoeticamente fala a língua comum da Grã-Bretanha, e o menor lirista o irlandês, cuja língua e cuja forma de falar a língua inglesa é a menos áspera de todas. Não é aqui o lugar para estudar o lirismo especial de cada nação europeia. O mesmo que se dá com a língua dá-se com a forma escolhida. Em inglês a forma lírica suprema é o verso solto que é, por si, a forma mais prosaica do verso. Em alemão o mesmo acontece. Em português parece não acontecer porque escrevemos pouco verso solto e não lhe conhecemos (degenerados que estamos, em regeneração ainda assim, do nosso lirismo racial) o grande valor lírico. Ainda assim basta ler o esplêndido verso solto do Sr. Lopes Vieira na parte de “O Encoberto” para ver onde pode ser levada a música do verso solto português. Em língua alguma, a não ser em inglês, se pode obter estes efeitos extraordinários do verso solto: ( “Encoberto”, p. 40, dois primeiros versos, ou A janela tristíssima que deita Para as bandas do sonho e dos amores.) O leitor vê facilmente como a música subtil e íntima destes dois trechos lhes é o corpo de que o seu lirismo supremo (...) é a alma. A tendência imediata e natural em quem lê estes trechos de os ler quase que cantando-os indica quão líricos são. Toda a verdadeira, a grande poesia lírica produz esse efeito. Não é um erro, é uma inevitabilidade, o ler trechos como estes “with a prose mouth”, cantando-os. Sem entonação de música só o verso retórico se pode ler. 1912? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 340. Há três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal; ou, se se preferir, há três espécies de português. Um começou com a nacionalidade: é o português típico, que forma o fundo da nação e o da sua expansão numérica, trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo. Este português encontra-se, desde 1578, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe também. Outro é o português que o não é. Começou com a invasão mental estrangeira, que data, com verdade possível, do tempo do Marquês de Pombal. Esta invasão agravou-se com o Constitucionalismo, e tornou-se completa com a República. Este português (que é o que forma grande parte das classes médias superiores, certa parte do povo, e quase toda a gente das classes dirigentes) é o que governa o país. Está completamente divorciado do país que governa. É, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, é estúpido. Há um terceiro português, que começou a existir quando Portugal, por alturas de El-Rei D. Dinis, começou, de Nação, a esboçar-se Império. Esse português fez as Descobertas, criou a civilização transoceânica moderna, e depois foi-se embora. Foi-se embora em Alcácer Quibir, mas deixou alguns parentes, que têm estado sempre, e continuam estando, à espera dele. Como o último verdadeiro Rei de Portugal foi aquele D. Sebastião que caiu em Alcácer Quibir, e presumivelmente ali morreu, é no símbolo do regresso de El-Rei D. Sebastião que os portugueses da saudade imperial projectam a sua fé de que a famí1ia se não extinguisse. Estes três tipos do português têm uma mentalidade comum, pois são todos portugueses mas o uso que fazem dessa mentalidade diferencia-os entre si. O português, no seu fundo psíquico, define-se, com razoável aproximação, por três característicos: (1) o predomínio da imaginação sobre a inteligência; (2) o predomínio da emoção sobre a paixão; (3) a adaptabilidade instintiva. Pelo primeiro característico distingue-se, por contraste, do ego antigo, com quem se parece muito na rapidez da adaptação e na consequente inconstância e mobilidade. Pelo segundo característico distingue-se, por contraste, do espanhol médio, com quem se parece na intensidade e tipo do sentimento. Pelo terceiro distingue-se do alemão médio; parece-se com ele na adaptabilidade, mas a do alemão é racional e firme, a do português instintiva e instável. A cada um destes tipos de português corresponde um tipo de literatura. O português do primeiro tipo é exactamente isto, pois é ele o português normal e típico. O português do tipo oficial é a mesma coisa com água; a imaginação continuará a predominar sobre a inteligência, mas não existe; a emoção continua a predominar sobre a paixão, mas não tem força para predominar sobre coisa nenhuma; a adaptabilidade mantém-se, mas é puramente superficial — de assimilador, o português, neste caso, torna-se simplesmente mimético. O português do tipo imperial absorve a inteligência com a imaginação — a imaginação é tão forte que, por assim dizer, integra a inteligência em si, formando uma espécie de nova qualidade mental. Daí os Descobrimentos, que são um emprego intelectual, até prático, da imaginação. Daí a falta de grande literatura nesse tempo (pois Camões, conquanto grande, não está, nas letras, à altura em que estão nos feitos o Infante D. Henrique e o imperador Afonso de Albuquerque, criadores respectivamente do mundo moderno e do imperialismo moderno) (?). E esta nova espécie de mentalidade influi nas outras duas qualidades mentais do português: por influência dela a adaptabilidade torna-se activa, em vez de passiva, e o que era habilidade para fazer tudo torna-se habilidade para ser tudo. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 6. 28-6-1914 Irmão em Além! Eu vos saúdo e vos peço que amanhã, entre o soar duplo das duas e o soar simples das duas e mais metade de uma hora, surjais com a vossa presença carnal — sem prolongamento gesticulante de bengala agressiva - à vil cova ou jazigo de utilidades e propósitos artísticos que dá pelo nome humano de «Brasileira do Rossio». Da vossa tese vos falarei, insciente ainda se então pronta, mas pronta de certo, se não a essa, ora marcada, hora, ao cair lento e morno do crepúsculo de amanhã. Não vos aflijais! Os deuses têm tempo para tudo. E no dia 30 entregareis a vossa tese, se antes o Destino a não dactilografar de pronta. Guarde-vos Deus; e que a Futura Divindade Tutelar das Estranhezas Irritantes vos assente à sua mão direita. Fernando Pessoa 28-6-1914 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 33. Anatole France Não, não era um diletante. Prouvera aos deuses que o fora! Anatole France era apenas um diletante amador. Tinha do diletante (excepto no que diz respeito à doença cancerosa, o comunismo, de que sofria) o cepticismo, que nasce de se saber que todas as doutrinas são igualmente defensáveis, valendo cada uma, não o que vale, senão o que vale o defensor; a curiosidade, que sabe que em tudo há tudo; e ,aquela flor suprema da cultura a que se chama o humanismo, assim definido, uma vez para sempre, por Pater. (...) O diletantismo verdadeiro vai, porém, adiante da simples curiosidade pela superfície de tudo: desce à essência das coisas, e é passageiramente intenso e sincero com cada uma delas. O grande diletante vive profundamente, com o pensamento e com a emoção, todos os aspectos que pode da realidade ilusória. Dilettanti foram Goethe e Shakespeare, nem há diletante maior que este, que viveu os tipos mais diferentes de humanidade com igual esplendor de imaginação e de inteligência. Anatole France, porém, não tinha grandes qualidades nem de pensamento, nem de sentimento, nem de imaginação. Para ser superficial faltava-lhe fundo; para ser passageiro, faltava-lhe demorar-se, para pensar tudo, faltava-lhe pensar, para sentir tudo, sentir, para imaginar tudo, imaginar. Foi uma espécie de fêmea do diletantismo. Tinha um estilo admirável, posto que sem originalidade; é o estilo médio do estilo superior francês. Desde Pascal está assim. Tinha um admirável senso estético, o que frequentemente acontece às mulheres — nas coisas em que não é muito importante ter um senso estético. Não: o grande nome de diletante não pode ser dado a Anatole sem um adjectivo restritivo. Para este baixo mundo moderno, inapto para a especulação metafísica — sendo por isso que faz metafísica só em sociologia — , pobre e estreito de sentimentos — sendo por isso que repugna o romantismo — e parabúlico nas suas decisões, Anatole France é a figura exactamente representativa, e de aí a sua popularidade. É o melhor que há na ausência de bom. Encheu as medidas da modernidade culta. Essas medidas são centilitros. Alguma coisa porém contribuiu para a criação do estado estético da inteligência, que é o máximo a que ela pode atingir — para nos curar do vício da convicção, da mania da sinceridade, da estupidez de tomar a sério um mundo que os deuses, que o dirigem, não tomam a sério nunca. 1914 Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 345. Quando não tivesse o valor que lhe é próprio e directo, como feito científico e tentativa heróica, o voo oblíquo transatlântico dos dois aeronautas portugueses teria, ainda, a vantagem de nos ministrar, não só em si, como nas suas consequências no país três ensinamentos diversos. O primeiro, que é aquele que se deriva do próprio acto, é mais simbólico que evidente. É como que um sinal celeste, porque aéreo, do ressurgimento do país. Neste facto, que, se civilizacionalmente vale pouco, nem pode ser comparado com a grandeza imperial e fatídica das descobertas, cientificamente vale muito e humanamente bastante, regressa subitamente à superfície da vida aquele tipo de feição espiritual que caracterizou e definiu os homens que estabeleceram pelos descobrimentos o nosso império transitório. Sir Peter Wyche, falando no século XVII dos portugueses, disse que eram «tão notáveis pelo estudo do empreendimento, como pela bravura de empreendê-lo». (Digo melhor que ele, porque o assunto pede mais literatura que ele podia dar-lhe. Mas a substância da sua frase não desaparece da minha interpretação.) O certo é que o português apareceu na civilização como homem harmónico, mente segura e planeadora, braço apto a realizar o que ele próprio planeou. Reunia a audácia e a ciência que torna a audácia mais alguma coisa que um impulso animal de quem não vê. Diferia nisso do francês, alheio por natureza a esta harmonia, capaz só de planear sem grandeza, ou de ser grande sem plano, sendo por isso que o Destino, quando quis dar à França um chefe a um tempo grande e lúcido, teve que ir buscar-lho à Itália. Diferia nisso do italiano, científico, astuto, frio, sem entusiasmo nem afeição pelo entusiasmo, porque o tipo moderno do italiano, de Garibaldi a Fiume, é uma ficção e um arremedo, imitado do francês e sem graça nem personalidade. Diferia também do inglês, prático mas não científico, audaz ou grosseiramente ou elegantemente, porém nunca pensadamente, pelo menos no fim se não no acto, da audácia. Só o alemão de Bismarck conseguiu introduzir de novo na civilização europeia, se bem que num nível inferior, porque a organização de um simples império não vale a organização de uma expansão imperial baseada [...] Depois este português desapareceu. Veio o português à “antiga portuguesa” que não é à antiga portuguesa — bom católico, toureiro, estúpido como uma porta de cofre-forte. Este em seu tempo passou também; vem o português do século XIX, intrujado (?) pela política desnacionalizante. A meio do século passado o antigo tipo português começou, por qualquer razão misteriosa, a reaparecer. Reapareceu na literatura, porque a acção não lhe era propícia. Reapareceu principalmente com três grandes nomes — Antero de Quental, Cesário Verde e Junqueiro. Em Antero, se bem que só no campo literário, o regresso do tipo português antigo é já nítido: a profundeza do pensamento alia-se à graça da forma, não por acréscimo, mas por fusão orgânica. Em Junqueiro, como em Pascoaes depois, baixa o nível, talvez não da poesia, por certo da realização, porque um não tem profundeza real de pensamento e o outro não tem segurança artística, senão ocasional. Este aparecimento é decerto um bom agouro; a larga intuição de Sampaio Bruno de certo modo o viu, na crítica à “Pátria”., inserta em O Brasil Mental . O aparecimento de filosofia (verdadeira filosofia) em Portugal, com Leonardo Coimbra e Raul Leal, é outro indício do regresso desse tipo português, aplicado agora em outro sentido. Tornaram a aparecer condições propícias para a manifestação do português antigo, se ainda algum existisse. Tem a ciência muitos ramos, mas em só dois deles se podem casar a novidade científica e a bravura pessoal. São eles a exploração polar e o estabelecimento científico da direcção aérea. O primeiro caso, porém, é mais de persistência e de tenacidade do que de ciência ou de propriamente arrojo. Estava o segundo pela primeira vez desde as descobertas marítimas, feitas contra a hipótese de mares negros e povoados de monstros, nas condições naturais de ter que aparecer um português a executá-lo. E dois portugueses apareceram. Este aparecer à chamada da hora europeia tem um sentido simbólico enorme. O facto, repito, não é civilizacionalmente grande; nada tem que se compare com os descobrimentos; este feito pode estabelecer a navegação aérea em bases firmes, aquele transformou a face do mundo, criou um novo tipo de império, abriu a amplitude da terra à possibilidade conjunta daquela civilização que até ali se não sonhara senão concentrada na Europa, ou pelo Mediterrâneo, ou até à Ásia Menor. O segundo ensinamento, que este voo notável nos ministra, aparece-nos nas suas consequências, não já em ele próprio. É o da incompetência dos elementos actualmente representativos de Portugal, primeiro, para homenagearem esse acto, segundo para sequer compreendê-lo, terceiro para poder compreendê-lo. Esta ausência de senso estético, de senso intelectual, por vezes mesmo de senso moral, deriva-se, como fenómeno colectivo da ausência de senso nacional. Com efeito, quem não tem da própria personalidade, com quem convive constantemente, uma noção aproximada e lúcida, que noção pode ter das outras coisas? Ora desde a entrada da dinastia de Bragança que se tomou notável a ausência do tipo português, o desaparecimento da psicologia do português da superfície da terra. Houve sempre, graças a Deus, patriotas de Portugal; portugueses, deixaram de haver. Quem não tem a consciência certa das raízes profundas do seu ser, isto é, do povo a que pertence, de que coisa pode ter certeza ou noção? Isto indigna e revolta. E merecia o castigo do único jornalista que há em Portugal, porque assim sem nome se pode escrever o nome do Sr. Homem Cristo. Não é só porém a simples falta de educação e de senso estético, a simples baixeza de sentimentos, que se revelou a propósito destas homenagens. Revelaram-se também as causas desses baixos sentimentos, que são a falta de visão civilizada, e falta de instinto português. Um exemplo — mais dolorosamente flagrante pela sua constância e pela sua inconsciência — é o modo como na linguagem da tribuna e da imprensa se empregam, para elogio de contemporâneos de relevo mínimo, os nomes maiores da nossa história. Qualquer Afonso Costa (e há tantos) é o Marquês de Pombal do século XX. Qualquer Couceiro é um Nun'Álvares. A reles entrada na guerra europeia que fizemos, como serventuários da Inglaterra e lacaios da França — que é o que com efeito somos, e por isso estava certo — trouxe comparações relembrando os descobridores e os homens que escreveram o nome português a sangue eterno de leste a oeste do Mundo Quando um dia um colaborador ocasional do «Mundo» comparou França Borges a Nun'Álvares chegou-se ao limite. De resto, como N. A. [Nun'Álvares] difere qualitativamente tanto de Couceiro como de F. B., [...] O que há de reles e de desgracioso, porque de inarmónico, no português de hoje, tal qual os princípios liberais e outros o criaram, revela-se assim constantemente. Abre-se um jornal monárquico, colhe-se uma referência à triste figura nacional que foi El-Rei D. Carlos, cujo reinado denotou o báratro da decadência do desleixo, e do dissídio; e em que termos se referem esses jornais ao Senhor D. Carlos? Em termos que quem não visse o nome por certo julgaria destinados a referir-se a El-Rei D. João II. Um estrangeiro, ignorante de todo da nossa história, facilmente pensaria que o período daquele rei fora o do apogeu das nossas descobertas ou da grandeza do nosso império. Os mortos merecem, ao menos, o respeito do nosso pudor ao falar neles. Quando mais não haja, haja isso. Que se diria de quem enaltecesse, em elogios tristes, a grandeza de Antero de Quental como poeta épico, ou falasse da profundeza filosófica de Bernardim Ribeiro? Paiva Couceiro não escapou [a] ser comparado a Nun'Alvares. O grande Condestável é, de resto, de uma infelicidade enorme. Qualquer homem que combate qualquer coisa com qualquer relevo passa logo a merecer aos nossos referentes a designação do grande chefe militar medieval. Estes homens merecem ser tratados de modo diferente dos políticos e dos ocasionais que andam pelas esquinas de serem conhecidos a mendigar homenagens indirectamente. Não se trata de um Afonso Costa ou de um Lopes Vieira, que nasceram para viver dos aplausos externos dos outros, porque, se não fosse para isso, para que teriam nascido? Esta gente é gente. Com o Soldado Desconhecido, facto de menor alcance patriótico, e consagração que começava por ser plagiada de consagrações idênticas estrangeiras, o mesmo sucedeu. Em todo o caso, e apesar de a nossa entrada na guerra europeia ter sido realizada em condições de deselegância suprema, que conseguiram tornar a tragédia de tantas vidas perdidas um episódio reles de política partidária, a piedosa natureza da homenagem devia ter dado para mais alguma coisa que o lixo em que deu. Houve o cuidado de despertar de todas as maneiras o instinto supersticioso do povo. A superstição é apenas o receio de infringir leis desconhecidas do universo. E como quase todas as leis do universo, e por certo as fundamentais, nos são desconhecidas, todo o cérebro são é naturalmente supersticioso. Quem reconhece, por instinto ou por inteligência, que em verdade nada sabe do mundo em que vive, nem das forças que o movem, nem de como os destinos se talham, quem, com o instinto ou com a razão, reconhece que a vontade humana é um pobre fumo sobre que sopram ventos vindos da noite, por força que há-de ser supersticioso. De todas as maneiras se fez despertar, no sentido de criar receio, a superstição do povo. Estava a travessia em meio e já se organizavam festas para quando por inteiro se realizasse. Este delírio da esperança dos parvos cresceu com a chegada aos Rochedos, porque fora, na verdade, a demonstração absoluta da segurança da direcção e o ponto onde a travessia começava a estar feita deveras. Deu-se ao avião o nome fatídico de Lusitânia, contra pedidos e protestos. Os poetas menores, os relevos das forças vivas, tudo isso que fica longe de ser tudo, os porteiros de todas as consagrações, os fixos em todas as homenagens, não faltaram, porque um dos seus característicos é não faltar, mesmo onde não são nem desejados nem próprios. Armaram arcos, puseram bandeiras, prepararam festas, não tanto para consagrar o já feito, embora muito, mas para se consagrar o que estava por fazer, lembrando agoureiramente aquela célebre medalha que Napoleão mandou cunhar para celebração da sua invasão de Inglaterra, que nunca se realizou. De tal modo têm consagrado os [...] As plebes da inteligência cercaram de tal modo os dois aviadores que ninguém pôde chegar até eles sem arriscar a sujar-se na travessia. Deram um tom tão definitivamente grosseiro às homenagens — com uma falta de senso estético, e mesmo moral, tão inconscientemente aflitiva — que quem quisesse prestar homenagens apropriadas aos dois marinheiros teria que desistir, como terá desistido. Não é a emoção da plebe, que tem a elegância do acto instintivo, que desmerece da aprovação da inteligência. É o desajeitado da outra plebe, daquela que, como disse o escritor francês, « inclui muito boa gente», que prejudica para sempre. Desvirtuado assim tudo, não há senão que protestar, com o conhecimento antecipado da inutilidade do protesto. E assim foi rebaixado, ante o país e o estrangeiro, um feito digno de glória porque grande, de admiração porque heróico, de respeito porque patriótico. Dois homens que haviam posto em empreendê-lo uma soma de grandes qualidades, a que não faltava a da modéstia e submissão instintiva ao que o Destino quisesse fazer do que eles queriam fazer, foram postos no escárnio da publicidade comercial para servir os interesses de dois jornais intelectualmente desprezíveis e nacionalmente abaixo de adjectivos. Todo o voo transatlântico se tornou um acto de propaganda do Século e do Diário de Notícias. Quem poderia acreditar que o mais pequeno intuito patriótico tinha conseguido forçar aquelas portas de ferro com que as empresas do género daquelas se defendem das solicitações da inteligência e da nobreza? Um, o primeiro, propriedade de um estranho e envolto sempre no roupão roto de campanhas financeiras sem elevação nem escrúpulo; outro, servo de uma plutocracia sem pátria, porque a plutocracia por natureza a não tem — parasitam. Habituados a consagrar no mesmo tom tipográfico os actores, os políticos do lixo, os nossos homens representativos encontram-se desapercebidos de qualquer noção de valores que possa orientá-los na consagração de um acto realmente grande. Tendo empregado os adjectivos máximos nos mínimos, têm que aplicar aos máximos os mesmos adjectivos que já estão mínimos. Se houvesse nesta gente um resto de equilíbrio mental, o simples conhecimento da sua nulidade própria teriam encontrado sem dificuldade um modo decente de fazer esta consagração, sem prejuízo dos seus adjectivos e da subgente a quem costumam aplicá-los. Teriam sido sóbrios na narrativa, como sóbrios no seu empreendimento foram os dois aviadores. E de homenagens, a prestar no fim da viagem concluída, ou de qualquer modo fechada, teriam encarregado um ou dois dos homens que valem ainda intelectualmente por Portugal — um Junqueiro, um Pascoaes, na oratória um João Arroio. Não terá ocorrido aos directores desses «Borda-d'Água» diários que há coisas para que não têm competência? Tão alto será o conceito em que têm a sua palavra, falada ou escrita, que a julguem própria para todas as ocasiões, adequada a todos os gestos? Imagine-se que amanhã acontecia em Portugal um feito mais alto (porque qualitativamente diferente) do voo transatlântico. Como o consagrariam? Quem o consagraria? [...] Antes disso, só no Império Romano se encontra uma tão justa harmonia entre as qualidades de planear e as de executar; porém com esta diferença, que o que os Romanos planearam e executaram estava dentro do imperialismo de sempre, era a conquista e a ocupação sábia, a administração ordenada, sendo de novo ali só a perfeição da ciência administrativa e a notável aplicação à prática da cultura grega e dos seus resultados, ao passo que no império português o elemento cultural, a ciência, era própria, como a execução. Assim tivemos que empregar os três elementos do plano — a ciência, a teoria da prática, e a prática. Além do valor que lhe é próprio e directo, como feito científico e tentativa heróica, tem ainda o voo oblíquo transatlântico dos aeronautas portugueses a vantagem de nos ministrar, não só por si, mas também pelas suas consequências, três ensinamentos diversos. O primeiro, que é aquele que se deriva do próprio acto, é mais simbólico que evidente. É como que um sinal celeste, porque aéreo, do ressurgimento do país. 1922? Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 9. Lisboa, 2 de Setembro de 1914 Meu querido Amigo: Recebi o seu postal, e foi-me muito grato saber que a sua viagem foi boa. Aguardo a sua carta prometida. Escreva tão extensamente quanto lhe for possível. Por mim, para que não tarde a minha carta, começo-a hoje. Mau grado a alguma depressão, constante desde que lá fora é guerra, tenho passado com razoável calma pela ilusão sucessiva dos dias. Nada tenho escrito que valha a pena mandar-lhe. Ricardo Reis e Álvaro futurista - silenciosos. Caeiro perpetrador de algumas linhas que encontrarão talvez asilo num livro futuro. Mas essas linhas são esboços de poesias, não poesias propriamente falando. O que principalmente tenho feito é sociologia e desassossego. V. percebe que a última palavra diz respeito ao «livro» do mesmo; de facto tenho elaborado várias páginas daquela produção doentia. A obra vai pois complexamente e tortuosamente avançando. Quanto à sociologia, além de ter acrescentado alguns raciocínios e análises à minha «Teoria da República Aristocrática», tenho deliberado teorias várias sobre a guerra presente e sobre as forças sociais, nacionais e civilizacionais em acção. Creio ir-me aproximando de uma interpretação do conflito com visos de verdadeira, ou, pelo menos (sejamos sempre um pouco cépticos), de plausível. O facto é que neste momento atravesso um período de crise na minha vida. Preocupa-me quotidianamente a necessidade de dar ao conjunto da minha orientação, tanto intelectual como «existente na vida», uma linha metódica e lógica. Quero disciplinar a minha vida (e, consequentemente, a minha obra) como a um estado anárquico, anárquico pelo próprio excesso de «forças vivas» em acção, conflito e evolução interconexa e divergente. Não sei se estou sendo perfeitamente lúcido. Creio que estou sendo sincero. Tenho pelo menos aquele amargo de espírito que é trazido pela prática anti-social da sinceridade. Sim, eu devo estar a ser sincero. Não se admire v. desta minha atitude para comigo mesmo. Tenho vivido tanto e tão cansado tempo comigo que estou sempre de pé atrás para com o que sinto e penso. Muitas vezes, creio firmemente, levo horas intelectuais a intrujar-me a mim próprio. Daí a necessidade em que estou de me acautelar sempre com o que digo. Repare v. em que, se há parte da minha obra que tenha um «cunho de sinceridade», essa parte é... a obra do Caeiro. Inútil e criminal, porém, o está-lo maçando com isto. Passo adiante, deixando-me. O Sá-Carneiro resolveu-se afinal a deixar Paris. Agora está em Barcelona, se é que não decidiu já vir para Lisboa, o que naturalmente, mais tarde ou mais cedo acontece. Acho que ele fez bem. Como a guerra vai correndo, não parece impossível um cerco de Paris pelos alemães — o que, de resto, naturalmente pouco altera a sua probabilíssima derrota final. 2-9-1914 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 34. A TERNURA LUSITANA ou A ALMA DA RAÇA O costume de definir o português como essencialmente lírico, ou essencialmente amoroso — absurdo, porque não há povo quase nenhum que não seja estas duas coisas. Ao mesmo tempo vê-se que, ainda que a expressão falhe, há qualquer coisa de verdade, que não chega a descobrir-se, nestas frases. O que é que há de quase-indefinivelmente português, de portuguesmente comum excepto a língua, a Bernardim Ribeiro, Camões, Garrett, Antero de Quental, António Nobre, Junqueiro, Correia de Oliveira, Pascoaes, Mário Beirão ? Em primeiro lugar, é uma ternura. Mas o que é essa ternura? Ternura vaga (...) em Bernardim Ribeiro, ternura que rompe a casca de estrangeirismo de Camões, no seu auge ternura heróica, ternura metafísica em Antero (curiosíssima fase da ternura que dá corpo ao abstracto, e pode amar um Deus que seja [...] uma fórmula matemática); ternura por si-próprio e pela sua terra — esquiva [...], espontânea e com o lado “tristeza” acentuado, em António Nobre (actuou [?] sobre o Sá Carneiro), ternura pela paisagem em Fialho, ternura que chega a assomar às janelas da alma de Eça de Queirós. Chamar ao sol “solzinho de Deus” é um fenómeno especial de ternura. Nessas frases do povo está o germe de todo o pátrio. 1915? - 349. Sempre que alguém entra em discutir o carácter do povo português, pode adivinhar-se que, a certa altura da análise, dirá que uma das mais notáveis faculdades do nosso espírito é o excesso de imaginação. Por um acaso inexplicável, esta apreciação vulgar resulta justa. É certo que o português sofre duma imaginação excessiva. Ora as criaturas de imaginação excessiva são fatalmente enfermas dum defeito; esse defeito é a deficiência de imaginação. Isto pode parecer um paradoxo a quem ainda creia, ingenuamente, que há paradoxos neste mundo. A asserção, porém, é tão fácil de demonstrar que não vale a pena reparar no modo como se apresenta. Tomemos um exemplo conhecido. É o caso desses literatos modernos que em sua obra se entusiasmam pelos loucos, pelos vagabundos e pelos criminosos-natos, ou, em grau menos sangrento, pelos proletários “rotos e oprimidos” e outros objectos análogos. Ora todo o artista, se não por condição social, é, pelo menos por temperamento, o contrário de tudo quanto os loucos, os criminosos-natos ou os proletários realmente e verdadeiramente são. Sucede, pois, que a sua simpatia por tais criaturas só pode nascer da violenta necessidade de sair para fora de assuntos do meio em que vive — tanto no meio social, de gente pacata e apenas palavrosa, que cerca os artistas, como do meio, por assim dizer, nervoso, isto é, aquela disposição requintada e exigente que é a atmosfera espiritual em que o artista vive consigo próprio. E essa necessidade de sair para fora da atmosfera psíquica, onde respira, é manifestamente trabalho da imaginação excessiva. De resto, o género literário que esta espécie de autores vinca — assuntos excessivos, sentimentos exagerados, estilo complexo e doente —, tudo isso confirma que se trata dum fenómeno de excessiva imaginação. Mas, se colocássemos um destes literatos entre criminosos-natos reais, entre verdadeiros loucos ou entre proletários existentes, condenando-o, não a atravessar esse meio, mas a viver nele, o desgraçado só não fugiria se o não deixassem fugir. A mesma requintada condição nervosa e imaginativa, que lhe faz o entusiasmo por esses meios, lho tiraria, se neles se demorasse. Que explicação tem este fenómeno? Aquela que de entrada demos: a deficiência imaginativa que caracteriza os imaginativos em demasia. Se ao construir no seu espírito uma representação nítida dessas figuras que o atraem, o artista conseguisse imaginá-las a valer, com absoluta nitidez, tal nitidez equivaleria a um antegosto desses próprios meios, e resultaria, desde logo, aquele nojo por eles que um contacto real causaria. Toda esta demonstração veio a propósito do excesso de imaginação do português. E o fim a que veio é podermos estabelecer claramente qual a terapêutica a aplicar neste caso. Com a demonstração, que fizemos, essa terapêutica ficou indicada. Aqui, como na homeopatia, similia similibus curantur, o excesso imaginativo do português, que tão daninho lhe tem sido, só pode ser curado mediante uma cultura cada vez maior da imaginação portuguesa. Educar as novas gerações no sonho, no devaneio, no culto prolixo e doentio da vida interior, vem a dar em educá-las para a civilização e para a vida. Sobre ser fácil e agradável, o tratamento é de resultado seguro. 11-4-1915 Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 3. 1ª publ.: “Crónicas da Vida que Passa” in O Jornal , nº 8. Lisboa: 11-4-1915. 4 Setembro 1914. O Sá-Carneiro está actualmente no Palace-Hotel, Ronda de São Pedro, Barcelona. Na última carta que me escreveu deu-me como muito provável a sua próxima vinda para Lisboa. Parece que embirrou solenemente com Barcelona. Meu caro Côrtes-Rodrigues: tenho tido imenso que fazer no escritório estes últimos dias, inesperadamente, com a entrada de um novo sócio ou semi-sócio. Por isso lhe escrevo tão pouco. Para a outra mala conto dar melhor conta de mim como correspondente. Esta carta, estou-a terminando literalmente à última hora. Dê os meus cumprimentos ao seu Pai e sinta-se apertadamente abraçado pelo sempre e muito seu Fernando Pessoa 4-9-1914 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 35. António Vieira António Vieira é de facto o maior prosador — direi mais, é o maior artista — da língua portuguesa. É-o por isso porque o foi, e não porque se chamasse António. O comando da lingua-mãe não vem por varonia de nomes próprios. s.d. Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 350. Nada há de menos latino que um português. Somos muito mais helénicos — capazes, como os Gregos, só de obter a proporção fora da lei, na liberdade, na ânsia, livres da pressão do Estado e da Sociedade. Não é uma blague geográfica o ficarem Lisboa e Atenas quase na mesma latitude. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 4. Música... Que sei eu de mim? Que sei eu de haver ser ou estar? Música... sei só que sem fim Quero saber só de sonhar... Música... Bem no que faz mal À alma entregar-se a nada... Mas quero ser animal Da insuficiência enganada. Música... Se eu pudesse ter, Não o que penso ou desejo, Mas o que não pude haver E que até nem em sonhos vejo, Se também eu pudesse fruir Entre as algemas de aqui estar! Não faz mal. Flui, Para que eu deixe de pensar! 1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - . Lisboa, 4 de Outubro de 1914. Meu querido Amigo: Recebi a sua carta de 12 a 15 de Setembro, e muito lha agradeço. Antes de tudo mais responderei a ela. Muito me agrada ler que a bucolização do seu ser se tem operado a seu contento. Sim, depois de alguns anos de vida em Lisboa, esse reingresso na vida mais próxima da do Universo deve ter-lhe trazido calma e antiguidade ao espírito. Compreendo isso muito bem. Não sei se no seu caso sentiria o mesmo. Eu nunca sei, neste ou naquele caso, o que sentiria. Às vezes nem mesmo sei o que sinto. A propósito, cheio de urna ideia física do campo, me cita você as odes clássicas do Ricardo Reis. Essas são em verdade contemporâneas por dentro da idade eterna da Natureza. Por sinal que, recentemente, só uma, e essa inemendadamente, fiz. Pelo facto contido no, citado, insólito advérbio, não lha mando. Nem lhe mando outras pequenas coisas que tenho escrito nestes dias. Não são muito dignas de serem mandadas, umas; outras estão incompletas; o resto tem sido quebrados e desconexos pedaços do Livro do Desassossego. Verdade seja que descobri um novo género de paùlismo. Mas preciso completar o feito. Então lho mandarei. Para a mala seguinte, provavelmente. Já me desviei da linha do assunto. Deixei de responder directamente à sua carta, para lhe falar dos meus trabalhos. Não importa: fica dito. E de certo modo, sempre é responder à sua carta, pois que nela v. me pede que lhe mande versos que tenha feito. Retomo para evitar mais desvios, a resposta, verdadeiramente, à sua carta. Não tenho visto o Ferro. Ele está — vi — no Algarve. Não sei quando volta. Não tive por isso ocasião para lhe dizer o que v. me indica. O Sá-Carneiro está na sua quinta. Deve ali demorar-se até ao fim deste mês. Acabou há dias A Grande Sombra. Acabou-a completamente, isto é, passada a limpo e tudo. É, a meu ver, a melhor coisa que ele tem feito. Magistral, meu caro, magistral. Como, apesar das melhores intenções minhas, lhe escrevo à última hora, não copio a Ode à Noite, ou, antes, o trecho «à Noite» da Ode Triunfal nº 3 de Álvaro de Campos. A mala passada não lhe escrevi. Adiei tanto uma carta, pensada, extensa, que lhe tencionava escrever, que, à última hora — dado, de mais a mais, um súbito aparecimento de muito trabalho no escritório — não tive tempo para lhe escrever. Poderia, é certo, ter escrito um postal. Mas, ante a extensa carta que eu pensava em lhe escrever, isso era tão ignóbil que preferi o silêncio. Em todo o caso v. desculpe-me. Mesmo esta carta vai rápida e mais breve — muito mais breve — do que eu desejaria. Mas desta vez alguma coisa hei-de escrever. O Guisado vem aqui três dias e depois volta para a Galiza. Recebi hoje carta dele. Antes que me esqueça: O endereço de Sá-Carneiro é: Quinta da Vitória, Camarate (Sacavém). O do Guisado já v. sabe. Notícias, propriamente notícias, não há nenhumas. Parece, porém, que v. não fez mal em ir para aí. Devem agora ir para a França tropas nossas. Pelo número que possivelmente atingirão, v. corria risco de ter de seguir. Duas notas curiosas e engraçadas, ambas com respeito ao mesmo assunto: Há dias passava eu de carro na Avenida Almirante Reis. Levanto os olhos por acaso, leio no cabeçalho de uma loja: Farmácia A. Caeiro. A outra é melhor. Como a única pessoa que podia suspeitar, ou, melhor, vir a suspeitar, a verdade do caso Caeiro era o Ferro, eu combinei com o Guisado que ele dissesse aqui, como que casualmente, em ocasião em que estivesse presente o Ferro, que tinha encontrado na Galiza «um tal Caeiro, que me foi apresentado como poeta, mas com quem não tive tempo de falar», ou uma coisa assim, vaga, neste género. O Guisado encontrou o Ferro acompanhado de um amigo caixeiro-viajante, aliás. E começou a falar no Caeiro como tendo-lhe sido apresentado, e tendo trocado duas palavras apenas com ele. «Se calhar é qualquer lepidóptero» disse o Ferro. «Nunca ouvi falar nele ... » E, de repente, soa, inesperada, a voz do caixeiro-viajante: «Eu já ouvi falar nesse poeta, e até me parece que já li algures uns versos dele». Hein? Para o caso de tirar todas as possíveis suspeitas futuras ao Ferro não se podia exigir melhor. O Guisado ia ficando doente de riso reprimido, mas conseguiu continuar a ouvir. E não voltou ao assunto, visto o caixeiro-viajante ter feito tudo o que era necessário. Agora o mais importante, o que era mais preciso não esquecer dizer-lhe. Em vez de uma revista interseccionista, contendo o manifesto e obras nossas, decidimos (e v., estou certo, concordará), para evitar possíveis fiascos e não se poder continuar a revista, etc., e, ao mesmo tempo, ficar coisa mais escandalosa e definitiva, fazer aparecer o interseccionismo, não em uma revista nossa, mas em um volume, uma Antologia do Interseccionismo. Seria este, mesmo, o título. Seria publicado logo que fosse possível, logo depois de acabada a guerra, é de supor. A composição do volume deve ser esta, pouco mais ou menos: 1.   Manifesto (Ultimatum, aliás). 2.   Poesias e prosas de Fernando Pessoa. 3.   Poesias e prosas («Eu-próprio o Outro», pelo menos) do Sá-Carneiro. 4.   Poesias e prosas de A. Côrtes-Rodrigues. (Vá v. vendo o que de mais caracteristicamente interseccionista tem; e vá mandando, para não se perder tempo. Não sabemos ainda ao certo o espaço que competirá a cada um, mas, devendo o livro ter entre 96 e 128 páginas, v. deve poder fazer um cálculo aproximado). 5.   Poesias e prosas de A. P. Guisado. 6.   Poesias de Álvaro de Campos. («Chuva Oblíqua» — Rei Cheops, etc.). 7.   O Interseccionismo explicado aos inferiores. (É aquela explicação do interseccionismo por meio de gráficos que, uma vez, na Brasileira, lhe delineei. Recorda-se?). É boa ideia, não é? Feito o livro, não temos que pensar mais no assunto. Decidimos não incluir na Antologia, por ainda muito crianças, social e paulicamente, o Ferro, o Mourão, etc. Agora a parte financeira do assunto. Segundo cálculo do Guisado, quando fosse preciso fazer o volume, seria bom saber se podíamos contar com v. para entrar com 10.000 réis para o custo da produção. Pode ser? Aí fica exposto tudo. Já v. fica inteirado dos nossos planos, que espero poderemos considerar nossos totalmente, isto é, também seus. O meu estado de espírito actual é de uma depressão profunda e calma. Estou há dias, ao nível do Livro do Desassossego. E alguma coisa dessa obra tenho escrito. Ainda hoje escrevi quase um capítulo todo. Escreva-me sempre que puder e tanto (em quantidade) quanto possa. Dê os meus cumprimentos a seu Pai e sinta-se apertadamente abraçado pelo seu sempre e muito dedicado Fernando Pessoa 4-10-1914 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 36. Entre os vários preconceitos que formam a única bagagem literária com que os nossos “críticos” vão de viagem para Santarém (um conhecido provérbio ali os espera), o mais singular e inexplicável é aquele que consiste em confundir cultura com erudição. É frequente apanhar os nossos pensadores de jornal em flagrante delito de afirmações como esta — que tal criatura é culta porque tem lido muito, porque sabe muito, porque compulsou, assimilando, uma grande paginaria de livros. Ao contrário dos preconceitos da plebe legítima, que muitas vezes têm uma haste de observação, os dogmas da plebe intelectual são falsos em todo o seu comprimento. Este, que acabo de citar, é um dos mais falsos. Porque não só erudição e cultura não são a mesma coisa, como, até, são coisas opostas. Não vão julgar, decerto, que a minha explicação vai ser que é erudito quem leu sem combinar o que leu, e culto quem lê aproveitando. Eu nunca dou explicações que se possam prever; se assim fosse, valer-me-ia a pena dá-las? A diferença entre culto e erudito é que, quem é erudito torna-se erudito, e quem é culto nasce culto. Nascitur, non fit é verdade do homem culto como do poeta. Porque a cultura, mais do que uma mobilição do espírito, é uma atitude dele. E essa atitude, quando se não nasce com ela, é escusado tentar adquiri-la. No seu ensaio sobre Shakespeare, o crítico inglês Walter Bagehot encontra no poeta uma faculdade proeminente, a que, de acordo com a tendência inglesa para [...], define a faculdade de experienciar. Desculpe-se a tradução que faço; outro termo, já feito, não conviria. Shakespeare, opina Bagehot, tinha a faculdade primacial de tirar de tudo quanto via ou lia, de tudo a quanto assistia, elementos de originalização; a isso chama Bagehot a faculdade de experienciar. Em contraste, ele aduz Guizot e Macaulay, os quais, leitores assíduos, políticos assíduos, não colheram, porém, da sua experiência das duas vidas outro ensinamento do que ensinamento nenhum. Sou eu, porém, e não Bagehot — não vá a malevolência do leitor sorrir que eu adapto e traduzo o que vou teorizando — que faço a distinção entre culto e erudito. Homem culto é aquele que, de tudo a que assiste aumenta, não os seus conhecimentos, mas o seu estado de alma. O erudito lê e fica sabendo; quanto mais lê, mais fica sabendo. O homem culto, em geral, quanto mais lê de menos fica certo. A segurança e a confiança são atributos finais da erudição — como o cepticismo e a hesitação apanágio extremo da cultura. Uma erudição de lombada, como dizem os parvos, serve de mais a um culto, que uma leitura de miolo a um erudito. Um título pode fazer colher mais de toda a obra — dado que a alma nasça ceifeira — do que a leitura de toda ela. Nós não temos homens cultos; temos eruditos apenas. Ou, antes, os homens cultos que temos são homens de génio, o que é de mais para um povo tão pequeno. Julgarão talvez que confundo culto com inteligente. Seria um erro julgar tal coisa. Eu nunca confundo nada. O homem inteligente é o que com facilidade tira conclusões do que lê ouve; o homem culto é o que, naturalmente, sente e não tira conclusões, ou as tira, conforme calha ao seu feitio do momento. Vem tudo a propósito de chegar a dizer qual é a tragédia de Portugal. É a de que, tendo vários eruditos, e muita gente inteligente, pouquíssima gente temos que seja culta. Vejam quanta criatura, quando lhe apresentam qualquer coisa de novo, procura compreender. Um homem culto procura sentir. Perceber envolve um esforço. Sentir envolve uma passividade deliciosa. O feitio enérgico, violento, pouco indolente do português leva-o para a acção precipitadamente. A ciência da inacção, a mais civilizada das ciências, pouco está desenvolvida entre nós. A nossa tendência para agir ficou-nos, como uma maldição, da aventura das descobertas. Expiamos a glória dos nossos maiores na doentia preocupação do útil. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 5. Lisboa, 19 de Novembro de 1914. Meu querido Amigo: Creio que há duas malas que lhe não escrevo. Não lhe escrevo há uma, com certeza. Desculpe-me. Eu já não sou eu. Sou um fragmento de mim conservado num museu abandonado. Agora que a minha família que aqui estava foi para a Suíça, desabou sobre mim toda a casta de desastres que podem acontecer. Por isso estou numa abulia absoluta, ou quase absoluta, de modo que fazer qualquer coisa me custa como se fosse levantar um grande peso ou ler um volume do Teófilo. Você também não me tem escrito. Pelo menos, desde a carta que v. me escreveu da cama, não recebi mais nenhuma. Por misericórdia, escreva-me; não se esqueça de me escrever. Estou no meio de uma desolação infinita. Tenho feito versos, isso tenho; eu, na minha própria pessoa, mas esqueci-me hoje de os trazer para o escritório, de onde lhe estou escrevendo. Oxalá para a mala seguinte eu não me esqueça, e lhe possa mandar, como queria, uma cópia deles todos. Tinha também para lhe mandar, por ter relação com aquele estudo a meu respeito para o qual v. me pediu elementos, a genealogia do meu terceiro avô, que, por isso vem a ser a minha. Esta tenho na algibeira, mas custa-me muito, no meu actual estado de não-ser copiá-la, mesmo à máquina, porque é muito extensa. Outra vez e por esta outra razão eu lhe peço desculpa. A nossa ideia da Antologia está de pé, mas, é claro, só pode ser posta em prática depois de terminar a guerra, visto que é um acto estético de carácter europeu, não é verdade? Quando será isso? O meu estado de espírito obriga-me agora a trabalhar bastante, sem querer, no Livro do Desassossego. Mas tudo fragmentos, fragmentos, fragmentos. Para acabar a minha desolação material e exterior, imagine você que a única coisa com que eu neste momento podia (parecia-me que podia) contar — as cinco libras da tradução dos provérbios (parece-me que v. viu-me aqui a trabalhar nisso) — faltou-me. Os homens só me mandam aquilo quando publicarem o livro, depois da guerra! Uma catástrofe, meu caro. Olhe lá, a este propósito e se o pedido o incomodar tenha-o como não feito, v. podia emprestar-me vinte mil réis? Eu não sei quando lhos poderei devolver, e de mais a mais, já lhe devo aqueles cinco que v. uma vez me emprestou na Avenida. Mas se lhe peço isto, meu caro, é que estou absolutamente à bout de ressources. Literalmente naufragado meu caro Amigo. E nem família aqui, nem ninguém conhecido salvo o Sá-Carneiro, que também está atrapalhado e que, em todo o caso, só com uma quantia muito pequena me poderia escorar Veja se v. me pode fazer este favor — o que v. puder em todo o caso. Não moro já na Rua Pascoal de Meio, é claro. Melhor modo de me escrever agora: Fernando Pessoa Na casa Lavado, Pinto e C.ª Campo das Cebolas, 43, LISBOA É o escritório onde pseudo-trabalho, e é o lugar mais seguro para onde me escrever. Para maior lucidez porque a minha letra está muito nervosa, junto um papel com o endereço exacto, à máquina. Desculpe-me a monotonia e o desconchavo desta carta, que v. compreenderá bem. E não julgue que coisas como o «olhe lá» de alguns parágrafos atrás, indicam alegria. Meu caro Amigo, isso de alegria está na Ilha Longínqua, aquela que v. e eu sei e nenhum de nós sabe. Dê meus cumprimentos a seu Pai. Um grande abraço do seu muito amigo Fernando Pessoa 19-11-1914 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 39. Since the desintegration of Spain is a definite fact, the case is how to make up for it by a civilizational reaction. The idea is, not to form an Iberian Federation, which would be unacceptable all round, but to split up Iberia into separate nations, which would be wholly separate except in respect of (1) an offensive and defensive alliance, (2) a cultural alliance, (3) the abolition of customs frontiers between all. Each nation would be wholly independent, with its own army, navy, diplomatic service and the like, Spain to make what it can of the navy and of its colonies, which, fortunately, are few and may either fall to Castile or be somehow administered jointly by the nations now composing what is called Spain. The problem of language does not matter, for if a Catalan likes to write Castilian, he will do so then as he does now, in the same manner as a Catalan can write in French and get a wider public still. Unamuno put the case: why not write in Castilian? If it comes to that, I prefer to write in English, which will give me a wider public than Castilian; and I am as much Castilian as I am English in blood and much more English than Castilian since my education is English. Unamuno's argument is really an argument for writing in English, since that is the most widespread language in the world. If I am to abstain from writing in Portuguese, because my public is limited thereby, I may just as well write in the most widespread language of all. Why should I write in Castilian? That U. may understand me? It is asking too much for too little. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 193. Produto de dois séculos de falsa educação fradesca e jesuítica, seguidos de um século de pseudo-educação confusa, somos as vítimas individuais de uma prolongada servidão colectiva. Fomos esmagados [...] por liberais para quem a liberdade era a simples palavra de passe de uma seita reaccionária, por livres-pensadores para quem o cúmulo do livre-pensamento era impedir uma procissão de sair, de maçãos para quem a Maçonaria (longe de a considerarem a depositária da herança sagrada da Gnose) nunca foi mais do que uma Carbonária ritual. Produto assim de educações dadas por criaturas cuja vida era uma perpétua traição àquilo que diziam que eram, e às crenças ou ideias que diziam servir, tínhamos que ser sempre dos arredores... s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 7. Lisboa, 4 de Dezembro de 1914. Meu caro Côrtes-Rodrigues: Tinha hoje muita coisa que lhe contar, muita coisa especialmente com respeito ao meu curioso estado de espírito actual, e a uma, não menos curiosa, evolução que se tem dado em mim ultimamente. Mas para isso era preciso que eu tivesse tempo e sossego de espírito — um relativo sossego de espírito, pelo menos — e nenhuma das coisas hoje está comigo. Não há pressa em lhe falar nestes assuntos, mas tenho interesse em fazê-lo; especialmente porque — consoante v. verá quando tornar conhecimento do que esses assuntos são — só a v. me dá jeito falar deles. Pertencem a uma região do meu psiquismo onde v., melhor do que qualquer outro meu amigo, entra e compreende. Não é nada de estranho nem de fantástico: no fundo, um curioso conflito entre partes superficiais e estéticas do meu ser de alma, e outras partes religiosas e profundas dele. Isto apenas, mas há assuntos que se prendem com isto e sobre os quais eu o desejaria consultar, saber a sua opinião. Enfim, fica para a mala do dia 19. Dê cumprimentos meus a seu Pai e visione-se abraçado pelo seu muito amigo Fernando Pessoa 4-12-1914 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 41. 1. Qual é o fim que se pretende com a “aproximação“ ibérica de que se fez agora campeão o Sr. Felix Lorenzo, director de “O Imparcial”? De três coisas, uma deve ser verdade. Ou se pretende apenas estabelecer uma amizade firme entre os dois povos que a história tem até aqui apartado espiritualmente (e mais ainda apartado depois do período em que os juntou); ou se pretende tentear terreno para a velha e conhecida táctica da absorção de Portugal por Espanha; ou se busca, deveras, preparar as coisas sociais para um futuro acordo que, sem ser uma mera amizade, também não represente uma absorção, mas seja, em todo o caso, qualquer coisa que estadualmente aproxime a Espanha e Portugal. 2. Sem curar de ver qual das hipóteses é que verdadeiramente a campanha espanhola tem em mente, procuramos ver qual a base que há para qualquer delas. Critique of the first elsewhere. 3. Que viabilidade tem a tentativa de uma aproximação dos dois países? Problema a estudar sociologicamente; (a) a unidade da Ibéria — a sua peninsularidade, (b) o local histórico de fusão do elemento romano com o árabe, (c) os dois países presos à mesma nota do passado, pela sua comum acção na abertura do Novo Mundo à civilização. Neste três pontos assenta a unidade da civilização ibérica, porque, por mais separados que os dois povos estejam ou se sintam, são rodas no mesmo eixo, que, por longe que estejam uma da outra, são parte do mesmo movimento e têm o mesmo sentido de direcção. 4.  Se a Ibéria é assim, transcendendo os povos que a compõem, uma unidade civilizacional, é evidente que está na lógica natural das coisas que um apartamento verdadeiro prejudica cada elemento componente — ou, antes, que devia ser componente — dessa unidade. 5. Esta unidade essencial é, porém, acompanhada de diferenças enormes nos pontos secundários. Escusamos de lhes buscar as causas, como buscámos as da unidade essencial. Porque é escusado buscar as causas àquilo que é patente: Portugal não quer ser espanhol, nem de uma forma, nem de outra. Dos ódios que a história semeia, o ódio do português ao espanhol imperialista é o único que ficou, porque o contra os franceses que nos invadiram sob Napoleão, e o contra os ingleses que nos lançaram o Ultimatum célebre, já passaram ambos e se desradicaram de nós. Ora esta existência de divergências muito grandes, longe de ser coisa que prejudique a ideia implícita (para o estadista) na íntima unidade civilizacional ibérica, antes a reforça e a torna mais aceitável. Porque todo o organismo é superior na proporção em que a sua unidade essencial é interpretada e realizada por funções diferenciadas. Quanto mais elevado é um organismo na escala dos seres vivos, mais diferenciados são os órgãos que o compõem, e maior a interdependência das suas funções. Por isso, dada a unidade fundamental que a natureza (pelo território e pela história) deu à Ibéria, e dada a paralela diferença entre povo e povo que a compõem, somos levados, não à conclusão que essa unidade é impossível, mas, ao contrário, que, sendo possível, será produtora de resultados sociais (civilizacionais) notabilíssimos, por isso que, conseguida a unidade orgânica, a divergência grande das partes componentes tenderá a fazer essa unidade altamente produtora de civilização. Esplêndida coisa foi que a história, que nos fez nascer unos, tanto tempo nos separasse, para que, unindo-nos, constituíssemos uma unidade civilizacional como a unidade vital de um organismo superior, e não uma unidade inferior, como a França, ou como a Alemanha. (E, ainda assim, o longo tempo que a Alemanha esteve em estados separados, muito a separou, e lhe condicionou a superioridade que atingiu. Mas ali houve o pecado da hegemonia prussiana...) Posto, pois, que deve tender-se para uma qualquer unidade ibérica, no mesmo momento fica posto que essa unidade deve ser constituída por povos o mais divergentes possíveis dentro dessa unidade. Desaparece logo, como absurda, como ibericamente criminal, toda a tentativa que se queira esboçar de absorção de um país por outro, como criminal resulta, também logo, a absorção (fictícia, aliás) da nação catalã por Castela. Por que chegamos finalmente à visão integral da confederação ibérica. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 17. Das feições de alma que caracterizam o povo português, a mais irritante é, sem dúvida, o seu excesso de disciplina. Somos o povo disciplinado por excelência. Levamos a disciplina social àquele ponto de excesso em que coisa nenhuma, por boa que seja — e eu não creio que a disciplina seja boa — por força que há-de ser prejudicial. Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército do que uma nação de gente com existências individuais. Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo. E quando, por um milagre de desnacionalização temporária, pratica a traição à Pátria de ter um gesto, um pensamento, ou um sentimento independente, a sua audácia nunca é completa, porque não tira os olhos dos outros, nem a sua atenção da sua crítica. Parecemo-nos muito com os Alemães. Como eles, agimos sempre em grupo, e cada um do grupo porque os outros agem. Por isso aqui, como na Alemanha, nunca é possível determinar responsabilidades; elas são sempre da sexta pessoa num caso onde só agiram cinco. Como os Alemães, nós esperamos sempre pela voz de comando. Como eles, sofremos da doença da Autoridade — acatar criaturas que ninguém sabe porque são acatadas, citar nomes que nenhuma valorização objectiva autentica como citáveis, seguir chefes que nenhum gesto de competência nomeou para as responsabilidades da acção. Como os Alemães, nós compensamos a nossa rígida disciplina fundamental por uma indisciplina superficial, de crianças que brincam à vida. Refilamos só de palavras. Dizemos mal só às escondidas. E somos invejosos, grosseiros e bárbaros, de nosso verdadeiro feitio, porque tais são as qualidades de toda a criatura que a disciplina moeu, em quem a individualidade se atrofiou. Diferimos dos Alemães, é certo, em certos pontos evidentes das realizações da vida. Mas a diferença é apenas aparente. Eles elevaram a disciplina social, temperamento neles como em nós, a um sistema de estado e de governo; ao passo que nós, mais rigidamente disciplinados e coerentes, nunca infligimos a nossa rude disciplina social, especializando-a para um estado ou uma administração. Deixamo-la coerentemente entregue ao próprio vulto íntegro da sociedade. Daí a nossa decadência! Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma “revolução” foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficámos miserandamente os mesmos disciplinados que éramos. Foi um gesto infantil, de superfície e fingimento. Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado. Como não acontecer assim, se é da nossa raça que eles saem? As poucas figuras que de vez em quando têm surgido na nossa vida política com aproveitáveis qualidades de perturbadores fracassam logo, traem logo a sua missão. Qual é a primeira coisa que fazem? Organizam um partido... Caem na disciplina por uma fatalidade ancestral. Trabalhemos ao menos — nós, os novos — por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa. Escrupulizemos no doentio e no dissolvente. É a nossa missão, a par de ser a mais civilizada e a mais moderna, será também a mais moral e a mais patriótica. 8-4-1915 Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 1. 1ª publ.:”Crónicas da Vida que Passa” in O Jornal , nº5. Lisboa: 8-4-1915 Lisboa, 4 de Janeiro de 1915. Meu caro Côrtes-Rodrigues: Muito obrigado pela sua carta e pelas suas (escusadas) explicações. Eu não precisava de tanto. Bastava-me menos, porque felizmente vi que posso contar (e espero sempre poder contar) com a sua amizade, que altamente prezo, e sei que uma resposta negativa da sua parte representaria um caso de impossibilidade. O que lhe agradeço muito é o que o carácter íntimo das suas explicações (aliás, como já disse, escusadas) prova sobre a sua amizade. Entristeceu-me muito o que me diz do seu actual estado de espírito. Mostra-o bem o soneto — deveras belo — que me mandou e que muito agradeço. Por mim, o meu estado de espírito é mau. Dezembro foi uma noite de tempestade para mim. Nem cabeça tenho tido para escrever a alguém, mesmo à minha família. Quebro esse encantamento de depressão para lhe escrever hoje, e isto para que não faltasse em responder à sua carta. Espero adquirir durante este mês aquela suficiente dose de serenidade que me permita escrever-lhe o milhão de coisas que tenho para lhe expor e contar. Espero poder mandar-lhe os poucos versos que tenho feito. Que, apesar de tudo, e através de tudo, trabalho sempre, produzo sempre. Mesmo nos pântanos do meu espírito há lótus que florescem. Sim, para a minha carta próxima devo ter apanhado do chão dos meus propósitos a energia suficiente para lhe contar coisas e para lhe copiar versos. Por ora, só isto e os meus agradecimentos. Os meus cumprimentos a seu Pai, e para você um grande e amigo abraço do sempre seu Fernando Pessoa 4-1-1915 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 42. CATALUNHA Dos problemas que hoje agitam e perturbam a indisciplinada vida da Europa, o problema do separatismo catalão é talvez o que mais flagrantemente foca o conflito fundamental que se trava hoje no mundo, e, portanto, aquele que mais curiosos ensinamentos contém. No pleito, que o Destino faz que se digladie entre a Espanha e a Catalunha, há o facto essencial de todos os dramas. Como em todos os dramas, um momento criado pelo Destino, mas segundo inevitáveis resultados de um passado surdamente se acumulou, faz entrar em conflito forças e ideias que é absurdo que entrem em conflito, que é doloroso que se encontrem em guerra Como em todos os dramas, não há solução satisfatória para problema, porque a única arbitragem certa, e por isso injusta, é a do Destino. E como em todos os dramas, ambas as partes têm igual razão. O conflito entre a Catalunha e a Espanha é o conflito entre o conceito nacional de país, e o conceito civilizacional de país. Um conceito é geográfico, supõe-se ser étnico, e afirma-se como linguístico. O outro conceito é histórico, supõe-se ser imperialista e afirma-se como cultural. Do ponto de vista nacional, e exclusivamente nacional, a Catalunha é uma nação, um país, com índole própria, tendências especiais, com um idioma à parte, que as define, e uma aspiração, que as deseja. Não é uma pseudonação como, por exemplo, a Bélgica ou a Suíça, a que falta, logo de princípio, a base linguística para mostrar ao mundo que tem personalidade. Não é uma nação artificial, como os Estados Unidos da América, onde a unidade linguística não exprime mais que uma tradição de colonização, sem bases em uma cultura própria, nem psique nacional a que corresponda. Não é uma nação morta, como a Irlanda, em que a [...] Não é uma região espiritualmente conquistada, como as províncias da Alsácia e Lorena, originalmente germânicas, e que Luís XIV roubou à Alemanha, que Bismarck depois (de modo territorialmente legítimo) reaveu para a Pátria, e que hoje passam outra vez para as mãos do usurpador que as conquistara espiritualmente. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 19. Que ideias gerais temos? As que vamos buscar ao estrangeiro. Nem as vamos buscar aos movimentos filosóficos profundos do estrangeiro; vamos buscá-las à superfície, ao jornalismo de ideias. E assim as ideias que adoptamos, sem alteração nem crítica, são ou velhas ou superficiais. Falamos a sério nas ideias políticas de León Blum ou de Edouard Herriot, nenhum dos quais teve alguma vez ideias — políticas ou outras — em sua vida. Falamos a sério em Bourget, Maurras [...]. Plagiamos o fascismo e o hitlerismo, plagiamos claramente, com a desvergonha da inconsciência, como a criança imita sem hesitar. Não reparamos que fascismo e hitlerismo, em sua essência, nada têm de novo, porventura nada de aproveitável, como ideias; o que não sabemos imitar, porque seria mais difícil, é a personalidade de Mussolini. As ideias de Maurras, que qualquer raciocinador hábil desfaz sem dificuldade, se tiver a paciência de vencer o tédio quase insuportável de o ler, passam por leis da natureza, por tão indiscutíveis como, não direi já a teoria atómica, que tem elementos discutíveis, mas o coeficiente de dilatação do ferro, ou a lei de Boyle ou de Mariotte. Temos poetas de mérito. Que fazem eles? Quanto a cultura, não sabem nada de nada, e assim estagnam, repetindo-se indefinidamente, papagaios perenes do seu primeiro, e único, impulse original. Temos um ou outro homem capaz de pensamento filosófico. Que faz? Submerge esse pensamento em retórica e divagação, incapaz de coordenar logicamente ideias, de dispor ordenadamente materiais. Tenho perante mim, ao dizer estas coisas, exemplos concretos: omito os nomes por uma razão que não é mister explicar. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 8. A mão posta sobre a mesa, A mão abstracta, esquecida, Margem da minha vida... A mão que pus sobre a mesa Para mim mesmo é surpresa. Porque a mão é o que temos Ou define quem não somos. Com ela aquilo fazemos [...] 11-12-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 189. Lisboa, 19 de Janeiro de 1915. Meu querido Amigo: Há tempos que lhe ando prometendo uma extensa carta. Não sei mesmo se, especificando, lhe não falei numa carta de género psicológico, a meu próprio respeito. Em todo o caso, é disso que se trata. Eu ando há muito - desde que lhe prometi esta carta — com vontade de lhe falar intimamente e fraternalmente do meu «caso», da natureza da crise psíquica que há tempos venho atravessando. Apesar da minha reserva, eu sinto a necessidade de falar nisto a alguém, e não pode ser a outro senão a você — isto porque só você, de entre todos quantos eu conheço, possui de mim uma noção precisamente no nível da minha realidade espiritual. Dá-se esta sua capacidade para me compreender porque você é, como eu, fundamentalmente um espírito religioso; e, dos que de perto literariamente me cercam, você sabe bem que (por superiores que sejam como artistas) como almas, propriamente, não contam, não tendo nenhum deles a consciência (que em mim é quotidiana) da terrível importância, da Vida, essa consciência que nos impossibilita de fazer arte meramente pela arte, e sem a consciência de um dever a cumprir para com nós-próprios e para com a humanidade. Nesta explicação aparentemente preliminar vai já exposta uma grande parte do problema. Não sei como lho hei-de expor ordenadamente; de modo perfeitamente lúcido. Mas, como isto é uma carta, eu irei expondo conforme possa; e você ordenará, em seu espírito, depois, os dispersos e alterados elementos. A minha crise é do género das grandes crises psíquicas, que são sempre crises de incompatibilidade, quando não com os outros, por certo com nós-próprios. A minha, agora, não é de incompatibilidade comigo próprio; a minha, gradualmente adquirida, auto disciplina, tem conseguido unificar dentro de mim quantos divergentes elementos do meu carácter eram susceptíveis de harmonização. Ainda tenho muito a empreender dentro do meu espírito; disto ainda muito de uma unificação como eu a quero. Mas, como disse, não é dessa banda que sopra o vento do meu desconsolo actual. A crise de incompatibilidade com os outros — não, entenda-se desde já, uma incompatibilidade violenta, como a que resultasse de divergências declaradas, nítidas, de ambas as partes. Trata-se de outra coisa. A incompatibilidade é sentida por mim, dentro de mim, e é comigo que está o peso todo da minha divergência de aqueles que me cercam. O facto de eu estar agora vivendo só, por não ter aqui família próxima (minha tia, em cuja casa eu estava, está na Suíça, onde foi ficar com a filha, que casou há pouco com um rapaz estudante, pensionista do Estado) vem agravar este estado de espírito, por me deixar a nu com a minha alma, sem afeições e interesses familiares próximos a desviar de mim a minha atenção. Temos pois que vivo há meses numa continua sensação de incompatibilidade profunda com as criaturas que me cercam - mesmo com as próximas, amigos, literários é claro, porque os outros não são indivíduos com quem eu tenha que poder ter intimidade espiritual e por isso — como, em matéria de relações sociais, me dou bem com toda a gente, dou-me bem com eles. Em ninguém que me cerca eu encontro uma atitude para com a vida que bata certo com a minha íntima sensibilidade, com as minhas aspirações e ambições, com tudo quanto constitui o fundamental e o essencial do meu íntimo ser espiritual. Encontro, sim, quem esteja de acordo com actividades literárias que são apenas dos arredores da minha sinceridade. E isso não me basta. De modo que, à minha sensibilidade cada vez mais profunda, e à minha consciência cada vez maior da terrível e religiosa missão que todo o homem de génio recebe de Deus com o seu génio, tudo quanto é futilidade literária, mera-arte, vai gradualmente soando cada vez mais a oco e a repugnante. Pouco a pouco, mas seguramente, no divino cumprimento íntimo de uma evolução cujos fins me são ocultos, tenho vindo erguendo os meus propósitos e as minhas ambições cada vez mais à altura daquelas qualidades que recebi. Ter uma acção sobre a humanidade, contribuir com todo o poder do meu esforço para a civilização vêm-se-me tornando os graves e pesados fins da minha vida. E, assim, fazer arte parece-me cada vez mais importante coisa, mais terrível missão — dever a cumprir arduamente, monasticamente, sem desviar os olhos do fim criador-de-civilização de toda a obra artística. E por isso o meu próprio conceito puramente estético da arte subiu e dificultou-se; exijo agora de mim muita mais perfeição e elaboração cuidada. Fazer arte rapidamente, ainda que bem, parece-me pouco. Devo à missão que me sinto uma perfeição absoluta no realizado, uma seriedade integral no escrito. Passou de mim a ambição grosseira de brilhar por brilhar, e essa outra, grosseiríssima, e de um plebeísmo artístico insuportável, de querer épater. Não me agarro já à ideia do lançamento do Interseccionismo com ardor ou entusiasmo algum. É um ponto que neste momento analiso e reanaliso a sós comigo. Mas, se decidir lançar essa quase-blague, será já, não a quase-blague que seria, mas outra coisa. Não publicarei o Manifesto «escandaloso». O outro — aquele dos gráficos — talvez. A blague só um momento, passageiramente, a um mórbido período transitório, de grosseria (felizmente incaracterístico), me pôde agradar ou atrair. Será talvez útil — penso — lançar essa corrente como corrente, mas não com fins meramente artísticos, mas, pensando esse acto a fundo, como uma série de ideias que urge atirar para a publicidade para que possam agir sobre o psiquismo nacional, que precisa trabalhado e percorrido em todas as direcções por novas correntes de ideias e emoções que nos arranquem à nossa estagnação. Porque a ideia patriótica, sempre mais ou menos presente nos meus propósitos, avulta agora em mim; e não penso em fazer arte que não medite fazê-lo para erguer alto o nome português através do que eu consiga realizar. É uma consequência de encarar a sério a arte e a vida. Outra atitude não pode ter para com a sua própria noção-do-dever quem olha religiosamente para o espectáculo triste e misterioso do Mundo. Tenho-lhe explicado tudo isto muito mal. Quase que me tenta a ideia de rasgar esta carta onde, até, pouca justiça fiz a mim próprio. Mas você deve compreender o que eu sinto, e, creio, regozijar comigo, através da sua amizade, por esta minha evolução ascendente dentro de mim. Regresso a mim. Alguns anos andei viajando a colher maneiras-de-sentir. Agora, tendo visto tudo e sentido tudo, tenho o dever de me fechar em casa no meu espírito e trabalhar, quanto possa e em tudo quanto possa, para o progresso da civilização e o alargamento da consciência da humanidade. Oxalá me [não] desvie disto o meu perigoso feitio demasiado multilateral, adaptável a tudo, sempre alheio a si próprio e sem nexo dentro de si. Mantenho, é claro, o meu propósito de lançar pseudonicamente a obra Caeiro-Reis-Campos. Isso é toda uma literatura que eu criei e vivi, que é sincera, porque é sentida, e que constitui uma corrente com influência possível, benéfica incontestavelmente, nas almas dos outros. O que eu chamo literatura insincera não é aquela análoga à do Alberto Caeiro, do Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos (o seu homem, este último, o da poesia sobre a tarde e a noite). Isso é sentido na pessoa de outro; é escrito dramaticamente, mas é sincero (no meu grave sentido da palavra) como é sincero o que diz o Rei Lear, que não é Shakespeare, mas uma criação dele. Chamo insinceras às coisas feitas para fazer pasmar, e às coisas, também — repare nisto, que é importante — que não contêm uma fundamental ideia metafísica, isto é, por onde não passa, ainda que como um vento uma noção da gravidade e do mistério da Vida. Por isso é sério tudo o que escrevi sob os nomes de Caeiro, Reis, Álvaro de Campos. Em qualquer destes pus um profundo conceito da vida, diverso em todos três, mas em todos gravemente atento à importância misteriosa de existir. E por isso não são sérios os Paúis, nem seria o Manifesto interseccionista de que uma vez lhe li trechos desconexos. Em qualquer destas composições a minha atitude para com o público é a de um palhaço. Hoje sinto-me afastado de achar graça a esse género de atitude. Que pouco lúcido e explícito tudo isto! Mas eu tenho que lhe escrever tudo rapidamente; é hoje o dia 19 e eu não quero deixar de conversar com o seu espírito sobre estas coisas. Como já disse, você é o único dos meus amigos que tem, a par daquela apreciação das minhas qualidades que lhe permitirá não julgar esta carta um documento de megalómano, a profunda religiosidade, e a convicção do doloroso enigma da Vida, para simpatizar comigo em tudo isto. Escuso agora de lhe explicar o quanto esta atitude — que eu, aliás, não revelo, por várias razões, desde a de ser uma coisa íntima até à de ser incompreensível às sensibilidades dos que me cercam — me incompatibiliza surdamente com os que estão em meu redor. Não é uma incompatibilidade violenta, disse; mas é uma impaciência para com todos quantos fazem arte para vários fins inferiores, como quem brinca, ou como quem se diverte, ou como quem arranja uma sala com gosto — género de arte este que dá bem o que eu quero exprimir, porque não tem Além nem outro propósito que o, por assim dizer, decorativamente artístico. E daí a minha «crise» toda. Não é crise para eu me lamentar. É a de se encontrar só quem se adiantou de mais aos companheiros de viagem — desta viagem que os outros fazem para se distrair e acho tão grave, tão cheia de termos de pensar no seu fim, de reflectir no aqui diremos ao Desconhecido para cuja casa a nossa inconsciência guia os nossos passos... Viagem essa, meu querido Amigo, que é entre almas e estrelas, pela Floresta dos Pavores... e Deus, fim da estrada infinita, à espera no silêncio da Sua grandeza... Bem ou mal — mal, por certo — expus-lhe tudo. Sinto-me contente por lhe ter falado assim, e porque sei que o seu espírito acolhe com simpatia e amizade estas minhas tristezas de altura. Tudo isto, escuso dizer-lhe, é segredo... De resto, a quem o poderia você contar?... Termino, a tempo felizmente. Mande-me quando puder, cuidadosamente copiados dos originais, os inéditos de Antero de que me fala. Pode ser que, tendo-os aqui, seja conveniente publicá-los nalguma parte. Haverá autorização para isso? É bom saber-se. Mando-lhe alguns versos meus... Leia-os e guarde-os para si... A seu Pai, se quiser, pode lê-los, mas não espalhe porque são inéditos. Amo especialmente a última poesia, a da Ceifeira onde consegui dar a nota paúlica em linguagem simples. Amo-me por ter escrito «Ah, poder ser tu, sendo eu! Ter a tua alegre inconsciência E a consciência disso!... e enfim, essa poesia toda. Tenho escrito mais, mas mando o que está completo e é mais fácil copiar. É pena que vá tudo em letra de máquina, que torna a poesia pouco poética, mas assim é mais rápido e nítido. Escreva-me sempre, meu caro Côrtes-Rodrigues. Dê cumprimentos meus a seu Pai e receba um grande e fraterno abraço do seu Fernando Pessoa P.S. - Vi há dias uma esplêndida composição — «um túmulo de Wagner — do Norberto Corrêa. Bela deveras. Você gostaria imenso de a conhecer. F.P. P.S. - Não tenho tempo para reler esta carta. Naturalmente faltam palavras aqui e acolá, dada a rapidez com que eu a escrevi. E a letra em altura nenhuma será muito legível. Você desculpe. F.P. PAÚIS Paúis que roçarem ânsias pela minha alma em ouro... Dobre longínquo d'Outros Sinos... Empalidece o louro Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minha por minha alma... Tão sempre a mesma, a Hora!... Balouçar de cimos de palma!... Silêncio da parte inferior das folhas, outono delgado D'um canto de vaga ave... Azul esquecidos em estagnado... Ó que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!... Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora?... Estendo as mãos para Além, mas no estender delas já vejo Que não é aquilo que quero aquilo que desejo... Címbalos de imperfeição... Ó tão antiguidade A hora expulsa de si-Tempo!... Onda de recuo que invade O meu abandonar-me a mim-próprio até desfalecer E recordar tanto o eu presente que me sinto esquecer... Fluido de auréola transparente de Foi, oco de ter-se... O mistério sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não conter-se... A sentinela é hirta, a lança que finca no chão É mais alta que ela... P'ra que é tudo isto... Dia chão... Trepadeiras de despropósito lambendo de Hora os aléns! Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são elos de erro! Fanfarras de ópios de silêncios futuros!... Longes trens!... Portões vistos longe, através das árvores, tão de ferro!... 29 Março 1913. II Elfos ou gnomos tocam?... Roçam nos pinheirais Sombras e bafos leves De ritmos musicais... Ondulam como em voltas De estradas não sei onde, Ou como alguém que entre árvores Ora se mostra ou esconde... Forma longínqua e incerta Do que eu nunca terei... Mal ouço e quase choro... Porque choro não sei... Tão ténue melodia Que mal sei se ela existe Ou se é só o crepúsculo, Os pinhais e eu estar triste... Mas cessa, como uma brisa, Esquece a forma aos seus ais, E agora não há mais música Do que a dos pinheirais... 25-IX-1914. III Serena voz imperfeita, eleita Para falar aos deuses mortos — A janela que falta ao teu palácio deita Para o Porto todos os portos. Faísca da ideia de uma voz soando Lírios nas mãos das princesas sonhadas Eu sou a maré de pensar-te, orlando A Enseada todas as enseadas. Brumas marinhas esquinas de sonho... Janelas dando para Tédio os charcos E eu fito o meu Fim que me olha, tristonho, Do convés do Barco todos os barcos... 6-X-1914. IV Como a noite é longa! Toda a noite é assim... Senta-te, ama, perto Do leito onde esperto. Vem pr'ao pé de mim... Amei tanta coisa... Hoje nada existe. Aqui ao pé da cama Canta-me, minha ama, Uma canção triste. Era uma princesa Que amou... Já não sei... Como estou esquecido! Canta-me ao ouvido E adormecerei... Que é feito de tudo? Que fiz eu de mim? Deixa-me dormir, Dormir a sorrir E seja isto o fim. 4-XI-1914. V Bate a luz no cimo Da montanha, vê... Sem querer, eu cismo Mas não sei em quê... Não sei que perdi Ou que não achei... Vida que vivi, Que mal eu a amei!... Hoje quero tanto Que o não posso ter. De manhã há o pranto E ao anoitecer. Tomara eu ter jeito Para ser feliz... Como o mundo é estreito, E o pouco que eu quis! Vai morrendo a luz No alto da montanha... Como um rio a flux A minha alma banha. Mas não me acarinha, Não me acalma nada... Pobre criancinha Perdida na estrada!... 4-XI-1914. VI Vai redonda e alta A lua. Que dor É em mim um amor?... Não sei que me falta... Não sei o que quero. Nem posso sonhá-lo... Como o luar é ralo No chão vago e austero!... Ponho-me a sorrir P'ra a ideia de mim... E tão triste, assim Como quem está a ouvir Uma voz que o chama Mas não sabe d'onde (Voz que em si se esconde) E Só a ela ama... E tudo isto é o luar E a minha dor Tornado exterior Ao meu meditar... Que desassossego! Que inquieta ilusão! E esta sensação Oca, de ser cego No meu pensamento, Na rainha vontade... Ah, a suavidade Do luar sem tormento Batendo na alma De quem só sentisse O luar, e existisse Só p'ra a sua calma. 4-XI-1914. VII Saber? Que sei eu? Pensar é descrer. — Leve e azul é o céu — Tudo é tão difícil De compreender!... A ciência, uma fada Num conto de louco... — A luz é lavada — Como o que nós vemos É nítido e pouco! Que sei eu que abrande Meu anseio fundo? Ó céu real e grande, Não saber o modo De pensar o mundo! 4-XI-1914. VIII Sopra de mais o vento Para eu poder descansar... Há no meu pensamento Qualquer coisa que vai parar... Talvez essa coisa da alma Que acha real a vida... Talvez esta coisa calma Que me faz a alma vivida... Sopra um vento excessivo... Tenho medo de pensar... O meu mistério eu avivo Se me perco a meditar. Vento que passa e esquece, Poeira que se ergue e cai... Ai de mim se eu pudesse Saber o que em mim vai! 5-XI-1914. IX Chove?... Nenhuma chuva cai... Então onde é que eu sinto um dia Em que o ruído da chuva atrai A minha inútil agonia? Onde é que chove, que eu o ouço? Onde é que é triste, ó claro céu? Eu quero sorrir-te, e não posso, Ó céu azul, chamar-te meu... E o escuro ruído da chuva É constante em meu pensamento. Meu ser é a invisível curva Traçada pelo som do vento... E eis que ante o sol e o azul do dia, Como se a hora me estorvasse, Eu sofro... E a luz e a sua alegria Cai aos meus pés como um disfarce. Ah, na minha alma sempre chove. Há sempre escuro dentro em mim. Se escuto, alguém dentro em mim ouve A chuva, como a voz de um fim ... Quando é que eu serei da tua cor, Do teu plácido e azul encanto, Ó claro dia exterior, Ó céu mais útil que o meu pranto? 1-XII-1914. X Ameaçou chuva. E a negra Nuvem passou sem mais... Todo o meu ser se alegra Em alegrias iguais. Nuvem que passa... Céu Que fica e nada diz... Vazio azul sem véu Sobre a terra feliz... E a terra é verde, verde... Porque então minha vista Por meus sonhos se perde? De que é que a minha alma dista? XI Ela canta, pobre ceifeira, Julgando-se feliz talvez... Canta e ceifa, e a sua voz cheia De alegre e anónima viuvez Flutua como um canto de ave No ar limpo como um limiar, E há curvas no enredo suave Do som que ela tem a cantar... Ouvi-la alegra e entristece... Na sua voz há o campo e a lida, E canta como se tivesse Mais razões p'ra cantar que a vida... E com tão nítida pureza A sua voz entra no azul Que em nós sorri quanto é tristeza E a vida sabe a amor e a sul! Canta!... Arde-me o coração... O que em mim ouve está chorando... Derrama no meu peito vão A tua incerteza voz ondeando... Canta e arrasta-me p'ra ti, P'ra o centro ignoto da tua alma, E que um momento eu sinta em mim O eco da tua alada calma... Ah! poder ser tu, sendo eu! Ter a tua alegre inconsciência E a consciência disso! Ó céu, Ó campo, ó canção,... a ciência Pesa tanto e a vida é tão breve... Entrai por mim dentro, tornai Minha alma a vossa sombra leve... Depois, levando-me, passai... XII Meu pensamento é um rio subterrâneo. Para que terras vai e d'onde vem? Não sei... na noite em que o meu ser o tem Emerge dele um ruído subitâneo De origens no Mistério extraviadas De eu compreendê-las..., misteriosas fontes Habitando a distância de ermos montes Onde os momentos são a Deus chegados... De vez em quando luze em minha mágoa, Como um farol num mar desconhecido, Um movimento de correr, perdido Em mim, um pálido soluço de água... E eu relembro de tempos mais antigos Que a minha consciência da ilusão Águas divinas percorrendo o chão De verdores uníssonos e amigos, E a ideia de uma Pátria anterior À forma consciente do meu ser Dói-me no que desejo, e vem bater Como uma onda de encontro à minha dor. Escuto-o... Ao longe, no meu vago tacto Da minha alma, perdido som incerto, Como um eterno rio indescoberto, Mais que a ideia de rio certo e abstracto... E p'ra onde é que ele vai, que se extravia Do meu ouvi-lo? A que cavernas desce? Em que frios de Assombro é que arrefece? De que névoas soturnas se anuvia? Não sei... Eu perco-o... E outra vez regressa A luz e a cor do mundo claro e actual, E na interior distância do meu Real Como se a alma acabasse, o rio cessa... 19-1-1915 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 43. Os problemas ibéricos são três, no que respeita a problemas internos: (1) A remodelação do estado espanhol, reavendo-se Gibraltar. (2) A integração do estado português, pela reintegracão de Albuquerque e Olivença, e a anexação da Galiza. (3) A aliança ibérica, como defesa do comum solo espiritual, invadido culturalmente pela França, e dividido territorialmente pela política da Inglaterra. Já o problema da Galiza se não assemelha ao problema catalão. O incerto separatismo galego também não pode visar a independência da região, mas já pode visar, sem crime de lesa-Ibéria, a integração no estado português. Há tantas razões para a Galiza ser região espanhola, como para ser parte de Portugal (não digo “região portuguesa”, porque Portugal é uno). Integrada na Espanha, a Galiza segue uma continuidade histórica e não perde pé no valor civilizacional. Integrada em Portugal, fica parte do estado a que por natureza e raça pertence, e também não perde pé no valor civilizacional, porque passa a ser parte de outra nação europeia definida civilizacionalmente. A Catalunha, porém, só tem que escolher entre as desvantagens menores da sua integração, como até aqui em Espanha, embora, porventura, com outras regalias, e as desvantagens maiores da sua independência absoluta. Ninguém na Ibéria lhe dá licença que escolha a terceira, a ignóbil hipótese, que seria a união com a França, a que parece secretamente visar parte da tendência catalanista. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 21. ECOLALIA INTERIOR O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D.Sebastião em série fotográfica do Grandela. No meio disto (tudo), a República não acaba. Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia. É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado. O Atlântico continua no seu lugar, até simbolicamente. E há sempre Império desde que haja Imperador. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 3. A Catalunha está para a Espanha exactamente como a Provença para a França. Em ambos os casos a nação cultural se sobrepôs às nações naturais. Quem da posteridade saberá, salvo só por sabê-lo, que houve catalão, que houve provençal, ou, mesmo, que houve holandês ou qualquer das línguas escandinavas? Ninguém. Só as línguas imperiais sobrevivem. Só as línguas dos povos que criam império têm direito ao futuro, e, portanto, ao presente nacional. Nós portugueses, somos um povo pequeno, mas somos um povo imperial, cuja língua alastrou por sobre o mundo, que criámos civilização, e não simplesmente a vivemos. Por que razão deve Catalunha viver subordinada a Castela? Pela razão de que [...] Ingleses, franceses, italianos, alemães, espanhóis, portugueses — todos criámos civilização, os outros viveram a civilização que qualquer de nós criou. A maior conquista que os impérios fazem é a conquista da posteridade. A conquista da posteridade, a língua imperial a grava nos muros da eternidade, a latteras de fogo. A Holanda quase que criou civilização mas a sua obra histórica, de relevo comercial e não cultural, não teve força para subsistir culturalmente. É como se não houvesse existido. Só os Bóeres, na extrema África, a registam. São óptimos lavradores e lêem a Bíblia todos os domingos. Vivi e sei, infelizmente. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 20. Várias vezes, no decurso da minha vida opressa por circunstâncias, me tem sucedido, quando quero libertar-me de qualquer grupo delas, ver-me subitamente cercado por outras da mesma ordem, como se houvesse definidamente uma inimizade contra mim na teia incerta das coisas. Arranco do pescoço uma mão que me sufoca. Vejo que na mão, com que a essa arranquei, me veio preso um laço que me caiu no pescoço com o gesto de libertação. Afasto, com cuidado, o laço, e é com as próprias mãos que me quase estrangulo. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 20. A acção civilizacional, pela qual dominámos de leste a oeste da terra, portugueses e espanhóis, e criámos a América, não foi senão um desvio necessário do nosso imperialismo nativo. Entendamo-nos. Foi um desvio da nossa ibericidade comum. Não foi um desvio da nossa errada existência separada de Portugal e Espanha. Portugal, no que apenas Portugal, tinha, a construir um imperialismo, que construir um imperialismo marítimo, baseado naquelas descobertas que a sua situação geográfica lhe impunha, a que a sua situação geográfica o crucificava. Espanha, no que apenas Espanha, tinha que seguir esse movimento, num sentido, e, ao mesmo tempo, criando um imperialismo, expandir-se para o lado da Europa. A personalidade dispersa da Ibéria expandiu-se, então, em duas direcções: na direcção do imperialismo colonialista, criado então, e na direcção do vulgar imperialismo de domínio, que Filipe II realizou. A própria dupla direcção imperialista implica, ilustra, a íntima dispersão da personalidade natural da Ibéria península. O facto de cairmos — nós, portugueses — sob o domínio espanhol, estava escrito no género de imperialismo que havia aparecido na península. Gerado na península um imperialismo de conquista e de expansão, como não havia ele de surgir dentro da península; e, surgindo adentro da península, como não surgir no povo maior e mais apto a dominar por isso mesmo que não era o povo dos descobridores, mas o que — a própria situação geográfica o indica!— devia seguir às descobertas com a conquista. Foi uma inevitável divisão de trabalho que foi funesta para Portugal. O que mostra, porém, ao mesmo tempo que a acção civilizacional do antigo Portugal e da antiga Espanha estava errada ibericamente é que, de todo esse imperialismo marítimo, colonial e europeu, não surgiu um imperialismo cultural. Sim, portugueses e espanhóis, dominámos aquém e além-mar; mas nunca houve uma civilização comum a nós dois. É a demonstração plena de que os nossos imperialismos não representavam uma expressão perfeitamente natural, hígida, dos fins rácios imanentes. Há um imperialismo alemão, mas há também uma cultura alemã, coisa inconfundível e vincada. Há um imperialismo francês (ou houve, datando da Revolução), e nas próprias ideias dessa Revolução, somadas às do anterior ancien régime, há uma coisa a que se chama cultura francesa. Há um imperialismo inglês e há (embora muita gente o não saiba) uma coisa extraordinariamente nítida chamada a cultura inglesa, que se manifestou, na sua acção europeia, pela política. Qual era o conteúdo cultural da expansão portuguesa ou da expansão espanhola? Tipicamente nenhum. Havia o catolicismo; mas esse era estrangeiro, e não era novo. Isto, porém, leva-nos mais longe. Visto que, apesar de nações separadas, tivemos uma acção imperialista, podemos ser imperialistas. Visto que separados, essa acção imperialista resultou incompleta (porque nunca floresceu em uma cultura ibérica, ou separadamente espanhola e portuguesa), a termos um verdadeiro imperialismo, devemos tê-lo conjuntamente, ibericamente. Visto que, criando um imperialismo colonial e europeu, nada conseguimos, de nosso, que não fosse apenas proveitoso para outros povos [...] deve ter outro sentido o nosso imperialismo conjunto. O nosso passado imperialista deve servir-nos para nos dar o orgulho em que o imperialismo se baseia. Como a tradição do velho império alemão alimentou aqueles românticos alemães modernos por quem o orgulho alemão, renascendo, veio, nas mãos de Bismarck, a criar o grande império actual; assim, façamos da noção orgulhosa do nosso antigo domínio a base para o nosso diferentíssimo domínio futuro. E como o imperialismo alemão actual nada tem de comum com o outro, salvo o ser um império; também o nosso imperialismo futuro nada tenha de comum com o passado, salvo o ser imperialismo. Rejeitamos, na sua realização recordada, a lição do passado; aceitamos o espírito do que fomos para renascermos. Deixemos descer à vala o corpo dos impérios que tivemos; ressuscitemos o seu espírito, no que orgulho, ânsia de domínio, glória de expressão. Uma das coisas necessárias é desfazermo-nos de todos os elementos do passado que possam pesar sobre a nossa delineação cultural. Devem desaparecer as colónias portuguesas. As colónias portuguesas são uma tradição inútil. Nós não temos o direito de ter colónias. Na nossa mão, elas não nos servem, não servem aos outros, e pesam sobre nós, alimentando uma tradição funesta, que foi bela enquanto foi glória inútil, porque foi glória; mas tendo deixado de ser glória, ficou sendo inutilidade apenas. Que o imperialismo seja a nossa tradição; e não o imperialismo colonialista e dominador! Possamos dizer, reproduzindo num sentido local as palavras com que Nietzsche fecha o “Anti-Cristo”: Desde este dia, em toda a Ibéria, Transformação de todos os valores! (end) s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 25. comentário maior às profecias do bandarra I. Propósito do Livro. II. AVoz Profética. III. O Bandarra e as suas Profecias. IV. O Quinto Império. V. O Império Português. VI. D. Sebastião. VII. Os Perigos Maiores (As Três Invasões). VIII. Os Perigos Menores (Os Três Perigos). IX. Os Falsos Encobertos (D. João IV, Pombal, Sidónio). X. As Épocas da Civilização. XI. O Cumprimento das Profecias. (C[orpo] 3, s[onho]6.º). XII. Conclusão. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 38. Ó ervas frescas que cobris As sepulturas, Vosso verde tem cores vis A meus olhos, já servis De conjecturas. Sabemos bem de quem viveis Ervas do chão, Que sossego é esse que fazeis Verde na forma que trazeis Sem compaixão. Ó verdes ervas, como o azul medo Do céu sem Ser, Cunhado como entre segredo Da vida viva, e outro degredo Do infindo haver. Tenho um terror com todo eu Do verde chão... Ó Sol, não baixes já no céu, Quero um momento ainda meu Como um perdão. 14-6-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 131. INTRODUÇÃO GERAL São três os pontos essenciais da profética do Bandarra: o Quinto Império, a ida e regresso de El-Rei D. Sebastião, e os destinos de Portugal. O primeiro ponto preocupa-o em comum com toda a profética europeia, e, em certo modo, a hebraica; o segundo ponto preocupa-o mais que a outros profetas, estranhos A nossa nação; como, porém, em um dos seus sentidos, o “regresso” de D. Sebastião se prende com a mesma ideia do Quinto Império, não faltam em profetas estranhos, e nomeadamente em Nostradamus, alusões inequívocas — que veremos — a este “regresso”. E só no que diz especialmente respeito aos destinos mais particulares de Portugal — isto é, aos destinos de Portugal naqueles pormenores que só episodicamente se prendem com o “regresso” de D. Sebastião, ou de todo com ele se não prendem, que, como é natural, o Bandarra é o único a preocupar-se, ou, antes, ele e os outros poucos profetas nacionais, pois é matéria que não interessa aos estrangeiros. O que nos cumpre, pois, explicar nesta Introdução Geral, é o que seja esta ideia do Quinto Império, ilustrando-a com os exemplos da profética estranha; o que seja esse “regresso”, ou, antes, como veremos, os “regressos” de El-Rei D. Sebastião; e também que linha geral segue a profética do Bandarra no que se refere aos destinos gerais da nação, estejam, ou não estejam, ligados aos da simbólica figura do último Rei da dinastia de Avis. Seguiremos, nesta explanação, a ordem que apontámos, sendo que ela é a ordem de importância decrescente, para a civilização em geral, da matéria profetizada. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 39. Há quanto tempo não canto Na muda voz de sentir. E tenho sofrido tanto Que chorar fora sorrir. Há quanto tempo não sinto De maneira a o descrever, Nem em ritmos vivos minto O que não quero dizer... Há quanto tempo me fecho À chave dentro de mim. E é porque já não me queixo Que as queixas não têm fim. Há tanto tempo assim duro Sem vontade de falar! Já estou amigo do escuro Não quero o sol nem o ar. Foi-me tão pesada e crescida A tristeza que ficou Que ficou toda na vida. Para cantar não sonhou. 14-6-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 133. Raros são os interpretadores de profecias que não usam de tergiversação. Ora adoptam um critério interpretativo, ora outro, para que as palavras da expressão profética se conformem com os preconceitos que formaram; ora forçam essas palavras para fora de toda possibilidade de sentido humano, místico ou não. O que convém fazer, em matéria de interpretação profética, é, antes de mais nada, fixar o sistema, pelo qual as vozes proféticas hão-de ser interpretadas; depois de aplicar implacavelmente esse sistema a essas vozes, não curando de se o resultado nos agrada ou não, de se as datas (onde há datas) se conformam com as que esperamos ou esperaríamos. Há muitas vezes acontecimentos cuja importância é velada no tempo em que se dão, e nos tempos que se lhe seguem. Os acontecimentos chamados homens de génio são exemplos típicos; nenhum, ou quase nenhum, homem de génio é conhecido como tal, ou como tal devidamente apreciado em sua época e na época a ela próxima, e, por isso, aos que vivem em essa época, as datas de sua vida serão, se apontadas em profecia, ou tomadas por sem sentido nenhum (o que será raro, dada a mente conturbada dos interpretadores de profecias) ou transposta para outros acontecimentos, sem razão fundamentada, fora da apetência da época, para serem profetizadas s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 58. Tudo quanto penso, Tudo quanto sou É um deserto imenso Onde nem eu estou. Extensão parada Sem nada a estar ali, Areia peneirada Vou dar-lhe a ferroada Da vida que vivi. [...] 11-3-1935 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 190. Ó sorte de olhar mesquinho E gestos de despedida, Apanha-me do caminho Como a uma coisa caída... Resvalei à via velha Do colo de quem sonhava. Leva-me como na celha O sabão de quem lavava... Quem quer saber de quem fora Quem eu fora se outro fosse... Olha-me e deita-me fora Como quem farta de doce. 24-6-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 135. Bandarra Assim como a inteligência dialéctica, que tem nome razão, domina e compõe todos os elementos, com que se forma o conhecimento científico, assim também a inteligência analógica, que não tem nome especial, domina e compõe todos os elementos de que se forma o conhecimento oculto. A perfeição da obra material é um todo perfeitamente ordenado, em que cada parte tenha seu lugar e em seus modo e grau concorra para a formação do todo; a perfeição da obra espiritual é a correspondência exacta entre o interior e o exterior, entre a “alma” e o “ corpo”, de sorte que o conhecimento de um envolva necessariamente o conhecimento completo do outro. A Grande Obra é aquela em que o “metal” , sendo composto, segundo a razão, de modo a ser o “ouro”, material perfeito, seja, no mesmo acto, composto, segundo a analogia, de modo a ser o “ouro” espiritual simbolizado. Nestas palavras vai a distinção íntima entre a produção artificial do “ouro” segundo a alquimia, e essa mesma produção segundo a ciência. Em ambos casos o “ouro” material será idêntico como matéria, mas o ouro que a ciência produzir não será mais que ouro pois que, ao fabricá-lo, ela não buscou produzir senão ouro, e o “ouro” que a alquimia produzir será mais que ouro, pois que, ao fabricá-lo, ela buscou produzir, não só o ouro, senão também o segredo do ouro, ou o segredo áureo. O ouro da ciência será igual ao ouro da Natureza como efeito; o ouro da alquimia igual ao ouro da Natureza não só como efeito, senão também como causa s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 57. Dói-me quem sou. E em meio da emoção Ergue a fronte de torre um pensamento. É como se na imensa solidão De uma alma a sós consigo, o coração Tivesse cérebro e conhecimento. Numa amargura artificial consisto, Fiel a qualquer ideia que não sei, Como um fingido cortesão me visto Dos trajes majestosos em que existo Para a presença artificial do rei. Sim, tudo é sonhar quanto sou e quero. Tudo das mãos caídas se deixou. Braços dispersos, desolado espero. Mendigo pelo fim do desespero, Que quis pedir esmola e não ousou. 26-7-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 136. Depois que todos foram E foi também o dia, Ficaram entre as sombras Das áleas do ermo parque Eu e a minha agonia. A festa fora alheia E depois que acabou Ficaram entre as sombras Das áleas apertadas Quem eu fui e quem sou. Tudo fora por todos. Brincaram, mas enfim Ficaram entre as sombras Das áleas apertadas Só eu, e eu sem mim. Talvez que no parque antigo A festa volte a ser. Ficaram entre as sombras Das áleas apertadas Eu e quem sei não ser. 26-7-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 137. Propomo-nos, n'este trabalho, lançar as bases d'uma orientação geral, política sobretudo, que nos parece que as gerações recentíssimas poderiam sem hesitação tomar. Ao mesmo tempo que estabelecemos — constatamos — uma teoria geral do Estado, vincamos uma teoria especial do que deva ser o estado português do futuro, e, desenvolvendo-a, explicamos sobre que fundamentos rigorosamente sociológicos deve assentar uma teoria completa da organização do estado português. Há anos que, sem nexo ou propósito, avançamos sem saber para onde, nenhuma guia dentro de nós nem algum determinado o fim que nos propomos atingir. Urge determinar e delimitar. Importa definir e estabelecer. D'aí o intuito realizado d'esta obra, que com tanto mais amor e escrúpulo é feita, que ninguém outro a poderia fazer. O que se tem feito entre nós, n'este, nacional e construtivo, sentido, mais não tem sido do que névoa de renascimento, fímbria e orla de melhorar. Não podemos eternamente ficar n'um vago quanto ao que urge procurar, nem n'uma distância quanto ao que importa fazer. D'aí, repetimos, a execução laboriosa d'esta obra, e a sua íntima concatenação sob espécie de nacionalidade e lógica, serena sobre base de estudada, firme em ameias de congruente. Todo o futuro está em nós. Chamemo-lo pelo seu claro nome à superfície do presente; estudemo-lo, no como deva ser; demos asas ao seu estado actual de possível, e ele será actual um dia, luminosamente, entre outras gerações que colham, solícitas, o ouro fecundo do trigo que semeáramos, levando para a sua alma a ondulação extensa das messes e sóbria fartura dos campos cultivados. Tudo isto parece palavras, mas é a emoção final do trabalho concluído, levado a fim entre estreitezas de análise constante, para que obstáculos não cresçam. Ite, missa est. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 206. Vai leve a sombra Por sobre a água. Assim meu sonho Na minha mágoa. Como quem dorme Esqueço a viver. Despertarei Ao sol volver. Nuvem ou brisa, Sonho ou [...] dada Faz sentir; passa, E não foi nada. 3-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 139. Rua Passos Manoel, 24, 32, E. — Lisboa, 18 de Março de 1913 — Querido Amigo: Diversas circunstâncias, de mínimo relevo artístico cada uma, têm sido salteadoras do meu tempo. Por isso não lhe escrevi ainda, como creio, prometera. A sua amizade e bondade ter-me-ão desculpado ante si-próprio. Dê-me notícias, se as houver, quanto ao panfleto. Pouco mais ou menos quando conta que possamos arremessar o primeiro número sobre os esmigalhandos? Combina-se ou não que fique semanal? Continuo a achar vantajoso que assim venha a ser. Até ao fim d'este mês prepararei os dois primeiros números meus. O primeiro d'estes é a «História Cómica» de que lhe falei; o segundo deve ser, ou um outro ataque ao Af[onso] C[osta], ou uma «Carta a um Monárquico» (o título é provisório), que é naturalmente aquilo que temos que fazer para nos livrarmos de ser encolegados pelo Dia, Ridículos, etc. N'essa «Carta» ponho de modo novo o problema político actual, e mostro a necessidade de ser republicano com argumentos ainda virgens. Depois lhe exporei o assunto. Este deve ser o 4º folheto, porque são meus o lº e 3º, e este, meu, naturalmente terá de ser a Carta ao França. No princípio de abril vai sair também um folheto do Víctor Falcão e outro tipo cujo nome me não chega até à memória n'este momento — chama-se (o folheto) A Cambada e vender-se-á a 20 réis. — Não creio que nos venha a fazer senão bem, pelo contraste. Recebi há dias do Mário de Sá-Carneiro um conto magnífico que lhe hei-de ler quando v. aqui vier. N'este conto está bem toda a ânsia de Além, a tortura de estar aqui que o autor, comummente connosco, vive. É muito interessante. V. não se esqueça de me ter informado sobre os seus movimentos, para eu saber para onde tenho que dirigir cartas para si. Muito menos se esqueça de me participar as suas vindas a Lisboa. Vou lavar a alma esta semana (em humano isto quer dizer, pôr em ordem os meus papéis para me orientar sobre o que há que se aproveite para fins agressivos). Enquanto faço isso, vou escrevendo a «História Cómica» que está (o que há d'ela) reunida, e aqui na minha pasta. Não se esqueça de me escrever, ainda que seja para me dizer que me não pode escrever. Sempre é escrever-me. Um abraço do seu amigo e admirador dedicadíssimo (a) Fernando Pessoa. (In another paper:) Em vez de Post-scriptum: Mando quatro poesias do Camillo Pessanha. Por lealdade espontânea para com o ineditismo do autor, peço a v. que as mostre ao menor número possível de gente. Sei que v. assim fará, mas sempre queria lembrar. O seu (a) F. Pessoa. (The four poems are: Tatuagens, O meu coração desce..., Passeia no jardim... and Violoncelos). 18-3-1913 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 207. Árvore verde, Meu pensamento Em ti se perde. Ver é dormir Neste momento. Que bom não ser estando acordado! Também em mim Enverdecer Em folhas dado! Tremulamente Sentir no corpo Brisa na alma! Não ser quem sente, Mas tem a calma... Eu tinha um sonho Que me encantava. Se a manhã vinha, Como eu a odiava! Volvia a noite, E o sonho a mim. Era o meu lar, Minha alma afim. Depois perdi-o. Lembro? Quem dera! Se eu nunca soube O que ele era. 3-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 140. We shall move from private poets to public anthologies. Tennyson, as a useless whole, occupies nearly a thousand double-column pages. How much Tennyson will occupy [in] the perhaps less than a thousand simple pages of the future complete English Anthology? One thing that will happen, unless, with the progress of popular education (democracy) we grow progressively less rational, is the careful sifting, generation after generation, of absolute from relative values. One kind of relative value dies by death — the relative value that is absolute in respect of its own age. (We have spoken of it above). But there is another, and a subtler, kind of relative value — it is the relative value which is absolute out of respect of its own age. A man who, in the eighteenth century, happened, by some unknown mental trick, to write something like bad Tennyson or worse Mallarmé, would be an astonishing phenomenon in his time. He would attract our present historical attention by virtue of that extraordinary departure from his times; he would be called a genius and a forerunner, and he would have the concrete right to both titles. But bad Tennyson or worse Mallarmé would become bad Tennyson and worse Mallarmé as soon as there were a Tennyson and a Mallarmé, and the relative value would be flagrantly relative; it would become historical and not poetical. What would be such a man’s position? (in the final scheme of celebrity?) He would have done an easy thing when it was difficult — that is all. But a genius is a man who does a difficult thing, even when it is easy. The central thing about real great geniuses is that they are not forerunners. The very instance that the word arouses defines the case: that John the Baptist was Christ’s forerunner means that he was unimportant in comparison with Christ. But all our culture and greater latitude of experience both of culture and of sensation will not lead us to make “Lycidas” the forerunning of anything, unless that something be worth far less than “Lycidas”. Shakespeare’s phrasing is imitable — it is, indeed, very easy to imitate — but Shakespeare’s genius is not. It is curious to see how many great poets (artists) are implicit in earlier lessers; more curious still to distinguish in what cases there has been a mere forerunning, in what a casual influence. But the essence of a great artist is to be explicit, and what was implicit was only implicit. There is hardly any, if any, great artist in the world for whom a definite forerunner cannot be found. Each artist has a typical style; yet in almost every case, if not in every one, that typical style was already shadowed in a former artist of no importance. Whether there was a vague influence in the undercurrents of the age, which the first caught vaguely and the second clearly; whether there was a chance inspiration, like an outward thing in the former, which the latter, by direct contact, wakened in his temperamental brain into a definite inner inspiration; whether the two cases were consubstantial — not one of the hypotheses matters, except historically. The genius will be the final product; and he will be as final after as before. The practicality of our times has had some artistic advantage, especially in literature. No detective story of to-day could be written in the style of “Tom Jones”. We have become dramatic (however bad our dramas may be) and wish our novels to be as direct as dramas. This is a natural and a sane exigency. (Such dramas as Bernard Shaw’s are survivals of an earlier tendency; they are anything but modern in their delaying thinkingness). s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 219. 14 DE MAIO Vendo que o Rei era a pessoa em quem estava na realidade todo o poder, João Franco decidiu, para obter o poder, conquistar o Rei. Comprou-o mediante a chamada «liquidação dos adiantamentos» e mediante a promessa de aumento da lista civil. Foi de uma absoluta lucidez n'este ponto. João Franco foi ao poder como representante das classes médias do país. O seu primeiro erro era inevitável; além de representar a estas, tinha, para se segurar no poder, de representar as classes propriamente conservadoras — reaccionárias mesmo —, o que com tanto menos custo fazia, quanto o seu temperamento a isso o levava. Levou consigo um grupo de administradores e de inteligentes como não tem, recentemente, nenhum partido monárquico ou republicano. Isto como representante das classes-médias. Mas como representante das classes conservadoras levou consigo, também, elementos altamente reaccionários cuja acção era perniciosa. Com liberalismo salvava a monarquia e radicava-a. Mas se fosse liberal, perdia grande parte do seu apoio. Nem, mesmo, por feitio, podia ser liberal. Pimenta de Castro foi o mais puro representante das classes-médias que foi ao poder em Portugal. Reflectiu perfeitamente a sua ânsia de paz, de tolerância e de liberdade. Caiu. A aliança, no papel de combate ao governo, de republicanos, dissidentes, regeneradores e progressistas, no período da ditadura franquista, é dos fenómenos de mais interesse para o sociólogo, que se podem encontrar. Ele é de uma alta importância. João Franco foi um criador de Ordem e de Disciplina. Ergueu contra si toda a indisciplina e toda a desordem. A linha de evolução era do rotativismo para a república — porque entre os rotativos e os republicanos havia semelhanças radicais. João Franco foi um desvio. Pimenta de Castro foi outro desvio. Só a desordem pode mandar em Portugal. (Domina sempre, em qualquer país, o partido que consiga organizar os elementos mais representativos do estado actual d'esse país, o partido que consiga organizar-se no sentido da atitude, ao momento, do psiquismo nacional.) N'um país anarquizado quem domina é o partido que consiga organizar a anarquia. J[oãoJ Franco e P[imenta] de Castro falharam pelas seguintes razões: (1) Representando as classes-médias — o que estava bem — representavam classes ainda não organizadas para apoiar esse seu representante. Em ambos os casos havia apoio parcial, como o conjunto do comércio ao ministro Schroeter; como o voto da Associação dos Proprietários apoiando o general Pimenta de Castro. Mas, nas classes-médias em geral não houve, nem há, organização política coerente. Não há partido burguês em Portugal — partido, realmente constituído, que possa apoiar um homem de governo que no poder represente, espontaneamente, essas classes. (2) Representavam sobretudo uma secção das classes médias directamente. J[oão] Franco era representante directo [da] parte conservadora (reaccionária, mesmo) das classes médias. P[imenta] de Castro representava sobretudo o exército, a oficialidade. Por isso mesmo que essas classes médias não estavam organizadas no seu conjunto, só a parte organizada podia mandar ao poder um homem seu. (3) Essa pequena representatividade levou qualquer dos ditadores a procurar criar-se um apoio. Isso levou-a a transigências perigosas; perigosas, claro está, sob o ponto de vista da táctica política. Assim, J[oão] Franco não podia deixar de servir os reaccionários. Caiu por causa d'isso. P[imenta] de Castro não podia deixar de servir os monárquicos, as elites nos comandos, para ver se as integrava na República. Com uma apta organização das classes médias tudo isso seria inútil. O problema político principal, entre nós, hoje, é, pois, a organização política da burguesia. Até aqui, por causa (1) das condições políticas do país, (2) da não-organização das elites burguesas, tem-se posto o carro antes dos bois. Ambas as ditaduras burguesas quiseram obter 1º o poder para depois criarem apoio. Vimos que as classes médias devem dominar, que não é esse o caso porque não estão organizadas para isso. O 1º problema imediato da política portuguesa é, pois, a organização política das classes-médias. Vimos que quem domina hoje em Portugal é tudo quanto seja representativo da anarquia, da desonestidade, da incompetência e da inércia; que esse domínio se apoia em (1) teses revolucionárias importadas da França; (2) o estado social (e político) de coisas criado pela monarquia — arrebanhamento na inércia das populações rurais; (3) o estado de coisas criado pela república revolucionária — arrebanhamento na destruição e no barulho das populações citadinas. Vimos, finalmente, que não há maneira de obter o poder em Portugal, hoje, senão à força. O terceiro problema imediato da política portuguesa é, pois, organizar a contra-revolução. Estes três problemas ligam-se n'um só, que é problema nacional imediato: destruir a destruição, (...) s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 208. Vou em mim como entre bosques, Vou-me fazendo paisagem Para me desconhecer. Nos meus sonhos sinto aragem, Nos meus desejos descer. Passeio entre arvoredo Nos meandros de quem sinto Quando sinto sem sentir... Vaga clareira de instinto, Pinheiral todo a subir... Sorriso que no regato Através dos ramos curvos O sol, espreitando, achou. Fluir de água, com tons turvos, Onde uma pedra adensou. Grande alegria das mágoas Quando o declive da encosta Apressa o passo ou querer... De que é que a minha alma gosta Ser que eu tenho de saber. Muita curva, muita coisa, Todas com gentes de fora Na alma que sinto assim. Que paisagem quem se ignora! Meu Deus, que é feito de mim? 4-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 142. If we hesitate in pitying the drug fool who saturates cocaine with himself, why should we pity the sillier doper who takes speed instead of cocaine? In Renascence times, life was swifter and more sanely feverish than in ours. Sir Philip Sidney was an ambassador at sixteen (...). The slowness of our life is such that we do not consider ourselves old at forty. The speed of vehicles has taken the speed out of our souls. We live very slowly and that is why we are so easily bored. Life has become a countryside to us. We do not work enough and we pretend to work too much. We move very quickly from one point where nothing is being done to another point where there is nothing to do, and we call this the feverish haste of modern life. It is not the fever of hurry, but the hurry of fever. Modern life is an agitated leisure, a shrinking within agitation from ordered motion. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 222. MARCHA FÚNEBRE Com lixo, dinheiro dos outros, e sangue inocente, Cercada por assassinos, traidores, ladrões (a salvo) No seu caixão francês, liberalissimamente, Em carro puxado por uma burra (a do estado) seu alvo, (…) Passa para além do mundo, em uma visão desconforme, A República Democrática Portuguesa. O Lenine de capote e lenço, Afonso anti-Henriques Costa. Mas o Diabo espantou-se: aqui entram bandidos Até certo ponto e dentro de certo limite. Assassinos, sim, mas com uma certa inteligência. Ladrões, sim, mas capazes de uma certa bondade. Agora vocês não trazem quem tivesse tido a decência De ao menos ter uma vez dito a razão ou verdade. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 209. Meus versos são meu sonho dado. Quero viver, não sei viver, Por isso, anónimo e encantado, Canto para me pertencer. O que salvamos, o perdemos. O que pensamos, já o fomos. Ah, e só guardamos o que demos E tudo é sermos quem não somos. Se alguém sabe sentir meu canto Meu canto eu saberei sentir. Viverei com minha alma tanto Tanto quanto antes vivi. 4-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 144. Professional improbity and inefficiency are perhaps the distinctive characteristics of our age. The old artificer had to do work; the present workman has to make a machine work. He is a mere slave-driver of metals; he becomes as coarse-grained as a driver of slaves, but less interesting, because he cannot even be called a tyrant. As the slave-driver becomes a slave to slave-driving and so gets the mind of a slave, though of a luckier slave, so the machine-driver becomes a mere biotic lever, a sort of starting arrangement tagged on to an engine. Taking part in mass production may leave a man a decent human being; it really is so low a thing that he need not be affected by it. But taking part in mass production does not leave a man a decent human workman. Efficiency is less complex to-day. Inefficiency can therefore easily pass as efficiency, and be, indeed, efficient. The only arts and crafts in which we see some striving after perfection or achievement are the absence of arts and crafts — that is to say, those activities which are called sports and games and used to be considered, not as things in which to strive for something, but things in which to rest from striving. It is futile to cite the Greeks. The Greeks strove to be perfect in everything they did — in sports and games because also in poetry and reasoning. Our poets write poetry anyhow; our reasoners think anyhow. Only our runners really run, because they are running nowhere. The Greeks lusted for fame in sports because they lusted for fame in everything; we lust for fame in sports and hobbies because we can lust for fame in nothing else. The exuberant activity of a child has no resemblance to the exuberant activity of acute mania. Speed dopers, film cardboarders... We do not even admire beauty: we admire but the translation of it. Every street has several girls not less beautiful than the film face-girls. Any office throws out at lunch time young men as good-looking as the film hollow men. Stupid as a Mary Pickford or a Rudolph Valentino. No joke ever came out of Hollywood. That poor fool Segrave... They do not fall in some silly corner of duty, but in the sillier open spaces of vanity. They have no status above the dandy and the swaggerer except the bad taste of the daring and the height of the swagger (vanity, impudence). They lose their lives not like heroes but like animals; as these blunder into danger, those blunder into chance. Cowardice only seems a virtue when courage is hidden under these. (thus defiled) Except the Germans and the Russians, no one has as yet been able to put anything like art into the cinema. The circle cannot be squared there. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 222. Um dia baço mas não frio... Um dia como Se não tivesse paciência pra ser dia, E só num assomo, Num ímpeto vazio De dever, mas com ironia, Se desse luz a um dia enfim Igual a mim, Ou então Ao meu coração, Um coração vazio, Não de emoção Mas de buscar, enfim — Um coração baço mas não frio. 18-3-1935 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 191. AFONSO COSTA O Afonso é miguelista, Meu amigo integralista… Não arrepanhe os cabelos!... Miguelista, porque é ele Partidário do Miguel — Do Miguel de Vasconcellos. Em francos estrangeiros Quanto é trinta dinheiros? Quis a Finança (a Internacional) Entregar-lhe o entregar-lhe Portugal. Formou em Coimbra a ciência e a maneira. Oh, Judas, Coimbra é perto da Figueira! s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 210. Deixa-me ouvir o que não ouço... Não é a brisa ou o arvoredo; É outra coisa intercalada... É qualquer coisa que não posso Ouvir senão em segredo, E que talvez não seja nada. Deixa-me ouvir... Não fales alto! Um momento!... Depois o amor, Se quiseres... Agora cala! Ténue, longínquo sobressalto Que substitui a dor, Que inquieta e embala... O quê? Só a brisa entre a folhagem? Talvez... Só um canto pressentido? Não sei, mas custa amar depois... Sim, torna a mim, e a paisagem E a verdadeira brisa, ruído... Que pena sermos dois! Meu amor, somos dois. Vejo-te, somos dois... 12-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 145. They are beneath thinking of contempt. The overwhelming production of literature will make selection equally overwhelming, by reaction. The real abundant production of wellwritten books will make many old books seem less good than when they stood up against a background of nothing. The absolute concept of values will thus be forced to replace the relative concept. Painting will sink. Photography has deprived it of many of its attractions. Futility of silliness has deprived it of almost all the rest. What was left has been spoiled by American collectors. A great painting means a thing which a rich American wants to buy because other people would like to buy it if they could. Thus paintings are set on a parallel, not with poems or novels, but with the first editions of certain poems and novels. The museum becomes a thing parallel, not to the library, but to the bibliophile’s library. The appreciation of painting becomes, not a parallel to the appreciation of literature, but to the appreciation of editions. Art criticism falls gradually into the hands of dealers in antiques. Architecture becomes a minor aspect of civil engineering. Only music and literature remain. Literature is the intellectual way of dispensing [well? with?] all the other arts. A poem, which is a musical picture of (in) ideas, makes us free, through the understanding of it, to see what we want and to hear what we want. All statues and paintings, all songs and symphonies, are tyrannous in comparison with this. In a poem, we must understand what the poet wants, but we may feel what we like. A walk through a museum becomes, not a contribution to culture, but a stimulus to envy, like looking from our own tired feet on a rich man’s automobile. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 224. Clarim! Os mortos! Contra Miguel de Vasconcellos Republicano! Eis outra vez o estrangeiro Em Portugal! Grita, clarim! Ao Conde Andeiro! Mas quando a hora do Limoeiro E do punhal? Clarim, contra quem deu à França A pátria e a grei, Grita com fogo de esperança, Vozes que chamem O Rei! E ao abismo do futuro clama Por quem enfim Vier, régia lusitana chama! Pelo Rei que a Esperança chama, Grita, clarim! O Rei, a Lei, dias melhores … Não sejam mais, nem já mais vezes Os marinheiros portugueses Guarda Vermelha dos Traidores! Hoje em que nada é português Salvo a desgraça, E em que um sopro maligno e soez Por sobre as nossas almas passa; Hoje em que manda quem serviu Por condição, E o próprio amor à Pátria é frio Por Pátria ser um nome vão; Hoje que, ruído o trono e a glória, Só o Traidor O louro e o ouro da vitória Goza, vil como um vil actor; Hoje uma voz que se levante E diga, embora Chore de ver, chorando cante, Que vem nascendo além a Aurora, Diga em palavras já tocadas De outra Visão, O Rei, e a Vinda das Espadas, E o fim da Horda e da Traição. 28-12-1919 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 211. Grow old, as God himself... “Paradise Lost”... They tend to age... To ensure immortality it is better to keep out of Paradise. We read epics for the fable, or for the treatment of it, or for the verse. Epics fundamentally dealing with religion can attain a full splendour only when that religion ceases to be of importance (loses its own importance). We delight in Athene because we are (perhaps precipitately) convinced that she did not exist. “Paradise Lost” is different. No one believes in Adam and Eve, but there are matters of controversy about the Trinity. Dante has stood greatness better, for in the Protestant countries he is mere fable, and in the Catholic countries there is no religion. These stunt diers succeed in making death comic and courage disgusting. It needs all our traditional use of respect to pity fools, and vain fools at that. Their end unites (?) suicide without pathos and tragedy without dignity. It is idle, though perhaps interesting, to discuss what Columbus was, historically; sociologically, he is Portuguese. Shaw is aware of mankind only as a problem. Chesterton is safer because he knows mankind to be a fact. The astonishing fact — the only real fact — that things exist, that anything exists, that being is, is the soul of the breath of all the arts. That particular part of romanticism, which it fell to Coleridge best to form, has been called the Renascence of Wonder. But all genius (every idea of genius) is a renascence of wonder. In the soul, to accept is to lose. A hope in a final — but not too final — justice, the “Gods writes straight on crooked lines” of the Portuguese proverb... ...unless by a practical development of Einstein it be possible to relay our talk into the past. But there is a linguistic brake to that: the ancients are spared more than our mere noise. When Caesar begins to have heard Mussolini, he will be no wiser than he now yet has been. End: The Gods will not tell us, nor will Fate. The Gods are dead and Fate is dumb. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 225. O fado cantado à guitarra Tem um som de desejar. Vejo o que via o Bandarra, Não sei se na terra ou no ar. Sou cego mas vejo bem No tempo em vez de no ar. Goze quem goza o que tem. A nau se há-de virar. Canto às vezes sem dar voz Como penso sem falar. A cegueira que Deus me pôs E um modo de luz me dar. Vejo claro quanto mais deixo O corpo cego às escuras. Rogo pragas, mas não me queixo. As pedras são todas duras. Vejo um grande movimento Em roda de uma árvore alta. Das estrelas no firmamento Há a mais nova que falta. A preguiça (?) anda de rastos, Os mortos gemem na cova. Os gados voltam aos pastos Quando desce a estrela nova. Lei[o] no escuro os sinais Do Quinto Império a chegar. O Bandarra via mais, Mas Deus é que há-de dar Sinto perto o que está longe, Quando penso julgo que fito, Meu corpo está sentado em hoje Minh'alma anda no Infinito. Ando pelo fundo do mar, Pelas ilhas do avesso, E uma coisa que há-de chegar Tem ali o seu começo. Há no fundo d'um poço em mim Um buraco de luz para Deus. Lá muito no fundo do fim Um olho feito nos céus. E pelas paredes do poço Anda uma coisa a mexer. Rei moço, lindo rei moço, Só ali te posso ver! Meu coração está a estalar, Minha alma diz-lhe não. Vejo o Encoberto chegar No meio da cerração. Vendidos à Inglaterra, Caixeiros da França vil, Meteram a gente na guerra Como num cesto aos mil. Este vem trôpego e cego Lá das Flandres e das Franças, Só para o Leotte do Rego Endireitar as finanças. Este, que aos muros se encosta, Veio doido lá da tropa, Só porque o Afonso Costa Queria ser gente na Europa. Anda o povo a passar fome E quem o mandou para a França Não tem barriga para o que come Nem mãos para o que alcança. Metade foi para a guerra, Metade morreu de fome. Quem morre, cobre-o a terra. Quem se afoga, o mar o some. Ninguém odiava o alemão. Mais se odiava o francês. Deram-nos uma espada para a mão E uma grilheta para os pés. É inglesa a constituição, E a república é francesa. É d'estrangeiros a nação, Só a desgraça é portuguesa. E a raça que descobriu O oriente e o ocidente Foi morrer de balas e frio Para a cama dos Costas ser quente. Mas a verdade há-de vir, O mal há-de ser descoberto E Portugal há-de subir Com a vinda do Encoberto. Hão-de rir dos versos do cego; Hão-de rir mas hão-de chorar, Quem não for o Leotte do Rego E tiver Pátria a que amar. M[ija]ram na pia da Igreja, Escreveram na porta do Paço É em linha recta de Beja Que está quem traz o baraço. Era dez réis por cada homem Para o Chagas ter fato novo. Cada prato que eles comem É tirado da boca do povo. Quem é bom nunca é feliz, Quem é mau é que tem razão; O Afonso vive em Paris E o Sidónio está num caixão. Pobre era Jesus Cristo E ainda o puseram na cruz. De dentro de mim avisto O Princípio de uma luz. Um dia o Sidónio torna. Estar morto é estar a fingir. Quem é bom pode perder a forma Mas não perder o existir. Depois de quarenta e oito Quando o sol estiver no Leão, Há-de vir quem traga o açoite, Até os mortos se erguerão. Não riam da minha praga, Os que viverem verão Porque toda a Bíblia acaba Na visão de S. João. Sou cego mas tenho vista Com os olhos de ver no escuro. Falta o melhor da conquista Que é ver para lá do muro. Falo na minha guitarra Só com o meu coração, Vejo o que via o Bandarra E no fim há um clarão. Vejo o Encoberto voltar, Vejo Portugal subir, Há uma claridade no ar E um sol no meu sentir. Por que mesmo quem não acredita É preciso acreditar; Quando a gente endoidece de aflita, Até se abraça ao ar. Até que para o lado da barra Há-de vir um grande clarão, E voltar, como diz o Bandarra, El-Rei Dom Sebastião. No seu dia veio o segundo, No outro será o terceiro, Se o segundo foi para o fundo, O terceiro será o primeiro. Eu não quero nenhum estrangeiro, Francês e inglês é o demónio, Cuidado com o Terceiro Que não é o Pimenta ou o Sidónio. Logo que a Lua mudar De onde não mostra valia, No meio do meio do ar Há-de aparecer o dia. Na sua ilha desconhecida O Encoberto já vai acordar. Inda tem a viseira subida E o ar de dormir a pensar. Seu olhar é de rei e chama Pela alma como uma mão. Não é português quem não o ama. Viva D. Sebastião! Minha esquerda é a direita De quem corre para mim. Do futuro alguém me espreita, Portugal não terá fim. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 212. 1ª versão: Poesia Profética, Mágica e Espiritual. Fernando Pessoa. (Poemas estabelecidos e comentados por Pedro Teixeira da Mota.) Lisboa: Ed. Manuel Lencastre, 1989. IMPERMANENCE The problem of the survival of literary works, and of the permanent elements of literature is, after all, a very simple one. All life is adaptation to environment, and all death inadaptation to it. A work of art is therefore living or great by its approval as great by a critical environment. There are 3 environments of this kind. One is the immediate one — the nation to which the artist belongs or the strict epoch in which the work appears. The other is the larger environment of the whole course of the civilisation to which the nation belongs, in whose language the literary artist wrote, or in which the artist was born (supposing him not a literary artist). The widest environment is that which is not that of a certain nation, nor even of a certain civilisation, but of all nations in all times, and of al1 civilisations in all their eras — that [...] human element which is present wherever an organised and cultured society exists, whatever its type of organisation may be, of what kind soever its culture. Certain ideas and forms of sensibility underlie each historical period qua such; certain (...) underlie each nature qua such and distinguish it from other natures throughout the space of its allotted life. An art adapted to the first of these environments dies out with its epoch and the small [?] surviving influence of its typical ideas. If these ideas are imported [?] or civilizacional [?] rather than transitional, the work will make a greater bid for popularity; it will [...] the case we are discussing. An art adapted to a purely national environment, qua national will only by the shadowy fame of hearsay pass the frontiers of space, and will only pass those of time in proportion as the national instinct it received is near to that born [?] human instinct which underlies all types of nations and of cultures. That is why Greek art is so rooted in the earth of Time; for ancient Greece was of all nations the one which the most closely compound conformed to the eternal laws of civilisation and of culture. Even if national: its art was universal and eternal; since [?] the national and the eternal met in Greece. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 278. Quem vive num tempo como o nosso e em um país como este, todos os dias está recebendo lições nas doutrinas da disciplina e da ordem. Cada dia, quase, é para nós uma síntese vivida dos resultados do sistema democrático, ou d'aquele simulacro praticamente inultrapassável da teoria democrática que existe em todos os países modernos e de que poderíamos dizer que por ele eles se regem, se por uma anarquia qualquer coisa se regesse. 21-5-1917 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 213. Some works die because they are of no worth; these, as they die at once, are still-born. Others have the short day their expression of a passing mood or fashion of society gives them; they die in infancy. Others, of a larger scope, coexist with a whole era of the country, in whose language they were written, and when that era ceases, they, too, cease; these die at the puberty of fame and get no more than adolescence in the perennial life of glory. Others still, as they express fundamental things of their country’s mind, or of the civilisation, to which it belongs, last as long as that civilisation lasts; these reach the manhood of universal glory. But others outlast the civilisation, whose feelings they express. These reach that maturity of life which is but as mortal as the Gods, that began but do not end, as Time does; and are subject only to the final mystery which Fate forever veils [...] s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 281. SENTIDO DO SIDONISMO No «elogio académico do Dr. Sidónio Pais», que proferiu em 26 de Dezembro de 1918 na Rua dos Loios à Sé, o sr. Fernandes Costa, no ponto do discurso onde versa a comparação estabelecida entre D. Pedro V e o Presidente, faz a seguinte distinção: (...) um exemplo que ficou. Nesta frase, e na contrafacção, que a motiva, está a essência do opúsculo presente. O que foi, sem que ele-próprio o soubesse, a obra de Sidónio Pais? s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 214. Our age is not that of long poems, for the sense of proportion and construction are the qualities that we have not got. Our age is the age of small poems, of short lyrics, of sonnets and of songs. Our survival to succeeding ages will most probably be in the form of Song-Books, as those where the troubadours of Provence and the courtly poets of King Denis’ reign are kept for survival. All that will remain of several ages of our poetry will be (the great names like Dante or Milton excepted) for each nation, a collection of poems like the Greek Anthology, possibly [?] more an embodiment of a general spirit than the addition of many poems of many individuals — to all intents (...), an anonymous publication. Even poems like Adonais will perhaps not survive: dreams do not. Prometheus Unbound shall fade, and in the English Anthology of the future only one or two lyrics from it will speak of Shelley to eternity. Time deals hastily with them who deal hastily with it. Saturn eats his own children, not only in the sense that he himself consumes what he produces, but also in that he consumes them who are so far his children as to keep their eyes on their age and who ask not for an abstract timelessness (the Jovian age of the soul), or the changeless place of that immortal Beauty whom Plato loved. There is a note of immortality; a music of permanence subtly woven into the substance of some rhythms and the melodies of some poems. There is a rhythm of another speech in which the careful ear can detect the note of a god’s confidence in his godship. This note is in the sonnets of Milton, in Lycidas; it is not in Shakespeare’s Sonnets, even when they speak of something like it. There is a poise, a calm, a freedom which do not inhabit the fever of inspiration. It is sibyls and prophetesses who are inspired; not the Gods themselves. The Moïse of Vigny, the Booz Endormi of Hugo have this note. Of all French poets Vigny is more close to it, though he attains it not very frequently. Succeeding times shall have too many poets of (...) from which to choose. Too much cannot remain. “Posterity”, Faguet said, “likes only concise writers”; true, and a concise number of writers also. Too much is too little. It is a child’s proverb that you cannot eat your cake and have it too; and a telling [?] one that you cannot serve both God and Mammon. You cannot serve your age and all ages in the same time, nor write for gods and men the same poem. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 282 t. 41. Geraldo: Espero que v. terá já recebido a minha carta de ontem, e o meu telegrama de hoje, que dizia assim: «Urgente. Administrador Minas Porto de Mós. Êxito jornal enorme/quanto aos incidentes Rossio leia jornais de hoje/escrevo carta. Fernando.» O caso foi o seguinte: O êxito foi verdadeiramente grande, e tivemos a sorte espantosa de por causa do nosso jornal ter o Rossio em estado de sítio. Isto deve v. saber pela leitura dos jornais da manhã de hoje; todos se referem ao caso, mas (caso lhe escape), deve v. notar que «O Jornal» se lhe refere em um suelto, elogioso para nós, e «O Mundo» tem três referências — o primeiro suelto na segunda página, a primeira notícia da Última Hora, e um apontamento entitulado «Propaganda sidonista», que vem a meio da terceira página. É deliciosa, como amostra dos processos jornalísticos, aquela notícia de «A Manhã», onde se pretende não ter visto o jornal e que as palavras «Ou sidonismo ou bolchevismo» vêm impressas em caracteres grossos por baixo do retrato — e o leitor com isto fica julgando (leia v. a notícia e aprecie) que o que queríamos dizer era que havíamos de pôr cá ou sidonismo ou bolchevismo. A descoberta de «O Combate», de que havia no jornal 3 retratos do Sidónio também não é má. Por toda a parte o jornal se vendeu espantosamente. Contou-me hoje de manhã o chefe da venda que houve tabacarias que pediram 5 exemplares, em tom de desdém, e vieram meia-hora depois pedir cinquenta. A «Mónaco» recebeu ontem 900, em vários pedidos. E há casos inúmeros de interesse. Por exemplo: Como se haviam esgotado os exemplares que levavam para distribuição às lojas antes de o distribuidor chegar à «Havaneza do Socorro» (que é na esquina da Rua da Palma para a Rua de S. Lázaro), esta tabacaria não recebera ontem jornais. Eu passei por lá, e como levasse ainda onze dos vinte e cinco que trouxera comigo, deixei lá dez. Hoje, como quis ir ao «D[iário] de N[otícias]» às oito da manhã, passei antes da tabacaria estar aberta, mas soube por um empregado, que ali estava à espera que o patrão abrisse a porta, que no momento depois de eu sair, e quando ainda o patrão tinha os jornais na mão, se venderam dois. Isto é perfeitamente típico do que tem acontecido. Quando vim do «D[iário] de N[otícias]» fui comprar tabaco à «Tabacaria Inglesa», do Cais do Sodré, para onde não tinham mandado ainda; estive lá uns dois minutos, e entraram três indivíduos a pedir a «Acção»; é claro que remeti imediatamente o dono da loja para a casa de venda do «Diário de Notícias». Quando cheguei à casa de venda do Notícias, fui recebido com enorme entusiasmo pelo chefe da venda, pelo fiscal e outros, incluindo um sidonista que desconheço. Estavam todos entusiasmados, como se fossem crianças, com o escabeche que tinha havido na véspera à noite. Na redacção, onde fui em seguida, soube que tinha aparecido um indivíduo indignadíssimo porque dois marinheiros lhe tinham rasgado um número do jornal, que estava a ler. Deixou a morada e nomes de testemunhas; as três testemunhas são os indivíduos que escreveram a carta que vem na «Época» de hoje; o que a carta não diz que é um d'eles pregou uma formidável descompostura no cabo de marinheiros que rasgou o jornal. Fui hoje a casa do indivíduo que fez a queixa na redacção; afinal vim a falar com ele na Rua do Jardim do Regedor. Imagine v. que é um engraxador, um rapazito de uns 17 anos; contou-me como a coisa se passou e disse-me que tinha em casa todos os três números do jornal, que coleccionava. Realmente estas coisas chegam a ser enternecedoras. Tenho aqui no escritório o número rasgado, que ele deixou na redacção, como recordação. Não sei se o jornal terá que fazer segunda edição: é assunto para decidir amanhã. V. compreende: pode dar uma venda grande, e contudo não esgotar a existência. O chefe de venda calcula entre 1000 e 2000 o número de exemplares queimados pelos vários formigas no Rossio. Depois se verá. (Devo dizer que me parece que vários tipos fizeram do jornal «bandeira», isto é, andaram agitando o retrato do Sidónio por toda a parte, e foi naturalmente qualquer coisa d'essas que fez nascer a ideia de dar cabo dos exemplares a alguém). Em suma: um grande êxito, e creia v. que O JORNAL ESTÁ LANÇADO. Agora são precisas as seguintes coisas: 1. Arranjar outra redacção: uma redacção definitiva, por assim dizer, ou então uma redacção constante de uma mesa de pinho e um banco em um quinto andar, para poderem ir lá destruir aquilo. Digo isto porque tenho um projecto esplêndido, mas arriscado, para o número 4. V. nem calcula o que é! 2. Organizar a empresa do jornal. 3. Fazer um número 4 sensacional e forte, e um pouco menos «revista» do que estes têm sido, tendo só de pesado o fim do meu artigo «A Opinião Pública». Para tudo isto eu precisava falar maduramente com v. Quando é que v. vem? Ou, não podendo vir v., poderia eu ir aí, sem ter que ir no comboio? Outra coisa, e sem relação nenhuma com o jornal: Quando se arranjar a «redacção definitiva», v., como naturalmente não quer ficar com os quartos da actual redacção, deixe que eu fique em lugar de v. Gostava de morar ali, porque é um lugar muito mais agradável do que a casa onde moro, e onde sinto a opressão dos espaços demasiado pequenos. Vou amanhã à redacção às 11 horas, para orientar a empregada na dobragem dos jornais, etc. O jornal tem que ser dobrado ao contrário, com a primeira página para dentro, para o não roubarem no correio; a cinta também não deve levar carimbo da «Acção». Os democráticos que eu conheço estão indignadíssimos comigo. Um, que foi secretário do Leonardo Coimbra, manifestou-se-me muito desgostoso (é bom rapaz e tem por mim consideração) por lhe constar que eu não só «era da Acção», mas andava mesmo a fazer as vezes do director. Em todo o caso, ninguém diz mal do jornal senão por qualquer razão política; há, é claro, uma excepção — o Numa. Bom, agora mais nada. O que houver de interessante, contarei. Escreva para o Apartado (147). Um grande abraço do 10-8-1919 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 215. IMPERMANENCE A mesquinhez, a estreiteza imaginativa são os vícios definidores da nossa época. Somos incapazes de escrever, ou de querer escrever, ou de saber ler sem escrever, epopeias. Em compensação, escrevemos romances. O romance é o conto de fadas de quem não tem imaginação. Todos nós, ou inferiores, ou em momentos de inferioridade, sonhamos com atitudes (...) da vida real. Sonhamos também, é certo, com o longínquo; mas isso [...] é, em todo o caso, a poesia da mesquinhez. Tout notaire , dizia G. Flaubert, a rêvé de sultanes . O ajudante de notário, porém, sonha apenas com uma sucessão de acontecimentos [ ?] em que entra a vizinha possível, o marido dela, ele galã, e assim por diante. A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta. Talhar a obra literária sobre as próprias formas do que não basta é ser impotente para substituir a vida. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 285. O SENTIDO DE PORTUGAL A primeira verdade da sociologia — ciência, aliás, conjectural e imperfeita — É que a humanidade não existe. Existe, sim, a espécie humana, mas num sentido somente zoológico: há a espécie humana como há a espécie canina. Fora disso a expressão humanidade pode ter somente um sentido religioso — o de sermos todos irmãos em Deus, ou em Cristo. Entre o sentido zoológico, que está aquém, e o religioso, que está além, da sociologia, não cabe sentido nenhum. Sociologicamente, não há humanidade, isto é, a humanidade não é um ente real. Na realidade social há só dois entes reais — o indivíduo, por que é deveras vivo, e a nação, porque é a única maneira como esses entes vivos, chamados indivíduos, se podem, agrupar socialmente de um modo estável e fecundo. A base mental do indivíduo, por isso mesmo que é indivíduo, é o egoísmo, e os indivíduos podem agrupar-se só em virtude de um egoísmo superior, ao mesmo tempo próprio e social. Esse egoísmo é o da pátria, em que nos reintegramos em nós através dos outros, fortes do que não somos. A base da pátria é o idioma, porque o idioma é o pensamento em acção, e o homem é um animal pensante, e a acção é a essência da vida. O idioma, por isso mesmo que é uma tradição verdadeiramente viva, a única verdadeiramente viva, concentra em si, indistintiva e naturalmente, um conjunto de tradições, de maneiras de ser e de pensar, uma história e uma lembrança, um passado morto que só nele pode reviver. Não somos irmãos, embora possamos ser amigos, dos que falam uma língua diferente, pois com isso mostram que têm uma alma diferente. Estamos, neste mundo, divididos por natureza em sociedades secretas diversas em que somos iniciados à nascença, e cada um tem, no idioma seu e no que está nele, o seu toque próprio, a sua própria palavra de passe. Tudo mais que forma grupos adentro da vida nacional — a família, a região, a classe — são ficções intermédias, umas meio físicas, outras meio económicas, e, se assumirem demasiada importância na vida nacional, elementos de desintegração dela. Da consciência excessiva da classe nasce o comunismo. Da consciência excessiva da região nasce o separatismo. Da consciência excessiva da família nasce esse egoísmo, tão deplorável socialmente como o directo, que faz com que um homem evite defender a pátria porque pela sua morte pode fazer falta aos filhos, ou furtar-se a fazer obras de arte, com que a pátria se ilustre, porque tem de ganhar para dar a esses filhos que comer. Todas as relações sociais entre indivíduos são essencialmente relações mentais, porque, apesar de a Igreja o dizer, o homem é de facto um animal racional. Ora a vida — social ou outra — é essencialmente acção, e o pensamento em acção é a palavra, falada ou escrita (e a palavra escrita é a palavra falada para quem nos não pode ouvir, quer porque esteja longe, quer porque não tenha ainda nascido). A base das relações sociais é portanto o idioma: não somos irmãos, socialmente falando, senão daqueles que falam a nossa língua — e tanto mais quanto mais falem a nossa língua, isto é, quanto mais nela ponham, como nós, por ela ser a língua-mãe deles, como nossa, toda a sentimentalidade instintiva, toda a tradição acumulada, que a estrutura, o som, o jogo sintáctico e idiomático trazem em si. Desde que duas regiões da mesma língua se separem em estados diferentes, desde logo começa a se estabelecer uma diferenciação na estrutura da língua — útil e impalpável umas vezes, acentuada em outras, mas a separação em duas pátrias tende sempre a ir tornar-se uma separação em dois idiomas. A base da sociabilidade, e portanto da relação permanente entre os indivíduos, é a língua, e é a língua com tudo quanto traz em si e consigo que define e forma a Nação. Estamos, neste mundo, divididos por natureza em sociedades secretas diferentes, em que somos iniciados à nascença; e cada uma tem, no idioma que é seu, a sua própria palavra de passe. Sucede ainda que, sendo o egoísmo a base da vida individual por isso mesmo que é vida individual, nada pode durar nem persistir neste mundo se não tiver a sua base no egoísmo. O egoísmo é, por natureza, anti-social, pois cada indivíduo, por ser ele, é oposto a todos os outros. Não poderá portanto haver vida social se não for possível encontrar uma forma social do egoísmo, qualquer coisa que seja, por assim dizer, uma síntese do egoísmo e da sociabilidade. Ora se a base da socia(bi)lidade é o idioma, é forçosamente a pátria, fundada na comunidade do idioma, que é a base da vida social. Como fenómeno egoísta, opõe-se a todas as outras pátrias, e daí a guerra, como o mais natural e espontâneo de todos os fenómenos sociais. Como fenómeno antiegoísta, gera a fraternidade entre os homens, podendo assim preparar, nos mais cultos ou mais nobres, uma compreensão das pátrias dos outros, e uma certa fraternidade antiguerreira —pelo menos nos intervalos das guerras —, um consequente intercâmbio de [...] e daí dois fenómenos, comuns a toda a vida histórica da humanidade: a guerra, que é o egoísmo centrífugo, e o comércio, que é o egoísmo centrípeto da nação. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 19. Ora estes grupos civilizacionais têm de comum o cristianismo e têm de diferente cada um uma variante do cristianismo. Para determinarmos precisamente qual a cultura portuguesa temos que determinar primeiro qual a cultura característica do grupo ibérico, do qual somos um ramo especial; e para determinar qual a cultura do grupo ibérico temos que estabelecer primeiro qual a cultura geral do cristianismo, da civilização cristã, da qual o grupo ibérico é uma modalidade especial, ou antes, um atributo dessa substância, na linguagem de Spinoza. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 18. A vida nacional portuguesa sofre hoje dos resultados de uma tripla ruptura de equilíbrio. A primeira ruptura deu-se com a entrada da decadência — onde quer que ela se queira colocar, antes, por, ou depois de Alcácer Quibir. A segunda ruptura de equilíbrio deu-se com a implantação do constitucionalismo, que quebrou a tradição política nacional, sem construir nada de naciona1 que substituísse o regime nacional deposto. A primeira ruptura de equilíbrio e a que se dá em todas as decadências — a ruptura da relação hígida entre governantes e governados, estado social em que os governantes, embora por acaso possam governar bem, governam, em todo o caso, sempre fora de relação interpretativa com o geral do povo que governam. Essa ausência de interpretatividade da parte dos governantes explica-se com facilidade. O primeiro fenómeno das decadências é a perda de coesão social; e o resultado primário da perda de coesão social é a degenerescência do patriotismo. Não que o patriotismo desapareça, mas passa do estado dinâmico constante para o estado estático. Só uma forte convulsão de origem externa o desperta; sem isso, o geral do povo desinteressa-se da Pátria, desinteressa-se dos governantes, e acabam as classes por se desinteressarem, tanto quanto é economicamente possível, umas das outras. O resultado é uma decadência integral, que progressivamente atinge [...] A restauração de 1640 fez-se por uma revolução aristocrática, que o povo apoiou, mas em que não colaborou activamente. O erro do Marquês de Pombal consistiu em destruir o poder da aristocracia sem criar outro ponto de apoio para a realeza, que assim ficou suspensa no ar, fora de relação com o país. De nada valia, dado esse erro fundamental, fomentar indústrias, auxiliar comércio, promover a disciplina do exército. A obra passaria com o homem, como, com efeito, passou. Vítima do erro intelectualista do século dezoito, Pombal julgou que se pode governar sem atender aos elementos instintivos e subconscientes, que, como a ciência hoje sabe, são a parte fundamental do psiquismo humano, e, sobretudo, do psiquismo colectivo, criado por interrelação de instintos, e não por contacto de inteligências. Quebrada a relação entre governantes e governados, o que se seguiu é inteiramente deduzível desse simples facto. Os governantes, perdido o contacto com a tradição nacional, sem apoio nas realidades psíquicas que são o fundamento da vida da nação, passaram a viver mentalmente do estrangeiro, mas, como a quebra de contacto com as realidades nacionais envolve uma quebra de contacto com a única fonte de inspiração original, passaram a viver bastardamente e artificialmente do estrangeiro, impotentes para criar novas ideias, servos submissos da primeira mesquinharia francesa, súbditos reles da hipnose do de-lá-fora. O povo, a massa governada da nação, quebrado o seu contacto com aqueles cuja função é estabelecer o progresso e estimular o esforço, caíram no baixo tradicionalismo — no tradicionalismo que não é um apego às grandezas passadas, porque as grandezas passadas nenhum povo por educar as pode ter presentes senão por lhas lembrarem os seus governantes; mas no tradicionalismo de gleba e tarro, o apego de animal à canga usada, o afinco de vegetal à terra a quem nasceu pegado. Desnacionalização (baixa) nos governantes; supertradicionalização nos governados; tal o estado em que nos encontrávamos, e em que nos encontramos. Encaremos, antes de mais nada, com as três realidades sociais, pelas quais se tem de guiar todo o homem que busque criar coisas sociais. A primeira é a lei da continuidade histórica; a segunda é a lei dos escóis; a terceira é a lei do equilíbrio, ou, antes, da representatividade. C. H.— Nenhuma nação se pode transformar senão em várias gerações. As revoluções nada transformam, apenas trazem a transformação. A Revolução Francesa atrasou o povo francês perto de cinquenta anos; o seu único produto visível mais próximo foi (curiosa ironia) meramente literário, e, ainda assim, o romantismo francês, primeira obra positiva da Revolução, surgiu, antes de mais nada e apesar de sofrendo da indisciplina mental que essa revolução causou, como reacção contra essa Revolução. O gado russo, aqueles animais a que se chama o povo russo. Há alguém que, a sério, julgue que a Revolução Russa transformou alguma coisa de fundamental? O Império do Czar vivia em anarquia governativa, em analfabetismo de letras e de energias; crê alguém que o bolchevismo eliminou a anarquia, crê alguém que o bolchevismo eliminou a tirania, crê alguém que o mero aparecimento de uns pobres cérebros românticos a mandar, sem a preparação científica para o pensamento ou para a acção [...] Os bolchevistas são cristãos sem religião; têm a mentalidade cristã, acreditam no milagre, porque julgam que uma sociedade se transforma de um dia para o outro, ou de um [...] [...] Justiça? A Justiça é a mais estúpida das ilusões. A única justiça é [...] A mentalidade operária é, como é de esperar, essencialmente cristã; como o havia de ser, se as plebes são herdeiras de séculos sobre séculos de educação cristã, e se a ciência é coisa que um cérebro popular não pode atingir? A base da doutrina cristã é «Liberdade, Igualdade, Fraternidade»; este lema "revolucionário" foi promulgado pelo ocultista cristão Claude de St. Martin, discípulo do judeu português Martins Pascoal. Não se diga que o cristianismo não cumpriu este lema; não o cumpriu porque não é possível cumpri-lo. Nem o cumpriu o revolucionarismo moderno, nem o cumprirá nunca. O desconhecimento das leis que regem a vida das sociedades é o facto primordial da mentalidade moderna. E, por último absurdo, temos estes pobres homens acreditando ainda no dogma cristão do livre arbítrio; julgam que um homem é livre, quando a primeira coisa que a ciência aponta é que um homem é escravo; julgam que podem alterar a face da natureza humana e acabar com o velho homem humano — porco, sensual, estúpido, patriota e proprietário [...] o homem como ele é e não como o cristianismo laico dos radicais e dos bolchevistas o quer fazer. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 11. 1. Considerar a Pátria Portuguesa como a coisa para nós mais existente, e o Estado Português como não existente. 2. Considerar que a Pátria Portuguesa existe toda ela dentro de cada indivíduo português. Fazer portanto tudo para si mesmo como português, desenvolver-se a si mesmo no sentido português. 3. Considerar que a Pátria Portuguesa, como qualquer pátria, é apenas um meio de criar uma civilização. Fazer tudo, portanto, portanto para criar uma Pátria Portuguesa criadora de civilização. 4. Considerar que o conceito de Pátria é um conceito puramente místico, e que, portanto, (1) nenhum elemento de interesse deve entrar nele (2) nenhum outro conceito místico deve coexistir com ele, a não ser que ele domine esse conceito e o integre em si. Impossível, portanto: (1) [...] (2) ser bom católico, ou bom budista, ou bom qualquer coisa estranha se se é português, a não ser que se queira criar um catolicismo português ou um budismo português ou o que seja português. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 21. Partindo de um movimento antireligioso estrangeiro, era natural —àparte outras causas — que o movimento de 1820 viesse implantar um sistema político estrangeiro também. Não há mal, propriamente, em qualquer reforma basear-se em princípios estrangeiros, ou que tais; há-o, porém, quando o povo não pede a reforma, ou não pede essa reforma, e quando ela é estrangeira até no sentido de estranha — inadaptável ao meio em que a implantavam. Vingou o constitucionalismo e deu o resultado que se viu. Vingou porque o povo português estava, de há muito, decadente e incoesivo, se o não fosse, um forte movimento de origem popular teria sufocado o constitucionalismo. O constitucionalismo (monárquico) é um sistema político absoluta e exclusivamente inglês. Surgiu em Inglaterra por uma adaptação intuitiva da nação a determinadas circunstâncias (não importa agora quais) que culminaram em meio do século dezassete, e tem persistido desde então. É a manifestação institucional do princípio básico da vida política inglesa — equilíbrio especial de forças a que os ingleses chamam compromise . Há, com efeito, no constitucionalismo, qualquer coisa de universalmente aplicável, que é o princípio de equilíbrio de forças em que ele se baseia. Ele, porém, e o princípio de equilíbrio dessas tal como ele se deu, e se devia dar, em Inglaterra. Em outros pontos a aplicação do princípio essencial devia ter resultado instituições diferentes. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 25. A DEMOCRACIA Contra a democracia invoca-se, em primeiro lugar, o argumento da ignorância das classes cujo voto predomina, porque seja maior o seu número. Mas como os sábios divergem tanto como essas classes, não parece haver vantagens na ciência para elucidação dos problemas. Onde há, sem dúvida, vantagens para a ciência é na escolha dos homens que devem governar; ora é precisamente isso que o voto escolhe. O povo não é apto a saber qual a direcção que a política pátria deve tomar em tal período; mas os homens cultos também não o sabem, pois que divergem em tal ponto. Mas o que os homens cultos sabem, e o povo não sabe, é avaliar de competências para certos cargos. Propriamente, só financeiros é que sabem avaliar qual o indivíduo que melhor geriria as finanças de um povo; só militares, qual o melhor indivíduo para ministro da Guerra. Cumpre distinguir entre a vontade da maioria e a vontade nacional. A vontade da maioria é consciente; a vontade nacional é inconsciente. Em determinada altura, determinada nação segue certo rumo; não o sabem os políticos, em geral, nem o sabe o povo. Ora o único sentido de "vontade nacional" será o sentido desse rumo. Quem é que o sente? Como esse rumo é inconsciente, fruto de não sabemos que leis sociais, só pode existir, ou nas camadas inconscientes do país, ou nas camadas conscientes que sejam representativas intelectualmente dessa inconsciência. (Vence sempre aquele partido que representa a força em dado momento; e se esse partido, e não outro, representa a força, é porque as camadas inconscientes da nação delegaram nele misteriosamente executar a sua inconsciente vontade.) (ex.) [...] Uma nação, em qualquer período, é três coisas: (1) uma relação com o passado; (2) uma relação com o presente, nacional e estrangeiro; (3) uma direcção para o futuro. Assim, em todos os períodos, há forças que tendem a manter o que está, forças que tendem a adaptar o que existe às condições presentes, e forças que tendem a dirigir o presente para um norte previsto, visionado no futuro. Não se trata aqui de partidos políticos, mas de íntimas forças nacionais. Assim, hoje, em Portugal, o partido democrático é o que tende a manter a sociedade portuguesa no seu estilo passado; é o partido conservador, visto que resume os vícios e as atitudes dos partidos monárquicos. Depois, há a corrente representada pela extinta ditadura Pimenta de Castro, que pretende adaptar o país às circunstâncias presentes, equilibrá-lo, chamá-lo à realidade das necessidades quotidianas da vida moderna. Acima destes dois partidos paira, um pouco desorganizadamente, aquela corrente que pretende dirigir a sociedade portuguesa para um fim, para uma nova concepção de si própria. Surgiu lentamente, através da Escola de Coimbra, com Antero de Quental, sobretudo; atravessou a "Renascença Portuguesa", do Porto; paira hoje, um tanto no ar, buscando apoio e orientação nítida. É isto que lhe pretendemos dar, dispondo-nos a construir uma orientação portuguesa. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 22. Pure Being cannot be conceived as in time because what is in time is not to‑day the same as it was yesterday, nor will be to‑morrow the same as it is today. But cannot what is immutable be conceived as immutable in time? Being has no attributes; it is in itself essence and attributes, substance and accidents, unity and plurality. (Or rather by being both is neither.) 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 24. No seu sentido superior e profundo, a desvalorização internacional da nação portuguesa deriva de três factores conjugados (da acção conjugada de três factores) — a incultura, geral como profissional, do indivíduo português e sobretudo do indivíduo das classes médias; a deficiência de propaganda de Portugal no estrangeiro; e a ausência de consciência superior da nacionalidade. Seria, tanto inútil como por de mais extenso, precurar as causas da existência e concorrência (acção concorrente) destes três factores. A causa fundamental, não há dúvida, é a longa decadência em que entrámos desde o fim da dinastia de Avis. Por decairmos, decaíram paralelamente o indivíduo português e o Estado Português, administrado por esses indivíduos. E, decaindo o indivíduo e o Estado, deixou de haver uma consciência superior da nacionalidade e dos fins nacionais, porque um povo decadente, servido por um estado indiferente, a não pode ter; deixou de haver cultura geral, porque nem o estado educava, nem nos indivíduos havia, por decadentes, o interesse civilizado pela cultura; deixou de haver cultura profissional, porque, ausente o estímulo, de orgulho nacional, de concorrer com outras nações, desaparecia a razão para o aperfeiçoamento de cada um no seu mister; e deixou de haver a precisa propaganda de Portugal no estrangeiro, porque, falhos de classes superiores internacionalmente proeminentes, não tínhamos a propaganda natural da superioridade ou nas artes ou nas ciências, e, mal administrado o Estado, não o havia de ser bem exclusivamente na parte superior da diplomacia, nem, falho o orgulho nacional, havia quem, individualmente, se ocupasse em o erguer ante o estrangeiro. Não ocupamos, ante o geral da civilização, lugar mais proeminente, antes menos do que no abismo da nossa decadência. O nosso homem das classes médias — e as classes médias são o esteio de um país — é mal culto, ignorante, profissionalmente instintivo ou atado (profissionalmente no comércio); a propaganda da nossa terra é descurada pelo estado, absorvido por políticos, pelos indivíduos, desnacionalizados e inertes, para tudo quanto não seja os seus baixos interesses ou os interesses superiores da sua política inferior; e a invasão das ideias estrangeiras, pervertendo a própria substância do patriotismo que restava entre nós, privou-nos de podermos criar, não já um orgulho nacional, mas uma simples consciência superior da nossa nacionalidade . Em matéria cultural, o que se tem feito é quase nada. Quem há culto entre nós, a si próprio se cultiva, e as mais das vezes mal, quase sempre antinacionalmente. Em matéria de propaganda, a única instituição criada para esse fim, a inepta Sociedade de Propaganda de Portugal, nada faz porque, sendo uma espécie de escol de incompetentes, nada sabe fazer. E em matéria de consciência superior da nacionalidade, a maioria dos portugueses nem sequer sabem que isso existe. É preciso criar um organismo cultural capaz de substituir o estado nestas funções. Escusa de ter aspecto de potência adentro da Pátria: basta que tenha a precisa noção superior dos seus fins. Deve essa organização visar três fins: (1) a criação de uma atitude cultural nas classes médias, porque são elas as em que assenta a vida nacional, e entre os comerciantes sobretudo, porque, sobre serem eles a parte mais forte das classes médias, são a parte mais representativa delas, dado o carácter comercial da nossa época; (2) a criação de uma propaganda ordenada e científica de Portugal no estrangeiro; (3) a criação lenta e estudada de uma atitude donde derive uma noção de Portugal como pessoa espiritual. [...] s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 20. A pálida luz da manhã de Inverno, O cais e a razão Não dão mais esperança, nem uma esperança sequer, Ao meu coração. O que tem que ser Será, quer eu queira que seja ou que não. No rumor do cais, no bulício do rio Na rua a acordar Não há mais sossego, nem um vazio sequer, Para o meu esperar. O que tem que não ser Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar. 28-12-1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 106. O ATLANTISMO Hegemonia Ibérica. A concepção atlântica da vida. O imperialismo espiritual. Germanofilia de alma, anglofilia de corpo. (Admiremos os construtivos, os criadores, ainda que seja de coisas inferiores; não os ponhamos ao nível dos meros arrastadores da vida pelo acaso dos acasos!) Inutilidade e malefício das nossas colónias. Sebastianismo. Expansão atlântica — Ibéria, Irlanda, Ultramar americano. (Esta concepção, presente já, por uma intuição nocturna, no alto espírito atlântico do Walt Whitman.) Atlantismo da Raça. (Foi pelo Atlântico que fomos à procura da glória, à criação da Civilização Maior. É pelo Atlântico, mas em alma e espiritualização, que devemos ir em demanda da Civilização máxima!) Absorção artística. Misticismo. Roma, Londres, Paris — os inimigos. Anticatolicismo, anticristianismo. Repaganização — paganismo transcendental . Antidemocratismo, individualismo aristocrático. [Somos contra Roma, porque Roma veio destruir no paganismo a visão lúcida da vida. Somos contra Inglaterra, porque Inglaterra veio destruir, [...]. Somos contra França, porque a França veio, com o seu democratismo e o seu liberalismo plebeu, destruir os restos de paganismo que havia entre nós.] Sensacionismo (e Interseccionismo). 1913? Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 76. Sim, tudo é certo logo que o não seja, Amar, teimar, verificar, descrer — Quem me dera um sossego à beira-ser Como o que à beira-mar o olhar deseja. 20-1-1929 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 107. Atlantismo Todo o Império que não é baseado no Império Espiritual é uma Morte de pé, um Cadáver mandando. Só pode realizar utilmente o Império Espiritual a nação que for pequena, e em quem, portanto, nenhuma tentativa de absorção territorial pode nascer, com o crescimento do ideal nacional, vindo por fim a desvirtuar e desviar do seu destino espiritual o original imperialismo psíquico. Foi o que aconteceu com a Alemanha. O povo era grande de mais para poder realizar o seu destino supremo de imperialista de Espírito. O contrário nos aconteceu, a nós portugueses, quando as descobertas nos levaram a tentar realizar um imperialismo de Matéria, que não tínhamos gente para impor. Criando uma civilização espiritual própria, subjugaremos todos os povos; porque contra as artes e as forças do espírito não há resistência possível, sobretudo quando elas sejam bem organizadas, fortificadas por almas de generais do Espírito. Todo o verdadeiro Império não visa outro fim senão dominar, pelo mero prazer de dominar; parecendo absurdo, tal é, porém, o anseio fundamental de toda a verdadeira vida, de toda a aspiração vital. Criemos um Imperialismo andrógino, reunidor das qualidades masculinas e femininas: imperialismo que seja cheio de todas as subtilezas do domínio feminino e de todas as forças e estruturações do domínio masculino. Realizemos Apolo espiritualmente. Não uma fusão do cristianismo e do paganismo, como querem Teixeira de Pascoaes e Guerra Junqueiro; mas um alheamento do cristianismo, uma simples e directa transcendentalização do paganismo, uma reconstrução transcendental do espírito pagão. 1913? Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 77. O amor é que é essencial. O sexo é só um acidente. Pode ser igual Ou diferente. O homem não é um animal: É uma carne inteligente, Embora às vezes doente. 5-4-1935 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 192. A tua voz fala amorosa... Tão meiga fala que me esquece Que é falsa a sua branda prosa. Meu coração desentristece. Sim, como a música sugere O que na música não está, Meu coração nada mais quer Que a melodia que em ti há... Amar-me? Quem o crera? Fala Na mesma voz que nada diz Se és uma música que embala. Eu ouço, ignoro, e sou feliz. Nem há felicidade falsa, Enquanto dura é verdadeira. Que importa o que a verdade exalça Se sou feliz desta maneira? 22-1-1929 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 108. Atlantismo Antitradicionalismo: Todo o progresso dum povo é feito pela imposição à plebe de instituições criadas contra a tradição dessa plebe. Assim, na Alemanha, a base antiga, a tradição era democrática; a actual civilização é aristocrática. Em Portugal, a tradição é democrática, de governo popular; por isso a construção deve ser aristocrática, para que haja civilização. Reduzir o proletariado tanto quanto possível à situação dos escravos. Fazer isto de modo disfarçado, cauto, íntimo. A plebe deve ser o instrumento dos imperialistas, casta dominadora, mas escrava deles ligada a eles por uma comunidade de misticismo nacional, de modo que voluntariamente seja escrava, desde nascença esteja involuntariamente conforme com a condição que se lhe impõe. Esta casta dominante não deve escravizar a plebe só pelo prazer de o fazer, porque o imperialismo não tem que existir dentro da nação; apenas é útil o domínio de casta porque é uma educação do Mando, tomando-o possível para o exterior. Criar instituições nacionais — uma fórmula de estado nacional. Que outros estados a adoptassem, não faria mal; teria tido origem vã, era o começo da acção imperialista superior. O cio de criar, a sagrada luxúria de Construir... 1913? Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 78. Qual é a tarde por achar Em que teremos todos razão E respiraremos o bom ar Da alameda sendo Verão, Ou, sendo Inverno, baste estar Ao pé do sossego ou do fogão? Qual é a tarde por voltar? Essa tarde houve, e agora não. Qual é a mão cariciosa Que há-de ser enfermeira minha — Sem doenças minha vida ousa — Oh, essa mão é morta e osso.. Só a lembrança me acarinha O coração com que não posso 22-1-1929 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 109. Vou com um passo como de ir parar Pela rua vazia Nem sinto como um mal ou mal-estar A vaga chuva fria... Vou pela noite da indistinta rua Alheio a andar e a ser E a chuva leve em minha face nua Orvalha de esquecer... Sim, tudo esqueço. Pela noite sou Noite também E vagaroso eu  [...] vou, Fantasma de magia. No vácuo que se forma de eu ser eu E da noite ser triste Meu ser existe sem que seja meu E anónimo persiste... Qual é o instinto que fica esquecido Entre o passeio e a rua? Vou sob a chuva, amargo e diluído E tenho a face nua. 14-2-1929 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 110. Para Rogelio Buendia, Castetar 6, Huelva. Don Rogelio Buendía. Querido amigo: Muito agradeço a sua carta de 11, recebida ontem, e o exemplar duplicado de «La Provincia», recebido hoje. Mais ainda lhe agradeço a honrosa amabilidade que representa, da sua parte e da de sua Esposa, o traduzirem, e publicarem a tradução, de cinco das minhas «Inscriptions». Creio que realizaram a tradução com grande felicidade, dada a dificuldade fundamental de pôr em uma língua neo-latina, sem ser demasiado extenso, o que a concisão natural do inglês permite concentrar em um curto número de versos. Assim a vossa tradução é em alguns pontos, por assim dizer, interpretativa. Mas não podia deixar de sê-lo, reconheço. E repito que está executada com uma grande felicidade. Há, por certo, um ou outro pormenor da tradução que se não conforma inteiramente com o sentido do original. Mas isso entra, creio, na inevitabilidade de ser mais interpretativa que literal uma tradução do inglês (ou do alemão) para qualquer das línguas vulgarmente chamadas latinas. Vendo bem, a tarefa, que tão amavelmente para mim se propuseram executar, e executaram, não podia, dadas as suas dificuldades essenciais, ser conduzida com maior destreza e escrúpulo artístico. De todo o coração vo-la agradeço. Não tenho visto o António Botto. Mas, sobre a sua conferência, falei, mal recebi a sua carta, ao José Pacheco, director da «Contemporânea». Ele disse-me imediatamente que a «Contemporânea» organizaria a sua conferência não só com prazer, senão com entusiasmo. São as palavras d'ele que lhe transmito. Nem haveria mais ninguém em Portugal que pudesse tão bem organizar — e de tão boa vontade organizaria — uma conferência sua, como a «Contemporânea». O José Pacheco disse-me, de resto, que já há tempo o havia convidado para fazer uma conferência em Lisboa, quando para tal tivesse ocasião. Não vale a pena mandar o seu livro a «críticos» nenhuns em Portugal. Há aqui uma cisão quase completa, senão completa, entre o jornalismo ou periodismo e a superioridade intelectual. Há notáveis temperamentos críticos, mas nunca escrevem em jornais por vezes será mais justo dizer que em absoluto não escrevem. Há muita gente culta em Portugal, mas não há meio culto. A cultura em Portugal é de indivíduos, não de grupos, e esses indivíduos vivem quase separados, às vezes mesmo de si-próprios. Tenho a agradecer-lhe, ainda, as palavras de apreço que em sua carta dedica aos meus poemas em inglês. Creia sempre, querido amigo, na amizade, na admiração e no reconhecimento do muito seu, (a) Fernando Pessoa. Lisboa, 15/IX/1923. 15-9-1923 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 186. Parece que estou sossegando Estarei talvez para morrer. Há um cansaço novo e brando De tudo quanto quis querer. Há uma surpresa de me achar Tão conformado com sentir. Súbito vejo um rio Entre arvoredo a luzir. 17-3-1929 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 112. Adriano del Valle — Castelar, 16 — Huelva. Para Adriano del Valle. Querido amigo: Para não demorar mais a remessa de algum dos livros dos prosadores portugueses, envio-lhe hoje, registado, o «Serão Inquieto» do António Patrício. É um dos mais perfeitos livros de contos que se têm escrito em Portugal. Creio que apareceu cerca de 1909 ou 1910. Mesmo a segunda edição (idêntica à primeira), que é a que lhe envio, me custou bastante a encontrar, pois está, pode dizer-se, esgotada. Também tencionava enviar-lhe os dois livros de contos de Aquilino Ribeiro, «Jardim das Tormentas» e «Filhas de Babilónia», mas, como se referiu a Aquilino, fiquei sem saber ao certo se já teria estes livros d'ele. Tem-os? Se os não tem, envio-lh'os, pois são dos que vale a pena ter. A linha estrutural das narrativas é menos perfeita que a dos contos de Patrício; são, em todo o caso, livros de um grande prosador. Tem algum livro de contos de Fialho de Almeida? Se não tem, há que conhece-los, e já fico sabendo que lhe devo enviar esses também. No seu pedido, relativo a novelistas portugueses, há duas dificuldades para a realização. Em primeiro lugar, não há muitos novelistas (isto é, contistas) portugueses, mesmo relativamente ao número de escritores; e, como não há muitos, menos ainda há que sejam bons, e cujas obras portanto valha a pena enviar-lhe. Em segundo lugar, a nenhum d'estes bons se aplica (creio) a circunstância de se poderem traduzir os seus contos sem pagar direitos de autor. Talvez, em todo caso, o Patrício e o Aquilino concedessem licença. O Fialho morreu já há anos; as suas obras são propriedade do editor; por certo não haverá maneira de conseguir essas coisas graciosas com um editor! Em todo caso, vale-lhe a pena conhecer o Fialho — para o conhecer, ainda que não para traduzi-lo. Depois lhe darei mais informações a este respeito, se me não for impossível obtê-las. Mais tarde. Não lhe mando só o Patrício. Vai também a «Flor da Lama» de Eugénio Vieira. É um livro de outra ordem, mas não é inteiramente mau. Por isso e porque é barato — custou apenas dois escudos e meio — não deixo de lh'o enviar. Neste caso creio que não haverá complicação em obter licença para traduzir, se for precisa. Por certo que a daria o Eugénio Vieira, que conheço pessoalmente. Por hoje vai isto. Espero a sua resposta para lhe remeter mais livros. Achei muito interessante (não sei se já lhe disse) o seu artigo a propósito da «Rueda de Color», que, em recorte, Rogelio Buendía me enviou. Queira dar os meus respeitos a sua Esposa, e aceitar, querido amigo, um abraço de apreço e camaradagem do (a) Fernando Pessoa. Lisboa. 14-9-23. 14-9-1923 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 187. Aqui está-se sossegado, Longe do mundo e da vida, Cheio de não ter passado, Até o futuro se olvida. Aqui está-se sossegado. Tinha os gestos inocentes, Seus olhos riam no fundo. Mas invisíveis serpentes Faziam-a ser do mundo. Tinha os gestos inocentes. Aqui tudo é paz e mar. Que longe a vista se perde Na solidão a tornar Em sombra, o azul que é verde! Sim, poderia ter sido... Mas vontade nem razão O mundo têm conduzido A prazer ou conclusão. Sim, poderia ter sido... Agora não esqueço e sonho. Fecho os olhos, oiço o mar E de ouvi-lo bem, suponho Que vejo azul a esverdear. Agora não esqueço e sonho. Não foi propósito, não. Os seus gestos inocentes Tocavam no coração Como invisíveis serpentes. Não foi propósito, não. Durmo, desperto e sozinho. Que tem sido a minha vida? Velas de inútil moinho — Um movimento sem lida... Durmo, desperto e sozinho. Nada explica nem consola. Tudo está certo depois. Mas a dor que nos desola, A mágoa de um não ser dois — Nada explica nem consola. 29-3-1929 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 113. Para Adriano del Valle — Castelar, 16 — Huelva, España. Don Adriano del Valle: Querido amigo: Escrevi-lhe há cerca de um mês, na mesma ocasião em que lhe enviei dois volumes de prosadores portugueses. Na minha carta fazia-lhe algumas perguntas sobre outros livros, para saber se lh'os poderia enviar, caso ainda os não tivesse. Não tive mais notícias suas. Não sei se se perderia a minha carta, se se perderia qualquer carta sua. Diga-m'o logo que receber esta. Recebi, enviado por Rogelio Buendía, um exemplar da «Unión», de Sevilha, onde vem traduzida parte da minha carta sobre «La Rueda de Color»; de todo o coração lhe agradeço as palavras amigas e honrosamente amáveis que, precedendo essa tradução, dedica à minha personalidade. Oxalá eu as mereça! Também nada tenho recebido do Rogelio Buendía — nada escrito, entenda-se, porque, como já disse, recebi o exemplar de «La Unión». Não sei se ele receberia os meus dois opúsculos ingleses, que lhe enviei, registados, em princípio de Setembro. Dê-me notícias suas. Com os meus respeitos para sua Esposa, peço, querido e apreciado amigo, que creia sempre na amizade e na camaradagem do muito seu (a) Fernando Pessoa. Apartado 147, Lisboa. 8 de Outubro 1923. 8-10-1923 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 188. O céu de todos os Invernos Cobre em meu ser todo o Verão... Vai p'r'ás profundas dos infernos E deixa em paz meu coração! Por ti meu pensamento é triste, Meu sentimento anda estrangeiro; A tua ideia em mim insiste Como uma falta de dinheiro. Não posso dominar meu sonho. Não te posso obrigar a amar. Que hei-de fazer? Fico tristonho. Mas a tristeza há-de acabar. Bem sei, bem sei... A dor de corno... Mas não fui eu que lh'o chamei. Amar-te causa-me transtorno, Lá que transtorno é que não sei... Ridículo? É claro. E todos? Mas a consciência de o ser, fi-la bas- tante clara deitando-a a rodos Em cinco quadras de oito sílabas. 3-4-1929 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 116. D. Adriano del Valle: Querido e apreciado amigo: Mando-lhe amanhã, registados, mais dois livros. Não os mandei antes, porque não sabia se valia a pena fazer o envio durante a semi-greve postal. Agora, que, embora a greve ainda dure, os serviços postais estão quase normalizados, faço a remessa. Vão «O País das Uvas», de Fialho d'Almeida — autor e obra consagrados, e onde vêm o conto «Os Pobres», prodigioso pelo estilo, e o curioso «Três Cadáveres»; e o «Leomil», de António de Séves, escritor novo, de grande valor, que neste seu primeiro livro faz um regionalismo curioso, diferente do que há às vezes no Aquilino. Estou certo que há-de gostar dos dois livros. O «Leomil» é por vezes difícil de ler, quando os termos regionais se acumulam, mas tem trechos notáveis de vigor, desenho e «canto». Que tem feito? Que é feito do Rogelio Buendía? Nunca mais soube d'ele. De aqui poucas notícias posso dar-lhe. Há muitos meses que não vejo o Porfírio. O António Botto continua em África. Quem com certeza está em Lisboa, dos que lhe são conhecidos, é o Raul Leal, a quem costumo ver frequentemente, mas que, aliás, há bastantes dias não vejo. Saiu um número 10 da «Contemporânea»; vem péssimo, salvo quanto a um ou dois elementos, entre os quais (sem favor) o seu prefácio ao livro do Vando-Villar. Ando agora muito afastado do meio literário e dos seus arredores. Não ando afastado propositadamente, ou por qualquer razão. Automaticamente assim tem acontecido. Trabalho sempre, em uma coisa ou em outra, mas não tenho pressa. Se alguma vez eu tiver que ser admitido à presença e ao tempo dos deuses, dos deuses, que não de mim, depende. Escreva-me sempre que possa. Sabe quanto aprecio notícias suas. Peço que dê os meus respeitos a sua esposa, e que aceite um grande abraço de muito apreço e amizade do seu (a) Fernando Pessoa. Lisboa, 1 de Junho de 1924. Apartado 147. 1-6-1924 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 189. Mas o hóspede inconvidado Que mora no meu destino, Que não sei como é chegado, Nem de que honras é dino. Constrange meu ser de casa A adaptações de disfarce. 7-4-1929 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 118. Lisboa, 28 de Janeiro de 1934. Exmo. Sr. Director de A Voz: Apesar de leitor assíduo de A Voz, só hoje, em releitura dominical, deparei o suelto A Maçonaria na Alemanha, publicado em 24 de Janeiro. Vejo que esse jornal se regozija de que o Ministro-Presidente da Prússia tenha «intimado a dissolução» a três das várias Obediências distintas por que está dispersa a Maçonaria da Alemanha. Duas d'essas três (rectifico as designações de A Voz) são a Grande Loja Mãe Nacional dos Três Globos, que data de 1749, e a Rial York de Amizade (aliás Grande Loja da Prússia), que data de 1798. A terceira, ao que leio, é uma Ordem Cristã Germanica, que não sei o que seja, mas que, pelo nome, deve ser um sistema de Altos Graus, ou um Alto Grau solto, como, por exemplo, a Ordem do Sacro Rial Arco, ou a Ordem Rial da Escócia (na qual, diga-se de passagem e por curiosidade, foi há pouco iniciado o Príncipe de Gales). Ora as duas Grandes Lojas citadas (foi erro o chamar-lhes simplesmente Lojas) têm a particularidade, que as distingue de toda a mais Maçonaria regular, de não admitir senão chistãos; e da terceira entidade, seja ela o que for vê-se, por seu mesmo nome, que é cristã também. Como não consta que tenha sido «intimada a dissolução» a qualquer outra Obediência alemã, ou só prussiana, vê-se que o ataque nazi é dirigido exclusivamente contra a parte cristã da Maçonaria germânica. E está certo que o seja. Há nisso inteira coerência com os princípios baixamente pagãos que confessadamente animam ao hitlerismo, como ao fascismo, como ao bolchevismo — a tripla prole do Anticristo. Não compreendo, portanto, como é que A Voz, suficientemente a par d'estes assuntos, e jornal manifestadamente cristão, possa regozijar-se com o haver mais uma ofensiva, só aparentemente anti-maçónica, do espírito inimigo do Cristo. Esse espírito — sabe-o bem V. Exa. — é mais subtil do que muitos cuidam, e usa de formas e de modos mais proteicos que os do camaleão, o qual, humilde animal, não muda senão de cor. Os benefícios notáveis, que provieram do nazismo, no que anti-marxista; do fascismo, no que anticomunista; do mesmo sovietismo, no que contra-estagnante, não devem fazer esquecer o que de igual se infiltrar, por influxo superior e direcção meditada, em esses três movimentos. E esse elemento subtil e insinuado, superiormente comum àqueles três modos sociais, é o repúdio do Cristo e a negação do que Ele representa. Concordo com A Voz: non praevalebunt... Mas então porque prestar-lhes o apoio, ainda que platónico, do louvor? De V. Exa., respeitosamente, UM IRREGULAR DO TRANSEPTO 28-1-1934 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 190. Mas eu, alheio sempre, sempre entrando O mais íntimo ser da minha vida, Vou dentro em mim a sombra procurando. 1929 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 119. CAMPANHAS ANTI-MAÇÓNICAS Se um maçon, espontânea ou delegadamente, vem a público defender a sua Ordem, encontra-se desde logo, desde o início, em situação de inferioridade dialéctica perante o adversário. Em primeiro lugar as regras da sua Ordem inibem-no de citar textos maçónicos, a não ser livros públicos, ou de provocar a citação d'eles pela parte contrária, o que lhe tira até a capacidade de impor o onus probandi ao seu opositor. Em segundo lugar, muitas das afirmações que faz, como não as pode fazer acompanhar de prova documental ou testemunhal, terão que resultar finalmente em «provas de palavra de honra», isto é, do ponto de vista lógico, nenhumas. E, na ordem dialéctica, o adversário tem o direito de duvidar da palavra de honra, ou de levar essas informações à conta de mentiras diplomáticas. Em terceiro lugar, como a vida iniciática é uma vida e não uma doutrina — isto é, um estado de alma formado de emoções e intuições, que não de ideas ou de temas—, é impossível transmitir ao adversário uma ideia, uma noção, vaga que seja, do que é, como atmosfera, a Maçonaria, ou aliás qual[quer] outra Ordem ou Colégio de iniciação. Em resumo, o maçon polemista não pode fazer saber ao adversário o que é a Maçonaria, e também lh'o não pode fazer sentir. Antes sente um fenómeno análogo à fé, a qualquer fé. Tente um místico cristão fazer compreender a um ateu ou a um materialista o que vem a ser a fé em Cristo. Ora os rituais exigem que se tenha fé neles antes que se possa começar a compreendê-los. Suponha o leitor que expõe, no pormenor das suas divisões, o Ritual da Missa Romana a um maçon anticatólico, mas entendido na estrutura de rituais. Pode, quando muito, arrancar-lhe a concessão de que, como ritual, a Missa é bem-talhada. Não lhe arranca mais, porque o conteúdo, o sentimento, o tipo de simbolismo lhe são antipáticos. 1934? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 191. Este escrito é, como o era o livro de Montaigne, um escrito de boa fé. É redigido por quem não é maçon, mas sabe alguma coisa da Maçonaria, para outros não-maçons, que d'ela nada sabem. Motiva-o, externamente, a campanha anti-maçónica, que recentemente tem viçado em França, feita por jornais republicanos, em volta de consequências, reais ou aparentes, do caso Stavisky e que de aí transbordou para outros países (e propósitos). Motiva--o, internamente, o intuito de reduzir essa campanha aos seus limites legítimos — os da verdade, ou, pelo menos, da justiça (e da razão). s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 192. Uma associação secreta no sentido em que possa ser tomada por perigosa ou ilegítima, é, essencialmente, uma associação que é secreta quanto aos seus fins. O ser secreta quanto à sua composição, ou secreta quanto aos seus processos, não pesa para esse caso. Um serviço de espionagem, uma policia política, são necessariamente secretos quanto a composição e processos. Qualquer que seja a nossa simpatia, antipatia ou indiferença por esses sistemas secretos, ninguém nega aos estados e aos governos o direito de empregá-los. E que não são secretos quanto aos fins, e esses fins não são, em si mesmos, ilegítimos. Se são ilegítimos, a associação é ilegítima, nada importando que sejam secretos ou não os seus processos e os seus componentes. Ora, qualquer que seja o grau de segredo — variável de país para país pelas razões que adiante serão expostas — que incida sobre a composição e os processos da Ordem Maçónica, nenhum segredo incide, pelo menos hoje, sobre os seus fins. São estes os fins da Maçonaria em todos países onde existe. Os dois primeiros são acompanhados em toda a parte pelos mesmos processos — rituais no primeiro caso, actos de auxílio, e outros idênticos, no segundo. Circunstâncias várias, puramente internas, podem produzir, e produzem, diferenças rituais, de país para país; circunstâncias de educação, de preparação extra-maçónica e de temperamento podem produzir, de país para país, diferenças de exactidão e de solenidade nos trabalhos e ritos, e, de maçon para maçon, diferenças de aproveitamento e de compreensão. Como porém o espírito iniciático da Maçonaria se acha já todo contido nos graus simbólicos, e mormente no primeiro e no terceiro, e como o espírito d'estes graus, apesar de divergências, rituais e outras, por vezes extraordinárias, é o mesmo em toda a parte, sucede que do ponto de vista iniciático, a Maçonaria é a mesma em toda a parte, por mais que sejam os Altos Graus — que não [são] mais que graus de interpretação, transmutação ou complemento — que se sobreponham, neste ou naquele Rito, aos simbólicos. A Maçonaria Inglesa, propriamente tal, tem só quatro graus — os simbólicos e o Sacro Rial Arco. Enganar-se-ia porém quem suposesse que um inglês Companheiro do Rial Arco, e como tal Príncipe Maçon, está por isso inferior iniciaticamente com 29 pontos a um detentor de todos os 33 graus do Rito Escocês. Mais vale, em muitos casos, a leitura consciente e atenta de certos livros maçónicos, e até de certos livros que aparentemente nada têm com a Maçonaria, do que a obtenção de uma série extensa de Altos Graus, alguns d'eles infelizmente totalmente desprovidos de interesse ou de poder interpretativo, quando não até de coerência ritual. E mais do que tudo isso vale ainda uma iniciação extra ou supermaçónica. Deve compreender-se que em tudo isto tenho estado a tratar da Maçonaria do ponto de vista iniciático. Que uma série extensa de Altos Graus sirva convenientemente para uma selecção ou peneiramento — concedo-o, e é, aliás, intuitivo. Isso, porém, não tem que ver com o lado iniciático, mas com o lado, por assim dizer, administrativo, da Maçonaria. Mais adiante tocarei esse ponto. As condições sociais e políticas variam de país para país. Variam com elas as condições em que vivem as liberdades públicas, as normas de tolerância e respeito pelas opiniões individuais, o grau de educação do povo. A acção da Maçonaria, no que depositária de uma doutrina, ou critério, liberal terá forçosamente que variar com elas, e com essa variação terão também que variar os processos que adopta, o grau em que faz ou não faz segredo dos seus componentes. Em Inglaterra, onde estão plenamente conquistadas as liberdades públicas, e onde ninguém seriamente a ameaça, a Maçonaria nada, ou pouco, tem que fazer politicamente. De aí resulta o não ter necessidade de ocultar os seus componentes (...) Começa pelo mesmo nome da instituição: francalvenaria. Não é franca, porque é secreta, e nada tem que ver com alvernaria. Esta observação não é original: utilizo-me da célebre definição de franc-maçon dada por Mgr. de Broglie [?]: (...) s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 193. Uma associação secreta é uma associação cujos fins são secretos, independentemente de o ser a sua composição. Um agrupamento monárquico que apoie um estado ou um partido republicano, com o fim oculto de subverter a um ou a outro, é uma associação secreta. Se o sr. José Cabral conhece os nomes dos maçons, em que é que a Maçonaria portuguesa é secreta (...) Os fins da Maçonaria são: (1) transmitir aos seus iniciados, por meio de símbolos, a maneira de, ou preparação para, estudar os «mistérios da natureza e da ciência»; (2) auxiliarem-se os maçons moral, e, se preciso for, materialmente uns aos outros; (3) fazer o possível para que nas sociedades se crie ou se desenvolva o espírito de tolerância sem o qual a vida mental e espiritual é impossível, e o respeito pela dignidade do Homem, sem o qual é impossível a própria vida social num país civilizado. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 194. C'est (sans aucune doute) un neurasthenique vésanique. La neurasthénie vulgaire, ou les influences qui la produirent tombant sur un fonds de dégénérescence a, pour ainsi dire, bouleversé une organization mentale characteristiquement hysteriforme, pour ne pas dire hysterique. Sur ce diagnostique, je ne me trouve pas en doute. Ce que je voudrais faire, c'est l'histoire de la maladie de P[essoa], ou, pour mieux dire, l’histoire (...) - je voudrais en connaître la psychologie, savoir de quelle manière, par quels conduits la neurasthénie actuelle s'est enracinée dans ce pauvre temperament nativement hyposthénique. Or pour cette «histoire d'une vie» ou «histoire d'une âme» les donnés me manquent. Je connais, dans les limites du possible, la vie mentale de P[essoa] jusqu'à 1895 (décembre), époque à laquelle il est allé (agé à peine de 7 ans) à D'Urban. Elle n'est pas absolument normale. À cette âge il y a déjá chez l'observé une espèce de neurasthenabilité marquée: à 7 ans - c'est déjá -quoique obscurement - un peridyspéptique, un (...). Plus, à 7 ans P[essoa ] montre déjá ce caractère réservé, non-infantile - une pondération (non la pondération du bon-sens tout à fait bourgeois, mais la pondération melancolique et intellectuelle), une seriosité, qui étonnent. Il s'isole déjà; il aime à jouer seul, à lire, à écrire (il l'a appris lui-même). C’est un solitaire - on le voit bien. Et à tout cela il faut joindre beaucoup de rage impulsive et presqu'haineuse (sans provocation pas toujours proportionelle) et beaucoup de peur. On peut résumer le caractère: précocité intellectuelle, imagination prématurément intense, méchanceté, peur, besoin d'isolement. C'est un neuropathe em miniature. Probablement il aura ainsi continué pour quelque temps. En 1901 (août) il revint de D'Urban. C'est le même caractère, mais moins impulsif: le climat (je conjecture) et la discipline scolaire l'auraient inhibitionnés. À cette époque il présente un caractère pas trop complexe: intelligence vive, imagination grande mais pas necessairement intense; un peu enfantile (...) pas de peur accentuée - c'est à dire, sans claire provocation extérieure il ne la montre pas. C'est encore normal, physiologique. Du reste, timidité, ingénuité, égoisme un peu marqué - mais le tout normal. Ce n'est pas encore l'aube de la puberté. Ayant vécu dans un pays (le Natal) loin de l'influence corruptrice de la civilization, il n'a pas de depucellage mental; à cette époque il garde mentalement (à ce que je crois) une virginité d'imagination parfaite. II n'y a pas, d'ailleurs, moyen sur d'investigation. II est resté à Lisbonne de Août 1901 jusqu'à Sept[embre] 1902; il faut donc qu'il ait subi tant soit peu l'influence de la sensualité urbaine et immoralement corruptrice. Mais il m'a été entièrement impossible de trouver un moyen quelconque de découvrir (...) s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 24. 1ª publ. in Os Dois Exílios - Fernando Pessoa na África do Sul . H. D. Jennings. Porto: Centro de Estudos Pessoanos, 1984. Quando digo que tenho conhecimentos maçónicos, quero dizer, primeiro, que sei o que é, iniciaticamente, a Maçonaria e qual o seu papel especial entre os ritos e sistemas de iniciação; segundo, que sei o que é, socialmente, a Maçonaria, e qual a relação, que é íntima e directa, entre o seu papel iniciático e o seu papel social; terceiro, que conheço, tanto quanto se pode conhecer (e não é muito) a história da formação, desenvolvimento e (...) da Maçonaria. O mais que sei do assunto é casual e acessório, pois não disponho de uma rede de espionagem nem convivo de hábito ou de bom grado com denunciantes. Se me perguntarem qual é a significação do sinal abreviativo por três pontos em triângulo, quando primeiro apareceu em documento público e por que motivo algumas obediências maçónicas evitam o seu uso — se me perguntarem isso, sou capaz de responder, ainda que não responda. Se me perguntarem qual a origem e sentido do termo hebreu Kadosh , e por que motivo está ele erradamente aplicado ao grau em cujo título figura — se me perguntarem isso, estou apto a responder, o que não quer dizer que responda. Se me perguntarem porque é que a Grande Loja de Inglaterra, quando, no Acto de União de 1813, decidiu que a «pura e antiga Maçonaria» não era constituída senão pelos três graus simbólicos e o Sacro Rial Arco (o de Zarubbabel e não o de Henoch, que é o Grau 13 do Rito Escocês), não passou todavia a trabalhar o Rial Arco mas o entregou a um Supremo Grande Conselho dos Maçons [?] do Rial Arco — se me perguntarem isso, estou apto a responder, embora guarde silêncio. Todas estas coisas são da alma e da essência da Maçonaria e, muito embora haja que colher em livros a indicação dos factos, não é com uma ciência derivada de livros, que esses factos podem ser coordenados e devidamente entendida e interpretada a sua coordenação. Se, porém, me perguntarem se certo indivíduo é maçon, ou quantas Lojas estão em actividade sob certa obediência, terei que responder, em geral, que não sei, porque de facto o não sei. Se, por acaso, souber, digo também que não sei. Não lhes ocorreu que houvesse alguém que, não sendo maçon, tivesse todavia motivos para ter para com os maçons um sentimento deveras fraternal, que o movesse a defendê-los; que, não sendo presa de qualquer compromisso de sigilo, pudesse fazê-lo; que, tendo os conhecimentos necessários, pudesse fazê-lo competentemente. O meu artigo foi somente o primeiro aviso de uma campanha a fazer; nem sou só eu que a faço, nem é ela feita só em 4 letras. Assim o querem? Assim o terão. Amigos reaccionários: em guarda! s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 195. Velo, na noite em mim, Meu próprio corpo morto. Velo, inútil absorto. Ele tem o seu fim Inutilmente, enfim. 1927 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 81. Há luz no tojo e no brejo Luz no ar e no chão... Há luz em tudo que vejo, Não no meu coração... E quanto mais luz lá fora Quanto mais quente é o dia Mais por contrário chora Minha íntima noite fria. 26-11-1927 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 82. Genius is insanity made sane by dilution in the abstract, like a poison converted into a medicine by mixture. Its proper product is abstract novelty — that is to say, a novelty that conforms at bottom to the general laws of human intelligence, and not to the particular laws of mental disease. The essence of genius is inadaptation to environment; that is why genius (unless it be accompanied by talent of wit) is generally incomprehended of its environment; and I say “generally” and not “universally” because much depends on the environment. It is not the same thing to be a genius in ancient Greece and in modern Europe or the modern world. Shakespeare was unknown as a genius in his time, for the loud though posthumous praises of Ben Jonson are no more than the loud language of the time, devoid of meaning and applied by the same Jonson to men of whom no one to-day knows anything — that Lord Mounteagle of whom he says that he “stood the master-mind” (no less) in that time, or the very James I. Shakespeare was admired in his time as a wit, not as a man of genius. How could he be admired as a man of genius? It was the creator of Falstaff that could be understood; the creator of Hamlet could not be. If the anti-Stratfordian greges had ever taken the trouble to notice this, many absurd comparisons with the praise given to Jonson or to other men of their time would have been rendered impossible. Shakespeare is the example of great genius and great wit linked to insufficiency of talent. He is as supreme in the intuition that constitutes genius and in the quickness of strangeness that constitutes wit as he is deficient in the constructiveness and the co-ordination which constitute talent. Milton is the example of the union of great genius and great talent. He has the intuition of genius and the formative power of talent. He had no wit; he was, in fact, a pedant. But he had the pedant’s firm, though heavy, will. Wordsworth, for instance, is the example of pure genius, genius unallied to talent or to wit. Whereas Shakespeare, however imperfect in the “whole” some of his works may be, is never tedious and never mean; whereas Milton, however dull he may be, is never low, Wordsworth, when his genius deserts him, falls beneath meanness and below dullness (...) s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 184. Velha cadeira deixada Velha cadeira deixada No canto da casa antiga Quem dera ver lá sentada Qualquer alma minha amiga. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 107. Brincava a criança Com um carro de bois. Sentiu-se brincando E disse, eu sou dois! Há um a brincar E há outro a saber, Um vê-me a brincar E outro vê-me a ver. Estou por trás de mim Mas se volto a cabeça Não era o que eu queria A volta só é essa... O outro menino Não tem pés nem mãos Nem é pequenino Não tem mãe ou irmãos. E havia comigo Por trás de onde eu estou, Mas se volto a cabeça Já não sei o que sou. E o tal que eu cá tenho E sente comigo, Nem pai, nem padrinho, Nem corpo ou amigo, Tem alma cá dentro Está a ver-me sem ver, E o carro de bois Começa a parecer. 5-12-1927 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 83. Mother of things impossible, Sister of what can never be, Thou whose closed lips will never tell The words whose lack is misery Sit by my side while I ignore. Smile by my ignorance of thee, And my lost solitude restore. Oh, life is sad as things unwilled, Love is the day that never comes To those blind as my soul, and filled With that pressage of coming drums When the city shall fall, that haunts The inner vision whose night hums In us while death startingly chaunts. O interpret my soul to me! Give me no truth, no sight, no road, But take from me the misery Of consciousness and the unseen goal Of seeking ever what doth seem. Lighten with being‑near my load! O let me hold thy hand and dream! 22-7-1916 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 472. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. It might be supposed that the presence, in the same man, of more than one intellectual element would facilitate his immediate celebrity. To a certain extent this is so, but it is so to a lesser extent than might be conjectured in the idleness of hypothesis. A man who has jointly great genius and great intelligence (like Shakespeare), or great genius and great talent (like Milton), does not accumulate in his time or in the next time the results of genius and the results of the other quality. For these different intellectual elements are interfused because they coexist in the man, and there is poured into the substance of intelligence or talent the sacred poison of genius; the drink is bitter, though it retain something of its common taste. The ancients mixed honey with wine and found it pleasant; but nectar cannot make any wine pleasant to the taste of the commonalty. A man who might have in himself, in some degree, genius, talent and intelligence, would be prepared to strike his time with his intelligence, his age with his talent and the generality of future times and ages with his genius. But as his genius would affect his talent and his talent and genius his intelligence — for things which coexist in the mind coexist by interfusion and not by simplesideness — the less would his talent be pure talent and so attract the wider generations, and the less would his intelligence be pure intelligence and so caress the simplicity of all presents. Any example will make this clear to all who understand by examples. A man of wit who makes, among his common fellows, a joke such as a wit of talent might cleverly devise, raises a general and appreciative laugh. This impure thing is pure intelligence. The man who will make, in the same company, a joke with a classical allusion, or with a stretch of intellectual wit, may show to the analyst that he has added something to intelligence, but, in his subdued effect on the hearers, he will have subtracted something from it. If the same man be furthermore a genius and happen to make such a joke as will clearly contain his genius and suffuse his intelligence with its colour, he will get upon the daltonism of every man before whom he makes a fool of his wisdom. It will be something like making a joke in a foreign language. The present has no second-sight, and the point remains in the scabbard. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 185. Trazes a bilha à cabeça Trazes a bilha à cabeça Como se ela não houvesse. Andas sem pressa depressa Como se eu lá não estivesse. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 107. O que eu fui o que é? Relembro vagamente O vago não sei quê Que passei e se sente. Se o tempo é longe ou perto Em que isso se passou, Não sei dizer ao certo. Que nem sei o que sou. Sei só que me hoje agrada Rever essa visão Sei que não vejo nada Senão o coração. 5-2-1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 85. Ship sailing out to sea, If thou canst not take me, Take at least with thy hope Of other ports my misery And what in me doth grope. Ship sailing far away Let me dream thou canst go Where I at last may No longer live with woe Or with grief stay. Ship sailing out to Death Go far, go far Under the breath Of the wind, while the star Of Fate listeneth. Ship that are not anywhere, But that I dream, That is why you art fair. Sail or sail not... Seem To sail. That is all. Where? Ship that I dream and fades In my dreams distance, go There are happier glades Beyond where I know But this is today and woe. 27-7-1916 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 472. 1ª Publ. in «Oito Poemas Ingleses Inéditos». Georg Rudolf Lind. in Estudos sobre Fernando Pessoa . Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981. Wit is common and generally human. If anyone doubt this, he need but buy a copy of “Answers”, and read the winning phrases in a contest of wit, which they call “Nuggets”. There quite obscure persons have flashes of wit which, as wit, could be cited to the honour of an acknowledged genius in it. I have often reflected how wise are the sayings of Goethe in his conversations with Eckermann. But I have also often reflected how many sayings equally wise I have heard in the course of my life, in conversations with people who, however intelligent, were hardly candidates for Goethes. Again, ideas are common, even brilliant ideas. The world is always overpacked with geniuses of the casual. It is only when the casual becomes the universal by intense concentration on it, by extensive working of it into consequences and conclusions, that right of entry is gained into the mansions of the future. It is this consideration that does to a great extent stultify, in point of definite survival, the critical efforts of an Arnold, of a Lytton Strachey, of an Aldous Huxley. They are all extremely clever; they are all, more or less, impatiently incoherent. There is perhaps more wisdom, or worldly wisdom, as such, in a book by Aldous Huxley than in all Spencer. But Spencer will be remembered, though unread, a thousand years from now; and for Aldous Huxley there will be neither reading nor remembering. Because we come ever to the central point of all triumph, be it against the adversity of circumstances or the inertia of the future: will, and will only, makes us win. Will only will convert our casual thought into a system and thus give it a body; will, and will only, will lift our happy phrase into a doctrine of that happiness. Many men throw out phrases which contain in germ great Kantisms; but only Kants expand the phrases into the greatness of worlds. The greatness of a phrase of Goethe lies in that it is not the phrase itself, but the consequence of genius. There is a great Portuguese poet called Cesario Verde; he lived in the middle years of the nineteenth century. The whole attitude to life which makes him a great poet can actually be found in anticipation in two casual poems of Guilherme Braga, a poet ten years older than he. But what in Cesario is gathered together into a whole concept of the universe was a mere chance in Braga’s production. And, even if, as is quite probable, Braga’s casual poems made Cesario find himself, even if by a plagiarism without plagiarism, the earlier man is nevertheless smaller. (It is the later man who is the earlier). These things are generally rated quite accurately by posterity. That is why posterity registers Wilde’s wit and forgets the equal wit of Jones or Smith in the train. One phrase is Wilde’s, the other is anybody’s. Why should I be poorer than that rich mane, ask the innocents. Because he is organically born to be rich. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 187. Prólogo «Uma coisa que às vezes me tem dado que cismar - sabe o dr. Gomes -» disse o Sanches, cronista literário do Diário da Manhã «é que tenha sido tão pouco estudada a… o lado subjectivo da loucura…» «Que diabo quer você dizer com o lado subjectivo da loucura» perguntou bruscamente o médico. «O... Olhe, quero dizer isto: vocês, os médicos, estudam as várias doenças mentais, sintomas, manifestações, etcetera e tal, mas não tratam de averiguar o que diabo pensarão aqueles sujeitos lá em si, no que se não vê nos sintomas, você compreende bem. A psiquiátria... a psiquiatria... não sei bem como se diz.» «Diga lá como quiser... adiante.» «Vá lá... A psiquiatria estuda-os por fora, por assim dizer. Não quer saber do que o tipo sente, lá ele propriamente sintomas à parte... Isso que me parece que seria interessante investigar... O diabo é que é difícil...» «Para que diabo havíamos nós de querer saber o que os alienados pensam, lá por si, como você diz? Isso não nos interessa... De resto, creia o meu amigo que não deve ser tão interessante como parece... Não há propriamente um sentimento humanamente compreensível nos psicopatas... Ainda nos nevropatas, vá, mas nos psicopatas... Um... Não deve servir para literatura, se é por isso que você perguntou, e muito menos para poesia... Os reis Lears da vida prática não são poéticos nem no que dizem nem no que fazem... O lugar do enfermeiro de hospício de alienados não serve como gradus ad parnassum... Ná... Basta o que se observa. Curá-los é que é o caso... Lá o que eles pensam, que raio de interesse pode isso ter? Não seja poeta fora de horas, homem... Ora imagine você... ora imagine... Você conheceu algum... Sim, olhe, imagine você que alguém ia escrever um romance sobre o que sentiria o Marcos Alves... 1913? Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 25a. «Marcos Alves» Ora a minha Vespa, ... Ora a minha Vespa, que aliás será vespa mas não é minha, vai-me dizer o que lhe há-de escrever, que lhe seja agradável, uma criatura cuja inteligência caiu algures na Rua do Ouro, cuja lucidez ficou debaixo de um camião ao virar para a Rua de S. Nicolau e o resto exactamente. A minha (?) pequena Vespa gosta realmente de mim? Porque é que tem esse gosto estranho pelas pessoas de idade? Na sua carta diz que lhe custa a aturar umas tias, que aliás o não são, de 80 e tal e 50 e também; então como quer pretender que atura de bom grado uma criatura de idade semelhante e que nem sequer pode ser tia, pois, salvo melhor opinião, para essa profissão costuma ser indispensável ser mulher. Quando se é tia, é claro, tem que se ser duas mulheres, ou mais. Ora eu, até agora, consegui ser apenas um tio, mas só da minha sobrinha, que (é curioso) me trata por «tio Fenando» pelas circunstâncias (1ª) já exposta, de eu ser tio dela, (2ª) de eu me chamar (recorda-se?) Fernando, (3ª) de ela não pronunciar a letra R. Visto que diz que me não quer ver e que lhe custa querer não me querer ver, e que quer que eu lhe telefone, porque ao menos telefonar é não estar presente, e que lhe escreva porque escrever é estar a distância, então, Vespa que não é minha, eu telefonei-lhe já e estou lhe escrevendo, ou, posso dizer, já lhe escrevi, pois vou acabar aqui mesmo. Estou preparando a pasta preta para a levar nela. Ouviu? Queria ir, ao mesmo tempo, à Índia e a Pombal. Curiosa mistura, não é verdade? Em todo o caso é só parte da viagem. Recorda-se desta geografia, Vespa vespíssima? Fernando 24/9/1929 24-9-1929 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 40. Trazes um manto comprido Trazes um manto comprido Que não é xaile a valer. Eu trago em ti o sentido E não sei que hei-de dizer. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 108. A água da chuva desce a ladeira. É uma água ansiosa. Faz lagos e rios pequenos, e cheira A terra a ditosa. Há muito que contar a dor e o pranto De o amor os não querer... Mas eu, que também o não tenho, o que canto É uma coisa qualquer. 21-3-1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 86. She lives on the cover Of a chocolate‑box. Her wide hat comes over Her too golden locks. Near her many a blossom Of a bad green tree Her hand's on her bosom And she looks past me. Haply she is like Someone I ne'er knew, And can memory strike In a way untrue. A vague maiden made Of bad printing work, Of colours ill‑laid …… Haply she's someone, Real, person, and true In a world, or none, Our thoughts can construe. Somehow she is there And that means something Real, but not near Our imagining. Why was she made that There and thus, if she Is not God‑known. What Is reality? Nothing that we can Interpret or dream Quite exhausts the span Of what she can seem. God is very complex. Life is very wide. Who knows? She resembles Much that is denied. This is idle, but Perhaps out of here Its sense may abut On some notion clear. Life is shallow water, Dreams are ripples gone. To think is to falter What's known is unknown. 17-9-1916 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 474. Taking this distinction of human faculties in conjunction with the distinction of human environments, it is at once seen that the two classes fit each other. It is obvious, from the joint analysis of the two classes, that genius involves an adaptation to the abstract environment which is formed by the general nature of mankind, which is common to all nations and to all times; the proper reward of genius is therefore immortality. It is obvious that talent involves an adaptation to the essential elements which, in a particular application or manifestation, make an age or a nation what it is at a certain time; the proper reward of talent is therefore what we have called fame. It is obvious that wit involves an immediate application to the immediate environment; this is shown in the one form of wit which we particularly call wit, for a joke has no point if no point can be seen. (...) Many men with no great claim even to mere great wit could have made most of Shakespeare’s jokes, as jokes. It is in the creation of the figures who make those jokes that genius underlies wit; not what Falstaff says but what Falstaff is is great. The genius made the figure; the wit made it speak. There are, in the great witty stream of French literature, many writers and speakers who have made better wit than Boileau. Boileau has not gone in wit beyond such minor epigrammatists as the Chevalier de Cailly. But the building by talent of witty wholes is outside the power of those greater minors. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 189. Olhas para mim às vezes Olhas para mim às vezes Como quem sabe quem sou. Depois passam dias, meses, Sem que vás por onde vou. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 108. Tu és Maria das Dores, Tu és Maria das Dores, Tratam-te só por Maria. Está bem, porque deste as dores A quem quer que em ti se fia. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 80. Há música. Tenho sono Tenho sono com sonhar. Estou num longínquo abandono Sem me sentir nem pensar. A música é pobre mas Não será mais pobre a vida? Que importa que eu durma? Faz Sono sentir a descida. 25-3-1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 87. The celebrity of nations is, in a certain sense, similar to the celebrity of men. There are nations which are geniuses; there are nations which are talents, and there are nations which are wits. In that civilisation to which we belong, there are three nations which are geniuses — the three nations which have built up the modern world. Their direct greatness has differed, but their recognition by the world has been almost equal in not having been immediate. Modern civilisation is based, back of itself, on three principles — Greek Culture, Roman Order and Christian Morals. Greek Culture means individualistic rationalism, and every time that a European nation has departed from this fundamental element, it has fallen or lost. Roman Order means the concept of the State as Empire, and every time a European nation has lost its sense of this, it has fallen or taken meanness. (...). After this, modern civilisation is based on three elements: nationality, which was created by Italy; universality, which was created by Portugal; and liberty, which was created by England. These elements, which the genius of three nations created, were spread by the talent of three other nations. Germany, by converting the renascence into the reformation; Spain, by (...), and France, by universalising the English Revolution. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 190. Ophelinha pequena: Não sei se gosta de mim, mas venho escrever-lhe esta carta por isso mesmo. Como me disse que amanhã evitava ver-me até às 5 1/4 para as 5 1/2 na paragem do eléctrico que não é de ali, ali estarei exactamente. Como, porém, se dá a circunstância de o sr. eng. Álvaro de Campos ter que me acompanhar amanhã durante grande parte do dia, não sei se será possível evitar a presença — aliás agradável — desse senhor durante a viagem para umas janelas quaisquer de uma cor que me esquece. O velho amigo meu, em quem acabo de falar, tem, aliás, qualquer coisa que lhe dizer. Recusa-se a fazer-me qualquer explicação do que se trata, mas espero e confio que, na sua presença, terá ocasião de me dizer, ou lhe dizer, ou nos dizer, de que se trata. Até então estou silencioso, atento e até expectativo. E até amanhã, boquinha doce, Fernando 26/9/1929 26-9-1929 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 42. Cap. I. — Demonstração de como o Império Alemão é uma nação formada defensivamente, e todos os seus característicos correspondem a essa definição fundamental. Cap. II. — Demonstrado isso trata-se, porém, de saber uma coisa. Esses característicos do Império Alemão podem ser devidos ao facto de ela ser uma nação formada defensivamente, ou podem ser devidos a qualquer característico fundamental da nação alemã, do carácter alemão. Se se demonstrar que todas as nações são formadas defensivamente, esses característicos passarão a pertencer ao carácter alemão; se se demonstrar que nem todas as nações, ou nenhuma outra, assim é formada, resultará que esses característicos nascem da formação defensiva do Império Alemão. E o que neste capítulo vamos analisar. Análise da ideia de nação: 1. A nation is a society occupying a certain territory and conceiving itself, and acting therefore, as different from other societies. It has to occupy a certain territory, else it would not be a nation, but something in the nature of a religious sect; and, as a matter of fact, a religious sect is a scattered nation — hence the fact that, whenever a religion is not national, as in the patent case of the Catholic Church, it is a constant break and enmity in the national life. It has to be different from other societies, else there would be no reason to exist apart from them, human tendencies being naturally gregarious, except where such things as national differences tend in the contrary direction. Finally, it has to conceive itself thus, for, if it did not, it would not exist independently. 2. The facts that form a nation are therefore all such factors as tend to (1) drive certain races into a certain territory, (2) make those races attain a thing called, for convenience, a national consciousness, whatever that may mean in itself, though in its effects it signifies (...) (3) make those races conceive themselves as different from other nations surrounding them or anywhere else in the globe. (Perhaps the order of the first two factors should be inverted; and the national consciousness should be the first fact; (...) Racial mixture is the basis of the foundation of all nations, as culture contacts of their development. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 165. «O Templo de Jano». Quando tiraste da cesta Quando tiraste da cesta Os figos que prometeste Foi em mim dia de festa, Mas foi a todos que os deste. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 108. Se vais de vestido novo Se vais de vestido novo O teu próprio andar o diz, E ao passar por entre o povo Até teu corpo é feliz. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 80. Meu coração esteve sempre Sozinho. Morri já... Para que é preciso um nome? Fui eu a minha sepultura. 1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 88. DESOLATION Here where the rugged hills Their gnarled loose bases grip into the earth, And nothing save the sorrow of our birth From seeing the seeing spirit fills, Here where, among the grim, deserted stones, No hope of green for desertness atones, Or water's sound Make sweet the solitude around, Here may I lay This day My head Upon the ground and say No better bed Can he who has but himself for life have, Nor better grave. The sterile part Of love, feeling, was given me. From the humanness even of a broken heart God set me free. Out of my destiny no flower was made To grow. All in me fated was not even to fade Or een a vain and transient glory show. The very need For love or joy or the human part of thought, Pride, and the abstract greed For truth, that lifts the heart and doth allot A value of self and world to consciousness ­- Even this bliss My empty heart has not. O weary born, Faded begun, Gone from unseen shores to seen shores forlorn, Sent out of sun‑gone unto unborn sun! The singer of his wish To sing no song, The poor spendthrift rich With knowing not for what to long. The Hyperion dispossessed Ere birth Of that sun‑mansion set out beyond rest Above the wide‑lit stretches of the earth. The uncrowned king That never saw the land Of which he oft doth sing, And whose lost path he cannot understand Nor know how to dream steps him there to bring. The priest deferred From the inner shrine. The thought but never uttered word, The fore‑spilt wine, The anxiousness for hope, the cold divine Of anguish that no anguish human is, The solitary pine On the cold hill of consciousness. The hour The lord Returns Back to the polluted bower, Home to the intransitable ford, Again to the ice‑padlocked burns. The shadow Fixedly thrown On the green meadow By a tree overgrown With leaves, but fruitless, flowerless and lone. The last Sight of a shore Which the unhalting ship doth pass And where it never shall pass more; But where the heart‑dim sailor knows Homes are happy because not his, Lips warm because never his lips to kiss, Gardens fair because therein grows The unfound rose, Hours soft, fate fresh, life a real fair elf Because somewhere outside himself. 16-10-1916 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 478. In the arts which are not literature, we have a universal speech and there is no misunderstanding, except each man’s insensibility. But in literature, in this matter of fame and extension of fame, we are met at the corner of speculation by the problem of language and come into a different landscape of conjecture. There is a dead and a living fame, and each is fame; there is a fame that works and delves, and a fame that is like a statue, or an inscription on a tomb, a survival without life. Shakespeare lives and works; Spenser is a name without force. No one (perhaps not even Spenser) ever read the “Faerie Queene” with a thorough thoroughness. Even the great complete epics have sinned against interesting always. The ideal is an epic that shall wear like Milton and interest like Conan Doyle. That is not an impossibility, for there are no impossibilities; even contradictions in terms have been freed by Hegel from being such. How shall a man survive if he survive but as the name he had. How much of the fame of Homer comes from men who have read him in the original e Frenchmen have been known to be moved by Shakespeare, yet no French mind can ever grasp the mental rhythm of phrase and the sudden complexity of meaning that only a knowledge of English from the soul side can allow or concede. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 191. Ophelinha pequena: Como não quero que diga que eu não lhe escrevi, por efectivamente não ter escrito, estou escrevendo. Não será uma linha, como prometi, mas não serão muitas. Estou doente, principalmente por causa da série de preocupações e arrelias que tive ontem. Se não quer acreditar que estou doente, evidentemente não acreditará. Mas peço o favor de me não dizer que não acredita. Bem me basta estar doente; não é preciso ainda vir duvidar disso, ou pedir-me contas da minha saúde como se estivesse na minha vontade, ou eu tivesse obrigação de dar contas a alguém de qualquer coisa. O que lhe disse de ir para Cascais (Cascais quer dizer um ponto qualquer fora de Lisboa, mas perto, e pode querer dizer Sintra ou Caxias) é rigorosamente verdade: verdade, pelo menos, quanto à intenção. Cheguei à idade em que se tem o pleno domínio das próprias qualidades, e a inteligência atingiu a força e a destreza que pode ter. É pois a ocasião de realizar a minha obra literária, completando umas coisas, agrupando outras, escrevendo outras que estão por escrever. Para realizar essa obra, preciso de sossego e um certo isolamento. Não posso, infelizmente, abandonar os escritórios onde trabalho (não posso, é claro, porque não tenho rendimentos), mas posso, reservando para o serviço desses escritórios dois dias da semana (quartas e sábados), ter de meus e para mim os cinco dias restantes. Aí tem a célebre história de Cascais. Toda a minha vida futura depende de eu poder ou não fazer isto, e em breve. De resto, a minha vida gira em torno da minha obra literária — boa ou má, que seja, ou possa ser. Tudo o mais na vida tem para mim um interesse secundário: há coisas, naturalmente, que estimaria ter, outras que tanto faz que venham ou não venham. É preciso que todos, que lidam comigo, se convençam de que sou assim, e que exigir-me os sentimentos, aliás muito dignos, de um homem vulgar e banal, é como exigir-me que tenha olhos azuis e cabelo louro. E estar a tratar-me como se eu fosse outra pessoa não é a melhor maneira de manter a minha afeição. É preferível tratar assim quem seja assim, e nesse caso é «dirigir-se a outra pessoa» ou qualquer frase parecida. Gosto muito — mesmo muito — da Ophelinha. Aprecio muito — muitíssimo — a sua índole e o seu carácter. Se casar, não casarei senão consigo. Resta saber se o casamento, o lar (ou o que quer que lhe queiram chamar) são coisas que se coadunem com a minha vida de pensamento. Duvido. Por agora, e em breve, quero organizar essa vida de pensamento e de trabalho meu. Se a não conseguir organizar, claro está que nunca sequer pensarei em pensar em casar. Se a organizar em termos de ver que o casamento seria um estorvo, claro que não casarei. Mas é provável que assim não seja. O futuro — e é um futuro próximo — o dirá. Ora aí tem, e, por acaso é a verdade. Adeus, Ophelinha. Durma e coma, e não perca gramas. Seu muito dedicado, Fernando 29/9/1929 Domingo 29-9-1929 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 43. What is a nation, and what are the conditions necessary to its existence? By nation I mean a civilized, or a progressive, society. But what is meant by this type of society? If we are to discuss the meaning of the word progress, we enter controversial ground, and, indeed, stray from our purpose, which is simply to define a nation and establish the conditions for its existence. If this can be done without defining progress, we shall shorten, and at the same time, clarify, our analysis. Really, the analysis of the idea of progress is not necessary; all that we need investigate, since we are investigating what a civilized society is, is what are the conditions necessary for progress. Progress, whatever it may be, implies certain fundamental notions. The first is change, for progress and stoppage are, whatever progress may mean, incompatible notions. The second (...) By nation is meant a civilized society coexisting with other progressive societies. That it is a society is not necessary to prove, for that is intimate to the very idea of nation. That it is a progressive society is also inherent to that idea, for an unprogressive society, if it can be described as a society, presents none of the characteristics which we are wont to look for in a nation. That it should coexist with other progressive societies seems fundamental and simple when we consider modern Europe and its division into multiple nations, but it becomes less clear when we think of applying it to ancient times, Greece for instance, and Rome. Yet, if we consider the matter well, it becomes evident that ancient Greece coexisted in itself with civilized nations; it had no civilized nations, properly speaking, outside itself, but its inner division had that effect. Rome coexisted with a decadent Greece, but that was enough, for decadent Greece was civilized, too civilized if anything. If therefore we are to examine what a nation is and what are its conditions, we have to determine what are the conditions that can produce a civilized society coexisting with other civilized societies. Nation is a civilized society occupying a certain territory. It involves these three fundamental ideas, sine quibus non. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 166. «O Templo de Jano». Aquela que mora ali Aquela que mora ali E que ali está à janela Se um dia morar aqui Se calhar não será ela. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 108. Tens um anel imitado Tens um anel imitado Mas vais contente de o ter. Que importa o falsificado Se é verdadeiro o prazer. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 80. Hoje estou triste, estou triste. Estarei alegre amanhã... O que se sente consiste Sempre em qualquer coisa vã. Ou chuva, ou sol, ou preguiça... Tudo influi, tudo transforma... A alma não tem justiça, A sensação não tem forma. Uma verdade por dia... Um mundo por sensação... Estou triste. A tarde está fria. Amanhã, sol e razão. 22-4-1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 89. ODE IN CONSOLATION FOR MISFORTUNE He that would conquer must a soldier be. He that a soldier will be must be made To bear all the hard preface of his trade, All the rough training must he bear Whereby he shall the conqueror …… All pain, all failure and all woe ­ These are but training we must undergo Ere those heights of ourselves we full can reach Whence God has things to teach And the discarnate fate that girds us round Still more to teach and more to wound. With patience and with fortitude Bear thou thy training rude, Support with grace thy masters that are days Made of pain and amaze, Thy potion take, even it that potion look That Socrates for his divinity took. To Aesculape the cock immolate, To the Masters of thy fate Abandon life, thyself strong above all Thy power to let things thee appall, By the sole virtue of thy power set far Over thy power to feel fate's war. The rest, that thing that shall remain of thee When land and sky and sea Alike are mist in thy unseeing eyes, This shall nowise Mater, nor all when all is thine abode, Nor God himself when all is God. 20-10-1916 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 482. It is a curious circumstance that frustrated types easily fall into celebrity. A frustrated type is a man who is too clever to be merely a clever man and not clever enough to be a man of talent. They are a sort of American golden mean. There are higher frustrated types — those that lie between wit and genius and between talent and genius. The frustrated type of the first sort is the man who lies between his age and universality and is universal through his time, not, as in pure genius, in opposition to it. (...). Men like Dryden and Pope are (to a certain extent) frustrate types; they are geniuses, but they are geniuses of a frustrating age. In cases like Whitman and Wilde the same frustration is seen. The perfect illustration of frustration is seen in what is called “free verse” — the verse like Whitman’s, which has genius but not enough genius. The expression is not verse, properly such, neither is it prose. The frustrated type must be carefully distinguished from the imperfect type. Shakespeare is an imperfect type; he was a greater genius than he was, he made an imperfect use of qualities never before or since paralleled in the mental history of mankind. Whereas a Dante or a Milton uses all his powers, a Shakespeare or a Goethe does not. Types like Dryden and Pope, who are frustrate, are not imperfect: they are perfect in themselves, but they are perfect as frustrate. In the imperfect type the weakness lies in the will, or in the character, if intellect be excluded from character. In the frustrate type, the weakness lies in the intellect itself, or, rather, in the form of it. In Literature, the frustrate type is at once recognised by its expression. That expression lies in a form rather than in a manner. The moment a poet expresses himself always through the ten-syllable-couplet, like Pope, or through free verse, like Whitman, he reveals his frustration. There would seem to be in men like Ben Jonson and Pope something like mere talent, not genius. Yet there is genius, except that that genius is talent. The frustrate type offers the one chance of celebrity in its own age to men of genius. By putting genius into wit or into talent, these men become understood as geniuses by their own times. They become rightly understood as geniuses. That is to say, they must be distinguished from mere wits who may be called geniuses because of their cleverness, but who are not geniuses at all. The imperfect type consists of two sub-types — the man who has genius and wit but no talent, thus jumping an intermediate step, Shakespeare and Goethe being the supreme examples; and the man who has simple genius, without the balancing element of either talent or wit, as in the case of Blake. These are the strange singers (...). A case like Poe. Poe had genius. Poe had talent for he has great reasoning powers, and reasoning is the formal expression of talent. (?) Wit is divided into three types — wit proper, reasoning and criticism; talent into two types — constructive ability and philosophical ability; genius is of only one type — originality. The three mental degrees form a pyramid. When there is genius without either talent or cleverness, the genius becomes consubstantial with insanity. This is the case of men like Blake. They present a universality; else they would not be geniuses, but mere madmen; but they present, by the very nature of their case, a limited universality, they figure an experience of all times, but common in all times to a very few men in each. These men, being geniuses, become immortal, but they will always be immortal at home, where they will not be seen unless they be visited. A Blake or a Shelley can never appeal to the generality of any age; they have the beauty of rarities rather than the beauty of perfect things. They may become, at one time or another, so long as that time is not theirs, very widely popular, but they will become so only by suggestion, decent coterieness, critical excitement. Out of the diverse unions of any two or more of these six qualities and the diverse degrees of any quality in the union, are all mental types evolved. We have types like Poe — genius and one element (reasoning) of cleverness. (His philosophical ability was a fiction, got out of dreams, and this is shown by his incapacity to reason clearly on philosophical matters, in spite of his admirable reasoning powers. His criticism, too, is false; it is built out of reasoning, as in his celebrated self-delusion of the building of “The Raven”, no very remarkable poem, by the bye). We have types like Lamb, genius and one element (wit). We have types like Coleridge — genius and criticism. — All these men who balance genius with only one of the qualities of cleverness are on the verge of madness; and the three cases which serve as examples show this very clearly. It must not be supposed that mental types describable by the union of the same elements are necessarily alike. Genius is of several types and wit, reasoning (least) and criticism of several types too. Thus, Coleridge is a union of genius and criticism; but Wilde is also a union of genius and criticism. (Wrong: Wilde had both wit and criticism) Analyse all this well. Another hypothesis: Cleverness: a) power of expression, b) power of comparison, c) power of reasoning. Talent: a) philosophical ability, b) constructive ability. Genius: a) originality, only. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 192. Bom dia, Bebé: gosta de mim exactamente? Não venho do Abel, mas devia ter vindo; e, em todo o caso o Bebé também tem influências no estilo do Abel. Tem influências a distância, mas ao colo (situação muito natural nos bebés) ainda tem mais. E o Abel tem aguardente doce, mas a boca do Bebé é doce e talvez um pouco ardente, mas assim está bem. Gosta de mim? Porquê? Sim? Estou doido, e não posso escrever uma carta: sei apenas escrever asneiras. Se me pudesse dar um beijo, dava? Então porque não dá? Má. A verdade é que o dia de hoje se embrulhou de tal maneira, que mal tenho tempo de lhe escrever mal este pouco tempo. Vespa. Tenho que ir a fugir para casa para jantar cerca das 8 e ir depois a casa daquele meu amigo onde costumo jantar aos sábados. Hoje, é ir lá um pouco à noite, depois do jantar. Fera. E acabei, e pronto. Dá-me a boquinha para comer? Ibis (nome de uma ave do Egipto, que é essa mesma) 2/10/1929 2-10-1929 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 44. It is necessary above all to distinguish the sociological from the ethical criterion. Both are legitimate, but neither is legitimate where the other should be used. The Germans have been attacked for the exhibition of qualities which they do not possess quâ Germans, but as men who are at war, as members of an empire, and as citizens of a collectivist type of state. The first kind of defects are possessed by all the soldiers in this, or in any other, war. The second type are as fully possessed by the Briton as by the German. The third are as fully shown by the Swiss as by the subject of Wilhelm the Second. The great mistake of German culture is that it has sacrificed one type of culture to another, and of all things, culture is the one that cannot make sacrifices. The great mistake of British culture, for instance, is precisely the opposite one: that it has evolved singularly along the lines of individualistic effort, and nowise on the road of a stronger organising ability, which is possible without the slightest deviation from individualism. Of France it may be said that the defect of her culture is simply the reduction of it to seriousness. The great fault of French culture is not so much that it is superficial, as that it is falsely deep. As for Russia, it has no type of culture at all, and is nothing save a (…) Thus the great fact is that this is a conflict between a type of civilization — the German — and a number of uncivilized nations — the Allies. The German type of civilization is realised in flagrant opposition to the European environment, and, since Germany is a European state, it is condemned by this non-adaptation. The Allies, however, have no civilizational type at all, either common to them all, or to several of them, or to each or any of the nations composing them. In Great Britain there is a haphazard individualism, incapable of organisation, lapsed from that basis of classic culture which was one of the mainstays of its racial type. In France there is a mock liberalism fettered unto a republican caesarism, and gilt over with all the evil-smelling paraphernalia of rhetorical revolutionarism. In Russia, there is not even Russia yet. The rest, save Italy, must be silence and the outer darkness where there will be gnashing of teeth. Italy is a second type of France, almost a replica (...) s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 167. «O Templo de Jano». Mas que grande disparate Mas que grande disparate É o que penso e o que sinto. Meu coração bate, bate E se sonho muito, minto. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 109. Tenho ainda na lembrança Tenho ainda na lembrança Como uma coisa que vejo, O quando inda eras criança. Nunca mais me dás um beijo! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 80. Passava eu na estrada pensando impreciso, Triste à minha moda. Cruzou um garoto, olhou-me, e um sorriso Agradou-lhe a cara toda. Bem sei, bem sei, sorrirá assim A um outro qualquer. Mas então sorriu assim para mim... Que mais posso eu querer? Não sou nesta vida nem eu nem ninguém, Vou sem ser nem prazo... Que ao menos na estrada me sorria alguém Ainda que por acaso. 22-4-1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 90. SALUTE TO THE SUN'S ENTRY INTO ARIES Now at the doorway of the coming year, Ye nymphs do gather and the garlands twine That heroes' sons will bear Fifty years hence in their remembering hands And of their fathers speak with shining eyes And of the war that stained the lands. Weave ye the garlands, for the fame will pass, And their grandchildren of grandchildren will No more remember, neither care Who their ancestor was Who did that old crown, now scarce a crown, bear For all must pass, that Time may have his fill. Weave ye the garlands therefore, for this hour Will not survive beyond the memory Of those yet near to it who have the power The hour somewhat like what it was to see. Weave ye the garlands, weave That their memory may live Awhile, and if that mean that fame is nought, Weave still the garlands with a gentle thought, For weaving them, know ye What to Time's elder shades you yet may give. The days are heavy with the blood of men, The year reels like a shattered wall When the wind comes out of the caves of night. Our minds are equal with the shaking... We know not on what power to call Or which side of the Truth lies right. Alas! alas! all sides are right in war, And that impartial vision born of peace, And that the Gods alone can have, Lives only in our wish that dim wars mar, Breathes only in the halls of our release From all the human things for which we crave. But these are thoughts, and life is grief and fear. Weave ye the garlands, lest the coming year Forget, like ye, the fallen to remember And the victors to greet. Weave ye the garlands made Of some strange flower that lasts unto December And lay them at Fate's unseen feet. Ay, for not for the heroes nor the slain Weave ye the garlands woven with your pain. Not for the fallen do your cheeks awhile Flush then grow pale and your proud pain smile. Not for a man nor for a nation do Your garlands outreach Time Perhaps and in eternal regions chime With the sense of their fame who were e'er true. For Fate alone all garlands woven are. Unto Fate's feet the rivers of our tears Perennial run, nor is there aught more far Alas! than mere Fate that outwits the sun, And that in circles round its empty name Carries the vain course of our sterile fame And great men as great nations equal lead Vainly around the frame Of nothing, like a wind along a mead. Yet, whether for some man or for no man, Whether for personal hopes or Fate no one, Your garlands weave, lest the year come und span With days fame‑empty the task e'er begun. Weave garlands, green glad garlands, garlands sad, Garlands of all sorts, if they glory mean, Carry your woven garlands to their grave... The rest is something that cannot be had - The void as of a ship sunk nor more seen Beneath the wave. 9-3-1917 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 484. 1ª publ.: «Poesias Inglesas Inéditas de Fernando Pessoa sobre a Primeira Guerra Mundial». Georg Rudolf Lind. in Ocidente , nº 405. Lisboa: Jan. 1972 One of the most disconcerting phenomena in celebrity is that of what may be called fictitious genius. Genius manifests as an inadaptation to environment. Sometimes, however, there is difference from environment without real inadaptation (...). The case of Robert Burns, writing in Scots and in songs in a world of English and couplets, is the example of fictitious genius. But the very acceptance by the age warns us off the grass of calling him genius. Such differences cannot be accepted as genius unless they are not genius at all. Blake was different from the same age, and the age did not heed him. Fictitious genius lives by outward opposition to the age; real genius consists in an inward opposition (...). When an age aches for something new (if ages ever ache), it wants something old. Burns brought into the eighteenth century a tradition different from the central literary tradition of the eighteenth century, and, as a matter of fact, a tradition altogether alien to European literature. But he brought a tradition; he brought nothing new. In this manner do we receive a curious impression from the negro songs and negro music that have invaded modern Europe; but those songs are nothing new in themselves. If they were, they would not please us. We know they are not new and love their novelty for that. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 195. 9.10.1929 Terrível Bebé: Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a boca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gaz e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ente humano, mas é escrito por mim Fernando 9-10-1929 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 45. The struggle, however, is essentially between Germany and England; the other factors are sociologically secondary. The struggle is between two civilizations — the individualistic and collectivistic type, as was at once seen by most people, and of these the first type is England, and the second example Germany. The other countries involved do not count on this level: they are not civilized at all; they have not obtained any personal civilization, any civilization that can be called theirs. That France is not civilized is a patent thing; the forces that represent civilization, that, indeed, produce it, are all present there, but they do not act in the direction of civilization. They neither cohere in the sense of individualism, nor in the sense of collectivism. They merely cohere in the sense of incoherence. Of Russia it is not necessary to speak: that half savage people has no claim to civilization except belonging to it, nor even more than a slight claim to Europeity. Austria is not a nation at all, but an Empire (...) Italy is three-quarters civilized. It is, however, too much of the French type to be anything like a civilized nation. Belgium, though it had no right to exist as a nation, was more of a civilized community than France. Of the Balkan peoples the least said the better; they have no pretension even to being civilized. Their very strength is that of uncivilized people — their qualities of combativeness, loyalty and (…). A nation which does not produce traitors can hardly be said to be civilized; a nation which produces too many cannot be said also to be. England is the example of a civilized nation, with such magnificent examples as the late Sir Roger Casement, Houston Stewart Chamberlain and Mr. Frank Harris. Of Spain and Portugal no mention need be made; they are more or less African in their very ideals, which are either to ape Europe (the lower part of Europe) sedulously, or to be themselves in a still lower manner. Spain, however, stands lowest (...) Germany, properly speaking, is not civilized also. It has gone the wrong way, but it has gone organisedly on that wrong way. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 168. «O Templo de Jano». O ar do campo vem brando, O ar do campo vem brando, Faz sono haver esse ar. Já não sei se estou sonhando Nem de que serve sonhar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 81. O sonho que se opôs a que eu vivesse A esperança que não quis que eu acordasse, O amor fictício que nunca era esse, A glória eterna que velava a face. Por onde eu, louco sem loucura, passe Esse conjunto absurdo a teia tece... E, por mais que o Destino me ajudasse, Quero crer que o Deus dele me esquecesse. Por isso sou o deportado, e a ilha Com que, de natural e vegetável A imaginação se maravilha... Nem frutos tem nem água que é potável... Do barco naufragado vê-se a quilha... ...... 26-4-1928 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 91. When shall we rest? The ceaseless waves They have no quest. The trees peace‑rife. Their lifeless life From sorrow saves. When shall we go? Whither? We care Nothing to know. Sorrow is here. Aught may us cheer Now of dim there. What in us shall Cease and leave peace? Life holds in thrall Our joy like pain, Our loss‑like gain, Our stayed release. Love cannot bless. Bliss cannot live. Joy's short caress Passes like wind Suddenly thinned We dream and grieve. Outward from us There lies the land Less luminous, Where we may rest, Leaving all quest. Wishing no strand. Ready the bark For our repose. Let us embark. The sea is lone? We are alone, Pain but pain shows. Remember nought. Cease like a light Suddenly not. Merge like a dream Into the stream Of its own night. 25-4-1917 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 488. 1ª publ. in O Louco Rabequista . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. O erro fundamental, que alguns, mesmo sinceramente, têm cometido com respeito a esta guerra, é o de julgar que existe diferença alguma essencial entre a mentalidade dos impérios centrais e a mentalidade dos vários países de que se compõe o bloco dos aliados. Como existiria essa diferença essencial? como poderia existir? Uns e outros pertencem à mesma civilização, uns e outros se apuraram, sobretudo os principais de cada grupo, no esmero das ciências e das indústrias, uns e outros contribuíram muito para as artes e para as letras. Uns e outros, cada um a seu modo, contribuíram e contribuem para o conjunto mental e material, a que se chama a civilização contemporânea. Se a medida da civilização, para cada país, está na grande adaptação ao meio; se o «meio», aqui, é a linha geral da civilização europeia, como dizer que a Alemanha, por exemplo, está menos civilizada que a Inglaterra, se a sua adaptação ao meio contemporâneo é tão forte como o de aquela, e se é feita por meios diversos, é apenas porque se trata de um país diverso (diferente)? s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 169. «O Templo de Jano». Puseste por brincadeira Puseste por brincadeira A touca da tua irmã. Ó corpo de bailadeira, Toda a noite tem manhã. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 109. Notes on Metaphysics Zero is identical and the same in all properties, in all attributes, but infinity is different in each. How can this be conciliated with the theory that Zero is equal to infinity? 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 65. Quando ela pôs o chapéu Quando ela pôs o chapéu Como se tudo acabasse, Sofri de não haver véu Que inda um pouco a demorasse. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 81. Wake with the Sun, wake with the morn Wake with the coming day, Be with the dew and the flush new born, But, unlike them, stay! Mists fall of from what thou art They are what we see. Come and enter into our heart And let life be. The morn belongs to the empty world Men are later here. Come and let life be slowly unfurled Off thee like fear. And in thy terrible being but thou Sans body nor soul Pour all thy balm on my saddened brow, And make my hope whole! 4-7-1917 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 490. 1ª publ. in O Louco Rabequista . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. If anyone wishes clearly to understand what is meant by the pressure of a known name, he need but figure to himself the following hypothesis. Let him suppose a book of poems, published to-day, by an unknown poet. Let that book be composed of great poems of great poets. Let it be submitted, in the course of reviewing, to a competent critic who, by some odd chance, might happen to be ignorant of every poem there printed, even though acquainted with every poet represented. Does anyone suppose that the competent critic, even if he had it in his power to write, say, the leading article in “The Times Literary Supplement” (no less would be deserved by such a book), would write anything more than a short notice, in 6-point type, in the bibliographical part of that paper? And the poet would be lucky if he got a notice in the text-pages. The pressure of a known name does not mean that the critic will think a poem good or bad in function of a known name. But he will give careful attention, word by word and phrase by phrase, to the poem of a reputed poet; he will do nothing of the sort by the absolute stranger. If anyone will take the trouble, as I once did, either to pass off as the work of an unknown poet, or of his own self (this was what I did), the poem of a celebrated poet; or if he will pass off some unknown lines as a celebrated poet, he will discover this very easily. In both cases and for opposite reasons the lines must be good or the test will not be just (...). s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 196. Bebé fera: Peço desculpinha de a arreliar. Partiu-se a corda do automóvel velho que trago na cabeça, e o meu juízo, que já não existia, fez tr-tr-r-r-r-... Logo a seguir a telefonar-lhe, estou a escrever-lhe, e naturalmente telefonarei outra vez, se lhe não faz mal aos nervos, e naturalmente será, não a qualquer hora, mas à hora em que lhe telefonarei. Gosta de mim por mim ser mim ou por não? Ou não gosta mesmo sem mim nem não? Ou então? Todas estas frases, e maneiras de não dizer nada, são sinais de que o ex-Ibis, o extinto Ibis, o Ibis sem concerto nem gostosamente alheio, vai para o Telhal, ou para Rilhafolles, e lhe é feita uma grande manifestação à magnífica ausência. Preciso cada vez mais de ir para Cascais — Boca do Inferno mas com dentes , cabeça para baixo, e fim, e pronto, e não há mais Ibis nenhum. E assim é que era para esse animal ave esfregar a fisionomia esquisita no chão. Mas se o Bebé desse um beijinho, o Ibis aguentava a vida um pouco mais. Dá? — Lá está a corda partida -r-r-r-r-r-r-r-r-r-r-r-r- a valer 9/10/1929 Fernando 9-10-1929 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 45. Now of three things one must be true. Either all nations are wholly and exclusively formed by defence, their national unity (and national type) rising out of a defensive attitude; or they are generally formed by something different from a defensive attitude, Germany constituting an exception; or they are formed by defensive attitude plus something else to be investigated. If nations are wholly and exclusively formed by defence, and the more perfectly formed, the more really nations, the more they are formed by defence, Germany is, being so completely formed by defence, one of the greatest nations that the world has ever seen, and, further, a typical nation, which, for our case, is more important point. The greatness may be discussed and all things defended concerning it; the typicality does not exist. For, if Germany were a typical nation, it would, above all things, be a typical nation of the period in which it exists. Now, if anything be true, it is true that Germany is a perfect contrast to the European nations of to-day. So that all nations are not, exclusively formed by defence. But they may be the more perfect the more they are formed on defence. Defence gives an artificial homogeneity, because it gives a homogeneity founded only on the necessity for defence, and therefore not intimates to the congregated elements. What elements exist in Germany which, not being eliminable on the score of being attributed to such phenomena as Empire, are not also attributable to the fact that Germany is a nation built up by defence? They are: 1st. the perfectly coherent social organisation — not the statist character of it (for that belongs to the defence-basis), but the unity and exact adjustment of parts, which implies some capacity for organisation whose necessity defence could suggest, but whose realisation only some other quality could provoke. 2nd. the passing from a stage of mental to a stage of material organisation, which in itself is not necessarily implied in defensiveness, but merely in some mode of it conditioned by some other cause or causes. 3rd. (...) s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 170. «O Templo de Jano». Dizes-me que nunca sonhas Dizes-me que nunca sonhas E que dormes sempre a fio. Quais são as coisas risonhas Que sonhas por desfastio? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 109. Quem te deu aquele anel Quem te deu aquele anel Que ainda ontem não tinhas? Como tu foste infiel A certas ideias minhas! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 81. Sorrow no more for the faded rose, Nor of the yellow lily despair. These, as we see them, are but their shows. They are elsewhere. Tis but their shadow lives in our light. As we see them (...) They live more truly in our delight Than in their forms. The beauty they had was never lost, It moved away From the present hour and the form once tossed Into space and day. But the undying essence of the (...) The rose that faded from yesterday Is where yesterday is. I shall have again the flower and the day, The self and the bliss. 4-5-1919 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 490. The formation of definite fame is analogous to this. An author of real genius has become famous in his time; he has become famous because he has been in some sort of adaptation to his time. That adaptation can be of three sorts: complete (that is to say, in virtue of the substance and entire content of his work), partial (that is to say, by virtue of one part of his work, the other being worthless), and imperfect (that is to say, by virtue of one part of his work, the other beings though great, incomprehensible to his times). In the reaction which the following age makes against the age before it, each of these types of author is subject to a definite treatment. The one who was completely adapted to his age, yet is nevertheless a genius (in other words, the author in whom genius and intelligence have been intermixed) will be retained as famous, but set down lower than he was. This is the case of Victor Hugo, who is a great poet, and was so considered in his time; he is still considered a great poet, but a lesser one than he was thought. The one who was partially adapted to his time will be put down much lower; he will survive as a note. Scholars will read him; extracts may revive the accidents of his name. This is the case of men like the lesser lyrists of all times, the better class of passing essayists, the novelists who have good pages and a lost story. The one-poem man, like Blanco White or Felix d’Arvers, are typical of this half-class. The one whose adaptation was imperfect will obviously survive the other way about, but he will rise in fame. What was of his time will be understood and put second, though retained; what was above his time will take first place. The great example of this is Shakespeare, who was famous in his time as a witty writer and has since become famous as a great tragic writer in whom comedy was a secondary, though a great, aspect of his genius. s.d. “Erostratus”. in Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 197. Bebé: Aí lhe mando — para cumprir, ao menos, qualquer promessa — as respectivas, não respeitáveis, mas preferíveis (às presentes) ventas do ibismo há, precisamente, quarenta anos. Comparando a fisionomia relativamente humana do animal pequeno, que o retrato representa, com o arremedo de focinho envergonhado que actualmente ofende a humanidade em cima do pescoço do signatário comparando...... Oh, Bebezinho, um beijo do Fernando 16/XII/1929 16-12-1929 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 47. Havia dias que andava exaltado, turgido de alma. Lembrou-lhe de repente que alguma coisa havia de significativo em ele das duas vezes que se quisera suicidar, ter falhado. Não haveria ali oculto fim, senão directa indicação da Providência, fosse como fosse? Não lhe indicava isso que ele devia viver, que tinha o dever de usar a sua compaixão, a sua mágoa pela infelicidade humana [?] Era - com que nitidez percebia agora a indicação providencial das circunstâncias - uma missão que lhe era imposta na vida, na terra, no sistema do mundo... Missão como a de Buda, como a de Cristo, de paz, de clemência e amor... Os seus sonhos antigos, eram - com que saliência explicativa o via agora - previsões e não sonhos ou desejos... Talvez o martírio o esperasse; ainda bem... Sentia-se forte, audaz para combater o mal... Vinham-lhe lacrimosamente grandes impulsos de ternura humana, em que, a sós no quarto, passeando excitado de lado a lado rompia em longo e sincero choro ao pensar nas criancinhas sem pão, nas criancinhas condenadas a ser prostituídas, nas injustiças do mundo... Assomavam-lhe então loucas e desmedidas ambições de ser um novo Cristo, de pregar no mundo com toda a intensidade do seu amor, a piedade para com todos, o amor sublime e eterno da triste e sofredora humanidade... Via-se, em visões de lucidez quase objectiva, o Messias de uma fé nova, a mesma ainda assim do que o cristianismo, como que uma ressurreição dele, via-se pregando e comovia-se ao ouvir o que nessa visão dizia, imaginava-se enfim desdenhado e perdoando, odiado e amando os que o odiavam, - com que nitidez d'alma se via dando o pão ao seu inimigo, velando à cabeceira do leito da filha pequenina de quem o esbofeteara, dando esmola a quem ele já sabia que o havia de trair. Instintivamente reconstruía em si a história de Cristo para sua, e, olhando em si finalmente o seu longo martírio, mais longo, mais humilhante e mais doloroso do que o do Nazareno, rompia em lágrimas ardentes e consoladoras de piedade por si mesmo futuro, de longo e abrasado amor pela humanidade inteira... Deitava-se enfim, sentindo-se consolado e triste das lágrimas que chorara, a testa ardendo, os olhos em fogo, as faces contraídas mecanicamente para chorar mais, quase chorando alto em fim, feliz e triste do doloroso amor ardendo no seu coração. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 25b. «Marcos Alves» Caímos na teorização estéril, seguindo, como a fogos-fátuos, todas as teorias que não são mais que as exalações letais da civilização decomposta. Desde a teoria da democracia, concebida à moderna, e fora da sua coexistência com o princípio corrigente da escravatura, como na antiguidade, até à teoria do feminismo, em que o sexo inferior recebe foros de igual ao sexo imperante, tudo é uma dissolução e uma descida, tudo é, quando muito, a estrumeira onde colha vida a Europa futura, liberta do peso do dogma cristista. Qual a solução do problema democrático moderno? Como resolvê-lo, conservando o indispensável domínio das classes dirigentes, mas não pondo um inútil dique à ambição popular, que sobe e monta? Vários, muitos, se têm dedicado à solução de tal problema. Nunca lhes passou pela cabeça que o problema fosse irresolúvel. Nunca lhes ocorreu que estamos em decadência e que nos períodos assim chamados o mais característico aspecto das coisas sociais é o aparecimento de problemas que é impossível resolver. E porque é que o são? Porque só é possível equilibrar duas forças em conflito quando cada uma d'essas forças não exige absolutamente o extermínio da outra. Ora, na decadência dos estados, o que precisamente se dá é aquela perda do instinto político, aquele affaisement da imaginação social (sociológica) que faz com que se ergam partidos e correntes que peçam coisas extremas, desequilibradoras do balanço da marcha da civilização. Não pode haver esperança senão na introdução de princípios inteiramente novos na mentalidade europeia. Inteiramente novos? Digo mal: antes aqueles princípios que, sendo novos em aparência, são na realidade a tradição oculta de todo o nosso estado civilizacional — os princípios guias da nossa comum mãe helénica, e de Roma, a nossa nutriz. A ridícula fantasia germânica, que chegou a tomar Cristo por alemão antes de os haver (?) corre parelhas com a absurda tese revolucionária de que são iguais os direitos dos homens. Apenas a tese alemã é o exagero absurdo de uma verdade, qual é a de que as raças são fundamentais na construção da obra civilizacional, e o instinto da própria raça necessário a essa obra; ao passo que a tese francesa é a negação da verdade. Uma é opinião de fanáticos, outra a tese de hereges. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 171. «O Templo de Jano». O teu carrinho de linha O teu carrinho de linha Rolou pelo chão caído. Apanhei-o e dei-o e tinha Só em ti o meu sentido. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 109. When slattern Time, worn out with toil of wearing, With loose‑tied pack shall trudge upon my years, And I shall feel that forced occasion nearing That despair's self (that must live to be) fears, I, being beggared of all wealth of hope - So prodigal have I to wishes been - Shall with known uselessness for the coin grope To pay that the hour’s ending be serene. I shall not enter the great silent cave With curious ardour, or ease out of sun, But all that with me I shall then still have Will be a coward rage that all is done. No hope the cave's a passage shall control Fear of the immediate night of the shown hole. 5-11-1920 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 492. Bebé: Obtida a devida autorização do snr. eng. Álvaro de Campos, mando-lhe o poema que escrevi entre as estações de Casa Branca e Barreiro A, terminando a inspiração, entretanto, na Moita. Este poema deve ser lido de noite e num quarto sem luz. Também, devidamente aproveitado, serve para fazer papelotes para as bonecas de trapo, para tapar as fechaduras contra o frio, os olhares e as chaves, e para tirar medidas para sapatos a pés que não tenham mais comprimento que o papel. Creio que estão feitas todas as recomendações para o uso. Não é preciso agitar antes de usar. Até logo. Ibis . 11/1/1930 Casa Branca — Barreiro A. (Poema pial) Toda a gente que tem as mãos frias Deve metê-las dentro das pias. Pia número UM, Para quem mexe as orelhas em jejum. Pia número DOIS, Para quem bebe bifes de bois. Pia número TRÊS, Para quem espirra só meia vez. Pia número QUATRO, Para quem manda as ventas ao teatro. Pia número CINCO, Para quem come a chave do trinco. Pia número SEIS, Para quem se penteia com bolos-reis. Pia número SETE, Para quem canta até que o telhado se derrete. Pia número OITO, Para quem quebra nozes quando é afoito. Pia número NOVE, Para quem se parece com uma couve. Pia número DEZ, Para quem cola selos nas unhas dos pés. E, como as mãos já não estão frias, Tampa nas pias! MOITA * * Silêncio na estação à vontade do freguês. 11-1-1930 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 48. The one sure and central achievement of modern psychology, especially as opposed to the eighteenth century type, is the recognition of the great extension of the sphere of unconsciousness, and the relatively very small scope of that of consciousness. Whatever be the opinion held concerning the freedom of the will, no psychologist to-day denies that the immense majority of psychic facts belongs causally to a sphere of mind outside the consciousness of that origin (???). If we bear in mind that society is an organism of minds, that social activities are essentially psychic ones, we shall find that what is true of the one must be true of the other, that, consequently, the greater part of social activities are outside originating in any individual or collective consciousness. We see thus that the State, which is the organ of social consciousness (since its functions are those which are the province of conscious mental activity) is the least important social element, society, as opposed to the state, and quâ something ruled by obscure laws, being the chief and the important element. This fact once grasped, we begin to conceive the function of the state as something quite different from the German theory of it. The province of consciousness in the individual is a triple one: it is inhibitory, the first province of consciousness being the controlling of impulses held by the individual to be prejudicial to what he considers his interests or his pleasures; it is representative, the second function of consciousness being to give the individual a clear and an intellectual notion of the undercurrents of his mind, to supply him with motives for his actions (whatever their real motives may be) and to interpret him to himself, to speak in the widest possible phrase; finally, it is coordenative, and by this I mean that it organises and interdisposes the various products of unconscious activity so as to give them the greatest force in acting upon the external environment. If the state be, as it is, the social consciousness, its social functions must be analogous — not to say identical — to those of consciousness in the individual. Of the inhibitory function little need be said, for it is universally admitted that the maintenance of law and order are a function of the state. Of the representative tendency, it may be said that the State, in that role, merely acts in the direction in which the obscure aspirations of the nation impel it. Of the coordinative tendency, little also need be mentioned, save that it involves the administrative part of state activity, and the organisation-part of (...) s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 172. «O Templo de Jano». Essa costura à janela Essa costura à janela Que lhe inclinou a cabeça Fez-me ver como era dela Que o coração tinha pressa. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 81. Tenho estado com uma angina forte, complicada com outras pequenas coisas da garganta. Estou hoje um pouco — mas muito pouco — melhor, mas naturalmente nem sequer amanhã poderei aí ir. Se houver alguma coisa a dizer-me, podem escrever pelo portador, que volta para aqui. Já aí entregaram as chaves da casa da Rua Coelho da Rocha? Tinham ficado de as levar aí até terça-feira, que foi antes de ontem. Gostava muito que alguém viesse aqui uns momentos — o Pantoja, por exemplo, se aí for — pois me encontro muito só. Fernando Pessoa 18/3/1920 Os 250 reis que vão juntos é para o carro do Pantoja, caso ele venha. 18-3-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - I. OS 5 PERÍODOS CIVILIZACIONAIS O Período da Força não existe dentro da civilização. O primeiro período civilizacional é o da Autoridade. Tal é a Idade Média, na nossa civilização. O período que data da Renascença até à Revolução Francesa — o período pré-mercantil da nossa civilização — marca a substituição do princípio da Autoridade pelo princípio do Dinheiro. Finalmente, o período que, embrechado ainda com esse, se esboça nos nossos tempos, e desde a Rev[olução] Francesa, representa uma substituição do princípio do Dinheiro pelo da Inteligência, porquanto é o período em que a Ciência domina, em que a organização se torna uma preocupação social. Caminhamos para o apogeu da nossa civilização. Depois, passando outra vez por um período de Dinheiro, caíremos por fim em outro de Autoridade, até que, no extremo, a nova barbárie, outra vez a Força, nos tome e leve. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 173. «O Templo de Jano». O ribeiro bate, bate O ribeiro bate, bate Nas pedras que nele estão, Mas nem há nada em que bata O meu pobre coração. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 82. As grandes dificuldades directas que pesam sobre a nossa vida nacional, não só a dentro de si-própria, como em referência às n[ossas] relações com outros países, qualquer solução d'essas dificuldades no[s] é dificultada pelo triplo desconcerto estrangeiro em que vivemos — o da ignorância geral a nosso respeito, o da má-vontade internacional que nos cerca, e do constante acréscimo d'esse mau conhecimento e d'essa má-vontade por via das constantes campanhas de descrédito, quer pelo que têm de erroneamente informativas, quer pelo que têm de puramente difamatórias. O resultado, em resumo, é a nossa descategorização civilizacional. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 174. Nunca houve romaria Nunca houve romaria Que se lembrassem de mim... Também quem se lembraria De quem se lamenta assim? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 82. Dormir! Não ter desejos nem esperanças Flutua branca a única nuvem lenta E na azul quiescência sonolenta A deusa do não-ser tece ambas as tranças. Maligno sopro de árdua quietude Perene a fronte e os olhos aquecidos, E uma floresta-sonho de ruídos Ensombra os olhos mortos de virtude. Ah, não ser nada conscientemente! Prazer ou dor? Torpor o traz e alonga, E a sombra conivente se prolonga No chão interior, que à vida mente. Desconheço-me. Embrenha-me, futuro, Nas veredas sombrias do que sonho. E no ócio em que diverso me suponho, Vejo-me errante, demorado e obscuro. Minha vida fecha-se como um leque. Meu pensamento seca como um vago Ribeiro no Verão. Regresso, e trago Nas mãos flores que a vida prontas seque. Incompreendida vontade absorta Em nada querer... Prolixo afastamento Do escrúpulo e da vida do momento... 21-8-1924 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 54. Mendigo do que não conhece, Meu ser na estrada sem lugar Entre estragos amanhece... Caminha só sem procurar. 1924 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 56. Houve um momento entre nós Houve um momento entre nós Em que a gente não falou. Juntos, estávamos sós. Que bom é assim estar só! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 102. Em arte tudo é lícito, desde que seja superior. Não é permitido ao homem vulgar ser antipatriota, porque não tem mentalidade acima da espécie, e a não pode ter pois acima da espécie imediata, que é a nação a que pertence. Ao génio é permitido. Sucede, por ironia, que os grandes génios são em geral conformes com os sentimentos normais: Shakespeare era intensamente, até excessivamente, patriota. Um génio antipatriota é um fenómeno, não direi vulgar, mas aceitável. Um operário antipatriota é simplesmente uma besta. O homem da espécie não pode ter opiniões, porque a opinião é do indivíduo, e desde que um homem pertença organicamente a uma família, a uma classe, a qualquer coisa que constitua ambiente imediato e vivo, deixa de ser um indivíduo para ser uma célula qualquer. Só a nação, por ser um ambiente abstracto, visto que tem parte no passado e parte no futuro, não estorva a alma individual. O problema da protecção aos artistas, ou qualquer problema parecido, não existe em relação ao homem de génio, cuja vida mental é uma coisa à parte e que passa, em geral, incompreendido na sua época, ou, pelo menos, incompreendido naquilo mesmo que é nele génio. Devem proteger-se e defender-se os artistas, os escritores que têm que viver da sua pena, e esses nunca são os homens de génio. O homem de génio é produzido por um conjunto complexo de circunstâncias, começando pelas hereditárias, passando pelas do ambiente, e acabando em episódios mínimos da sorte. 1924 Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 132. Esboço para resposta a uma entrevista da Contemporânea. A «totalidade» do espaço, composta como é de um infinito número de linhas (rectas) infinitamente produzíveis tiradas de qualquer ponto; e visto que uma linha infinita é uma circunferência de um círculo cujo raio está em outro plano, temos que a totalidade do espaço é uma esfera cujo diâmetro é qualquer. O infinito é sempre relativo a um ponto; há para cada ponto um infinito que parte d'ele. Em uma série numérica, de qualquer número que partamos, há sempre um número infinito de números adiante de nós; e todavia 1 não é 3 nem 4 é 7. A totalidade do espaço, sendo a esfera composta dos círculos cujos raios estão em outro plano, é uma esfera invertida, o absoluto côncavo, por assim dizer. Qualquer sólido pode ser considerado como uma parte do espaço, ou como um includente de espaço — cônvexa ou concavamente. A recta é parte da circunferência de um círculo cujo raio é qualquer (e não está no plano em que está a circunferência) Suponhamos a recta AB A --------------------- B Suponhamo-la dobrada a formar círculo não, por assim dizer, para cima ou para baixo, mas para trás, isto é, a formar circunferência de esfera. Temos que esta recta, é, quantitativamente, a circunferência diametral [?] de uma esfera cujo raio é uma recta que tem com esta linha a relação _. Como toda a geometria parte do sólido, e como o sólido perfeito é a esfera, é a geometria da esfera a que é primordial; podendo todos os outros sólidos ser construídos por sistemas de esferas. Uma recta é uma parte da circunferência de um círculo de esfera, cujo raio é infinito (mas isto pode ser considerado assim também no mesmo plano [perpendicular] a raio infinito). Quer dizer um raio infinito tanto pode ser no mesmo plano, como no plano perpendicular a esse. Isto é: qualquer plano, considerado como infinito, é coincidente com qualquer outro plano, também assim considerado. Assim, o infinito do plano altura; e o infinito do plano largura coincidem essencialmente, são o mesmo plano. A esfera é, por assim dizer, a figuração simbólica do próprio espaço, porque a esfera é o sólido em que as dimensões são todas iguais. Antissólido de A. (A) A base da geometria é o sólido, considerado apenas como ocupando espaço. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 259. Ah quanta melancolia! Quanta, quanta solidão! Aquela alma, que vazia, Que sinto inútil e fria Dentro do meu coração! Que angústia desesperada! Que mágoa que sabe a fim! Se a nau foi abandonada, E o cego caiu na estrada — Deixai-os, que é tudo assim. Sem sossego, sem sossego, Nenhum momento de meu Onde for que a alma emprego — Na estrada morreu o cego A nau desapareceu. 3-9-1924 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 57. THE LOOPHOLE I shall not come when thou wilt call, For when thou call'st I am with thee. When I think of thee, within me Thyself art, and thy thought self’s all. Thy presence is thy absence drest In thy body that hides thy soul. Tis in me that thou art possessed, 'Tis in my thoughts that thou art whole. Outside thee, given to time and space, Thy body, thy mere loss to me, Partakes of change and age and place? Belongs to other laws than thee. In my dream of thee nothing changes Thyself to other than thou art. Thy corporal presence is that part Of thee that thee from thee estranges. Therefore call me, but await not. Thy voice, summed to my dreaming thee, Shall put new beauty on that thought Of thy body that dwells in me. Thy voice heard from afar shall bring Nearer to me thy presence dreamed. Brighter and clearer than it seemed It grow'th in my imagining. Then call no more. Thy voice twice heard Along the real space would be Too near now to reality. Thy second voice were thy first blurred. Call me but once. I close mine eyes And let the second call be dreamed, Thy body's vision lightly gleamed On my seeing memory of thy cries. The rest, eyes shut lest thou appear. Shall be thy clear continuance In my dream's constancy askance. Keep far, keep silent, come not here, For thou wouldst come too near for sight And out of my thoughts step to thee, Putting on thy dreamed body in me (Thy body's form‑dream infinite) Thy limit, visibility. s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 412. They who suffer, they who pine, desire rest, they do not desire the honor of a continuation of a personal life, the unreal and horrible mockery of the Christian creed. All men desire rest, repose. Rest, repose, is then the condition of happiness. Alas! Matter is in perpetual movement. When a man does himself to death, he does not do so, he cannot do so in the hope that he will continue living with the same personality. He may say so, he may do so, but implicitly by (in) committing suicide, he hopes only and truly to annul his personality, to enter the eternal not‑being. He hopes to get to a better life. 1908 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 230. «Das flores que há pelo campo «Das flores que há pelo campo O rosmaninho é rei...» É uma velha cantiga... Bem sei, meu Deus, bem o sei. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 102. A IMORALIDADE DAS BIOGRAFIAS O génio, o crime e a loucura provêm, por igual, de uma anormalidade, representam, de diferentes maneiras, uma inadaptação ao meio. Se repousam, porém, sobre um igual fundo degenerativo, se o génio constitui, de por si, uma espécie nosográfica — são coisas que não sabemos. Manifestação especial de epilepsia larvada, como precipitadamente quis Lombroso, ou manifestação de uma diatese degenerativa, o certo é que o génio é, de sua natureza, uma anormalidade. Sucede que a imaginação simplista das multidões não destrinça de instinto entre o que na personalidade do homem superior constitui, ou representa, superioridade, e o que nela resulta de concomitante, ou intercorrente, anormalidade psíquica, patentemente tal. No fundo, esta intuição espontânea é justa. Na personalidade tudo se liga? se interrelaciona. Não podemos “separar”, salvo por um processo analítico conscientemente truncador da realidade, na personalidade de Goethe, por exemplo, a modalidade específica da sua ideação literária e a tendência alucinativa que, como se sabe, obriga a autoscopia externa; nem podemos separar na personalidade de Shakespeare a intuição dramática de, por ex., a inversão sexual. A grande multidão de fascinados inferiores, incapazes de criar e de (...), falhos de inibição e de senso crítico, na impossibilidade de (... ), com razoável êxito (salvo um declarado [?] delírio de grandezas) imitar os poemas de Musset ou os de Verlaine, podem contudo, com maior aproximação, plagiar ao primeiro o copo [?] gigantesco com que se embriagava quotidianamente, e ao segundo a sua incurável vagabundagem e amoralidade de degenerado típico. Quem não pode fazer versos como Baudelaire pode, porém, tingir os cabelos de verde. A prática da pederastia, embora nem sempre fácil [...], é contudo mais fácil que a produção de uma segunda “Salomé”. As biografias dos grandes homens realizam hoje, no sentido inverso, o que entre os homens da Renascença realizou a leitura de Plutarco. Criam um mimetismo [...]. 1913? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 133. Como o fim da matemática é obter dos fenómenos uma noção quanto possível independente das nossas sensações q[uan]to possível exterior, a eliminação do tempo, espaço da ciência, impunha-se. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 260. Meu Bebezinho pequeno: Hoje, depois de passar na tua rua, e de te ver, voltei atrás para te perguntar uma coisa; mas tu não apareceste. O que te queria perguntar era o que fazias amanhã, em vista da greve dos eléctricos, que naturalmente não dura só hoje. Não te dispões, com certeza a ir até Belém a pé? O melhor é escreveres para Belém ao dono da fábrica, explicando porque razão — aliás evidente — tu não vais. Além de ser uma distância enorme para qualquer pessoa, é impossível para ti, que não és forte. Acabo de escrever este parágrafo, e lembro-me que há comboios para Belém. Irás de comboio, Bebé. E onde tomas o comboio — em Santos, no apeadeiro? Talvez te seja difícil encontrar lugar ali, pois muita gente irá do Cais do Sodré — a gente que de manhã costuma encher os carros que vão na direcção de Belém, e que te torna difícil arranjar lugar de manhã. Não sei o que faça, Bebezinho. Já perguntei aqui no Café Arcada, de onde te estou escrevendo, mas não sabem as horas dos comboios da linha de Cascais, nem têm horário. Não quereria deixar de te ver, mas também não queria (pois amanhã tenho muito que fazer) perder tempo inutilmente indo procurar-te ou esperar-te a qualquer ponto onde não estejas, ou por onde não passes. Escreve-me amanhã dizendo qualquer coisa, mas não esquecendo que tenho os dias muito ocupados. Seja como for, passo amanhã na tua rua, ou às 10 para as 10 1/4 da manhã, ou — o que é mais certo — às 7 1/2 da tarde . Fica assim combinado, Bebé? Isto, salvo complicações que haja e me impeçam de aparecer. Muitos beijinhos do teu Fernando 23/5/1920 23-5-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 20. Meus dias passam, minha fé também. Já tive céus e estrelas em meu manto. As grandes horas, se as viveu alguém, Quando as viver, perderam já o encanto. 1924 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 58. Se nada morre, como pode a forma morrer? Morre com referência à matéria , como a matéria com referência à forma. Mas pensar que tanto a forma como a matéria podem passar para o nada é impossível, porque para o nada nada vai. «Passar para o nada» é «não passar» é ser eterno. 1910? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 231. O moinho que mói trigo O moinho que mói trigo Mexe-o o vento ou a água, Mas o que tenho comigo Mexe-o apenas a mágoa. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 103. Meu caro poeta: Escrevo-lhe a desoras da Delicadeza. Há meses que o Luís de Montalvor me fez chegar aos olhos o seu Livro. Embora o lesse sem tardança, tenho demorado o agradecimento para além dos limites que se usam. A licença poética não admite tanto. Eu tenho abusado do direito concedido aos camaradas de responder longe de propósito. Começo a minha carta por lhe pedir as desculpas a que este adiamento obriga. Não sei que lhe diga do seu livro, que seja bem um ajuste entre a minha sensibilidade e a minha inteligência. Ele é deveras a obra de um Poeta, mas não ainda de um Poeta que se encontrasse, se é que um Poeta não é, fundamentalmente, alguém que nunca se encontra. Há imperfeições e inacabamentos nos seus versos. Vêem-se ainda entre as flores as marcas das suas passadas. Não se deveriam ver. Do poeta deve ser o ter passado sem outro vestígio que a presença das rosas. Para quê os ramos quebrados, ainda, e partido o caule das violetas? Eu não lhe devia dizer isto, talvez, sem prefaciar que sou o mais severo dos críticos que tem havido. Exijo a todos mais do que eles podem dar. Para que lhes havia eu de exigir o que cabe na competência das suas forças? O poeta é o que sempre excede o que pode fazer. O seu livro é dos mais belos que recentemente tenho lido. Digo-lhe isto para que, não me conhecendo, me não julgue posto sobre a severidade sem atenção às belezas do seu livro. Há em si o com que os grandes poetas se fazem. De vez em quando a mão do escultor faz falar as curvas nuas da sua Matéria. E então é o seu poema sobre o “Cais”, e o seu “Outono”, e este e aquele verso, caído dos deuses como o que é azul no céu nos intervalos da tormenta. Exija de si o que sabe que não poderá fazer. Não é outro o caminho da Beleza. Eu detalho. Tenho vivido tantas filosofias e tantas poéticas que me sinto já velho, e isto faz com que me dê o direito de o aconselhar, como Keats a Shelley, que esteja de vez em quando com as asas fechadas. Há um grande prazer estético às vezes em deixar passar sem exprimir uma emoção cuja passagem nos exige palavras. Dos nossos jardins interiores só devemos colher as rosas mais afastadas e as melhores horas e fixar só aquelas ocasiões do crepúsculo quando dói demasiado sentirmo-nos. Nenhum poeta tem o direito de fazer versos porque sinta a necessidade de os fazer. Há só a fazer aqueles versos cuja inspiração é perfumada de imortalidade. Escrevo e paro. Pergunto a mim-próprio se poderá julgar tudo isto, porque não é transbordante de elogios, uma crítica adversa. Não o conheço e não sei. Mas repare que só a quem muito aprecio eu escrevo destas coisas. Decerto me faça justiça de crer que a quem não tem nenhum valor eu digo imediatamente que tem muito. Só vale a pena notar os erros dos que são na verdade Poetas, daqueles em quem os erros são erros. Para que notar os erros daqueles que não têm em si senão o jeito de errar? Com tudo isto, que parece hesitante no elogio, repito-lhe que o seu livro é dos mais belos que ultimamente tenho lido. A sua imaginação, doentia e delicada, é uma princesa que olha das janelas o luxo longínquo dos tanques. Vejo que sente os repuxos. Eles são com efeito as melhores horas da água, e decerto que os mais belos são aqueles, em jardins ainda do século dezoito (e que nós nunca poderemos ver) . A sua sensibilidade dói-me. Por certo que outrora nos encontrámos e entre sombras de alamedas dissemos um ao outro em segredo o nosso comum horror à Realidade. Lembra-se? Tinham-nos tirado os brinquedos, porque nós teimávamos que os soldados de chumbo e os barcos de latão tinham uma realidade mais preciosa e esplêndida que os soldados-gente e os barcos reais. Nós andámos longas horas pela quinta. Como nos tinham tirado as coisas onde púnhamos os nossos sonhos, pusemo-nos a falar delas para as ficarmos tendo outra vez. E assim tornaram a nós, em sua plena e esplêndida realidade — que paga de seda para os nossos sacrifícios! — os soldados de chumbo e os barcos de latão; e através das nossas almas continuaram sendo, para que nós brincássemos com eles. A hora (não se recorda?) essa era demasiado certa e humana. As flores tinham a sua cor e o seu perfume de soslaio para a nossa atenção. O espaço todo estava levemente inclinado, como se Deus, por uma astúcia de brincadeira, o tivesse levantado do lado das almas; e nós sofríamos a instabilidade do jogo divino como crianças que apreciam as partidas que lhes fazem, porque são mostras de afeição. Foram belas essas horas que vivemos juntos. Nunca tornaremos a ter essas horas, nem esse jardim, nem os nossos soldados e os nossos barcos. Ficou tudo embrulhado no papel da seda da nossa recordação de tudo aquilo. Os soldados, pobres deles, furam quase o papel com as espingardas eternamente ao ombro. As proas dos barcos estão sempre para romper o invólucro. E sem dúvida que todo o sentido do nosso exílio é este — o terem-nos embrulhado os brinquedos de antes da Vida, terem-nos posto na prateleira que está exactamente fora do nosso gesto e do nosso jeito. Haverá uma justiça para as crianças que nós somos? Ser-nos-ão restituídos por mãos que cheguem aonde não chegamos os nossos companheiros de sonho, os soldados e os barcos? Sim, e mesmo nós próprios, porque nós não éramos isto que somos... Éramos duma artificialidade mais divina... Escrevo e divago, e tudo isto parece-me que foi uma realidade. Tenho a sensibilidade tão à flor da imaginação que quase choro com isto, e sou outra vez a criança feliz que nunca fui, e as alamedas e os brinquedos, e apenas, no fim de tudo, a supérflua realidade da Vida... Perdoe-me que lhe escreva assim... A Vida, afinal, vale a pena que se lhe diga isto. Deus escuta-me talvez, mas de si ouve, como todos que escutam. A tragédia foi esta, mas não houve dramaturgo que a escrevesse... 1914? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 135. We are bound to think tridimensionally. A body has 3 dimensions: space, time and force. Space in itself has 3 dimensions: height, length and depth (or height) Time has 3 dimensions — duration, direction and change. Force has 3 dimensions — direction, (...) Is time coexistence? Then a thing while lasts coexists with itself? But since no two coexistents are equal, a coexistent is not equal to itself if it coexists with itself; hence change. O tempo é a distância infinitesimal entre 2 coexistentes. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 261. Meu Bebé pequenino, minha Nininha: Acabo agora mesmo de receber e de ler a tua carta de ontem. Apoquentou-me muito, por tua causa, o que me contas, e que eu já esperava que sucedesse, não só por o que tu mesma me tinhas contado, como também por ontem o Osório me ter dito que o rapaz estivera ontem mesmo de manhã no escritório da Rua da Assunção. O rapaz foi lá a título de perguntar por mim, e, como eu não estava, fez ao Osório várias perguntas, se eu te namorava, etc., e disse-lhe que me tinha visto contigo, etc., etc. Naturalmente, se me queria falar, era para qualquer coisa da tal intriga que tu me contaste que ele dizia que faria com coisas que iria contar a qualquer novo namorado teu. Ou, o que é mais provável ainda, foi lá ao escritório sabendo já que eu lá não estava, para, a título de perguntar por mim, fazer ao Osório as tais perguntas. Seja como for, por mim o assunto não me interessa, e muito menos o rapaz; mas apoquenta-me o que essas trapalhadas e tolices dele te ralam, quer directamente, quer por o que ele disse a teu pai e te vem ralar por intermédio de teu pai. Vamos aos pontos principais da questão: Está muito bem, ou quase, o que a tua irmã te aconselhou que dissesses a teu pai. Por esse lado, nada te posso aconselhar, que tua irmã te não tenha aconselhado já. Para a história ficar completa, e ser inteiramente coerente, resta que acrescentes ao que vais dizer a teu pai o seguinte — que não andavas constantemente comigo na rua, e que só uma ou outra vez o tinhas feito. Desculpa-te nisto comigo, se quiseres; que, encontrando-me indo na mesma direcção, era natural nem mesmo poderes recusar, se quisesses, que eu te acompanhasse. É bom dizeres a teu pai que uma ou outra vez te poderiam ter visto comigo quando estavas no Dupin, mas que nessa altura então era a coisa mais natural deste mundo, porquanto, à hora em que saías para almoçar, vindo para casa da tua irmã, acontecia muitas vezes vir eu de casa e passar pelo Cais do Sodré e Rua do Arsenal, onde compro todos os dias jornais ingleses. Isto, dito com jeito (para ressalvar caso de o rapaz ter dito, ou poder vir a dizer, a teu pai, que já antes de estares em Belém eu andava contigo, e, portanto, antes da ocasião em que vais dizer que eu me declarei). Compreendeste bem, Bebé? Agora, quanto ao rapaz. Este, coitado, dá-me certa vontade de rir, e confesso que chego a ter certa pena do estado mental em que ele deve andar. O rapaz não me preocupa, mas preocupa-me, sim, o que ele te pode ralar. Vou dizer-te o que deves fazer para cortares as vasas ao rapaz. Como ele te ataca por teu pai, deves indispor teu pai contra ele. Não é preciso nem mentir nem intrigar. Dizes simplesmente duas coisas a teu pai, e tens que dize-las de modo que teu pai tome bem nota delas. A primeira é contar-lhe o que o rapaz te ameaçou de fazer, de desmanchar por intrigas qualquer novo namoro que tivesses, intrigas essas feitas falando ele com o teu novo namorado. Aponta bem a teu pai que essas intrigas só podem ser uma difamação a teu respeito, e pergunta-lhe se acha isso bonito, se se põe do lado de quem te vai difamar, e, estás certa, já te está difamando, visto que começou (mais ou menos) com algumas mentiras falando com ele (teu pai) e que por certo continuará essa campanha contra ti, mais à vontade, com outras pessoas, estranhas à tua família, e a quem pode dizer coisas que não se atreveria a dizer a teu pai. Compreendeste? Isto dito com jeito , cala com certeza no ânimo dele. A outra coisa é perguntares a teu pai quem te defende de qualquer desfeita que ele te faça indo tu sozinha na rua, visto que a atitude e as ameaças dele te levam a recear isso. Faz-te, a este respeito, muito cheia de medo. Nestes casos, e para com um pai, nada melhor que exagerar, dizer que quase tens medo de sair só com receio que ele te faça qualquer partida; que é impossível viveres nesse receio, etc., etc. Isto, é claro, não adianta nada pelo que me diz respeito a mim, mas adianta no sentido de atrasar o rapaz. Compreendeste também, Nininha pequena? Farei o possível por passar hoje às 7 1/2. Mas o dia é mau para isso, pois tenho que estar em casa cedo para voltar à Baixa às 9 horas, o que hoje tenho que fazer; e, agora sem carros, tudo tem de ser feito com uma grande margem de tempo para ir de um lado para o outro. Nem tempo tenho para dizer mais coisas que te queria dizer nesta carta. Ficam para outra carta. Milhares de beijos do teu, sempre e muito teu Fernando 28/5/1920 28-5-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 21. Cartas de Marcos Alves Levei a vida toda a sentir-me inadaptado mesmo às suas coisas mais altas e [a] adaptar-me a todas, mesmo, às mais reles. Assim criei uma dupla personalidade, da qual ambos os ramos são falsos. Por isso me não encontro. Por detrás do homem de espírito e um pouco de sociedade, sou o artista morto, e não o sou realmente. Vendo o que quis ser, o que me julguei plenamente capaz de ser, e atentando no que hoje irremediavelmente sou, uma angústia enorme, como a de ter perdido a alma, [...], sobe-me à cabeça. Nunca me senti senão através de uma ideia de mim. Tudo o que amei cedo ou tarde me veio a ferir (...) Cortei todos os laços comigo próprio; hoje nada me amarra a mim a não ser o sentimento de dever estar amarrado. Só me sinto um ao atentar que sou, pelo menos, dois. Pergunta-me v[ocê] como ando [?] [...] nisto - nisto de ser o cavaqueador brilhante, o triunfador das atenções... Perdendo-me. Cada pedra com que construí a m[inha] reputação de blagueur, de artista (...), de (...) - tirei-as ao muro, hoje desgastado, com que me vedara do não-eu. Hoje não tenho alma. Vendi-a a mim próprio, a troco de moeda falsa, beijos comprados, amizades inúteis, admiradores desprezíveis, inimigos que me esqueceram. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 25c. «Marcos Alves» Flor que não dura Mais do que a sombra dum momento Tua frescura Persiste no meu pensamento. Não te perdi No que sou eu, Só nunca mais, ó flor, te vi Onde não sou senão a terra e o céu. 1924 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 59. THE ABYSS Between me and my consciousness Is an abyss At whose invisible bottom runs The noise of a stream far from suns, Whose very sound is dark and cold ­- Ay, on some skin of our soul's deeming, Cold and dark and terribly old, Itself, and not in its told seeming. My hearing has become my seeing Of that placelessly sunken stream. Its noiseless noise is ever freeing My thought from my tought's power to dream. Some dread reality belongs To that stream of mute, abstract songs That speak of no reality But of its going to no sea. Lo! with the eyes of my dreamed hearing I hear the unseen river bearing Along to where it goes not to All things my thought is made of­ - Thought Itself, and the World, and God, who On that impossible stream float. Ay, the ideas of God, of World, Of Myself and of Mystery, As from some unknown rampart, hurled, Go down with that stream to that sea It has not and shall never reach And belong to its night‑bound motion. Yet oh for that sun on the beach Of that unattainable ocean! 23-12-1914 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 414. 1ª publ. in Obra Poética . Fernando Pessoa (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Dores Galhoz). Rio de Janeiro: Ed. José Aquilar, 1960. O homem é um produto da hereditariedade e do meio, como o é qualquer outro ente vivo. O factor hereditariedade manifesta‑se de duas maneiras: pela hereditariedade propriamente dita, pela qual o filho sai aos pais ou aos antepassados; e por o que se chama a variação, pela qual difere deles. Por mais parecido que um ente vivo seja com os seus antepassados, ou com qualquer deles, nunca é exactamente esse antepassado (não contando mesmo com a diferente influência do meio, se a houver, como há sempre na vida das sociedades). É a isto, pelo que ele nunca é exactamente qualquer antepassado, que se chama a variação. Quanto mais uma raça é superior, maior é a variação dentro dela, e, com o aperfeiçoamento da raça, maior a variação irá sendo, porque maior é a variação acumulada e transmitida por hereditariedade. Mas, se a chave do progresso está na variação, na mesma variação está a chave da decadência; pois que a força vital de desintegração, gerando a vida, gera por isso mesmo a morte. Foi por isso que o fisiologista francês chegou à sua definição célebre de vida: «a vida é a morte». 1915? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 231. Aquela que tinha pobre Aquela que tinha pobre A única saia que tinha, Por muitas roupas que dobre Nunca será mais rainha. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 103. Dona Rosa, Dona Rosa,/Quando eras inda botão Dona Rosa, Dona Rosa, Quando eras inda botão Disseram-te alguma cousa De a flor não ter coração? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 75. CLASSICISMO O movimento da ode grega — estrofe, antístrofe, epodo — não representa uma invenção dos Gregos, mas uma descoberta sua. Não é um postulado da inteligência grega; é um axioma da inteligência humana, que aos Gregos foi dado encontrar. A sua constatação não é a duma teoria artística, é a de um facto científico, de uma lei da inteligência. Este triplo movimento não é só a lei da ode, o fundamento eterno da poesia lírica; é, mais, a lei orgânica da disciplina mental, o regulamento eterno da criação psíquica. É a constatação superior do facto simples de que todas as coisas têm um princípio, um meio e um fim, de que o princípio conteria já em si o fim, e a indicação do meio; e de que o meio é o modo como o princípio se torna fim. A tal ponto esta descoberta psicológica dos Gregos — mais importante, por certo, que a subversão por Galilei da astronomia Ptolemaica — é uma lei do espírito, que a vemos reaparecer várias vezes, e sempre com o mesmo carácter de eterna, na história do pensamento. Outra coisa não é o triplo movimento — tese, antítese, síntese — da dialéctica de Platão. Outra coisa não é o pensamento substancial de Hegel — em que o ser em si ( Sein ) se torna outro-ser ( Dasein ) e volta a si ( f ü r sich sein ). Outra base não tem, no seu exterior filosófico, a doutrina cristã da Trindade divina, que representa Deus como sendo aquele de quem tudo procede, como Pai, por quem tudo existe, como Filho, e para quem tudo existe, como Espírito Santo; havendo assim, no entender da filosofia cristã, já uma previsão da doutrina rígida de Hegel na doutrina fluída de S Paulo. Perderemos por completo o sentido do classicismo se não nos obrigamos a estudá-lo como deve ser estudado — na Grécia, onde nasceu, e segundo a lei do pensamento. Da Grécia para cá não tem havido senão aplicações tortuosas e incertas da Disciplina helénica. Há, depois, que distinguir no classicismo, como em tudo mais, entre a matéria e a forma. A matéria dá-a a sensibilidade, o temperamento especial, a visão individual [?] do artista; a forma supõe a inteligência. Geral na sua natureza, como a ciência, seu produto maximamente característico, é antiparticular de sua índole. O pseudoclassicismo francês — Boileau, Corneille, Racine — foi na cultura europeia o pior inimigo da tradição clássica, porque foi o seu desvirtuador, e, como disse Tennyson, “a mentira que é meia verdade é a pior das mentiras. O classicismo francês é um classicismo de duas dimensões, um classicismo de silhueta ou de papel cortado. A disciplina helénica é aplicada, mas não há sensibilidade a que aplicá-la. O grego aceitava, a mãos plenas, a experiência integral da vida da emoção; e a essa experiência plena impunha a disciplina da sua inteligência (abstracta). O francês castra, limita, arredonda primeiro a experiência da vida, depois é que disciplina essa sensibilidade que castrou. O classicismo que resulta é tão natural como a castidade num eunuco. É como o escolar que, tendo que fazer uma soma de parcelas compostas de números inteiros e de quebrados, começasse, para chegar a uma soma perfeita, por apagar do quadro os quebrados. O francês não tem força mental para aceitar a experiência total da vida; tem que ter dieta na sensibilidade para a poder digerir com a inteligência. Quando, como no Romantismo, adquiriu a sensibilidade plena, o espírito francês revelou imediatamente a sua debilidade; perdeu o poder da disciplina, produziu as monstruosidades construtivas que são os poemas de Hugo, de Musset e de Lamartine. Só, e em alguns poemas, a alma triste de Vigny conseguiu filiar-se, em estilo Chénier, na velha, na grande tradição da Beleza. O espírito francês é a apoteose do secundário. Só em Flaubert [...]. Mais uma prova da secundariedade intelectual da França. Só atingiu o ideal clássico num género secundário — no romance. Nem na poesia épica, nem na dramática... 1915? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 141. Como se chega à ideia de coexistência como quarta dimensão? (O espaço ocupado por um sólido é um espaço separado; é portanto outro espaço em relação ao espaço ocupado por outro sólido. É portanto perpendicular ao outro. É portanto outra, a quarta, dimensão.) —? À ideia de antissólido chega-se pelo processo de (...) limite, o antissólido é o que tem o sólido por limite. (será portanto a quarta dimensão d'esse sólido). Será o antissólido que gera o coexistente? O uso da ideia de perpendicularidade e de 2 círculos para gerar o coexistente ou antissólido (...) Baseia-se a geometria euclidiana no conceito de dimensão, o qual se representa por uma linha. Baseia-se portanto no conceito de linha. Baseia-se no conceito de espaço, e este na sua abstracção envolve 3 conceitos: a ausência de qualquer coisa, isto é, zero; a possibilidade de conter toda e qualquer coisa, isto é, o infinito; e o conceito de limite (...) e a dimensão que é a direcção, não no sentido do movimento de um corpo, senão no de movimento da observação, isto é, a linha (linha recta). (Com mais propriedade se chamará dimensão que direcção.)? Como é que o antissólido gera uma geometria de 4 dimensões? A quarta dimensão de um corpo é a sua coexistência com outro corpo ou com outros corpos. Um corpo sólido é perpendicular a todo outro sólido. Um antissólido é paralelo ao seu sólido, na quarta dimensão, que é a coexistência. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 262. Segunda carta Querido Bebezinho do Ibis: A carta, que te escrevi ainda agora e que já deitei no correio, não contém, como no fim dela te disse, tudo quanto eu te queria escrever. O caso é que, quando eu ia quase no fim (felizmente não foi antes) apareceu o primo no Café Arcada, onde eu estava escrevendo, e onde estou, também, escrevendo esta. Tive que interromper a carta, e fiquei irritado — não com ele, é claro, que estava longe de ter culpa, até tinha ficado de aparecer a essa hora (seis), mas com o Destino, que combinara assim tão mal as coisas. Como nessa carta te digo, eu tinha que estar de volta na Baixa às 9 horas. Pois, com a demora do meu primo a falar comigo, dentro em pouco era um quarto para as sete; ele saiu, acabei a tua carta à pressa, deitei-a no correio... e lembrei-me nessa altura que tinha que ir fazer a barba. Resultado: não tenho tempo para ir a casa jantar e estar de volta na Baixa às 9 horas. Por isso voltei ao Arcada para comer qualquer coisa; é do «Arcada» que te estou a escrever. Bebezinho meu: o que eu te queria dizer na outra carta, e não tive tempo, mas que te digo nesta, é isto, e peço que aprendas bem a lição, e, se me tens amor, que escutes este conselho: O Destino é uma espécie de pessoa, e deixa de nos ralar se mostrarmos que nos não importamos com o que ele nos faz. Por isso tu deves ter a força de vontade de só pensar isto : gosto do Fernando, não há mais nada . O rapaz, e o que ele diz, trata com desprezo, mas com desprezo autêntico e verdadeiro: não penses nele. Achas difícil? Não admira, porque és muito nova; mas não serás capaz, pedindo-te eu , de concentrar o teu espírito numa atitude de indiferença por tudo quanto não seja o teu Nininho? Se não puderes fazer isto, não sabes amar ainda. Bem sei: apoquentam-te por todos os lados, ralam-te, cansam-te. Toma conta de ti mesma (percebes?) e não olhes a nada disso. Gostas de mim, do Ibis, do Nininho? Eu sou muito nervoso, mas tenho já o espírito educado ao ponto de receber com sangue frio o pior e o mais complicado. Se eu fosse dez anos — que digo eu? basta dois anos — mais novo, ficava todo atrapalhado com o que me contaste. Fiquei apoquentado por tua causa, mas por mim não imaginas como estou calmo, tranquilo, em ordem dentro da minha cabeça. E gosto imenso de ti, Bebé, acredita; não quer isto dizer que eu te não ame; quer dizer que, nisto tudo, ligo só importância a ti e a mim, não me importando o resto para nada. Tu és capaz de me fazer um favor? É procurares estar calma, ter desprezo, ter indiferença. Tu estás dando ao rapaz um prazer imenso. Olha: de mim não tira ele prazer nenhum... Amanhã hei-de ver-te. O natural é que vá ter a Belém durante a tua hora de almoço — um pouco do meio-dia em diante. Mas procurarei estar em Santos à hora da tua ida, para combinar contigo. Não imaginas. Tenho positivamente uma sensação de alegria. É que me estorvam; e eu não desgosto que me estorvem, para eu remover os obstáculos. Limpa as lágrimas, Bebé mau! Tens hoje do teu lado o meu velho amigo Álvaro de Campos, que em geral tem sido só contra ti. Alegra-te! Só vale a pena o que se consegue com esforço. Mil beijinhos, beijos e chi-corações do teu, sempre teu Fernando 28/5/1920 P.S. Pode ser que, por quaisquer razão contra a minha intenção, eu não possa aparecer de manhã. Nesse caso espera-me em Belém logo depois do meio-dia . Espreita o meu aparecimento e sobe para me falar. Não é natural que teu pai esteja, não é verdade? — Quanto ao rapaz, pode estar à vontade, que isso não tem importância. F. 28-5-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 21. 1. O Sensacionismo — F. Pessoa. 2. «Orpheu» — acta da redacção — assinada pelo Comité Redactorial. 3. Estética da Quarta Dimensão. 4. Poema (ou Poemas) de M. de Sá-Carneiro. 5. Cena do Ódio — J. Almada Negreiros. 6. Duas caricaturas — Rússia [?] e Xadrez. 7. Antinoüs — F. Pessoa. 8. Nota de obras sensacionistas onde sobressai, etc. — (Bibliografia do mo[vimen]to sensacionista). (art[igos] de jornais?) 9. [lº Manifesto — Ultimatum] 10. Dá cá que eu apanho (sueltos) 1915? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 145. Aqui neste profundo apartamento Em que, não por lugar, mas mente estou, No claustro de ser eu, neste momento Em que me encontro e sinto-me o que vou, Aqui, agora, rememoro Quanto de mim deixei de ser E inutilmente, [...] choro O que sou e não pude ter. 1924 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 60. FIAT LUX Into a vision before me the world Flowered, and it as when a flag, unfurled, Suddenly shows unknown colours and signs. Into an unknown meaning, evident And unknown ever, it outspread its lines Of meaning to my passive wonderment. The outward and the inward became one. Feelings and thoughts were visible in shapes, And flowers and trees as feelings, thoughts. Great capes Stood out of Soul, thrust into conscious seas, And on all this a man‑sky spoke its breeze. Each thing was linked into each other thing By links of being past imagining, But visible, as if the skeleton Were visible and the flesh round it, each one As if a separate thing visibly alone. There was no difference between a tree And an idea. Seeing a river be And the exterior river were one thing. The bird's soul and the motion of its wing Were an inextricable oneness made. And all this I saw, seeing not, dismayed With the New God this vision told me of; For this was aught I could not speak nor love But a new sentiment not like all others, Nought like the human feelings, men are brothers In feeling, woke on my astonished spirit. With a great suddenness did this disinherit That thought that looks through mine eyes of the pelf Of ordered seeing that maketh it itself. O horror set with mad joy to appal! O self‑transcendency of all! O inner infinity of each thing, that now Suddenly was made visible and local, though No manner of speech to speak these things in words Followed that vision! Sight whose sense absurds Likeness of like, and makes disparity Contiguous innerly to unity! How to express what, seen, is not expressed To the struck sight that sees it? How to know What comes to senses' threshold to bestow A visible ignorance upon the knowing? How to obey the analogy‑behest, Community in unity to prove The intellectual meaning of to love, Shipwrecking difference upon the sight Renewed from God to Inwards infinite? Nothing: the exterior world inner expressed , The flower of the whole vision of the world Into its colour of absolutely meaning In the night unfurled, And therefore nought unfurling, abstract, that, Vision self‑screening, Patent invisible fact. Nothing: all, And I centre of to recall, As if Seeing were a god. The rest the presence of to see, Hollow self‑sensed infinity, And all my being‑not‑souled‑to‑oneness trod To fragments in my sight‑dishevelled sight. This Night is Light. 15-2-1916 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 416. VIII. The Labyrinth H. Stirling diz que o que nem Huxley nem ninguém mede é o abismo entre a vida e a morte ... Mas o abismo não é aí; o problema essencial não é o da vida e da morte; é o da consciência e da inconsciência — ou da passagem, ao que concebido ou não, real ou não, de uma para a outra. Materialmente considerando, nada mais simples do que a morte. 1912? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 232. Tens uns brincos sem valia Tens uns brincos sem valia E um lenço que não é nada, Mas quem dera ter o dia De quem és a madrugada. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 103. Tenho um segredo a dizer-te Tenho um segredo a dizer-te Que não te posso dizer. E com isto já to disse Estavas farta de o saber... s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 75. O SENTIDO DO CLASSICISMO Entre as tendências recentes do espírito crítico europeu há uma que acima de todas avulta quer pelo (...) como está espalhada, quer pela coesão inteira dos vários pontos que representam a essência da sua doutrina. Essa tendência — representada pelo movimento conservador em política — aflora na crítica literária sob a forma do chamado neoclassicismo,. No nome da doutrina vai já a sua explicação. Ela inclui uma contraposição aos princípios românticos ou post- românticos — considerados quer como literariamente falsos (Matthew Arnold), quer como a forma literária de princípios políticos dissolventes — dos princípios por que ostensivamente se regia a literatura pré-revolucionária. Como, porém, os expositores deste sistema não primem pela originalidade (cf. Maurras), sucede que, na elaboração dessa doutrina, caem em três erros (...). Os 3 erros são: 1) errar o ponto de partida desses princípios clássicos; 2) confundir o conteúdo da obra de arte com o seu (...), a sua estática com a sua dinâmica; 3) fazer crítica literária sem referência a condições médias (?). O primeiro erro é dos conservadores franceses, e, de aí, dos que eles influenciam. Consiste em confundir a essência dos princípios clássicos com a sua aplicação em determinada época. Assim, quando defendem os princípios clássicos, defendem, em geral, apenas os princípios do século dezassete, e, o que é pior, do século XVII em França. Não reparam, porém, que a mentalidade francesa difere muito da mentalidade grega. O grego aceita as sensações e a vida e subordina-as a uma disciplina intelectual. O francês, incapaz de criar uma disciplina superior, trunca e restringe a vida e o sentimento para os poder disciplinar. É como um escolar que, tendo que somar parcelas (...). O papel da inteligência, no romantismo, é apenas representativo; serve apenas para exprimir a emoção que inspirou o poema. Nos pseudoclássicos dos séculos anteriores, o papel da inteligência é outro — é criar a emoção; não criar nenhuma, é claro, porque esse papel é anti-humano, ao passo que o dos românticos é apenas inferiormente humano. 1915? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 144. Provar 0 = _ 0 é compreensível em si como nada. _ não é. 0 é pois definido e _ indefinido. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 263. Meu Bebé querido: Imagina que, tanto por me ter levantado muito cedo ontem, como por estar realmente fatigado, acordei hoje às 11 horas. Fui para a Baixa só ao meio-dia e tal e ao meio-dia e meia hora é que passei na tua rua. Tive muita pena de te não ver, mas não me admirei, é claro, que não estivesses, já a essa hora à janela. Desculpa, sim, Bebé; não foi por culpa minha, mas do meu sono, que faltei à combinação. Naturalmente ver-te-ei amanhã, mas não sei se poderei ir até Belém; o mais provável é ir a Santos. Em todo o caso, o outro processo é preferível. As condições em que estou escrevendo esta carta, aqui em minha casa, mas com meu primo a passear à roda de mim, não são muito boas. Por isso aproveito um momento em que ele não está aqui mesmo perto para te enviar muitos e muitos beijinhos. Teu, sempre teu Fernando 30/5/1920 Domingo 30-5-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 23. 1. Todos os fenómenos se passam no espaço. As «dimensões» dos objectos não estão neles, mas sim em nós. São condições de sensibilidade, categorias de credibilidade. 1. A única realidade é a sensação. 2. A máxima realidade será dada sentindo tudo de todas as maneiras (em todos os tempos). 3. Para isso era preciso ser tudo e todos. O sensacionismo é a arte das quatro dimensões. As coisas têm aparentemente — mesmo, na sua aparência visualizada, as coisas do sonho — 3 dimensões; essas dimensões são conhecidas quando se trata de matéria espacial. Só podemos conceber coisas com três ou menos dimensões. Mas se as coisas existem como existem apenas porque nós assim as sentimos, segue que a «sensibilidade» (o poder de serem sentidas) é uma quarta dimensão d'elas. As três dimensões das coisas não são altura, largura e espessura. Essa é apenas a forma como as três dimensões nos aparecem nas coisas espaciadas à vista. As três dimensões são assim: supondo um observador colocado em A, B C D A F temos que ele verá tudo em volta de três percepções: AB = a linha do objecto até ele. CD = a linha de lado a lado do objecto. EF = a linha de alto a baixo do objecto. 1915? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 146. LIGEIA Não quero ir onde não há a luz, De sob a inútil gleba não ver nunca As flores, nem o curso ao sol dos rios Nem como as estações que se renovam Reiteram a terra. Já me pesa Nas pálpebras que tremem o oco medo De nada ser, e nem ter vista ou gosto, Calor, amor, o bem e o mal da vida. 1924 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 61. A SUMMER ECSTASY Beside a summer's day I lay me down and dreamed. The light from far away In my withinned self gleamed, An unreal true glow, Spiritually somehow. I saw the inner side Of summer, earth and morn. I heard the rivers glide From Within. l was borne To see, through mysteries, How God everything is. The motes of sun that dance Are audibly whispered. All is an utterance. The sight may hear. I shed Vision of things as things. My thoughts are angels' wings. The corpses of known hours In barks unsteered and left Float, covered with mute flowers, Down my dream that is cleft In banks of mystery ­- This summer day and I. And something like a greed And yet unlike a wish, The power to have a need Which doth not needing reach, But is dissolved again Ere its sad joy reach pain, A shadowy lightness woven Of the day and of me, Like sparkling water driven Never but where we see, A gap, a pause, a dim Looking over things' rim, Starts like a sudden flute Pastoral with tuneless notes Out of the unseen root Of all my being denotes, Spreads, till I feel it not, O'er my lost sense of thought. And lo! I am another. My senses taste not‑mine. A hand my sight doth smother To a blind sight divine. I am a lost tune, a mood Of the finger‑tips of God. So, like a child‑king crowned, I feel new with fear‑pride. I am robed with sky and ground. My inmost soul's outside Is sunlit seas and lands. My dreams are seraphs' hands. 26-11-1912 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 418. Before Nature then has one duty, before Good another. Before Nature then must develop thy own personality and do war against other men. Before Good thou must sacrifice thyself. How can good be natural or come from nature when it bids us go against nature? The law of nature is indifferent to good or evil. Difference between space (e.g.) and good. Space universal but good particular. «Le penseur éternel», when ideas succeed one another. Nothing can die for everything is good. We are immortal by this . Otherwise (miserable beings) we have no immortality. 1910? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 232. Os ranchos das raparigas Os ranchos das raparigas Vão a cantar pela estrada... Não oiço as suas cantigas Só tenho pena de nada. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 75. O número quantitativo, ou abstracto, e o número qualitativo, ou concreto. Quando chamamos a uma coisa 2, chamamos-lhe 2 relativamente a outra, que tomamos por unidade. Quando chamamos 2 a 2 coisas, tomamos a unidade abstracta por unidade. Quando a uma régua de 2 metros chamamos 2 relativamente a uma régua de 1 metro, não o fazemos no mesmo sentido que quando chamamos 2 a duas réguas, sem atender a que haja, qualquer régua que seja 1 ou antes atendendo apenas, a que cada régua é 1 (e neste caso as 2 réguas são (2x1) régua). A soma e a multiplicação, que é uma soma resumida, são derivadas directamente do número quantitativo. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 264. Sentir é criar. Agir é só destruir. Compreender é apenas iludirmo-nos. Parecendo um facto passivo, sentir é ser activo, porque é ter a consciência de sentir. Ter consciência de sentir é ser um modo de sentir. O universo objectivo é uma alucinação simultânea dos sensórios, uma média abstracta entre ilusões. A única realidade que há é a palavra realidade não ter sentido (nenhum). Agir é intrometer-se na ilusão geral, perturbar a ordem do Universo. O dinâmico é a paragem do estático. O que se desloca é o que não se desloca. O sujeito é objecto de si-próprio e isto não é verdade. Ver uma coisa e imaginar uma coisa visível são fenómenos idênticos. Apenas os diferença a colocação espacial da imagem visualizada. O mundo exterior é uma alucinação em comum, uma criação-média das imaginações somadas. A única realidade verdadeira é a sensação. A única realidade absoluta é a diferença entre a sensação e sentir...….. 1915? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 147. Nas entressombras de arvoredo Onde mosqueia a incerta luz E a noite ocupa a medo O incerto espaço em que transluz... 1924 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 62. MOOD My thoughts are something my soul fears. I tremble at my very glee. Sometimes I feel arrive in me A dim, a cold. a sad, a fierce A lust‑like spirituality. It makes me one with all the grass. My life takes colour at all flowers. The breeze that seemeth loth to pass Shakes off red petals from my hours And my heart sulters without showers. Then God becomes a vice of mine And divine feelings an embrace That sinks my senses in its wine And leaves no outline in my ways Of seeing God flower, grow and shine. My thoughts and feelings mingle and form A vague and hot soul‑unity. Like a sea that expects a storm, A lazy ache and fret make me A murmur like a coming swarm. My parched thoughts mix and occupy Their interpresences and swell To each others' places. I descry Nought in me save impossible Mixtures of many things all I. I am a drunkard of my thoughts. My feelings' juice o'erruns my soul. My will becomes soaked in them all. Then life stagnates a dream and rots To beauty in my verses' dole. 29-7-1915 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 422. Se tudo fosse mau a nossa adaptação a esse tudo — não faria dele amanhã um tudo bom, um absoluto bom. 1908? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 233. Loura, teus olhos de céu Loura, teus olhos de céu Têm um azul que é fatal. Bem sei: foi Deus que tos deu. Mas então Deus fez o mal? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 103. Rezas porque outros rezaram, Rezas porque outros rezaram, E vestes à moda alheia... Quando amares vê se amas Sem teres o amor na ideia. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 75. O que a nossa época sente é um desejo de inteligência. O que a desgosta no romantismo é a escassez dos elementos intelectuais, quer directamente pela escassez, quer pela subordinação deles aos elementos emotivos. O único elemento intelectual notável no romantismo é o da especulação, da reflexão, aparecido naturalmente pela ruína progressiva das influências religiosas. Nisto o romantismo é forte, porque está na grande tradição civilizacional europeia, que é a tradição helénica, do individualismo racionalista. Por outra parte o romantismo é o aboutissement de outra tradição, a cristã; é isso pelo seu emotivismo e subjectivismo. De novo, o que o romantismo trouxe foi o sentimento, propriamente tal, da Natureza. (A renovação da metáfora e da imagem). O “classicismo” decadente, a que o romantismo se seguiu e se opôs, não tinha pensamento, não tinha emoção, não tinha alma. Custa-nos hoje a crer num Delille, nos Árcades. Como, salvo alguns versos, pesam hoje sobre nós tedientamente “The Traveller”, “The Deserted Village” “Retaliation”! O fim do classicismo teve talento só na sátira, na poesia social, no género de que os vers de société são uma espécie. Quanto maior a subjectividade da Arte, maior tem que ser a sua objectividade, para que haja equilíbrio, sem o qual não há vida, nem, portanto, vida ou duração da mesma arte. Como o romantismo tinha mais emoção, tinha que ter mais pensamento; como tinha mais subjectividade, tinha que ter mais objectividade. 1914? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 145. I Series 0 — 1. 2. 3. — _ Ideally, to us, the idea of zero is the same as the idea of infinity. It is a transcendant idea, the form under which we conceive (if so I may say) the unknown. Zero is not-quantity, the Infinite is the not-known. But not-quantity is not-known. What is inf[inite]? More than n[umber]? No, for more than supposes number. If B[eing] and N[ot]-B[eing] be ideas they are identical for they are our 2 forms of conceiving the unknown, or rather the 2 names we give to that form, if that may be called a form which is no form at all. If B[eing] and N[ot]-B[eing] be things (so to speak) only B[eing] exists, for N[ot]-B[eing] is by its essence (so to say, for it has no essence, neither is it permissible to [?] speak of it as it), for N[ot]-B[eing] is by its essence non-existent. It is not only unconceivable but supra-unconceivable, just as B[eing] in itself. And the reason for this is that although we think that we are conceiveing B[eing], N[ot]-B[eing] as things as essences, in themselves we are still considering them as ideas. The most that human reason can say escaping the most it can from its own limits, is that N[ot]-B[eing] is Nothing, no [?] thing [?] The truth is that Being in itself (although Being have no Self) is Being (although not even an expression of identity is allowed of the unknown). There is only one Zero, the human zero, not-quantity and [?] not-known, it may be said that negativity remains still, that still B[eing] has a N[ot]-B[eing]. My answer is that the quantity in itself is hidden from our reason. As for the quantity as we know it, i. e. as for the Unknown as B[eing] and N[ot]-B[eing] (ideas) all we can prove is either one or another of these things, equally good for our end: I) B[eing] alone exists, N[ot]-B[eing] eliminate itself of itself. II) B[eing] and N[ot]-B[eing] one in essence, are fundamentally identical. To go beyond this to admit in the Unknown a truth. To say «I conceive in the Unknown one truth [...] which I call nothing. This is [...] Negativity is the bone of metaphysical systems. I have eliminated it in my system. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 65. SANTO ANTÓNIO Nasci exactamente no teu dia — Treze de Junho, quente de alegria, Citadino, bucólico e humano, Onde até esses cravos de papel Que têm uma bandeira em pé quebrado Sabem rir... Santo dia profano Cuja luz sabe a mel Sobre o chão de bom vinho derramado! Santo António, és portanto O meu santo, Se bem que nunca me pegasses Teu franciscano sentir, Católico, apostólico e romano. (Reflecti. Os cravos de papel creio que são Mais propriamente, aqui, Do dia de S. João... Mas não vou escangalhar o que escrevi. Que tem um poeta com a precisão?) Adiante ... Ia eu dizendo, Santo António, Que tu és o meu santo sem o ser. Por isso o és a valer, Que é essa a santidade boa, A que fugiu deveras ao demónio. És o santo das raparigas, És o santo de Lisboa, És o santo do povo. Tens uma auréola de cantigas, E então Quanto ao teu coração — Está sempre aberto lá o vinho novo. Dizem que foste um pregador insigne, Um austero, mas de alma ardente e ansiosa, Etcetera... Mas qual de nós vai tomar isso à letra? Que de hoje em diante quem o diz se digne Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa. Qual santo! Olham a árvore a olho nu E não a vêem, de olhar só os ramos. Chama-se a isto ser doutor Ou investigador. Qual Santo António! Tu és tu. Tu és tu como nós te figuramos. Valem mais que os sermões que deveras pregaste As bilhas que talvez não concertaste. Mais que a tua longínqua santidade Que até já o Diabo perdoou, Mais que o que houvesse, se houve, de verdade No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou, Vale este sol das gerações antigas Que acorda em nós ainda as semelhanças Com quando a vida era só vida e instinto, As cantigas, Os rapazes e as raparigas, As danças E o vinho tinto. Nós somos todos quem nos faz a história. Nós somos todos quem nos quer o povo. O verdadeiro título de glória, Que nada em nossa vida dá ou traz É haver sido tais quando aqui andámos, Bons, justos, naturais em singeleza, Que os descendentes dos que nós amámos Nos promovem a outros, como faz Com a imaginação que há na certeza, O amante a quem ama, E o faz um velho amante sempre novo. Assim o povo fez contigo Nunca foi teu devoto: é teu amigo, Ó eterno rapaz. (Qual santo nem santeza! Deita-te noutra cama!) Santos, bem santos, nunca têm beleza. Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ... Tira lá essa capa! Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico Em fantasia, promoveu-te a manjerico. És o que és para nós. O que tu foste Em tua vida real, por mal ou bem, Que coisas, ou não coisas se te devem Com isso a estéril multidão arraste Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem, Essa prolixa nulidade, a que se chama história, Que foste tu, ou foi alguém, Só Deus o sabe, e mais ninguém. És pois quem nós queremos, és tal qual O teu retrato, como está aqui, Neste bilhete postal. E parece-me até que já te vi. És este, e este és tu, e o povo é teu — O povo que não sabe onde é o céu, E nesta hora em que vai alta a lua Num plácido e legítimo recorte, Atira risos naturais à morte, E cheio de um prazer que mal é seu, Em canteiros que andam enche a rua. Sê sempre assim, nosso pagão encanto, Sê sempre assim! Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim, Esquece a doutrina e os sermões. De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto. Foste Fernando de Bulhões, Foste Frei António — Isso sim. Porque demónio É que foram pregar contigo em santo? Fernando Pessoa: Santo António, São João, São Pedro. Fernando Pessoa. (Organização de Alfredo Margarido.) Lisboa: A Regra do Jogo, 1986. - . Bebezinho do Nininho-ninho Oh! Venho só quevê pâ dizê ó Bebezinho que gotei da catinha dela. Oh! E também tive munta pena de não tá ó pé do Bebé pâ le dá jinhos. Oh! O Nininho é pequinininho! Hoje o Nininho não vai a Belém porque, como não sabia se havia carros, combinei tá aqui às seis o’as. Amanhã, a não sê qu’o Nininho não possa é que sai daqui pelas cinco e meia (isto é a meia das cinco e meia). Amanhã o Bebé espera pelo Nininho, sim? Em Belém, sim? Sim? Jinhos, jinhos e mais jinhos Fernando 31/5/1920 31-5-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 24. Todas as sensações são boas, logo que se não tente reduzi-las à acção. Um acto é uma sensação que se deita fora. Age para dentro, colhendo só com as mãos do espírito as flores na margem da vida. Combater a escravidão mental representada pela associação de ideias. Aprender a não associar ideias, a quebrar em pedaços a alma. Saber simultanizar as sensações, dispersar o espírito por si-próprio, espalhado e disperso. Nós temos pela vida social e política uma grande indiferença dinâmica. Por muito que nos interessem essas coisas, interessam-nos apenas para sobre elas construirmos teorias passageiras, hipóteses inexpressas. 1915? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 148. GLOSAS Toda a obra é vã, e vã a obra toda. O vento vão, que as folhas vãs enroda, Figura o nosso esforço e o nosso estado. O dado e o feito, ambos os dá o Fado. Sereno, acima de ti mesmo, fita A possibilidade erma e infinita De onde o real emerge inutilmente, E cala, e só para pensares sente. Nem o bem nem o mal define o mundo. Alheio ao bem e ao mal, do céu profundo Suposto, o Fado que chamamos Deus Rege nem bem nem mal a terra e os céus. Rimos, choramos através da vida. Uma coisa é uma cara contraída E a outra uma água com um leve sal. E o Fado fada alheio ao bem e ao mal. Doze signos do céu o Sol percorre, E, renovando o curso, nasce e morre Nos horizontes do que contemplamos. Tudo em nós é o ponto de onde estamos. Ficções da nossa mesma consciência, Jazemos o instinto e a ciência. E o sol parado nunca percorreu Os doze signos que não há no céu. 14-8-1925 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 63. SONNET God made my shivering nerves His human lyre, A lyre whose curves in angels' faces end. When God doth sing the song's invisible fire And half‑visible wings over it bend. Fountain of incorruptible desire! Gold‑misted green isle where my bark doth tend! My soul, rich with electedness, doth tire My sense of me with aches with God to blend. But lo! to live is to be blent with God Already. We need nought but life, all life. Pain, evil, hate, lust, treachery, the rod Of custom, the bypath of dreams, the knife Grief hideth till it cut her, the delight Of death - all these are God's willed spite. 6-2-1913 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 424. Publ. in «Oito Poemas Ingleses Inéditos». Georg Rudolf Lind. in Estudos sobre Fernando Pessoa . Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981. PROBLEMA DO MAL A ideia de que esta vida é injusta assenta na de que esta vida é toda a vida, e disto não há prova. Não há dúvida que existe o mal; o de que pode haver dúvida é de que o mal vença, ou de que o mal representa justiça. Qualquer mal que haja, ainda que dê em bem, é mal em si mesmo; não é porém, necessariamente injustiça. Pode ser o resultado de uma causa anterior, a nós incógnita; pode ser a provação para a conquista de um bem futuro, que desconhecemos. 1920? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 233. Vai alta sobre a montanha Vai alta sobre a montanha Uma nuvem sem razão. Meu coração acompanha O não teres coração. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 104. A Senhora da Agonia A Senhora da Agonia Tem um nicho na Igreja. Mas a dor que me agonia Não tem ninguém quem a veja. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 76. O verdadeiro perigo do romantismo é que os princípios, por que se rege ou diz reger, são de natureza a que os possa invocar qualquer, para conferir a si-próprio a categoria de artista. Tomar a ânsia de uma felicidade inatingível, a angústia dos sonhos irrealizados, a inapetência ante a acção e a vida, como critério definidor do génio ou do talento, imediatamente facilita a todo o indivíduo que sente aquela ânsia, sofre daquela angústia, e é presa daquela inapetência, o convencimento de que é uma individualidade interessante, que o Destino, fadando-a para aquelas ânsias, aqueles sofrimentos, e aquelas impossibilidades, implicitamente fadou para a grandeza intelectual. Na teoria clássica não era assim. O discípulo dos antigos apoiava a sua crenÁa em que era poeta em faculdades de construção e de coordenação, em uma disciplina interior que não é tão fácil a qualquer presumir, para si mesmo, que possui. Não é tão fácil, em relação às pretensões que são a base do romantismo, do sentimento romântico. Há basta gente que pode crer-se, falsamente, dotada de qualidades construtivas em arte; mas toda a gente, e não alguma, pode julgar-se artista, quando as qualidades fundamentais exigidas são um sentimento de vácuo nos desejos, um sofrimento sem causa, e uma falta de vontade para trabalhar- — característicos que mais ou menos todos possuem, e que nos degenerados e nos doentes do espírito assumem um relevo especial. Não é no estímulo que dá ao individualismo que o perigo romântico consiste; consiste, sim, no estímulo que dá a um falso individualismo. O individualismo não é necessariamente falso; quando muito, é uma teoria moral e política. Mas há uma certa forma do individualismo — como há uma certa forma do classicismo — que é com certeza falsa. É a que permite que o primeiro histérico ou o mais reles dos neurasténicos se arrogue o direito de ser poeta pelas razões que, de per si, só lhe dão o direito de se considerar histérico ou neurasténico. Quando um poeta romântico canta, lamentando-se, a eterna imperdurabilidade das coisas, faz uso legítimo de um sentimento bem humano. Quando, do fundo da sua dor, sofrendo pelo contacto com a humanidade, apela para a grande Natureza e para o seu constelado repouso, faz uso legítimo de uma emoção que, sendo velha como a humanidade, nem sempre serviu de tema poético. A ruína de uma vida simples, ou de uma vida reles, é tão trágica como a ruína de uma vida grande, ou de uma vida nobre; mas isso é vistas de fora, não de dentro. A ruína de uma alma reles não pode ser grande para a alma reles, porque ela é uma alma reles. 1917? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 147. Aquela senhora velha Aquela senhora velha Que fala com tão bom modo Parece ser uma abelha Que nos diz: «Não incomodo.» s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 48. O SEGREDO DE ROMA Quando César chegou tarde ao fim do campo de (…) ergueram rápidos perante ele a cabeça de Pompeu. César abriu em lágrimas, e os que estavam pasmaram. O que erguera a cabeça, baixou-a um pouco; estava atónito, e além d'isso ela pesava, porque ele a erguera a braço largo. — Assim, que vale uma vitória? perguntou César. — É certo, respondeu o que o seguia, pois não sabia que dizer. E César continuou. «Foi meu amigo, meu companheiro, era romano e soldado...» E depois disse, «Cheguei tarde...» O companheiro esboçou um gesto sem nada, e César voltou as costas curvas de dor. «Cheguei tarde» repetiu. «Queria tê-lo eu matado com minhas mãos.» Moralidade: Cuidado com as lágrimas, quando são estadistas os que as choram. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 266. «Fábulas para as Nações Jovens». Lisboa, 4 de Junho de 1920 Meu Bebé Nininha: O que é que te sucedeu aos nervos entre o princípio e o fim da tua cartinha? Começaste bem, e alegre; e acabaste triste. Foi pensares na «escrava» perdida? Foi pensares no tal sonho, a meu respeito, com que pareces ter-te preocupado tanto? Não te mostres tão preocupada, Bebezinho, que o Nininho não gosta disso. Amanhã, de Belém para Lisboa, contarás tudo ao Ibis, sim? E promete desde já (a ti mesma, que eu, infelizmente, não estarei presente quando receberes esta carta) ficares mais bem disposta. Pode ser que na loja, onde foste, encontrassem a «escrava». Pergunta lá hoje, ou amanhã, se vieres à Baixa. O Nininho faz-te nervoso? [ ... ] o nervoso, de que, apesar de tudo, o Nininho não é culpado? É nervoso de gostar , é de sentir amor pelo Nininho? Quem me dera que fosse! Muitos beijos, muitos do teu, muito teu Ibis 4-6-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 25. AMIEL Não, nem no sonho a perfeição sonhada Existe, pois que é sonho. Ó Natureza, Tão monotonamente renovada, Que cura dás a esta tristeza? O esquecimento temporário, a estrada Por engano tomada, O meditar na ponte e na incerteza... Inúteis dias que consumo lentos No esforço de pensar na acção, Sozinho com meus frios pensamentos Nem com uma esperança mão em mão. É talvez nobre ao coração Este vazio ser que anseia o mundo, Este prolixo ser que anseia em vão, Exânime é profundo. Tanta grandeza que em si mesma é morta! Tanta nobreza inútil de ânsia e dor! Nem se ergue a mão para a fechada porta, Nem o submisso olhar para o amor! 20-8-1925 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 65. INVERSION Here in this wilderness Each tree and stone fills me With the sadness of a great glee. God in His altogetherness Is whole‑part of each stone and tree. An inner outward seeingness Makes my clear self unknown. (O Godfully alone!) God in His overbeingness Survives His death each tree and every stone Ay, in the barkness and clodfulness Of tree and sand and stone God is only His Own, God in all His godfulness, Whose concrete soul's each thing's abstraction. s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 424. Not the same to say that nothing is entirely good or nothing entirely bad, unless in a relative way. Because absolute ill is not an absolute in the sense of absolute good. Absolute good is perfection. Absolute ill is nothing. All things are fallen from perfection. They are not fallen from imperfection. All things participate in imperfection and are comprehended as imperfect by the idea of perfection. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 234. Dizem que as flores são todas Dizem que as flores são todas Palavras que a terra diz. Não me falas: incomodas. Falas: sou menos feliz. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 104. O movimento literário, a que ordinariamente se chama romantismo, contrapôs-se de três maneiras ao classicismo que o precedera. A estreiteza e secura dos processos clássicos substituiu o uso da imaginação, liberta, quanto possível, de outras leis, que não as suas próprias. À mesquinhez especulativa da arte clássica, onde a inteligência aparece apenas como elemento formativo, e nunca como elemento substancial, substituiu a literatura feita com ideias. À clássica subordinação da emoção à inteligência, substituiu, invertendo-a, a subordinação da inteligência à emoção, e do geral ao particular. Os dois primeiros processos representaram uma inovação, e uma vigoração da arte; o terceiro é puramente mórbido. Segundo aquele movimento cíclico, que parece ser o de toda a civilização, o romantismo, nos seus dois processos verdadeiramente inovadores, não fez mais que reeditar o helenismo, contra a fórmula clássica, mais latina que grega. Nestes dois pontos, de resto, ele é o continuador daquilo que a Renascença trouxe de novo — mas também de helénico — à literatura da Europa. No que teve de próprio, a substituição da ordem da inteligência e da emoção, o romantismo foi um simples fenómeno de decadência; e foi porque a Renascença não mostrou este terceiro característico que ela pôde atingir um nível poético mais alto, pois que no romantismo não há Dante nem Milton, tal a falência construtiva de que o novo sistema vinha inquinado. No seu desenvolvimento, o romantismo, que nasceu mórbido, esfacelou-se. Desintegrou-se nos seus três elementos componentes, e cada um destes passou a ter uma vida própria, a formar uma corrente separada das outras. Da substituição da imaginação ao escrúpulo imitativo nasceu toda a literatura da Natureza que distinguiu o século passado. Da introdução da especulação na substância da arte nasceu toda a literatura realista. Da inversão das posições mentais da inteligência e da emoção nasceu todo o movimento decadente, simbolista, e os seguintes. É claro que estes elementos, embora criassem correntes que podem dizer-se separadas, não estão separados; e a maioria dos cultores das literaturas nascidas dos dois primeiros estão viciados pelo preconceito personalista que é a base mórbida do terceiro. O século vinte encontrou diante de si, herdado do século que o precedeu, um problema fundamental — o da conciliação da Ordem, que é intelectual e impessoal, com as aquisições emotivas e imaginativas dos tempos recentes. É impossível resolver este problema, como querem os integralistas franceses, pela supressão de um dos seus termos. É igualmente impossível resolvê-lo aceitando a predominância da emoção sobre a razão, porque, aceite esta predominância, desaparece a ordem, e o problema está por resolver. Evidentemente que há só uma solução: o levar a personalidade do artista ao abstracto, para que contenha em si mesma a disciplina e a ordem. Assim a ordem será subjectiva e não objectiva. Tornar a imaginação abstracta, tornar a emoção abstracta, é o caminho. Dramatização da emoção. Os homens da Renascença já a tinham; a sua poesia da emoção é impessoal e humanamente universal. Ensoção do abstracto. A literatura de fantasia, que irrompeu com os transcendentalistas alemães e seguidamente nos 2 grandes poemas de Coleridge. Este elemento é de origem medieval. Por dramatização da emoção entendo o despir a emoção de tudo quanto é acidental e pessoal, tornando-a abstracta — humana. 1918? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 148. O Soares e o Pereira, empregados do mesmo escritório, eram inimigos de alma. Não havia questão de serviço, ainda que nela rigorosamente não pudesse surgir conflito entre os dois, em que não surgisse conflito entre os dois. E, embora nunca seguissem por aquelas vias chamadas de facto, fervia em pouco tempo a descompostura mútua. De besta para cima e para baixo, todos os arredores de malandro, com passagem por gatuno e grande escala por tudo, verem-se era discordarem, olharem-se era a primeira palavra de se descomporem. Um dia o Soares, que era o mais inteligente e por isso o mais estúpido dos dois, referindo, fora do escritório, a qualquer amigo as cenas habituais com o Pereira, recebeu d'esse a pergunta, «Mas porque diabo é que tu não o esmagas com uma coisa pior que todas as piadas?» «Que coisa?» perguntou o Soares; «porrada?» «Não, não digo isso... Melhor que isso: o silêncio... Ele tem mais piada que tu; pois bem, arranja mais desprezo do que ele. Ele insulta, e tu olhas para ele e não dizes nada. Ele insulta mais e tu na mesma. Ele espuma e esbraveja, e tu idem e igualmente zero. Verás que não há piada que ele possa dizer que valha o que tu não dizes. O que tu não dizes pode ser tudo; o que ele diz não pode ser senão o que ele diz, e, se calhar, muitas vezes nem isso é.» O Pereira pensou e achou razão, pelo menos provisória, ao conselho. E, ao contrário do que a prudência manda, seguiu-o. Mas, como é costume suceder quando se não segue a prudência, fez bem. Foi logo no dia seguinte, porque era todos os dias, e o dia seguinte não era feriado. Surgiu um incidente que o Pereira fez o Soares ter feito surgir. E, sob os ouvidos fitantes do outro pessoal, o Pereira começou. Os substantivos do costume uniram-se aos adjectivos do da vizinhança e o carácter, habilitações, possibilidades penais, e outros atributos de um Soares de retórica, fulguraram no discurso. A certa altura, como o Soares não dissesse nada, mas somente olhasse para o orador com uma atenção despreocupada e triste, o Pereira começou a afrouxar. Seguiu a cena, de parte a parte, e o Pereira, afrouxando cada vez mais, foi-se tornando lívido. Ao fim de cinco minutos estava quase mudo e com a voz e a expressão do olhar em vésperas de lágrimas. Então engoliu um pouco; e, dirigindo-se ao Soares numa voz trémula disse: «Ó Soares, você está zangado comigo?» Si vis bellum, para pacem. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 267. «Fábulas para as Nações Jovens». SÃO JOÃO Ó Precursor, fizeste-la bonita! Não que teu Cristo, incarnação do Bem — Não seja quem seja o teu Divino Anunciado. O mal são os que após, sem mística divina Nem ternura cristã, ou só humana, Meteram a Jesus na cela da doutrina Com as algemas do ódio manietado Para depois manchar de falsa fé O pobre homem que todo homem é A cruel multidão negramente infinita Que tem sido o algoz ou o ladrão Da ingénua humanidade aflita — Esses que, aqui mesmo, pelos modos, Dão ao inferno realização... Ah, não podiam ser piores, nem Que a mulher do Diabo, se ele a tem, Os tivesse parido a todos. Eu bem sei que houve muito santo e crente, Muito puro, bondoso e inocente. Bem sei, bem sei: Sei-o eu e sabe-o toda a gente. Mas esses, cuja alma está em Cristo São só isto — Qualquer remédio que se dissolvesse No chá que para isso há, E cujo gosto nele se perdesse; O chá fica sabendo só a chá. Se o remédio faz bem, Não o sabe ninguém. Que o chá não presta, não duvida alguém. Sabemos isso, e sabê-lo-ia antes De todos nós teu Mestre que viria, Profeta, Deus e guia dos errantes, Quão dolorosamente o saberia? Sei que houve astros no céu da fé vazia. Sei, mas repara que falso isso soa! Por mais astros que a noite use brilhantes, Que Diabo!, a noite não se chama dia. Ó Precursor! Fizeste-a boa! Daí, para nós, és de Lisboa, Não és o precursor de nada. És um rapaz ainda menino Que tem por missão boa, Por missão sorridente e sossegada Ter ao colo um cordeiro pequenino. Lá o que esse cordeiro significa Não tem cheiro Para o povo, que tem a alma rica Da emoção que não conhece. Para ele o cordeiro é um cordeiro, E o menino sorri e a vida esquece. O resto são fogueiras E os saltos dados a gritar Com um medo exagerado Feito tudo de maneira A mostrar O riso, as pernas e o agrado. É quente e anónima a aragem, Tudo é juventude e viço Num arraial multicolor e vasto. Bonito serviço Como homenagem A quem, ainda com cabeça, foi um casto! Mas é assim que és E é assim que serás, Até que pisem esta terra os pés Do último fado que o Destino traz. Então, esperamos, eu e todos, Ver-te «surgir no céu», como quem vence Tudo que é realidade ou ilusão Por o menino ser que lhe pertence, E os seus bons e santos modos «Com o cordeirinho na mão», Como te viu Catullo Cearense. Mas, desçamos à terra, Que, por enquanto, o céu aterra, Porque antes disso mete a morte. Há muita coisa desconhecida Na tua vida. Tens muita sorte Em ninguém saber da partida Que em mil setecentos e dezassete Tu fizeste à Igreja constituída Estás, eu bem sei, cansado Com o que a Igreja se intromete Com tua vida e o teu divino fado. (E) foi então que, para te vingar E à maneira de santo, os arreliar Desceste mansamente à terra Perfeitamente disfarçado E fizeste entre os homens da razão Um milagre assinado, Mas cuja assinatura se erra Quando em teu dia, S. João do Verão, Fundaste a Grande Loja de Inglaterra. Isto agora é que é bom, Se bem que vagamente rocambólico Eu a julgar-te até católico, E tu sais-me maçon. Bem, aí é que há espaço para tudo, Para o bem temporal do mundo vário. Que o teu sorriso doure quanto estudo E o teu Cordeiro Me faça sempre justo e verdadeiro, Pronto a fazer falar o coração Alto e bom som Contra todas as fórmulas do mal, Contra tudo que torna o homem precário. Se és maçon, Sou mais do que maçon — eu sou templário. Esqueço-te santo Deslembro o teu indefinido encanto. Meu Irmão, dou-te o abraço fraternal. Fernando Pessoa: Santo António, São João, São Pedro. Fernando Pessoa. (Organização de Alfredo Margarido.) Lisboa: A Regra do Jogo, 1986. - . O seu destrambelhamento sexual dava-lhe não só uma acuidade estranha para analisar até chegar às bases sexuais dos actos, aparentemente deles remotas, dos indivíduos - o que era horrorosamente desidealizante -, mas dava-lhe também a tendência para orientar sempre para um ponto sexual a sua análise dos indivíduos. A sua sexualidade enchia todo o cérebro - cobria tudo com a sua intenção. Misturava-se estranhamente com a sua ânsia de verdade e de certeza e, n'este ponto, poucas eram as dúvidas que ele tinha sobre se esses elementos sexuais, que ele tendia a achar basilares em quase todas as acções, o seriam ou não. Como se conhecia com ideais, com altos e puros e nobres ideais, e como ao mesmo tempo se conhecia torpe e porco e cheio de corrupções e horrores da carne, - tendo perdido o pudor de se idealizar, perdera o de idealizar os outros e lia ocultos desejos, monstruosas ânsias de perversão nas coisas que de aparência ele mais desejaria crer de almas inocentes e puras. As suas observações tomavam um ar de certeza. Olhava para uma mulher de aspecto honrado, absolutamente - visivelmente - honrada e exclamava dentro de si - e pensar que é tão sujo o que vai n'aquela alma! - como se o soubesse realmente e se espantasse, depois de o saber de ciência segura, que a aparência pura traísse tanto o ignóbil fundo. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 25d. «Marcos Alves» Meu Bebezinho querido: Então o meu Bebé não ficou ontem descontente com o Ibis? Então ontem achou o Ibis meigo e digno de jinhos? Ainda bem, porque o Ibis não gosta que a Nininha fique zangada, ou triste com ele, porque o Ibis, e mesmo o Álvaro de Campos, gosta muito, muito do seu Bebezinho. Olha, Nininha: hoje estou muito aborrecido; não é bem o que se chama mal disposto, mas apenas o que se chama aborrecido . Hoje sentir-me-ia muito melhor se pudesse contar com ir logo a ver a Nininha, e vir para baixo de Belém com ela, e sem o Álvaro de Campos; que ela, naturalmente, não gostaria que esse distinto engenheiro aparecesse. Nininha do Ibis, eu estou muito aborrecido; principalmente, porque as coisas da minha vida, o que tenho preparado e estudado para uma, e mesmo mais que uma, empresa, se me está atrasando tudo. Não digo que esteja correndo mal; está simplesmente atrasado, não corre nem de um modo nem de outro, nem mal nem bem. Depois, entre os rapazes com quem me dou, e a quem esta empresa, ou estas empresas, interessariam tanto como a mim interessam, não encontro apoio nenhum; quero dizer, não encontro vontade nenhuma de conjugarem os seus esforços com os meus para a realização dessas ideias. Querem, em geral, que eu faça tudo — que eu, além de ter as ideias e indicar a maneira de organizar, me ocupe também de arranjar os capitais, e de fazer quanto mais é preciso para pôr a empresa em marcha. Eles depois só apareceriam para ter lugares na empresa, o que é realmente cómodo, mas não representa grande camaradagem. Ora, realmente, nestas coisas, cada um deve ter o seu papel marcado. Eu, com a organização da ideia, e com os estudos para a montagem da empresa, cumpri o meu papel, e não fiz pouco, pois fiz o principal, que é arranjar as bases para o trabalho. Querem que eu faça todo o resto também, é como querer que o mesmo indivíduo, num escritório, seja chefe do escritório, guarda-livros, dactilógrafo, e praticante para levar as cartas. Não sei se estas coisas, te interessam, filhinha. Se tas digo, é para, de certo modo, dizendo-as, aliviar um pouco o meu mal-estar. Naturalmente maço-te com isto tudo; mas, afinal, são coisas que sempre têm alguma coisa que ver com o teu futuro, porque têm que ver com o meu. Não quero com isto dizer que eu esteja em qualquer coisa como o que se chama uma situação aflitiva . Não: quem tem casa e família, não pode estar em uma situação dessas. O mal está em sentir a vida parada, e é mais relativo ao futuro que ao presente, ou, antes, só ao presente por causa do futuro. Eu sei bem que esta situação se resolverá, e sei, tão bem como o tal homem das cartas que me atribuiu um futuro próspero, que na verdade terei um futuro próspero, assim como que esse futuro próspero não começará — não digo em pleno, mas pelo menos em relativa, prosperidade — daqui a muito tempo. Há momentos, dias, porém, em que desanimo mais; e o dia de hoje é um desses dias, e o momento actual um desses momentos. Hoje, na verdade, tinha imensa vontade de falar contigo, não para te maçar com estas coisas, mas para te ver e, estando ao pé de ti, me sentir mais tranquilo. Enfim, amorzinho, fica para amanhã. Lá estarei pelas 5 horas. Muitos e muitos beijos do teu, muito e cada vez mais teu Fernando 11/6/1920 11-6-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 26. SUMMERLAND One day, Time having ceased, Our lives shall meet again, From Place and Name released. Only that shall remain Of each of us that may Seem natural to that Day. There we will newly love, Wondering at the old mood With which love did us move, When pain and solitude Were what each soul had got For its contingent lot. There, heaven being between us And touch a real thing, The texture luminous Of our true lives will bring God into our love like breath. Nowhere will there be death. The need to suffer and sigh, The inevitable cares, The awaiting and the cry That goes from joy to tears - These have no need to be In love's eternity. The hours shall make our love Grow younger, not more old. Some trick of time shall move Wont even to truer gold, Regret shall not be aught Possible there to thought. That region light‑suspended Under truer blue skies Shall let our souls feel blended, Yet be true unities. Nought shall have power to fret Our hearts to tire of it. A golden land where God Stayed a Day of His Time, Not as the world, where not A moment did he abide, And where His passing left The sense of aught bereft. My heart, that thinks of this, Pines, for it is nowhere, And she that meets my bliss With her new old love there - She is unreal as all That to this verse I call. Yet who knows? Perhaps this Is not wishing, but seeing. Perhaps this love, this bliss, This conscious glad not‑being Is some reality Through fancy seen by me. Perhaps it casts a spell From where it can be found. What is impossible? Where is God's bourne and bound? Why, if I dream this, may Not this be mine one day? Who knows what our dreams are? Who knows all that God makes? Perhaps life doth but mar The immediate truth that takes Its beauty from being dreamed. Nothing eter merely seemed. Somewhere where God is nearer These things are een now true. Oh, let me be no fearer That this may not be so! All is more strange than that Small glimpse of it we get. Mine eyes are wild with joy Because I have these thoughts. They cannot tire nor cloy Because God ever allots To each high thing the power To weigh not on its hour. My flower garden is Full of new flowers now. My lips are kissed by bliss Because I know not how. My heart fails and I swim Within a luminous rim. A halo of hope comes round My soul. I am that child That cries: Lo! I have found This flower strange and wild. The unknown flower I have Grew on my dead dreams' grave. A trembling sense of being More than my sense can hold, A bird of feeling seeing The great, earth‑hidden gold Of the approaching dawn, A breath, a light, a swoon, A presence interwoven With rays of other light, A spell, a power untroven Of my more clear delight, I faint, I fade, I seem Myself to be my dream. And if this be not so, Oh, God, make it now be! Let me not find more woe Because I so dreamed Thee! Let aught for which I pine Merit being divine. Let this resemble heaven And be my home for e'er, Even if for e'er mean living But this hour really fair. An hour in God shall be Enough eternity. s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 426. Good and the influence of it on the will. Suppose a man to act wrongly. Now this man either has a moral sense or has not. If he have not he acts wrongly only to other men, and in ignorance. Here, peccatum ab errore . If he have, how is it that he commits a wrong deed? If he does — nay, rather, since he does, and since he has a moral sense, either that moral sense does not act, or, if it act, it is susceptible of being overruled. The first hypothesis is false: a power that does not act is nothing at all, consists but in the supposition, in words void of sense. As to the second hypothesis, it appears, since the first hypothesis is false, that either the moral sense varies in intensity from man to man, that, therefore, the moral sense is susceptible of degrees (material), or that it is present in some men and absent in others. 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 234. Duas vezes jurei ser Duas vezes jurei ser O que julgo que sou, Só para desconhecer Que não sei para onde vou. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 104. Aparta o cabelo ao meio Aparta o cabelo ao meio A do cabelo apartado. É a estrelinha em que leio Que estou a ser enganado. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 76. All art is the result of a collaboration between feeling and thought; not only in the sense that reason works, in building the work of art, upon elements which feeIing-supplies, but also, and it is this that now concerns us, in the sense that the very feeling upon which reason thus works, and which is the matter on which reason puts form, is a special kind of feeling — a feeling within which thought collaborates. Now thought may collaborate with feeling in three ways. It may be the basis of that feeling; it may interpret that feeling; and it may mix directly with that feeling, so as to intensify it by complexity. The first manner of feeling is that of classical art, the second that of the romanticists, the third that which is peculiar to those artists, who hase been described as decadent. The true classical artist — leaving, as it does not concern us, the discipline and constructive reason he employs, for this is a formal and not a material element — thinks his poem first, and then feels on the basis of that thought. We can find quite near to our times some excellent examples of this: as Alfred de Vigny’s “Moïse”, which is patently an idea worked out through emotion; as Arnold’s “Scholar Gipsy”, as Francis Thompson’s “The Hound of Heaven” (so little classical in anything else except its basis); as Wordsworth’s great Ode. It is not necessary to add that all great art is classical, even lyrically; for no art is great if it do not touch our mind at all points, both in feeling and in reason. This no poem does as the classical poem, thus composed. While, in its development, it wakes our feeling, it wakes it only that such feeling may give life to the immanent idea which, when the poem is fully read, completely emerges. No great lyrical poem was ever composed except on this reasoned or instinctive scheme. The real decadent art is that of the romantics. Here the point of departure is feeling; intellect is used to interpret that feeling. Romanticism is nothing else. Hence the intolerable waste stretches of Hugo, where one trite or feeble feeling is drawn out by a subsidiary application of intellect, till the reader is tired; for the underlying sentiment cannot, being trite and vulgar, bear so lengthy a development, and the subsidiary thought (besides its lie to human nature, for intelect, though later in evolution, is primary in all the higher life) can do no more than turn round and round the central emptiness of real inspiration. Take, for an instance, Hugo’s “Ce que dit la bouche d’ombre”: this poem should be about one fifth of its real length, for the central feeling does not admit the rational development, and, as the feeling cannot admit it and yet the rational development is nevertheless made, the result is that most of that rational element is out of touch... The system of mixing thought and feeling, though peculiar to decadents, is only really decadent when intellect is used to interpret the interpenetrated feeling; when it is used (as at first seems most decadent) to stimulate that feeling, it is used exactly as in the classicists... 1914? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 151. O SARAIVA Havia em tempos, no Porto, um rapaz estudante, vindo das províncias do Norte, chamado Saraiva. Este rapaz tornara-se notável entre os companheiros pela certeza da própria perspicácia e a sua igual certeza de seus talentos de declamador. A cada frase, por simples que fosse, que lhe parecesse envolver uma mentira, tomava a mentira como dirigida inutilmente contra a rocha da sua esperteza; e, levando o indicador direito à pálpebra do olho direito, descia-a, no gesto dos alacres, e dizia ao interlocutor, em aviso e ameaça alegre, «Eu sou o Saraiva!» E o outro ficava sabendo que o não conseguira enganar. O indicador erguia-se livre. Esta ciência certa, considerada pelos outros rapazes como ridícula em si-mesma, levou-os a combinar, servindo-se da preocupação que o Saraiva tinha de declamador, uma cena cómica, destinada a, de vez, pôr o Saraiva em salmoura social. Sabendo o horror do ridículo, que estava latente naquela constante preocupação de que não era enganado, combinaram com várias raparigas das suas relações, de boas famílias e condição decentíssima, uma sessão em casa dos pais de umas d'elas, para a qual convidariam o Saraiva para declamar. E estava combinado que, apresentado o Saraiva e convidado a mostrar seus dotes de declamador, eles fossem, por fim, reconhecidos com uma gargalhada geral. D'esta, fixaram bem, o Saraiva se não escaparia, e ficariam pagos de tanta irritação de certeza. Expuseram ao Saraiva que havia várias senhoras que gostariam de o ouvir declamar, pois lhes constara o que valia na matéria, e com ele estabeleceram que o apresentariam em casa d'essas senhoras, podendo ele aparecer, em tal noite e a tais horas. Grato, o Saraiva acedeu e a combinação ficou feita. Sucede, porém, que, chegado a casa, começou a meditar no convite, e, desde logo, a desconfiar d'ele. «Ali há coisa», pensou o Saraiva. E, sozinho, diante do espelho, levou o indicador direito ao olho direito, no gesto baixante da esperteza, «Mas eu sou o Saraiva!» apontou para si mesmo. E meditou, «Que diabo será a partida?». Não tardou que descobrisse. Tratava-se de encher uma casa qualquer de uma quantidade de meretrizes, dispostas com aparência de senhoras e meninas, e de o convidar (a ele Saraiva!) para ir fazer diante d'elas o papel de recitador. Conclusão lógica, conclusão natural. E o Saraiva tomou mentalmente as suas precauções. Chegou a noite, e chegou o Saraiva. E, junto com os vários camaradas, foram dar à casa onde estavam reunidas as senhoras todas que os esperavam. Para entrada e deslumbramento, os apresentantes, aberta subitamente a porta da sala, que se revelou cheia de senhoras, apresentaram, «Minhas senhoras, o sr. Saraiva!», com o ar de quem apresenta um dos homens célebres do mundo. Então o Saraiva, alacre, deu um pulo para o meio da sala, e braços abertos, gritante e alegre, bradou para as senhoras todas, «Eh, putedo!» E depois, voltando-se a rir para os apresentantes lívidos, inclinou a cabeça e levou à eterna pálpebra direita o eterno indicador direito, «Vocês esqueceram-se que eu sou o Saraiva»... Moralidade 1. Não ser Saraiva. 2. Na dúvida ser Saraiva, porque aqui o Saraiva foi o parvo e os outros é que ficaram atrapalhados. Quando uma nação crê firmemente em si mesma, humilha os outros ainda quando se engana e é ridícula. Na dúvida, mais vale ser Saraiva. Porque é preciso não esquecer o resultado prático de tudo isto. As raparigas ficaram insultadas, os rapazes ficaram envergonhados: quem ficou vencedor foi o Saraiva. 1932? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 268. «Fábulas para as Nações Jovens». SÃO PEDRO Tu, que Diabo?, és velho. És o único dos três que traz velhice Às festas. Tuas barbas brancas Têm contudo um ar terno A que o teu duro olhar não dá razão. Parece que com essas barbas brancas Por um fenómeno de imitação Pretendes ter um ar de Padre Eterno. Carcereiro do céu, isso é o que és. Basta ver o tamanho dessas chaves — As que Roma cruzou no seu brasão. Segundo aquele passo do Evangelho Do «Tu és Pedro» etcetera (tu sabes), Que é, afinal uma fraude Meu velho, uma interpolação. Carcereiro do céu, que chaves essas! Nem dão vontade de ser bom na terra, Se, segundo evangélicas promessas Vamos parar, ao fim, a um céu claustral. Isso — fecharem-me — não quero eu, Nem com Deus e o que é seu Que o estar fechado faz-me mal Até na beatitude do teu céu, Entre os santos do paraíso, (A liberdade — Deus dá a Deus — Um Deus que não sei se é o teu), O estar fechado, aqui ou ali, dizia eu Faz-me terríveis cócegas no juízo. Enfim, que direi eu de ti, amigo, Que não seja uma coisa morta, Anti-popular, gongórica, Por fruste deselegante, Como de quem, sem saber nada, exausto, Começo por duvidar bastante, Desculpa-me chaveiro antigo, De que tivesses existência histórica. Mas isso, é claro, não importa Se nos trazes A alegria da singeleza Ou a bondade que não sabe ter tristeza. O pior é que nada disso fazes. O teu semblante é duro e cru E as barbas que roubaste ao Deus que tens Só arrancam aos dandies teus loquazes Ditos de dandies cínicos desdéns. Que diabo, és uma série de ninguéns. O Santo são as chaves, e não tu. Para uns és S. Pedro, o grão porteiro, Para outros as barbas já citadas, Para uns o tal fatídico chaveiro Que fecha à chave as almas sublimadas. Para uns tu fundaste a Roma do Papado (Andavas bêbado ou enganado Ou esqueceste O teu posto quando o fizeste) E para outros enfim, como é o povo E segundo as ideias que ele faz, És quem lhe não vem dar nada de novo — Umas barbas com S. Pedro lá por traz. É difícil tratar-te em verso ou prosa, Tudo em ti, salvo as barbas, é incerto, Tudo teu, salvo as chaves, não tem ser E a alma mais humilde é clamorosa De qualquer coisa que se possa ver, Em sonho até, qual se estivesse perto. Olha, eu confesso Que nunca escreveria Este vago poema, em que me apresso Só para me ver livre do teu nada, Se não fosse para dar um cunho A este livro da trilogia (Santo António, S. João, S. Pedro — De popular, que bem que soa!) Mas porque diabo de intuição errada É que vieste parar a Junho E a Lisboa? Isto aqui ainda tem Um sorriso que lhe fica bem, Que até, até No teu dia, (Ó estupor velho Como um chavelho,) Nas ruas O povo anda com alegria, É fé, Não em ti nem nas barbas tuas Mas no que a alegria é. Olha, acabei. Que mais dizer-te, não sei. Espera lá, olha Roma, fingindo que viceja, Lentamente se desfolha. Teu último gesto seja Um gesto volvente e mudo. Se tens poder milagroso, Se essas chaves abrem tudo, Deixa esse céu lastimoso. Deixa de vez esse céu, Desce até à humanidade E abre-lhe, enfim no mudo gesto teu, As portas do Inferno, e da Verdade. Fernando Pessoa: Santo António, São João, São Pedro. Fernando Pessoa. (Organização de Alfredo Margarido.) Lisboa: A Regra do Jogo, 1986. - . Meu querido Bebezinho: Hoje não recebi carta tua, mas — é claro — não me admirei, porque já sabia pela tua carta de ontem (a que me entregaste no carro) que não terias naturalmente tempo de me escrever. Como esta carta te chega às mãos amanhã de manhã, quero mandar ao meu Bebé muitos e muitos parabéns, muitos beijinhos, e desejar que ela seja muito e muito feliz, que muitas vezes o aniversário se repita com o Bebé sempre contente. O engraçado era que no ano que vem eu já te pudesse dar estes parabéns de manhã, antes de me levantar. Percebes, Nininha? Muitos beijos, muitíssimos do teu, muito teu Fernando 13/6/1920 13-6-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 27. THE END God knows. Lie we to sleep Contentedly somehow, Smiling that we did weep, As at an overthrow Of kingdoms the stars, deep In silence, smile nor know. God knows. And an He knew not And were not, what of it? No matter that we do not Our life with living fit. Glad to have sleep and tears, Lullaby to our fears! 28-11-1912 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 432. 1ª publ. in Obra Poética . Fernando Pessoa (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Dores Galhoz). Rio de Janeiro: Ed. José Aquilar, 1960.s DIÁLOGO NA SOMBRA A . — Quisera saber como és feito por dentro ... Como é a tua vontade por dentro, que coisas há naquela parte do teu sentir que tu não medes que sentes. E . — Tão feminina nisso ... E és da matéria das coisas irreais! A . — Quando levantas um braço eu queria saber porque coisas do além, tu levantas esse braço ... O que há por detrás de o tu quereres levantar e de saberes porque o queres levantar? Vim contigo há tanto e não sei quem tu és... Reparo às vezes nos pequenos gestos que fazes e vejo quão pouco sei de ti ... E . — Eu próprio não sei quem eu sou ... Meus gestos são entes estranhos quando reparo neles, e sombras incertas quando não reparo. São uma perpétua revelação a mim próprio. Sou tão exterior a conhecer‑me como o mundo externo ... Entre o meu querer erguer um braço e ele erguer‑se vai um intervalo divino ... Transponho, entre pensar e falar, um abismo sem fundo humano. A . — Eu sou simples como uma pedra no caminho ou uma rosa numa roseira. E . — És simples porque não te espelhas em ti. Uma pedra no caminho é (atónita) um mistério igual a Deus ... Uma rosa numa roseira é tão compreensível como a Vida ... A . — Olho‑te e amo‑te e não te possuo nunca. Floriram em (...) as rosas do meu jardim ... Acompanho‑te e perco‑te sempre que olho para ti. E . — Eu próprio não me acompanho ... como poderás tu acompanhar‑me? Vejo meus pés andar como quem vê passar um cortejo humano nas distâncias e na noite ... Reparo na minha sombra como numa face desconhecida que espreitou de fora à janela da minha moradia ... Não compreendo nada ... Não compreendo nada. A . — Mas há coisas que tu compreendes e que nunca me confessas. Falas‑me dos teus amores e dos teus desejos mas eu sinto que guardas para ti, fechada na mão, uma jóia qualquer do teu sentimento. Porquê se eu te amo e se somos um só? E . — Porque nunca somos um só. Aquilo que eu não te digo, apesar de habitarmos juntos este palácio e juntos pensarmos neste jardim. Segredo‑o a mim quando estou mais só e nem ergo a voz, para que me não ouça não sei quem que me não pode ouvir. A . — Sou a tua Alma e a mim‑próprio não me contas tudo! Passou ontem uma brisa leve pelo jardim. Trouxe perfumes de outros jardins [...] 1914? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 237. Diálogo entre a Alma e o Eu? O pescador do mar alto O pescador do mar alto Vem contente de pescar. Se prometo, sempre falto: Receio não agradar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 104. Esse frio cumprimento Esse frio cumprimento Tem ironia p’ra mim. Porque é o mesmo movimento Com que a gente diz que sim... s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 76. Meu Bebezinho: Duas palavras só, porque não tenho tempo para mais; é só para te explicar a minha ausência. Está em organização uma das empresas de que te falei há dias. Não tenho tido mãos a medir com o trabalho que me está dando. Claro que nem por sombras me tem sido possível aparecer em Belém; e quanto a escrever, mais impossível ainda. Alem disto, ao tratar de todos estes assuntos ando doente, de modo que o cansaço ainda é maior. Só apareço depois de amanhã , melhor 19 em Belém à hora do costume. Desculpa-me, e ao papel em que te estou escrevendo. Muitos beijos, muitos do teu Fernando 17/6/1920 17-6-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 28. The day is glad and golden. Over the sunhit beach The waves do gladly embolden Their crisp and clinging reach. Would I were one as they With the natural hour, With the wide sunlit day And the ancient sea's power. I would not be here weeping That I am not aught else, My waking would be a sleeping Like this of the sea swells Not like an outcast from A home I never knew Would I be pining for home, …… Not like a tossed sea‑weed Between the wave and the wave, And restless with a mute greed For something I cannot have. Something I cannot een dream, Some spent life I know not... Oh how fair would nature seem Were it not for thought! Dark is the golden day Unto mine eyes that stare Brightness and joy away From sky and shore and here. Dead is the changing sea, The wind a monotone, Oh ever to be he That never is but alone, I cannot dream of heaven, Nor create one in the hour... Pass, day, and ask not even For my grateful eyes' dower... 7-8-1914 Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 446. Vejo lágrimas luzir Vejo lágrimas luzir Nos teus olhos de fingida. É como quando à janela Chegas, um pouco escondida. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 76. Meu Bebé pequenino: Ainda talvez podia ir esperar-te lá a cima, mas não me disseste onde , nem me dás a certeza das horas. Não quis telefonar-te por duas razões — a primeira porque é desagradável telefonar assim, mesmo dando um «recado» fingido, para uma casa onde é o teu primeiro dia; depois porque não tenho telefone, de onde fale sem me ouvirem, e não quero falar-te de modo que outros ouçam. Os três telefones, onde às vezes falo, são, um no Café Arcada, e aí falar é falar em público; outro, na Papelaria Vieira, que está nas mesmas condições; o terceiro num escritório onde vou e esse telefone é no meio do quarto principal, onde estão os empregados. Aguardo, pois, combinação melhor e ocasião propícia para te falar e te ir esperar para os lados da Av. Almirante Reis. A empresa continua em organização. Eu estou mal de saúde e de nervos, mas isso não tem importância. Mal tenho tempo para escrever. Amanhã passo na tua rua, vindo da Baixa, e portanto do lado do Conde Barão, entre o meio-dia e meia hora e a uma hora. Adeus, minha Ibis. Além de tudo estou muito cansado. Muitos beijos do teu muito teu Fernando 19/6/1920 19-6-1920 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 29. Trincaste, para o partir, Trincaste, para o partir, O retrós de costurar. Quem não soubesse diria Que o estavas a beijar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 77. Deixaste o dedal na mesa Deixaste o dedal na mesa Só pelo tempo da ausência — Se eu to roubasse dirias Que eu não tinha consciência. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 77. A utilização da sensibilidade pela inteligência faz-se de três maneiras: O processo clássico, que consiste em eliminar da sensação ou emoção tudo o que nela é deveras individual, extraindo e expondo tão-somente o que é universal. O processo romântico, que consiste em dar a sensação individual tão nítida — ou vividamente, que ela seja aceite, não como coisa inteligível, mas como coisa sensível, pelo leitor, visor ou auditor. Um terceiro processo, que consiste em dar a cada emoção ou sensação um prolongamento metafísico ou racional, de sorte que o que nela, tal qual é dada, seja ininteligível ganhe inteligibilidade pelo prolongamento explicativo. Suponhamos que tenho uma aversão íntima pela cor verde, e que quero transformar esta aversão, que é uma sensação, em expressão artística. Pelo processo clássico, procederei da seguinte maneira: (1) Lembrar-me-ei que a aversão pela cor verde é puramente individual, que, portanto, a não posso transmitir a outrem, tal qual é; (2) deduzirei que, assim como tenho aversão pela cor verde, outros terão aversão por outras cores; (3) traduzirei a minha aversão pelo verde em aversão por «certa cor», e cada um que leia verá na aversão assim traduzida a cor particular com que ele tem aversão. Pelo processo romântico, buscarei pôr tal horror nas frases com que exprimo o meu horror pelo verde que o leitor fique preso da explicação do horror, esquecendo precisamente em que se fundamenta. Vê-se, pois, que o processo romântico consiste num tratamento intensivo dos elementos expressivos, em desproveito dos elementos fundamentais, da sensação. Pelo terceiro processo, porei nitidamente a minha aversão pelo verde, e acrescentarei, por exemplo, «é a cor das coisas nitidamente vivas que hão-de tão depressa morrer». O leitor, embora não colabore comigo na minha aversão pelo verde, compreenderá que se odeie o verde por aquela razão. Pelo processo clássico sacrifica-se o mais nosso da sensação ou da emoção, em proveito de torná-la compreensível. Porém o que tornamos compreensível é um resultado intelectual dela. De aí o ser a poesia clássica inteligível em todas as épocas, porém em todas fria e longínqua. No meu fantasma Alberto Caeiro sirvo-me instintivamente do terceiro processo aqui indicado. Embora pareça espontânea, cada sensação é explicada, embora, para fingir uma personalidade humana, a explicação seja velada na maioria dos casos. Há uma cor que me persegue e que eu odeio, Há uma cor que se insinua no meu medo. Porque é que as cores têm força De persistir na nossa alma, Como fantasmas? Há uma cor que me persegue, e hora a hora A sua cor se torna a cor que é a minha alma. .................................... O verde! O horror do verde! A opressão angustiosa até ao estômago, A náusea de todo o universo na garganta Só por causa do verde, Só porque o verde me tolda a vista, E a própria luz é verde, um relâmpago parado de verde... ................................. Odeio o verde. O verde é a cor das coisas jovens — Campos, esperanças, — E as coisas jovens hão-de todas morrer, O verde é o prenúncio da velhice, Porque toda a mocidade é o prenúncio da velhice. Uma cor me persegue na lembrança, E, qual se fora um ente, me submete À sua permanência. Quanto pode um pedaço sobreposto Pela luz à matéria escura encher-me De tédio ao amplo mundo! s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 289. 1ª publ. in Novos Temas (Ensaios de literatura e estética). João Gaspar Simões. Lisboa: Inquérito, 1938. Ah, sempre no curso leve do tempo pesado A mesma forma de viver! O mesmo modo inútil de estar enganado Por crer ou por descrer! Sempre, na fuga ligeira da hora que morre, A mesma desilusão Do mesmo olhar lançado do alto da torre Sobre o plaino vão! Saudade, esperança — muda o nome, fica Só a alma vã Na pobreza de hoje a consciência de ser rica Ontem ou amanhã. Sempre, sempre, no lapso indeciso e constante Do tempo sem fim O mesmo momento voltando improfícuo e distante Do que quero em mim! Sempre, ou no dia ou na noite, sempre — seja Diverso — o mesmo olhar de desilusão Lançado do alto da torre da ruína da igreja Sobre o plaino vão! 1-1-1921 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 29. Cansa ser, sentir dói, pensar destrui. Alheia a nós, em nós e fora, Rui a hora, e tudo nela rui. Inutilmente a alma o chora. De que serve? O que é que tem que servir? Pálido esboço leve Do sol de Inverno sobre meu leito a sorrir... Vago sussurro breve. Das pequenas vozes com que a manhã acorda, Da fútil promessa do dia, Morta ao nascer, na esperança longínqua e absurda Em que a alma se fia. 1-1-1921 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 31. ESTÉTICA Poesia lírica primeiro música + poesia, poesia cantada. Depois a poesia tomou para si o ritmo. A música passou a expressar sentimentos por si, e a poesia lírica a ter música em si (Cf. as poesias de Shelley e a sua má musicabilidade). A sátira, o epigrama são duros, mas é porque a música do satirizar é a aspereza e a [...] Toda a poesia lírica tem, ou deve ter, uma música própria (como Tennyson tem). — A arte que poetas líricos, às vezes instintivos de todo, têm, é uma composição musical. Uma poesia (lírica ou outra) exige intérprete, como uma partitura (trecho musical); só que na poesia a interpretação é mais restritamente inindividualizável por causa do elemento fixador. 1915? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 74. 1.O homem é um animal irracional, exactamente como os outros. A única diferença é que os outros são animais irracionais simples, e o homem é um animal irracional complexo. É esta a conclusão a que nos leva a psicologia científica, no seu actual estado de desenvolvimento. O subconsciente, inconsciente, é que dirige e impera, no homem como no animal. A consciência, a razão, o raciocínio são meros espelhos. O homem tem apenas um espelho mais polido que os animais que lhe são inferiores. 2. Sendo assim, toda a vida social procede de irracionalismos vários, sendo absolutamente impossível (excepto no cérebro dos loucos e dos idiotas) a ideia de uma sociedade racionalmente organizada, ou justiceiramente organizada, ou, até, bem organizada. 3. A única coisa superior que o homem pode conseguir é um disfarce do instinto, ou seja o domínio do instinto por meio de um instinto reputado superior. Esse instinto é o instinto estético. Toda a verdadeira política e toda a verdadeira vida social superior, é uma simples questão de senso estético, ou de bom gosto. 4. A humanidade, ou qualquer nação, divide‑se em três classes sociais verdadeiras: os criadores de arte; os apreciadores de arte; e a plebe. As épocas maiores da humanidade são aquelas em que sobressaem os criadores de arte, mas não se sabe como se realizam essas épocas, porque ninguém sabe como se produzem homens de génio. 5. Toda a vida e história da humanidade é uma coisa, no fundo, inteiramente fútil, não se percebe para que há, e só se percebe que tem que haver. 6. A plebe só pode compreender a civilização material. Julgar que ter automóvel é ser feliz é o sinal distintivo do plebeu. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 162. Esse xaile que arranjaste, Esse xaile que arranjaste, Com que pareces mais alta Dá ao teu corpo esse brio Que à minha coragem falta. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 97. Qualquer caminho leva a toda a parte Qualquer caminho Em qualquer ponto seu em dois se parte E um leva a onde indica a estrada Outro é sozinho. Uma leva ao fim da mera estrada. Pára Onde acabou. Outra é a abstracta margem ...... No inútil desfilar de sensações Chamado a vida. No cambalear coerente de visões Do [...] Ah! os caminhos estão todos em mim. Qualquer distância ou direcção, ou fim Pertence-me, sou eu. O resto é a parte De mim que chamo o mundo exterior. Mas o caminho Deus eis se biparte Em o que eu sou e o alheio a mim [...] 1921 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 34. A poem is an intellectualised impression, or an idea made emotion, communicated to others by means of a rhythm. This rhythm is double in one, like the concave and convex aspects of the same arc: it is made up of a verbal or musical rhythm and of a visual or image rhythm, which concurs inwardly with it. The translation of a poem should therefore conform absolutely to the idea or emotion which constitutes the poem, to the verbal rhythm in which that idea or emotion is expressed; it should conform relatively to the inner or visual rhythm, keeping to the images themselves when it can, but keeping always to the type of image. It was on this criterion that I based my translations into Portuguese of Poe’s “Annabel Lee” and “Ulalume”, which I translated, not because of their great intrinsic worth, but because they were a standing challenge to translators. 1923? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 74. Conhece-se a poesia lírica pelo facto de ser quase desprezível a ideação ou o sentimento para existir uma boa poesia lírica. Assim o «Ai flores, ai flores do verde pino» ou o «Levantou-se a velida» de D. Dinis, rei de Portugal, são poesias líricas maravilhosas, conquanto contenham uma insignificante base ideativa ou mesmo emocional. É o lirismo puro. Claro está que, dentro d'este lirismo, a poesia será tanto maior quanto mais ideia e emoção contém. O lirismo de Burns é parco ao lado do de Shelley. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 237. Indicação inicial: «Estética». Is not a metaphysical aspect, a mystic side in a moral theory a defect? Cannot there be a morality without a God? Is there no better basis for morality than the spiritual utilitarism of rewards and of penalties in another world? Why did the mystics and the priests of yore spend their time in prayers, in fastings, in sacrifices of their flesh, and leave all charity, all feeling of humanity? Because of the metaphysicall part of Jesus Christ’s ethical system. Each thing demands that its respective sense should be applied to it. When an ethical system co‑exists with a metaphysical system, the consequences are evident and deplorable. When the bases of one such system are, as in that of Christ, active beneficence and worship of God — faith‑alone and meritorious works — we must inquire as to the effect of these in religious minds. And the answer is not difficult to find. When a system of morality is bound to a metaphysical doctrine, it cannot be but that the moral system is deduced from, and is a part of, that system of transcendant philosophy. The ethics of the Christian religion depends on, and is deduced from the Christian conception of God. «Faith-alone» is the principal and «meritorious works» the secondary conception. Now in the mind of the mystic what is it that takes place? He is filled, made mad by the grandeur of the metaphysical conception, he is absorbed, as he himself says, by the personality of God. He thinks only of himself and of his own salvation; faith and hope are his, charity he neglects entirely. This is the most pernicious effect of the ethical system of Christ. Let it not be said: «this is questionable», for it is not questionable at all. Read the works of the mystics and receive instruction therefrom. You will see the danger of making a system of morals depend on a metaphysical system. And, be it added, there is no way of joining ethics and theology of metaphysics, whereby ethics will not suffer. For in a connection such as this ethics must necessarily be subordinate, by no other reason than that of the superior and sovereign nature of metaphysics. If ever we proceed in a mental operation, from the moral world to the world beyond, it is in reasoning, and only in this case. No methaphysical system can be founded on a system of morality, because the idea of good contains nothing but itself, nothing but the idea of good, from which no conclusion can be drawn of a transcendant nature, nor, in a logical way any conclusion at all. The only problem of a metaphysical nature which might be posited at all is asking how good is, and why; but this is not particular to good, it can be asked of all things that exist, of our deepest ideas, of our most extraordinary fancies. It is nothing but the problem of substance, or of being, the central question of all philosophy. 1908? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 201. Tem um decote pequeno, Tem um decote pequeno, Um ar modesto e tranquilo; Mas vá-se lá descobrir Coisa pior do que aquilo! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 97. Ó curva do horizonte, quem te passa, Passa da vista, vão de ser ou estar. Seta, que o peito enorme me transpassa. Não doas, que morrer é continuar. Não vejo mais esse a quem quis. A taça, De ouro, não se partiu. Caída ao mar Sumiu-se, mas no fundo é a mesma graça Oculta para nós, mas sem mudar. Ó curva do horizonte, eu me aproximo, Para quem deixo, um dia cessarei Da vista do último no último cimo, Mas para mim o mesmo eterno irei Na curva, até que o tempo a espera E aonde estive um dia voltarei. 13-8-1921 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 36. FEVER‑GARDEN I Red living flakes of demon snow Poison‑relate the sinning air To atom‑clear red sick flowers who Rootless jut out of Night and There Relation being itself a clutch Upon the throbbing veins in seeing So the surviving over‑much Is not contiguous to being Yet philter‑aureole or lay Sung round the rites of altared vice The poppies of o'er‑memory may Spin cobweb‑circles lusting thrice Around the phallic selfness stood Midway from intellect to sense Round whose void a tongued mist thrust‑dense To the cut lips gives conscious blood II She the despised communion owes To vice of tainting holy things And making eucharists of throes When lust thickens with pin‑soft wings For her mouth red till purple is black Supplies a space in the lost rites And intermits our heart‑beats' track Senseward to demon infinites Till on the point of the spasm cast Like a mantle on consciousness The veil is rent in temple waste And the tongue‑flowers remouth from Space 5-5-1917 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 376. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. Reparou, no decurso dos seus pensamentos, que a época em que vivia parecia de onanistas (...) de impotentes em potência, de sexuais sem vida sexual. E foi feroz de tristeza a alegria do pensador com que ele se sentiu compreendendo-se assim obscenamente simbólico. Toda a acção, excepto as acções desmedidas e absurdas, lhe era impossível. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 25e. «Marcos Alves» A arte, que se faz com a ideia, e portanto com a palavra, tem duas formas — a poesia e a prosa. Visto que ambas elas se formam de palavras, não há entre elas diferença substancial. A diferença que há é acidental, e, sendo acidental, tem que derivar-se daquilo que é acidental, ou exterior, na palavra. O que há de exterior na palavra é o som; o que há, pois, de exterior numa série de palavras é o ritmo. Poesia e prosa não se distinguem? pois, senão pelo ritmo. O ritmo corresponde, é certo, a um movimento íntimo da alma; mas, como esse movimento íntimo se manifesta no ritmo, escusamos de atender a ele, ou a qual ele seja, no estudo do ritmo, e no da diferença entre a poesia e a prosa. O ritmo consiste numa graduação de sons e de faltas de som, como o mundo na graduação do ser e do não-ser. Quer isto dizer que o ritmo consiste numa distribuição de palavras, que são sons, e de pausas, que são faltas de som. As palavras, como existem, compete um ritmo de variação, dependente da extensão das palavras, da sua acentuação, da sua qualidade e quantidade silábica, e também do sentido, quer próprio, quer dependente das outras palavras, que lhes são contexto. As pausas, como não existem, compete tão-somente um ritmo de extensão; isto é, a pausa, como não é mais que a falta de uma coisa (o som) não tem variante senão a sua duração. A pausa é mais longa ou mais breve; só isto. Na prosa, que é a linguagem falada escrita, estas pausas são dadas por uma coisa a que se chama a pontuação, e a pontuação é determinada exclusivamente pelo sentido. Da pausa grande do parágrafo à pausa menor do período, à menor ainda do subperíodo (dada pelo ponto e vírgula, os dois pontos, ou o traço) ou à mínima, da vírgula, toda a pausa da prosa se deriva da significação do que se diz. O mais que nos é permitido variar, por arbítrio nosso, na pontuação, é num estabelecimento um pouco carregado de vírgulas, numa abertura de parágrafos onde poderia havê-lo só de períodos, ou em outras coisas assim. Mas, em todos os casos, essas pontuações não deverão tender para acentuar o sentido; nunca poderão quebrá-lo ou interrompê-lo, porque a prosa, sendo a linguagem falada escrita, é, por isso mesmo, o reflexo da ideia, para cuja emissão a palavra falada existe. Se, porém, quisermos acentuar o ritmo para além da ordem lógica, em virtude de em nós a emoção, que produz a entonação (e o canto), predominar sobre a ideia propriamente dita, abriremos pausas artificiais no discurso; e essas pausas são artificiais porque a emoção, quanto à ideia, é externa (visto que não é a ideia), e portanto artificial. Como estas pausas artificiais não podem ser designadas por pontuação, pois a pontuação designa as pausas naturais, temos que designá-las por qualquer coisa que, marcando-as acentuadamente, todavia as marca como artificiais. Isto fazemos dispondo o discurso em linhas separadas, sendo a pausa indicada pela passagem de linha. A este género de discurso se chama poesia. A pausa de fim de verso é independente do sentido, e é tão nítida como se ali houvesse pontuação. Erram pois contra toda a substância da poesia os que lêem ou dizem versos, correndo-os de um para outro quando não há pontuação no fim de uma linha. O discurso poético é exposto em linhas precisamente para que se faça uma pausa, artificial embora, onde a linha termina. A poesia é assim a prosa feita música, ou a prosa cantada; o artifício da música é conjugado com a naturalidade da palavra. Nos princípios da poesia, é o próprio ritmo musical que estabelece estas pausas; a pausa da voz que canta acentua a pausa do fim de verso. Mais tarde, por um processo ainda vagamente musical, que é o quantitativo, dá-se a cada verso um igual valor musical, e a voz conhece por antecipação onde a linha acaba, sendo-lhe dada assim uma guia para a leitura. Mais tarde, dispensa-se essa base musical, mas, para que a guia não falte, estabelece-se um sistema de referências pelo qual se sabe onde termina o verso, e esse sistema é a rima. Mais tarde ainda, fixo já o verso em determinadas medidas, quantitativas pelas sílabas que não pela quantidade, a rima dispensa-se, é o chamado verso branco — o regular. Finalmente, se chega ao justo critério do verso de que basta marcar pela volta de linha que o discurso esta escrito em verso para se dever ler como tal, para efectivamente ser tal. Assim se chega ao critério moderno do verso, em que não há exigência de quantidade, de sílabas certas, nem de rima. A linha isolada é uma unidade rítmica. A qualidade rítmica depende, como aliás dependeu sempre, do poeta. Assim, a diferença entre a prosa e o verso, sem desaparecer, longe até de desaparecer, acentua-se tal qual é, sem mais nada. O verso é a prosa artificial, o discurso disposto musicalmente. Não é outra a diferença entre as duas formas da palavra escrita. 1930? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 75. Poetas: — de profundeza (pensamento) (a) — de construção      (b) — de intensidade      (c) (a) em que a base inspiracional é uma ideia, uma compreensão, interpretação, das coisas. (b) em que a base inspiracional é o assunto, isto é, (uma coisa vista como um todo composto de detalhes ). (c) em que a base inspiracional é consoante o grau de sensação que uma coisa desperta. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 238. Good is a necessary evil. For it is by good that we know evil good exists but that we may know evil. But if good exist for this end good is evil and since evil is of nature necessary to nature for the appearance of pain, a form of evil. Life is limitation, but limitation can be perceived only by having the idea of perfection This idea’s end is to prove the immortality: this idea is bad. 1908? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 204. O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 164. Teus olhos poisam no chão Teus olhos poisam no chão Para não me olhar de frente. Tens vontade de sorrir Ou de rir? É tão diferente! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 98. Vento que passas Nos pinheirais, Quantas desgraças Lembram teus ais. Quanta tristeza, Sem o perdão De chorar, pesa No coração. E ó vento vago Das solidões Traz um afago Aos corações. À dor que ignoras Presta os teus ais, Vento que choras Nos pinheirais. 21-8-1921 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 37. THE BROKEN WINDOW My heart is silent as a look. There is a home beyond the hills. My heart is silent as a look. My home is there, beyond the hills. I bear my heart like an old curse. There is no reason for regret. I bear my heart like an old curse. Why should we reason or regret? My heart dwells in me like a ghost. Beyond the hills my hope lies dead. My heart dwells in me like a ghost. Beyond my hope the hills lie dead. They took away my heart like weeds. It was not true that I should live. They took away my heart like weeds. I could not think it true to live. Now there are great stains in my heart. They are like blood‑stains on a floor. Now there are great stains in my heart. And my heart lies upon the floor. The room is closed for ever now. My heart is now buried alive. My heart is closed for ever now. The whole room is buried alive. 1915 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 378. Publ. in «Oito Poemas Ingleses Inéditos». Georg Rudolf Lind. in Estudos sobre Fernando Pessoa . Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981. Encontram-se nesta publicação, que é dividida em Secções ou Títulos, dois títulos ou secções que têm nome Literatura e Poesia . Parecerá a muitos absurdo que se estabeleça o que parece ser uma distinção entre um género e uma das suas espécies. A poesia é, sem dúvida, e no que a boa lógica tem só de boa lógica, uma espécie do género literatura. Esta é a arte que se forma com palavras; aquela a espécie dela que se forma com palavras dispostas de determinada maneira. “A prosa”, dizia Caleridge, “é as palavras dispostas na melhor ordem; a poesia as melhores palavras dispostas na melhor ordem”. Assim é, ou quase assim. A palavra é, numa só unidade, três coisas distintas — o sentido que tem, os sentidos que evoca, e o ritmo que envolve esse sentido e estes sentidos. Assim a palavra “alma” contém em si como sentido directo a designação da essência mental do homem, distinta, por um lado, da inconsciência do corpo ou dos corpos, por outro da possível superconsciência de uma consciência abstracta universal. Mas aparte isso, a palavra “alma” sugere um grande número de sentidos acessórios, que variam de indivíduo para indivíduo, conforme as preocupações, a cultura e outros elementos que contribuam para a associação de ideias: para um estará inevitavelmente implícito na palavra o sentido secundário de “animo”, “intensidade de carácter”; para outro o sentido secundário de “espiritualidade”, “misticismo”; para um terceiro o sentido secundário de “irrealidade”, “intangibilidade”. Finalmente, a palavra “alma” tem um som, que constitui o seu ritmo e com que colabora no ritmo formado com as palavras que lhe sejam anexas, com ela formando o texto. É por isto que o mais claro dos textos começa, quando é aprofundado ou meditado por este ou aquele, a abrir-se em divergências de íntimo sentido de um para outro: é que, havendo acordo, em geral, quanto ao sentido directo ou primário da palavra, começa a o não haver quanto aos sentidos indirectos ou secundários. No ritmo de novo os indivíduos se aproximam uns dos outros, salvas diferenças de pronúncia e preferências auditivo-mentais. Decomposta, assim, em três elementos constitutivos para fins lógicos, não os oferece a palavra distintos na realidade da sua vida; são consubstanciados, e a impressão resultante da palavra, e portanto das palavras dispostas em discurso, provém de uma percepção sintética em que se entrevivem todos três. Isto é importante de notar, sobretudo, quanto à valia e ao alcance do ritmo, que não existe na palavra, como no som, independente e livre, mas preso aos sentidos que a palavra comporta ou sugere. A palavra “César”, em si mesma frouxa de som, tem contudo um relevo rítmico em certo modo imperial, porque imperial é a sua origem e a evocação que a memória dela nos traz. Um alinhamento de palavras sem sentido conjunto, ou de pseudo-palavras inventadas com belos sons, não agrada por bem que soe: não é mais que música absurda e postiça. Lembrados sempre desta consubstanciação e interpenetração dos três elementos da palavra, podemos contudo, sem realizar abstracções, distinguir três tipos de arte literária, conforme se olhe mais ao sentido primário da palavra, aos seus sentidos secundários, ou ao ritmo — ou mais propriamente, visto ao que acaba de se ver, à projecção no ritmo da vida inteira da palavra. A arte que vive primordialmente do sentido directo da palavra chamar-se-á propriamente prosa, sem mais nada; a que vive primordialmente dos sentidos indirectos da palavra — do que a palavra contém, não do que simplesmente diz — chamar-se-á convenientemente literatura; a que vive primordialmente da projecção de tudo isso no ritmo, com propriedade se chamará poesia. 1924? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 78. Poetas-pensadores são de 3 espécies: (1) Aqueles em que o poeta e o pensador estão absolutamente fundidos (Antero). (2) Aqueles em que o pensamento e a expressão poética d'ele se acham inteiramente separados, de modo que o pensamento é conscientemente posto em verso, ainda que, sendo a natureza artística intensa, em magnífico verso (Goethe, em parte; Hugo às vezes[;] os poetas do século XVIII). (3) Aqueles em que o pensamento é pensado poeticamente, mas não realizado com perfeito (e artístico) afastamento; nem com fusão, modeladora em perfeita arte, do pensamento (Bocage, Wordsworth, Pascoais). s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 239. Consider the extraordinary dualism which man presents of natural and of moral sentiment. Nature is «red in tooth and claw»; the law of nature is selfishness. Man, indeed, acts most often — most often, in truth — according to this law of nature. Man, deny it not, is a selfish being however natural he be in so being. But man when postulating his own moral rules never sincerely builds them upon egotism but upon altruism, and thus, in our advanced ethics, we are unnatural, we are in opposition to nature. Whence do we draw this idea of altruism which is not in nature? What has this to do with the «idea of Free‑will» of M. Fouillée ? 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 205. What scepticism doubts is that reason (principle of certitude) can reach any conclusion working on the data of the senses. Do properties constitute substance? Properties of the mind: intensity of sensations. As the body so the soul. As the brain, the mind, as the mind, the brain. As the muscles the strenght. Strenght is not matrial. The brain represents the mind as the muscles the strength. Reading developing brain power. Materialist: Force acts on matter. This is not conceivable, unless it be held that matter and force are of the same nature. The unlike cannot act on the unlike. Cause and origin. Cause: like on like. Origin: the unlike produces the unlike. 1908? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 164. Há um doido na nossa voz Há um doido na nossa voz Ao falarmos, que prendemos: É o mal-estar entre nós Que vem de nos percebermos. 4-4-1935 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 70. Ortografia Portuguesa 1. Usa-se o menos possível da acentuação; só onde seja necessária. Quando há duas palavras com as mesmas letras, mas cuja distinção se estabelece pelo acento tónico, deve sempre entender-se que a ausência do acento o recua. Assim «varia», sem acento, quer dizer «vária»; acentuaremos quando for «varía», mas, ainda assim, só quando resulta confusão de se não acentuar. É inútil, por ex[emplo], acentuar esta palavra na frase «O preço varia». s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 125. Five Epistles to the Boeotians — Fernando Pessoa. (5 n. os ) The Strange Death of Professor Antena — Mário de Sá-Carneiro. (1) Opiary, Triumphal Ode, Naval Ode — Álvaro de Campos. (1, 2 or 3). Portuguese Anthology (beginning with extracts, text and translations, from the Cancioneiros, and then throughout Portuguese both prose and poetic literature). (several n. os ) «A Engomadeira» — José de Almada-Negreiros. (1 or 2 n. os ). (?) Cattulo da Paixão Cearense. (trans. perh. w. text) (several n. os ?) A Man's Death — Joaquim Leitão. (1 n. o ) (Religions of Lusitania). (Part in the War, write down with absolute frankness). (The Problem of Spanish Galicia — by someone APG will obtain) (The Catalonian problem — by someone from Barcelona) (Or, perhaps, two articles, one on each side of the question, preceded by an explanation of why a paper called «P» deals with a Spanish matter). Columbus a Galician. (The details concerning the «Genoa» myth) (Examine, however, other details concerning the Beja, or something like it, thesis). Editorial article on SP and on his presidency, perhaps a succint exposition of S. do S. : or an article on the Political Situation in Portugal. «Octavio» (A Play in three acts) — Victoriano Braga. (1 n. o ) The Horoscope of Portugal. The Myth of King Sebastian. Personal Jokes./ (Jokes about Portuguese personalities or by them, from Bocage and Dr. Assis to really decent people). Objectionable Personalia. (Scandal ...) s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 90. Quando era jovem, eu a mim dizia: Como passam os dias, dia a dia, E nada conseguido ou intentado! Mais velho, digo, com igual enfado: Como, dia após dia, os dias vão, Sem nada feito e nada na intenção! Assim, naturalmente, envelhecido, Direi, e com igual voz e sentido: Um dia virá o dia em que já não Direi mais nada. Quem nada foi nem é não dirá nada. 1921 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 38. ISIS In the cool pillared portico That gives white entrance to her moods Start‑lovely stand in a mute row The statues of her pulchritudes. Twelve are they and the mind doth gather Their separate seen lives to one sense; The thirteenth, which is all together, Means her soul and its confluence. Five statues mean the senses five, Seven are her mysteries of Thought The thirteenth seems somehow to live Beside her life and know it not. The summer lies outside her shades, The breezes creep into her halls, And from her windowed loss the glades Are something that the soul recalls. She built her house with heavenly types Of building in her inner seeing. The Sun makes the long pillars stripes On the cold, hard floors of her being. Yet she is absent and despairing, Her statues await her New Hour, And from the shadows of her hearing The whisper of the drones doth flower. This was not anyhow nor when. All was as cool as dreams are cool When breezes creep up to our pain And we are laid beside a pool, And a far larger pool arises In our restored imagining, And all our body's sense despises Our innate lack of fin and wing. Still by her portico I stopped. The shadows there were clear and fast. Slightlys as with a kiss, I hoped, And Having, like a swallow, passed. 25-5-1915 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 378. 1ª publ. in «A Poesia Juvenil de Fernando Pessoa». Georg Rudolf Lind. in Estudos sobre Fernando Pessoa . Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981. Vieira. O seu conhecimento angélico da língua portuguesa. Shakespeare escreve como um anjo caído; Vieira como um homem divinizado, e de Milton se pode dizer a mesma coisa. Shakespeare escreve como um deus carnal ( a carnal god ). s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 240. The idea of free‑will, in my opinion, has its rise in the application to the moral world of the primitive and natural idea of physical liberty . This application, this analogy is unconscious; and it is also false. It is, l repeat, one of those unconscious errors which we make; one of those false reasonings in which we so often and so naturally indulge. Schopenhauer has pointed out — that the primitive notion of liberty is «absence of obstacles», a purely physical notion. And in our human conception of liberty the notion helds. No man considers an idiot, a madman to be responsible. Why? because he conceives something in the brain as an obstacle to true judgement. Idea of liberty a purely metaphysical idea. The primary idea is the idea of responsibility which is only the application of the idea of cause, by the reference of an affect to its Cause. «That man hits me; I hit him in defense.» «That man struck that other man and killed him. I saw him. That man is the Cause of the other’s death.» All this is perfectly true. Thus we see that the idea of free‑will is not a primitive idea at all; that responsibility, founded on a legitimate yet ignorant application of the principle of Causality, is the really primitive idea. In the beginning man is not conscious of any but physical liberty. In the beginning there is no such metaphysical state of mind. The idea of liberty is come by reason is metaphysical and therefore susceptible of error. Again popular opinion, as we see by this, puts the real element of moral liberty in judgement, in consideration, in the power to perceive, to discern good and ill and to discuss them mentaly. But this statement is false. The popular conception is this: that judgement is that which considers a thing, deciding whether it be right or wrong. In the popular opinion it is this faculty that tells us that a thing is good or bad; it is, they think, the element of good in us. The people thinks that if I see by this that an action is bad and I do it nevertheless, I am guilty of evil. The idea of moral liberty is not in any way primitive, not even of to‑day in the popular mind, or hypothetically, in any cultured mind which might ignore the question entirely. It is an idea come by reason, a philosophical idea. Primitively there is neither a sense of moral liberty nor a sense of being determined. It is idle to think that a savage has any sense of moral liberty. Man is perfectly an animal and the only primitive sense in this case is the sense of physical freedom. «I can do what I will.» Of thus there is of course no doubt. So long as I am not emprisoned nor chained nor paralitic, nor hindered by any physical obstacle, I am free : l can do what I will. «But can I will what I will and will nothing else?» The great question is all here. Now this primitive unconsciousness, which way does it rather point more: to free‑will or to determinism? 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 206. The human soul is either simple or composed; that is to say, either it is the whole and the same soul which thinks, feels, desires, calculates, perceives; or each faculty or manifestation of the soul. Or the soul is made up of several faculties, separate and distinct from one another, which have each its own function, and nothing to do with the function of the others. The criterium of unity is merely by consciousness, in this latter case. The soul may be composed in 2 ways: a) In nature, as a body of skin, flesh and bone. b) In degree, as a number of (...) which denote one unity, one ten, one hundred and so on. [...] a) In the first case, the intellectual faculties, for instance, would be distinct from the animal propensities and thus there can be no combating of this theory as we combated that of the simple soul . This theory is against the unity of the soul. b) In this case, there would be really a unity in the soul, but a kind of degree makes it of the nature of composed. Thus, in this theory, the intellectual faculties would be a superior aggregation of the particles or small things which form, for instance, the animal faculties. I do not know that this theory exists, but I have to consider it, inasmuch as it comes logically into my discussion. Now whichever of these two hypotheses (theories) we accept, free‑will is inconsistent with both. a) If the soul be simple, then its faculties being merely manifestations of the same thing have all the same nature. If they have the same nature, then the intellectual faculties have the same nature as, for instance, the appetitive or the vegetative faculties. From this results the strange conclusion that, if we own a man possible to make himself good or evil, we own him also able at will to make himself a genius or an idiot, intellectually a Kant or a grocer’s assistant. And this conclusion is manifestly false. b) Let the human soul be composed; it may be composed in [different] ways. Firstly, the human faculties may be the same in composition, in fact, the same in nature but different from a material localization. (This is the theory of the Phrenologists, according to whom the faculties have the same composition i.e. the cerebral man — but different manifestations, according to their position in the head). Cf. Plato. Secondly, the human soul may be composed of faculties of entirely different nature and different material position, for instance, Plato’s theory. In the first case, the will, being a manifestation of the human mind and all other faculties, e.g., the intellectus being susceptible of degrees, it is evident that the will itself is susceptible of degrees. But could not the will be external to these, independent of them, powerful (or consciousness) over all? If so, then the power would extend (as in the case of the simple soul) to intellect and the same impossible conclusion should be obtained. Thirdly, the human soul may be composed, as we may say, by degrees. Suppose the mind formed of any kind of monads or spiritual atoms; make out that a small grouping of these produces the lower faculties, and so on, progressively, the intellect being the highest aggregation. I do not think any one has ever held this theory, neither shall I call it mine; I have put it down here, merely because it comes naturally into the discussion. Fourthly, the human soul may be composed both in nature and in degree; supposing, I mean to say, agglomerations of particles of different nature, rising in power, or, perchance, purifying itself to oneness and incomposition, as in the intellectual faculties. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 167. Quando passas pela rua Quando passas pela rua Sem reparar em quem passa, A alegria é toda tua E minha toda a desgraça. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 98. Teu vestido, porque é teu, Teu vestido, porque é teu, Não é de cetim nem chita. É de sermos tu e eu E de tu seres bonita. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 70. EH-LÀ! Acaba de publicar-se o terceiro número de ORPHEU. Esta revista é, hoje, a única ponte entre Portugal e a Europa, e, mesmo, a única razão de vulto que Portugal tem para existir como nação independente. Ler ORPHEU é o único acto civilizado que é possível praticar hoje em Portugal, excepto o suicídio com ordem de incineração no testamento. Comprar ORPHEU é regressar de África. Compreender ORPHEU é ter voltado de lá já há muito tempo. Comprar ORPHEU é, enfim, ajudar a salvar Portugal da vergonha de não ter tido senão a literatura portuguesa. ORPHEU é todas as literaturas. À venda em todas as livrarias. Preço 50 centavos (em português: 500 réis). 1915? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 126. Entendamo-nos bem. Ninguém pode ler tudo, sequer sobre um só assunto. É, pois necessário, muitas vezes, citar em segunda-mão, quando não ainda mais translatamente. Não há nisso charlatanice, desde que estejamos convencidos da competência e da probidade do primeiro citador; nem é necessário que estejamos sempre indicando que não citamos do original, enchendo as páginas, que escrevemos, de «citas em segunda-mão», ociosas e importunas. Se eu citar, ainda que no original, uma frase grega ou alemã, não vem a propósito dizerem-me, o que é aliás verdade, que não sei grego nem alemão. E preferível citar em português, até para conveniência do leitor. Posso traduzir, através de idioma intermédio, qualquer poema grego, desde que consiga aproximar-me do ritmo do original, para o que basta saber simplesmente ler o grego, o que de facto sei, ou que obtenha uma equivalência rítmica. D'essa maneira traduzi alguns poemas da Antologia Grega. A única coisa a perguntar, a quem saiba grego e português, é se a minha tradução está certa quanto ao sentido do poema, e se consegue uma equivalência rítmica suficiente. A traduções d'essas posso legitimamente apor um «tradução de F.P.», sem que tenha que acrescentar «através do inglês» ou outra frase de igual teor. O que não posso é pôr «traduzido do grego», ou de qualquer modo insinuar que assim traduzi. O que não posso é criticar uma tradução alheia da mesma espécie, excepto como se criticasse um original português, e muito menos posso apor notas sobre o texto grego à minha tradução. Se amanhã aparecer, sob o meu nome, um opúsculo sobre a cirurgia dos rins, ou uma gramática do sânscrito, induzo necessariamente toda a gente a supor que sei de cirurgia dos rins ou que conheço o idioma devanagrico. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 91. Entre o luar e a folhagem, Entre o sossego e o arvoredo, Entre o ser noite e haver aragem Passa um segredo. Segue-o minha alma na passagem Ténue lembrança ou saudade, Princípio ou fim do que não foi, Não tem lugar, não tem verdade, Atrai e dói. Segue-o meu ser em liberdade. Vazio encanto ébrio de si! Tristeza ou alegria o traz? O que sou dele a quem sorri? Não é nem faz. Só de segui-lo me perdi. 19-8-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 155. Sepulto vive quem é a outrem dado. E quem ao outrem que há em si, sepulto Não poderei, Senhor, alguma vez Desalgemar de mim as minhas mãos? 1921 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 39. ENNUI Under a low and sullen sky, Frowned on by lone winds that moan by And palely sick for light from high Till the landscape's soul doth sigh forever, Forever sigh, A black and calmness‑haunted river, That doth a town from itself sever, Runs with an inner fear and shiver Like a dim fate forever nigh, Nigher forever. Ay, through that landscape lapsed from dream Into a horrid truth doth gleam That self‑absorbed, self‑empty stream That bears a dream of dreams' emotion To emotion's dream! Runs from a land whence is no motion Towards a possible far ocean; And they, whose eyes anguished sans motion Bathe in it, take emotion's dream For dreams' emotion. 5-2-1913 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 382. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. Essentials of poetry are three: Feeling, Colour and Form. Poetical feeling, and in some degree poetical colour, may be used in prose; what especially distinguishes poetry is poetical form. — Thus in the prose of Carlyle or of Ruskin, or of Jenny Taylor there are fine passages of poetry poetically coloured. 1906? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 81. Um poema é uma obra literária em que o sentido se determina através do ritmo. O ritmo pode determinar o sentido inteira ou parcialmente. Quando a determinação é inteira, é o ritmo que talha o sentido, quando é parcial, é no ritmo que o sentido se precisa ou precipita. Na tradução de um poema, portanto, o primeiro elemento a fixar é o ritmo. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 242. Indicação inicial: «Poe (Introd.)». ON FREE-WILL Argument of Consciousness Example: «I am going to meet a man with whom I must have a discussion and I wonder and fear what may happen, if I may not lose my temper and become involved in a fight.ª Now the first thing to be noted here is that the individual who makes these reflections has a temper. A man who had not would not make these considerations if he had not the power to get into a rage. The supposed argument then is changed. It is no longer: «I feel in me the power to do either of two things»; it is now: of two things I have in me I feel the power to do one». And this is true, perfectly true. It is the Law of internal contradiction, the first law of (all) truth: «Anything can exist, may come to be so, long as it involves no contradiction». Thus the man with no temper does not consider the possibility of doing harm: such a possibility is in contradiction with his own character, involves contradiction, and, breaking the law is not possible. It cannot happen at all. An act needs a power of the kind: ex nihilo nihil . On the other hand the impulsive, hot-tempered man fears himself. He doubts whether he will be firm enough to keep back (check) his rape. More clearly and with greater truth; he is uncertain as to which of the 2 faculties he possesses, violence and firmness, will conquer in the end. He ignores, moreover, the circumstances, the conditions in which they are to be tried. He is ignorant that is of the future environment. The other man may fire him with certain expression, may keep him still with others, guarded and cautious. Were you to say to this man: «So-and-so will, in the discussion, insult you to-day.»The hot‑tempered man will answer you, if he be sincere: «Then I shall get into a fury.» He knows it well he will. Here is the complete determination of future action the environment (in this case, the insults) being known. Indeterminists urge commonly that it is impossible to predetermine to prophetize the actions of any man. Far from impossible, when the character and the environment are well known, the action is known. How could it not be, since it is a product of both? Seven and five known, who cannot say they make twelve? A man ignores often how he will act. Were he free he would say I shall act thus, and do so. A certain young soldier goes to battle wondering whether his courage will fail him or not. Here is clearly either ignorance of himself, his courage never having been tried, or ignorance of the true nature of the environment, through never having had his couraye tested in this way. There is no room, l believe, for an indeterminist explanation. The tried general goes to battle knowing that he will not feel fear: complete knowledge of himself and of the nature of the environment. The two (...) completely known their sum cannot fail to be known likewise. 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 210. The human soul is declared to be simple. If it be simple, then all human faculties have the same nature. If all human faculties have the same nature, the intellectual faculties have the same nature as, for instance, the motive faculties. If this be so, the other faculties vary in the same way as the intellectual; and it is as idiotic to hold that a man can be good or bad, at will, or that he can be clever or stupid, a genius or an idiot at pleasure. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 170. A esmola que te vi dar A esmola que te vi dar Não me deu crença nem fé, Pois a que estou a esperar Não é esmola que se dê. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 98. Entornaram-me o cabaz Entornaram-me o cabaz Quando eu vinha pela estrada. Como ele estava vazio, Não houve loiça quebrada. 25-6-35 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 70. ORPHEU 3 E 4 Mário de Sá-Carneiro:      16 Álvaro de Menezes:      6 José Coelho Pacheco:      8 Mário da Cunha e Sá:      8 Silva Tavares:      8 José de Almada-Negreiros:      18 Augusto Ferreira Gomes:      10 M. Barradas Telles d'Aviz:      6 Fernando de Carvalho:      10 Fernando Pessoa:      8 Castello de Moraes:      12 Álvaro de Campos:      12 Índice do l. o volume:      6 128 pp. 1915 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 127. I do not know whether anyone has ever written a History of Translation(s). It should be long, but a very interesting book. Like a History of Plagiarisms — another possible masterpiece which awaits an actual author — it would brim over with literary lessons. There is a reason why one thing should bring up the other: a translation is only a plagiarism in the author's name. A History of Parodies would complete the series, for a translation is a serious parody in another language. The mental processes involved in translating well are the same as those involved in translating competently. In both cases there is an adaptation to the spirit of the author for a purpose which the author did not have; in one case the purpose is humour, where the author was serious, in the other one language when the author wrote in another. Will anyone one day parody a humorous into a serious poem? It is uncertain. But there can be no doubt that many poems — even many great poems — would gain by being translated into the very language they were written in. This brings up the problem as to whether it is art or the artist that matters, the individual or the product. If it be the final result that matters and that shall give delight, then we are justified in taking a famous poet's all but perfect poem, and, in the light of the criticism of another age, making it perfect by excision, substitution or addition. Wordsworth's Ode on Immortality is a great poem, but it is far from being a perfect poem. It could be rehandled to advantage. The only interest in translations is when they are difficult, that is to say, either from one language into a widely different one, or from a very complicated poem though into a closely allied language. There is no fun in translating between, say, Spanish and Portuguese. Anyone who can read one language can automatically read the other, so there seems also to be no use in translating. But to translate Shakespeare into one of the Latin languages would be an exhilarating task. I doubt whether it can be done into French; it will be difficult to do into Italian or Spanish; Portuguese, being the most pliant and complex of the Romance languages, could possibly admit the translation. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 92. A parte do indolente é a abstracta vida. Quem não emprega o esforço em conseguir, Mas o deixa ficar, deixa dormir, O deixa sem futuro e sem guarida, Que mais haurir pode da morta lida. Da sentida vaidade de seguir Um caminho, da inércia de sentir, Do extinto fogo e da visão perdida, Senão a calma aquiescência em ter No sangue entregue, e pelo corpo todo A consciência de nada querer nem ser, A intervisão das coisas atingíveis, E o renunciá-las, como um lindo modo Das mãos que a palidez torna impassíveis. 30-9-1921 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 40. L'INCONNUE Let thy hand set My hair back. Look Into mine eyes. There runs a brook Right through the heat Of my hushed cries. Let thy hand rest Upon my brow. Let thine eyes smile Into the unrest Of mine eyes now Thine for a while. Ay, forget not To let that touch Be felt by me, Light like a thought Of it, and such As hope can be. Let thy hand sweep Over my hair One little while. I seem asleep But cannot bear To feel me smile. All things have failed. All hopes are dead. All joys are brief. Ay, let thy hand, As if it quailed From feeling sad, Give me relief! No matter if None understand. Ay, on my brow Let thy hand be. What life is now Is worth so little That pain seems brittle And thought a slough. Put my hair back From my brow's pain. There runs a track Of lightness through My heavy brain. What does this mean? These are words set To an idle tune. What I regret Hath never been. Lest my rest fret, True rest, come soon! s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 382. 1ª publ. in Fernando Pessoa: o Amor, a Morte, a Iniciação . Yvette K. Centeno. Lisboa: Regra do Jogo, 1985. Propomo-nos determinar qual o valor do drama “Octávio”, de que é autor Vitoriano Braga. Como, nas coisas que são da arte, o gosto é que é juiz, porém não há-de ser o nosso gosto, que não pode ser juiz pelo alheio, nem o gosto de uns, porque não pode ser juiz pelo de outros, senão um gosto que a todos possa dar leis, e que traga consigo as razões da sua aceitação, temos que uma determinação daquelas tem que assentar em princípios, aos quais se reconheça o carácter de objectivos. E como em matéria de arte e de gosto nem há ciência, a que nos acostemos, nem autoridade que valha como ciência, temos que fazer essa determinação de modo que assente em princípios que nós-mesmos constituamos em científicos, demonstrando-os por meio do raciocínio. Em três partes, portanto, se divide a determinação objectiva do valor do drama, em cujo exame vamos empregar-nos: primeiro, que espécie de drama é ele; segundo, quais são os princípios objectivos, por meio dos quais se saiba (?) a força ou valor de um drama dessa espécie; terceiro, aplicados esses princípios ao drama, de que se trata, que valor, então, tem ele? Daremos a este estudo o enredo e o argumento que esta divisão impõe. * Dois são os géneros literários, que servem de presentar acções: o narrativo, que as presenta como se no-las contassem; e o dramático, que no-las presenta como se as presenciássemos. Deixando agora o primeiro, de que aqui não temos que curar, vemos que o segundo compreende três espécies. Como o drama é um género da arte literária, e nos fins de toda arte, quaisquer que sejam eles, forçosamente há-de caber o de interessar, não sofre dúvida, desde logo, que pode haver três espécies de drama, segundo as três razões precisas em que reside o interesse da obra. Pode o drama, essencialmente, interessar-nos como literatura; ou só por interessar-nos; ou como acção, isto é, exclusivamente como drama. À primeira espécie pertence o drama em verso, assim como o drama simbólico; um subordina a acção à intensidade da poesia e à veemência da dicção. Outro a subordina ao sentido oculto, que a acção serve de figurar. À segunda espécie pertencem a baixa-comédia e a farsa, que se servem da acção só como meio de interesse; e como o simples interessar, sem outro motivo, forçosamente se reduz a entreter, e o simples entreter não mais importa que alegrar e distrair, essa espécie do drama não pode ser senão cómica, como é. À terceira espécie, finalmente, pertence todo o drama em que o interesse reside, essencialmente, na acção, e, como o interesse de uma acção, como só tal, está em que pareça exactamente a vida, não suporta esta espécie do drama exagero algum, nem para, como no drama em verso, o elevar acima da vida, nem para, como na farsa, o trazer abaixo dela. A primeira espécie chamaremos transferida, à segunda deformada, à terceira representativa. O drama, em que vamos empregar a nossa análise, pertence à terceira destas espécies. Só dela, portanto, curaremos. 1916? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 85. Fragmento de ensaio sobre o drama “Octávio” de Vitoriano Braga O movimento de qualquer composição literária é o da onda. Divide-se em três, quatro, ou cinco tempos esse movimento, consoante a maneira como se decomponha para a nossa análise. O movimento da ode consiste essencialmente em três tempos, e, como o da ode, o de toda a poesia lírica. O movimento está tradicionalmente gravado na estrofe, antístrofe e epodo da ode grega. O primeiro tempo corresponde à lenta subida da onda, ao chegar à praia; o segundo movimento corresponde àquele tempo em que a onda reflui sobre si própria, curvando-se; o terceiro tempo corresponde àquele gesto da vaga quando, findo o movimento anterior, se espraia e alonga pela areia. — Assim, pois, as relações entre a estrofe e a antístrofe são as seguintes: a antístrofe procede da estrofe, ou prolonga-a; e, ao mesmo tempo, opõe-se-lhe; assim como, ao fazê-lo, a faz culminar. — As relações entre a antístrofe e o epodo são análogas, posto que não iguais. O epodo ao mesmo tempo que prolonga a antístrofe (?), liga, por cima d'ela, com a estrofe; e, ao fazer isto, completa o movimento ideativo posto na estrofe, que a antístrofe ao mesmo tempo prolongou e interrompeu. — E o movimento tese-antítese-síntese da dialéctica platónica. Foi a grande descoberta dos gregos na arte esta da estruturação. O movimento do drama consiste de quatro tempos. Temos a preparação, onde se expõem e se delimitam os conceitos temáticos; o desenvolvimento d'eles; o clímax, ou auge, a que chegam; e, por fim, a queda, pela solução do conflito que se representou. — Na onda, também, podemos dividir o movimento nestes quatro tempos. — Primeiro a onda avança recurva, e sobe para a sua crista; depois (2º tempo) curva em sentido contrário; a seguir (3º) move-se na curva oposta, que é já no sentido do primitivo movimento; por fim ( 4 º, e último, tempo) estende-se no alastre final. Repare-se em como a estrutura de qualquer drama corresponde a esta classificação analítica dos tempos do ritmo do mar. — No lº acto natural a situação é posta e esboçados os termos do conflito que vai desenvolver-se; tanto quanto é possível dizer-se tal de uma coisa em movimento, há um elemento estático (porque na onda o há quase horizontal) neste acto. No 2º acto natural desenvolvem-se os elementos dados no lº acto; e, enquanto no 1º se punham as situações de onde havia de nascer a possibilidade do conflito, no 2º determina-se a situação de onde o conflito há-de nascer. No 3º acto natural dá-se o conflito. No 4 º resolve-se. O movimento rítmico do 3 º acto natural é no sentido do do 1 º , porque o conflito nele se dá, e na curva do 2 º , porque desenvolve o seu movimento culminado. Fica, desde já, compreendido porque é que o final dos poemas e das outras obras literárias da Grécia é calmo; porque o fim da onda, o seu espraiar-se está ao mesmo nível que o princípio, e o princípio tem de ser calmo, porque é o princípio. O fim regressa ao nível do princípio. O drama pode ser dividido em tantos actos, quantos se queira. Mas, naturalmente, tem quatro actos. Assim o ensina a intuição grega, filosoficamente desdobrada. A epopeia, e toda a narrativa literária, baseia-se, não como a ode em três, ou o drama em quatro, tempos, mas em um movimento de cinco tempos, que é o mais largo em que se pode dividir o movimento da onda. Os movimentos são os quatro do drama, mas o cimo da onda, o ponto de passagem da curva no sentido inverso, para a curva no próprio sentido, da direcção da onda, é considerado como, também, um tempo do movimento. Assim, os cinco tempos do movimento épico são: (1) preparação, (2) desenvolvimento, (3) segunda preparação, (4) decisão, (5) fim. — Ocorrerá perguntar porque é que se chama decisão e clímax ao movimento recurvo da onda, quando se move já no sentido da sua direcção primeira, e se não chama — pelo menos nesta quíntupla divisão — o auge, ou o clímax, ao seu auge visível, que é quando a onda passa no seu ponto mais alto. É que — repare-se bem — em tudo isto se estuda o ritmo e não a altura; a altura da onda não entra na comparação, nem serve de base. É o seu ritmo apenas, e a sua altura só como serva do seu ritmo, que entram no problema. O auge da onda, em altura, é o seu ponto de máxima altura; mas o auge da onda, em ritmo, é o seu ponto de definitiva direcção. Esse ponto é quando, já sem retorno possível, se dirige para o ponto para onde a sua direcção a encaminhou. É evidente que o que se diz aqui da ode, se aplica, na prosa, à obra que não contém narrativa, mas apenas impressão; que o que se diz aqui do drama, se aplica ao drama em prosa, como ao em verso; que o que se diz aqui da epopeia, e por implicação de qualquer poema narrativo, se supõe dito de, na prosa, a narrativa de qualquer espécie, seja conto, ou novela, ou romance extenso. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 243. Having come thus far we are now and at this point made to face another problem, which is important and not without interest. It is contained in this: ´how have we the idea of liberty if such liberty do not exist? How do we believe ourselves free if we are determined in our every act?» There are several philosophers who have written on this point. Their aim has been chiefly to conciliate determinism and responsibility. What reason there is for doing this I do not know. Is it that they do not wish science to take from governments and from powers the only and sacred right of and reason for inflicting penalties upon men? Or is it a certain fear of the new, a certain remnant of respect for the old and warmly cherished ideas which are generally, if not entirely, wrong? Now the idea of liberty is either legitimate or it is not. If it be an idea, truly and purely a simple idea, it is, ipso facto , legitimate, and liberty is a truth (fact). Or on the other hand it is only by name an idea, that is, an intuition, of the nature of those of time, of space, of colour, or, still better of those of good and of beautiful. In this latter case since it is not an intuition, it must be the result of reasoning. We shall now consider both these theories. In the first place, free‑will has not the characteristic quality of intuition, simplicity. An intuition cannot be defined. What colour is, what space is, we cannot say; if we define them, we do so wrongly and in terms of the thing defined. 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 213. Caiu no chão a laranja Caiu no chão a laranja E rolou pelo chão fora. Vamos apanhá-la juntos, E o melhor é ser agora. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 98. Razões de ordem financeira, que são motivadas sobretudo (ou «exclusivamente») pelo encarecimento do papel de impressão, levam ORPHEU a suspender a sua publicação temporariamente. A não ser que se vendesse cada número a um preço muito mais elevado — o que não podemos fazer — ou que se reduzisse muito o número de páginas — o que igualmente nos repugna — , a produção de ORPHEU, nas actuais circunstâncias, redundaria numa grave perda. Para que se não diga que o Movimento Sensacionista português quedou infrutífero, iremos publicando, em plaquetas, várias composições dos notáveis e originais artistas de que o nosso Movimento é composto. Estas plaquetas custarão 10 centavos cada uma. Os assinantes de ORPHEU têm direito a seis plaquetas d'estas, cujo custo total equivale ao dos dois outros números de ORPHEU que a sua assinatura abrangia. Quando ORPHEU reaparecer, forneceremos, porém, gratuitamente aos assinantes esses dois números. Assim, aquela restrita parte do público ledor português que ainda é capaz de ser educada para a compreensão civilizada da literatura, não ficará privada da única publicação com um carácter europeu que, em recentes anos, se tem produzido no nosso país. 1915 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 128. Uma torva e peçonhenta maldade — maldade excessiva mesmo para o coração, tão de ofício viperino, de um editor — levou os srs. Lello & Irmão, não sei porque azar póstumo de Shakespeare, a escolher para vítima prolongada aquela, a maior de todas as almas que se têm enganado de mundo. Decidiram fazer passar a Shakespeare tratos de tradutor. E como encontrassem vis e criminosos precedentes, em ambos os lugares onde há más fadas, para que, sem ousadia de originalidade, n'eles alicerçassem o seu grande crime, escolheram para mestre de obras a figura, d'oravante laivada de perversão, do dr. Domingos Ramos. E passaram a insultar os descendentes dos navegadores com incutir-lhes a ideia de que é possível traduzir o verso e a prosa eternos de Shakespeare para uma prosa portuguesa excessivamente transitória. Apenas folheei, e nem uma linha li, das traduções que o sr. dr. Domingos Ramos terá imortalmente que expiar. Porque não é com a competência de tradutor-de-inglês do sr. dr. Ramos que eu implico e esbarro. É com a sua competência para traduzir Shakespeare, visto que lhe cai em cima e o reduz a prosa. Shakespeare só se deve ousar traduzir — o verso para verso, e a prosa para prosa, e que verso e que prosa têm de ser! Mas vá que o não sejam: o tradutor terá falhado n'uma boa causa. Agora propor-se pôr em mera prosa a prosa e o verso de Shakespeare, como se se estivesse traduzindo de uma tradução inglesa de Shakespeare para Rudyard Kipling — isso é que não pode ser — isso é que pede reclamação diplomática; justo ultimatum , intervenção estrangeira... Apelo, indignado e crítico, para quantos em Portugal conheçam Shakespeare. Bem sei que não são mais que quatro ou cinco. Mas as grandes convicções valem exércitos. Com dois homens se fez o regicídio. Fernando Pessoa s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 93. É uma brisa leve Que o ar um momento teve E que passa sem ter Quase por tudo ser. Quem amo não existe. Vivo indeciso e triste. Quem quis ser já me esquece Quem sou não me conhece. E em meio disto o aroma Que a brisa traz me assoma Um momento à consciência Como uma confidência. 18-5-1922 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 41. HORIZON I Unheard‑of fathoms in the deep sea, In cool caves deep (The spoils of battle are not for thee) For ever sleep. No upward vision or shining mount Rewards thy pain. The secret angel keepeth no count Of thy lost gain. On the sphynx's mouth the tale is dead, The path grass grown. Our sorrow shall follow where thout hast led, Through the Unknown. Waitest thou hidden, or quiet rest What silence forbids? Give us at least thy unobtained quest And the flowered meads. II Already the sea is a whitening line Along my wish, And the wind is coming shadowy and fine With its eerie reach To touch my common despair and pain, My wonder and night, The subtle sense of the coming rain And my lost delight. The missing reason for having love Is quiet with these, The secret vision, the shining grove And the final trees. 5-10-1916 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 386. N. do A.: «A sensacionist poem». 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. Se quisermos estudar — em contraposição, sobretudo, ao ideal antigo — o critério de perfeição a que um dramaturgo hoje pretende, ou deve pretender, conformar-se, temos que procurar a sua causa na operação dos fenómenos culturais que, nesta matéria, fundamentalmente distinguem a nossa época das épocas anteriores; o seu efeito através das duas qualidades do espírito, que vimos serem causas na criação dramática. (Concretizando melhor: temos que ver, primeiro, quais são as normas práticas da cultura que cumpre que comandem o espírito do dramaturgo deste tempo; temos que ver, depois, em que é que, especificamente, essas normas influem na intuição psicológica e no instinto da acção sintética) . Os fenómenos culturais, de que se trata, e que distinguem a nossa época de outras, são, primeiro, e no campo da cultura geral, a extensão, compulsão e intensidade da cultura científica; segundo, e no campo restrito da cultura artística, e desde o romantismo, a tendência para substituir os processos sugestivos aos definidores na realização da obra; terceiro, e no campo ainda mais restrito da cultura teatral, os aperfeiçoamentos especiais do instinto cénico e da arte de representar. * As faculdades do espírito que são envolvidas naquilo a que chamámos o instinto da acção sintética não sofrem, pela agência daquelas causas, e em relação ao critério antigo, alteração notável quanto aos ideais gerais para que tendem. Desde que o drama é criticamente, ou conscientemente, drama, a tendência para aperfeiçoar a acção concretiza-se sempre no sentido de a concentrar o mais possível; nem para outro fim foram imaginadas as celebradas unidades de tempo e de lugar. Não houve nunca, em arte dramática outro ideal, porque tal ideal é o critério de perfeição que se deduz da própria substância do drama. O que o romantismo de parte da Renascença, e depois o romantismo como tal conhecido, realizaram no sentido de fazer predominar o elemento psicológico (como em Shakespeare) ou o lírico (como nos românticos) sobre o elemento dramático não representa uma fase evolutiva, mas um desvio mórbido; não tem por isso interesse para o caso do ideal dramático. Neste campo restrito da acção dramática, a única influência moderna notável é a que provém do acréscimo do instinto cénico, e do aperfeiçoamento da arte de representar. Um e outra têm evoluído no sentido de conseguir uma ilusão cada vez maior de naturalidade e de inevitabilidade. Servo desta necessidade legítima, o dramaturgo moderno tem sido compelido a eliminar progressivamente os artifícios palpáveis do antigo drama — os monólogos, as entradas e saídas mecânicas, a sucessão arbitrária de cenas. Enorme como progresso técnico, este avanço carece de alcance profundo apenas porque deriva das mais, e não das menos, superficiais das causas culturais operantes. De resto, no que respeita ao instinto da acção dramática, as influências culturais mais profundas só operam hoje em um sentido: é quando a acção envolva uma tese, conclusão ou “filosofia”. De per si, a presença de uma tese não aumenta nem diminui, como arte, o equilíbrio ou relevo da obra dramática. A tese é extra-artística no drama, como em qualquer obra não-filosófica por natureza; e, como tudo quanto na arte é extra-artístico, a tese pode aumentar o valor da obra, se é tratada, e nela integrada artisticamente; diminui-o com certeza se o não é, se, por o não ser, representa, pelo menos, um acréscimo inassimilado no conjunto. Ora, na obra dramática moderna, onde haja tese, as causas culturais já citadas operam no sentido de compelir o autor cioso da perfeição a apresentar essa tese de determinado modo. A preocupação artística moderna, de sugerir em vez de exprimir, obriga-nos a que concebamos o ideal dramático neste ponto como o de que a tese, conclusão ou filosofia do drama seja sugerida pelo seu enredo ou conjunto, e não dita por esta ou aquela personagem (em substituição sem vantagem dos coros do drama antigo), não distribuída pelas personagens em indicações ou considerações directas (como nos monólogos que no drama ante-moderno foram o seguimento dos mesmos coros). Ou pelo processo simbólico, em que o drama é, pelo enredo fora, a sombra, passo a passo, de uma ideia (como nos dramas de Maeterlinck ou de Lord Dunsany, aliás falhados pela opressão excessiva do símbolo); ou pelo processo sugestivo, em que a obra no seu conjunto findo leva a uma conclusão (como, sem falha, no drama a que estas considerações servem de comentário) — o facto é que a tese só é admissível ao instinto artístico moderno quando, de uma ou de outra destas duas maneiras, ela se integra na estrutura da obra e com ela se consubstancia, e não se lhe extra- ou justapõe. Neste campo do instinto da acção dramática não produziu a cultura moderna outros resultados, quanto ao ideal que o dramaturgo de hoje procura conseguir; é no campo da intuição psicológica, no conceito do psiquismo individual, que a cultura científica produziu, na mente do dramaturgo, porque na de toda a gente culta, resultados novos e notáveis. * Cinco conceitos predominantes, de origem científica todos, formam hoje parte determinante e insensível da cultura geral, no que diz respeito à interpretação psicológica. Um desses conceitos vem da biologia; três são dados pela ciência psicológica, o quinto é insinuado, mais do que dado, pela ciência, pois que nasce, não dela, mas da filosofia científica. O primeiro conceito, disse, vem da biologia; da ciência do corpo, em que é fundamental, passa por extensão directa para a ciência do espírito, pois que essas duas ciências são, afinal, ambas ciências da vida. É o conceito de que o homem, psíquica- como fisicamente, é, como qualquer outro animal, produto determinado da hereditariedade e do meio. Não interessa, para o caso presente, analisar e esmiuçar o conteúdo desta ideia; apontar, por exemplo, como no próprio conceito de hereditariedade se inclui o seu oposto e complementar, o de variação. No seu alcance geral e absoluto, tal conceito é uma conclusão assente da ciência positiva. Dos três conceitos seguintes — os que a psicologia traz — - o primeiro é directamente psicológico. Deriva daquela aquisição definitiva e fundamental da ciência do espírito, pela qual ela se contrapõe radicalmente à antiga filosofia da alma. Em poucas palavras ele se define por extenso: “O homem é um animal irracional”. Com efeito, contra a pseudopsicologia tradicional, cristã como não-cristã, para quem a alma humana era símplice, a razão a faculdade, não só distintiva, como também impulsiva, do Homem, e a consciência o fenómeno definidor dos factos psíquicos, a ciência psicológica constata que a alma humana, soma de instintos e impulsos herdados e de hábitos adquiridos e insensíveis, é um composto heterogéneo; que a emoção, e não a razão, conduz o Homem como os animais, sendo apenas maior mas não mais activa naquele do que nestes; que a esfera do inconsciente, ou subconsciente, é enorme e activa, e pequena e quase estática a esfera da consciência. Esta tripla conclusão é uma só: o Homem é uma soma heterogénea de solicitações inconscientes, a que uma consciência e uma razão, aquisições recentes da animalidade, presidem como um rei constitucional, que reina mas não governa. A acção humana é irracionalizável, contraditória, absurda. Quanto tenha coerência, é a coerência do temperamento, não do raciocínio. A razão alumia um caminho que não determina. A vontade está sempre sob sugestão post-hipnótica. A mais lúcida e simples das nossas escolhas é inúmera e obscura nas suas origens. A este conceito fundamental da ciência psicológica, uma parte especial dessa ciência, a psiquiatria, acrescenta dois conceitos. O primeiro — deduzível, aliás, da biologia, mas que os psiquiatras constataram independentemente — é o da importância suprema do fenómeno sexual na vida do espírito. A psiquiatria nota, com efeito, que a desagregação psíquica é quase sempre acompanhada pelo desvio sexual. Quase sempre? A mais recente das teorias psiquiátricas diz que sempre. Freud e os seus discípulos, através da “psico-análise”, afirmam a origem sexual de todas as psicoses. Justa ou não esta doutrina extrema, o certo é que a sexualidade domina os factos psíquicos tanto, se não mais, que os físicos; e que a sua importância notavelmente se vê quando se analisam as manifestações mentais de um louco ou de um degenerado. O segundo conceito, que a cultura psicológica geral deve à psiquiatria, é o de que a superioridade psíquica notável é acompanhada por um desvio psíquico, que todo o superior é um doente, ou, em termos mais flagrantes, que o supernormal é, por ser isso mesmo, anormal. Este conceito teve interpretações extremas e absurdas, como em Lombroso; mas ninguém, hoje, duvida de que seja, na sua substância, uma verdade; de que a variação extrema não envolva desadaptação. Finalmente, a filosofia da ciência, e não já a ciência propriamente, trouxe para a cultura geral um conceito importante, que é o último dos que serão aqui citados. E o conceito determinista, que, na aplicação psicológica, se resume na tese de que todo o acto humano é o produto determinado do temperamento e do impulso, ou estimulo, externo. Assim, e à luz deste critério, todo o acto humano é o cruzamento inevitável de duas linhas inevitáveis — o carácter determinado do indivíduo, e o curso determinado dos fenómenos externos. Este conceito pode ser verdadeiro, pode ser falso; mas a verdade é que ele é uma conclusão tão inevitável da soma das aquisições científicas, é uma necessidade tão iniludível da nossa mentalidade culta, que ninguém o contestaria se o dogma religioso, ou preconceito pragmático do livre-arbítrio, se não sentisse por ele desapassado. O que se não pode negar é que o conceito determinista influi subtilmente em espíritos que repudiariam a fé expressa nele; que é um dogma essencial da mentalidade de hoje; que por ele regressou ao espírito humano o antigo conceito, tão profundamente dramático, da Fatalidade. * Quem quiser, à luz destas considerações, percorrer com atenção ainda que rápida a obra dos artistas psicólogos — romancistas ou dramaturgos — modernos, constatará sem dificuldade que, umas vezes conscientemente, outras inconscientementes quase toda a arte de hoje, em que haja elementos psicológicos, tende para uma perfeição que aqueles cinco conceitos orientam e determinam. A que atribuir, senão a eles, tantos estudos da hereditariedade, tantos estudos de “meios sociais”, e da influência deles sobre os homens, na novela e no drama da nossa época? A que atribuir uma tão profusa e tão especial atenção aos desvios sexuais e aos conflitos provenientes desses desvios? A que atribuir uma tão larga cópia de preocupações psiquiátricas na arte psicológica do nosso tempo? Se quisesse citar exemplos, alargaria indevidamente este estudo, que já deveria ser mais breve. Quem ler estas considerações, faça, porém, com suas próprias leituras a demonstração demorada. Verá que quase todas as correntes e contracorrentes da arte psicológica moderna são a revelação de que estes conceitos da ciência, entrados já na substância da cultura geral, e infiltrando-se por isso subtilmente nas mais recônditas inconsciências do pensamento, constituem já sugestões artísticas. O limite da preocupação científica na arte — mas neste caso já inadmissível, e consciente e voluntário demais — é o espantoso acto “O Teatro da Alma”, de Evreinoff, em que a cena é o “interior da alma humana” e as personagens, designadas por A1, A2 e A3, etc., são as várias sub-individualidades componentes desse pseudo-simplex a que se chama o espírito. Mas neste caso o autor fez inteligência demais e arte de menos na obra, que fica pertencendo, como a maioria das inovações literárias e artísticas modernas, não à arte mas às curiosidades da inteligência, como os anagramas, os desenhos de um só traço e os poemas univocálicos. A verdade, porém, é que o artista psicológico moderno não pode já construir uma personagem, integrá-la num enredo, desenvolver esse enredo, sem atender aos cinco conceitos científicos a que me tenho referido. E, na proporção a que a eles atenda, e o faça instintiva e inconscientemente, como a arte exige, ele criará uma obra susceptível de ser duradoura; pois que, adaptando-se a aquisições da ciência, e não a caprichos da moda, adapta-se àquelas conquistas da inteligência que constituem a substância da cultura, a qual, por sua vez, constitui a substância da civilização. Para mim, o valor capital do drama “ Octávio”, o que o torna, a meu ver, notável entre a multidão nula das peças modernas, sejam de que nação forem, é que, por acção [de] um seguro instinto, ele é orientado exactamente no sentido que a cultura moderna impõe como o caminho do dever artístico. Não creio que Vitoriano Braga fosse guiado, ao adequar-se a estas impulsões da ciência, por um esforço consciente, ou, mesmo, por um conhecimento intelectual da cultura científica. Nem, que o fosse, isso lhe serviria, pois que a obra artística deriva de origens mais subtis que a compreensão e o raciocínio; tanto que Ibsen, que quis fazer drama psiquiátrico, não conseguiu, nem sequer de longe, criar personagens tão inteiramente verdadeiras, perante a própria psiquiatria, como Shakespeare, cuja época não tinha a ciência, mas cujo espírito tinha a intuição. Com efeito, a ciência moderna pasma da perfeição sintomatológica com que são delineadas, vivas e concretas, com os traços físicos como os psíquicos, a histero-neurastenia de Hamlet, a demência senil de Lear, a histero-epilepsia de Lady Macbeth. Não importa, pois, que eu não creia que Vitoriano Braga se guiasse conscientemente por o critério científico que expus. Importa, sim, que ele seguisse um instinto que, com a segurança de todos os instintos, se ajustou inconscientemente a esse critério necessário. Sim, o que importa é que, sendo tais as indicações da ciência psicológica, ele, seja de que modo ou por que razão, as tenha deveras seguido. E, com efeito, o drama “Octávio” corresponde, passo a passo, e nos detalhes como no conjunto, às exigências com que a cultura moderna impõe a acção dramática. s.d. Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 87. Fragmento de ensaio sobre o drama “Octávio” de Vitoriano Braga No «Diário Nacional» de 29, no decurso de uma crítica geral, feita ao primeiro número da revista «Centauro», o sr. Alfredo Pimenta alonga-se num número de considerações desfavoráveis sobre a colaboração, nessa revista, do poeta Camillo Pessanha. Tanto porque essa crítica envolve pontos de vista muito contestáveis, como porque um preconceito malévolo, de não sei que origem, a vicia, acho conveniente que sobre ela se não deixem de consignar determinadas considerações. Antes de mais nada, será útil inquirir (e isto é possível sem que se saia das normas mais rigorosas da discussão jornalística) em que assenta o sr. Alfredo Pimenta a competência, que a si confere, para praticar a crítica literária. Entre nós, como, aliás, em muita parte do estrangeiro, a crítica literária está entregue a indivíduos sem preparação alguma para formar um juízo em matéria de arte escrita, quer por uma falta total de cultura, quer por uma especialização excessiva em certas formas de leitura. O sr. Alfredo Pimenta realiza, a dentro da secção especial do jornalismo, o tipo do erudito, contrastando-o com o de homem culto. Creio necessário estabelecer entre o homem de erudição, e o de cultura, uma distinção importante. De certo modo, ela pode ser baseada naquela observação de Walter Bagehot, quando, analisando qual seria a qualidade fundamental do espírito de Shakespeare, verificou que devia ser a capacidade de experienciar, the experiencing capacity . Queria ele dizer que o que caracterizava o espírito de Shakespeare era a sua espontânea tendência para utilizar todos os factos que lhe caíssem sob a experiência para aumento e cultura do seu espírito. A erudição envolve apenas a abundante leitura com a precisa compreensão do que se lê. A cultura pode não envolver uma leitura extensa; o que fatalmente envolve é o que, em geral, é resultado de uma leitura extensa — aquela atitude de espírito que se marca por uma absorção profunda de tudo o que lê, vê, ou de qualquer outro modo experimenta. Temos, pois, que nisto consiste, fundamentalmente, a diferença entre a erudição e a cultura: que, ao passo que a erudição é uma questão de quantidade, a cultura o é de qualidade; que, ao passo que a erudição é uma questão de superfície, a cultura o é de profundeza; que, ao passo que a erudição atinge apenas, nos seus efeitos psíquicos, a inteligência, a cultura atinge todas as faculdades do espírito, incidindo sobre a sensibilidade como sobre as faculdades simplesmente intelectuais. No fundo, a distinção real consiste em que o erudito não é um imaginativo; ao passo que o é o homem culto. Com a diferença de pertencer à espécie jornalística, o sr. Alfredo Pimenta é um exemplo assaz curioso do tipo do erudito. A sua leitura, que é vasta, não produz nele efeitos que passem para além da sua inteligência; ele não se adapta ao meio intelectual que cria em seu torno, com o que lê. Assim, lendo e relendo obras estrangeiras, notando-as e citando-as em abundância, não há trecho dos seus escritos que marque que esse espírito cosmopolita penetrasse no âmago do seu ser. Ele permanece, ao fim de todas as citações de Wildes e de Lorrains, impenetravelmente português, e, o que é pior, provincianamente português. O seu espírito é todo em linhas rectas, sem ondulação nem imprecisão; a sua sensibilidade é sempre a de outra pessoa. Pertence ao tipo vulgar do ledor que vê quadros através dos críticos e sente versos através da interpretação d'eles. Se qualquer coisa bastasse para o provar, serviria o facto de ele ser, como todo o português, escravo da hipnose do estrangeiro. É essa hipnose que o faz preferir as Serres Chaudes aos poemas de Camillo Pessanha, tão evidentemente superiores, o que de resto pouco representa, dado o pouco peso que as Serres Chaudes têm na balança de qualquer crítica esclarecida. A sua admiração out of date por Wilde, que nunca foi uma figura de destaque na literatura inglesa, mas apenas na sociedade inglesa e no meio literário londrino — o que não é a mesma coisa. A sua prosa pesada cai ou manca na civilização inglesa; e do seu verso não se pode falar, por isso que é de grande (...) 1916 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 244. ON THE IDEA OF RESPONSIBILITY In the middle of the human brain, in those wonderful organs in which is centralized the nervous system, which form therefore human consciousness ... in these and nowhere else is the idea of myself. We are bound to admit that this idea is allied to the activity of these organs, because they are the most central in the human brain. Around these are, must be — we have proved it — the cerebral seats of the various passions and of the various emotions, which are all of them susceptible of degrees. The consciousness of the activity, and of the possibility of the activity of those is the consciousness of our own personality. There is no mystery in it; everything is quite clear. Now all human activity is of these various seats of those diverse passions and emotions. Their centralisation is the idea of their implication, of their unity. There is no centre of personality, in a positive meaning of the word «centre». What there is is a centralisation. Now the centralisation of these emotions and, consequently, of their activity, means the consciousness of this personality as Cause (that is, of these emotions and passions). There is this, and there is no more. Consciousness of my Self as Cause — this is the first element of the pseudo‑idea of responsibility. But notice especially, notice well how misleading, how false this conception is. Notice that the real notion of my emotion as cause, centralised, seems to be, in the mind, the notion of the centre as Cause, the notion of myself as Cause. Here then is the true, the real Cause of the pseudo Idea of Free‑Will: the transmutation of the acts of the emotions which are mine into the acts of myself . True, myself is my emotions centralised, but the basis of myself is in my emotions and not in the centralisation of them. If my emotions be decentralized, as happens in instinctive acts, in customary acts, in sleep, in a state of hypnosis — still they can act. But a centralisation, in itself, is an abstraction, is nothing. The emotions are the principal things. The centralisation of nothing is nothing. It is urgent for me here to point out the sovereign importance of this principle. It is the basis of the human, too human, dogmas of the immortality of the soul, of its freedom, of its perfect simplicity. The stupendous realisation of an abstraction which consists in elevating a mere centralisation of emotions, which has a reality by them and in them, and only in so far as they are there all centralized, in elevating this into a reality, into a personality — this is the lowly and feeble basis of the most sorted dogmas, of many and many of the most transcendant speculations. Besides the refutation, by the search for origins, of these traditional dogmas, this principle — not to say, this discovery — gives us a new method in the science of psychology. Psychology ceases to treat and to consider the individual soul, very naturally, because this does not exist. The problem is no longer the problem of body and soul, but the problem of matter and energy, of matter and (of) spirit. The character of mystery which rested upon the human soul was the natural outcome of the realisation of an abstraction. Our psychology must be the psychology of the cell, and our chief inquiry into how colonies of cerebral molecules when in vibration are associated with a sentiment (sensation), such as that of fear. We must cultivate, as Lange enjoined us to do, «a psychology without soul». Do not believe that by this elimination of spirit, mystery disappears from the world and everything becomes clear. The only thing that is done is the elimination of a pseudo‑mystery from the domain of science and from the vague program of pure speculation. The fundamental problem of dualism or of monism remains as fundamental, and as firm as ever. The metaphysical problem cannot ever be shaken by the discoveries and by the revelations of science. (...) 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 215. Our individuality is the consciousness of a memory of sensations, a recognizing and remembering as ours of a past life. Individuality is not in consciousness because then a blow in the lower frontal region would be unable to obliterate personality. Our consciousness remains the same, that of which we are conscious changes. 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 173. Quando te vais a deitar Quando te vais a deitar Não sei se rezas se não. Devias sempre rezar E sempre a pedir perdão. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 99. O rosário da vontade, O rosário da vontade, Rezei-o trocado e a esmo. Se vens dizer-me a verdade, Vê lá bem se é isso mesmo. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 70. Assim, nós vimos que o cristianismo amalgamou elementos que a análise reduz a cinco, mas que, quanto à sua origem, são três: o monoteísmo judaico, o misticismo neoplatónico, e o paganismo da decadência romana (?????). No conflito com o judaísmo, o mais rigidamente judaico cristismo refluiu para a origem, e perdeu-se. No conflito com o paganismo, este, quando não se integrou no cristismo, morreu de todo (?). No conflito com o misticismo neoplatónico, outra coisa, porém, aconteceu. Esse misticismo produziu, entrando em conflito ante-sincrético com o cristismo, a heresia célebre da Gnose. Esta heresia não desapareceu nunca. Opressa, esmagada exteriormente, essa seita de ocultistas tornou-se secreta, desapareceu da evidência histórica, mas não da vida. Não é impossível encontrar, aqui e ali, evidências da sua permanência secreta. E essa permanência oferece aspectos de conflito com o cristismo oficial e sobretudo com o católico. A par do cristismo oficial, com os seus vários misticismos e ascetismos e as suas magias várias, nós notamos, episodicamente vindo à superfície, uma corrente que data sem dúvida da Gnose (isto é da junção da Cabala judaica com o neoplatonismo) e que ora nos aparece com o aspecto dos cavaleiros de Malta, ou dos Templários, ora, desaparecendo, nos torna a surgir nos Rosa-Cruz para, finalmente, surgir à plena superfície na Maçonaria. Os maçons são os descendentes remotos, mas segundo uma tradição nunca quebrada, dos esotéricos espíritos que compunham a Gnose. As fórmulas e os ritos maçónicos são nitidamente judaicos; o substrato oculto desses ritos é nitidamente gnóstico. A Maçonaria derivou de um ramo dos Rosa-Cruz. Pareceria absurdo citar esta subcorrente cristista, se a importância dela na história não fosse, apesar de ser oculta, enorme. Ela agiu fortemente na Renascença e na Reforma; a sua ingerência na Revolução Francesa é assinalada. A natureza do assunto preclui, claro é, que se haja feito um estudo certo dele; mas o que sai pelos interstícios da história não deixa dúvidas a este respeito. A moderna reviviscência dos sistemas ocultistas, notável sobretudo pela importação, nos países de língua inglesa, do chamado budismo esotérico, atroz amálgama de superstições de selvagens, de humanitarismo decadente e de gnosticismo atrapalhado, trouxe outra vez à superfície o que pela Europa havia de restos da tradição oculta da Gnose. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 251. O «Orpheu», revista trimestral de literatura, apareceu em Março de 1915; o segundo número apareceu em Junho d'esse ano, e foi o último. Do ruído que causou, das discussões que fez nascer e do êxito, de diversa ordem, que teve não há mister que falemos; porque, ainda que hajam passado dez anos sobre as datas d'aquelas publicações, todos o não-esqueceram ou o sabem. Como todos os inovadores, fomos objecto de largo escárnio e de extensa imitação. Não esperávamos, para falar verdade, nem uma coisa nem outra; dadas elas, não nos preocupou uma, nem a outra nos envaideceu. Conjuntas, explicariam nosso intuito a quem porventura o não conhecesse. O simples escárnio nada significa; o escárnio de uns, acompanhado da imitação de outros, designa a inovação. Este «Orpheu» diferente, na índole como na periodicidade, com que voltamos à publicidade, significa, apesar de diferente, a continuação do mesmo intuito: o do antagonismo para com a estupidez, a rotina e a incultura. Fizémo-lo primeiro com o exemplo; agora o faremos com o preceito. Não veio o antigo «Orpheu» afirmar que se podia escrever só estranhamente. Enganaram-se aqueles que nos atribuíram o intuito de afirmar que só assim se escrevia. Estas páginas antagónicas prosseguirão (...) 1925? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 129. Rua de 5. Julião, 52, lº. Lisboa, 20 de Junho de 1923. Exmo. Senhor Dr. João de Castro, LISBOA. Em confirmação, e seguimento concreto, da conversa que ontem tivemos, venho apresentar-lhe, esclarecendo-a, a proposta, que fiz, para a tradução das principais obras de Shakespeare, assim como de outras obras, de menor extensão e vulto, porém de igual novidade — pelo menos quanto à forma de traduzir — para os públicos que falam português. De Shakespeare proponho-me traduzir, por enquanto, as seguintes dez peças: «A Tormenta», «Hamlet, Príncipe da Dinamarca», «O Rei Lear», «Macbeth», «Othello», «António e Cleópatra», «O Mercador de Veneza», «Sonho de uma Noite de Verão», e duas outras, sobre cuja escolha não estou ainda decidido, mas que serão provavelmente o «Coriolano» e a comédia «Como quiserdes». As outras traduções, de que lhe falei, deveriam pertencer a uma colecção de pequenos livros, uniformes no formato, no aspecto e no preço, subordinada ao intuito de fazer conhecidos do público português, em selectas resumidas, os principais poetas e prosadores estrangeiros de que ele, por enquanto, pouco mais conhece que os nomes. Para essa colecção, cujo âmbito geral — que vagamente lhe indiquei — naturalmente transcende a possibilidade da minha colaboração exclusiva, eu traduziria, por exemplo, os «principais poemas» de Edgar Poe, de Robert Browning, de Wordsworth, de Coleridge, de Mathew Arnold, de Shelley, de Keats, e, em volumes de conjunto, dos poetas menores da Restauração inglesa (Sedley, Suckling, Lovelace, etc.) e da época vitoriana em seu fim (O'Shaughmsay, Dowson, Lionel Johnson, e outros). Quer para as traduções de Shakespeare, quer para estas, é o mesmo o meu critério de tradutor — transpor para português tanto o espírito, como a essência da letra, da obra. Das traduções de Shakespeare comprometo-me a entregar uma peça por trimestre; das outras um livro cada dois meses. Quanto ao preço, por que seriam pagas estas traduções, creio que o único sistema a adoptar é o sistema das «royalties», como se aplica às traduções d'este género. Esse sistema é o mais justo para ambas as partes e ajusta-se por natureza a todas as flutuações de preços de livros e de cálculos da sua produção. Proponho, pois, nesta orientação, que tanto umas como outras traduções me sejam pagas pela mesma tabela — vinte por cento do preço de capa, na ocasião da entrega do manuscrito da tradução; e isto não deve ser de cálculo difícil, pois que a editoria por certo sabe a quanto vai vender o exemplar ao público, e de quantos exemplares vai fazer a tiragem. Pedi ainda, numa espécie de postscripto à minha proposta, tal como primeiro verbalmente a fiz por intermédio do sr. Geraldo Coelho de Jesus, que, por conta d'estas traduções me fosse abonada, até ao fim do mês de Junho corrente, a quantia de dois mil escudos. Como tenho prontas, e sujeitas apenas à necessária revisão final, a tradução de «A Tormenta» de Shakespeare e a dos «Principais Poemas» de Edgar Poe, tendo adiantada a dos «Principais Poemas» de Robert Browning, não tardará muito que a entrega dos manuscritos equilibre o adiantamento que peço. Acresce que, de aqui a não muito tempo, terei pronta também a tradução do «Hamlet». É esta proposta, desdobramento e concretização do que verbalmente tratámos, que peço o favor de transmitir oficialmente à editoria de que é gerente e sócio. Agradecendo-o antecipadamente, subscrevo-me, com a maior consideração. De V. Exa. Mto. Atto. e Obgdo. 20-6-1923 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 94. Não tragas flores, que eu sofro... Rosas, lírios, ou vida... Ténue e insensível sofro O céu que se não olvida! Não tragas flores, nem digas... Sempre há-de haver cessar... Deixa tudo acabar... Cresceram só ortigas. 18-5-1922 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 42. HER FINGERS TOYED ABSENTLY WITH HER RINGS There are fallen angels in the way you look And great bridges over silent streams at your smile. Your gestures are a lonely princess dreaming over a book At a window over a lake, on some distant isle. If I were to stretch my hand and touch yours that would be Dawn behind the turrets of a city in some East. The words hidden in my gesture would be moonlight on the sea Of your being something in my soul like gaiety in a feast. Let your silence tell me of the numberless dreams that are you. Let the drooping of your eyelids prolong landscapes far away. The jets of water return on the listening of being untrue And this is the flower I pluck, with a sound, from what you unsay. Blossoms, blossoms, blossoms along the road of your going to speak. Eighteenth century gardens, so sad in the middle of our drearning them now, Are the way you are conscious of yourself on your eyelids, by your lips, through your cheek. A sick child sees the rain blur through the window of what you allow. Do not footfall the silence that is the palace where our consciousness Is living at seeing gardens our duplicate lives of one soul. What are we, in our dream of each other, but a picture which is The masterpiece of a painter that never painted at all? s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 388. Publ. in «Oito Poemas Ingleses Inéditos». Georg Rudolf Lind. in Estudos sobre Fernando Pessoa . Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981. I. O drama, como todo objectivo, compõe-se organicamente de três partes — das pessoas ou caracteres; da entreacção dessas pessoas; e da acção ou fábula, por meio e através da qual essa entreacção se realiza, essas pessoas se manifestam. Produto subjectivo assim composto, o drama provém de três qualidades — do instinto psicológico, que cria e enforma os caracteres, e depois os vai descobrindo uns por meio dos outros; do instinto dramático, que inventa ou renova a fábula, e dispõe o seu seguimento; do instinto artístico, que ordena a operação dos outros dois na construção harmónica do todo, como na execução formal de cada parte. Ao dramaturgo, para que de natureza o seja, são necessários estes três instintos; e, se o nome há-de valer como elogio, um ou outro tem que haver nele em grau notável. Conviria, por certo, que nele existissem todos, não só em grau notável, senão também no mesmo grau; para que a obra fosse, ao mesmo tempo, inspirada e harmónica. Mas a imperfeição da natureza humana não permitiu ainda que um engenho tal nascesse; seria porventura um monstro de perfeição, o monstrum vito carens , do poeta. Houve, sim, um Shakespeare, psicólogo sem igual, porém artista irregular e dramatista imperfeito; houve um Molière, grande dramatista, porém artista e psicólogo insuficiente; e outros houve que não esqueço, e omito. Só dos gregos, pelo instinto de harmonia que os distinguiu como povo, houve quem, num nível que na psicologia não é o de Shakespeare, nem na arte da acção podia ser o de Molière, juntasse aquelas três qualidades — predominando, contudo, a artística — em quase igual plenitude. II. Àquelas três qualidades chamámos instintos, como, com diferente propriedade, poderíamos ter chamado intuições. Entendemos, em primeiro lugar, empregar um termo por onde logo se visse que são, não faculdades distintas da inteligência, movidas de fora pela vontade, e por isso, como não sofrem alteração, impotentes de exceder os limites próprios da inteligência, que por natureza compreende mas não cria; porém, aplicações diferentes da mesma inteligência, que, enformada por impulsos distintos da índole, se consubstancia com eles, para que operem, tomando de cada um a sua distinção especial, como também a sua qualidade genérica, que é a de criar. Se dos dois termos aplicáveis elegemos, como melhor, o de instinto, foi porque a esta razão uma outra ainda se juntou. Não há dramaturgo verdadeiro sem que exista nele em grau notável uma ou outra daquelas qualidades; e são necessariamente, como acabámos de ver, não faculdades da inteligência, senão disposições da índole. Quando, porém, uma disposição da índole existe em nós em grau notável, e de modo, portanto, que determina o carácter e as inclinações, essa qualidade, por tal ser, denota que é uma fixação da hereditariedade, embora por variação, e que por isso em tudo se assemelha — mais, se identifica — ao instinto. Como os três instintos do dramaturgo, além do que seja comum a todos os instintos, têm, de próprio, vista a sua aplicação, o seu uso necessário da inteligência, com exactidão poderemos chamar-lhes instintos intelectuais. Com o emprego deste termo não esqueceremos, nem que são instintos, para que constantemente oponhamos a sua operação à operação da inteligência, quando a mova só a vontade consciente; nem que são intelectuais, para que, quando essa oposição se faça, não se esqueça que é a substância da qualidade operante, e não o meio por que opera, o por onde ela se distingue da inteligência. III. Quando, guiados por estes princípios (e por que outros, que não estes, nos guiaríamos?), nos propomos determinar, como críticos, qual o valor de um dramaturgo ou de uma obra dramática, temos que empreender uma dupla investigação. Investigaremos, primeiro, se deveras se trata de um dramaturgo, se apenas de um escritor dramático; ou, por outras palavras, se o dramaturgo o é de instinto, ou de inteligência; se a obra, produto de um impulso natural da índole, pode, pois que o é, significar um valor do seu género, ou se, simples composição da inteligência, de modo nenhum pode ser mais, no género a que pertence, que uma habilidade da literatura, bem desempenhada embora no que nela seja estranho a esse género. Feita que seja esta primeira determinação, e quando dela resulte que a obra, com efeito, provém do instinto, e não procede da inteligência, teremos que determinar a força do instinto, que se moveu para produzi-la, com o que teremos determinado o valor do autor, como dono desse instinto. Mas a esta investigação especial e concreta cumpre que preceda a genérica e abstracta, dupla como aquela: qual o sinal necessário, pelo qual se distinga objectivamente um produto do instinto de uma composição da inteligência ? Qual o sinal gradativo, por onde se meça, num produto do instinto, a quantidade ou força do instinto que o produziu ? Esta investigação vamos fazer, e, em um e outro caso, quando feita na generalidade, daremos a sua aplicação especial ao caso da arte dramática. Senhores, por fim, dos princípios que dela resultem, poderemos obviar um pouco a que o defeito virtual da crítica — que é o ser naturalmente subjectiva — nos desvie de um critério, quanto possível, objectivo e científico. IV. Antes, porém, que penetremos no ádito mesmo do assunto, não será porventura supérfluo que ministremos alguns esclarecimentos, para que, no curso da leitura do que vai seguir-se, não lembrem dúvidas e objecções que afinal procedam, já do mau entendimento dos termos que se empregam, já do conhecimento imperfeito dos limites em que esta dissertação forçosamente tem que recolher-se. O termo “drama”, como até aqui o empregámos, serviu de designar o género, e não qualquer das suas espécies. Como o que seja dito do género forçosamente se poderá aplicar à espécie, o que do drama dissemos poderá entender-se da espécie trágica como da cómica, da em prosa como da em verso, da directa ou representativa, que trata das acções humanas e da vida real, como da transferida ou simbólica, em que nem as pessoas são propriamente humanas nem a acção humanamente possível. Não é assim o que do drama diremos. Como não nos propomos escrever aqui um tratado do drama, indicando todas as suas espécies e a cada uma atribuindo os seus distintivos próprios, senão apenas fazer um estudo, cuja aplicação final tem que convir a um drama representativo, especialmente nos ocuparemos dos característicos dessa espécie do drama. Quando, portanto, doravante escrevermos “drama”, muitas vezes poder-se-á entender o género, todas aquela espécie. Também os termos “instinto” e “inteligência”, de cuja distinção já demos fé, serão diferenciados com maior exactidão nos capítulos que vão ler-se; não há mister, portanto, nem teria cabimento, que por enquanto esclarecêssemos melhor em que se distinguem. Como, porém, ao fazer a distinção exacta entre essas duas qualidades, teremos em vista uma aplicação especial, não nos ocupará estabelecer entre instinto e inteligência a distinção completa, própria só de um estudo exclusivamente destinado a esse fim. Lembrados, sim, que estudaremos o drama, e que para esse fim estudamos os instintos intelectuais, de cuja operação ele procede, olharemos, mesmo na distinção geral, menos ao em que ela genericamente consiste, que ao em que se manifesta nos actos intelectuais, sejam de compreender, sejam de inventar. Posto isto, para que só possa não compreender quem não possa compreender, podemos dar curso à investigação a que nos prendemos. V. Distinguem-se a inteligência e o instinto quanto aos objectos, a que se aplicam; aos meios, de que para essa aplicação se servem; e aos fins, a que propriamente se destinam. A distinção primária reside, porém, na da natureza dos seus fins. A inteligência, como tem por fundamento a consciência, tem por fim o conhecimento ou compreensão, que é o com que a consciência se define; o instinto, como tem por fundamento a vida, tem por fim a acção, que é o em que a vida se manifesta. A inteligência tem, por isso, por próprio o ser passiva e receptiva, como o é a consciência; como tem por fim a acção, o instinto tem por próprio o ser activo e criador. A inteligência, ainda quando, como quando elabora ou dispõe, em certo modo crie, não manifesta nos seus produtos outros característicos que não sejam os que a distinguem como qualidade essencialmente passiva. O instinto, mesmo quando, como no conhecimento intuitivo, em certo modo compreenda, não revela na sua compreensão outros característicos, que não sejam os que o distinguem como qualidade essencialmente activa. Feita esta distinção quanto aos fins, por meio dela desde logo se realiza a distinção quanto aos objectos, implícito como está o conhecimento do objecto, a que uma qualidade necessariamente se aplica, no conhecimento do fim, a que ela necessariamente se destina. Como tem por fim compreender, a inteligência tem por objecto o universal ou geral; como tem por fim operar, o instinto tem por objecto o particular. Não pode haver compreensão — e por isso se diz que não há ciência — do particular, pois que o único acto de consciência, que pode haver do particular absoluto, é a sensação absolutamente simples. Tão-pouco pode haver acção sobre o geral, pois que, sendo o geral abstracto, a acção sobre o geral seria a simples intenção de operar, a acção virtual apenas. Como, pois, tem por objecto o universal, a inteligência tem por qualidade a extensão; como tem por objecto o particular, o instinto tem por qualidade a intensão. E a inteligência, como quanto mais forte mais extensa, quanto mais forte for, mais lenta terá que ser. O instinto, por contra, como quanto mais forte mais intenso, quanto mais forte for, mais rápido será. Só dos dois primeiros pormenores desta distinção há, porém, mister que nos ocupemos, sendo que na obra de arte le temps ne fait rien à l’affaire . Aplicando este critério para, na relação com um objecto a compreender ou um produto de compreender, distinguir as operações da inteligência e do instinto, temos que a inteligência, como por natureza é extensa e ascende ao universal, quanto maior for, com maior número de objectos relacionará aquele em que se emprega; sendo que o instinto, quanto maior for, e por isso mais intenso e concentrado, com menor número de objectos relacionará o em que se aplica, e mais completamente o considerará sozinho. O instinto, pois, quanto mais forte for, mais pronta e exclusivamente se inteirará da essência do objecto, pois que o considera em ele próprio; a inteligência, quanto mais forte for, mais seguramente resolverá o objecto num sem número de ligações e de referências, aproximando-se, sim, das suas causas e efeitos, porém, afastando-se da sua essência. E por isto que se dá o caso, tantas vezes visto quantas estranhado, de um intuitivo entrar com tamanha segurança na compreensão de um assunto, de que um inteligente, por mais que o considere, e por mais que lhe vá acertando com os acidentes, não alcança a essência verdadeira. Distingue-se, pois, o produto, que o é primariamente do instinto, daquele, que o é da inteligência, em que, no primeiro, o essencial está com certeza obtido, o acessório ou acidental possivelmente por obter; quando, no segundo, o acessório está mais ou menos expresso, o essencial necessariamente por exprimir. Podemos, já agora, aplicando este princípio à arte dramática, estabelecer em que se distingue o drama, produto do instinto, do drama, composição da inteligência. Três são, como no começo vimos, as partes objectivas do drama, e às objectivas temos que atender, considerando um produto feito; são elas as pessoas, a entreacção das pessoas, e a fábula. O essencial, quanto às pessoas, é que sejam naturais e humanas, e, como elas se manifestam pelo diálogo, a virtude prima do dramaturgo, neste ponto, é que escreva um diálogo natural; quanto à entreacção das pessoas, que provenha de seus caracteres, e não da fábula, que deve ser como a condição, e não a causa, da entreacção; quanto à fábula, que pareça proceder da entreacção dos caracteres e não da invenção do autor, acontecer porque eles existem e não para que eles existam — que pareça, na verdade, ser, não fábula, senão vida. Parece, sem dúvida, que estes requisitos objectivos dos instintos dramáticos, como são fáceis de expor, serão também fáceis de alcançar; julgareis que uma inteligência prudentemente aplicada conseguirá, sem grande esforço, a sua execução. Como em tudo quanto é do instinto, assim parece e assim não é. Considerai, com crítica segura, qualquer drama vulgarmente célebre; vereis quão poucas vezes o diálogo, a entreacção, a acção, são como na vida, quão poucas a produção dramática apresenta aqueles sinais necessários do produto do instinto. Escritores inteligentes há muitos, porque há muitos homens inteligentes, e que o são ainda mais por cultivados; o dramaturgo de instinto, porém, tem que nascê-lo, e a natureza é menos pródiga de valores, que os homens da imitação deles. Ver-se-á isto melhor reparando, depois de nos essenciais do drama, nos seus acessórios. São acessórios principais do drama: quanto às pessoas, que o seu diálogo seja em linguagem inteligível e, quanto caiba, boa; quanto à entreacção das pessoas, que não seja absurda quanto aos seus motivos; quanto à fábula, que seja plausível e, quanto possa ser nova. Isto, sim, podereis encontrar, não só, com outras qualidades, nos dramaturgos de instinto que sejam também cultivados, como também, sem essas outras, nos bons escritores que a inteligência, não o Destino, fez dramaturgos. VI. Provado que um dramaturgo o é de instinto, não está com isso provado que ele tenha valor como dramaturgo, porém apenas que pode tê-lo. O ser de instinto é a condição do valor, não o valor mesmo. Determinados já, portanto, os sinais necessários, pelos quais se conheça, de pronto, o produto do instinto, caberá agora descobrir qual possa ser o critério seguro, pelo qual, nesse produto, se distinga o maior do menor, se determine, de um instinto e por isso de seu dono, quanto vale e porque o vale. Servir-nos-á de guia nesse descobrimento a distinção, que falta fazer, quanto à inteligência e ao instinto; é ela a distinção que entre eles há quanto aos meios de que se servem. A inteligência, como tem por objecto o universal ou geral, tem necessariamente por meio o particular; como alcançaria ela o universal, senão partindo do particular, que tira da sensação, em que ela se apoia, e que só do particular tem conhecimento? O instinto, como tem por objecto o particular, tem forçosamente por meio o geral; pois como procuraria ele o particular, se não se guiasse pelo geral, que tira da inteligência, por quem se manifesta, e que só no geral tem aplicação? Como, pois, tem por meio o particular e por natureza a extensão, a inteligência alimenta-se com quanto de particular a amplie e a desenvolva, lhe dê maior facilidade em generalizar — ideias particulares, factos concretos, sensações definidas, com que a memória se enche e o raciocínio se instrui. Como, por contra, tem por meio o geral e por qualidade a intensão, o instinto alimenta-se com quanto de geral o concentre e o defina, lhe dê maior exactidão em operar — não factos, mas resultados; não sensações, porém estímulos; não ideias particulares, senão gerais. Como a inteligência tem por objecto o universal ou geral e a extensão por qualidade, o seu valor ou força residirá na amplidão com que generalize; como, porém, tem a propriedade de ser passiva e de receber todos os factos ou ideias particulares que a sensação lhe entregue, e como nem todos eles convirão às generalizações que haja de fazer, segue que não há entre o em que consiste a sua força e o em que consiste a sua experiência uma correlação perfeita, pois que, não as ideias particulares que recebe, porém o uso que delas faz, é que denota essa força. Do instinto, como tem por objecto o particular e por qualidade a intensão, o valor consiste na completidão com que se aposse, no objecto particular para que tende, na essência dele, que é o que o denota como particular. Como o que denota uma coisa como particular é a ideia geral que define a espécie a que esse particular pertence, e como a essência de um objecto, limitada por natureza, necessariamente se define por um número limitado de ideias gerais, o instinto tanto mais completamente se apossará do objecto, quanto mais completamente tenha a posse das ideias gerais possíveis, que especialmente convenham ao fim de definir a essência desse objecto. E como o instinto é por natureza activo, e por isso não só procura, em vez de receber, a experiência, senão procura só a que lhe convém, rejeitando por inútil toda a outra, o número de ideias gerais, de entre as possíveis, convenientes ao seu fim, que haja aprendido, dependerá da sua força, pois que da força com que houver tendido para esse fim, e houver procurado, portanto, os meios para consegui-lo. Vemos, pois, que a completidão, com que se aposse da essência do objecto particular a que se aplique, e o número de ideias gerais, das possivelmente convenientes ao seu fim, que manifeste, servem indiferentemente de denotar o valor ou força de um instinto. Por isso, sendo que na inteligência é o uso do conteúdo, e não o conteúdo, que denota a força; no instinto o conteúdo e o uso dele são exactamente correlativos, ou coextensos, qualquer deles podendo portanto denotá-lo. E, como destes dois sinais do valor, o conteúdo, como consiste em ideias gerais que o uso forçosamente manifestou, é que é o sinal veramente objectivo, temos que, para investigar o valor de um instinto, servir-nos-á de indício seguríssimo o número de ideias gerais de entre as possíveis, convenientes ao seu fim, de que esse instinto mostre ter-se aproveitado. VII. Das duas partes, de que se compõe esta distinção, a que diz respeito à inteligência terá sido bem compreendida; a que diz respeito ao instinto pode ser que, por mais abstrusa, o tenha sido menos; e como, para o fim a que olhamos, nos importa sobretudo compreender bem o que aqui se esclareceu do instinto, julgamos próprio o passo para, por meio de um exemplo simples, e seguindo todo o caminho do que houvemos ocasião de afirmar do instinto, tornar clara, de todo, a explicação. Sirva-nos de exemplo o instinto de comer. O instinto de comer tem por fim operar — a operação, ou acção, de comer. Tem por qualidade a intensão, porque o mais seguro instinto de comer será aquele que mais seguramente escolha para comer só aquilo que serve para ser comido; não a extensão, pois que dum maníaco que, além do que todos comem, comesse terra, não diríamos que tinha um mais perfeito instinto de comer que um homem vulgar. Tem por objecto o particular, porque o que se come há-de ser uma coisa particular, ou concreta; ficaria, por certo, mal alimentado quem jantasse pão virtual e a ideia de carne. Tem por meio o geral, porque escolhe, entre todas as coisas, aquelas em quem reside de comum a propriedade de servirem para ser comidas, isto é, aquelas a quem é comum a ideia geral de edibilidade; e a esta ideia geral esse instinto acrescenta, as mais das vezes, algumas outras, como a de palatabilidade, a de utilidade, etc. Mas essas ideias gerais não poderão ser em grande número, porque a essência do objecto, que serve para se comer, é, como tal, limitada. Por último, o mais perfeito instinto de comer mede-se pela aplicação, por quem o possui, do maior número de ideias gerais possíveis, que convenham ao fim de comer, isto é, a definir a essência de um objecto em relação a ele servir para ser comido. Quem, em comer, se guie só pela edibilidade, terá um instinto de comer inferior a quem se guie também pela palatabilidade; e assim por diante. Não será porventura supérfluo acrescentar que, ao guiar-se por estas ideias gerais, o instinto — como difere da inteligência, e por isso não é, em substância, consciente — faz delas um uso inconsciente; nem sabe que são ideias, nem gerais, nem que as aprendeu, nem que houvera de aprendê-las. Como, porém, as ideias gerais são objecto da inteligência — e por isso dissemos que o instinto as tira da inteligência, embora não entendêssemos que o fizesse conscientemente — , e como portanto não só o instinto, e inconscientemente, senão também a inteligência, e conscientemente, pode aprendê-las e aplicá-las, caberá ainda explicar como se podem distinguir, num mesmo produto em que colaborem instinto e inteligência, quais, das ideias gerais que apareçam aplicadas, as que provêm daquele, as que procedem desta. Sabedores já do em que o produto do instinto se distingue daquele que a inteligência realiza, não sofrerá dúvida que, das ideias gerais, convenientes a certo fim, que apareçam no produto, serão do instinto as que estiverem integradas no que no produto é essencial, serão só da inteligência as que simplesmente se encontrem ligadas aos acessórios dele, ou constituindo-os. Isto dito, poderemos entrar na aplicação especial do que genericamente se estabeleceu. VIII. Temos, pois, que se mede objectivamente o valor ou força de um instinto pelo número das ideias gerais possíveis, convenientes ao seu fim, que empregou. São três os instintos do dramaturgo — o psicológico, o dramático, o artístico. Quais são as ideias gerais possíveis, convenientes ao fim de cada um? Como eles são, não só instintos, senão instintos intelectuais, essas ideias são necessariamente de duas ordens para cada um: as que a cada um convêm como intelectual, e as que a cada um convêm como psicológico, ou dramático, ou artístico. Ambas essas ordens de ideias definem a essência do objecto de cada instinto destes; mas as primeiras, como são relativas ao género, definem a essência primária, a essência secundária as segundas, porque são relativas à espécie. Consideremos a primeira ordem de ideias — as que convêm a um instinto intelectual simplesmente como intelectual. Como ele é um instinto, tem por objecto o particular; porém, como é intelectual, tem por objecto esse particular no seu aspecto universal. Como, porém, o aspecto universal de um objecto particular é simplesmente o ser universalizável, e o ser universalizável deriva da ideia geral de universalidade, temos que, afinal, esta ordem de ideias é uma ideia só para qualquer instinto intelectual — a ideia geral de universalidade. Se aplicarmos este princípio aos três instintos do dramaturgo, veremos que a ideia geral de universalidade, quanto ao instinto psicológico, é que possa dar cada pessoa que crie, não só como particular, senão também como universalizável, isto é, como, sem que deixe de ser particular, representativa da humanidade; quanto ao instinto dramático, que possa dar cada acção, não só como particular, senão também como representativa da acção humana; quanto ao instinto artístico, que possa dar ao conjunto da obra, como ao de cada parte de por si, não só a sua significação particular, senão também a sua significação geral. Servir-nos-á, para esclarecer estas afirmações, o exemplo do emprego por Shakespeare do instinto psicológico. Confessam os psiquiatras, que na matéria são os competentes, que a pessoa do rei Lear representa um desenho perfeito de um caso de demência senil; nós, simplesmente homens, não há mister que sejamos dementes senis para sentir, no seu conjunto como a cada passo, a verdade humana daquela pessoa. Sendo, pois, tão rigorosamente dada como particular, que pode ser assunto de um diagnóstico, mas, ao mesmo tempo, tão rigorosamente dada como geral, que qualquer de nós escusa de saber isso para a sentir, a pessoa de Lear denota o emprego da ideia geral de universalidade pelo instinto psicológico de Shakespeare. No mesmo autor se encontra, no dizer das mesmas autoridades, um bom número de casos análogos, como o da histero-neurastenia de Hamlet e o da histero-epilepsia de Lady Macbeth. Nesta altura, porém, reparamos que os característicos objectivos do emprego da ideia de universalidade pelos instintos do dramaturgo coincidem com aqueles característicos que dissemos indicarem a essência do drama, e que serviam de denotar se o autor era dramaturgo de instinto, ou se o era de inteligência. Sendo assim, a ideia geral de universalidade serve apenas de denotar a essência do instinto intelectual como intelectual, não de medir o seu valor ou força. Não que em absoluto para tal não sirva, ou que não haja, entre os dramaturgos de instinto, graus ou quantidades diferentes na aplicação da ideia de universalidade. Essa ideia, porém, não ministra sinal objectivo nenhum pelo qual se meça o valor do instinto. Por isso, abandonando-a para esse fim, nos voltamos para a segunda ordem de ideias, que, relativas à espécie e não ao género do objecto de cada instinto dramático, definem a sua essência secundária. IX. As ideias gerais possíveis que convenham aos fins dos instintos do dramaturgo, não já como intelectuais, porém como psicológico, dramático e artístico, são necessariamente aquelas ideias gerais que orientam a psicologia, a crítica dramática, e a estética, pois são estas disciplinas que definem os objectos daqueles instintos. Como, porém, estas disciplinas procedem da operação do espírito na investigação incompletável da verdade, não poderemos determinar todas as ideias gerais, que caibam em cada uma dessas disciplinas, senão apenas aquelas que se estabeleceram até uma certa época; e esta época tem que ser, para qualquer dramaturgo, a época em que ele vive. Para a aplicação final dos princípios, que descobrimos, a um dramaturgo do nosso tempo, temos pois que assentar em quais são as ideias gerais que definem a cultura psicológica, a cultura dramática, e a cultura artística da nossa época. O talento de um dramaturgo estará manifestado no número dessas ideias, de que cada um dos seus instintos se tenha servido. Quando se dê um caso como o de Shakespeare, cujo instinto psicológico se serviu de ideias psiquiátricas que a sua época lhe não podia administrar, diremos que se trata de um dramaturgo, não já de talento, porém de génio; mas um dramaturgo de génio, como se serve, pela adivinhação do instinto, de ideias gerais que a cultura não descobriu ainda, e que para ela, portanto, tanto podem ser ideias certas por descobrir, como desvios do recto caminho, não pode nunca ser avaliado pelos seus contemporâneos, a não ser por um ou outro cujo instinto coincida em alcance com o dele. Serve esta advertência de indicar que uma investigação raciocinada, como esta que vamos fazendo, poderá, sendo esclarecida, acertar com a medida exacta do talento de um dramaturgo; não poderá determinar se, além de talento, ele tem génio. Quais são, porém, as ideias gerais que orientam a cultura da nossa época na psicologia, na crítica dramática, na estética? Vamos vê-lo, e como são em número menor, e de ordem mais simples, as que dizem respeito às duas últimas disciplinas, começaremos por estas, deixando as que se referem à psicologia para serem tratadas em último lugar. (...) 1916? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 96. O essencial em arte é a forma como a ideia ou o sentimento é sentida; a ideia em si nada tem com a obra d'arte senão, se isso, subordinadamente. Assim o célebre monólogo de Hamlet sobre o suicídio e a morte não contém basilarmente senão ideias das mais vulgares e medianas; mas tem duas qualidades artísticas supremas: a dramática da forma do pensamento assim expresso ser a natural a Hamlet, e a poética, de serem as expressões escolhidas sublimes e líricas de natureza. Já o mesmo se não dá com poesias como a Divina Comédia de Antero, ou, melhor ainda, os dois sonetos formando a «Disputa em Família». Aqui não há só a forma maravilhosamente simbólica de idear em si a ideia basilar, há essa própria ideia basilar, profundíssima, por exemplo, nos dois sonetos segundamente citados. Como se deve portar a crítica n'um caso d'estes? Não há dúvida que há mais intelecto nos dois sonetos de Antero do que no célebre trecho de Shakespeare; mas seguirá de aí que os dois sonetos são superiores ao monólogo de Hamlet? É uma questão espinhosa, cujo problema é este: se no avaliar do artista entra o avaliar do homem intelectual todo? Se não entra, e dado que o artista-intelectual nada tenha escrito a não ser poesia, cometemos uma injustiça para com ele, pois excluindo-lhe a inteligência da nossa apreciação, lhe rebaixamos o génio. Se tomamos em conta, porém, a base intelectual da sua arte, estaremos fazendo crítica estética ou não misturamos, por erro, a crítica estética com a filosófica e, talvez, a psicológica? A solução do problema não apresenta grande dificuldade. Porque evidentemente se algum poeta escrevesse um drama tendo o poder de concepção, intuição e arte do Rei Lear e, a mais, ideias e concepções originais e fundas, esse poeta, além de granjear um lugar à parte, entre os filósofos, seria maior do que Shakespeare. Isto é evidente. Mas não é d'isto que se trata. Queremos saber é que proporção tem, para o crítico, na adjudicação da grandeza ao artista, a ideia basilar e a forma imaginativa da ideia. Porque, claro está, um filósofo alienado que se lembre de escrever boa filosofia em versos impossíveis, ficará considerado como um mau artista mas terá do mesmo modo o seu lugar na história da filosofia. Ninguém fala de Xenófanes ou de (...) como poetas; são filósofos que escreveram em verso, e ainda assim em verso que não é positivamente mau, mas que não chega a ser artístico (criticamente falando). O caso é porém, que o que em arte é essencial é o valor estético da forma da ideia; dado que a forma seja bela a poesia que a exprime será tão boa quanto a ideia é levantada e grande. Eis tudo. Um poeta não é apenas um artista; não trabalha sobre forma apenas, como o escultor, nem sobre forma e cor apenas, como o pintor, nem sobre sons apenas, como o músico. É sobre todas que trabalha. E sobre ideias também. De maneira que, de dois poetas igualmente grandes na forma de idear, será maior aquele cuja ideação maior for. Fora da igualdade em ideia ou forma de ideia, não há critério seguro para determinar qual a grandeza relativa de dois ou mais poetas. Assim quem quisesse determinar sobre quais eram superiores, dos sonetos de Shakespeare e dos de Antero de Quental, achar-se-ia em dificuldades. A expressão íntima da ideia, a forma da ideação é tão superior em Shakespeare quanto é em Antero a ideia em si; na expressão exterior não se avantaja qualquer d'eles sobre o outro (adaptação maravilhosa das imagens e do ritmo à essência sendo igual em ambos). Assim, não descendo a minúcias psicológicas, para o crítico podem considerar-se iguais como sonetistas os dois poetas em questão. Antero não podia escrever: (cite characteristic Shakespearianism ), conquanto no seu género chegasse a (...). Mas S[hakespeare], se, dado que o quisesse fazer, pretendesse dar a agonia (...) do soneto NOX de Antero, não era capaz, a não ser que mudasse de psiquismo, de se elevar talvez nem sequer à compreensão de ideias como as que são poeticamente contidas em sonetos como (cite). s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 246. Indicação inicial: «Estética». A MORAL DA FORÇA Cap. I Toda a noção moral pressupõe e em si inextrinsecamente inclui 3 conceitos: (1) o conceito de valor, (2) o conceito de utilidade, (3) o conceito de autoridade. O 1º tem em comum com a arte. O 2º em comum com a ciência. O 3º com a religião. A noção de valor pertence apenas àquelas manifestações em que a perfeição é impossível — ante a moral. Definindo, pois, temos que um sistema moral é a noção de valor que uma sociedade, para Ihe ser útil, impõe a todos que nela queiram viver. Temos aqui os três princípios — valor, utilidade e autoridade. Ora há uma só coisa primordial que preencha essas condições — a força . A força vale (porque há graus nela — imperfeição indefinida); a força é útil , é a coisa essencialmente útil; e só a força pode, primordialmente, ter autoridade, porque é a única coisa que, por sua natureza, a pode impor. A beleza tem valor, mas não tem autoridade — directa , pelo menos, não a tem. A ciência é útil directamente, mas não tem directamente valor. A sua noção fundamental [...] exclui o valor. ( Importa não confundir valor e utilidade ) . * Graus: (1) A moral do poder (ou da força). (2) A moral da inibição (a melhor desta é o estoicismo). (3) A moral do ideal (inibição em vista de um ideal). 1914? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 220. Sentia uma indignação tremenda quando mulheres riam de qualquer coisa obscena ouvida ou vista. A princípio ele queria crer que era puramente indignação moral. Mas tão ardente era o seu ódio contra elas ao vê-las rir que, maugrado seu, foi analisando-se, e descobriu que era porque elas sabiam o que aquilo significava, que era porque antes, mesmo, tinham praticado actos daqueles. O mero facto de uma rapariga virgem perceber aquelas coisas - enchia-o de ódio. O mero acreditar que os outros tinham mais experiência d'aquilo que ele, enegrecia-lhe a alma de ódio horroroso. Uma raiva imensa derramava-se-lhe pela alma fora. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 25f. «Marcos Alves» Personality can no more be infinite than quantity can. Supreme personality is no longer personality, infinity is not number at all. Infinite personality is no personality at all. In the first place personality is not a conventional term like «character» (in a restricted sense), of which one man may possess more than another man. In personality there are no degrees. Personality, properly speaking, means and implies 2 things, existence and modality of existence. Substance and quality — this personality means. It may be said and truly that, for instance an atom has personality, by this definition. There is no reason why an atom should not have a personality. Or perhaps in personality there is understood the idea of intelligence, of will, of sensibility. 1910? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 173. É limpo o adro da igreja. É limpo o adro da igreja. É grande o largo da praça. Não há ninguém que te veja Que te não encontre graça. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 99. Castanhetas, castanholas — Castanhetas, castanholas — Tudo é barulho a estalar. As que ao negar são mais tolas São mais espertas ao dar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 71. Resposta à carta de Santa Rita Pintor. Em papel de «Orpheu». Lisboa, 21 de Setembro de 1915 Meu caro Santa Rita: Agradeço-lhe comovidamente a proposta que me faz na sua carta de 19, que apenas ontem à noite me foi entregue na Brasileira do Rossio. Comovidamente, porque essa carta representa bem o seu interesse por «Orpheu», e portanto não pode deixar de impressionar com agrado a quem foi um dos fundadores espirituais da revista. Infelizmente, e por duas razões, é-me impossível aceitar essa proposta. Em primeiro lugar, não me compete a mim — que nenhuma parte financeira tenho na revista — dispor de qualquer modo d'ela. Qualquer opinião minha sobre o assunto redundaria, mesmo, numa indelicadeza para com o Sá-Carneiro. Há, porém, uma outra consideração que não posso deixar de fazer, sobretudo porque sei que, nela, o Sá-Carneiro concorda comigo. A revista «Orpheu» representa uma determinada corrente, a cuja testa estão o Mário de Sá-Carneiro e eu. A transferir para alguém essa revista, só podia ser, como no exemplo baconiano da traditio lampadis dos antigos, ad filios, aos discípulos, na carinhosa frase empregada tanto (num sentido oculto) pelos teosofistas, como (num sentido apenas metafórico) pelo próprio Mestre Francis Bacon. Não posso por isso, meu caro Santa Rita, encarar afirmativamente a sua proposta, embora do coração lh'a agradeça. De resto, «Orpheu» não acabou. «Orpheu» não pode acabar. Na mitologia dos antigos, que o meu espírito radicalmente pagão se não cansa nunca de recordar, numa reminescência constelada, há a história de um rio, de cujo nome apenas me entrelembro, que, a certa altura do seu curso, se sumia na areia. Aparentemente morto, ele, porém, mais adiante — milhas para além de onde se sumira — surgia outra vez à superfície, e continuava, com aquático escrúpulo, o seu leve caminho para o mar. Assim quero crer que seja — na pior das contingências — a revista sensacionista «Orpheu». Creia, meu caro Santa Rita, na reciprocidade da amizade e da admiração do (assinado) Fernando Pessoa. 21-9-1915 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 130. O defeito, a fraqueza, do sebastianismo tradicional reside, não em ele, senão em a deficiência e a fraqueza de seus intérpretes. Ignorantes, decadentes, ensinados a crer pelo espírito católico, esperavam de fora o Encoberto, aguardavam inertes a salvação externa. O Encoberto, porém, é um conceito nosso; para que venha, é preciso que o façamos aparecer, que o criemos em nós através de nós. É com ânsia quotidiana, com uma vontade de hora a hora, que em nossa alma o devemos erguer, de ali o projectando para o mundo chamado externo (também outra nossa criação). O Encoberto é o representante máximo do Quinto Império; é o emissário máximo das forças espirituais que hão-de criar tal Império. Como podemos esperar que ele venha se não criamos primeiro as forças que, por sua vez, a ele o hão-de criar? E essas forças são a ânsia de domínio, e a tensão de todas as potências da alma em torno d'essa ânsia. Deve cada um de nós fazer por em si realizar o máximo que pode de semelhante ao Desejado. A soma, a confluência, a síntese por assim dizer carnal d'essas ânsias será a pessoa do Encoberto. Não há homens salvadores. Não há Messias. O máximo que um grande homem pode ser é um estimulador de almas, um despertador de energias alheias. Salvar um homem a um povo inteiro — como o poderá fazer, se esse povo inteiro não fizer por salvar-se — isto é, se esse povo inteiro não quiser ser salvo? «Obra tu a tua salvação» diz S. Paulo; e o grande homem é aquele que mais profundamente compelir cada alma a, de facto, operar a sua própria salvação. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 97. N. do A.: «Bandarra». THE LOST KEY Set out from sight of shore! Grow tired of every sea! All things are ever more Than most they seem to be. What steps are those that pass outside my door? Fail out from shape and thought! Let sense and feeling fade! O sadness overwrought With joy till bliss is strayed! What birds are those that my swift window shade? But be those steps no steps, And be those birds dreamed wings, Still one ache oversteps The life to which it clings, Though to know what ache no step in me helps And what this pang is no bird in me sings. s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 388. O romance é a explicação dum carácter; o drama é apenas a criação dele. 1913? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 113. I cannot but speak of the sentiment of fear to which I was always a prey. Thus any mysterious thing, while it fed in me the passion for analysis and for mystery, shook and thrilled me with fear. A word written on the wall of my room which perchance I had not perceived before, made me rush out of the room. For moral philosophy, for all philosophy besides metaphysics, philosophia prima, I cared nothing except in so far, and that was little, as it gave room for the subtleties I adored. Thus I wrote down aimlessly and carelessly anything. Immediately after I wrote I trembled with fear and wondering what might be the hidden meaning of the very words I had written. Otherwise, I believe I was normal. I was not less courageous, I believe than any normal boy. I was not given to timidity in society. My one horror was the unknown; my one fear was that which is without name. Yet though I had in my character a love of mystery and of mystification, a love of obscurity and of (...) Yet nevertheless let it not be believed that I was a lover of falsehood. No, all these being as they were, I was yet a sincere lover of truth, a sincere (...) Yet was my ardent philosophic desire that truth should ever be striven for and should never be found. I was a sceptic. Never a materialist for materialism lives not with doubt. My ardent love of mystery, of unreality, of dream united with my love of truth to make me [?] conceive a truth and by essence a thing beyond this world entirely, something all essence in which essence and attribute (...) Yet as soon as I conceived it [...] But I believed this world to be a revelation, a manifestation, and truth to be that passage of Dionysius of God: that all thing rev[eled] him to us (...) And I pondered also on those words of Boaventura. A hasty spirit and one fond of superficial paradoxes (which are traits of a similar spirit), might think a right assertion that the fear I drew from the perusal of those extraordinary words [?] was a pleasant fear. But this I, a more severe analyst, never shall assert. No fear at all is pleasant; there is no trick of mind that can make a similitude of contraries out of such things as a pleasure and a fear. It may be say that there is no need to said this, since it seems that no man is prone to confound a pleasure and a pain. Yet my reason for saying this is that my own first impulse was to write that I felt a pleasant fear upon doing this. Yet the error is in confounding and in making one two different coexistent things such as a fear and a pleasure. These coexist, yet they are not the same. But there was in me an impulse to say I felt a pleasant fear, because there was in me, at the same time, a fear and a pleasure. Nay more, these — fear and pleasure — were the effects of one cause upon 2 parts, two faculties in my character. The union and coexistence of these in one subject i.e. in myself, gave rise to the peculiar delusion of a pleasant pain. It is in the same way [thus] that the schoolboy escaped from bounds feels, as Gray described, a «fearful joy». Yet what he feels is joy at being free, fear at the possibility of being caught. Both his fear and his pleasure are by his freedom of the while, yet one is the affection of his sentiment of fear and another the stirring of his sensation of liberty. I found soon that my constitution was thus: that I was afraid that any truth might be found — any metaphysical truth. Why this fear; I was astounded there at the philosophies of the scholastics I loved. For instance in the philosophy of the schools this question is somewhere propounded: «if a prostitute can regain her virginity by the power of the grace of God?» This question which is extraordinary, it is opined, and absurd, when it is caused. I could never make to myself sufficiently ridiculous or sufficiently mad. I was ever unable to regard it absolutely, before general truth. I always looked upon it relatively, in regard to the time (though I had nothing in me of a historian). It always appeared to me in this way conditioned. Given as true the Grace of God, the power of it upon earth, all the themes of the Church, in fine, then the question has relation to this. And I, who believed neither in God nor in his grace, pondered deeply over this question. For what reason then was it? I did not live in the time of the later sophists and I had not the spirit of Protagoras. What was the world to me? Nothing, a zero; yet a zero full of mystery. A nothingness, yet a nothingness without a name. The world appearing to me thus, I was all desire to make it appear uncertain, to make human science appear impossible. Did I not love dearly Heraclitus, was I not thrilled by a great joy when first I read that things were not, but eternally became? I did. Yet I relished as deeply and as truly the refutation of this in the Thaeaetetus of Plato. I loved, I delighted in proofs or arguments that were against human reason, which showed its weakness and its impotence before truth. Why did I wish this? was it to exalt a God? was it to make man feel unworthy? was it to make him desirous of another and of a better life? No it was cut from this? s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 247. MORAL DA FORÇA O altruísmo, em seu excesso é contra a moral, porque a moral não sendo mais do que uma expansão da personalidade (individualista de todo), tudo quanto rebaixa a personalidade é imoral. O altruísmo é, como tudo em que o subjectivo não antepara o objectivo, um sintoma de desequilíbrio; neste seu exagero é exactamente idêntico em natureza à avareza, [...] O único fim do altruísmo é completar por uma expansão, a personalidade; desde que o meio de expansão se torne um fim , dá‑se uma coisa de degenerescência, como tudo quanto envolve uma confusão de meios com fins, isto é, uma confusão de funções, basilarmente. 1914? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 221. I 1. O facto fundamental do universo é haver consciência dele. (Mais perfeitamente falando. O facto fundamental ou objectivo é haver consciência). 2. O segundo facto fundamental, incluído no primeiro, é que essa consciência é de qualquer coisa. 3. O terceiro dado fundamental é deduzido destes dois e envolvido neles — é o existirem sujeito e objecto como bases de uma realidade. 4. O quarto dado fundamental é que a Realidade (o Universo) é a relação entre esse sujeito e esse objecto. 5. O quinto facto fundamental é que a condição dessa relação é o tempo. 6. Visto que todo o trabalho mental versa sobre a Realidade e que a Realidade é a Relação do Sujeito e do Objecto, todo o trabalho mental versa sobre a relação entre o S [ujeito] e O[bjecto]. 7. Há 3 modos de encarar essa relação: 1) inquirindo do que sejam esse Sujeito e esse Objecto, 2) inquirindo do que sejam as relações entre eles sem querermos saber o que elas são, 3) inquirindo do que sejam relações em si. Isto é: 1) O que é a Realidade em si? 2) De que se compõe a Realidade? 3) Como se compõe a Realidade? Isto é: 1) A metafísica. 2) A ciência propriamente dita. 3) A matemática. II 1. Visto que a ciência estuda as relações entre Sujeito e Objecto, o dado fundamental para a ciência será aquele que seja o dado fundamental do fundamento da relação entre S[ujeito] e O[bjecto], isto é, a condição fundamental para o exercício da consciência — isto é, o Tempo. O Tempo é o primeiro dado científico: a ciência não o discute, admite-o. 2. O segundo dado, é o espaço, o número. O espaço é aquilo em que o número existe. Distinguir entre o tempo puramente tempo e o tempo pensado como espaço [...]. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 9. Quando agora me sorriste Quando agora me sorriste Foi de contente de eu vir, Ou porque me achaste triste, Ou já estavas a sorrir? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 99. O manjerico e a bandeira O manjerico e a bandeira Que há no cravo de papel — Tudo isso enche a noite inteira, Ó boca de sangue e mel. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 71. Meu caro Santa Rita: Aí lhe mando a colaboração do Sá-Carneiro, segundo as instruções que ele me mandou, em carta chegada ontem. Tenho pena que seja pouco extensa essa colaboração, mas, enfim, mando os poemas que ele me indicou. Na segunda-feira deve aí ter a minha colaboração. Tenho tido muito que fazer — coisas aqui do escritório — e só amanhã me posso realmente dedicar a passar os meus poemas a limpo. Diga-me qualquer coisa a respeito da sua Revista. Quando a manda imprimir? Já falou ao Ângelo de Lima? O Raul Leal mostrou-me ontem o trecho do seu Manifesto ou Prefácio, em que se refere ao Sensacionismo. Acho que está muito bem, como expressão de opinião. Claro está que não concordo com a sua interpretação, mas isso nada tem para o caso de que se trata. Garanto-lhe de antemão que é com muito interesse que lerei o seu Manifesto. Disponha sempre, meu caro Santa Rita, do todo seu (a) Fernando Pessoa 23-10-1915 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 131. THE SUNFLOWER I All things that shine are God's eyes. All things that move are God's speech. Every thing has all to teach To our awakening surmise. Green are God's thoughts when they are leaves, Yellow when sunflowers they are. Yet they shine separate and far From the hands wherewith God weaves. Light are my steps on the ground Yet they do echo through space, Through terrible abysses that face God at the side never found. II My dreams are angels' kisses. Lightly they touch my heart, Tip‑toe shadow caresses. They are my Godder part. There is a flower in my hand. It is not found in fields. God looks and can understand, For He is the dreamer who builds. He knows how dreams are set up, He knows how flowers are made glad. Look: I hold up my cup And God gives me wine to be mad. I. 11-6-1915; II. 6-5-1915 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 390. 1ª publ. in Fontes Impressas da Obra de Fernando Pessoa . José Galvão. Lisboa, s.d. Chamo teatro estático àquele cujo enredo dramático não constitui acção — isto é, onde as figuras não só não agem, porque nem se deslocam nem dialogam sobre deslocarem-se, mas nem sequer têm sentidos capazes de produzir uma acção; onde não há conflito nem perfeito enredo. Dir-se-á que isto não é teatro. Creio que o é porque creio que o teatro tende a teatro meramente lírico e que o enredo do teatro é, não a acção nem a progressão e consequência da acção — mas, mais abrangentemente, a revelação das almas através das palavras trocadas e a criação de situações (...) Pode haver revelação de almas sem acção, e pode haver criação de situações de inércia, momentos de alma sem janelas ou portas para a realidade. 1914? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 113. Thousands of theories, grotesque, extraordinary, profound, on the world, on man, on all problems that pertain to metaphysics have passed through my mind. I have had in me thousands of philosophies not any two of which — as if they were real — agreed. All the ideas I had if written down had been a great cheque on posterity; but by the very peculiar character of my mind, no sooner did the theory, the idea struck me that it disappeared, and after I ached to feel that one moment after I remembered nothing — absolutely nothing of what it might have been. Thus memory, as all my other faculties predisposed me to live in a dream. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 248. A velha regra — pensar antes de agir — sofre alterações na realidade. A prática obriga frequentemente a agir sem ter tempo para pensar. Por isso uma das qualidades que mais convém que o homem prático desenvolva é a de saber pensar à medida que age, a de ir construindo em caminho a própria direcção do caminho. Isto tem a desvantagem de ser absurdo, e a vantagem de ser verdadeiro. 1915? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 222. As duas origens do erro são atribuir ao Objecto, à Realidade, 1º os atributos do Sujeito, da Consciência, 2º os atributos da Relação. Assim, quando se atribui infinidade ao mundo, atribui-se-lhe um atributo da Consciência, e a Consciência tem esse atributo em virtude de oposição à Realidade. Cada coisa é finita; a Consciência, sendo oposta a cada coisa, tem-se por infinita; atribui à soma (?) das coisas essa infinidade sua. Número / ¥ = 0 Número / 0 = ¥ Qualquer número não é finitamente divisível; também não é infinitamente divisível, pois nesse caso dava zero. Por isso o número não é divisível. Os números não são em número finito, nem em número infinito. Não são em número finito, porque isso é inconcebível e repugna ao próprio conceito de número; não são em número infinito porque o infinito não se adapta ao Real — (?) Por isso os números não são números. O que são então? Os números existem, mas não em relação uns com os outros. Atribuímos à pluralidade das coisas uma sensação, isto é, um elemento racional; atribuímos-lhes uma relação, que é um erro derivado de transpor o conceito abstracto de Relação para a Realidade. — A mesma coisa acontece se transpusermos para a R[ealidade] o conceito concreto de Relação, que é o movimento. Dividimos os conceitos primordiais em ser e não-ser. Todos os conceitos assim se formam, por dois a dois, um derivado da R[ealidade], outro da C[onsciência]. A abstracção da R[ealidade] é o Ser, a abstracção da C[onsciência], isto é, da não-realidade, é o Não-Ser. (Não é ser [...] no Budismo, estar na Consciência Absoluta é estar no absoluto Não-Ser). Mas, se coisarmos estes conceitos, ainda que abstractamente, temos o seguinte resultado: atribuímos Realidade ao Não-Ser. Ora «não-ser» só tem «realidade» como conceito lógico. O que é infinito é a Possibilidade. O infinito é uma alucinação da inteligência. A R[ealida]de não é Una, porque a ideia de unidade vem da C[onsciência], sendo unidade indefinida; e de cada coisa, é realidade definida. A Realidade não é plural. Quando dizemos que 1 e 18 estão à mesma distância do infinito, consideramos o infinito como um ponto. Na geometria, vem uma linha prolongada até ao infinito. Num plano, o prolongamento de uma linha até ao infinito, quer dizer o seu prolongamento absoluto, sem o qual não há mais. (Mas o seu prolongamento absoluto quer dizer o seu prolongamento em direcção absoluta). Prolongada até ao infinito dos dois lados, estes dois lados tocam-se, porque ambos estão no mesmo «ponto» — o infinito. Estes lados, portanto, encontram-se. A linha, portanto, desde que seja infinitamente prolongada, torna-se um círculo. Desse círculo, a linha, que nós vemos, é parte da circunferência. Essa circunferência não pode ser infinita, porque, sendo essa linha parte da circunferência, e sendo qualquer parte do infinito infinita, ela não é infinita. Para prolongar uma recta até ao infinito, era preciso um tempo infinito. O prolongamento não é portanto dado como realmente, mas como teoricamente, possível. Elimina-se o conceito de tempo, e é possível o espaço infinito. Semelhantemente, eliminando o conceito de espaço, é possível (concebível) o tempo infinito. (?) Os números só podem ser tidos por esse número infinito. (A Realidade não é nem una, nem plural, mas diversa. Cada número não difere de outro relacionalmente (por quantidade, qualidade ou posição) — pois isso implicaria atribuir à Realidade a Relação (erro de transposição). Cada número difere de outro entitivamente, formalmente, materialmente, (como matéria), como um triângulo difere de cão encarnado entre ideias abstractas. 1 não difere de 2 por estar antes ou depois ou por ser notado. A coisa a que chamamos 1 é que difere da coisa a que chamamos 2, por outridade. Mas quando 2 coisas diferem uma da outra em virtude de outridade absoluta , não podemos relacioná-las senão contradizendo essa outridade absoluta já posta. Partindo desta tese: Uma coisa, como tal, é absolutamente outra. Suponha-se (outra vez) essa coisa infinitamente divisível. Cada ´parteª (dessa divisão infinita) é zero. Mas como aqui o conceito não é de número mas de outridade (nesse caso não se aplica o c[onceito] de divisibilidade? ex.), cada parte, sendo zero, é não-outridade, isto é, é identidade. Mas identidade com quê? Com outra coisa? Não; porque cada coisa é outra em relação a outra. Com a própria coisa dividida infinitamente? Não, porque isso seria não a dividir. Mas como cada coisa é outra, e uma parte é uma coisa (e esta não existe, e não é parte nem nada), essa parte zero, é zero da coisa dividida, isto é, é essa coisa permanecendo tal qual é, mas diferente e assim se vê que a identidade é com as outras partes dessa coisa. Assim, uma coisa é 2 em virtude de não ser 1, 4 ou outro número qualquer, não em virtude de duas vezes 1, ou metade de 4. Por isso 2, concebido como infinitamente divisível é extra-aritmético. É infinitamente divisível, em cada parte, sendo 0 esse número, é 0 da divisão de 2: é portanto um zero de qualquer 2. É uma coisa que não existe, ou participe de 2; que não existe senão em relação ao 2. Não é um número, isto é (visto que aqui os números são as «realidades») não é uma realidade, mas é um 2. Suponhamos duas coisas; estas coisas, são 2 não em virtude de serem coisas, mas em virtude de serem 2. Não importa o que são; importa só que são 2 (duas). Como realidade, portanto, este 2 que elas são, não existe; mas existe (...) Vejamos se nisto há correspondência com o que acima se disse. Este 2 é 2 porque o é; porque não existe, é zero. Tem aqui, portanto, uma parte infinitesimal numa das tais partes infinitésimas, de 2. Em vez de 2 ponhamos «brancura». A neve em certo mármore tem de neve a brancura, que não é a brancura que tem a neve em a brancura que tem o mármore mármore. Ora o 2 indivisível é o 2 que é só 2. Ora há só um 2 que é só 2. Há só uma brancura que é só brancura. É o 2, e a brancura. 1912? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 11. Boca que o riso desata Boca que o riso desata Numa alegria engraçada, És como a prata lavrada Que é mais o lavor que a prata. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 99. Tem a filha da caseira Tem a filha da caseira Rosas na caixa que tem. Toda ela é uma rosa inteira Mas não a cheira ninguém. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 71. Meu caro Santa Rita: Aí lhe mando cinco páginas de poemas meus. São (excepto o último, que é excessivamente simples e mal merece, na verdade, o nome de «poema sensacionista») tanto na índole da sua Revista quanto eu pude conseguir. É pena que eu não tenha mais poemas-intersecções, porque esses é que, verdadeiramente, tinham cabimento neste caso. Naturalmente v. quererá mais poemas meus. Por isso não assinei as páginas que lhe mando. E diga-me se quer que tire o Plenilunio. Eu inclui-o para estabelecer uma transição para uns cinco sonetos que tencionava juntar, mas que, afinal, me ficaram em casa. «Estabelecer uma transição» não está bem. Seria melhor dizer «repousar o leitor», porque os cinco sonetos são de estranheza superior quase até à Hora Absurda. Mando-lhe também o frontispício para os poemas do Sá-Carneiro. Num postal, que chegou hoje, é que ele m'o indica. E também, felizmente, me pede para lhe enviar mais dois poemas. Como não os tenho aqui, mas em casa, só poderei enviá-los amanhã. Desculpe-me estas várias demoras. Todo seu (a) Fernando Pessoa. 24-10-1915 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 132. Lisboa, 13 de Abril de 1928. Exmo. Senhor Director do Jornal do Comércio: No artigo de Augusto da Costa, inserto hoje no Jornal do Comércio, e em uma honrosa transcrição, que nele se faz, do meu folheto recente O Interregno, encontra-se uma gralha, de uma só letra, que, por fazer sentido num sentido errado, peço a V. Exa. licença para apontar. No final d'essa citação está impresso o seguinte: «Nem, no longo e triste curso das três dinastias filipinas — a dos Filipes, a dos Braganças, e a República — houve mais que a minguada e passiva estirpe dos Sebastianistas liberais que em algum modo mantivesse viva e amada a memória da alma de Portugal». Não escrevi liberais: escrevi literais. E, como é de ver, com esta palavra literais entendi designar aqueles velhos Sebastianistas que tomavam à letra o Regresso profetizado de El-Rei D. Sebastião, Nosso Senhor; que enganadamente supunham pessoal e carnal esse Regresso. Implicitamente os opus àqueles outros Sebastianistas que, como Augusto da Costa e eu, esperamos e confiamos nesse Regresso no seu alto sentido simbólico, que é o verdadeiro. De V. Exa., respeitosamente, (Fernando Pessoa) 13-4-1928 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 98. I Os seres, objectos, ou figuras, a que chamamos exteriores, manifestam-se à nossa sensibilidade, primeiro, como formas; segundo, como grandezas; terceiro, como em movimento ou em repouso. Assim os concebemos, porque os sentimos, a todos — não menos o muito pequeno que o muito grande, tanto a árvore como sua sombra. II As condições, quaisquer que em sua essência sejam, da sensibilidade obrigam a que nada possamos conceber de exterior, que não com estas três características, e com elas todas juntas. O que vemos, ou concebemos ou imaginamos visível, força é que tenha uma forma, que assuma uma grandeza, que esteja parado ou movendo-se. Porém, pela operação mental, a que se chama abstracção, arbitrariamente separamos umas das outras estas 3 condições da apresentação externa dos seres, e, assim, arbitrariamente separadas e considerada cada uma de per si, forçosamente a concebemos abstracta em sua própria natureza, pois que, separando-a das outras a destituímos do seu carácter concreto que reside em estar junta a elas. E, como é por esta operação da mente que construímos a ciência, são três as ciências abstractas do exterior que daqui nos provêm. Da forma considerada per si, tiramos a ciência chamada geometria, com suas diferentes subdivisões. Da grandeza, considerada per si, e portanto como múltipla (pois não há grandeza senão comparada, nem comparação onde houver só unidade), como diversa (pois que não haveria grandeza onde não houvesse senão multiplicidade de iguais) e como relativa (pois conforme a grandeza que escolhemos, ou a que estamos habituados, medimos os outros ou todos), construímos a ciência dos números, das variações e das relações, a que chamamos álgebra ou aritmética, ou numerologia. Da consideração de que um corpo está parado ou movendo-se extraímos a dinâmica, com suas subdivisões várias — a ciência do movimento e das condições dele. III Considerando porém qualquer objecto externo não como ente abstracto analítico ao mesmo tempo fictício, inevitável e necessário, senão como abstracção sintética, procurando vê-lo, não na essência dos seus elementos componentes, senão na essência dele mesmo, composto, veremos que, de qualquer ser, objecto, ou figura [...] bastará que digamos, para defini-lo, que ocupam espaço, e que há outros que ocupam espaço. Do ocupar espaço lhe provém a forma, pois pela forma se define para nós a sua ocupação de espaço; de ocupar espaço lhe provém o termos que concebê-lo em movimento ou em repouso, pois, aparte o volume que se define imediatamente pela forma, não há ocupação do espaço sem o movimento, e o repouso não é mais que o movimento. [...] Em outras palavras: a extensão e o número são as consubstâncias do objecto exterior. E, visto que assim é, chamamos coextenso ao próprio objecto externo, ou espacial; definimos coexistente: qualquer ser externo, objecto, ou figura espacial concebendo que não é o único ser, objecto ou figura espacial. IV Desde que consideramos um coexistente como ocupando espaço, e como não sendo o único a ocupar espaço, implicitamente admitimos, primeiro que há espaço que ele não ocupa; segundo, que outros que não são ele. E não querendo nós, ou porventura não podendo mesmo, saber o que é espaço, ou quanto espaço há, nem que actos coexistem lá, e portanto são; mas sabemos tão-somente, que há espaço, e que há outros coexistentes; diremos, figurando por A um coexistente próprio, por S o espaço que liga, e por T o total dos coexistentes todos, que fora do coexistente A há um espaço S-A, e além do coexistente A há T-A coexistentes. Chamaremos convenientemente ao valor S-A o antiespaço do coexistente A, e ao valor T-A o seu antinúmero. As especulações, que constituem a substância do opúsculo presente, são, por assim dizer, páginas médias arrancadas de um estudo mais vasto, em que mais perfeitamente profundam, ou buscam profundar-se, os elementos constitutivos da realidade física. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 15. A moça que há na estalagem A moça que há na estalagem Ri porque gosta de rir. Não sei o que é da viagem Por esta moça existir. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 71. INTERSECCIONISMO lº grau: e. g. Intersecção da pintura e da literatura — quadros futuristas. 2º grau: e. g.: intersecção da (...) N'uma arte há: (1) a apercepção típica d'essa arte. (2) a ideação típica d'essa arte. (3) a realização típica d'essa arte. Temos interseccionismos pois: (1) de apercepção: (...) (2) de ideação: Gustave Kahn, Maliarmé. Sobre uma apercepção literária uma ideação musical. (3) de realização: (...) A Chuva Oblíqua intersecciona a (...) Artes visuais — o simultâneo no espaço, no tempo e na ideia. Música — o simultâneo no tempo e na ideia. Literatura — o simultâneo na ideia. 1914? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 133. Manifesto Não só rei novo, como também monarquia nova. Nem a monarquia de caceteiros, que os miguelistas representam; nem a monarquia de conselheiros, que é pertença de manuelistas. Nada brigantino. Rei que fugiu, deixou de ser Rei. Como tudo quanto é alma portuguesa anseia pelo Rei, esse Rei é o Desejado. Como não sabemos quem há-de ser o Rei, ele é, para nós, o Encoberto. Assim se cria em nós o velho anseio sebastianista, único religiosismo verdadeiramente português. Na madrugada da era que para nós começa, através da névoa das nossas dúvidas e das nossas incompreensões, voltará, do fundo da alma da raça, o Rei da raça dos navegadores, D. Sebastião. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 99. UMA TEORIA MATERIALISTA Para se poder conceber a infinita divisibilidade da matéria, é insuficiente que e]a se conceba em pensamento. O que o pensamento concebe como infinitamente divisível não é a matéria, é a ideia abstracta de matéria. Desde o momento que conceba a divisibilidade da matéria tem de se conceber um ente que divide e um instrumento com que se divide. Para conceber pois, propriamente, a infinita divisibilidade da matéria, temos que conceber ou um indivíduo dividor que num tempo limitado dividisse a matéria infinitamente, ou um instrumento infinitamente perfeito pelo qual essa divisão infinita se fizesse (excluída que fosse, para pôr o problema no seu devido campo, a ideia de tempo). Ora isto é impossível. Igualmente inconcebível é o infinito do tempo e do espaço como realidade. Desde o momento que se supõe o espaço infinito, fica posto este problema: dois pontos separados nesse espaço são equidistantes do limite (infinito) desse espaço; são portanto coincidentes. Por isso ou não existem lugares, e então não há espaço, ou isso é impossível, e, então, o espaço não é infinito. Com o tempo, o mesmo se dá. Dois momentos do tempo estão à mesma distância do princípio inexistente (suposto tal) do tempo. São portanto o mesmo momento. Mas se dois momentos diferentes são o mesmo, nada decorreu, não há portanto Tempo. A verdade é que em ambos os casos se substitui à ideia de tempo e de espaço, a ideia da ideia do tempo e do espaço, que em ambos os casos se considerou o espaço abstractamente, como não contendo lugares — o que viola a sua natureza essencial — e o tempo não contendo momentos, isto é, como não durando, o que é igualmente falso, e contra a própria noção de tempo. Tem se feito filosofia refractamente, não pensando as coisas, mas pensando os nossos pensamentos. Quase como queria Spinoza, dum lado está o pensamento, do outro a matéria. Qualquer conceito matemático, como o que uma quantidade dividida por zero dá infinito, indica claramente que quantidade não é divisível, porquanto o divisível por qualquer coisa não pode nunca dar uma coisa maior que ela; e supondo que zero não divide realmente, nesse caso não há divisão. X dividido por infinito dá zero indica claramente que X não é divisível por infinito, se tal divisão dá zero, isto é, nada, pois que uma coisa divisível por outra dá qualquer coisa; ou então X não é divisível por nada. A matemática é uma ciência só dentro de si própria. Não é aplicável à realidade. Causa — A ideia de que uma coisa é causa de outra implica (1) ou que A desaparece para dar B, e nesse caso permanece A e não desaparece, (2) ou A cria B e nesse caso não há causa mas criação absoluta, (3) ou A provoca B a existir sem o tirar nem do nada nem de si próprio. Então só o pode tirar de B; isto é, B já existia. Mas não pode A produzir B por um processo A — X = B? Ou então por um processo A plus X = B? No 1º caso não há causa, há subtracção, e no 2º soma, e também isso não é causa. 1916? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 18. Lenço preto de orla branca — Lenço preto de orla branca — Ataste-o mal a valer À roda desse pescoço Que tem que se lhe dizer. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 72. Interseccionismo no 1º grau — ou interseccionismo material. — Intersecção das realizações artísticas. O dos futuristas e dos cubistas, que interseccionam pintura e literatura, escultura e literatura. Interseccionismo de 2º grau: o dos processos artísticos. Interseccionismo de 3º grau: o dos géneros de inspiração. Interseccionismo de 4º grau: o dos objectos de inspiração. Os românticos tentaram juntar. Os interseccionistas procuram fundir. Wagner queria música + pintura + poesia. Nós queremos música x pintura x poesia. 1914? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 134. D. Sebastião, no seu triplo carácter de Rei (isto é, Rei Nacional), de Desejado e de Encoberto. Estamos na Era do Desejado. Finalmente vem o Encoberto. É este o nome de Osíris, cujos membros dispersos — as diferentes religiões — serão então reunidos, extinta a Igreja de Roma, na verdadeira Igreja Católica, na religião, por fim, universal. E então se poderá ver o que o iniciado de Patmos chamou «um céu novo e uma terra nova.» s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 100. Artigo para A Águia ... acrescido duma entrevista altamente provocadora, num semanário de Lisboa, em que contudo a nossa pobre cidade, que habita a sombra tão sossegadamente, lhe mereceu dois secos remoques. Pouco importa isto em geral, e em particular, mormente, o que a meu respeito ouvi. Quero, em todo o caso, pagar-lhe, fazendo-lhe a justiça que merece que lhe seja feita. E a princípio lhe direi que, se discordo de que ele seja, como se intitula, o maior poeta do mundo, não deixa de ser um dos maiores da nossa época e da nossa terra. (...) é com elementos perfeitamente espiritualistas que constrói o edifício do seu materialismo absoluto. Por mais que ele queira encontrar nas coisas «existência» e não «significação» basta ler a poesia numerada (...) para se ver quanto — e flagrantemente — sai da órbita das meras, auto-(...), atribuições inspiracionais. A poesia é esta (a borboleta...) Estimo em mim a circunstância de ao mesmo tempo que admiro profundamente estes versos magníficos, poder apontar ao seu autor que cometeu misticismo puro. Tratar-se-á, talvez, de um misticismo às avessas, com uma aplicação nova e especial; mas do misticismo não pode haver dúvida nenhuma. O materialista espontâneo e absoluto nunca faria a distinção ultra‑intelectual, ultra-metafísica, ultra-mística, entre uma borboleta como borboleta e o movimento e a cor das suas asas, consideradas estas, como movimento e cor abstractos . Sim, não se trata de uma forma de ver dentro do materialismo do Poeta; aqui há um ponto de vista abstracto e estranho ao materialismo. No fundo, a sua observação é tão pouco materialista e concreta que ele (repara) numa folha numa determinada árvore como numa determinada flor: é sempre ver árvores, ver folhas abstractamente. Podia ser como homem da cidade, de livros apenas, afastado de tudo quanto é natureza e os problemas dela, tal o seu afastamento de quanto, na natureza, é realmente realidade, (...) Um homem que diz que não há «árvores» (no plural) mas «muitas vezes uma árvore» podia ter ido mais longe, no [...] lógico do seu materialismo aqui apenas mental, corpóreo e não materialista, e ter reparado em que «árvore», na sua teoria, não existe. Só existe tal carvalho, tal sobreiro, tal eucalipto — mais, nem «eucalipto», «sobreiro» ou «carvalho», abstractamente existem, nem «árvore» é «realidade» alguma. O que o sr. Alberto Caeiro faz é uma abstracção concreta . Veste de concreto uma tendência abstracta, que, naturalmente não de propósito, não deixa atingir o seu máximo de abstracção, mas que fica, bem reparando, nem abstracta nem concreta. E o materialismo abstracto foi tornado, por conseguinte, num materialismo extremamente relativo. No sr. Alberto Caeiro toda a inspiração, longe de ser dos sentidos, é da inteligência. Ele, propriamente, não é um poeta. É um metafísico à grega, escrevendo em verso teorizações puramente metafísicas. Repito que o admiro, que o admiro extraordinariamente. Mas não apraz à minha análise chamar-lhe um poeta abstractamente materialista. É um filósofo abstractamente materialista aureolado de alma em um poeta abstractamente místico. Creio no Deus em que o sr. Caeiro não crê que existe como afirmação do sr. Caeiro e como verdade pura. Assim como para materialista o acho espiritualista em extremo, e como para poeta o acho filósofo em excesso, para espontâneo acho-o consciente de mais. Sei o que é pensar auto-objecções [...] ao ler O Guardador de Rebanhos pois reparei como o Poeta aqui e ali, nesta ou naquela altura dos seus versos, vai sub-repticiamente ou não, respondendo às objecções possíveis. Assim (...) Toda a sua obra, para quem sabe, analisando, olhar para além do seu primeiro aspecto de desordenada e casual, é extraordinariamente calculada, medida, reparada . Por muito que repare para as coisas, o sr. Alberto Caeiro repara razoavelmente para si próprio. Enganará os incautos da crítica; mas para quem, como eu, não vê, no dado, senão o analisável, (...) Torno a repetir que admiro extraordinariamente o sr. Alberto Caeiro e que o acho um dos maiores e dos mais originais poetas que tenho lido. E torno também a repetir-vos que o não aceito como ele se nos oferece, pois que, sob a máscara do materialismo absoluto, lhe vejo a alma mística, cheia de (...). Ele perdoar-me-á que eu lhe diga que mais o admiro por isso, que mais interessante o acho por isso. Note-se bem que, ao afirmar que o sr. Alberto Caeiro é consciente na sua arte e que o seu materialismo é um nome, eu não quero dizer que ele tenha consciência disso... Creio que ele se engana a si próprio. Ele não tem consciência, creio, da sua consciência. O que me leva a crer que o sr. Alberto Caeiro não é absolutamente um poeta consciente, como seria se fosse, por exemplo, um mistificador ou um puro filósofo é que contende a sua teoria nalguns pontos possíveis e absolutamente visíveis. (IV...) Ora salta aos olhos do pensamento que nenhum ramo de árvore, a supor-se (o que já é puro «entendimento» à Caeiro) que pode «julgar» qualquer coisa, não julga que o sol é Deus ou que a trovoada é uma quantidade de gente zangada. Isso julga como humana, um homem primitivo, e é duvidoso, que mesmo desse se pudesse dizer que, naturalmente, achasse que o sol é Deus. Presto homenagem ao esforço do sr. Alberto Caeiro ao querer-se despir de tudo quanto é artificial e puramente humano. Constato, porém, que nem sempre o faz, e isto conquanto me parece visível que não repara que o está fazendo. A poesia quatro (a n. o 4 do livro) é um exemplo flagrante. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 216. 1ª versão: Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. Quando consideramos a experiência, e procuramos determinar por uma série de abstracções (abstracção desenvolvida) qual o conceito que representa o seu acto fundamental, quer porque seja comum a todos os seus actos, quer porque seja necessário a qualquer deles, encontramos esse conceito fundamental, pelo menos enquanto o não analisamos, na relação entre o sujeito e o objecto. Como, porém, quando afirmamos a relação entre o sujeito e o objecto, não temos verdadeiramente noção senão da relação, pois que, quanto ao sujeito e ao objecto, não sabemos o que eles sejam, e podem portanto ser no fundo a mesma coisa, é só pela sua relação, que percebemos, os determinamos como distintos, podendo eles portanto ser a mesma coisa, mais propriamente diremos que a substância da experiência consiste, simplesmente, na relação. Mas por abstracto que seja o conceito de relação, ele inclui, porém, necessariamente, que seja, pelo menos, entre uma coisa e outra coisa, portanto entre duas coisas. Mesmo que consideremos, como no caso de uma identidade, uma coisa em relação apenas a si própria, e essa relação apenas para concluir que não há propriamente relação nenhuma, pois que há só identidade; em todo o caso, no momento em que afirmamos a identidade, dizendo x é x, dividimos essa coisa única em duas, embora apenas para o pensamento, e apenas para dizer que essas duas não são duas, senão uma, que são tão inteiramente iguais, que são a mesma. A essência da relação, porém, vê-se daqui que é, pelo menos, a dualidade; quer dizer, o número, porque desde que o espírito pensa dois pensa o número que o conceito de dois não só introduz no espírito, como também pressupõe que já nele existe, para que «dois» se possa conceber. O conceito de relação é portanto antecedido na ordem lógica, pelo de número, ou pluralidade. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 20. Aquela loura de preto Aquela loura de preto Com uma flor branca ao peito, É o retrato completo De como alguém é perfeito. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 72. Universalismo imperialista e imperialismo universalista não são a mesma coisa. No primeiro caso, o universalismo é o essencial, o imperialismo o caminho por onde, no período de fixação da nacionalidade, o universalismo derivou. No imperialismo universalista dá-se o caso contrário. Neste a nação, a tal ponto «nacional» que o seu patriotismo lhe não cabe nas fronteiras e se torna espírito de domínio, isto é, imperialismo, expande-se e assim se universaliza; mas procura sempre impor o seu espírito, isto é, a sua nacionalidade, às populações conquistadas. São os casos, antigo, de Roma; moderno, de Inglaterra — aquele, porventura, mais consciente do que este. Nós e a França, essencialmente universalistas (é talvez um dos motivos íntimos da nossa atracção por esse país) não o tentamos fazer — a França nem agora nem nunca; nós só agora, pois antigamente em certo modo o fizemos, desastrosamente para nós, em circunstâncias que adiante referirei. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 101. DIMENSIONS Os três dados da experiência são a pluralidade, a relação e o limite. Qual deles é fundamental? A relação não pode ser, porque a relação, salvo a relação lógica só pode ser de uma coisa para outra, e assim envolvendo o conceito de dois, o conceito de pluralidade está estabelecido. Restam a pluralidade e o limite. Qual condiciona o outro? Uma coisa isolada pode ser considerada como tendo limite, mas uma pluralidade de coisas não pode ser considerada senão como tendo cada coisa um limite, porque, se o não tivesse, não haveria uma pluralidade, senão um continuum, isto é, uma unidade. Pode, porém, qualquer coisa ser considerada como isolada, salvo logicamente? E não se afastou já a ideia de lógica na de relação? (A relação de uma coisa consigo própria é simplesmente a identidade dessa coisa consigo mesma.) Na ordem da experiência, todos os três conceitos são essenciais. Aí, portanto, formam um todo lógico, em que nenhum é anterior a outro, sendo, os três, dados simultaneamente à mente. Na ordem lógica, porém, a relação não pode existir sem pluralidade, pelo menos, sem pluralidade implícita portanto; e a pluralidade não pode existir sem que haja um princípio de distinção, uma possibilidade de pluralidade; e essa possibilidade de pluralidade é o limite. O que é o limite? Tendo-o nós definido como anterior logicamente à pluralidade e à relação, não podemos definir limite, logicamente, em relação àqueles dois conceitos. Não podemos, já, dizer que o limite de uma coisa é aquilo por onde se distingue de outra, porque isso é basear o conceito de limite no de pluralidade, ao qual já vimos que ele era anterior; nem podemos dizer que o limite de uma coisa é derivado da relação entre ela e outra, porque o contrário é que, na ordem lógica, acontece, e na ordem da experiência não há antecedência de um ou de outro. Temos de considerar o objecto isolado, e definir limite em relação a ele apenas. Como? Procedamos negativamente, para esclarecer. O limite não é essa coisa, ela-própria; mas sem o limite essa coisa não é ela-própria. Isto parece aproximar o limite do conceito de causa: mas a causa é pensada externa ao efeito, e o limite é por natureza pensado interno, ou coextenso com a ideia dessa coisa. O limite é portanto aquilo sem o que uma coisa não existe, mas que nem é a própria coisa, nem externo a essa coisa. A definição parece abstracta e inútil; mas se se reparar que, partindo de um conceito que concebemos primordial da experiência, o não podemos — quer lógica quer (...) — definir por conceitos posteriores, a definição não pode envolver senão anterioridades lógicas, e essas são a própria coisa apenas. Mesmo causa é conceito ainda logicamente por nascer, na altura em que vamos do nosso inquérito. Definindo limite da única maneira logicamente possível, vemos que ele pressupõe apenas um conceito anterior, porque é em relação a esse único conceito que é definido. Esse conceito é o da coisa, que tem o limite. Essa coisa não pode ser determinada, considerada à parte do limite, porque ou é determinada pelo limite, que lhe é posterior, ou pela relação com outras coisas, o que envolve pluralidade e relação, posteriores lógicos todos. (Entre a coisa e o seu limite não há relação, porque havendo só duas relações possíveis e pensáveis — a de identidade e a de não-identidade, e não sendo o limite nem idêntico nem inidêntico à coisa que limita, não há relação senão por deficiência de linguagem para dizer de outra maneira). Temos, pois, como dados primordiais da experiência, dados lógicos fundamentais — (1) o ser, (2) o limite. Anterior à experiência, o conceito de ser, o conceito abstracto de ser abstracto; o limite, para que o haja, precisa ser. O limite, pode dizer-se tem por limite o ser — pois que o ser não é externo ao limite, porque não é uma coisa nem é o próprio limite, porque ser é ser e limite é limite. Podemos tirar outra conclusão, ou corolário: o anterior lógico é o limite do seu posterior imediato. Ao mesmo tempo sem ser não há limite. Prossigamos. Ser.        Espaço        Movimento Limite.        Linha        Alteração Pluralidade.         Plano Relação.        Volume Tempo. (Duração).       Corpo        Consciência Ser, Limite, Pluralidade, Relação, Tempo, Espaço, Corpo, Movimento, Alteração, Consciência. Adentro de cada uma destas categorias da realidade, nós temos o mesmo fenómeno. Nitidamente se vê no caso do Espaço. Adentro de cada uma destas categorias se dá o caso que se dá de umas para as outras. Assim, o espaço: a linha é limitada pelo anterior, o ponto; a linha limita o plano; o plano limita o volume; o volume limita o corpo. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 21. Considerar todas as coisas que nos sucedem como acidentes ou episódios de um romance a que assistimos não com a atenção senão com a vida. Só com esta atitude poderemos vencer a malícia dos dias e os caprichos dos sucessos. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 340. Poderá o leitor admirar-se de que eu gastasse ou alguém gaste, tanto tempo, porque embora pouco parece muito, com criaturas de tão pouco vulto como o Sr. José Cabral ou com o Sr. Doutor Alfredo Pimenta, e é por serem de tão pouco vulto que o tempo que com eles gasto. embora pouco, parece muito. Se o leitor assim pensa, é que não é — desculpe-me — simbolista. O Sr. José Cabral e o Sr. Doutor Alfredo Pimenta não existem realmente. São símbolos, são tipos. Um é o tipo do reaccionário prático, o outro o do reaccionário teórico. E assim como, no meu artigo, visei em realidade, não o Sr. José Cabral, nem o seu projecto de lei, mas o que estava e está por trás de ambos — a Patroa -, assim também, neste opúsculo, não visei em realidade o deputado néscio ou o jornalista charlatão, mas (...) Que me relevem os dois criados algum pormenor com que porventura os melindrasse. Tudo isto é com a Patroa. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 146. O reaccionário prático, o reaccionário teórico e o reaccionário a fingir. Peço desculpa ao Tomaz Colaço de o trazer até este livro na companhia de um inclassificável da inteligência e de um desclassificado da cultura. A si mesmo o deve. Ninguém o mandou meter-se onde não era chamado nem cabia: não era chamado porque o não era; não cabia porque escreveu sobre matéria em que é a tal ponto ignorante que foi incapaz de raciocinar, fraqueza que nele não é frequente. É que a gente raciocina sobre factos, que não sobre a ignorância deles. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 147. TEORIA DAS DIMENSÕES O conceito de limite O erro da ideia de infinito. Conceber uma coisa como infinita, é concebê-la como ilimitada, isto é, como existente só por si e sem que mais nada exista. Isto é, é conceber uma coisa como ser e não como essa coisa. Só o ser pode ser concebido infinito; porque o seu contrário o não-ser é que não existe por natureza. Considerar uma coisa como infinita é considerá-la como não tendo limite: considerá-la como não tendo limite, é considerá-la como tendo o nada, ou o não-ser como limite. Mas o não-ser é apenas limite, [...] do ser. Por isso quando consideramos uma coisa como sem limite, consideramo-la como ser; isto é, consideramos o ser porque ou essa coisa é o ser, ou não é; se não é o ser é o não-ser e não é nada — isto é, não consideramos essa coisa. A realidade de 3 dimensões é a realidade (mental). s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 24. Comparem-se a serenidade, a firmeza, a segurança do meu artigo — fruto da consciência que tinha de que escrevia com justiça e justeza, de que tratava do que sabia e sabia como dele tratar — com a saraivada de insultos, de destrambelhamentos e de dislates com que os meus opositores, quasi todos, inauguraram nas suas próprias cabeças a estação das chuvas. Compare-se o humorismo duramente irónico — justamente irónico — do meu artigo com a raiva insultuosa dos meus contraditores, que deixaram ferver a água do espírito que não têm até ela toda se derramar no chão. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 148. Passing from plurality pure to natural diversity: At first an infinite number of atoms considered, and rightly, as unextended each of them. Then, obeying the principle of distinction and of differentiation, and to that of relation there become combined, and become so necessarily one with one, one with two, one with three, one with four, proving thus what I shall call natural diversity, or diversity of nature. Now by this natural diversity, by this ideally natural differentiation, the idea of space must have come into existence. By this natural diversity atoms became really different and the foundation of matter was laid. I Urge, rightly I believe, that, though it is logical that these unextended atoms, when added, should give no more than each the original atom, the addition 1+2 not more than the addition 1+200, yet, since differentiation by the process of addition, which is real, must become a real differentiation, I think the basis of matter must have been thus laid. 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 25. Uma das coisas com que se entretiveram os meus irrespondentes foi o demonstrar a minha grande ignorância de assuntos maçónicos. Como no resto, isso nada vinha para o caso. Estamos outra vez no 13 de Fevereiro e no Kiuss. Supondo que os meus conhecimentos da natureza e história da Ordem Maçónica fossem pobres e superficiais, nada isso pesava em favor do projecto do Sr. José Cabral. Como, porém, não há direito de intrujar o público, nem em nome do duplo sacerdócio de uma imprensa que se diz cristã, desejo empregar o espaço, já mais breve, deste artigo em corrigir a quasi inacreditável série de dislates que me foram opostos como ciência maçónica, consciência católica e proficiência histórica. Deixo de parte o erudito que nas Novidades assina "Malho" — Nada disse: limitou-se a cair nos alçapões que pus pelo meu artigo fora. Lamento somente que naquele jornal seráfico se empreguem expressões como (...), se bem que conheço a justificação que pode ser apresentada: os católicos romanos não são cristãos, mas pagãos sombrios, em nada têm pois que conformar-se com as doutrinas dos Evangelhos, e em nada que pretender seguir os ensinamentos do Cristo. Sei isso tudo muito bem. O que não compreendo é porque há "Malho" nas Novidades . Acham "malhete" pouco? Símbolo, embora involuntário; símbolo. "Latet in symbolis vita alteris vitae". E o Malho escusa de me vir dizer que sabe onde está essa frase, porque o pseudo-cristão não conhece os rituais da Ordem onde eles figuram, nem naturalmente, por serem em latim, debaixo da cifra em que estão translatos, porventura os entenderia. Nunca compreendi, aliás, porque é que os Padres da Igreja de Roma não sabem o latim em que, maçadamente, ofendem os rituais e as cerimónias cujas palavras profissionalmente proferem, sem alma, sem vida e sem religião. Esses amanuenses de Deus — de Deus como eles lá o entendem — nem sequer fingem servir decentemente o Grande Patrão. Por isso a freguesia escasseia, ou compra só batatas, para com elas formarem a sua lógica. Ora, deixado de parte esse erudito do antipatriotismo negro, fica-me só, por desgraça minha e do leitor, o Sr. A[lfredo] P[imenta]. Esta enciclopédia irracional é um dos mais perfeitos símbolos, exemplares e tipos que temos hoje, para prazer do nosso riso e mágoa do nosso espírito. É o perfeito símbolo do intelectual reaccionário — um monstro menor, magro de si mas engordado de reflexos e citações. É o perfeito exemplar do político reaccionário — um monstro um pouco maior, triste de si mas alegrado de ódios. É o perfeito tipo do interruptor nacional — um monstro enorme que se intromete sempre onde ninguém o chama e vem elucidar com asneiras o que ninguém escreveu. Sem termos aqui Loch Ness algum, apareceu-nos este monstro sem sequer trazer consigo o Loch. Assim seja. [...] O Sr. Doutor A[lfredo] P[imenta] tem todo o valor [?] pelo menos literário, [...] só um castigo de Deus — uma praga de gafanhotos, como as vi em África: começa por esconder o sol e acaba por roer o verde. Felizmente tudo isso passa: é uma espécie de sarampo das novas épocas, se bem que o Sr. Dr. A. E,. tenha mais parecenças com uma tosse convulsa. Até aqui tenho tratado o Sr. Doutor Alfredo Pimenta com a maior cortesia. Vou agora atacá-lo, desmenti-lo e ensiná-lo. Vai levar uma ensaboadela, e das boas. Ou fica limpo ou fica morto. No primeiro caso, presto-lhe um serviço a ele; no segundo, presto-o ao país. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 149. August 1906: 1. «Philosophie de Platon» (part); 2. «Modern Science and Modern Thought»; 3. «Science and Speculation»; 4. «As you like it»; 5. «Two Gentlemen of Verona»; 6. «Twelfth night» 7. Shelley: «Hellas»; 8. Shelley: «Prometheus Unbound)); 9. Ferrière: «Le Darwinism»; 10. Vergil: Aeneid, about 50 lines. September, 1906 1. «Phil. de Platon» — continued; 2. Hudson: «Phil. of H. Spencer»; 3. Shelley: «The Cenei»; 4. Picard: «La Science Moderne». 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 25. Pela primeira vez na minha vida fabriquei uma bomba. Cerquei o seu dinamite de verdade com um invólucro de raciocínio; pus-lhe um rastilho de humorismo. Feita, atirei-a aos opositores da Maçonaria. E o efeito foi não só retumbante mas milagroso. Perderam a cabeça sem a ter. O efeito físico da bomba foi, além disso, de três respostas — o que é novidade, creio, nestes engenhos, materiais ou morais. O primeiro efeito foi o pasmo; o segundo a irritação; o terceiro a asneira. O primeiro efeito, disse, foi o pasmo. Ninguém esperava, ou poderia esperar, que semelhante artigo aparecesse. As campanhas anti-maçónicas nutrem-se, quasi todas, da impunidade de quem as faz e da ignorância de quem as lê ou ouve. Sabe-se que a Maçonaria tem por norma não vir a público, de nenhum modo, anunciar-se ou defender-se. Pode portanto dizer-se acerca dela o maior número de dislates, de calúnias e de mentiras, que ela não protesta, não se queixa, não desmente. Por outro lado, o público é completamente ignorante da matéria — não tanto, é certo, como os anti-maçons, pois, ao passo que o público nada sabe do assunto, os anti-maçons sabem só coisas que ignoram, erros, confusões, disparates. Mas o facto é que, ignorante o público da matéria, não pode, naturalmente, notar esses erros, verificar essas confusões, ver nos disparates os disparates que são. Uma campanha anti-maçónica é pois a coisa mais de fazer que possa haver neste pobre mundo. Não há mister audácia, nem inteligência, nem ciência — audácia, porque o adversário não responde; inteligência, porque o adversário não corrige; ciência porque os únicos que podem corrigir os erros estão sob um sigilo que lhes inibe a correcção. Para fazer uma campanha antimaçónica basta que se seja moralmente intolerante, para que se pense em realizá-la; mentalmente analfabeto para que, ignorante da dificuldade e da complexidade do assunto, ela de facto se realize. Disse Pope — católico-romano e maçon — que os parvos entram onde os anjos temem entrar. O poeta da Oração Universal parece que estava pensando, por profecia e antecipação, nos desmantelados mentais que haveriam no futuro de atacar a sua Ordem. A história das campanhas anti-maçónicas — que seria interessante escrever, e talvez um dia eu escreva revela isto com uma abundância enxundiosa [?]. Quando não são produto de um fanatismo cego, vibrando fruste o florete boto da insciência (como em Barruel, Eckert, e, mais perto de nós, Monsenhor Jussin [?]), são derivadas de causas mais profundas, a que não falta nunca a mola da indignidade. Foi dessa ordem a maior e a mais violenta de todas elas a do caso Morgan, nos Estados Unidos: foi um simples truque eleiçoeiro, para evitar — e de facto evitou — a eleição a Presidente do maçon (...) venceu o candidato opositor, Andrew Jackson, que, para que ao caso não faltasse a ironia dos resultados, — era maçon também. Foi dessa ordem a complexa e prolongada brincadeira de Léo Taxil e (...) Bataille, que, ao mesmo tempo que não deixou de irritar a Maçonaria, cobria de ridículo a Igreja Romana, a credulidade estúpida dos seus fiéis, o fanatismo estulto dos seus sacerdotes. Nem consta que com ela alguém lucrasse, excepto, materialmente, os que tão retumbantemente a fizeram, e, moralmente, a Companhia de Jesus, que, por processos que não vêm ao caso, conseguiu, através dela, consolidar ainda mais a sua posição junto do Vaticano. Quem quiser conclusões que as tire: estão aqui o poço e o balde. Da mesma ordem, ainda, é a Campanha que recentemente tem enxameado — num quase inacreditável zumbir de calúnias e asneiras — na imprensa francesa, a pseudo-propósito dos casos Stavisky e Prince. Nascida em, ou afagada por, jornais que não são reaccionários, o seu intuito íntimo revela-se com facilidade: procura-se, ou procurou-se, desviar a atenção para a Maçonaria, para que essa atenção, livre de pressões e sugestões, não vá ou fosse incidir num outro ponto, onde está, tapado com jornais, o verdadeiro alvo. Dado, pois, o hábito de impunidade mental e moral em que comumente vegetavam barulhentamente as campanhas anti-maçónicas, o meu artigo no Diário de Lisboa não podia deixar de cair como uma bomba no meio do que nos anti-maçons simula, sem grande êxito, a existência da alma. Não lhes ocorreu, nem lhes poderia ocorrer, que houvesse alguém que, não sendo maçon, nem sendo portanto presa de qualquer sigilo que o impedisse de falar, tivesse contudo o conhecimento suficiente para poder falar com mais autoridade que todos os antimaçons juntos, assim como o sentimento fraternal para com os maçons para, podendo falar, se decidir desde logo a fazê-lo. Os carbonários de Roma nunca ouviram falar num cristão gnóstico nem na Tradição Secreta no Cristianismo, nem nos laços apertados e ocultos que ligam essa tradição ao mais íntimo do espírito maçónico. Se fosse possível ou lícito invocar D. Dinis, ou o padre António Vieira, qualquer deles lhes saberia explicar. De aí, repito, o pasmo que o meu artigo causou nas mafias e camorras do Vaticano local. Ao pasmo, como é natural, seguiu-se a irritação. Se essa irritação tivesse ficado silenciosa, teria ao menos conseguido estar calada. Os débeis mentais são, porém, falhos de qualidades de inibição, pela deficiência ingénita dos centros cerebrais superiores. Por isso gritaram; e, o que é pior, falaram; e, o que é péssimo [,] escreveram. Desabou sobre a vista desarmada dos leitores um tal caudal de asneiras que teriam ficado cegos se na asneira houvesse luz. Não ardeu Tróia, é certo, porque o cérebro dos anti-maçons não e comparável sequer a uma cidade que foi tomada por um cavalo. Aponto com prazer três excepções — uma moral, intelectuais as outras duas. Registro, com agradecimento, o modo cortês com que, magoado que estava com o meu artigo e sobretudo com a sua parte anti-romana, o Sr. Conselheiro Fernando de Souza todavia se referiu ao meu artigo e a mim. À sua perfeita cortesia se juntou, para mais moralmente me confundir, o elogio a certos passos do meu livro Mensagem. Isto é tão extraordinário em adversários portugueses que, se houvesse uma Ordem de Civilidade como a há de Benemerência, eu proporia o Sr. Conselheiro Fernando de Souza para qualquer coisa acima da Grã-Cruz. As outras duas excepções — as intelectuais — são artigo assinado T. D., no número (...) do Fradique, o breve e admirável artigo de Rolão Preto, no número (...) do mesmo periódico. O primeiro mostra ciência — uma ciência unilateral, mas real, por vezes curiosíssima. O segundo mostra inteligência e alma. Ambos, de um modo ou de outro, mais ou menos claramente, concordaram comigo. Comigo, aliás, concorda também, no seu artigo Unidade Maçónica o Sr. Conselheiro Fernando de Souza. Tive que ler esse artigo três vezes para me compenetrar de que o não lia em sonho. O Sr. Conselheiro Fernando de Souza desenvolve, sem me desmentir ou combater, o que eu dissera sobre a Hungria e o empréstimo americano. Acrescenta, tão somente [?], que o Governo húngaro tinha razão para suprimir, ou tentar suprimir a Maçonaria. Nada vem isso para o caso. Encarei o facto objectivo dos resultados que provieram dessa acção do Governo húngaro; dos seus motivos, por sua natureza objectivos, não tinha que curar. E, por junto, de bom, houve só isso. O resto (...) É interessante, embora doloroso, analisar os processos mentais dos argumentados escreventes portugueses. Podem resumir-se em um — a incapacidade de argumento. Tanta lei, tanta lei, e não haver uma lei que proíba o exercício ilegal do raciocínio! s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 150. Bilhete de identidade do eleitor com número. Voto por [?] número à urna, entregando bilhete e voto; logo que chegam, desde as 8 da manhã às 8 da noite. (Mais de uma urna? Para quantos recenseados.) (Recepção de bilhetes até tarde, [...]) (...) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 151. A atitude, que deveis tomar para com estes livros publicados, é a de quem não tivesse lido esta explicação, e os houvesse lido, tendo-os comprado, um a um, de cima das mesas de uma livraria. Outra não deve ser a condição mental de quem lê. Quando ledes Hamlet , não começais por estabelecer bem no vosso espírito que aquele enredo nunca foi real. Envenenaríeis com isso o vosso próprio prazer que nessa leitura buscais. Quem lê deixa de viver. Fazei agora porque o façais. Deixai de viver e lede. O que é a vida? Mas aqui, mais intensamente que no caso da obra dramática de um poeta, tendes que contar com o relevo real do autor suposto. Não vos assiste o direito de acreditar na minha explicação. Deveis supor, logo ela lida, que menti; que ides ler obras de diversos poetas, ou de escritores diversos, e que através delas podeis colher emoções, ou ensinamentos, deles, em que eu, salvo como publicador, não estou nem colaboro. Quem vos diz que esta atitude não seja, no fim, a mais justamente conforme com a ignorada realidade das coisas? Na minha obra pessoal coisas haverá que mostrem semelhança com o que há nestas obras. Não vos admireis. São legítimas influências literárias — ou minhas neles, ou deles em mim. Não há semelhança ou coexistência de personalidades. Cada personalidade dessas — reparai — é perfeitamente una consigo própria, e, onde há uma obra disposta cronologicamente, como em Caeiro e Álvaro de Campos, a evolução da pessoa moral e intelectual do autor é perfeitamente definida. Vede como isto se dá em Caeiro. Da limpidez primitiva (que nunca, eu, logrei compreender ou sentir) da impressão nativa, a evolução é directa, adentro de O Guardador de Rebanhos , para a aprofundação filosófica. O pequeno episódio —expressivo de qualquer realidade do autor, que ignoro — de O Pastor Amoroso intervém e diferencia. Depois, com a vinda da doença, a perfeita lucilação imaginativa ou sensível se apaga, e temos, nos poemas fragmentários finais do livro, em certo ponto ainda a continuação do aprofundamento, pela evolução do espírito do poeta, em outros pontos uma turbação da obra, pela doença final, real como as minhas mãos, a que, com mágoa minha que chorei em lágrimas, o grande poeta sucumbiu. Finjo? Não finjo. Se quisesse fingir, para que escreveria isto? Estas coisas passaram-se, garanto; onde se passaram não sei, mas foi tanto quanto neste mundo qualquer coisa se passa, em casas reais, cujas janelas abrem sobre paisagens realmente visíveis. Nunca lá estive — mas acaso sou em quem escreve? Na vossa vida prática, cheia de coisas impossíveis, e que nunca podiam ter acontecido; na vossa vida de sentimento, doméstica ou própria, cheia de coisas de emoção que nunca se sentiram neste mundo, há acaso realidades tão presentes como estas, que talvez julgais indefinitivas? Ah, as sombras sois vós e as vossas sensações. A realidade, sendo verdadeira, é assim como ma escreveram estes, e como estes, que a escreveram, foram. Não me digais que sou médium de espíritos estranhos à terra. Com a terra me quero, e com o seu âmbito azul. O horizonte inclui quanto eu incluo; o resto são os maus sonhos que cada um tem a sós consigo. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 242. Voto no Município — por listas podendo ter tantas ou menos quantos os vereadores a eleger. Vereadores propostos por associações comerciais? _ isto é, pelo comércio = O voto de: (1) categoria de propriedade; (2) categoria comercial; (3) categoria administrativa. este voto antidemocrático é contestado pelo direito que a qualquer cidadão (mesmo [...] não eleito) de contestação de competência, (...) O contestado pode é admitir [?] advogado ou processá-lo por contestar a competência de alguém. [...] Constituição, [...] Código Político da República Portuguesa. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 152. O neopaganismo português reconhece que as pátrias são apenas meios para um fim, que as transcende. Esse fim nem é a Religião, nem a Humanidade, mas a Civilização — isto é, o aumento constante de aquisições científicas, de possibilidades de emoção agradável, e de meios fáceis de acção; o acréscimo em suma, do conteúdo da inteligência, do conteúdo da sensibilidade, do conteúdo da vontade. Sendo, porém, um meio para um fim no que respeita aos escóis, cuja missão é criar civilização, a Pátria é, porém, um fim directo para o povo. Para o povo não deve haver nada acima da Pátria. Todos devem trabalhar no sentido da civilização (e é porque as pátrias são a base da civilização que nunca se pode passar além da ideia de Pátria). Os escóis trabalham para criar civilização; o povo trabalha para criar condições de criação de civilização, isto é, para criar escóis, e os escóis criam-se pelo patriotismo dos não escóis. Uma nação produz homens de génio, criadores de civilização na razão directa da sua homogeneidade de integração psíquica. As três condições de criação civilizacional são: a liberdade do indivíduo, a homogeneidade da pátria, e a dedicação a um princípio superior à Pátria. Importa supremamente que o povo tenha o amor da pátria e a consciência emotiva dela; que as classes médias tenham a máxima liberdade possível; e que as classes dirigentes tenham a noção nítida do seu papel. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 245. Bem sei que todas as mágoas São como as mágoas que são Parecidas com as águas Que continuamente vão... Quero, pois, ter guardada Uma tristeza de mim Que não possa ser levada Por essas águas sem fim. Quero uma tristeza minha Uma mágoa que me seja Uma espécie de rainha Cujo trono se não veja. 9-10-1934 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 122. Conselho d’Estado, formado de um delegado de cada distrito e presidido pelo Presidente da República. Governo autónomo (dentro dos limites que se especificarão) dos distritos (orçamentos distritais?). Nenhum senado: apenas câmaras de deputados. Referendum substituído por comissões distritais. Municipalização de tudo que não seja propriamente indústria ou negócio. Só aqueles negócios que apenas podem ser explorados por companhias poderosas, que exigem portanto, ex sua natura , grande concentração de capitais. Assim nacionalização de água, gás, tramways (nacionalização de comboios, de minas (?)). Só devem ser nacionalizados, ou municipalizados, aqueles serviços que, a serem feitos por particulares, só poderão ser (...) por uma só empresa. Disto vem a tirania dessas. Em outras palavras só as indústrias que conduzem [?] monopólios, ou as empresas que tendem a fazê-lo devem ser nacionalizadas, municipalizadas. Article on nationalisation or [?] municipalisation. [...] s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 153. O conceito de dualidade em relação ao conceito de Deus. Argumento : Não se pode conceber Deus sem conceber um outro princípio, a ele oposto — seja esse princípio a Matéria, criada por Deus e oposta a Deus como criada ; seja o Vácuo ou Não-Ser, directamente oposto a Deus, que é o puro Ser; seja Satan, o Mal, ou outro qualquer Contra-Deus, oposto a Deus simplesmente como «personalidade» oposta. Objecção : Pode conceber-se Deus sem relação a outra coisa qualquer, concebendo Deus, quer (1) como puro Ser, e pois excluindo para o Não-Ser tudo quanto não seja ele, (2) como Tudo, e portanto incluindo todas as coisas, e sendo de todas elas substância. Contra-Argumento : (1) Ao puro Ser opõe-se, em todo o caso, o puro Não-Ser, que pode ser Nada relativamente ao Ser, mas Qualquer Coisa relativamente a nós, visto que, pelo menos, o podemos pensar. (2) Se Deus é Tudo, para que existe qualquer coisa que não seja só e puramente Deus? Porque existem coisas susceptíveis ao menos de serem pensadas fora de Deus? 1915? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 151. Notas ao livro de M[ax] N[ordau] Outrossim se engana o psiquiatra alemão quando contesta ao poeta o vago do pensamento fazendo distinções, para o caso fúteis, entre pensamento são e pensamento mórbido — o primeiro próprio, no dizer dele, do verdadeiro e são poeta, por exemplo Goethe, o segundo do poeta degenerado. Em arte porém não se trata, nem da degenerescência do artista como homem, não da sua degenerescência mais localizadamente como pensador ou sentiente. Trata-se apenas da sua degenerescência única e exclusivamente como artista. O fundo da sua personalidade e do seu pensamento pode ser quanto se quiser, mórbido e estranho (anormal): nada disso esteticamente importa. E da sua forma — forma psíquica — de estetizar esse pensamento, e na sua (...) que o crítico de arte trata. Um sentimento em si mórbido pode ser limpidamente tratado por um artista; o homem será doente e o artista são. Os sentimentos inspiradores não são limitados aos assuntos morais, naturais ou (...). Baudelaire é um grande poeta e um homem emocionalmente doente. Um sentimento em si vago e indefinido pode ser tema inspirancial de um poema, de um quadro ou de uma partitura. (...) Grande parte dos sentimentos inspiradores dos artistas é indefinida e vaga. A saudade, o (...), o horror da morte (...), da vida, a sensação (...) do mistério — nenhum destes temas supremos de inspiração é coisa clara e nítida e exaustivamente analisável. Emocionalmente porém é claro. Ora a arte é apenas a substituição da inteligência à emoção. O que deve sê-lo porém é o modo como o poeta, o artista ou o compositor musical o concebe para que artisticamente o interprete. O que não pode ser vago e indefinido é o pensamento do poema , quadro ou partitura em si. Aí é que vem a parte do artista. A suprema arte é justamente a concretização do abstracto, a nitidização do indefinido, a lucidização do obscuro no símbolo, ideia ou (...) na obra de arte. É caso de distinguir, como apontava e fazia Edgar Poe, a expressão da obscuridade da obscuridade da expressão. O obscuro em si lucidamente expresso permanece o obscuro em si, o obscuro não claro mas claramente obscuro. A arte que dá ao obscuro uma expressão lúcida não o torna claro porque o que é obscuro de essência só por erro de interpretação pode deixar de o ser mas torna-lhe clara a obscuridade. Fernando Pessoa et le Drame Symboliste: Héritage et création. Maria Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977. - 495. FILOSOFIA Se há um assunto eminentemente filosófico é a classificação das ciências. Pertence à filosofia e a nenhuma outra ciência. É só no ponto de vista mais genérico que podemos classificar as ciências. Quando a classificação é para um certo fim, quer prático, quer científico, há-de ser necessariamente arbitrária (filosoficamente) e variável com o fim para que é feita. O botânico, o jardineiro precisam cada um deles de uma classificação diferente das plantas. Há a classificação por diferenciação, por ordem; e a classificação por hierarquia, em que não se trata só de ordem, mas em que as ciências são classificadas de maneira que umas sejam filhas das outras. Assim a classificação mais hierárquica dos animais seria a do darwinismo. Em história natural classificam-se as produções constantes da natureza. Para classificar as ciências é preciso primeiro procurar um critério ou nas funções intelectuais, na força das faculdades criadoras (produtoras das ciências), ou na própria disposição das criações já feitas. A classificação é subjectiva ou objectiva. Se quiséssemos classificar as artes como já criadas seria diferente de as classificar segundo a imaginação que se assimila coisas externas e se identifica temporariamente com elas. Uma coisa é classificar coisas já feitas ou de as classificar como se elas fossem para fazer. Até August Comte as classificações eram subjectivas. [...] As classificações anteriores a Comte têm um interesse puramente histórico, mas é bastante pois nos mostram as relações que a filosofia teve com as ciências e que teve e continua a ter com a (...) Há, primeiro, a escola platónica e aristotélica. Uma classificação impõe-se não só quando o número de objectos aumenta (...) Em toda a classificação há um trabalho que podemos chamar trabalho de história natural, e outro de ciência natural. A história natural é puramente descritiva (Botânica e Zoologia), põe por ordem os factos. Em psicologia, por ex., uma coisa é a história natural da alma outra fazer a ciência da alma. Quando muito pode ( 1 ) mostrar que uns factos nascem de outros. Se, da ordem exposta se vê alguma coisa quanto [à] génese dos seres vivos (no exemplo mais acima), já deixa de haver história natural. A ciência natural começa onde acaba a história natural. Todas as classificações anteriores a August Comte são histórias naturais. Há, em primeiro lugar, as escolas platónica e aristotélica. PERCEPÇÃO Física (Física e Psicologia ) Matemática RAZÃO Dialéctica (Analítica = Lógica formal Metafísica) VONTADE Ética Praxis Ética Poiesis Política Ciência poética Poética e retórica Nas três ciências sublinhadas pára a classificação dos platónicos. Como para Platão as faculdades são 3, razão, percepção e vontade, as ciências também são 3. Para Platão, física era o estudo da natureza sob qualquer forma. Por percepção os platónicos entendiam não só a percepção exterior mas também a consciência; portanto o estudo da alma entrava na física. Mas havia para os platónicos uma faculdade mais importante — a razão, faculdade de perceber as relações entre as coisas e de conceber o absoluto. Para Platão as ideias são as realidades, ou, antes, os modos da realidade. Para ele os conceitos gerais têm a sua verdadeira realidade anteriormente às coisas, ao particular. (Universale ante rem). A ciência que corresponde a esta faculdade é a dialéctica. Mas o homem também tem desejos, impulsos, vontades, etc. São três funções do espírito, 3 princípios das ciências. A ciência que corresponde à vontade é a ética. «Ética» tinha, para os gregos, um sentido menos restrito do que tem para nós. Para nós a moral refere-se simplesmente aos actos, às intenções, aos motivos, etc. Para os antigos era mais, não era só os actos com intenção, mas também outra qualidade de actos. A moral (ética) dos antigos tratava também do estado, compreendia o que nós chamamos política. Para os antigos direito e moral entravam na ética. Na «vontade» entrava tudo — impulsos, desejos, etc. A «ética» considerava os actos de vontade do indivíduo como indivíduo e como ser social. A física grega já dissemos compreendia a física e a psicologia. Os gregos dividiam a astronomia em dois ramos: Eles foram os primeiros que aplicaram à astronomia os cálculos matemáticos. A astronomia era estudada em parte na física, em parte na dialéctica. Já então havia a noção de lei, e de cálculo matemático. Modernamente a noção de lei é muito mais forte e os nossos cálculos mais exactos. (Se assim não fosse estaríamos seguindo o progresso caranguejo). A matemática era estudada na física e na dialéctica. A razão dá lugar à dialéctica. Hoje um dialéctico é um homem que argumenta bem. Para os antigos o dialéctico era um homem que raciocinava bem. (...) O princípio de causalidade e outros ligados com ele (por ex.: o princípio de substancialidade) só se pode aplicar no campo do real. É do domínio da metafísica. A metafísica é a ciência dos primeiros princípios sem os quais é impossível passar da ciência subjectiva para a (...). Assim em Hegel temos o desenvolvimento dialéctico do logoV ; o logoV segue uma lógica, mas é transcendente. A razão é a faculdade de perceber o noumenon. Como tal tem um certo número de ideias inatas. A classificação dos platónicos pára nas 3 ciências: física, dialéctica e ética. O que vai por baixo é o desdobramento dessa classificação feito pelos aristotélicos. Não é certo dizer-se que a classificação mencionada é feita por Aristóteles e por Platão. Nem P[latão] nem A[ristóteles] fizeram uma classificação das ciências, nem a podiam fazer. A Filosofia, para eles, era o melhor do saber. Assim se a filosofia é todas as ciências, se é o saber, como classificar? Para Aristóteles há a filosofia (F[ilosofia] primeira, metafísica) e as filosofias (F[ilosofi]as segundas). O que deu origem a chamar-se a isto a classificação de Platão e de Aristóteles foi ser esta a divisão dos livros destes filósofos. Também contribuiu para isto a divisão do trabalho escolar. Esta classificação é subjectiva e segue um critério de história natural. A matemática ocupa um lugar equívoco. Para os gregos a matemática era a geometria (a aritmética veio depois). Para prova disto basta notar algumas expressões que se usam ainda hoje na aritmética, por ex., raiz quadrada, elevar ao cubo. Estas expressões vieram da geometria. Para os gregos a forma vale mais do que o número. Da matemática um elemento entrava na física, principalmente na física celeste. — [...] Os números eram a maneira de raciocinar sobre figuras. As regras do silogismo, os princípios da lógica formal, que, como disse Kant, não avançaram desde então, vêm das matemáticas. Aristóteles tirou-as, (está hoje provado), do raciocínio dos geómetras, da lógica das matemáticas. Note-se, também, que, em grego, a palavra maqesiV (mathesis) quer dizer ciência. A matemática entrava muito principalmente na metafísica (Dialéctica). À medida que as ciências aumentam a filosofia vai com elas e recebe o tom da ciência predominante. Ora a filosofia começa a ser cultivada quando a matemática está em grande favor e no seu brilho. Assim era quando Aristóteles fez a sua lógica. A ética considera o homem como activo, abrange tudo pelo qual o homem actua ou tende a actuar. Platão, não distingue o homem individual e o homem social. Aristóteles é o primeiro a notar que as leis individuais e as leis sociais nem sempre são as mesmas. Todas as classificações antigas se caracterizam pela sua feição subjectiva. (...) De todas as classificações, e são muitas, as mais importantes, além da indicada são as de Bacon, Ampère, Comte, Spencer, Wundt. Há muitas mais, como as de Bentham e de Arouet [?], etc. As classificações dos platónicos e dos aristotélicos incluíam a vontade, faculdade prática. Aqui, em Bacon, desapareceu. Bacon separa a teoria da prática. A classificação das artes fica excluída. Fica a classificação restringida, por um lado, à actividade intelectual. Temos que classificar ciências e não artes. Domina aqui o Logos intellectualis. Há por este lado uma vantagem — a divisão do trabalho. Fica a classificação restringida à parte teórica. Bacon, se exclui as artes da classificação propriamente dita, não se esquece delas e apende-as no fim. Ele supõe que a cada ciência teórica corresponde uma actividade prática. Esta classificação é: 1º teórica; 2º subjectivo-objectiva; subjectiva no ponto de partida e nas divisões primordiais, objectiva nas subdivisões. 3º puramente especulativa. As class[ificaçõe]s anteriores partiam de ciências já feitas. Bacon inclui ciências a concluir, a fazer, a criar de novo. Emprega neologismos a cada passo para designar um conjunto de estudos por constituir, procura fazer uma divisão inteiramente nova. A Razão parece ser a única coisa que fica da classificação de Platão. (Ciências — ex datis . »      — ex principiis . São para Kant, as segundas, as ciências matemáticas e a filosofia, as primeiras de factos humanos e de factos físicos — a história natural em todos os seus ramos). Classificação de Bacon — Memória Ciências históricas História da humanidade Hist. eclesiástica Hist. literária Hist. civil História natural — Imaginação — Poesia (Artes B) — Razão — Filosofia Teologia natural Cosmologia Física Abstracta Física Química Concreta Metafísica Antropologia Individual Social Física (Fisiologia) Psicologia Lógica Ética Bacon quis encontrar conexões que não existem entre a história da humanidade e a história natural. (Para os alemães há uma diferença entre a história do mundo e a história da humanidade. Humanidade é um conceito muito abstracto). O que há aqui de interessante é a distinção entre a filosofia e as ciências de factos, quando até aqui a filosofia compreendia todas as ciências. A Teologia natural é «o estudo de Deus como ideia revelada». Antropologia é a razão humana aplicada ao estudo do homem. Como ideia, Deus fica no mundo das essências e dos possíveis. Para passar daqui para o real é preciso apelar para motivos de imaginação e de sentimento. Quando quisermos atribuir à ideia de Deus uma realidade, temos que sair do mundo intelectual. Há certezas práticas para as quais a ciência é impotente. O que Kant constatou foi que a ideia de Deus existe. O que não podemos dizer é se a essa ideia corresponde uma realidade ou não, e se uma realidade corresponde, se essa realidade é exactamente como a ideia. Cosmologia é o estudo do mundo. Pode fazer-se sob 2 pontos de vista: físico (quando procuramos as leis dos fenómenos) e metafísico (quando, conhecendo o fenómeno e as leis queremos passar ao transcendente, do jainomenon ao noumenon ). Na física há os pontos de vista abstracto e concreto. [...] A ideia fundamental de matéria e de transformação era a ideia que Bacon ligava à química. Foi uma lembrança genial aproximar a física e a química. Resta-nos a antropologia. O objecto da filosofia é raciocinar sobre factos e princípios. Pode fazer-se sobre 3 coisas: Deus, o mundo, o homem. A palavra antropologia emprega-se hoje para designar o estudo do homem natural; é o contrário da sociologia, é uma subdivisão da biologia. No tempo de Bacon esta palavra tinha por significação o estudo do homem sob todo e qualquer aspecto. Na subdivisão da «antropologia individual» nota-se a palavra «física». Esta palavra tem aqui um sentido diferente do que mais atrás vimos que tinha. Aqui quer dizer fisiologia, física do corpo humano. Lógica e Ética são ciências práticas que correspondem a psicologia como ciência teórica. A psicologia não se subdivide em lógica e ética. À psicologia como ciência natural da alma, correspondem 2 disciplinas práticas (2 artes correlativas), uma que ensina a pensar e outra que ensina a proceder. Ao estudo do homem sob o ponto de vista social corresponde a disciplina prática — a política. Trataremos depois das relações entre as ciências e a filosofia. ( 1 ) Isto é, a psicologia como história natural. 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 155. Desde a «Degenerescência» de Nordau, a atenção de muitos críticos tem sido chamada para a existência de elementos mórbidos na literatura, e sobretudo, em certas manifestações da literatura contemporânea. Por graves que tivessem sido as críticas feitas ao livro de Nordau, alguma coisa ficou dele, e será difícil pretender-se hoje que o simbolismo francês representa um movimento literário são e absolutamente revelador, porque, visto que não é inteiramente são, não pode renovar mas apenas corromper. Se o movimento simbolista francês é uma manifestação mórbida, faltam palavras para dizer o que será o movimento literário que presentemente se esboça em Portugal. Se bem que vá ainda em começo — praza a Deus que nunca daí passe! — é já uma escola nitidamente caracterizada e diferente das outras. E o que nela é essencialmente perigoso é o seu inexplicável poder de criar adeptos, de influenciar espíritos. Se reflectirmos que ele é ainda por assim dizer uma escola silenciosa (ou quase silenciosa) e oculta, sua influência é verdadeiramente espantosa, tanto mais que à primeira vista parece incrível que uma tal anormalidade consiga arregimentar não só gente que escreva e se filie em tal corrente, mas um grande número de gente que, não escrevendo, se dá por compreendedora do que esses homens escrevem. Vendo bem, não é totalmente inexplicável essa influência. As condições da vida moderna, as peripécias políticas e sociais que em todos os estados se dão hoje, criam não só uma predisposição latente para a doença em quase todos os espíritos, e sobretudo nos fracos e semi-artísticos mas também um desejo furioso de novidade que é talvez o que na arte corresponde ao espírito revolucionário nas sociedades. Entre nós conhece-se pouco a literatura portuguesa. Mas mesmo que se conhecesse muito seria difícil determinar de onde esta nova escola vem. Depois da França, foi Portugal, ainda que poucos o saibam, quem teve uma escola simbolista caracterizadamente tal; dela ficaram apenas dois nomes, se tanto: Eugénio de Castro e António Feijó. Mas a nova escola de que falamos, além de nada ter com essa, nem ao simbolismo francês (com o qual tem certas semelhanças, provenientes talvez de um comum elemento doentio) se aparenta propriamente. Será difícil dar ao leitor uma ideia sequer aproximada do que seja essa nova escola, tanto porque no enquanto pouquíssimos livros há publicados dela, como porque é de si tão complexa, tão confusa que não há maneira de a definir. O chefe da escola não sei bem que seja, mas ou é o sr. Fernando Pessoa ou o sr. Mário de Sá-Carneiro. Pelo modo como os iniciados falam, é o primeiro. O sr. F.P. não tem livro nenhum publicado. Não sei se é para fazer o papel de um Mallarmé português, ou é porque não tenha conseguido, o que se pode acreditar, que algum editor lhe publique uma obra. O snr. Mário de SC tem três livros, o primeiro fora da nova escola ainda, os dois segundos, publicados simultaneamente há pouco, plenamente nela. São mesmo, com o livro de versos «Distância» de um outro adepto, o sr. A[ntónio] P[edrol G[uisado], os únicos livros que a nova escola tem. Um dos livros do sr. S[á] C[arneiro] é uma novela, outro é um livro de versos. (Chamam-se respectivamente «A Confissão de Lúcio» e «Dispersão», título este último que dá maravilhosamente o estado de alma de qualquer dos adeptos da escola). Se bem que seja fácil reconhecer quanto esta escola é doentia e perigosa, ninguém pode negar ao sr. Sá C[arneiro] extraordinárias qualidades de novelista e de prosador; pena é que o enredo das suas novelas seja inacessível ao público e que o estilo em que são escritas sofra constantemente da doença da escola. Quase o mesmo se pode dizer dos livros de versos dos srs. Guisado e Sá-C[arneiro]. Sofrem de requinte exagerado, do abuso de introspecção da escola. Escolhemos ao acaso algumas frases, traduzindo-as cuidadosamente, para que os leitores se inteirem tanto quanto possível do que a nova escola é. Aqui estão algumas do snr. M[ário] de S[á] C[arneiro] Algumas do snr. A[ntónio] Guisado: Mas, segundo me dizem em Lisboa, nada dá tão bem o exagero da escola do que a poesia seguinte, que traduzimos inteiramente e que o sr. F[ernando] P[essoa] publicou numa revista A R[enascença], que morreu à nascença: Vê-se bem que a pretensão do sr. Pessoa é notar o seu estado de espirito perante um crepúsculo, aproveitando todas as impressões por mais pequenas que sejam, por menos relação que tenham umas com as outras. Como dissemos, «Dispersão» é o [que] mais caracteriza a escola toda. É forçoso de resto conhecer na poesia do sr. Pessoa alguns versos verdadeiramente assombrosos e alguns pontos. Esta poesia, de mais a mais, foi a que deu à escola o nome (dizem-me que provisório) da escola; parece que o sr. Pessoa a recitava por Lisboa, e da sua primeira palavra (pauis, (...)) talhou alguém o nome «paulismo» para a escola toda. Eis a poesia-mãe do «paùlismo»: Não sejamos injustos. Apesar de todo o de doentio e de perigoso — pela facilidade com que se insinua — desta escola, forçoso é reconhecer aos seus adeptos incontestável talento e uma manifesta superioridade sobre quantos outros novos aparecem em Portugal, e talvez não só em Portugal. O que é lamentável é que a própria essência da inspiração deles seja doentia a mais não poder ser. Pelos extractos que demos acima, calcule-se da influência sobre o pensamento, a inspiração, e até a gramática dos novos que possa ter a escola «paulista»!. Fernando Pessoa et le Drame Symboliste: Héritage et création. Maria Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977. - 497. Decreto 8 - No Condestável reúnem-se três poderes. É escolhido pelo legislativo, de entre membros do militar e preside ao executivo. O Condestável é eleito pelas Cortes de entre os oficiais superiores do exército e da armada. — N. B. — Devem os membros do executivo ter, reunidos, direito de voto neste respeito? — Problema a examinar. Quem escolhe o chanceler? Não. O executivo cumpre ordens. Chanceler das Terras Chanceler do Estado. Chanceler do Ultramar. Chanceler do Tesouro. Estas denominações foram escolhidas, primariamente, com o critério de que não se parecessem em nada com as equivalentes estrangeiras; porque a primeira maneira de sermos portugueses é não sermos estrangeiros. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 154. The metaphysical system of Leibnitz is quite true as an a priori system; it is well deduced. It is evident that a beneficett deity out of all possible worlds would choose the best. All this is true as thus stated, but, when applied to this world, is false. This world is not the best of possible worlds. Alas for us, it is far from it! Had Leibnitz lived in our time what would he have thought of this best of possible worlds, seeing that its conservation is by its destruction, and that, where six animals alone can live nature takes care to create fifty, so that forty‑four of them shall have to suffer and to die? 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 119. Na classificação dos sistemas filosóficos temos a considerar duas coisas: a constituição do espírito e a natureza da ideação metafísica. O espírito humano, por sua própria natureza de duplamente — interiormente e exteriormente — percipiente, nunca pode pensar senão em termos de um dualismo qualquer; mesmo que chegue a uma concepção monística, dentro dessa concepção monística há um dualismo, mesmo que dos dois elementos constitutivos da Experiência — matéria e espírito — se negue a realidade a um, não se lhe nega a existência como irrealidade, como aparência — o que transforma o dualismo espírito-matéria em dualismo realidade-aparência; mas realidade-aparência é, para o pensamento, um dualismo. O género de dualismo, porém, depende de, e é condicionado por, o que se considera a Realidade Absoluta. O espírito não pode admitir duas realidades absolutas: realidade envolve unidade. Mesmo, portanto, que o espírito admita dois princípios igualmente e objectivamente reais, é forçado a admitir que um desses princípios é de qualquer modo superior em realidade ao outro. Temos pois que todo o sistema filosófico envolve um dualismo e um monismo. A constituição do espírito impõe-lhe que pense dualisticamente; a noção de realidade obriga-o a pensar monisticamente. O espírito não pode construir um sistema puramente monista; e um sistema puramente dualista não seria um sistema filosófico. Ao tentar o monismo de todo o sistema filosófico, o espírito apoia-se a um princípio qualquer. Apoia-se a um de três: ou a matéria, ou o espírito, ou qualquer outra coisa, necessariamente inconcebida em si, mas só como diversa de espírito e matéria. Por matéria entendemos o conjunto de fenómenos que só pode ser considerado como no tempo e no espaço. Por espírito o conjunto de fenómenos que directamente é considerado como passando-se no tempo simplesmente. Nascem daqui três sistemas: o materialismo, o espiritualismo e o transcendentalismo. O espiritualismo caracteriza-se por duas coisas: pelo seu carácter dualista — a sua admissão de uma dupla realidade — corpo e alma, natureza e Deus; e pela sua centralização na alma humana, por ter a alma humana — e daí, o espírito em geral — por ponto de apoio, por centro de seu sistema. Destes dois elementos surge um terceiro elemento característico: que a realidade-espírito (alma-humana, espírito divino) é considerada superior à realidade-matéria (corpo humano, natureza). Entendamo-nos bem: o espiritualista tem o corpo e a natureza por tão reais (no sentido totalmente abstracto do termo) como o espírito e Deus; mas a realidade do espírito e de Deus é uma realidade permanente, ao passo que a realidade do corpo e da natureza é uma realidade contingente e transitória. — O espiritualismo opõe-se, por um lado, ao materialismo; por outro, ao transcendentalismo. Quanto ao idealismo, excepto o trancendental — esse é, como mostraremos, apenas uma forma superior da essencial doutrina espiritualista. — O materialismo tem de comum com o espiritualismo o ser dualista; diverge dele em que o ponto central do seu sistema é, não o espírito, mas a matéria; e diverge, portanto, na dedução final, porque, em oposição à doutrina espiritualista, logicamente estabelece a realidade exterior como de género superior à realidade interior. O materialismo é dualista porque admite, precisamente como o espiritualismo, duas realidades — matéria e espírito — espírito, é claro, no sentido de actividade psíquica. O materialista não nega — pois isso não se pode negar — que haja fenómenos psíquicos, que tenhamos sensações, pensamentos, sentimentos; o que nega — porque estabelece no Exterior e não no Interior o centro do seu sistema — é que o espírito, a consciência, seja mais do que uma função, um acompanhamento da matéria — tomando matéria no sentido de realidade exterior, de tudo que é concebível como por natureza contido no tempo e no espaço. O (transcendentalista) admite, como o materialista e o espiritualista, uma dualidade (o espírito humano, por sua própria natureza de duplamente interiormente e exteriormente — percipiente, nunca pode pensar senão em termos de um dualismo qualquer), mas essa dualidade não é a da matéria e do espírito; não é a dualidade corpo-alma, matéria-espírito. É, como (conforme veremos) a do espiritualista absoluto, a dualidade Aparência-Realidade; mas, ao passo que, para o espiritualista absoluto, a Aparência é a Matéria e a Realidade o Espírito, para o transcendentalista tanto a matéria como o espírito são a Aparência: a Realidade é qualquer coisa que a ambos transcende, e de que ambos são ou manifestação, ou símbolo, ou (...) Isto é, o ponto central, o eixo do sistema transcendentalista não está nem na Natureza ou Matéria (como para o materialista), nem no Espírito (como para o espiritualista), mas noutra coisa que a Matéria e Espírito transcende. Cada um destes três sistemas se subdivide naturalmente em três subsistemas. O espiritualismo tem três formas. Há, primeiro, o espiritualismo relativo — sistema que considera alma e corpo (natureza e Deus) como igualmente reais, objectivamente reais, ainda que não iguais na qualidade da realidade: assim o corpo (e a Natureza é (são) real (reais) mas transitório(s), contingentes; a alma (e Deus) é (são) real (reais) mas permanente(s). Este espiritualismo é o espiritualismo por assim dizer clássico ; é o de S. Tomás de Aquino e dos escolásticos em geral, o espiritualismo da fé católica. — Temos, depois, e avançando no conceito de superioridade do espírito à matéria, o espiritualismo simbólico. Para este, a matéria é real, mas é-o apenas por ser a sombra, o reflexo, o símbolo do espírito. A realidade da matéria é verdadeira, mas subjectiva-objectiva; provém-lhe propriamente de nela representar o espírito. Este é o espiritualismo dos ocultistas [...] de muitos contemplativos, como Mr. Thomas Browne, dos altos místicos, como Swedenborg e William Blake. — Há, finalmente, o espiritualismo absoluto. Intensificada a ância espiritualista chega-se a um ponto em que à matéria se nega toda a realidade, salvo a inevitável realidade lógica — isto é, a realidade perante o pensamento; visto que, para pensar a matéria visual, ilusória é preciso pensá-la; para a pensar é forçoso tê-la por ser qualquer coisa, ainda que só para o pensamento. Ser aparência é, de certo modo, ser; e ser de certo modo é ser. Todos os sistemas chamados idealistas — excepto o idealismo dito transcendental, isto é, aquele que provém de Kant — pertencem a esta categoria. Pertencem a esta categoria as metafísicas de Leibnitz e de Berkeley. No materialismo encontram-se, do mesmo modo, três teorias. Há, primeiro, o materialismo relativo. Este admite a matéria e o espírito — ou, como aquele costuma dizer, a força e a matéria — como igualmente reais, eternamente reais, mas eternamente inseparáveis. Esta dualidade é monisticamente eterna; e constitui uma realidade exterior, do tempo e do espaço, nem há outra realidade — tal é a teoria, que o sistema exposto por Büchner representa nitidamente. — Há, depois, o materialismo (...), que, considera a realidade como física e psíquica; mas para ele o psíquico é simplesmente epifenómeno ou função do físico. É apenas real pelo físico. A realidade não é a mesma: o que verdadeiramente é real é o fenómeno físico — Há por fim, o materialismo absoluto, sistema aliás raro, mas curioso. É o de Edgar Poe, no Eureka, por exemplo. Considera o espírito como espiritualmente irreal , isto é, como matéria. Quer dizer, o espírito é uma matéria mais subtil, mas é matéria, realmente matéria, ocupando espaço material. No transcendentalismo dão-se as mesmas subdivisões. Temos, em primeiro lugar, o transcendentalismo materialista. Para este, espírito e matéria são igualmente reais e irreais: são irreais porque não são duas coisas, mas uma, reais porque são paralelas manifestações de uma realidade que as transcende mas que lhes é a substância. Esta realidade Transcendente é concebida, porém, como incarnada naquelas duas aparências, como manifestando-se através delas sem outro modo de ser. É o sistema filosófico de Spinoza. Chamamos-lhe trans[cendentalismo] mat[erialis]ta porque não é senão aquilo, a que chamámos materialismo relativo, transcendentalizado. Como o materialism,o relativo, o transcendentalismo materialista admite duas paralelas formas, inteiramente objectivas, de realidades — matéria e espírito — mas estas existem realmente numa outra substância, que lhes é o ser, mas que não se manifesta senão através delas nem existe senão manifestando-se segundo aquele duplo aspecto. Estas duas coisas são na realidade uma única coisa que através delas duas, se manifesta, mas não existe senão naquela dupla manifestação. Mais acima encontramos o transcendentalismo espiritualista. É um sistema raro, porque está perpetuamente tendendo ou a ser o, aparentemente mais puro t[ranscendentalis]mo met[afísico], ou a ser solicitado, por razões religiosas para um qualquer sistema espiritualista. Há um exemplo deste sistema espiritualista. Há um exemplo deste sistema em Malebranche. Para o t[ranscendentalis]ta esp[iritualis]ta matéria e espírito têm por substractum um ente que o espírito concebe — não como exterior a si, quanto possível, como faz no tr[anscendentalis]mo mat[erialis]ta, mas como interior a si. Para Spinoza tudo é Deus, e Deus é tudo. Deus está todo nos seus sintomas. Para Malebranche (...) tudo é Deus, e Deus é tudo — mas não é só tudo; além de ser tudo é mais — é Deus. Deus suporta-se em tudo, é tudo, mas ainda lhe sobressai. Deus, para Spinoza, só existe no tempo e no espaço, através dos seus atributos. Para Malebranche, existe no tempo e no espaço, porque existe nas coisas e nos espíritos, mas existe também fora do tempo e do espaço, em si próprio. T[ranscendetalismo] absoluto: Deus é tudo, mas tudo irrealmente. Uma pedra não é real, como pedra. Uma pedra é uma ilusão do meu espírito. Mas como o meu espírito é Deus e a pedra é Deus, a pedra é real e irreal ao mesmo tempo. A natureza é uma irrealidade divina. * Mas a ideia de Deus — onde fica no espiritualismo? Fica subordinada, como ideia, à ideia central de espírito. Logo que Deus seja considerado espiritual e exterior às almas humanas estamos em espiritualismo. As duas características são essenciais; porque espiritual e interior às almas, constituindo-lhe a substância é já o transcendentalismo espiritualista, de que adiante se falará. Dizer que um sistema tem por base, por ex., o espirito é dizer que concebe a Realidade Suprema como espiritual, como do género do espírito. Toda a exaltação mística de Deus tende a manifestar-se numa linguagem panteísta. O espiritualista que desloque o ponto de base do seu sistema do Espírito e se incline em entusiasmo para Deus, tende imediatamente a falar transcendentalismo. Isto acontece a Platão, aos místicos cristãos repetidas vezes. Urge, porém, não tomar o anormal por característico; não classificar um sistema pelas exaltações que o põem fora de si próprio. Há só um sistema — o transcendentalismo absoluto — que nunca pode sair fora de si próprio, porque abrange tudo. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 163. XXI Thought was born blind, but Thought knows what is seeing. Its careful touch, deciphering forms from shapes, Still suggests form as aught whose proper being Mere finding touch with erring darkness drapes. Yet whence, except from guessed sight, does touch teach That touch is but a close and empty sense? How does more touch, self-uncontented, reach For some truer sense's whole intelligence? The thing once touched, if touch be now omitted, Stands yet in memory real and outward known, So the untouching memory of touch is fitted With sense of a sense whereby far things are shown So, by touch of untouching, wrongly aright, Touch' thought of seeing sees not things but Sight. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 176. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. ASPECTOS «Prefácio geral». 1. Alberto Caeiro (1889-1915) — «O Guardador de Rebanhos» e outros poemas e fragmentos. 2. Ricardo Reis: «Odes». 3. António Mora: «Alberto Caeiro e a renovação do paganismo». 4. Álvaro de Campos: «Arco de Triunfo», Poemas. 5. Vicente Guedes: «Livro do Desassossego». A atitude que deveis tomar para com estes livros publicados é a de quem não tivesse dado esta explicação, e os houvesse lido, tendo-os comprado, um a um, de cima das mesas de uma livraria. Outra não deve ser a condição mental de quem lê. Quando ledes Hamlet, não começais por estabelecer bem no vosso espírito que aquele enredo nunca foi real. Envenenaríeis com isso o vosso próprio prazer, que nessa leitura buscais. Quem lê deixa de viver. Fazei agora por que o façais. Deixai de viver, e lede. O que é a vida? Mas aqui, mais intensamente que no caso da obra dramática de um poeta, tendes que contar com o relevo real do autor suposto. Não vos assiste o direito de acreditar na minha explicação. Deveis supor, logo ela lida, que menti; que ides ler obras de diversos poetas, ou de escritores diversos, e que através delas podeis colher emoções ou ensinamentos deles, em que eu, salvo como publicador, não estou nem colaboro. Quem vos diz que esta atitude não seja, no fim, a mais justamente conforme com a ignorada realidade das coisas? Na minha obra pessoal coisas haverá que mostrem semelhança com o que há nestas obras. Não vos admireis. São legítimas influências literárias — ou minhas neles, ou deles em mim. Não há semelhança ou coexistência de personalidades. Cada personalidade dessas — reparai — é perfeitamente una consigo própria, e, onde há uma obra disposta cronologicamente, como em Caeiro e Álvaro de Campos, a evolução da pessoa moral e intelectual do autor é perfeitamente definida. Vede como isto se dá em Caeiro. Da limpidez primitiva (que nunca, eu, logrei compreender ou sentir) da impressão nativa, a evolução é directa, adentro de «O Guardador de Rebanhos» para a aprofundação filosófica. O pequeno episódio — expressivo de qualquer realidade do autor, que ignoro — de «O Pastor Amoroso» intervém e diferencia. Depois, com a vinda da doença, a perfeita lucilacão imaginativa ou sensível se apaga, e temos, nos poemas fragmentários finais do livro, em certo ponto ainda a continuação do aprofundamento, pela evolução do espírito do poeta, em outros pontos uma turbação da obra, pela doença final, real como as minhas mãos, a que, com mágoa minha que chorei em lágrimas, o grande poeta sucumbiu. Finjo? Não finjo. Se quisesse fingir, para que escreveria isto? Estas coisas passaram-se, garanto; onde se passaram não sei, mas foi tanto quanto neste mundo qualquer coisa se passa, em casas reais, cujas janelas abrem sobre paisagens realmente visíveis. Nunca lá estive — mas acaso sou eu quem escreve? Na vossa vida prática, cheia de coisas impossíveis, e que nunca podiam ter acontecido, na vossa vida de sentimento, doméstica ou própria, cheia de coisas de emoção que nunca se sentiram neste mundo, há acaso realidades tão presentes como estas, que talvez julgais indefinitivas? Ah, as sombras sois vós e as vossas sensações. A realidade, sendo verdadeira, é assim como me a escreveram estes, e como estes, que escreveram, foram. Não me digais que sou médium de espíritos estranhos à terra. Com a terra me quero, e com o seu âmbito azul. O horizonte inclui quanto eu incluo; o resto são os maus sonhos que cada um tem a sós consigo. Isto indica bem que a ordem da publicação deve ser a seguinte: (1) Caeiro, completo; (2) Ricardo Reis, vários livros das Odes, (3) Notas para a Recordação (pois nelas se não fala do próprio Campos), (4) um livro de Álvaro de Campos, (5) a discussão em família. s.d. Fernando Pessoa et le Drame Symboliste: Héritage et création. Maria Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977. - 501. AS ARTES Há as artes cujo fim é entreter, que são a dança, o canto e a arte de representar. Há as artes cujo fim é agradar, que são a escultura, a pintura e a arquitectura. Há as artes cujo fim é influenciar, que são a música, a literatura e a filosofia. Há uma arte cujo fim é entreter, não podendo derivar a sua força, ou o seu valor, nem do tempo que entretém, porque esse tempo forçosamente tem de ser limitado, nem da qualidade de almas que entretém, porque entreter não inclui [?] um valor — só pode derivar a sua força do número de gente que consegue entreter (e, também) da intensidade com que entretém. Uma arte cujo fim é agradar deriva já a sua força, ou o intenso do seu valor, não só do número de gente a quem agrada, mas deste número somado à intensidade do agrado que causa. Em vez de valer extensamente como as artes anteriores, vale intensamente. Entreter não comporta intensidade, porque entreter está ligado a variar, variar a não-durar, e o que não dura nunca pode ser muito intenso. As artes cujo fim é influenciar, para influenciarem quantitativamente e qualitativamente, têm que ter qualidades que façam com que se dirijam ao melhor público de um grande número de épocas. Para isso é preciso que tenham qualidades que se dirijam à média superior das almas de várias épocas, no que todas as épocas têm de fundamentalmente comum. O que é isso? As épocas superiores têm de comum, ou as épocas têm de comum nas suas pessoas superiores: 1º a análise psicológica, 2º a especulação metafísica, 3º a emoção abstracta. (1º literatura, 2º filosofia, 3º música). 1925? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 29. 1. Preliminar. 2. Os três tipos de governo — hoje o de opinião. 3. Únicas realizações sociais — o indivíduo e a Nação. 4. A Nação, a Sociedade [?] e o Estado — (...) 5. O Rei e como o substituir. Na realidade, a República é um regime de administração municipal tornado errónea e abusivamente esta como um município em grande escala — o que era verdade, nas cidades-estados dos antigos e da idade média, porém o não é das nações modernas. [...] s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 156. KNOWLEDGE 1. We know things, not as they are, but merely as they appear to us. (Kant). Tant d’hommes — tant de sensations . Society has caused commonness of sensation. Commonness of nomenclature and acquired sensation‑point are the cause of our thinking and feeling all alike. A man who has lived in a country where there are no clocks, on going into a region where there are clocks and on seeing one for the first time feels very much otherwise than a native of that country. Hence the entire subjectivity of our knowledge (subjective idealism). Matter does not exist — as matter . lt exists as matter only through the medium of our senses . To the rustic a tree is a tree; to a poet is more than a tree. It is in some sort like this that we see matter through lack of spiritual perception. As those mountains which, when seen from far, seem the barest and most sterile crags, but which, seen from near show not rocks or sterilest at all, but valleys and large acres of cultured land. We are spiritually weak; that is to say — we are but capable, as long as we do not use our widest and deepest powers, of a material comprehension. Nevertheless we bear in us the power of perceiving the truth — not phenomenal truth, but noumenal truth. I assert it now, and shall ever assert it — that man has fallen short of the mystery of the universal only through unwillingness to think deeply. A lack of will pouwer, it seems — if not absolute, at least, sufficiently repressive — is always linked to the strongest powers of thought. The great geniuses have always this failing. Objective Idealism: Leibnitz. Subjective Idealism: Fichte. 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 120. Ris-te de mim? Não me importo. Ris-te de mim? Não me importo. Rir não faz mal a ninguém. Teu rir é tão engraçado Que, quando faz mal, faz bem. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 92. XXII My soul is a stiff pageant, man by man, Of some Egyptian art than Egypt older, Found in some tomb whose rite no guess can scan, Where all things else to coloured dust did moulder. Whate'er its sense may mean, its age is twin To that of priesthoods whose feet stood near God, When knowledge was so great that 'twas a sin And man's mere soul too man for its abode. But when I ask what means that pageant I And would look at it suddenly, I lose The sense I had of seeing it, nor can try Again to look, nor hath my memory a use That seems recalling, save that it recalls An emptiness of having seen those walls. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 178. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. (Contribuição para o estudo da actividade subconsciente do espírito) 1. Como se induziu a mediunidade. a) Base histérica ou histero-neurasténica (averiguar e analisar os característicos psíquicos dessas nevroses, determinar em que se relacionam com os fenómenos típicos da chamada «mediunidade» — em parte aqui, em parte em outra secção deste estudo). b) Auto-sugestão progressiva pelo estabelecimento de uma (pelo menos relativa, mas eficazmente activa) crença na realidade espírita destes fenómenos pela leitura de obras de ocultismo e de teosofia. c ) Elementos de sugestão, colhidos em conversa, prolongamento dos anteriores, e somando-se com d) Elementos de sugestão hipnótica ou simili-hipnótica (a mediunidade começou a seguir a uma leve hipnose). e) O estado de depressão produzido por: 1) desgostos e perturbações várias, 2) a própria perturbação mental causada pelo aparecimento dos fenómenos mediúnicos, tanto por esse aparecimento, como pelo conteúdo das chamadas «comunicações», e 3) o conflito entre tudo isto e o basilar e normal espírito de lucidez, lógica e necessidade de precisão científicas, cepticismo filosófico e tendência para a análise raciocinada. f) Os estímulos mentais — curiosidade quanto ao futuro, ânsia de conhecer, etc. — normalmente humanos, primeiramente suscitados por estudos astrológicos, e depois agravados pela própria presença dos factos antecedentemente descritos. 2. Progresso da mediunidade. (Marcha da doença?) a) Declaração amorfa da escrita automática, imperfeita e desconexa (a seguir, como se disse, a uma leve hipnose, e relacionada com ela por o primeiro nome escrito, etc.). b) Aparecimento de fenómenos de ligeira visão com aumento de fixação retiniana de imagens e uma presumida capacidade de ver a chamada «aura etérica». c ) Aparecimento da escrita automática desenvolvidamente e depois com uma pretensa comunicação de diversos espíritos, sem resposta a perguntas, etc. (seguiu-se a escrever uma extensa carta sobre o assunto, q.n.) d) Aparecimento (a seguir a assistência aos fenómenos interpretativos da cartomancia) de uma mímica mediúnica, sobretudo relevada na segunda sessão de cartomancia a que assistiu. 3. Concomitantes psíquicas da mediunidade. a) Desaparecimento (salvo raras intermitências) da acção contínua e lúcida das faculdades superiores do espírito — aumento da dispersão mental, fraqueza de vontade (e de inibição sobretudo) agravada, gradual substituição das faculdades do sonho às de relação com a realidade concreta (mundo exterior} e abstracta (lógica e espírito científico). b) Desvio inferiorizante das faculdades de imaginação, tendendo a imagem visual para substituir a ideia abstracta (como na semi-sonolência e nos cérebros inferiores — FF). c) Enfraquecimento da sensibilidade sã e da sociabilidade, com um concomitante aumento da sensibilidade estéril e introspectiva, uma incapacidade crescente para medir a importância dos factos, um apagamento da afectividade, um acréscimo do egoísmo e da indiferença. d) Aumento dos desvios ideativos e sentimentais característicos do temperamento, e suscitamento de outros (porventura latentes, mas, em todo o caso, normalmente de fraquíssima substância); acréscimo da irritabilidade e da excitação nervosa. e) Debilitação física e perturbações funcionais do organismo físico. 4. Análise das chamadas «comunicações» mediúnicas. a) Os romances do subconsciente: as comunicações não passam em geral de um produto inferior e estéril de 1) a actividade imaginadora e baixa do subconsciente funcionando, como quando durante o sono, liberto do controlo do consciente, 2) a actividade do subconsciente no que resíduo de elementos do consciente, trabalhando como que em imitação deste, 3) a actividade memoriada do subconsciente, reproduzindo elementos gravados que o consciente não atinge. b) Ausência de elementos estranhos ao conhecimento do indivíduo. Onde parece havê-los 1) verifica-se que há erro, sendo puramente romance os «factos» apresentados (caso de Margaret Mansel); 2) verifica-se que são factos gravados na memória subconsciente, que o consciente esqueceu que lera ou presenciara; 3) verifica-se que representam previsões tiradas por uma espécie de raciocínio mais rápido e mais hábil que o consciente; 4) verifica-se que........(cabe aqui analisar os factos de previsões que se realizam. Muitas vezes estes casos não são tantos que se não possam explicar por mera coincidência, sendo imensamente maior o número dos que não se realizam; outras vezes, quando a precisão seja tal que um facto baste para ser estranho, verifica-se que há fraude; outras vezes ainda, e estas são as que restam, dando de barato que haja legitimidade nos factos, cumpre averiguar que modalidade especial tem o subconsciente como subconsciente 8 para atingir ccrtos detalhes distantes e certos detalhes futuros, observando-se sempre que esses fenómenos — serem verdadeiros — são em geral, senão sempre, dados em pessoas não só doentes — o que pouco importaria, pois teríamos que averiguar o que é a doença — mas absolutamente inferiores, mental e moralmente. c) Ausência de ideação superior é a do medium. A expressão estilística e filosófica é a do medium, e quando não o seja, basta procurar entre os presentes ou os sugestionadores quem possa haver induzido essa ideação por sugestão. Não há caso de ideação superior em medium desacompanhado de indivíduos superiores. (Notar, em todo o caso, que a circunstância de o delírio ser frequentemente acima do nível mental do indivíduo, é característico da grande histeria — V. Richer «L’hystéro-épilepsie»). e) As contradições e contrariedades das comunicações resultam 1) das contradições no carácter do médium, 2) da crítica do consciente ao subconsciente ao emitir esses «comunicados», 3) das sugestões múltiplas recebidas. f ) Em momentos especiais de cansaço há elementos emanados de sugestões alheias (alcance destas sugestões). g) Lógica da profecia — 1) ou se profetiza segundo o que se quer ou se julga bom, ou 2) segundo o que — bom ou mau — se afigura provável (como por critério astrológico), ou 3) por uma reacção do subconsciente, resultante da dúvida do consciente, se profetiza em desarmonia, por vezes subtil, com o que se disse e de que se duvidou. h) Os elementos aparentemente inexplicáveis — 1) e.g. — a construção de horóscopos, 2) n° 406, (...) i) A intromissão do consciente no subconsciente (o mediunismo em flagrante delito): 1) a falseação dos relatos, 2) o cálculo intrometido entre resposta e resposta nas comunicações, 3) a acção do consciente no sentido de colaborar com o inconsciente (solução das iniciais, etc.). 5. Conclusões. a) A mediunidade resulta de um desequilíbrio mental, análogo ao produzido pelo alcoolismo, sendo muitas vezes o estado podrómico da loucura declarada. (Casos) b) O subconsciente tem faculdades de ordem diferente do consciente, mais afinadas em certos pontos, mas absolutamente inferiores, e que, quando aplicadas nestes casos, se desviam do seu fim original, que é a conservação do organismo. c) Nada, até hoje, prova a presença de espíritos comunicantes, sendo para isso se provar preciso demonstrar primeiro que nas faculdades, ainda mal estudadas, do subconsciente, não cabe elaborar todos os fenómenos a que se chama de mediunidade. d) A mediunidade é um estado mórbido participante daqueles que produzem de um lado a loucura, do outro o crime. O crime, a loucura o suicídio são os aboutissements inevitáveis da autointoxicação mediúnica. Quando se não chegue a tanto, chega-se à loucura moral, à perversão sexual, e à incapacidade para a vida social pela absoluta desagregação dos instintos sociais, sem uma correspondente compensação social, como no génio e no talento, onde a amoralidade é frequente, mas onde o serem génio e talento compensam a falha. e) Análogos ao do espiritismo contemporâneo temos no passado as epidemias dançantes da idade média e os outros fenómenos estudados por Richer nos apêndices do seu livro sobre a Grande Histeria. f) O espiritismo tende, sem compensação alguma, a atacar o espírito científico: nem a arte, nem a moral, nem a própria religião ganham com isso. A arte não se faz pelo subconsciente em liberdade, mas pelo subconsciente dominado. A moral não se faz com a perda da inibição e a anulação da vontade, que são as primeiras necessidades da moral. A religião não pode assentar no desenvolvimento do egoísmo, nem na quebra dos laços sociais. g) O espiritismo devia ser proibido por lei, pela mesma razão que as publicações obscenas e os espectáculos tendentes a suscitar nos cérebros fracos o vício e o crime. (?). h) Para bem da civilização grega que é a nossa, embora disfarçada, devemos renunciar a esses elementos índios, persas, e de outras raças de civilização inferior que pelo cultivo constante das faculdades inferiores, tendem a destruir, no indivíduo, a supremacia da razão, na espécie o instinto gregário, na civilização actual a sua base de ciência e arte que herdámos da nossa mãe comum, a Grécia. i) Quando muito, os fenómenos do ocultismo e do espiritismo deviam ser, como na antiguidade, pertença de uma seita restrita, e não lançados pela sociedade dentro, como se fossem para toda a gente. j) A força criadora do Universo deu-nos, através dos sentidos (talvez limitados) que nos concedeu, a realidade exterior como tipo de Realidade, e o nosso espírito apenas como perceptor dessa Realidade. Sair daqui é violar as leis fundamentais da Natureza e de Deus. O que Deus fez oculto (se Deus fez alguma cousa oculta) é para se conservar oculto. Se não, ele tê-lo-ia feito claro. k) O actual movimento ocultista resulta a) da desagregação do cristianismo, que luta, a todo o transe, para se conservar sob todas as formas que lhe apareçam, b) da nossa civilização internacional que tornou possível aos elementos emanantes de civilizações como as da Índia e da China de chegarem até nós, c) da incapacidade de uma geração neurastenizada pela rapidez excessiva do progresso moderno, industrial, cultural e científico, em se adaptar de pronto ao tipo de mentalidade que é necessário que corresponda às ideias-fontes desse progresso. Græcia Mater, dirige-nos ! s.d. Fernando Pessoa et le Drame Symboliste: Héritage et création. Maria Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977. - 505. ATHENA O fim da arte inferior é agradar, o fim da arte média é elevar, o fim da arte superior é libertar. Mas a arte média, se tem por fim principal o elevar, tem também que agradar tanto quanto possa; e a arte superior, se tem por fim libertar, tem também que agradar e que elevar, tanto quanto possa ser [...]. Elevar e libertar não são a mesma coisa. Elevando-nos, sentimo-nos superiores a nós mesmos, porém por afastamento de nós. Libertando-nos, sentimo-nos superiores em nós mesmos, senhores, e não emigrados, de nós. A libertação é uma elevação para dentro, como se crescêssemos em vez de nos alçarmos. 1924 Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 30. The murder was either due to a political or to an individual reason. As no individual reason appears, and the political situation was so troubled and the man murdered so representative, we have to decide that the crime was committed for political reasons. Political reasons are of three kinds, and these are, as a matter of fact, the same reasons as individual ones are, on their different level: (1) revenge, (2) profit, (3) ????? Let us suppose the crime was committed for a reason of revenge. Then it could only be committed by some party or group which the dead President, or the party or group he commanded, had reduced to nought, had totally defeated. There were three parties who could do this: the Democratic party, the Bolchevick group and the Freemasonry (who had been one of their centres wrecked, as also an accessory centre). Let us see if circumstances point to either of these groups. Of the few facts which we know to have been gathered by police investigation, one is that the criminal went, either once, or twice, or several times (the number of times is unsure) to visit ML at his hotel. This fact became somehow immediately known. It points therefore straight at the Freemasons. Unfortunately it points too clearly to them. For is it not rather too strange that, if the Freemasons wished to prepare the assassination of a man, they should work out the plot, not, as would be easy, by some obscure lodge, but through the very person of their GM, and by means of visits of the intended assassin to so public a place as the hotel at which he lodged? When the further fact that it cannot be proved that the murdered is a Freemason is established (unimportant if the Freemasons seemed likely to have instigated the crime, for they might well seek an agent outside their society; yet important if it were intended by instigators outside the Freemasonry to set suspicion upon them, when they could hardly get a mason to do so, against his own society), the suspicious circumstances appear, still more clearly. So the suspicion is that the crime was not committed by order of the Freemasons. But if it were not, then the manifest intention was to put suspicion upon them, and the two facts, taken together, begin to work a theory into shape. For, by that probable hypothesis, the Democrats are at once ruled out of the way. The Democrats are intimately connected with the Freemasonry. If they committed the crime, and intended suspicion to be purposely thrown somewhere, they would hardly choose a society friendly to their party (owing to anticlerical reasons) to hang suspicion on. So, out of the three possible parties or groups who could have had the crime committed out of revenge, only the Soviets remain. But supposing it was the Soviets, why should they try to cast suspicion on anyone? and, if on anyone, why on the Freemasonry? Why should they try to cast suspicion on anyone especially? s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 216. Se a avaliação dos movimentos literários se deve fazer pelo que trazem de novo, não se pode pôr em dúvida de que o movimento Sensacionista português é o mais importante da actualidade. É tão pequeno de aderentes quanto grande em beleza e vida. Tem só 3 poetas e tem um precursor inconsciente. Esboçou-o levemente, sem querer, Cesário Verde. Fundou-o Alberto Caeiro, o mestre glorioso [...]. Tornou-o, logicamente, neoclássico o Dr. Ricardo Reis. Moderniza-o, paroxiza-o — verdade que descrendo-o [?] e desvirtuando-o —.o estranho e intenso poeta que é Álvaro de Campos. Estes quatro — estes três nomes são todo o movimento. Mas estes três nomes valem toda uma época literária. Cada um destes 3 poetas realiza uma coisa que há muito se andava procurando [?] por esse tempo fora, e em vão. Caeiro criou, de uma vez para sempre, a poesia da Natureza, a única [?] poesia da Natureza. R. Reis encontrou enfim a fórmula neoclássica. Álvaro de Campos revelou o que todos os [...] paroxistas [?] e modernistas vários [?] andam há anos a querer fazer. Cada um destes poetas é supremo no seu género. 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 168. Being and not‑Being, in argument, whether as ideas, or as things, are possessed of Being. Materialism. When M[aterialism] says that the natural argument of the immortality of the soul is wrong, it neglects to analyse what this argument contains. It contains these elements: idea of persistence, idea of a life beyond, (...) To say, as the materialists say, that man conceives an eternal life because of his horror of death, of extinction is to fall into error. Primarily, man might, as the animal, have an instinct of life without necessarily, say, from it to an eternal life. When Materialism says man fears extinction does it consider the statement? Does it think that man stands of fear of nothing? [?] Similarly with Idea of God. 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 174. IDEALISMO: Objectivo ex.: Leibnitz. Subjectivo: Berkeley. Transcendental. O que é característico no Id[ealismo] não é tanto o querer‑se procurar fora da matéria uma causa da causa do universo. Para o idealista o que importa é procurar uma explicação do universo que seja também uma expl[icação] do valor moral da [vida] humana. Para o I[dealismo] O[bjectivo] o que é de real no univ[erso] é qualquer coisa idêntica a uma coisa do espírito, e.g. Mónada. Leibnitz. Para o I[dealismo] S[ubjectivo] tipo sistema de Berkeley. Para Berkeley o mundo é o conjunto das nossas sensações. I[dealismo] Transcendental. Para Kant a realidade é o que conhecemos, é matéria dada pela sensação. Forma imprimida pelo espírito O conceito é por um lado uma conclusão que o entendimento tira, unidade extraída pelo entendimento da multiplicidade das sensações. A ideia de Espaço, de Tempo para Kant uma forma a priori. Há na razão alguma coisa superior ao entendimento. I[dealismo] T[ranscendental] é uma transição entre o Idealismo Objectivo e o I[dealismo] Su[bjectivo]. Realismo: Dualista: Descartes, Aristóteles. Monista: Spinoza. [...] A matéria só vale tanto quanto é explicada pelo espiritual. Materialismo: tudo matéria ou forma da matéria. Quando Descartes achou substância corpórea extensa e espiritual. Nada existe senão um ser que tem duas formas como extensa e pensante. Problema moral: 2 meios de resolver este problema. Moral é heterónoma ou autónoma. Moral: Heterónoma: Religiosa Política Autónoma: Imanente: Subjectiva Objectiva: Individualista Colectivista Transcendente: Intelectualista — Sócrates, Platão Voluntarista — Kant, Shopenhauer Se procurarmos [?] regrar nossa acção em autoridade externa — seja vontade social — Deus — heterónoma. Procura‑se às vezes um princípio inerente à natureza humana imanente ou idêntico a qualquer outra faculdade para comunicação com alguma coisa transcendente. [...] O homem não pode conhecer o bem e praticar o mal. Sócrates e Platão. A verdade (Sócrates) é ciência. O mal é uma ignorância ou um erro. Há ideias puras e há ideias cheias dum elemento sentimental visto sentirmos certa intelecheia — ser vivo. Se assim é não devia haver ninguém mau. Por ex. um soldado atraiçoa sua pátria. Se lhe dissessem que o não fizesse, deixaria de o fazer? Não. Mas precisa desenvolver‑lhe a vontade. Há precisão de alguma coisa não volúvel. Imperativo categórico da razão prática. Conformidade da acção com o acto universal. (Kant). Faz o bem pelo bem. Schopenhauer. A vontade é a única coisa que pode aproximar‑se do Bem Absoluto. É tanto mais moral uma acção quanto aproxima a humanidade presente da humanidade ideal. 1910? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 122. Conclusões transcendentalistas (não em pouco tempo deduzidas, conquanto que rapidamente expostas): 1. Temos uma ideia de Ser com a qual sinónima a de Verdade (Verdade Absoluta). 2. Não podemos conhecer a Verdade Absoluta, o Ser (pelo menos dentro do Universo). 3. Só podemos saber isto: que o Universo não é esse Ser , essa Verdade. Daí o agnosticismo transcendentalista. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 176. XXIII Even as upon a low and cloud-domed day, When clouds are one cloud till the horizon. Our thinking senses deem the sun away And say «'tis sunless» and «there is no sun»; And yet the very day they wrong truth by Is of the unseen sun's effluent essence, The very words do give themselves the lie, The very thought of absence comes from presence: Even so deem we through Good of what is evil. He speaks of light that speaks of absent light, And absent god, becoming present devil, Is still the absent god by essence' right. The withdrawn cause by being withdrawn doth get (Being thereby cause still) the denied effect. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 178. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. DREAM It was somewhere secluded In silence and moon. All like a lagoon. No cares there intruded Save the vague wind's swoon. Landscape intermediate Between dreams and land. The wind slept, calm‑fanned. The waters were weedy at Where we plunged our hand. We let the hand wander In the water unseen. Our eyes were with th' sheen Of the moonlit meander Of the forest scene. There we lost the spirit Of our still being we. We were fairy‑free, Having to inherit Nothing from to be. The fairies there and the elves Damasked their moonlit train. There we shall awhile gain All the elusive selves We never can obtain. s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 328. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. Sim, sou situacionista. Mas vamos lá a uma coisa… Há três maneiras de ser situacionista, isto é, de ser partidário de qualquer situação política. A primeira é a conformidade por doutrina; a segunda a conformidade por aceitação; a terceira a conformidade por não-oposição. Deixo de parte uma das mais vulgares — a conformidade por vantagem —, porque não é disso que se trata, pelo menos em mim. A conformidade por doutrina quer dizer que o partidário está de acordo com o programa político da situação a que adere. A conformidade por aceitação quer dizer que o partidário, sem que adira ao todo ou a parte desse programa, confia todavia na situação e se abstém de pôr pontos doutrinários. A conformidade por indiferença vale por adesão por só não ser hostilização. Sou situacionista por aceitação. Não discuto problemas políticos, constituições ou programas. Confio instintiva mas não irracionalmente, no General Carmona e no Professor Salazar. Confio no General Carmona porque tem a mais segura mão de timoneiro que há muitos anos temos tido. Desde quando, no período agudo da Ditadura, apoiou a acção defensiva e patriótica do General Vicente de Freitas, até quando, havendo já calma para pensar, deu apoio à acção coordenadora do Prof[essor] Salazar, o Presidente da República tem-se mantido numa atitude que é rara em qualquer caso, e raríssima em política — a maleabilidade dentro da dignidade. É um aristocrata da adaptação. Confio no Prof[essor] Salazar por um motivo primário e dois motivos secundários. O motivo primário é aquele de ter as duas notáveis qualidades que ordinariamente falecem no português: a clareza firme da inteligência, a firmeza clara da vontade. Dos motivos secundários, o primeiro é o que tenho notado de realmente feito e que antes se não fazia — tudo isso que vai desde os navios e as estradas até tentar dar a um país sem ideal nacional pelo menos o pedido de que pense em tê-lo. O segundo desses motivos é o acréscimo do nosso prestígio no Estrangeiro. Conheço a sua realidade por informações directas, e não por citações de jornais, susceptíveis sempre de suspeitas reais, factícias ou fictícias. E, neste esquema de adesão translata, é de meu dever dizer que junto ao nome do Prof[essor] Salazar o do Prof[essor] Armindo Monteiro. Disse que confio porque confio. Não vou mais longe. Se me perguntarem se compreendo a obra financeira do Prof[essor] Salazar, digo que não, porque nada sei de finanças. Confio. Se os seus opositores me disserem que por estas e aquelas razões, essa obra é má, digo, com igual fundamento, que não sei. Confio. Dito isto, compreendamo-nos melhor. Além do situacionista que sou, sou um individualista absoluto, um homem livre e um liberal. E isto faz que tenha uma perfeita tolerância pelas ideias dos outros, que seja incapaz de considerar um crime o pensar outro do modo que não penso. Por isso, esta confiança, que tenho no Prof[essor] Salazar, me não impõe a mais pequena sombra de aversão a, por exemplo, o Prof[essor] Afonso Costa. Timbro em afirmar por ele a minha absoluta consideração. Esse homem foi o único que cumpriu integralmente, no Governo Provisório, o que prometera na propaganda. Prometeu a Lei do Divórcio: fê-la. Prometeu a Lei da Família: fê-la. Prometeu a Lei da Separação: fê-la. Se as fez bem ou mal, do ponto de vista jurídico, não sei, porque não sou jurista. Sei que prometeu e cumpriu. Não sou, evidentemente seu correligionário, mas não consigo ser seu inimigo. Nego-lhe o meu apoio; não posso negar-lhe o meu respeito. Sigo o preceito do Prof[essor] Salazar: política de verdade. E neste critério, e com os fundamentos de que for capaz, continuarei, sempre que Deus quiser, a defender a Maçonaria. 1928 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 217. Princípios do [Sensacionismo] 1. Todo o objecto é uma sensação nossa. 2. Toda a arte é a conversão duma sensação em objecto. 3. Portanto, toda a arte é a conversão duma sensação numa outra sensação. 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 168. Life is not of the nature of light but of the nature of fire. Life, the eternal agony of suspense, a horrible nothing. A feeling that is madness of thought. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 176. Vou explicar-lhe a maneira de composição das figuras que componho em mim. Deve entender-se esta explicação como o desdobramento analítico de um fenómeno mais ou menos inconsciente. Fora impossível compor essas personalidades por um impulso determinado da razão. Sou, psiquiatricamente considerado, o que se chama um histero-neurasténico. A histero-neurastenia é, vulgarmente, a sobreposição de um estado geral neurasténico a um estado substancial histérico. Em muitos casos o estado neurasténico é adquirido ou sobrevindo. No meu caso, que é o da autêntica histero-neurastenia - a temperamental - os dois fenómenos coexistem de nascença, formam bloco e ao mesmo tempo o não formam, visto que são distintos, pois são distinguíveis. Como, naturalmente, sabe, a histeria (cuja existência como espécie nosológica é contestada por alguns, sem que isso importe para o caso presente) dá, tipicamente, uma oscilação extraordinária da sensibilidade, uma capacidade intensa de sensação e sentimento rápidos, profundos enquanto duram, porém incapazes de se prolongar, a tendência para o devaneio e para a irrealização, (…) 1935? Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 343. Kant and the ethical problem. Why, space not being a reality, is good a reality? Why cannot the term good or bad be applied to the motion, or rather to the laws which control the movements of atoms? The basis of the idea of good is pleasure and pain, whence come good and evil. Why should one part of the world be unreal and another real ? Since men of genius are of the future we may pre‑know in a sort, from them, whether evolution leads us. There is aught in me that cannot die. True, but that is not myself. Quite true; there is something in me that cannot die. 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 125. 1. Distinção entre o conhecimento metafísico e físico. O problema do conhecimento é a fronteira que, a um tempo une e separa, como toda a fronteira, a física e a metafísica. Postos Sujeito, Objecto e a Relação entre eles, como, desde Kant se estabeleceu, o último irredutível abstracto da experiência depurada, a teoria do conhecimento metafísico é a da relação (essencial) entre S[ujeito] e O[bjecto], a teoria do c[onhecimen]to físico a do conteúdo do Sujeito e Objecto. Metafisicamente, pode ser que S[ujeito] e O[bjecto] sejam a mesma coisa, que o O[bjecto] ou o S[ujeito], ou ambos, sejam ilusão. Fisicamente, não importa que assim seja ou não seja. 2. Consciência-Número. Se o Objecto for concebido como um — não o um numérico (não muitos), mas o um ausência de número (...)—força é que ou Consciência — Abstracto Percepção ( 1 ) — Número Duração — Espaço . É em si-próprio que o espírito vê o abstracto, e quando se considera a si-mesmo só como consciência, a si-mesmo se considera abstractamente. O conceito de espaço como essencialmente relativo. Se o número-grandeza é que define o espaço, o espaço é relativo, porque essencialmente o é o número-grandeza (em oposição ao número-ordem, ou número-distinção). O conceito de coexistente é relativo, como o próprio nome o indica. As coordenadas como exemplo especial da relação. Será possível, e melhor, a demonstração partindo do máximo «concreto» e descendo, gradualmente, ao abstracto? A Consciência, vazia da realidade, ainda que contendo-a — Abstracção. ( 1 ) O acto essencial de perceber ou de conhecer. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 176. Ouves-me sem me entender. Ouves-me sem me entender. Sorris sem ser porque falo. É assim muita mulher. Mas nem por isso me calo. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 92. XXIV Something in me was born before the stars And saw the sun begin from far away. Our yellow, local day on its wont jars, For it hath communed with an absolute day. Through my Thought's night, as a worn robe's heard trail That I have never seen, I drag this past That saw the Possible like a dawn grow pale On the lost night before it, mute and vast. It dates remoter than God's birth can reach, That had no birth but the world's coming after. So the world's to me as, after whispered speech, The cause-ignored sudden echoing of laughter. That 't has a meaning my conjecture knows, But that 't has meaning's all its meaning shows. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 180. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. I feel pale and I shiver. What power of the moonlight Tremulous under the river Thus pains me with delight? What spell told by the moon Unlooses all my soul? O speak to me! I swoon! I fade from life's control! I am a far spirit, e'en In the felt place of me. O river too serene For my tranquillity! O ache somehow of living! O sorrow for something! O moon‑pain the sense‑giving That I am vainly king In some spell‑bound realm mute, In a lunar land lone! O ache as of a dying flute When we would have't play on! s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 330. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. 1) Artes de agrado 2) Artes de aperfeiçoamento [...] Tornar o útil agradável, eis a base de artes de aperfeiçoar; porque tornar o útil agradável é aperfeiçoar o útil, tornando-o mais útil, fazendo-o servir em si o seu fim directo, que constitui a sua utilidade, plus [?] outro fim, indirecto, que é o de tornar essa utilidade duplamente útil. A escala é da mais directa agradabilização do útil para a menos directa; da arquitectura, portanto, através da escultura para a pintura. 3) Artes de influenciar. São essencialmente as artes de civilização. O seu fim é transmitir civilização, passar de umas gerações para outras o resultado do trabalho psíquico de cada uma. As artes de influenciar são portanto: a) representativas de resultados civilizacionais, e não de tipos psíquicos (...) . O ideal do artista influenciador é alto na proporção em que ele tem consciência do seu mister, na proporção em que tem consciência do seu papel de influenciador de gerações futuras, e da sua missão de quem deve deixar perenemente aumentado o património espiritual da humanidade. Os poetas antigos tinham esta consciência; a decadência dela entre os modernos, substituída pela ânsia da popularidade imediata, apanágio finalista das artes inferiores, é um dos mais fortes sintomas da nossa degradação moral (espiritual) . Artes de influenciar a) o fim representativo: o artista procura, ao fazer a sua obra, deixar alguma coisa que represente o estado da sua época (?). b) o fim valorizador: [o artista procura deixar] alguma coisa que dê valor à sua pátria (ou à humanidade). c) o fim instrutivo: [o artista procura deixar] alguma coisa que perenemente mande nas almas. Uma obra sobrevive em razão de 1) sua construção, porque, sendo a construção o sumo resultado da vontade e da inteligência, apoia-se nas duas faculdades cujos princípios são de todas as épocas, que sentem e querem da mesma maneira, embora sintam de diferentes modos; 2) a sua profundeza psicológica; 3) carácter abstracto e geral da emoção que emprega. A obra sóbria de emoção tende mais a sobreviver porque a emoção moderada é característica de todas as épocas, porque os de emoção moderada a apreciam naturalmente; e os de emoção irregular têm a sua média na emoção moderada. De mais a mais, as emoções excessivas variam de época para época; são, portanto, o que há de passageiro em cada uma. As emoções moderadas caracterizam todas; isto é, todas as aceitam, embora algumas, por o que têm de transitório, prefiram que se exagere. A excessiva compaixão pela humanidade, por ex., caracteriza o romantismo. Fora do romantismo, essa emoção não existe. Mas a compaixão nobre pelas dores humanas é um sentimento humano de todas as épocas. 1925? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 31. Pobre Espanha, já sem ter Alma onde ser! Fragmento sobrevivente De ti mesma, ente De te perder! Relembremos na hora Em que em ti chora O que não ouves em ti, Aquele que foi O herói em si Do que em ti se perdeu de herói. Fidalgo que toda a alma deu Ao Rei e à Grei que o perdeu No incêndio da hora estranha, Saibamo-lo, alheios mas homens, chorar, Com quem a alma da fidalguia da Espanha Foi a enterrar. 13-11-1931 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 218. 1. No princípio, na Grécia — e depois em Roma, essa América da Grécia — reinou o Objecto, a Coisa, o Definido. Existia, de um lado, a Coisa; do outro existia, em bloco, a Sensação, a sensação imediata e vivida. E assim, quando a arte era do Objecto, o objecto surgia perfeito e nítido na realização. E, como o espírito concebe sempre o sujeito à semelhança do objecto, as sensações (quando a sensação se tornava sensação da sensação, introspectiva, autoanalítica) eram concebidas como concretas, definidas, separadas umas das outras. Por isso não havia vago, indeciso, penumbra na poesia de alma dos gregos e dos romanos. Tudo está detalhado e detalhado em plena luz. A sensação da realidade era directa nos gregos e nos romanos, em toda a «antiguidade» clássica. Era imediata. Entre a sensação e o objecto — fosse esse objecto uma coisa do exterior ou um sentimento — não se interpunha uma reflexão, um elemento qualquer estranho ao próprio acto de sentir. A atenção era por isso perfeita, cingia cada objecto por sua vez, delineava-lhe os contornos, recortava-o para a memória. Quando era dirigida para o interior, [...] incidia atentamente sobre cada detalhe da vida espiritual, concretizando-o pela própria acuidade equilibrada da atenção. 2. Passada pelas almas a longa doença chamada cristianismo, esmiuçado doentiamente o espírito por si próprio, a clareza da sensação perturbou-se. A presença no pensamento das ideias de espírito, de Deus, de outra vida, concebidas como o eram, levaram a uma decomposição da Realidade, qual os gregos a haviam concebido. Entre a sensação e o objecto dela — fosse esse objecto uma coisa exterior ou um sentimento — intercalara-se todo um mundo de noções espirituais que desvirtuava a visão directa e lúcida das coisas. Os gregos haviam tido dos deuses e do Olimpo uma noção tal que eles lhes apareciam como simili-humanos, como meros prolongamentos da humanidade, concebidos, porém, sub specie humanitatis, como maiores, mais poderosos, mais livres; não como opostos, senão naquilo em que «superior» é oposto a «inferior». A própria sua imortalidade não era inumana, porque era uma eternidade percorrida humanamente, por uma eterna duração fora. (O conceito do super-homem de Nietzsche é um conceito pagão.. Mas compare-se o anti-intelectualismo dele). Outras eram as noções cristãs. Aqui o invisível, o ultra-humano, o divino, por grosseiramente que fosse concebido, era-o como oposto à Realidade Exterior. Ora uma alma que encara as coisas com tal conceito no espírito, não as pode encarar directamente, muito embora queira ter essa preocupação. A noção de alma, concebida como diferente do corpo e superior a ele, começa por tornar menos importantes ao espírito as coisas. A noção de Deus substituía-se ao conceito do conjunto das coisas, a que se chamava a Natureza. A noção de sobrenatural convidava a uma descrença na utilidade, porque na estabilidade, do concreto. Esta nova noção do milagre levava ao desprezo, quando não à indiferença, pela possível existência das leis naturais. Isto, se levava a um enfraquecimento da atenção, a uma perturbação da visão, a uma incompreensão instintiva dos factos, também por sua vez tinha origem precisamente numa tibieza da vontade, numa perturbação da visão, numa incompreensão instintiva dos factos que tinham de comum os gregos e romanos decadentes, precisamente porque tais fenómenos de degenerescência psíquica eram naturais de decadentes, e os bárbaros invasores, porque tais fenómenos neles eram resultado da sua primitividade e da sua incultura. Um mundo formado com elementos assim semelhantes, por degenerados e primitivos, não podia viver numa religião que correspondia a um estado relativamente são do espírito, onde a atenção era certa e nítida, os sentimentos destrinçados e como que lógicos, e a vontade, portanto, quanto é humanamente possível, segura e certa. Da mistura de raças resultou mais impuro ainda o estado de espírito típico do homem da época. Num mundo assim psicado o triunfo devia pertencer àquela religião que mais se lhe adaptava; e que mais se adaptava, também, ao meio social e às ideias que ele impunha. O cristismo estava em estas condições. De sua natureza dispersivo e sentimental, caía bem ao estado de espírito que a decadência criara; monoteístico, tinha qualquer coisa de imperial, qualquer coisa que bem se coadunava com mentalidades nascidas à sombra do império romano, e do [. . . ] prestígio longínquo do nome do Imperador. [...] heresias houve até que, por fim, o cristismo fosse adquirindo elementos de domínio, transformando-se, adaptando-se. Na Idade Média ele atingiu o seu esplendor unitário. * Qual a perturbação que se nos revela nos poemas dos grandes poetas da Renascença, abrangendo com o [...] Dante e Petrarca [?] — com respeito aos antigos, na visão da Natureza? Os poetas cantam as coisas indirectamente, vendo-as já através da sua emoção. Vêem-se nitidamente, é certo, mas 1) acompanhadas de uma emoção que se sobrepõe às coisas, 2) fundidas umas nas outras pelo sentimento da sua fraternidade em Deus, por serem todas criadas por Deus (S. Francisco de Assis). * Como a noção do exterior nunca era desacompanhada da noção de que era criado por Deus, de que a alma lhe é superior, de que aquilo era temporal e transitório, segue que a noção (visão) do objecto exterior vem sempre, espontaneamente, como visão, acompanhada duma emoção deformadora dele. A sensação é nitidamente do exterior mas, ao mesmo tempo, esse sentimento (ou sensação) do exterior, do físico, é sempre acompanhada por uma obscura consciência do interior, do psíquico. De aí dois factos. A arte grega, como se baseara na lucidez da atenção, era a arte 1) do equilíbrio, porque era do perpétuo contido pelo exterior, 2) da harmonia, porque era a arte feita por gente com a vontade educada; 3) do fasto [?], isto é, da acção humana, por ser essa a manifestação típica de gente de atenção clara e lúcida. A arte da Renascença, dadas as transformações indicadas, passa a ser 1) do facto físico-psíquico —, Shakespeare [...] ( . . . ). Pode chamar-se à arte da Renascença a arte do físico e do psíquico; a atenção divide-se, mas a preocupação do físico é acompanhada sempre da percepção do psíquico. Mas não se fundem: coexistem. A nitidez absoluta, a lucidez forte desaparece. A atitude é, no fundo, a mesma do que a antiga; apenas muda [?] o centro da atenção, que é, aqui, dirigida sobre a sensação e não já sobre o objecto exterior ou interior. Explicando melhor: o homem da Renascença olha para as coisas como os gregos, e olha para as almas como o grego; mas, ao passo que o grego olhava primeiro para as coisas exteriores, e para as almas depois, moldando o seu conceito primordial de realidade sobre a matéria, sobre os objectos exteriores, o homem da Renascença olhava primeiro para a alma e depois para as coisas exteriores, moldando as coisas exteriores pelo seu conceito da alma. Esse conceito da alma, como era ainda em parte o conceito antigo, era ainda nítido, porque tinha ainda qualquer coisa das suas origens e tinha sido moldado sobre a noção dos contornos das coisas exteriores. De modo que era relativamente ligeira a deformação que as coisas sofriam, porque pequena era a deformação que o conceito de alma havia sofrido. Mas havia-se dado o facto capital de a alma passar a ser o centro da atenção dirigida. (Deformação do Renascimento) 3. Romantismo. Progresso da centralização da atenção na alma. A sensação passa a ser a realidade primordial. O objecto exterior cessa como independente da sensação, passa a ser sentido apenas como sentido. Todas as manifestações românticas e cisromânticas pertencem a esta categoria, inclusive o chamado realismo. 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 169. Tu és tudo (o) que a vida não é; o que de bom e de belo se souber deixar e não existe. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 176. What is existence? We say that the ideal does not exist, but that the real does. But what do we mean by «exist»? What is existence? « Esse est percipi » (Berkeley). When Comte says «the Relative alone exists», we can reduce his opinion to «the Relative alone is the Relative». We agree with him. Or does he mean the rel[ative] alone has absolute existence [?] 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 126. Se eu te pudesse dizer Se eu te pudesse dizer O que nunca te direi, Tu terias que entender Aquilo que nem eu sei. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 93. Moreninha, moreninha, Moreninha, moreninha, Com olhos pretos a rir. Sei que nunca serás minha, Mas quero ver-te sorrir. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 65. XXV We are in Fate and Fate's and do but lack Outness from soul to know ourselves its dwelling , And do but compel Fate aside or back By Fate's own immanence in the compelling. We are too far in us from outward truth To know how much we are not what we are, And live but in the heat of error's youth , Yet young enough its acting youth to ignore. The doubleness of mind fails us, to glance At our exterior presence amid things, Sizing from otherness our countenance And seeing our puppet will's act-acting strings. An unknown language speaks in us, which we Are at the words of, fronted from reality. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 180. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. A tua carne calma Presente não tem ser, Os meus desejos são cansaços. Quem querem ter nos braços É a ideia de te ter. 1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 147. ELSEWHERE Let us away, my child, Away to Elsewhere. There days are ever mild And fields are ever fair. The moon that shines on whom There wanders happy and free Hath woven its light and gloom Of immortality. Seeing things there is young, Told tales sweet as untold, There real dream‑songs are sung By lips we may behold. Time there's a moment's bliss, Life a being‑slaked thirst, Love like that in a kiss When that kiss is the first. We need no boat, my child, But our hopes while still No rowers but fancies wild. O let us seek Elsewhere! s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 332. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. Os homens dividem-se, na vida prática, em três categorias — os que nasceram para mandar, os que nasceram para obedecer, e os que não nasceram nem para uma coisa nem para outra. Estes últimos julgam sempre que nasceram para mandar; julgam-no mesmo mais frequentemente que os que efectivamente nasceram para o mando. O característico principal do homem que nasceu para mandar é que sabe mandar em si mesmo. O característico distintivo do homem que nasceu para obedecer é que sabe mandar só nos outros, sabendo obedecer também. O homem que não nasceu nem para uma coisa nem para outra distingue-se por saber mandar nos outros mas não saber obedecer. O homem que nasceu para mandar é o homem que impõe deveres a si mesmo. O homem que nasceu para obedecer é incapaz de se impor deveres, mas é capaz de executar os deveres que lhe são impostos (seja por superiores, seja por fórmulas sociais), e de transmitir aos outros a sua obediência; manda, não porque mande, mas porque é um transmissor de obediência. O homem que não nasceu para mandar nem para obedecer sabe só mandar, mas, como nem manda por índole nem por transmissão de obediência, só é obedecido por qualquer circunstância externa — O cargo que exerce, a posição social que ocupa, a fortuna que tem... Chamamos para estas singelas considerações psicológicas a atenção dos leitores. Devidamente compreendidas, elas elucidar-lhes-ão muitas coisas, e muita gente... Revista de Comércio e Contabilidade , nº 4. Lisboa: 25-4-1926. - . Na sua resposta, aliás admirável, ao Prof. Afonso Costa, expôs o Presidente do Conselho, com a limpidez didáctica que é seu hábito e maneira, as suas ideias sobre o que chama o espírito partidário. Considera-o daninho, tanto para o homem como para a nação, considera-o oriundo das discussões reversíveis entre arguente e defendente, que em nossas escolas se estabeleciam para estimular a argúcia dos educandos; e considera o Prof. Afonso Costa como um exemplo típico de tal espírito. Proponho-me examinar estas proposições, excepto a última, pois desde já concedo, e de bom grado, que o Prof. Afonso Costa é, de facto, um exemplo típico do espírito partidário. Como, porém, para discutir o que é espírito de partido há mister que primeiro se assente em o que vem a ser «partido», por aí começarei. De aí derivará, necessariamente, a análise à primeira proposição, como acima a expus, do Prof. António Salazar. Como não tenho, nem nunca tive, partido, tenho ao menos a competência moral para tratar do assunto. Da intelectual dirá o leitor. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 219. A — Disgénica da guerra B — Ânsia de organização C — Desencadeamento do revolucionarismo Correntes: A contra B: decadentismo A contra C: A contra BC: B contra A: neoclassicismo B contra C: B contra AC: neoclassicismo integral. C contra A: neo-romantismo dinamista. C contra B: neo-romantismo socializante C contra AB: neo-romantismo por aparecer, reacção simultaneamente contra o espírito organizador e contra o espírito decadente. As correntes neoclássicas serão provavelmente as mais fortes. Eu, poeta decadente, creio que assim será. Como expressão da disgénica da guerra, aparecerão correntes ultra-decadentes, interpretativas do abatimento em que grande parte ficará. São três essas correntes, consoante reajam contra o espírito de organização, contra o espírito revolucionário, ou contra os dois simultaneamente. O primeiro tipo de decadentismo será uma continuação, diferente por novas individualizações apenas, daquela parte do decadentismo que representa uma revolta contra as regras, uma introspecção excessiva. O segundo tipo de decadentismo será uma continuação daquele tipo de decadentismo que mais se ocupa em criar uma indiferença aos problemas do meio do que em se entregar à introspecção propriamente. O primeiro partirá de Verlaine, como o segundo de Mallarmé ou dos chamados estetas ingleses, Pater ou Wilde. O terceiro tipo de decadentismo é que trará novidades; será uma exacerbação dos dois reunidos: qualquer prenúncio dele surgiu, de resto, já antes da guerra, na corrente portuguesa que veio [?] depois a manifestar-se em Orpheu. Como expressão da ânsia de organização que a guerra deixaria de si, impressão europeia da cultura germânica, que é o facto psíquico central da guerra, teremos três correntes neoclássicas — uma oposta à expressão decadente, outra à expressão revolucionária, outra às duas juntas. A primeira, seguindo a esteira do vitalismo moderno, a segunda, indo nas pisadas do neoclassicismo francês contemporâneo, não apresentarão, salvo em individualidades que surjam, alguma novidade. A terceira, porém, aquela que trará em si uma dupla reacção, será qualquer coisa de mais completo e de mais forte, transcendendo imensamente as outras duas, mesmo que elas — até hoje tão frouxas — venham a revelar-se através de personalidades mais interessantes que os poetas astros que cercam a Action Française. Finalmente, expressão do revolucionarismo intensificado da época, teremos uma corrente oposta ao decadentismo, que será a corrente nacionalista, já tão marcada; teremos, oposta propriamente ao espírito de organização, outra corrente, estilo «poesia social». Poder-se-á estranhar a ausência, nesta enumeração, das correntes dinamistas, que partem de Walt Whitman — digo, as correntes futuristas, vorticistas, etc. O dinamismo é uma corrente decadente, e o elogio e a apoteose da força, que o caracteriza, é apenas aquela ânsia de sensações fortes, aquele entusiasmo excessivo pela saúde que sempre distinguiu certas espécies de decadentes. 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 176. O homem luta não só, como os animais, pelo necessário, mas também pelo supérfluo. (Aqui se mostra o mórbido.) A luta pelo supérfluo. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 176. AGNOSTICISMO IDEALISTA Definição da filosofia: procura da verdade absoluta (e sem utilidade prática). 1. O que é a verdade, ou qual é a verdade? 2. Pode saber‑se a verdade? 3. Se se pode, como? se se não pode, porquê? ou 1. O que é a verdade? 2. Pode saber‑se a verdade? se se pode, como? se não se pode, porquê? 3. Qual é a verdade? Primeiro, é preciso determinar o que se entende por verdade. Nem, por não ter sido feito quase nunca, é menos essencial esta determinacão. Mas não tem sido feito por uma razão, por um caso de compreensão intuitiva. É que sendo verdade sinónimo de ser, todos os filósofos sentem que a resposta à pergunta: o que é a verdade? é é o que é. De modo que a pergunta se concretiza nesta: o que é que realmente, essencialmente, absolutamente é ou existe? s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 127. 1. Tudo o que existe é um facto mental, isto é, concebido ; o inconcebível, se o supomos existente, é que o concebemos como conceptível se bem que não por nós. 2. Visto que há coisas que concebemos como independentes do nosso concebê-las , por ex., os corpos exteriores — tudo quanto não é directamente sensação nossa, dada em nós e como só nossa, (distinguimos entre um objecto e a nossa ideia dele) — temos que conceber essas ideias como concebidas por outrem que não nós . 3. Visto que em todo o caso, sempre concebemos essas coisas, e as concebemos todas com certa semelhança, (começando por a semelhança de as concebermos extensas , e daí decrescentemente), o outrem que as concebe é qualquer coisa que está em todos nós. 4. Se está em todos nós é o que há de semelhante em todos nós; e o que há de profundamente semelhante em todos nós é o facto abstracto de conceber, a concepção em si. 5. A concepção em si, sendo presente em todos nós, é porém distinta de nós porque concebe coisas que nós, por nossa parte, concebemos como distintas de nós. 6. A concepção pura seria a realidade pura — isto é o absoluto exterior, assim como a nossa concepção relativa seria um exterior relativo — as nossas sensações, as nossas ideias. 7. Conceber é criar quando o concebido não passa de conceptor e se distingue dele sem se distinguir; tal como uma ideia nossa como ideia , que está no nosso espírito como nós, porque a não sentimos fora dele, mas ao mesmo tempo como não-nós, pois se sentimos como tal ideia, e não tal outro, como, nossa e não nós. 8. Criar, isto é, conceber uma coisa como em nós mas não nós, como nós sem ser nós, é concebê-la como feita da nossa própria substância conceptiva , sem ser essa mesma substância; ou, melhor, é concebê-la como sendo concepção sem o conceber . 9. A concepção em si, ao criar o que forma o não-nós, cria-o pois da sua própria substância , sem que ela seja essa substância. Ora como a substância da concepção em si (ver a nossa noção) é ser em si o que é criado por ela é em si também. 10. Como, porém, ao mesmo tempo esses objectos não são a concepção em si, sendo todavia em si, segue que são concebidos em si, o que tem ao mesmo tempo a substância da concepção em si, por ser em si, e não a tem, por ser concebido e não concepção. 11. Como também, ao mesmo tempo que a substância da concepção em si é ser em si, também é o ser concepção, segue que o que ele cria, em outra forma de o pensar é concepção não-em-si, o que tem ao mesmo tempo a substância da concepção e não a tem, por ser não-em-si e não em-si. 12. Segue pois, até agora, que o acto criativo da Concepção-em-si é duplo por natureza: cria tanto o Concebido-em-si, como a Concepção-em-si. 13. Além disto, porém, podemos, indo mais longe, considerar a substância da concepção em si como sendo concepção-em-si. O que será a concepção-em-si ou não é Concepção-em-si? [É a substância da Concepção-em-si distinta do ser concepção-em-si, isto é, para empregar um modo de dizer falso (porque entra nele uma como ideia de tempo, que lhe é necessariamente estranha), o conceber em si distinto do estar-concebido em si]. (Como concepção se opõe a concebido e em-si e não-em-si, a concepção em si que não é concepção em si — é o concebido não-em-si, porque, ao mesmo tempo que inteiramente se opõe à concepção em si, inteiramente lhe é idêntico, pois (...). Como a concepção em si cria, por tal ser, o concebido em si, e a concepção não-em-si; e como estes dois criados são tudo quanto a concepção cria e pode criar; e como, na concepção em si, ser é criar, segue que a concepção em si é idêntica a esses seus dois criados, pois tudo quanto cria é tudo quanto ela é, e tudo quanto ela é concepção em si. O ser concepção em si é ser não só concepção e não só em-si. Não é só concepção porque é em-si, não é só em-si porque é concepção. A concepção-em-si cria, pois, ao mesmo tempo , a concepção e o em-si . Como, porém, não é concepção em si senão que na concepção e em-si, segue que esta criação — a primeira, (...) por assim dizer — é uma criação-não-criação, pois no próprio facto de ser concepção-em-si ela se cria concepção-em-si — em outras palavras, ela, a concepção-em-si, se cria conceber e ser. 14. A esta criação sem criação, conhece-a a especulação pela Trindade Divina. A concepção-em-si, chamada o Espírito Santo; a Concepção, a chamada Pai; o Ser o chamado Filho. São três sem distinções, em pura e Santa Unidade. Não pode ser concepção sem ser em-si porque esta não seria concepção; não pode ser em si sem ser. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 178. Bailaste de noite ao som Bailaste de noite ao som De uma música estragada. Bailar assim só é bom Quando a alegria é de nada. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 93. XXVI The world is woven all of dream and error And but one sureness in our truth may lie — That when we hold to aught our thinking's mirror We know it not by knowing it thereby. For but one side of things the mirror knows, And knows it colded from its solidness. A double lie its truth is; what it shows By true show's false and nowhere by true place. Thought clouds our life's day-sense with strangeness , yet Never from strangeness more than that it's strange Doth buy our perplexed thinking, for we get But the words’ sense from words — knowledge, truth, change. We know the world is false, not what is true. Yet we think on, knowing we ne'er shall know. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 182. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Go: thou hast nothing to forgive. To dream is better than to live. But he shall see the rising sun Who leaveth everything undone; Whose mind from his attention's task Strays like the shifting of a mask. He only shall through greener vales Than even those that shine right through The window‑panes of children's tales Wander, who thinks the world anew. Only for him who sits and sings On the stiles and forgets his road Does the fairies' bird spread her wings And the fairies' flowers grow more broad. He shall not find a hand to feed The silent sources of his need. No one shall point the rill where he May slake the thirst of infancy. But greener valleys than To‑Day And dearer thoughts than Far Away Shall tap at his window and wake His freshness other thirsts to slake. So, like a seamstress sitting still At a window in the sunset Of a village no steps have met, He shall belong to nothing ill. But incorporeal, like a wish, His soul shall like a rainbow cross The rain‑green pastures of his loss And earth shall blossom into speech. 1-2-1915 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 332. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. Há três tipos de energia — a do trabalhador, a do homem activo e a do organizador. O trabalhador exerce regularmente um mister ou um cargo segundo as normas desse mesmo cargo ou mister. Corre numa calha indefinidamente e com grande utilidade social. O homem activo nunca tem mister próprio; a simples actividade é indisciplinada por natureza. Exerce ele sempre um cargo ocasional e temporário, uma espécie de molde em que vasa um momento a sua energia constante. Esse momento pode durar toda a vida: esse molde pode nunca quebrar-se. O organizador trabalha pouco: faz só calhas e moldes. Revista de Comércio e Contabilidade , nº 4. Lisboa: 25-4-1926. - . Argumento do jornalista As artes todas são uma futilidade perante a literatura. As artes que se dirigem à visualidade, além de serem únicos seus produtos, e perecíveis, podendo portanto, de um momento para o outro, deixar de existir, não existem senão para criar ambiente agradável, para distrair ou entreter — exactamente como as artes de representar, de cantar, de dançar, que todos reconhecem como sendo inferiores em relação às outras. A própria música não existe senão enquanto executada, participando portanto da futilidade das artes de representação. Tem a vantagem de durar, em partituras; mas essa não é como a dos livros, ou coisas escritas, cuja valia está em que são partituras acessíveis a todos que sabem ler, existindo ali para a interpretação imediata de quem lê, e não para a interpretação do executante, transmitida depois ao ouvinte. As literaturas, porém, são escritas em línguas diferentes, e, como não há possibilidades de haver uma língua universal, nem, se vier a havê-la, será o grego antigo, onde tantas obras de arte se escreveram, ou o latim, ou o inglês ou outra qualquer, e se for uma delas não será as outras, segue que a literatura, sendo escrita para a posteridade, não a atinge senão, na maioria dos casos, em referências indirectas, nomes sem sentido, numa vida de citação traduzida e dicionário. O jornalismo, sendo literatura, dirige-se todavia ao homem imediato e ao dia que passa. Tem a força directa das artes inferiores mas humanas, como o canto e a dança; tem a força de ambiente das artes visuais; tem a força mental da literatura, por de facto ser literatura. Como, porém, o seu fim não é senão ser literatura naquele dia, ou em poucos dias, ou, quando muito, numa breve época ou curta geração, vive perfeitamente conforme com os seus fins. Concedo, disse, que Ésquilo seja hoje, ainda que translatamente, uma influência. Nego que uma influência translata possa ser uma influência literária. É para nós como um homem agradável que nos fala uma língua estranha. Como é agradável, admitimos que esteja dizendo coisas simpáticas. Como, porém, o fim de dizer é ser entendido, e o não entendemos, há erro em tudo que está nisto. A religião e o jornalismo são as únicas forças verdadeiras. Quando se diz que o jornalismo é um sacerdócio, diz-se bem, mas o sentido não é o que se atribui à frase. O jornalismo é um sacerdócio porque tem a influência religiosa dum sacerdote; não é um sacerdócio no sentido moral, pois não há, nem pode haver moral no jornalismo, que serve o momento que passa, em o qual não cabe, nem pode caber, moralidade. Quando digo que escreve futilmente o que escreve para a imortalidade, ou para as épocas futuras, deve entender-se que não pretendo com isso negar a sobrevivência da alma, ou até a sua imortalidade. Não nego nem afirmo; concedo. Mas nada disso pesa no meu argumento. A acção da literatura é sobre quem fica neste mundo — (e o astral do poema, ou da narrativa?...). — Engana-se, meu amigo, disse eu. Cada coisa neste mundo não é porventura senão a sombra e o símbolo de uma coisa (essa a verdadeira) em outro mundo antetípico ou espiritual. Não é pois a língua em que está escrito um poema que pesa no caso. É o poema que foi escrito nessa língua. E esse é uma entidade abstracta e real, agente sem corpo verbal. — Seja, respondeu o jornalista. Concedo sem admitir. s.d. Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 36. O Prof. Salazar é muito mais inteligente e muito mais culto, ainda que a sua inteligência seja monocórdica e a sua cultura unilateral. Tem uma inteligência do tipo científico, mas sem ser céptica; tem uma cultura do tipo humanístico, mas sem ser literária. Isto lhe dá aquela unidade psíquica de onde resulta a sua formidável disciplina e energia; isto, ao mesmo tempo, o desumaniza. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 220. A obra de arte, fundamentalmente, consiste numa interpretação objectivada duma impressão subjectiva. Difere, assim, da ciência, que é uma interpretação subjectivada de uma impressão objectiva, e da filosofia, que é, ou procura ser, uma interpretação objectivada de uma impressão objectiva. A ciência procura as leis particulares das coisas — isto é, aquelas leis que regem os assuntos ou objectos que pertencem àquele tipo de coisas que se estão observando. A ciência é uma subjectivação, porque é uma conclusão que se tira de determinado número de fenómenos. A ciência é uma coisa real e, dentro dos seus limites, certa, porque é uma subjectivação de uma impressão objectiva, e é, assim, um equilíbrio. A filosofia trabalhará sempre em vão porque procura objectivar. . . Na arte temos a distinguir três partes. A arte envolve uma impressão, ou ideia, sobre a qual se trabalha; envolve uma interpretação dessa ideia ou impressão de modo a torná-la artística; e envolve, finalmente, uma coisa de que se tem essa impressão ou ideia. A arte obedece, portanto, a três critérios exteriores. Tem que obedecer às leis que regem toda a impressão ou ideia. Tem que obedecer às leis que regem toda a interpretação. E tem que obedecer às leis que regem toda a objectivação. Quais são, em cada caso, essas leis? Primeiro, quais as leis que regem a impressão ou ideia? Estas leis são três. Abrangem, como se vê, o elemento subjectivo da arte. 1.°: Uma impressão ou ideia é perfeita e típica na proporção em que é característica do indivíduo que a tem, isto é, na proporção em que nessa ideia se revela a) o temperamento do indivíduo, b) todo o temperamento do indivíduo (o mais possível do temperamento do indivíduo), c) o temperamento do indivíduo o mais harmonicamente disposto dentro de si que seja possível ( analyse this last element ) . De modo que o elemento subjectividade da arte envolve a originalidade como critério objectivo ( note if this expression is good ) . Segundo, quais as leis que regem a objectivação? Vejamos o que quer dizer objectivação. A palavra implica a redução da ideia, ou seja o que for (que há-de ser ideia, e não objecto, para poder dizer-se que se objectiva) à categoria de objecto; isto quer dizer, à categoria de coisa análoga a qualquer coisa que ocupa o mundo exterior. São três as leis que regem a determinação do objectivo como tal. 1.º Um objecto tem de ser limitado, distinto dos outros objectos. 2.º Um objecto é composto de partes formando um todo; essas partes existem nesse todo em virtude de serem partes de tal todo, nem se consideram partes senão em relação a tal todo; e o todo, podendo ser considerado como uma coisa independentemente das partes, só o pode ser em virtude da harmonização das partes na formação desse todo. 3.º (deve ser 1.º). Cada objecto é real na proporção em que pode ser observado em diferenças grandes por o maior número possível de pessoas. Temos, pois, como leis da objectivação: 1.º (3rd above) A lei da verosimilhança. 2.º ( 1st above) A lei da não-repetição. 3.º (2nd above) A lei da relação de interdependência entre o todo e as partes de que é composto. (A lei da unidade harmónica. Porque, quando observamos um todo, observamo-lo através das partes que o compõem, mas, vendo-as de golpe, somamo-las de chofre na ideia desse todo). Terceiro. Quais são as leis que regem a interpretação. Entende-se que por interpretação se entende apenas um alto grau — o mais alto — do fenómeno envolvido na sensação de qualquer coisa. Essas leis são também três: 1.° Uma interpretação é tanto mais completa quanto mais conserva todas as relações do objecto interpretado, a sua harmonia especial e típica tanto quanto possível. 2.° Uma interpretação é tanto mais perfeita quanto mais consegue fazer esquecer o objecto interpretado na própria interpretação. (É assim que uma tradução é perfeita quando parece não ser uma tradução) (...). 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 177. All evil comes from the sentiment of obstacle, or, seeking deeper, by the sentiment of limitation. All evil, all unhappiness is in being limited, in having a bound. All unhappiness is a sentiment of our deficiency. One argument against : the sentiment of my excessive viciousness, for instance, which is the sentiment of an excess, gives pain. Answer : no what gives pain is the sentiment of our lack of power to control it. The man who is vicious purely and wishes not to control this viciousness, is not unhappy at all. Therefore that excess, same in him as in me, is not the cause of unhappiness. If I am unhappy it is not because of it. All pain is the result of limitation. The poet is unhappy when his thought becomes imperfect in words. The thinker is unhappy when there is a problem he cannot solve: sentiment of obstacle, of limitation. Space and time are the conditions of existence, of pain, of action. * Relative freedom attenuates our pain. But the selfish, the egotist are unhappy. Now what is selfishness? The sentiment of selfsufficiency, of selfperfection. But as nobody, as no thing is perfect in the universe, a sentiment of selfperfection, is a sentiment of the perfection of an imperfection, that is, such a sentiment, being false, is itself an imperfection. Limitation is therefore the sort not only of all unhappiness but also of all evil. * Man is either free or determined. Indetermination has no degrees. Before this that evil consists in limitation, consequently in personality, the theory of the immortality of the soul cannot be considered as true, neither as cheerful nor satisfying. Personality is always limitate however ideal or metaphysical. Regarding life as a (one) reality of their ill‑reasoned dualism, the Christian philosophers are materialistic in wishing to perpetuate a material state in a world which is not material. The things in which the greatest pleasure lies are those which we regard as nearest to the unlimited. Imagination, juvenile impulse, enthusiasm, etc. All the loftiest, all the nullest poetical conceptions are strivings after the unlimited. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 177. O Agnosticismo puro é impossível. O único agnosticismo verdadeiro é a ignorância. Porque para nos radicarmos no agnosticismo é‑nos preciso um raciocínio para nos persuadir que a razão tem certos limites. — Ora, quem observa, pode parar; quem raciocina não pode parar. Portanto, quando pelo raciocínio havemos provado a limitação ou a não‑limitação destas ou daquelas faculdades, não podemos dizer: «paremos aqui» mas devemos seguir no raciocínio e tirar dessa limitação — na limitação, as consequências deduzíveis. Assim fazem todos os «agnósticos» consciente ou inconscientemente. 1914? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 128. 1. Tudo é sensação. 2. Sensação compõe-se de objecto sentido e da sensação, propriamente dita. 3. Perante este fenómeno basilar da vida psíquica, a humanidade tem três atitudes: a ciência, a filosofia (a metafísica) e a arte. 4. A ciência cinde sensação e objecto — e, ou se ocupa do objecto independentemente do que a sensação dele vale (ciências físicas, naturais, (...) ou da sensação independentemente do objecto (psicologia). 5. A filosofia aproxima a sensação e o objecto, busca investigar quais as suas íntimas relações. 1916? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 181. Não sei que flores te dar Não sei que flores te dar Para os dias da semana. Tens tanta sombra no olhar Que o teu olhar sempre engana. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 93. Puseste a chaleira ao lume Puseste a chaleira ao lume Com um jeito de desdém. Suma-te o diabo que sume Primeiro quem te quer bem! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 65. XXVII How yesterday is long ago! The past Is a fixed infinite distance from to-day, And bygone things, the first-lived as the last, In irreparable sameness far away. How the to-be is infinitely ever Out of the place wherein it will be Now, Like the seen wave yet far up in the river, Which reaches not us, but the new-waved flow! This thing Time is, whose being is having none, The equable tyrant of our different fates, Who could not be bought off by a shattered sun Or tricked by new use of our careful dates. This thing Time is, that to the grave will bear My heart, sure but of it and of my fear. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 182. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. THE POEM There sleeps a poem in my mind That shall my entire soul express. I feel it vague as sound and wind Yet sculptured in full definiteness. It has no stanza, verse or word. Ev'n as l dream it, it is not. 'Tis a mere feeling of it, blurred, And but a happy mist round thought. Day and night in my mystery I dream and read and spell it over, And ever round words' brink in me Its vague completeness seems to hover. I know it never shall be writ. I know I know not what it is. But I am happy dreaming it, And false bliss, although false, is bliss. 2-11-1915 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Fernando Pessoa Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 334. Publ. in «Oito Poemas Ingleses Inéditos». Georg Rudolf Lind. in Estudos sobre Fernando Pessoa . Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981. As emoções e os desejos são manchas de humanidade que têm de ser tiradas da alma quando ela procura a atitude científica. [...] A sensação estética pode tornar-se uma ciência; e a originalidade cultivada como uma disciplina. [...] A sinceridade é o grande obstáculo que o artista tem a vencer. Só uma longa disciplina, uma aprendizagem de não sentir senão literariamente as coisas, podem levar o espírito a esta culminância. 1914? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 38. Salazar Um cadáver emotivo, artificialmente galvanizado por uma propaganda... Duas qualidades lhe faltam — a imaginação e o entusiasmo. Para ele o país não é a gente que nele vive, mas a estatística d'essa gente. Soma, e não segue. 1932? Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 221. Contents of each sensation: sensation of the exterior universe. sensation of the object sensed at the time. objective ideas associated therewith. subjective ideas associated therewith (state of mind at the time). the temperament and mental basis of the senser the abstract phenomenon of consciousness . Thus each sensation is a cube, which may be considered as set down upon the side representing F, having the side representing A upwards. The other sides are of course B, C, D and E. Now this cube may be looked at in three manners: 1) on one side only, so that none of the others is seen; 2) with one side of a square held parallel to the eyes, so that two sides or the cube are seen; 3) with one apex held in front of the eyes, so that three sides are seen. From an objective standpoint, the Cube of Sensation is composed of: Ideas = lines Images (internal) = planes Images of objects = solids Looked at in way 1, the cube of sensations resolves itself to a square, so that the basis of art will be ideas, and images of objects, quâ mental images. This is classic art, which, contrary to what is thought, does not go directly to nature, but to the mental image thereof (...). 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 180. Difference between causation, excitation and motivation, to use the terms of Schopenhauer: Causation is, for instance, in us, in the movement along the nerves; excitation in the alteration these make; and motivation in the action born of the excitation. Thus excitation is the change of a mov[emen]t of transference to a movement of alteration. Motivation appears to be the passing of a movement of alteration into a movement of transference. But what is a movement of alteration? Is it ideal? It is natural that anything occupying time should alter, and that all things in space should be in movement; these things are contained in the nature of the notions of time and of space. How can this be by the side of the theory that excitation is the emotion , which is of the nature of idea = thing ? Everything is bound to be in time and in space, since these ideas exist. Therefore there cannot be any movement of alteration only, it must be accompanied by some movement of transference. Now, mo[vemen]t of transference is of 2 kinds: mov[emen]t of continuation and mov[emen]t of vibration, that is to say, mov[emen]t without return and mov[emen]t with return. Alteration itself is not material, it is a purely ideal phenomenon; the material correspondent is a movement of some kind. The question then is made simpler; it becomes a question of transmission of movement purely of transference, all in the material plane. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 180. 1. Não conhecemos senão as nossas sensações. O universo é pois um simples conceito nosso. 2. O universo porém — ao contrário de e em contraste com, as nossas fantasias e os nossos sonhos — revela, ao ser examinado, que tem uma ordem, que é regido por regras sem excepção a que chamamos leis. 3. Àparte isso, o universo, ou grande parte dele, é um «conceito» comum a todos os que são constituídos como nós: isto é, é um conceito do espírito humano. 4. O universo é considerado objectivo, real — por isso e pela própria constituição dos nossos sentidos. 5. Como objectivo, o universo é pois o conceito de um espírito infinito, único que pode sonhar de modo a criar. O universo é o sonho de um sonhador infinito e omnipotente. 6. Como cada um de nós, ao vê-lo, ouvi-lo, etc., cria o universo, esse espírito infinito existe em todos nós. 7. Como cada um de nós é parte do universo, esse espírito infinito, ao mesmo tempo que existe em nós, cria-nos a nós. Somos distintos e indistintos dele. 8.  A Causa imanente , como é definida, tem que, ao criar, criar infinitamente. Em si mesma é infinita como uma, extra-numericamente; nos seres é infinita como inúmera, numericamente. Num caso é o indivisível, no outro infinitamente divisível. As almas são pois em número infinito. 9. Tudo o que é criado é infinito, pois a Causa Infinita não pode criar senão infinito. Por isso tudo material, se tudo de natureza oposta à Causa Infinita, é infinitamente divisível e multiplicável (eternidade do tempo, infinidade do espaço). Só pode criar finitos em número infinito. Por isso tudo espiritual, isto é, não-espacial, como é da natureza da Causa, é indivisível. É portanto imortal. 1930? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 181. Descasquei o camarão, Descasquei o camarão, Tirei-lhe a cabeça toda. Quando o amor não tem razão É que o amor incomoda. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 93. Lá vem o homem da capa Lá vem o homem da capa Que ninguém sabe quem é... Se o lenço os olhos te tapa Vejo os teus olhos por fé. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 65. XXVIII The edge of the green wave whitely doth hiss Upon the wetted sand. I look, yet dream. Surely reality cannot be this! Somehow, somewhere this surely doth but seem! The sky, the sea, this great extent disclosed Of outward joy, this bulk of life we feel, Is not something, but something interposed. Only what in this is not this is real. If this be to have sense, if to be awake Be but to see this bright, great sleep of things For the rarer potion mine own dreams I’ll take And for truth commune with imaginings, Holding a dream too bitter, a too fair curse, This common sleep of men, the universe. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 184. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. LOOKING AT THE TAGUS She led her flocks beyond the hills, Her voice backs to me in the wind, And a thirst for her sorrow fills All that in me is undefined. Spiritual lakes walled round with crags Sleep in the hollows of her song. There her unbathing nudeness lags And looks on its pooled shadow long. But what is real in all this is Only my soul, the eve, the quay And, shadow of my dream of this, An ache for a new ache in me. s.d. «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 336. 1ª publ. in «Descobertas no Espólio de Fernando Pessoa». Georg Rudolf Lind. in Ocidente . vol. LXX, nº 334. Lisboa: Fevereiro, 1966. Desprezei sempre o falar de mim, prática socialmente sempre baixa e criticamente sempre errónea. Ao apresentar, porém, uma revista de que sou autor único, falarei sem remédio de seu único autor. Não pus a esta revista outro título, que não o que apenas a define. Pensei em dar-lhe o de «Só» e o de «Um» depois. Do primeiro desisti, não tanto por ser o do livro de Nobre, senão por soar a atitude trágica. Detesto as atitudes trágicas, porque são cómicas. Do título «Um» desisti também, porque nesta revista me presento vários. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 346. Toda a produção humana se pode analisar sob 3 pontos de vista: o do seu valor, o da sua produção e o da sua significação humana. Teremos pois que qualquer produção do homem se pode apreciar sob os pontos de vista valorista, psicológico e sociológico. O que significa perante o que produziu? (crítica psicológica). O que significa na sociedade? (crítica sociológica). O que significa perante o ideal? (crítica valorista). A crítica valorista divide-se evidentemente segundo as 3 formas do ideal (verdade, bem, beleza) em crítica científica, crítica moral (ou ética) e crítica estética. 1917? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 41. O Prof. Salazar tem, em altíssimo grau, as qualidades secundárias da inteligência e da vontade. É o tipo do perfeito executor da ordem de quem tenha as primárias. O chefe do Governo tem uma inteligência lúcida e precisa; não tem uma inteligência criadora ou dominadora. Tem uma vontade firme e concentrada, não a tem irradiante e segura. É um tímido quando ousa, e um incerto quando afirma. Tudo quanto faz se ressente d'essa penumbra dos Reis malogrados. Quando muito, na escala da governação pública, poderia ser o mordomo do país. Faltam-lhe os contactos com todas as vidas — com a vida da inteligência, que vive de ser vária e, entre os conflitos das doutrinas, não sabe decidir-se; com a vida da emoção, que vive de ser impulsiva e incerta; com a vida da (...) O Chefe do Governo não é um estadista: é um arrumador. Para ele o país não se compõe de homens, mas de gavetas. Os problemas do trabalho e da miséria, como há ele de entendê-los, se os pretende resolver por fichas soltas e folhas móveis? A alma humana é irredutível a um sistema de deve e haver. É-o, acentuadamente, a alma portuguesa. Às vezes aproxima-se do povo, de onde saiu. E traz-lhe uma ternura de guarda-livros em férias, que sente que preferiria afinal estar no escritório. É sempre e em tudo um contabilista, mas só um contabilista. Quando vê que o país sofre, troca as rubricas e abre novas contas. Quando sente que o país se queixa, faz um estorno. A conta fica certa. O Prof. Salazar é um contabilista. A profissão é eminentemente necessária e digna. Não é, porém, profissão que tenha implícitas directivas. Um país tem que governar-se com contabilidade, não pode governar-se por contabilidade. Assistimos à cesarização de um contabilista. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 222. I There is nothing, no reality, but sensation. Ideas are sensations, but of things not placed in space and sometimes not even in time. Logic, the place of ideas, is another kind of space. Dreams are sensations with only two dimensions. Ideas are sensations with only one dimension. A line is an idea. Every sensation (of a solid thing) is a solid body bounded by planes, which are inner images (of the nature of dreams — two-dimensioned), bounded themselves by lines (which are ideas, of one dimension only). Sensationism pretends, taking stock of this real reality, to realise in art a decomposition of reality into its psychic geometrical elements. The end of art is simply to increase human self-consciousness. Its criterion is general (or semi-general) acceptance, sooner or later, for that is the proof that it does tend to increase self-consciousness in men . The more we decompose and analyse into their psychic elements our sensations, the more we increase our self-consciousness. Art has, then, the duty of becoming increasingly conscious. In the classic age, art developped consciousness on the level of the three-dimension sensation — that is, art applied itself to a perfect and clear visioning of reality considered as solid. Hence the Greek mental attitude, which seems so strange to us, of introducing concepts such as that of the sphere into the most abstract abstractions, as in the case of Parmenides, whose idealistic conception of a highly-abstract universe yet admits of a description of it as spherical. Post-christian art has worked constantly towards the creating of a two-dimension art. We must create a one-dimension art. This seems a narrowing of art;, and to a certain extent it is. Cubism, futurism, end kindred schools, are wrong applications of intuitions which are fundamentally right. The wrong lies in the fact that they attempt to solve the problem they suspect on the lines of three-dimension art; their fundamental error lies in that they attribute to sensations an exterior reality, which indeed they have, but not in the sense the futurists and others believe. The futurists are something absurd, like Greeks trying to be modern and analytic. II What is the process to be adopted to realise sensationism? There are several processes — at least three clearly defined ones: 1) intersectionism: the sensationism that takes stock of the fact that every sensation is really several sensations mixed together. 2) (...) 3) (...) How do these three processes realise sensationism? Intersectionism realised it by attempting to realise the deformation which every cubic sensation suffers by the deformation of its planes. Now every cube has six sides: these sides, looked at from the sensationist standpoint, are: the sensation of the exterior object as object, quâ object; the sensation of the exterior object quâ sensation; the objective ideas associated to this sensation of an object; the subjective ideas associated to this sensation — i.e., the «state of mind» through which the object is seen at the time; the temperament and fundamentally individual mental attitude of the observer; the abstract consciousness behind that individual temperament. 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 183. 1. Little flower that wert on the hill, Where art thou to-day? Thou that saw'st thyself in the rill Art thou gone away? Ah, now I see that thou art dead And that thy charm from us is fled. 6-1904 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 73. Psychological automatism. The natural form of human action. Human consciousness the centralization of the automatism of our faculties in the mind. «The beautiful is the beautiful.» All primitive ideas are indefinable; if we think to define them, it is a pure illusion. They are only defined by themselves. Thus plurality, space, time, etc. «Time is the order of duration.» But duration supposes time. * Critique of argument of determinism. «True I cannot think as I will, nor be a genius or a fool at pleasure. But I can think it possible to live without eating, or to jump from here to the moon. That is to say, I can choose my thoughts, wild or not, within the sphere of necessity imposed by my general nature. Thus, I may be incapable of acts of great benevolence, but I may be able to choose between giving a counterfeit shilling to anyone or not giving it.» This answer is false, rests on a false basis. What is not indeterminate is determinate; there is no avoiding this. What is not free is unfree; this cannot be denied. Necessity and freedom cannot be found together. Matter is a shell of properties. Spirit is the matter thereof. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 182. Cabeça de ouro mortiço Cabeça de ouro mortiço Com olhos de azul do céu, Quem te ensinou o feitiço De me fazer não ser eu? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 94. Loura dos olhos dormentes, Loura dos olhos dormentes, Que são azuis e amarelos, Se as minhas mãos fossem pentes, Penteavam-te os cabelos. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 65. XXIX My weary life, that lives unsatisfied On the foiled off-brink of being e'er but this, To whom the power to will hath been denied And the will to renounce doth also miss; My sated life, with having nothing sated, In the motion of moving poisèd aye, Within its dreams from its own dreams abated — This life let the Gods change or Lake away. For this endless succession of empty hours, Like deserts after deserts, voidly one, Doth undermine the very dreaming powers And dull even thought's active inaction, Tainting with fore-unwilled will the dreamed act Twice thus removed from the unobtained fact. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 184. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. If I could carve my poems in wood, By children they would be understood, So near to the sense things have in God Are both my poems and children's thought. For a child knows that logic and meaning Are only nothing nothing screening, And a child is one divinely aware That all things are toys and all things are fair, That a thimble, a stone and a cotton‑reel Are things we can quite divinely feel, And that, if we make men out of those things, They are really men, not imaginings. I would therefore l could take my verse Out of mere ideas and better it worse To visible carving or drawing or what My verses could be resembling that. Then would I be the children's poet, And, though perhaps I might never know it With the outer sense that makes life sadder, In every innocent face made gladder God would be giving my soul the sense, Lost back of knowledge, of recompense ­- The sense of children more children still When, acting my poems at their glad will, They, playing with toys, with legs incurled, Lightly err the visible world. 17-9-1916 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 336. 1ª publ. in «A Poesia Juvenil de Fernando Pessoa». Georg Rudolf Lind. in Estudos sobre Fernando Pessoa . Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981. BALANÇA DE MINERVA Falar é o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos. E esse modo imoral e hipócrita de falar a que se chama escrever, mais completamente nos vela aos outros e àquela espécie de outros a que a nossa inconsciência chama nós-próprios. Por isso, se escrever, no sentido de escrever para dizer qualquer coisa, é acto que tem um cunho de mentira e de vício, criticar as coisas escritas não deixa de ter um correspondente aspecto de curiosidade mórbida ou de futilidade perversa. E, quando a crítica é escrita também, requinta-se para repugnante a sua imoralidade essencial. Pega-se-lhe a doença do criticado — o facto de existir escrito. Propriamente, o único crítico de arte ou de letras deve ser o psiquiatra; porque, ainda que os psiquiatras sejam tão ignorantes e laterais aos assuntos como todos os outros homens daquilo a que eles chamam ciência, têm ainda assim, perante o que vem a ser um caso de doença mental, aquela competência que consiste em nós julgarmos que eles a tem. Nenhum edifício de sabedoria humana pode erguer-se sobre outros alicerces. 1915? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 42. Mais valia publicar um decreto-lei que rezasse assim: Art. 1. A[ntónio] d[e] O[liveira] S[alazar] é Deus. Art. 2. Fica revogado tudo em contrário e nomeadamente a Bíblia. Ficava assim legalmente instituído o sistema que deveras nos governa, o autêntico Estado Novo — a Teocracia pessoal. Uma doutrina pode ter uma força. Uma força não pode ter uma doutrina. O executivo pode suspender o legislativo: não pode substituí-lo ou substituir-se-lhe. O sovietismo direitista da U[nião] N[acional]. Miserrimam servitutem pacem appellant . s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 223. O Sensacionismo rejeita do Classicismo a noção — na verdade mais característica dos discípulos modernos dos escritores pagãos do que deles propriamente — de que todos os assuntos devem ser tratados no mesmo estilo, no mesmo tom, com a mesma linha exterior a delinear-lhes a forma. O Sensacionista não concorda em que uma obra de arte haja sempre de ser simples, porque há sentimentos e conceitos que, de sua natureza complexos, não são susceptíveis de expressão simplificada, sem que com essa expressão se traiam. Há certos conceitos profundos, certos sentimentos vagos que são, por certo, susceptíveis de tal tratamento literário; mas não são todos os sentimentos nem todos os conceitos. O sensacionista discorda, em seguida, da atitude clássica pela limitação da sua visão das coisas. A preocupação da visão nítida é, como a preocupação da expressão simplificada, por vezes um erro estético. Nem tudo é nítido no mundo exterior. O sensacionismo, finalmente, não aceita do classicismo a sua teoria basilar — a de que a intervenção do temperamento do artista deve ser reduzida ao mínimo. Interpreta o princípio estético que serve de base a tal afirmação, mas que em tal afirmação se encontra desvirtuado, de outro modo, do modo como ele deve ser interpretado. O artista interpreta através do seu temperamento, não no que esse temperamento tem de particular, mas no que ele tem de universal, ou universalizável. Isto é diferente de eliminar o factor temperamental tanto quanto possível, como os clássicos ferrenhos querem ou procuram; o artista deve, pelo contrário, acentuar muito o factor temperamental (embora em certos assuntos mais do que em outros), curando porém de que não sejam os lados inuniversalizáveis desse factor que utilize. O Sensacionismo rejeita, do Romantismo, a sua teoria básica do «momento de inspiração». Não crê que a obra de arte deva ser produzida rapidamente, por um jacto, a não ser que o artista haja conseguido (como alguns de facto conseguem) de tal modo ter o espírito disciplinado que a obra nasça construindo-se. Do Simbolismo rejeita a exclusiva preocupação do vago, a exclusiva atitude lírica, e, sobretudo, a subordinação da inteligência à emoção, que deveras caracteriza aquele sistema estético. Do classicismo aceita a Construção, a preocupação intelectual. Do romantismo aceita a preocupação pictorial, a sensibilidade simpatética, sintética perante as coisas. Do simbolismo aceita a preocupação musical, a sensibilidade analítica; aceita a sua análise profunda dos estados de alma, mas procura intelectualizá-la. 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 188. If it can be proved that free‑will cannot exist, it is not only tree will that is touched but likewise the immortality of the soul. Besides, either the body and the soul are two distinct and separate things or they are one. Either the soul is the form of the body, or the body is the manifestation of the soul. [...] If the body be the manifestation of the soul, it is evident that when the manifestation is dispelled the thing manifested also goes, since it is not very clear how a thing now manifests itself and again does not. The vegetative soul principle of existence. The animal soul principle of (...) The , principle of motion, thought. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 183. LEWES — Notes Paye 9. § 9 (end) Answer. All facts, whether of a material nature or of a spiritual, contain in themselves, of necessity, their own interpretation, physical and material facts by a physical and material method, spiritual facts by a spiritual method. A phainoumenon externally objective has a natural interpretation, as being apart of what we call «nature»; a phainoumenon internally objective, «subjective» as Lewes calls it, has a rational interpretation. Only by reducing, and in so far as we reduce phainoumena of mind to phainoumena of brain, are all things brought under the dominion of empirical verification. Our methods of considering a thing are two: by examining the thing in itself, and attempting to extract therefrom (...) of it, and by examining it in relation to other things. But there is one more consideration to be made. Science, by its misunderstanding of the nature of the infinite has been led into the idea that the knowledge of the unknown is from the known, that the unknown, as Lewes asserts (1‑9, § 10), is but a generalisation of the known, a prolongation of it (thereof). This method fails to perceive that the known is parted from the unknown by the enormous gulf of relative and of absolute, that the only way to attain to some conception (not knowledge) of the unknown is by consideration of the unknown in the known — from the unknown in the known to the unknown in itself. No one has ever held that man has a transcendant knowledge of the absolute. 1908? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 132. São já onze horas da noite. São já onze horas da noite. Porque te não vais deitar? Se de nada serve ver-te, Mais vale não te fitar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 94. O sino dobra a finados. O sino dobra a finados. Faz tanta pena a dobrar! Não é pelos teus pecados Que estão vivos a saltar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 66. Teu corpo real que dorme É um frio no meu ser. 1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 148. XXX I do not know what truth the false untruth Of this sad sense of the seen world may own, Or if this flowered plant bears also a fruit Unto the true reality unknown. But as the rainbow, neither earth's nor sky's, Stands in the dripping freshness of lulled rain, A hope, note real yet not fancy's lies Athwart the moment of our ceasing pain. Somehow, since pain is felt yet felt as ill, Hope hath a better warrant than being hoped; Since pain is felt as aught we should not feel Man hath a Nature's reason for having groped, Since Time was Time and age and grief his measures, Towards a better shelter than Time's pleasures. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 186. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. SUSPENSE I dream, and strange dim powers My shining sleep assist; A sound as of coming showers Creeps towards me, loudly hist; And lo! all my forgotten hours Lie round me like a mist. The ghosts of my dead selves Weave round me a false mesh; My undreamed dreams, pale elves, Are now part of my flesh; And all l am my unselfing shelves On dreams, out of my reach. I touch impalpable things; I am sunny with past days; Remote sounds, like near wings, Flank my blind spirit's ways; And from the other side of the big hill rings A bell that summons to praise. But l am sick of dreaming, Weary of being the same Over desert spaces of seeming, Unwilling player of a game With life, far star but gleaming On dead earths without name. 6-9-1911 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 338. Publ. in «Oito Poemas Ingleses Inéditos». Georg Rudolf Lind. in Estudos sobre Fernando Pessoa . Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981. BALANÇA DE MINERVA Aferição. Destina-se esta secção à crítica dos maus livros e especialmente à crítica daqueles maus livros que toda a gente considera bons. O livro, consagrado por qualidades que não tem, do homem consagrado por qualidades com que outros o pintaram; o livro daquele que, tendo criado fama, se deitou a fingir que dormia; o livro do que entrou no palácio das Musas pela janela ou colheu a maçã da sabedoria com o auxílio dum escadote — tudo isto se pesará na Balança de Minerva. Claro que a razão do título Balança de Minerva é a circunstância de Minerva não ter balança nenhuma. Vagamente absurdo, leva este título em si a definição dum modo-de-ver que escolhe o onde opor-se a todos para ter razão inutilmente. A consciência do esforço inútil e do trabalho perdido ainda é uma das grandes emoções estéticas que restam a quem se preocupa com as coisas que ainda restam. A crítica, de resto, é apenas a forma suprema e artística da maledicência. É preferível que seja justa, mas não é absolutamente necessário que o seja. A injustiça, aliás, é a justiça dos fortes. No fundo isto é tudo bondade. Dizer mal dum livro é o único modo de dizer bem dele. Se é mau, faz-se justiça; se é bom põe-o na evidência que os livros bons merecem. E, no fim de tudo, nada disto tem importância, porque os livros bons leva-os a História ao colo para casa. E quanto aos maus — criticar é apenas abrir-lhes a cova e rezar-lhes em cima da última descida o latim que falava Juvenal. Às vezes é com sete pós de elogios que esta justiça mortal melhor se sela. A justificação última da crítica assim bem entendida é o satisfazer a função natural de desdenhar — função tão natural como a de comer e que é de boa higiene de espírito satisfazer cuidadosamente. Quem sente vontade de desdenhar não deve atar-se à cobardia de julgar isso feio, nem vender-se à infâmia de ir desdenhar o que os outros desdenham, abdicando assim da sua individualidade, gregário. As horas passam devagar e pesa em tédio a consciência delas. Buscar o conforto no desprezo é não só o nosso dever para com o desprezo, mas também o nosso dever para com nós-próprios. Espetar alfinetes na alma alheia, dispondo esses alfinetes em desenhos que aprazam à nossa atenção futilmente concentrada, para que o nosso tédio se vá esvaindo — eis um passatempo deliciosamente de crítico, e ao qual juramos fidelidade. Traduzindo isto para a metáfora que dá cor a esta secção, pretendemos dar a entender que o nosso uso da Balança de Minerva limitar-se-á, na maioria dos casos, a dar com ela — pesos e tudo — na cabeça do criticado. Isso, de resto, não deve preocupar ninguém. Quem tiver de ser imortal pode sê-lo mesmo com a cabeça partida. O ser imortal é a única das preocupações anti-sociais que não faz mal a ninguém. Visto que o futuro raras vezes dá por ela, não é demais que o presente algumas vezes dê nela. 1915? Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 42. Na baixa política está bem. Para ser baixamente político basta saber intrujar os outros, e a ciência é completa quando o indivíduo sabe começar por intrujar-se a si mesmo. Para isso basta uma mentalidade confusa, uma vaidade acentuada, a capacidade de falar muito sem dizer nada. Basta não raciocinar, porque o raciocínio dissolve as qualidades de afirmação dogmática que são necessárias para dominar o espírito confuso e místico do povo. (Histero-epilepsia de C. L.) Ainda um indivíduo tão intensamente bem-dotado como o Sr. Oliveira Salazar, é estreitamente bem-dotado, e não passa de um especialista — apto, posso admitir, para governar nos limites da sua especialidade, que é a ciência financeira, mas não na falta de limites da generalidade do governo. E o mal, aqui, não é que o Sr. Oliveira Salazar seja ministro das finanças, para o que concedo que esteja certo, mas ministro de tudo, o que é mais duvidoso. Acresce que o especialista, se não tem ideias gerais a corrigir não só as ideias particulares — forçosamente inaplicáveis fora do próprio campo — da sua especialidade, mas a própria estreiteza mental que procede da especialização, levará para qualquer problema geral em que se deixe cair, não só a incompetência da especialização, mas a inaptidão da imaleabilidade. O Sr. Oliveira Salazar é, sem dúvida, mais alguma coisa que um financeiro. Infelizmente o que ele é mais é católico, e, de todas as coisas estranhas a uma especialidade, uma religião fechada, dogmática e intolerante é a pior para corrigir os defeitos da especialização, pela simples razão que os não corrige. Antes os reforça e alarga, dando-lhes uma base espiritual que os radica. — Seara Nova. E que fizeram? D. dos S., o mais triste exemplo do acéfalo com cabeça que existe na já acentuada acefalia mental dos nossos políticos. Para eles a democracia não é uma doutrina a analisar, a condicionar para que se aplique: é um dogma a repisar para si mesmos, um yo-yo mental. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 224. O sensacionismo afirma, primeiro, o princípio da primordialidade da sensação — que a sensação é a única realidade para nós. Partindo de aí, o sensacionismo nota as duas espécies de sensações que podemos ter — as sensações aparentemente vindas do exterior, e as sensações aparentemente vindas do interior. E constata que há uma terceira ordem de sensações resultantes do trabalho mental — as sensações do abstracto. Perguntando qual o fim da arte, o sensacionismo constata que ele não pode ser a organização das sensações do exterior, porque esse é o fim da ciência; nem a organização das sensações vindas do interior, porque esse é o fim da filosofia; mas sim, portanto, a organização das sensações do abstracto. A arte é uma tentativa de criar uma realidade inteiramente diferente daquela que as sensações aparentemente do exterior e as sensações aparentemente do interior nos sugerem. Mas a arte deve obedecer a condições de Realidade (isto é, deve produzir coisas que tenham, quanto possível, um ar concreto, visto que, sendo a arte criação, deve tentar produzir quanto possível uma impressão análoga à que as coisas exteriores produzem). A arte deve também obedecer a condições de Emoção porque deve produzir a impressão que os sentimentos exclusivamente interiores produzem, que é emocionar sem provocar à acção, os sentimentos de sonhos, entende-se, que são os sentimentos interiores no seu mais puro estado. A arte, devendo reunir, pois, as três qualidades de Abstracção, Realidade e Emoção, não pode deixar de tomar consciência de si como sendo a concretização abstracta da emoção (a concretização emotiva da abstracção) . Assim, a arte tem por assunto, não a realidade (de resto, não há realidade, mas apenas sensações artificialmente coordenadas), não a emoção (de resto, não há propriamente emoção, mas apenas sensações de emoção), mas a abstracção. Não a abstracção pura, que gera a metafísica, mas a abstracção criadora, a abstracção em movimento. Ao passo que a filosofia é estática, a arte é dinâmica; é mesmo essa a única diferença entre a arte e a filosofia. Por concretização abstracta da emoção entendo que a emoção, para ter relevo, tem de ser dada como realidade, mas não realidade concreta, mas realidade abstracta. Por isso não considero artes a pintura, a escultura e a arquitectura, que pretendem concretizar a emoção no concreto. Há só três artes: a metafísica (que é uma arte), a literatura e a música. E talvez mesmo a música... 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 190. FRAGMENT OF DELIRIUM I know not whether my mind is broken Nor do I know if my mind is ill; I know not if love is but the last token Of God to me, or a word unspoken In a chaos of will. My thoughts are such as the mad must have And dead things guard my soul Grotesque and odd are the shapes that rule In my brain as worms in a grave 2-1906 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 74. Man, being an intellectual animal, transforms sensations by virtue of that intellect. Thus physical love is transformed into «marital affection» and the term «purity in love» is introduced. The brutal and natural action of blow for blow is given a value and transformed into «valeur», «courage» already in a higher sense. In the same way it is natural that physical liberty should become, by intellect, moral liberty, «free-will». All the question then appears to be this: is the mutation of the point of view correspondent to a legitimate change in the thing? Is not the question all here? There is one thing to be noticed. It is the notion of value that man (and man alone) puts upon things For the animal, courage, cowardice are not, one good, the other bad, one noble, the other ignoble. They have no value at all. To man they wear a moral face. If moral liberty exist it is here that we must find it, it is of necessity bound up with this. Now there are several things here which must be explained. One is the appearance of a moral sense. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 184. Tiraste o linho da arca, Tiraste o linho da arca, Da arca tiraste o linho. Meu coração tem a marca Que lhe puseste mansinho. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 94. Traz-me um copo com água Traze-me um copo com água E a maneira de o trazer. Quero ter a minha mágoa Sem mostrar que a estou a ter. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 66. Fierce dreams of something else! Frenzy to go away (O wave in me that swells!) From life, where life must stay - Life ever at to‑day! Some other place and thing! Not a life! not mine so! O to be a wind, a wing. A bark me there to bring! Whither? If I could know, I would not wish to go. 7-1-1913 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 340. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. Uselessness of criticism That good work always comes to the fore is a worthless affirmation if it apply to really good work and by “coming to the fore” it refer to acceptance in its own time. That good work always comes to the fore on the course of its futurity, is true; that second rate good work always comes to the fore in its own age, is also true. For how is a critic to judge? What are the qualities that make, not the casual, but the competent critic? A knowledge of past art or literature, a taste refined by that knowledge, and an impartial and judicious spirit. Anything less than that is fatal to the true play of the critical faculties. Anything more than that is already creative spirit, and therefore individuality; and individuality means self-centredness, and a certain imperviousness to the work of others. How competent, however, is the competent critic? Let us suppose a deeply original work of art comes before his eyes. How does he judge it? By comparison with the works of art of the past. If it be original, however, it will depart in something — and the more original the more it will depart — from the works of art of the past. In so far us it does this, it will seem not to conform to the aesthetic canon which the critic finds established in his mind. And if its originality, instead of lying in a departure from those old standards, lie in a use of them on more severely constructive lines — as Milton used the ancients — will the critic take that bettering to be a bettering, or the use of those standards to be an imitation? Will he rather see the builder than the user of the building materials? Why should he rather do one thing than the better one? Of all elements, constructiveness is the most difficult to determine in a work... A fusion of past elements: will the critic see the fusion of the elements? Does anyone persuade himself that if Paradise Lost were published to-day, or Hamlet, or Shakespeare’s or Milton’s Sonnets, they would be rated above Mr. Kipling’s poetry, or Mr. Noye’s, or that of any other similarly quotidian gentleman? If anyone persuades himself of that, he is a fool. The expression is short [?], not sweet, but it is meant only to be true. On every side we hear the cry that the age needs a great poet. The central hollowness of all modern achievement is a thing rather felt than spoken about. If the great poet were to appear, who woult be there to notice him? Who can say whether he has not already appeared? The reading public sees in the papers notices of the work of those men whose influence and friendships have made them known, or whose secondariness has made them accepted of the crowd. The great poet may have appeared already; his work will have been noticed in a few “vient-de-paraître” words in some bibliographic summary of a critical paper. s.d. Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 44. Il a apporté au gouvernement des qualités si inattendues et en même temps si sympathiques en elles-mêmes, qu'il a acquis en peu de temps, non pas l'affection — il n'est pas de nature à l'obtenir — mais la considération et le respect des impartiaux, voire des adversaires de la dictature dont te fanatisme n'était pas trop accentué. La clarté de son intelligence et la fermeté de sa volonté — qualités si peu portugaises —, la modestie et l'effacement de sa vie dévouée et laborieuse — qualités si peu ministérielles — lui ont conquis la sympathie un peu étonnée du public amorphe, intéressé et volontiers optimiste dont se compose la bourgeoisie non politique, qui en est la plupart presque partout. On n'était pas évidemment en état de critiquer son oeuvre, exclusivement financière. Le public n'est pas, collectivement, très vaniteux et il ne se vante pas aisément de comprendre ce qu'il sait parfaitement qu'il ne comprend pas. L'homme lui était sympathique; il lui était sympathique précisément par des qualités de caractère auxquelles on pouvait s'attendre dans un administrateur-né: on croyait en ses budgets et ses comptes publics parce qu'on croyait en lui, au moins à ce propos. Mais jusque là il n'était que Ministre des Finances et il n'y avait (pas) d'autre propos au sujet duquel on eut pu le juger. Certes, l'agitation politique continuait: elle a éclaté frustement, dans une pseudo-sédition de comédie, le (...); elle est venue de nouveau à la surface, à Madére, de (...) et il n'y a eu là de (...) que l'insularité de la révolte, ridicule en elle-même. Tous ces mouvements n'avaient rien à voir avec Salazar: ils n'étaient que contre la Dictature; on n'y pensait pas à l'homme apparemment extra-politique qui tenait le portefeuille des Finances. Dans cette sympathie un peu froide, dans cette considération pas trop affective un élément de doute et d'hésitation se glissait pourtant lentement. Durant le temps que Salazar avait été Ministre des Finances, et rien que ça, il y avait eu quelques crises ministérielles et quelques changements ou récompositions de ministère. Dans tous ces changements Salazar intervenait décisivement: c'était lui qui décidait — on commençait à le voir — du sort de tel ministère, du sort de tel ministre. On a cru d'abord, et peut-être était-ce vrai, qu'il ne faisait que défendre son fauteuil, à fin de maintenir, et c'était légitime, la continuité de son oeuvre, laquelle, par sa nature, avait besoin de continuité et de sa permanence au ministère, pour que cette continuité fût intelligemment maintenue. On remarquait pourtant que, quoiqu'il en fût pour ces raisons, Salazar mettait trop d'astuce, des ruses assez inattendues, des trucs sournois et inattendus dans les agencements par lesquels il se débarrassait de tel ministre, il favorisait l'entrée de tel autre. Des ruses potitiques? Parfaitement. Mais on avait formé de cet homme une idée, et c'était celle qui lui était favorable, où les ruses de basse politique et la diplomatie d'antichambre n'avaient pas de rôle à jouer. Quand on respecte un homme surtout par la simplicité de son caractère, c'est quelque peu déconcertant de découvrir que ce caractère n'est pas simple. Une certame méfiance commença de naître; et ceux qui n'avaient eu pour Salazar qu'une sympathie très froide se demandaient déjà si l'homme qui se montrait si habile dans les trucs de la politique, dont il était censé peu savoir, n'en aurait pas donné des exemples ignorés dans les budgets et les comptes, où il était comme chez lui. Les choses en étaient encore là — les politiciens hostiles et impuissants, le grand public froidement hostile, le petit public froidement sympathisant — quand, le 2 juillet 1932, l'évènement s'est donné qui a changé le cours de la dictature portugaise et fait jaillir, d'une simple dictature militaire à la Primo de Rivera, l'actuelle dictature à la Mussolini. Ce jour-lá, à Richmond, en Angleterre, le Roi Manuel est mort. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 225. 1. A base de toda a arte é a sensação. 2. Para passar de mera emoção sem sentido à emoção artística, ou susceptível de se tornar artística, essa sensação tem de ser intelectualizada. Uma sensação intelectualizada segue dois processos sucessivos: é primeiro a consciência dessa sensação, e esse facto de haver consciência de uma sensação transforma-a já numa sensação de ordem diferente; é, depois, uma consciência dessa consciência, isto é: depois de uma sensação ser concebida como tal — o que dá a emoção artística — essa sensação passa a ser concebida como intelectualizada, o que dá o poder de ela ser expressa. Temos, pois: (1) A sensação, puramente tal. (2) A consciência da sensação, que dá a essa sensação um valor, e, portanto, um cunho estético. (3) A consciência dessa consciência da sensação, de onde resulta uma intelectualização de uma intelectualização, isto é, o poder de expressão. 3. Ora toda a sensação é complexa, isto é, toda a sensação é composta de mais do que o elemento simples de que parece consistir. É composta dos seguintes elementos: a) a sensação do objecto sentido; b) a recordação de objectos análogos e outros que inevitável e espontaneamente se juntam a essa sensação; c) a vaga sensação do estado de alma em que tal sensação se sente; d) a sensação primitiva da personalidade da pessoa que sente. A mais simples das sensações inclui, sem que se sinta, estes elementos todos. 4. Mas, quando a sensação passa a ser intelectualizada, resulta que se decompõe. Porque — o que é uma sensação intelectualizada? Uma de três coisas: a) uma sensação decomposta pela análise instintiva ou dirigida, nos seus elementos componentes; b) uma sensação a que se acrescenta conscientemente qualquer outro elemento que nela, mesmo indistintamente, não existe; c) uma sensação que de propósito se falseia para dela tirar um efeito definido, que nela não existe primitivamente. São estas as três possibilidades da intelectualização da sensação. 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 192. Sometimes in the middle of life a change Suddenly comes like an alienation A sense of voidness enormous, strange And a void, deep desolation. A sense of being left alone And more and more than abandoned (…) 'Tis a sense half as if I were dead. 12-11-1907 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 75. Ao dobrar o guardanapo Ao dobrar o guardanapo Para o meteres na argola Fizeste-me conhecer Como um coração se enrola. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 94. Olha o teu leque esquecido! Olha o teu leque esquecido! Olha o teu cabelo solto! Maria, toma sentido! Maria, senão não volto! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 66. THE NIGHT‑LIGHT Nurse, I known now That love is vain. When I was small You used to sing And soothe my brow Till calm lost pain. That song recall And to me bring. I wish to feel Again that child That you made sleep Singing so low, So low that real Things were beguiled To make me weep At seeing them go. Nurse, by my bed Sing me again That song. I love Hoping for’t now. My heart has bled Till joy seems pain. Sing softly above My caressed brow. O regions lost In dreams and sleep! O fairy tales You did not tell, But that were tossed Out of the deep Of your song's waves And surge and spell! Sing as if you Were listening. Sing as if I Had no more world Than all night through Hearing you sing, While my breath sly On my breast curled. Why did I live Beyond those hours When you sung songs Perhaps of queens My dream believes, Perhaps of flowers, Whose lost scent throngs Through my sense‑screens? Why did I lose What I had not But was your voice, My heart and night? Why did I choose Life, love and thought, With a wrong choice And a false right? Lullaby, nurse, Again for me. Sing 'till I find My heart less lone, And life, life's hearse, Leaving dreams free, Shrink undefined Into the Unknown. You are no more My nurse that sings, My childhood een Made me again. No: you are the hour Of sleep, that brings That scene no‑scene, That pain no‑pain; Hallowed and dim, Motherly night, Wherein my soul Is haunted past The hollow rim Of my delight And the low dole Of pain and haste; Merged in the dark, Sunk past the bed Into a peace Of being nought, Shadowy bark Abandoned, Abstract release From self and thought. 7-9-1916 «The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa . Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995. - 342. 1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988. Seldom have I so inly comprehended With a deep sense so awful and so rude My complete being's complete solitude In all its arid loneliness extended So wholly solitude, so much unblended With aught else, good or ill, that might intrude Upon its horror limitless and nude Whereat my reason reels, not by (...) defended. And save it from itself (…) 23-1-1909 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 76. Schopenhauer’s word will invoked no brilliant (lucid) idea in the mind. A bar of iron when heated expands; it is through will Schopenhauer would say. Yet it is hard to conceive what we call will as applied to a bar of iron. But when I say the bar expands on account of Power all is clear ( 1 ) and will is, in a way, explained. Suicide through self‑denial, through self‑sacrifice. Here is the secret of the hold which mankind’s heroes have on us. ( 1 ) Had it not the power to expand it had not expanded. Thus I draw near, in my view to the philosophic principle of intelligibility. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 186. Já duas vezes te disse Já duas vezes te disse Que nunca mais te diria O que te torno a dizer E fica para outro dia. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 66. Oh for a less meaningless horizon than the land and the sea! Oh for a rest from places and a lapse from the sense of times! Waves, ever waves, to and fro … Ever waves roll, and we What do we wait, what do we seek, what do we pause for and flee? What in us lusts for more round us than the strech of minutes and climes? Ah, and no bark to bear us towards Impossible, and that a real place, An attainable place, full of the depths and rests of the Unattainable! But ever the sea, the sea, like the passing of many a face... Ever the sea, and the sea runs a restless and half-hearted race Towards not the shore, nor the land, but what? Who can measure or tell? No ship to bear us homeward, past earth and sea and the sky! None to spread sails to a breeze blowing but not with a whither! And ever, like a lost meaning, the sea never passing by, Ever the measurable sea, sad as a formless cry, And the most hearts can be is (to) be two and sorrow together! To-morrow will tire us of all! But we lack heart to be tired indeed The purpose our souls came for is lost and never stared at... Let us at least by the shore construe our aches for a deed Into a meaningless ache and a desolate and purposeless greed... Become we one with the sea's lost purpose and dream and wish nothing but that... 1-10-1914 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 77. Lavadeira a bater roupa Lavadeira a bater roupa Na pedra que está na água, Achas a minha mágoa pouca? É muito tudo o que é mágoa. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 67. The day is sad as I am sad, But that no moment can abate That pang that is all I have had To take with me and see and feel While life goes by like a mere wheel. No. Deeper things than skies and plains Are dark and lower'd o'er in me. My sorrows are more empty pains Than of which plains landscapes can symbols be. And my own [?] weight of life and self Resembles nothing but itself. 12-10-1914 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 78. O teu lenço foi mal posto O teu lenço foi mal posto Pela pressa que to pôs. Mais mal posto é o meu desgosto Do que não há entre nós. 9-1-1935 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 67. — Para onde te viraste tu? — Não me virei para parte nenhuma. — Viraste-te... Um arrepio pela minha espinha sentiu que te viravas... Percebi logo que o fazias... Viraste-te para o lado donde sempre está chegando Deus… — De que lado é que Deus está sempre chegando? — De todos e de nenhum... Por isso quando te viraste para lá não fizeste movimento nenhum com o corpo... — Como soubeste então que eu me tinha virado? — Deus é que soube; não fui eu. 1913 «Diálogo no Jardim do Palácio». Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 214. 1ª publ. in Fernando Pessoa et le Drame Symboliste . Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977 Sorrow sits by my side Fondling my careless hair. She is the lady of golden Gestures to silence beholden. Only she does not deride My dreams and what makes them fair. Now she doth cease and whisper The use of dreams to my soul. She tells me they mean God's blessing The spirit's shining releasing From the world's weight and sister To life's unchanging whole. 8-5-1915 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 79. Interregno A população de Portugal encontra-se hoje dividida, psicologicamente, em cinco grupos distintos. O primeiro grupo, e o maior, que consiste na quase totalidade da nossa larga percentagem de analfabetos e em uma razoável parte do povo, e baixa burguesia, que não o é, apresenta os característicos distintivos do indivíduo português — a sua ausência de personalidade, a sua afectividade impulsiva e incoerente, a sua descontinuidade de vontade e de pensamento, e o seu amor pátrio animal e firme, pelo qual se congrega com facilidade em tomo do que constitua, ou julgue que constitui, a Nação. O segundo grupo, mais restrito, mas suficientemente largo para ser importante na vida nacional, é o que forma a massa dos partidos políticos; formam-no grande parte da baixa burguesia, grande parte da média burguesia, e uma parte incerta da alta burguesia. Este português, tendo a mesma descontinuidade que o do primeiro grupo, já não tem as boas qualidades fundamentais, que aquele distinguem. O seu patriotismo, às vezes real, é todavia desfigurado por partidarismos vários, que por vezes se sobrepõem a ele. Ignorante, e, por isso, admirador de um estrangeiro que desconhece, esta gente é a que crê nos sagrados princípios da revolução, ou nos princípios igualmente sagrados da Monarquia Integral. Indolente, vivendo de empenhos e de cargos públicos que não exerce, é esta camada o principal obstáculo à reformação da Nação Portuguesa. O português simples é um simples animal afectivo e perturbado: uma forte superior direcção orienta-o e leva-o para onde quer. Estes outros, supondo que têm opiniões, têm-nas todavia o bastante para constituir um estorvo. Duplo estorvo — porque contagiam os estúpidos ingénuos que lhes estão abaixo e porque resistem aos cultos ou mais inteligentes, que lhes estão acima. O terceiro grupo, psicologicamente parecido com o segundo, pois o caracterizam a mesma incapacidade de acção útil, é formado de grande parte da alta burguesia e de grande parte da burguesia média. São inertes, conservadores e desnacionalizados. São os do "lá fora é outra coisa", "isto é um país único", "isto é pior que Marrocos", frases que, em justiça se diga, ou não aparecem na boca dos outros grupos, ou só episodicamente e por imitação aparecem. Um quarto grupo, formado de elementos causais de todas as classes, grupo restrito e (...). s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 126. B. Ah, compreendo-te, compreendo-te. Tu é que me não amas. Amas em mim o teu filho futuro. A. Não, tu é que me não compreendes, tu não compreendes a mulher. Amo-te e amo em ti o pai do meu filho futuro. São duas cousas que eu amo em ti. Se não tivéssemos filhos eu não deixaria de te amar. Como queres compreender as mulheres se te julgas superior a elas? (...) B. Ah, mas tu não me amas por uma razão pura. O que tu amas é o lar que eu te darei — eu, o marido, o filho que vier, a casa, o arranjo da casa, a companhia que faremos um ao outro, os amigos que, casal, teremos... (...) Vê como somos diferentes! Tu amas-me porque precisas de mim; eu amo-te porque me não és precisa. Amas-me com amor baixo com que se amam as cousas essenciais, eu amo-te com o alto amor com que se amam as cousas supérfluas. A. Supérfluas! Que (...) me não podes amar! Ai de ti se eu te amasse como tu julgas (...) e alto. Ai dos homens se nós amássemos assim! O supérfluo é o que se pode deitar fora. Ninguém pensa em levar o supérfluo para o céu... Quando uma mulher ama, o homem que ama [...] 1913 «Diálogo no Jardim do Palácio». Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 214. 1ª publ. in Fernando Pessoa et le Drame Symboliste . Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977 Interregno O facto fundamental é que não há entre o sistema liberal de Inglaterra e os sistemas externamente iguais do Continente uma semelhança senão de cara. O liberalismo substancial inglês corresponde a uma vida de opiniões debatidas e de liberdades individuais autênticas. O liberalismo do continente, e sobretudo peninsular, corresponde a uma inércia e a uma incapacidade de disciplina. Contundir os dois fenómenos equivaleria a confundir a ânsia de liberdade do homem de génio com a incapacidade de esforço do vadio e do mendigo. O que atrai os Povos peninsulares no regime parlamentar e liberal é que esse regime, pela sua insubsistência, a sua fraqueza e a sua prolixidade verbal, se conjuga com a alma impotente dos seus sequazes. O que atrai o povo inglês nesse regime é que ele se ajusta à substância do seu individualismo. Assim, e os ingleses o não compreendem, quando se estabelece uma ditadura nos países latinos, estabelece-se uma disciplina. Nos países do Norte uma ditadura seria uma indisciplina. E, ao invés do mesmo sentido, quando nos países latinos se abre um parlamento, a nação periga... A ânsia de liberdade é comum ao homem são superior e ao mendigo que não quer trabalhar. Assim as instituições liberais tanto podem significar a expressão da liberdade, como a expressão da incúria e do desleixo. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 127. SALOMÉ [SALOMÉ] – A minha beleza faz os homens sonâmbulos, e o som (encanto) da minha voz distrai-os de sonhar. As suas preferidas odeiam-me sem saber se existo, porque entre as palavras vagas dos seus discursos amorosos, a minha imagem embarga as frases e elas sentem-me passar, como um canto de sereia, nos esquecimentos da voz, e nos abrandamentos dos braços e das mãos, que cingem ou que apertam. Sou o perfume que, uma vez sonhado, lhes faz aura à imaginação, e não poderão ter esposa, nem noiva, nem até irmã a que acarinhem, porque se lembram de que eu sou a princesa que um dia lhes foi toda a vida. Os meus passos vão leves sobre as relvas, como se fossem memórias. Nos gestos que faço com os braços há um sorriso da minha boca triste. Os meus olhos não conhecem uma promessa certa, e quando são baixos e só os cílios vivem, os corações anseiam com uma grande tortura. Dizem que sou a maravilha, mas eu não sei quem sou. Habita em mim um fluido de desastres que cai sobre as épocas futuras como uma chuva que é nevoeiro. Morreriam milhares só por beijar minhas mãos. Milhares deixariam seus lares só por ouvir a própria voz chamar-me a mim princesa. Pelo meu desprezo visível trocariam muitos todos os amores que lhes foram dados, e até aqueles que desejariam. Sou fatal como as noites e os outonos, e no meu coração há já uma saudade de todos quantos matarei. Os escravos rastejam com os olhos quando mal me podem olhar. Passo entre as alas dos soldados e sinto-os que tremem como folhas ao vento. Levarão saudades desse momento como de uma grande maldição, e acordarão nas grandes noites de estio, quando o suor entra na alma, pávidos da memória sinistra que vive do meu perfil entrevisto, dos meus olhos desviados, do recorte das minhas sobrancelhas muito negras contra a pele morena muito branca da minha fronte coroada de sombras. As escravas invejam-me com amor, e cada uma sonha, a sós com o leito sem outro peito, em como haveriam seus olhos de fazer amar os cães, e seus gestos de fazer relinchar os cavalos, nas grandes noites em que a virgindade se sente nas entranhas. Os gatos roçam-se contra as minhas pernas e sentem-se tigres até ao sexo. As aves cantantes calam-se quando passo, e as rosas altas roçam pela minha face porque eu tenho o privilégio dos caminhos. [SALOMÉ] – Trazei, disse, vossos sonhos para este terraço de onde se vê o mar. Quero sonhar convosco em voz alta, e que a minha voz teça com as vossas o casulo de uma história em que nos fechemos da vida. Para aqui são as terras do reino do que me é como pai, para ali o mar e as terras do outro rei: ambos têm gente a quem governam, em ambas amam os que amam e são forasteiros os que passam; ( ...) Contai, sim, o que vos conto que vos contar-vos. Sonharmos, sonharemos o mesmo sonho. Se o sonharmos todas, ele será mais belo do que é, e terá uma vida longínqua e trémula como a candeia das imagens que vivem no fim do mundo. Eu, filha de Herode, não tenho dia em que não queira a noite nem noite que não anseie pelo dia. (...) A minha vida é uma planície a que se segue outra planície. Não raia sol que me traga a alegria do outro, nem lua que me lembre mais os sonhos que não sei sonhar. [SALOMÉ] – Sinto-me menos imortal que as cousas que sonho. Quando o sol nasce ou morre, a minha sombra é infinita. (...) Projecto-me quando sonho sobre todas as épocas. Quando sonho sinto que não morro. É quando acordo, e escuto com o meu sangue, que eu ouço passar a vida. S[ALOMÉ] – Minha vida tem um cansaço de mais cousas do que a minha vida. Não sei mais que sonhar, mas hoje, que me pesa tanto o não saber mais que sonhar, e tenho sem querer a necessidade do sonho, quero que sonheis comigo. Quero que sonhemos juntas. Se uns vivem juntos, porque não sonharão juntos outros? Há alguma diferença entre o sonho e a vida? A – Mas como, senhora, sonharemos juntas? Tenho sono, e gostaria de sonhar; mas não quero dormir, porque os sonhos, quando se dorme, são de outra alma, e cruzam-se com os que desejaríamos ter, como os peregrinos nas encruzilhadas. S[ALOMÉ] – Eu farei para mim um sonho, e esse sonho será uma história. Irei contando alto essa história, e vós ouvireis e sonhá-la-eis comigo. Uma ou outra de vós, quando a história lhe for ensopando a alma, me irá dizendo o que vê na alma dessa história, e que eu me esquecesse de contar. Será como um canto em que cantemos juntas num sentido, e cada uma por sua vez na voz. Dizei-me que pode ser assim, para que eu passa sonhar a história que há-de ser. A2 – Se a história for bela, senhora, será pena que fosse apenas sonho; se não for bela, será pena que se houvesse contado. S[ALOMÉ] – Se a contarmos bem e for bela, e por isso a sonharmos bem, será mais que um sonho, nalgurn lugar, algum momento, ela terá de ser, porque as coisas que acontecem não são senão como são narradas depois. O que aconteceu ninguém o sabe, porque ninguém sabe o que está acontecendo; os olhos têm a venda de ver e os ouvidos estão tapados com o ouvir. Os livros grandes que meu Pai lê contam coisas maravilhosas do passado. Essas coisas são narradas, porém talvez nunca se dessem. Mas as coisas deram-se porque foram narradas. Que temos nós com o que foi? O que foi é morto e como se não fora nunca. O que é do que foi é verdadeiramente hoje foi antes. O mais é pensar de loucos ou de crianças, que querem a verdade ou a lua nas grandes noites de verão, como esta em que a alma é ampla e triste. A – Assim seja, senhora, e sonhemos. Começai vós que quereis começar, e tendes a voz das fontes escondidas, e os gestos, quando acaso os abris, das palmeiras que mostram que há vento, quando não há vento que toque as pálpebras nem brisa que roce na face a distracção dos cabelos. S[ALOMÉ] – (depois de uma breve pausa) Suponde que... Não, supor é perder... Não, não é assim que se sonha... Espera, que quero ver... (Outra pausa) Havia, no deserto para além do deserto, entre a parte dos desertos que é rochedos, e a solidão é mais dura do que nas areias e a alma mais triste que ao pé das palmeiras, um homem que queria um deus, porque nao havia deus dos homens que habitassem naqueles desertos nem naquela alma. Queria um deus com mais sede que a da água, e mais fome que a dos frutos que são como água e são doçura, e para os quais as crianças estendem o olhar e a mão. Esse homem chamava-se João, porque no meu sonho se chama João. É um nome de entre os hebreus, mas não há felizmente profeta ou rabino de entre eles que ainda usasse deles. Esse homem clamava-a porque a queria e não porque ela houvesse de ser. Mas ele clamava tanto que sem dúvida o ouviria esse deus que ele estava criando. E o deus viria em sua hora, porque para quem sonha não há hora, nem se desencontra a alma com o seu destino. S[ALOMÉ] – Quer, com todo o meu sonho, que este sonho seja verdadeiro. Quero que fique verdade no futuro, como outros sonhos são verdades no passado. Quero que homens morram, que povos sofram, que multidões rujam ou tremam, porque eu tive este sonho. Quero que o profeta que imaginei crie um deus e uma nova maneira de deuses, e outras coisas, e outros sentimentos, e outra coisa que não seja a vida. Quero tanto sonho que ninguém o possa realizar. Quero ser a rainha do futuro que nunca haja, a irmã dos deuses que sejam amaldiçoados, a mãe virgem e estéril dos deuses que nunca serão. S[ALOMÉ] – O que é esse grito na noite, lá em baixo? A – Trouxeram ao tetrarca a cabeça de um bandido. S[ALOMÉ] – Tragam-me a cabeça de um bandido. Tragam-ma numa salva de ouro. S[ALOMÉ] – De quem é essa cabeça? X – De um bandido que matava nas aldeias. S[ALOMÉ] – Não quero que seja de um bandido que matava nas aldeias. Quero que seja de um santo que criasse deuses. X – Era de um bandido que matava nas aldeias. S[ALOMÉ] – Aproxima-se de mim a salva. (…). Vede como as pálpebras podem ser de um sonhador, e a boca pode ser de um pecador arrependido ou de um asceta que nunca pecou. As faces têm rugas — podem ser de vigília ou de ódio, mas isso importa pouco, porque estamos criando a história. Afasta um pouco mais a cabeça. Quero vê-la, mas não quero vê-la bem. Afasta mais ainda. Aí, onde está, a luz do luar dá-lhe como um malefício. Quantos luares mais lhe não darão no sonho que outros terão do meu! Leva-a mais para longe. Estou cansada. Sonhei demais. Que homem era esse? X – Era um bandido que matava nas aldeias. S[ALOMÉ] – Não te disse que essa cabeça era a de um santo que fazia deuses? Porque me dizes que era de um bandido que matava nas aldeias? Chamai o capitão da guarda — o que é louro e triste. (…) A princesa chama o capitão de guarda. Um murmúrio vago. O capitão aparece. CAP – Chamaste-me, senhora? S[ALOMÉ] – Chamei. Está ali um homem com uma salva. CAP – Senhora, vejo. S[ALOMÉ] – Na salva está a cabeça de um santo que criava deuses. Reparai no homem que tem a salva na mão. CAP. Senhora, reparo. S[ALOMÉ] – Esse homem desmentiu-me. Quero que mateis esse homem. CAP – Senhora, que mate esse homem? S[ALOMÉ] – Tendes a espada e a minha ordem. Que mais razão podeis querer? (O capitão desembainha a espada e mata o servo. Este cai com a salva. A salva e a cabeça, separadas, fazem estrondo alto e baixo, no chão de pedra. Entra o Tetrarca.) H[ERODES] – Que novo sonho é este, ou que novo capricho? Que malícia fez que se trouxesse aqui esta cabeça que pedi me fosse levada? Quem a desviou dos meus olhos para os teus? S[ALOMÉ] – É a cabeça de um bandido que matava nas aldeias. H[ERODES] – Não é. Esta é a cabeça de um santo que estava a criar deuses pelos desertos. Mandei-o matar e quis que me trouxessem a sua cabeça. Porque foi que a pediste? S[ALOMÉ] – Porque foi que a pedi? Porque foi que a pedi? Não sei. Não sei. Que foi isso que disseste, senhor que me tira a alma toda do coração. Não digais que me disseste a verdade porque isso é demais para o meu sonho. Ah, que talvez o sonho não crie mas veja, e não faça senão o que adivinha. Aquela cabeça era de um santo que andava nos desertos? H[ERODES] – Que vinho de luar te embebedou, que falas com os mortos entre os vivos? Aquela cabeça é de um santo que cantava nos desertos a memória dos deuses futuros. S[ALOMÉ] – A cabeça? Deixem-me vê-la de perto. (Ajoelha ao pé dela) (Toma-a nas mãos) Faz medo e nojo, como os deuses. É a cabeça de um monstro porque é a de um morto. Tetrarca, quem era este homem? H[ERODES] – Era um homem que anunciava nos desertos, cantando e gritando, a vinda do fim das coisas e de um deus que teria piedade. Gritava entre a rochas solitárias que os deuses antigos eram como os homens quando vivem, mas o deus novo seria como os homens quando morrem, a imagem da tristeza e da verdade, Não lhe vi ainda a cabeça. Erguei-ma na salva para que eu a veja. (O capitão da guarda olha em redor faça. Abaixa-se, toma a salva, coloca nela a cabeça e ergue-a ante a vista do Tetrarca. O Tetrarca inclina a cabeça para a frente e fita a cabeça com insistência.) H[ERODES] – É a cara de um homem que viveu entre os desertos e esperava novos deuses ao pé de rochedos. Parece que chorou muito: as faces têm sulcos como os que as águas fazem nas rochas. É terrível, mas por detrás das pálpebras cerradas sinto com a própria vista que os olhos são tristes... Quem matou aquele escravo? CAP – Fui eu. H[ERODES] – Porque o mataste? CAP – Mandou a princesa que o matasse. H[ERODES] – Porque foi que mandaste matar? S[ALOMÉ] – Não sei. Não sei nada. Sucede qualquer coisa de tão terrível que não sei como falar. Mandei-o matar porque ele disse que aquela cabeça era de um santo que criava deuses nos desertos. H[ERODES] – Mas era de um santo que criava deuses nos desertos. S[ALOMÉ] – Não era: era de um bandido que matava nas aldeias. Deponde a salva no chão, retirai-vos. Tenho sono. Pai, tenho sono. (Para as aias) Retirai-vos vós também. Pai, quero dormir. Deixai a salva aí no chão, com a cabeça. Pai, ide-vos também daqui. S[ALOMÉ] – Eu bem sabia. Eu bem sabia. Não se pode sonhar sem Deus saber. A minha mentira era verdade. Era certo que no desertos havia um santo que chamava por um deus novo, um deus triste como as rochas e sozinho como as grandes planuras. Eu bem sabia que alguém haveria de querer um deus que conhece os sonhos e tem pena do que não têm nada. Vou fazer como se estivesse num festim. Vou bailar à roda da tua cabeça até cair sem vida. Vou dançar no funeral das coisas que morreram com a tua vida. Vê, vou fazer um bailado ao luar, para dizer tudo. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 215. 1ª publ. in Fernando Pessoa et le Drame Symboliste . Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977 Interregno Todo o grande partido político de oposição , ou seja, todo o partido de oposição que adquire vulto bastante para subverter um regime ou parte dele, se forma com a congregação de três elementos distintos, e não está completo, nem apto para efectuar o intuito, em torno do qual se gerou, senão quando efectivamente congrega todos esses elementos. Esses três elementos são: um pequeno grupo de idealistas cujas ideias se infiltram abstractamente por vária gente inactiva; um grupo maior de homens de acção, atraídos pelos elementos activos e combativos do partido, e já distante psiquicamente de todo o idealismo propriamente dito; um grupo máximo de indivíduos violentos e indisciplinados, uns sinceros, outros meio sinceros, outros ainda pseudo-sinceros, que, por sua própria natureza de indisciplinados e violentos, ou desadaptados do meio, naturalmente se agregam a toda a fórmula Política que está numa oposição extrema. Quando o regime ou fórmula, que assim formou partido, conquista o poder, desaparecem os idealistas, pelo menos na sua acção, que acabou historicamente com a realização; assumem o poder os homens práticos, os anónimos derivados dos idealistas e os mais elementos. Agregam-se, formando com estes últimos um pacto instintivo, os que querem comer do regime real. Tal é a história de todas as revoluções; por alto que seja o ideal de onde se despenharam, vêm sempre ter ao mesmo vale da sordidez humana. Forma-se uma ditadura de inferiores. Um período revolucionário é sempre uma ditadura de inferiores. A situação de Portugal, proclamada a República, é a de uma multidão amorfa de pobres diabos, governada por uma minoria violenta de malandros e de comilões. O constitucionalismo republicano, para o descrever com brandura, foi uma orgia lenta de bandidos estúpidos. Mas — e assim é a humanidade —, através de tudo, e até nas almas de muitos desses bandidos, subsistia qualquer coisa do impulso lírico do ideal originário. E assim se via bandidos da pior espécie — gatunos de alma, vadios orgânicos — baterem-se com bravura pelo ideal que julgavam que tinham. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 128. — E eu pensei que se eu sonhasse isto muitas vezes talvez o futuro tivesse pena de mim. Amariam a minha memória todos os homens. — O que é que vós sonhastes? — Que o meu pai dava um banquete e eu dançava no banquete diante dos convivas. De tal maneira eu dançava que o meu pai me dizia: pede-me o que quiseres. E eu pedia a cabeça daquele doido que prenderam há dias. — Os homens falam dele. — De que estão aqueles homens falando? — Do vosso modo de dançar, senhora. Dos gestos que fazeis quando dançais. — Que gestos faço eu? Eu não estou fazendo gestos nenhuns. — As cousas em que estais pensando é que estão fazendo gestos no ar. s.d. «Salomé». Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 220. 1ª publ. in Fernando Pessoa et le Drame Symboliste . Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977 Interregno O prestígio de Salazar não se deriva da sua obra financeira, tanto porque, sendo essa obra uma obra de especialidade, o público não tem competência, nem pretende ter competência, para a compreender, como porque o acolhimento calorosamente favorável, que essa obra teve, denotava já um prestígio anterior. O prestígio de Salazar nasceu vagamente da sugestão do seu prestígio universitário e particular, mas firmou-se junto do público, logo desde as suas primeiras frases como ministro, e as suas primeiras acções como administrador, por um fenómeno psíquico simples de compreender. Todo prestígio consiste na posse, pelo prestigiado, de qualidades que o prestigiador não tem e se sente incapaz de ter. O povo português é essencialmente descontínuo na vontade e retórico na expressão: não há coisa portuguesa que seja levada avante com firmeza e persistência; não há texto genuinamente português que não diga em vinte palavras o que se pode dizer em cinco, nem deixe de incoerir e romantizar a frase. Logo desde o princípio, Salazar marcou, e depois acentuou, uma firmeza de propósito e uma continuidade de execução de um plano; logo desde o princípio falou claro, sóbrio, rígido, sem retórica nem vago. O seu prestígio reside nessa formidável impressão de diferença do vulgo português. No meio de um povo de incoerentes, de verbosos, de maledicentes por impotência e espirituosos por falta de assunto intelectual, o lente de Coimbra (Santo Deus!, de Coimbra!) marcou como se tivesse caído de uma Inglaterra astral. Depois dos Afonsos Costas, dos Cunhas Leais, de toda a eloquência parlamentar sem ontem nem amanhã na inteligência nem na vontade, a sua simplicidade dura e fria pareceu qualquer coisa de brônzeo e de fundamental. Se o é deveras, e se a obra completa o que a intenção formou, são já assuntos de especialidade, e sobre os quais nem o público, que deles nada sabe, nem eu, que sei tanto como o público, poderemos falar com razão ou proveito. De este prestígio resulta o contraste com Afonso Costa. Quando este apresentou, em 1912 (?), o seu superavit, foi recebido à gargalhada pelo público, e os seus próprios partidários tiveram de fazer esforços sobre si mesmos para ter fé na obra, como a tinham no homem. Quando Salazar apresentou o superavit, todo o grande público imediatamente o aceitou. Não foi pois o superavit, comum aos dois que provocou o prestígio: o prestígio de um, o não prestígio de outro, eram anteriores ao espectáculo financeiro. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 129. — O que ficará de mim será falso. — O que é uma coisa ser falsa? — Não sei . s.d. «Salomé». Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 220. 1ª publ. in Fernando Pessoa et le Drame Symboliste . Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977 Há razões para supor, e adiante direi quais são, que dois terços do país estão com a Ditadura Militar. O que não há razão para supor é que os mesmos dois terços do país, ou qualquer coisa que se pareça com esses dois terços, estejam com o Integralismo Lusitano, cujos princípios, aliás estrangeiros, se nos querem impor como soma de ciência social e necessária condição nossa, pelo Manifesto do Governo e o Relatório Salazar. E porque este movimento político representa uma imoralidade — o servir-se um governo que tem tido simpatias por o que tem sido de anti-doutrinário, dessas mesmas simpatias para nos impor uma doutrina — julgo que é dever de quem quer que seja, que possa contraexpor ou contraditar, opor uma resistência, pelo menos intelectual, ao subterfúgio político pelo qual, não a Ditadura mas os seus maus Mestres, querem cavar a sua própria ruína, que não interessaria se não afectasse o país. O país não quer mais Josés Domingues dos Santos, e nem os quer trazidos pela mão irónica do Prof. Oliveira Salazar. Pertenço àquela parte do país que não hostiliza deliberadamente corrente política alguma, desde que essa corrente garanta a ordem e se oriente com alguma decência. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 130. –– Quem é aquele doido que prenderam porque anda a pregar a vinda de um Salvador? — Não sei, senhora. É um homem que fala como quem não nos vê, e conversa apenas em cousas que estão atrás de nós quando atrás de nós não está gente nenhuma. [SALOMÉ] – A noite é tão calma e tão puro o céu que não há tristeza que esteja fora de mim. Uma angústia como uma mão oprime-me. Há um desassossego sem esperança em todas as minhas emoções. Nesta hora morna e escura eu queria ser qualquer coisa que ninguém tivesse desejado ser. No teu país de que cousas é que se sonha? Da beleza da vida nos outros países, sobretudo naqueles de que nunca ouvimos falar. s.d. «Salomé». Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 221. 1ª publ. in Fernando Pessoa et le Drame Symboliste . Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977 (...) e estorvaram o pobre Sidónio — grande, apesar de ser quem era (...) Quanto aos fictícios do passado — os sub-produtos de Afonso Costa — Sás Cardosos, Cunhas Leais, Tamagninis e o resto — são coisas mortas porque já foram digeridas e existem no exterior apenas como existem as coisas vomitadas. Repugna-os o estômago da inteligência, e repugná-los-ia o da realidade, se a realidade tivesse inteligência. [...] Se os novos elementos que querem uma reconstrução democrática — os da Seara Nova e outros assim, se os há — verdadeiramente querem essa reconstrução, e não operam na simples orla dos jesuítas do avesso, então o seu primeiro dever será o de repudiar esse conteúdo de casa de malta suspeita na polícia intelectual e ao arejar os princípios republicanos, servir-se da janela, que abrem, para o despejo definitivo dos sub-Costas todos. Uma vez, na Seara Nova, li um homem inteligente e culto, António Sérgio, tratar a sério, criticando a sério, um sub-lixo como José Domingues dos Santos, seminarista presente através de todas as políticas [...] É como se alguém com decência e raciocínio discutisse a sério, sem razão de Estado, as ideias ou afirmações do antigo chulo Aristide Briand o analfabetíssimo representante para o [...] do país, da mais fácil cultura clássica do mundo. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 131. Ao fundo do meu passado Salomé dança. As graças debruçam-se sobre o alvejar das suas espáduas. São morenas e alvejam Suas carícias são nervosas e rápidas, mas pelo sabor do (seu) contacto parecem demoradíssimas. Os seus dedos sabem de cor o mistério das volúpias incompletas. Secam oásis nos seus lábios cansados. Apagam-se lâmpadas nos contornos dos seus arremedos. Há um ruído de guizos longínquos em tudo o que ela não (...) Lá fora o luar é de prata branda... Enroscam-se as sombras sob a lua alta, e o vento sacode-as quando passam. Calam-se os espaços entre árvore e árvore, entre bosque e bosque... Há ilhas remotas na paisagem... s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 221. 1ª publ. in Fernando Pessoa et le Drame Symboliste . Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977 ASSOCIAÇÕES SECRETAS Estreou-se a Assembleia Nacional, do ponto de vista legislativo, com a apresentação, por um deputado, de um projecto de lei sobre "associações secretas". De tal ordem é o projecto, tanto em natureza como em conteúdo, que não há que felicitar o actual Parlamento por lhe ter sido dada essa estreia. Antes que dizer-lhe Absit omen!, ou seja, em português, Longe vá o agouro! Apresentou o projecto o Sr. José Cabral, que, se não é dominicano, deveria sê-lo, de tal modo o seu trabalho se integra, em natureza, como em conteúdo, nas melhores tradições dos Inquisidores. O projecto, que todos terão lido nos jornais, estabelece várias e fortes sanções (com excepção da pena de morte) para todos quantos pertençam ao que o seu autor chama "associações secretas, sejam quais forem os seus fins e organização". Dada a latitude desta definição, e considerando que por "associação" se entende um agrupamento de homens, ligados por um fim comum, e que por "secreto" se entende o que, pelo menos parcialmente, se não faz à vista do público, ou, feito, se não torna inteiramente público, posso, desde já, denunciar ao Sr. José Cabral uma associação secreta — o Conselho de ministros. De resto, tudo quanto de sério ou de importante se faz em reunião neste mundo, faz-se secretamente.. Se não reúnem em público os Conselhos de ministros, também não o fazem as direcções dos partidos políticos, as tenebrosas figuras que orientam os clubes desportivos ou os sinistros comunistas que tornam os conselhos de administração das companhias comerciais e industriais. Embora uma interpretação desta ordem legitimamente se extraia do frasear pouco nacionalista do sr. José Cabral, creio, tanto porque assim deve ser, como pelos encómios com que o projecto foi afagado pela imprensa pseudo-cristã, que as "associações secretas", que ele verdadeiramente visa, são aquelas que envolvem o que se chama "iniciação", e portanto o segredo especial a esta inerente. Ora no nosso país, caída há muito em dormência a Ordem Templária de Portugal, desaparecida a Carbonária — formada para fins transitórios, que se realizaram —, não existem, suponho, à parte uma outra possível loja martinista ou semelhante, mais do que duas "associações secretas" dessa espécie. Uma é a Maçonaria, a outra essa curiosa organização que, em um dos seus ramos, usa o nome profano de Companhia de Jesus, exactamente como, na Maçonaria, a Ordem de Heredom e Kilwinning usa o nome profano de Real Ordem da Escócia. Dos chamados jesuítas não tratarei, e por três motivos dos quais calarei o primeiro. Os outros dois são: que não creio, por mais razões do que uma, que eles corram risco de, aprovado que fosse o projecto, lhes serem aplicadas as suas sanções; e que não creio por uma razão só, que o Sr. José Cabral tenha pretendido que tal aplicação se fizesse. Presumo pois que o projecto de lei do urgente deputado se dirija, total ou principalmente, contra a Ordem Maçónica. Como tal o examinarei. Não faço, creio, ofensa ao Sr. José Cabral em supor que, como a maioria dos anti-maçons, o autor deste projecto é totalmente desconhecedor do assunto Maçonaria. O que sabe dele é até, porventura, pior que nada, pois, naturalmente, terá nutrido o seu anti-maçonismo da leitura da Imprensa chamada católica, onde, até nas coisas mais elementares na matéria, erros se acumulam sobre erros, e aos erros se junta, com a má-vontade, a mentira e a calúnia, senhoras suas filhas. Não creio que o Sr. José Cabral conviva habitualmente com os livros de Findel, Kiuss ou Gould, ou que passe as suas horas de ócio na leitura atenta da Ars Quatuor Coronatorum ou das publicações da Grande Loja de Iowa. Duvido, até, que o Sr. José Cabral tenha grande conhecimento da literatura anti-maçónica — Barruel ou Robison, ou Eckert — tão admirável, aliás, do ponto de vista humorístico. Nem terá tido porventura noção, sequer de ouvido, do artigo célebre do Padre Hermann Grüber na Catholic Encyclopoedia , artigo citado com elogio em livros maçónicos, e em que o douto jesuíta por pouco não defende a Maçonaria. Ora se o sr. José Cabral está nesse estado de trevas com respeito à natureza, fins e organização da Ordem Maçónica, suponho que em igual condição estejam muitos dos outros membros da Assembleia Nacional, com a diferença de que se não propuseram legislar sobre matéria que ignoram. Sendo assim, nem o deputado apresentante, nem os seus colegas de assembleia, estarão, talvez, em estado de medir claramente as consequências nacionais, internas e sobretudo externas, que adviriam da aprovação do projecto. Como conheço o assunto suficientemente para saber de antemão, e corri certeza, quais seriam essas consequências, vou fazer patrioticamente presente da minha ciência ao Sr. José Cabral e à Assembleia Legislativa de que é ornamento. Começo por uma referência pessoal, que cuido, por necessária, não dever evitar. Não sou maçon, nem pertenço a qualquer outra Ordem semelhante ou diferente. Não sou porém anti-maçon, pois o que sei do assunto me leva a ter uma ideia absolutamente favorável da Ordem Maçónica. A estas duas circunstâncias, que em certo modo me habilitam a poder ser imparcial na matéria, acresce a de que, por virtude de certos estudos meus, cuja natureza confina com a parte oculta da Maçonaria — parte que nada tem de político ou social —, fui necessariamente levado a estudar também esse assunto, assunto muito belo, mas muito difícil, sobretudo para quem o estuda de fora. Tendo eu, porém, certa preparação, cuja natureza me não proponho indicar, pude ir, embora lentamente, compreendendo o que lia e sabendo meditar o que compreendia. Posso hoje dizer, sem que use de excesso de vaidade, que pouca gente haverá, fora da Maçonaria, aqui ou em qualquer outra parte, que tanto tenha conseguido entranhar-se na alma daquela vida, e portanto, e derivadamente, nos seus aspectos por assim dizer externos. Se talo de mim, e deste modo, é para que o Sr. José Cabral e os seus colegas legisladores saibam perfeitamente quem lhes está falando, e que o que vão ler, se quiserem, é escrito por quem sabe o que está escrevendo. Não que o que vou dizer exija profundos conhecimentos maçónicos: é matéria puramente de superfície, da vida externa da Ordem. Exige porém conhecimentos, e não ignorâncias, fantasias ou mentiras. Começo a valer. Creio não errar ao presumir que o Sr. José Cabral supõe que a Maçonaria é uma associação secreta. Não é. A Maçonaria é uma Ordem secreta, ou, com plena propriedade, uma Ordem iniciática. O Sr. José Cabral não sabe, provavelmente, em que consiste a diferença. Pois o mal é esse — não sabe. Nesse ponto, se não sabe, terá que continuar a não saber. De mim, pelo menos, não receberá a luz. Forneço-lhe, em todo o caso, uma espécie de meia luz, qualquer coisa como a "treva visível" de certo grande ritual. Vou insinuar-lhe o que é essa diferença por o que em linguagem maçónica se chama "termos de substituição", A Ordem Maçónica é secreta por uma razão indirecta e derivada a mesma razão por que eram secretos os Mistérios antigos, incluindo os dos cristãos, que se reuniam em segredo, para louvar a Deus, em o que hoje se chamariam Lojas ou Capítulos, e que, para se distinguir dos profanos, tinham fórmulas de reconhecimento — toques, ou palavras de passe, ou o que quer que fosse. Por esse motivo os romanos lhes chamavam ateus, inimigos da sociedade e inimigos do Império — precisamente os mesmos termos com que hoje os maçons são brindados pelos sequazes da Igreja Romana, filha, talvez ilegítima, daquela maçonaria remota. Feito assim o meu pequeno presente de meia-luz, entro directamente no que verdadeiramente interessa — as consequências que adviriam, para o país, da aprovação do projecto de lei do sr. José Cabral. Tratarei primeiro das consequências internas. A primeira consequência seria esta — coisa nenhuma. Se o sr. José Cabral cuida que ele, ou a Assembleia Nacional, ou o Governo, ou quem quer que seja, pode extinguir o Grande Oriente Lusitano, fique desde já desenganado. As Ordens Iniciáticas estão defendidas, ab origine symboli, por condições e forças muito especiais que as tornam indestrutíveis de fora. Não me proponho explicar o que sejam essas forças e condições: basta que indique a sua existência. De resto, têm os Srs. deputados a prova prática em o que tem sucedido noutros países onde se tem pretendido suprimir as Obediências maçónicas. Ponho de parte o caso da Rússia, porque não sei concretamente o que ali se passou: sei apenas que os Sovietes, corno todo o comunismo, são violentamente anti-maçónicos e que perseguiram a Maçonaria; e também sei que pouco teriam que perseguir pois na Rússia quase não havia Maçonaria. Considerarei os casos da Itália, da Espanha e da Alemanha. Mussolini procedeu contra a Maçonaria, isto é, contra o Grande Oriente de Itália mais ou menos nos termos pagãos do projecto do Sr. José Cabral. Não sei se perseguiu muita gente, nem me importa saber. O que sei, de ciência certa, é que o Grande Oriente de Itália é um daqueles mortos que continuam de perfeita saúde. Mantém-se, concentra-se, tem-se depurado, e lá está à espera; se tem em que esperar é outro assunto. O camartelo do Duce pode destruir o edifício do comunismo italiano; não tem força para abater colunas simbólicas, vazadas num metal que procede da Alquimia. Primo de Rivera procedeu mais brandamente, conforme a sua índole fidalga, contra a Maçonaria Espanhola. Também sei ao certo qual foi o resultado — o grande desenvolvimento, numérico como político, da Maçonaria em Espanha. Não sei se alguns fenómenos secundários, como, por exemplo, a queda da Monarquia, teriam qualquer relação com esse facto. Hitler, depois de se ter apoiado nas três Grandes Lojas cristãs da Prússia, procedeu segundo o seu admirável costume ariano de morder a mão que lhe dera de comer. Deixou em paz as outras Grandes Lojas — as que o não tinham apoiado nem eram cristãs e, por intermédio de um tal Goering, intimou aquelas três a dissolverem-se. Elas disseram que sim — aos Goerings diz-se sempre que sim — e continuaram a existir. Por coincidência, foi depois de se tomar essa medida que começaram a surgir cisões e outras dificuldades adentro do partido nazi. A história, como o Sr. José Cabral deve saber, tem muitas destas coincidências. Como tenho estado a apresentar razões e factos até certo ponto desanimadores para o Sr. José Cabral, vou desde já animá-lo com a indicação de um resultado certo, positivo, que adviria da aprovação do seu projecto. Resultaria dele — alegre-se o dominicano! — um grande número de perseguições a oficiais do exército e da armada e a funcionários públicos. Perderiam os seus lugares os que não quisessem ter a indignidade de repudiar a sua Ordem. Resultaria, portanto, a miséria para as suas famílias, onde é possível e isto é que é grave — que se encontrassem pessoas devotas de Santa Teresinha do Menino Jesus, personagem que ocupa, na actual mitologia portuguesa, um lugar um pouco acima de Deus. Resolver-se-ia, é certo, no estilo inesperado do roulement que não rola, o problema do desemprego para aqueles actuais desempregados, bem entendido, que têm por Grão-Mestre Adjunto o Sr. Conselheiro João de Azevedo Coutinho. Seriam essas as consequências internas da aprovação do projecto: dois zeros — um para o efeito anti-maçónico da lei, outro para a barriga de muita gente. Seriam essas as consequências internas. Vou tratar agora das consequências externas, isto é, das consequências que adviriam da aprovação do projecto para a vida e o crédito de Portugal no estrangeiro. Esse aspecto da questão, esse resultado, não só possível, mas até certo, creio bem que não ocorreu ao Sr. José Cabral. Presto homenagem — e a sério — ao seu patriotismo, embora lamente que seja um patriotismo tão analfabeto. Existem hoje em actividade, em todo o mundo, cerca de seis milhões de maçons, dos quais cerca de quatro milhões nos Estados Unidos e cerca de um milhão sob as diversas Obediências independentes britânicas. Assim, cinco sextos dos maçons hoje em actividade são maçons de fala inglesa. O milhão restante, ou conta parecida, acha-se repartido pelas várias Grandes Obediências dos outros países do mundo, das quais a mais importante e influente é talvez o Grande Oriente de França. As Obediências maçónicas são potências autónomas e independentes, pois não há governo central da Maçonaria, que é por isso menos "internacional" que a Igreja Romana. Há Obediências maçónicas que poucas relações têm entre si; há até Obediências que estão de relações suspensas ou cortadas. Dou dois exemplos. A Grande Loja de Inglaterra cortou em 1877, por um motivo técnico, as relações, que ainda não reatou, com o Grande Oriente de França. A mesma Grande Loja cortou, em 1933, as relações com a Grande Loja das Filipinas, em virtude de divergências — cuja natureza não sei mas presumo — quanto à maneira de desenvolver a Maçonaria na China. Assim a Maçonaria necessariamente toma aspectos diferentes — políticos, sociais e até rituais — de país para país, e até, adentro do mesmo país, de Obediência, para Obediência, se houver mais que uma. Dou um exemplo. Há em França três Obediências independentes — o Grande Oriente de França, a Grande Loja de França. (prolongada capitularmente pelo Supremo Conselho do Grau 33) e a Grande Loja Regular, Nacional e Independente para França e suas Colónias. O Grande Oriente é acentuadamente radical e anti-religioso; a Grande Loja limita-se a ser liberal e anticlerical; a Grande Loja Nacional não tem política nenhuma. Dou outro exemplo. O Grande Oriente de França tem uma grande influência política, mas, excepto através dessa, pouca influência social. A Grande Loja de Inglaterra não se preocupa com política, mas a sua influência social é enorme. Conquanto, porém, a Maçonaria esteja assim materialmente dividida, pode considerar-se como unida espiritualmente. O espírito dos rituais, e sobretudo o dos Graus Simbólicos (nos quais, e sobretudo no Grau de Mestre, está já, para quem saiba ver ou sentir, a Maçonaria inteira), é o mesmo em toda a parte, por muitas que sejam as divergências verbais e rituais entre graus idênticos, trabalhados por Obediências diferentes Em palavras mais perspícuas, mas necessariamente menos claras: quem tiver as chaves herméticas, em qualquer forma de um ritual encontrará, sob mais ou menos véus, as mesmas fechaduras. Resulta desta comunidade de espírito profundo, deste íntimo e secreto laço fraternal, que ninguém quebrou nem pode quebrar, que uma Obediência, ainda que tenha poucas ou nenhumas relações com outra, não vê todavia com indiferença o ser esta atacada por profanos Os maçons da Grande Loja de Inglaterra não têm, como se disse, relações com os do Grande Oriente de França. Quando, porém, recentemente, surgiu em França, a propósito dos casos Stavisky e Prince, uma campanha anti-maçónica, de origem aliás ultra-suspeita, a vaga simpatia, que potencialmente se estava formando em Inglaterra pelos conservadores que atacavam o Governo Francês, desapareceu imediatamente. O Times, conservador mas acentuadamente maçónico, relatou as manifestações contra o Governo Francês com uma antipatia que roçou pela deturpação de factos. E há muitos casos semelhantes, como o de certo escritor maçónico inglês, que em seus livros constantemente ataca o Grande Oriente de França, mudar completamente de atitude ao responder a uma escritora inglesa anti-maçónica, que afinal dissera pouco mais ou menos o mesmo que ele havia sempre dito. Nisto tudo, que serviu de exemplo, trata-se de coisas de pouca monta, simples campanhas de jornal, e por certo de atitudes espontâneas e individuais da parte dos maçons que as tomaram. Quando porém se trate de factos maçonicamente graves, como seja a tentativa por um governo, de suprimir ou perseguir uma Obediência maçónica, já a acção dos maçons não é tão individual e isolada, nem se resume a uma maior ou menor antipatia jornalística. Provam-no diversas complicações, de origem aparentemente desconhecida, que encontrou em países estrangeiros o Governo de Primo de Rivera, e que encontraram, e ainda encontram, os Governos da Itália e da Alemanha. Esses, porém, são países grandes e fortes, com recursos, de vária ordem, que em certo modo podem contrabalançar aquelas oposições. Vem mais a propósito citar o caso de um país que não é grande nem influente na política europeia em geral. Refiro-me à Hungria e ao que se passou com o célebre empréstimo americano. Aqui há anos, pouco depois da guerra, o Governo Húngaro decretou a supressão da Maçonaria no seu território. Pouco depois negociava um empréstimo nos Estados Unidos. Estava o empréstimo praticamente feito quando veio da América a indicação final de que ele não seria concedido se não se restabelecessem "certas instituições legítimas". O Governo Húngaro percebeu e viu-se obrigado a entrar em transacções com o Grão-Mestre; disse-lhe que autorizava a reabertura das Lojas com a condição (que parece do Sr. José Cabral) de que nelas pudessem assistir profanos. É escusado dizer que o Grão-Mestre recusou. O Governo manteve portanto a "suspensão" das Lojas... — e o empréstimo não se fez. Ora isto sucedeu com a Maçonaria Americana, que não faz propriamente política nem mantém relações muito intensas com as Obediências europeias, à excepção das britânicas. Tratava-se, porém, de uma grave injúria à Maçonaria, e o resultado foi o que se vê. Não venha o Sr. José Cabral dizer-me que não precisamos de empréstimos do estrangeiro. Nem só de empréstimos vive o país. Precisa, por exemplo, de colónias, sobretudo das que ainda tem. E precisa de muitas outras coisas, incluindo o não incorrer na hostilidade activa dos cinco e tal milhões de maçons que, por apolíticos, ainda nos não têm hostilizado. Creio que disse o suficiente para que o sr. José Cabral e os outros Srs. deputados compreendam perfeitamente qual pode e deve ser o alcance da aprovação deste projecto na vida e no crédito de Portugal. Antes de acabar, porém, quero dar-lhes uma pequena amostra da espécie de gente em cuja antipatia activa incorreríamos. Tomarei para exemplo a Grande Loja Unida de Inglaterra, não só pela importância que para nós têm as nossas relações com aquele país, mas também porque qualquer acção dessa Grande Loja — a Loja-Mãe do Universo, com cerca de 450 000 maçons em actividade — arrasta consigo todos os maçons de fala inglesa e todas as Obediências dos países protestantes. Do resto da Maçonaria não é preciso falar. São maçons, sob a obediência da Grande Loja de Inglaterra, três filhos do Rei — o Príncipe de Gales, Grão-Mestre Provincial de Surrey, o Duque de York, Grão-Mestre Provincial de Middlesex, e o Duque de Kent, antigo Primeiro Grande Vigilante. É maçon o genro do rei, Conde de Harwood, Grão-Mestre Provincial de West Yorkshire. São maçons o tio do rei, duque de Connaught, Grão-Mestre da Maçonaria Inglesa, e seu filho, o príncipe Artur de Connaught, Grão-Mestre Provincial de Berkshire. São maçons, em sua maioria, os fidalgos ingleses, sobretudo os de antiga linhagem. São maçons, em grande número, os prelados e sacerdotes da Igreja de Inglaterra, o clero mais profundamente culto de todo o mundo, a Igreja protestante que mais perto está, em dogma e ritual, da Igreja de Roma. Não prossigo, porque já basta... Lembro todavia que as três grandes jornais conservadores ingleses — o Times, o Sunday Times e o Daily Telegraph — são ao mesmo tempo maçónicos... Acabei.. Convém, porém, não acabar ainda. Provei neste artigo que o projecto de lei do sr. José Cabral, além do produto da mais completa ignorância, seria, se fosse aprovado: primeiro, inútil e improfícuo; segundo, injusto e cruel; terceiro, um malefício para o país na sua vida internacional. Não considerei, porque não tinha que considerar, se a Maçonaria merece o mau conceito em que evidentemente a tem o Sr. José Cabral e outros que nada sabem da matéria. Esse ponto estava fora da linha do meu argumento. Como, porém, a maioria da gente não sabe raciocinar, pode alguém supor que me esquivei a esse ponto. Vou por isso tratar dele embora protestando contra mim mesmo. Quem sofre com isso é o leitor. A Maçonaria compõe-se de três elementos: o elemento iniciático, pelo qual é secreta; o elemento fraternal; e o elemento a que chamarei humano — isto é, o que resulta de ela ser composta por diversas espécies de homens, de diferentes graus de inteligência e cultura, e o que resulta de ela existir em muitos países, sujeita portanto a diversas circunstâncias de meio e de momento histórico, perante as quais, de país para país e de época para época, reage, quanto a atitude social, diferentemente. Nos primeiros dois elementos, onde reside essencialmente o espírito maçónico, a Ordem é a mesma sempre e em todo o mundo. No terceiro, a Maçonaria — como aliás qualquer instituição humana, secreta ou não — apresenta diferentes aspectos, conforme a mentalidade de maçons individuais, e conforme circunstâncias de meio e momento histórico, de que ela não tem culpa. Neste terceiro ponto de vista, toda a Maçonaria gira, porém, em torno de uma só ideia — a tolerância; isto é, o não impor a alguém dogma nenhum, deixando-o pensar como entender. Por isso a Maçonaria não tem uma doutrina. Tudo quanto se chama "doutrina maçónica" são opiniões individuais de maçons, quer sobre a Ordem em si mesma, quer sobre as suas relações com o mundo profano. São divertidíssimas: vão desde o panteísmo naturalista de Oswald Wirth até ao misticismo cristão de Arthur Edward Waite, ambos eles tentando converter em doutrina o espírito da Ordem. As suas afirmações, porém, são simplesmente suas; a Maçonaria nada tem com elas. Ora o primeiro erro dos anti-maçons consiste em tentar definir o espírito maçónico em geral pelas afirmações de maçons particulares, escolhidas ordinariamente com grande má fé. O segundo erro dos anti-maçons consiste em não querer ver que a Maçonaria, unida espiritualmente, está materialmente dividida, como já expliquei. A sua acção social varia de país para país, de momento histórico para momento histórico, em função das circunstâncias do meio e da época, que afectam a Maçonaria como afectam toda a gente. A sua acção social varia, dentro do mesmo país, de Obediência para Obediência, onde houver mais que uma, em virtude de divergências doutrinárias — as que provocaram a formação dessas Obediências distintas, pois, a haver entre elas acordo em tudo, estariam unidas. Segue de aqui que nenhum acto político ocasional de nenhuma Obediência pode ser levado à conta da Maçonaria em geral, ou até dessa Obediência particular, pois pode provir, como em geral provém, de circunstâncias políticas de momento, que a Maçonaria não criou. Resulta de tudo isto que todas as campanhas anti-maçónicas — baseadas nesta dupla confusão do particular com o geral e do ocasional com o permanente — estão absolutamente erradas, e que nada até hoje se provou em desabono da Maçonaria. Por esse critério — o de avaliar uma instituição pelos seus actos ocasionais porventura infelizes, ou um homem por seus lapsos ou erros ocasionais — que haveria neste mundo senão abominação? Quer o Sr. José Cabral que se avaliem os papas por Rodrigo Bórgia, assassino e incestuoso? Quer que se considere a Igreja de Roma perfeitamente definida em seu íntimo espírito pelas torturas dos Inquisidores (provenientes de um uso profano do tempo) ou pelos massacres dos albigenses e dos piemonteses? E contudo com muito mais razão se o poderia fazer, pois essas crueldades foram feitas com ordem ou com consentimento dos papas, obrigando assim, espiritualmente, a Igreja inteira. Sejamos, ao menos, justos. Se debitamos à Maçonaria em geral todos aqueles casos particulares, ponhamos-lhe a crédito, em contrapartida, os benefícios que dela temos recebido em iguais condições. Beijem-lhe os jesuítas as mãos, por lhes ter sido dado acolhimento e liberdade na Prússia, no século dezoito — quando expulsos de toda a parte, os repudiava o próprio Papa — pelo maçon Frederico II. Agradeçamos-lhe a vitória de Waterloo, pois que Wellington e Blucher eram ambos maçons. Sejamos-lhe gratos por ter sido ela quem criou a base onde veio a assentar a futura vitória dos Aliados — a Entente Cordiale, obra do maçon Eduardo VII. Nem esqueçamos, finalmente, que devemos à Maçonaria a maior obra da literatura moderna — o Fausto , do maçon Goethe. Acabei de vez. Deixe o Sr. José Cabral a Maçonaria aos maçons e aos que, embora o não sejam, viram, ainda que noutro Templo, a mesma Luz. Deixe a anti-maçonaria àqueles anti-maçons que são os legítimos descendentes intelectuais do célebre pregador que descobriu que Herodes e Pilatos eram Vigilantes de uma Loja de Jerusalém. Deixe isso tudo, e no próximo dia 13, se quiser, vamos juntos a Fátima. E calha bem porque será 13 de Fevereiro — o aniversário daquela lei de João Franco que estabelecia a pena de morte para os crimes políticos. 4-2-1935 Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 132. 1ª publ. in Diário de Lisboa , nº 4388, 4 Fev. 1935 A MORTE DO PRÍNCIPE [PRÍNCIPE] – Todo este universo é um livro em que cada um de nós é uma frase. Nenhum de nós, por si mesmo, faz mais que um pequeno sentido, ou uma parte de sentido; só no conjunto do que se diz se percebe o que cada um verdadeiramente quer dizer. Uns são frases que como se erguem do texto a determinar o sentido de todo um capítulo, ou de toda uma intenção, e a esses denominamos génios; outros são simples palavras, contendo uma frase em si mesmas, ou adjectivos definindo grandemente, destacadas aqui ou ali, mas sem dizer o que importa ao conjunto, e são esses os homens de talento; uns são as frases de pergunta e resposta, pelas quais se forma a vida do diálogo, e esses são os homens de acção; outros são frases que aliviam o diálogo, tornando-o lento para depois se sentir mais rápido, pontuações verbais do discurso, e esses são os homens de inteligência. A maioria são as frases feitas, quase iguais umas às outras, sem cor nem relevo, que servem todavia de ligar as intenções das metáforas, de estabelecer a continuidade do discurso, de permitir que os relevos tenham relevo, existindo, aparentemente, só para que esses possam existir. De resto, não somos nós feitos, como a frase, de palavras comuns (e estas de sílabas simples) de substância constante, diversamente misturada, da humanidade vulgar? Não é o nosso amor o amor de todos e o nosso choro as lágrimas em si mesmas? Mas cada um de nós ama e chora ele, que não outro: há um objectivo de dentro que o indefine (dissolve) e determina. Isto que te estou dizendo é sem dúvida delírio, porque não sei por que te o digo; mas, porque o digo sem saber, é também sem dúvida verdade. E as figuras de xadrez e as das cartas de jogar ou advinhar — seremos nós mais que elas onde a vida é vida? Quando eu era menino beijava-me nos espelhos: era um sinal antecipado de que nunca haveria de amar. Tinha por mim, em adivinha de negação, a ternura que me nunca haveria de ser dada. Por que não será tudo uma verdade inteiramente diferente, sem deuses, nem homens, nem razões? Por que não será tudo qualquer coisa que não podemos sequer conceber, que não concebemos — um mistério de outro mundo inteiramente? Por que não seremos nós — homens, deuses, e mundo — sonhos que alguém sonha, pensamentos que alguém pensa, postos fora sempre do que existe? E por que não será esse alguém que sonha ou pensa alguém que nem sonha nem pensa, súbdito ele mesmo do abismo e da ficção? Por que não será tudo outra-cousa, e cousa nenhuma, e o que não é a única cousa que existe? Em que parte estou que vejo isto como cousa que pode ser? Em que ponte passo que por baixo de mim, que estou tão alto, estão as luzes de todas as cidades do mundo e do outro mundo, e as nuvens das verdades desfeitas que pairam acima e a elas todas buscam, como se buscassem o que se pode cingir? Tenho febre sem sono, e estou vendo sem saber o que vejo. Há grandes planícies tudo à roda, e os rios ao longe, e montanhas... Mas ao mesmo tempo não há nada disto, e estou com o princípio dos deuses e com um grande horror de partir ou ficar, e de onde estar e de que ser. E também este quarto onde te ouço olhar-me é uma coisa que conheço e como que vejo; e todas estas coisas estão juntas, e estão separadas, e nenhuma delas é o que é outra cousa que estou a ver se vejo. Para que me deram um reino que ter se não terei melhor reino que esta hora que estou entre o que não fui e o que não serei? P[RÍNCIPE] – Senta-te ali, aos pés da cama aonde eu quase que te não veja, e fala-me de cousas impossíveis... Vou morrer. X – Não, meu Senhor... P[RÍNCIPE] – Sim, vou... Já tudo começa a ter outro aspecto e a falar aos meus olhos numa outra voz... Parece que não sou eu que estou cansado de existir, mas as cousas que se cansam de eu as ver... Começo a morrer nas cousas... O que se apaga de mim começa a apagar-se no céu, nas árvores, no quarto, nos cortinados deste leito… Depois, pouco a pouco, ir-se-á apagando pelo meu corpo dentro até que fizer (sic) noite mesmo ao pé das janelas da minha alma. X – Isso é belo de mais para que possais estar perto da morte... P[RÍNCIPE] – É belo demais para que possa lembrar à vida... A curva dos montes, lá muito ao longe, torna-se, não mais indecisa mas mais indecisa de outra maneira... As árvores esbatem-se em sombras mas as folhas parecem-me extraordinariamente nítidas, evidentes de mais... A seda dos cortinados deste leito é uma outra espécie de seda... Afundo-me pouco a pouco... Não te entristeças... Eu era real de mais para poder reinar algum dia... O único trono que mereço é a morte... Não dizes nada? X – Senhor, não morrereis... P[RÍNCIPE] – Sinto um ruído qualquer... Ah, como parece ser o arranjarem-me as vestes para a minha coroação no meu melhor Reino!... Sinto tinir espadas e isso lembra-me o ver cair neve... Lembras-te de antigamente?... Eu era muito pequeno, e quando o silêncio da neve descia sobre a terra, íamo-nos sentar para a lareira do castelo a falar nas cousas que nunca aconteceriam... Quantas princesas amei no futuro que nunca tive!... Lembras-te — não te lembras? — de como eu ficava cansado pelos combates em que nunca havia de entrar... X – Para vós, Senhor, só havia na vida amanhã. .. P[RÍNCIPE] – Talvez porque o meu corpo sabia que eu teria que morrer cedo... Mas não era amanhã nunca para mim, era sempre depois de amanhã... Eu sonhava sempre com um futuro que estava sempre um pouco ao lado do futuro que teria... X – Às vezes eu contava histórias de fadas... P[RÍNCIPE] – Sim... Eram todas diferentes... Na minha terra toda a gente é igual... Cansa tanto olhar para gente!... Nas festas do palácio havia sempre grupos que segredavam do meu silêncio... Eu via-lho nos olhos... Eu ficava a um canto, sempre não vendo aquilo para que olhava... Via sempre coisas diferentes daqueles entre quem eu estava... Nas salas do palácio, os meus olhos estavam nos bosques e a minha ânsia de estender os braços com a frescura das ervas e a maciez das pétalas e a paisagem das fontes... (...) Eu nunca fui feliz... Quando, nas ameias do meu novo castelo, eu olhar debruçado a confusão pequenina do mundo, eu serei feliz completamente... Talvez nem mesmo assim seja feliz... Mas [sei d'alma] que todo o meu encanto seria estar aonde não estou para de lá poder desejar onde estar... X – Não serão todos assim? P[RÍNCIPE] – Quem são todos? Para mim todos são só um... Eu nunca conheci ninguém. Distinguia as pessoas como quem distingue pedras... Nunca me deram a impressão de serem reais, especialmente quando falavam... Diziam todas as mesmas cousas, todas tinham amores e ódios, alegrias e dores, ânsias e cansaços... Se alguma me falava de qualquer cousa, eu, se fechava os olhos, tinha sempre diante de mim o Homem. Não, há em toda a gente uma só pessoa que não existe... Que vago... Que vago... X – Vago, o quê, meu senhor? P[RÍNCIPE] – Tudo... O horizonte está muito longe, muito longe... Ainda assim… não sei... não está... Sinto-o muito mais longe, mas não o vejo muito mais longe... Não sei bem o que vejo ou o que sinto... Talvez que as minhas sensações é que me sintam a mim... Parece-me que as cousas é que me sentem e que eu não existo senão porque as cousas me vêem e me sentem... Era bom se assim fosse... Não sei por que seria bom... Talvez por ser outra cousa... Como os reposteiros são estranhos... X – Estranhos? estranhos, meu senhor? P[RÍNCIPE] – Demasiadamente ali... Tenho vontade de ter medo de os estar vendo assim... Que estranho, que estranho tudo!... A janela é uma cousa muito outra! Parece saber que vêem através dela... Parece ver também... Parece que ela é que vê as cousas que nós vemos por ela. . . E a almofada, a almofada? X – Que almofada, senhor? Essa. . .? Não a podeis ver. . . P[RÍNCIPE] – Esta, esta... Não sei se a vejo... É enorme... Tem toda a extensão da vida!... Mergulho nela como num mar de [sombras juntas] que ainda na minha carne saibam a sonhos... As minhas mãos, ao tocar nas roupas do meu leito, sentem-lhes cousas que antes não lhes poderiam sentir, significações seguras, frescuras, renúncias tímidas de linho... Ah, mas que estranho! mas que estranho! Não sei bem onde estás... As cousas em torno a mim são de tamanhos que não deviam ter... O meu leito é imenso como o repouso de um mendigo... As minhas mãos têm um fulgor a incertas... Como que vejo por dentro os perfis e os contornos das cousas... Não te sei dizer o que sinto... Não te sei dizer o que sinto... Todas as cousas tomam aspectos atentos... Todas as coisas se tornam heráldicas de mistério... Já não há cores... Já não há cores... Ah! o que é isto que as cores são agora?... O que é isto... Não são elas... São sonhos de outras cousas... São aproximações de cousas que vão a chegar à terra do espaço... Devo ter muito medo... Devo ter muito medo... X – Aquietai-vos, Senhor, aquietai-vos. Heis-de viver... Este fim de dia é tão belo que não pode morrer alguém nele... Vede como os restos do sol são roxos e cinzentos no ocidente! Deveis viver, para viver... Espera-vos o amor e a lida... P[RÍNCIPE] – Nunca agi certo. X – Senhor, não penseis nisso... P[RÍNCIPE] – Tratai-me antes de Senhora... Sou uma princesa de quem se esqueceram quando buscaram rainha... Ah que horror, que horror! X – Que tendes, Senhor? que tendes? P[RÍNCIPE] – Oh como tudo está mais estranho ainda! Não há já formas –– oh meu Deus, oh meu Deus — não há já formas... Transbordaram as cousas umas para dentro das outras... No ar há só restos de linhas... Tudo é um fumo de lugares... Poeira, poeira... tudo em poeira... (...) Tudo é cinza de tudo... Tudo é cinza de tudo... Há em mim labirintos de não poder ver... A janela? onde está a janela... É uma coisa que brilha extraordinariamente mas em parte nenhuma do espaço... Tudo é cinzas de um fumo... (...) Onde estás tu? onde estás tu? X – Aqui, Senhor, aqui!... P[RÍNCIPE] – Não sei se te não vejo... Não sei o que é que vejo... Já não há cousa nenhuma... (Numa voz lenta e calma) O que é isto tudo? Não sei de que lado está a vida... O espaço está ao contrário… Não me sinto eu no meu mundo... Que estranho! que estranho! Onde é que está dando horas por dentro?... (...) Ah, vejo, vejo... Vejo agora! Vejo agora! X – Que vedes, Senhor, que vedes? Acalmai, acalmai! Que vedes? P[RÍNCIPE] – Vejo, vejo... Vejo através das cousas... As cousas escondiam... As cousas não eram senão um véu... Ergue-se o pano, ergue-se o pano do teatro... Tenho medo, tenho medo... Ah vejo, vejo enfim... Vejo enfim tudo... Olhai... Olhai... Agora vejo... Vejo as cousas reais, vejo as cousas que existem... Vede que surgem... (...) Vejo através das cousas como através dos meus olhos... As cidades sonhadas é que eram... reais... As cousas são apenas a visão trémula delas reflectidas nas águas do meu olhar... Só o que nunca se tornou real é que existe realmente... O que acontece é o que Deus deita fora... O que parece não é real, é as costas das mãos de Deus, a Sombra dos seus gestos... As princesas que eu sonhei é que existem... As da terra são apenas as bonecas com que as outras brincam, vestindo-as, corpo e alma, a seu modo... P[RÍNCIPE] – No além, floresço em corpo e para fora numa roseira com rosas brancas, e para dentro e em alma num outro universo, meu — numa outra paisagem minha. O corpo da minha vida real é uma roseira branca no Além; a alma da minha vida real é um universo interior no Além, um universo de dentro com montes com o perfil da minha ânsia, prados da extensão dos meus desejos. P[RÍNCIPE] – Oh que horror, que inesperado horror! Que complexo! que complexo! Sou a mesma roseira, mas estou vendo para dentro de mim... Tenho um reino, reino externo que sou eu além, tenho um universo meu — uma terra, uns céus... Vede... vede quem eu sou! Sinto-me roseira no escuro, mas olhando para dentro de mim vejo paisagens... Que paisagens amontoadas... Que contornos vagos! Que mistério estranho! Cada cousa é um universo para dentro... cada cousa no além é um universo perfeito olhando do seu corpo para a sua alma... Oh! Oh! já me não vejo. Sinto-me roseira toda perfumada... o corpo da minha realidade no além é uma roseira, que sinto mas não vejo... Os meus olhos esvaíram-se para a alma... Floriram para dentro as melhores flores do meu ser do além!... X – Senhor! Senhor! Senhor! Já nem sequer me amas, já nem sequer me amas! P[RÍNCIPE] – Que paisagem é esta que é uma roseira branca nas noites do além! Que (...) montes! que linha estranha que têm estes montes! Que vales tão aluindo-se. P[RÍNCIPE] – Qual foi aquela batalha em que eu ia na frente dos meus corcéis, de pluma branca ondeando ao vento. X – Não houve essa batalha, senhor. Não entraste nunca em combate... P[RÍNCIPE] – Então por que me recordo tão bem disso? Eu ia indo e, não sei como, via-me longe. Eu era belo como não pode ser. A batalha durou muito tempo em que não se via nada. Ah, então essa foi uma derrota, uma derrota... Pobre de mim, que até os meus exércitos na guerra não podem vencer nem regressar... P[RÍNCIPE] – É tudo as paredes de um grande poço a que não vejo o fundo... Que fundo, oh que fundo! De que lado é que é o negro? Aonde é por cima e por baixo? onde é que está o lugar onde eu estou? Ah, não sei onde está o espaço... Está tudo errado, tudo vazio de dentro para fora.. Não tenho esquerda nem direita... Nem há lado nem posição.. Ah, o que é isto tudo, o que é isto tudo? Tenho medo (...) Fecha-me na vida... Não me deixes sair da vida... Isto aqui é tão estranho! P[RÍNCIPE] – O silêncio das cousas faz-me gestos que me apavoram. Onde estão as cousas... Já não há cousas... É tudo negro, tudo negro… Não, Não… … tudo como se fosse negro. São gente… Ah, vede, vede... são figuras que passam... Não há cousas, há gente. Sobem dos abismos como exalações... Já não há cima nem baixo nas cousas. Tudo é já Diverso — mesmo o modo de se ser diverso. X – Vede, senhor, vede, estais melhor... Já vedes cousas e antes víeis só sonhos. P[RÍNCIPE] – Não, não... Passei atrás de Deus para o outro lado da ilusão... (...) Agora ouço-te: és uma figura num sonho... Amo-te com compaixão porque te julgas real... A tua alma e o teu corpo são uma só coisa, mal sabes tu o que eles te encobrem... X – Acalmai-vos, senhor... Acostai-vos no leito... Tudo isso é sonho... Amanhã estareis melhor. P[RÍNCIPE] – (numa voz calma e lenta) Ouço um ruído de fonte,.. Que grande noite! Que grande paz cabe no haver esta noite... É outra espécie de noite... É a própria paz... Mas que lugar tão estranho... Todo fresco de tanto abismo... Por onde é que eu vou andando?... X – Não andais, senhor... P[RÍNCIPE] – Ouvi um ruído qualquer... Que grande paisagem de abismos... (...) No fundo de um desses abismos deve estar (...) Que calma espera nos contornos invisíveis dos rochedos? Que sossego se abisma nas profundezas!... Já estou esquecido de novo... Para onde vamos nós? Não ouço caminhar... É como se estivesse a dormir enfim... Cada passo é sereno (...), cada passo é calmo como ter já chegado.. . Como estou calmo. Vai raiar a aurora. . . X – Anoitece, meu senhor, anoitece... P[RÍNCIPE] – Vede, vede... Os exércitos que eu comandei... os cavaleiros do meu séquito... vencedores ao longe... vencedores ao longe... todos eles sou eu... Vede, vede... chegam ao castelo... Que grande castelo todo do poente! Chegam ao castelo... Ah, o que é isto? Como tudo se alarga! Como tudo se aviva... Ah! o castelo está em chamas, está em chamas! Assim é que ele devia estar... assim... assim... Ondeia em chamas, alastra-se no fumo... é maior ardendo, é mais antigo ardendo... é mais meu ardendo... Cresce tudo, cresce tudo... Que deslumbramento... Há fogo nas eiras... Há fogo nas eiras... Os pinheirais estão em chama... O céu é um mar imenso em marés furiosas de fogo... Tudo transborda lume... Queima-se em mim todo o universo... Arde todo ali fora… no lume cresceu tudo para dentro... Tudo floresceu em chamas... Vejo de mais... Há cousas a mais no espaço... Há cousas de mais em cada cousa... Há muito em tudo... Está tudo errado, pra mais... Já vai mudar tudo... O fogo é já de outra cor... Ah... tudo é negro... tudo é negro... tudo é negro outra vez... Há ruídos de grandes quedas; há choques de exércitos na noite... Ninguém sabe se vence... Tropéis de cavalos no longe... Onde está o mundo? Onde está o mundo? onde há cousas? onde há cousas? onde há cousas? X – Meu senhor, meu senhor... P[RÍNCIPE] – Já não sei nada... (...) Fala-me... Fala-me... Fala-me... De que lado da minha alma é que soa a tua voz? s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 222. 1ª publ. in Fernando Pessoa et le Drame Symboliste . Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977 DIÁLOGOS FILOSÓFICOS A . Dos 9 argumentos conhecidos para provar a existência de Deus, prefiro decididamente o décimo. B . Qual é o décimo? A . Este. É muito simples. Toda a coisa é efeito de uma causa. O mundo é uma coisa; é portanto um efeito. Existe portanto uma Causa do Mundo. B . Essa trapalhada simples que vale? Não vale nada. Sem irmos mais longe, responda-me: porque não há-de ser o mundo uma causa e não um efeito? O que é que o estampa ser um efeito e não uma causa? O ser uma coisa. Então uma causa não é uma coisa ? — A propósito, que sentido têm as palavras «efeito» e «causa»? A . Chamo causa àquele elemento activo sem o qual uma coisa qualquer não existiria. Digo activo , porque, por exemplo, um prédio não podia existir sem o terreno onde é construído; e o terreno, todavia, não é a causa, (ou sequer uma causa, admitindo que haja multiplicidade de causas) do prédio. B . Lembra v. quem com essa palavra «activo»? Isso alarga a discussão. Abre-a, propriamente. Vejamos: o Efeito é activo? ou é-o só a causa? A actividade é atributo essencial de um ou (ou é) do outro? A . Não, vamos indo demasiado depressa. Detenhamo-nos em ver o que é causa, o que é efeito. Vou pela rua, um matulão esbarra comigo, dá-me de propósito um encontrão, descomponho-o, ele insulta-me, parto-lhe a cara. Vejamos as causas aqui: a causa de eu lhe partir a cara é (em termos a resolução de o fazer; a causa de eu ter a r[esolução] de o fazer é) o ele ter-me insultado; a causa de ele me ter insultado é o eu o ter descomposto; a causa de eu o ter descomposto é ele ter-me dado o encontrão; a causa de ele ter-me dado o encontrão é o ter-me visto, naturalmente. [...] s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 129. Prefácio 1. "Associações Secretas" — o artigo, anotado. 2. Efeitos gerais do artigo. 3. Dois e dois são. quatro (resposta à parte genérica) - 4. Pons Asinorum (resposta à parte "erudição maçónica"). 5. Um parecer com mau parecer. 6. Saída do Funeral (campanhas anti-maçónicas em geral), 7. Comparação entre a Maçonaria e a Igreja de Roma. 8. A Maçonaria. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 133. SAKYAMUNI SAKYAMUNI – Quantas vezes, antes de a verdade ter em mim a sua aurora, eu, já na antemanhã da revelação, quando a alma em mim pressentia a ilusão do mundo, dizia, dentro do meu coração, para o Mestre escondido que se aproximava: Deixa que ainda um momento eu descanse à sombra da árvore do esquecimento, e um momento mais me banhe nas águas do rio da Aparência. Suaves são as flores, e são falsas; doce, pela tarde de todos os estios, o canto morno das aves, e elas são aparência apenas. É quente ter pai ou mãe, e ter esposa e filhos, e tudo isso eu sei que não é mais, no Todo Imanente, que a sombra que a árvore lança no chão, e não o chão nem a árvore, do que o vento que passa e esquece, e não é o ar onde passa nem as árvores em que mexe, nem as flores cujo perfume leva para longe, entre cicios. SEMICORO – Boddhisattva, todos são tentados e à passagem de todas as portas alguma cousa nos quer fazer olhar para o lado. Mas o sábio caminha sem olhar para o lado, porque à Direita está a Verdade falsa, e à Esquerda a Mentira verdadeira; uma e outra filhas do Lado e do Desvio, fruto sombrio da árvore do Aniquilamento. SEMICORO – Os raios do sol não são o sol, nem o trigo o pão que há-de ser. Tudo, porém, é uma só cousa. Sete são as portas da Iniciação e todas as portas são a mesma Porta. Sete são os desejos que prendem o homem à terra e à ilusão, sete as libertações; sete, também, as renúncias com que a alma se liberta. Fazei por que a Morte guarde os portais do teu Desejo e a Peste caia por sobre as cidades da tua Ambição. Filho, as horas regulares medem o tempo para os homens, como os desejos e as esperanças marcam o tempo para as almas; mas as horas, como os desejos, são frutos da Árvore da Morte, a que damos o nome a Árvore da Vida. Boddhisattva, quem passa as sete portas, que lhe não doa deixar tanto amor? A mãe que velou a nossa infância, e o pai a quem confiámos os nossos primeiros cuidados, o irmão com quem nos sentávamos à porta, a irmã que vinha chamar-nos ao jardim; aquela que amámos e foi nossa esposa, e de quem são filhos os nossos filhos e irmãs as esperanças que temos na sua fortaleza e na sua sabedoria; os nossos filhos, que são a nossa sombra na carne, a nossa esperança feita Vida — tudo isto devemos nós considerar como o fumo que no silêncio da tarde deixa devagar os cimos das casas e se perde no ar como o voo das aves que não voltam nunca? Tivemos amigos, a quem demos aquela metade da nossa alma que é a confiança, e discípulos que quiseram receber da nossa mão a ciência, aquela esmola que não dá orgulho a quem a dá, e que não faz humildade em quem a recebe. Quisemos que os que eram nossos sócios na vida fossem felizes, que os propínquos nos amassem como a pais, e que os homens da nossa terra dissessem: ele foi entre nós como a sombra no estio e como a lareira no inverno; ele passou, ficando no exemplo e no nosso amor. Tudo isso, ó Boddhisattva, valerá tão pouco que hajamos de o pôr de lado como um fardo inútil, ou que passar por cima dele como por cima do riacho que atravessa o caminho? Tudo quanto vimos somos nós, e tudo quanto amámos somos nós. A tua mãe e o teu pai és tu, a tua esposa és tu, e és tu os teus próprios filhos. O que desejaste e o que amaste é o corpo do teu desejo, feito não da terra, mas da alma, não do barro das horas, mas do limo humilde das afeições. Se houvéssemos só de deixar aquilo que não amamos, que mais valeríamos ante o Invisível que os animais do campo, que fogem ao que temem, e abandonam o que não querem? Matai o desejo, e ao amor crucificai-o, para que ao terceiro dia da Renúncia suba ao céu e assente à mão direita da Primeira Encarnação do Invisível. Todos os laços são cadeias, e ergástulos todos os lares. Sobe, Discípulo, o caminho estreito; busca perder-te para te encontrares, abdica-te de ti para seres tu; entra na noite para encontrares o dia. Tudo é o contrário e a sombra cerca-nos. Dorme para a ilusão do Mundo. A. Boddhisattava, estás agora quase no princípio e no fim do caminho (sem fim nem princípio). Ouvem-se já os teus passos para além do Grande Limiar. Breve, sem tempo em que seja breve, teu vulto sem corpo florirá a libertação final. A veste esplêndida que torna invisível a Personalidade cairá, ó Senhor, sobre os teus ombros. Bendito sejas tu que, pelo teu grande amor, ganhaste a Altura e a Redenção! B. Bendito sejas, que chorando cegaste até veres, e sofrendo te rojaste até ao Cimo. Bendito, que vais vestir como um manto régio a negação positiva do Universo! Bendito que viveste o puro Amor, sem limites nem margens, e agora és o oceano de ti próprio, a hora absoluta do teu compassivo meditar! A. Teus pés, Boddhisattva, rasgaram-se nas pedras de todos as caminhos da piedade, tuas mãos sangraram com todas as durezas da misericórdia, teus olhos secaram de terem chorado por todas as angústias, teus ouvidos não ouviram senão os gemidos. Agora teu amor chegou ao limiar de seres o mesmo que o Todo sem nome. Vais entrar para o sossego imenso de ti próprio, absoluto idêntico com todos os absolutos, pessoa infinita de todos os universos. B. Bendito e exaltado sejas! Tanto amaste, que hoje és tu próprio em abstracto e divino. Tanto choraste que és hoje a lágrima suprema, a queda misericordiosa e sublime no abismo impessoal do teu Amor. Tanto desejaste todos os teus bens para todos os homens, tanto amaste Tudo em todos, tanto benzeste de auxílio e de carinho todos em Tudo, que hoje entrarás para Ti pela porta todas-as-portas, chegarás a ti pela negação absoluta de ti próprio. Bendito sejas! O NIRVANA Repousa no meu seio, que és tu, na minha certeza, que é que o atingiste em ti. Na minha noite não há escuridão nem luz, e no meu sossego não há descanso nem paz. Dorme de todo o teu amor pelos outros na minha recompensa sem estrelas. [SAKYAMUNI] – Onde pus o meu amor ele está ainda. Onde amei, amo. Onde chorei, ainda choro. Onde consolei, consolo. Que será de mim se entrar para a paz, se o mundo não tem a paz? Que será de mim se entrar para Mim, com toda a Mágoa fora de mim e toda a imperfeição abandonada como um filho. A tua paz suprema é uma tentação sem forma; a tua recompensa é o sossego que eu não quero... Não me abras os braços, ó Nirvana!... NIRVANA – Suaves são os meus braços de sombra e os meus cabelos de esquecimento — em torno à tua alma absoluta eles se enrolarão como a Verdade Eterna. Embalar-te-á sem movimento, para sempre além de sempre, o meu colo sem fundo nem lugar, e o teu sono será o amor que tiveste, e bondade que derramaste, e as lágrimas (...) do mundo. [SAKYAMUNI] – Ai dos que sofrem, que sofrem ainda! Ai dos que gemem que gemem sempre! Ai dos tristes e dos oprimidos, que eu deixaria ao desamparo na tua noite em que nada lembra — nem os rios do meu amor nem as areias do meu carinho. Tu não tens poder para me tentar. Sete, e dentro de sete, sete vezes sete, foram as tentações do meu caminho. Chamaram por mim as cousas da terra, com vozes de filho que chamam a mãe. Choraram por mim como (...) Passei para além de tudo como o rio, que flui para o mar, e que, se não vai pela direita, é pela esquerda, e vai sempre, e o mar espera-o ao longe. [SAKYAMUNI] – Ó olhos da Ciência, ó Braços da Compaixão! Encarnarei em mim todo o mal do mundo — o mal passado e o mal presente e o mal futuro. Assim me tornarei o Mal Absoluto. E como o mal é o nome positivo da Negação, tornado que eu seja o Mal Absoluto, estarei tornado o Nada Absoluto, e, logo, extinto completamente morto de todo, sem passado em que houvesse sido, ou futuro em que venha a ser, ou presente, mesmo, em que seja mesmo o Nada em que me haja tornado. Serei o Único Morto, a Morte Toda. E, fora de Mim, o Ser Puro; o Universo liberto do mal e da negação, será Deus em todas as eternidades. — E de ti, ó Sol do Amor, que será? Poderás tu escolher o Nada e o Mal e a Morte só para ti? Ousarás tu querer esse sacrifício da estatura do Infinito? Tu, que te afastaste do Mal, como poderás tu dar-te a ele até seres o seu corpo? Tu, que negaste a negação, poderás tu transformar-te nela? Poderás tu ser Deus com o Corpo da sombra e da maldade? — Tudo é possível ao Amor. Ele, que na sua humana forma humana constrói pontes sobre os abismos, e abre estradas de impossível para impossível, em mim, tornado absoluto, será o Fogo sem Chama ascendendo todo o Universo. B[OUDHISATTVA] – A carne do meu corpo é a dor universal, corre nas veias da minha vida o sangue das lágrimas dos homens. N[IRVANA] – Grande é o repouso do meu seio de sonhos. A minha noite não tem o cansaço e a angústia de ter um dia depois dela, (ó Venerável) Arhat, os meus braços são de Vida e Esquecimento... B[OUDHISATTVA] – Grande é aquele que, não querendo possuir, também não quer esquecer. Todas as mães são a minha mãe que chora, todas as filhas são as minhas filhas que me chamam. A tua porta aberta está fechada dentro do meu amor. (...) o meu ser compassivo torna-se o ser universal. O manto da minha compaixão cairá sobre as cousas e elas terão o repouso de não verem a luz da ilusão. Eu próprio, pelo meu grande amor, serei o Nirvana. Terão repouso e fim na carne da minha alma todas as almas que sofrem. N[IRVANA] – Arhat, o rio não volta à nascente, nem (...) [SEMICORO] – A. Tornado a Negação Absoluta, extinguir-te-ás de todo, ó Boddhisattva. O único Nada serás tu. O resto será o grande e puro, limpo e uno Universo. A tua Morte será a vida de tudo. Tornado a Diversidade Absoluta, o Abismo Puro, morrerás de ti próprio. E tudo será o Nirvana atingido, e o Fim [dourado] da Estrada. O resto é o nada onde tu és a morte sem nada seres. O teu sacrifício não tem Deus. A tua Renúncia é um universo — o universo-abismo, o abismo do abismo, o Nada não em si mas em Nada. B. Mas que é feito de ti, Senhor, quando assim for? Tu, [o supremo] Bem, por o seres te tenta o Mal Absoluto. Tu, o Tudo, te tenta o Nada. Vede como nesse futuro sem tempo, todo o Universo dos Universos se ergue uno e divino. O mal, tornado mal absoluto, torna-se o puro Nada, e, assim, para sempre desaparece. Tu, Senhor, por teu amor sem limite nem prémio, tu te tornaste o puro Nada para que o mundo pudesse ser Tudo; tu te tornaste a Única Morte, a Morte... A. Agora que renunciaste para sempre, que te condenaste eternamente à dor eterna; agora que, sem lar nem mesmo em ti próprio, sem mãe mesmo no teu carinho, te arrastas puro de dor, pelo erro doloroso do mundo — agora que será de ti, ó Senhor da Compaixão? Sofre o mundo ainda, embora o alivies, morre a vida ainda, embora a ames? Tens mais que matar em ti, para que o mundo viva? Pára, não ouses mais mágoas e mais dores. Há mais dores, acaso, que tu ouses? Há mais mágoas que atentes contra ti? Derrama eternamente, homem eterno, o bálsamo do teu carinho sobre as cousas. Rocio, amacia de brilhantes o verde matutino das ervas, e de luzes de sol agora limpa a superfície nítida das flores. Corre, suave sussurro, nos rios para todos os mares (1). Renunciaste à vida pessoal, ó Boddhisattva, e renunciaste à vida impessoal. Que mais alturas te matas? — Renunciarei agora a toda a Vida, morrerei de todo no mundo. Que vale essa frase sem lugar que enche de sombra e de medo os olhos inúmeros do mundo? — Senhor, tu vais ser todos os crimes, todos os vícios, todos os males, Senhor, vais ser todas as algemas e todos os algemadores. Como podes tu querer ser o Mal, como podes tu querer ser a limitação? — Tornado uno com o mal, com a imperfeição e com a mágoa, impersonalizá-los-ei em mim. E o mundo dividido e diverso, o universo múltiplo e sucessivo, tornado impessoal em mim, deixará de ser dividido para ser uno, deixará de ser imperfeito para ser a Perfeição Suprema. — E tu, Senhor, que serás? — Tornado o Puro Mal, o Puro Imperfeito, deixarei de todo de ser. Encarnará em Mim o Nada Absoluto e eu tornado o Abstracto (...) [CORO] – Benditos sejam os prados, porque não serão mais os prados, e os bosques porque não serão mais os bosques, e o correr dos rios, porque não será mais de rios, nem será correr. Tudo será como era, e a Perfeição. — O SER SEM SER — Só eu sou. Tudo é uno e tudo não é uno. Nada é e tudo é. E tudo isto é nada. Só eu sou. Além de tudo está tudo, e aquém de nada, nada. Só eu sou. Tudo é o ser, e tudo é o não ser. Só eu sou. Sem ser nem não ser, só eu sou. [CORO] – Todo este futuro sem tempo é o meu passado. Só eu sou. Para sempre de sempre num lugar sem espaço, num futuro sem tempo, Senhor! 2.° — Quem sabe se ele, tornado o Nada, não foi um Todo para outro Deus, de quem este seja a diferença ou o sonho? Quem sabe se ele não é o Todo por ter morrido (para) Tudo? (1) «As três renúncias de Sakyamuni: a) a renúncia à vida terrena, à vida das emoções, a renúncia à vida da personalidade. b) a renúncia à vida nirvânica, a recusa a vestir a veste de Nirmanakaya. c) a renúncia à vida impessoal, à vida pura e grande, para se tornar humano e interior às cousas do mundo, esgotando através de si todo o mal que no mundo existe.» s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 229. 1ª publ. in Fernando Pessoa et le Drame Symboliste . Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977 Os argumentos relativos ao problema da existência de Deus têm sido viciados, quando positivos, pela circunstância de frequentemente se querer demonstrar, não a simples existência de Deus, senão a existência de determinado Deus, isto é, dum Deus com determinados atributos. Demonstrar que o universo é efeito de uma causa é uma coisa; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente é outra coisa; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente e infinita é outra coisa ainda; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente, infinita e benévola outra coisa mais. Importa, pois, ao discutirmos o problema da existência de Deus, nos esclareçamos primeiro a nós mesmos sobre, primeiro, o que entendemos por Deus; segundo, até onde é possível uma demonstração. O conceito de Deus, reduzido à sua abstracção definidora, é o conceito de um criador inteligente do mundo. O ser interior ou exterior a esse mundo, o ser infinitamente inteligente ou não — são conceitos atributários. Com maior força o são os conceitos de bondade, e outros assim, que, como já notámos têm andado misturados com os fundamentais na discussão deste problema. Demonstrar a existência de Deus é, pois, demonstrar, (1) que o universo aparente tem uma causa que não está nesse universo aparente como aparente, (2) que essa causa é inteligente, isto é, conscientemente activa. Nada mais está substancialmente incluído na demonstração da existência de Deus, propriamente dita. Reduzido assim o conteúdo do problema às suas proporções racionais, resta saber se existe no raciocínio humano o poder de chegar até ali, e, chegando até ali, de ir mais além, ainda que esse além não seja já parte do problema em si, tal como o devemos pôr. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 130. Puseste a mantilha negra Puseste a mantilha negra Que hás-de tirar ao voltar. A que me puseste na alma Não tiras. Mas deixa-a estar! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 115. Como não poderia cometer a descida intelectual de responder ao Sr. José Cabral e ao Sr. Alfredo Pimenta, quanto mais não fosse que nada há no que disseram que tenha resposta, a não ser o apontar-lhes os lapsos mentais, com que não me interesso, pois se não dão na minha cabeça, os defeitos de educação, que me não pesam, pois não fui eu o encarregado de educar um ou outro, ou a incapacidade de raciocínio. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 134. Fim Brilhai eternamente no tempo, astro do mundo em que brilhais. Voai sem fim nem cansaço, aves da terra de que sois aves. [CORO] – Cantai nas árvores das estradas, ó aves que consolais o ouvido dos tristes! Correi docemente na sombra, ó fontes! Dormi quietos na relva calma, ó feras agora em sossego! Dai a vossa alegria a todos os ventos, cantai a vitória do amor em todas as brisas! Morreu a sua vida o Salvador do Mundo! Para Ele não haverá nada. Só para Ele nada haverá! Tudo quanto sofreu será consolado nesta hora sem tempo. Tudo quanto fez mal agora passará a nunca o ter feito. Tudo quanto sofreu o mal feito eis que nunca sofreu hoje, e nunca soube o que era o sofrimento! Só Ele, o Coração Amante do Universo, é volvido a Sombra e [o] Apagamento! Só Ele vai esquecer de todo, levando em seu seio nocturno todo o mal que nele concebeu para alívio e descanso do Mundo. Só Ele desaparece, só Ele é nada. O próprio amor a ele acabará, porque ele acabará. Não há para ele a recompensa, porque ele passa agora, no triunfo maior do que os deuses, a não ser nada, a nunca ter sido cousa nenhuma. Através do Sofrimento Absoluto ele entra na Morte sem resgate. O Mundo é livre! O Mundo é Deus! As cousas renascem em extemporâneo e Divino! Raiam Deus todas as luzes, aquiescem Deus todas as Sombras, todos os espaços são Deus. As flores desabrocham Deus, cada árvore é uma divindade todas elas, cada folha é Deus Todo. Este é o Mundo! Este é o Mundo! Nunca houve tempo nem espaço! Nunca houve alegria nem dor! O que era bom é hoje o Bem. O que era doce e humano na imperfeição é hoje a Perfeição. Tudo quanto era divisão de repente (?) não é, nem nunca foi (subitamente nunca foi). O que se perdeu nunca se tinha perdido! As pequenas ternuras são grandes hoje com o calor de pequenas. As afeições da terra são hoje do Céu em que a terra toda está. Todos os filhos estão com todas as mães. Nada falta, nada sobra, nada limita. Tudo é tudo em Deus. [CORO] – Acabou o amor, porque nada se busca, estando tudo encontrado. O que era amado por ser pequeno continua a ser amado por ser pequeno, mas é grande. O que era amado por ser humano continua a ser amado por ser humano, mas é divino. O que era amado por ser imperfeito continua a ser amado por ser imperfeito, mas é perfeito. Tudo tem o que tinha de belo e Deus a mais. Tudo está liberto. Nada era em vão. s.d. «Sakyamuni». Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 229. 1ª publ. in Fernando Pessoa et le Drame Symboliste . Teresa Rita Lopes. Paris: F. C. Gulbenkian, 1977 Things are not the shadows of ideas, nor ideas more real than things. They are identical, of the same order. Things are ideas and ideas are things. In a hallucination my idea and its exteriorisation are not 2 things, they are one and the same thing. Plato was wrong when he attributed to his ideas a reality different to that of things, when he did not see in each thing an idea, but found ideas only in generalities. 1908? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 86. The man of science tells me that Force is everywhere present. I do not see it. I see it everywhere manifested, by motion. What is this Force, in itself? No one can say. 1907? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 132. Ah, a esta alma que não arde Não envolve, porque ama A esperança, ainda que vã, O esquecimento que vive Entre o orvalho da tarde E o orvalho da manhã. 1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 149. Trazes os brincos compridos, Trazes os brincos compridos, Aqueles brincos que são Como as saudades que temos A pender do coração. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 115. A tua boca de riso A tua boca de riso Parece olhar para a gente Com um olhar que é preciso Para saber que se sente. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 57. II If that apparent part of life's delight Our tingled flesh-sense circumscribes were seen By aught save reflex and co-carnal sight, Joy, flesh and life might prove but a gross screen. Haply Truth's body is no eyable being, Appearance even as appearance lies, Haply our close, dark, vague, warm sense of seeing Is the choked vision of blindfolded eyes. Wherefrom what comes to thought's sense of life? Nought. All is either the irrational world we see Or some aught-else whose being-unknown doth rot Its use for our thought's use. Whence taketh me A qualm-like ache of life, a body-deep Soul-hate of what we seek and what we weep. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 158. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Things are, to our sensation, beautiful. Therefore beauty‑in‑se, ideal beauty is a reality. If this ideal beauty be real, since it is not of the same order as things, since it is, I mean, an idea; either both ideas and things exist really, or one is more real than the other, both equally existing, or one is real and the other is unreal, one true and the other false. Let us examine these hypotheses. To say, for instance, that the idea of space and extended things are equally real is, in my belief, untrue judging. For the things of this world exist by ideas (...) To say that ideas and things are real, some more than others, is evidently bad judging, not only because the world appears by ideas but also because reality has no degrees. A thing exists or it does not exist; this is all, no more is needed. The hypotheses remains that one is true and the other false. Now which is truth, and which is appearance? The things by which things are, or these things which exist in virtue of other things? It is evident then that ideas are real and things shadows and falseness incarnate. — But, we may be answered, these ideas are nothing. — Well, if they be nothing, then the exterior universe is nothing, for it exists by them. By both reasons the world is nothing. It is a shadow and a dream; it is, as the old philosopher said, the play of child on the sand. 1907? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 87. There are many considerable theories in philosophical history — nay, are not all worthy of our attention, but considerable books there are few — to me there is but one truly so, the Critique of Pure Reason. God is the noumenon of which the universe is the phainoumenon. The universe is the noumenon of which we, i.e. the individuals are the phainoumena?! The Universe is the phenomenon of God, we (individuals) are the phenomena of the Universe. Noumenon-Being; Phainoumenon-Extension; Phainoumena-Relation. 1907? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 132. Deixaste cair a liga Deixaste cair a liga Porque não estava apertada... Por muito que a gente diga A gente nunca diz nada. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 115. A laranja que escolheste A laranja que escolheste Não era a melhor que havia. Também o amor que me deste Qualquer outra mo daria. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 57. Não sei quem sou, que alma tenho. Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros). Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho. Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas. Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço. 1915? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 93. O ÚLTIMO SORTILÉGIO «Já repeti o antigo encantamento E a grande Deusa aos olhos se negou. Já repeti, nas pausas do amplo vento, As orações cuja alma é um ser fecundo. Nada me o abismo deu ou o céu mostrou. Só o vento volta onde estou toda e só, E tudo dorme no confuso mundo. «Outrora meu condão fadava as sarças E a minha evocação do solo erguia Presenças concentradas das que esparsas Dormem nas formas naturais das coisas. Outrora a minha voz acontecia. Fadas e elfos, se eu chamasse, via, E as folhas da floresta eram lustrosas. «Minha varinha, com que da vontade Falava às existências essenciais, Já não conhece a minha realidade. Já, se o círculo traço, não há nada. Murmura o vento alheio extintos ais, E ao luar que sobe além dos matagais Não sou mais do que os bosques ou a estrada. «Já me falece o dom com que me amavam. Já me não torno a forma e o fim da vida A quantos que, buscando-os, me buscavam. Já, praia, o mar dos braços não me inunda. Nem já me vejo ao sol saudado erguida, Ou, em êxtase mágico perdida, Ao luar, à boca da caverna funda. «Já as sacras potências infernais, Que, dormentes sem deuses nem destino, À substância das coisas são iguais, Não ouvem minha voz ou os nomes seus. A música partiu-se do meu hino. Já meu furor astral não é divino Nem meu corpo pensado é já um Deus. «E as longínquas deidades do atro poço, Que tantas vezes, pálida, evoquei Com a raiva de amar em alvoroço, Inevocadas hoje ante mim estão. Como, sem que as amasse, eu as chamei, Agora, que não amo, as tenho, e sei Que meu vendido ser consumirão. «Tu, porém, Sol, cujo ouro me foi presa, Tu, Lua, cuja prata converti, Se já não podeis dar-me essa beleza Que tantas vezes tive por querer, Ao menos meu ser findo dividi — Meu ser essencial se perca em si, Só meu corpo sem mim fique alma e ser! «Converta-me a minha última magia Numa estátua de mim em corpo vivo! Morra quem sou, mas quem me fiz e havia, Anónima presença que se beija, Carne do meu abstracto amor cativo, Seja a morte de mim em que revivo; E tal qual fui, não sendo nada, eu seja!» s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 227. 1ª publ. in Presença , nº 29. Coimbra: Dez. 1930. III When I do think my meanest line shall be More in Time's use than my creating whole, That future eyes more clearly shall feel me In this inked page than in my direct soul; When I conjecture put to make me seeing Good readers of me in some aftertime, Thankful to some idea of my being That doth not even my with gone true soul rime; An anger at the essence of the world, That makes this thus, or thinkable this-wise, Takes my soul by the throat and makes it hurled In nightly horrors of despaired surmise, And I become the mere sense of a rage That lacks the very words whose waste might 'suage. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 158. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Creation ex nihilo insinuates that God, up to a certain time (so to speak, for God is not conceived as in time) Will-in-power, became Will-in-act, that is to say, causa . But if God be conceived as perfect , this theory is illogic since by it the perfect becomes something which it was not, which is manifestly absurd ( 1 ), for the perfect is that which contains all and to which nothing can be added. There is one great objection to this argument, namely: that which is considered as out of time can in no manner be said to be anterior to creation, for anteriority supposes time. ( 1 ) Even if becoming a Cause be a degradation, the theory cannot be held; for that which is perfect cannot become more perfect nor imperfect. 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 133. Não há verdade na vida Não há verdade na vida Que se não diga a mentir. Há quem apresse a subida Para descer a sorrir. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 115. The world as we know it does not exist — it exists only in our senses and somewhat in our thought. It is through an debasing of thought that the world exists. Animals must have a conception of the world as entirely different from our own, as ours from that of the high being to whom Evolution brings us. The world, as it is, has no existence at all. E.g. the idea of Space makes Space; it is not Space that makes the idea; it is not because there is Space that we have the idea of it, it is because we have the idea of Space that Space exists. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 229. Corre a água pelas calhas Corre a água pelas calhas Lá segundo a sua lei. Pareces, vista de lado, Aquela que te julguei. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 87. Se o sino dobra a finados Se o sino dobra a finados Há-de deixar de dobrar. Dá-me os teus olhos fitados E deixa a vida matar! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 58. I Soam vãos, dolorido epicurista, Os versos teus, que a minha dor despreza; Já tive a alma sem descrença presa Desse teu sonho, que perturba a vista. Da Perfeição segui em vã conquista, Mas vi depressa, já sem a alma acesa, Que a própria ideia em nós dessa beleza Um infinito de nós mesmos dista. Nem à nossa alma definir podemos A Perfeição em cuja estrada a vida, Achando-a intérmina, a chorar perdemos. O mar tem fim, o céu talvez o tenha, Mas não a ânsia de Coisa indefinida Que o ser indefinida faz tamanha. 27-02-1909 Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 154. «Em Busca da Beleza». O ANDAIME O tempo que eu hei sonhado Quantos anos foi de vida! Ah, quanto do meu passado Foi só a vida mentida De um futuro imaginado! Aqui à beira do rio Sossego sem ter razão. Este seu correr vazio Figura, anónimo e frio, A vida vivida em vão. A esperança que pouco alcança! Que desejo vale o ensejo? E uma bola de criança Sobe mais que a minha esperança. Rola mais que o meu desejo. Ondas do rio, tão leves Que não sois ondas sequer, Horas, dias, anos, breves Passam — verduras ou neves Que o mesmo sol faz morrer. Gastei tudo que não tinha Sou mais velho do que sou. A ilusão, que me mantinha, Só no palco era rainha; Despiu-se, e o reino acabou. Leve som das águas lentas, Gulosas da margem ida, Que lembranças sonolentas De esperanças nevoentas! Que sonhos o sonho e a vida! Que fiz de mim? Encontrei-me Quando estava já perdido. Impaciente deixei-me Como a um louco que teime No que lhe foi desmentido. Som morto das águas mansas Que correm por ter que ser, Leva não só as lembranças, Mas as mortas esperanças — Mortas, porque hão-de morrer. Sou já o morto futuro. Só um sonho me liga a mim — O sonho atrasado e obscuro Do que eu devera ser — muro Do meu deserto jardim. Ondas passadas, levai-me Para o olvido do mar! Ao que não serei legai-me, Que cerquei com um andaime A casa por fabricar. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 230. 1ª publ. in Presença , nº 30-32J. Coimbra: Jun. 1931. IV I could not think of thee as piecèd rot, Yet such thou wert, for thou hadst been long dead; Yet thou liv'dst entire in my seeing thought And what thou wert in me had never fled. Nay, I had fixed the moments of thy beauty — Thy ebbing smile, thy kiss's readiness, And memory had taught my heart the duty To know thee ever at that deathlessness. But when I came where thou wert laid, and saw The natural flowers ignoring thee sans blame, And the encroacbing grass, with casual flaw, Framing the stone to age where was thy name, I knew not how to feel, nor what to be Towards thy fate's material secrecy. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 160. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. CRITIQUE OF PLATO’S THEORY When Plato says that Beauty alone is Beautiful, that Whiteness alone is truly white, he errs. For to be beautiful means «to participate in Beauty» and to be white means «to participate in whiteness», to possess whiteness in some degree. But Beauty does not possess Beauty, neither is Whiteness white. We commit the same error as Plato when we, seeing that infinity contains, all numbers, is the only true number whereas infinity is not a number at all, but is of another nature entirely. The origin of this error is easily seen when we consider a series. Here we are prompted to say infinity is superior to any number. Here is the error of Plato. Infinity is neither superior nor inferior to any number; because superiority and inferiority depend on number, on degree. But not even is Infinity different from number. For the principle of difference is degree; degree is numeric; and infinity is not number. 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 89. Problem of the origin (Thought) of the world, nature (Will) of the world, value (Feeling) of the world. How is it impossible to solve these problems? Religion can say the world is created ex nihilo , but it cannot explain this or say how. The impossibility is in this: that is impossible to pass from the absolute to the relative. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 134. No dia de S. João No dia de S. João Há fogueiras e folias Gozam uns e outros não, Tal qual como os outros dias. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 116. Lá por olhar para ti Lá por olhar para ti Não julgues que é por gostar. Eu gosto muito do sol, E nem o posso fitar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 87. Por muito que pense e pense Por muito que pense e pense No que nunca me disseste, Teu silêncio não convence. Faltaste quando vieste. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 58. II Nem defini-la, nem achá-la, a ela — A Beleza. No mundo não existe. Ai de quem com a alma inda mais triste Nos seres transitórios quer colhê-la! Acanhe-se a alma porque não conquiste Mais que o banal de cada coisa bela, Ou saiba que ao ardor de querer havê-la À Perfeição — só a desgraça assiste. Só quem da vida bebeu todo o vinho, Dum trago ou não, mas sendo até o fundo, Sabe (mas sem remédio) o bom caminho; Conhece o tédio extremo da desgraça, Que olha estupidamente o nauseabundo Cristal inútil da vazia taça. 27-02-1909 Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 154. «Em Busca da Beleza». Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos. a) adaptabilidade, que no mental dá a instabilidade, e portanto a diversificação do indivíduo dentro de si mesmo. O bom português é várias pessoas. b) a predominância da emoção sobre a paixão. Somos ternos e pouco intensos, ao contrário dos espanhóis — nossos absolutos contrários — que são apaixonados e frios. Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim — Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, e quantos mais haja havidos ou por haver. s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 94. INICIAÇÃO Não dormes sob os ciprestes, Pois não há sono no mundo. ...... O corpo é a sombra das vestes Que encobrem teu ser profundo. Vem a noite, que é a morte E a sombra acabou sem ser. Vais na noite só recorte, Igual a ti sem querer. Mas na Estalagem do Assombro Tiram-te os Anjos a capa. Segues sem capa no ombro, Com o pouco que te tapa. Então Arcanjos da Estrada Despem-te e deixam-te nu. Não tens vestes, não tens nada: Tens só teu corpo, que és tu. Por fim, na funda caverna, Os Deuses despem-te mais. Teu corpo cessa, alma externa, Mas vês que são teus iguais. ...... A sombra das tuas vestes Ficou entre nós na Sorte. Não estás morto, entre ciprestes. ...... Neófito, não há morte. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 233. 1ª publ. in Presença , nº 35. Coimbra: Mai. 1932. V How can I think, or edge my thoughts to action, When the miserly press of each day's need Aches to a narrowness of spilled distraction My soul appalled at the world's work's time-greed? How can I pause my thoughts upon the task My soul was born to think that it must do When every moment has a thought to ask To fit the immediate craving of its cue? The coin I'd heap for marrying my Muse And build our home i'th' greater Time-to-be Becomes dissolved by needs of each day's use And I feel beggared of infinity, Like a true-Christian sinner, each day flesh-driven By his own act to forfeit his wished heaven. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 160. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Idea . What is an idea? We say there are ideas of triangle, of animal, of God. How are these under the same denomination of ideas? Perhaps we must say: an idea is a thing. But then we enter the system of Protagoras, which Plato already so well criticized. If an idea equals a thing, since one man has an idea of God and another man an idea of no‑God, to each of these ideas corresponds a thing. Now, since the ideas are opposite, so are the things and this is impossible. (Answer to this: there is no idea of no-God.) There is no idea of nothing. An idea of nothing is no idea. But, then, there are, for one man an idea of God, for another man an idea of Fate and for another an idea of Matter. Each of these is an idea, all of these ideas have the same degree of clearness — they nevertheless contradict each other. Characteristics of an idea, e.g. the idea of circle. Unity. Perfection. Simplicity. Idea = possibility. Idea of form. Idea of triangle. Idea of scalene triangle. Idea of a particular scalene triangle which I have just drawn. 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 90. Occultism or a Static Drame Os acontecimentos são Homens. As circunstâncias são gente. Uma batalha, um jantar, um olhar, um beijo — cada uma destas coisas, porque é uma coisa, é um ente, uma pessoa de certa maneira de carne e osso. Nós próprios, os homens, não passamos de acontecimentos, lentos relativamente a outros, compostos de células, e cada célula é um acontecimento entre os elementos que a compõem ...e, assim, até ao infinito interior. Tudo é separado e tudo é uno. Todos os acontecimentos fundem-se no grande acontecimento chamado o Universo. Nada existe , tudo acontece. É a Deus que acontece tudo. O erro interior a todas as hipóteses de como é que o manifestado se abaixa até manifestar-se, ou então manifestando-se, não encontra maneira de se manifestar senão abaixando-se — esse erro é o de meter elementos morais num problema inteiramente metafísico. O manifestado não se manifesta a si próprio, porque então não se manifestaria, certo que vendo-se a si próprio tal qual é, não se veria manifestado, mas sim objectivamente, na sua realidade absoluta. Se se manifesta a outro ou outros, é que o manifestado não é tudo; há uma dualidade fundamental no universo. E o outro deve ser de qualquer modo análogo ao manifestado, para ele se poder manifestar. Admitamos que, ao manifestar-se, o manifestado não se rebaixa ou abaixa. Como, normalmente no pensamento, a ideia de manifestar-se envolve a de se abaixar, é forçoso concluir, no caso posto, uma de duas coisas: (1) A manifestação não inclui rebaixamento, nem mesmo metafísico (e o rebaixamento metafísico, por isso, é um critério normal aplicado a um caso puramente metafísico); (2) Não há manifestação, propriamente falando: a manifestação é igual ao manifestado. O aparente é o real. 1917? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 135. Santo António de Lisboa Santo António de Lisboa Era um grande pregador, Mas é por ser Santo António Que as moças lhe têm amor. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 116. Viraste-me a cara quando Viraste-me a cara quando Ia a dizer-te, à chegada, Que, se voltasses a cara, Que eu não me importava nada. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 88. Tome lá, minha menina, Tome lá, minha menina, O ramalhete que fiz. Cada flor é pequenina, Mas tudo junto é feliz. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 58. CADERNOS DE REACÇÃO PAGÃ: 1. O Guardador de Rebanhos - Alb[ert ] o Caeiro. 2. Prolegómenos   - António Móra. 3. Odes - Ricardo Reis. 4. Dissertação a favor da Al[emanha] - A[ntónio] Mora. 5. Origens do Cristianismo - A[ntónio ] Mora. 6. O pastor amoroso - Alberto Caeiro. 7. Arco de Triunfo - Álvaro de Campos. 8. Indícios de Oiro - Mário de Sá-Carneiro. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 348. Por quem foi que me trocaram Quando estava a olhar pra ti? Pousa a tua mão na minha E, sem me olhares, sorri. Sorri do teu pensamento Porque eu só quero pensar Que é de mim que ele está feito E que o tens para mo dar. Depois aperta-me a mão E vira os olhos a mim... Por quem foi que me trocaram Quando estás a olhar-me assim? 13-10-1930 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 19. A obra complexa, cujo primeiro volume é este, é de substância dramática, embora de forma vária — aqui de trechos em prosa, em outros livros de poemas ou de filosofias. É, não sei se um privilégio se uma doença, a constituição mental que a produz. O certo, porém, é que o autor destas linhas — não sei bem se o autor destes livros — nunca teve uma só personalidade, nem pensou nunca, nem sentiu, senão dramaticamente, isto é, numa pessoa, ou personalidade, suposta, que mais propriamente do que ele próprio pudesse ter esses sentimentos. Há autores que escrevem dramas e novelas; e nesses dramas e nessas novelas atribuem sentimentos e ideias às figuras, que as povoam, que muitas vezes se indignam que sejam tomados por sentimentos seus, ou ideias suas. Aqui a substância é a mesma, embora a forma seja diversa. A cada personalidade mais demorada, que o autor destes livros conseguiu viver dentro de si, ele deu uma índole expressiva, e fez dessa personalidade um autor, com um livro, ou livros, com as ideias, as emoções, e a arte dos quais, ele, o autor real (ou porventura aparente, porque não sabemos o que seja a realidade), nada tem, salvo o ter sido, no escrevê-las, o «medium» de figuras que ele próprio criou. Nem esta obra, nem as que se lhe seguirão têm nada que ver com quem as escreve. Ele nem concorda com o que nelas vai escrito, nem discorda. Como se lhe fosse ditado, escreve; e, como se lhe fosse ditado por quem fosse amigo, e portanto com razão lhe pedisse para que escrevesse o que ditava, acha interessante — porventura só por amizade — o que, ditado, vai escrevendo. O autor humano destes livros não conhece em si próprio personalidade nenhuma. Quando acaso sente uma personalidade emergir dentro de si, cedo vê que é um ente diferente do que ele é, embora parecido; filho mental, talvez, e com qualidades herdadas, mas as diferenças de ser outrem. Que esta qualidade no escritor seja uma forma da histeria, ou da chamada dissociação da personalidade, o autor destes livros nem o contesta, nem o apoia. De nada lhe serviriam, escravo como é da multiplicidade de si próprio, que concordasse com esta, ou com aquela, teoria, sobre os resultados escritos dessa multiplicidade. Que este processo de fazer arte cause estranheza, não admira; o que admira é que haja coisa alguma que não cause estranheza. Algumas teorias, que o autor presentemente tem, foram-lhe inspiradas por uma ou outra destas personalidades que, um momento, uma hora, uns tempos, passaram consubstancialmente pela sua própria personalidade, se é que esta existe. Afirmar que estes homens todos diferentes, todos bem definidos, que lhe passaram pela alma incorporadamente, não existem — não pode fazê-lo o autor destes livros; porque não sabe o que é existir, nem qual, Hamlet ou Shakespeare, é que é mais real, ou real na verdade. Estes livros serão os seguintes, por enquanto: Primeiro, este volume, Livro do Desassossego, escrito por quem diz de si próprio chamar-se Vicente Guedes; depois «O Guardador de Rebanhos e outros poemas e fragmentos do (também, e do mesmo modo, falecido) Alberto Caeiro, que nasceu próximo de Lisboa em 1889 e morreu onde nascera em 1915. Se me disserem que é absurdo falar assim de quem nunca existiu, respondo que também não tenho provas de que Lisboa tenha alguma vez existido, ou eu que escrevo, ou qualquer coisa onde quer que seja. Este Alberto Caeiro teve dois discípulos e um continuador filosófico. Os dois discípulos, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, seguiram caminhos diferentes; tendo o primeiro intensificado e tornado artisticamente ortodoxo o paganismo descoberto por Caeiro, e o segundo2 baseando-se em outra parte da obra de Caeiro, desenvolvido um sistema inteiramente diferente, e baseado inteiramente nas sensações. O continuador filosófico, António Mora (os nomes são inevitáveis, tão impostos de fora como as personalidades), tem um ou dois livros a escrever, onde provará completamente a verdade, metafísica e prática, do paganismo. Um segundo filósofo desta escola pagã, cujo nome, porém, ainda não apareceu na minha visão ou audição interior, dará uma defesa do paganismo baseada, inteiramente, em outros argumentos. É possível que, mais tarde, outros indivíduos, deste mesmo género de verdadeira realidade, apareçam. Não sei; mas serão sempre benvindos à minha vida interior, onde convivem melhor comigo do que eu consigo viver com a realidade externa. Escuso de dizer que com parte das teorias deles concordo, e que não concordo com outras partes. Estas coisas são perfeitamente indiferentes. Se eles escrevem coisas belas, essas coisas são belas, independentemente de quaisquer considerações metafísicas sobre os autores «reais» delas. Se, nas suas filosofias, dizem quaisquer verdades — se verdades há num mundo que é o não haver nada — essas coisas são verdadeiras independentemente da intenção ou da «realidade» de quem as disse. Tornando-me assim, pelo menos um louco que sonha alto, pelo mais, não um só escritor, mas toda uma literatura, quando não contribuísse para me divertir, o que para mim já era bastante, contribuo talvez para engrandecer o universo, porque quem, morrendo, deixa escrito um verso belo deixou mais ricos os céus e a terra e mais emotivamente misteriosa a razão de haver estrelas e gente. Com uma tal falta de literatura, como há hoje, que pode um homem de génio fazer senão converter-se, ele só, em uma literatura? Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou, quando menos, os seus companheiros de espírito? Pensei, primeiro, em publicar anonimamente, em relação a mim, estas obras, e, por exemplo, estabelecer um neopaganismo português, com vários autores, todos diferentes, a colaborar nele e a dilatá-lo. Mas, sobre ser pequeno demais o meio intelectual português, para que (mesmo sem inconfidências) a máscara se pudesse manter, era inútil o esforço mental preciso para mantê-la. Tenho, na minha visão a que chamo interior apenas porque chamo exterior a determinado «mundo», plenamente fixas, nítidas, conhecidas e distintas, as linhas fisionómicas, os traços de carácter, a vida, a ascendência, nalguns casos a morte, destas personagens. Alguns conheceram-se uns aos outros; outros não. A mim, pessoalmente, nenhum me conheceu, excepto Álvaro de Campos. Mas, se amanhã eu, viajando na América, encontrasse subitamente a pessoa física de Ricardo Reis, que, a meu ver, lá vive, nenhum gesto de pasmo me sairia da alma para o corpo; estava certo tudo, mas, antes disso, já estava certo. O que é a vida? 1930? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 95. [Prefácio para a edição projectada das suas obras] AUTOPSICOGRAFIA O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 235. 1ª publ. in Presença , nº 36. Coimbra: Nov. 1932. VI As a bad orator, badly o'er-book-skilled, Doth overflow his purpose with made heat, And, like a clock, winds with withoutness willed What should have been an inner instinct's feat; Or as a prose-wit, harshly poet turned, Lacking the subtler music in his measure, With useless care labours but to be spurned, Courting in alien speech the Muse's pleasure; I study how to love or how to hate, Estranged by consciousness from sentiment, With a thought feeling forced to be sedate Even when the feeling's nature is violent; As who would learn to swim without the river, When nearest to the trick, as far as ever. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. UM SISTEMA IDEALISTA Uma coisa para existir deve ser ou finita ou infinita. Ora o mundo não é (provo aqui) nenhuma: o mundo não existe. Para que uma coisa exista é preciso que seja susceptível de ser percebida e pensada; ora o mundo infinito não pode ser percebido; o mundo finito não pode ser pensado. O mundo como todo, não existe. Mas o mundo existe, parece. Mas não existe como todo. Existe, pois, como parte. Não parte de um todo homogéneo; porque esse todo seria ele mundo, e, como já provámos, o mundo como todo não existe. É forçoso, pois, que o mundo exista como parte de um todo de que ele não é materialmente parte. Ora isto é susceptível de ser percebido e pensado — e ser percebido e pensado são, como já dissemos, as características da realidade. É susceptível de ser pensado, como já provámos, chegando pelo pensamento a essa conclusão. É susceptível de ser percebido, pelos sentidos, porque estes não o buscam como infinito, nem como finito. O mundo em si é, pois, limitado por uma limitação sui generis. É parte, não homogenicamente, não materialmente, de uma coisa qualquer. Que é essa? É o finito ou o infinito. Não é o finito porque o mundo o contém em si. É, pois, o infinito. É o mundo, pois, parte não integrante de um infinito. Não é eterno nem deixa de o ser. Aqui não há questão de percepção, é único critério o pensamento. Ora não podemos pensar o mundo eterno. Nem o podemos pensar começando. Portanto, o mundo, como todo, não é eterno nem deixa de o ser. É a série outra vez. Mau ou bom? Participa das ideias como queria Platão? É isto realmente a participação? Mas, esse infinito de que o mundo é parte não integrante, não é um ser. É, pois, uma ideia. Daqui a participação. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 92. Sabemos, pois, que o mundo tem uma Causa. É absolutamente certo. É uma causa imanente? Não sabemos. É aqui que começa a metafísica. 1917? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 136. Plano literário d’«O Phosphoro» Artigo político (sem assinatura). Sueltos (sem assinatura). Artigo de crítica superior (assinado). Cartas do Sr. Pantaleão. Visões de Manuel Maria. Versos de Joaquim Moura-Costa. “Agulhas e Alfinetes” por [ … ] . Versos não humorísticos, (por [ … ] ). Citações. = (Secções menores). Anúncios. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 162. No comboio descendente No comboio descendente Vinha tudo à gargalhada, Uns por verem rir os outros E os outros sem ser por nada — No comboio descendente De Queluz à Cruz Quebrada... No comboio descendente Vinham todos à janela, Uns calados para os outros E os outros a dar-lhes trela — No comboio descendente Da Cruz Quebrada a Palmela... No comboio descendente Mas que grande reinação! Uns dormindo, outros com sono, E os outros nem sim nem não — No comboio descendente De Palmela a Portimão... s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 117. “Poemas para Lili” Na quinta que nunca houve Na quinta que nunca houve Há um poço que não há Onde há-de ir encontrar água Alguém que te entenderá. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 88. Leve vem a onda leve Leve vem a onda leve Que se estende a adormecer, Breve vem a onda breve Que nos ensina a esquecer. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 60. A vida é pouco aos bocados. A vida é pouco aos bocados. O amor é vida a sonhar. Olho para ambos os lados E ninguém me vem falar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 58. Leve no cimo das ervas O dedo do vento roça... Elas dizem-me que sim... Mas eu já não sei de mim Nem do que queira ou que possa. E o alto frio das ervas Fica no ar a tremer... Parece que me enganaram E que os ventos me levaram O com que me convencer. Mas no relvado das ervas Nem bole agora uma só. Porque pus eu uma esperança Naquela inútil mudança De que nada ali ficou? Não: o sossego das ervas Não é o de há pouco já. Que inda a lembrança do vento Me as move no pensamento E eu tenho porque não há. 13-10-1930 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 20. III Só quem puder obter a estupidez Ou a loucura pode ser feliz. Buscar, querer, amar... tudo isto diz Perder, chorar, sofrer, vez após vez. A estupidez achou sempre o que quis Do círculo banal — da sua avidez; Nunca aos loucos o engano se desfez Com quem um falso mundo seu condiz. Há dois males: verdade e aspiração, E há uma forma só de os saber males: É conhecê-los bem, saber que são Um o horror real, o outro o vazio — Horror não menos — dois como que vales Duma montanha que ninguém subiu. 27-02-1909 Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 155. «Em Busca da Beleza». A série, ou colecção, de livros, cuja publicação com a destes se inicia, representa, não um processo novo em literatura, mas uma maneira nova de empregar um processo já antigo. * Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade. * A confecção destas obras não manifesta um qualquer estado de opinião metafísica. Quero dizer: com o escrever estes «aspectos» da realidade, totalizados em pessoas que os tivessem, não pretendo uma filosofia que insinue que só há de real o haver aspectos de uma realidade ou elusiva, ou inexistente. Não tenho, nem essa crença filosófica, nem a crença filosófica contrária. Adentro do meu mester, que é literário, sou um profissional, no sentido superior que o termo tem; isto é, sou um trabalhador científico, que a si não permite que tenha opiniões estranhas à especialização literária, a que se entrega. E o não ter nem esta, nem aquela, opinião filosófica a propósito da confecção destas pessoas-livros, tão pouco deve induzir a crer que sou um céptico. A questão está num plano onde a especulação metafísica, porque não entra legitimamente, escusa de ter estes, ou aqueles caracteres. Como o físico não tem metafísica no seu laboratório, e a não tem o clínico nos diagnósticos que faça, [?] não porque a não possa ter, mas porque (...)assim o problema metafísico meu não existe, porque não pode, nem tem que existir adentro das capas destes meus livros de outros. 1930? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 100. [Prefácio para a edição projectada das suas obras] Fito-me frente a frente. Conheço que estou louco. Não me sinto doente. Fito-me frente a frente. Evoco a minha vida. Fantasma, quem és tu? Uma coisa erguida. Uma força traída. Neste momento claro, Abdique a alma bem! Saber não ser é raro. Quero ser raro e claro. 12-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 150. ISTO Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê! s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 236. 1ª publ. in Presença , nº 38. Coimbra: Abr. 1933. VII Thy words are torture to me, that scarce grieve thee — That entire death shall null my entire thought; And I feel torture, not that I believe thee, But that I cannot disbelieve thee not. Shall that of me that now contains the stars Be by the very contained stars survived? Thus were Fate all unjust. Yet what truth bars An all unjust Fate's truth from being believed? Conjecture cannot fit to the seen world A garment of its thought untorn or covering, Or with its stuffed garb forge an otherworld Without itself its dead deceit discovering; So, all being possible, an idle thought may Less idle thoughts, self-known no truer, dismay. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 162. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. CREATION EX NIHILO Creation: The production by a thing of another (which cannot but be analogous to it, since cause and effect are off the same nature). Reply : What of my creation of a poem? of a work of art? Counter-r[eply] : That work of art is myself when I produced it. (??) Manifestation: The becoming of a thing entirely other than it is, the one becoming multiple and immobility, motion. Alteration: The becoming of a thing other than itself by degrees, the passing of one thing to another, and from this to another. Alt[erati]on, unlike manifestation, is infinite, sans end. In Manifestation reality and appearance; in Alteration appearance purely, or, rather, appearances. Manifestation not in time, alteration in time, necessarily. In manifestation there are only 2 things; in alteration an infinite number. Being and Not-Being. B[eing] created world e nihilo i.e. out of N[ot] B [eing] (?) Creation e nihilo is the only thing not anthropomorphic in the philosophy of the christian religion. The idea of something produced from nothing is not human, not to be found in experience. If the world became, then it must have been thus. Proof of God’s Existence by First Motor. Answer to Renouvier as to impulse of actual infinite: If the first impulse given be out of time, how could it be communicated to matter? To the world? If in time, the one, who gives it is in time also and God is therefore either the world or, at the least, a composed thing, as being interior to duration (...) Is it not an error to consider time in itself? Being, first error in considering: The saying that B[eing] is perfect, or is perfection, because B[eing] is that beyond which nothing can be conceived. If this be not sufficiently refuted by our proof of the identity of B[eing] and Not-B[eing] we can yet disprove it otherwise. We say plenitude of B[eing], but what is this plenitude? It is the positive term of which nothingness is the negative. 1. Fallacy of Negativity (Parmenides). 2. [Fallacy of] Plenitude (Th. Aquinas). 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 136. Pia, pia, pia Pia, pia, pia O mocho, Que pertencia A um coxo. Zangou-se o coxo Um dia, E meteu o mocho Na pia, pia, pia... s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 118. “Poemas para Lili” Quando a manhã aparece Quando a manhã aparece Dizem que nasce alegria. Isso era se Ela viesse. Até de noite era dia. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 60. Dei-lhe um beijo ao pé da boca Dei-lhe um beijo ao pé da boca Por a boca se esquivar. A ideia talvez foi louca, O mal foi não acertar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 59. Se tudo o que há é mentira, É mentira tudo o que há. De nada nada se tira, A nada nada se dá. Se tanto faz que eu suponha Uma coisa ou não com fé, Suponho-a se ela é risonha, Se não é, suponho que é. Que o grande jeito da vida É pôr a vida com jeito. Fana a rosa não colhida Como a rosa posta ao peito. Mais vale é o mais valer, Que o resto ortigas o cobrem E só se cumpra o dever Para que as palavras sobrem. 14-10-1930 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 22. IV Leva me longe, meu suspiro fundo, Além do que deseja e que começa, Lá muito longe, onde o viver se esqueça Das formas metafísicas do mundo. Aí que o meu sentir vago e profundo O seu lugar exterior conheça, Aí durma em fim, aí enfim faleça O cintilar do espírito fecundo. Aí... mas de que serve imaginar Regiões onde o sonho é verdadeiro Ou terras para o ser atormentar? É elevar demais a aspiração, E, falhado esse sonho derradeiro, Encontrar mais vazio o coração. 27-02-09 Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 155. «Em Busca da Beleza». [Rascunho de uma carta a Adolfo Casais Monteiro -1935] Tive sempre, desde criança, a necessidade de aumentar o mundo com personalidades fictícias, sonhos meus rigorosamente construídos, visionados com clareza fotográfica, compreendidos por dentro das suas almas. Não tinha eu mais que cinco anos, e, criança isolada e não desejando senão assim estar, já me acompanhavam algumas figuras de meu sonho — um capitão Thibeaut, um Chevalier de Pas — e outros que já me esqueceram, e cujo esquecimento, como a imperfeita lembrança daqueles, é uma das grandes saudades da minha vida. Isto parece simplesmente aquela imaginação infantil que se entretém com a atribuição de vida a bonecos ou bonecas. Era porém mais: eu não precisava de bonecas para conceber intensamente essas figuras. Claras e visíveis no meu sonho constante, realidades exactamente humanas para mim, qualquer boneco, por irreal, as estragaria. Eram gente. Além disto, esta tendência não passou com a infância, desenvolveu-se na adolescência, radicou-se com o crescimento dela, tornou-se finalmente a forma natural do meu espírito. Hoje já não tenho personalidade: quanto em mim haja de humano, eu o dividi entre os autores vários de cuja obra tenho sido o executor. Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha. Trata-se, contudo, simplesmente do temperamento dramático elevado ao máximo; escrevendo, em vez de dramas em actos e acção, dramas em almas. Tão simples é, na sua substância, este fenómeno aparentemente tão confuso. Não nego, porém — favoreço, até — a explicação psiquiátrica, mas deve compreender-se que toda a actividade superior do espírito, porque é anormal, é igualmente susceptível de interpretação psiquiátrica. Não me custa admitir que eu seja louco, mas exijo que se compreenda que não sou louco diferentemente de Shakespeare, qualquer que seja o valor relativo dos produtos do lado são da nossa loucura. «Médium», assim, de mim mesmo, todavia subsisto. Sou, porém, menos real que os outros, menos coeso [?], menos pessoal, eminentemente influenciável por eles todos. Sou também discípulo de Caeiro, e ainda me lembro do dia — 13 de Março de 1914 — quando, tendo «ouvido pela primeira vez» (isto é, tendo acabado de escrever, de um só hausto do espírito) grande número dos primeiros poemas do Guardador de Rebanhos, imediatamente escrevi, a fio, os seis poemas-intersecções que compõem a Chuva Oblíqua («Orpheu» 2), manifesto e lógico resultado da influência de Caeiro sobre o temperamento de Fernando Pessoa. 1935 Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 101. Cf. Carta a Adolfo C. Monteiro -13 Jan. 1935 EROS E PSIQUE ... E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade. Do ritual do grau de Mestre do Átrio na Ordem Templária de Portugal Conta a lenda que dormia Uma Princesa encantada A quem só despertaria Um Infante, que viria De além do muro da estrada Ele tinha que, tentado, Vencer o mal e o bem, Antes que, já libertado, Deixasse o caminho errado Por o que à Princesa vem. A Princesa Adormecida, Se espera, dormindo espera. Sonha em morte a sua vida, E orna-lhe a fronte esquecida, Verde, uma grinalda de hera. Longe o Infante, esforçado, Sem saber que intuito tem, Rompe o caminho fadado. Ele dela é ignorado. Ela para ele é ninguém. Mas cada um cumpre o Destino — Ela dormindo encantada, Ele buscando-a sem tino Pelo processo divino Que faz existir a estrada. E, se bem que seja obscuro Tudo pela estrada fora, E falso, ele vem seguro, E, vencendo estrada e muro, Chega onde em sono ela mora. E, inda tonto do que houvera, À cabeça, em maresia, Ergue a mão, e encontra hera, E vê que ele mesmo era A Princesa que dormia. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 237. 1ª publ. in Presença , nº 41-42. Coimbra: Mai. 1934. Plato’s arguments for the reality of ideas are but a reiteration (as regards the argument ) of Parmenides great argument. * There is nothing within reason which gives any man a right to more happiness than is the portion of a brother man. The political system of the world — nay, the political systems — rest(s) on a basis entirely and wholly wrong. As long as this continues (it is clear) man will be unhappy. lt will endure with the world. * All actions, good or bad, have their root in power; the bad by preservation of that power, the good by denial of it. [...] * Contingent things do cease to be what they are, it is the ideas of them that continue to exist (be). * What commences, ends. Because what commences is in time and what is in time, ends. * «Does the totality of things — the universe — in time, end?» Things do. * Universe as subject contains in itself time and space, so it is neither eternal nor will end, neither infinite nor finite; time and space being not external, as they would have to be to enable us to speak of finiteness and of infinity. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 95. Cause is in time and in space, because all phainoumena are there, and cannot be anywhere else. But, we inquire, may not cause be but in time and in space? Cannot the theory (dogma) of creation be true? No, because the condition of cause is that it be anterior and exterior to effect otherwise Cause is cause of itself, that is to say, there is no cause at all. 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 139. PAGANISMO SUPERIOR A verdade é um erro. A verdade é um critério necessário à conservação da vida. É verdadeira uma opinião, ou uma atitude, na proporção em que torna possível ou fácil uma adaptação ao meio. A verdade relativa: 1) Para todos os seres com os mesmos sentidos que nós, completa ou incompletamente; 2) Para a humanidade em geral; 3) Para aquela parte da humanidade a que nós pertencemos. 1. A verdade chamada metafísica, isto é, o universo tal qual directamente no-lo revela o conjunto dos nossos sentidos. 2. A verdade chamada moral (propriamente intelectual) composta das ideias abstractas que distinguem a actividade intelectual humana da sub-humana. 3. A verdade de valores, que distingue a actividade intelectual civilizada da não civilizada. (Ou a verdade criativa?) Houve, por isso, 3 momentos de renovamento desde que caducou o paganismo puro e simples: 1) A subjectivação pelo simbólico. (Platão)? 2) A subjectivação pela atenção sintética aos sentimentos como sentimentos; como sujeito (Renascença — vide sentimentalistas e Shakespeare). 3) A subjectivação pela atenção analítica aos sentimentos (Romantismo). Mas o nº 4 não será agora, com o renascimento do ocultismo e Platão o mero esboço? Estando tudo mais ou menos confundido, sabe-se o elemento característico, dos outros períodos? s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 230. Levava eu um jarrinho Levava eu um jarrinho P’ra ir buscar vinho Levava um tostão P’ra comprar pão; E levava uma fita Para ir bonita. Correu atrás De mim um rapaz: Foi o jarro p’ra o chão, Perdi o tostão, Rasgou-se-me a fita... Vejam que desdita! Se eu não levasse um jarrinho, Nem fosse buscar vinho, Nem trouxesse uma fita Para ir bonita, Nem corresse atrás De mim um rapaz Para ver o que eu fazia, Nada disto acontecia. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 118-119. “Poemas para Lili” Ribeirinho, ribeirinho,/Que falas tão devagar, Ribeirinho, ribeirinho, Que falas tão devagar, Ensina-me o teu caminho De passar sem desejar amar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 88. Nuvem alta, nuvem alta, Nuvem alta, nuvem alta, Porque é que tão alta vais? Se tens o amor que me falta, Desce um pouco, desce mais. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 60. Compras carapaus ao cento, Compras carapaus ao cento, Sardinhas ao quarteirão. Só tenho no pensamento Que me disseste que não. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 59. Há um grande som no arvoredo. Parece um mar que há lá em cima. É o vento, e o vento faz um medo... Não sei se um coração me estima... Sozinho sob os astros certos Meu coração não sai da vida... Ó vastos céus, iguais e abertos, Que é esta alma indefinida? 21-10-1930 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 24. V Braços cruzados, sem pensar nem crer, Fiquemos pois sem mágoas nem desejos. Deixemos beijos, pois o que são beijos ? A vida é só o esperar morrer. Longe da dor e longe do prazer, Conheçamos no sono os benfazejos Poderes únicos; sem urzes, brejos, A sua estrada sabe apetecer. Coroado de papoilas e trazendo Artes porque com sono tira sonhos, Venha Morfeu, que as almas envolvendo, Faça a felicidade ao mundo vir Num nada onde sentimo-nos risonhos Só de sentirmos nada já sentir. 27-02-1909 Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 156. «Em Busca da Beleza». Umas figuras insiro em contos, ou em subtítulos de livros, e assino com o meu nome o que elas dizem; outras projecto em absoluto e não assino senão com o dizer que as fiz. Os tipos de figuras distinguem-se do seguinte modo: nas que destaco em absoluto, o mesmo estilo me é alheio, e, se a figura o pede, contrário, até, ao meu; nas figuras que subscrevo não há diferença do meu estilo próprio, senão nos pormenores inevitáveis, sem os quais elas se não distinguiriam entre si. Compararei algumas destas figuras, para mostrar, pelo exemplo, em que consistem essas diferenças. O ajudante de guarda-livros Bernardo Soares e o Barão de Teive — são ambas figuras minhamente alheias — escrevem com a mesma substância de estilo, a mesma gramática e o mesmo tipo e forma de propriedade: é que escrevem com o estilo que, bom ou mau, é o meu. Comparo as duas porque são casos de um mesmo fenómeno — a inadaptação à realidade da vida, e, o que é mais, a inadaptação pelos mesmos motivos e razões. Mas, ao passo que o português é igual no Barão de Teive [e] em Bernardo Soares, o estilo difere em que o do fidalgo é intelectual, despido de imagens, um pouco — como direi? — hirto e restrito; e o do burguês é fluido, participando da música e da pintura, pouco arquitectural. O fidalgo pensa claro, escreve claro, e domina as suas emoções, se bem que não os seus sentimentos; o guarda-livros nem emoções nem sentimentos domina, e quando pensa é subsidiariamente a sentir. Há notáveis semelhanças, por outra, entre Bernardo Soares e Álvaro de Campos. Mas, desde logo, surge em Álvaro de Campos o desleixo do português, o desatado das imagens, mais íntimo e menos propositado que o de Soares. Há acidentes no meu distinguir uns de outros que pesam como grandes fardos no meu discernimento espiritual. Distinguir tal composição musicante de Bernardo Soares de uma composição de igual teor que é a minha. Há momentos em que o faço repentinamente, com uma perfeição de que pasmo; e pasmo sem imodéstia, porque, não crendo em nenhum fragmento de liberdade humana, pasmo do que se passa em mim como pasmaria do que se passasse em outros — em dois estranhos. Só uma grande intuição pode ser bússola nos descampados da alma; só com um sentido que usa da inteligência, mas se não assemelha a ela, embora nisto com ela se funda, se pode distinguir estas figuras de sonho na sua realidade de uma a outra. s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 103. 1ª publ.: Obra Poética . Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Dores Galhoz.) Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960. INTERVALO Quem te disse ao ouvido esse segredo Que raras deusas têm escutado — Aquele amor cheio de crença e medo Que é verdadeiro só se é segredado?... Quem to disse tão cedo? Não fui eu, que te não ousei dizê-lo. Não foi um outro, porque o não sabia. Mas quem roçou da testa teu cabelo E te disse ao ouvido o que sentia? Seria alguém, seria? Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei? Foi só qualquer ciúme meu de ti Que o supôs dito, porque o não direi, Que o supôs feito, porque o só fingi Em sonhos que nem sei? Seja o que for, quem foi que levemente, A teu ouvido vagamente atento, Te falou desse amor em mim presente Mas que não passa do meu pensamento Que anseia e que não sente? Foi um desejo que, sem corpo ou boca, A teus ouvidos de eu sonhar-te disse A frase eterna, imerecida e louca — A que as deusas esperam da ledice Com que o Olimpo se apouca. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 240. 1ª publ. in Momento , nº 8. Lisboa: Abr. 1935. PLATO Sensation awakes intellect. The reality behind phainomena, how is it revelated if it do not appear? Substance can only be thought if it become appearance: being = appearance, and man is measure of all things, of the existence, etc. Error of Protagoras was in attributing the measure of things to individual as not‑plural rather than to individual as individual. Knowledge (says Grote) is a bi‑polar, bi‑lateral phaenomenon. The reason of a thing is that which explains it, that which accords being and thought. [...] 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 97. POEMA PIAL Casa Branca — Barreiro a Moita (Silêncio ou estação, à escolha do freguês) Toda a gente que tem as mãos frias Deve metê-las dentro das pias. Pia número UM, Para quem mexe as orelhas em jejum. Pia número DOIS, Para quem bebe bifes de bois. Pia número TRÊS, Para quem espirra só meia vez. Pia número QUATRO, Para quem manda as ventas ao teatro. Pia número CINCO, Para quem come a chave do trinco. Pia número SEIS, Para quem se penteia com bolos-reis. Pia número SETE, Para quem canta até que o telhado se derrete. Pia número OITO, Para quem parte nozes quando é afoito. Pia número NOVE, Para quem se parece com uma couve. Pia número DEZ, Para quem cola selos nas unhas dos pés. E, como as mãos já não estão frias, Tampa nas pias! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 120-121. Do alto da torre da igreja Do alto da torre da igreja Vê-se o campo todo em roda. Só do alto da esperança Vemos nós a vida toda. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 89. Teu carinho, que fingido, Teu carinho, que fingido, Dá-me o prazer de saber Que inda não tens esquecido O que o fingir tem de ser. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 60. Duas horas te esperei./Duas mais te esperaria. Duas horas te esperei. Duas mais te esperaria. Se gostas de mim não sei... Algum dia há-de ser dia... s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 59. Cai chuva do céu cinzento Que não tem razão de ser. Até o meu pensamento Tem chuva nele a escorrer. Tenho uma grande tristeza Acrescentada à que sinto. Quero dizer-ma mas pesa O quanto comigo minto. Porque verdadeiramente Não sei se estou triste ou não, E a chuva cai levemente (Porque Verlaine consente) Dentro do meu coração. 15-11-1930 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 25. Artigos no «Ph [ osphoro ] » s [ obre ] a crise moral da sociedade portuguesa. Falta de respeito por tudo . Parte causada pela monarquia. Parte pelo mal do século , parte pela religião. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 163. VI O sono — Oh, ilusão! — o sono? quem Logrará esse vácuo ao qual aspira A alma que, de aspirar em vão, delira, E já nem força para querer tem? Que sono apetecemos? O d'alguém Adormecido na feliz mentira Da sonolência vaga que nos tira Todo o sentir no qual a dor nos vem? Ilusão tudo! Querer um sono eterno, Um descanso, uma paz, não é senão O último anseio desesperado e vão. Perdido, resta o derradeiro inferno Do tédio intérmino, esse de já não Nem aspirar a ter aspiração. 27-02-1909 Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 157. «Em Busca da Beleza». Nestes desdobramentos de personalidade ou, antes, invenções de personalidades diferentes, há dois graus ou tipos, que estarão revelados ao leitor, se os seguiu, por características distintas. No primeiro grau, a personalidade distingue-se por ideias e sentimentos próprios, distintos dos meus, assim como, em mais baixo nível desse grau, se distingue por ideias, postas em raciocínio ou argumento, que não são minhas, ou, se o são, o não conheço. O Banqueiro Anarquista é um exemplo deste grau inferior; o Livro do Desassossego e a personagem Bernardo Soares são o grau superior. Há-de o leitor reparar que, embora eu publique (publica-se) o Livro do Desassossego como sendo de um tal Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, o não inclui todavia nestas Ficções do Interlúdio. É que Bernardo Soares, distinguindo-se de mim por suas ideias, seus sentimentos, seus modos de ver e de compreender, não se distingue de mim pelo estilo de expor. Dou a personalidade diferente através do estilo que me é natural, não havendo mais que a distinção inevitável do tom especial que a própria especialidade das emoções necessariamente projecta. Nos autores das Ficções do Interlúdio» não são só as ideias e os sentimentos que se distinguem dos meus: a mesma técnica da composição, o mesmo estilo, é diferente do meu. Aí cada personagem é criada integralmente diferente, e não apenas diferentemente pensada. Por isso nas Ficções do Interlúdio predomina o verso. Em prosa é mais difícil de se outrar. s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 105. 1ª publ.: Obra Poética . Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Dores Galhoz.) Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960. CONSELHO Cerca de grandes muros quem te sonhas. Depois, onde é visível o jardim Através do portão de grade dada, Põe quantas flores são as mais risonhas, Para que te conheçam só assim. Onde ninguém o vir não ponhas nada. Faze canteiros como os que outros têm, Onde os olhares possam entrever O teu jardim como lho vais mostrar. Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém Deixa as flores que vêm do chão crescer E deixa as ervas naturais medrar. Faze de ti um duplo ser guardado; E que ninguém, que veja e fite, possa Saber mais que um jardim de quem tu és — Um jardim ostensivo e reservado, Por trás do qual a flor nativa roça A erva tão pobre que nem tu a vês... s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 242. 1ª publ. in Sudoeste , nº 3. Lisboa: Nov. 1935. IX Oh to be idle loving idleness! But I am idle all in hate of me; Ever in action's dream, in the false stress Of purposed action never act to be. Like a fierce beast self-penned in a bait-lair, My will to act binds with excess my action, Not-acting coils the thought with raged despair, And acting rage doth paint despair distraction. Like someone sinking in a treacherous sand, Each gesture to deliver sinks the more; The struggle avails not, and to raise no hand, Though hut more slowly useless, we've no power. Hence live I the dead life each day doth bring, Repurposed for next day's repurposing. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 164. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. 1. Plato did not demonstrate logically the existence of Ideas: he did not believe logical proofs to be capable of reaching ideas. 2. Plato’s proof: «lntellect and experience. If data of experience are so are the data of intellect.» Faculties and their object. Psychologic proof: Plato base on self‑analysis. 1. Psychologic proof by the study of the conditions of knowledge . 2. Ontologic proof by the study of the conditions of existence. There are the 2 inductive proofs. 3. Logical proof by the analysis of consequences, or verification of theory by its applications of all kinds: metaphysical, ethical, political. aesthetical. * Idea contains generality. Idea of Cause. (for example.) It is by beauty that beautiful things are fair, by largeness that large things are large by smallness that small things are small (Plato). The last things are large and small because of space and of difference (i.e. differentiation, number, in my sense). First characteristic of essence (or form) «Universality». Second characteristic: pureness. Socrates is at the same time, by different comparisons small and big. But largeness — in itself cannot at the same time be small and be large. * I. We know but our sensations. II. Now can sensation come from the outside; can it be the effect of the presence of external objects? Or does it come from inside? This formidable abstraction leaves all Hegel’s reasonings and Parmenides in the dark, and, unless the reader peruse it three or four times over with all attention, it will leave him there likewise. Antinomistics has been misconceived both by Kant and by (Spencer?). In this science the aim should be to prove negations not affirmations, not, at the same time, that the universe is infinite and is finite, but at the same time that it is not infinite and that it is not finite. (Ética). * Being to be (...) by us has to assume the character of infinity, first stage of determination, it has to be determined somehow. * We cannot even say of Being‑in‑se that Being is Being for here is already understood the idea of Not‑Being. For anything to come within the sphere of our knowledge (in the widest sense) it has to be determined in some way. There are 3 ways of determination, i.e. by which we determine a thing. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 98. Dá-me um sorriso a brincar, Dá-me um sorriso a brincar, Dá-me uma palavra a rir, Eu me tenho por feliz Só de te ver e te ouvir. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 89. Talvez que seja a brisa Que ronda o fim da estrada, Talvez seja o silêncio, Talvez não seja nada... Que coisa é que na tarde Me entristece sem ser? Sinto como se houvesse Um mal que acontecer. Mas sinto o mal que vem Como se já passasse... Que coisa é que faz isto Sentir-se e recordar-se? 17-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 151. A luva que retiraste A luva que retiraste Deixou livre a tua mão. Foi com ela que tocaste, Sem tocar, meu coração. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 61. Tenho um desejo comigo/Que me traz longe de mim. Tenho um desejo comigo Que me traz longe de mim. É saber se isto é contigo Quando isto não é assim. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 59. Andavam de noite aos segredos Só porque era noite... Os bosques enchiam de medos Quem quer que se afoite... Diziam [?] palavras que pesam [?] À sombra de alguém... Ninguém os conhece, e passam... Não eram ninguém... Fica só na aragem e na ânsia Saudade a fingir... Foi como se fora a distância... Eu torno a dormir. 11-2-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 26. MAR. MANHÃ Suavemente grande avança Cheia de sol a onda do mar; Pausadamente se balança, E desce como a descansar. Tão lenta e longa que parece De uma criança de Titã O glauco seio que adormece, Arfando à brisa da manhã. Parece ser um ente apenas Este correr da onda do mar Como uma cobra que em serenas Dobras se alongue a colear. Unido e vasto e interminável No são sossego azul do sol, Arfa com um mover-se estável O oceano ébrio de arrebol. E a minha sensação é nula, Quer de prazer, quer de pesar... Ébria. de alheia a mim ondula Na onda lúcida do mar. 16-11-1909 Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 157. Dividiu Aristóteles a poesia em lírica, elegíaca, épica e dramática. Como todas as classificações bem pensadas, é esta útil e clara; como todas as classificações, é falsa. Os géneros não se separam com tanta facilidade íntima, e, se analisarmos bem aquilo de que se compõem, verificaremos que da poesia lírica à dramática há uma gradação contínua. Com efeito, e indo às mesmas origens da poesia dramática — Esquilo por exemplo — será mais certo dizer que encontramos poesia lírica posta na boca de diversos personagens. O primeiro grau da poesia lírica é aquele em que o poeta, concentrado no seu sentimento, exprime esse sentimento. Se ele, porém, for uma criatura de sentimentos variáveis e vários, exprimirá como que uma multiplicidade de personagens, unificadas somente pelo temperamento e o estilo. Um passo mais, na escala poética, e temos o poeta que é uma criatura de sentimentos vários e fictícios, mais imaginativo do que sentimental, e vivendo cada estado de alma antes pela inteligência que pela emoção. Este poeta exprimir-se-á como uma multiplicidade de personagens, unificadas, não já pelo temperamento e o estilo, pois que o temperamento está substituído pela imaginação, e o sentimento pela inteligência, mas tão somente pelo simples estilo. Outro passo, na mesma escala de despersonalização, ou seja de imaginação, e temos o poeta que em cada um dos seus estados mentais vários se integra de tal modo nele que de todo se despersonaliza, de sorte que, vivendo analiticamente esse estado de alma, faz dele como que a expressão de um outro personagem, e, sendo assim, o mesmo estilo tende a variar. Dê-se o passo final, e teremos um poeta que seja vários poetas, um poeta dramático escrevendo em poesia lírica. Cada grupo de estados de alma mais aproximados insensivelmente se tornará uma personagem, com estilo próprio, com sentimentos porventura diferentes, até opostos, aos típicos do poeta na sua pessoa viva. E assim se terá levado a poesia lírica — ou qualquer forma literária análoga em sua substância à poesia lírica — até à poesia dramática, sem, todavia, se lhe dar a forma do drama, nem explícita nem implicitamente. Suponhamos que um supremo despersonalizado como Shakespeare, em vez de criar o personagem de Hamlet como parte de um drama, o criava como simples personagem, sem drama. Teria escrito, por assim dizer. um drama de uma só personagem, um monólogo prolongado e analítico. Não seria legítimo ir buscar a esse personagem uma definição dos sentimentos e dos pensamentos de Shakespeare, a não ser que o personagem fosse falhado, porque o mau dramaturgo é o que se revela. Por qualquer motivo temperamental que me não proponho analisar, nem importa que analise, construí dentro de mim várias personagens distintas entre si e de mim, personagens essas a que atribuí poemas vários que não são como eu, nos meus sentimentos e ideias, os escreveria. Assim têm estes poemas de Caeiro, os de Ricardo Reis e os de Álvaro de Campos que ser considerados Não há que buscar em quaisquer deles ideias ou sentimentos meus, pois muitos deles exprimem ideias que não aceito, sentimentos que nunca tive. Há simplesmente que os ler como estão, que é aliás como se deve ler. Um exemplo: escrevi com sobressalto e repugnância o poema oitavo do Guardador de Rebanhos com a sua blasfémia infantil e o seu anti-espiritualismo absoluto. Na minha pessoa própria, e aparentemente real, com que vivo social e objectivamente, nem uso da blasfémia, nem sou anti-espiritualista. Alberto Caeiro porém, como eu o concebi, é assim: assim tem pois ele que escrever, quer eu queira quer não, quer eu pense como ele ou não. Negar-me o direito de fazer isto seria o mesmo que negar a Shakespeare o direito de dar expressão à alma de Lady Macbeth, com o fundamento de que ele, poeta, nem era mulher, nem, que se saiba, histero-epiléptico, ou de lhe atribuir uma tendência alucinatória e uma ambição que não recua perante o crime. Se assim é das personagens fictícias de um drama, é igualmente lícito das personagens fictícias sem drama, pois que é lícito porque elas são fictícias e não porque estão num drama. Parece escusado explicar uma coisa de si tão simples e intuitivamente compreensível. Sucede, porém, que a estupidez humana é grande, e a bondade humana não é notável. s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 106. 1ª publ.: Obra Poética . Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Dores Galhoz.) Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960. LIBERDADE (Falta uma citação de Séneca) Ai que prazer Não cumprir um dever, Ter um livro para ler E não o fazer! Ler é maçada, Estudar é nada. O sol doira Sem literatura. O rio corre, bem ou mal, Sem edição original. E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como tem tempo não tem pressa... Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma. Quanto é melhor, quanto há bruma, Esperar por D. Sebastião, Quer venha ou não! Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças, Flores, música, o luar, e o sol, que peca Só quando, em vez de criar, seca. O mais do que isto É Jesus Cristo, Que não sabia nada de finanças Nem consta que tivesse biblioteca... s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 244. 1ª publ. in Seara Nova , nº 526. Coimbra: 11-9-1937. X As to a child, I talked my heart asleep With empty promise of the coming day, And it slept rather for my words made sleep Than from a thought of what their sense did say. For did it care for sense, would it not wake And question closer to the morrow’s pleasure? Would it not edge nearer my words, to take The promise in the meting of its measure? So, if it slept, 'twas that it cared but for The present sleepy use of promised joy, Thanking the fruit but for the forecome flower Which the less active senses best enjoy. Thus with deceit I detain the heart Of which deceit's self knows itself a part. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 166. 1ª ed.: 35 Sonnets . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. When you say that a thing is bad you use the criterium of good. Argument from error. If matter be truth it is impossible to err, sensation cannot lead us wrong. (Now error either comes from sensation proper or from reasoning. Both of these, according to the materialists, are natural. The principle of error cannot then be in either of them. Error supposes two things, two principles — one fallible, the other infallible. It supposes an infallible principle because it were not error unless there were a truth to which it might be opposed. It supposes for its existence a principle to which fallibility can be attributed. It supposes, in short, a principle of possibility and a principle of existence. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 232. Trazes um lenço apertado Trazes um lenço apertado Na cabeça, e um nó atrás. Mas o que me traz cansado É o nó que nunca se faz. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 89. O avental, que à gaveta O avental, que à gaveta Foste buscar, não terá Algibeira em que me meta Para estar contigo já? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 61. Parece às vezes que desperto E me pergunto o que vivi; Fui claro, fui real, é certo, Mas como é que cheguei aqui? A bebedeira às vezes dá Uma assombrosa lucidez Em que como outro a gente está. Estive ébrio sem beber talvez. E de aí, se pensar, o mundo Não será feito só de gente No fundo cheia de este fundo De existir clara e ebriamente? Entendo, como um carrossel, Giro em meu torno sem me achar... (Vou escrever isto num papel Para ninguém me acreditar...) 11-2-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 27. PREFÁCIO ÀS FICÇÕES DO INTERLÚDIO Referem os astrólogos os efeitos em todas as coisas à operação de quatro elementos — o fogo, a água, o ar e a terra. Com este sentido poderemos compreender a operação das influências. Uns agem sobre os homens como a terra, soterrando-os e abolindo-os, e esses são os mandantes do mundo. Uns agem sobre os homens como o ar, envolvendo-os e escondendo-os uns dos outros, e esses são os mandantes do além-mundo. Uns agem sobre os homens como a água, que os ensopa e converte em sua mesma substância, e esses são os ideólogos e os filósofos, que dispersam pelos outros as energias da própria alma. Uns agem sobre os homens como o fogo, que queima neles todo o acidental, e os deixa nus e reais, próprios e verídicos, e esses são os libertadores. Caeiro é dessa raça. Caeiro teve essa força. Que importa que Caeiro seja de mim, se assim é Caeiro? Assim, operando sobre Reis, que ainda não havia escrito alguma coisa, fez nascer nele uma forma própria e uma pessoa estética. Assim operando sobre mim mesmo, me livrou de sombras e farrapos, me deu mais inspiração à inspiração e mais alma à alma. Depois disto, assim prodigiosamente conseguido, quem perguntará se Caeiro existiu? 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 109. POEMA O céu, azul de luz quieta, As ondas brandas a quebrar, Na praia lúcida e completa — Pontos de dedos a brincar. No piano anónimo da praia Tocam nenhuma melodia De cujo ritmo por fim saia Todo o sentido deste dia. Que bom, se isto satisfizesse! Que certo, se eu pudesse crer Que esse mar e essas ondas e esse Céu têm vida e têm ser. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 246. 1ª publ. in Presença , nº 53-54. Coimbra: Nov. 1938. Vi-te a dizer um adeus Vi-te a dizer um adeus A alguém que se despedia, E quase implorei dos céus Que eu partisse qualquer dia. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 89. Quando vieste da festa, Quando vieste da festa, Vinhas cansada e contente. A minha pergunta é esta: Foi da festa ou foi da gente? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 61. O ruído vário da rua Passa alto por mim que sigo. Vejo: cada coisa é sua. Oiço: cada som é consigo. Sou como a praia a que invade Um mar que torna a descer. Ah, nisto tudo a verdade É só eu ter que morrer. Depois de eu cessar, o ruído. Não, não ajusto nada Ao meu conceito perdido Como uma flor na estrada. 21-2-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 29. Não sei o que desgosta A minha alma doente. Uma dor suposta Dói‑me realmente. Como um barco absorto Em se naufragar 26-7-1910 Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 161. Rouxinol que não cantaste, Rouxinol que não cantaste, Gaio que não cantarás, Qual de vós me empresta o canto Para ver o que ela faz? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 61. Cheguei à janela, Porque ouvi cantar. É um cego e a guitarra Que estão a chorar. Ambos fazem pena, São uma coisa só Que anda pelo mundo A fazer ter dó. Eu também sou um cego Cantando na estrada, A estrada é maior E não peço nada. 26-2-1931 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 30. Os americanos tratam tudo a brincar, porque tratam tudo a sério. Assim, um almirante americano, querendo, num livro [...] …… Quem raciocina com intensidade e violência tem que expressar com descongestionamento. Rir não é não ter razão. Não há relação entre a solenidade e a verdade. Deixemos a seriedade aos que têm ideais em que perdem tempo e jeito. Pensemos, e acabemos de pensar com uma gargalhada. A dor do mundo é grande? Talvez seja. Como não há metro para ela, não sabemos. Mas, ainda que seja grande, curar-se-á aumentando-a com a nossa? Pensa a sério mas não com sério. Pensa profundamente, mas não às escuras. Quer fortemente, mas não com as sobrancelhas. Sinceros? Quantos gramas de verdade é que a vossa sinceridade pesa? Quem pensa, ri; só não ri quem só faz cara que pensa. Ri, bruto! s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 164. Quando chegaste à janela Quando chegaste à janela Todos que estavam na rua Disseram: olha, é aquela, Tal é a graça que é tua! s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 62. Nuvem que passas no céu, Nuvem que passas no céu, Dize a quem não perguntou Se é bom dizer a quem deu: «O que deste, não to dou.» 13-10-1934 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 62. — A inteligência humana — disse o Tio Porco —, pertence a uma de três categorias. A primeira categoria é a inteligência científica. É a sua, Sr. Chefe Guedes. A inteligência científica examina os factos, e tira deles as suas conclusões imediatas. Direi melhor: a inteligência científica observa, e determina, pela comparação das coisas observadas, o que vêm a ser os factos. »A inteligência filosófica — esta é a tua, Abílio — aceita da inteligência científica os factos já determinados e tira deles as conclusões finais. Direi melhor: a inteligência filosófica extrai dos factos o facto. –– Isso está muito bem dito — atalhou Quaresma. — Está pelo menos compreensível — respondeu o Tio Porco. — Ora, além destes dois tipos de inteligência, há outro, a meu ver superior, que é a inteligência crítica. Eu tenho a inteligência crítica — acrescentou com naturalidade. O Tio Porco parou, extraiu uma mortalha, vazou para dentro dela um pouco de tabaco de uma tabaqueira velha, e depois enrolou com lentidão um cigarro. A mortalha, reparei, ficou suja só da pressão dos dedos ao enrolá-la. O Tio Porco tirou da algibeira uma caixa de fósforos de pau, alumiou um, acendeu o cigarro, e depois continuou: — A inteligência crítica nem possui a observação que é a base da inteligência científica, nem o raciocínio que é o fundamento da inteligência filosófica. Parasitária, indolente até, por natureza, como são as classes cultas e aristocráticas em relação às outras ela vive apenas de ver as falhas que as suas antecessores, por assim dizer, tiveram. Sobretudo vê as falhas da inteligência filosófica, que, por abstracta é mais da natureza dela. »A inteligência crítica é de dois tipos — instintivo e intelectual. A inteligência crítica e instintiva vê, sente, aponta as falhas das outras duas, mas não vai mais longe; indica o que está errado, como se o cheirasse, mas não passa disso. A inteligência crítica propriamente intelectual faz mais que isto: determina as falhas das outras duas inteligências, e depois de as determinar constrói, reelabora o argumento delas, restitui-o à verdade onde ela nunca esteve. A inteligência crítica do tipo intelectual é o mais alto grau da inteligência crítica do tipo intelectual. Como o cigarro se houvesse apagado, o Tio Porco, com a lentidão de antes, acendeu-o de novo. — Ora as falhas da inteligência científica e da inteligência filosófica são de duas ordens — as falhas gerais e as falhas particulares. Por falhas particulares entendo as falhas peculiares de cada caso que não pertencem à essência desse tipo de inteligência, mas ao seu contacto com determinado assunto. Por falhas gerais entendo, é claro, aquelas que são substanciais nesses tipos de inteligência. Ora a falha essencial da inteligência cientifica é crer que há factos. Não há factos, meus amigos, há só preconceitos. O que vemos ou ouvimos, ou de qualquer modo percebemos, percebemo-lo através de uma rede complexa de preconceitos — uns longinquamente hereditários como são os que constituem a essência dos sentidos, outros proximamente hereditários como são os que constituem a orientação dos sentidos, outros propriamente nossos, derivados da nossa experiência, e que constituem a infiltração da memória e do entendimento na substância dos sentidos. Parece-me que estou sendo um bocadito abstruso de mais, mas eu explico. »Vejo aquela mesa. O que vejo, antes de mais nada — antes num sentido lógico, ou biológico, se quiserem — é uma coisa de determinada forma, de determinada cor, etc. Isso é o que é da longínqua hereditariedade dos sentidos, pois isso vêem com pequeníssimas diferenças, dependentes da estrutura pessoal do órgão dos sentidos, os outros homens exactamente como eu, e naturalmente, os próprios animais, de modo pouco diferente do que eu. Vejo, depois, no mesmo sentido de depois, uma mesa — o que só pode «ver» quem tenha vivido num lugar, ou numa civilização onde existem mesas, coisas daquele feitio a que chamam «mesas». É esta a visão nascida da minha hereditariedade próxima — próxima, é claro, em relação ao que a outra é de longínqua. E vejo, finalmente, uma mesa que está associada no meu espírito a variadas coisas. Vejo tudo isto, todos estes três elementos de preconceitos, com a mesma visão, com o mesmo golpe de vista, consubstanciados, unos. Ora o defeito central da inteligência científica é crer na realidade objectiva deste triplo preconceito. É claro que à medida que nos afastamos do preconceito pessoal em direcção ao preconceito por assim dizer orgânico, aproximamo-nos, não direi do facto, mas da comunidade de impressões com as outras pessoas, e assim do «facto» efectivamente, mas não num sentido teórico, senão num sentido prático. A realidade é uma convenção orgânica, um contrato sensual entre todos os entes com sentidos. — Se V. Ex.ª me dá licença — atalhei eu —, esse seu critério que não discuto, nem teria argumentos para discutir, parece-me, em todo o caso, conduzir-nos à convicção da inutilidade absoluta da observação, da ciência, enfim, realmente, de tudo. — Não é bem assim — respondeu o Tio Porco. — Se o senhor quer dizer que nos leva a crer na inatingibilidade da verdade objectiva, estou de acordo. Mas não, a verdade ou meia verdade subjectiva tem a sua utilidade, uma utilidade, por assim dizer, social: é o que é comum a todos nós, e portanto para todos nós em relação uns aos outros, é como se fosse a realidade absoluta. Acresce que, na maioria das circunstâncias da vida prática, nós não necessitamos conhecer os factos, mas apenas uma ou outra faceta deles, relativa a nós ou aos outros, para nossa utilidade. Por exemplo: aquela mesa está colocada ali à entrada da casa. Que precisa o senhor saber ao entrar aqui, a respeito dela? Que é uma mesa e que está ali. É quanto o senhor precisa de saber para não esbarrar com ela, que é o único «facto» importante para quem entra neste quarto. Para não esbarrar com ela, o senhor não precisa saber se ela é feita de uma coisa chamada pinho, ou de uma coisa chamada casquinha, ou de uma coisa chamada pau-santo. Como o cigarro de novo se lhe apagara, o Tio Porco de novo o acendeu. — Nós temos, neste caso, um erro típico da inteligência de tipo científico. Foi o do Sr. Chefe Guedes quando, informado do mau carácter do filho do ourives, e informado também de que ele frequentava muito a loja, desconfiou logo dele. Ora, concedendo que esse mau carácter seja um facto, a verdade é que não é necessariamente um facto adentro do esquema de factos que, somados, constituem os factos deste crime, ou seja o facto deste crime. O crime é um facto, o mau carácter do rapaz é outro facto. Os dois juntos podem não formar um novo facto, que seria a razão causal do rapaz com o crime. Em vez de partir, como faria a inteligência filosófica, e fez aqui o Abílio, dos factos do crime para a conclusão do criminoso, o Sr. Chefe Guedes ligou os dois fenómenos simplesmente por serem factos, e apenas por uma certa contiguidade, por assim dizer, o que é tão lógico como se ligasse o facto de que me caiu agora a cinza do cigarro, com o facto ali daquele senhor se estar a assoar, simplesmente por esses dois fenómenos se darem dentro do mesmo quarto. O Tio Porco, que tinha com efeito sacudido a cinza, aliás para cima do próprio casaco, tornou a acender o cigarro. — Isto, porém, é um pouco fora do assunto, porque não são os erros da inteligência científica em geral, e do Sr. Chefe Guedes em particular, que neste momento interessam. De resto, já o Abílio, no seu papel de inteligência filosófica, afastou esse erro particular. É verdade — eu falo assim abstractamente, e às vezes esqueço-me... Não se ofenda o Sr. Guedes de eu falar nos seus erros... Isto... — De modo nenhum — exclamou Guedes. — De modo nenhum . Além de tudo mais, V. Ex.ª tem toda a razão. — Bem, está bem, é isso que eu quero que se entenda. Ora vamos agora aos defeitos da inteligência filosófica em geral, e aos do Abílio Quaresma em particular, e aqui neste caso. A inteligência cientifica cai no erro de crer nos factos porque é essencialmente baseada na observação que dá aos factos. A inteligência filosófica cai no seu erro próprio, porque é essencialmente baseada no raciocínio que dá às conclusões. Ora o erro essencial da inteligência filosófica... — Já sei o que o Tio vai dizer — interrompeu Quaresma, sorrindo. — É que esse erro essencial é não tomar conta de todos os factos que formam o facto que se estuda, e assim tirar conclusões de dados insuficientes. — Eu não ia dizer isso, filho — respondeu o Tio Porco. — Isso não é um defeito de raciocínio, é apenas um defeito de um mau raciocínio, não é — pelo menos teoricamente — atalhou sorrindo — a essência do raciocínio. O defeito central da inteligência filosófica é objectivar-se, ou antes, objectivar o que não é senão o seu método, quer atribuindo às abstracções de que forçosamente se serve um carácter de «coisas», quer atribuindo ao decurso das coisas aquela regularidade, aquela lógica, aquela racionalidade, que são forçosamente pertença do raciocínio, mas não daquilo sobre o que se raciocina. Os raciocinadores dos séculos XVII e XVIII, sobretudo em França, que supunham que o homem procede racionalmente, erraram toda a psicologia que tinham com essa presunção racional, mas absurda. Isso, é claro, é o erro que citei na sua forma mais crassa. Nessa forma não o cometes tu –– disse o tio Porco apontando para Quaresma. — Mas esse erro tem formas mais subtis... Uma delas é a de supor que todo o procedimento pensado é necessariamente racional, em outras palavras, que toda a premeditação é lógica. — Não percebo bem — atalhou Quaresma. — O tio quer dizer que a inteligência filosófica tende a crer que toda a premeditação é bem feita, e que todo o cálculo é exacto?! Mas isso seria um erro mais que crasso! Nisso ninguém caiu nem ninguém acreditou, com ou sem inteligência filosófica! Isso seria crer na infalibilidade da inteligência humana! — Não é isso que quero dizer, filho. Quero dizer que o raciocinador nunca crê que a razão possa ser substancialmente irracional, que o raciocinador não admite o irracional como elemento positivo, e não simplesmente negativo. Olha lá, tu já leste Shakespeare? — Li em francês — respondeu Quaresma. O Tio Porco teve um gesto de impaciência. — É pior que não ter lido — disse. — Bem não é de Shakespeare que se trata. Há numa peca dele — continuou, virando-se para nós outros —, no All's Well that Ends Well, uma menina chamada Beatriz, que quando o tio lhe pergunta se vê bem, ou coisa parecida, responde: «Sim, tio, vejo uma igreja ao meio-dia.» — Que diabo quer isso dizer? — perguntou o Guedes. — Não quer dizer nada, e aí é que está o caso — respondeu O Tio Porco sorrindo. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 105. «O Caso da Janela Estreita». 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 — O raciocinador, se é deveras um raciocinador, tem o escrúpulo da abstracção, o escrúpulo de eliminar o mais possível a sua personalidade. Tem isto naturalmente, porque é raciocinador por temperamento e não por vontade. Mas, se é este, na verdade, o caminho próprio do raciocínio, às vezes é o caminho impróprio. O raciocinador elimina as intuições, e faz bem; mas às vezes as intuições são certas e nesse caso fez mal. O raciocinador elimina os preconceitos do temperamento ou de profissão, e assim deve fazer; mas às vezes esses preconceitos levá-lo-iam pelo bom caminho, e, quando os abandona, abandona também esse bom caminho. Aqui o Abílio , quando raciocina, tenta converter-se, espontaneamente, numa máquina de raciocinar. Despe o Abílio, despe o Fernandes, despe o Quaresma; despe o ter quarenta e tantos anos — quarenta e oito, não é?... Quaresma cabeceou que sim. — ... Despe o ser médico, despe o morar na Rua dos Fanqueiros — em resumo, meus senhores, separa-se de tudo isso. Ora neste caso procedeu como em todos os outros, e numa coisa fez mal. Fez mal em se esquecer que era médico. Se lhe tivesse passado pela cabeça — o que não podia ter acontecido — que a Janela estreita podia ser considerada do ponto de vista médico, a solução estaria à mão, à mãozíssima, como diria um garoto que conheci há muito tempo. — Mas — atalhou Guedes — como é que uma janela estreita pode ser considerada sob um ponto de vista médico? — Como fenómeno de simulação ou ficção histérica. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 109. «O Caso da Janela Estreita». 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 NA FARMÁCIA DO EVARISTO Era uma tarde de domingo. Acabara, na manhã desse dia, o movimento militar de 18 de Abril. Estava restaurada a ordem visível. Em todas as caras se via o aborrecimento e o mal-estar que a imprensa do dia seguinte havia de chamar "a alegria que se lia em todos os rostos", o que é possível num país onde tão pouca gente sabe ler. A farmácia do Evaristo, que estivera sempre aberta, começou a receber os seus estacionários do costume. A conversa misturou-se, simultânea e prolixa. A voz alta do Mendes, republicano democrático, erguia-se congratulatória. Nisto assomaram à porta os dois habituais que ainda faltavam. Um saudação geral os acolheu. O José Gomes, mais conhecido por o Gomes Pipa, entrou lentamente na farmácia. Das duas razões da sua alcunha, uma estava à vista no bojo formidável da sua corpulência. A outra, se alguém a quisesse saber, sabê-la-ia logo nas palavras que vinha dizendo, Acompanhava-o o Justino dos coiros. O Gomes vinha limpando a boca. — Já tenho bebido melhor... — Pois sim, mas não é mau... — Não, mau, mau não é... — Aqui este tipo defronte — pena é estar fechado — é que tem um vinho branco...! Então já está tudo sossegado? —Tudo, disse o Mendes. — E o amigo Mendes contente com o restabelecimento da ordem, ham? — Pois é claro... — E com a conduta das tropas fiéis — isto é, fiéis àquilo a que foram fiéis?... — Àquilo a que foram fiéis? Ao governo, que é a quem tinham obrigações de ser fiéis. Ao governo, a ordem, à disciplina, às instituições! Portaram-se bem. mas não fizeram senão a sua obrigação. — Folgo muito, Sr. Mendes, disse o Gomes sentando-se num banco e puxando pela bolsa do tabaco; folgo muito, como amigo da ordem, em vê-lo apreciar devidamente a fidelidade ao dever jurado e à obrigação militar. — Não vejo razão para folgar tanto! Como não pode haver dúvida que eles fizeram bem cumprindo o seu dever de militares, e até de cidadãos, não é de estranhar que se ache bem que eles o cumprissem... - Sim, senhor, respondeu o Gomes Pipa. Mas não é só por isso que eu folgo com o seu aplauso a eles e com o seu justo apreço da fé jurada e do dever militar. Folgo sobretudo, como monárquico, com a condenação, que com isso o sr. fez, da revolução e dos revolucionários do 5 de Outubro. — Hem? O quê? Do 5 de Outubro? O Gomes enrolou lentamente o seu cigarro vulgar. — Sim, do 5 de Outubro. Os militares e marinheiros, que no 5 de Outubro se revoltaram, tinham jurado, como estes, manter a ordem e defender as instituições, que eram então as monárquicas. E como estes fizeram bem mantendo-se firmes ao seu juramento e ao seu dever militar, aqueles fizeram mal faltando ao deles. É com esta sua opinião que eu folgo. Estimo-a pela imparcialidade, vindo , como vem, de um republicano. — Perdão... Não é nada disso... O 5 de Outubro é um caso diferente.. — Diferente? Diferente em quê? — E o Gomes suspendeu calmamente o acendimento do seu cigarro. — No 5 de Outubro a revolução nasceu de um impulso nacional, correspondeu, por assim dizer, a um mandato imperativo da nação inteira, ou, pelo menos, da sua enorme maioria. Tanto assim que o movimento venceu com facilidade, e com torças aparentemente insuficientes... — O ter vencido com forças aparentemente insuficientes não é argumento, meu amigo. Num país que não está numa situação brilhante de disciplina e de ordem, corno então acontecia, e com um governo fraco ainda por cima, um movimento revolucionário, desde que passe de uni simples motim, facilmente vencerá, pela repugnância que há em combater compatriotas, e pela falta de hábito em fazê-lo, para que se vença essa repugnância. Deixemos isso da vitória fácil... Ou o sr. pretende basear na facilidade dessa vitória o único argumento a favor do carácter nacional do 5 de Outubro? Se vamos a isso, com muito mais facilidade venceu o chamado "movimento das espadas", com que foi ao poder o Pimenta de Castro, sendo portanto consideravelmente mais nacional. — O movimento das espadas foi um movimento exclusivamente militar, tomou toda a gente de surpresa... — Exactamente. É isso que eu digo... Basta tomar de surpresa, apanhar os outros sem preparação condigna para vencer, sem que a vitória representa mais que os outros não estarem prontos... — Espera lá: não é só isso... O movimento das espadas, repito, foi exclusivamente militar; no 5 de Outubro entraram muitos civis... — Isso quer dizer simplesmente que havia civis que estavam na conspiração, e, se estavam, é natural que viessem para a revolução também. E quanto a outros quaisquer, logo que os armassem, porque não entrariam?... Mas eu não nego que o partido republicano tivesse em 1910 partidários bastantes para poderem entrar bastantes civis na revolução... O que nego é aquilo em que o sr. pretende basear a sua justificação da traição e da aleivosia dos militares e marinheiros (para não falar nos civis) que entraram na revolução de 5 de Outubro. O sr. diz que essa traição se justifica pelo facto de o 5 de Outubro ser um movimento nacional, uma espécie de mandato imperativo da nação. E o sr. não me citou argumento nenhum que provasse esse carácter nacional do movimento, nenhum argumente pelo qual esse movimento se distinga de qualquer outro movimento em que entrem militares, faltando à sua obrigação e ao seu juramento, e civis, porque estavam combinados para entrar ou foram armados para que entrassem. O próprio facto, que o sr. citou, de o movimento ter tido poucas forças — de aí, diz o sr. o ser de pasmar que ele vencesse, mas eu já lhe expliquei isso —, o próprio facto, repito, de o sr. dizer que o movimento se fez com pouca gente não é com certeza a melhor maneira de provar que ele representasse um mandato imperativo da nação, ou uma aspiração nacional a realizar-se. — Talvez, Sr. Gomes, eu me exprimisse mal... Exprimi-me mal, com certeza... É atmosfera, o ambiente, do movimento que provaram bem o seu carácter nacional... - Oh, amigo Mendes, isso não serve... Reduza lá isso das atmosferas e dos ambientes a qualquer coisa mais visível. Há-de haver por força sinais evidentes, distintivos, de se um movimento é nacional ou não. Essa atmosfera, esse ambiente, hão-de reflectir-se em qualquer coisa de concreto, de palpável... Refere-se o sr. por acaso à circunstância, que na verdade se deu, de o movimento ter sido acolhido, em geral, com uma certa simpatia? — Sim, isso, por exemplo... O que é que isso prova senão que... — Prova que toda a gente tinha um medo medonho da revolução republicana, julgando, pela falta de prática de revoluções, que caíam este mundo e o outro quando uma revolução viesse... Em comparação com o que as imaginações aterrorizadas se figuravam do que fosse uma revolução, o 5 de Outubro, que realmente foi brando e limpo, foi um alívio, como o é sempre a realidade, ainda que má, quando a imaginação a figurava muito pior.. Essa própria sensação de alívio deve ter despertado em muita gente uma certa hesitação esperançosa... Mas isso tudo, amigo Mendes, são fenómenos posteriores à revolução, ambiente sobrevindo mas não preexistente... Os mandatos, salvo erro, precedem o acto a que compelem... Um ambiente que se segue não é um ambiente que precede... Continuo, pois, a não achar aceitáveis as razões que alega para considerar o 5 de Outubro um movimento nacional... — É difícil de explicar, realmente, mas... — Vamos lá a ver se com o meu auxílio o sr. consegue desencaixotar a sua lógica... Vamos a um facto concreto, que realmente pode alegar-se como justificação de se chamar nacional à revolução de 5 de Outubro... Esse facto é o de ter ficado e durado a República... — Ora exactamente, é isso mesmo. — Não é, amigo Mendes, não é... A República tem durado, sim; mas tem durado de uma maneira irregular, cortada constantemente por movimentos vários, monárquicos e outros, e em perpétua atitude de sobressalto, de defesa e de confusão. E como esses vários movimentos não têm sido motins vulgares, de rua, mas revoluções em forma, algumas vitoriosas, em que entram regiões inteiras do país (como na restauração monárquica no Norte) e grandes forças do exército e numerosos civis, tem havido, ao que parece, ambiente e atmosfera para os dois lados. De modo que nada autoriza a que afirmemos que o 5 de Outubro teve mais "carácter nacional" que qualquer outra revolução ou revolta. O impulso nacional seria indubitável se, proclamada a República, caíssemos em paz, sem mais agitações nem revoluções, ou, quando muito, com meros pequenos motins, episódicos e incaracterísticos... Mas agora reparo que nos afastámos do nosso caso original... Mesmo que o 5 de Outubro fosse um movimento classificável de "nacional", isso nada tinha com a questão da traição e da deslealdade dos militares e dos marinheiros que o fizeram... É esse, creio eu, o ponto que estávamos discutindo — Perdão, alguma coisa tem... — Que coisa? — A fidelidade ao juramento é realmente uma coisa importante. Mas há casos em que não é a mais importante de todas. Os interesses supremos da Pátria, que são o mais importante de tudo, podem prevalecer, se for preciso, sobre todos os juramentos e sobre todos os compromissos de fidelidade! — Ah, sim... É verdade: o Sr. foi germanófilo? — Eu?!... Eu germanófilo?!... Mas a que propósito?... — É que esse é o argumento de que se serviu von Bethmann Hollweg naquela célebre declaração em que chamou aos tratados "farrapos de papel". Os interesses supremos da Alemanha, sua pátria, estavam, disse ele, acima da fé dos tratados, isto é, do compromisso, ou juramento, escrito que um tratado representa... — Pois sim, pois sim... Mas um tratado é uma coisa diferente... — É apenas compromisso, ou juramento, escrito. O sr. naturalmente não vai sustentar a teoria de que é legítimo, por exemplo, a gente negar as dívidas de que se não possa apresentar documento?... Mas, enfim, isto não tem nada para o caso. O seu argumento pode ser germânico e válido: a Alemanha não está proibida, depois da guerra, de ter razão... Vamos ao argumento... Se é legitimo faltar ao juramento e é obrigação em favor e defesa dos interesses supremos da Pátria — e por interesses supremos da Pátria entende o sr. sem dúvida aquilo que os revolucionários pensavam ser os interesses supremos da Pátria porque não é legítimo nos actuais revoltosos, e em todos os outros que se têm revoltado durante a República, invocar o mesmo argumento? O sr. vê neste movimento, por exemplo, homens sérios e que se mantiveram sempre fiéis à defesa da ordem e do cumprimento da disciplina. Sirva de exemplo o tenente coronel Raúl Esteves. Para ele ter entrado neste movimento, tendo-se recusado sempre a entrar em qualquer outro dos vários para que constantemente o convidavam, o que sem dúvida pensou que a isso o compeliam os superiores interesses da Pátria. Não há, pelo menos, o direito de pensar o contrário, porque então se pode pensar o mesmo contrário dos revolucionários do 5 de Outubro. Não dou o argumento como legítimo para mim — para mim nada pode prevalecer sobre o juramento prestado —, mas dou-o como legítimo para si, visto que o emprega para defender os revolucionários do 5 de Outubro, pessoas de muito menos categoria e prestígio, aliás, que os chefes desta última revolta. — Perdão, sr. Gomes... Eu não nego, nem preciso negar, que pudesse ser boa a intenção dos chefes desta revolta. O que afirmo é que, se a sua intenção era boa, era ao mesmo tempo errada. E tanto era errada, tanto o movimento não correspondia a uma aspiração nacional, que se deu com ele, apesar de bem planeado, uma coisa que eu ia ainda agora objectar-lhe, mas que guardei para depois para o não interromper... É que este movimento foi sufocado; falhou... E a verdadeira prova da falta de ambiente é essa: falhar... — Tem graça: outro argumento germânico! — Outro argumento germânico? — Sim. Foi o filósofo alemão Hegel que inventou o argumento de que a própria vitória é a justificação da vitória, e que quem vence é que tinha direito a vencer, por isso mesmo que vence. É um argumento que andou muito em uso nos escritores militares e militaristas da Alemanha, e que tem um certo parentesco moral com aquilo de "a força supera o direito" que o (...) disse, atacando Bismarck, que podia ser a divisa dele. Mas enfim, aqui estamos no mesmo caso de ainda há pouco. Um argumento pode ser de Hegel e ser valido. O caso principal é outro. A vitória é que prova a legitimidade, o "ambiente" de um movimento? Está bem... Ora o Sidónio venceu... — E quanto tempo durou a situação do Sidónio, Sr. Gomes? — Durou até ao fim, como todas as coisas. Durou enquanto durou. Não durou tão pouco que isso pese como argumento, nem acabou senão porque, estando concentrada num só homem, uma simples bala, isto é, um só homem pode terminá-la. Mas, afinal, em que é que ficamos? O Sr. tinha-me dito que a vitória de uma revolta é que provava o seu ambiente. Eu já respondi em parte a isso quando respondi à sua alusão à facilidade com que o 5 de Outubro vencera; agora respondo de novo com a vitória do Sidónio. Mas o sr. fala-me agora, já não em simples vitória, mas em duração da situação criada pela vitória, o que é uma coisa diferente... Quanto tempo é que uma situação tem que durar para o sr. a considerar legítima? — Não é o durar, meu caro senhor, é e maneira de durar... — Também já respondi a isso... Já lhe disse que se a vida da República tivesse sido de inteira paz, se a vinda da República tivesse eliminado as dissenções importantes, se poderia com efeito considerar de carácter nacional o movimento que a implantou. Mas, como não sucede isso, mas exactamente o contrário. não vejo a que "maneira de durar" o sr. alude... O Canha das barbas, que, do lado, sentado contra o balcão, tinha estado a ouvir atentamente o decurso da conversa, interveio de repente, depois de tossir. — Dá-me licença, ó Gomes, o caso não é esse... Não se trata de maneira de durar nesse sentido. Se aqui o Mendes me dá licença que fale por ele, vou ver se ponho o caso mais a claro... Desde que se implantou a República tem havido, com efeito, vários movimentos revolucionários, de parte a parte, e, dos opostos à chamada "normalidade constitucional", alguns temporariamente vitoriosos. Mas, mais tarde ou mais cedo, tem-se sempre vindo a cair na linha original, isto é, na sucessão legítima dos governos republicanos, saídos de parlamentos que são eleitos, bem ou mal, segundo normas constitucionais assentes, comuns a todos os estados civilizados. Mais tarde ou mais cedo tem-se sempre vindo cair nesta "normalidade" constitucional; por isso se pode afirmar que os movimentos contra essa normalidade constitucional, falhados ou temporariamente vitoriosos, têm sido simples interrupções, sem carácter nacional. E tanto têm sido interrupções, que as situações criadas por eles, mesmo quando plenamente vitoriosos, acabam sempre por se extinguir com uma rapidez espantosa, como a situação dezembrista se sumiu pelo chão abaixo depois da morte do Sidónio. É isto, se me não engano, que o Mendes queria dizer quando se referia à "maneira de durar" dos governos republicanos constitucionalmente legítimos, e à pouca duração do regímen sidonista como prova da sua falta de carácter nacional, em comparação com esses outros governos. É isto ou não é, ó Mendes? — Exactamente, Sr. Canha, anuiu o Mendes; é isso sem tirar nem pôr. Ainda bem que falou por mim, porque eu não punha as coisas tão certas... — Está bem, disse o Gomes Pipa. Aquilo a que se chama normalidade governativa, seja ou não constitucional, assenta forçosamente em uma de três coisas ou na continuidade com a governação anterior ou na justificação eleitoral, ou na aceitação espontânea pelo país, haja ou não continuidade e justificação eleitoral. Pode assentar em mais que uma destas três coisas, mas pelo menos em uma tem forçosamente que assentar. E não há quarta coisa em que possa assentar. Ora agora, meus amigos, vamos lá considerar essas coisas uma a uma. Comecemos pela mais simples, visto que não importa por qual se comece, desde que se considerem todas. A mais simples, para o nosso caso, é a de investigar se há ou não aceitação espontânea, da parte do país, da situação republicana, ou seja dos resultados da revolução do 5 de Outubro. A isso já eu respondi. Se, vinda a República, o país tivesse caído em normalidade constitucional autêntica, isto é, em ausência de revoluções, de contra-revoluções e de pronunciamentos, tão importantes que alguns têm sido vitoriosos, haveria direito a supor a aceitação espontânea, pelo país, da situação republicana. Mas, como se não dá essa circunstância, a aceitação espontânea não só se não pode presumir, mas claramente se vê que não existe. Pode, ainda, alegar-se que esses movimentos vários são golpes de audácia, sem mais sentido que serem golpes de audácia. Para que isso se pudesse alegar com razão era, porém, preciso — primeiro, que essas revoluções e revoltas não fossem constantes, sendo portanto constante o estado de anormalidade, que é o contrário de normalidade, constitucional ou outra; segundo, que essas revoluções não fossem importantes, e muito menos vitoriosas de quando em quando, o que indica que têm consigo a massa ou força suficiente para, pelo menos naquele momento, terem mais massa e força que o governo; terceiro, se se quiser alegar que esses movimentos são simples de audácia felizes, que se não pudesse alegar precisamente a mesma coisa do 5 de Outubro, feito com muito menos forças que a maioria desses outros movimentos. Não há, portanto, aceitação espontânea, pelo país, da situação republicana, nem nada que de longe se pareça com essa aceitação espontânea. Vamos ver, agora, se haverá justificação ou pela continuidade com a situação governativa anterior, ou pela ratificação eleitoral. Comecemos pela consideração se há ou não justificação eleitoral. Ora as eleições em Portugal ou são uma burla, ou não são uma burla ou são às vezes uma burla e outras vezes não. Se são sempre uma burla, como crê a maioria da gente, desde que não esteja a mentir por obrigação partidária, então não há justificação eleitoral, e o argumento cai pela base. Se não são nunca uma burla, então são tão válidas as eleições do tempo do Sidónio como as dos períodos democráticos, sendo-o especialmente a formidável votação que elegeu o Sidónio, por sufrágio directo, presidente da República, e que foi a maior manifestação eleitoral que tem havido dentro da República. E, neste caso, o povo português é de uma volubilidade extrema e doentia, devendo ter a governá-lo, ou regímen nenhum, para haver correspondência governativa com essa volubilidade, ou um regímen monárquico ou ditatorial absoluto, para a refrear eficazmente. Se as eleições são às vezes uma burla e outras vezes não, como distinguiremos uma coisa da outra? Considerando, não só por observação directa que qualquer de nós pode fazer e tem feito inevitavelmente, mas também pelo número de revoluções de diversos tipos que tem havido, e que têm tido força bastante para se formar e às vezes para vencer, que o país se encontra dividido entre várias correntes políticas, entre as quais algumas bastante fortes, as eleições que foram menos burla serão aquelas em que a representação parlamentar se encontra mais dividida, em que os adversários da situação política se encontrem mais largamente representados, sobretudo se forem adversários do próprio regímen. Ora o único parlamento republicano onde houve uma larga representação monárquica foi o parlamento do Sidónio. Foi portanto esse o parlamento que, sem ser necessariamente eleito com absoluta seriedade, foi o que mais se aproximou dela. O Canha das barbas interrompeu sacudidamente. — Ora adeus, ó Gomes! Os monárquicos foram eleitos nessa proporção porque o Sidónio quis... — Se o Sidónio quis, isso quer dizer que não usou de burlas eleitorais contra eles, e é isso mesmo que eu pretendo provar — que foram essas eleições, sem serem boas, em todo o caso as melhores que tem havido durante a República. O Mendes interveio, encolhendo os ombros. — O Sidónio quis, mas não foi por espírito de justiça... Quis porque os monárquicos o apoiavam, e portanto não lhe importava nada que houvesse muitos no parlamento. — Óptimo, replicou o Gomes. Se os monárquicos não hostilizavam o próprio Sidónio, temos o ideal de um parlamento de "normalidade constitucional", em que ambas as correntes que o formam, embora entre si adversas, dão ambas apoio ao chefe do Estado. É um parlamento como o inglês, em que todas as grandes correntes, que o constituem estão de acordo na obediência e aceitação do Chefe do Estado, que ali é o Rei. — V. esquece (disse o Canha) que os velhos partidos republicanos se abstiveram de ir às urnas nessa eleição... — Exactamente como os monárquicos se abstiveram de ir às urnas nas eleições para as Constituintes republicanas, o que, por esse critério, tira todo o valor a essas Constituintes, que são o início "legal" da tal normalidade constitucional. Do canto da casa, onde sempre se anichava, o coronel Bastos, reformado e matreiro, meteu a voz suave e um pouco rouca no intervalo rápido da conversa. — Não sei porque é que o Sr. Gomes gasta tanto tempo com esse argumento, a pôr hipóteses e mais hipóteses... — Com qual argumento, coronel? — Com o da justificação eleitoral. Ninguém, que esteja falando inteiramente a sério e com lealdade pode apresentar esse argumento como legítimo. Está sabido e ressabido que as eleições em Portugal são sempre uma burla, e uma burla descaradíssima. Se aqui o Sr. Mendes ou o Sr. Canha viessem objectar esse argumento, equivalia a dizer que não tinham argumento nenhum. Compreendo que se queira justificar a existência da República por qualquer dos outros dois argumentos, que o sr. pôs como hipóteses, e uma das quais já refutou, mas pelo da ratificação eleitoral... francamente!... O Gomes sorriu e voltou-se para o coronel interruptor. - Bem vê, coronel, o dever do argumentador é expor e considerar todas as hipóteses, sejam ou não plausíveis. Se não são plausíveis, o argumento o demonstrará. É claro que estou de acordo consigo e que ninguém admite como legítimas as eleições que se fazem em Portugal. A minha obrigação de argumentador era, porém, supor que alguém as pudesse admitir a sério como legítimas e refutar esse hipotético alguém. De resto, deixe-me dizer-lhe, o argumento da justificação eleitoral e refutável de outras maneiras... — Por exemplo?... perguntou o Evaristo. — Por exemplo, este... Uma eleição é, ou pretende ser, uma expressão de opinião. Para que uma eleição seja, portanto, válida como expressão de opinião, é preciso que a opinião a reconheça como expressão de opinião. Ora ninguém em Portugal acredita nas eleições políticas como expressão de opinião, ou nos resultados delas como manifestando de alguma maneira a opinião, excepto no caso de alguns deputados das oposições, que têm realmente que ter consigo alguma opinião e apoio legítimo para poderem romper as malhas da rede eleitoral do governo. Ora se as eleições são tidas pela opinião de todos como não representando a opinião de todos, as eleições não são eleições e não há justificação eleitoral porque não há realmente facto eleitoral. E o constante apelo para as revoluções e para os pronunciamentos confirma isto decisivamente. Que querem dizer essas revoluções e esses pronunciamentos, no fundo, senão a falta de confiança na legitimidade dos resultados eleitorais, o reconhecimento, por toda a gente, que esses resultados eleitorais não são realmente válidos? E quando não queiram dizer isso, mas signifiquem simplesmente a vontade de saltar por cima dos resultados eleitorais, que quer isso dizer senão que não há respeito orgânico pelos resultados eleitorais; e que portanto um regímen ou situação política, para se justificar perante todos e ser tido geralmente por válido, tem que buscar outro apoio que não seja o das eleições? — Não há dúvida, disse o Evaristo. — Tudo isto, porém, continuou o Gomes, todos estes argumentos são dispensáveis. O verdadeiro argumento contra a justificação eleitoral por eleições das que caracterizam os regimens liberais é que essas eleições, mesmo quando feitas com seriedade moral, são organicamente uma burla política. — Ora essa! — exclamou o Mendes. — E porquê? — Em toda a parte, em todos os países civilizados, como disse ali o sr. Canha, as eleições, que custam muito dinheiro, que necessitam de uma propaganda insistente e hábil, de uma organização especializada, só podem ser efectuadas por organismos partidários para isso preparados, para isso habilitados, e dispondo dos fundos para isso. Assim é em Inglaterra, por exemplo, onde as eleições são, ao que dizem, moralmente limpas, e onde há uma antiga tradição representativa.. E se assim é em Inglaterra, onde as eleições são tão moralmente limpas quanto podem ser, em todos os outros países são de aí para pior. O facto é, porém, que, à parte um outro deputado independente, que, em geral, por uma questão de influência local — que pode, aliás, ser puro caciquismo, como se costuma dizer —, só os partidos organizados é que fazem as eleições e elegem os candidatos, dispondo assim, por fim, não da maioria, mas da enorme maioria ou quase totalidade da assembleia representativa resultante. O eleitor não escolhe o candidato; escolhe entre candidatos que lhe apresentam os partidos e, se embirra com todos, não vota, e os partidos ganham da mesma maneira. Ora os partidos são dirigidos e orientados por directórios, ou como quer que se lhes chame, nos quais prepondera a opinião de três ou quatro indivíduos, o máximo, e por vezes de um indivíduo só. No fundo, pois, o resultado de uma eleição política no regímen liberal — mesmo sendo essa eleição séria e moralmente limpa — é a imposição hipócrita da vontade de meia dúzia de indivíduos a uma nação inteira, que por vezes, em casos extremos de auto-sugestão, como na Inglaterra, chega a acreditar que tem vontade própria. E a assembleia "representativa", uma vez eleita, passa a funcionar sem fiscalização directa da própria "opinião" que a "elegeu", e a fazer, muitas vezes, exactamente o contrário do que prometeu nos comícios, e, outras vezes , coisas que, se não são esse contrário, são coisas que, pelo menos, o eleitorado não sancionaria, se as levassem perante ele. É em virtude disso que os conservadores ingleses — os conservadores, reparem! — chegaram a propor, para o caso de certas medidas graves, surgindo inesperadas, e que não haviam sido objecto das declarações nos comícios, o estabelecimento do princípio, aparentemente tão pouco conservador, do referendum . O Gomes parou um pouco, e aproveitou a própria paragem para puxar de novo pela bolsa do tabaco. — Os indivíduos — a tal meia dúzia ou dúzia de indivíduos, se não forem menos — que preponderam nos organismos partidários, e que portanto verdadeiramente governam o país, têm a sua responsabilidade nas situações políticas coberta e dispersa pela massa do partido a que pertencem, do eleitorado que compeliram a votar neles através do partido, e da assembleia "representativa" "eleita" por esse eleitorado. Exercendo realmente uma ditadura, exercem-na hipócrita e cobardemente, cobertos por uma massa partidária que, como é anónima, vem a ser praticamente ninguém; contraem portanto, com a índole despótica do ditador, a obliquidade moral que vem do sentimento da impunidade e alguns, se não todos os vícios que provêm do exercício constante do disfarce e da hipocrisia. E quando a isto se acrescenta que, para subirem nesses partidos até à situação de preponderância que neles têm, esses homens tiveram que servir os ditadores hipócritas que os precederam na direcção real desses mesmos partidos, vê-se que a índole hipócrita e a obliquidade moral, que seria natural que contraíssem no mero exercício da sua ditadura velada, já as haviam realmente adquirido antes, no serviço dessa mesma ditadura, pelo qual conseguiram chegar, por sua vez, a ser ditadores. Estes factos indubitáveis (continuou o Gomes, com uma certa animação) sofrem um certo paliativo nas nações mais instruídas e educadas, porque a própria hipocrisia do ditador velado lhe impõe limites nas doutrinas e processos que empregue; a relativa lucidez e atenção do espírito público espontaneamente se revoltariam se os ditadores velados quisessem pôr em prática medidas de profunda corrupção — sobretudo de corrupção visível — ou normas de onde derivasse um manifesto perigo para a nação ou para os seus componentes. O hipócrita tem que contemporizar. E de aqui resulta que aquelas vantagens que se costumam atribuir aos regimens liberais — citando a sua acção em países como a Inglaterra — não provêm realmente dos regimens liberais, mas da educação e instrução do povo, do seu activo orgulho nacional, da sua moral social relativamente elevada. A mesma educação, a mesma instrução, o mesmo orgulho e senso moral operariam do mesmo modo qualquer Que fosse o regímen, e não poderia pensar em ir contra ele um rei mais do que um ditador velado, considerando sobretudo que num caso a responsabilidade é directa e visível, no outro dispersa e ocultada. — Mas essa educação e esse orgulho nacionais, interveio o Canha, não serão, pelo menos em parte, produzidas por esse regímen liberal? — Não, respondeu o Gomes. Quanto à instrução, ela nasce e desenvolve-se com o desenvolvimento da civilização, que por sua vez promove; qualquer regímen, que reja uma nação civilizada, tem forçosamente que estimular e desenvolver a educação; porque o espírito público assim o exige e espera. Quanto à moral social, nenhum regímen a cria, porque não é essa a esfera de acção dos regimens políticos; a moral social, criam-na a família os indivíduos no seu simples trato social, as influências morais e religiosas. E quanto ao orgulho nacional, cria-o, em parte, o ser uma nação grande; o sentimento da independência, cria-o o ser uma nação ou ameaçada ou constantemente agredida, e assim por aí adiante... Mas, enfim, isto são notas à margem. Voltemos ao seu argumento primitivo. Creio ter demonstrado que, se não há justificação da nossa República pelo assentimento espontâneo do país, também a não há pela ratificação eleitoral. — Está bem, provou, concedeu o Canha. Mas ainda havia uma outra hipótese, se me não engano... — Havia... A terceira hipótese, que é a que falta considerar, é de que a República possa ter uma justificação da sua existência na continuidade com o sistema governativo anterior... O coronel Bastos desatou o riso. — Aí não é preciso argumento, disse. Se o que estava antes era a Monarquia, basta a República não ser Monarquia para não haver essa continuidade. — Sem dúvida, coronel... Mas um argumentador hábil complicaria um pouco mais a questão; e o meu dever é pôr as objecções, quando as ponho eu a mim mesmo, como se elas fossem postas por quem soubesse pô-las. A essência do regímen liberal — de qualquer regímen liberal — é a limitação do poder do Chefe do Estado, ou, antes, a sobreposição ao poder do Chefe do Estado, por uma assembleia emanada directamente (por aquele lindo processo que já expus) de um certo número de indivíduos inscritos em cadernos eleitorais, a que, não sei porquê, se chama "a nação". Dizendo melhor, a essência do regímen liberal é a transferência do poder para a tal "a nação", quer ela aceite o Chefe do Estado (que é quando, sendo rei, não é eleito por ela), quer ela eleja directamente o Chefe do Estado como no regímen republicano presidencialista, e assim nele delegue esse tal poder que em ela reside, quer eleja uma assembleia qualquer em quem delegue esse seu poder, e que depois, por sua vez, eleja o Chefe do Estado. Ora a República Portuguesa — a tal da normalidade constitucional — pode alegar em seu favor, isto é, em favor do seu carácter nacional, que realmente está em linha de continuidade com a essência do regímen liberal, salvo num pormenor — a chefia do Estado desse regímen. Mas, infelizmente para a República, este argumento também não serve. O Gomes Pipa parou um pouco, e enrolou o cigarro de cujo pensamento a lógica o afastara . — O regímen liberal, continuou sem acender o cigarro, é já uma quebra de continuidade governativa. Até 1820, e quaisquer que fossem as vicissitudes da nossa política interna, uma coisa permaneceu firme e contínua — o facto de que o poder todo residia essencialmente no Rei. O regímen liberal manteve o Rei, mas transferiu o poder para a tal "nação". Propriamente falando isto não é manter o rei, nem manter continuidade nenhuma, pois o Rei não é separável do seu poder, e, não o sendo, não há continuidade desde que se faça a separação. Mas, enfim, isso agora não importa, e é um outro assunto... O regímen liberal, repito, manteve o Rei, e assim, na linha de argumento que nós estamos considerando, poderia alegar como manutenção de continuidade a manutenção da Monarquia. A revolta republicana o que fez? Manteve continuidade com o regímen liberal naquilo que nele, perante este argumento de continuidade (que é o que estamos considerando, e não outro), representa ruptura de continuidade. Como a continuidade tem que ser contínua, para que possa ser invocada como continuidade e chamada continuidade, vem isto a dar em que a República continuou o liberalismo naquele ponto em que ele não continuou nada, Isto é, em que, perante o argumento da continuidade, era ilegítimo. Em outras palavras, a República, perante este argumento da continuidade, não é senão o regímen liberal elevado à injustificação absoluta. — Bravo! — exclamou o coronel Bastos, quase caindo do seu banco. Isso é que é argumentar! O Gomes acendeu finalmente o seu cigarro adiado. Depois voltou-se para o Mendes, e um momento lhe passou nos olhos uma luz subtil de manha irónica. — Quer dizer, amigo Mendes, disse ele sorrindo, ainda há uma espécie de continuidade que os senhores poderiam invocar, e que não é nem a continuidade do regímen aparente, nem a continuidade do regímen real. Os senhores poderiam invocar a continuidade de maneira de governar.. — Será essa que os senhores quererão invocar?... — "Maneira de governar" como? interrogou o Mendes. — Da seguinte forma... Os governos monárquicos eram incompetentes e corruptos, o sistema eleitoral monárquico incompetente e corrupto, o governo do país, sob a Monarquia, era uma oligarquia de partidos governando à parte da nação e contra a nação. (Estou-me servindo de asserções dos senhores, sem as discutir, porque estou argumentando pelos senhores.) Ora os senhores podem alegar que não representam uma quebra de continuidade porque continuam a governar com incompetência e corrupção, que continuam a fazer eleições com competência e corrupção, e que continuam a ser uma oligarquia de partidos (ou de um só, mas não faço caso dessa pequena falha no seu argumento) que governam à parte da nação e contra ela. Não sei se querem que eu considere também este argumento... O Mendes, num gesto brusco, pôs em meio-risco um vaso tapado com seringas de diversas espécies. — Isso é uma brincadeira! exclamou irritado. — Bem: o caso é consigo... Então abdica do argumento? — O argumento não é meu; não tenho que abdicar dele... — Não é seu mas é dum argumentador hábil que falasse por si... Em todo o caso, há para ele uma resposta a sério... Vou refutá-lo. — Homem, para quê? interpôs o Canha. — Diga, diga, ó Gomes! pediu o coronel puxando por um charuto e por mais contentamento. — Vou refutá-lo, amigo Canha, por duro dever de raciocinador. Tenho por obrigação pôr todas as hipóteses possíveis, e refutar as que considere falsas, que neste caso das justificações possíveis da República, são todas. Mas isto vai depressa... O caso é este... — Ora adeus! — exclamou o Mendes, num gesto parado de quem vai a sair. — É claro, prosseguiu o Gomes Pipa, que uma legitimação pela imoralidade é impossível, e por isso, realmente, o argumento é improcedente e absurdo. Mas, admitindo mesmo que o não seja, é improcedente até na espécie em que se estabelece. Para continuar a imoralidade convém alterar o menos possível as condições de imoralidade; ora fazer uma revolução é, pelo menos, introduzir uma perturbação no estado, perturbação necessariamente seguida, como foi, de diversas outras perturbações. Ora para comer tranquilamente à mesa do orçamento o essencial é essa mesa não estar em riscos de ser arrancada aos comensais. A perturbação é, portanto, incompatível mesmo com o propósito de imoralidade. Dir-se-á que os republicanos não poderiam facilmente apoderar-se do poder, e comer eles só, sem afastar primeiro os outros que lá estavam. Nesse caso, mandava a boa imoralidade que se juntassem a um partido dos outros, que, dada a força que levariam consigo, de bom grado lhes pagaria a adesão. Ou então formassem um partido à parte, dentro da Monarquia, e, valendo-se, para fins de simples ameaça, da força que puseram em prática na revolução, conquistassem efectivamente o poder para eles só e para o jantar em família. E, se se alegar que não tinham força para essa conquista, sem ser pelo processo revolucionário, resulta que a sua força era fictícia, podendo vencer só com o golpe de audácia e de surpresa, de modo que até aqui, e no meio deste triste argumento, se vê bem que o movimento não tinha carácter nacional, nem mesmo imoral, e que nem a continuidade da corrupção e da incompetência pode ser invocada, apesar de todas as aparências, pelos republicanos. — Está bem, homem, está bem, disse, irritado, o Mendes. Para que está V. a perder tempo com essa brincadeira? — Para disfarçar um sofisma, interveio o Canha. O nosso Gomes, não sei se os senhores repararam? sofismou todo este argumento da continuidade, e por isso convém-lhe acabá-lo numa espécie de desvio de brincadeira... — Sofismei o argumento? — Sim senhor, sofismou. — E em que é que o sofismei? — No seguinte... A continuidade, que se pode exigir à República que invoque para alegar a sua legitimidade, ou a sua normalidade constitucional ou governativa, não é, amigo Gomes, a continuidade com a monarquia, e muito menos com a monarquia absoluta, etc., etc. A continuidade republicana tem que contar-se desde que se estabeleceu a República; é a continuidade do regímen consigo mesmo e adentro de si mesmo, e não com outros regimens, e fora de si... Lá nos outros argumentos, o da aceitação nacional, e o da justificação eleitoral, foi V. muito bem, mas aqui teve que sofismar, que tirar o problema do seu verdadeiro campo, para simular o triunfo... O Mendes, o Evaristo e até o Justino, em geral atado ao seu silêncio, sorriram ou riram desta objecção oportuna. Mas o Gomes Pipa, ao contrário do que seria de esperar, sorriu também, uni sorriso vasto e contente. O coronel Bastos, que o fitava atento, carregou a expressão de atenção. — Contra essa objecção, disse o Gomes, esfregando as mãos, há nada menos de cinco respostas. Em primeiro lugar, não se trata de simples continuidade, mas de continuidade como sinal de legitimidade; ora a continuidade de uma coisa consigo mesma não pode determinar, de si, a legitimidade, porque assim tudo neste mundo era legítimo, visto que tudo, enquanto dura, dura, e é pois contínuo consigo mesmo. — Em segundo lugar, não se trata de continuidade como simples duração, mas, como Os senhores mesmos disseram, de maneira de durar . Se se tratasse de continuidade como simples duração, então é essencial que essa continuidade não fosse nunca interrompida, que não tivesse havido nunca movimento revolucionário algum, com carácter vitorioso, a cortar a vida da "república original", em outras palavras, que não houvesse descontinuidade. — Em terceiro lugar, reparem que estávamos considerando a justificação irracional da República; a continuidade de que se trate, pois, para esta justificação, é uma continuidade nacional, e não uma continuidade de regímen ou de partido. Ora, como a nacionalidade não começou em 5 de Outubro de 1910, a continuidade nacional também não começa aí. E se há uma continuidade partidária e não nacional, há uma continuidade partidária e anti-nacional, e esse partido está contra a nação. — Em quarto lugar, trata-se de continuidade governativa, e como a essência do governo é dominar, e uma das condições de dominar é reprimir revoltas e movimentos adversos, desde que haja ou movimentos adversos constantes, ou um só vitorioso, não há continuidade de domínio, não há portanto continuidade de governo. — Em quinto lugar, a continuidade constitucional, que é a de que se trata, é uma continuidade de ordem e a "República Constitucional" nem tem mantido a ordem, nem, quando tem retomado o seu curso, o tem sempre retomado por processos de ordem. E aqui tem, amigo Canha, cinco dedos da mão do argumentador a estrangular a sua objecção... — Magnífico, magnífico! exclamou o coronel, trincando a ponta do charuto como se ele soubesse a raciocínio. — Quanto mais o apertam, mais V. se desembaraça. O Gomes apontou o seu corpo prolixo. — Quando me enlaçam, caio em cima deles... disse modestamente. Fez-se uma pausa ligeira na conversa. Entrara um freguês que se devolveu à rua com uma garrafa de água de Vidago. O coronel Bastos acendeu, sorrindo, o seu charuto. Depois, indo o freguês a sair, voltou-se para o Gomes com uma voz interessada: (...) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 108. Apesar de me maçar por antecipação, a ideia de ir contar ao Dr. Quaresma toda a história do roubo, não podia decentemente furtar-me a fazê-lo. Por isso, resignando-me com placidez, lhe expus, resumindo o mais possível, todos os factos que vão expostos no decurso desta narrativa. Fiz, como é de supor, algumas supressões: não falei nas dívidas do José Alves, nem no caso dos quinhentos escudos, e muito menos da parte do discurso do Lima de que estas coisas tinham sido o assunto e a base. Não pude, porém, esquivar-me a falar da hipótese policial, de que havia uma quadrilha a trabalhar, e que a polícia suspeitava que o fizessem em ligação com alguém de dentro da Quinta das Vinhas. Se não explicasse isto, era incompreensível a prisão de José Algarvio; e, aliás, bastava que o Dr. Quaresma se interessasse activamente por ele para o descobrir na polícia. O Dr. Quaresma ouviu-me com grande atenção mas, se assim posso dizer, com uma atenção dividida. Parecia, ao mesmo tempo que me ouvia com os olhos, estar escutando uma voz que não era a minha. Reconheço o absurdo deste modo de dizer, mas transcrevo a minha impressão sensorial. Na realidade, o Dr. Quaresma parecia, sem deixar de me ouvir atentamente, estar todavia a seguir o decurso interior de uma outra coisa — raciocíno ou conjectura ligada — que não deixava de ter relação com o que eu ia narrando. Acabei, por fim, a minha narrativa, e supunha-me livre do fardo dela. Mas o Dr. Quaresma, que não me interrompera enquanto eu contava, começou nesta altura a interrogar-me. Pediu-me uma descrição minuciosa das pessoas que estavam na casa por ocasião do roubo; a minha descrição directa havia sido sumária. Interrogou-me sobre idades, profissões, estados financeiros, e tudo mais. Comecei a sentir-me menos à vontade, sobretudo quando o José Alves era o assunto do interrogatório. Eu não podia dizer toda a verdade sobre o José Alves, mas também, em simples justiça ao preso, não podia suprimir redondamente os factos. Além disso, não estava muito seguro que o Dr. Quaresma, falando depois à polícia, não iria descobrir os fundamentos da outra hipótese do agente Lima. Decidi narrar o caso de certas atrapalhações financeiras do José Alves, não explicando o jogo que ele motivara, nem fazendo referência ao furto anterior. A certa altura, porém, comecei a atrapalhar-me, pois o médico entrou no assunto por desvios. Perguntou-me se as relações entre pai e filho tinham sido sempre boas, ao que eu respondi que me parecia que sim, mas o próprio verbo «parecer» me soou cauteloso de mais, e receei que levasse ao Dr. Quaresma mais informação do que eu queria dar. Com essas e outras perguntas me entreteve, sem me divertir, durante cerca de uma hora e meia, a contar do início da minha conversa. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 111. «O Roubo na Quinta das Vinhas». 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 On Error Error is in sensation and only in sensation. All error proceeds from ignorance (and from haste). For suppose a reasoning from something. This reasoning, suppose, is false. Another reasoning is true. What is the difference between these two acts of reasoning? What is wrong? Is it the reasoning, the mechanism thereof ? Obviously not, for since one reasoning is true and another is false, and more, since the mechanism of reasoning cannot be different in one case and in the other, error cannot be in reasoning. It must therefore be in sensation, that is to say, in the way of interpreting a fact by sensation. It follows from this that if we could be absolutely certain that our sensation corresponds to the reality, we could not reason falsely nor fall into error. (On Error. A commentary on the Theetetus of Plato). How do you notice error? How do you correct it? How can we tell what is reality? 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 233. Podem os elementos militares, que promoveram o pronunciamento recente, alegar que não fazem política porque procuram simplesmente manter a ordem, moralizar os serviços públicos e administrar. Seja, mas o facto é que se não pode deixar de fazer política ao fazer política. Limitar a actividade política à manutenção da ordem e à administração é uma doutrina política: é o conservantismo simples, que defende a simples estabilização da vida nacional, em oposição ao conservantismo reformista, que procura impor-lhe um quadro de instituições em qualquer modo semelhantes a instituições do passado. Está certo, e achamos que está bem, que o Exército se declare partidário do conservantismo simples: é uma das doutrinas políticas mais sãs e mais úteis, pois quem não buscar reformar, mas só administrar, dificilmente causará perturbações sociais. Não as poderá, mesmo, causar, a não ser que administre estrondosamente mal. Mas a administração estrondosamente má deriva, quase sempre, da preocupação de fins não administrativos. Digamos o paradoxo (porque dizer paradoxos faz bem à alma): o Exército reformará se não quiser reformar. Mais adiante daremos os pormenores desta orientação. O que está bem, repetimos, é que o Exército se declare partidário do conservantismo simples; o que não está bem é que se declare partidário de coisa nenhuma, como se fosse composto de poetas decadentes. A parte da população que domina politicamente é aquela que se ocupar de política; e a que se ocupa de política divide-se naturalmente em partidos. "Ir contra os partidos" é portanto uma expressão absolutamente destituída de sentido. Só verdadeiramente "vai contra os partidos" quem é indiferente em matéria política. Desde que tenha unia opinião política activamente entra necessariamente para um partido qualquer, esteja ou não "filiado" nele, com cartão de identidade e pagamento de quota. Partidos políticos são todos os que são partidos e fazem política, desde os reaccionários da direita (integralistas) até aos reaccionários da esquerda (comunistas e sindicalistas revolucionários). Quando o Exército declara que se moveu contra os políticos, constituiu-se, ao assim se mover, em partido político, e, na realidade, foi não contra os partidos políticos, mas contra os outros partidos políticos — o que é diferente e já faz sentido. Pode alegar-se que por "partidos políticos" se entende os partidos políticos corruptos. Esta frase também não tem sentido. Políticos corruptos chamamos todos nós aos que são de partidos diferentes do nosso; é uma das amabilidades naturais do espírito humano. Depois, os partidos políticos que vivem em determinado meio são necessariamente reflexos do estado geral desse meio, pela simples razão que é nesse meio que nasceram e existem, e não em outro meio qualquer. Os partidos políticos, em determinado país e determinada época, têm todos a mesma mentalidade, têm todos virtualmente o mesmo grau, pouco ou muito, de corrupção. Há uma ressalva, que propriamente o não é, a fazer. Os partidos de governo — isto é, os partidos que frequentemente governam, e por isso, em geral, os maiores — agregam mais videirinhos e mais interesseiros, pela simples razão de que os videirinhos e os interesseiros buscam naturalmente os partidos que os podem empregar e recompensar, e esses são, naturalmente, os partidos que governam, ou frequentemente governam, e não os que nunca vão ao poder. O Partido Democrático deve a este facto, de ser um partido frequentemente no governo, a enorme quantidade de interesseiros de que se compõe; não o deve a qualquer particularidade da sua constituição íntima, ou das doutrinas que professa e em torno das quais se formou e mantém. Por outro lado, os partidos tipicamente de oposição — isto é, os que não vão ao poder, ou não podem ir, ou dificilmente podem ir — agregam, mais que os outros, os elementos perturbadores e anti-sociais, e fazem-no na proporção em que são extremistas (da direita ou da esquerda) adentro do seu oposicionismo. É fácil de compreender a razão: partidos de combate, são tanto mais de combate quanto menos provável têm o poder próximo, e são tanto mais agressivamente de combate quanto mais longe se sentem, pelas próprias doutrinas que professam, da posse, ou da posse fácil, desse poder. Os indivíduos de instintos criminosos convergem naturalmente para esses partidos, e para as doutrinas que defendem, porque esses partidos e essas doutrinas lhes servem instintivamente de apoio e de alimento aos maus instintos. Daí, os bombo-sindicalistas; daí os chamados "trauliteiros". Metade do país é monárquico; metade do país é republicano. O problema do regime não tem, pois, solução nenhuma. É claro que os partidários de cada tipo de regime dizem que a maioria está com eles: o que haveriam eles de dizer? Mas este é o facto — os partidários dos dois regimes equilibram-se numericamente. Perante o argumento do número, nenhum dos regimes é portanto mais legítimo que o outro. Por qualquer razão, que não nos compete investigar, os republicanos estão mais organizados que os monárquicos; noutras palavras, a maioria republicana activa é mais activa que a minoria monárquica activa. É por isso que há República; é por isso que a República se mantém; é por isso que legitimamente a República deve manter-se. Por isso — tenhamo-lo bem presente — e não porque a República seja geralmente superior à monarquia, ou particularmente superior no nosso caso. Defendamos pois a República sem ser por qualquer espécie de republicanismo. Defendamo-la como correspondendo ao "facto", por oposição tanto ao "direito" como à "teoria". Mas tenhamos consciência — e tenham-na os governantes — de que é por isto que a devemos defender e manter. Abstenhamo-nos de lhe dar vivas, para que nos abstenhamos de ofender aquela metade da população a quem esse regime não agrada, mas que o aceitaria, do mesmo modo que os autores deste manifesto, logo que constantemente lhe não estejam lembrando a existência dela. Toda a revolução é essencialmente inútil. O indivíduo é um produto de dois factores — a hereditariedade e o meio. Dois indivíduos nascidos no mesmo meio são diferentes pela hereditariedade (pois mesmo que sejam irmãos, há na hereditariedade o factor chamado "variação") e são semelhantes pelo meio. Todo o agrupamento formado em determinado meio — como é formado pela aproximação dos indivíduos seus componentes, e esses indivíduos se aproximam e se entendem por o que há neles de comum, que é o que neles é produto do meio — é pois um reflexo desse meio. O agrupamento que faz uma revolução tem pois a mesma mentalidade e o mesmo carácter que o agrupamento que essa revolução derruba e substitui. Uma revolução pode pois definir-se "um modo violento de deixar tudo na mesma". Como, pois, se reforma uma sociedade? É simples: por um movimento não colectivo, isto é, por um impulso puramente individual. Há dois tipos de indivíduos em que a influência do meio é subordinada à da hereditariedade: são as duas variações extremas chamadas o louco e o génio — variações, aliás, aparentadas, pois o génio, seja o que for socialmente, é biologicamente loucura. Não há reforma social que não parta de um homem de génio. Desse homem de génio passa para uma pequena minoria, dessa pequena minoria para uma minoria maior, até que alastra para a sociedade inteira. Não é, pois, inteiramente absurdo o conceito "providencialista" da vida das sociedades: a civilização é obra de homens de génio, e o... s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 109. — Só o posso fazer pondo a mão no verdadeiro criminoso. — Então faça-o, Sr. Dr. Quaresma. Quaresma desdobrou as mãos, estendeu a dextra e tocou-me no ombro. Por fim, levantou-se da cadeira, e dirigiu-se para um cabide onde tinha o chapéu. — Não se importa que saíssemos? — perguntou. — Queria passear um pouco para acabar uns certos raciocínios. — Não me importo nada. — E saímos. Descemos a Rua dos Fanqueiros. Estava uma tarde linda de Outono. Seguimos lado a lado, silenciosos ambos, e, no fim da rua, seguindo o movimento do Dr. Quaresma, virámos à direita, para o Terreiro do Paço. O Dr. Quaresma avançou lentamente, cabisbaixo, as mãos sempre cruzadas atrás das costas, até à muralha da esquerda. Ali parou, e eu com ele, e contemplou vagamente o rio. Esteve assim um momento. Depois voltou-se para mim com uma expressão grave e directa nos olhos naturalmente um pouco febris. — Eu salvo o José Algarvio — disse. — Mas, antes de o fazer, preciso estudar com muito cuidado como hei-de proceder no assunto. Calhou muito bem que fosse o Sr. Claro que me procurasse, porque é consigo que eu tenho estudar a sério a resolução do assunto. Diga-me uma coisa: ocorreu-lhe alguma vez que o José Alves pudesse ser suspeito? — Se me ocorreu? Não. Como sabe o Sr. Dr. Quaresma que ele é, ou pode ser suspeito? — Concluí das palavras que o Sr. Claro me não disse. — Fez uma pausa. — Teria pena que o senhor tivesse pensado que o José Alves pudesse ser suspeito. Ele é o seu amigo, não é verdade? s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 112. «O Roubo na Quinta das Vinhas». 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 O Interregno. Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal 1 PRIMEIRO AVISO O Núcleo da Acção Nacional, que em várias horas necessárias tem intervindo — suavemente, como é seu modo; obscuramente, como é seu mister — na vida da Nação, pediu-nos, que todavia a ele não pertencemos, que escrevêssemos, por ser a ocasião de o fazer, um esboço ou breve formulário do que, em nosso entender, poderia ou deveria ser o Portugal futuro em as várias manifestações da sua vida colectiva. A esta incumbência agregou o Núcleo a condição, a si mesma imposta, de que aceitaria por bom o que escrevêssemos, e com tudo o que isso fosse se conformaria, tendo-o por próprio. Nestas condições, gratas não só por tais, mas também honrosas, escrevemos o presente opúsculo, e escreveremos, se a ordem e a hora forem dadas, o livro que será composto deste opúsculo, como introdução ou primeira parte, e de quatro outras partes como complemento. Serão, pois, cinco as partes desse livro, até se chegar ao fim do desenvolvimento da doutrina. A primeira parte, que está neste opúsculo, é introdutória. A segunda tratará da Nação Portuguesa; a terceira do Estado Português; a quarta da Sociedade. chamada Portugal. Mais tarde se compreenderá em que consiste esta distinção. O mais importante, se não se ordenar que fique por dizer, formará a quinta parte desse livro. Este opúsculo trata exclusivamente da defesa e justificação da Ditadura Militar em Portugal e do que, em conformidade com essa defesa, chamamos as Doutrinas do Interregno. As razões, que nele se presentam, nem se aplicam às ditaduras em geral, nem são transferíveis para qualquer outra ditadura , senão na proporção em que incidentalmente o sejam. Tão-pouco se inclui nele, explícita ou implicitamente, qualquer defesa dos actos particulares da Ditadura Militar presente. Nem, se amanhã essa Ditadura Militar cair, cairão com ela estes argumentos. Não haverá senão que reconstruí-la, que estabelecer de novo o Estado de Interregno: não há outro caminho para a salvação e renascimento do País senão a ditadura militar, seja esta ou seja outra. Cumpre que isto fique desde já entendido como intuito proposto; ficá-lo-á como caso provado quando se houver lido o opúsculo. Escrevemos estas páginas num tom, num estilo e numa forma propositadamente antipopulares, para que o opúsculo, por si mesmo, eleja quem o entenda. Tudo quanto, em matéria social, é facilmente compreensível, é falso e estúpido. Tão complexa é toda matéria social que ser simples nela é estar fora dela. É essa a principal razão por que a democracia é impossível. O que vão ler, não todos os Portugueses que nos lerem, se não todos que nos souberem ler, é escrito sem obediência a nenhuma tradição nossa, sem subserviência a teoria nenhuma estranha., sem atenção a nenhuma corrente do chamado pensamento europeu. Pensámo-lo nós por nós e por nós o elaborámos e dispusemos. No livro, que porventura o inclua, será este texto revisto, e talvez desenvolvido. Escravos da mentalidade estrangeira, uns; escravos da falta de mentalidade própria, todos — nenhuns Portugueses, políticos ou não políticos, têm podido falar nacionalmente ou superiormente a este País. Fá-lo hoje, pela primeira vez desde 1578, e por nosso intermédio, o Núcleo de Acção Nacional. Para o que vamos afirmar, e para o que depois teremos que propor, não queremos a atenção dos sub-Portugueses que constituem a maioria activa da Nação. Mas a atenção dos outros, dos que têm um cérebro que pode ainda vir a pertencer-lhes, nem a queremos nem a pedimos — exigimo-la. 2 PRIMEIRA JUSTIFICAÇÃO DA DITADURA MILITAR Metade do País é monárquica, metade do país é republicana. São estes os factos. Não falamos do País dividindo-o em Norte e Sul, ou em qualquer outra divisão de terras. Não falamos do País dividindo-o em classes cultas e incultas ou em qualquer outra divisão de homens. Falamos de Portugal na simples quantidade dos seus habitantes nacionais. Desses se pode dizer, com verdade pragmática, que metade é monárquica, metade republicana; que são sensivelmente iguais, que são iguais para todos os efeitos práticos, o número de monárquicos e o número dos republicanos. São estes os factos: o resto é fala política: fica para os maiorais que dela usam e para as rezes que crêem nela. Da parte monárquica, uma pequena minoria é activa e forma os partidos monárquicos que se manifestam. Da parte republicana, uma minoria maior é activa e forma os partidos republicanos que se manifestam. O resto do País, seja virtualmente monárquico ou republicano, é apático e indiferente quanto à manifestação, ou até quanto à consciência das suas tendências. Como a minoria republicana é maior, mais activa e mais coesiva que a minoria monárquica, existe República, e não Monarquia, em Portugal. Não existe República por nenhuma outra razão. Esta condição política do País tem paralelo num fenómeno que, como procede da mesma causa, que é o estado mental português, pode servir de símbolo dessa condição política. Somos o país das duas ortografias. Da gente que entre nós sabe escrever, parte escreve em ortografia latina, a outra parte na ortografia do Governo Provisório. A maioria, porém, não sabe ler nem escrever. Assim as letras são a sombra dos factos, e lemos mais na leitura do que esperávamos. O facto essencial é este: Portugal é metade monárquico, metade republicano. Em Portugal presente, pois, o problema institucional é inteiramente irresolúvel. De direito, de qualquer espécie de direito não pode haver República, não pode haver Monarquia, em Portugal. Há República pela razão já dita, e porque tem que haver qualquer causa. Mas essa República não é, nem pode ser, República, como a Monarquia, que a precedeu, já não era, nem podia ser, Monarquia. Estando a Nação dividida contra si mesma, como pode ela ter um regime que defina a união que ela não tem? Repita-se, pois, para que se oiça: o problema institucional é hoje irresolúvel em Portugal. Porque razão, porém, está a Nação assim dividida contra si mesma? A razão é fácil de ver, porque o caso é daqueles para que pode haver uma só razão. Estamos divididos porque não temos uma ideia portuguesa, um ideal nacional, um conceito missional de nós mesmos. Tivemos — para bem ou para mal, porém com certeza não só para mal — um conceito de império, a que nos forçaram nossos Descobrimentos. Esse conceito caiu em Alcácer-Kibir. Nem, no longo e triste curso das três dinastias filipinas — a dos Filipes, a dos Braganças e a República —, houve mais que a minguada e passiva estirpe dos Sebastianistas literais que em algum modo mantivesse viva e amada a memória da alma de Portugal. Ora todo ideal nacional, claramente concebido ou claramente sentido, forçosamente tende para certa fórmula política, para certo regime, que lhe seja adequado, e através do qual se exprima. Por exemplo: um imperialismo como o inglês, de domínio e expansão étnica, está necessariamente ligado, intrínseca e extrinsecamente, à ideia monárquica. Outros ideais nacionais, nem altos como aquele, nem sequer seus semelhantes, podem também exprimir-se na ideia monárquica. Ideais de tipo diverso, e entre si também diversos. projectam-se naturalmente, e por diversas razões, na fórmula republicana. Só a ausência de um ideal nacional, pela acção negativa da mesma causa, se exprime na divisão da nação, meiada entre um regime em que não crê e uma oposição a ele em que não confia. É esta a condição sem proveito em que emparceiramos com a França. Mas quando um país está assim organicamente dividido, metade oposta a metade, está criado um estado de guerra civil — de guerra civil pelo menos latente. Ora num estado de guerra, civil ou outra, é a Força Armada que assume a expressão do Poder. Assume-a, ordinariamente, em subordinação a um poder político constituído, a um regime. No nosso caso, porém, precisamente o que falta é um regime. Tem pois a Força Armada que ser ela mesma o regime; tem que assumir por si só todo o Poder. É esta a primeira Doutrina do Interregno, a primeira justificação da Ditadura Militar. 3 SEGUNDA JUSTIFICAÇÃO DA DITADURA MILITAR Alem de não ter vida institucional legítima, não pode Portugal, também, ter vida constitucional alguma. A palavra "constituição" pode receber dois sentidos: (1) simples forma constituída de governo, seja esse governo embora uma monarquia absoluta; (2) forma de governo em imitação do espírito da constituição inglesa. O primeiro é o sentido abstracto, o segundo o sentido histórico, da palavra. Portugal presente não pode ter constituição, no primeiro sentido da palavra, porque, como já se disse, não pode ter regime político, e a constituição, neste sentido, é somente a definição do regime. E Portugal presente não pode nem deve ter constituição, no segundo sentido da palavra, pela razão mais forte ainda, porém mais complexa, que se vai expor. Como na Europa semibárbara — à parte certas repúblicas, mais ou menos do género, porém não da espécie, das cidades-estados dos antigos — não havia outro sistema geral de governo senão a monarquia absoluta, é claro que não podia haver despotismo ou tirania senão através desse sistema. Ora o espírito humano, como é essencialmente confuso e, por isso, simplista, não distingue habitualmente o particular do geral. Assim, mais ou menos claramente se formou a ideia de que despotismo e absolutismo eram a mesma coisa. Ainda hoje há quem confunda a significação dos dois termos. Os factos, porém, olham para outro lado. Todo o homem, Ou grupo de homens, que manda, tende, em virtude do egoísmo natural da alma humana, a abusar desse mando. Só não abusa se, ou quando sente que não pode abusar, ou que perderá mais abusando do que não abusando. Mas há só uma coisa que faz sentir ao governante que não pode abusar: é a presença sensível, quase corpórea, de uma opinião pública directa, imediata, espontânea, coesiva, orgânica, que todos os povos sãos possuem em virtude do instinto social que os torna povos, e cuja pressão oculta os seus governantes sentem sem que essa opinião pública tenha sequer que falar, e muito menos que delegar ou eleger quem por ela obre ou fale. Por isso, disse Hume, e disse bem, que não há verdadeiro governo, ainda o mais autocrático, que se não apoie na opinião pública. Ora, pensando, por uma parte e por erro, que a monarquia absoluta era essencialmente má, e sentindo, por outra parte e com metade de razão, que a opinião pública é a essência de toda a vida governativa, foi o espírito europeu levado inevitavelmente a buscar uma fórmula pela qual essa opinião pública se coordenasse estruturalmente, se constituísse em órgão limitador ou substituidor do poder régio. Confusamente, incoerentemente, se esboçaram, desde a mesma Idade Média, doutrinas norteadas por este fito: umas eram derivadas do exemplo, em geral treslido, das cidades-estados dos antigos, outras surgiram espontaneamente da especulação medieval, muito mais espaçosa do que se supõe nesta matéria; e a algumas delas encorajou a Igreja, a quem convinha disseminar doutrinas antimonárquicas nas universidades, para hostilizar o poder dos reis, frequentemente em conflito com o dela. Estes fantasmas de doutrina tomaram subitamente corpo, como seria de supor, no primeiro verdadeiro embate entre a monarquia absoluta e qualquer força que incarnasse definidamente esse impulso adverso. Deu-se o caso em Inglaterra, no conflito, em grande parte nacional e especial, entre a monarquia dos Stuarts, conscientemente "de direito divino", e a oposição a ela, que assumiu episodicamente, e em contrário do sentimento da maioria, a forma republicana. Nasceu por fim, depois de pesados anos de perturbações, o chamado constitucionalismo, fórmula de equilíbrio espontâneo, provinda de antigas tradições nacionais em que o fermento de todas as doutrinas anti-monárquicas diversamente se infiltrava. O principal teorista do sistema, tal qual finalmente veio a aparecer, foi Locke, em seu Ensaio sobre o Governo Civil. Ora o mesmo simplismo do espírito humano, que o leva a confundir o particular e o geral na teoria, o conduz a os não distinguir na prática. Assim, sem considerar se a solução política inglesa não seria particularmente inglesa, e portanto inaplicável a outros povos, em outras circunstâncias de passado e de presente, os pensadores políticos europeus erigiram em dogma a constituição de Inglaterra. A fórmula constitucional inglesa passou a ser, para eles, uma espécie de descoberta científica, não só universalmente verdadeira, como o são os dados da ciência, mas também absolutamente perfeita, como o são as expressões das leis naturais. E, como o povo inglês rapidamente se distanciou, no gozo de verdadeira liberdade e de uma vida social superior, de todos os outros povos de Europa, viram, aparentemente, a prática a confirmar a teoria. Daí a intoxicação constitucional, que haveria de produzir, numa amplidão doutrinária exaltada, a Revolução Francesa, pela qual as doutrinas, já metafísicas, do constitucionalismo inglês se derramaram depois por todo o mundo. A ninguém ocorreu, parece, que a liberdade, em qualquer povo, é a simples expressão da sua força espontaneamente coesiva em resistir a qualquer tirania, nem que a liberdade e a superioridade social inglesas provinham, não de uma fórmula que é uma abstracção, mas da saúde social, da forte opinião pública directa, que estavam por trás dessa fórmula e lhe davam a vida real, como a haveriam dado, no mesmo sentido, a qualquer outra. Assim, de uma intuição central justa, embrulhada em erros e por eles sufocada, nasceu em Europa, e alastrou a todo o mundo civilizado, a superstição constitucional. Consiste ela em crer que a fórmula constitucional inglesa é universal, sendo pois aplicável a qualquer povo civilizado, em quaisquer circunstâncias; e que é perfeita, dado que seja a verdadeira fórmula de traduzir para uma norma política aquilo a que se chama opinião pública. Ambas as teses são demonstravelmente erróneas. A primeira a todos o deve parecer, ainda que por simples intuição. É evidente, ou deveria sê-lo, que o regime que particularmente convém a um povo representa uma adaptação às particularidades desse povo, e deve ser, portanto, inadaptável em princípio às particularidades, forçosamente diferentes, de outro povo qualquer. À parte esta razão, porém, há uma outra, de mais peso. Só pode ser universalmente aplicável o que é universalmente verdadeiro, isto é, um facto científico. Ora em matéria social não há factos científicos. A única coisa certa em "ciência social", é que não há ciência social. Desconhecemos por completo o que seja una sociedade; não sabemos como as sociedades se formam, nem como se mantém nem como declinam. Não há uma única lei social até hoje descoberta; há só teorias e especulações, que, por definição, não são ciência. E onde não há ciência não há universalidade. O constitucionalismo inglês, ou outra teoria social qualquer, é portanto inaplicável à generalidade dos povos, convindo só, porventura, ao povo onde apareceu e onde, portanto, é em certo modo natural. O que resta saber porém, é se, no próprio povo inglês, o constitucionalismo inglês dá bom resultado. Se não der, as duas teses ruem juntas, pois o que é mau onde é natural — embora viável por ser natural — será duas vezes mau onde for artificial, pois aí nem viável será. Leva-nos isto, pois, ao exame da segunda crença da superstição constitucional — a de que o constitucionalismo inglês realmente representa a projecção política da opinião pública. Essa crença, vai desmenti-la por nós, e melhor que o faríamos nós, um inglês moderno, homem culto e experimentado, político por hereditariedade e por vocação. Diz assim Lord Hugh Cecil, filho do Marquês de Salisbury, a p. 235 e seguintes do seu livro intitulado Conservantismo: "Torna-se altamente interessante e importante inquirir onde está o centro do poder que domina, em última análise, a Casa dos Comuns e a autoridade ilimitada que, pela constituição, essa Casa exerce. É interessante e importante, porém não é muito fácil. Pode dizer-se que o poder está no Gabinete, isto é, nos quinze ou vinte homens predominantes do partido em maioria. "Mas isso nem sempre será verdade. Pode às vezes haver discordâncias no Gabinete. Qual é a força que então determina que a decisão seja dada num sentido ou noutro? Ou, ainda aparecerá às vezes no Gabinete uma questão para decidir e trará já uma solução tão fortemente apoiada pelo partido, que o Gabinete se veja constrangido a adoptar essa solução. Onde está o poder a que até o Gabinete tem que obedecer? A melhor resposta é que a autoridade suprema num partido é em geral exercitada pelos mais activos e enérgicos dos organizadores partidários sob o comando de um ou mais dos principais chefes do partido. Às vezes o chefe nominal do partido está entre estes homens; outras vezes não esta. Mas eles derivam a sua força, não só da sua situação pessoal, mas de que, de um modo ou de outro, influem no que se pode chamar a Guarda Pretoriana do Partido, isto é, os seus elementos mais activos e ardentes. Se isto é assim, temos graves razões de receio. A Casa dos Comuns nomeia o Executivo e tem domínio absoluto sobre a legislação. O partido em maioria na Casa dos Comuns domina absolutamente a Casa dos Comuns. Esse partido é, por sua vez, dominado pelos seus elementos mais ardentes e enérgicos, sob o comando dos políticos a quem esses são mais afectos. Quer isto dizer que a suprema autoridade do Estado está nas mãos de partidários extremos e nas mãos dos estadistas que mais admirados são por esses partidários extremos. É quase impossível conceber uma forma menos satisfatória de governo. Isto, contudo, é que é a realidade. A aparência é que a Casa dos Comuns representa o povo. Mas, de facto, o povo nem tem a voz dominante na escolha da Casa dos Comuns, nem domínio real sobre ela, uma vez escolhida. O Povo tem, na prática, só a liberdade de escolher entre os candidatos partidários que são submetidos à sua escolha. São os partidários ardentes — a Guarda Pretoriana — quem escolhe os candidatos; os eleitores têm somente que determinar se querem ser representados pelo nomeado dos Pretorianos Conservadores ou pelo nomeado dos Pretorianos Liberais, ou, em casos mais raros, podem escolher um candidato, não menos disciplinado, nomeado pelo Partido Laborista. Os independentes podem propor-se, e algumas vezes se propõem à eleição. Mas as eleições, nas condições modernas, são a tal ponto matéria de organização e mecanismo que é com grande desigualdade que um independente se pode bater contra os candidatos nomeados pelos partidos. O triunfo de uma candidatura independente é a coisa mais rara deste mundo. A única verdadeira influência que têm os independentes está no desejo dos chefes partidários de lhes obter os votos. Mas até isto tem na prática um alcance limitado. Há assuntos controversos sobre os quais os partidários ardentes, de um lado e de outro, sentem tão fortemente que quasi nada se importam da opinião do público não partidário. E, quando a Casa está eleita, a influência da opinião pública fica semelhantemente limitada. "Alguma coisa se fará para obter apoio na próxima eleição geral; mas, sempre que os homens do partido do governo realmente se empenhem num assunto, correrão todos os riscos para fazer vingar a sua política. sobretudo o farão quando o assunto de que se trate envolva o crédito pessoal de um dos chefes da sua confiança. O facto formidável é que a mais alta autoridade do nosso Império imenso e único se encontra alternadamente nas mãos de dois grupos de homens veementes, intolerantes e desequilibrados." Estas palavras têm já quinze anos, porém valem hoje como então; nada, salvo o aumento do Partido Laborista, existe de novo na situação que elas descrevem, e esse aumento não pesa senão em converter em "três" a palavra "dois" no fim do texto. E estas palavras são, não só do político experiente, por herança e vocação, que dissemos ser seu autor, mas de um homem que é ele mesmo político partidário. É um dos casos em que, contra a norma jurídica, a confissão do réu tem valia. O réu, porém, não confessou tudo. Uma polémica recente e episódica, entre chefes liberais ingleses, trouxe à atenção pública um dos pontos da vida partidária em que ordinariamente se não reparava. Isto de que os fundos partidários são secretos, secretos os nomes dos indivíduos que frequentemente entram com grandes somas para os cofres dos partidos. Isto complica o assunto e a Guarda Pretoriana. Quem entra com grandes somas para um cofre partidário raras vezes o fará por teorismo. Fá-lo, em geral, com outro fito. E, visto que deu, fará por que se faça aquilo para que deu. O partido, ou a sua Guarda Pretoriana, fará, visto que recebeu, por merecer o que recebeu. Assim, nesta noite moral, se podem subtilmente esboçar e subtilmente se infiltrar na substância da vida política orientações inteiramente antinacionais; pois, como a este propósito se observou, não sabendo ninguém quem são os magnos financiadores dos partidos, ninguém tem a certeza que não estejam ligados a elementos estrangeiros, cuja política secretamente imponham. Nem se alegue que este estado de coisas nada tem com o constitucionalismo, propriamente dito. O constitucionalismo envolve e motiva a existência de partidos; estes partidos fazem uns aos outros uma guerra política; e a guerra política, como a guerra, assenta em duas bases — dinheiro e segredo. É assim, pois, que opera o constitucionalismo inglês no país onde é natural, e, portanto, em certo modo orgânico; onde é antigo, e, portanto, ainda mais natural; onde mais tem sido aperfeiçoado, e, portanto, onde deve estar mais livre de erros. E, se assim é neste país, como o não será nos outros, onde não é natural, nem antigo, nem, por não ser antigo, poderia ter sofrido o que propriamente se chama um aperfeiçoamento? Nos países onde, como em Inglaterra, existe um ideal nacional, e, em certo grau uma opinião pública espontânea — aquela opinião pública natural, orgânica, não eleitora, de que acima falamos — os malefícios essenciais do constitucionalismo são diminuídos. São, porém, diminuídos por elementos externos, e não internos, a ele. A pressão de um ideal nacional, se é forte e constante, faz-se sentir no próprio Parlamento, nos próprios partidos, pois estes existem adentro da nação; a pressão de uma opinião pública espontânea, se é forte, do mesmo modo que a sentiam os reis absolutos, assim a sentem também o Parlamento e os partidos, que recuam, como faziam os reis, ante os seus impulsos mais evidentes. Parece, por isto, que, se o parlamento e os partidos podem ser, como o eram os reis, sensíveis às manifestações directas da opinião pública, tanto faz que haja reis como Parlamento e partidos; parece que basta que haja ideal nacional, e que haja opinião pública verdadeira, pois estes se farão sentir ao Parlamento e aos partidos, e assim os compelirão ao recto caminho. Infelizmente a analogia é errónea. O rei absoluto podia (com grave risco próprio) contrariar o ideal da Nação. O rei absoluto podia (com certo risco próprio) contrariar a opinião do seu povo. Mas o rei absoluto não podia sofismar ou perverter esse ideal ou essa opinião, pois não tinha contacto interno com a opinião pública, que não representava e de quem não dependia, e o ideal nacional, enquanto activo, não se manifesta senão como uma parte da opinião pública. Os partidos, porém, como têm um ideal político distinto do ideal nacional (sem o que não seriam partidos), ora sobrepõem aquele a este, ora o infiltram neste, assim o pervertendo. Os partidos, ainda, como têm que ter a aparência de se basear na opinião pública, buscam "orientá-la" no sentido que desejam, e assim a pervertem; e, para sua própria segurança, buscam servir-se dela, em vez de a servir a ela, e assim a sofismam. Em Portugal, porém, não há (como se disse) ideal nacional, nem há (como se dirá) opinião pública. Recebemos, assim, em sua plenitude os malefícios do constitucionalismo. Somos nós os perfeitos constitucionais. Os problemas nacionais suscitados pela presença do constitucionalismo, se são graves em qualquer outro país, são, pois, entre nós gravíssimos. Temos que dar-lhes uma solução qualquer, permanente ou provisória, mas certamente imediata. Ora como, segundo se viu na transcrição acima feita, o mal do constitucionalismo está na sua essência, visto que é radicalmente nocivo até onde é natural, não há outro remédio para ele, onde nem seja natural, senão a sua simples eliminação. Mas, se o eliminamos, o que poremos em seu lugar? Por que norma governativa o substituiremos? Onde houvesse um regime, ou a possibilidade imediata de um regime, tentaríamos extrair da substância desse regime uma norma governativa, própria e especial. Mas onde, como em Portugal presente não há regime, nem possibilidade imediata de o haver, a única solução é, eliminando o constitucionalismo, o não substituir por coisa nenhuma, parecida ou diferente dele. Em outras palavras, há que criar, que estabelecer como coisa definida, o Estado de Transição. Sendo o Estado de Transição, em matéria nacional, a condição de um país em que estão suspensas, por uma necessidade ou compulsão temporária, todas as actividades superiores da Nação como conjunto e elemento histórico, o certo é que não está suspensa a própria Nação, que tem que continuar a viver e, dentro dos limites que esse estado lhe impõe, a orientar-se o melhor que pode. Os governantes de um país, em um período destes, têm pois que limitar a sua acção ao mínimo, ao indispensável. Ora o mínimo, o indispensável social é a ordem pública, sem a qual as mais simples actividades sociais, individuais ou colectivas, nem sequer podem existir. Os governantes naturalmente indicados por um Estado de Transição são, pois, aqueles cuja função social seja particularmente a manutenção da ordem. Se uma nação fosse uma aldeia, bastaria a polícia; como é um nação, tem que ser a Força Armada inteira. É esta a segunda Doutrina do Interregno, a segunda justificação da Ditadura Militar. 4 TERCEIRA JUSTIFICAÇÃO DA DITADURA MILITAR Além de Portugal presente não poder ter vida institucional, nem também vida constitucional, não pode ele, ainda, ter vida de opinião pública. Assim lhe falta também o que é, não só o fundamento interno de todo governo, mas, por uma fatalidade histórica, o fundamento externo de todo governo de hoje. Há só três bases de governo — a força, a autoridade e a opinião. Qualquer forma de governo tem que participar, para ser governo, de todas elas: sem força não se pode governar, sem opinião não se pode durar, sem autoridade não se pode obter opinião. Embora, porém, qualquer governo de todas participe, uma delas haverá em que mais particularmente, em que distintivamente, se apoie. O governo tipicamente de força existe só nas sociedades bárbaras ou semibárbaras; regressa atipicamente nos episódios ditatoriais das sociedades civilizadas. É o governo em que se exprimem aquelas civilizações em formação, em que ainda o estado de guerra é a condição normal e constante; por isso caracteriza também aqueles períodos das civilizações formadas, em que o estado de guerra, civil ou outra, ressurge. Ao governo de força sucede, na linha de passagem das coisas, o de autoridade: a autoridade é a força consolidada, translata, a força tornada abstracta, por assim dizer. A estabilização dos governos de força os converte, passado tempo, em regimes de autoridade. Mas a autoridade não dura sempre, porque nada dura sempre neste mundo. Sendo a autoridade um prestígio ilógico, tempo vem em que, degenerando ela como tudo, a inevitável crítica humana não vê nela mais do que o ilogismo, visto que o prestígio se perdeu. Assim, no decurso das civilizações, se chega a um ponto em que — à parte os recursos incaracterísticos à força — se tem que estabelecer, ou buscar estabelecer, um sistema de governo fundado na opinião, pois não resta outro fundamento para a existência de um governo. Europa, e nós com ela, seguiu este curso fatal. A todos nos confronta um problema político: extrair da opinião um sistema de governo. Não temos outro recurso. Não podemos recorrer à força, porque a força, numa sociedade formada, não é mais que um travão, aplicável só nos perigos e nas descidas; se a quisermos sistematizar, pagaremos o preço por que são penhoradas as sociedades em que se pretende coordenar o ocasional, isto é, realizar uma contradição. Nem podemos recorrer à autoridade, porque a autoridade é incriável e indecretável, e a tradição, que é a sua essência, tem por substância a continuidade, que uma vez quebrada, se não reata mais. Temos pois que encarar, por necessidade histórica, o problema de extrair da opinião um sistema de governo. Se é este o problema, não cuidemos que é outro. Para nos nortearmos neste fito, temos, primeiro, que ver em que consiste a opinião. É o que nunca fizeram nem os defensores nem os críticos dos sistemas que assentam nela. Qualquer opinião é de uma de três espécies, conforme assente no instinto (ou na intuição), no hábito, ou na inteligência. Por instinto se entende aquele fenómeno psíquico, inegável, porém difícil de explicar, pelo qual, nos animais chamados inferiores, a vida se conduz certa sem mostras de "inteligência", ou, até, condições anátomo-fisiológicas, para a existência dela. Nos animais chamados superiores os instintos subsistem, mas são neles perturbados pelo hábito e pela inteligência, que a eles, instintos, são diversamente antagónicos. Nestes animais superiores, e notavelmente em o homem, aparece, ainda, uma forma superior do instinto a que chamamos intuição: dela procedem os fenómenos estranhos, porém reais, a que por comodidade se chamou supernormais — os palpites, a inspiração, o espírito profético. A intuição operando como o instinto, porque é instinto, usurpa, e muitas vezes supera, as operações da inteligência. Os fenómenos do instinto e da intuição têm preocupado, mais que quaisquer outros, a ciência psicológica moderna; assentou ela já na certeza de que o campo do que chamou subconsciente é vastamente maior que o da razão e que o homem, verdadeiramente definido, é um animal irracional. Só por orgulho ou preconceito se pode não ver que a inteligência é — como Huxley abusivamente supunha que a simples consciência era — o que chamou um epifenómeno. Isto é, a inteligência não faz mais que espelhar, esclarecendo-os para nós e, pela palavra, para outrem, os instintos obscuros, as solicitações intuitivas, do nosso temperamento. Por hábito entende-se aquela disposição da índole que é, em sua origem, e em contrário do instinto, estranha ao indivíduo, sendo derivada de um ambiente qualquer. Os preconceitos, as crenças, as tradições — tudo quanto, não procedendo da inteligência, também não procede do instinto — se derivam do hábito. É muitas vezes difícil distinguir uma opinião vinda do instinto de uma opinião vinda do hábito, por isso que o hábito é um instinto imposto, ou artificial — uma "segunda natureza", como com razão se lhe chamou. As manifestações destas quatro ordens de opinião diferençam-se entre si da seguinte maneira: o instinto simples é instantâneo e sintético, é individual, e tem por objecto só coisas concretas; é centrípeto, ou egoísta, pois o será forçosamente o que for ao mesmo tempo individual e concretizante. O instinto superior, ou intuição, difere do instinto simples em que pode ter por objecto o abstracto e o indefinido, e em que, na proporção em que o tiver, deixará de ser centrípeto ou egoísta. O hábito é igual ao instinto simples, salvo em não ser individual; como esse, porém, tem por objecto o concreto e o definido. A inteligência é analítica, é individual e tem por objecto o abstracto. Em toda opinião entra uma parte de cada um destes elementos, pois, na vida é tudo fluído, misturado, incerto, mau de analisar sumariamente e impossível de analisar até o fim. Passando agora de considerar a simples opinião, para atender ao que nos interessa, que é a opinião colectiva ou "pública", desde logo vemos que ela tem que assentar ou no hábito ou na chamada intuição. No instinto simples não pode assentar, porque ele é só individual — da vida, que não da sociedade. Na inteligência não pode também fundar-se, porque a inteligência, por ser a expressão do temperamento, é, por isso mesmo, a expressão de instintos, de hábitos a de intuições, escusando nós pois de atender a ela, quando devemos atender àquilo de que é espelho. O conceito vulgar de democracia, o que pretende basear a opinião pública na soma das opiniões individuais fornecidas pelas inteligências; o que supõe que uma sociedade numericamente mais culta (que não só mais culta em seus representantes superiores) se orienta e governa melhor que uma sociedade quantitativamente menos culta — este conceito é forçosamente erróneo. Acresce que, como não há ciência social, não pode haver cultura sociológica. Se a houvesse, como haveria, sobre os pontos mais simples e essenciais da vida social, divergência de opiniões entre homens da maior cultura? Em que é que a cultura em geral, e a cultura sociológica em particular, orientam socialmente, se o prof. A., da Universidade de X , é conservador, o prof. B., da Universidade de Y, é liberal, e o prof. C., da Universidade de Z, é comunista? De que lhes serve a cultura se entre si divergem num congresso, do mesmo modo que três operários numa taberna? Longe de, como se disse, a "democracia sem luzes " ser um "flagelo", é a democracia com luzes que o é. Quanto maior é o grau de cultura geral de uma sociedade menos ela se sabe orientar, pois a cultura necessariamente se quer servir da inteligência para fundar opiniões, e não há opinião que se funde na inteligência. Assenta ou funda-se no instinto, no hábito, na intuição, e a intromissão abusiva da inteligência, não alterando isso, apenas o perturba. A democracia moderna é a sistematização da anarquia. Sucede ainda, quanto à inteligência, que ela, como é analítica, é desintegrante; como é abstracta, e por isso fria, é incomunicativa; e como é a expressão de um temperamento, e o temperamento é individual, separa os homens em vez de os aproximar. O hábito, ao contrário, "pega-se"; sobretudo se "pega" um hábito social. A intuição, também, transmite-se — transmite-se por uma emissão indefinível, um "fluído", como já se lhe chamou, havendo quem creia, talvez com razão, que esse fluido é não só real, mas material. É só no hábito, pois, ou na intuição, que a opinião pública se pode fundamentar. E é num e noutra que, de facto, se fundamenta. No hábito se baseia aquela opinião pública a que, com razão no termo, chamamos conservadora. A razão de se ser conservador é a mesma de se não poder deixar de fumar. Há, porém, uma diferença, que em certo modo justifica o receio do novo que constitui a essência do conservantismo. Quem deixa de fumar, e se dá mal com fazê-lo, pode tornar a fumar. Mas um hábito social, isto é, uma tradição, uma vez quebrado, nunca mais se reata, porque é na continuidade que está a substância da tradição. Além de que, não sabendo ninguém o que é a sociedade, nem quais são as leis naturais por que se rege, ninguém sabe se qualquer mudança não irá infringir essas leis. Em igual receio se fundamentam as superstições, que só os tolos não têm — no receio de infringir leis que desconhecemos, e que, como as não conhecemos, não sabemos se não operarão por vias aparentemente absurdas. A tradição é uma superstição. É a opinião de hábito que mantém e defende as sociedades; equivale à força que, no organismo físico, resiste à desintegração. A opinião de hábito obra sempre deste modo restritivo; umas vezes é útil porque entrava a decadência , outras é nociva, porque entrava o progresso. Sem a opinião de hábito não existiriam nações; uma nação, aliás, não é senão um hábito. Mas só com a opinião de hábito não existiriam nações progressivas; nem, até, existiriam nações, pois se não teria progredido até a fundação delas. A mais antiga tradição de qualquer país é ele não existir. Na intuição — que, em contrário do simples instinto, vê, como a inteligência, o futuro, que não só o passado — se funda aquela opinião com que se promove o progresso das sociedades, mas, se a do hábito a não equilibrar, também a desintegração delas. Toda fórmula social nova é elaborada e imposta pela intuição, se bem que a sobreposição da inteligência lhe perturbe e corrompa a expressão. Por exclusão de partes se vê que é elaborada e imposta pela intuição. O instinto nada tem com ela. O hábito opõe-se-lhe. A inteligência, por si só, nem tem ciência social em que se funde para a supor boa ou viável, nem experiência social (visto que ela é nova) em que para tal se funde. Só a intuição — a fé, se se quiser — pode crer na virtude e na viabilidade do que ainda se não experimentou. Por isso, com razão se pode dizer que toda opinião anticonservadora é um fenómeno religioso; que todo o partido anticonservador é uma agremiação mística. Toda vida consiste no equilíbrio de duas forças, a de integração e a de desintegração — o anabolismo e o catabolismo dos fisiologistas. A só integração não é vida; a só desintegração é morte. As duas forças assim opostas vivem em perpétua luta e é essa perpétua luta que produz o que chamamos vida. A guerra, disse Heráclito, é a mãe de todas as coisas. Mas, para que a vida subsista, é necessário que as duas forças opostas sejam de intensidade praticamente igual; que se oponha, que se combatam, porém que nenhuma delas sobreleve a outra. A vida é a única batalha em que a vitória consiste em não haver nenhuma. É isso o equilíbrio; e a vida é uma média entre a força que a não quer deixar viver e a força que a quer matar — a diagonal de um paralelogramo de forças, diferente das duas e por elas composta. Se assim é na vida individual, assim será na vida social, que é também vida. Consiste a vida social no equilíbrio de duas forças opostas, que já vimos quais eram. Têm as duas forças que existir, para que haja equilíbrio, e, embora haja equilíbrio, que ser opostas. Um país unânime numa opinião de hábito não seria país — seria gado. Um país concorde numa opinião de intuição não seria país — seria sombras. O progresso consiste numa média entre o que a opinião de hábito deseja e o que a opinião de intuição sonha. Figurou Camões, nos Lusíadas, em o Velho do Restelo a opinião de hábito, em o Gama a opinião de intuição. Mas o Império Português nem foi a ausência de império que o primeiro desejara, nem a plenitude de império que o segundo sonharia. Por isso, por mal ou por bem, o Império Português pôde ser. O equilíbrio das forças vitais não procede, porém, só da sua igual intensidade, se não também da sua igual direcção, em que, em certo modo, essa igual intensidade se funda. As duas forças têm de comum o serem a mesma força, que é o organismo em que vivem, e que diversamente servem de manter. Todo lógico sabe que, para haver contraste entre duas ideias, tem que haver identidade no fundamento delas. Em melhores palavras — para que duas espécies entre si se oponham, têm que ser espécies do mesmo género. Pode opor-se o preto ao branco, porque ambos são cores. Não pode opor-se o preto a um triângulo, porque um é espécie do género cor e o outro é espécie do género forma. Assim, para que nas forças vitais se possa dar oposição com equilíbrio, é mister que, no fundo, pertençam ao mesmo género, o que, em matéria de forças, quer dizer que tendam para o mesmo fim. Esse fim, visto que existem no mesmo organismo, e têm, por assim dizer, uma identidade de localização, é a vida desse organismo. Se a força de integração, que é por natureza centrípeta, se localizar em certos pontos ou órgãos, sofrerá o organismo dissolução ou desvitalização, pois os pontos livres ficarão entregues a uma desintegração completa. Se a força de desintegração, que por natureza é centrífuga, exceder o seu limite orgânico, ficará o organismo ocupado pela força oposta, e do mesmo modo sofrerá a morte ou a desvitalização. Como no individual, assim no social. Se a opinião de hábito tiver, em vez de um fito nacional, um intuito menos que nacional — província, classe, família,... — envolverá em ruína a sociedade, porque a deixara livre à opinião de intuição, que estabelecera o caos em todos os outros elementos sociais. Se a opinião de intuição tiver um intuito mais que nacional — humanidade, civilização, progresso... — do mesmo modo arruinará a sociedade, pois a deixará livre à opinião de hábito, que se apoderará de todos os seus outros elementos. No fundo, como se trata de um sistema de forças, a uma acção corresponde sempre uma igual reacção. A uma acção excessiva corresponderá pois uma reacção igualmente excessiva, e, como um pêndulo que oscile demasiadamente, o sistema acabará por parar. Temos exemplo dos dois casos nos estados paralelos porém inversos, da vida portuguesa sob os Braganças, e da vida presente da Rússia. Nesse nosso período, vivemos concentrados na tradição em nossa vida familial, provincial e religiosa; sucedeu que nos desnacionalizámos completamente na nossa administração, na nossa política e na nossa cultura. No período presente da Rússia, tendo a opinião de intuição excedido por inteiro a nação em favor de uma entidade socialmente mítica chamada "humanidade", a opinião de hábito estabeleceu uma reacção igualmente forte, recuou para trás da família, da província, da religião tradicional, e fixou-se no último elemento social, o indivíduo, que, como tal, é um animal somente. Assim, em virtude da reacção excessiva que provoca, toda doutrina social extrema produz resultados diametralmente opostos aos que pretende produzir. O tradicionalismo orgânico produz estrangeiros; o progressivismo orgânico produz animais. É na comunidade do conceito de nação que está a base para a luta profícua, porque para o íntimo equilíbrio, entre as forças sociais opostas. No caso notável do início dos nossos Descobrimentos, a opinião de hábito se opunha à novidade deles, a de intuição a promovia; porém uma e outra não pensavam fora do ideal de grandeza pátria, ou seja, no fundo, do ideal de império. Assim pôde o Império Português, quando por mal ou por bem, veio a ser, ser informado por toda a alma de Portugal. Já acima esboçámos, em simples exemplo ocasional, qual seja a situação presente de Portugal quanto à sua opinião pública. Concentrados dos Filipes ao liberalismo, numa estreita tradição familial, provincial e religiosa; animalizados, nas classes médias, pela educação fradesca, e, nas classes baixas, bestializados pelo analfabetismo que distingue as nações católicas, onde não é mister conhecer a Bíblia para se ser cristão; desenvolvemos, nas classes superiores, onde principalmente se forma a opinião de intuição, a violenta reacção correspondente a esta acção violenta. Desnacionalizámos a nossa política, desnacionalizámos a nossa administração, desnacionalizámos a nossa cultura. A desnacionalização explodiu no constitucionalismo, dádiva que, em reacção, recebemos da Igreja Católica. Com o constitucionalismo deu-se a desnacionalização quase total das esferas superiores da Nação. Produziu-se a reacção contrária, e, do mesmo modo que na Rússia de hoje, se bem que em menor grau, a opinião de hábito recuou para além da província, para além da religião, em muitos casos para além da família. Surgiu a contra-reacção: veio a República e, com ela, o estrangeiramento completo. Tornou a haver o movimento contrário; estamos hoje sem vida provincial definida, com a religião convertida em superstição e em moda, com a família em plena dissolução. Se dermos mais um passo neste jogo de acções e reacções estaremos no comunismo e em comer raízes — aliás o término natural desse sistema humanitário. É este o estado presente dos dois elementos componentes da opinião pública portuguesa. Ora num país em que isto se dá, e em que todos sentem que se dá, num país onde, sobre não poder haver regime legítimo, nem constituição de qualquer espécie, não pode, ainda, haver opinião pública em que eles se fundem ou com que se regulem, nesse país todos os indivíduos, e todas as correntes de consenso, apelam instintivamente ou para a fraude ou para a força, pois, onde não pode haver lei, tem a fraude, que é a substituição da lei, ou a força, que é a abolição dela, necessariamente que imperar. Nenhum partido assume o poder com o que se lhe reconheça como direito. Toda situação governante em Portugal, depois da queda da monarquia absoluta, é substancialmente uma fraude. A fraude, pune-a a lei; porém, quando a fraude se apodera da lei, tem que puni-la a simples força, que é o fundamento da lei, porque é o fundamento do seu cumprimento. Nisto se funda o instinto que promove as nossas constantes revoluções. Têm-nos elas tornado desprezíveis perante a civilização, porque a civilização é uma besta. Nossas revoluções são, contudo, e em certo modo, um bom sintoma. São o sintoma de que temos consciência da fraude como fraude; e o princípio da verdade no conhecimento do erro. Se, porém, rejeitando a fraude como fundamento de qualquer coisa, temos que apelar para a força para governar o país, a solução está em apelar clara e definidamente para a força, em apelar para aquela força que possa ser consentânea com a tradição e a consecução da vida social. Temos que apelar para uma força que possua um carácter social, tradicional, e que por isso não seja ocasional e desintegrante. Há só uma força com esse carácter: é a Força Armada. É esta a terceira Doutrina do Interregno, a terceira e última justificação da Ditadura Militar. 5 SEGUNDO AVISO Chegados a este ponto os que leram este opúsculo, parecer-lhes-á que, para justificar a Ditadura Militar, não havia mister que o fizéssemos com mais que um só dos fundamentos expostos, nem que, em todos eles, empregássemos razões com tal desenvolvimento. Há, porém, que explicar que o triplo carácter da justificação, assim como o pormenor de toda ela, têm um intuito mais largo que o de só justificar. Para o explicar e o definir, dividamos em três razões o relato do que nos propusemos. Em primeiro lugar, vejamos claro quanto à natureza da coisa justificada. Repetiremos o que já dissemos. Este opúsculo contém uma justificação completa da Ditadura Militar em Portugal presente. Com isso justificámos a Ditadura de hoje, em seus fundamentos. Não falámos, porém, particularmente dela. Nenhuma consideração particular importava ao nosso argumento, que era geral. provámos que é hoje legítima e necessária uma Ditadura Militar em Portugal; triplamente o provámos. Se esta, que o é, é composta como convém que seja, ou se se orienta como convém que se oriente, ou se subsistirá como convém que subsista — tudo isso é estranho à nossa demonstração. Se amanhã a Ditadura Militar cair, não cairá com ela a justificação dela. O ser necessária uma coisa não implica nem que exista, nem que, existindo, subsista; implica tão-somente que é necessária. Em segundo lugar, o fim principal deste opúsculo está, não nele, que é só introdutório, mas nas três partes seguintes do livro de que ele é a primeira. Porém, como ele é introdutório, nele se deviam esboçar não só as matérias por cuja divisão elas são três, mas, mais particularmente, as bases dessas matérias. Da segunda secção deste emergirá a segunda parte do livro, da terceira a terceira, da quarta a quarta; a quinta, já o dissemos, não será mais que a peroração. Nessa secção segunda assentámos na importância do ideal nacional; dele, da sua natureza em Portugal, e da sua preparação aqui, tratará a segunda parte do livro. Nessa secção terceira assentámos na inviabilidade do constitucionalismo inglês; do constitucionalismo viável, que devemos criar para o substituir, tratará a terceira parte do livro. Nessa secção quarta assentámos na definição da opinião pública; de como a poderemos estabelecer e radicar em Portugal tratará a quarta parte do livro. Assim, de secção a parte de livro, tudo se liga, até numericamente. Em terceiro lugar, tendo nós neste opúsculo esboçado as matérias dessas três partes, e definido as bases delas, em nenhuma secção, contudo, definimos as mesmas matérias, o que faremos só nas partes do livro que se lhes reportem. Não dissemos na secção segunda em que consistia um ideal nacional, nem em que deveria consistir o nosso; na segunda parte do livro, que trata da Nação Portuguesa, o faremos. Não dissemos na secção terceira em que consistia a essência do constitucionalismo inglês; na terceira parte do livro, que trata do Estado Português, o definiremos para depois assentarmos na constituição própria desse Estado. Na secção quarta, se, de facto, definimos em que consiste a opinião pública, é que na quarta parte do livro não teremos que defini-la a ela, senão às condições sociais necessárias à sua existência; da Sociedade portuguesa tratará essa quarta parte. Nem dissemos na secção segunda como se extraía um regime do ideal nacional, nem a que ideais convinha este ou aquele regime; tão-pouco dissemos, na secção quarta, qual a maneira de fazer entrar numa constituição política, ou sistema de governo, a opinião pública de uma sociedade: tudo isto fará parte, não da segunda ou da quarta, mas da terceira parte do livro. Como é ela que trata do Estado, nela se projectam as conclusões políticas corolárias da segunda, que trata da Nação, e da quarta, que trata da sociedade; pois no Estado, que é a inteligência do pais, se projectam os seus instintos, que formam a Sociedade, e os seus hábitos, que constituem a Nação. São estes os fins, imediatos e mediatos, do presente opúsculo, que neste ponto concluímos. O que nele escrevemos (de menor monta, contudo, que o que escreveremos no próprio livro) o distingue, na amplitude e precisão dos conceitos, na lógica do desenvolvimento, e na concatenação dos propósitos, de qualquer escrito político até hoje conhecido. Nem há hoje quem, no nosso país, ou em outro, tenha alma e mente, ainda que combinando-se, para compor um opúsculo como este. Disto nos orgulhamos. É este o Primeiro Sinal, vindo, como foi prometido, na Hora que se prometera. O Interregno. Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal. — Lisboa, 1928 2-1928 Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 110. 1ª publ.: O Interregno. Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal . Fernando Pessoa. Lisboa, Núcleo de Acção Nacional, 1928 — Se eu salvar este José Algarvio, o José Alves será fatalmente preso. — Talvez não — disse eu. — É-o com certeza. Será preso e será condenado. Este José Algarvio salva-se com facilidade, nem era preciso o meu auxílio para nada. O José Alves é que se não salva. É pena. Quer dizer, não se salva, se o caso seguir o seu curso entregue só à polícia. Há só um processo de o salvar: é pôr a mão no criminoso. Ora a polícia não é capaz de o fazer, porque caiu, desde o princípio, num erro fundamental, naquele mesmo erro em que o criminoso quis que ele caísse. — E o Sr. Dr. Quaresma sabe quem é criminoso? — Sei. Quer que eu salve o José Alves? — Quero — disse eu hesitantemente, sem perceber o que se seguiria. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 113. «O Roubo na Quinta das Vinhas». 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 The Military Dictatorship in Portugal But the character of the party which was bound to dominate in Portugal after the revolution could very clearly be inferred by the sociologist from a consultation of the circumstances in which that revolution took place. A government, like any other social element, can only live by adaptation to its environment. Revolutions — meaning successful insurrectionary movements — are the demonstration that a certain government or institution has fallen out of adaptation with its social environment. But the very fact that a revolution triumphs is of itself a proof that the forces that bring it about are adapted to their environment. So that every revolution must be understood by the sociologist as meaning that the evolution of the social environment has made it impossible for the existing order of things to persist and that a new order has to come into being. The difference in the social environment, however, comparing it as it is in the several years before a revolution and the several years after, cannot, after all, be very great. For certain factors remain fatally unchanged. In ten years, say — taking five years before to five years after, a revolution — several social elements cannot have changed. The central temper and tone of the national mind cannot have changed; that cannot be done in se short a space of time. The most that can have happened to it is to be changing more rapidly. We have to examine now what are those social elements which cannot be and are not changed in a few years, and which are those that can. The whole problem presents itself to us in the following way: given a social state a , represented by an institution b; suppose that institution to have become unadapted to its environment ( a ); a revolution c comes and institutes a new order which we will call d. The social institution B cannot have become unadapted to all the environment; it is only to a part of it. What part? Necessarily that part which is in direct connection with institutions (political). What part is that? Evidently the feeling connected with those institutions — the monarchical feeling if the institution be a monarchy, the republican sentiment if the institution be a commonwealth. When a monarchy ceases to have a hold on popular feeling, when all monarchical respect has gone, the republic is ipso facto near. The process is very simple. No institution loses the general feeling attached to it unless it falls into a great number of errors and crimes. The way these crimes and erro[r]s follow is very simple; first scandals and erro[r]s of a financial and administrative kind appear, and these begin, on the one hand, to undermine respect in the in[s]titution that commits them, and, on the other hand, to raise protests unconnected with the institution, but merely against those errors. If the errors persist and cabinet changes and intra-institutional political solutions repeatedly fail, the anti-institutional current becomes strong, and all protests against the errors of the standing institution become gradually merged into protests against the very existence of the institution. Feeling itself attacked, that institution defends itself; It feels itself bound to repress those protests. But, as those protests are justified (in the main, for pseudo-scandals always crop up and pass muster as true) the repression of their discussion becomes a palpably criminal act, besides its contra-productive effect as a repression. The repressed protesting forces become totally anti-institutional and react against the repression. Revolutionary movements are formed, based on the general indignation and worked out by tile more turbulent spirits. The first movements are generally checked and strongly repressed, in part because, being the first attempts at revolt, they are as incapable as all first attempts, and in part because they have not as yet communicated to the general public the attitude from the passive part of the population which must accompany revolutionary movements (For revolutionary movements must, to succeed, be interpretative of a general state of public opinion; and this opinion must be not merely one of disagreement with existing thi[n]gs, but of an absolute hostility to them, a feeling of the impossibility of living, of spiritually breathing under that state of power.) This state of mind once created, a certain revolutionary state is reached which permits of an effective and competent revolutionary organisation Then the final movement comes and overthrows the hated institution. But, all the while, what fundamental change has taken place in the public mind, in the general psychic attitude of the nation? (On a state of mind involving indignant protest against the errors and crimes of a certain institution, the revolutionary spirit becomes imposed. while the forces that constitute the revolutionary state have not yet triumphed, these forces exist solely in relation to what they mean to overthrow , that is to say, their positive existence is a negative one. Their life is what may be called a critical life, for their existence is involved and explained by the fact that they stand up against something and have life and being by virtue of that opposition. So that the general state of mind of the revolutionary minds before the revolution is twofold: in so far as it is a criticism and an indignation at the errors and crimes of the existing institution, it is a moral attitude; in so far as it is an organisation of forces to overthrow a certain thing, it is a mere physical force. Once the revolution has triumphed, the critical attitude ceases, since the thing criticised has gone under. But, since the revolution has triumphed, the revolutionary spirit survives. So that the situation of a country after a revolutionary movement, in the years subsequent thereto — they may be few or many, and that depends on other factors —, becomes worse than the situation before. For the critical spirit, which was the one moral and corrective element in the revolutionary forces, ceases, as we have seen, by mere virtue of the institutional fall, and the revolutionary spirit survives. So that to all the defects and ills contracted by the nation under the decadent sway of the dethroned institution, all those ills are added which pertain to the revolutionary spirit. So long as an active opposition exists to the new institutions on the part of surviving active elements of the older form of government, which the revolution has overthrown, there is some chance of a government not entirely immoral and corrupt, but only a small chance, by the reasons tending to make survive the critical spirit. But the corruption which characterised the former institution always survives. Another consideration will easily convince us of the truth of this observation: the law which, as far as we can see, governs all social manifestations is the law of continuity — that is to say, those manifestations are subject to a slow change, and, like everything in Nature, non faciunt saltum. How could a people governed by a corrupt government conceivably pass from one day to another to a government freed from all corruption? This depends on a total change of environment, and a total change of environment is not a thing that can be effected in a few years, nor in many perhaps, according to circumstances. The party which, once a revolution triumphs, obtains power and dominion within a nation is that which is fullest touch, in touch at most points, with the social environment. New what is the social environment after a revolution? It is composed of the two elements we have seen: the corrupt elements of the dethroned institution, whose soul survives, and the positive element, the purely revolutionary one, brought in by the triumph of the revolution. So that the party which will first dominate after the victory of a revolution will be that which will be at the same time most corrupt and most revolutionary. The two things will fatally go together, for the very simple reasons which we have been setting forth. A corrupt anarchy is what follows a revolution. Two things may follow: one is a revival of the forces constituting the old system which may gather strength and restore it. The process is simple. Another thing may happen. The forces constituting the old system may be totally or vitally wrecked. In that case the first years of the pós-revolutionary period will be characterised by a great corruption and a terrible anarchy. Nothing — or very little — will have changed in the governmental habits, except in so far as the surviving critical public spirit acts upon them. Now, once the new power is established, the critical spirit revives and menaces the new institutions. If the remnants of the forces upholding the old regime are strong, this critical spirit turns in part to them. This only happens when the revolution has taken place by the practical work of a section on the community, and not in the direction of the general tendency. But when the forces which uphold the old system are weak — and they are weak when the corruption of that system had gone so far that it had wrecked the sentiment it lived by — the critical forces, those that work for morality become organised into a party which seeks to overthrow the pós-revolutionary state of things, the state of things which is both corrupt and anarchical. At first this is difficult, for two reasons: the circumstance that those corrupt anarchical forces are in momentary best adaptation to their environment, and the circumstance that, being those forces that are essentially revolutionary, they are best adapted for all violent action needed in sell-defence. The revolutionary organisation persists and they can easily triumph of the first attempts at undermining them. A pós-revolutionary society is both disorganised and corrupt. That party which, being corrupt, shall best be able to organise disorganisation, shall best organise anarchy, will prevail. After several failures, at last the contra-revolutionary party is created. Its nature is a different one from that of the revolutionary party, though it may have to employ violent means. It is based on that section of opinion which has a critical attitude towards the corrupt acts or government. When the triumph of the revolution has separated the revolutionary and the critical elements of the revolutionary spirit, and the revolutionary element becomes enthroned as queen of king corruption, the critical spirit itself revolts, becomes itself revolutionary, save that its attitude becomes not only opposed to corruption but also to its new ally, anarchy. Se that the counter-revolutionary party becomes based upon two elements — the necessity of honesty and the necessity of order. These things become its essential standpoints an its end becomes, not to overthrow a certain institution which has the characteristics of dishonesty and disorder, but, what is widely different, to overthrow dishonesty and anarchy themselves wherever they may be. So that this party cannot lose sight of its object when it achieves power, because it exists constantly in view of this object. The counter-revolutionary party can only come to power when an environment has been created for it. This environment means a sufficient transformation in social circumstances, so that a large body of public opinion has been created which ardently wishes order and honesty in government; this is obtained when several years of revolutionary anarchy and maladministration have followed on all the long years of pre-revolutionary corruption. Another element, however, has to come into existence before a counter-revolutionary movement can triumph. That element is the constructive element. The case is very simple. When the necessity of honesty assumes a revolutionary aspect, this revolutionary aspect may be coherent or incoherent. But when the love of order assumes a revolutionary character, one thing must happen — that revolutionary attitude must to widely different from the normal one, the usual one. It takes on a disciplinary aspect and a repressive one. Qua revolutionary movement, the counter-revolutionary movement does not [react] against dishonest people, but against anarchical people. So that what is revolutionary in the counter-movement is not based on a critical attitude towards dishonesty, directly, but on a critical attitude towards disorder. As the party is based on the elements that directly seek honesty, it is of itself an honest party. Suppose the counter-revolution triumphs. Will the same thing happen to its critical attitude towards order as happened to the critical attitude of the first revolutionaries towards honesty? It cannot happen, for the very simple reason that, while the idea of honesty is not bound up with the idea of violent action, the idea of order is. You may make a revolution to bring about honesty in government, and, if you triumph, you may continue being as dishonest as the former government, for the simple reason that the creation of a revolutionary spirit does not create a spirit of honesty, which is neither like or unlike the revolutionary spirit, but a totally different thing. But if you make a revolution to bring about order and you triumph, it is not likely you will not realise at least partly, the order you have struggled to bring about, for the equally simple reason that, if the idea of order was the one that led you, it will have been your constant care in the very organisation of the counter-revolution, and besides, the maintaining of order is the very basis of the maintenance of any institution , so that, when you arrive at power, you have to keep order and discipline by the very reason that you wield power, which will reinforce your theoretic desire to do so. Seeing besides that your work is to overthrow anarchical elements and that you will be festering them by not disciplining them, you will have to keep to your program to be able to keep to your very existence. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 111. O critério de investigação que adopto, porque o acho o mais racional de todos, é o dividir a investigação preliminar em três tempos. O primeiro tempo é determinar quais são os factos incontestáveis, absolutamente incontestáveis, eliminando todos os elementos que não o sejam, ou porque não há certeza directa deles, ou porque sejam conclusões — talvez lógicas, talvez inevitáveis — tiradas desses factos, mas, em todo o caso conclusões e não factos. Citarei um exemplo para esclarecer inteiramente o que desejo significar com estas observações. Suponha que está um dia de chuva e que estou em casa. Aparece-me um indivíduo com o fato a escorrer em água. É natural que eu pense: «Este homem andou à chuva e assim ficou molhado.» Mas pode bem ser que não andasse à chuva, que entornassem água sobre ele aqui dentro de casa. A maioria da gente consideraria um facto o ter andado esse homem à chuva. Afinal é uma conclusão — uma conclusão naturalíssima, mas uma conclusão, ou uma dedução. Se eu tivesse estado à janela, tivesse visto esse indivíduo vir pela rua fora sob uma chuva pesada, poderia ainda, é certo, esse molhar da chuva ser suplementado por outra circunstância qualquer, mas alguma coisa da chuva teria molhado o homem, e eu poderia, em todo o caso, afirmar que o homem tinha andado à chuva. E então isso seria um facto. Ora, neste caso do roubo na Quinta das Vinhas, há alguns factos que parecem incontestáveis (digo «parecem», pois eles se baseiam em testemunhos que podem ser falsos, involuntária ou propositadamente). Esses factos são: que cerca da meia-noite do dia ... de Setembro se deu uma explosão de dinamite na fechadura do cofre no escritório da Quinta das Vinhas; que esse escritório e a saleta anexa estavam fechados por dentro, aberta a janela da saleta, e dois cães mortos por envenenamento; que se verificou nessa altura não estarem no cofre dinamitado uns títulos (cem) da Dívida Externa Portuguesa, 1.ª série, que haviam estado nesse cofre; que se não encontrou sinal de ninguém suspeito na busca que se passou imediatamente nas proximidades da casa; que todos os títulos roubados, verificados os seus números por uma lista que existia em poder do proprietário dos títulos, foram passados para a circulação bancária da praça sem que qualquer deles fosse apanhado no processo de passagem. Factos, simplesmente factos, há só estes. Quanto mais se queira passar por facto é simplesmente dedução. Estabelecidos os factos incontestáveis, chegamos ao segundo tempo da investigação. Este tempo consiste no seguinte: em descobrir qual é a hipótese que mais completamente liga e explica os factos incontestáveis. Mas, descoberta esta hipótese, há que investigar que outras hipóteses haverá que também, embora com menos probabilidade aparente, se ajustem ao conjunto dos mesmos factos. E essas hipóteses determinam-se por um processo simples: descoberta a hipótese mais provável, estabelece-se logo a hipótese contrária e verifica-se qual o grau de probabilidade que a essa hipótese contrária compete. Estabelecido isto, será possível partir para as outras hipóteses, isto é, aquelas que estejam intermédias entre a mais provável e a sua contrária, e ir verificando, a uma e uma, quais as probabilidades delas. No caso de que se estamos tratando, a hipótese aparentemente mais provável é a que toda a gente aceitou desde logo, instintivamente, achando-a tão provável que a tomou, até, por facto e não por hipótese ou conclusão Essa hipótese é de que o roubo houvesse sido praticado por um indivíduo ou indivíduos, estranhos à Quinta das Vinhas, que houvessem envenenado os cães, entrando em casa escondidos, posto a dinamite, roubado os títulos e fugindo depois, suficientemente depressa para não serem vistos. Conhecida esta hipótese, estabeleceremos a hipótese contrária. A hipótese contrária é que o roubo não tenha sido praticado por indivíduos estranhos, que não tenha havido nenhuma das circunstâncias aparentes já indicadas. É isso que constitui, como é de ver, a hipótese contrária. Ora que probabilidade se pode ligar a esta hipótese contrária? Como a hipótese mais provável, a mais imediata para todos, é que o roubo fosse feito por estranhos, e nas circunstâncias indicadas, a hipótese contrária será realmente provável apenas num caso: se houve a intenção de simular esse roubo por estranhos. Nesse caso, a hipótese contrária é provável; tão provável como a primitiva é natural. Estamos, pois, perante duas hipóteses prováveis, e que entre si se opõem. Qual das duas é a mais provável? Temos que considerar isto à luz do exame das circunstâncias directas do roubo ou seja, considerando (1.°) o local do roubo, (2.°) a hora em que o roubo foi praticado, (3.°) a natureza do objecto roubado. São estes os três elementos materiais directos do sucesso. O local do roubo pode ser considerado sob dois aspectos — o local em si mesmo, e a escolha deste local para roubo; ou seja, o ser o roubo praticado no escritório da Quinta das Vinhas, e o ser a Quinta das Vinhas o local escolhido para o roubo. Quanto a dar-se o roubo no escritório da Quinta, nada há de extraordinário pois ali é que está o cofre, e o roubo havia forçosamente de ser ali. Mas quanto a escolher a Quinta das Vinhas para casa a roubar, o caso é diferente. Que presunção havia de que o cofre da Quinta das Vinhas era mais proveitoso de roubar que qualquer outro cofre? Que presunção dessa ordem havia para estranhos? Quem tivesse a habilidade e os processos para roubar como se roubou neste caso, por que escolheria a Quinta das Vinhas quando, sem desperdício de habilidade, nem maior risco, obteria melhores vantagens atacando outro ponto? A probabilidade neste caso é, pois, em favor de uma pessoa não estranha à casa capaz de roubar esse cofre por não ter outro à mão — razão suficiente e clara — e sentindo-se na necessidade de simular o roubo dum estranho para desviar a atenção de alguém de dentro da casa, entre os quais ele estaria incluído. Agora quanto à hora do roubo. Quanto à hora do roubo, é mais estranha se ele foi obra de estranhos do que se foi obra de alguém de dentro de casa. Entrado em casa, o gatuno estranho deixa passar o tempo necessário para ter a certeza, ou a probabilidade grande de estarem todos a dormir. Para quê operar logo, ainda que não se soubesse que tinha ficado alguém cá em baixo? Para estranhos é a hora mais espantosa que se pode imaginar. Mas para alguém de dentro da casa, que quisesse simular um roubo por estranhos, a hora é exactamente a que seria escolhida. Estava quase toda a gente deitada, mas ainda estava alguém a pé. Não havia tanta gente a pé que se corresse o risco de cruzar com alguém ao dispor as coisas para a simulação; mas havia até o número bastante de pessoas para marcar a hora — neste caso a pretensa hora — do roubo e para dar sinal de que o roubo estava cometido. A natureza do objecto roubado... Se o roubo foi praticado por estranhos, ou iam roubar os títulos ou não iam roubar senão o que encontrassem. Contra a hipótese de que iam ao acaso, milita a própria natureza do roubo, e a maneira como depois foi passada a matéria roubada parece indicar preparação para dispor dela. * Em toda a investigação de um facto, cuja natureza se desconhece e se quer saber ou cujo autor se ignora e se quer descobrir, o que importa, acima e antes de tudo, é isolar nele qualquer elemento que, sendo absolutamente indubitável, seja, ao mesmo tempo, inesperado ou estranho. Este roubo contém dois elementos que são inesperados ou estranhos — as circunstâncias do roubo, e o facto de que se conseguiu passar os títulos sem encontrar obstáculos. Por um destes dois factos, portanto, convém que principiemos a investigação. Mas, isolados que sejam os factos de que se não possa duvidar que se deram, e que são estranhos (presumindo, é claro, que haja mais do que um), escolheremos, para verdadeiro princípio da investigação, aquele desses factos que seja susceptível de menos interpretações, isto é, aquele que pareça mais misterioso. Ora a passagem dos títulos é susceptível de várias interpretações; pode haver um conluio com qualquer indivíduo num banco ou na bolsa; pode haver um erro qualquer na lista dos títulos; pode ter havido uma troca de títulos sem que se verificasse a troca, nem portanto se conferissem os números. Mas sobre as circunstâncias do próprio roubo não há várias hipóteses plausíveis. Há simples estranheza. Sim. O roubo foi praticado, ao que se viu, por um processo ruidoso, e a hora não tão cedo que fosse dia, mas não tão tarde que houvesse a certeza de estarem todos deitados em casa, como efectivamente não estavam. Podendo o cofre ser aberto por vários processos que não envolviam ruído, foi escolhido um processo que precisamente o causava, e, ainda, um processo invulgar. Resultado: foi escolhido um processo invulgar porque era desnecessário e produzia alarme — exactamente as razões contrárias àquelas que levariam a escolher um processo invulgar. Que a intenção era roubar os títulos é evidente, primeiro porque o modo misterioso como se passaram os títulos deve, qualquer que fosse, ter sido objecto de preparação; segundo, porque, sendo o roubo praticado com gente dentro de casa, não haveria tempo para roubar mais que os títulos. Ora estas circunstâncias levam-nos a uma conclusão: que o processo empregado para o roubo foi empregado precisamente para dar alarme. Ora não se dá alarme senão para um fim: para enganar sobre a hora do roubo. E, se considerarmos que o processo de roubo — uma deflagração por rastilho — é coisa que pode ser disposta por uma pessoa para produzir resultado quando essa pessoa não esteja presente, chegamos a outra e ulterior conclusão: que o roubo não foi praticado pela deflagração de dinamite. Se o não foi, é porque foi por chave falsa e se foi por chave falsa, quem roubou era uma pessoa da casa, que, pela deflagração, quis dar a ideia de que quem roubara era pessoa de fora. Mas, se essa pessoa queria dar a ideia de que o que roubava não era ele, haveria de completar o seu cenário com o cuidado de estar onde o vissem na ocasião da deflagração e assim assegurar a si mesmo um álibi suficiente. Na altura da deflagração estavam todos deitados menos duas pessoas — o pai Borba e V. Ex.ª. E, como era ele o proprietário dos títulos, a primeira suspeita é sobre V. Ex.ª que recai. Para que a suspeita se confirme, ou se confirme mais, é preciso ver, primeiro, se, um pouco antes de se dar a deflagração, V. Ex.ª saiu de casa de jantar sob um pretexto qualquer e se demorou bastante para dispor o cenário. Ora V. Ex.ª saiu sob um pretexto directo — o ter deixado uma cigarreira no quarto do aspirante —, e demorou-se o bastante para dispor o cenário completo, aliás obra de minutos sobretudo para quem, tendo tudo estudado, procede rapidamente. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 114. «O Roubo na Quinta das Vinhas». 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 SIM, É O ESTADO NOVO Sim, é o Estado Novo, e o povo Ouviu, leu e assentiu. Sim, isto é um Estado Novo Pois é um estado de coisas Que nunca antes se viu. Em tudo paira a alegria E, de tão íntima que é, Como Deus na Teologia Ela existe em toda a parte E em parte alguma se vê. Há estradas, e a grande Estrada Que a tradição ao porvir Liga, branca e orçamentada, E vai de onde ninguém parte Para onde ninguém quer ir. Há portos, e o porto-maca Onde vem doente o cais. Sim, mas nunca ali atraca O Paquete "Portugal" Pois tem calado de mais. Há esquadra... Só um tolo o cala, Que a inteligência, propícia A achar, sabe que, se fala, Desde logo encontra a esquadra: É uma esquadra de polícia. Visão grande! Ódio à minúscula! Nem para prová-la tal Tem alguém que ficar triste: União Nacional existe Mas não união nacional. E o Império? Vasto caminho Onde os que o poder despeja Conduzirão com carinho A civilização cristã, Que ninguém sabe o que seja. Com directrizes à arte Reata-se a tradição, E juntam-se Apolo e Marte No Teatro Nacional Que é onde era a inquisição. E a fé dos nossos maiores? Forma-a impoluta o consórcio Entre os padres e os doutores. Casados o Erro e a Fraude Já não pode haver divórcio. Que a fé seja sempre viva. Porque a esperança não é vã! A fome corporativa É derrotismo. Alegria! Hoje o almoço é amanhã. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - p. 347. 1ª publ. in Diário Popular , Lisboa, 30 Maio e 6 Junho 1974 O Dr. Quaresma desligou as mãos detrás das costas, olhou sem expressão e rapidamente para mim, e, estendendo a mão direita de repente, tocou-me no ombro. Depois tomou à posição em que estava, as mãos outra vez atrás das costas, atadas, e os olhos perdidos sobre o Tejo. . Como uma bola de sabão, estoirou-me a alma, sem ruído, dentro de mim. Fiquei suspenso de um vácuo interior, sem razão, sem fala, sem gesto. Se o Dr. Quaresma tivesse dito qualquer coisa, eu teria respondido qualquer coisa, teria tido a que adaptar a minha razão e a minha voz. Ao silêncio não pude responder nada. O seu gesto era guilhotinante. No longo espaço de curtos segundos tentei desesperadamente formar uma atitude, uma palavra, um gesto, qualquer coisa... Não pude... e então compreendi violentamente quanto pode em nós, se sabem excitá-la, a consciência da culpabilidade. Fosse eu inocente, e alguma coisa diria, alguma coisa sucederia. Com cada fracção de segundo do meu silêncio a minha culpabilidade enchia o espaço. Com cada fracção da minha consciência desse silêncio aumentava a minha incapacidade de falar, de agir, de me defender. A minha derrota era completa. No fim do que deviam ser poucos segundos reconheci-o inteiramente. O Dr. Quaresma desviou o olhar do Tejo, mas não o passou por mim. Voltou-se de costas para o rio, disse-me, com um tom de quem antes nada dissera que pesasse: «E se nós nos fossemos embora?» E, avançando ele para o Arco da Rua Augusta, avancei, silencioso ao lado dele, soterrado em mim sob a acusação definitiva que não fora proferida. A meio da Praça o Dr. Quaresma voltou para mim a face, mas não os olhos, e disse: «O que pensa fazer?» Tive uma grande vontade de chorar, de lhe pedir perdão, a ele, a quem nada fizera. Durante um momento não pude falar. Depois encontrei a minha voz dizendo-lhe: «Não sei.» E acrescentei, passado um momento: «O doutor dirá o que quiser.» O Dr. Quaresma olhou então em cheio para mim, e disse-me com grande simplicidade: «Eu não tenho nada a dizer. Como já compreendeu, decifrei — posso dizer-lhe que decifrei com muita facilidade — o seu caso. O resto é consigo». s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 118. «O Roubo na Quinta das Vinhas». 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR António de Oliveira Salazar. Três nomes em sequência regular... António é António. Oliveira é uma árvore. Salazar é só apelido. Até aí está bem. O que não faz sentido É o sentido que tudo isto tem. ...... Este senhor Salazar É feito de sal e azar. Se um dia chove, A água dissolve O sal, E sob o céu Pica só azar, é natural. Oh, c'os diabos! Parece que já choveu... ...... Coitadinho do tiraninho! Não bebe vinho. Nem sequer sozinho... Bebe a verdade E a liberdade. E com tal agrado Que já começam A escassear no mercado. Coitadinho Do tiraninho! O meu vizinho Está na Guiné E o meu padrinho No Limoeiro Aqui ao pé. Mas ninguém sabe porquê. Mas enfim é Certo e certeiro Que isto consola E nos dá fé. Que o coitadinho Do tiraninho Não bebe vinho, Nem até Café. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - p. 349. 1ª publ. in Diário Popular , Lisboa, 30 Maio e 6 Junho 1974 . inc? CF. lello - fotoc O Iconoclasta. quinzenal. Sumário 1.º número: «O Trust das Livrarias.» Apresentação «Origem Met[afísica] do C[onde] de S[amodães]» J. Moura Costa. Vicente Guedes: (Poesias). Obiter Dicta: - (…) Visão do Manuel Maria. Artigo político: O Anti-Cristo. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 165. — ... então a minha mulher pegou na carta e pô-la em cima de uma mesa pequena que há no fim da sala, chamou a criada, indicou-lhe a carta e deu-lhe ordens, dizendo-lhe até que, se viesse qualquer outra pessoa, que não se fosse embora sabendo que nós não estávamos, e se fosse preciso entrar para a sala, ela tirasse dali discretamente a carta e depois em mão a desse ao Simas, quando ele chegasse. Depois fechámos a porta à chave... »... Minha mulher pôs a carta em cima da mesinha, encostada a uma jarra, e depois veio para porta da sala onde eu estava e chamou a criada. Apontou-lhe a carta no fim da sala e deu-lhe as ordens. Todos nós, eu, a minha mulher e a criada, vimos a carta lá. Depois fechou-se a porta à chave sem ninguém mais entrar ou dar um passo para dentro dela. — E a chave? — Ficou na porta. Demos a volta à chave só para evitar que o pequenito entrasse. Ele tem idade para abrir a porta pelo puxador, mas não tem habilidade, nem sequer altura para dar volta à chave. O Chefe Guedes concentrou-se sobre o engenheiro. — Bem, e depois? — Depois a minha mulher foi pôr o chapéu e eu fui beber um copo de água à casa de jantar. A criada foi para a cozinha. Saímos imediatamente. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 119. «A Carta Mágica». 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 As qualidades mentais e morais necessárias para a conquista do poder político, ou tendentes a essa conquista, são inteiramente diferentes daquelas necessárias para governar o Estado. Pode dizer-se, até, que mais se podem ter por opostas que por sequer análogas. Pode haver, é certo, um ou outro homem que ambas reúna, como pode haver quem seja, ao mesmo tempo, filósofo e atleta; mas em ambos os casos se trata de uma excepção, e os dois tipos ou grupos de qualidades permanecem diferentes e até opostos. São três as maneiras de conquistar o poder: a astúcia e a intriga, nos regimes autoritários, como a monarquia absoluta; a eloquência e a capacidade de persuasão, com a concomitante capacidade de mentir, até a si mesmo, para melhor mentir aos outros, como nos sistemas democráticos; e a violência, nos regimes impostos revolucionariamente, sejam eles de que tipo forem. Destes três tipos de qualidades, a astúcia e a intriga, ou antes, a habilidade de empregá-las, são qualidades em certo modo úteis no governo do Estado, sobretudo nas relações externas e naquelas internas que com essas se assemelham (como as relações com os diferentes sectores de Opinião e seus chefes). A capacidade de comandar revolucionariamente pode implicar ou não uma vantagem no governo; depende do género de revolução que se comandou. Se a revolução foi espontânea, profunda, realmente popular — um motim em ponto enorme —, como a Revolução Francesa, então o seu dirigente ou dirigentes, não tendo sido mais que dirigentes ocasionais, nenhuma qualidade têm, como tais, que sirva em qualquer modo para o governo dos Estados. Se a revolução é só da superfície, feita por uma minoria organizada num país desorganizado, e, por desorganizado, apático e servil, então os organizadores da revolução algumas qualidades têm que há que ter o homem de governo: são, pelo menos, chefes e organizadores. Tal foi, em ponto pequeno, a nossa Revolução de 5 de Outubro; tal foi, em ponto grande, a Revolução Bolchevista. Em ambos os casos, a maioria do país era monárquica, sendo apenas. republicana num caso, comunista no outro, a minoria mais bem organizada; tendo a primeira como espinha dorsal a Ordem Maçónica, a segunda por principal esteio as organizações secretas judaicas. Não quer isto dizer que não fossem inevitáveis ambas revoluções; quer simplesmente dizer que não partiram do âmago da nação, mas propriamente do estado ou condição da nação. O certo, porém, é que os homens saídos, para governar, desses dois movimentos, realmente governaram com certas qualidades. No caso da Rússia, povo passivo e com hábitos de escravo, o caso correu com mais perfeição, dada a unidade ou quasi-unidade de chefia, e a concordância quase total, e praticamente total, entre os chefes. Em Portugal, país a que noventa anos de liberalismo haviam dado já outra mentalidade, o caso nem se passou, nem se poderia passar, assim. Não havia, em primeiro lugar, um chefe incontestavelmente supremo. Se, por exemplo, todo o poder tivesse ficado — real quando não aparentemente — nas mãos de Afonso Costa, o país teria sido bem governado e administrado. De nada, ou de pouco, são realmente culpados Afonso Costa, António José e Camacho; a sua verdadeira falha é que eram três e não um. E acresce que a emergência para o primeiro plano, sucessivamente, de personagens até ali do segundo , reflexo da cisão na chefia, e efeito de ambições de várias espécies que se tornavam realizáveis, mais complicou o assunto — e esses recém-vindos, ou recém-vindos ao plano do governo, nada haviam chefiado na propaganda, nada haviam organizado, de importante pelo menos, dentro do Partido. O único período útil na vida governativa da República Constitucional foi o Governo Provisório; é que nele a cisão na chefia não estava mais que esboçada, e que decidiu, e muito bem, governar em ditadura, contra os seus princípios fundamentais — os princípios a cuja sombra haviam pregado e feito a revolução e conquistado o poder. É curioso, e oposto, o caso do 28 de Maio. Este foi, como a Revolução Francesa, uma Revolução Nacional, saída deveras do âmago da nação, diversamente vítima, e diversamente revoltada contra, a quase plena anarquia, de rua a cabeça, em que o desmanchamento dos partidos e a eclosão de novos desconhecidos tinham lançado o país. Análogo à Revolução Francesa em carácter, embora diverso em realização — visto que era um movimento contra-revolucionário —, o 28 de Maio tinha forçosamente que resultar numa situação caótica. Revolução espontânea (pouco importa que a executasse o Exército, pois alguém, algum grupo, havia de ser o mandatário instintivo da nação) não trazia consigo programa algum. O Chefe que trouxe, grande figura de soldado, foi um chefe inteiramente ocasional; não conspirou, revoltou-se, como ele muito bem disse. Nada tinha organizado do que comandou. O período entre 28 de Maio de 1926 e 27 de Abril de 1928 — a vinda de Salazar ao poder — é talvez dos períodos mais perigosos para a Nação que ela tem tido em sua longa vida. Não por este ou aquele elemento externo ou visível, mas pela surda confusão, pela permanência, sob forma diferente, da anarquia que o 28 de Maio viera para extinguir, sem saber como. O pior evitou-se logo de início, com a entrega ao general Carmona da chefia da Nação. O seu grande prestígio mantinha, ao menos, a seu lado a maior parte da Força Armada. Assim — e ainda assim com violentas interrupções, como o 7 de Fevereiro — se manteve a ordem na rua, por pouco que ela se mantivesse nos espíritos. Outras figuras de prestígio, como o coronel Passos e Sousa, firmavam, ao menos, os alicerces da defesa da ordem. No resto, porém, confusão: a Revolução Nacional continuava sem ideias, pois não eram suas as dos integralistas — as únicas com sistema e coerência, mas de um grupo reduzido e, com razão ou sem ela, detestado, ou por monárquicos, ou por católicos, ou por antidemocráticos, pela grande maioria da Nação. A vinda de Salazar trouxe enfim o Chefe de Acção Nacional. Gradualmente se sentiu a sua chefia, foi primeiro um prestígio de pasmo, pela diferença entre ele e todas as espécies de chefes políticos que o povo conhecesse; um prestígio psicológico, sim, antes de mais nada, porque o que primeiro se descobriu de Salazar, à parte o seu carácter ascético (traço que, de per si, não dá prestígio, mas geralmente reforça o que outras qualidades imponham), é que era, ao contrário dos vulgares chefes políticos, um homem de ciência, de trabalho e de poucas palavras, e, ao contrário dos portugueses vulgares, incapazes de pensar claramente e de querer firmemente, um espírito excepcionalmente claro, uma vontade omnimodamente forte. Veio depois o prestígio administrativo, do financeiro — prestígio que o povo, incapaz de criticar ou perceber uma obra financeira — imediatamente aceitou por virtude do prestígio já dado. Por fim, mais tarde, atraindo já certas classes cultas que ficaram um pouco retraídas, veio o prestígio do chefe político, do organizador da Constituição e do Regime Corporativo. Muito embora se não concorde com uma e outro, as classes para quem por ambos Salazar se prestigiou são classes que não ligam necessariamente a admiração à concordância. Por mim falo, que dessa classe sou. É evidente que por "povo" entendo a massa geral da Nação — a que não está enquadrada num partido político, subservientemente. Desde que alguém entra para um partido político, deixa de ser povo para ser político. Quando dizemos, por exemplo, "o povo inglês", entendemos, não os indivíduos firmemente filiados nos partidos políticos (são muito poucos, em relação ao país, pois os partidos políticos ingleses são simples "directórios" e não partidos no nosso sentido), mas aquela massa não filiada que, oscilando em suas opiniões ou tendências, ora vota quase em peso nos laboristas, ora, quase em peso, passa a votar nos conservadores. Como certo comerciante meu amigo, homem fora de literaturas, que nunca ouvira um verso meu e o não compreenderia se o ouvisse, várias vezes afirmou ser eu um grande poeta isto porque o ouviu a alguém literário e (inconscientemente para ele) eu lhe fazia muito bem a sua correspondência estrangeira. Havendo um prestígio que se sinta e entenda, todos os outros prestígios, ainda do que não entenda ou sinta, naturalmente se lhe ajuntam, logo alguém comece a dizê-los. Em outras palavras, Salazar é considerado um grande ser, um homem de inteligência clara e de vontade firme. Não é lógico, mas é humano, e entre os homens é o humano que vinga. Quando um homem tem como qualidades marcantes aquelas que mais notavelmente faltam ao povo a que pertence, o seu prestígio é imediato, embora seja, talvez, sempre um prestígio frio e constrangido — um prestígio intelectual, sem elemento emotivo. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 112. O PAGANISMO SUPERIOR O fenómeno chamado cristianismo derivou da junção de três tendências inteiramente diversas e que só a circunstância exteriormente unificadora de existirem adentro do Império Romano conseguiu jungir em uma só. (1) A interiorização do paganismo, isto é, a espiritualização do helenismo; (2) A emergência extrajudaica do monoteísmo judeu; (3) A influência cosmopolita do império romano. (1) O paganismo helénico tem duas feições: a exotérica, que é a do mito popular e admite os deuses, objectivista, patente, consoante o são todas as manifestações populares, e, sobretudo, todas as manifestações do espírito grego; e a esotérica, que o heleno aprendia apenas nos mistérios, a parte oculta do paganismo, ligada intimamente — mais mesmo que a parte aparente e normal — aos velhos cultos e sacerdócios do Egipto e do Oriente indefinido. Em Pitágoras emerge, afirma-se em Platão, este esoterismo pagão. Porque emerge? Porque o espírito da filosofia pagã começou da limitação objectivista. Desceu às cavernas das iniciações. Abriu portas insuspeitas no mistério da alma humana. O adoecimento do espírito objectivo. O sincretismo helénico, o carácter sintético do paganismo devia complicar-se . Tendo começado por admitir todos os deuses, devia, interiorizando-se, acabar por admitir todas as ideias de deuses. Assim, (...), no seu paganismo fundamental, o cristianismo é um paganismo de três dimensões, não só externo mas também interno; não só admissor dos deuses de todas as crenças, mas aperfeiçoador de todas as crenças. É isto o paganismo superior. (2) O judaísmo, ao mesmo tempo que põe a força fixadora, põe a força desvirtuada de Cristo. Na sua essência útil e vital, o cristianismo é um paganismo interiorizado, um paganismo completo, um politeísmo de dentro. Mas, com a outra alma, o altropsiquismo dos cultos orientais, o psiquismo superior foi buscar o monoteísmo judaico, mortal para a própria essência do paganismo porque exclusivista e fechado. Tanto assim que toda a renascença ideativa cristã é uma renascença ao mesmo tempo pagã e platonista. Os dois aspectos acompanham toda a renascença, porque são o mesmo: um é a essência, outro a consequência. Há duas renascenças ideativas adentro do cristianismo: a renascença e o romantismo. Em ambos o paganismo é evidente e o platonismo também. É que um é a base, outro a sobrebase da força verdadeira do cristianismo. Na sua essência, o cristianismo é um paganismo esotérico. Na sua desvirtuação, o cristianismo é um judaísmo degenerado, na sua forma exterior católica, o cristianismo é um império romano subjugado. A libertação ocultista moderna serviu, provavelmente, os fins de trazer o cristianismo ao seu ponto são: o paganismo esotérico. Para isso é preciso despir-se do culto judaico, isto é, do seu elemento moral, abolir o humanitarismo de Cristo, (...) * Os Rosacruz, transmissores da velha tradição aristocrática adentro do ocultismo. 1915? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 94. — Considerei o caso desta maneira — disse o Guedes. — Ou a carta foi tirada por uma pessoa só, sem combinação com outra, ou foi tirada por alguém em combinação com alguma outra pessoa. Na primeira hipótese, não podia ter sido tirada senão pela criada velha — única pessoa que estava em casa para esse efeito, pois me pareceu que o petiz era pequeno de mais para receber e se desempenhar de uma incumbência desse ordem, se alguém lha tivesse dado. Na segunda hipótese, e não falando nunca no petiz, é claro — a combinação podia ser uma das seguintes: entre marido e mulher, entre marido e criada, entre os três, e entre o Simas e a criada. Pus de parte a hipótese da combinação entre os três. Com os três combinados, não era preciso arranjar-se uma trapalhada tão misteriosa e tão incompreensível; em pouco tempo se arranja qualquer coisa com mais jeito, qualquer coisa que desorientando a polícia (se era intenção consultá-la, como foi), em todo o caso tornasse possível recaírem as suspeitas sobre as pessoas estranhas à casa, não as fazendo recair só sobre as pessoas do plano. Pus de parte a combinação entre marido e mulher, porque esses estavam ausentes de casa, e a criada garante que a carta estava em cima da mesa quando a porta da sala se fechou à chave. Só podiam roubar a carta por intermédio da criada, e isso levar-nos-ia à combinação entre os três, que eu já tinha posto de parte. Mais provável era a combinação entre um dos cônjuges do casal e a criada e, das duas hipóteses, é mais provável a de a combinação ser entre o engenheiro e a criada, pois ela era criada velha da casa dele, e não da casa da mulher, e a sua dedicação era pois naturalmente muito maior por ele do que pela mulher, qualquer que fosse a dedicação por esta. Por outro lado, as circunstancias apontavam mais para uma combinação em que a mulher estivesse envolvida — ela é que tinha tido a ideia histérica, ou fingidamente histérica, de ir passear de modo a o Simas os não encontrar em casa; ela é que tinha tido a ideia de pôr a carta em cima da tal mesa e fechar a porta à chave, isto é, de arranjar o cenário onde todo este sarilho se deu. Mas não me parece provável que a mulher fosse estabelecer com a criada velha dos pais do marido dedicada como era a ele, uma combinação que, fosse lá o que fosse, era dirigida contra o marido de qualquer maneira. Assim, sem serem redondamente impossíveis, as duas hipóteses eram improváveis. E considerei-as ainda mais quando reflecti que ficava de pé a inutilidade de arranjar um mistério desta ordem, e de fazer depender a sua execução de uma criada, que não era muito de supor pudesse resistir a um interrogatório da polícia. Quanto à hipótese de uma combinação entre a criada e o Simas, pu-la de parte também: a criada mal conhecia o Simas, e, embora já aqui não fosse muito absurdo o mistério, pois a carta tinha que desaparecer em condições criadas por outros, havia ainda assim várias maneiras muito mais práticas de arranjar o caso, e esta trapalhada nem era de ordem de ocorrer a uma criatura boçal como a criada, nem a um homem de negócios como o Simas. Fui levado pois a considerar como de máxima probabilidade a carta ter sido tirada por uma pessoa só, agindo independentemente. O marido e a mulher não eram, com certeza, pois estavam fora de casa Havia, pois, que escolher entre a criada e o Simas. A criada, porém, diz que logo que abriu a porta viu que a carta não estava em cima da mesa. O Simas não tinha ainda entrado sequer na sala. Estamos pois na hipótese de que a criada tirou a carta, e por sua conta, ou então por conta de qualquer pessoa que não está entre as que conhecemos. Não vejo maneira, em boa lógica, de se fugir disto. Ora, doutor, confesso que os meus dois interrogatórios da criada me não deixaram muito satisfeito com esta hipótese apesar de eu não ver hipótese melhor. O doutor sabe que estou muito habituado a lidar com criminosos baixos, isto é, vulgares ou gente do povo, e que toda essa gente conheço eu muito bem. Têm às vezes manhas que enganam pessoas muito mais inteligentes do que eu, mas a mim é raro que enganem. E, doutor, isto não é argumento, mas é uma certeza minha, a minha impressão directa da criada é que ela não teve nada que ver com o caso. E é nisto que eu estou. Guedes deitou o cigarro para o cinzeiro e apoiou as mãos nos joelhos. Quaresma sorriu para ele e tirou uma fumaça do charuto. — Tudo isso é perfeitamente lógico, mas um tanto ou quanto inconcludente. — Absolutamente inconcludente... E eu vim cá maçar o doutor para ver se me dizia se há qualquer processo de investigação, qualquer orientação que eu possa tomar para ao menos ficar na pista do mistério. O doutor julga possível, pelo menos com os dados que tenho, resolver o mistério? — Já o resolvi — disse o Dr. Quaresma. — O quê? — entregritou o Guedes. Os dados são absolutamente suficientes para a solução total do problema. Já o resolvi totalmente. — Totalmente em que sentido, doutor?… — No sentido de que sei quem tirou a carta, como foi tirada, e qual era o seu conteúdo. s.d Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 120. «A Carta Mágica». 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 Sei bem que não consigo O que não quero ter, Que nem até prossigo Na estrada até querer. Sei que não sei da imagem Que era o saber que foi Aquela personagem Do drama que me dói. Sei tudo. Era presente Quando abdiquei de mim... E o que a minha alma sente Ficou nesse jardim. 18-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 152. Quaisquer que sejam os defeitos, que se possam apontar com razão ou sem ela, ao fascismo, não pode ele ser acusado de plágio ou de subserviência a um mestre ou a um modelo. Bom ou mau, é gente. E isto o afirma um fenómeno da civilização, que não um espectáculo dos arredores e das províncias. A hipnose do estrangeiro é um dos característicos distintivos das nações que não são senão províncias. A hipnose das cidades é outro sintoma de provincianismo. Tudo que se faz em Paris, por estúpido que seja, é motivo de gesto igual para os macacos da Europa. Quando foi da guerra, como em França se constituísse uma coisa a que se chamou Union Sacrée, logo que os idiotas de cá simularam a mesma atitude não puderam deixar de simular também o mesmo nome — chamaram-lhe União Sagrada. Não tiveram invenção para mais. E, como houvesse uma (...), a idiotice correspondente passou a chamar-se Cruzada das Mulheres Portuguesas, como se não houvesse dicionário. Do mesmo modo, os parvos que arreatam a nossa proletariedade, como encontraram uma Confédération Générale du Travail já baptizada em França, não levaram a imaginação além de traduzir esse nome. Não queríamos que esses pseudo-homens buscassem conscientemente um nome português que para eles isto é a "região portuguesa" daquilo a que — com a ingenuidade natural em quem não sabe ler, mesmo não sendo analfabeto —, chamam a "humanidade". Mas gostávamos de ver o cérebro — até o cérebro deles — usado para mais que para equilibrar pelo peso o cabide natural do chapéu. Com razão repugna à ciência a descrição teológica do homem como "animal racional". Para a maioria dos homens o cérebro é uma nova espécie de intestino cego, inútil salvo para custarem caras as operações da apendicite. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 113. PAGANISMO SUPERIOR Teoria do paganismo O Cristo é a representação simbólica, humanizada, do processo que o paganismo não conta, ou não sabe contar, pelo qual a Realidade passou do Caos e da Noite (Destino) para os Deuses. Entre o Informe, que o duplo mistério da Noite e do Caos representa, e o Formado, que começa com o primeiro deus, há um abismo causal, sobre cuja natureza, de propósito, o sistema pagão se cala. Nos mistérios, porventura, não se calava; e ali se ensinavam aquelas doutrinas que, porque derivam de uma verdade anterior aos deuses, não podem ser ditas na forma exterior que, por natureza, se coaduna com o mundo exterior que os deuses governam. Entre os deuses e o Cristo há uma diferença. Os deuses são reais, e carnais com a sua carne; existem como nós, mas superiormente; agem como nós, mas completamente; nascem como nós, mas sem ocaso (sem crepúsculo) nem imperfeição. O Cristo, porém, não existe senão simbolicamente: é substancialmente simbólico. os deuses não são mitos nas suas pessoas, são-no, quando muito na nossa indecisão. O Cristo, porém, é um mito na sua própria realidade ; é real na proporção em que é mito. É só símbolo, mas só símbolo de si-próprio. É puro sonho, mas puro nada projectado. Assim, o processo mental, pelo qual compreendemos Cristo, não existe na humanidade. Os próprios deuses, nossos semelhantes maiores, não o entendem. Os deuses são da nossa carne e da nossa alma mas perfeitos; podemos amá-los ou compreendê-los embora não os possamos seguir nem imitar. O Cristo, o Logos, não pode ser compreendido; pertence a uma outra realidade, cujo próprio modo de ser real é diferente do mais abstracto conceito que façamos, da palavra realidade. O Cristo é o intermediário Absoluto, o que é absurdo; o Verbo que não é pronunciado, o que é impossível. A razão só sobe até aos deuses porque os deuses são racionais; não sobe até ao Logos, porque ali não há razão. O que paira acima do Logos é Lei, Destino, visto do nível dos homens e dos deuses, cuja raça, como Píndaro disse, é uma só; é outra coisa, vista do nível de Cristo, mas que coisa, não podemos nem atingir, nem compreender que se atinja ou se não atinja, mas «coisa» mesmo, lhe podemos, mesmo por falso recurso, chamar. O Cristianismo, como o Budismo, são crimes contra a humanidade, porque são crimes contra as leis divinas. São a tentativa, mais que todas sacrílega, de revelar o irrevelável; de trazer para o público o que, de sua natureza, trazido que seja para o público já não é o que é. E como se houvesse uma jóia ou uma flor, cuja cor maravilhosa só pudesse existir na noite, desaparecendo logo que se estabelecesse a luz, com a qual se veria. A vulgarização do mistério não se pode fazer, porque, assim como o segredo, dito, deixa de ser segredo, perde a sua virtude mística de segredo; assim os mistérios, revelados, não são revelados. Disse-o bem Tertuliano: revelá-los é destruí-los. Quando se lê nos livros, tais quais são, dos Rosa Cruz que o sentimento é mais verdadeiro que a razão, supõe o geral dos leitores que se trata do sentimento, como humanamente o sentimos. Mas não é esse o sentimento de que os Encobertos falam. É de uma outra forma de consciência, que não existe, nem em esboço , na alma humana; de que nada em nós pode dar ideia, ou fingir que é sombra. O mistério do Cristo não pode ser revelado, porque não há na alma humana qualidades para compreender essa revelação. A «intuição», de que falam os místicos é termo usado apenas para indicar um processo de compreensão que não é a inteligência. Mas não temos qualidades nenhumas a que se chame intuição. A palavra é negativa, posto que pareça positiva. Assim como vir de intus , «dentro», e significar «compreensão vinda de dentro», pode ser in-tuitio, o não ver, o não proteger. Tão subtil sentido, duplo, têm às vezes as palavras! Cada um de nós tem, a sós consigo no seu silêncio de ser um ser, uma personalidade inexprimível, que nenhuma palavra pode dar, nenhum gesto interpreta, que o mais expressivo dos olhares não interpreta, nem inclui o mais [...] dos gestos. Por essa personalidade extra-social, extra-humana mesmo, cada qual é um eterno isolado, crucificado eternamente no seu próprio não-ser-os-outros. A própria essência íntima do sentir é não poder exprimir, salvo em si e só por si, adentro do indivíduo para si mesmo. Só quando chega à inteligência é que o sentimento se exprime. A substância do sentimento é não se exprimir. Todo o gesto pressupõe ainda que sumária, obscura e subconscientemente, a representação mental do gesto — e a «representação mental» é uma ideia, isto é, um fenómeno daquela parte de nós, a que chamamos a Inteligência. Sentir é existir a sós irreparavelmente. Pensar é existir com os deuses e com a substância visível e harmónica do mundo. Agir é existir com os homens e com a natureza criada. Agir tem por manifestação o gesto — seja o gesto mesmo ou a palavra ou o «acto». (...) Na poluição da decadência romana, anda toda a mentira e a confusão, o maior crime de todos, que contra a humanidade se perpetrassem, foi o nela entrarem os acrescentos dos mistérios a que hoje se chama o Cristianismo. Posto em público, o Cristo era ou considerado como real ou como símbolo; mas o vero Cristo não é real nem símbolo, na sua oculta e impossível significação. * Politeísmo e monoteísmo são ambos como verdadeiros, depende do ponto da realidade de onde se olhe para eles. Se do ponto divino e humano, o politeísmo é verdadeiro. Se da altura do abismo, onde se forjara Cristo, o monoteísmo é certo. Porque a mesma realidade que é absolutamente verdadeira como politeísmo de um lado, é absolutamente verdadeiro como monoteísmo, do outro lado. Todo este mistério fundamental se encontra figurado no pentáculo dito (chamado) de Salomão: De onde, homens, existências, é como se Cristo não existisse, um homem nada, para além dos Deuses, não o Destino abstracto e omnipresente, e um vácuo inexprimível entre eles e o Destino. A Bíblia [...] uma obra escrita em cifra transcendental. * Os mil absurdos humanos do Cristianismo são a sua razão de ser para consigo, e o justo resultado de se querer trazer aos homens uma coisa que eles não têm maneira de alma para compreender. Todas as teses do Cristianismo são humanamente incompreensíveis. (Para a humanidade só o paganismo pode ser real, é real.) O livre-arbítrio, a graça, o amor — são expressões cujo sentido, se é que o seu «sentido» se pode chamar um sentido, não tem nada que ver com a nossa estrutura mental. De aí as antinomias fundamentais da [...] Cristã e da razão humana. O livre-arbítrio é impensável, mas não é o que se entende, ou se pode entender. Por «livre arbítrio» só se pode entender um absurdo; ele, porém, não é absurdo, pertence a um género de realidade em que o absurdo não aparece como conceito, e, assim, a razão não tem existência real; como, no nosso mundo racional, esses conceitos do Outro Mundo, são nocturnos e da mão esquerda. No ocultismo dos Índios o Mestre, a que os discípulos procuram, é a própria substância monádica do discípulo. «Eu próprio sou o cantor», diz-se no poema sagrado. Só há a procurar o que já se encontrou. Os conceitos expostos no ocultismo pertencem a um sistema de Realidade diferente da nossa. O que é bem aí (para assim falar) é mal para nós; o que é mal aí é o nosso bem. O que é aí real é irreal para nós; a nossa ilusão, a nossa mentira essencial, o nosso sonho é que é aí a verdade. São dois «mundos» opostos — o esquerdo e o direito. Um é o invisível do outro, conforme de onde se olhar. (...) Façamos silêncio sobre o impenetrável e o irracional. Desçamos mostrando o véu que não erguemos nunca. 1915? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 96. A vida é um hospital A vida é um hospital Onde quase tudo falta. Por isso ninguém se cura E morrer é que é ter alta. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 110. — Em todo o caso onde há crime, ou se presume que há crime — disse o Dr. Quaresma —, há que considerar, depois de o facto estar definitivamente estabelecido, cinco circunstâncias diferentes, todas elas relativas ao crime, ou ao crime suposto, e todas elas entre si relacionadas, de modo que, ignoradas umas, a elas se possa chegar por meio das que são conhecidas. E o processo será sempre o mesmo: primeiro, determinar bem quais dessas circunstâncias são conhecidas; segundo, sendo elas conhecidas, determinar se são inteiramente conhecidas, ou se o não são inteiramente; terceiro, fazer por tornar inteiramente conhecidas aquelas circunstâncias que o estejam imperfeitamente. Feito isto, estaremos noutro capítulo da investigação lógica; por agora limitemo-nos a este. »As cinco circunstâncias, em que falei, relativamente a um crime, ou presunção de crime, são as seguintes: primeiro, onde foi cometido; segundo, quando foi cometido; terceiro, como foi cometido; quarto, por que foi cometido; quinto, quem o cometeu? As duas primeiras circunstâncias são materiais, as duas últimas imateriais; a terceira participa das duas. »No caso presente, e partindo do princípio aceitável, ainda que não lhe possamos chamar definitivamente assente (tal é a confusão que os testemunhos directos produzem), de que o crime (isto é, o roubo da carta — assim o consideremos, sem mais exame de momento) foi praticado na sala da casa do engenheiro, e entre as horas de saída dele e da mulher e a da chegada do destinatário da carta, sabemos já, perfeitamente, o onde e o quando do crime. Se não há qualquer vício, ou viciação do testemunho, temos estes dois pontos por assentes. »Os outros três pontos, porém, são obscuros. Não sabemos, de início, como a carta foi tirada; não sabemos, visto desconhecermos, até por presunção, o seu conteúdo, por que motivo seria tirada; e não sabemos quem a tirou. »Estes três pontos, digo, são obscuros. Vejamos, porém, se são igualmente obscuros. Logo à primeira vista, descobrimos uma coisa: que, ao passo que o autor do crime é desconhecido, e que o motivo do crime é desconhecido, o modo do crime não só é desconhecido, mas é estranho. Ora ser estranho é já alguma coisa; do que se sabe que é estranho, não se pode dizer que se não sabe nada, por isso mesmo que se sabe que é estranho, e isso é já saber-se alguma coisa. »Entramos agora no segundo estádio da nossa investigação. Ela resume-se em dois processos lógicos: primeiro, qual dos elementos desconhecidos é menos desconhecido? Segundo, qual dos elementos desconhecidos é mais estranho? O mais estranho será mais fácil como elemento de investigação, porque quanto mais estranho é o facto, em menor número são as hipóteses que o podem explicar. — Porquê, doutor? — perguntou Guedes. — Porquê, o quê? — interrogou o Dr. Quaresma. — Por que é que, quanto mais estranho é um facto, menor é o número de hipóteses para o explicar? — Porque o estranho é o invulgar, e há evidentemente menos causas para o invulgar do que para o vulgar. Se amanhã aparecer morto numa rua de Lisboa um homem que assassinaram com uma facada, você, só pela facada (não me refiro agora à identidade do homem e das conclusões que se possam tirar dela) não poderá concluir muito quanto à natureza do criminoso. Se esse homem tiver sido morto por uma punhalada de um punhal delgado, restringe-se forçosamente o número de criminosos possíveis. Se tiver sido morto por uma seta, poderá haver dificuldade material em acertar com o criminoso, mas não haverá dificuldade em desde logo eliminar um grande número de criminosos. Você compreende, não é verdade? — Perfeitamente. — Ora neste caso — prosseguiu Quaresma —, o pouco que se conhece e a estranheza reúnem-se no mesmo elemento de investigação: no modo como o crime se praticou. É sobre este elemento, pois, que tem que incidir o seguimento da nossa investigação. »Vejamos bem em que consiste a estranheza. Consiste no desaparecimento de uma carta de um quarto hermeticamente fechado. Apertemos mais, logicamente: trata-se do desaparecimento de um objecto inanimado de um quarto fechado. E agora, meu caro Guedes, apertemos ainda mais, e chegamos ao ponto que você não viu. Esse ponto é a natureza do objecto desaparecido. Você considerou o desaparecimento de uma carta de um quarto fechado como análogo ao desaparecimento de qualquer objecto inanimado de um quarto fechado. Você não considerou que uma carta é um objecto especial, olhando a capacidade cúbica. Sim, uma carta não é um cadáver nem um caixote: é um objecto pequeno, principalmente caracterizado, em geral, pela sua extrema chateza. Em poucas palavras, uma carta é um objecto inanimado que sai por uma fisga, por uma greta, ao passo que o mesmo não acontece a objectos, inanimados ou não, de maior espessura. — Ora bolas! — disse o chefe Guedes. — Sinto vontade de ir aprender a andar. — Isto é simples, não é? — perguntou Quaresma. — Não me fale mais nisso, doutor! Continue... — O problema, assim visto, transforma-se logo. Não se trata do desaparecimento de um objecto de um quarto hermeticamente fechado. Trata-se do desaparecimento de um objecto chato, que se no quarto há fisgas ou gretas, por onde caiba, não desaparece de um quarto hermeticamente fechado quanto a esse objecto. Expus bem? — Mais que muito bem, doutor. Ande lá para diante... — Ora que fisgas ou gretas haveria na sala do engenheiro? Fechadas as janelas, é de presumir que não houvesse aí nenhumas. A casa, pelo que você me disse, é de boa construção, e nessas casas as janelas são cuidadas nesse sentido; além disso, a saída pelas janelas não parece muito indicada, dado que não são de varanda e que são num segundo andar alto. »Restam-nos as fisgas ou gretas por baixo das portas, e essas com certeza existem, porque em toda a parte existem, excepto onde um tapete ou oleado encosta mesmo à porta, e, ainda assim, é incómodo se ela não abre para fora. Podemos resumir, pois, que há duas saídas possíveis para uma carta, nesse quarto já não hermeticamente fechado: a greta por baixo da porta de entrada, e a greta por baixo da porta fechada. Ora, como é a porta fechada que está em linha com a mesa pequena onde foi posta a carta, é a greta que está por baixo dessa porta que está naturalmente indicada como o ponto de saída possível. »Consideremos, agora, de que modo se pode fazer sair a carta de cima da mesa para fora do quarto, através dessa greta por baixo dessa porta. Não há muito que pensar: um fio ligado à carta por um alfinete ou outra prisão qualquer de pouco volume e altura; esse fio, preliminarmente preparado, passado do corredor por baixo da porta, até à mesa; (com o alfinete na ponta) a colocação da carta em cima da mesa, prendendo ao alfinete que já lá estaria; fechada a porta, a pessoa que preparava isto tudo, saía para o corredor, puxava o fio e a carta vinha a reboque pela sala fora, passava por debaixo da porta e desaparecia para sempre. Ora... O Chefe Guedes ergueu-se da cadeira, com cara entomatada e, dando um formidável murro na mesa, pronunciou uma série de exclamações que, como constavam principalmente de palavras excluídas dos dicionários vulgares, e esta narrativa não pretende senão servir-se das comuns, não serão aqui transcritas. — Perdão, doutor... — disse o Guedes, e tornou a sentar-se. — Uma coisa facilitava extraordinariamente esta manobra; quero crer, até, que talvez fosse o que de algum modo a sugerisse: a cor comum do tapete da sala e do pano da mesa. Um fio de retrós verde forte, ou um fio de retrós verde vulgar duplicado, qualquer destas coisas serviria. »E, agora, tendo determinado o único modo provável como a carta teria sido extraída do quarto pseudofechado, imediatamente esclarecemos quem foi que a tirou. Foi a pessoa que lá a põs. E quando vemos que essa pessoa foi quem suscitou a ideia do passeio e da ausência quando o Simas viesse; quando notamos que essa pessoa é de um temperamento histérico, e, portanto, predisposta às coisas imaginosas e disparatadas, o desaparecimento da carta fica não só resolvido, mas nitidamente explicado, no seu modo e na razão do seu modo. »Chegamos, pois, a duas conclusões: sabemos como a carta foi tirada, e sabemos que quem a tirou foi a mulher do engenheiro. O charuto de Quaresma apagara-se. Na suspensão do argumento, o charadista acendeu novo fósforo e reanimou a vida da nicotina. Mas, antes que falasse de novo, o Guedes, que tinha estado ainda num crepúsculo de apoplexia de pasmo e de imaginação, explodiu outra vez. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 122. «A Carta Mágica». 1ª publ. in A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa . Fernando Luso Soares. Lisboa: Diabril, 1976 Argument from consciousness bad. Evil and error of the same nature. The progress of the world towards consciousness is a progress towards evil, towards suffering. There is no consciousness but of imperfections. Real knowledge identity of idea and thing. So all human knowledge. For me that is true which I make true. For thee thus which thou makest true. The division subject-object in consciousness most rudimentar thing of all. Limitation, exclusion. To say the one is neither identical to itself nor to another thing, to say it is different from nothing is a brilliant kid nonsense, of striking declaration of ignorance. «What unknown should be spared attempts to express it. For expressions and phrases such as Plato uses, if considered in relation to the unknown are inexpressive, feeble and weak. If in relation to us it is better not use them for they are absolute nonsense. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 234. O tio Mussolini, como qualquer inglês com razão de queixa, escreveu uma carta ao Times. O duce não sabe inglês, nem, ao que parece, encontrou alguém que o soubesse responsavelmente entre os quarenta milhões de pessoas que compõem a sua pátria virtual e os três milhões que, pelo cômputo próprio, formam a sua pátria real. A carta é notável, não pelas afirmações — que são do género das que poderia fazer o Sr. Lloyd George, ou o Sr. Briand, ou qualquer outro Afonso Costa —, mas pelo emprego saliente da palavra whereof , que quer dizer "de que". De relembrável nada mais diz o lictor. O problema apresentado pelo fascismo é muito simples, e, na sua essência, não nos é, a nós portugueses, desconhecido. O povo italiano — que é de supor que o seja, e não fascista nem comunista — recebeu há anos, do lado direito da cara, a bofetada do comunismo. O fascismo, para o endireitar, deu-lhe uma bofetada, um pouco mais forte, do lado esquerdo. Não sabemos, nem temos meio de saber, se o povo italiano aprecia mais o ter ficado direito, ou neo-torto, ou as desvantagens faciais do processo empregado. E resta sempre saber, nesta matéria — como cada nova bofetada é sempre mais forte que a anterior, para poder endireitar —, em que altura é que pára a terapêutica equilibradora, e em que estado fica o equilibrado quando o Destino por fim, se cansa do tratamento. Whereof... s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 114. What is the existent? That which has come from the possible. But then the existent is the not‑real, the not‑being. But then if matter (in the widest sense), if the existent, the actual be the not‑being, the possible is Being. (Prove next that Being is equal to not‑being.) Genesis of matter. Genesis of the actual. Chapters (Division of): I. What is the problem of philosophy, or what are the problems of Philosophy. II. Method of Ontology. III. Critique of Knowledge. IV. Critique of Materialism. V. Critique of Dualism. VI. Critique of Idealism. VII. Being. VIII. Genesis of the Actual. IX. X. 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 51. PAGANISMO SUPERIOR O elemento vital do cristianismo é o paganismo transcendente, que inclui. É o elemento vital porquanto: 1) é aquele que estabelece continuidade com o passado; 2) é aquele que representa um prolongamento do passado, um passo a mais, e não um mero acrescentamento; 3) é aquele que, em todas as ocasiões de reviviscência europeia, nós vemos que surge como símbolo, modo em suma, dessa ressurreição. Há no elemento pagão do cristianismo duas componentes a notar: o paganismo propriamente dito, e o interiorismo nado do paganismo que se aprofundou. Chegado a um certo ponto, o paganismo não podia mais progredir objectivisticamente; só subjectivando-se podia continuar. Ora em que consiste a subjectivização? Em 3 fenómenos: (1) Na redução dos fenómenos objectivos a simbólicos, desmaterializando-os assim. Não se lhes erra as proporções ou a forma de realidade; dá-se a essa realidade um sentido de eco e não de palavra, não de questão mas de interpretação. (2) Na atenção dada aos fenómenos subjectivos de modo a dar-lhes, ou a sentir-lhes, uma realidade concreta tão certa como a dos fenómenos objectivos. Isto é, no alargamento da experiência directa pela observação intensiva dos fenómenos do espírito. 1915? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 101. Saudades, só portugueses Saudades, só portugueses Conseguem senti-las bem, Porque têm essa palavra Para dizer que as têm. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 110. Quando cantas, disfarçando Quando cantas, disfarçando Com a cantiga o cantar, Parece o vento mais brando Nesta brandura do ar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 52. IV Let the wide light come through the whole house now Like a herald with brow Garlanded round with roses and those leaves That love for its love weaves! Between her and the ceiling this day’s ending A man ’ s weight will be bending. Lo! with the thought her legs she twines, well knowing A hand will part them then; Fearing that entering in her, that allowing That will make softness begin rude at pain. If ye, glad sunbeams, are inhabitèd By sprites or gnomes that dally with the day, Whisper her, if she shrink that she'll be bled, That love's large bower is doored in this small way. 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 130 / 132. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. É, a meu ver, um erro de Salazar o filiar o espírito de partido — Pelo menos entre nós e nos países latinos — na aprendizagem de arguir e defender que se faz ou fazia em certas escolas. Em Inglaterra pode, em certo modo, ser assim; e que as debating societies das universidades e outras escolas — que são extra-escolarmente o mesmo que Salazar indica — se reflictam nos debates parlamentares e criam a mentalidade partidária, influindo, pelo exemplo comiciário e parlamentar em indivíduos que não pertenceram a qualquer dessas societies. A Inglaterra, porém, sendo o país onde essa espécie de preparação mais frequentemente existe, não é todavia o país onde mais se acentue o espírito partidário, no sentido em que Salazar o entende. Muito mais se acentua esse espírito, assim entendido, nos países latinos. E isso nos dá desde logo um indício que permite encontrar a verdadeira origem desse espírito. O espírito partidário é uma consequência da intolerância religiosa do passado, e por isso mais se acentua naqueles países que sofreram, durante séculos, o influxo da mais intolerante de todas as formas de religião — o catolicismo. A Itália, a Espanha e Portugal são os países onde esse espírito de partido, como Salazar o entende, mais se acentua. São também os países onde mais se acentuou a acção da Igreja de Roma. De resto, o efeito do sistema de arguir e defender pode ser inteiramente diferente daquele que lhe atribui Salazar. A um temperamento diverso daquele em que se forma o partidário o efeito desse sistema pode ser o de considerar aceitáveis todas as ideias e todas as teorias — conduzindo assim ao conceito oposto ao partidário, ao conceito de que a teoria vale o que vale o teorizador, de que tudo é defensável, de que uma tolerância vasta, ou um vasto cepticismo, são a atitude legítima do espírito humano. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 115. Methaphysical problems have two characteristics: they are unreachable by science, and they are not susceptible of solution, even by reasoning. How many of these problems are there? This is very uncertain. In any case the following may be considered as such: 1. Eternity or not‑eternity of the universe. 2. The problem of the Universals. 3. The immortality of the soul. (Free‑will I consider, with Haeckel, not to be an object for critical inquiry, but to be a pure illusion.) Problems of metaphysics: Secondary ontological problem: the nature of the world. Secondary problem: the problem of the universals. Secondary moral problem: the problem of the origin of values. (Nietzsche more or less). Problem of the Universals. Problem of Attributes. Problem of non‑relative relation. () — What is the relation, if any, between Being and the world? How does the world exist? () — Is the world eternal and infinite, or limited, in space and in time? In what manner does the world exist ? () — Problem of the future or of destiny. Why does the world exist? Applying to the world the 3 ideas: Cause, Thing, End. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 52. MITOLOGIA NOVA Cada faculdade da alma humana representa sentidos , perceptores de realidades várias. Assim as abstracções são entes — não no sentido de serem, porém, entes concretos , pois que, pela natureza das coisas, não podem ser — e a nossa inteligência é os sentidos, ou o sentido, com que as percebemos. A percepção, filha do mundo da vontade , vê a realidade do mundo objectivo. Este mundo objectivo, jogo absoluto de vontades, é regido, pelos deuses que o paganismo descobriu, nem morais nem imorais, apenas vontades perfeitas. Nisso de nós diferem, aliás, no mesmo grau, posto que de diverso modo, sujeitos ao Destino. A imaginação, filha do mundo da emoção , vê a realidade do mundo subjectivo, os seres fantásticos, as regiões do sonho, tão reais , excepto no sentido objectivo , como as do mundo. Este mundo subjectivo, jogo absoluto das emoções, é regido por presenças. O raciocínio, filho do mundo da inteligência, vê a realidade do mundo acima do sujeito e do objecto: as ideias abstractas. Há 3 ordens de deuses — os deuses da Vontade, que regem o mundo material; os deuses da Emoção, (a trindade), que regem o mundo espiritual; os deuses da Inteligência — o único Destino. (...) 1915? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 102. «Mau, Maria!» — tu disseste «Mau, Maria!» — tu disseste Quando a trança te caía. Qual «Mau, Maria», Maria! «Má Maria!» «Má Maria!» s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 110. Não sei que grande tristeza Não sei que grande tristeza Me fez só gostar de ti Quando já tinha a certeza De te amar porque te vi. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 52. Being excludes relation. Does it exclude relativity? It excludes number in the sense that outside itself there is nought, but does it deny number, within itself? 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 25. Se eu pudesse não ter o ser que tenho Seria feliz aqui... Que grande sonho Ser quem não sabe quem é e sorri! Mas eu me estranho Se em sonho me vi Tal qual no tamanho O que nunca vi... 18-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 153. Não sei que sonho me não descansa E me faz mal... Mas eia! o harmónio a guiar a dança Nesse quintal. E eu perco o fio ao que não existe E oiço dançar, Já não alheio, nem sequer triste, Só de escutar. Quanta alegria onde os outros são E dançam bem! Dei-lhes de graça meu coração E o que ele tem. Na noite calma o harmónio toca Aquela dança, E o que em mim sonha um momento evoca Nova esperança. Nova esperança que há-de cessar Quando, já dia, O harmónio eterno que há-de acabar Feche a alegria. Ah, ser os outros! Se eu o pudesse Sem outros ser!, Enquanto o harmónio minha alma enchesse De o não saber. 10-10-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 191. V Now will her grave of untorn maidenhood Be dug in her small blood. Assemble ye at that glad funeral And weave her scarlet pall, O pinings for the flesh of man that often Did her secret hours soften And take her willing and unwilling hand Where pleasure starteth up. Come forth, ye moted gnomes, unruly band, That come so quick ye spill your brimming cup; Ye that make youth young and flesh nice And the glad spring and summer sun arise; Ye by whose secret presence the trees grow Green, and the flowers bud, and birds sing free, When with the fury of a trembling glow The bull climbs on the heifer mightily! 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 132. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. 1. What is Metaphysics? 2. Is Metaphysics possible? 3. Method in Metaphysics. 4. Origin or «metaphysica naturalis». 5. Can Metaphysics have a basis in science? 6. The psichopatologic basis of Metaphysics. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 55. No fundo, o homem religioso é um hedonista. O instinto religioso de modo geral é um instinto de prazer, de ter tudo resolvido na vida. Deter-se só perante a Verdade é doloroso para o homem. A Realidade é muda e fria. 1915? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 103. Era já de madrugada Era já de madrugada E eu acordei sem razão. Senti a vida pesada, Pesado era o coração. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 110. A mantilha de espanhola A mantilha de espanhola Que trazias por trazer Não te dava um ar de tola Porque o não podias ter. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 53. I. Mind can know nothing absolute . For the absolute is the indeterminate (no, the absolute is the self-determinate) — the words are synonymous — and what is indeterminate is inconceivable, for the condition of conceivability is the determination of a thing. On the other hand (moreover) what is inconceivable today was always unconceivable and shall ever so be. For, for the inconceivable to become conceivable is for it to become determined. But a «determined Absolute» is an absolute no longer, is a contradiction in terms . Let it, however, become determined. Then it is either determined by itself, or by ourselves, or by something, not ourselves, outside it. To be determined by itself is to be indeterminate. To be determined by a subject is to receive from it its determination; i.e. the determination lies in the subject and not in the object, and the object, far from being known as noumenon is known as phainoumenon. II. The human mind knows, can know nothing absolutely . To know a thing absolutely is to know it in itself, that is to say independently of other things (relations that is to say). But that which is independent of other things is absolute and therefore unknown and unknowable. By former proposition. We can know only the relative, and all things relatively, incompletely, we can know only something of a thing, «quelque apparence du milieu des choses». (Pascal). To know, comprehend, or understand a thing is to have of it an idea susceptible of positive and complete definition, etc. By positive definition I mean explaining what a thing is and not what it is not, as happens for instance, with the infinite. By complete definition (I understand) is one which includes all the attributes of the thing defined. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 235. Cada vez estou mais só, mais abandonado. Pouco a pouco quebram-se-me todos os laços. Em breve ficarei sozinho. * O meu pior mal é que não consigo nunca esquecer a minha presença metafísica na vida. De aí a timidez transcendental que me atemoriza todos os gestos, que tira a todas as minhas frases o sangue da simplicidade, da emoção directa. 1914? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 26. Onda que, enrolada, tornas, Pequena, ao mar que te trouxe E ao recuar te transtornas Como se o mar nada fosse, Porque é que levas contigo Só a tua cessação, E, ao voltar ao mar antigo, Não levas meu coração? Há tanto tempo que o tenho Que me pesa de o sentir. Leva-o no som sem tamanho Com que te oiço fugir! 9-5-1934 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 193. VI Sing at her window, ye heard early wings In whose song joy's self sings! Buzz in her room along her loss of sleep, O small flies, tumble and creep Along the counterpane and on her fingers In mating pairs. She lingers. Along her joined-felt legs a prophecy Creeps like an inward hand. Look how she tarries! Tell her: fear not glee! Come up! Awake! Dress for undressing! Stand! Look how the sun is altogether all! Life hums around her senses petalled dose. Come up! Come Up! Pleasure must thee befall! Joy to be plucked, O yet ungathered rose! 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 132 / 134. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. The World as Power and as Not‑being Book I . The world as Not‑being. Chapter I. Knowledge. Chapter II. Being. Book II. The World as Power . Part I. Metaphysics of Power. Chapter 1. Proof from idea. Chapter 2. Proof from sensation. Chapter 3. Proof from will. Chapter 4. Other proofs. Chapter 5. Conclusion and recapitulation. Part II. Power in nature. Part III. Power in man. 1. The inclinations. 2. On Free‑will. Part IV. Power in Society. The so‑called evolution of power. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 55. Either the idea of God is anterior in the line of evolution or posterior to the appearance of true reason in man. If anterior, how could men have idea of a God which they did not understand, since it is only reason which understands. It may be above reason; then it is necessary to see what are the characteristics of things which are above reason. This to ascertain whether Revelation may be held to be above Reason. 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 103. Boca de romã perfeita Boca de romã perfeita Quando a abres p’ra comer, Que feitiço é que me espreita Quando ris só de me ver? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 111. Não quero mais que um som de água Ao pé de um adormecer. Trago sonho, trago mágoa, Trago com que não querer. Como nada amei nem fiz Quero descansar de nada. Amanhã serei feliz Se para amanhã há estrada. Por enquanto, na estalagem De não ter cura de mim, Gozarei só pela aragem As flores do outro jardim. Por enquanto, por enquanto, Por enquanto não sei quê... Pobre alma, choras sem pranto, E ouves como quem vê. 19-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 154. Boca de riso escarlate/Com dentes brancos no meio, Boca de riso escarlate Com dentes brancos no meio, Meu coração bate, bate, Mas bate por ter receio. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 53. Há entre mim e o mundo uma névoa que impede que eu veja as coisas como verdadeiramente são — como são para os outros. Sinto isto. 1915? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 27. Montes, e a paz que há neles, pois são longe... Paisagens, isto é, ninguém... Tenho a alma feita para ser de um monge Mas não me sinto bem. Se eu fosse outro, fora outro. Assim Aceito o que me dão, Como quem espreita para um jardim Onde os outros estão. Que outros? Não sei. Há no sossego incerto Uma paz que não há, E eu fito sem o ler o livro aberto Que nunca mo dirá... 9-5-1934 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 194. VII Now is she risen. Look how she looks down, After her slow down-slid night-gown, On her unspotted while of nakedness Save where the beast's difference from her white frame Hairily triangling black below doth shame Her to-day's sight of it, till the caress Of the chemise cover her body. Dress! Stop not, sitting upon the bed's hard edge, Stop not to wonder at by-and-bye, nor guess! List to the rapid birds i'th' window ledge! Up, up and washed! Lo! she is up half-gowned, For she lacks hands to have power to button fit The white symbolic wearing, and she's found By her maids thus, that come to perfect it. 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 134. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Book I. Metaphysics of Power. Book II Happiness is sometimes in the present which no sooner we say it is than it is not, or in the future which never comes. I. Evil in nature: (Movement?). II. Evil in the individual: Struggle for life. III. Evil in (the) individuals: Anarchy good; anarchy impossible. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 57. The ideas of God, of Immortality of the soul, of Free-will being due to an intellectualisation of lower ideas, the problem which remains to us is this: to determine whether this intellectualisation is legitimate before truth, whether the products of such intellectualisations are things which really exist. Note : We have to determine what existence means. 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 104. To define a thing is to determine it in regard to other things or rather by them. For it is clear that to define a thing is to determine it. Now is it determined by itself, by ourselves (by a subject) or by ourselves by regard to another thing. To determine a thing by itself is to leave it indeterminate. No one would define a thing by itself. (By itself nothing is defined). To determine a thing by ourselves is to show it as we see it, perceive it, know it. It is thus we get contradictory definitions such as this: «Love is suffering.» «Love is enjoyment.> Where each man is the measure or the thing. Therefore the remaining way is the true one: to determine an object by an object. (It is already clear that since definition is the test of comprehension and since all definition implies relation, we can neither know an absolute, for to define it would make it relative, nor anything absolutely for that implies defining it without reference to another thing.) s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 238. Tenho um segredo comigo Tenho um segredo comigo Que me faz sempre cismar. É se quero estar contigo Ou quero contigo estar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 111. Se há uma nuvem que passa Se há uma nuvem que passa Passa uma sombra também. Ninguém diz que é desgraça Não ter o que se não tem. 22-9-1934 v - 53. PREFÁCIO (aproveitar para Shakespeare ) Não encontro dificuldade em definir-me: sou um temperamento feminino com uma inteligência masculina. A minha sensibilidade e os movimentos que dela procedem, e é nisso que consistem o temperamento e a sua expressão, são de mulher. As minhas faculdades de relação — a inteligência, e a vontade, que é a inteligência do impulso — são de homem. Quanto à sensibilidade, quando digo que sempre gostei de ser amado, e nunca de amar, tenho dito tudo. Magoava-me sempre o ser obrigado, por um dever de vulgar reciprocidade — uma lealdade do espírito — a corresponder. Agradava-me a passividade. De actividade, só me aprazia o bastante para estimular, para não deixar esquecer-me, a actividade em amar daquele que me amava. Reconheço sem ilusão a natureza do fenómeno. É uma inversão sexual fruste. Pára no espírito. Sempre, porém, nos momentos de meditação sobre mim, me inquietou, não tive nunca a certeza, nem a tenho ainda, de que essa disposição do temperamento não pudesse um dia descer-me ao corpo. Não digo que praticasse então a sexualidade correspondente a esse impulso; mas bastava o desejo para me humilhar. Somos vários desta espécie, pela história abaixo — pela história artística sobretudo. Shakespeare e Rousseau são dos exemplos, ou exemplares, mais ilustres. E o meu receio da descida ao corpo dessa inversão do espírito — radica-mo a contemplação de como nesses dois desceu—completamente no primeiro, e em pederastia; incertamente no segundo, num vago masoquismo. s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 27. Neste mundo em que esquecemos Somos sombras de quem somos, E os gestos reais que temos No outro em que, almas, vivemos, São aqui esgares e assomos. Tudo é nocturno e confuso No que entre nós aqui há. Projecções, fumo difuso Do lume que brilha ocluso Ao olhar que a vida dá. Mas um ou outro, um momento. Olhando bem, pode ver Na sombra e seu movimento Qual no outro mundo é o intento Do gesto que o faz viver. E então encontra o sentido Do que aqui está a esgarar, E volve ao seu corpo ido, Imaginado e entendido, A intuição de um olhar. Sombra do corpo saudosa, Mentira que sente o laço Que a liga à maravilhosa Verdade que a lança, ansiosa, No chão do tempo e do espaço. 9-5-1934 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 195. VIII Look how over her seeing-them-not her maids Smile at each other their same thought of her! Already is she deflowered in others' thoughts. With curions carefulness of inlocked braids, With hands that in the sun minutely stir, One works her hair into concerted knots. Another buttons tight the gown; her hand, Touching the body's warmth of life, doth band Her thoughts with the rude bridegroom's hand to be. The first then, on the veil placed mistily, Lays on her head, her own head sideways leaning, The garland soon to have no meaning. The first then, on the veil placed mistily, Fit close the trembling feet, and her eyes see The stockinged leg, road upwards to that boon Where all this day centres its revelry. 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 134 / 136. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Deve chamar-se tristeza Isto que não sei que seja Que me inquieta sem surpresa, Saudade que não deseja. Sim, tristeza — mas aquela Que nasce de conhecer Que ao longe está uma estrela E ao perto está não a ter. Seja o que for, é o que tenho. Tudo mais é tudo só. E eu deixo ir o pó que apanho De entre as mãos ricas de pó. 19-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 156. GREEK PHILOSOPHY Origins 1. Like children with their dolls and horses, the greeks began by deifying the great phenomena of Nature, and particularly those which have on human life an influence beneficial or destructive: Earth and Fecundity, Light, Storm, Sun, Night, Moon. 2. Material things are now no longer gods, but dwellings, representations of the Gods. The Conception of an invisible being was formed from the human soul. The Gods were a transcendant, idealised, enlarged humanity. The world is their work; we exist for their pleasure. The problems of life and death, etc., were explained naïvely by religious tradition. 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 61. The distinguishing characteristic of our age, if it be put with such conciseness as may risk being misunderstood, yet shall escape being obscure, is the decline of the ascete. By many irreligious people, who do not know what an ascete essentially is, and by some religious people, who happen indeed to know it, the definition thus posited, will be a matter for something like amusement. But it is very little amusing, except it be untrue. And it is not untrue. The point is that it be understood. Whether we be religious or not, we are religious. Whether we have or not an opinion of the universe, we certainly have one. For it lies in the nature of thought that an opinion on the substance of things (that is to say, a religious opinion) is not susceptible of absolute negativeness An opinion on the substance and generality of things is not susceptible of absolute negativeness. I may have no opinion at all of mathematics, and that will be indeed an indifference of mine to mathematics. I may have no opinion of my very self; that is an almost incredible modesty, but, if attainable, is certainly simply an indifference to myself. But I cannot hold no opinion of the substance and generality of things and be by virtue of that absence of opinion taken to be indifferent to the universe. For, as the universe is everything, as the substance and generality of things, excludes nothing, I cannot hold an opinion excluding that. Now, as all fundamental opinions are religious, it is not surprising that we have to take from religion the names or terms with which we may best describe any general attitude or operation of the religious mind. So, there is nothing wrong in applying the definition, that the present age is best described as the decline of the ascete, to the sum of matters socially occurring at present. It remains to see whether the definition be true. In any religious attitude, in any attitude before the universe, two elements stand: the universe and the individual man who holds such or such an opinion. Now before that universe, that man can have one of two attitudes, and no third: he can strive to subordinate the universal forces, in so far as he feels them in himself, to himself; and he can agree to submit, to deliver himself to those forces. In the first case, he is an ascete; in the second, he is a mystic. The common opinion, which is of course, wrong is that the Christian religion was eminently ascetic. Mr. Chesterton has denied this, and he is quite right. He has denied it because he is a Christian and thinks it right that ascetics should not be. l am glad to deny it because I am anti-Christian and because I think asceticism should be. The real ascetic religion was paganism, where only the sybils and the lower religionists — the rioters of the Dyonisiac passage, the (...) Tennyson put all paganism into one verse: «self-knowledge, self-reverence, self-control», the verse which containes all the intellectual kalendar of asceticism. All humanitarianism, which gives up the individual to the comunity, (...) is mysticism, and for women. Asceticism is for men. Women have only self-control by force of social pressure; individually they follow their sexual nature which is to belong to, to be the possession of someone, and not to possess. Not till they have children can women sanely feel that they possess; therefore is it that a mother's love has an obscure sexual element, a carnal arrière goût , which is due to its being a kind of mental sexual inversion. That both asceticism and mysticism are illusions might be affirmed with certainty, if they stood for philosophic theories, and not, as they do, for modes of action. Being modes of action, they are not susceptible of being illusions. They are merely the male and the female attitude towards the world. When the male attitude predominates, the world moves forward, when the female attitude becomes common, the world recedes. This principle — the basis of which lies at the root, in the heart, or, to speak symbolically in the very rose , of occultism — cannot be explained so as to be exactly understood in its true fundaments. The old occultists, who, contrary to the modern mimics of them, had of woman very peculiar opinion. (...) The delivery of intellect to sensation, the musical attitude of the mind, the sense thant we are part of something, the devotion of the soul social service (...) These are mysticisms. It will be said that, no less than the mystic, does the ascete deliver himself to something other than he; that, if he practises self-control, it is not for the pleasure of it (at best, a bitter one) but for some purpose outside his individuality. That, however, is not the point; the ascete may deliver his reason, he delivers nothing else. The mystic delivers his reason, not directly, but indirectly, not to God, but to his sensations, for instance, and it is these that are in turn given over to God. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 104. Trazes já aquele cinto Trazes já aquele cinto Que compraste no outro dia. Eu trago o que sempre sinto E que é contigo, Maria. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 111. Tu, ao canto da janela, Tu, ao canto da janela, Sorrias a alguém da rua. Porquê ao canto, se aquela Posição não é a tua? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 53. Meu querido Mário Beirão: Deu-me um grande prazer a sua carta de 25, que há dias recebi. Tinha muita pena, é certo, que v. não me tivesse escrito ainda, mas, como eu também lhe não tinha escrito, não me cabia o direito objectivo de ter essa pena. O pior para mim é que eu, por certo, sinto mais a falta de correspondência que v. Estou, quanto a companhia espiritual e imediata, quase só, se não só em absoluto... Não sou das pessoas menos acompanháveis por si próprias, mas ainda assim — e de vez em quando aborreço-me de não andar senão comigo. Por isto a sua carta, ainda que breve, me causou uma grande alegria. Estou actualmente atravessando uma daquelas crises a que, quando se dão na agricultura, se costuma chamar «crises de abundância». Tenho a alma num estado de rapidez ideativa tão intenso que preciso fazer da minha atenção um caderno de apontamentos, e, ainda assim, tantas são as folhas que tenho a encher, que algumas se perdem, por elas serem tantas, e outras se não podem ler depois, por com mais que muita pressa escritas. As ideias que perco causam-me uma tortura imensa, sobrevivem-se nessa tortura, escuramente outras. V. dificilmente imaginará que Rua do Arsenal, em matéria de movimento tem sido a minha própria cabeça. Versos ingleses, portugueses, raciocínios, temas, projectos, fragmentos de coisas que não sei como começam ou acabam, relâmpagos de críticas, murmúrios de metafísicas... Toda uma literatura, meu caro Mário, que vai da bruma — para a bruma — pela bruma... Destaco de coisas psíquicas de que tenho sido o lugar, o seguinte fenómeno que julgo curioso. V. sabe, creio, que de várias fobias que tive guardo unicamente a assaz infantil mas terrivelmente torturadora fobia das trovoadas. O outro dia o céu ameaçava chuva e eu ia a caminho de casa e por tarde não havia carros. Afinal não houve trovoada, mas esteve iminente e começou a chover — aqueles pingos graves, quentes e espaçados — ia eu ainda a meio do caminho entre a Baixa e minha casa. Atirei-me para casa com o andar mais próximo do correr que pude achar, com a tortura mental que v. calcula, perturbadíssimo, confrangido eu todo. E neste estado de espírito encontro-me a compor um soneto — acabei-o uns passos antes de chegar ao portão de minha casa —, a compor um soneto de uma tristeza suave, calma, que parece escrito por um crepúsculo de céu limpo. E o soneto é não só calmo, mas também mais ligado e conexo que algumas coisas que tenho escrito. O fenómeno curioso do desdobramento é coisa que habitualmente tenho, mas nunca o tinha sentido neste grau de intensidade. Como prova do género calmo do soneto, aqui lho transcrevo: ABDICAÇÃO Toma-me, ó Noite Eterna, nos teus braços E chama-me teu filho... Eu sou um Rei Que voluntariamente abandonei O meu trono de sonhos e cansaços. Minha espada, pesada a braços lassos, Em mãos viris e calmas entreguei, E meu ceptro e coroa — eu os deixei Na antecâmara, feitos em pedaços. Minha cota de malha, tão inútil, Minhas esporas dum tinir tão fútil — Deixei-as pela fria escadaria. Despi a Realeza, corpo e alma E regressei à Noite antiga e calma Como a paisagem ao morrer do dia. Dê saudades minhas ao Vila-Moura e escreva-me breve e o mais extensamente que puder. Um grande abraço do seu dedicadíssimo FERNANDO PESSOA Rua Passos Manuel, 24, 3.º E. 1-2-1913 Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 29. 1ª publ. in Diário Popular, 28-11-1957 Foi um momento O em que pousaste Sobre o meu (braço,) Num movimento Mais de cansaço Que pensamento. A tua mão E a retiraste. Senti ou não? Não sei. Mas lembro E sinto ainda Qualquer memória Fixa e corpórea Onde pousaste A mão que teve Qualquer sentido Incompreendido, Mas tão de leve!... Tudo isto é nada, Mas numa estrada Como é a vida Há uma coisa Incompreendida... Sei eu se quando A tua mão Senti pousando Sobre o meu braço, E um pouco, um pouco, No coração, Não houve um ritmo Novo no espaço? Como se tu, Sem o querer, Em mim tocasses Para dizer Qualquer mistério, Súbito e etéreo, Que nem soubesses Que tinha ser. Assim a brisa Nos ramos diz Sem o saber Uma imprecisa Coisa feliz. 9-5-1934 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 197. A mulher virgem, em geral, não ama o homem com quem casa, embora frequentemente de tal se persuada: gosta d'ele, e esse gostar, que é uma amizade, provocada em geral pelo amor do homem por ela, somando-se ao instinto sexual insatisfeito, ou seja à atracção sexual abstracta, forma um composto semi-emotivo que dá a ilusão do amor, (...) as suas emoções — aquela parte da sexualidade que não é só sexual — ficam insatisfeitas. Nuns casos o instinto maternal, exercendo-se no aparecimento dos filhos, ou satisfaz essas emoções ou as esbate e acalma; noutros casos, a vida imaginativa consegue, em maior ou menor grau, satisfazê-las. Há casos, porém, em que ficam insatisfeitas e então só o fundo moral seguro e a [...] moral forte, ou o senso [...] e medroso da respeitabilidade social, podem — quando podem, e isso depende muito do temperamento que está por trás d'essas emoções — resistir ao aparecimento, quando e se ele se der, do homem em quem essas emoções se possam concentrar. Em todo o caso, e para bem moral dos resultados, o melhor é o homem não aparecer. Só o maior dos sensos morais e da honestidade do dever pode evitar um desastre. E a mulher que ama nestas condições, ama louca e perdidamente, e porque a fome das emoções é maior e mais terrível do que a da sexualidade. Esta pode ser satisfeita — mal, mas em todo o caso satisfeita, pela própria masturbação. As emoções, embora em certo grau o possam também ser pela imaginação — não o podem ser, relativamente, tanto. A satisfação do instinto pela masturbação é apenas incompleta; a das emoções pela imaginação é fictícia. A paixão é um pânico das emoções, e como o pânico — que nisto se distingue do medo — estilhaça a inibição, desorienta o espírito, vira o indivíduo contra as suas próprias aquisições mentais superiores, e muitas vezes o conduz a fazer o que mal sabe que faz, ou que a própria paixão se fosse menor, como o pânico se não fosse mais que medo, o levaria ou aconselharia a não fazer. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 21. IX Now is she gowned completely, her face won To a flush. Look how the sun Shines hot and how the creeper, loosed, doth strain To hit the heated pane! She is all white, all she's awaiting him. Her eyes are bright and dim. Her hands are cold, her lips are dry, her heart Pants like a pursued hart. 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 136. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. By defining a thing I understand expressing it in the terms of other things already known, of course. By positive definition I understand one in which we assert that which the defined is and not merely what it is not, as happens with infinity. A complete definition I take to be one in which are included all the attributes of the thing defined. Thus to say of a man that he is a thing that moves is well but insufficient; it is a positive definition, yet lacks the character of completeness. Plato has noticed three kinds of definition: definition by enumeration of parts, definition by (...), and the definition by the difference, the difference, that is, in regard to other things. The last kind needs to be well considered. Its basis seems correct and true — to define a thing by what is proper to it, by separating it distinctly from other things. True definition should, by saying what a thing is, at the same time to say what it is not. Definition is based, of course, on things which are known. Thus if an Englishman were to ask me what was the metre I might answer «39 odd inches» and he would understand me well, for he knows quite well what is an inch. Obviously in going back in the line of definition I shall reach things which I cannot define (if I reach anything). Now these are either unknown or they are known things, yet which are known by intuition, [...] by definition. After almost endless worry we are brought, for instance, to the notion of colour, or to the notion of weight and we are called to define it. 1. We know a thing only by definition; i.e. definition (positive and complete) is the proof of our knowledge. 2. We go on from definition to definition. Either we have to stop or we have not to stop. If we have to stop we do or either by moving in a circle, or by stopping somewhere in a straight line. Consider the bearing of these things upon our knowledge. If we move in a circle, obviously we do not know the thing defined, for we make the knowledge thereof rest upon itself. If our motion is towards the infinite, and itself, therefore, indefinite, we do not know any more, and knowledge is impossible. If we, in defining, passing from definition to definition, have to stop somewhere and can go no further, we have arrived at some primary notion which either marks our complete ignorance or has to be conceived as known by intuition. Thus, if, in defining a triangle, we were ultimately arrested, brought up, at the notions of number (from 3 sides) and of form, what have we to say of human knowledge? Are we to accept the conclusion of the sceptics? Or must we ultimately be dogmatic in our theory of knowledge? We shall endeavour, by close examination of the problem, to arrive at some conclusion with regard to this, the primary question in philosophy. It is best to begin by an example: «give the definition of a piano». We take it from a dictionary: «a musical instrument, consisting of a series of wires of graduated length, thickness and tension, struck by hammers moved by keys». The first thing to be done is to reduce this to a more logical form through less elegant and of less practical use. «A piano is an instrument (I) for the production of music (2) and which consists of wires struck by hammers which are moved by keys (3).» This definition consists of (1) (...), the end and at the same time the species (2), the contents or (...) Let us plunge deeper into this. «An instrument (1) is that by means of which anything is effected.» And what is a mean? «Intermediate agency» is the answer; more logically it is «the material relation between Cause and end». Here are we brought to the ideas of relation, of cause, of end. What is relation, what is cause, what is end? Relation cannot be well defined; it is primary and primitive in the human mind. Yet there is a definition of it, which I have made for the moment: «Relation is that which a (any) number of things being given, is contained to (the) perception, in their plurality.» (Plurality creates relation). s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 239. Critique of the theory of Heraclitus: All is change. True. But if there is but change, this change must take place in something. This something is what we call substance, Being. Any 2 opposite opinions are absolutely identical. All that begins has a cause (Vallet). It was very soon clear to me that antinomies must have some exploration. I found the contrast of 2 opinions a false: contrast. To contrast two things, it is needful that they should be of the same nature. I can contrast an apple and a pear, but not an apple and a cat. And the fact of these theories being antithetic I found to be the fact that they are of a different nature, one being a priori , the other being deduced from experience. 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 62. INTROD[UÇÃO] AO ESTUDO DO OCULTISMO Deus é o sentido para onde tendem todas as inteligências que governam este mundo contra a vontade satânica da sua matéria inerte. Como o ponto para onde tendem existe já, porque o tempo é uma ilusão, Deus é; como tendem para a absoluta Perfeição, Deus é a Perfeição absoluta; como tendem para a Suprema Beleza, Deus é a Beleza Suprema. O Universo está já onde estará, e já isso, é Deus. 1914 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 110. Teu olhar não tem remorsos Teu olhar não tem remorsos Não é por não ter que os ter. É porque hoje não é ontem E viver é só esquecer. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 111. Dá-me um sorriso ao domingo. Dá-me um sorriso ao domingo. Para à segunda eu lembrar. Bem sabes: sempre te sigo E não é preciso andar. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 54. 15-2-1913 Das 12 1/2 às 14 3/4 em casa do Ponce de Leão. Falámos principalmente do Sá-Carneiro. Leu-me e deu-me a ler concisas e dolorosas cartas dele. Falou da peça dele (P. [once]) — A Venda — que está escrevendo. Afirmou discordar da Renascença. Que o S. C. [Sá-Carneiro] gostava imenso de mim; «também quem é que não gosta de v.?». Um raio de sol.— Segui para o escritório do M. [Mayer], dali para obter a certidão de casamento do Mário, no 3.º bairro.— Fui duas vezes ao escritório do Lavado; não estava de ambas. Nada fiz lá. — Acabei a carta ao Sá-Carneiro, datada de 8 e a, da mesma data, para a Mamã, extensa e amarga, de que há a tirar uma cópia.— Ao Sá-Carneiro mandei dois poemas, o Braço sem Corpo e A Voz de Deus. — Fui ao consultório do Jacque [? ]. Impossível a letra com fiador como eu sugeria na minha carta. Falámos sobre o caso M. F. e concordámos sobre a ausência de senso moral patente em todos tocados por ele. O J. deu-me esta Agenda. — A noite na Brasileira com Corado e João Correia d'Oliveira, que apresentei um ao outro. Conversa interessante. Mesmo na Brasileira li depois com C[orado] a  Comédie de celui qui épousa une femme muette de Anatole France. Nada, mas interessante. Cheguei a casa pelas 2 h., tendo acompanhado o C.[orado] à casa dele. Na cama quase que não li. Folheei, sem ler, o Emerson.— Sempre ralado por causa dos 5000 réis do Rosa, dos 5000 réis a pagar ao Mayer antes de 20 e pela impossibilidade da ida imediata para o Algarve. Tomei alguns apontamentos para raciocínios. Mais nada escrevi de raciocínio. Ideei, porém, uma espécie de comédia horrorosa, em parte já lembrada: O PinhaI do Re. Lembrou-me a ideia dos vários adiamentos e do concílio para tirar a paralítica do pinhal. 16-2-1913 (Domingo) Antes do almoço (12 1/2) dei um passeio totalmente oco, meditativo, estéril e sonhadoramente. Depois saí para o escritório do Mayer. Passei pela Brasileira e lá fiquei até às 15, falando com o Ilídio Perfeito. Ofereceu-me um lugar num jornal que está montando; não recusei carrément, mas não aceitei.— No escritório do Mayer desde as 15 1/2 até às 18 1/4 ou 18 1/2. Copiei parte da carta para o Natal. A máquina desarranjou-se. Escrevi bocados do Marcos Alves e do Filatelista. Ideei finalmente a personagem integral do Marcos Alves. Fixei o Filatelista também. A «ideação» foi principalmente num pequeno passeio até ao Rossio com que cortei a estadia no escritório. Das 171/2 até às 18 esteve cá o Francisco.— De noite em casa, dormi o serão. Apenas vagas e informes ideias para raciocínios. 17-2- 1913 (Segunda-Feira) De dia pouco mais copiei da carta para o Natal, que não segue ainda. Fui ao novo escritório do Lavado, na rua da Prata, às 17 horas e escrevi coisas que me tomaram até às 18. Antes disso gastei o dia inutilmente passeando pela cidade, e indo ao Ministério da Guerra por causa daquilo do Mayer.— Depois de jantar vim até à Brasileira. Estive desde as 21 1/2 às 24 falando primeiro com o Barradas sobre coisas fúteis; contando eu coisas do Dr. Nobre [? ]; e depois com o J. Anahory com quem pouco falei; nisto ele estava a ler. Divergimos um pouco re Bernstein, ele tomando uma atitude de calorosa auto-defesa.— De tarde eu falara com o A. Gayo que conta ir a Madrid para convencer a Rosario Pinto a levar O Desconhecido em espanhol, quando viesse aqui.— Poucos e informes raciocínios tive; um ou outro ponto secundário de Marcos Alves se esboçou.— Esbocei duas poesias inglesas, de noite, quando regressei a casa. 18-2-1913 (Terça-feira) Almocei cedo (10) e saí cedo de casa. Ao barbeiro, escritório do Mayer e depois ao Ministério de Guerra e Arsenal do Exército. De tudo salvou-se o passeio; agradável ao sol e ao frio. Dirigi-me para a repartição de João Correia de Oliveira para lhe pedir 5000 réis para devolver ao Mayer os 1500 reis para pequenas despesas. No Chiado encontrei o José Figueiredo e estivemos uns tempos à entrada da Rua da Emenda a discutir Wagner, e depois o Valério de Rajanto. Passou J[oão] C[orreia] de O[liveira] e disse-me que ia para a Brasileira. Fui lá ter, encontrei-o com o Augusto Santa-Rita. Discuti O Doido e a Morte de Pascoaes, ele fraternalmente contra, eu quase calado. Falámos do plano da minha revista Lusitania, plano completo, e ele ficou um tanto preso [?] do assunto, prometendo escrever para um editor do Porto sobre o assunto. Vim para baixo, para a L[ivraria] Ferreira, com o S[anta]-R[ita]. Deu-me para ler uma carta a uma actriz, Ester Durval, que vai publicar, parece que nas Novidades: do género.— Escritório da Rua da Prata das 15 1/2 às 16 1/4; duas cartas. Vim escritório Mayer. Mandei carta Lavado pedindo 1000 réis. Continuei copiar carta para o Natal.— De noite estive na Brasileira, saí logo, com o Costa. Fui para casa a pé com ele. Esbocei o folheto sobre o Óscar Wilde e parte da teoria da Aristocracia.— Recebi um bilhete da tia Lisbela e O Doido e a Morte do Pascoaes, no correio da manhã. 19-2 (Quarta-feira) Um dia em branco quase: saí de casa às 13. Escritório do Lavado (Rua da Prata); recebi 1000 réis. Encontrei Boavida e fui com ele à redacção do Teatro, uma revista dele. Estivemos a discutir a utilidade e fins da revista. Talvez eu lá publique a crítica, ainda em esboço, ao Bartolomeu Marinheiro do Lopes-Vieira. O resto do dia passeei sem razão de ser.— De noite estive na Brasileira, ocamente falando com o Barradas e o Anahory mais novo. Apareceram o Cobeira [?] e o Castañé. Saí com este, vim ao escritório do Mayer mostrar-lhe as águas-fortes (foi o que ele disse que eram) do R [afael] B [ordalo] Pinheiro; o Castañé disse que talvez tivessem algum valor. Ficou de vir no dia seguinte para as ir mostrar ao M. E. B. P. Fui com o Castañé até ao «Martinho», falámos uns minutos com o Lacerda. Fui para casa.— Tomei umas notas sobre uma nova orientação a dar à carta ao Ministro Inglês. 20-2. (Quinta-feira) Levantei-me cedo. Vim para o escritório do Mayer às 10. Estive na Brasileira do Rossio com o Cunha Dias. Falou-me da futura conferência.— Segui para o escritório. Estive lá escrevendo nesta «Agenda» até às 11 1/4. Para casa, almoçar. Voltei às 12 1/2, fui ao 3.° bairro pagar 100 réis que lá devia. De volta encontrei o Fortunato da Fonseca; fomos à Brasileira onde discutimos assuntos literários; para ele Junqueiro é um grande escritor, não um grande poeta, e o melhor dele é o que é irónico. Isto, inter alia, das quais muita coisa interessante.— Passou pela Brasileira o Castañé. Viemos ao escritório do Mayer para ele levar as águas-fortes. No entretanto acabei de copiar a carta para o Natal.— Carta seguiu para o Natal.— C [astañé] veio e declarou os desenhos avaliados em 6000 réis cada; comprador provável Cruz Andrade, na Ameixoeira.— Escritório do Lavado (Rua da Prata) às 17. Nada a fazer.— Noite toda em casa. Serão dormi. Acordado das 0 às 4, escrevendo vários fragmentos sobre Óscar Wilde, educação, e teoria aristocrática. Li W. W. Jacobs até dormir, para abater a excitação de ter pensado. 21-2. (Sexta-feira) Acordei 10 horas. Vim para Baixa, escritório Rua da Prata às 13; nada. Estavam Lavado e S. Franco. Segui Brasileira Chiado; falando com J[oão] C[orreia] de O[liveira], inter alia, sobre Pascoaes; ele cortando miudinho. Um pequeno passeio. Escritório Mayer; um pouco sem nada fazer excepto fumar e escrever uns versos do Galaäs .— Durante a tarde toda estive na redacção do Teatro falando com Boavida e Ed[uardo] Freitas. Este provocou-me a que escrevesse o ataque ao Bartolomeu Marinheiro de Lopes-Vieira. Entre tentado e querendo fugir à maçada, sentei-me, e das 16 3/4 às 18 1/4 escrevi o artigo. Boavida apreciou-o muito. Para casa tarde.— De noite vim para a Brasileira. Estive conversando, com Corado e com Pinto, muito estudioso e lido, até às 23 aproximadamente. Fui para casa, chegando às 23 3/4,. Conversando com Raul Costa.— Não dormi senão tarde. Estive intranquilamente lendo W. W. Jacobs, para me curar do efeito de uma coisa que o Corado me contou que o Henrique Rosa casualmente de mim dissera.— Poucos apontamentos tomei sobre qualquer dos assuntos que ora me prendem. 22-2. (Sábado) Levantei-me cedo e cedo almocei para ir à tipografia ver as provas do artigo sobre «B[artolomeu] M[arinheiro]. Estive lá, excepto pequenos períodos nos escritórios do Mayer e Lavado (uma carta), todo o dia até às 19.— Fui a casa jantar. Voltei para a tipografia, vi começar a tirar o jornal: meu artigo teve de ser cortado. Tive pena e disse que era justo e não fazia mal, porque assim eu sentia que era. Na Brasileira falando com Fortunato da Fonseca, Anahory, Corado Este, não sei se casualmente, repetiu, falando comigo só, a frase do Rosa que ontem me citara. Já me magoou menos. Estive na Brasileira até à 1 hora. Irritei-me um pouco, interiormente, com o Carlos de Sousa massagista [...] que pessoalmente não conheço, por ele estar a estrangeirar, desdenhando, por português, do cartaz da Liga Naval sobre Defesa Nacional.— Uma visão de quanto com que a R[enascença] P[ortuguesa] tem de lutar para erguer isto. 23-2. (Domingo) Passei quase todo o dia no escritório do Mayer, escrevendo, passeando. Antes estive na Brasileira, à porta, falando com o Fortunato da Fonseca; interessante, ele, como sempre. Passeei um pouco. Fui para casa um pouco tarde.— Uns fragmentos mais de Marcos Alves — alguns paradoxos menores. Recebi um bilhete do Sá-Carneiro. Teatro não saiu. 24-2. (Segunda-feira) De dia, do escritório do Lavado para o do Mayer e um pouco na Brasileira com o Cortes-Rodrigues. Pedi-lhe uma poesia, que me leu, para a Águia. De noite saí, vim ao escritório do Lavado, onde estive a trabalhar até às 11 1/2. Pouca coisa, mas pequenos apontamentos, incluindo carta para o Natal (referente ao dia 12) .— Na redacção do Teatro Freitas disse que assim não prestava, que Boavida tinha estado a dormir[?] ao dirigir aquilo, etc. 25-2. (Terça) Para a Baixa às 11 1/2. Recebi dinheiro da tia Rita no Banco de Portugal. Na Brasileira; falei, pouco, com o Coelho. No escritório do Mayer. Escrevi, e mandei, cartas à Mamã (data de 19), Álvaro Pinto (mandando versos do Cortes-Rodrigues), e Sá-Carneiro, de quem recebi hoje um bilhete postal (não em resposta a esta, mas a uma de anteontem, vindo a carta com data de 24) .— De manhã e durante o dia tive várias ideias para paradoxos.— De noite na Brasileira, falando com o tenente Marques. Saí, indo à casa do Corado. Falando com ele até à 1 1/4.- Conversando de várias coisas, sem grande importância de qualquer espécie. Ele expondo a sua dispersão espiritual. 26-2. (Quarta) De manhã, provocou-me a leitura do jornal variadíssimos conceitos paradoxais.— Saí de casa só às 14 1/2, por causa da muita chuva. Na Brasileira: falando com o Coelho e outro, o Rocha que foi da garagem [?] do Fontes.— Escritório do Mayer; depois falando assaz longamente com o António Ferro na rua do Ouro. Escritório Lavado — nada. Escritório Mayer — uma carta extensa. Saí eram 18 3/4. — De manhã recebi carta do Natal, a que devia ter chegado no sábado passado.— De manhã decidi escrever em português O Templo de Jano ; e em inglês só Controversial Matter, como Concerning Óscar Wilde, a defesa da Rep[ública] Portuguesa, etc. — De noite na Brasileira. Várias ideias paradoxais. 27-2. (Quinta) De dia nada a fazer nos escritórios do Lavado e do Mayer. Estive na «Brasileira» com o Gayo, que me esteve expondo duas peças suas. Do mesmo tema, tratado diversamente.— Mais tarde fui à redacção do Teatro; apresentado por Boavida ao Vitoriano Braga. Um pouco desconfortável por ambiência, por estar lá uma mulher, aliás discretamente sentada no sofá com o R. Santos ao lado. Creio que se não notou o meu desconforto.— De noite, na Brasileira, estive falando com o Corado e o Anahory, seriamente e longamente, sobre cepticismo e crença; tudo a propósito de o Anahory ter, sabendo por mim que eu era (suponho) descendente de cristãos-novos, dito que eu tinha coisas semíticas — o nariz um pouco; mais, a preocupação de tomar as coisas a sério.— Para casa com o Corado. Cheguei a casa deviam ser meia-noite e meia hora, quando muito.— Tive, durante o dia, várias ideias para paradoxos; mas não foram muitas nem foram extraordinárias. (Sexta) (Tendo-me esquecido de encher a página no dia seguinte, perdi da memória o que fiz neste dia, excepto que tive mais algumas, mas poucas, ideias para vários lugares de vários escritos em projecto.) 1-3. (Sábado) De manhã recebi cartas do Natal e do Sá-Carneiro. — Depois do almoço ideei várias pequenas poesias, sendo uma a alteração da Voz de Deus, por concordar com a crítica do Sá-Carneiro. Para baixo para o escritório do Mayer. Estive escrevendo as poesias compostas em casa, e nesta Agenda. Saí do escritório do Mayer às 14 1/2. Fui à tipografia ver se estavam a imprimir o Teatro. Ali estive, com uma interrupção (ir ao escritório do Lavado) até às 19. De noite lá voltei. Fui com o Almada Negreiros ao quarto dele ver os trabalhos para a exposição; achei muito bons. Foram também, ao mesmo tempo, Castañé, Lacerda e um rapazito Joyce, primo do António Joyce. Cheguei a casa pouco depois da meia-noite. 2-3. (Domingo) Vim para a Baixa pelas 14 horas, com intenção de ir trabalhar para o escritório do M[ayer]. Fui, porém, primeiro à Brasileira e ali assisti a uma cena de pugilato verbal, muito desagradável, entre o J[oão] C[orreia] de O[liveira] e o Alfredo Guimarães. Depois estive até às 17 3/4 na redacção do Teatro. Estava Boavida; vieram depois o Vitoriano Braga e o Almada Negreiros. Vim para o escritório do M[ayer]. Escrevi o princípio da carta para o Pascoaes. Fui para casa. De noite, dormi ao serão; depois li pouco. Quase nenhuma ideia tive.— O dia esteve de primavera. 3-3. (Segunda) Vim para a Baixa às 11 horas, para o escritório do Mayer, onde estive pseudo-trabalhando até às 13. (O correio trouxe um bilhete postal do Sá-Carneiro). Fui, depois de vaguear um pouco, vindo de vez em quando ao escritório do M[ayer], ao escritório do Lavado onde, ao pé de cartas a fazer, encontrei uma carta para mim, que arquivei. Ocorreu-me o poema sobre o Capitão Scott. Preparei a parte central, e o «prelúdio», que tenho de alterar, por julgar que os homens tinham morrido afogados.— Também estive na redacção do Teatro, onde me entregaram O Gomil dos Noivados, para base do meu artigo sobre o Sousa Pinto. Elogiaram-me, sobre o artigo, em várias ocasiões do dia, o Raul Carneiro, o Martinho Fonseca, o Barradas, o Nuno de Oliveira (de noite) e o Ilídio Perfeito.— De noite na Brasileira, com o Corado. Para casa com ele.— Quando fui a casa para jantar, encontrei uma carta do A. J. Costa (a quem depois encontrei na Brasileira) e um bilhete postal, plutôt desagradável, do Álvaro Pinto. 4-3. (Terça) Vim para a Baixa, para o escritório do Mayer às 10; estive até às 11 1/2 respondendo ao Álv[aro] Pinto, e copiando depois a carta à máquina. De regresso de casa, de almoçar, executei vários recados para a D. Palmira [?] e tia Anica. Vim até à Brasileira, estive falando com o Carlos A. Ferreira, saí com ele. Fui ao escritório do Lavado: uma carta. 14 h. Voltei ao escritório do Mayer, estive escrevendo aqui; uma carta ao Vila-Moura, e um postal ao Mário Beirão. Tornei ao escritório do Lavado; mais uma carta. Passei pela redacção do Teatro, onde estive apenas minutos. Levei lá A Águia por causa do retrato do Sousa Pinto.— Fui a casa do H [enrique] Rosa para ver se eles tinham a receita para ouvidos tapados, que lá deixei. Não a encontrei. Estivemos conversando. Para casa. Antes de jantar comecei uma carta para o Sá-Carneiro. Vim para o escritório do Mayer onde estive a escrever aqui [?] e a levar de lá papéis na pasta. 5-3. (Quarta) Grande parte do dia no escritório do Lavado. Uns momentos no escritório do Mayer. De manhã, continuei a carta ao Sá-Carneiro. Fui ao escritório do José M[aria] Sousa pedir o Só. Trouxe-mo à Brasileira à noite. Levei-o à Livraria Ferreira. Alterei, etc. e escrevi algumas poesias.— De noite na Brasileira com Anahory; apresentou-me ao António Arroio. Interessante; nalguns pontos limitado. Para casa tarde. 6-3. (Quinta) De manhã recebi a Vida Portuguesa e as provas dos sonetos do Cortes-Rodrigues, vindas da  Renascença. Vim para a Baixa às 11 1/ 2, vendi o Só por 1500 réis na Livraria Ferreira. Escritório do Mayer, por duas vezes. Escritório do Lavado, por duas vezes: umas 2 cartas. Escrevi o artigo sobre o Sousa Pinto. Na Brasileira duas vezes: li o artigo ao Il[ídio] Perfeito. O C [arlosJ Amaro esteve-me lendo uma secção que vai abrir na Luta. Fez de mim ouvinte, mais nada. O Al[fredo] Guimarães leu o artigo sobre o Sousa Pinto e achou injusto. Escrevi um postal ao Cortes-Rodrigues e 2 ao Rebelo. Nada de literário. Ilídio Perfeito convidou-me para fazer a crítica literária no jornal dele, a sair em Abril; aceitei, na Brasileira falando com Corado, depois na Brasileira do Rossio, com Cortes-Rodrigues e Lacerda. Casa. Cheguei 3/4.— No escritório recebi um postal do X[avier] Pinto. 7-3. (Sexta) Para a Baixa cedo, às 10 horas. No escritório do Mayer, respondi a um bilhete do Ál[varo] Pinto, que recebi de manhã, e remeti-lhe provas dos sonetos do Cortes-Rodrigues.— Durante o dia escrevi ao Cruz Magalhães; para o Natal, incluindo o Formulário Ortográfico; ao Sá-Carneiro (acabei e enviei a carta, e também o primeiro número do Teatro). Fiz vários recados para a tia Anica. Fui à tipografia 3 vezes para rever as provas, mas não estavam nunca prontas. Encontrei o Cunha Dias que me deu um bilhete de cadeira para a conferência dele — mau, porque coincide com o concerto no República. Fiquei hesitante e confuso, não sabendo a qual hei-de ir. Falei com o Boavida na rua; esteve-me lendo um artigo dele que sai no próximo número do Teatro.— Mesmo antes de ir jantar encontrei o Rebelo na Brasileira; falei com ele daquilo do Lavado.— De noite, dormi o serão. Nada de literário feito ou pensado.— De tarde chegaram a carta do Natal e uma do Mário Beirão, de 6, de Ancede. 8-3. (Sábado) Fui para a Baixa às 12 horas. Por várias vezes fui à tipografia; às 15 e 19 horas revi as provas do meu artigo; o 2.º número do Teatro só sai na 2.ª - feira. No escritório do Lavado: uma carta só. Não escrevi carta nenhuma, nem tomei apontamentos intelectuais. Soube que o Cunha Dias já não fazia, a 9, no Nacional, a conferência. À noite estive na Brasileira com o Ilídio Perfeito; depois com o Ghira[?] e com o Barradas e Almada Negreiros. Frases casuais, nem sequer comigo (excepto, o que, felizmente, aguentei risonho e calmo, a citação pelo Almada das frases — pedido que o Castañé lhe fez, de que não dissessem indecências diante de mim), feriram a nota Marcos Alves. De manhã a insistência da tia Anica sobre a questão do emprego, a propósito de um anúncio no Século, tinha ferido a outra nota. Disse que responderia ao anúncio, e, de noite, que havia respondido; mas não pensei em responder. — À meia-noite e 1/4 fui cortar o cabelo e fazer a barba; e regressei a casa.— Recebi, de manhã, uma carta do Vila-Moura, e de tarde um bilhete postal do Cruz Magalhães, acerca das águas-fortes do B [ordalo] Pinheiro. 9-3. (Domingo) De casa para a Brasileira; Boavida deu-me um «promenoir» para o concerto do «República». No concerto até perto das 18 horas. Inferior — pareceu-me — a sinfonia do Freitas Branco. Com isso concordaram o Boavida (na Brasileira, depois) e o Cortes-Rodrigues, com quem assisti ao concerto.— Depois do concerto estive na Brasileira; ouvindo o Eugénio Vieira ler-me versos, razoáveis, um soneto bom. Curiosa a enorme vaidade dele; inofensiva, porém. Em casa, ao serão, dormi.— Nada de literatura durante todo o dia. 10-3. (Segunda) Para a Baixa ao meio-dia. Escritório do Mayer duas vezes. Outras duas no escritório do Lavado. À s 3 encontrei Rebelo, para com ele combinar se lhe serviria o escritório do Lavado. Depois falei com o Lavado sobre o assunto. Ao que parece, serve. Também estive na redacção do Teatro; falei com o Freitas .Ele comprou as Cousas de Água de Maria Amália Vaz de Carvalho. É o livro a atacar esta semana. Reprincipiei a carta ao Pascoaes.— De noite na Brasileira. Falei com o Corado e um pouco com o Fortunato de Fonseca. Para casa com o Corado, entre muita conversa psicologizando sobre o Fortunato. C[orado] concorda com a minha definição dele. Para casa à 1 1/2. 11-3. (Terça) Um dia cheio e febril. Para a Baixa pela hora do costume. Tratei de umas coisas para o Mário. Passando pela Brasileira do Rossio, fiquei lá falando com o Vitoriano Braga, que me contou a peça. Depois encontrei lá o Garcia Pulido, e, salvo um intervalo (das 6 1/2 às 8), em que não fui jantar, por ser pequeno, falámos desde as 2 1/2 até às 11 da noite. Andámos passeando e discutindo e expondo imensas [cousas]. Combinámos o nosso panfleto Jogo Franco, semanal, podendo ser, cada um produzindo um número alternadamente. Achámos que tínhamos um comum ponto de vista — republicano, anti-afonsista, anti-socialista. Recebi de manhã um postal do Sá-Carneiro. Escrevi tarde uma ou duas poesias. 12-3. (Quarta) Ao escritório do Lavado às 10; lá até às 2 da tarde. Depois falei a G[arcia] Pulido despedindo-me. Resto do dia [...].— De manhã um postal do Sá-Carneiro. 13-3. (Quinta) Dia perdido, excepto na surda acumulação de energia.— Escritório Lavado. Carta no escritório do Mayer. Depois fui à Brasileira; só fui jantar à meia-noite. Carta de Sá-Carneiro de manhã. Carta do Natal à noite. 14-3. (Sexta) Vim para baixo às 9, para o escritório do Mayer Fui ao do Lavado depois, onde escrevi uma carta. — De noite na Brasileira com Corado[?]. Saí com ele, falando sobre vários assuntos num passeio longo, que foi até a Alcântara e volta. 15-3. (Sábado) De dia, fui casa H[enrique] Rosa, depois, encontrando C[ortes] Rodrigues, passei para com ele o encargo criado para com o H[enrique] Rosa e tia Anica, que assim acabou.— Levei o Rebelo ao escritório do Lavado. Combinado que ele ficasse e viesse na segunda-feira. Falando com o Af[onso] Gayo na Brasileira. Ele disse vários disparates analíticos.— De noite na Brasileira falando com J[oão] Correia de Oliveira, indo depois até casa dele, para buscar a Vida Etérea. Ali até à meia-noite e meia hora; falámos imenso, íntima —, interessantemente. Recitei-lhe os meus versos de que ele gostou bastante, ao que parece. Surpreendeu-o o facto de eu ser poeta. 16-3. (Domingo) De manhã, um bilhete postal do A[ntónio] Ferro. Saí de casa pouco depois da 1. Fui ao concerto. Falei lá com o Cortes-Rodrigues, e com um cunhado, que ele me apresentou. Depois estive na Brasileira falando com o Eduardo Graça.— De noite, na Brasileira.— Algumas pequenas ideias literárias. 17-3. (Segunda) Vim para a Baixa cedo para ir ao escritório do Lavrado, auxiliar o Rebelo. Vim; ele não precisava de nada. (Não me recordo do resto do dia) — De noite, em casa, encontrei um bilhete da firma Lavado (por Aug[usto] Franco) pedindo-me para ir amanhã às 9, porque o Rebelo tinha saído sem voltar. De noite, em casa. Algumas ideias literárias.— Durante o dia falei com vária gente conhecida. 18-3. (Terça) Para a Baixa cedo; no escritório do Lavado, até ao 1/2 dia. Depois andei por vários pontos. (Não me recordo bem das pessoas que vi). Em casa, quando fui jantar, encontrei uma carta do Cruz Magalhães, que na 2.ª viera ao escritório ver as águas-fortes, e um bilhete explicativo do Rebelo.— Eu tinha, durante o dia, escrito ao Rebelo e ao C[ruz] M[agalhães] assim como ao Garcia Pulido, mandando-lhe 4 poesias de Pessanha. Algumas pequenas ideias literárias. 19-3. (Quarta) Para a Baixa cedo, com o Mário, para o cartório do E. Silva, para testemunhas de uma procuração; não foi, mas foi de uma abertura de sinal.— Na redacção do Teatro fui apresentado pelo Boavida Portugal ao M[anuel]António de Almeida; recitei versos do Pessanha, e falei bastante; ele um fraco conversador e homem de pulimento [?].— Aos escritórios do Lavado e do (irmão); cartas em ambos.— Na Brasileira falando com o Torres d'Abreu e Ilídio Perfeito.— (De manhã recebi um postal do Sá-Carneiro).—À noite, em casa. Escrevi um postal ao Cruz Magalhães.— Poucas ideias... 20-3. (Quinta) Para a Baixa pela 1 hora da tarde. Estive nos escritórios dos dois Lavados, e no da Rua Augusta tive uma carta a escrever. No escritório do Mayer escrevi, quase toda, uma carta ao Sá-Carneiro.— Fui à Exposição do Almada Negreiros e à redacção de O Ocidente, a esta por causa de um pedido do J[oão] C[orreia] de O[liveira] .— Um dia de depressão absoluta e mortal.— Em casa à noite. Acabei a carta para o Sá-Carneiro. Tomei uns pequenos apontamentos literários.— Recebi, de noite, quando cheguei a casa, a carta do Natal (em resposta à que narrara o acontecimento imoral).— Uma carta do Álvaro Pinto, a respeito da subscrição para o Gomes Leal. 21-3. (Sexta) Dado que estive vários dias sem tocar neste diário, só me recordo que nesta 6 ª - feira não fui aos escritórios dos dois Lavados, mas só ao do Mayer. Estive no Rossio muito tempo falando com o Rui Coelho, e muito entusiasmado por o ouvir descrever a sua obra, agora patriótica. 22-3. (Sábado) Nos 3 escritórios. Escrevi cartas ao Álvaro Pinto> Sá-Carneiro e postais ao Rebelo e Garcia Pulido. Mais nada me ocorre. 23-3. (Domingo) Quase todo o dia só no escritório do Mayer. Escrevi grande parte da sinfonia das Caravelas. Tomei alguns outros apontamentos. Escrevi (datada de 20) a carta para o Natal. De noite em casa; ao chá, de repente, senti-me esvair, quase desmaiando.— (Às 5 horas menos 10 nasceu a pequenita do Mário). 24-3. (Segunda) Todo o dia na Baixa, desde as 2 horas até às11 1/2 da noite. No escritório do Lavado de dia e indo ali às 10 à noite já não estava. Durante o dia, das 5 às 8 aproximadamente, no escritório do Mayer escrevendo umas 7 ou 8 estrofes do Epithalamium (em inglês). Depois na Brasileira com J[oão] C[orreia] de O[liveira]. Finalmente, de regresso à Brasileira, fui outra vez ter com o J[oão] C[orreia] de O[liveira], a casa dele. Conversámos até às 11 1/2. Fui para lhe pedir 500 réis emprestados, mas não me senti ousado, visto ele tomar a visita, logo de princípio, como de amabilidade. Jantei no Restaurante Pessoa. Quando vim de jantar encontrei o Rebelo, para quem estava a querer escrever a tempo uma dissertação [?]. É precisa depois de amanhã. De manhã recebi um bilhete postal do Álvaro Pinto. Sinto-me muito anémico e esvaído, ainda que fortemente excitado [?]. 25-3. (Terça) Passaram mais dias sem eu olhar para este diário. Deste dia não me recordo. 26-3. (Quarta) Deste dia apenas me recordo que estive quase todo o tempo com o Garcia Pulido, que encontrei na Brasileira, do Chiado. Falei imenso com ele. Li-lhe (a ele e ao Lacerda) O Homem dos Sonhos, no Martinho.— De noite estive na Brasileira falando com Il[ídio] Perfeito, um sujeito Castelo Branco, a quem ele me apresentou; depois com Anahory e J. Correia de Olivelra. Para casa aí pelas 12 1/4 da noite.— Algumas ideias literárias, interessantes por vezes. 27-3. (Quinta) Saí de casa cedo. Almocei no Restaurante Pessoa, mediante empréstimo de J[oão] C[orreia] de O[liveira]. Depois fui encontrar-me com o Garcia Pulido na Brasileira do Rossio. Falámos até às 2 1/2. Devido ao advento de alguns indivíduos proprietários, a conversa, atravessando a lei de contribuição predial, descambou em horrorosamente depressiva. Depois, saindo com o Pulido, estivemos dolorosamente a entredar-nos força para o combate. Escritório do Lavado; 2 cartas. Depois na Brasileira com o Torres d'Abreu. Vim para o escritório do M[ayer] e aí estive, durante uma chuva tremenda, até às 7 1/ 2. Escrevi à tia Lisbela e para o Natal (datando de 25). Saí, fui à redacção do Teatro arranjar um tostão para o carro. Saí de lá às 8 1/2. Estavam apenas Boavida e camarilha.— Em casa de noite. Dormi pegadamente das 10 até manhã, mas um sono triste, cheio de sonhos, fisicamente doloroso. 28-3. (Sexta) Omitido por demora e esquecimento. 29-3. (Sábado) Omitido por demora e esquecimento. 30-3 (Domingo) Em casa até às 2 horas. Das 2 1/4 às 4 1/2 em casa de António Ferro a ouvir-lhe três [?] peças.— Leu duas.— Depois para a Baixa com ele. Fui para a Brasileira, estive falando com o Rajanto, e depois com o Coelho. Saí e fui jantar ao Imperial com o Coelho. Prometeu arranjar-me 100 000 réis para a minha viagem a Inglaterra, e para a minha viagem ao Algarve 30 000 réis para o fim da semana. Depois (8 1/2 para as 9) fui para a Brasileira e estive lá até sair com o J[oão] C[orreia] de O[liveira]. Fui para casa dele, e conversámos (inclusive uma meia hora com o Ant[ónio] Guimarães) até às 12 1/2. Fui para casa. 31-3. (Segunda) Para a Baixa não muito tarde. A meio do dia encontrei o Coelho. Andei de automóvel até às 6 horas com ele; não fui aos escritórios dos Lavados. O Coelho emprestou-me 2000 réis. Para casa. 1-4. (Terça) Fui a Santo António dos Capuchos receber o dinheiro para a tia Rita; [. . .] Fui depois ao escritório do Lavado, onde escrevi 10 cartas; depois ao do F. Lavado, onde escrevi uma. No escritório do Mayer escrevi outra. Para casa. De noite vim até à Brasileira. Estive em casa do J[oão] C[orreia) de O[liveira] até à 1 1/2 da madrugada. Li-lhe o Bailado do Sá-Carneiro; nem ele nem eu gostámos muito. Ele leu-me uma coisa interessante. De tarde revelou-se a questão entre o João Correia de Oliveira e o António Cobeira. 2-4. (Quarta) Para a Baixa cedo (9 horas). Vindo pela Brasileira, fui apresentado pelo Lúcio de Araújo, que ali estava, ao Albino de Menezes e ao Correia Dias, que estavam na exposição do Almada Negreiros. Ali recebi os catálogos que este me prometera. Fui depois ao Arsenal do Exército, com o Luciano, debaixo de chuva; mandaram-me voltar lá no dia seguinte. Voltei. Fui lanchar ao Pessoa. Depois estive no escritório do Lavado, onde escrevi umas cartas. Saindo encontrei o Santa-Rita, fomos até à Brasileira, onde estivemos falando com o Almada Negreiros (sempre exageradamente garoto) e Castañé. Vim para o escritório do Mayer; escrevi carta para o Natal, datada de 1.— De noite fui à Brasileira. Fui lá apresentado a um rapaz António Alves; estiveram depois um rapaz que não conheço (é agarotado) e o D. Tomás de Almeida, que não conheço senão de vista, e que fala sempre, tendo graça obscena, mas, no fim, dolorosamente irritante. 3-4. (Quinta) Pelo correio da manhã recebi A Vida Portuguesa. Saí de casa às 12 1/2. Fui aos vários escritórios. Fui ao «Grémio Literário» às 4 com Valério e Rui Coelho para ouvir a 1.ª conferência do Teatro, que, porém, se não realizou. Depois andei até às 6 passeando com Valério e Rui Coelho. Rui Coelho veio pôr em música a minha poesia « Ó Nau . . . » de que gostou, horrorizando-o o Pauis .— De noite dormi, desde o serão. 4-4. (Sexta) De manhã recebi carta do Mário de Sá-Carneiro. Estranhei não receber carta do Algarve nem do Pinto. — Fui ao Arsenal do Exército e falei com o Major Santos. No escritório do Lavado, fiz algumas cartas. Na redacção do Teatro um pouco.— De noite estive na Brasileira e depois em casa do João Correia de Oliveira, falando muito. 5-4. (Sábado) De manhã, juntamente com o Mercure de France» mandado pelo Sá-Carneiro, recebi duas cartas de Pretória [. . . ]. — Fui aos 3 escritórios, e escrevi cartas no dos Lavados. Tive várias pequenas coisas que fazer, que executei todas, ainda que andasse todo o dia desvairado. De noite estive em casa; deitei-me às 10 horas, li um pouco na cama. Algumas ideias literárias, principalmente para Marcos Alves. Escrevi um bilhete postal ao Álvaro Pinto. 6-4. (Domingo) Saí de casa perto da 1 1/2, vindo ao escritório do Mayer, mas antes à Brasileira. Estive no escritório até às 9, tentando escrever o artigo para A Águia, mas não consegui. Vim para casa com o Afonso Costa; vim arreliado [. . . ], especialmente por não ter jantado. Algumas pequenas ideias literárias. 7-4. (Segunda) De manhã recebi um postal do Álvaro Pinto. Respondi-lhe à noite. Estive nos dois escritórios dos dois Lavados, e no do Mayer. Fui até ao Arsenal do Exército falar (por Mayer) com o Major Santos.— De noite na Brasileira. 8-4 (Terça) Escrevi ao Mário Beirão, acabei a carta para o Natal. (De manhã recebera um postal do Mário Beirão). Acabei e enviei o artigo para A Águia. Falei com vária gente durante o dia. (Valério principalmente). Fui ao escritório do Lavado e ao do Mayer.— De noite na Brasileira. Estive falando com Corado, fui para casa dele com ele. Estivemos conversando um pouco.— Não me recordo que tivesse ideia literária digna de nota. (Tive. Foi a do artigo sobre o Problema Religioso). 9-4 (Quarta) Fui para a Baixa às 10 1/2. Escrevi um postal ao Pinto. Continuei a carta para o Sá-Carneiro. Fui, por duas vezes, ao Arsenal do Exército; da segunda vez parece que, enfim, alguma coisa se conseguiu. — Três vezes ao escritório do Lavado (nada que fazer); fiz duas cartas no do F. Lavado. — Não jantei. Estive de noite na Brasileira falando com o Valério. Fui apresentado pelo Rui Coelho ao João Amaral. Encontrei o Albino de Meneses e vim com ele até ao Largo de Santa Bárbara, falando muito. — Uma ou duas ideias literárias, de segunda ordem. 1913 Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 32. Cessa o teu canto! Cessa, que, enquanto O ouvi, ouvia Uma outra voz Como que vindo Nos interstícios Do brando encanto Com que o teu canto Vinha até nós. Ouvi-te e ouvi-a No mesmo tempo E diferentes Juntas a cantar. E a melodia Que não havia, Se agora a lembro, Faz-me chorar. Foi tua voz Encantamento Que, sem querer, Nesse momento Vago acordou Um ser qualquer Alheio a nós Que nos falou? Não sei. Não cantes! Deixa-me ouvir Qual o silêncio Que há a seguir A tu cantares! Ah, nada, nada! Só os pesares De ter ouvido, De ter querido Ouvir para além Do que é o sentido Que uma voz tem. Que anjo, ao ergueres A tua voz Sem o saberes Veio baixar Sobre esta terra Onde a alma erra E com as asas Soprou as brasas De ignoto lar? Não cantes mais! Quero o silêncio Para dormir Qualquer memória Da voz ouvida, Desentendida, Que foi perdida Por eu a ouvir... 9-5-1934 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 200. Quem me roubou quem nunca fui e a vida? Quem, de dentro de mim, é que a roubou? Quem ao ser que conheço por quem sou Me trouxe, em estratagemas de descida? Onde me encontro nada me convida. Onde me eu trouxe nada me chamou. Desperto: este lugar em que me estou, Se é abismo ou cume, onde estão vinda ou ida? Quem, quando por mim meus passos dados, Entre sonhos e errores que me deu À súbita visão dos mudos fados? Quem sou, que assim me caminhei sem ser, Quem são, que assim me deram aos bocados À reunião em que acordo e não sou meu? 19-8-1930 Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 157. RONDEAU Faz noite em meu coração. Tenho sono de dormir. Já me esqueci do porvir. Não demorem muito, então! Que o Bi fez chichi no chão. Não precisam consentir. Basta-lhe só comichão. Na cara esfregou o pão E a manteiga no sorrir, E fez um chichi no chão. Vendo bem, e com razão, Onde o faria? (Advertir Que o penico é para rir) No tecto? Claro que não. O Bi fez chichi no chão. Envoy Princesa, este mundo a ir Para o nada é um sonho vão. Mande uma (com um esfregão) Dama de honor aqui vir Que o Bi fez chichi no chão. 25-9-1932 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 22. X Now is she issued. List how all speech pines Then bursts into a wave of speech again! Now is she issued out to where the guests Look on her daring not to look at them. The hot sun outside shines. A sweaty oiliness of hot life rests On the day's face this hour. A mad joy's pent in each warm thing's hushed power. 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 136. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. ON HERACLITUS Universal motion may be very slow and so sensation be possible. (Radio‑Activity). (1) Heraclitus says that all is motion. But what is motion? Something which is conceived only as opposed to substance. Moreover, motion demands two things: a thing that moves and a thing moved, a motor and a mobile.— It needs first, a thing to move because nothing can conceivably move itself. It needs, 2.ly a thing to be moved, for nothing can move itself, as I have said. Again, to perceive anything, to have any cognition, it is necessary that he that has such a cognition should be something. That is to say, all motion, all perception, all knowledge, be it changeful and of a thing that changes supposes a substance if by no fact but than that it is here, be it for less than a moment. Now, having seen that all things are movement, there is one question more to decide. This movement either exists or does not exist. lf it do not exist, still as it may be said of it that it exists, (for it appears to exist) the idea of existence is prior to the idea of movement and existence cannot consist in motion. (1) Il y a de l’etre dans toute proposition. (Leibnitz). 1906 Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 63. RELIGIÕES Temos três meios: 1. O nosso meio interior, i. é, o meio imediato das nossas percepções e conceitos. 2. O nosso meio exterior, ou, antes, exterior-interior, i. é, o nosso meio exterior próximo; em última análise (o não eu concebido como visto no eu). 3. Finalmente, o nosso meio interiormente exterior, que para nós é «o universo». Assim, do nosso meio interior temos uma consciência inconsciente (só um maior desdobramento psíquico dá a c[onsciênci]a de ter uma consciência). Do nosso meio exterior temos uma c[onsciênci]a consciente. Do nosso meio universal temos, ao contrário, uma inconsciência consciente. Sentimos que conhecemos o 1º, conhecemos o 2?; e, quanto ao terceiro, sentimos que o não conhecemos. Meio exterior-interior, no meio interior próximo é aquela parte do mundo exterior que, por quotidiana, usual ou próxima se nos torna conhecida, isto é, de que temos uma ciência intuitiva e inconscientemente formada. À medida que se desenvolve a nossa civilização, vamos alargando o mundo exterior-interior, vamos, pela ciência, saudando o que é próximo mas inanalisado, e aproximando, pelo conhecimento, o que está remoto. Basilarmente a distinção entre interior-exterior e exterior exclusivamente tem esta base inconsciente: a de conhecer no mundo exterior duas faces: aquela que é conhecida e quotidiana , e a que é desconhecida (...). Assim quando um selvagem (...) um objecto vulgar é que não é no seu aspecto quotidiano de objecto vulgar como tal que o encara (mais nítido no caso do selvagem que ao encontrar no caminho uma pedra de feitio estranho a leva para casa e a adora. Aqui ressalta nítida a noção de não usual...). * A religião é um facto social; daí o incutir-se no espírito de um povo; havendo preliminarmente susceptibilidade, nos nossos sentimentos para ela, não por provas, mas sim pela autoridade de quem a incute, seja essa autoridade primordialmente de influência pessoal, quer de influência representativa (de autoridade). Em ambos os casos, há a preparação psíquica para aceitar o que pregado for. 1914 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 110. Disseste-me quase rindo: Disseste-me quase rindo: «Conheço-te muito bem!» Dito por quem me não quer, Tem muita graça, não tem? s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 112. Tens olhos de quem não quer Tens olhos de quem não quer Procurar quem eu não sei. Se um dia o amor vier Olharás como eu olhei. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 54. Ficarei o Inferno de ser Eu, a Limitação Absoluta, Expulsão-Ser do Universo longínquo! Ficarei nem Deus, nem homem, nem mundo, mero vácuo-pessoa, infinito de Nada consciente, pavor sem nome, exilado do próprio mistério, da própria Vida. Habitarei eternamente o deserto morto de mim, erro abstracto da criação que me deixou atrás. Arderá em mim eternamente, inutilmente, a ânsia (estéril) do regresso a ser. Não poderei sentir porque não terei matéria com que sinta, não poderei respirar [?] alegria, ou ódio, ou horror, porque não tenho nem a faculdade com que o sinta, consciência abstracta no inferno do não conter nada, não-Conteúdo Absoluto, [Sufocação] absoluta e eterna! Oco de Deus, sem universo, (...). 1915? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 60. Onde quer que o arado o seu traço consiga E onde a fonte, correndo, com a sua água siga O caminho que, justo, as calhas lhe darão, Aí, porque há a paz, está meu coração. Bem sei que o som do mar vem de além dos outeiros E que do seu bom som os ímpetos primeiros Turvam de ser diverso o natural da hora, Quando o campo a não ouve e a solidão a ignora. Mas qualquer cousa falsa desce e se insinua Nos anos que são vestígios sob a Lua. 5-8-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 162. Houve um ritmo no meu sono, Quando acordei o perdi. Porque saí do abandono De mim mesmo, em que vivi? Não sei que era o que não era. Sei que suave me embalou, Como se o embalar quisera Tornar-me outra vez quem sou. Houve uma música finda Quando acordei de a sonhar. Mas não morreu: dura ainda No que me faz não pensar. 11-6-1934 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 203. XI Hang with festoons and wreaths and coronals The corridors and halls! Be there all round the sound of gay bells ringing! Let there be echoing singing! Pour out like a libation all your joy! Shout, even ye children, little maid and boy Whose belly yet unfurred yet whitely decks A sexless thing of sex! Shout out as if ye knew what joy this is You clap at in such bliss! 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 138. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. The celebrated argument against motion. «A thing which moves is neither where it was, for then it would not have moved; nor where it is, for then it would be no need of motion (it would not have moved), nor no motion possible. Therefore, nothing really moves.» 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 65. Que tenho o coração preto Que tenho o coração preto Dizes tu, e inda te alegras. Eu bem sei que o tenho preto: Está preto de nódoas negras. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 112. Pobre do pobre que é ele Pobre do pobre que é ele E não é quem se fingiu! Por muito que a gente vele Descobre que já dormiu. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 54. Senhor, que és o céu e a terra, e que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo estás — (o teu templo) — eis o teu corpo. Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome. Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai. [...] Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar. Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te. Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim. 1912? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 61. If colour, form, etc., be objective they are substrata, for it cannot be but that thing material beyond which we cannot go is a substratum. But we are far from it in this case. Colour, form, far from being substrata are properties, pure properties, properties in themselves, in the abstract. Colour, form are then subjective? lf so, they, by the very fact of being subjective, that is of being contained in something, are, must be properties and not entities at all. And they are properties, they can be conceived but as properties; there is no one that can deny this. Properties? Properties of what? This the reader will exclaim. «Properties of what? Since they are contained in spirit they are the properties of spirit, and spirit is then coloured and has a form!» So it appears, but so is it not Spirit and matter are differently connected with these qualities, with these non-entities. For to matter they are adherent, and inherent to spirit. They are in spirit and by spirit; (...) s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 244. Tenho dó das estrelas Luzindo há tanto tempo, Há tanto tempo... Tenho dó delas. Não haverá um cansaço Das coisas. De todas as coisas, Como das pernas ou de um braço? Um cansaço de existir, De ser, Só de ser, O ser triste brilhar ou sorrir... Não haverá, enfim, Para as coisas que são, Não a morte, mas sim Uma outra espécie de fim, Ou uma grande razão — Qualquer coisa assim Como um perdão? s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 204. 1ª publ. in Mensagem , nº 1. Abr. 1938. O Íbis, ave do Egipto, Pousa sempre sobre um pé (O que é Esquisito). É uma ave sossegada Porque assim não anda nada. Uma cegonha parece Porque é uma cegonha. Sonha E esquece — Propriedade notável De toda ave aviável. Quando vejo esta Lisboa, Digo sempre, Ah quem me dera (E essa era Boa) Ser um íbis esquisito, Ou pelo menos estar no Egipto. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 24. XII This is the month and this the day. Ye must not stay. Sally ye out and in warm clusters move To where beyond the trees the belfry's height Does in the blue wide heaven a message prove, Somewhat calm, of delight. Now flushed and whispering loud sally ye out To church! The sun pours on the ordered rout, And all their following eyes clasp round the bride: They feel like hands her bosom and her side; Like the inside of the vestment next her skin, They round her round and fold each crevice in; They lift her skirts up, as to tease or woo The cleft hid thing below; And this they think at her peeps in their ways And in their glances plays. 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 138. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Não me digas que me queres Não me digas que me queres Pois não sei acreditar. No mundo há muitas mulheres Mas mentem todas a par. 23-9-1934 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 54. Um dos poucos divertimentos intelectuais que ainda restam ao que ainda resta de intelectual na humanidade é a leitura de romances policiais. Entre o número áureo e reduzido das horas felizes que a Vida deixa que eu passe, conto por do melhor ano aquelas em que a leitura de Conan Doyle ou de Arthur Morrison me pega na consciência ao colo. Um volume de um destes autores, um cigarro de 45 ao pacote, a ideia de uma chávena de café — trindade cujo ser-uma é o conjugar a felicidade para mim — resume-se nisto a minha felicidade. Seria pouco para muitos, a verdade é que não pode aspirar a muito mais uma criatura com sentimentos intelectuais e estéticos no meio europeu actual. Talvez seja para os senhores como que causa de pasmo, não o eu ter estes por meus autores predilectos —e de quarto de cama, mas o eu confessar que nesta conta pessoal assim os tenho. 1914? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 62. Ó naus felizes, que do mar vago Volveis enfim ao silêncio do porto Depois de tanto nocturno mal — Meu coração é um morto lago, E à margem triste do lago morto Sonha um castelo medieval... E nesse, onde sonha, castelo triste, Nem sabe saber a, de mãos formosas Sem gosto ou cor, triste castelã Que um porto além rumoroso existe, Donde as naus negras e silenciosas Se partem quando é no mar amanhã... Nem sequer sabe que há o, onde sonha, Castelo triste... Seu espírito monge Para nada externo é perto e real... E enquanto ela assim se esquece, tristonha, Regressam, velas no mar ao longe, As naus ao porto medieval... s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 206. O SOBA DE BIKÁ — TRAJÉDIA O soba de Biká, maravilhoso gajo, Constantemente usava um admirável trajo Que era feito de pele e de coisa nenhuma. Havia uma harmonia entre ele e o trajo; em suma, O soba de Biká, ou de noite ou de dia, Era sempre da cor do trajo que vestia. Mas o soba, coitado!, um dia em sua casa, Sentou-se por descuido em cima de uma brasa, E, em vez de gritar «Ai, minhas calças!», «Uh!», Gritou ele, esquecendo o trajo, «ai o meu cu!» s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 25. XIII No more, no more of church or feast, for these Are outward to the daym, like the green trees That flank the road to church and the same road Back from the church, under a higher sun trod. These have no more part than a floor or wall In the great day's true ceremonial. The guests themselves, no less than they that wed, Hold these as nought but corridors to bed. So are all things, that between this and dark Will be passed, a dim work Of minutes, hours seen in a sleep and dreamed Untimed and wrongly deemed. The bridal and the walk back and the feast Are all for each a mist Where he sees others through a blurred hot notion Of drunk and veined emotion, And a red race runs through his seeing and hearing, A great carouse of dreams seen each on each, Till their importunate careering A stopped, half-hurting point of mad joy reach. 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 140. 1ª ed. in English Poems III . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Azul, ou verde, ou roxo, quando o sol O doura falsamente de vermelho, O mar é áspero [?], casual [?] ou mo(le), É uma vez abismo e outra espelho. Evoco porque sinto velho O que em mim quereria mais que o mar Já que nada ali há por desvendar. Os grandes capitães e os marinheiros Com que fizeram a navegação, Jazem longínquos, lúgubres parceiros Do nosso esquecimento e ingratidão. Só o mar, às vezes, quando são Grandes as ondas e é deveras mar Parece incertamente recordar. Mas sonho... O mar é água, é agua nua, Serva do obscuro ímpeto distante Que, como a poesia, vem da lua Que uma vez o abate outra o levanta. Mas, por mais que descante Sobre a ignorância natural do mar, Pressinto-o, vazante, a murmurar. Quem sabe o que é a alma? Quem conhece Que alma há nas coisas que parecem mortas. Quanto em terra ou em nada nunca esquece. Quem sabe se no espaço vácuo há portas? Ó sonho que me exortas A meditar assim a voz do mar, Ensina-me a saber-te meditar. Capitães, contramestres — todos nautas Da descoberta infiel de cada dia ó Acaso vos chamou de ignotas flautas A vaga e impossível melodia. Acaso o vosso ouvido ouvia Qualquer coisa do mar sem ser o mar Sereias só de ouvir e não de achar? Quem atrás de intérminos oceanos Vos chamou à distância como [?] quem Sabe que há nos corações humanos Não só uma ânsia natural de bem Mas, mais vaga, mais subtil também, Uma coisa que quer o som do mar E o estar longe de tudo e não parar. Se assim é, e se vós e o mar imenso Sois qualquer coisa, vós por o sentir E o mar por o ser, disto que penso; Se no fundo ignorado do existir Há mais alma que a que pode vir À tona vã de nós, como à do mar, Fazei‑me livre, enfim, de o ignorar. Dai-me uma alma transposta de argonauta, Fazei que eu tenha, como o capitão Ou o contramestre, ouvidos para a flauta Que chama ao longe o nosso coração, Fazei-me ouvir, como a um perdão, Numa reminiscência de ensinar, O antigo português que fala o mar! 9-6-1935 Mensagem - Poemas esotéricos. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de José Augusto Seabra.) Porto: Fund. Eng. A. Almeida, 1993 - 107. 1ª publ. in Obra Poética . Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Dores Galhoz.) Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960. When Parmenides says that Being is eternal on the strength of the assertion that Being cannot become not‑Being, he imports into the argument the secret notion of time, of becoming, at least. But becoming is not being — it is indeed opposed to it. The true argument runs thus: Being is not temporal because it cannot be duration. Being is not eternal: it cannot be time. Being is being and no more. 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 66. Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar. O império supremo é o do Imperador que abdica de toda a vida normal, dos outros homens, em quem o cuidado da supremacia não pesa como um fardo de jóias. 1913? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 63. No ouro sem fim da tarde morta, Na poeira de ouro sem lugar Da tarde que me passa à porta Para não parar, No silêncio dourado ainda Dos arvoredos verde fim, Recordo. Eras antiga e linda E estás em mim... Tua memória há sem que houvesses, Teu gesto, sem que fosses alguém, Como uma brisa me estremeces E eu choro um bem... Perdi-te. Não te tive. A hora É suave para a minha dor. Deixa meu ser que rememora Sentir o amor, Ainda que amar seja um receio, Uma lembrança falsa e vã, E a noite deste vago anseio Não tenha manhã. s. d. Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 208. Caixa Postal 147. Lisboa, 31 de Agosto de 1923. Meu querido Chico: Sim, recebi as suas duas cartas — a para a Caixa Posta!, e a para o «Arcada». Como lhe tinha dito, mesmo sem número de caixa eu não deixaria de receber uma carta endereçada como a primeira. Em todo o caso ci-dessus vai o número da Caixa Postal. Pode ser, realmente, que Lisboa esteja insuportável. Eu não sei. Para mim é Europa em toda a parte, e não Lisboa ou qualquer outro simples local. É uma questão de estado mental sem necessidade de estado social. Mas compreendo que insuportável isto deve ser para quem quer manter relações de convivência com o que o cerca. Espero, ao menos, que a paisagem com que v. presentemente conversa lhe arranje um diálogo que o entretenha. Nem sempre acontece, não é verdade? Há árvores, pedras, flores, rios que são tão estúpidos que parecem gente. Muito lhe agradeço a repetição do seu convite. Talvez — como lhe disse — possa ir em Outubro. Receio apenas não lhe levar comigo senão uma maçada para si — para si e para os seus pais. V. não acha que o meu espírito de todos os dias é insuficientemente panorâmico? Desconfio que é. Enfim... Peço-lhe que apresente a seus pais os meus cumprimentos e que creia sempre na amizade do muito seu (a)  Fernando Pessoa. 31-8-1923 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 30. Meu querido Chico: Muito obrigado pela sua carta de há já bastantes dias. Tenho adiado e adiado a resposta na esperança de poder escrever que podia dar-me o prazer de efectivar a aceitação do seu convite. As coisas, porém, que me prendiam aqui sem gosto, continuam a prender-me, e cada vez mais. Vejo que tenho que ter a pena de não poder estar consigo aí. A perda é toda minha. Conversaremos, pois, em Lisboa, onde já parece que sou, se não uma árvore, com raízes naturais no solo, ao menos um marco, ou um poste, postiço mas igualmente enterrado no chão. Magníficos os seus projectos. Mesmo antes de saber que eu gostei d’eles, v. decerto sabia que eu gostava d’eles. Meus cumprimentos a seus Pais. Um abraço do (a) Fernando. 23-10-1923 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 31. Lisbon, 2Oth. October, 1925. Messrs. Eden Fisher & Co., Ltd., 6-8, Clements Lane, London, E.C.4. Dear Sirs: I have devised a system to (1) condense into five-letter code halfword each unit (word or phrase) of the A.B.C. 5th. Edition Code; and also, and at the same time, to (2) code simultaneously with the A.B.C. 5th. and the A.B.C. 6th. Edition Codes, no possible confusion arising; and, besides this, and at the same time, to (3) code with the greatest conciseness the most complex numerical designations — millions, thousands and units, decimals of any type and fractions of every sort. The originality and efficiency of the system I have devised consists essentially, not in that it does any of these three things, but that it does all three together by the same system and in the same way. No great ingenuity would be required to «condense» the A.B.C. 5th. Edition; and the 6th. Edition does not require condensation. But it is a different thing to enable anyone to code simultaneously with the two codes and at the same time to handle without difficulty numbers and fractions of the greatest imaginable complexity. The system is not only ingenious, but also simple and concise. It is simple because it is understood at once and because its application is extremely rapid, since it involves nothing to strain the intellect or even the attention. It is concise because an eight-page pamphlet can contain it all. It stands to reason that this system, if it have (as in fact it has) the advantages I claim for it, would be of use to you and to the proprietors of te A.B.C. Codes in so far as: (1) It would enable users of only the 5th. Edition to cut down their telegraphic expenses fifty per cent. (2) It would enable users of both the 5th . and te 6th. Editions to avail themselves, at the same time and without any possible confusion, of the separate and distinct advantages of each of those two codes. (3) It would enable users of either or both those Codes to cable in connection with them numbers, decimals and fractions of the greatest complexity. (4) Considering its small size, the cost of this supplementary booklet would necessarily be also small. (5) Besides these advantages to the users, which are by implication advantages to the sellers, of the two Codes, the publication of this system would enable you not only generally to compete with other codes, but more particularly to do so with the so-called «Improved» 5th. Edition wherever that is sold, for there is no one but would prefer a system (consisting in a cheap pamphlet) which, while doing the same thing that the «Improved» 5th. does, has, over and above that, two other applications. The mere presence of the «numerical» part of the system — to code complicated numbers, decimals and fractions — is sufficient to clinch the matter, the more so that the A.B.C. 5th. Edition has a small range in this respect. I need not add that what I have called «an eigth-page pamphlet» may be publisbed not only as such but as a small preface, appendix or addendum to either the 5th. or te 6th. Editions in future impressions of them. If the contents of this preliminary letter create in you or in the proprietors of the A.B.C. Codes any interest in respect to my system, I shall be pleased to send a copy of it to you or to them, with a view to negotiation. Yours faithfully, 20-10-1925 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 34. Theory of Genesis in S[eries]’s philosophy: This theory is made clear by an analogy with the numbers in an infinite series, in the simple series of arithmetical progression. Thus, O, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8,..., ¥ —. By looking upon this we can assert that the series begins at 1, though we are unable to say where it ends. To us, indeed, it does not end anywhere. But what we cannot explain is how to pass from zero to one . Consider the problem of the world in time and see how exact is the analogy. Nay, there is more than an analogy; this of number is the basis of the other. For, of a truth, time is duration, duration is moments and moments are numbers in time; duration is the union of the ideas of number and of time. If we wish the solution of the problem of the world in time, we have but to consider number in its ideal extension, as it is here done, and to induce the idea of time. Let us then examine the problem. In the first place it is to be noticed that the passage from zero to 1 is a passing of nothing to something, of a thing to its contrary. (If I may so speak.) (But zero is not the contrary of anything for a contrary is something and zero is nothing. Moreover, when we say a thing has a contrary, if we assert afterwards that zero is that contrary we unsay our former statement or make it absurd, for to say a thing is contrary to nothing, is to say it has no contrary at all. [...] The 1 cannot produce the 2, neither if it be taken in the sense of quantity nor in the sense of a unit of order. In the first case the one cannot sum itself to itself and produce 2. In the second, the one being only one by reason of there being other numbers obviously cannot have produced them. (Here is the materialistc difficulty. Thales, etc., in Arist. Met. I.) The series then proceeds from a so-called nothing and yet has not produced itself . The series has been produced. Produced by what? Not by any number of the series, because, as we have already seen, that is impossible. (Not by some numbers of the series, for then it is required to know how the numbers which compose this sum have come to be. And if an attempt be made to answer this by twisting it in any way, the essay fails, for it can either make the sum a number — a case which we have already discussed — or the whole which we shall now consider). Not by the series as a whole, for, as I have said, nothing can produce itself. We must now make a distinction between the total and the series in itself (the whole). The total is produced by the units, consequently by units in a definite number. The whole, on the contrary, produces the numbers; it is not produced by them. [...] The series (whole) is Quantity, Number (in its most abstract meaning). A total is any number resulting from a sum, for instance, 1302. A number, a unit is any member of the series. Some may yet think that a whole can be empirically obtained. They say, for instance, «the numbers 1, 2, 3 plus an infinity of numbers give us the total series, the whole». We must consider this argument. It contains an old term, that of infinity. What is this, what does it mean? It means either of 2 things: or the greatest possible number, that which contains all numbers; or that which transcends all number. lf it mean the first (as materialists indeed understand it) it is identical to the series, it means «the whole». So that to prove the whole by it is to beg the question and most miserably to fail. Cur opium dormiri facit? Quia est in eo vis dormitiva . Analogy and consequence of this in the materialist argument for the empirical origin for the idea of infinite. 1911 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 65. O sol que doura as neves afastadas No inútil cume de altos montes quedos Faz no vale luzir rios e estradas E torna as verdes árvores brinquedos... Tudo é pequeno, salvo o cume frio, De onde quem pensa que do alto não vê Vê tudo mínimo, num desvario De quem da altura olhe quanto é. 22-8-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 163. Rua da Prata, 71, l.º, (Telef. C. 1056). Lisboa, 27 de Novembro de 1925. Exmos. Srs. Directores do Banco Angola e Metrópole, Lisboa Exmos. Senhores: A expansão comercial de qualquer país, e, no caso do nosso, também e sobretudo das colónias, necessita do apoio de uma informação e publicidade seguras, e o primeiro elemento permanente d’essas é a catalogação, para divulgação geral, dos comerciantes e industriais do país — isto é, aquilo a que se chama um Anuário ou Indicador d’esses comerciantes e industriais. Duas, porém, são as dificuldades iniciais d’este género basilar de publicidade e informação; e acresce uma terceira no caso de Portugal europeu e ultramarino. (1) Um anuário comercial é uma publicação que, ou há-de ser completa, e então é necessariamente volumosa, mesmo para um país pequeno; ou timbra em não ser volumosa, e então tem que ser incompleta. (2) Um anuário comercial ou há-de ser feito na língua própria do país, e nesse caso a sua consulta é limitada aos que compreendem essa língua — o que, no nosso caso, e em relação ao mundo inteiro civilizado, é muito pouca gente; ou há-de ser feito em qualquer língua estranha, largamente falada, mas então perde, não só e ainda o mercado dos países de outras línguas, mas o próprio mercado nacional, que é sempre um bom comprador. Acresce, no caso de Portugal que (3) há um «Anuário Comercial», assim denominado, que, eivado necessariamente dos dois defeitos anteriormente expostos, criou contudo no mercado nacional, por não ter concorrente, uma tradição de venda — progressivamente restringida, aliás, pela extrema elevação do seu preço. O problema da publicidade europeia e colonial portuguesa por meio de anuário ou indicador (como, aliás, o de qualquer publicidade análoga estrangeira) seria, pois, praticamente irresolúvel se não existisse o pedido de patente de invenção n.º 14345, que depositei em 27 de Outubro findo na Repartição da Propriedade Industrial. Esta invenção resolve, de um só golpe, todas as dificuldades. Nem no estrangeiro, nem muito menos aqui, apareceu ainda solução tão completa, e ao mesmo tempo tão simples, para este problema da catalogação e da publicidade. A minha invenção não tem precedentes em país nenhum. O processo de confecção de um anuário ou indicador, em que essa patente consiste, permite: (1) Condensar, por exemplo, todo o conteúdo dos dois grandes volumes do «Anuário Comercial de Portugal» — ainda desenvolvendo e expandindo esse conteúdo, que é, sobretudo na parte colonial, bastante deficiente — em um espaço inferior a um só d’esses tomos. Assim se elimina a dificuldade do «grande volume» da obra, e esta se torna, ao mesmo tempo, mais barata e mais fácil de manusear. (2) Fazer um anuário extralinguístico, isto é, consultável em todas as línguas, bastando, para o tornar consultável em qualquer, um pequeno número de páginas, ou um pequeno folheto acessório de um máximo de 16 páginas. Assim se elimina a dificuldade linguística, limitação fatal da expansão do livro, isto é, da sua capacidade de venda e de propaganda. (3) Dada a grande diminuição de volume, e a consequente baixa de custo e preço; dada a consultabilidade da obra em qualquer língua, e a consequente capacidade de expansão, que a baixa de preço acentua e facilita; tornar inteiramente nula e sem consequência nenhuma a concorrência — que em outras circunstâncias, dada a sua venda tradicional, seria bastante forte — do «Anuário Comercial» presente, reduzido, desde a publicação d’este, não só a uma velharia, mas a uma velharia cara. São duas as razões porque apresento este assunto à consideração de V. Exas., de preferência à de qualquer outra entidade susceptível de por ele se interessar. — A primeira é que V. Exas. têm revelado, tanto quanto me tem sido possível observar, um interesse desusado pelos processos e empresas propriamente de expansão nacional; e, se me não engano em supor que seguem esse critério, que aliás a ciência económica presente abona, não deve ser-lhes indiferente um processo inteiramente novo e prático da organização d’aquilo que é fundamental na publicidade comercial de um país, não precisando eu chamar a vossa atenção para o destaque que a publicidade assume na técnica da expansão comercial moderna. — A segunda é que V. Exas. têm mostrado um interesse especial pela expansão colonial portuguesa; e o meu processo permitiria englobar em pequeníssimo espaço, junto com a catalogação dos comerciantes e industriais da Metrópole, a dos de todas as colónias portuguesas, o que o «Anuário Comercial» presente não faz para não alongar o seu já longo número de páginas, e por não ter, por sua mesma natureza, saída nenhuma no estrangeiro. A publicação de um anuário pelo meu sistema é negócio que não exige o emprego de um capital extraordinário, e que pode dar, em relação a esse capital, um lucro, se não prodigioso, pelo menos absolutamente compensador. Como tenho perfeitamente determinados todos os métodos de confecção do Anuário — não só os que constituem propriamente a patente, mas os que são meios para chegar a esses — proponho a V. Exas., com o ceder-lhes a patente, assumir a direcção geral da obra. Junto, para fácil e inteira elucidação de V. Exas., — de preferência à copia da «descrição» entregue com o pedido de patente, e que é abstracta de mais -, uma «exemplificação» do que é o Anuário Sintético que inventei, precedido da simples nota do nome oficial do invento e da reivindicação respectiva. À primeira vista pode parecer complexo o assunto; pouco, porém, é preciso ler para logo se verificar a sua extrema simplicidade. Aguardo com interesse a resposta de V. Exas., de quem me subscrevo, com a maior consideração, Mto. Atto. e Venr. Anexo de 5 pág. 27-11-1925 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 35. Uma carta visivelmente circular — sobretudo se for impressa ou copiografada — é o pior meio de propaganda ou de publicidade que se conhece. Evite-se, em todo o impresso de propaganda, a forma de carta. Faça-se um pequeno prospecto, um folheto diminuto; empregue-se um postal sem forma epistolar, mas não se faça uma parecença de carta, porque uma carta implica atenção ou consideração, e uma coisa impressa implica o contrário. Uma consideração geral, uma consideração às séries, não se entende. Há só um caso em que a circular impressa é aceitável: é quando anuncia ou reclama um livro, ou outra qualquer publicação. A identidade de natureza entre o objecto reclamado e a forma do reclame esbate o contra-efeito da circular. 25-1-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 171. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 1. Lisboa: 25-1-1926. O carácter é um pouco egoísta, independente, teimoso e autoritário (sobretudo para os inferiores sociais), se bem que estas qualidades sejam compensadas por qualidades sociais intensas e efusivas. Há uma acentuada ambição, sobretudo social, uma forte intuição das coisas práticas, e um grande poder de dominar, uma grande força de vontade e tenacidade. Isto apesar de ser fácil de zangar, impulsiva, tendente a ir até ao exagero em tudo, tanto que muitas vezes terá de se arrepender de actos impulsivos, cujas consequências nem sempre serão agradáveis. A excitabilidade nervosa é grande e deve sempre evitar coisas que a preocupem e tudo quanto possa incidir sobre os nervos, sobretudo as emoções muito fortes, que não tem a resistência precisa para suportar. Há uma certa propensão para a tristeza, que pode às vezes chegar até à melancolia, isto muito embora haja uma grande disposição para tudo quanto representa passatempo e diversões. Em todo o caso, há muita espontaneidade e sinceridade e uma grande impressionabilidade às coisas da vida social. O espírito é engenhoso, imaginativo, sempre irrequieto, com facilidade em arranjar soluções para as dificuldades que lhe possam surgir, e é ao mesmo tempo preocupado e instável, sendo, porém, no fundo, intenso e violento em tudo. Há uma grande dose de subtileza e diplomacia feminina. Há uma tendência para doenças repentinas e graves, para desgostos profundos por causa de pessoas amigas, e terá que encontrar, várias vezes na sua vida, a inimizade violenta de pessoas mais velhas. Estão indicados acontecimentos curiosos e inesperados — raras vezes agradáveis — com respeito a parentes e a viagens, sobretudo viagens pequenas. O meio doméstico em que nasceu foi-lhe favorável. Aos nove anos esteve em risco de vida ou teve qualquer doença muito grave. Pelos 17 anos deve ter tido graves perturbações nervosas, e, talvez, desgostos com parentes mais velhos. Houve um bom período da vida em redor aos 8 anos, e foi esse bom aspecto que lhe salvou a vida quando da doença grave que se citou. O período actual é bom e agradável. As datas importantes mais próximas são à roda Novembro de 1916 e Maio de 1918 (mais mês, menos mês). Na primeira data haverá qualquer acontecimento agradável, mas deve contar com muitas coisas desagradáveis (com pessoas amigas) que se hão-de misturar com ela. Em 1918 o período é muito importante, e principalmente agradável, mas complexo de mais para se poder detalhar sem um estudo especial. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 40. A propaganda, no sentido lato, de um lugar como a Costa do Sol, assenta em três princípios: ( a ) o clima e vantagens directas, (b) a facilidade de comunicações e atractivos sociais, e ( c ) a publicidade. Esta última, como é de ver, baseia-se nas duas outras, embora deixando livre um campo que elas não abrangem — que é o que na publicidade há de próprio, e, ainda, o que, derivado do país em geral ou de outra qualquer matéria externa ao assunto, se pode fazer incidir, um pouco arbitrariamente, sobre ele. O que diz respeito ao clima e as vantagens derivadas dele e a ele análogas, existe em si mesmo e não pode ser estimulado nem forçado. O que diz respeito aos atractivos a criar, assim como às facilidades de transporte e acomodação, é assunto, ou antes são assuntos de que me não proponho tratar. Cingir-me-ei ao caso da publicidade propriamente dita. A publicidade de um lugar como a Costa do Sol pode e deve ser encarada sob dois aspectos — o do público a atingir, e o dos processos a empregar (excluindo os atractivos já excluídos) para o atingir. O público a atingir é divisível em três categorias — ( a ) o público em geral, o vago público possível, qualquer que seja e sem que se determine nele divisão ou classificação alguma; ( b ) o público rico e luxuoso, em que é próprio viajar, e que, deste modo, se distingue e se destaca, para o caso particular de que se trata, do público em geral; e (c) o público especial composto de élites, artistas, intelectuais, e outros assim, que, se per si não vale muito, vale todavia pela influência que dele irradia sobre o público rico, em primeiro lugar, sobre todo o público, em segundo. Os processos a empregar são, por sua vez, divisíveis em três categorias também: ( a ) a publicidade indirecta, isto é, jornalística, representada por anúncios insertos em publicações estrangeiras, pois que a estrangeiros principalmente se dirige; ( b ) a publicidade directa, constituída por folhetos, dobrantes e outras publicações da mesma ordem, ou enviadas a pessoas ou entidades escolhidas por via postal espontânea, ou enviadas em consequência de anúncios dispostos para a solicitar; (c) a publicidade translata, que, sem ter aparentemente uma relação directa com o assunto, em todo o caso o inclui e o torna simpático por meio das circunstâncias de que o cerca. Ora, aplicando uma coisa a outra, temos que a publicidade de anúncios se dirige ao público em geral, que a publicidade de folhetos e impressos especiais se dirige em parte ao público em geral (aquele a quem os anúncios suscitam a pedir esses impressos ou que os pode ver em lugares públicos ou para tal fim considerados públicos) e em parte ao público rico (a quem seriam feitas remessas especiais, cuidadosamente escolhidas): e que a publicidade translata se aplica especialmente ao público artista e aquela parte do público que o não seja, mas que com ele de algum modo confine. Toda a publicidade, seja qual for a destas espécies a que pertença, deve ser feita em obediência a três princípios: ( a ) o primeiro, que é o princípio essencial da publicidade, deve ser de esconder o mais possível, ou de tornar o mais agradável possível, o intuito publicitário; (b) o segundo é que a publicidade deve ser feita em línguas separadas. Nunca um folheto deve ser impresso em mais que uma língua. Nada há mais antipático que o poliglótico impresso. Repugna já em obras técnicas, que muitos se vêem forçados a ler; quanto mais não repugnará em folhetos que se deseja que se leiam! ( c ) O terceiro é de que toda a publicidade, seja qual for, deve fazer o possível por cingir-se de um âmbito de elegância, o que, se em certo modo quer dizer — como em ( a ) — o disfarce da publicidade, também quer dizer [...] s.d. Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 173. 1ª publ. in Fernando Pessoa - O Comércio e a Publicidade. António Mega Ferreira. Lisboa: Cinevoz/Lusomedia, 1968 BASES PARA DOIS PROJECTOS DE CONCENTRAÇÃO INDUSTRIAL Os dois projectos que seguem representam duas aplicações diversas da mesma ideia central ou geradora. Essa ideia central é concebida, e aqui exposta, completamente, isto é, não só na sua essência, mas também nas diversas ideias derivadas em que ela se desdobra no seu desenvolvimento lógico. É assim que essa ideia se torna verdadeiramente completa; é assim, também, que ela resulta verdadeiramente interessante. A ideia central ou geradora é a seguinte: a conversão da pequena indústria em grande indústria pelo processo do agrupamento. Posta assim, na sua nudez fundamental, a ideia parece demasiado abstracta e, por isso, pouco interessante; é, porém, no seu desenvolvimento e pela análise das suas consequências lógicas que ela adquire corpo e interesse. Começaremos, para que desde o princípio tudo seja explícito, por definir o que, no estudo presente, se entende por “pequena indústria”. Esta expressão inclui toda e qualquer indústria que pode ser exercida, bem ou mal, em pequena escala, embora possa também ser exercida em grande; por isso exclui apenas as grandes indústrias de especialidade técnica, baseadas em grandes instalações de maquinismos, e em que portanto a “pequena escala” é já grande. Podendo, pois, a pequena indústria ser realmente grande, ela só é pequena indústria verdadeiramente por ser pequena em relação à empresa maior, aqui projectada, de que ela, qualquer que seja o seu vulto individual, é uma parte componente. Posto isto, passaremos a analisar que ideias derivadas resultam do desenvolvimento lógico da ideia central de conversão da pequena em grande indústria pelo processo do agrupamento. É conveniente não esquecer, no decurso da leitura do que vai seguir, o sentido em que aqui se emprega a expressão “pequena indústria”. (1) Convertida a pequena em grande indústria pelo processo do agrupamento de muitas e diversas indústrias pequenas em uma só empresa grande, têm que ser, por isso mesmo, criadas, adentro da empresa agrupadora, duas secções suplementares da sua secção propriamente industrial: uma secção de concentração, preparação e apresentação para venda dos produtos concentrados, e uma outra secção, propriamente de venda deles. Dado o vulto que forçosamente tem que ter uma empresa assim constituída por agrupamento, essas suas duas secções serão também importantes, em movimento, capacidade e organização, pois que participarão da importância da própria empresa. (2) Criada, porém, uma secção de vendas da espécie indicada, imediatamente ocorre utilizar o seu vulto e organização para chegar mais perto do público que seja possível, quer pela venda comercial directa, isto é, só aos estabelecimentos de retalho, quer, sempre e onde possa ser, pela criação de lojas próprias, para venda absolutamente directa, isto é, ao público. (3) Criada, e assim alargada, esta secção de vendas, e estabelecida, como necessariamente tem que ser, em grau correspondente a secção de concentração de produtos e de preparação deles para a venda, vê-se logo que a empresa fica habilitada a concentrar para venda, e a vender, não só os produtos das suas fábricas, como também os de outras fábricas do mesmo país, com as quais, por qualquer razão, ela ou não tenha que, ou não deseje, concorrer. Assim a secção de concentração e preparação de produtos para venda alargaria o seu âmbito a incluir uma subsecção de compras ou de agência, através da qual se aperfeiçoaria a apresentação dos produtos alheios tomados para venda, e onde, sempre que não fosse impossível, se converteriam esses produtos comercialmente em próprios pela subordinação a marcas privativas. (4) Como, porém, grande número dos produtos assim concentrados para venda, quer de fábricas próprias, quer de alheias, forçosamente se prestam a ser exportados, a secção de vendas desdobrar-se-ia a incluir uma subsecção de exportação. Criada e devidamente organizada esta subsecção de exportação, ela, participando, como as outras, da importância e da organização da empresa, estaria habilitada a abarcar, e facilmente poderia abarcar, a distribuição no estrangeiro, não só dos produtos anteriormente citados, de fabricação própria ou alheia, como até de quais quer produtos nacionais, por estranhos que naturalmente fossem, quer à índole industrial da empresa (qualquer que ela seja), quer à sua índole (relacionada com essa) primaria mente concentradora. (5) Organizada assim a exportação de todos os produtos nacionais, próprios ou alheios, de índole igual ou diferente da índole primária da empresa, caberia aproveitar a importância concentradora da empresa, e também a sua capacidade distribuidora, para tornar extensivo ao estrangeiro o mesmo processo de tentaculização de vendas que se aplicaria ao país. Assim se estabeleceriam no estrangeiro, gradualmente, e começando pelos centros mais interessadamente consumidores, lojas para a venda directa ao público. Como a empresa está habilitada a concentrar todos os produtos exportáveis de um país, tem por isso com que encher qualquer estabelecimento desses; e o vulto e organização que forçosamente tem que ter, habilitam-a a dar sem receio esse passo. Essas lojas seriam, como é de ver, ao mesmo tempo agências da empresa, para a venda comercialmente directa, isto é, aos retalhistas do pais onde estivesse. As vantagens permanentes da realização deste projecto são as seguintes, seguindo a ordem numerada dos elementos acima expostos, dinamicamente componentes do projecto central. (1) Substituindo à pequena a grande indústria pelo processo do agrupamento, isto é, no próprio campo da pequena indústria, a empresa pode produzir, apresentar e distribuir os produtos de qualquer das pequenas indústrias suas componentes como essa pequena indústria, se fosse independente, não poderia fazer, o vulto e organização concentradora e distribuidora da empresa de conjunto habilitam-a a isso. Acresce que, se o lucro líquido de uma pequena indústria pode ser pequeno, o mesmo já não se poderá dizer do lucro líquido de cem ou duzentas pequenas indústrias; e, se as secções de concentração e de vendas da empresa grande envolvem talvez, relativamente a cada indústria, mais despesa que o pequeno escritório dessa empresa envolveria, sem dúvida que o acréscimo de produção, que a empresa grande pode imprimir-lhe, assim como o acréscimo de vendas, que resulta de uma secção de vendas desenvolvidamente organizada, compensam e sobrecompensam esse, aliás hipotético, aumento de despesa. (2) A tentaculização de vendas, em que é a empresa mesma que percorre com a sua própria organização o caminho económico da fábrica ou da secção de concentração até ao retalhista ou ao consumidor, elimina o intermediário secundário (agente) e, onde seja possível, o primário (retalhista), e assim absorve para si os lucros que aqueles teriam, acrescendo que a indispersão desses lucros a habilita a concorrer com mais facilidade. (3) Concentrando, aperfeiçoando quanto à sua apresentação, e distribuindo os produtos de indústrias alheias, a empresa desloca o intermediário casual, absorvendo-lhe o lugar, porque tem uma rede de distribuição que ele não pode ter; pode vender directamente ao público, o que ele em geral não pode fazer; e está habilitada a aperfeiçoar a apresentação dos produtos, para o que, ordinariamente, lhe falta a ele competência. (4) Organizando, na devida grande escala, a exportação de toda a espécie de produtos, a empresa desloca e absorve o lugar do intermediário de exportação, pois que, por uma série de razões aproximadamente idênticas às que citaram, com referência ao intermediário-agente, no parágrafo anterior, mais competentemente pode atingir os mercados estrangeiros. (5) Finalmente, indo até ao próprio consumidor estrangeiro, a empresa elimina dois intermediários de lá (o agente e o retalhista) e um intermediário de cá (o exportador), absorvendo para si os lucros que ficariam nas mãos deles, no percurso económico do produtor nacional até ao consumidor estrangeiro. Além destas vantagens permanentes, e inerentes à própria índole da empresa, o estabelecimento desta em uma ocasião como a presente em Portugal seria produtivo de outras — as que um empreendimento exclusivamente industrial e de exportação deriva da desvalorização da moeda do país onde se estabelece. Ninguém poderá, com qualquer espécie de justiça, acusar este projecto central de ser, ou pouco original, ou artificial na sua estrutura, ou pouco vasto e, por isso, pouco interessante. Pode parecer pouco original, porque um ou outro dos detalhes, ou uma outra parte desses detalhes, que ele inclui, pode talvez ocorrer com maior ou menor facilidade. Se assim é, o certo é que ocorrerá, por assim dizer, inorganicamente, isto é, sem que seja produto de uma só ideia central, que o gera, como a outros detalhes, no seu desenvolvimento lógico e na sua ampliação prática. A originalidade está no conjunto do projecto, na relacionação orgânica das suas partes componentes, e na ideia central que ele, e ela assim relacionadas, assentam. Pode parecer artificial na sua estrutura, isto é, pode parecer que é abusivo, e sobreposto o critério pelo qual as secções de concentração e de vendas da empresa passam a ser aplicadas à concentração e venda também de produtos alheios. Pode objectar-se que idêntica aplicação se pode dar a qualquer secção de vendas de qualquer grande indústria. Não é assim. O critério de converter as secções de concentração e de vendas em organismos independentes, servindo à concentração e venda de produtos estranhos, não deriva do vulto da empresa, mas sim do facto de ela ser uma empresa essencialmente agrupadora, o que qualquer grande indústria não é. A ideia de agrupamento é fundamental no projecto, e é da ideia de grande agrupamento que nasce, sem artifício nenhum, o critério de tomar extensivas as funções desse organismo de concentração a produtos aproveitáveis de indústrias estranhas. Tão-pouco se poderá dizer que é pouco vasta, e por isso escassamente interessante, uma ideia que é, em resumo, qualquer coisa como um esboço de trust das pequenas indústrias, e até, quase, da exportação. Devidamente realizada, não seria por certo pela sua mesquinhez que a atacariam. Uma empresa constituída para os fins e com os intuitos indicados nas considerações precedentes, teria, pois, para a dinâmica da sua vida uma organização estática orientada por três secções, a primeira industrial, a segunda de concentração e compras, a terceira de vendas e exportação. Nos capítulos anteriores esboçou-se nitidamente a que modos de actividade corresponde cada uma destas três secções. Resta aprofundar um pouco mais o sentido concreto desses modos de actividade, para que se veja, no resumo dos seus detalhes, em que consistiria a vida da empresa, (nas suas) três secções. A secção industrial ocupar-se-ia do estabelecimento das indústrias, da sua direcção técnica superior, e da orientação também técnica, onde fosse precisa, de quaisquer indústrias alheias, cujos produtos a empresa tomasse para venda, e o aperfeiçoamento da apresentação dos quais tivesse por base ou elemento essencial qualquer aperfeiçoamento no próprio modo de fabrico. A sua acção inclui a discriminação de em que casos, quanto aos produtos próprios, se deve estabelecer oficina para o fabrico deles, e em que casos se deve entregar o seu fabrico à indústria alheia. A secção de concentração e de compras ocupa-se de certo o fabricá-los (?) se relaciona com aquisição e preparação para venda (isto é, apresentação) dos produtos a distribuir. Com respeito aos produtos próprios, a actividade desta secção limita-se a orientar a sua apresentação e a concentrá-los para os entregar à secção de vendas. Com respeito aos produtos alheios, cabe a esta secção estudar em que casos simplesmente os compra, em que casos distintivamente os concentra; em que casos convirá obter a exclusividade de distribuição de certos produtos; em que casos será preciso orientar a sua apresentação; em que casos será preciso ou conveniente subordinar esses produtos alheios, concentrados ou comprados para venda, a marcas privativas da empresa concentradora. A secção de vendas e de exportação tem a sua actividade explicada pelo seu nome. Compete-lhe, como é de ver, a distribuição e venda dos produtos pelo país e no estrangeiro; os problemas que tem a resolver, à parte os de mero detalhe ou de ocasião, são essencialmente de três espécies: (a) Quanto às vendas no país, onde, como e quando devem ser estabelecidas as lojas para a venda directa ao público; onde não estejam estabelecidas, ou enquanto o não estão, de que forma mais rápida e hábil organizar as vendas, olhando sempre ao critério fundamental de que, onde se não possa fazer a venda directa ao público, se deve pelo menos fazê-la aos estabelecimentos de retalho, sem intermediário algum, e fazendo por que a primeira forma de venda vá gradualmente substituindo a segunda. (b) Quanto à simples exportação, onde convém fazê-la por venda directa ao lojista, onde por venda ao intermediário importador, e onde por meio de agente distribuidor. Neste caso o critério é idêntico ao que se aplica no caso anterior: fazer sempre, e onde ou enquanto se não possa estabelecer a forma de venda descrita infra (c), por que a primeira forma de venda prime sobre as outras duas, e, das duas outras, a primeira sobre a segunda, para evitar a prisão que uma agência envolve. Só em países afastados, e enquanto as relações com os compradores desses países se não estabelecem organizadamente, vale a pena estabelecer agentes, sobretudo para que possam tomar a responsabilidade das vendas ali feitas. (c) Quanto às vendas no estrangeiro por lojas, onde, como e quando devem ser estabelecidas; de que modo, sobretudo, devem relacionar-se com a sede da empresa. Esta última frase refere-se ao caso que esses estabelecimentos podem ser instituídos, ou de forma absolutamente autónoma, sendo, desde o princípio, abertos pela própria empresa, ou por combinação com proprietários de lojas, aproveitando estas para a venda ao público dos produtos que a empresa concentra e exporta. O trabalho de uma empresa destas, uma vez ela em marcha, orienta-se por meio de uma direcção em que há três cargos directivos distintos, e por quatro ou cinco gerentes. Tendo devidamente presente a diferença funcional (simples, mas ignorada por muita gente) entre o cargo de director e o de gerente, ver-se-á que há nesta empresa três funções, de ordem propriamente directiva, a exercer. Há a de director-organizador, que é o que dirige e orienta, através de todas as gerências, a materialização, ou realização prática, do plano aqui delineado. Há a de director financeiro, que é o que, através de todas as gerências, orienta a empresa no sentido que o seu nome indica. E há a de director chefe de serviços, que tem a seu cargo a orientação, através de todas as gerências, da empresa, não como materialização de um plano, mas como conjunto de serviços em marcha. Os quatro ou cinco gerentes são, um da secção industrial, um da secção de concentração e compras, e dois ou três da secção de vendas e exportação, sendo um da subsecção de vendas no país, um da subsecção de exportação, e, quando os estabelecimentos de retalho no estrangeiro sejam de número e de importância para justificá-lo, um gerente-inspector desses estabelecimentos. Estes detalhes abrangem o conjunto da organização, por assim dizer, estática da empresa; outras quaisquer, como dependem da orientação da sua marcha, isto é, da sua organização dinâmica, não podem — nem, em boa organização, devem — ser previstos ou delineados na fase antepreparatória, que é a da simples exposição do projecto. O que ficou exposto abrange toda a organização da empresa, excepto o conteúdo dela. Sabe-se que é uma empresa agrupadora de indústrias, com os ramos de actividade derivados de o ser. Mas que indústrias vai a empresa agrupar? Não pode agrupar todas; não pode aspirar a ser uma espécie de trust universal. Tem que agrupar, portanto, segundo um critério de agrupamento, escolhendo certa ordem ou grupo de indústrias (grupo embora vasto) para constituir o seu âmbito. A melhor maneira de resolver o problema é vermos quais são os grupos lógicos em que as indústrias se dividem; quando o virmos, poderemos então escolher, de entre esses grupos, qual aquele que se presta, ou quais aqueles que se prestam, a constituir base para uma empresa deste género. A melhor classificação das indústrias, pelo menos para o fim presente, é talvez segundo o que lhes serve de origem. Seguindo este critério, vemos que, adentro de qualquer país, as indústrias se dividem em três grupos, que podem ser denominados, (1) as indústrias naturais, (2) as indústrias necessárias, (3) as indústrias de invenção. (1) Indústrias naturais são aquelas que aparecem em um país, desde que nele surja indústria, em virtude de nele serem abundantes as matérias-primas para elas. Desde que haja uma indústria de conservas de peixe, por exemplo, ela formar-se-á espontaneamente e naturalmente em um país onde a pesca seja natural e abundante. (2) indústrias necessárias são aquelas que em qualquer país, desde que surja indústria, têm por força que aparecer, seja como for, bem ou mal executadas, visto que o seu aparecimento é motivado pelas necessidades fundamentais humanas. Assim, como o homem tem que vestir-se, a indústria do vestuário aparece em todos os países, tenham ou não que ser importadores das matérias-primas para ela. Pode ser um país hipotético não ter materiais de construção; como, porém, tem nele que haver casas, forçosamente, e seja como for, há-de surgir nele a indústria das construções, ainda que tenha que importar todos os materiais de que se serve. (3) Industrias de invenção são aquelas que (não) nascem da abundância de matérias-primas, que as sugira, nem da necessidade humana, que as torne inevitáveis. Nascem da invenção, da descoberta de novos processos ou de novos artigos; e, sendo tanto mais fáceis de realizar quanto mais abunde, no país onde surgem, as matérias-primas que lhes servem de base, a sua origem, contudo, não está nessas matérias-primas, mas em uma ideia que as aproveita. As indústrias artísticas, em que, como nas propriamente de invenção, a ideia é o principal e a matéria secundária é apenas o meio de realização, pertencem também a esta categoria. Em boa lógica, as próprias artes podem ser consideradas como indústrias desta espécie. Esta divisão não é logicamente estanque, pois há indústrias que podem ser classificadas, ao mesmo tempo, em duas, ou em todas as três, destas categorias. Não há, porém, classificação alguma perfeita; a que acaba de fazer-se é talvez a melhor possível, e com certeza serve perfeitamente o fim a que a destinamos. Ora é evidente que, para o caso da empresa projectada, o segundo grupo de indústrias não tem aproveitamento. As indústrias de necessidade são heterogéneas, porque as necessidades humanas são heterogéneas; e a heterogeneidade é precisamente o contrário de um critério de agrupamento, sendo, antes, uma razão de dispersão. Acresce que há indústrias necessárias que, como a dos transportes, não produzem artigos, mas conveniências; ora estas, por sua natureza, estão fora do âmbito essencial de uma empresa que tem por base o produto manufacturado ou, pelo menos, tangível e exportável. Temos, pois, que, do género que se projecta, pode haver duas empresas — uma baseada nas indústrias naturais, outra baseada nas indústrias de invenção. É aqui que o projecto fundamental, teoricamente delineado nos capítulos precedentes, se concretiza praticamente em duas empresas diferentes. Estudaremos, uma após a outra, essas duas empresas projectadas; e, como estamos agora já plenamente no campo concreto, estudá-las-emos em relação a um país determinado, que, no caso presente, será Portugal. As indústrias a que chamámos naturais são as que mais exactamente se ajustam à natureza da empresa projectada, tanto porque são as indústrias que implicitamente envolvem exportação, quanto porque o critério de concentração é evidente no caso delas — é um critério de facilidade natural, de acessibilidade fácil de matérias-primas. Há, porém, que considerar. Há duas espécies de indústrias naturais. Há, primeiro, as indústrias naturais primárias, isto é, as que exploram directamente os recursos ou as possibilidades naturais do país; tais são, por exemplo, as indústrias agrícolas, a pecuária, a pesca, a exploração mineira. Há, em segundo lugar, as indústrias derivadas dessas, naturais também se as indústrias primárias, de onde se derivam, são naturais no país; estas são, por exemplo, a moagem, a indústria vinícola, a preparação de carnes, de frutas, de peixe, a indústria siderúrgica — indústrias, enfim, a que se pode chamar com propriedade indústrias de preparação e de acondicionamento. Quais são as que vão constituir a base de agrupamento da empresa que se projecta? Ou essa empresa agrupará ambas? Ora, destes dois grupos, o primeiro consta de indústrias cujas bases materiais são demasiadamente diversas para que elas possam ser exercidas competentemente por uma só empresa. A agricultura, a pesca, a exploração mineira, por exemplo, estão a uma grande distância técnica umas das outras. Para o exercício de cada uma dessas indústrias naturais primárias seria precisa uma empresa grande e exclusiva. Não tem sentido uma empresa directamente agrupadora delas todas; seria já, não tanto uma empresa, ou mesmo um trust, quanto um verdadeiro estado industriaL O segundo grupo, sim. Há de comum às indústrias, que o compõem, não só o serem “naturais”, mas também o serem de preparação e acondicionamento, como se disse. Isto faz que, embora sejam bastante diversas, pertençam todavia ao mesmo tipo técnico. É esta, pois, a empresa agrupadora que há a formar. O ideal da sua formação seria, por certo, uma federação ou consórcio de indústrias desta espécie, englobando bons e grandes produtores em cada indústria constitutiva. Por este processo — o da federação ou consórcio — grande parte da secção industrial da empresa ficaria imediatamente estabelecida, pois que já o estava. Haveria só que organizar, na devida escala correspondente, e segundo as indicações já dadas, as secções de concentração e de exportação e de vendas. Reunindo, neste sentido, desde uma forte empresa vinícola a uma forte empresa de conservas de peixe, desde uma empresa preparadora de carnes e de frutas a uma empresa transformado- ra de produtos coloniais, e assim sucessivamente, a federação industrial coincidiria exactamente com a empresa que aqui se delineou, e a sua marcha traria por certo as vantagens que apontámos. Excluir-se-ia, possivelmente, a industria siderúrgica, não tanto por estar por estabelecer ainda no país, quanto porque constitui uma especialidade técnica à parte, e está já no número de indústrias que classificámos de “grandes” por oposição às que denominámos “pequenas”, num sentido especial, no capítulo primeiro deste estudo. Ficaria, assim uma empresa definida, agrupadora das indústrias derivadas da exploração agrícola, e suas acessórias, da exploração marítima e da exploração colonial, excluindo-se apenas as derivadas da exploração metálica do subsolo (porque escusávamos de excluir a cerâmica e as águas minerais, por igual derivadas da exploração do subsolo). Esta empresa motivaria, como se disse, e alimentaria, uma complexa e forte organização de concentração, de venda e de exportação, com a tentaculização de vendas, que preconizámos, e a independência de secções, que se indicou como resultante. Pela sua secção de concentração, e derivadamente pela de exportação de vendas, a empresa exportaria ou venderia no país os produtos das indústrias que não inclui, ou que de princípio não incluísse — quer das indústrias naturais primárias, quer das indústrias naturais derivadas, estranhas ao seu âmbito. De resto, o âmbito industrial da empresa poderia mesmo, subsequentemente, estender-se a algumas das indústrias primárias, se nisso houvesse vantagem para as indústrias derivadas, baseadas naquelas, que a empresa agruparia. Seriam casos a estudar. Esse alargamento da actividade industrial da empresa para fora do seu âmbito determinado seria, porém, uma derivação — embora, proveitosa — da sua actividade logicamente agrupadora. É talvez desnecessário acrescentar que, na maioria das indústrias que agrupasse, a empresa deveria olhar cuidadosamente ao aperfeiçoamento técnico, seguindo os processos mais recentes, e assim, pela sua secção industrial, não só agrupar, mas também aperfeiçoar e transformar as indústrias agrupadas. Emergeria talvez, acessoriamente, deste organismo global uma organização de transportes, possivelmente mesmo marítimos (ampliável por uma organização de armazenagens), que seria, como as organizações de concentração e de vendas, embora acessoriamente e não derivadamente como essas, uma outra entidade independente adentro da empresa, se bem que subsidiária desta. Como, conforme acima se disse, a empresa agora delineada se ajusta exactamente, e em tudo, ao tipo de empresa que se delineou nos capítulos anteriores, não havendo portanto coisa alguma a acrescentar, ou a abater, aos detalhes então dados sobre a sua organização integral, o estudo, pelo que respeita a este primeiro género de empresa agrupadora, pode considerar-se completo. Seria, por certo, um dos maiores empreendimentos industriais tentados no país. E, se a sua realização prática se não desviasse muito daquela que se delineou, nada ficaria a dever, tão complexamente completa seria a sua organização, à mais estudadamente estabelecida das indústrias do estrangeiro. Lisboa, 28 de Fevereiro de 1922 28-2-1922 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 174. 1ª publ. in Fernando Pessoa - O Comércio e a Publicidade. António Mega Ferreira. Lisboa: Cinevoz/Lusomedia, 1968 [Projecto «Olisipo»] Mau grado o desenvolvimento, sobretudo recente, do comércio e da indústria portugueses, Portugal não existe ainda como colectividade comercial e industrial.Isto é, o país tem comércio, o país tem indústria; esse comércio, essa indústria, têm associações, e, recentemente, formaram uma espécie de núcleos de defesa — referentes estes, porém, exclusivamente a uma necessidade de ordem pública. Mas o que esse comércio e essa indústria não têm é organização como conjunto nacional. Por isso — mais ainda que pela conhecida incúria do Estado, através de todas as políticas — não existe defesa comercial de Portugal, não existe organização industrial do país como conjunto. É preciso — quanto antes, porque mais do que nunca é agora sentida, no estado de pós-guerra, tanto pelo acréscimo dos problemas de desenvolvimento, como pelo acréscimo dos de concorrência, a necessidade dessa organização — organizar a organização em Portugal, criar a indústria da organização em Portugal. Isto é simples, é evidente; o que, pelo menos de princípio, não parece tão simples, é descobrir, não já a fórmula, mas ao menos o sentido concreto desta necessidade. Como é que se organiza a organização? como é que se cria a indústria da organização? Que sentido prático e concreto têm estas frases? A organização é, por sua natureza, um fenómeno intelectual, um trabalho da inteligência. A, referida, “indústria da organização” é, portanto, uma industria intelectual. Ora as indústrias intelectuais são três: a produção artística e literária; o ensino; e os trabalhos de publicidade, informação (relacionação) e editoria. A organização da organização, a indústria da organização, envolve portanto, simplesmente, a organização da produção artística e literária, a organização do ensino, e a organização das indústrias de publicidade, informação e editoria. Ponhamos, desde já, de parte a produção artística e literária. Esta nem se relaciona com o ponto de partida deste relatório, que se reporta à organização integral do comércio e indústria como conjunto de actividade nacional; nem é susceptível de organização estudada, pois que os fenómenos de produção artística e literária, sendo de natureza individual e dependendo, para a sua intensidade, do número de homens de. génio e de talento artístico e literário que haja num país, e o número destes homens dependendo de leis naturais cuja natureza e operação desconhecemos, mas é apenas susceptível de auxílio e estímulo (para que os homens de talento e de génio possam produzir quanto tenham competência e jeito para produzir) — e este auxílio e este estímulo resumem-se numa sábia organização do ensino, e numa estudada organização das indústrias de publicidade, informação e editoria. Ficamos, portanto, para a solução do problema inicial, reduzidos à consideração da organização do ensino, e da organização das indústrias da publicidade, da informação e da editoria. As editorias portuguesas têm enfermado até agora, não talvez de um triplo erro, mas por certo de uma tripla deficiência. Esta tripla deficiência reside no seguinte: (1) Não procuram, em grande número de casos e de matérias, atrair o público imediatamente culto, quer de Portugal, quer do Brasil. Não pensam em tomar à editoria estrangeira (isto é, francesa e espanhola) certas posições que, sem grande dificuldade, lhe poderiam tomar. Um exemplo: Aquele público, se quiser ler as obras notáveis das línguas estrangeiras que não conhece (as que conhece limitam-se, ordinariamente, ao espanhol e ao francês), tem que procurá-las em traduções para qualquer destas duas línguas, porque não encontra traduções em português. Por esta deficiência flagrante se calcularão as outras, do mesmo teor. (2) Não reparam em que o público português e brasileiro, em quais todas as camadas excepto as estritamente literárias, são tradicionalmente pouco leitoras, estando por isso pouco aptas a ler obras extensas, para cuja leitura não têm o interesse, nem a atenção, educados. Não obstante ser isto de fácil conhecimento, há matérias em que parece que os editores portugueses se empenham em escolher, entre as aproveitáveis, as mais extensas e as de mais pesada leitura. Isto é flagrante, sobretudo, nas traduções que se fazem de obras de vulgarização científica e de especialidade sumariamente tratadas. (3) Não olham a que em Portugal e Brasil (como, aliás, em quase todos os países) não há uma coincidência perfeita entre a parte mais culta e mais rica da sociedade; que é portanto imprudente fazer edições relativamente caras em matérias onde, sabendo o editor orientar-se, edições baratas se podem fazer, com maior proveito em todos os sentidos. Estas três deficiências nascem de duas causas, que, de resto, estão ligadas entre si; são elas a falta de cultura dos editores e a sua falta de organização como industriais. A falta de cultura dos editores portugueses faz com que não conheçam nem as literaturas estrangeiras e os livros de interesse geral no estrangeiro (não sabendo por isso que livros mais proveitosamente traduzir), nem como orientar-se para obter em Portugal tradutores competentes para essas obras; para não falar da incapacidade de orientação com respeito a publicações nacionais, onde o acaso é que decide tudo. Esta falta de cultura, junto à falta de estudo do público, é que produz aquela deficiência de organização industrial das editoras, a que acima se fez alusão. Pode dizer-se que, desde que morreu David Corazzi, não tem havido industriais da editoria, verdadeiramente tais, em Portugal. O plano editorial de “Olisipo” consiste simplesmente, como pode calcular-se, no preenchimento, conscientemente estudado e feito, das três deficiências que se indicaram. Para esse fim tem a empresa, adentro de si, os precisos elementos, quer para conhecimento das obras que mais proveitosamente pode editar, quer para traduzir essas obras, onde sejam estrangeiras. Um exemplo valerá por muitos, porque se referirá à edição talvez mais difícil de fazer competentemente para uma editoria fora dos países de língua inglesa — e fora destes porque, sendo inglesa a obra de que se trata, a dificuldade editorial está na tradução. O nome maior de toda a literatura europeia é o de Shakespeare. Uma tradução de obra de Shakespeare é um empreendimento seguro, porque o interesse por Shakespeare é universal. Mas uma tradução verdadeiramente boa de Shakespeare é uma dificuldade enorme, tão grande que não há uma tradução que sequer se aproxime de boa em qualquer das línguas latinas, e por certo nem a França nem a Itália são países de cultura inferior. É que, para traduzir Shakespeare de modo a dar uma ideia nítida da maneira e do estilo do original, são precisas qualidades especiais; não bastam um espírito culto e um conhecimento, embora profundo, da língua inglesa. A maneira e o estilo de Shakespeare (são) tão individuais que só pode traduzir Shakespeare bem quem, além de ter aquelas qualidades, esteja, ainda, inteiramente penetrado do espírito da obra shakespeariana. — “Olisipo” é a primeira empresa editora dos países chamados latinos que tem elementos para realizar essa tradução. O tradutor português que a fará, tendo publicado um livro de versos em inglês, foi, a propósito desse livro, mencionado em um artigo elogioso do Times como «absolutamente penetrado do espírito shakespeariano», e o crítico manifestava o seu pasmo pelo facto, sobretudo tratando-se de um estrangeiro. Igual circunstância não consta, nem seria de esperar que constasse, de nenhum dos tradutores de Shakespeare em nenhum dos países de língua latina. Pela demonstração, que acaba de fazer-se, de haver competência para este caso, que é o mais difícil de todos os casos editoriais dos países não de língua inglesa, se pode avaliar que haja nesta empresa competência para projectar e orientar edições menores e menos difíceis. Seria absurdo e imprudente expor detalhadamente os planos editoriais de “Olisipo”, além do plano da tradução de Shakespeare; poderiam, sendo conhecidos, ser aproveitados, embora mal. Não há esse risco com a tradução de Shakespeare, ideia que ninguém tem elementos para aproveitar. À parte as edições, que nascem do plano de suprir as três deficiências mencionadas, “Olisipo” faria as edições do tipo usual, onde houvesse vantagem em fazê-las. Uma edição de mil exemplares, vendida por inteiro, e descontadas todas as despesas, incluindo os descontos a livreiros, dá à empresa editora um lucro de entre 40 e 60 por cento do capital empregado na edição. Suponho que a parte, que o capital tem nos lucros da empresa, é de cinquenta por cento, quer isto dizer que sé o capital tem na edição um lucro de 20 a 30 por cento. Isto, porém, refere-se apenas a uma edição, e também se calcula para uma edição inteiramente vendida no prazo de um ano. Ora durante um ano fazem-se várias edições, e algumas delas são pagas com capital proveniente da venda das anteriores. Por isso o lucro do capital vem a ser realmente mais alto que no caso de uma edição só. Como, porém, nem todas as edições talvez se vendessem por inteiro no prazo de um ano, podemos dar esta quebra possível como equivalente (embora na verdade o não seja) ao lucro maior acima indicado. Poder-se-á pois computar, sem receio de erro, que uma empresa editorial assim orientada dará 25 a 30 por cento ao ano de rendimento ao capital empregado nela, supondo uma divisão de lucros em partes iguais entre o capital e a indústria. O plano editorial acima esboçado é feito para uma empresa interessante, porém modesta. Um alargamento do âmbito da empresa permitiria ampliar, por sua vez, o lucro. O âmbito da empresa editora pode alargar-se de duas maneiras: agregando, como é vulgar, o comércio de livraria à indústria editorial; alargando, quantitativa, como qualitativamente, a própria actividade da editoria. Na situação cambial presente não é recomendável a agregação do comércio de livraria à actividade editorial. Grande parte daquele comércio basear-se-ia em livros estrangeiros, e uma melhoria cambial, ainda que pequena, facilmente converteria em perda o resultado da actividade naquele ramo. Não quer isto dizer que se não possa fazer um negócio pequeno, e de índole ocasional, em livros; quer servindo a empresa de agente para encomendas particulares de livros estrangeiros ou nacionais, o que envolve liquidação ao mesmo câmbio que ela liquida, e falta de stocks, e portanto nenhum risco de perda; quer negociando ocasionalmente, e para o estrangeiro, em livros antigos. Como o capital necessário para esta actividade ocasional é pequeno, é escusado citar este ramo como um alargamento da actividade da empresa, pelo menos para o efeito de ser necessário, por causa dele, mais capital. No capítulo do alargamento, quantitativo porque qualitativo, da actividade propriamente editorial da empresa é que há azo, com efeito, para a aplicação de um capital maior. São vários os empreendimentos editoriais de um certo vulto, pelo menos no seu conjunto, a que pode abalançar-se, caso disponha de capital para isso, uma empresa orientada, no sentido cultural como no industrial, pelas normas indicadas na primeira secção deste relatório sumário, Esses empreendimentos podem resumir-se classificando-os em três categorias. (1) Edições de obras, que a isso se prestem, em fascículos ou tomos, não, é claro, no género dos romances populares, ou obras semelhantes, que se vendem por aquele processo, mas antes do género da “Biblioteca Internacional de Obras Célebres”, que teve uma venda magnífica no Brasil, ou do género dicionário, enciclopédia ou antologia. (2) Edições em línguas estrangeiras, e especialmente em francês e inglês, quer traduções de obras portuguesas, quer outras traduções, como as publicaria qualquer casa editora de França ou Inglaterra, quer reedições, quer obras de género antológico. Há muito a fazer neste campo, e a situação cambial presente facilita este ramo da indústria editorial. Mesmo uma grande melhoria de câmbio não a prejudicaria muito, dado que é ramo que pode exercer-se lucrativamente mesmo com o câmbio ao par. A orientação a seguir neste ramo não é bem a do editor alemão Tauchnitz com referência às edições inglesas que faz para o Continente; é mais ampla e mais completa, nem envolve o pagamento de direitos de autor em grande número das edições. Se este género editorial não tem sido tentado em Portugal, inútil é explicar que tem sido porque é uma ideia que não pode ocorrer, ou só pode ocorrer como impraticável, à incultura dos editores portugueses. (3) Edições em línguas estrangeiras, e especialmente em inglês (pelas extensas populações que abrangem), baseadas na propaganda de Portugal; servirão de exemplo um anuário de Portugal (concentrado) para o estrangeiro, e uma revista de propaganda com o mesmo fim. Estas duas publicações, citadas aqui como exemplos, não teriam a base de segurança, que oferecem as que se indicam no parágrafo anterior, se não fosse o elemento anúncios, que permitem que apareça, e que alarga a receita extraordinariamente. s.d. Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 185. 1ª publ. in Fernando Pessoa - O Comércio e a Publicidade. António Mega Ferreira. Lisboa: Cinevoz/Lusomedia, 1968 A indústria da editoria pode exercer-se, e efectivamente se exerce, de duas maneiras: ou isoladamente, ou em conjunção com o comércio de livraria. Num país grande, e de muitos leitores, onde, portanto, o movimento de uma editoria pode adquirir grande volume, é praticável — e até aconselhável — exercer a indústria editorial sem ligação com livraria. Num país pequeno, ou com pouca gente que leia livros, é recomendável — é, até, quase necessário — reunir as duas coisas; só em casos muito especiais poderia uma editoria suportar lucrativamente as despesas inerentes a toda a indústria estabelecida. Com livraria, essas despesas distribuem-se por dois comércios, e, ao passo que as vendas de editoria são oscilantes e as liquidações periódicas, as vendas e liquidações de livraria são normalmente constantes e diárias. A estabelecer uma editoria em Portugal, país pequeno e de poucos leitores, essa editoria deve estar ligada a uma livraria. Salvo o caso de tomar de trespasse um livraria, ou livraria e editoria, de nome já feito, o que há de interessante a fazerem Portugal, neste ramo, é estabelecer um tipo de editoria, e de livraria a ela ligada, que ainda não exista no país, e que, ao mesmo tempo, se adapte às condições dele nesta especialidade. Isto leva imediatamente a indicar que interessa estabelecer em Portugal uma editoria e livraria de luxo. Quanto à editoria, as razões são as seguintes: (1) O público para o livro barato é escasso em Portugal — isto é, escasso em relação ao grande número de vendas que é preciso efectuar para que o livro barato seja compensador. (2) O livro caro, como por natureza se publica em edições restritas, vende-se mais depressa que o livro barato. Edições há inclusive, e são as mais caras, que podem fazer-se por inscrição antecipada, o que permite saber quantos exemplares se hão-de tirar da edição, e saber que, tirados, serão todos vendidos. (3) O livro caro permite edições em línguas estrangeiras, para o que há lá fora, e até em Portugal, um mercado definido. Em Paris há, até, uma Bolsa do Livro para estas edições, que têm cotação nessa Bolsa e por algumas pessoas são compradas de preferência a títulos. (4) Não existe ainda este negócio em Portugal. Há, pois, novidade, e não há concorrência. (5) Uma editoria de luxo, de edições caras e restritas, exige, porque é pequena, menos capital, menos organização e menos trabalho que uma editoria vulgar. Exige apenas mais inteligência e mais cultura. Quanto à livraria, a que esta editoria estaria ligada, seria uma livraria de luxo, limitando-se a vender livros escolhidos, nacionais e estrangeiros. Isto (1) não há em Portugal, (2) está certo com o único bom público de livros que temos, (3) exige, afinal, menos capital do que uma livraria vulgar, por não precisar — nem sequer haver vantagem que tenha — uma casa grande. Local: Qualquer, no espaço compreendido, a norte pela Praça dos Restauradores (e incluindo essa praça), a sul pela Rua dos Retroseiros (e incluindo essa rua), a leste pela Rua da Prata (e incluindo essa rua), a oeste pelo Largo do Chiado (e incluindo esse largo). Excluem-se, como é de ver, as ruas secundárias abrangidas por este quadrilátero. Dimensões da casa: Pode ser muito pequena a loja propriamente dita; convém que tenha um certo espaço (escusa também ser muito) para armazém; para escritório basta um espaço pequeníssimo. Capital preciso: Parte depende do trespasse, e o trespasse depende do local e da oportunidade. Quanto ao capital para a editoria e livraria, propriamente ditas, pode considerar-se como bastante 50 contos para a editoria e 100 para a livraria. O capital para a livraria será preciso quase todo desde logo; o para a editoria só progressivamente será preciso, e pode, até, nunca ser preciso na sua totalidade indicada. Como as edições são, por natureza, poucas, pequenas, orientadas de modo a vender-se depressa, pode acontecer que, estabelecido assim um movimento rápido, nunca seja preciso empatar mais do que 10 a 20 contos na parte editorial da Empresa. Lucros: Quanto à parte livraria: 100 contos de livros (devidamente escolhidos). Há em Portugal 500 a 700 compradores para livros de arte e livros de luxo. Este número é o da venda de qualquer revista de arte, e as revistas têm menos saída do que os livros. Isto explica as tiragens de 3000 exemplares de livros de, por ex., Antero de Figueiredo — obras de pura literatura e sem interesse propriamente novelesco. Estes 1000 compradores são as pessoas que reúnem o interesse pelo livro de arte e o dinheiro para o comprar. O público virtual é, na verdade, maior; mas a margem acima de 1000 não dispõe de dinheiro para essas compras. Não falando na editoria, pode calcular-se a venda mensal de livros de arte em 100 x 20$00, pois tomaremos 20$00 pelo preço típico de um livro de arte e partiremos da suposição, aliás conservadora, de que cada comprador compra um livro só por mês, o que é falso quanto aos 1000 indicados, pois compram mais. Podem, contudo, comprar os outros em outras livrarias. Esta venda representa 20.000$00 por mês, e, como a comissão de livraria é de 20%, o lucro mensal é de 4000$00. O lucro anual da secção de livraria seria, pois, calculado com reserva, de cerca de 50.000$00. Supondo que a editoria publicasse um livro por mês, que esse livro se vendesse a 20$00, que custasse 5000$00 uma edição de 500, estes 500 Venda de 400 exemplares      8000$00 Venda de 100 exemplares em outras livrarias (isto é, com 20%) 2000$00 menos 400$00      1.600$00 = 9.600$00 Custo da edição      5000$00 Pago ao autor (tradutor seria menos)      1600$00 = 6600$00 Lucro por livro e mês      3000$00 Em matéria editorial, o cálculo deve ser feito da seguinte maneira: Grã-Bretanha: População que sabe ler      50.000.000 População que lê livros      5.000.000 População que compra livros      500.000 População que compra livros bons      50.000 Os factos confirmam este cálculo. Nenhum livro bom, por muito êxito que tenha, consegue passar muito dos 50.000. Nenhum livro popular, por muito êxito que tenha, vende, adentro da Grã-Bretanha, mais que os 500.000. Há factores a considerar. (1) Os Estados Unidos, mas aí fazem edições especiais de todos os livros cuja venda se justifica; (2) As colónias e domínios ingleses. Para o caso de Portugal, temos que tomar em conjunto, visto que efectivamente são um conjunto, o Continente e as Colónias. Excluiremos o Brasil, que tem vida à parte como os Estados Unidos em relação à Inglaterra. População portuguesa para estes fins      10.000.000 População que sabe ler, ou se dá ao trabalho de ler (30%)      3.000.000 População que lê normalmente livros      300.000 População que compra livros      30.000 População que compra livros bons      3000 Os factos confirmam isto igualmente. Salvo no caso de livros que têm um interesse especial, e portanto abrangem um público especial e ocasional (como as Cartas de El-Rei D. Carlos a João Franco, livro dos que são considerados “bons”), o limite de venda de uma edição portuguesa de obra autenticamente literária é 3000. É a venda, por ex., de Antero de Figueiredo. (Há uma margem, nesses casos, para o Brasil, mas uma coisa corrige a outra.) (O maior editor português, que edita obras realmente literárias, tira 3000 exemplares daquelas que têm a venda certa. Nem todos os compradores virtuais destas obras as compram, mas a margem é compensada pela parte dos compradores de tipo mais baixo que compra por sugestão, pela venda no Brasil, e por factores acidentais inerentes à publicidade.) Parece indicado que, tratando-se de uma editoria por assim dizer “de luxo”, se deve agregar-lhe uma livraria também de luxo. Mas aqui há que introduzir um coeficiente de correcção. Ao passo que os 3000 compradores virtuais de obras literárias dão, com quebras e tudo, para vender edições de 500 a 1000 exemplares, sem grande receio de insucesso; esses 3000 compradores virtuais são insuficientes para sustentar um movimento de livraria. A livraria tem, pois, que ser mais lata, no seu âmbito, do que a editoria; que ser uma livraria vulgar, especializada, sim, nas obras de luxo e de categoria, mas não se limitando a elas, como a editoria. Basta considerar o quanto se perde de vendas não vendendo (1) obras populares, (2) livros de estudo, (3) publicações periódicas de diversas espécies, para se reparar no grande vulto de negócio que se perde com essa aristocracia. Há, neste ponto de editoria, um factor novo, até agora sem exploração na editoria portuguesa. É que certas edições de luxo, especiais e limitadas, em português têm venda possível em Espanha e nos países de língua espanhola. Venda não muito grande, é certo, mas bastante para pesar no número restrito de exemplares de uma edição desta ordem. Tomemos um exemplo. É impossível traduzir Shakespeare em espanhol, porque a língua espanhola não tem a maleabilidade precisa para seguir as extravagâncias verbais de Shakespeare. Essa maleabilidade existe na língua portuguesa, e, sendo certo que o espanhol não conhece em geral línguas estrangeiras, há casos como este em que compraria uma obra estrangeira. Dada a impossibilidade de ler Shakespeare em espanhol, tem que escolher entre lê-lo em inglês (que não sabe) e em português (que pode não saber, mas ao menos percebe sem ter aprendido, pela natural semelhança com a própria língua) (de que ao menos, pela semelhança com o espanhol, sabe alguma coisa sem ter aprendido). Escolhendo bem estas edições restritas, podem arranjar-se sempre livros que tenham saída desta maneira, fora do país. (É escusado dizer que uma tradução de Shakespeare tem outras saídas, pois grande número das bibliotecas dos países de língua inglesa a comprariam também.) s.d. Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 190. 1ª publ. in Fernando Pessoa - O Comércio e a Publicidade. António Mega Ferreira. Lisboa: Cinevoz/Lusomedia, 1968 1. Olisipo, só editoria, e dividida em três secções orgânicas: ( a ) Direcção, incluindo assuntos gerais e ocasionais, nos quais não figuram os extra-editoriais e outros assim; (b) Publicidade e propaganda, relativas, quer às publicações próprias, quer, ocasionalmente, a outras; (c) vendas da editoria. 2. Todos os assuntos relativos a propaganda de produtos portugueses, sua venda, montagem de novas indústrias (não empresas envolvendo importação ou outro qualquer fenómeno de organização extraportuguesa, por assim dizer) — Companhia de Produtos Portugueses. 3. Todos os outros assuntos tratados individualmente, sendo ( a ) os de organização e venda de patentes só por mim, ( b ) os de importação especial em ligação com esta ou aquela casa, conforme os assuntos e as casas, ( c ) os de negócios ocasionais com este ou aquele indivíduo, conforme convenha ou calhe. (N. B. — Logo que OLISIPO possa estar organizada definitivamente, é que a perfeita divisão destes trabalhos se poderá efectuar.) s.d. Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 195. 1ª publ. in Fernando Pessoa - O Comércio e a Publicidade. António Mega Ferreira. Lisboa: Cinevoz/Lusomedia, 1968 [Plano editorial da «Olisipo»] «Canções» (António Botto), 2.ª edição, aumentada. «A Tormenta» (Shakespeare), trad. Fernando Pessoa. «Prometeu Preso» (Ésquilo), trad. Ricardo Reis. «Hamlet, Príncipe da Dinamarca» (Shakespeare), trad. Fernando Pessoa. «O Rei Lear» (Shakespeare), trad. Fernando Pessoa. Poemas de Safo e de Alceu.Trad. Ricardo Reis. «Trovas do Bandarra», com comentário interpretativo de Rafael Baldaia. Poemas da Antologia Grega. (Sel.). Trad. Ricardo Reis. Poemas Principais de Edgar Poe. Trad. Fernando Pessoa. «A Política» (Aristóteles). Trad. Ricardo Reis. «O Príncipe» (Macchiavelli). Trad. Haikai e Outros Poemas Japoneses.Trad. Poemas Persas.Trad. «Rima do Velho Marinheiro» (Coleridge).Trad. Fernando Pessoa. «Contos Selectos» (O. Henry).Trad. «Contos Selectos» (W.W.Jacobs).Trad. Poemas (Luís de Montalvor). «Protocolos dos Sábios de Sião» (— — —).Trad. A.L.R. Dois Estudos sobre a Grécia. (A.W.Benn). Trad. «Laocoonte» (Lessing).Trad. «Teoria do Sufrágio Político» (Fernando Pessoa). Livros a traduzir da Home University Library (Williams & Norgate). «Dicionário Técnico Universal». «Mar Português» (Fernando Pessoa). «Cancioneiro, Liv. I e II» (Fernando Pessoa). «Cancioneiro, Liv. III e IV» (Fernando Pessoa). «Auto das Bacantes» (Fernando Pessoa). «Arco de Triunfo» (Álvaro de Campos). «A Invenção do Dia Claro» (José de Almada-Negreiros). «Indícios de Ouro» (Mário de Sá-Carneiro). Ed. Fernando Pessoa (ou «Poemas Completos», incluindo aquele livro inédito, e outros inéditos que haja) (ou «Obras Completas de Mário de Sá-Carneiro», sendo o primeiro volume o dos «Poemas Completos», ut supra). «A Ideia do Progresso» (J. B. Bury).Trad. «História do Cristianismo» (J.M.Robertson).Trad. «A Renascença» (Walter Pater).Trad. «História da Liberdade de Pensamento» (J.B.Bury). Trad. (v. «Home University Library», supra ). «A Fábula das Abelhas» (Mandeville). Trad. «Octávio» (Vitoriano Braga). «O Milagre» (Vitoriano Braga). «A Casaca Encarnada» (Vitoriano Braga). «English Poems, I & II» (Antinous, Inscriptions). Fernando Pessoa. «English Poems, III & IV» (Epithalamium, Five Songs). Fernando Pessoa. «English Poems, V» (Elegy). Fernando Pessoa. «English Sonnets, Book I». Fernando Pessoa. «English Sonnets, Book II». Fernando Pessoa. «Teoria of Political Suffrage». Fernando Pessoa. «Prometheus Revinctus — A Dramatic Poem by Fernando Pessoa». «How Napoleon Never Existed» (Pérès). Trad. «The Student of Salamanca» (Espronceda). Trad. Fernando Pessoa. «Sonnets of Camoens». Trad. Fernando Pessoa. «Sonnets of Quental».Trad. Fernando Pessoa. «Complete poems of Alberto Caeiro».Trad. Thomas Crosse. «Songs» (António Botto).Trad. «Songs from the Old Portuguese Song-Books». Trad. Fernando Pessoa. «The Duke of Parma —A Tragedy». Fernando Pessoa. «All About Portugal».Ed. Fernando Pessoa (special). «The Southern Review» (quarterly or half-yearly). s.d Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 195. 1ª publ. in Fernando Pessoa - O Comércio e a Publicidade. António Mega Ferreira. Lisboa: Cinevoz/Lusomedia, 1968 O fenómeno de perceber (percipere) resulta, ao mesmo tempo, activo e passivo no indivíduo. O mero facto de sentir é criador no sentido de que sentir é imaginar, de que o universo das minhas sensações é a criação das minhas sensações. Mas o mero facto de sentir é passividade no sentido de que não é um fenómeno da nossa vontade. Isto é, como indivíduo, sou passivo quando sinto; como meio sou activo. Resulta daqui que sendo o percipiente criativo abstracto, abstracto é, também, o percebido por esse percipiente. E também que o percipiente passivo sendo concreto, é também concreto. 1915 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 246. Publicações que se relacionam com o problema dos judeus 1. «Protocolos dos Sábios de Sião», traduzidos para português, com uma introdução e um comentário histórico por A.L.R. (Divisão da obra: 1. Introdução (Origens dos Protocolos, história da sua publicação, e estudo sobre a sua autenticidade, incluindo uma refutação dos artigos do Times a este respeito). 2. Protocolos dos Sábios de Sião. 3. Comentário histórico e explicativo. (Espécie de complemento da demonstração da sua autenticidade pela enumeração sumária dos factos e circunstâncias ocorridas na nossa civilização que se ajustam às indicações dos Protocolos.) 2. «O Judeu, Sociologicamente Considerado», estudo por Fernando Pessoa. (Desta obra, ou folheto, deverão ser feitas traduções para várias línguas, predominantemente para inglês e francês, subsequentemente para outras.) 3. «Aviso», estudo sociológico por Fernando Pessoa. (É um estudo sumário dos fundamentos da civilização europeia, e das forças que a sustentam e das que a dissolvem. Desta obra, também, devem ser feitas as traduções indicadas para a nº 2.) s.d. Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 197. 1ª publ. in Fernando Pessoa - O Comércio e a Publicidade. António Mega Ferreira. Lisboa: Cinevoz/Lusomedia, 1968 No fim do mundo de tudo Há grandes montes que tem Ainda além para além Um grande além mago e mudo. São paisagens escondidas Que são o que a alma quer. Ali ser, ali viver Vale por vidas e vidas. Todos nós, que aqui cansamos A alma com a negar, Nesse momento de sonhar Ali somos, ali estamos. Mas, depois, volvidos onde Há só a vida que há Vemos que ante nós está Só o que vela e que esconde. Só dormindo os horizontes Se alargam e há a visão Dos montes que ao fundo estão E o saber do além dos montes [.] 19-5-1934 Mensagem - Poemas esotéricos. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de José Augusto Seabra.) Porto: Fund. Eng. A. Almeida, 1993 - 176. A revista «Athena» e o que nos afirmou Fernando Pessoa Lançar uma revista de arte num meio acanhado como o nosso, onde quasi todas as tentativas literárias e artísticas falham por falta de auxílio do público, é, já por si, digno de admiração, pelo que tem de arrojado. Fernando Pessoa, artista original e interessante que rapidamente se distinguiu dentre a multidão de escritores da sua geração, acaba de lançar, com Ruy Vaz, outro artista de valor, uma nova revista de arte. Quisémos ouvi-lo sobre a sua interessante iniciativa: -          A que veio a «Athena»? - Dar ao público português, tanto quanto possível, uma revista puramente de arte, isto é, nem de ocasião e início como o «Orfeu», nem quase de pura decoração, como a admirável «Contemporânea». -          Mas em que é que consiste uma revista "puramente de arte"? -          Há três públicos - um que vê, outro que lê, outro que não há. O primeiro é composto da maioria, o segundo da minoria, o terceiro de indivíduos. O primeiro quer ver, o segundo quer conhecer, o terceiro quer compreender. Uma revista "puramente de arte" é feita para o público que "compreende" a arte, e, ao mesmo tempo, para que os públicos que a não compreendem, compreendam, um que ela tem que compreender, o outro que ela poderá ser compreendida, visto que há quem a compreenda. -          E isso como se faz? -          Fazendo-se. Exclui-se, primeiro, o critério de homogeneidade (escola ou corrente); assim se acentua e se ensina que a arte é essencialmente multiforme, o que é uma das primeiras coisas que tem que aprender muita gente que já o sabe. nas estampas da primeira «Athena» verá reproduções de arte de um clássico, de um romântico, de um contemporâneo. Na parte literária, igual diversidade se busca, como se vê e verá. Depois... -          Depois? -          Exclui-se o critério de fragmentação (amostras e retalhos): não se publicam nem trechos esteticamente compreensíveis só como fragmentários - isto é, incompreensíveis - nem poucas produções de um autor para cuja compreensão sejam precisas muitas. É em obediência e este critério que a primeira «Athena» insere nada menos que onze reproduções de quadros do Visconde de Menezes, e nada menos que o primeiro livro, inteiro, das «Odes» de Ricardo Reis. Por fim... -          Por fim? -          Exclui-se o critério de não dar novidade nenhuma. Em igualdade estética, preferimos o autor desconhecido ao conhecido, o obscuro ao que sofreu publicidade, e, de autores conhecidos, os novos aos velhos, aspectos da sua obra. Tomáramos nós poder, em todos os números, aliar à novidade da obra a revelação do artista! -          A separação "tranchée", entre a parte literária e a artística, obedece a algum critério especial? - Obedece a um critério especial, que é o geral. As revistas para se ler, ou não têm gravuras ou só as têm que ilustrem o texto. As revistas para se ver, têm as gravuras alheias ao texto e cortando-o, porque não são para se ler. As revistas para se compreender separam rigorosamente os seus elementos, e portanto, as estampas do texto impresso. Assim se faz na «Athena»: é que ela é uma revista para se compreender, isto é, é a revista que é, e não a revista que não é. para compreender, dividem-se os assuntos, como para vencer se divide o inimigo. - É então uma revista com orientação? - Mais: é uma revista com orientadores. E, se quiser isto dito de outro modo, ponhamo-lo do mesmo modo: é uma revista não só com directores mas também com direcção. - Bem. E o que julga que será o futuro da «Athena»? - Não fui consultado para a criação do sistema do universo: não é natural que o seja para aquela pequena parte do futuro dele, que é o futuro desta revista. Ruy Vaz e eu faremos por que ela "mereça"; o resto é com o Destino. [in Diário de Lisboa, 3-11-1924] Ah, quero as relvas e as crianças! Quero o coreto com a banda! Quero os brinquedos e as danças — A corda com que a alma anda. Quero ver todas brincar Num jardim onde se passa, Para ver se posso achar Onde está minha desgraça. Ah, mas minha desgraça está Em eu poder querer isto — Poder desejar o que há. [...] 23-8-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 164. NAUFRÁGIO DE BARTOLOMEU Nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças. Escrever de cousas simples com simplicidade é quanto se exige daquela espécie de adido à pedagogia que o Sr. Lopes Vieira quer ser. Assim, João de Deus não escreveu a «Enjeitadinha» senão com o escrúpulo de ser simples. E porque o assunto era também simples, as crianças compreendem-o. Se quisesse ser infantil, acontecia-lhe isto - seria infantil . O Sr. Lopes Vieira quer escrever para crianças mediante intuição da alma infantil, como uma criança, escrevendo para crianças. Mesmo que se saísse bem disto, não se saía bem disto. Porque as crianças não escrevem. Escrever como uma criança, é tolerável sendo criança, porque o ser criança o torna tolerável. Mas o que uma criança escreve ou não se publica ou se publica para adultos, psicólogos. E que interesse tem para crianças esta baba pedagógica? Que interesse há para adultos nesta tradução para verso do estilo do Sr. Nunes da Mata? Que interesse fica, para psicólogos desta pobreza de senso comum, obediência aos elogios de parvos ou videiros e casta abstenção das voluptuosidades de pensar e criar-arte, do S. Francisco de Assis da Livraria Ferreira? Salvo no caso dum génio supremo, com chave para todas as portas da expressão, o querer ser simples dá com o querente na vizinhança de quem quer ser sublime. Este dá consigo em absurdo. Aquele escorrega-se para idiota. É este, ao que parece, o trágico fim cómico de quem foi o autor do «Ar Livre» e de «O Poeta Saudade». Como estes fenómenos de combustão-em-asneira encontrassem uma atmosfera de elogios propícia, a chama aumentou até vir queimar a crítica para fora da indiferença. Esse fenómeno de elogios - esse sim é que era merecedor de uma análise de química psicológica. A fama que o Sr. Lopes Vieira tem, ex-ganhou-a dignamente, porque foi com uma obra bela, e por vezes grande que se enfameceu. Foi com moeda de lei que adquiriu o incenso com que se estonteou. Como muitos outros, e em parte pela mesma razão turibular, criou fama e deitou-se a dormir. E visto que estes livros para crianças e parte de outros, recentes, são o seu sono, bem se pode dizer que dorme como uma besta. Mas voltemos, acusadoramente, ao caso. O Sr. Lopes Vieira é um criminoso. É-o por três razões. Está estragando, com o seu gato-por-lebre de simplicidade, o rudimentar senso estético de crianças, que, mesmo que sejam só duas, são classificáveis de inúmeras, ante o horror do crime. - Está tornando ridículos assuntos que conviria tratar com uma decência que a estupidez, mesmo quando involuntária, nunca tem. Pobres cães nossos amigos tinhosos de Lopes Vieira. Pobre Bartolomeu Dias, tão embobecido de pedagogias! - E, por último, para tudo de nocivo ser, o Sr. Lopes Vieira é até antipedagógico, porque quem escreve Que era de antes o mar? Um quarto escuro Onde os meninos tinham medo de ir merece uma inquisição de professores. Educados na estupidez pela leitura das obras infantis do Sr. Lopes Vieira, levados ao antipatriotismo pelo inevitável desdém que um livro como o «Bartolomeu Marinheiro»leva a ter pelo navegador que ali aparece vestido de bebé de Carnaval, cheios de fobias por lhes terem sido metaforizadas na infância cousas como que um quarto escuro é logicamente terrível, os homens de Portugal de amanhã (adoptados escolarmente, como tudo o que dizemos neste artigo leva a crer que sejam, os livros do Sr. Lopes Vieira) terão por Shakespeare o Sr. Júlio Dantas, por Shelley o Sr. Lopes Vieira... e serão espanhóis. Porque em que diabo pode vir a dar uma nação de parvos, de antipatriotas e de panofóbicos senão em deixar de ser nação ? [in Teatro: Revista de Crítica, nº 1. Lisboa, 1-3-1913] A revista «Athena» e o que nos afirmou Fernando Pessoa Lançar uma revista de arte num meio acanhado como o nosso, onde quasi todas as tentativas literárias e artísticas falham por falta de auxílio do público, é, já por si, digno de admiração, pelo que tem de arrojado. Fernando Pessoa, artista original e interessante que rapidamente se distinguiu dentre a multidão de escritores da sua geração, acaba de lançar, com Ruy Vaz, outro artista de valor, uma nova revista de arte. Quisémos ouvi-lo sobre a sua interessante iniciativa: - A que veio a «Athena»? - Dar ao público português, tanto quanto possível, uma revista puramente de arte, isto é, nem de ocasião e início como o «Orfeu», nem quase de pura decoração, como a admirável «Contemporânea». - Mas em que é que consiste uma revista "puramente de arte"? - Há três públicos - um que vê, outro que lê, outro que não há. O primeiro é composto da maioria, o segundo da minoria, o terceiro de indivíduos. O primeiro quer ver, o segundo quer conhecer, o terceiro quer compreender. Uma revista "puramente de arte" é feita para o público que "compreende" a arte, e, ao mesmo tempo, para que os públicos que a não compreendem, compreendam, um que ela tem que compreender, o outro que ela poderá ser compreendida, visto que há quem a compreenda. - E isso como se faz? - Fazendo-se. Exclui-se, primeiro, o critério de homogeneidade (escola ou corrente); assim se acentua e se ensina que a arte é essencialmente multiforme, o que é uma das primeiras coisas que tem que aprender muita gente que já o sabe. nas estampas da primeira «Athena» verá reproduções de arte de um clássico, de um romântico, de um contemporâneo. Na parte literária, igual diversidade se busca, como se vê e verá. Depois... - Depois? - Exclui-se o critério de fragmentação (amostras e retalhos): não se publicam nem trechos esteticamente compreensíveis só como fragmentários - isto é, incompreensíveis - nem poucas produções de um autor para cuja compreensão sejam precisas muitas. É em obediência e este critério que a primeira «Athena» insere nada menos que onze reproduções de quadros do Visconde de Menezes, e nada menos que o primeiro livro, inteiro, das «Odes» de Ricardo Reis. Por fim... - Por fim? - Exclui-se o critério de não dar novidade nenhuma. Em igualdade estética, preferimos o autor desconhecido ao conhecido, o obscuro ao que sofreu publicidade, e, de autores conhecidos, os novos aos velhos, aspectos da sua obra. Tomáramos nós poder, em todos os números, aliar à novidade da obra a revelação do artista! - A separação "tranchée", entre a parte literária e a artística, obedece a algum critério especial? - Obedece a um critério especial, que é o geral. As revistas para se ler, ou não têm gravuras ou só as têm que ilustrem o texto. As revistas para se ver, têm as gravuras alheias ao texto e cortando-o, porque não são para se ler. As revistas para se compreender separam rigorosamente os seus elementos, e portanto, as estampas do texto impresso. Assim se faz na «Athena»: é que ela é uma revista para se compreender, isto é, é a revista que é, e não a revista que não é. para compreender, dividem-se os assuntos, como para vencer se divide o inimigo. - É então uma revista com orientação? - Mais: é uma revista com orientadores. E, se quiser isto dito de outro modo, ponhamo-lo do mesmo modo: é uma revista não só com directores mas também com direcção. - Bem. E o que julga que será o futuro da «Athena»? - Não fui consultado para a criação do sistema do universo: não é natural que o seja para aquela pequena parte do futuro dele, que é o futuro desta revista. Ruy Vaz e eu faremos por que ela "mereça"; o resto é com o Destino. [in Diário de Lisboa, 3-11-1924] PAUIS Pauis que roçarem ânsias pela minha alma em ouro... Dobre longínquo d'Outros Sinos... Empalidece o louro Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minha por minha alma... Tão sempre a mesma, a Hora!... Balouçar de cimos de palma!... Silêncio da parte inferior das folhas, outono delgado D'um canto de vaga ave... Azul esquecidos em estagnado... Ó que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!... Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora?... Estendo as mãos para Além, mas no estender delas já vejo Que não é aquilo que quero aquilo que desejo... Címbalos de imperfeição... Ó tão antiguidade A hora expulsa de si-Tempo!... Onda de recuo que invade O meu abandonar-me a mim-próprio até desfalecer E recordar tanto o eu presente que me sinto esquecer... Fluido de auréola transparente de Foi, oco de ter-se... O mistério sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não conter-se... A sentinela é hirta, a lança que finca no chão É mais alta que ela... P'ra que é tudo isto... Dia chão... Trepadeiras de despropósito lambendo de Hora os aléns! Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são elos de erro! Fanfarras de ópios de silêncios futuros!... Longes trens!... Portões vistos longe, através das árvores, tão de ferro!... 23-03-1913 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). 1ª publ. in Renascença . Lisboa: Fev. 1924. Elfos ou gnomos tocam?... Roçam nos pinheirais Sombras e bafos leves De ritmos musicais... Ondulam como em voltas De estradas não sei onde, Ou como alguém que entre árvores Ora se mostra ou esconde... Forma longínqua e incerta Do que eu nunca terei... Mal ouço e quase choro... Porque choro não sei... Tão ténue melodia Que mal sei se ela existe Ou se é só o crepúsculo, Os pinhais e eu estar triste... Mas cessa, como uma brisa, Esquece a forma aos seus ais, E agora não há mais música Do que a dos pinheirais... 25-09-1914 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 43. 1ª publ. in Folhas de Arte , 1924; com variante no primeiro verso: «Silfos ou gnomos tocam?...» Serena voz imperfeita, eleita Para falar aos deuses mortos — A janela que falta ao teu palácio deita Para o Porto todos os portos. Faísca da ideia de uma voz soando Lírios nas mãos das princesas sonhadas Eu sou a maré de pensar-te, orlando A Enseada todas as enseadas. Brumas marinhas esquinas de sonho... Janelas dando para Tédio os charcos E eu fito o meu Fim que me olha, tristonho, Do convés do Barco todos os barcos... 6-10-1914 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 43. Ameaçou chuva. E a negra Nuvem passou sem mais... Todo o meu ser se alegra Em alegrias iguais. Nuvem que passa... Céu Que fica e nada diz... Vazio azul sem véu Sobre a terra feliz... E a terra é verde, verde... Porque então minha vista Por meus sonhos se perde? De que é que a minha alma dista? 11-11-1914 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 43. Como a noite é longa! Toda a noite é assim... Senta-te, ama, perto Do leito onde esperto. Vem pr'ao pé de mim... Amei tanta coisa... Hoje nada existe. Aqui ao pé da cama Canta-me, minha ama, Uma canção triste. Era uma princesa Que amou... Já não sei... Como estou esquecido! Canta-me ao ouvido E adormecerei... Que é feito de tudo? Que fiz eu de mim? Deixa-me dormir, Dormir a sorrir E seja isto o fim. 4-11-1914 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 43. Bate a luz no cimo Da montanha, vê... Sem querer, eu cismo Mas não sei em quê... Não sei que perdi Ou que não achei... Vida que vivi, Que mal eu a amei!... Hoje quero tanto Que o não posso ter. De manhã há o pranto E ao anoitecer. Tomara eu ter jeito Para ser feliz... Como o mundo é estreito, E o pouco que eu quis! Vai morrendo a luz No alto da montanha... Como um rio a flux A minha alma banha. Mas não me acarinha, Não me acalma nada... Pobre criancinha Perdida na estrada!... 4-11-1914 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 43. Texto não disponível. Consultar bibliografia indicada. Lisboa: O que o turista deve ver. Fernando Pessoa. (Tradução de Maria Amélia Santos Gomes; prefácio de Richard Zenith.) Lisboa: Horizonte, 1992. - . Vai redonda e alta A lua. Que dor É em mim um amor?... Não sei que me falta... Não sei o que quero. Nem posso sonhá-lo... Como o luar é ralo No chão vago e austero!... Ponho-me a sorrir P'ra a ideia de mim... E tão triste, assim Como quem está a ouvir Uma voz que o chama Mas não sabe d'onde (Voz que em si se esconde) E Só a ela ama... E tudo isto é o luar E a minha dor Tornado exterior Ao meu meditar... Que desassossego! Que inquieta ilusão! E esta sensação Oca, de ser cego No meu pensamento, Na rainha vontade... Ah, a suavidade Do luar sem tormento Batendo na alma De quem só sentisse O luar, e existisse Só p'ra a sua calma. 4-11-1914 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 43. Saber? Que sei eu? Pensar é descrer. — Leve e azul é o céu — Tudo é tão difícil De compreender!... A ciência, uma fada Num conto de louco... — A luz é lavada — Como o que nós vemos É nítido e pouco! Que sei eu que abrande Meu anseio fundo? Ó céu real e grande, Não saber o modo De pensar o mundo! 4-11-1914 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 43. Sopra de mais o vento Para eu poder descansar... Há no meu pensamento Qualquer coisa que vai parar... Talvez essa coisa da alma Que acha real a vida... Talvez esta coisa calma Que me faz a alma vivida... Sopra um vento excessivo... Tenho medo de pensar... O meu mistério eu avivo Se me perco a meditar. Vento que passa e esquece, Poeira que se ergue e cai... Ai de mim se eu pudesse Saber o que em mim vai! 5-11-1914 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 43. Chove?... Nenhuma chuva cai... Então onde é que eu sinto um dia Em que o ruído da chuva atrai A minha inútil agonia? Onde é que chove, que eu o ouço? Onde é que é triste, ó claro céu? Eu quero sorrir-te, e não posso, Ó céu azul, chamar-te meu... E o escuro ruído da chuva É constante em meu pensamento. Meu ser é a invisível curva Traçada pelo som do vento... E eis que ante o sol e o azul do dia, Como se a hora me estorvasse, Eu sofro... E a luz e a sua alegria Cai aos meus pés como um disfarce. Ah, na minha alma sempre chove. Há sempre escuro dentro em mim. Se escuto, alguém dentro em mim ouve A chuva, como a voz de um fim ... Quando é que eu serei da tua cor, Do teu plácido e azul encanto, Ó claro dia exterior, Ó céu mais útil que o meu pranto? 1-12-1914 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). Deixem-me o sono! Sei que é já manhã. Mas se tão tarde o sono veio, Quero, desperto, inda sentir a vã Sensação do seu vago enleio. Quero, desperto, não me recusar A estar dormindo ainda, E, entre a noção irreal de aqui estar, Ver essa noção finda. Quero que me não neguem quem não sou Nem que, debruçado eu Da varanda por sobre onde não estou, Nem sequer veja o céu. 1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 165. Deixei atrás os erros do que fui, Deixei atrás os erros do que quis E que não pude haver porque a hora flui E ninguém é exacto nem feliz. Tudo isso como o lixo da viagem Deixei nas circunstâncias do caminho, No episódio que fui e na paragem, No desvio que foi cada vizinho. Deixei tudo isso, como quem se tapa Por viajar com uma capa sua, E a certa altura se desfaz da capa E atira com a capa para a rua. 23-8-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 166. Com quem se pode comparar Caeiro? Com pouquíssimos poetas. Não, diga-se desde já, com Cesário Verde, a quem ele se refere como se a um antepassado literário, embora uma espécie de antepassado degenerado antecipadamente. Cesário Verde exerceu sobre Caeiro o género de influência a que se pode chamar apenas provocadora da inspiração, sem transmitir qualquer espécie de inspiração. Um exemplo familiar ao leitor será a influência bem real de Chateaubriand sobre Hugo, um homem totalmente diferente pessoal, literária e socialmente. (. . . ) Os pouquíssimos poetas com os quais Caeiro se pode comparar, ou por no-los fazer ou poder fazer lembrar, ou por se poder conceber que tenha sido por eles influenciado, quer o achemos seriamente quer não, são Whitman, Francis Jammes e Teixeira de Pascoaes. Com quem mais se parece é com Whitman. Em alguns aspectos secundários parece-se com Francis Jammes. Lembra-nos fortemente Pascoaes porque, sendo a sua atitude para com a Natureza essencialmente metafísica, naturalística e aquilo a que se pode chamar uma atitude absorta, como a de Pascoaes, no entanto Caeiro é tudo isso mas ao invés do que Pascoaes é do mesmo modo. Caeiro e Pascoaes Tanto Caeiro como Pascoaes encaram a Natureza de um modo directamente metafísico e místico, ambos encaram a Natureza como o que há de importante, excluindo, ou quase excluindo, o Homem e a Civilização, e ambos, finalmente, integram tudo o que cantam nesse seu sentimento naturalista. Esta base abstracta tem de comum: mas no resto são, não diferentes, mas absolutamente opostos. Talvez Caeiro proceda de Pascoaes; mas procede por oposição, por reacção. Pascoaes virado do avesso, sem o tirar do lugar onde está, dá isto — Alberto Caeiro. Como Whitman, Caeiro deixa-nos perplexos. Somos arrancados à nossa atitude crítica por um fenómeno tão extraordinário. Jamais vimos algo de parecido com ele. Mesmo depois de Whitman, Caeiro é estranho, e terrivelmente, pavorosamente, novo. Mesmo na nossa época, em que julgamos que nada há que nos possa espantar ou que possa gritar-nos uma novidade, Caeiro realmente espanta e realmente respira novidade absoluta. Conseguir isto numa época como a nossa constitui a prova definida e definitiva do seu génio. É tão novo que, por vezes, parece difícil conceber claramente toda a sua novidade. É demasiado novo, e a sua novidade excessiva perturba a nossa visão dele, assim como todas as coisas em excesso perturbam a visão — embora seja bem uma novidade ser a própria novidade a coisa excessiva e que deixa a visão perturbada. Mas é essa mesma a coisa notável. Até a novidade e a maneira de ser novo são novidades em Caeiro. Difere de todos os poetas de maneira diferente daquela em que todos os grandes poetas são diferentes de outros grandes poetas. A sua individualidade possui-a ele de maneira diferente da de todos os poetas que o precederam. Whitman é bem inferior a este respeito. Para explicar Whitman, mesmo numa base em que se lhe reconheça toda a originalidade concebível, basta-nos pensar nele como alguém que viveu [amou?] intensamente a vida, e daí brotam os seus poemas como flores de uma moita. Mas o mesmo processo já não se aplica a Caeiro. Mesmo que o encaremos como um homem que vive fora da civilização (hipótese obviamente impossível), como homem com uma visão excepcionalmente clara das coisas, isso não produz logicamente no nosso espírito um resultado que se pareça com O Guardador de Rebanhos. A própria ternura das coisas como simples coisas, que caracteriza o tipo do homem que supomos (propomos) não caracteriza Caeiro. Fala algumas vezes com ternura das coisas, mas pede-nos perdão de o fazer, explicando que se fala assim é por causa da nossa «estupidez dos sentidos», para nos fazer sentir «a existência absolutamente real» das coisas. Entregue a si próprio, não tem qualquer ternura pelas coisas, mal tem qualquer ternura, até, pelas suas sensações. Aqui tocamos a sua grande originalidade, a sua objectividade quase inconcebível. Vê as coisas apenas com os olhos, não com a mente. Quando olha para uma flor, não permite que isso provoque quaisquer pensamentos. Longe de ver sermões nas pedras, nem sequer se permite conceber uma pedra como ponto de partida para um sermão. O único sermão que uma pedra encerra é, para ele, o facto de existir. A única coisa que uma pedra lhe diz é que nada tem para lhe dizer. Pode-se conceber um estado de espírito parecido com este, mas não pode conceber-se num poeta. Esta maneira de olhar para uma pedra pode ser definida como a maneira totalmente não-poética de a olhar. O facto estupendo acerca de Caeiro é que produz poesia a partir deste sentimento, ou, antes, ausência de sentimento. Sente positivamente o que até aqui só podia ser concebido como sentimento negativo. Perguntai a vós próprios: que pensais duma pedra quando a olhais sem pensar nela? O que se resume no seguinte: que pensais duma pedra quando não pensais mesmo nela? A pergunta, é claro, é completamente absurda. A coisa estranha em tudo isto é que toda a poesia de Caeiro se baseia num sentimento que achais impossível conceber como susceptível de existir. Talvez eu tenha logrado apontar a natureza extraordinária da inspiração de Caeiro, a fenomenal novidade da sua poesia, o seu génio espantoso e sem precedente, toda a sua atitude. Diz-se que Alberto Caeiro deplorou o nome de «sensacionismo» que um discípulo seu — é certo que um discípulo um tanto estranho: o Sr. Álvaro de Campos — atribuiu à sua atitude e à atitude que criou. Se Caeiro protestou contra esta palavra por possivelmente parecer designar uma «escola», como o Futurismo, por exemplo, tinha razão, e por dois motivos. Pois a própria sugestão de escolas e movimentos literários soa mal quando aplicada a um género de poesia tão incivilizada e natural. E, além disso, embora Caeiro tenha, pelo menos, dois «discípulos», o facto é que tem exercido sobre estes uma influência igual à que qualquer poeta — Cesário Verde, talvez — exerceu sobre ele: nenhum se lhe assemelha, nem de longe, embora, na realidade, a influência de Caeiro se possa descortinar em toda a obra deles muito mais nitidamente do que a influência de Cesário Verde sobre Caeiro. Mas o facto é que — postas de lado estas considerações — nenhum nome poderia descrever melhor a sua atitude. A sua poesia é, de facto, a «sensacionista». A sua base é a substituição do pensamento pela sensação, não só como base da inspiração — o que é compreensível — mas como meio de expressão, se assim podemos falar. E, acrescente-se, aqueles seus dois discípulos, diferentes como são dele e um do outro — são também sensacionistas, de facto. É que o Dr. Ricardo Reis, com o seu neoclassicismo, a sua crença verdadeira e real na existência das divindades pagãs, é um sensacionista puro, embora de género diferente. A sua atitude para com a natureza é tão agressiva para com o pensamento como a de Caeiro; não imagina quaisquer significados nas coisas. Vê-as apenas, e, se parece vê-las de modo diferente do de Caeiro, é que, embora as veja tão pouco intelectualmente e tão pouco poeticamente como este último as vê à luz de um conceito religioso definido do universo — paganismo, paganismo puro, o que altera necessariamente a sua maneira muito directa de sentir. Mas é pagão porque a religião sensacionista é o paganismo. É claro que um sensacionista puro e integral como Caeiro não tem, logicamente, qualquer religião, visto a religião não se encontrar entre os dados imediatos da sensação pura e directa. Mas Ricardo Reis exprimiu com grande clareza a lógica da sua atitude como puramente sensacionista. Segundo afirma, não só nos deveríamos prostrar ante a objectividade pura das coisas (daí o seu sensacionismo propriamente dito e o seu neoclassicismo, pois foram os poetas clássicos os que menos comentaram as coisas, ou as comentaram menos directamente), mas prostrar-nos ante a objectividade igual, a realidade, a naturalidade, das necessidades da nossa natureza, entre as quais se conta o sentimento religioso. Caeiro é o sensacionista puro e absoluto que se prostra ante as sensações qua exterior e nada mais admite. Ricardo Reis é menos absoluto; prostra-se também ante os elementos primitivos da nossa própria natureza, visto para ele os nossos sentimentos primitivos serem tão reais e naturais como as flores e as árvores. Portanto, Caeiro é religioso. E, visto ser sensacionista, é pagão pela religião; o que se deve, não só à natureza da sensação que se concebera como admitindo uma religião qualquer, mas também à influência das leituras clássicas a que o seu sensacionismo o tinha impelido. Álvaro de Campos — o que é bastante curioso — encontra-se no extremo oposto, inteiramente oposto a Ricardo Reis. No entanto, não é menos discípulo de Caeiro ou menos sensacionista propriamente dito. Aceitou de Caeiro, não o essencial e o objectivo, mas o aspecto deduzível e subjectivo da sua atitude. A sensação é tudo, afirma Caeiro, e o pensamento é uma doença. Por sensação entende Caeiro a sensação das coisas tais como são, sem acrescentar quaisquer elementos do pensamento pessoal, convenção, sentimento ou qualquer outro lugar da alma. Para Campos, a sensação é tudo, sim, mas não necessariamente a sensação das coisas como são, antes das coisas conforme sentidas. De modo que vê a sensação subjectivamente e envida todos os seus esforços, uma vez que assim pensa, não para desenvolver em si a sensação das coisas como são, mas toda a casta de sensações de coisas, e até da mesma coisa. Sentir é tudo: é lógico concluir que o melhor é sentir toda a casta de coisas de todas as maneiras, ou, como diz o próprio Álvaro de Campos, «sentir tudo de todas as maneiras». Assim, aplica-se a sentir a cidade na mesma medida em que sente o campo, o normal como sente o anormal, o mal como sente o bem, o mórbido como sente o saudável. Nunca interroga, sente. É o filho indisciplinado da sensação. Caeiro tem uma disciplina: as coisas devem ser sentidas tais como são. Ricardo Reis tem outra disciplina diferente: as coisas devem ser sentidas, não só como são, mas também de modo a integrarem-se num certo ideal de medida e regra clássicas. Em Álvaro de Campos, as coisas devem ser simplesmente sentidas. Mas a origem comum destes três aspectos tão diferentes da mesma teoria é patente e manifesta. Caeiro não tem ética a não ser a simplicidade. Ricardo Reis tem uma ética pagã, meio epicurista e meio estóica, mas uma ética muito definida, que dá à sua poesia uma elevação que o próprio Caeiro — embora, independentemente da maestria, seja dos dois o génio de maior estatura — não logra atingir. Álvaro de Campos não tem sombra de ética; é amoral, se não positivamente imoral, pois, evidentemente, segundo a sua teoria, e natural que ame as sensações fortes mais do que as fracas, e as sensações fortes são, pelo menos, todas elas egoístas e ocasionalmente as sensações da crueldade e da luxúria. Assim, Álvaro de Campos é dos três o que mais se parece com Whitman, mas nada tem da camaradagem deste: anda sempre afastado da multidão, e, quando sente com ela, fá-lo muito nítida, muito confessadamente para agradar a si próprio e se proporcionar sensações brutais. A ideia da perda da inocência duma criança de oito anos (Ode II, ad finem) [ Ode Triunfal ] é-lhe positivamente agradável, pois satisfaz duas sensações muito fortes — a crueldade e a luxúria. O mais que Caeiro diz a que talvez se possa chamar imoral é que não quer saber do sofrimento dos homens, e que a existência de doentes é interessante por ser um facto. Não há nada disto em Ricardo Reis. Vive dentro de si próprio, com a sua fé pagã e o seu epicurismo triste, mas uma das suas atitudes é precisamente não magoar ninguém. Não quer saber absolutamente nada dos outros, nem sequer o suficiente para se interessar pelo seu sofrimento ou pela sua existência. É moral por se bastar a si próprio. Pode-se dizer, comparando estes três poetas com as três ordens de espíritos religiosos, e comparando, de momento, o sensacionismo (embora, talvez, impropriamente) com uma religião, que Ricardo Reis é o espírito religioso normal dessa fé, Caeiro o místico puro, Álvaro de Campos o excessivamente ritualista. É que Caeiro perde de vista a Natureza na natureza, perde de vista a sensação na sensação, perde de vista as coisas nas coisas. E Campos perde de vista a sensação nas sensações. 1917? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 343. Trad.: Jorge Rosa No fim do mundo de tudo Há grandes montes que têm Ainda além para além — Um grande além mago e mudo. São paisagens escondidas Que são o que a alma quer. Ali ser, ali viver Vale por vidas e vidas. Todos nós, que aqui cansamos A alma com a negar, Nesse momento de sonhar Ali somos, ali estamos. Mas, depois, volvidos onde Há só a vida que há Vemos que ante nós está Só o que vela e que esconde. Só dormindo os horizontes Se alargam e há a visão Dos montes que ao fundo estão E o saber do além dos montes [...] 19-5-1934 Mensagem - Poemas esotéricos. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de José Augusto Seabra.) Porto: Fund. Eng. A. Almeida, 1993. - . 1ª publ. in Obra Poética . Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Dores Galhoz.) Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960. Não digas nada! Não, nem a verdade! Há tanta suavidade Em nada se dizer E tudo se entender — Tudo metade De sentir e de ver... Não digas nada! Deixa esquecer. Talvez que amanhã Em outra paisagem Digas que foi vã Toda esta viagem Até onde quis Ser quem me agrada... Mas ali fui feliz... Não digas nada. 23-8-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 167. Ultimatum , de Álvaro de Campos, foi publicado no primeiro e (pelo menos até à data) único número de Portugal Futurista, publicação literária cuja natureza vem suficientemente expressa no título, que não carece de tradução. Tendo escapado à censura por qualquer inexplicável golpe de sorte, esta desapareceu quando alguém chamou para Ultimatum a atenção das autoridades já depois de a revista se encontrar nos escaparates das livrarias. Portugal Futurista foi imediatamente apreendido pela Polícia e instaurado processo contra todos os escritores que colaboraram. Passou-se isto (cumpre explicar) durante o ministério democrático derrubado por Sidónio Pais na revolução de 5 de Dezembro de 1917. No entanto, é difícil imaginar como qualquer ministério, estando o país em guerra, poderia consentir na publicação de Ultimatum, que, original e magnífico como é, embora não germanófilo (pois é «anti» tudo, Aliados e alemães), contém insultos contundentes contra os Aliados, e bem assim contra Portugal e o Brasil, os próprios países aos quais, sem dúvida, «P. F.» se destinava. Se traduzi Ultimatum, foi por ser bem a obra mais inteligente de literatura jamais saída da Grande Guerra. Podemos contemplar com espanto as suas teorias como indizivelmente excêntricas, podemos discordar da violência excessiva da invectiva introdutória, mas ninguém, julgo eu, pode deixar de confessar que o aspecto satírico é magnífico na sua justeza estudada de aplicação, e que o aspecto teórico, pensemos o que pensarmos acerca do valor das teorias, tem, pelo menos, os méritos raros da originalidade e da frescura. São estas boas razões para traduzir Ultimatum, e a circunstância de, embora publicado desde Setembro de 1917, só agora eu o fazer é devida ao facto, que o manuseio da obra tornará evidente, de ser impossível tal publicação durante a guerra. Resta dizer alguma coisa ao leitor inglês acerca da natureza da obra e acerca do autor. A tendência da obra é bem clara -- insatisfação ao ante a incapacidade construtiva característica da nossa época, em que não surgiu nenhum grande poeta, nenhum grande estadista, nem mesmo, bem vistas as coisas, nenhum grande general. Falando acerca do Ultimatum dizia-me certa vez Álvaro de Campos: «Esta guerra é a dos pigmeus mais pequenos contra os pigmeus maiores. O tempo mostrará (foi isto dito em Janeiro de 1918) quais são os maiores e quais os mais pequenos, mas, de qualquer modo, são pigmeus». «Pouco importa quem ganha a guerra, pois será ganha, de certeza, por um imbecil. Pouco importa o que dela resultará, pois o que virá será seguramente imbecilidade. Já chegou a era da engenharia física (acrescentou ele caracteristicamente), mas estamos ainda longe da era da engenharia mental. Isto mostra a medida em que recuamos da civilização grega e romana, e o crime do Cristismo representa contra a substância da cultura e do progresso». «Esse sofista reles, o PresidenteWilson», disse-me em certa ocasião, «é o tipo e o símbolo do nosso tempo. Nunca disse nada de concreto na sua vida. Seria incapaz de dizer algo de concreto para salvar aquilo que, suponho, ele julga ser a sua alma». São estas quase as palavras exactas, que, por haverem sido pronunciadas em inglês, é menos provável eu esquecer. Álvaro de Campos nasceu em Lisboa em 13 de Outubro de 1890, e viajou muito pelo Oriente e pela Europa vivendo principalmente na Escócia. 1919? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 409. Trad.: Jorge Rosa Ah, verdadeiramente a deusa! — A que ninguém viu sem amar E que já o coração endeusa Só com somente a adivinhar. Por fim magnânima aparece Naquela perfeição que é Uma estátua que a vida aquece E faz da mesma vida fé. Ah, verdadeiramente aquela Com que no túmulo do mundo O morto sonha, como a estrela Que há-de surgir no céu profundo. 3-9-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 168. EPITALÂMIO II Afastai nas janelas a cortina breve Que menos que à luz a vista só proscreve! Olhai o vasto campo, como jaz luminoso Sob o azul poderoso E limpo, e como aquece numa ardência leve Que na vista se inscreve! Já a noiva acordou. Ah como tremer sente O coração dormente! Os seios dela arrepanham-se por dentro numa frieza de medo Mais sentido por crescido nela, E que serão por outras mãos que não as suas tocados E terão lábios chupando os bicos em botão. Ah, ideia das mãos do noivo já A tocar lá onde as mãos dela tímidas mal tocam, E os pensamentos contraem-se-lhe até ser indistintos. Do corpo está consciente mas continua deitada. Vagamente deixa os olhos sentir que se abrem. Numa névoa franjada cada coisa Se ergue, e o dia actual é veramente claro Menos ao seu sentir de medo. Como mancha de cor a luz pousa na palpebrada vista E ela quase detesta a inescapável luz. 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 129. Tradução de Jorge de Sena Teu inútil dever Quanta obra faça cobrirá a terra Como ao que a fez, nem haverá de ti Mais que a breve memória. 1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 169. II Part from the windows the small curtains set Sight more than light to omit! Look on the general fields, how bright they lie Under the broad blue sky, Cloudless, and the beginning of t1e heat Does the sight half iil-treat! The bride hath wakened. Lo! she feels her shaking Heart better all her waking! Her breasts are with fear's coldness inward clutched And more felt on her grown, That will by hands other than hers be touched And will find lips sucking their budded crown. Lo! the thought of the bridegroom's hands already Feels her about where even her hands are shy, And her thoughts shrink till they become unready. She gathers up her body and still doth lie. She vaguely lets her eyes feel opening. In a fringed mist each thing Looms, and the present day is truly clear But to her sense of fear. Like a hue, light lies on her lidded sight, And she half hates the inevitable light. 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses. Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - . 1ª ed. in English Poems III. Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Começa, no ar da antemanhã, A haver o que vai ser o dia. É uma sombra entre as sombras vã. Mais tarde, quanto é a manhã Agora é nada, noite fria. É nada, mas é diferente Da sombra em que a noite está: E há nela já a nostalgia Não do passado, mas do dia Que é afinal o que será. 12-9-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 170. XIV The bridegroom aches for the end of this and lusts To know those paps in sucking gusts, To put his first hand on that belly's hair And feel for the lipped lair, The fortress made but to be taken, for which He feels the battering ram grow large and itch. The trembling glad bride feels all the day hot On that still cloistered spot Where only her nightly maiden hand did feign A pleasure's empty gain. And, of the others, most will whisper at this, Knowing the spurt it is; And children yet, that watch with looking eyes, Will now thrill to be wise In flesh, and with big men and women act The liquid tickling fact For whose taste they'1l in secret corners try They scarce know what still dry 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses. Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - . 1ª ed. in English Poems III. Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Maria, se eu te chamar, Maria, se eu te chamar, Maria, vem cá dizer Que não podes cá chegar. Assim te consigo ver. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 48. A montanha por achar Há-de ter, quando a encontrar, Um templo aberto na pedra Da encosta onde nada medra. O santuário que tiver, Quando o encontrar, há-de ser Na montanha procurada E na gruta ali achada. A verdade, se ela existe, Ver-se-á que só consiste Na procura da verdade, Porque a vida é só metade. 21-9-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 171. EPITALÂMIO XIV O noivo anseia pelo fim de tudo isto no cio De conhecer essas entranhas em chupados sorvos, De pôr primeira mão nesse cabelo do ventre E apalpar o fojo labiado, A fortaleza feita para ser tomada, e pela qual Sente o aríete engrossar e doer de desejo. A trémula alegre noiva sente todo o calor do dia Nesse lugar ainda enclaustrado Onde a sua virginal mão nocturna fingia Um vazio lucro de prazer. E dos outros a maior parte é disto que segredará, Sabendo o rápido trabalho que é; E as crianças, que observam com ávidos olhos, Agora antegozam de saber Da carne, e com homens e mulheres crescidos fazer O acto coceguento e líquido Por cujo sabor em cantos escusos tentam O que mal sabem como é seco ainda. 1913 «Epithalamium». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 141 / 143. Tradução de Jorge de Sena VIII How many masks wear we, and undermasks, Upon our countenance of soul, and when, If for self-sport the soul itself unmasks, Knows it the last mask off and the face plain? The true mask feels no inside to the mask But looks out of the mask by co-masked eyes. Whatever consciousness begins the task The task's accepted use to sleepness ties. Like a child frighted by its mirrored faces, Our souls, that children are, being thought-losing, Foist otherness upon their seen grimaces And get a whole world on their forgot causing; And, when a thought would unmask our soul's masking, Itself goes not unmasked to the unmasking. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses. Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. 1ª ed.: 35 Sonnets. Fernando Pessoa. Lisbon: 1918. VIII Ah quantas máscaras e submáscaras, Usamos nós no rosto de alma, e quando, Por jogo apenas, ela tira a máscara, Sabe que a última tirou enfim? De máscaras não sabe a vera máscara, E lá de dentro fita mascarada. Que consciência seja que se afirme, O aceite uso de afirmar-se a ensona. Como criança que ante o espelho teme, As nossas almas, crianças, distraídas, Julgam ver outras nas caretas vistas E um mundo inteiro na esquecida causa; E, quando um pensamento desmascara, Desmascarar não vai desmascarado. s.d. «35 Sonnets». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 165. Tradução de Jorge de Sena Oiço, como se o cheiro De flores me acordasse... É música — um canteiro De influência e disfarce. Impalpável lembrança, Sorriso de ninguém, Com aquela esperança Que nem esperança tem... Que importa, se sentir É não se conhecer? Oiço, e sinto sorrir O que em mim nada quer. 21-8-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 156. Julho 25 - 1907. Estou cansado de confiar em mim próprio, de me lamentar a mim mesmo, de me apiedar com lágrimas, sobre o meu próprio eu. Acabo de ter uma espécie de cena com a tia Rita acerca de F. Coelho. No fim dela senti de novo um desses sintomas que cada vez se tornam mais claros e sempre mais horríveis em mim: uma vertigem moral. Na vertigem física há um rodopiar do mundo externo em relação a nós: na vertigem moral, um rodopiar do mundo interior. Parece-me perder por momentos, o sentido da verdadeira relação das coisas, perder a compreensão, cair num abismo de suspensão mental. É uma pavorosa sensação esta de uma pessoa se sentir abalada por um medo desordenado. Estes sentimentos vão-se tornando comuns, parecem abrir-me o caminho para uma nova vida mental, que acabará na loucura. Na minha família não há compreensão do meu estado mental - não, nenhuma. Riem-se de mim, escarnecem-me, não me acreditam. Dizem que o que eu pretendo é mostrar-me uma pessoa extraordinária. Nada fazem para analisar o desejo que leva uma pessoa a querer ser extraordinária. Não podem compreender que entre ser-se e desejar-se ser extraordinário não há senão a diferença da consciência que é acrescentada ao facto de se querer ser extraordinário. É o mesmo caso que se dava comigo brincando com soldados de chumbo aos sete e aos catorze anos, no primeiro caso os soldados eram para mim coisas e no segundo coisas e coisas-brinquedos ao mesmo tempo: no entanto o impulso para brincar com eles subsistia e esse é que era o real e fundamental estado psíquico. Julho 25: Não tenho ninguém em quem confiar. A minha família não entende nada. Não posso incomodar os amigos com estas coisas. Não tenho realmente verdadeiros amigos íntimos, e mesmo aqueles a quem posso dar esse nome no sentido em que geralmente se emprega essa palavra, não são íntimos no sentido em que eu entendo a intimidade. Sou tímido, e tenho repugnância em dar a conhecer as minhas angústias. Um amigo íntimo é um dos meus ideais, um dos meus sonhos quotidianos, embora esteja certo de que nunca chegarei a ter um verdadeiro amigo íntimo. Nenhum temperamento se adapta ao meu. Não há um único carácter neste mundo que porventura dê mostras de se aproximar daquilo que eu suponho que deve ser um amigo íntimo. Acabemos com isto. Amantes ou namoradas é coisa que não tenho e é outro dos meus ideais, embora só encontre, por mais que procure, no íntimo desse ideal, vacuidade, e nada mais. Impossível, como eu o sonho! Ai de mim! Pobre Alastor! Oh Shelley, como eu te compreendo! Poderei eu confiar em minha mãe? Como eu desejaria tê-la junto de mim! Também não posso confiar nela. Mas a sua presença teria aliviado as minhas dores. Sinto-me abandonado como um náufrago no meio do mar. E que sou eu senão um náufrago, afinal? Por isso só em mim próprio posso confiar. Confiar em mim próprio? Que confiança poderei eu ter nestas linhas? Nenhuma. Quando volto a lê-las, o meu espírito sofre percebendo quão pretensiosas, quão a armar a um diário literário elas se apresentam! Nalgumas até mesmo cheguei a fazer estilo. A verdade, porém, é que sofro. Um homem tanto pode sofrer com um fato de seda como metido num saco ou dentro de uma manta de trapos. Nada mais. 25-7-1907 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 26. Trad. João Gaspar Simões. in Vida e Obra de Fernando Pessoa - História de uma Geração . João Gaspar Simões. Lisboa: Bertrand, 1951. O suplício físico de Jacques de Molay, impotente para produzir nenhum resultado mais que baixamente material, desencadeou sobre a Igreja as forças mágicas que essa acção material era incompetente para dominar, servindo só para as desencadear. E o pior foi que o processo de imolação fosse pelo Fogo, isto é, pelo Elemento da Ordem. Assim, para falar um pouco obscuramente, o que era Adepto Exempto, em vez de passar a Mestre do Templo, foi erguido a Mago, e, apto a pronunciar a Palavra da Era, pronunciou-a como Irmão Negro, e contra a Igreja. Toda a civilização moderna, desde a Reforma aos nossos tempos, no que é oposição à Igreja e conspurcação dela e dos seus princípios, é a vingança encarnada de Jacques do Molay. A fogueira em que foi queimado o Grão-Mestre dos Templários foi o lume que ateou o incêndio em que hoje todos ardemos. Num ponto, porém, a vingança de Molay, operando per vias inferiores, caiu no mesmo erro em que haviam caído os seus algozes. Foi quando D. Sebastião, AE [Adepto Exempto], foi feito cair em Alcácer Quibir. Caiu pela espada, isto é, pela Terra, e o erro foi o mesmo que o de fazer Molay cair pelo Fogo, porque de igual natureza. No mesmo modo o Adepto Exempto ascendeu a Mago, queimando o grau intermédio, e pronunciou, no tempo dado, a Palavra de Era seguinte. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 43. Os cinco poemas que formam este volume, muito embora cada um deles seja independente face aos restantes considerados individualmente e no seu conjunto, são ligados, contudo, pela circunstância de serem ou de representarem estádios da psicologia histórica. Expressam cinco conceitos do mundo, considerados através da emoção sexual, e são portanto «weltanschauugen» no respeitante ao instintivo. O primeiro poema, Antinous, representa o conceito grego do mundo sexual. Como todos os conceitos primitivos, é substancialmente perverso; como todos os conceitos inocentes, a emoção manifestada é propositadamente não-primitiva; a fim de permitir que surja como conceito inocente, desenvolve-se o conceito até se tornar uma metafísica, mas, como se trata de inocência, a metafísica acrescenta-se a, sem se inserir dentro da substância do tema principal. O segundo poema, Epithalamium, representa o conceito romano do mundo sexual. É brutal, como todas as emoções coloniais, animalesco, como todas as coisas naturais, quando são secundárias, como eram para homens tais como os romanos, que eram animais a dirigirem um estado. Neste poema não há nenhuma metafísica. Neste poema não poderia haver perversidade. O cenário, como no poema Antinous, não se relaciona com o tema. Um vulgar casamento cristão fornece o cenário; contra este pouco imaginativo cenário negro faz-se destacar o instinto romano como um monstro nu nascido do mundo. O terceiro poema, Oração ao Corpo de uma Mulher, representa o conceito cristão do mundo sexual. Não tem nada a ver com o conceito cristão do mundo em si, pois, na verdade, o cristão normal não tem nada a ver com ele. A confusão do sensual e do espiritual, que os místicos cristãos aplicam aos santos do sexo oposto, (…) s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 38. Não quero rosas, desde que haja rosas. Quero-as só quando não as possa haver Que hei-de fazer das coisas Que qualquer mão pode colher? Não quero a noite senão quando a aurora A fez em ouro e azul se diluir. O que a minha alma ignora É isso que quero possuir. Para quê?... Se o soubesse, não faria Versos para dizer que inda o não sei. Tenho a alma pobre e fria... Ah, com que esmola a aquecerei?... 7-1-1935 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 123. SS. O nome Bandarra, que é de facto o apelido do sapateiro profeta, passou a designar, adentro da Ordem de Cristo, qualquer dos Irmãos que assumira a mesma luz, ou, falando figurativamente, o mesmo grau. Assim a maior parte das profecias, ou trovas, ditas do Bandarra nada têm que ver com a pessoa humana do sapateiro de Trancoso. Sobretudo o não tem o chamado Terceiro Corpo, a obra profética mais completa (no sentido, por assim dizer, artístico ou intelectual) que se tem visto no mundo. Em vez da desordem da inteligência, que se pode dizer que distingue toda a profética, desde o Apocalipse a Nostradamo, há uma sistematização rigorosa, uma geometria do preedizer. A linguagem, certo, é simbólica, mas assim é a linguagem geral dos ensinamentos superiores, dos quais profecia é tão somente um caso particular. O Apocalipse, por exemplo, é uma visão mística; o Terceiro Corpo do Bandarra é uma visão racional. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 39. “Subsolo” Subsolo. A Ordem de Cristo não tem graus, templo, rito, insígnia ou passe. Não precisa reunir, e os seus cavaleiros, para assim lhes chamar, conhecem-se sem saber uns dos outros, falam-se sem o que propriamente se chama linguagem. Quando se é escudeiro dela não se está ainda nela; quando se é mestre dela já se lhe não pertence. Nestas palavras obscuras se conta quanto basta para quem, que o queira ou saiba, entenda o que é a Ordem de Cristo — a mais sublime de todas do mundo. Não se entra para a Ordem de Cristo por nenhuma iniciação, ou, pelo menos, por nenhuma iniciação que possa ser descrita em palavras. Nãos se entra para ela por querer ou por ser chamado; nisto ela se conforma com a fórmula dos mestres: «Quando o discípulo está pronto, o Mestre está pronto também.» E é na palavra «pronto» que está o sentido vário, conforme as ordens e as regras. Fiel à sua obediência — se assim se pode chamar onde não há obedecer — à Fraternidade de quem é filha e mãe, há nela a perfeita regra de Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Os seus cavaleiros—chamemos-lhes sempre assim — não dependem de ninguém, não obedecem a ninguém, não precisam de ninguém, nem da Fraternidade de que dependem, a quem obedecem e de que precisam. Os seus cavaleiros são entre si perfeitamente iguais naquilo que os torna cavaleiros; acabou entre eles toda a diferença que há em todas as coisas do mundo. Os seus cavaleiros são ligados uns aos outros pelo simples laço de serem tais, e assim são irmãos, não sócios nem associados. São irmãos, digamos assim, porque nasceram tais. Na ordem de Cristo não há juramento nem obrigação. Ela, sendo assim tão semelhante à Fraternidade em que respira, porque, segundo a Regra, «o que está em baixo é como o que está em cima», não é contudo aquela Fraternidade: é ainda uma ordem, embora uma Ordem Fraterna, ao passo que a Fraternidade não é uma ordem. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 47. “Subsolo” A REFORMA DO CALENDÁRIO E AS SUAS CONSEQUÊNCIAS COMERCIAIS A Comissão Especial de Inquérito à Reforma do Calendário, estabelecida pela Sociedade das Nações em 1924, acaba de publicar o seu Relatório. A Comissão era composta do Prof. van Eysinga, da Universidade de Leyden (presidente); Rev. T.E.R. Philips, secretário da Real Sociedade Astronómica de Londres, nomeado pelo Arcebispo de Canterbury, chefe da Igreja Inglesa; Rev. P. Gianfranceschi, presidente da Academia dei Nuovi Lincei, nomeado pela Santa Sé; Prof. Eginitis, director do Observatório de Atenas, representando o Patriarca Ecuménico de Constantinopla; o Sr. Bigourden, antigo presidente da Comissão de Calendário da União Astronómica Internacional; e o Sr. Willis H. Booth, antigo presidente da Câmara Internacional de Comércio. A comissão teve que examinar 185 projectos de Reforma do calendário actual, apresentadas por 33 países diferentes, dos 56 que pertencem à Sociedade das Nações. Responderam ao questionário detalhado, que se expediu aos 56 países e várias entidades religiosas e não religiosas em todo o mundo, 27 governos, 26 organizações internacionais (incluindo os variados comités nacionais da Câmara Internacional de Comércio), 18 administrações de caminhos-de-ferro, repartições de instrução pública de 23 países, e outras organizações que há menos interesse em citar. A origem deste inquérito, cujas consequências práticas e até comerciais convém não deixar de meditar, reside no carácter irregular e defeituoso do Calendário Gregoriano, que presentemente nos mede o tempo. Os defeitos evidentes e capitais do actual calendário são, na opinião da Comissão relatora, a desigualdade dos seus meses, trimestres e semestres, e a sua ausência de “fixidade”. Os meses variam, como toda a gente sabe, quanto ao número de dias de que se compõem, e que vão de 28 a 31, desordenadamente. Os trimestres compõem-se, em sua sequência dentro do ano, de 90 (91 em ano bissexto), 91, 92 e 92 dias. Isto, afirma a Comissão, é causa de confusão e de incerteza nas relações económicas, nas estatísticas, nas contas, nos dados que registam os movimentos de comércio e de tráfico. Também os cálculos de salários, de juros, de prémios de seguro, de pensões, alugueres e rendas, que se estabeleçam numa base mensal, trimestral ou semestral, resultam necessariamente erróneos, por isso que não correspondem propriamente a períodos de um duodécimo, de um quarto ou de metade do ano. Para fazer, com relativo acerto e rapidez, cálculos diários em contas-correntes, têm os bancos que servir-se de tabelas especiais. Além disso, a desigual composição dos meses tem levado as firmas financeiras, na maioria dos países europeus, a calcular as contas-depósito e correntes na base do ano de 12 meses e 30 dias, ou sejam, 360 dias, ao passo que no desconto de letras se conta o ano com o seu número exacto de dias. Todas estas circunstâncias assumem proporções quase trágicas no relatório da Comissão, e a tragédia aumenta quando se chega a considerar a falta de fixidez do calendário actual. Devido à circunstância de que o calendário actual não é “fixo”, mas varia de ano para ano, a sua reprodução exacta dá-se apenas de 28 em 28 anos. Em virtude disto, não podem as datas de acontecimentos periódicos ser, em qualquer caso, claramente determinadas. Cada ano, exemplifica a Comissão, têm as instâncias oficiais que fazer um estudo especial para actos como a convocação do Parlamento (inglês), as datas de feriados, as de mercados e de feiras, ou a fixação da hora de “Verão” — tudo, como o leitor está vendo, de transcendente importância para o presente e o futuro da humanidade. Ora, se o calendário fosse “fixado”, as datas destes grandes acontecimentos ficariam também “fixadas”, duma vez para sempre. Finalmente — e é esta talvez a principal desvantagem do ponto de vista estatístico e comercial —, não é possível uma verdadeira comparação estatística entre as próprias subdivisões do ano — meses, trimestres, semestres. Na opinião da Comissão, «a atenção do público, de cuja aprovação tem que depender qualquer reforma do calendário, deve ser chamada exclusivamente (para que possa compreender as suas respectivas vantagens e desvantagens) sobre os princípios fundamentais de três principais sistemas de reforma». O ano compõe-se de 52 semanas — ou sejam 364 dias —, mais 1 ou 2 dias a mais conforme o ano seja normal ou bissexto. Por isso o problema primacial que, no ver da Comissão, confronta o reformador, é o que é que há-de fazer-se deste um dia, ou dois dias, a mais Os “três principais sistemas de reforma”, a que a Comissão alude no excerto acima feito, foram assim resumidos oficiosamente com uma clareza que nos dispensa de tentar outro assunto: Primeiro sistema: Reforma simples. — O primeiro dos três principais sistemas de reforma escolhidos pela Comissão esforça-se por simplificar a reforma o mais possível e por causar a menor perturbação nos hábitos e costumes correntes, pelo processo de igualização de três dos quatro trimestres de que o ano se compõe. »Assim, cada um dos primeiros trimestres do ano poderia compor-se de 91 dias, ou três meses de 30, 30 e 31 dias. O dia suplementar (o 365.º) seria acrescentado no quarto trimestre, que poderia pois compor-se de três meses de 30, 31, e 31 dias (32 em anos bissextos). Este nivelamento dos trimestres teria reais vantagens do ponto de vista das estatísticas trimestrais, das transacções da Bolsa, das contas bancárias e das médias meteorológicas. Acresce que se simplificariam bastante os cálculos para averiguar o dia da semana em que cai cada data. Assim, se o 1.º de Janeiro for domingo, o 1.º de Fevereiro será terça-feira, o 1.º de Março quinta-feira, e assim sucessivamente. Finalmente, esse sistema é o que menos altera a tradição. A questão, porém, é se as suas vantagens, que são menores que as dos outros dois sistemas, bastam para justificar a mudança. »O segundo e terceiro sistemas principais, não só possuem todas as vantagens do primeiro sistema, quanto à igualização das divisões do ano, mas, além disso, estabelecem um calendário perpétuo e rectificam de todo o calendário presente. Este resultado obtém-se tornando o dia suplementar do ano (o 365.º) um dia em branco — isto é, pondo-o fora da semana, como, por exemplo, entre 31 de Dezembro e 1 de Janeiro. A introdução do dia em branco quebra, porém, a perpetuidade do ciclo das semanas, e levanta certas dificuldades de ordem religiosa, sobretudo nos meios judaicos. »Segundo sistema: Reforma parciaL — Seria o ano dividido em quatro trimestres iguais de 91 dias, compondo-se cada trimestre de três meses de 30, 30 e 31 dias (exactamente como os três primeiros trimestres do primeiro sistema). O dia suplementar do ano (o 365.º) seria contado fora da semana. Poder-se-ia chamar-lhe Dia de Ano Novo, e fazê-lo preceder o dia 1 de Janeiro; e o outro dia no ano bissexto poderia, do mesmo modo, preceder o dia 1 de Julho e chamar-se Dia de Ano Bissexto. »Por este processo são iguais todos os trimestres e semestres. Cada mês contém o mesmo número de dias úteis. Os meses, porém, não são iguais, nem contêm um número completo de semanas. Além disso, as datas não caem no mesmo dia da semana em cada mês, ao passo que a comparação estatística de datas futuras com datas passadas, sendo menos complicada que no sistema dos treze meses, é mais complicada que no primeiro sistema. »Terceiro sistema: Reforma radical. — Os processos que pertencem a este sistema dividem o ano em 13 meses de 28 dias, ou 4 semanas certas, cada um, o que perfaz um total de 52 semanas, ou 364 dias. Sobra um dia (o 365.º), que fica fora da semana. »Como no segundo sistema, este "dia em branco" poderia inserir-se entre o 28.º dia do 13.º mês e o 1.º dia do 1.º mês do ano seguinte, ou em qualquer outra altura. »Este calendário seria perpétuo, pois os dias da semana cairiam nas mesmas datas em todos os meses. Quer dizer, se o 1.º de Janeiro for domingo, domingo será também o primeiro dia de todos os treze meses do ano. Todos os meses são iguais, e têm o mesmo número de semanas, de dias úteis e de domingos. Os períodos para os quais se calculam os salários correspondem exactamente aos períodos de despesa. Finalmente, o facto de que todos os meses são iguais tem grandes vantagens do ponto de vista das estatísticas mensais. Há, porém, a considerar que 13 não é divisível por 2, 3, 4 ou 6; que os “trimestres” do ano, ainda que iguais, não contêm o mesmo número de meses; e que a introdução de um ano de treze meses implica uma mudança considerável em costumes que datam de milhares de anos, e, em geral, seria preciso um número muito maior de rectificações estatísticas do que se se mantivesse o sistema dos doze meses.» Cabe aqui transcrever os próprios comentários da Comissão. Diz ela que: «... geralmente falando, e considerando apenas o valor intrínseco dos dois últimos sistemas principais, o sistema dos treze meses parece de maior utilidade do ponto de vista da estatística e do comércio, logo que o mês, e não o trimestre, se torne a unidade na vida económica. No caso contrário, seria preferível o sistema dos doze meses. Com respeito à possibilidade da sua aplicação prática, a investigação preliminar mostra que os vários governos se inclinam mais para o sistema dos doze meses, que desarranjaria menos os hábitos estabelecidos. A maioria dos organismos comerciais parece ser da mesma opinião. Há, porém, um número crescente (caminhos-de-ferro ingleses e muitos organismos americanos) que parece favorecer o sistema dos treze meses, e especialmente para ele se inclinam os que usam já esse sistema como calendário auxiliar, e por isso estão habilitados a avaliar dos seus resultados.» Na segunda parte do seu relatório trata a Comissão de uma data fixa para o domingo de Páscoa, que presentemente oscila entre 22 de Março e 25 de Abril — um período que abrange 35 dias. Das respostas recebidas pela Comissão depreende-se que esta irregularidade afecta desfavoravelmente um certo número de indústrias, e notavelmente as do vestuário feminino e masculino, a de sapataria, e a indústria de turismo. Também se queixam algumas instituições pedagógicas que afecta bastante a regularidade do ano escolar. É curioso notar que, segundo o relata a Comissão, nenhuma das grandes entidades religiosas mostrou repugnar-lhe, do ponto de vista dogmático, a fixação da data da Páscoa. A maioria das respostas recebidas dão a preferência ao segundo domingo de Abril. Concordando, em princípio, com esta fixação, a Comissão adverte, contudo, que o segundo domingo de Abril poderia cair no dia 8, e nesse caso a Festa da Anunciação (25 de Março) cairia no mesmo dia que o domingo de Pascoela. Para evitar isto, propõe a Comissão que se fixe para domingo de Páscoa o domingo seguinte ao segundo sábado de Abril. No fecho do seu relatório, dizem os peritos que formam a Comissão que tiveram «impressão nítida de que a opinião pública não estava preparada, mesmo onde acolhesse bem uma reforma, para sugerir uma reforma imediata num sentido determinado... A opinião esclarecida e organizada deveria, em cada país, analisar detidamente os princípios em que o problema assenta, e só assim se poderia escolher, quando chegar a ocasião, o mais conveniente de entre os vários sistemas. Deveria haver, especialmente, um novo exame, da parte das corporações religiosas que entre si se opõem, do princípio do "dia em branco"; uma discussão do assunto, em cada país, entre essas corporações e outras entidades interessadas na matéria; um exame por estatísticos e economistas da importância relativa da semana e do trimestre como unidades da vida económica, em oposição ao mês, para se estabelecer uma base para se determinar a escolha entre o ano de doze e o de treze meses; e uma definição das vantagens de uma reforma limitada». «É também essencial», continua a Comissão, «que as investigações neste sentido [...] sejam coordenadas e organizadas em cada país numa base oficial ou semioficial. Uma organização desta espécie tornaria possível o formar-se, nos principais países, aquele corpo de união pública que presentemente ainda não existe, e sem o qual seria prematuro tentar estabelecer qualquer acordo internacional .» 10-3-1933 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 201. 1ª publ.in Fama , nº4. Lisboa: 10-3-1933. [Carta a Armando Teixeira Rebelo -2 Ago. 1907] Hotel Brito, Portalegre. August 24th 1907. Venerável portion of earthly existence! In a few moments of concatenated mental activity, not unassisted by the carnal fumes of the alcoholic beverage — no more and no less than wine — not exclusive to this locality, my soul felt, like a mental sigh) the necessity of giving expression to its present state and tendencies to a friendly brain such as yours. Lonely and silente in my transitory place of existence in the hotel mentioned in the heading of this explosive epistle of an overburdened soul,   feeling the world around me morally cold and materially warm — below zero towards my soul and not far from 40 in relation to my body — in these distressing and inspiring circumstances the thought has come upon me that perhaps the indicting of this epistolary composition may be subjectively conductive to an alleviation of my earthly lot at this moment, may be the «balm in Gilead», dreamt of Poe, to my unsistered spirit . Hence this letter. Portalegre is a place where all a stranger can do is get tired of doing nothing. Its component qualities seem to me (upon deep and cautious analysis) to contain, in uncertain relative quantities, heat, cold, semi-Spanishdom and nothingness. The wine is good (though not from here, I think), but it is decidely alcoholic, especially when the water pitcher is at the other end of the table and you (that is I) forget to ask for it. The style of this letter may be «terminal» proof thereof. I shall register it that so brillant an offspring of my mind may not be lost in the post. The taking-to-pieces and packing of the printing office is taking a damned long time — poetically speaking, of course. — Nevertheless, the men have worked quickly enough and I have looked on (and off) with the greatest energy. I sincerely believe that if I were to remain here a month, I would have to go to Lisbon, afterwards to Bombarda Hotel. You can hardly imagine the hyperboredom, the ultra-get-tired of-everythingness, the absolute what-the-blooming hell-is-a-chap-to-do-hereability that reigns in my spirit! I found a book to read, but was unable to muster energy to read it. I am anxious to get back to Lisbon; yet I think I will have to stay here yet three days more. Alentejo seen from the train Nothing with nothing around it And a few trees in between None of which very clearly green, Where no river or flower pays a visit. If there be a hell, I 've found it, For if it ain' here, where the Devil is it? Fare thee well, F. Nogueira Pessoa 2-8-1907 Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas . Fernando Pessoa. (Introduções, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Publ. Europa-América, 1986. - 56. Tradução de António Quadros. 1ª publ. in Vida e Obra de Fernando Pessoa - História de uma Geração . João Gaspar Simões. Lisboa: Bertrand, 1951. Porque, (provado que o movimento não existe) (que todos os materiais com que é feito o universo estão em desacordo com a lógica), vê-se que, ou a lógica é a realidade e a verdade, ou o é o mundo, ou nenhum deles é verdadeiro e real. Se a lógica é real, nesse caso o mundo, não obedecendo a ela, é fundamentalmente ilógico e irreal portanto — indigno, em vista disso, do olhar da alma do sábio, da atenção. Coloquemos, portanto, noutra parte a necessária realidade. Se a realidade é o mundo e não a lógica, cessa o poder de qualquer raciocinador sobre as nossas ideias do mundo. Se realidade é sinónimo de ilogismo, de que valem argumentos contra qualquer coisa? Ou o critério da verdade é outro, ou não há critério da verdade — o que nos induz, no 1º caso a procurar achar, conforme podemos ou concebemos que podemos, esse critério; no 2º caso a, renunciando procurar esse critério, ou entregarmo-nos ao critério individual — à laia de Protágoras — como, tendo de natural o ser o que está na natureza e na naturalidade do indivíduo, ou desenvencilharmo-nos de todo não só de procurar qualquer critério de verdade, mas de nos importar com o que seja verdade ou não, indiferentes ao fundamental e sério das coisas. E considerados a lógica com o mundo como irreais, nada mais há senão desinteressarmo-nos da verdade e de a não procurar para sempre, porque não há emoção que no-la dê. Quem não vê, porém, que tanto vale dar a lógica por irreal ou a realidade por ilógica? Que as duas teorias se reduzem, fundamentalmente, a uma teoria só? — ao mesmo, donde partimos, desacordo entre a lógica e a realidade, pelo menos exterior, do universo... O argumento, porém, está incompleto. Criticamos tudo em vista da ideia de verdade. Resta-nos criticar essa ideia. Porque metemos, sem pensar, o pensamento numa vasilha cuja capacidade não sabemos. O que é a verdade, num anjo? Uma coisa que Cristo não soube definir. A noção de verdade é ela própria lógica. Se verdade , portanto, é uma noção oriunda da lógica , o que é realidade ? Não façamos crítica filológica! De resto talvez todo o filósofo seja um filólogo a sonhar. 1913? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 209. Lisboa, 6 de Dezembro de 1915 Meu querido Sá-Carneiro: Como lhe escrevo esta carta, antes de tudo, por ter a necessidade psíquica absoluta de lha escrever, V. desculpará que eu deixe para o fim a resposta à sua carta e postal hoje recebidos, e entre imediatamente naquilo que ficará o assunto desta carta. Estou outra vez presa de todas as crises imagináveis, mas agora o assalto é total. Numa coincidência trágica, desabaram sobre mim crises de várias ordens. Estou psiquicamente cercado. Renasceu a minha crise intelectual, aquela de que lhe falei mas agora renasceu mais complicada, porque, à parte ter renascido nas condições antigas, novos factores vieram emaranhá-la de todo. Estou por isso num desvairamento e numa angústia intelectuais que V. mal imagina. Não estou senhor da lucidez suficiente para lhe contar as cousas. Mas, como tenho necessidade de lhas contar, irei explicando conforme posso. A primeira parte da crise intelectual, já V. sabe o que é; a que apareceu agora deriva da circunstância de eu ter tomado conhecimento com as doutrinas teosóficas. O modo como as conheci foi, como V. sabe, banalíssimo. Tive de traduzir livros teosóficos. Eu nada, absolutamente nada, conhecia do assunto. Agora, como é natural, conheço a essência do sistema. Abalou-me a um ponto que eu julgaria hoje impossível, tratando-se de qualquer sistema religioso. O carácter extraordinariamente vasto desta religião-filosofia; a noção de forca, de domínio, de conhecimento superior e extra-humano que ressumam as obras teosóficas, perturbaram-me muito. Cousa idêntica me acontecera há muito tempo com a leitura de um livro inglês sobre Os Ritos e os Mistérios dos Rosa-Cruz. A possibilidade de que ali, na Teosofia, esteja a verdade real me «hante». Não me julgue V. a caminho da loucura creio que não estou. Isto é uma crise grave de um espírito felizmente capaz de ter crises desta. Ora, se V. meditar que a Teosofia é um sistema ultracristão—no sentido de conter os princípios cristãos elevados a um ponto onde se fundem não sei em que além-Deus — e pensar no que há de fundamentalmente incompatível com o meu paganismo essencial, V. terá o primeiro elemento grave que se acrescentou à minha crise. Se, depois, reparar em que a Teosofia, porque admite todas as religiões, tem um carácter inteiramente parecido com o do paganismo, que admite no seu Panteão todos os deuses, V. terá o segundo elemento da minha grave crise de alma. A Teosofia apavora-me pelo seu mistério e pela sua grandeza ocultista, repugna-me pelo seu humanitarismo e apostolismo (V. compreende?) essenciais, atrai-me por se parecer tanto com um «paganismo transcendental» (é este o nome que eu dou ao modo de pensar a que havia chegado), repugna-me por se parecer tanto com o cristianismo, que não admito. E o horror e a atracção do abismo realizados no além-alma. Um pavor metafísico, meu querido Sá-Carneiro! V. seguiu bem todo este labirinto intelectual? Pois bem. Repare que há outros dois elementos que ainda mais vêm complicar o assunto. Quero ver se consigo explicar-lhos lucidamente... (...) 6-12-1915 Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas . Fernando Pessoa. (Introduções, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Publ. Europa-América, 1986. - 122. 1ª publ. in Vida e Obra de Fernando Pessoa - História de uma Geração . João Gaspar Simões. Lisboa: Bertrand, 1951. As coisas são como que cúbicas; a nossa sensação delas plano-quadrada. Cada sensação pode dizer-se cúbica porque envolve um triplo: a coisa-em-si (seja ela o que for), a nossa percepção individual, e a nossa percepção extra-individual, isto é, hereditariamente fixada como individual, como social, humana, de ente. (Metafisicamente falando, este último género de percepção é o comum a tudo quanto existe, a quanto é universo de quanto é universo). (Talvez o elemento hereditário entre no individual ). s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 211. Lisboa, 14 de Março de 1916 Meu querido Sá-Carneiro: Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental — uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim. Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão intima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga. Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Marco, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto. No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora. Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se. Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas. Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no «Livro do Desassossego». Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto. As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual. Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes. De que cor será sentir? Milhares de abraços do seu, sempre muito seu Fernando Pessoa P. S. — Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si próprio que dele são tão características... Você acha-me razão, não é verdade? 14-3-1916 Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas . Fernando Pessoa. (Introduções, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Publ. Europa-América, 1986. - 123. 1ª publ. in Vida e Obra de Fernando Pessoa - História de uma Geração . João Gaspar Simões. Lisboa: Bertrand, 1951. What then is the power of reason to establish proof a priori ? Can these proofs co-exist? Does one eliminate the other? Are there here 2 different reasons concerned? These Categories must have some object. Determination. Can I prove to the objects whence l deduced my categories? Would it not be a circle? 1907? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 211. Alexander Search. Born June 13th. 1888, at Lisbon. Task: all not the province ol the others three. 1. «The Portuguese Regicide and the Political Situation in Portugal». 2. «The Philosophy of Rationalism». 3. «The Mental Disorder(s) of Jesus». 4. «Delirium». 5. «Agony». s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 148. Lisboa, 26 de Abril de 1916 Meu querido Sá-Carneiro: Recebi, como lhe disse no meu postal de ontem, as suas cartas de 17 e 18, assim como a carta para o Santa-Rita, que ontem entreguei ao irmão, ao encontrá-lo na Rua do Ouro. Você há-de ter estranhado o tempo que eu tenho levado para lhe escrever. É possível que se tenha, até, ofendido um pouco comigo. Peço-lhe, por amor de Deus, que o não faça. Eu vou explicar-lhe tudo, e a explicação é bem compreensível. Eu tenho tido, com efeito, bastante que fazer. Tenho tido, é certo, várias pequenas causas a tomarem-me muitos pequenos bocados de tempo. Mas não é por isto que eu lhe não tenho escrito como eu próprio desejaria ter feito. Em primeiro lugar, tenho o espírito feito em trapos por uma série de grandes apoquentações que me atacaram, e em parte atacam, simultaneamente. Você sabe bem qual o efeito desorientador de uma acumulação de pequenas arrelias. Imagine qual será o efeito de uma acumulação de grandes apoquentações. Uma grande apoquentação , só uma , não chega, muitas vezes, a valer, para o efeito de nos dispersar e banir de nós, sete ou oito ralações mínimas. Mas olhe que uma junção de arrelias grandes opera muito mais desastradamente sobre nós. De há meses para cá que tenho a pesar sobre mim a gravíssima doença de minha mãe. Ela teve aquilo a que se chama vulgarmente um «nisneto apopléctico» e ficou com uma paralisia em todo o lado esquerdo do corpo. Vai melhorando — segundo as cartas que recebo — mas tão lentamente, tão incertamente, que eu nunca posso tirar do meu espírito a pressão fria da incerteza a respeito dela. Já esta angústia, hoje consubstanciada comigo, me apoquenta e me desvaira. Acrescente-se-lhe o grande sofrimento que você — sem querer, é claro — me causou com a sua terrível crise. Não sei se você avalia bem até que ponto eu sou seu amigo, a que grau eu lhe sou dedicado e afeiçoado. O facto é que a sua grande crise foi uma grande crise minha, e eu sentia, como já lhe disse não só pelas suas cartas, como, já de antes, telegraficamente, pela «projecção astral» (como eles dizem) do seu sofrimento. Acrescente a estas duas graves razões para eu me apoquentar esta outra — que, à parte tudo aquilo, estou atravessando agora uma das minhas graves crises mentais. E imagine você que, para isto não ser tudo, essa crise mental é de várias espécies ao mesmo tempo, e por diversas razões. Sobreponha, agora, a isto tudo uma pressão de trabalho — não de um género, mas de várias espécies. Você calcula bem o que tem sido o resultado de tudo isto... Tenho desleixado tudo, fazendo só aquele trabalho que é absolutamente impossível não fazer. Tenho atrasado o meu trabalho de traduções. Há mais de um mês que tenho para traduzir um livro de 100 páginas pequenas, que, normalmente, eu traduziria em 5 dias. E ainda não tenho traduzidas senão 30 páginas! Vão sempre tarde as minhas cartas para minha família. Para você, você já sabe o que tem sido. É assim com tudo, numa força absurda de perder tempo, de navegar pela costa do Inútil, e outras metafrases análogas — que todas são poucas para o que hoje vivo. Isto serve para justificar a minha demora em escrever-lhe. Mas o facto de esperar ansiosamente notícias suas, para lhe escrever mais calmamente, tem, também, contribuído um pouco para esta demora. Peço-lhe, meu querido Sá-Carneiro, milhares de desculpas. Mas isto não podia ter sido senão assim. 26-4-1916 Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas . Fernando Pessoa. (Introduções, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Publ. Europa-América, 1986. - 125. 1ª publ. in Mário de Sá-Carneiro - Cartas a Fernando Pessoa. . Lisboa: Ática, 1951. Logic has not caused men to think; it has not taught them to reason. Men reason naturally. We cannot learn to reason; we can but learn how men reason. Not the practice, but the theory. Logic is a history, it observes facts; observes facts, systematizes them, studies their consequences and general laws. Logic is a science, not an art. For art teaches us to put into action our causative activity, and logic, as has been said, does not teach us to think. What is the object of logic? Object of a science is what constitutes it. Object of logic is demonstration. So said Aristotle and Ramus could not shake this argument. «Nirvâna is Being without individuality, for individuality, being conditioned to space and to time, necessarily includes Action, of which the existence in Nirvâna is the contradiction.» (Guikel). «When the Buddhist extols inaction, it is but as it seems to him the nearest human approach to Nirvâna, the only way he has of somehow laying a hand on time and on space. Laying a hand on time and on space by reducing them to themselves, by the elimination of their shallower attributes. Of these shallower attributes action is one.» (Guikel). s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 212. What is the concept of Nothing (Zero)? Is the idea of nothing absence of idea? And the idea of abstract Being? ls it not as vague? 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 25. Lisboa, 24 de Junho de 1916 Minha querida Tia: Muito lhe agradeço a sua carta de 13 e os parabéns que me traz. Muito agradeço também a carta do Raúl de 22 de Maio, a que responderei brevemente; creio que assim posso prometer, porque me sinto agora já um pouco melhor, já mais apto a não ter a inércia que tenho tido e que, como calcula, tem sido devida aos sucessivos choques nervosos por que tenho passado. Felizmente que chegaram (enfim!) de Pretória notícias acentuadamente boas. Excepto no que respeita ao braço, que está demorando em recuperar o movimento, o estado da Mamã melhorou muito. O estado mental está, enfim, normal. Aquela confusão mental que ela tinha, e que era o que mais me impressionava, desapareceu. E ela já sai do quarto, passando umas horas por dia na casa de jantar. Não sei o tratamento empregado agora. Sei que, a princípio, empregaram, com efeito, os choques eléctricos, mas suspenderam esse tratamento, porque, ao que parece, incomodava demasiadamente a doente. E suponho que naquela altura da doença não seria bom o incómodo natural dos choques. Se assim foi, já terão, suponho, retomado esse tratamento. Por enquanto não há nada em que, de positivo, se deva assentar com respeito à guerra e às tropas de aqui irem para fora. E creio, mesmo, que os rapazes na situação do Raúl não correm, por enquanto, grande risco de serem chamados. É claro que não posso afirmar isto, mas é o que consta aqui. Já se o Raúl estivesse cá, naturalmente teria, pelo menos, a maçada de uma «escola de oficiais» ou qualquer aparelho parecido. Sobre o estado nervoso em que tenho vivido, não tenho passado mal ultimamente. Também creio que não tem havido novidade na família, salvo que a Joaquina está umas vezes melhor, outras pior. Como eu tinha previsto, pela astrologia, a situação do Mário não só melhorou, mas parece tender para melhorar cada vez mais. Vamos agora ao caso misterioso que a interessa e que a tia Anica diz não poder calcular o que seja. Sim, não calcula, decerto eu próprio é o que menos esperaria. O facto é o seguinte. Aí por fins de Março (se não me engano) comecei a ser médium. Imagine! Eu, que (como deve recordar-se) era um elemento atrasador nas sessões semiespíritas que fazíamos, comecei, de repente, com a escrita automática. Estava uma vez em casa, de noite, tendo vindo da Brasileira, quando senti a vontade de, literalmente, pegar numa caneta e pô-la sobre o papel. É claro que depois é que dei por o facto de que tinha sido esse impulso. No momento, não reparei no facto, tomei-o como o facto, natural em quem está distraído, de pegar numa pena para fazer rabiscos. Nessa primeira sessão comecei por a assinatura (bem conhecida de mim) «Manuel Gualdino da Cunha». Eu nem de longe estava pensando no tio Cunha. Depois escrevi mais umas cousas, sem relevo, nem interesse nem importância. De vez em quando, umas vezes voluntariamente, outras obrigado, escrevo. Mas raras vezes são «comunicações» compreensíveis. Certas frases percebem-se. E há sobretudo uma cousa curiosíssima — uma tendência irritante para me responder a perguntas com números; assim como há a tendência para desenhar. Não são desenhos de cousas, mas de sinais cabalísticos e maçónicos, símbolos do ocultismo e cousas assim que me perturbam um pouco. Não é nada que se pareça com a escrita automática da Tia Anica ou da Maria — uma narrativa, uma série de respostas em linguagem coerente. É assim mais imperfeito, mas muito mais misterioso. Devo dizer que o pretenso espírito do tio Cunha nunca mais se manifestou pela escrita (nem de outra maneira). As comunicações actuais são, por assim dizer, anónimas e sempre que pergunto «quem é que fala?» faz-me desenhos ou escreve-me números. Mando-lhe, junta, uma amostra simples, que não é preciso devolver-me. Nesta há números e rabiscos, mas quase que não há desenhos. É o que tenho aqui à mão. É para verem como é o aspecto das minhas comunicações. É singular que, apesar de eu não perceber nada de tais números, consultei um amigo meu, ocultista e magnetizador (uma criatura muito curiosa e interessante, além de ser um excelente amigo) e ele disse-me cousas singulares. Por exemplo, eu disse-lhe uma vez que tinha escrito um número qualquer (de quatro algarismos) de que não me recordo agora. Ele respondeu-me que havia cinco pessoas na casa onde eu estava. E, com efeito, assim era. Mas ele não me diz de onde é que concluiu isso. Explicou-me apenas que esse facto de eu escrever números era prova da autenticidade da minha escrita automática — isto é, de que não era autosugestão, mas mediunidade legítima. Os espíritos — diz ele — fazem essas comunicações para dar essa garantia; e essas comunicações são, por isso mesmo, incompreensíveis ao médium, e de ordem que mesmo o inconsciente dele era incapaz de imaginar (?). Este meu amigo tem-me explicado outros números assim, com igual, e curiosa, segurança. Só houve três números que ele não compreendeu. Estou contando rapidamente, e claro, e necessariamente omito pormenores e detalhes interessantes. O que narro, porém, é o essencial. Não pára aqui a minha mediunidade. Descobri uma outra espécie de qualidade mediúnica, que até aqui eu não só nunca sentira, mas que, por assim dizer, só sentia negativamente. Quando o Sá-Carneiro atravessava em Paris a grande crise mental, que o havia de levar ao suicídio, eu senti a crise aqui , caiu sobre mim uma súbita depressão vinda do exterior , que eu, ao momento, não consegui explicar-me. Esta forma de sensibilidade não tem tido continuação. Guardo, porém, para o fim o detalhe mais interessante. É que estou desenvolvendo qualidades não só de médium escrevente, mas também de médium vidente. Começo a ter aquilo a que os ocultistas chamam «a visão astral», e também a chamada «visão etérica». Tudo isto está muito em princípio, mas não admite dúvidas. É tudo, por enquanto, imperfeito e em certos momentos só, mas nesses momentos existe. Há momentos, por exemplo, em que tenho perfeitamente alvoradas (?) de «visão etérica» — em que vejo a «aura magnética» de algumas pessoas, e, sobretudo, a minha ao espelho e, no escuro, irradiando-me das mãos. Não é alucinação porque o que eu vejo outros vêem-no, pelo menos, um outro, com qualidades destas mais desenvolvidas. Cheguei, num momento feliz de visão etérica, a ver na Brasileira do Rossio, de manhã, as costelas de um indivíduo através do fato e da pele . Isto é que é a visão etérica em seu pleno grau. Chegarei eu a tê-la realmente, isto é, mais nítida e sempre que quiser? A «visão astral» está muito imperfeita. Mas às vezes, de noite, fecho os olhos e há uma sucessão de pequenos quadros, muito rápidos, muito nítidos (tão nítidos como qualquer cousa do mundo exterior). Há figuras estranhas, desenhos, sinais simbólicos, números (também já tenho visto números), etc. E há — o que é uma sensação muito curiosa — por vezes o sentir-me de repente pertença de qualquer outra cousa. O meu braço direito, por exemplo, começa a ser-me levantado no ar sem eu querer. (É claro que posso resistir, mas o facto é que não o quis levantar nessa ocasião.) Outras vezes sou feito cair para um lado, como se estivesse magnetizado, etc. Perguntará a Tia Anica em que é que isto me perturba, e em que é que estes fenómenos — aliás ainda tão rudimentares — me incomodam? Não é o susto. Há mais curiosidade do que susto, ainda que haja às vezes cousas que metem um certo respeito, como quando, várias vezes, olhando para o espelho, a minha cara desaparece e me surge um fácies de homem de barbas, ou um outro qualquer (são quatro, ao todo, os que assim me aparecem). O que me incomoda um pouco é que eu sei pouco mais ou menos o que isto significa. Não julgue que é a loucura. Não é: dá-se até o facto curioso de, em matéria de equilíbrio mental, eu estar bem como nunca estive. É que tudo isto não é o vulgar desenvolvimento de qualidades de médium. Já sei o bastante das ciências ocultas para reconhecer que estão sendo acordados em mim os sentidos chamados superiores para um fim qualquer que o Mestre desconhecido, que assim me vai iniciando, ao impor-me essa existência superior, me vai dar um sofrimento muito maior do que até aqui tenho tido, e aquele desgosto profundo de tudo que vem com a aquisição destas altas faculdades. Além disso, já o próprio alvorecer dessas faculdades é acompanhado duma misteriosa sensação de isolamento e de abandono que enche de amargura até ao fundo da alma. Enfim, será o que tiver de ser. Eu não digo tudo, porque nem tudo se pode dizer. Mas digo o bastante para que, vagamente, me compreenda. Não sei se realmente julgará que estou doido. Creio que não. Estas cousas são anormais sim, mas não antinaturais. Pedia-lhe o favor de não falar nisto a ninguém. Não há vantagem nenhuma, e há muitas desvantagens (algumas, talvez, de ordem desconhecida) em fazê-lo. Adeus, minha querida Tia. Saudades à Maria e ao Raúl. Beijos ao Eduardinho. Para si muitos e muitos abraços do seu sobrinho muito amigo e grato Fernando 24-4-1916 Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas . Fernando Pessoa. (Introduções, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Publ. Europa-América, 1986. - 127. 1ª publ. in Vida e Obra de Fernando Pessoa - História de uma Geração . João Gaspar Simões. Lisboa: Bertrand, 1951. EREMITA A lógica é sempre a [...] da emoção. Todos os argumentos se equivalem; o que nada nos tocará pelo sentimento que os gera. Sendo assim, como achar a verdade? A lógica é o epifenómeno do sentimento. Em si um argumento não vale nada. Na ciência a lógica só serve para atar factos; na filosofia para atar sentimentos. A lógica não produz, liga. Nem sequer cria os argumentos , torna argumentos o que sentimos. 1910? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 214. PSICOLOGIA DA FÉ A fé considerada como fenómeno individual, social e filosófico. Propriamente analisada, a fé é um fenómeno de auto-intoxicação psíquica é uma ilusão da fé. A crença mais elementar é a crença na realidade absoluta do mundo e do universo. O tipo da verdadeira crença. A fé difere da crença? * A existência do mundo só pode ser objecto de uma crença — crença positiva ou negativa — mas de uma crença sempre. O conhecimento não chega aí. * A própria existência do mundo é uma crença nossa. Nada nos prova que existe uma coisa qualquer. É objecto dos nossos sentidos, diz-se; é como o que autoritariamente nos é ensinado. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 214. É o maior horror da alma Ver claro em pensamento que é profundo Ver o Terror Supremo! a ambição De morrer p'ra não pensar, já não Por duvidar — mas — oh maior horror! Por ver, por ver, por ver! s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 160. My first action was to inquire of myself whether man’s failure in the grounds of higher thought was due to want of reasoning power, or to an ill use of his reasoning. It appeared strange to me that we should [be] able to discuss these questions of metaphysics and of psychology with such subtlety, and yet be unable to come to any conclusion in these fields that it found not an immediate answer, and hence onward in an infinite progression. I concluded hastily that one of two hypotheses must be right: either man failled through improper or impersistent application of his intellect, or he failed by the want of a primary critique of reason. 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 215. Pálida, a Lua permanece No céu que o Sol vai invadir. Ah, nada interessante esquece. Saber, pensar — tudo é existir. Mas pudesse o meu coração Saber à tona do que eu sou Que existe sempre a sensação Ainda quando ela acabou... 4-3-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 135. The problem of the infinity and eternity of the world cannot be put, because we have no elements to solve it. 1910? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 70. Nem digam não, que o antigo cepticismo Chegou aqui. Dizer «Apenas sei Que nada sei» não é compreender Isto: que a verdade certa está Além do ser e do não ser, as duplas Formas do erro mais simples do pensar. A vazia e profunda negação Socrática é o exterior entre-sonhado Da minha negação calma e profunda. Toda a frase, expressão, pode partir D'alma ou dos lábios, e (...) dentro d'alma Dos lábios d'alma, ou d'alma da alma. Esta Diferença contém a diferença Entre o vazio cepticismo antigo, Mudo adivinhador não compreendendo A Força toda do que adivinhou... Entre isto e o meu pensar. Cheguei aqui. Nem daqui sair quero, nem queria Aqui chegar. Mas aqui estou e fico. Perdida ilusão, desilusão Tendo o sonho e o real por igualmente Falsos, e por certo tendo apenas A certeza e o orgulho de aqui estar. Pelos caminhos (...) da vida Desdenhando leituras, procurei Só a verdade — e a verdade é esta. (uma pausa) Não sei por quê — não sei... Antes quedasse Mesmo na dúvida. A desolação Onde hoje estou — dupla — de nada achar E de estar só em nada ter achado — Apavora-me. Há alegria na cidade, Há tristeza no campo solitário E no plaino desolado. Mas aqui. No alto píncaro do mais alto monte, Onde ninguém subiu nem subirá, Há um horror intenso. (Levanta-se tremendo de horror) Rezar não poder, sonhar, dormir, sim  iludir-me. Voltar ao erro. Voltar ao erro. Nunca! Não posso já dizer «Meu Deus». Ah, e era Doce dizê-lo! Ah a tristeza imensa De estar além da lágrima e do riso Como eu. Não poder rir, chorar, assim Como outros homens. Sim, mas valho mais! Para quê valer mais? Horror! Horror! Mistério, vai-te, esmagas-me! Ah partir Esta cabeça contra aquele muro E tombar morto. Mas a morte, a morte! Ah como a temo! Para onde fugir? Na vida nem na morte tenho abrigo. Maldito seja... Quem? Quem fez o Mal, Este que sinto! Ah, mas já nem posso Amaldiçoar. O Bem e o Mal são Formas de erro. Nem amaldiçoar! Ah o horror, o horror sinto ao vazio À roda de mim. Eu já não posso Amaldiçoar, nem ora dirigir-me A potências ou forças, pois já sei Que a verdade está além do concebível... Ah, horror supremo. Nem crer, nem descrer, Nem rir, nem chorar, morte nem vida Desejar. (Vê um frasco em cima da mesa) Ah dormir, talvez dormindo Esqueça tudo (Tira o frasco e deita com cuidado) Não haja eu, que em (horror) Dormir cuidando, fosse atingir O temido eterno sono! Só a ideia... Não mais. Basta. Está bem. Bebamos. (Bebe. Cambaleia. Vai à cadeira e aí cai inerte, sentado inclinado para trás) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 161. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.131). DOLORA Dantes quão ledo afectava Uma atroz melancolia! Poeta triste ser queria E por não chorar chorava. Depois, tive que encontrar A vida rígida e má. Triste então chorava já Porque tinha que chorar. Num desolado alvoroço Mais que triste não me ignoro. Hoje em dia apenas choro Porque já chorar não posso. 19-11-1908 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 13. SACADURA CABRAL No frio mar do alheio Norte, Morto, quedou, Servo da Sorte infiel que a sorte Deu e tirou. Brilha alto a chama que se apaga. A noite o encheu. De estranho mar que estranha plaga, Nosso, o acolheu ? Floriu, murchou na extrema haste; Jóia do ousar, Que teve por eterno engaste O céu e o mar. 12-1924 Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 1170. 1ª publ. in Athena , nº3. Lisboa: Dez. 1924. Dorme, criança, dorme, Dorme que eu velarei; A vida é vaga e informe, O que não há é rei. Dorme, criança, dorme, Que também dormirei. Bem sei que há grandes sombras Sobre áleas de esquecer, Que há passos sobre alfombras De quem não quer viver; Mas deixa tudo às sombras, Vive de não querer. 16-3-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 136. O medo intelectual da «morte» Não o instintivo e humano, mas o que nega e Cresce com o olhá-la e reflecti-la. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 163. When I think, when I consider it when I believe my hand upon the door, I love to turn back upon my reason, to say with horror yet with pleasure: «thou canst do nought!» Discover? Where? What can do this reason of ours? Believe? For what reason? By what reasoning must I believe? What proves to me that what I believe is true? To believe something of which I know nothing? I suffer. To believe in the unknown, is to believe in nothing (for to us the unknown is nothing). God, as conceived, is a material nought. Man’s name for him (to be the Reality of reality) is zero . And to believe in nothing, friend, is not to believe at all. — To believe in something of which I am not sure? It is to doubt. It is to suffer. It is as I feel now. — Where in the world can I find a thing true? In me? I am not the same as yesterday I was. It were necessary that there were no time, for in time things change and in time they become unsure. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 216. NOVA ILUSÃO No rarear dos deuses e dos mitos Deuses antigos, vós ressuscitais Sob a forma longínqua de ideais Aos enganados olhos sempre aflitos. Do que vós concebeis mais circunscritos, Desdenhais a alma exterior dos ritos E o sentimento que os gerou guardais. Lá para além dos seres, ao profundo Meditar, surge, grande e impotente O sentimento da ilusão do mundo. Os falsos ideais do Aparente Não o atingem — único final Neste entenebrecer universal. 6-11-1909 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 14. Je vous ai trouvée, Je vous ai retrouvée Car je vous avais rêvée Depuis tant de jours, Et je vous ai aimée, Oh, je vous ai aimée, Et je vous aimerai toujours. Non, je ne sais pas Si vous existez même, Ni ci se coeur las Peut vous trouver quand il vous aime. Car l'amour Parle toujours bas, Il a peur du prix [?] et des jours Mais, je vous aime, Oh, je vous aime, Et je vous aimerai toujours. Êtes-vous reine, Êtes-vous sirène ? Qu’importe à cet amour Qui vous en fait souveraine? Qu’importe même L’amour à l’amour Quand on aime, Et je vous aime, Oh, je vous aime, Et vous aimerai toujours. toujours toujours. 26-4-1935 Obra Poética e em Prosa. Vol. III. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 1473. Boca com olhos por cima Boca com olhos por cima Ambos a estar a sorrir... Já sei onde está a rima Do que não ouso pedir. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 49. Verdadeiramente Nada em mim sinto. Há uma desolação Em quanto eu sinto. Se vivo, parece que minto. Não sei do coração Outrora, outrora Fui feliz, embora Só hoje saiba que o fui. E este que fui e sou, Margens, tudo passou Porque flui. 6-4-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 137. A MORTE: Em mim acaba Mudo, profundo Como ruína que desaba Tudo o que vive e sente o mundo. A humanidade cujo rir É um esquecimento fundo Sabe, sem o analisar, Que em mim naufraga o sentir Nos rochedos do pensar. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 163. Toda a metafísica é a procura da verdade, entendendo por Verdade, a verdade absoluta. Ora a Verdade, seja ela o que for, e admitindo que seja qualquer coisa, se existe existe ou dentro das minhas sensações, ou fora delas ou tanto dentro como fora delas. Se existe fora das minhas sensações, é uma coisa de que eu nunca posso estar certo, não existe para mim portanto, é, para mim, não só o contrário da certeza, porque só das minhas sensações estou certo, mas o contrário de ser porque a única coisa que existe para mim são as minhas sensações. De modo que, a existir fora das minhas sensações, a Verdade é para mim igual a Incerteza e não-ser — não existe e não é verdade, portanto. Mas concedamos o absurdo que de que as minhas sensações possam ser o erro, e o não-ser (o que é absurdo, visto que elas, com certeza, existem) — nesse caso a verdade é o ser e existe fora das minhas sensações totalmente . Mas a ideia Verdade é uma ideia minha; existe, por isso dentro das minhas sensações: portanto, ou quero Verdade Absoluta e fora de mim, ou verdade existente dentro de mim — contradição, portanto, erro, consequentemente. A outra hipótese é que verdade existe dentro das minhas sensações. Nesse caso ou é a soma delas todas, ou é uma delas, ou parte delas. Se é uma delas, em que se distingue das outras? Se é uma sensação, não se distingue essencialmente das outras; e para que se distinguisse, era preciso que se distinguisse, essencialmente. E se não é uma sensação, não é uma sensação. — Se é parte das minhas sensações, que parte? As sensações têm duas faces — a de serem sentidas e a de serem dadas como coisas sentidas, a parte pela qual são minhas e a parte pela qual são de «coisas». É uma destas partes, que a Verdade, a ser parte das minhas sensações, tem de ser. (Se é de qualquer modo um grupo de sensações unificando-se ao constituir uma só sensação, cai sob a garra do raciocínio que conduz à hipótese anterior). Se é uma das duas faces — qual? A face «subjectiva»? Ora essa face subjectiva aparece-me sob uma das duas formas — ou a da minha «individualidade» una ou de uma múltipla individualidade «minha». No primeiro caso é uma sensação minha como qualquer outra e já fica refutada no argumento anterior. No segundo caso, essa verdade é múltipla e diversa, é verdades — o que é contraditório com a ideia de Verdade, valha ela o que valer. Será então a face objectiva? O mesmo argumento se aplica, porque ou é uma unificação dessas sensações numa ideia de um mundo exterior — e essa ideia ou não é nada ou é uma sensação minha, e se é uma sensação, já fica refutada essa hipótese; ou é de um múltiplo mundo exterior, e isso reduz-se às minhas sensações, então pluralidade de modos é a essência da ideia de Verdade. Resta analisar se a Verdade é o misto das minhas sensações. Essas sensações ou são tomadas como um ou como muitos. No primeiro caso voltamos à já rejeitada hipótese. No segundo caso a Verdade como ideia desaparece, porque se consubstancia com a totalidade das minhas sensações. Mas para ser a totalidade das minhas sensações, mesmo concebidas como minhas sensações, nuamente, a verdade fica dispersa — desaparece. Porque, ou se baseia na ideia de totalidade, que é uma ideia (ou sensação) nossa, ou não se apoia em parte nenhuma. Mas nada prova, mesmo, a identidade de verdade e totalidade. Portanto, a verdade não existe. Mas nós temos a ideia ... Temos, mas vemos que não corresponde a «Realidade» nenhuma, suposto que Realidade significa qualquer coisa. A Verdade é, portanto, uma ideia ou sensação nossa, não sabemos de quê, sem significado, portanto sem valor, como qualquer outra sensação nossa. Ficamos portanto com as nossas sensações por única «realidade», inútil que realmente tem aqui certo valor, mas é uma conveniência para frasear. De «real» temos apenas as nossas sensações, mas «real» (que é uma sensação nossa) não significa nada, nem mesmo «significa» significar qualquer coisa, nem sensação tem um sentido, nem «tem um sentido» é coisa que tenha sentido algum. Tudo é o mesmo mistério. Reparo, porém em que nem tudo pode significar coisa alguma, um «mistério» é palavra que não tem significação. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 218. Às vezes, em sonho triste Nos meus desejos existe Longinquamente um país Onde ser feliz consiste Apenas em ser feliz. Vive-se como se nasce Sem o querer nem saber. Nessa ilusão de viver O tempo morre e renasce Sem que o sintamos correr. O sentir e o desejar São banidos dessa terra. O amor não é amor Nesse país por onde erra Meu longínquo divagar. Nem se sonha nem se vive: É uma infância sem fim. Parece que se revive Tão suave é viver assim Nesse impossível jardim. 21-11-1909 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 15. Álvaro de Campos’ Ultimatum was published in the first and (at least up to now) only number of «Portugal Futurista», a literary publication the nature of which is sufficiently expressed by its title, which needs no translation. Having, through some inexplicable stroke of luck, passed the press-censors, the luck ceased when someone called the attention of the authorities to it, after the review was on the booksellers’ windows. The «PF» was immediately seized by the police, and proceedings instituted against all the authors colaborating. This (it is well to explain) was under the Democratic ministry which was thrown out of power by Sidónio Pais, with the Revolution of the 5th Decr. t917. Yet it is difficult to imagine how any ministry at all, when the country was at war, could allow the publication of the Ultimatum , which, original and magnificent as it is, and though not pro-German (being anti everything, Allied and German), contains scathing insults on the Allies, as also on Portugal and Brazil, the very countries for which the «PF» was certainly destined. My reason for translating the Ultimatum is that it is quite the cleverest piece of literature called into being by the Great War. We may stare at its theories as unspeakably excentric, we may disagree with the excessive violence of the introductory invective, but no one, I believe, can but confess that the satiric part is magnificent in its studied preciseness of application, and that the theoretic part, whatever we think of the value of the theories, has at least the rare merits of originality and freshness. These are good reasons why the Ultimatum should be translated, and the fact that, though it has been in print since Sept. 1917, I only now translate it, is due to the fact, which the perusal of the work will render evident, that no such publication could be printed while the war lasted. It remains to say something to the English reader both concerning the nature of the work and of the author. The tendency of the work is quite clear — the dissatisfaction at the constructive incapacity which characterizes our age, where no great poet, no great statesman, or even, all things well considered, no great general even, has made his appearance. Álvaro de Campos, speaking about the Ultimatum , said once to me: «This war is the war of the lesser pigmies against the greater pigmies. Time will show (this was said in January 1918) which are the greater, and which are the lesser, but they are pigmies one way and another.» «It matters little who wins the war, for a fool is sure to win it. It matters little what comes out of it all, for folly is sure to come. The age of physical engineering has already arrived (he characteristically added), but the age of mental engineering is yet far off. It shows how much we have receded from the Greek and Roman civilization and what a crime Christism has been against the substance of culture and progress.» «That low sophist, President Wilson», he once said to me, «is the type and symbol of our age. He has never said a concrete thing in his life. He could not say a concrete thing to save what I suppose he considers his soul.» These are almost the exact words, which, as they were spoken in English, I am less likely to forget. Álvaro de Campos was born in Lisbon on the 13th October 1890 and travelled extensively in the East and through Europe, staying chiefly in Scotland. 1919? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 406. Maman, maman. Ton petit enfant Devenu grand N’en est que plus triste. Maman, maman, Tu me manques tant Pourquoi t’ai je perdue? Mon coeur d’enfant Tont petit enfant De toujours, N’est-il devenu d’un grand Que pour te perdre de vue Et ne plus avoir ton amour? Maman, maman, Morte tu es sans doute Quelque part ou tu m’écoutes Vois: je suis toujours ton enfant Ton petit enfant Devenu grand, Et plein de larmes et de doutes. Et qui n’a a ni plaisir ni route. Dieu est peut-être bon, maman, Et un jour Où l’on ne pleurera ci-bas Où l’on ne m'y pleurera pas, Je reviendrai à ton amour Un petit enfant Pour toujours dans tes bras Maman, maman, oh, maman 27-4-1935 Obra Poética e em Prosa. Vol. III. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 1474. O que é vida e o que é morte Ninguém sabe ou saberá Aqui onde a vida e a sorte Movem as coisas que há. Mas, seja o que for o enigma De haver qualquer coisa aqui, Terá de mim próprio o estigma Da sombra em que eu o vivi. 10-4-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 138. Valendo mais ou menos entre si Várias formas de erro equidistantes No seu valor real e a só verdade Infinitamente inatingível. A verdade Intuitivamente, de repente Se compreenderia, sem a dúvida, Por todos; o universo não contém Esta verdade. Porque pois buscar Sistemas vãos de vãs filosofias Religiões, seitas, pensadorias Se o erro é a condição da nossa vida, A única certeza da existência? Assim cheguei a isto: tudo é erro, Da verdade há apenas uma ideia À qual não corresponde realidade. Crer é morrer; pensar é duvidar. A crença é o sono e o sonho do intelecto Cansado, exausto, que a sonhar obtém Efeitos lúcidos do engano fácil Que antepôs a si mesmo mais sentidos, Mais vistos que o usual do seu pensar. A fé é isto: o pensamento A querer enganar-se eternamente, Fraco no engano, (...) no desengano, Quer na ilusão quer na desilusão. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 163. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.96). —                                      ...Deus FAUSTO: Não descreio de Deus, passei p'ra além... Um dia, meditando Uma ideia espontânea e horrorosa Como um vulto supremo sem ter vulto, Surgiu no fundo do meu pensamento... Como a noite corporizada, e o medo Vestindo-a, e (...) Apareceu-me Deus em esqueleto... Tudo despira do seu corpo ideal Não de infinito só, de inatingível, Mas mesmo de mais do que inatingível. Até ao fundo do seu ser abstracto O meu ser despi, e eu vi o (...) Esqueleto (...) do Mistério... O informe tomou forma dentro em mim... Ah inda hoje, se relembro, sinto Como um medo no longe, um pavor negro Não em mim, mas em todo o Universo, Um arrepio pelas estrelas fora E um grande horror arrepanhando os céus Como à humana pele que tem medo... (treme) — Isso é um pensamento... FAUSTO: Se eu pensei Isto, se isto me foi possível É crível que a verdade seja Mais profunda que o meu pensamento. Como pensei eu cousas mais profundas Do que a verdade em si? Apareceu-me o Universo íntimo Do misterioso avesso... E eu vi, (...) O outro lado das cousas, não das cousas Aparentes apenas, mas o outro Lado até do Essencial, do Inaparente, Do além-divino e do Divino em Deus... Tinha a forma, sensível aos meus olhos Do espírito, dum imenso céu estrelado. Mas eu, com nítida visão de dentro, Via que era infinito, como se visse Em corpo e forma (...) [...] E sob o meu olhar apavorado Vi o nosso sistema do universo Mais perto... A ideia abstracta e nua, A vida extrema e última de nós. O Ser, o ser abstracto e (...) Era um sol — sol de (...) e seguia Como da circunferência para o centro (Não como nós que vemos sempre — e em sonho É o mesmo (do centro sempre p'ra o espaço, Real ou suposto nessa circunferência) — Eu vi, e cada sol e seu sistema Ia em outros sóis e outros sistemas Na órbita de sóis mais interiores (O centro de cuja circunferência Eu via em infinito para dentro, Não para fora como infinito mesmo) E o nosso mundo como um deus nele Era um mero satélite De um sol do só primeiro sistema Raiando a ideia sobre o seu mundo. Infinito interior ao interior! Pavorosa agonia do Profundo! Vacuidade e realidade negra De tudo! s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 66. Nuvens sobre a floresta... Sombra com sombra a mais... Minha tristeza é esta — A das coisas reais. A outra, a que pertence Aos sonhos que perdi, Nesta hora não me vence, Se a há, não a há aqui. Mas esta, a do arvoredo Que o céu sem luz invade, Faz-me receio e medo... Quem foi minha saudade? 21-8-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 157. ESTADO DE ALMA Inutilmente vivida Acumula-se-me a vida Em anos, meses e dias; Inutilmente vivida, Sem dores nem alegrias, Mas só em monotonias De mágoa incompreendida... Mágoa sem fogo de vida Que a faça viva e sentida; Mas a mágoa de mãos frias E inaptas para arte ou lida, Nem pra gestos de agonias Ou mostras de alma vencida. Nada: inerte e dolorida, A minha dor se extasia Por não ser, e tem só vida Para em torno a noite fria Sentir vaga e indefinida... 18-1-1910 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 17. Elle est si belle, La petite rebelle, Ce joyau de jeunesse; Elle est si belle Que mon coeur s’en blesse. Oh, quelle tristesse, Quel amour sans cris Car celle Qui est si belle Est toujours la femme d’autrui. Oh qu’importe Qu’elle le soit déjà Ou que mon destin ne comporte Que ne l’avoir obtenu pas? Ne pas l’avoir ou la perdre C’est le même amour sans cris Dans ce coeur meurtri. Oh, elle, Celle Qui est si belle, Est toujours la femme d’autrui. 28-4-1935 Obra Poética e em Prosa. Vol. III. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. - 1475. Sabes quem sou? Eu não sei. Outrora, onde o nada foi, Fui o vassalo e o rei. É dupla a dor que me dói. Duas dores eu passei. Fui tudo que pode haver. Ninguém me quis esmolar; E entre o pensar e o ser Senti a vida passar Como um rio sem correr. 12-4-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 139. Quando acorda p'ra vida o pensamento E sente a luz e (...) do existir Diz «Tudo é bom». Depois, exausto já O que ao ser a novidade (...) Exausta a variedade invariável Da vida, diz (...) «tudo é mau». Mas, acordando mais o raciocínio, Pensa que mal é o nome universal Do limitado que se sente Limitado, e diz «tudo é limitado E porque é limitado é tudo mau» E então como (...) uma esperança Nasce, de que outra vida possa vir E fazer esquecer ou relembrar Em loucas transcendências esta vida, [...] Mas se além vai o duro pensamento, Se mais pensa e mais (...) Vê que o mundo, o universo, enfim o Ser Transcende na sua essência incognoscível (Única essência, pois o ser é o ser) Bem e mal, limitado e ilimitado. E quanto o pensamento assoberbado Aqui chega e enfim se reconhece À verdade chegado, vê que a orla Da terra do pensar é procurar Ter um mar que (...) não navegue. A verdade esta é e eu a achei. Achei-a, não a achando; conheci-a, Reconhecendo-a sempre incognoscível, Não vulgarmente, com a isenção Do filósofo cinto em (...) Mas pensei-a sentindo-a, e assim estou, De ter chegado aqui pávido e mudo, Orgulhoso de ter chegado aqui, E orgulhoso e irado de não poder Manifestar (que palavras não o dizem) Aos homens o que sinto e o que penso E até onde penso e onde sinto. Nesta desolação de pensamento Minha alma rígida reside e sorve O fel do incognoscíel compreendido Pelos poros doridos do pensar. O incognoscível compreendido enfim E incognoscível sempre. Aqui ninguém Chega nem chegará. Orgulho vão. A que vens? Não sei eu o que tu és? s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 164. Ímpetos de dizer-lhe (....) acorda! Acorda, olha o mistério ao pé de ti! E assim pensando rio amargamente Dentro em mim rio como se chorasse. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 67. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.76). TÉDIO Não vivo, mal vegeto, duro apenas, Vazio dos sentidos porque existo; Não tenho infelizmente sequer penas E o meu mal é ser (alheio Cristo) Nestas horas doridas e serenas Completamente consciente disto. 12-5-1910 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 19. GLÁDIO A Alberto Da Cunha Dias Deu-me Deus o Seu Gládio, porque eu faça A Sua santa guerra. Sagrou-me Seu em génio e em desgraça As horas em que um frio vento passa Por sobre a fria terra. Pôs-me as mãos sobre os ombros e dourou‑me A fronte com o olhar: E esta febre de Além, que me consome, E este querer-justiça são Seu Nome Dentro em mim a vibrar. E eu vou, e a luz do Gládio erguido dá Em minha face calma. Cheio de Deus, não temo o que virá, Pois, venha o que vier, nunca será Maior do que a minha Alma! Orpheu , nº 3. (Lisboa: 1916) (Preparação do texto, introdução e cronologia de Arnaldo Saraiva.) Lisboa: Ática, 1984. - 35. Poema nº 3 de Orpheu , que não chegou a ser publicado. Inserido na Mensagem com o título D. Fernando. Tenho escrito muitos versos, Muitas cousas a rimar, Dadas em ritmos diversos Ao mundo e ao seu olvidar. Nada sou, ou fui de tudo. Quanto escrevi ou pensei É como o filho de um mudo — «Amanhã eu te direi». E isto só por gesto e esgar, Feito de nadas em dedos Como uma luz ao passar Por onde havia arvoredos. 12-4-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 140. Mundo confranges-me por existir. Tenho-te horror porque te sinto ser E compreendo que te sinto ser Até às fezes da compreensão. Bebi a taça (...) do pensamento Até ao fim; reconheci-a pois Vazia e achei horror. Mas eu bebi-a. Raciocinei até achar verdade, Achei-a e não a entendo. Já se esvai Neste desejo de compreensão Inatendido inalteravelmente, Neste lidar com seres e absolutos O que em mim por sentir me liga à vida E pelo pensamento me faz homem. Já não penso como antes, nem que existo Nem que existisse. E neste orgulho certo Fechado mais ainda e alheado Me vou do limitado e relativo Mundo em que arrasto a cruz do meu pensar. Com dolorosas incompreensões E com compreensões mais dolorosas s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 166. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.77). ELEGIA NA SOMBRA Lenta, a raça esmorece, e a alegria É como uma memória de outrem. Passa Um vento frio na nossa nostalgia E a nostalgia touca a desgraça. Pesa em nós o passado e o futuro. Dorme em nós o presente. E a sonhar A alma encontra sempre o mesmo muro, E encontra o mesmo muro ao despertar. Quem nos roubou a alma? Que bruxedo De que magia incógnita e suprema Nos enche as almas de dolência e medo Nesta hora inútil, apagada e extrema? Os heróis resplandecem a distância Num passado impossível de se ver Com os olhos da fé ou os da ânsia; Lembramos névoas, sonhos a esquecer. Que crime outrora feito, que pecado Nos impôs esta estéril provação Que é indistintamente nosso fado Como o sentimos bem no coração? Que vitória maligna conseguimos — Em que guerras, com que armas, com que armada? — Que assim o seu castigo irreal sentimos Colado aos ossos desta carne errada? Terra tão linda com heróis tão grandes, Bom Sol universal localizado Pelo melhor calor que aqui expandes, Calor suave e azul só a nós dado. Tanta beleza dada e glória ida! Tanta esperança que, depois da glória, Só conhecem que é fácil a descida Das encostas anónimas da história! Tanto, tanto! Que é feito de quem foi? Ninguém volta? No mundo subterrâneo Onde a sombria luz por nula dói, Pesando sobre onde já esteve o crânio, Não restitui Plutão [a ver?] o céu Um herói ou o ânimo que o faz, Como Eurídice dada à dor de Orfeu; Ou restituiu e olhámos para trás? Nada. Nem fé nem lei, nem mar nem porto. Só a prolixa estagnação das mágoas, Como nas tardes baças, no mar morto, A dolorosa solidão das águas. Povo sem nexo, raça sem suporte, Que, agitada, indecisa, nem repare Em que é raça e que aguarda a própria morte Como a um comboio expresso que aqui pare. Torvelinho de doidos, descrença Da própria consciência de se a ter, Nada há em nós que, firme e crente, vença Nossa impossibilidade de querer. Plagiários da sombra e do abandono, Registramos, quietos e vazios, Os sonhos que há antes que venha o sono E o sono inútil que nos deixa frios. Oh, que há-de ser de nós? Raça que foi Como que um novo sol ocidental Que houve por tipo o aventureiro e o herói E outrora teve nome Portugal... (Fala mais baixo! Deixa a tarde ser Ao menos uma extrema quietação Que por ser fim faça menos doer Nosso descompassado coração. Fala mais baixo! Somos sem remédio, Salvo se do ermo abismo onde Deus dorme Nos venha despertar do nosso tédio Qualquer obscuro sentimento informe. Silêncio quase? Nada dizes! Calas A esperança vazia em que te acho, Pátria. Que doença de teu ser se exala? Tu nem sabes dormir. Fala mais baixo!) Ó incerta manhã de nevoeiro Em que o rei morto vivo tornará Ao povo ignóbil e o fará inteiro — És qualquer coisa que Deus quer ou dá? Quando é a tua Hora e o teu Exemplo? Quando é que vens, do fundo do que é dado, Cumprir teu rito, reabrir teu Templo Vendando os olhos lúcidos do Fado? Quando é que soa, no deserto de alma Que Portugal é hoje, sem sentir, Tua voz, como um balouço de palma Ao pé do oásis de que possa vir? Quando é que esta tristeza desconforme Verá, desfeita a tua cerração, Surgir um vulto, no nevoeiro informe, Que nos faça sentir o coração? Quando? Estagnamos. A melancolia Das horas sucessivas [?] que a alma tem Enche de tédio a noite e chega o dia E o tédio aumenta porque o dia vem. Pátria, quem te feriu e envenenou? Quem, com suave e maligno fingimento Teu coração suposto sossegou Com abundante e inútil alimento? Quem faz que durmas mais do que dormias? Que faz que jazas mais que até aqui? Aperto as tuas mãos: como estão frias! Mão do meu ser que tu amas, que é de ti? Vives, sim, vives porque não morreste... Mas a vida que vives é um sono Em que indistintamente o teu ser veste Todos os sambenitos do abandono. Dorme, ao menos de vez. O Desejado Talvez não seja mais que um sonho louco De quem, por muito ter, Pátria, amado, Acha que todo o amor por ti é pouco. Dorme, que eu durmo, só de te saber Presa da inquietação que não tem nome E nem revolta ou ânsia sabes ter Nem da esperança sentes sede ou fome. Dorme, e a teus pés teus filhos, nós que o somos, Colheremos, inúteis e cansados O agasalho do amor que ainda pomos Em ter teus pés gloriosos por amados. Dorme, mãe Pátria, nula e postergada, E, se um sonho de esperança te surgir, Não creias nele, porque tudo é nada, E nunca vem aquilo que há-de vir. Dorme, que a tarde é finda e a noite vem. Dorme que as pálpebras do mundo incerto Baixam solenes, com a dor que têm, Sobre o mortiço olhar inda desperto. Dorme, que tudo cessa, e tu com tudo, Quererias viver eternamente, Ficção eterna ante este espaço mudo Que é um vácuo azul? Dorme, que nada sente Nem paira mais no ar, que fora almo Se não fora a nossa alma erma e vazia, Que o nosso fado, vento frio e calmo E a tarde de nós mesmos, baça e fria Como longínquo sopro altivo e humano Essa tarde monótona e serena Em que, ao morrer o imperador romano Disse: Fui tudo, nada vale a pena. 2-6-1935 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 125. Quanto mais fundamente penso, mais Profundamente me descompreendo. O saber é a inconsciência de ignorar, Mesmo quem sabe muito nada sabe. Quanto mais fundamente penso, sim, Mais fundamente me sinto ignorar, Mais fundamente sinto alguma coisa Além do que profundamente penso. E é isto que dizer me faz: eu penso Profundamente. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 68. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.97). Não sei o quê desgosta A minha alma doente. Uma dor suposta Dói-me realmente. Como um barco absorto Em se naufragar À vista do porto E num calmo mar, Por meu ser me afundo, Pra longe da vista Durmo o incerto mundo. 26-7-1910 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 20. I ABISMO Olho o Tejo, e de tal arte Que me esquece olhar olhando, E súbito isto me bate De encontro ao devaneando — O que é ser-rio, e correr? O que é está-lo eu a ver? Sinto de repente pouco, Vácuo, o momento, o lugar. Tudo de repente é oco — Mesmo o meu estar a pensar. Tudo — eu e o mundo em redor — Fica mais que exterior. Perde tudo o ser, ficar, E do pensar se me some. Fico sem poder ligar Ser, ideia, alma de nome A rnim, à terra e aos céus.. E súbito encontro Deus. s.d. «ALÉM-DEUS». Orpheu , nº 3. (Lisboa: 1916) (Preparação do texto, introdução e cronologia de Arnaldo Saraiva.) Lisboa: Ática, 1984. - 36. Poema nº 3 de Orpheu , que não chegou a ser publicado. Renego, lápis partido, Tudo quanto desejei. E nem sonhei ser servido Para onde nunca irei. Pajem metido em farrapos Da glória que outros tiveram, Poderei amar os trapos Por ser tudo que me deram. E irei, príncipe mendigo, Colher, com a boa gente, Entre o ondular do trigo A papoila inteligente. 12-4-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 141. Algum pronto a morrer pelo terror Da tempestade, que se encontra só Numa planície vasta, ou vasto oceano, E onde ele, sem abrigo ou falso abrigo, Logra, sem se iludir, qu'rer iludir-se Em terror, rugem (...) e desabam Os terrores em luz, e som e abismo Da tempestade e que, mais do que trémulo, Mais que convulso no terror extremo, Pensa já perto da loucura, quanto (...) Fugir mais do que em si, desaparecer, Sumir-se, dessentir-se (...) (...) Mais do que não viver por não sentir; E todo o horror das convulsões que os céus, O nosso todo, (...) ruge e estala E todo o corpo dele é um sentido Para sentir pavor, e cada poro É sentiente e consciente e agudo Em ter uma atenção de terror cheia; E o aflito e convulso nunca logra, Como na dor e na tristeza, ter Uma apatia e uma (...) Mas cada grito e laivo da tormenta Mais, mais e mais o faz viver e ser Para o medo, na estrada sem limites Que só o medo trilha; consciente Ah, horrorosamente consciente E pávido e convulso, nem dorido Nem (...) de mágoa ou de desejo Mas quer choraudo, ou (...) ou estorcendo-se, Unicamente do terror escravo E sempre mais o escravo do terror ( Assim eu sou. Assim meu pensamento É confrangido e apavorado além De tudo que sou, assim Cada poro da alma se me torna Um sentido para pensar, um alvo Ao terror, uma alma para ser Apavorada do mistério e (...) Mas não é sempre a tempestade, e em mim O mistério está sempre; e (...) torna Para a planície tão desabrigada Que só a tempestade nos encima. Não para mim no horror do pensamento Não só a toda a hora me confrange Mas não lhe fujo, não lhe fujo, horror! E ao terror do (...) ao menos quem morre No desespero e auge do pavor, Sabe que foge, mas a morte a mim (Oh supremo tormento que há no medo) Aproxima-me disso que me esmaga De apavorado. Quer em vida ou morte, O terror sob a forma do infinito Está comigo, desmedidamente Presente. Mas a tempestade Acabará, e há outro lugar onde Não há a tempestade. Mas a este Não lhe posso fugir nem conceber Que ele se acabe ou que se abata ou seja Outra coisa que não da alma minha No que de universal e permanente Tem. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 166. Não é o vício Nem a experiência que desflora a alma: É só o pensamento. Há inocência Em Nero mesmo e em Tibério louco Porque há inconsciência. Só pensar Desflora até ao íntimo do ser. Este perpétuo analisar de tudo, Este buscar duma nudez suprema Raciocinada coerentemente, É que tira a inocência verdadeira Pela suprema consciência funda De si, do mundo, de todos. Guarde, guarde Fora do vício e do vil mundo além Em gruta ou solidão o eremita; Se o pensamento vir tudo (...) Pensar, pensar e não poder viver! Pensar, sempre pensar, perenemente, Sem poder ter mão nele! Ah eu sorrio Quando às vezes eu noto o inconsciente Riso vazio do bandido, Rindo-se da inocência! Se ele soubesse O que é perder a inocência toda... Não a inocência vã do corpo ao olhar, Ou vulgar e banal conhecimento, Mas a inocência bela do viver; De sentir — seja mesmo como ele Esse (...) escravo do deboche-seja! Sentir um sentir que abertamente Se não ache vazio. O Tédio! O Tédio quem me dera Tê-lo! Se os (...) Soubessem o que eu sinto. Eles não pensam E eu... e eu... s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 68. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.110). Eis-me em mim absorto Sem o conhecer Bóio no mar morto Do meu próprio ser. Sinto-me pesar No meu sentir-me água... Eis-me a balancear Minha vida-mágoa. Barco sem ter velas... De quilha virada... O céu com estrelas É frio como espada. E eu sou vento e céu... Sou o barco e o mar... Só que não sou eu... Quero-o ignorar. 12-5-1913 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 21. II PASSOU Passou, fora de Quando, De Porquê, e de Passando..., Turbilhão de Ignorado, Sem ter turbilhonado..., Vasto por fora do Vasto Sem ser, que a si se assombra..., O universo é o seu rasto... Deus é a sua sombra. s.d. «ALÉM-DEUS». Orpheu , nº 3. (Lisboa: 1916) (Preparação do texto, introdução e cronologia de Arnaldo Saraiva.) Lisboa: Ática, 1984. - 37. Poema nº 3 de Orpheu , que não chegou a ser publicado. Se eu me sentir sono, E quiser dormir, Naquele abandono Que é o não sentir, Quero que aconteça Quando eu estiver Pousando a cabeça, Não num chão qualquer, Mas onde sob ramos Uma árvore faz A sombra em que bebamos, A sombra da paz. 20-4-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 142. O animal teme a morte porque vive, O homem também, e porque a desconhece. Só a mim me é dado com horror Temê-la por lhe conhecer a inteira Extensão e mistério, por medir O infinito seu de escuridão. Não que a conheça, não, nem compreenda Mas que como ninguém meço e compreendo Toda a extensão do seu mistério negro. Para esta minha dor não foram feitas Palavras que expressem e nem mesmo Sentimento que a sinta como tal. Dor que transcende o verbo e o sentimento Criando um sentimento para si Do qual o Horror é apenas a aparência Pensável e sensível do exterior. Indefinível sentimento fundo Que me foge quando eu a analisá-lo Me preparo e só deixa como um rasto Da fantásmica luz de escuridão À qual cerrar os olhos d'alma tenho. O horror cabe bem n'alma, mas aqui Não me cabe uma alma neste horror. Além Do vulgar medo à extinção suprema Há a épica aceitação da morte E além d'ambas este perder d'alma Num escurecido e lúcido terror. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 168. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.132). Essa simplicidade d'alma Possuída não só dos inocentes Mas até dos viciosos, criminosos De ter uma (...) Sem constantemente analisar O que vai no seu ser, essa pureza Que faz a vida leve mesmo ao mais Sério, que nunca nos de todo afasta Da criança em nós, essa simplicidade Perdi-a e só me resta um vácuo imenso Que o pensamento friamente ocupa. Medo da morte não; horror da morte. Horror por ela ser, pelo que é E pelo inevitável     (...) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 69. 1ª versão: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.88, 132). DEUS Às vezes sou o Deus que trago em mim E então eu sou o Deus e o crente e a prece E a imagem de marfim Em que esse deus se esquece. Às vezes não sou mais do que um ateu Desse deus meu que eu sou quando me exalto. Olho em mim todo um céu E é um mero oco céu alto. 3-6-1913 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 23. III A VOZ DE DEUS Brilha uma voz na noite... De dentro de Fora ouvi-a... Oh Universo, eu sou‑te... Oh, o horror da alegria Deste pavor, do archote Se apagar, que me guia! Cinzas de ideia e de nome Em mim, e a voz: Oh mundo, Sermente em ti eu sou-me... Mero eco de mim, me inundo De ondas de negro lume Em que para Deus me afundo. s.d. «ALÉM-DEUS». Orpheu , nº 3. (Lisboa: 1916) (Preparação do texto, introdução e cronologia de Arnaldo Saraiva.) Lisboa: Ática, 1984. - 37. Poema nº 3 de Orpheu , que não chegou a ser publicado. Flui, indeciso na bruma, Mais do que a bruma indeciso, Um ser que é coisa a achar E a quem nada é preciso. Quer somente consistir No nada que o cerca ao ser, Um começo de existir Que acabou antes de o ter. É o sentido que existe Na aragem que mal se sente E cuja essência consiste Em passar incertamente. 26-4-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 143. Morrer — esta palavra toda horror — Repito-a e re-repito-a para ver Se aumenta em mim 'té à compreensão O pensamento e sentimento vagos Que produz, e dos quais a intensidade Em contraste com esse vago imenso Faz dum horror um horror supremo; Repito sim —  Morrer —  e não obtenho Uma qualquer nitidificação Do desolado caos do meu ser. Agonia suprema! Suma dor Não poder eu — sem morte, sem (...) Tornar-me em um estranho inanimado D'inconcebida essência que encontrasse O impensável desejo da minha alma. Tudo é mistério e o mistério é tudo E a mais próxima forma, essa mais nossa A sua forma mais (...) É a morte. Uns têm — e é sofrer — o duvidar: Há Deus ou não há Deus? Há alma ou não? Eu não duvido, ignoro. E se o horror De duvidar é grande o de ignorar Não tem nome nem entre os pensamentos. Hesitar: «Há Deus ou não há?» é triste Mas saber: «Não há Deus» e perguntar «O que há então?» Aqui dúvida e ânsia Por humildes em dor não se concebem. Eu, Fausto, achei a ciência suprema Que o homem pode ter; nela encontrei O (...) de desolação D'ânsia, d'horror, de medo, de delírio, De hesitação, de estranheza na terra, De vacuidade em mim e em todo o mundo, E em todo o pensamento e em todo o Ser. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 169. ...Como condenado Que ligado   (...)   vê avançar Qualquer tormento atroz, qualquer horror, Eu, ligado à vida, vejo avançar A morte para mim; mas ao condenado, Inda no seu horror, lhe luz ao menos Uma sombra desesperada d'esperança, Inda o horror que espera não é aquele Horror da morte — não tem o intenso Carácter de inevitabilidade Que a morte tem. A mim nem esperança Nem suspeita de sombra de esperança Ocorre, mas o horror completo e negro. Isso que lhe aparece por resgate É o que eu temo! s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 69. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.133). Sou o fantasma de um rei Que sem cessar percorre As salas de um palácio abandonado... Minha história não sei... Longe em mim, fumo de eu pensá-la, morre A ideia de que tive algum passado... Eu não sei o que sou. Não sei se sou o sonho Que alguém do outro mundo esteja tendo... Creio talvez que estou Sendo um perfil casual de rei tristonho Numa história que um deus está relendo... 19-10-1913 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 24. IV A QUEDA Da minha ideia do mundo Caí... Vácuo além de profundo, Sem ter Eu nem Ali... Vácuo sem si-próprio, caos De ser pensado como ser. . Escada absoluta sem degraus.. Visão que se não pode ver Além-Deus! Além-Deus! Negra calma... Clarão de Desconhecido... Tudo tem outro sentido, ó alma, Mesmo o ter-um-sentido.. s.d. «ALÉM-DEUS». Orpheu , nº 3. (Lisboa: 1916) (Preparação do texto, introdução e cronologia de Arnaldo Saraiva.) Lisboa: Ática, 1984. - 38. Poema nº 3 de Orpheu , que não chegou a ser publicado. The Infinite is then the Possible. How does this possible realise itself? How is it realised? It is realised by numbers. But by how many numbers? By an infinite number of numbers (let the expression pass). The infinite then, in realising itself, realises itself as itself, by itself. In becoming other than itself it does but return to itself. (Cf. Hegel). Consider, the 1 has nor power to produce the 2, neither cardinally nor ordinally; not cardinally because the 1 is less than the 2, nor ordinally because it supposes the 2. The infinite is Quantity (in-se). Now numbers are quantity but not quantity-in-se. Cardinally, the 1 cannot produce the 2, for it is smaller. Note (Let there no mistake. In our mind thinking of the 1 makes us think, by association, on the 2; but this is in our mind, this is mentally altogether). It is the 2 that might produce the 1 for it is greater and contains it. But it could not produce the 3, nor the 3 the 4 and so on without stopping. We mount higher and higher, in the scale of numbers without ever attaining, so long as we keep to numbers, the limit which we desire. So we are bound to conceive something taken to be as, by paradox, the highest possible number. (Notice the word «possible»). Now this «highest possible number» is manifestly no number, for a number has always a number greater than it is. So we are taken to something which will contain and produce all numbers without being, and by that reason not being a number. (We must have, this is to say, something which is neither a number nor not a number). Again what is the reason of the word «produce», which we have employed? How can the Infinite (quantity-in-se) produce numbers? Is it a force that it should originate anything ? It is by colour that we observe colours, that we know colours. We possess the idea of colour. It is in this way that we know colour. 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 58. Nesta grande oscilação Entre crer e mal descrer Transtorna-se o coração Cheio de nada saber; E, alheado do que sabe Por não saber o que é, Só um instante lhe cabe, Que é o conhecer a fé — A fé, que os astros conhecem Porque é a aranha que está Na teia, que todos tecem, E é a vida que antes há. 5-5-1934 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 144. Em Mim Paro à beira de mim e me debruço... Abismo... E nesse abismo o Universo Com seu Tempo e seu Espaço é um astro e nesse Abismo há outros universos, outras Formas de Ser com outros Tempos, Espaços E outras vidas diversas desta vida... O espírito é antes estrela... O Deus pensado É um sol... E há mais Deuses, mais espíritos Doutras maneiras de Realidade... E eu precipito-me no abismo, e fico Em mim... E nunca desço... E fecho os olhos E sonho — e acordo para a Natureza... Assim eu volto a Mim e à Vida... Inclino o meu ouvido para mim E escuto... Um Deus Real e Verdadeiro Criou nosso universo em sua dupla Unidade divina de corpo e alma... E esse Deus, com seu Universo real e eterno, É um átomo num mundo de universos. Inextricavelmente Há outras realidades. É saber isto que me faz alheio À vida e pálido entre a humanidade... Deus a si próprio não se compreende. Sua origem é mais divina que ele, E ele não tem origem que as palavras Possam fazer pensar... Fecha as portas da Alma! Faze ruído! Agita, grito, o teu externo Ser, Encobre-me a Presença do Mistério! Pode ser que mundo possuamos Um paraíso eterno, e vida divina Seja (ó relâmpago do pensamento!) A realidade! A ilusão talvez Dure pra sempre... Quem criou um átomo Ainda por criar Pode criar uma ilusão eterna... Altitude! Altitude! Não respiro! Passei além da Realidade, ergui-me Acima da Verdade... Deus... O Ser O abstracto ser em sua abstracta ideia Esse próprio, o mesmo sonho divino (?( Apagou-se e eu fiquei na noite eterna Eu e o Mistério face a face... 6-11-1912 Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 70. 1ª versão inc: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966. p.83). V Braço sem corpo brandindo um gládio Entre a árvore e o vê-la Onde está o sonho? Que arco da ponte mais vela Deus?... E eu fico tristonho Por não saber se a curva da ponte É a curva do horizonte... Entre o que vive e a vida Para que lado corre o rio? Árvore de folhas vestida — Entre isso e Árvore há fio? Pombas voando — o pombal Está-lhes sempre à direita, ou é real? Deus é um grande Intervalo, Mas entre quê e quê?... Entre o que digo e o que calo Existo? Quem é que me vê? Erro-me... E o pombal elevado Está em torno na pomba, ou de lado? s.d. «ALÉM-DEUS». Orpheu , nº 3. (Lisboa: 1916) (Preparação do texto, introdução e cronologia de Arnaldo Saraiva.) Lisboa: Ática, 1984. - 39. Poema nº 3 de Orpheu , que não chegou a ser publicado. O mistério ruiu sobre a minha alma E soterrou-a... Morro Consciente! Quem sou? Não sei. Cego vou P'la noite sem mesmo a ver... Sou eu e habito o que sou Alheio ao meu próprio ser. Vivo outra vida que a minha, Nem sei o que é o vivê-la. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 71. 1ª versão: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). If anything, say, infinity exist, we may say that it possesses being . But if it possesses being what is itself that it should not be Being, but should possess it? If it be not Being it is not Being. What is that which is neither Being nor Not-Being? I believe we shall now find it. Being is immutable, Not-Being is immutable. That which is neither one nor the other must therefore have immutability on its essence. Movement, then, here is the essence of the world. Movement is not Being, but it is by Being. It is by Being: it exists. It is by Being; though a thing is incessantly passing to another thing, still that other thing is itself. A river does not pass to the sea. A river follows itself into the sea. Movement is also by Not-Being it is a perpetual ceasing to exist. But movement in itself is. It seems, it is true, that there can be in reasoning but Being and Not-Being, that which is not one must be the other. But, by experience, we take knowledge of movement. 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 70. EXPLICAÇÃO DE UM LIVRO Publiquei em Outubro passado, pus à venda, propositadamente, em 1 de Dezembro, um livro de poemas, formando realmente um só poema, intitulado Mensagem. Foi esse livro premiado, em condições especiais e para mim muito honrosas. pelo Secretariado de Propaganda Nacional. A muitos que leram com apreço a Mensagem, assim como a muitos que o leram ou com pouco apreço ou com nenhum, certas coisas causaram perplexidade e confusão: a estrutura do livro, a disposicão nele das matérias, e mormente a mistura, que ali se encontra, de um misticismo nacionalista, ordinariamente colado, onde entre nós apareça, ao espírito e às doutrinas da Igreja de Roma, com uma religiosidade, deste ponto de vista, nitidamente herética. Um fenómeno independente da Mensagem, e posterior à sua publicação, aumentou a perplexidade de uns e outros leitores do livro. Foi esse fenómeno o meu artigo sobre «Associações Secretas», inserto no «Diário de Lisboa», de 4 de Fevereiro [1935]. Esse artigo é um ataque a um projecto de lei sobre o assunto do título, e é, correlativamente, uma defesa integral da Maçonaria, contra a qual o projecto era dirigido, e a lei hoje se dirige. O artigo é patentemente de um liberal, de um inimigo radical da Igreja de Roma, e de quem tem para com a Maçonaria e os maçons um sentimento profundamente fraternal. Um leitor atento de Mensagem qualquer que fosse o conceito que formasse da valia do livro, não estranharia o anti-romanismo, constante, embora negativamente, emergente nele. Um leitor igualmente atento, mas instruído no entendimento ou ao menos na intuição das coisas herméticas, não estranharia a defesa da maçonaria em o autor de um livro tão abundantemente embebido em simbolismo templário e rosicruciano. E a este leitor seria fácil de concluir que, tendo as ordens templárias, embora não exerçam actividade política, conceitos sociais idênticos, no que positivos e no que negativos, aos da Maçonaria; e girando o rosicrucianismo, no que social, em torno de ideias de fraternidade e de paz ( Pax profunda, frater! ) é a saudação rosicruciana, tanto para Irmãos como para profanos), o autor de um livro assim seria forçosamente um liberal por derivação, quando o não fosse já por índole. Mas, de facto, fui sempre fiel, por índole, e reforçada ainda por educação — a minha educação é toda inglesa —, aos princípios essenciais do liberalismo, — que são o respeito pela dignidade do Homem e pela liberdade do Espírito, ou, em outras palavras, o individualismo e a tolerância, ou, ainda, em uma só palavra, o individualismo fraternitário. Há três realidades sociais — o indivíduo, a Nação, a Humanidade. Tudo mais é factício. São ficções a Família, a Religião, a Classe. É ficção o Estado. É ficção a Civilização. O indivíduo, a Nação, a Humanidade são realidades porque são perfeitamente definidos. Têm contorno e forma. O indivíduo é a realidade suprema porque tem um contorno material e mental — é um corpo vivo e uma alma viva. A Nação é também uma realidade, pois a definem o território, ou o idioma, ou a continuidade histórica — um desses elementos, ou todos. O contorno da nação é contudo mais esbatido, mais contingente, quer geograficamente, porque nem sempre as fronteiras são as que deveriam ser; quer linguisticamente, porque largas distâncias no espaço separam países de igual idioma e que naturalmente deveriam formar uma só nação; quer historicamente, porque, por uma parte, critérios diferentes do passado nacional quebram, ou tendem para o quebrar, o vasículo nacional, e, por outra, a continuidade histórica opera diferentemente sobre camadas da população, diferentes por índole, costumes ou cultura. A Humanidade é outra realidade social, tão forte como o indivíduo, mais forte ainda que a Nação, porque mais definida do que ela. O indivíduo é, no fundo, um conceito biológico; a Humanidade é, no fundo, um conceito zoológico — nem mais nem menos do que a espécie animal, formada de todos os indivíduos de forma humana. Uma e outra são realidades com raiz. A Nação, sendo uma realidade social, não o é material: é mais um tronco que uma raiz. O Indivíduo e a Humanidade são lugares, a Nação o caminho entre eles. É através da fraternidade patriótica, fácil de sentir a quem não seja degenerado, que gradualmente nos sublimamos, ou sublimaremos, até à fraternidade com todos os homens. Segue de aqui que, quanto mais intensamente formos patriotas — desde que saibamos ser patriotas —, mais intensamente nos estaremos preparando, e connosco aos que estão connosco, para um conseguimento humano futuro, que, nem que Deus o faça impossível, deveremos deixar de ter por desejável. A Nação é a escola presente para a super-Nação futura. Cumpre, porém, não esquecer que estamos ainda, e durante séculos estaremos, na escola e só na escola. Ser intensamente patriota é três coisas. É, primeiro, valorizar em nós o indivíduo que somos, e fazer o possível por que se valorizem os nossos compatriotas, para que assim a Nação, que é a suma viva dos indivíduos que a compõem, e não o amontoado de pedras e areia que compõem o seu território, ou a colecção de palavras separadas ou ligadas de que se forma o seu léxico ou a sua gramática — possa orgulhar-se de nós, que, porque ela nos criou, somos seus filhos, e seus pais, porque a vamos criando. (...) * A verdadeira origem deste artigo está numa circunstância pessoal: o de haver muitos — muitos para quem conhece poucos—que me confessaram não compreender como, depois de escrever Mensagem, livro de versos nacionalista, eu tinha vindo para o Diário de Lisboa defender a Maçonaria. Dessa circunstância pessoal e concreta tirei a razão e a substância deste artigo impessoal e abstracto. Nada e a ninguém importa o que faz e pensa um poeta obscuro ou o defensor (um pouco menos obscuro) da Ordem Maçónica; mas alguma coisa e a todos deve importar que se distinga o que estava confundido, se aproxime o que por erro estava separado, e haja menos nevoeiro nas ideias, ainda que não seja por elas que haja de se esperar D. Sebastião. Uma coisa, e uma só, me preocupa: que com este artigo eu contribua, em qualquer grau, para estorvar os reaccionários portugueses em um dos seus maiores e mais justos prazeres — o de dizer asneiras. Confio, porém, na solidez pétrea das suas cabeças e nas virtudes imanentes naquela fé firme e totalitária que dividem, em partes iguais, entre Nossa Senhora de Fátima e o senhor D. Duarte Nuno de Bragança. 1935 Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 433. Lidas, guerras... e guerras Porque é tudo tão falso e irreal Tão intimamente (um) sonho? s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 72. Quem lavra julga que lavra Quem lavra julga que lavra Mas quem lavra é o que acontece... Não me dás uma palavra E a palavra não me esquece. 10-9-1934 Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 49. Oc. But the real meaning of initiation is that this visible world we live in is a symbol and a shadow, that this life we know through the senses is a death and a sleep, or, in other words, that what we see is an illusion. Initiation is the dispelling — a gradual, partial dispelling — of that illusion. The reason for its secret is that most men are not adapted to understand it and will therefore misunderstand and confuse it if it be made public. The reason for its being symbolic is that initiation is not a knowledge but a life, and that man must therefore think out for himself what the symbols show, for thus he will live their life and not only learn the words in which they are shown. To say that Xt. is a symbol of the sun is to put the initiatory process the wrong way about. It is the sun that is the symbol of Xt. In other words, Xt. is the reality and the sun the illusion, Xt. the light and the sun the shadow. (The Ineffable is light, the GA body, the world shadow —the shadow cast by the dense when lit by the subtle. The light is in the circumference (?) and the shadow cast into the centre (?) — Has this anything to do with the pt. within the c.?) (Cf. the kabbalistic idea of En Soph drawing inwards, manifesting in and not out). To initiate a man by a complicated and more or less impressive ritual and then confide to him, under pledges of secrecy and oaths more or less terrible, that spring comes after winter—this could never have been the device of any initiatory body or system. Rather will it have been to teach him the contrary — that spring following winter is a symbol of greater things, that the natural is a figurement of the supernatural. This, carried to more or less detail, in symbol, then in doctrine, then in revelation, is the essence of all real initiations, from Eleusis to Kilwinning. Orders of init: (l) through symbols and (later) explanations in themselves symbolic — cf. Pike; (2) through symbolic doctrine, true on its level, and explanations no longer symbolic; (3) through direct though not necessarily spoken or uttered communication. I do not say that these things represent a truth and I do not say that they do not. I say that this is the meaning of initiation, that it is thus that initiation exists and that it is for those purposes that it exists. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 72. Para mim ser é admirar-me de estar sendo. Horror da Morte A ilusão da vida, é horrorosa; Mas o horror de pensar Que a morte quebra Essa ilusão numa realidade Reveladora da verdade certa! Oh, esse horror! s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 72. 1ª versão: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.89). Não sei se é sonho, se realidade, Se uma mistura de sonho e vida, Aquela terra de suavidade Que na ilha extrema do sul se olvida. É a que ansiamos. Ali, ali A vida é jovem e o amor sorri Talvez palmares inexistentes, Áleas longínquas sem poder ser, Sombra ou sossego dêem aos crentes De que essa terra se pode ter Felizes, nós? Ali, talvez, talvez, Naquela terra, daquela vez, Mas já sonhada se desvirtua, Só de pensá-la cansou pensar; Sob os palmares, à luz da lua, Sente-se o frio de haver luar Ah, nesta terra também, também O mal não cessa, não dura o bem. Não é com ilhas do fim do mundo, Nem com palmares de sonho ou não, Que cura a alma seu mal profundo, Que o bem nos entra no coração. É em nós que é tudo. É ali, ali, Que a vida é jovem e o amor sorri. 20-8-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 158. Initiation The paths of Mysticism and of Magic are often paths of delusion and of error. Mysticism means essentially trust in intuition; Magic means essentially trust in power. Intuition is an operation of the mind by which the results of intelligence are obtained without the use of intelligence. Power, in the sense of magical power, is an operation of the mind by which the results of continuous effort are obtained without the use of continuous effort. Both, however long they may take to operate, are short cuts to knowledge. In a certain sense both Mysticism and Magic are confessions of impotence. The Mystic is a man who feels that he has not the strength of thinking in him to get to truth by thinking. The Magician is a man who feels he has not the strength of will in him to get to truth (or to power) by strength of will. The idle girl who guesses things, or guesses at things, is a mystic within her shallow province; she is too lazy to try to know. The peasant woman who tries to keep her husband's love by charms and potions is a magician within her garret-frontiers; she is too ignorant and too weak to strive to do so by direct charm, by persistent seduction. In both cases there is an evasion. This does not mean — or, at least, it needs not mean — that the results of Mysticism or of Magic are necessarily wrong. It does mean, however, that there is no criterion by which we can distinguish a wrong from a right result in one path or the other. In the Gnosis, where we employ intellect, we have at least the ballast of reasoning; we can at least compare one «result» with another, examine whether they be contradictory either each within itself, or one in respect of the other. We may not reason well, but we do reason. If we go wrong it is because we go wrong and not because we are wrong, as in the other two paths. It is like adding up wrong, where the mistake is not in adding but in not adding well; adding is, nevertheless, the right system to get a total. This will be clear if we take simple, we might say current, examples of mysticism and of magic. A simple case of mysticism is the common type of intuition that is called «a hunch» in vulgar speech. A man has a hunch that a certain number will have the first prize in a lottery. Now and again the hunch comes out right, but we all know that for every time it comes out right there are thousands it comes out wrong. If it were not so, a gambling club would not be the great business proposition it always is. In this case, indeed, there is an easy way to check the rightness of the hunch: the lottery, once drawn, will show. But how is the mystic's hunch that he has attained unity with Christ to be proved or disproved? He says he knows, he feels... But the madman who thinks himself Christ or the king of some country is as sure of that as the mystic of his intuition. Take, again, a simple case of magic — spiritism. Spiritism is magic because it is evocation of the spirits of the dead to this life. A séance is made, the spirit of the departed X is evoked, the voice of the medium, the three-legged table or the planchette announces that it has appeared. How do we know that it has? The communication of things known only to one present may be a projection of the mind of that one present. The communication of things known only to the dead man, and afterwards verified, may be a communication from some force, or even spirit, other than the dead man's. And when the spirit gives information of its present abode, by what method do we ascertain if that information is right or wrong? I do not say that all that emerges in a séance or has emerged in séances is wrong; neither do I say that it is right: I say that there is no means of knowing the origin of the information thus received and where the information is concerning other worlds, or things otherwise unverifiable here, no means of knowing either its origin or its truth. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 75. “Essay on Initiation.” O desdobramento do eu é um fenómeno em grande número de casos de masturbação. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 421. O PRECONCEITO DA ORDEM Entre os vários preconceitos que salpicam as teses dos neo-monárquicos avulta, como grande mancha, o preconceito comtista da Ordem. Evidentemente que por "ordem" os seus defensores não entendem a mera ordem material e ostensiva, aquela que a polícia guarda. Entendem a ordem nos espíritos também, a disciplina íntima de onde resulta o bom funcionamento, físico como psíquico, da engrenagem social. Eles compreendem, de resto, que não há ordem só material, que é nos espíritos que a ordem começa. Posto isto, porém, há ainda a reparar que o conceito de ordem pode ser tomado em dois sentidos, consoante se entenda que ela existe, ou essencialmente na própria íntima constituição das forças sociais, ou essencialmente apenas no modo de essas forças se manifestarem. Se se entende que a ordem existe tanto mais perfeitamente quanto mais perfeita conformidade básica há nos ânimos, quanto mais íntima e real a submissão à orientação geral da sociedade em que se vive, chega-se, como conclusão rigorosa, a este resultado: que o ideal social dos defensores da ordem é uma sociedade absolutamente nivelada, de onde não possam emergir valores nem aristocracias. Porque esses valores e aristocracias ou hão-de agir no sentido da orientação geral dessa sociedade, ou em sentido contrário. Se agem em sentido contrário, são, perante o conceito da ordem que examinamos, criadores de anarquia e de dissolução. E se agem no sentido da orientação social, ou agem criando-a, ou representando-a. Se agem criando-a, pressupõe-se que a maioria dessa sociedade é uma massa inerte e morta, incapaz de esboçar uma orientação social — e, nesse caso, como puderam surgir esses valores e aristocracias, e o poder criador que se lhes supõe? como, se a sociedade onde, por hipótese, existem é uma sociedade onde, pela mesma hipótese, não poderiam existir? A hipótese só é admissível se essa "aristocracia" for de estrangeiros: mas não é, por certo, uma "ordem" imposta por estrangeiros que os nacionalistas querem defender. Se, por outra, esses valores e aristocracias não criam, mas simplesmente representam e dirigem uma orientação social geral, teremos este absurdo: individualidades superiores, e portanto acentuadas, que só pensam em se subordinar e se apagar; dirigentes e mandantes com a mentalidade típica dos mandados e dos dirigidos. A este repugnante igualitarismo nos arrasta o conceito da ordem, na primeira das suas duas formas possíveis. Mas não é esta, porventura, a "ordem" que os neo-monárquicos cantam. É no segundo dos dois sentidos apontados que tomam a palavra. A ordem existirá, portanto, não numa servil uniformização das orientações sociais, mas numa preocupação em que as manifestações delas sejam ordeiras. Isto é, cada partido político deve incluir, tácita ou expressamente, a preocupação da ordem no seu programa. Mediram bem os neo-monárquicos as consequências sociais terríveis que resultariam de tal orientação? Repare-se em que iríamos cair. Um partido político qualquer teria, além da preocupação das teorias políticas que o fazem tal, a preocupação da ordem. Tem de ter as duas preocupações com igual intensidade. Porque se está pronto a sacrificar a ordem à realização das suas teorias políticas, não tem, realmente, a preocupação da ordem. E se está pronto a sacrificar à ordem as suas teorias políticas, não é propriamente um partido político; pois que, tendo tais teorias, têm-nas por certo por essenciais à Pátria ou à Humanidade, e não vai sacrificar a Pátria ou a Humanidade à Ordem, que, em qualquer hipótese, só pode ter valor secundariamente à Humanidade ou à Pátria. Mas, se um partido político tem com igual intensidade determinadas teorias e a preocupação da ordem, ele, porque tem tais teorias e não outras, é fatalmente levado a crer que a verdadeira realização da ordem só pode ser obtida pela verdadeira realização dessas teorias. Porque não é de supor que um partido, que se preocupe com a ordem, julgue que os seus princípios partidários estão em desacordo com ela; nesse caso, ou não existia, ou seria um outro partido. Segue que a preocupação da ordem dará a um partido político uma vontade de dominar e de se impor absolutamente violenta, visto que é sentido como impreterivelmente necessário, para a manutenção da ordem, o seu domínio, o domínio dos princípios que representa. Donde se conclui que a preocupação da ordem, num partido político, eleva ao rubro as suas paixões; e que, portanto, num país onde todos os partidos tenham a constante preocupação da ordem, se estará em constante desordem e anarquia. É este, mesmo, o único modo de se chegar ao estado de anarquia social. Esse estado provém da excessiva preocupação da ordem. Queda assim feito em farrapos o preconceito da ordem, roto por todos os lados o papel em que os neo-monárquicos embrulham as suas teorias de contrabando. Mas isto, com certeza, embora oriente, não satisfará o leitor. Ele quererá saber, sem dúvida, qual seja, sobre este ponto, a verdadeira noção sociológica. É fácil fazer-lha ver. A ordem é nas sociedades o que a saúde é no indivíduo. Não é uma coisa: é um estado. Resulta do bom funcionamento do organismo, mas não é esse bom funcionamento. O homem normal só pensa na saúde quando está doente. Do mesmo modo, a sociedade normal só pensa na ordem quando nela aparece a desordem. O homem normal quando adoece, procura, não simplesmente sentir-se outra vez de saúde, mas atacar a doença; afastada ela, do seu afastamento resultará a saúde. De nada lhe serviria sentir-se de saúde, se essa sensação não proviesse do afastamento definitivo da doença, mas apenas da sua intermitência ou de uma anestesia qualquer. Na sociedade, semelhantemente: quando aparece a desordem, a sociedade sã procura logo. não manter a ordem, que pode ser provisória ou aparente, mas atacar o mal que produziu a desordem. A exclusiva preocupação da ordem é um morfinismo social. Levemos até ao fim esta justíssima analogia. No indivíduo, a constante preocupação da saúde é um sintoma de neurastenia, ou de males psíquicos mais graves ainda. Na sociedade, paralelamente, a preocupação da ordem, é uma doença de espírito colectivo. Se os argumentos que acima expus não bastaram para insinuar esta conclusão no ânimo do leitor, ele pode verificar de todo a hipótese, reportando-se às circunstâncias sociais em que nasceu a moderna preocupação da ordem, e à espécie de cérebro onde ela surgiu definidamente. Apareceu ela num período perturbado e anormal da política francesa e em plena vigência da doença chamada romantismo. É, caracterizadamente, uma ideia romântica. O seu criador filosófico, o infeliz chamado Augusto Comte, toda a vida sofreu de alienação mental. 13-5-1915 Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 89. 1ª publ. in Eh real! , nº 1, Lisboa, 13 Maio 1915; 2ª publ. in Portugal , nº 1, Lisboa, 12-12-1915 Init. (Occ.) It is difficult, of course, to understand what is meant by Union with God, but some idea may be given of what it is intended to mean. If we assume that, whatsoever may have been (apart from the falseness of using a tense, which implies time) the manner of God's creation of the world, the substance of that creation was the conversion by God of His own consciousness into the plural consciousness of separate beings The great cry of the Indian Deity, «Oh that I might be many!» gives the idea without the idea of reality. Union with God means therefore the repetition by the Adept of the Divine Act of Creation, by which he is identical with God in act, or manner of act, but, at the same time, an inversion of the Divine Act, by which he is still divided from God, or God's opposite, else he were God Himself and no union were required. The Adept, if he succeed in making his consciousness one with the consciousness of all things, in making it an unconsciousness (or unselfconsciousness} which is conscious, repeats within himself the Divine Act, which is the conversion of God's individual consciousness into God's plural consciousness in individuals. But, at the same time, he thus reaches back to the plurality God attained when making that whole of which he is a part, and, in repeating God's Act, he is really inverting it, and, in inverting it, going back on the way to God, and thus attaining union with God. If we represent the whole scheme of this by two equilateral triangles on the same base, each, so to speak, opposite to the other, we shall obtain a clear idea, or an idea as clear as possible, of the method of attainment. God, apex of the upper triangle, opens out into the base, and the base narrows down into the castdown apex of the lower triangle. From the apex of the lower triangle there is ascent into the base-line of both: thus the descent of God is repeated upwards, and, at the same time, there is ascent towards God. Now this, whichever way it be considered, leads us to the peculiar theory of three types of consciousness: the Divine Consciousness, the World Consciousness, and the Individual Consciousness. In the first identity is absolute, there being neither subject nor object. In the second the subject has made itself its own object, and, being infinite because indivisible, becomes objectively infinite, that is infinite because infinitely divisible. In the third the subject has made itself as object its own subject, and has taken consciousness of itself, and therefore consciousness of itself in every infinitesimal element of that object. The more each infinitesimal subject makes itself an object unto itself, the more it approaches the first back-step to the Supreme Consciousness. From this it will eventually pass to annulling this, and going back to the primal stage of Divine consciousness. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 77. “Essay on Initiation.” [Sobre DESAPARECIDO, de Carlos Queiroz] A beleza do livro começa pelo livro. A edição é lindíssima. A beleza do livro continua pelo livro fora: os poemas são admiráveis. Não se pode dizer deste livro o que é vulgar dizer-se, elogiosamente, de um primeiro livro, sobretudo de um jovem: — que é uma bela promessa. O livro de Carlos Queiroz não é uma promessa, porque é uma realização. Cumpriu, sem ter prometido, sem ter tido que prometer. Assim se deveria fazer sempre, ou quase sempre. Pertence ao mais íntimo da probidade literária e artística o não se apresentar ao público sem ter plena consciência de que na obra apresentada está tudo quanto em nós haja de forte. Não escrevia Milton um soneto sem que o fizesse como se desse soneto dependesse toda a sua fama futura. E que prazer o de se poder escrever isto sem que a amizade que tenho pelo poeta, que é muita, uma só palavra me dite; sem o que o gosto de incitar quem é jovem, e tenho esse gosto, me faça sublinhar uma só frase; de poder escrever isto sem mais entendimentos que com a justiça, sem mais combinações que com a verdade. 1935 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 223. 1ª publ. in Revista de Portugal, nº 2. Coimbra: Jan. 1938. O meu sentimento é cinza Da minha imaginação, E eu deixo cair a cinza No cinzeiro da Razão. 12-6-1935 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 132. INTEGRALISMO Qual é a "verdade portuguesa"? Há três nacionalismos: (1) O nacionalismo tradicionalista. (2) O nacionalismo integral — Pascoaes. (3) O nacionalismo sintético (ou cosmopolita). s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 90. Initiation How, then, is a man who seeks «initiation» to train himself for it? How, in other words, is he to take within himself the Neophyte Grades of the Inner Order? He should begin by making himself acquainted with philosophical systems and with such philosophy as emerges, rightly or wrongly, from the more recent acquisitions of science. Once thus grounded, he should reflect and compare, putting system against system, theory against theory, and part of each system against other parts. He will thus develop his abstract intelligence, without which the intuition he seeks to develop will be no more than emotion. He should begin by stripping himself of all dogmatic prejudices, of all things that have been put into his mind by education and custom. The path of initiation cannot be reached through the portals of any of the churches, but either through the portals of all at the same time, or by the portals of none. He should next make himself acquainted with religious systems of all kinds, with philosophic systems and ......(ut supra). He should then elaborate, as well as he can, a system of his own, build up slowly, out of what he has learnt, and not necessarily writing it, a system, as coherent as he can make it, of the interpretation of the universe in the triple lines of truth, beauty and conduct. He will then proceed to abandon the system he has formed. He will have come to love it, but it is now for him to reflect, that it is not worth more than the other philosophic systems, which has compared among themselves, and, since he has established his own system, rejected. He will thus have traversed the four stages which are the temptation of the World — Dogma, Concrete Intelligence or Science, Abstract Intelligence or Philosophy, and Critical Intelligence. Dogma, by which he is tied to others; Science, by which he is tied to Nature; Philosophy, by which he is tied to the minds of others; his own philosophy, by which he is tied to himself. For the World is all these. Once he has passed these four stages of the Neophyte stage, he is ready for initiation. It lies then with him to choose on which path he shall make it — if on the mystical, the magical or the gnostic path. It is juster to say the path on which he shall begin to make it, for the full initiation in the Adept Stage includes all three. In the first Adept Grade he will take the one path he has chosen and complete his way in it; in the second Adept Grade he will take one of the other two paths; in the third Adept Grade he will take the one that remains. He has to conquer the three temptations which are under the Flesh — lusts, which are conquered by mysticism; indecisions, which are conquered by magic; delusions, which are conquered by the gnosis. He has to conquer It will be said that this makes initiation X very difficult task. It makes it because so it is. Why should initiation be easy? It will be said that only a man of special intelligence can take the neophyte grades, since to be grounded in philosophy the capacity for abstract reasoning is required, and not all men possess it. But why should all men be fit for initiation? If it be said that that is unjust we may reply, either that why should the universe be just? which is perhaps a wrong, but is certainly a sufficient, reply; or that the question is put on the assumption that there is no development in the world, otherwise that the man is ended in one span of earthly life, and that it is possible that reincarnation be true, when there is no injustice but only degrees, as in outer life itself there are degrees in strength, beauty, intelligence and the like. A man can at least yearn for initiation, and, if abstract intelligence is the first stage in the path and he has not abstract intelligence, he can at least yearn for it; it costs him as much, or as little to yearn for intelligence as for initiation, and he is really yearning for the same thing in the proper order when he yearns for intelligence. (The mystic without intelligence has not attained the first Adept Grade: he has no more than attained the intergrade between the Neophyte and the Adept Grades, the blank purgatory of wrong ascent). s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 78. “Essay on Initiation.” ANTÍGONA Como te amo? Não sei de quantos modos vários Eu te adoro, mulher de olhos azuis e castos; Amo-te co'o fervor dos meus sentidos gastos; Amo-te co'o fervor dos meus preitos diários. É puro o meu amor, como os puros sacrários; É nobre o meu amor, como os mais nobres fastos; É grande como os mares altíssonos e vastos; É suave como o odor de lírios solitários. Amor que rompe enfim os laços crus do Ser; Um tão singelo amor, que aumenta na ventura; Um amor tão leal que aumenta no sofrer; Amor de tal feição que se na vida escura É tão grande e nas mais vis ânsias do viver, Muito maior será na paz da sepultura! Ilha Terceira 6-1902 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 121. 1ª publ.:«Sonetos de Amor». José Blanco. in Colóquio-Letras , nº 88. Lisboa. F. C. Gulbenkian, Nov. 1985. NÓS OS DE «ORPHEU» Anunciou Almada, no segundo número de «SW», que neste terceiro se inseriria colaboração dos que foram de Orpheu . Cumpre-se. Procurámos coordenar, Almada e eu, produções inéditas de quantos figuram literariamente na revista extinta e inextinguível a que ambos pertencemos. Excluídos, por motivo de estreiteza de tempo e largueza de distância, os dois colaboradores brasileiros — Ronald de Carvalho e Eduardo Guimarães — conseguimos que estivessem presentes todos os outros, com duas excepções, uma delas atenuada com o sacrifício do ineditismo. De Ângelo de Lima, como nada descobríssemos de inédito, decidimos publicar aquele extraordinário soneto — dos maiores da língua portuguesa — em que o poeta descreve a sua entrada na loucura, em que longos anos viveu e em que morreu. O soneto, se não é inédito, está contudo esquecido. Publicando-o, não deixamos de, saudosamente, fazer lembrar quem, não sendo nosso, todavia se tornou nosso. Nada porém foi possível incluir de Cortes-Rodrigues, que é directamente de Orpheu , e os poemas de cuja personalidade inventada, Violante de Cysneiros, são uma maravilha subtil de criação dramática. Neste caso a dificuldade foi, como no dos brasileiros, geográfica: estas produções foram coordenadas à pressa, Cortes-Rodrigues vive nos Açores. Aqui lhe deixamos, num abraço, a expressão da nossa camaradagem de sempre; e o perpetrador destas linhas, velho amigo seu, acrescenta a ela o desejo de que Cortes-Rodrigues se não embrenhe demasiado, como de há tempos se vai embrenhando, no catolicismo campestre, pelo qual facilmente se aumenta o número de vítimas literárias da pieguice fruste e asiática de S. Francisco de Assis, um dos mais venenosos e traiçoeiros inimigos da mentalidade ocidental. Quanto ao mais, nada mais. Cá estamos sempre. Orpheu acabou. Orpheu continua. 1935 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 227. 1ª publ. in “Sudoeste”, nº 3. Lisboa: Nov. 1935. Divisão das teorias integralistas: (1) o preconceito tradicionalista; (2) o preconceito nacionalista; (3) o preconceito da Disciplina; (4) o preconceito da ordem; (5) o preconceito anti-democrático e anti-individualista. O sociólogo são, em vez de ir buscar ao passado e ao estrangeiro, sem crítica nem reflexão, as doutrinas que bóiam à tona da época, voltará, antes, a sua atenção para as circunstâncias mesológicas que constituem o ambiente nacional e civilizacional do povo sobre quem dirige a sua investigação. Procurará estabelecer quais são as correntes que caracterizam a época, e quais serão, portanto, as disciplinas inerentes a essas correntes. Que este estudo seja mais difícil que a adopção singela de teorias estranhas, ninguém o poderá duvidar. Que um dispêndio de atenção e de vontade, uma concentração paciente, uma reflexão desapaixonada a sólida constituam as bases desta atitude, e, constituindo-as, se mostrem muito mais duras tarefas que a de imitar e compilar, isso também ninguém porá em dúvida. Os caminhos da verdade, porém, — não falo já da inatingível verdade essencial das coisas, mas da comezinha verdade pragmática, da verdade transitória da acção — são ásperos e estreitos, como todos os que os trilharam souberam dolorosamente. Eu não esperaria dos novos defensores de el-rei que fizessem esta obra. Não a faz qualquer, porque é preciso que um génio a faça. E muito menos a poderá fazer aquele que de antemão se prenda a uma doutrina, tradicionalista ou outra, agindo não como pioneiro do pensamento, mas como soldado raso de uma ideia externa. Os novos patriotas, se deveras (como creio) o são, tinham amplo campo para uma actividade criadora, se tal actividade os atraí, na pugna por aqueles interesses da Pátria que dentro de todas as teorias , excepto aquelas teorias extremas que excluem a própria ideia de pátria, são necessários e justos. Porque não pugnar por que os homens competentes sejam postos nos lugares que lhes competem? Porque não abrir uma campanha em favor das realidades úteis, indiscutíveis — a abolição da corrupção na vida política, a eliminação dos empecilhos partidários, tanta coisa cuja justiça toda a gente vê. A unilateralidade de cultura dos integralistas prejudica gravemente a sua acção intelectual, no que valiosa. Não vivem fora da cultura francesa. Podem conhecer autores alemães, ingleses, italianos — mas conhecem-nos através do estado de espírito criado pela cultura francesa. A maneira mais simples de fazer surgir num país uma ideia nacional é o conflito de culturas — atirar para dentro desse país mais do que uma influência estrangeira; uma neutralizará a outra, e no esforço de as confrontar e assimilar, o país desenvolve um espírito próprio, descobre-se finalmente, encontra-se. O nacionalista tradicionalista vai ao passado para descobrir o presente. O nacionalista integral vai ao presente e ao passado para descobrir o presente. O nacionalista cosmopolita busca o presente apenas no presente (ex????). Como se propõem os integralistas acordar o sentimento nacional? Pela tradição. Mas a tradição está quebrada, sobretudo nas classes dirigentes, que estão em contacto com o estrangeiro; onde não está quebrada , representa, não um nacionalismo, mas uma improgressividade chapada; é inconsistente e contraditória consigo própria. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 91. the essay on INITIATION There were three reasons why, in the pagan religions, certain truths, or things thought to be truths, were delivered only in secrecy and apartness, by initiation. The first reason was a social one: it was thought that those certain truths were unfit for delivery to any man, unless he was in a certain measure prepared to receive, and that they would have disastrous social effects if they were made public, for that would mean that they would be misunderstood. «Etiamsi revelare destruere est...» The second reason was a philosophic one: it was thought that, in themselves, such truths were not of a kind that the common man could understand, and that mental confusion and therefore unbalance in conduct would result from their being uselessly communicated to him. The third reason was, so to speak, a spiritual one: it was thought that such truths, being truths of the inner life, should not be communicated but suggested, and that the suggestion should be impressive, it had to be girt round with secrecy, that it might be felt to be valuable, with ritual, that it might impress and astonish, with symbols, that the candidate be forced to work out his own way, by striving to interpret the symbols, instead of thinking himself full of knowledge, if communication had been made by dogmatic or philosophic teaching. I do not say that these three reasons stood clear, either severally or together yet divided thus, in the minds of the ancients, priests or laymen of their religions. But I do say that, if not by direct intelligence, then at least by intuition, they based their religions on this divisional scheme. The religions of the ancients, and preeminently so the pagan religions of Greece and Rome, which are those that most concern us, since our minds are their children, were divided into three forms. There was a social form, the cultus, which was of the man as citizen. There was an individual form, the poetry, which was of the man as non-citizen; the cultus duly fulfilled, he could interpret to himself the gods as he chose and elaborate their legends as he best thought fit. And there was a secret form, initiation, which participated in secrecy of the characteristics of both: it was individual, because (even when initiation is collective, as it was in the great pagan Mysteries) it is always the individual who is initiated and not the group; it was social, because initiation was communicated in ritual and ritual is social. Which with the Christians is rarely linked or fused with poetry as it was with the pagans. (We will not understand the middle ages until we understand that theology was their poetry, that the lack of poetry then was but the presence of poetry under another form). All religions, however, are in the same state as the great pagan religions. The three forms of religion will be found, one way or another, in all. In the Christian religions, for instance, we have the public cult, be it highly ceremonial, as in the Roman Church, or poor to nakedness, as in the extreme Protestant dissensions; we have the individual religion, meaning the personal reflection on the dogmas and formulae of faith, and this is theology where (with the pagans) it was rather poetry; and we have the inner life of the Christian, which is his initiation, for in the Christian religions initiation is considered as given by Christ alone mystically, not by any priest or hierophant ritually or ceremonially. In other words — the exacter meaning of which will be understood later —, pagan initiation moved towards Magic, as all ritual initiations do, Christian initiation moved towards Mysticism, as do all meditative initiations; it will also be seen later that there is a third type of initiation. Whatever be the number of grades, outward or inward, in the scale of ascent towards Truth, they may be considered as three — Neophyte, Adept and Master. In reality the grades are ten — four under Neophyte, three under Adept and three (so to speak) under Master. There are really five under Neophyte, but the first grade is not numbered. There are also two intergrades, falling between the first and second, and the second and third orders, and these are unnumbered too. The unnumbered grades are grades of probation whereas the others are, each within its measure, grades of attainment. The Neophyte, throughout the grades which this expression describes, is essentially a learner; his way is towards the completion of knowledge in the outer sphere. In the Adept, throughout his three steps, there is a progress in the unifying of knowledge with life. In the Master there is, or is said to be, a destruction of the unity thus attained in virtue of a higher unity. A comparison with simpler things will, I think, render this clear. Let us suppose that the writing of great poetry is the end of initiation. The Neophyte stage will be the acquisition of the cultural elements which the poet will have to deal with in writing poetry — being, grade by grade and in what seems to me to be an exact analogy: (0) grammar, (l) general culture, (2) particular literary culture, (3) The Adept stage will be, drawing out the analogy in the same manner: (4) the writing of simple lyrical poetry, as in a common lyric, (5) the writing of complex lyrical poetry, as in (7) the writing of ordered or philosophical lyrical poetry, as in the ode. The Master stage will be, in the same manner: (8) the writing of epic poetry, (9) the writing of dramatic poetry, (l0) the fusing of all poetry, lyric, epic and dramatic, into something beyond all these. Three remarks will occur to the reader of this literary analogy. The first is that one can be a poet without the Neophyte grades, an Adept of the first Adept grade without even «taking» the first Neophyte one. The second is that, the progression stated throughout does not correspond to what usually happens in life, be it that of a poet or of any other man. The third is that a fusing of all poetry, lyric, epic dramatic, into something beyond all three is an attainment passing understanding. I have made the reader make these remarks that I may, by replying to them, complete the analogy with an explanation. As to the first remark. The first Adept grade is indeed the first real grade of real initiation. A simple mystic, who fuses his faith and his life, has attained to the beginning of real initiation, whereas the perfected neophyte, in whom faith (or knowledge) and life are still separate, has not attained it. But if the spontaneous Adept has reached the Fifth Grade without having passed the first five (which include the Zero grade) he will be kept standing for a long time at the entry of the Middle Chamber, where the first grade of adeptship may conveniently be said to be «placed». To pass to the Sixth Grade he will have to come back, in a sense, to the beginning. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 80. “Essay on Initiation.” ADEUS… O navio vai partir, sufoco o pranto Que na alma faz nascer cruel saudade; Só me punge a lembrança que em breve há-de Fugir ao meu olhar o teu encanto. Não mais ao pé de ti, fruindo santo Amor em sonho azul; nem a amizade De amigos me dará felicidade Igual à que gozei contigo tanto. Dentro do peito frio meu coração Ardendo está co'a força da paixão, Qual mártir exilado em gelo russo... Vai largando o navio p'ra largo giro: Eu meu «adeus» lhe envio n'um suspiro, Ela um adeus me envia n'um soluço. 8-1902 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 122. The difference between an animated thing, e.g. a man, and an inanimate thing, e.g. a lump of iron, is that one feels, as a whole , and the other does not. The sign of consciousness is motion. Relative immobility is relative consciousness, inanimateness, as a matter of fact. The atoms are in motion and have consciousness therefore Consciousness and self-Consciousness Self-Consciousness is the bipartition of self into 2: subject and object. Objectiveness is the condition of existence. «But the object is by the subject and in then subjective and ideal.» Binet (« L’Âme et le Corps ») is of the opinion that spirit, soul, is that which has sensation and matter that which is felt (...) Now, this is analogous to my theory of Power and of Act, by which the spiritual in us is the power to feel and the feeling, the sensation, the act. Acts are of many kinds, but power of one kind alone — namely power and no more. In the same circumstances A does one thing and B the opposite; The Power is the same, i.e. because both are «powers» it is the acts that are different. Consider conditions. 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 183. Sendo certo — para VV. Ex.as como para mim — que a vida da nacionalidade é a substância dinâmica da vida da civilização, não podemos, porém, concordar quando se trate de determinar o que seja essa vida das nacionalidades. Há três espécies de nacionalismo: (1) Há o nacionalismo tradicionalista, que é o que faz consistir a substância da nacionalidade em qualquer ponto do seu passado, e a vitalidade nacional na continuidade histórica com esse ponto do passado. Diversos são os critérios com que se pode buscar esse ponto do passado, mas, seja qual for o critério que se emprega, a essência do processus é a mesma. 2) Há o nacionalismo integral, que consiste em atribuir a uma nação determinados atributos psíquicos, na permanência dos quais e fidelidade social aos quais, reside a vitalidade e a consistência da nacionalidade. O nacionalismo integral — por exemplo, Teixeira de Pascoaes — não se apoia na tradição, mas em um psiquismo colectivo concebido como determinado, em que essa tradição ou, tida como valendo, se apoia, ou, dada como sem valor permanente, se apoiou para existir, (3) Há finalmente o nacionalismo sintético, que consiste em atribuir a uma nacionalidade, como princípio de individuação, não uma tradição determinada, nem um psiquismo determinadamente tal, mas um modo especial de sintetizar as influências do jogo civilizacional. O Integralismo Lusitano é um nacionalismo tradicionalista. O saudosismo de Teixeira de Pascoaes é um nacionalismo integral. Busca no passado a manifestação da alma nacional (suposta existente). Outro, e diferente do de qualquer dos outros, é o processo adoptado pelo nacionalismo sintético. Para ele não há propriamente uma alma nacional; há apenas uma direcção nacional. Uma nação tem apenas, dados os factores inalienáveis de situação geográfica, um determinado papel no conjunto das nações, de que é formada uma civilização. O nacionalista tradicionalista repele o presente e o estrangeiro. O nacionalista integral repele o estrangeiro. O nacionalista sintético aceita um e outro, buscando imprimir o cunho nacional não na matéria, mas na forma, da obra. Qual tem razão? Cada um a tem em seu campo, mas o nacionalista integral é que a tem supremamente, porque só ele está em todos os campos ao mesmo tempo. (Dentro desse papel cabem modalidades muito diversas de psiquismo nacional.) O papel de uma nação forte e civilizada é imprimir um cunho seu aos elementos civilizacionais comuns a todas as nações do seu tempo. Tem-se confundido a influência de uma nação estrangeira com a influência de muitas. O conflito cultural é que produz civilização. Estamos estagnados porque somos escravos — temos sido escravos de uma nação estrangeira de cada vez . Se tivéssemos recebido de cada vez correntes várias do estrangeiro ter-nos-íamos libertado. É preciso não eliminar a cultura francesa que nos escraviza, mas acrescentar-lhe outra cultura, em conflito com ela — cultura alemã ou inglesa pouco importa. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 92. Subsolo (or the like). Afinal o conteúdo dos mistérios resume-se em ensinamentos, sobre três ordens de coisas, que sempre se julgou que não devem ser reveladas ao geral dos homens. Sempre se julgou que aqueles ensinamentos, que as religiões ministram, deveriam ser adaptados à mente dos que a os recebem, e, como muitos deles — tal é a opinião dos iniciados — são de ordem que o povo em geral os não compreenderia e que portanto, compreendendo os pervertidamente, se perturbaria com ele, segue que se pensou que esses ensinamentos se deveriam dividir em duas ordens: exotéricos ou profanos os que são expostos de modo a que todos possam ser ministrados; esotéricos ou ocultos os que, sendo mais verdadeiros, ou inteiramente verdadeiros, não convém que se ministrem senão a indivíduos previamente preparados, gradualmente preparados, para os receber. A esta preparação se chamava, e chama, iniciação. E esta iniciação é ela mesma gradual em todos os mistérios, e de tal modo disposta que o indivíduo inapto para receber esses ensinamentos ocultos se revela tal antes que eles lhe sejam inteiramente dados. Se esses ensinamentos ocultos são verdadeiros, ou apenas especulações abstrusas, é outro problema. Se os hierofantes do oculto têm, na verdade, maior conhecimento da verdade pura do que nós profanos, que a buscamos, se a buscamos, com a leitura; ou a meditação, ou a inteligência discursiva e dialéctica — não o podemos nós saber. Tudo isso pode ser sinceramente crido pelos iniciados, e ser falso. O oculto pode ter alucinações próprias, enganos seus. Seja como for, o certo é que os ensinamentos ministrados nos mistérios abrangem três ordens de coisas: (1) a verdadeira natureza da alma humana, da vida e da morte, (2) a verdadeira maneira de entrar em contacto com as forças secretas da natureza e manipulá-las, e (3) a verdadeira natureza de Deus ou dos Deuses e da criação do mundo. São, respectivamente, o segredo alquímico, o segredo mágico, e o segredo místico. Ao primeiro chama se alquímico porque os ensinamentos relativos a ele são em geral ministrados através de símbolos da chamada alquimia, que não é mais, como hoje claramente se sabe, do que uma linguagem simbólica. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 45. “Subsolo” Nabos was rude and liked to be rude; it would worry a psychologist to discover the psychic reason of this desire. Is seems strange that any human being should delight in being unpleasant... (...) He had few patients, because, as he himself said, a man must be too patient to have him for medical assistant... Yet it may be questioned whether he kept the few he had with his amiable eccentricity of saying to them after examining them, with a solemn and convinced air: The worst that can be fall you is to die. There are some trite things that are too trite I will say, after his own manner. Again I remember the unpleasant feeling he gave me once when (I did not yet know him well) he looked at me intently for some seconds and then said in a sure voice : You are either consumptive, or (I felt cold and fearful), or... or... or not. He looked at my amazed, relieved, half-amused, yet half - (...) face without the shadow of a smile. He loved to give - I afterwards found - these kind of fright. But I have not yet said how it was that I met him and what were the circumstances of that meeting. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 123. METAFÍSICA Não podemos afirmar que a consciência é múltipla. Os indivíduos são múltiplos; mas essa constatação é material. Cada um não constata, quanto a consciência, senão a sua própria consciência. Quer isso dizer que ele tem uma consciência ? Ou quer dizer que a consciência tem consciência dele de certa especial maneira diferente da consciência que tem dos outros, naturalmente. A consciência individual seria um modo da Consciência sentir o indivíduo mateiral, tanto que consoante o seu desenvolvimento material de cérebro, assim o sente complexamente. O como dessa consciencialização especial? Se a consciência de cada indivíduo for consciente haverá uma consciência consciente de si-própria, o que é absurdo, porque nada podemos afirmar na consciência senão que ela é consciente da matéria. A consciência ter consciência de si própria seria um tudo conter-se como tudo . 1913? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 184. O PRECONCEITO TRADICIONALISTA Entre os vários movimentos de reacção, que necessariamente haviam de aparecer contra o estado anárquico e revolucionário em que (como não podia deixar de ser) se têm passado os primeiros anos da infância da República, destacou-se, porque, por sua natureza, serve os fins da reacção monárquica, o movimento chamado "integralismo lusitano". Simpático pela sua preocupação construtiva, e ainda mais, pela facilidade com que conseguiu irritar as criaturas extremamente inferiores, o integralismo lusitano, uma vez analisado, perde grande parte desse interesse, tanto pelo que se revela de importado, como pelo que contém de fundamentalmente erróneo. Esta parte errónea é importada também, mas, como não vamos olhar o integralismo do ponto de vista do que importou, analisemos essa parte pelo que ela tem de errónea, e não pelo que ela tem de derivada e estrangeira. Tanto mais útil será que assim façamos, quanto é certo que é precisamente o elemento a analisar o que é comum ao integralismo e à maior parte do monarquismo que temos. Assim a nossa rápida crítica poderá confutar [?] uma atitude monárquica geral. Trata-se da tese tradicionalista e essa tese considera três sub-teses: a teoria de que a tradição é o elemento de importância máxima na vida nacional, e de que abandoná-la é, portanto, decair; o conceito de (...) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 93. A química oculta, ou alquimia, difere da química vulgar ou normal, apenas quanto à teoria da constituição da matéria; os processos de operação não diferem exteriormente, nem os aparelhos que se empregam. É o sentido, com que os aparelhos se empregam, e com que as operações são feitas, que estabelece a diferença entre a química e a alquimia. A matéria do mundo físico é constituída de três modos, todos eles simultaneamente reais: só dois desses modos interessam a um nível conceitual diferente, e não é atingível por operações, aparelhos ou processos que sequer se parecem com os que se empregam em qualquer cousa que se chame «química» ou «física» «ocultas» ou não. A matéria é na verdade, e como crêem o físico e o químico normais, constituída por um sistema de forças em equilíbrio instável, formando corpos dinâmicos a que se pode chamar «átomos» Porque isto é real, e a matéria, considerada fisicamente, é na verdade assim constituída, são possíveis as experiências e os resultados dos homens de ciência, e a matéria é manipulável por meios materiais, por processos apenas físicos ou químicos, e para fins tangíveis e imediatamente reais. Mas, ao mesmo tempo, os elementos que compõem a matéria têm um outro sentido: existem não só como matéria, mas também como símbolo. Há, por exemplo, um ferro-matéria; há, porém, e ao mesmo tempo, o mesmo ferro, um ferro-símbolo. Cada elemento simboliza determinada linha de força supermaterial e pode, portanto, ser realizada sobre ele uma operação, ou acção, que o atinja e o altere, não só no que elemento, mas também no que símbolo. E, feita essa operação, o efeito produzido excede trancendentalmente o efeito material que fica visível, sensível, mensurável no vaso ou aparelho em que a experiência se realizou. É esta a operação alquímica. E isto no seu aspecto externo: porque, na sua realidade intima, é mais alguma cousa do que isto. Como o físico (incluindo no termo o químico também), ao operar materialmente sobre a matéria, visa a transformar a matéria e a dominá-la, para fins materiais; assim o alquímico, ao operar materialmente quanto aos processos mas transcendentemente quanto às operações, sobre a matéria, visa a transformar o que a matéria simboliza, e a dominar o que a matéria simboliza, para fins que não são materiais. A semelhança, porém, pára aqui. O resultado da experiência física é um produto externo, com que o operador não tem nada, excepto vê-lo, ou ser dono dele, se o é. Mas na experiência alquímica a «força», que o corpo trabalhado simboliza, está em contacto directo com o espírito do operador, e não só do operador, como também de quantos conscientemente o auxiliam (embora sem conhecimento alquímico) na suas experiências. O resultado da experiência, portanto, afecta o operador e os seus «adjuntos» (como se diz) de uma forma diversa e diversamente importante. s.d. Fernando Pessoa: O Amor, A Morte, A Iniciação . Yvette K. Centeno. Lisboa. Regra do Jogo, 1985. - 125. ULTIMUS JOCULATORUM Persons: Caesar Seek (= Alexander Search) whose character is without laughter, moving from deep thought and torturing to bitterness (bitterly joking sometimes???) Dr. Nabos: whose ch[aracter] goes from bitterness to open rnirth Ferdinand Sumwan (= Fernando Pessoa, since Sumwan=Some one=Person=Pessoa) A norrnal, useless, lazy, careless, weak, individual. Jacob Satan: (A Spirit of ill, the master and real conqueror there). Magdalena: (a woman) strain of tenderness, diff[erent ] from high philanthropy of (...) Erasmus? Dare? (Philanthropist) a great friend of Seek's. Place of meeting: Moment House. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 124. Fenómeno inconsciente conhecido pelos resultados na consciência. Nenhuma sensação vem desacompanhada. Não há sensação visual sem sensação auditiva. Uma relação entre a intensidade do fenómeno físico e o estado de consciência é que acorda... There are degrees of sensation: there are not degrees in consciousness . Leibnitz primeiro notou os factos inconscientes. 1906? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 185. Os períodos monárquicos ou têm, na alma da nação, prestígio moral e intelectual, ou não o têm. Se o tem de onde lhes advém tal prestígio? Das tradições da monarquia portuguesa? Elas são incontestavelmente de latrocínio, de incúria e de indisciplina. O que na República há de mau provém da desorganização do meio criada pela monarquia. Da monarquia vem o culto solene das incompetências. Os "escândalos" dos partidos republicanos, o seu compadrio, a sua indisciplina, estão na melhor tradição monárquica. Não tem a ideia monárquica prestígio moral e intelectual? Então ou vinga na alma da nação ou não vinga. Se vinga, tal facto importa uma desqualificação da nação por si própria. Se não vinga, a que vem a ideia monárquica? Se a ideia monárquica tem prestígio, esse prestígio — dado o carácter pouco decente da tradição monárquica — ou representa uma falta de senso moral da parte da nação, ou representa uma confiança absurda, dum messianismo de esquina, no aperto de uma monarquia futura. Dos integralistas — que são criaturas novas e sem passado político —, todo o bem se pode admitir. Mas, para que isso pudesse ser, era preciso que os víssemos inteiramente desligados das outras monarquias — das que representam a monarquia falida. O contrário acontece: vemo-los unidos às outras monarquias juntos àqueles cuja chave [?] foi matar a Monarquia, e cujas teorias políticas parlamentaristas e (...) estão em desacordo com as deles. Assim, em ponto algum dos grupos monárquicos nos aparece quem inspire confiança, porque os que a inspirariam, de per si, estão ligados àqueles que a não inspiram; e a circunstância de que as doutrinas políticas desses são apostas às deles, mais dúvidas nos traz sobre o valor moral e intelectual dos neo-reaccionários. Unem-se, farisaicamente, para implantar a monarquia? — Qual monarquia? A parlamentarista e "liberal" que a maioria dos monárquicos quer? Julgam, ingenuamente, os integralistas, que lhes será fácil passar de tal forma monárquica a outra.? Como? Julgam os nossos Maurras que as suas vozes prevalecem ou virão a prevalecer contra a corrente monárquica, apenas monárquica? Julgam eles que o meio está transformado, que os imoralões de ontem serão outros, purificados de tudo, no poder? É a nós, é a si próprios, ou a quem é que os integralistas querem intrujar? Começam por esta falta de rumo político. Dá-nos ela garantia de seguro critério político no futuro? Em verdade, os integralistas mais não são do que literatos cuja literatura passa a ser feita com ideais políticos. No fundo, tudo aquilo é platónico e inofensivo. Servem a monarquia, não o integralismo! s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 94. Tudo é um. O satânico é tão somente a materialização do divino. A magia é uma ó; a magia negra não é mais que a magia branca feita materialmente. (O culto fálico, quando entendido como símbolo, é divino; quando tomado literalmente é orgíaco, e portanto satânico.) Se conhecermos os processos da magia negra e os interpretarmos como símbolo, chegaremos ao conhecimento dos processos da magia branca. Deus é um espírito, diz a Bíblia: e o divino é (em relação a este mundo) espiritual. O Diabo é a matéria (corpo) e a Trindade Satânica: o Mundo, a Carne e o Diabo. O Diabo (Saturno) é a Limitação. s.d. A Procura da Verdade Oculta - Textos filosóficos e esotéricos . Fernando Pessoa. (Prefácio, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Publ. Europa-América, 1989 (2ª ed.). - 155. Notes on Metaphysics Spirit is consciousness — it is no more, not even is it that which is conscious . Matter is whatever there can be consciousness of, whether this be the sun or the moon or the street which passes by, or an emotion, a desire to love, a fear of pain. Between the love of children and the idea of colour there is a difference; but it is a difference much the same as that between colour and sound. In both cases there is a heterogeneity. The fact that colour and sound are given us by the senses is no argument. There must also be a sense for the perception of emotions — a certain tactus interior . (Or, perchance, fear, love are dependant on the sense of touch. But this is very doubtful.) — Thus we tremble when we feel fear. There is no fear without trembling. Nay, we go further, we hold that the trembling is the fear, just as we hold that the idea is the thing. It is held that every sensation is at the same time affective and representative, that is, every sensation brings some pleasure or some pain, and every sensation has its own physiognomy proper to it (there is a difference, for instance, between a sensation of colour and a sensation of sound). And if this be true, then a distinction has been made by me of the representative and of the affective, in the distinction between the idea and the sensation . 1906 Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 185. À MEMÓRIA DO PRESIDENTE-REI SIDÓNIO PAIS Longe da fama e das espadas, Alheio às turbas ele dorme. Em torno há claustros ou arcadas? Só a noite enorme. Porque para ele, já virado Para o lado onde está só Deus, São mais que Sombra e que Passado A terra e os céus. Ali o gesto, a astúcia, a lida, São já para ele, sem as ver, Vácuo de acção, sombra perdida, Sopro sem ser. Só com sua alma e com a treva, A alma gentil que nos amou Inda esse amor e ardor conserva? Tudo acabou? No mistério onde a Morte some Aquilo a que a alma chama a vida, Que resta dele a nós — só o nome E a fé perdida? Se Deus o havia de levar, Para que foi que no-lo trouxe Cavaleiro leal, do olhar Altivo e doce? Soldado-rei que oculta sorte Como em braços da Pátria ergueu, E passou como o vento norte Sob o ermo céu. Mas a alma acesa não aceita Essa morte absoluta, o nada De quem foi Pátria, e fé eleita, E ungida espada. Se o amor crê que a Morte mente Quando a quem quer leva de novo Quão mais crê o Rei ainda existente O amor de um povo! Quem ele foi sabe-o a Sorte, Sabe-o o Mistério e a sua lei A Vida fê-lo herói, e a Morte O sagrou Rei! Não é com fé que nós não cremos Que ele não morra inteiramente. Ah, sobrevive! Inda o teremos Em nossa frente. No oculto para o nosso olhar, No visível à nossa alma, Inda sorri com o antigo ar De força calma. Ainda de longe nos anima, Inda na alma nos conduz Gládio de fé erguido acima Da nossa cruz! Nada sabemos do que oculta O véu igual de noite e dia, Mesmo ante a Morte a Fé exulta: Chora e confia. Apraz ao que em nós quer que seja Qual Deus quis nosso querer tosco, Crer que ele vela, benfaeja Sombra connosco. Não sai da nossa alma a fé De que, alhures que o mundo e o fado, Ele inda pensa em nós e é O bem-amado. Tenhamos fé porque ele foi. Deus não quer mal a quem o deu. Não passa como o vento o herói Sob o ermo céu. E amanhã, quando queira a Sorte, Quando findar a expiação, Ressurrecto da falsa morte! Ele já não. Mas a ânsia nossa que encarnara, A alma de nós de que foi braço, Tornara, nova forma clara, Ao tempo e ao espaço. Tornará feito qualquer outro, Qualquer cousa de nós com ele; Porque o nome do herói morto Inda compele, Inda comanda, e a armada ida Para os campos da Redenção, Às vezes leva à frente, erguida Espada, a Ilusão. E um raio só de ardente amor, Que emana só do nome seu, Dê sangue a um braço vingador, Se esmoreceu. Com mais armas que com Verdade Combate a alma por quem ama. É lenha só a Realidade. A fé é a chama. Mas ai, que a fé já não tem forma Na matéria e na cor da Vida, E, pensada, em dor se transforma E a fé perdida! Pra que deu Deus a confiança A quem não ia dar o bem? Morgado da nossa esperança, A Morte o tem! Mas basta o nome e basta a glória Para ele estar connosco, e ser Carnal presença de memória A amanhecer; Espectro real feito de nós, Da nossa saudade e ânsia, Que fala com oculta voz Na alma, a distância; E a nossa própria dor se torna Uma vaga ânsia, um esperar vago, Como a erma brisa que transtorna Um ermo lago. Não mente a alma ao coração. Se Deus o deu, Deus nos amou. Porque ele pôde ser, Deus não Nos desprezou. Rei-nato, a sua realeza, Por não podê-la herdar dos seus Avós, com mística inteireza A herdou de Deus; E, por directa consonância Com a divina intervenção, Uma hora ergueu-nos alta a ânsia De salvação. Toldou-o a Sorte que o trouxera Outra vez com nocturno véu. Deus p'ra que no-lo deu, se era P'ra o tornar seu? Ah, tenhamos mais fé que a esp'rança! Mais vivo que nós somos, fita Do Abismo onde não há mudança A terra aflita. E se assim é; se, desde o Assombro Aonde a Morte as vidas leva, Vê esta pátria, escombro a escombro, Cair na treva; Se algum poder do que tivera Sua alma, que não vemos, tem, De longe ou perto — por que espera? Por que não vem? Em nova forma ou novo alento, Que alheio pulso ou alma tome, Regresse como um pensamento, Alma de um nome! Regresse sem que a gente o veja, Regresse só que a gente o sinta — Impulso, luz, visão que reja E a alma pressinta! E qualquer gládio adormecido, Servo do oculto impulso, acorde, E um novo herói se sinta erguido Porque o recorde! Governa o servo e o jogral. O que íamos a ser morreu. Não teve aurora a matinal Estrela do céu. Vivemos só de recordar. Na nossa alma entristecida Há um som de reza a invocar A morta vida; E um místico vislumbre chama O que, no plaino trespassado, Vive ainda em nós, longínqua chama — O DESEJADO. Sim, só há a esp'rança, como aquela - E quem sabe se a mesma? — quando Se foi de Aviz a última estrela No campo infando. Novo Alcácer-Kibir na noite! Novo castigo e mal do Fado! Por que pecado novo o açoite Assim é dado? Só resta a fé, que a sua memória Nos nossos corações gravou, Que Deus não dá paga ilusória A quem amou. Flor alta do paul da grei, Antemanhã da Redenção, Nele uma hora encarnou el-rei Dom Sebastião. O sopro de ânsia que nos leva A querer ser o que já fomos, E em nós vem como em uma treva, Em vãos assomos, Bater à porta ao nosso gesto, Fazer apelo ao nosso braço, Lembrar ao sangue nosso o doesto E o vil cansaço, Nele um momento clareou, A noite antiga se seguiu, Mas que segredo é que ficou No escuro frio? Que memória, que luz passada Projecta, sombra, no futuro, Dá na alma? Que longínqua espada Brilha no escuro? Que nova luz virá ralar Da noite em que jazemos vis? Ó sombra amada, vem tornar A ânsia feliz. Quem quer que sejas, lá no abismo Onde a morte a vida conduz, Sê para nós um misticismo A vaga luz. Com que a noite erma inda vazia No frio alvor da antemanhã Sente, da esp'rança que há no dia, Que não é vã. E amanhã, quando houver a Hora, Sendo Deus pago, Deus dirá Nova palavra redentora. Ao mal que há, E um novo verbo ocidental Encarnado em heroísmo e glória, Traga por seu broquel real Tua memória! Precursor do que não sabemos, Passado de um futuro a abrir No assombro de portais extremos Por descobrir, Sê estrada, gládio, fé, fanal, Pendão de glória em glória erguido! Tornas possível Portugal Por teres sido! Não era extinta a antiga chama Se tu e o amor puderam ser. Entre clarins te a glória aclama, Morto a vencer! E, porque foste, confiando Em QUEM SERÁ porque tu foste, Ergamos a alma, e com o infando Sorrindo arroste, Até que Deus o laço solte Que prende à terra a asa que somos, E a curva novamente volte Ao que já fomos, E no ar de bruma que estremece (Clarim longínquo matinal!) O DESEJADO enfim regresse A Portugal! 27-2-1920 Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - . Nabos at a death-bed. All weeping, etc... «Where there is life, there is hope of living». I looked up astonished at the Dr. to see if this stupendous piece of nonsense had provoked any alteration in his countenance, as he pronounced it, but his face was set and sad and his glance, as he met mine, unassumed and concerned. I felt a hysterical desire to burst out laughing but restrained it. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 126. Consciousness epiphenomenon. Self-consciousness is an epiphenomenon, purely an intellectual faculty, susceptible as such, of degrees. True consciousness is universal, one, simple, indivisible. This world-consciousness is of the peculiar physical composition called a human being and, at the same time, of the object which he perceives (to take an instance from perception). The peculiar effect of this synchronous consciousness is that a perception is established. The peculiar structure of man when consciousness is in it has the special function of perception, of reasoning, etc. Is this matter of which there is consciousness different from consciousness itself? No, for the universal Consciousness is Consciousness of all atoms, and it is of atoms that the human body, brain are composed. The centralised consciousness is but the life of the atoms magnified and concentrated. The dualism of spirit and of matter is an illusion. POWER = ACT Ideas — Things        Consciousness Act                            Power Being Idea. Thing. Sensation. Volition. Movement. Act and Power appearances of one thing. 1908? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 187. No limiar desta publicação desejamos saudar o Sr. Dr. Sidónio Pais, Presidente da República, pela vontade do Destino, o direito da Força, direitos maiores que o sufrágio de empréstimo que o elegeu. Esta saudação não é extensiva aos traidores germanófilos e incompetentes que, apoiando-o [?], lhe desvirtuam as intenções, lhe encurtam o prestígio e lhe vendem a força conquistada. Saudamos também todos, de qualquer partido que sejam, [os que] crêem e confiam na República (com ou sem Democracia). Saudamos também todos, de qualquer partido que sejam, que descrêem da Democracia. A nossa saudação final vai para a Imprensa, e distinguimos, sobre todos, os jornalistas que estão presos à ordem do neo-democratismo que nos governa, e entre eles, o maior de todos, o grande (...) que é o Sr. Homem Cristo. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 95. To say the will (infinite) acts on matter which is finite is to talk nonsense. The infinite cannot work nor act upon the finite. An infinite will does not act at all; it is, very simply, a will-in-power, more simply still, it is a power . The moment there is an act, this will-in‑power becomes determined as will‑in‑act, is finite no longer. 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 25. Bandarra Aquilo a que se chama «iniciação» é de três espécies: Há, primeiro, e no nível ínfimo, a iniciação exotérica, análoga à iniciação maçónica, e de que esta é o tipo mais baixo: é a iniciação dada a quem propriamente se não encaminhou para ela, nem para ela se preparou (porque sugestão de outrem, o impulso externo, e a simples curiosidade não são preparações), e que serve para pôr o indivíduo em condições de poder dar se o caminho esotérico, de poder buscar, pelo contacto, embora esotérico, com símbolos e emblemas, o verdadeiro caminho. O mais exterior e nulo dos sistemas iniciáticos — como o é hoje a maçonaria — serve este fim, logo que tenha conservado os símbolos pelos quais em nós se infiltra o primeiro conhecimento do oculto. O único fim com que os Rosa-Cruz instituíram a maçonaria exotérica é o de pôr muita gente em contacto com, por assim dizer, o aspecto externo da verdade oculta, podendo assim aqueles, que se sintam aptos, ascender a ela lentamente. Há, depois, a iniciação esotérica. Difere da primeira em que tem que ser buscada pelo discípulo, e por ele desejada e preparada em si mesmo. «Quando o discípulo está pronto», diz o velho lema dos ocultistas, «o mestre está pronto também.» Há, por fim, a iniciação divina. Esta, não a dão nem exotéricos ou esotéricos menores, como a exotérica, nem até Mestres ou Esotéricos Maiores, como a esotérica; vem directamente, e por cima destes todos, das mesmas mãos, do que chamamos Deus. O tipo supremo desta iniciação é o de Jesus, a quem Deus, de nascença, converteu em sua mesma Essência, tornando-o Cristo. Iniciado exotérico é, por exemplo, qualquer mação, ou qualquer discípulo menor de uma sociedade teosófica ou antroposófica. Iniciado esotérico é ,por exemplo, um Rosa-Cruz, um Francis Bacon, seja. Iniciado Divino é, por exemplo, um Shakespeare. A este tipo de iniciação vulgarmente se chama génio. Quando Shakespeare disse, «uns nascem grandes, outros chegam à grandeza, a outros é a grandeza imposta» deu, talvez sem querer e julgando ser simplesmente irónico, a chave das três iniciações, na ordem descendente. Outro sentido não tem a mesma frase do Cristo que diz o mesmo pela «a uns fazem eunucos desde o ventre materno», em que, por uma expressão simbólica que a intuição facilmente compreende, se exprime pelo eunuquismo o afastamento dos outros que caracteriza a iniciação. s.d. A Procura da Verdade Oculta - Textos filosóficos e esotéricos . Fernando Pessoa. (Prefácio, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Publ. Europa-América, 1989 (2ª ed.). - 168. Sentido do Sidonismo Prefácio O período de vida política portuguesa que começou em 8 de Dezembro de 1917 e foi terminado com a extinção, entre 14 de Dezembro de 1918 e o fim da monarquia de Couceiro, da influência actuante de Sidónio Pais, é, para o sociólogo, um dos períodos mais importantes da história pátria. E é-o porque nele se concentraram, e, de certo modo, revelaram o seu maquinismo interno, as várias forças, os vários (...) que entram em jogo na formação actual — herdada como mostrarei [?] — da pátria portuguesa. Na investigação a que vamos proceder não isolaremos, portanto, o sidonismo, senão para, analisando-o, analisar, nele, essas forças [...] todas. É evidente que, para estudarmos bem este problema do sentido do sidonismo, teríamos, em boa razão científica, que começar por um estudo da condição da sociedade (política) portuguesa aquando do advento de Sidónio; para isso teríamos que escrever, em prefácio, uma história de Portugal, sociologicamente feita; e, para que a fizéssemos sociologicamente, que pôr a esse prefácio, como introdução, um tratado inteiro de sociologia. O escrever de um tratado de sociologia incluiria, já, o estudo liminar dos fundamentos de tal ciência ou proto ciência; o que quer dizer que para estudar o "sentido do sidonismo" teríamos, em boa razão científica, que começar por estudar os sistemas modernos. Assim são todos os problemas, ainda que não [...] A estes extremos, absurdos tanto pela impossibilidade como pela desproporção entre a cultura do teórico e o abrangimento dos seus [...] Não é mister, porém, que um tão doentio escrúpulo de certeza possível haja de ser cumprido; mas que a uma metodologia tão complexa haja de ser submetido o problema. Como o Sidonismo é um fenómeno, [...], da vida da nossa República, começaremos por uma análise sumária das causas políticas dessa República. Políticas, dizíamos nós; e não nos é muito próprio de algum modo ter que limitar a tese. Assim, as causas da vida republicana serão o [...]: e essas serão as causas das quais se [...] Depois, o Sidonismo apareceu a certa altura da vida da República, e o movimento de 8 de Dezembro foi uma contra-revolução republicana. Teremos, portanto, num segundo capítulo, que estudar, do mesmo modo [...], e com a mesma intenção de sociologia política, a vida da República de Portugal, desde a sua proclamação até àquele momento (...), início da sua queda. Em seguida temos que, com o sidonismo [...] no paralelo [?] com um protótipo de guerra europeia, a mais de boa intenção, e as suas causas, temos de [...] análise sociológica. Seguir-se-á, num quarto capítulo o estudo, [...], do "sentido do sidonismo". Um capítulo final será destinado às conclusões, a que a [...] nos leve, e as conclusões do sistema [?] político português, que o resultado de tais conclusões imponha. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 96. O Sentido do Sidonismo Introdução É de boa disciplina do exposto, e de justo critério com que deve tratar-se um problema, abrir a sua discussão com uma tripla determinação, pela qual quem lerá fique esclarecido sobre o que se vai versar, e quanto ao que se não vai versar. Tal exposição liminar é como o cartaz da peça, ou o argumento dela — um guia para a sua interpretação. A tripla determinação a que aludo é a de: no problema [...] de que vai tratar-se?; como se limita, e a que se limita, em política [?], que pontos inclui, o que pontos exclui?; que método se vai seguir no seu tratamento, e porquê esse método, e não outro? Tal divisão do assunto compete que se faça para qualquer problema. Proponho-me examinar não só o espírito político da República Port., a que se chama vulgarmente o De zembrismo, como mais latamente, o espírito especial que conteve, em que, pois que lhe sobrevive, o [...], e a que com mais justeza se chamou o "sidonismo". Assim, proponho-me inquirir de qual seja a substância dessa atitude mental na política, e de quais as suas causas. Proponho-me analisar como é que tal atitude engloba tão reais emoções, tão grandes sinceridades e dedicações; e como é que? paralelamente a situação [...] encobriu tão notável chusma de traidores, de ladrões e de (...) de toda a espécie. Que, desde já, alguns me negarão o público, tal qual o fez (?), sei-o bem; mas, para nenhuns desses escrevo. Não escrevo para os sectários que só vêm [...] Nem me importam (?) os alienados que só vêem no Sidonismo um suporte de [...] e de banqueteadores. (...) Tentar apenas [...], evitando quanto possível a paixão (...) [...] Não me limitarei, porém, a narrar, procurarei explicar. Explicarei, sim, mais do que narrarei. É até mais fácil explicar do que narrar, e mais útil. Narrar é enganar-se, porque narrar repousa (?) sobre factos; e, [...], não há factos, mas apenas impressões. Certos argumentos são bem feitos: é isso que é verdade. Não há factos, há só interpretação de factos. Quem narra factos, só pode ter a certeza de que corre o risco de errar nos casos, no que narrou, e na maneira de o narrar. Quem só interpreta, dispensa um dos riscos. Certos argumentos são bem feitos, porque os factos são apenas os argumentos. [...] s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 97. UMA VOZ NA ESCURIDÃO: Melodia vaga, Para ti se eleva E chorando, leva O teu coração, Já de dor exausto, E sonhando o afaga. Os teus olhos, Fausto, Não mais chorarão. s.d. “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). - 115. Tinhas um pente espanhol Tinhas um pente espanhol No cabelo português, Mas quando te olhava o sol, Eras só quem Deus te fez. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 49. METAFÍSICA A unidade, infinidade, etc., atributos que [...] à matéria tirando-os à consciência, serão realmente atributos da consciência ou serão apenas não-atributos da matéria, isto é, concebidos como pertencendo à consciência por serem, não (directamente) concebidos como dela, mas (indirectamente) concebidos como opostos (negativos) aos da matéria, e aplicáveis à consciência por ela à matéria ser oposta? O 2º caso é que parece certo. Pois «atributos» são negações de atributos. Negação de finito, negação de tendo forma, negação de exterior, etc. O próprio conceito espontâneo de que a consciência é interior a nós, marca esta atribuição por mera negação e oposição. A consciência na reflexão, não tem consciência de si própria. Daí não poder saber dos seus atributos, se os tem; ir levá-los, por negação, à matéria, por não poder vê-los em si. s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 193. Beber a vida num trago, e nesse trago Todas as sensações que a vida dá Em todas as suas formas, boas, más, Trabalhos e prazeres, e ofícios, Todos lugares, viagens, explorações Crimes, lascívias, decadências todas. D'antes eu queria Embeber-me nas árvores, nas flores, Sonhar nas rochas, mares, solidões. Hoje não, fujo dessa ideia louca: Tudo o que me aproxima do mistério Confrange-me de horror. Quero hoje apenas Sensações, muitas, muitas sensações, De tudo, de todos neste mundo — humanas Não outras de delírios panteístas Mas sim perpétuos choques de prazer, Mudando sempre Guardando forte a personalidade Para sintetizá-las num sentir. Quero Afogar em bulício, em Luz, em vozes, — Tumultuárias coisas usuais ( O sentimento da desolação Que me enche e me avassala. Folgaria De encher num dia, numa hora, num trago A medida dos vícios ainda mesmo Que fosse condenado eternamente ( Loucura — ao tal inferno. A um inferno real. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 137d. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.113). Relation of things to us and of things to other things. How can there be a relation of things to us? ls the relation of things to us of the same kind as the relation of the things to all other? s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 194. Cinco Diálogos (II) F. — Qualquer sociedade civilizada caracteriza-se por a existência nela de dois elementos — a estabilidade e o progresso. Se não oferece estabilidade, resulta anárquica, e impossível o progresso; se não progride, não pode dizer-se uma sociedade civilizada. A estabilidade social envolve que não exista um estado de tirania completa (...). O estado social que torna possível o progresso é o equilíbrio de tiranias. Quanto mais intensa é a tendência para a tirania de cada parte, mais fecundo é o estado de progresso. A. — Mas isso quereria dizer que a tirania é que causa o progresso, ou, pelo menos, que é a condição dele. F . — Não. Eu não disse a tirania, mas o conflito e equilíbrio de duas tiranias. O progresso nasce da neutralização mútua das duas, não da acção de cada uma de per si, ou das duas conjuntamente como tiranias. F. — Se reparares, verificarás que as obras mais permanentes do espírito humano datam das épocas em que se travava uma guerra civil patente ou iminente no país onde foram produzidas. Isto não quer dizer que um estado de revolução seja a essência causal da obra permanente. Mas quer dizer que um estado de revolução é (...) F. — O progresso é uma revolta contra a espécie. Não é por um absurdo qualquer que se diz que os homens de génio são doentes ou loucos. O génio é inadaptação, isto é, doença, porque o génio é criação. Criar é não estar satisfeito. (António.) Ant.º — Criar é não estar satisfeito. Toda a criação envolve uma rejeição do que não precisa ser criado. Todo o gesto feito hoje é uma revolta contra o gesto feito ontem. Criar é abster-se. Criar é dispensar-se de coexistir. Creio dizer a verdade sumária nestas palavras absurdas (...) A ânsia da criação é um fenómeno imaginativo, o crime dos anjos, que julgaram poder ter um melhor céu (...). 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 73. «Cinco Diálogos sobre a Tirania» Cantemos que a vida De nada nos serve Que em nós a garrida Canção desmedida De vinho referve! Cantemos, cantemos, É medrosa a dor E pegando em remos, Buscando-as iremos Às praias do amor! Cantemos as belas Que sabem amar, Vamos que as estrelas, Sem pudor ou cautelas Nos vêm escutar! s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 138. 1. A base de toda a especulação é a distinção entre Sujeito e Objecto. (À relação entre eles chama-se Conhecimento). (Na emoção e na vontade não há S[ujeito] e O[bjecto] mas só dois objectos). 2. S[ujeito] e O[bjecto] são irredutíveis. Nada que é Objecto pode ser Sujeito, nada que é Sujeito pode ser Objecto. 3. Duas coisas ficam: a Consciência e a Realidade. Estes são irredutíveis. 4. A Consciência não é a Realidade. Portanto, a C[onsciência] não existe. Não podemos afirmar que ela existe, porque afirmar que ela existe é afirmar que ela é Objecto, e ela é, essencialmente, o Sujeito Puro. 5. A Realidade divide-se em: Abstracta e Concreta e Imediata. Concreta a que é sentida como Objecto; Imediata ou Reflexa , a que é sentida como Sujeito; Abstracta a que é sentida como nem uma nem outra coisa. (Objectiva, Subjectiva, Abstracta). 6. Na experiência comum estas formas do conhecimento estão em interfusão constante; e o erro nasce da atribuição a uma, das características de uma das duas outras. 7. Características da Realidade Abstracta: (1) o indefinido, que se torna o infinito quando abusivamente tido por concreto; (2) o todo, porque cada ideia abstracta abrange um todo dos conjuntos concretos; (3) a perfeição, porque muito falta no que nada é. O Sujeito fictício é o Sujeito que se sente Objecto , que pode ser Objecto de si mesmo e não Sujeito Puro. Esta é a primeira ficção. (1) Toma o Sujeito por Objecto (Toma o Objecto por Sujeito?) (2) Toma o Abstracto por Concreto — Idealismo (?) (3) Toma o Concreto por Abstracto — Materialismo. (4) Toma o Relativo por Concreto — (Supõe que são coisas as relações entre as coisas). (5) Toma o Concreto por Relativo. (6) Toma o Relativo por Abstracto — Heráclito e seguintes. (7) Toma o Abstracto por Relativo — (Ser-Natureza). O abstracto é só abstracto; o concreto é só concreto; o relativo é só relativo. Mas é outra coisa. Só considerado como ideia é que o um não é um, infinito, etc. Pensar o Mundo é um erro, porque o Mundo não é abstracto . A Realidade divide-se em (1) Concreta, (2) Abstracta, (3) Relativa. Como a noção do abstracto, do concreto e do relativo coexistem na consciência, é natural que se confundam: daí o erro. O erro vulgar, o que é? Exemplo: a alucinação que é o dar valor de concreto a um fenómeno abstracto . s.d. Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 194. F.— A única parte lógica da religião é a superstição. A superstição é o reconhecimento receoso[?] da extensão do desconhecido. — A religião é a definição do desconhecido; a descrição detalhada geográfica do que não se sabe o que seja. Por isso um povo são, como o grego antigo, era mais supersticioso do que religioso. 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 75. «Cinco Diálogos sobre a Tirania» Aqui onde se espera — Sossego, só sossego — Isso que outrora era, Aqui onde, dormindo, — Sossego, só sossego — Se sente a noite vindo, E nada importaria — Sossego, só sossego — Que fosse antes o dia, Aqui, aqui estarei — Sossego, só sossego — Como no exílio um rei, Gozando da ventura — Sossego, só sossego — De não ter a amargura De reinar, mas guardando — Sossego, só sossego — O nome venerando... Que mais quer quem descansa — Sossego, só sossego — Da dor e da esperança, Que ter a negação — Sossego, só sossego — De todo o coração? 31-8-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 160. Cena da Taberna — Doutor Fausto? FAUSTO: Sim. —                                             O Doutor Fausto? FAUSTO: O Doutor Fausto, sim: o que há em sê-lo? — Nada, confesso-o a rir e acreditara-o Pois o não vira, mas de vós diziam Serdes versado em artes e matérias Do mágico e (...) horror (...) A rir o digo que vos vejo aqui Entre nós e bebendo como nós. FAUSTO: Sim, assim é; quem como eu vivia Aparte logra sempre a negra fama De bruxo... Há em mim cousa que mostre Conhecimento d'artes vis e negras Ou sacerdócio escuro de Satan? — Nada; olhando bem em vós só vejo Algo de triste que não é tristeza No vosso rosto e no vosso olhar Há uma causa a menos ou a mais Que em outro... Isto vejo, ou me parece. Perguntastes-me e rindo respondi. FAUSTO: Agradeço-vos; traçastes-me retrato Tão completo de bruxo Que começo a ter medo de mim mesmo. — Canta, oh Frederico Aquela canção doida de beber Chamada «O Bebedor» ou coisa assim. FRED: A do «Bom Bebedor». OUTRO: É essa mesmo. TODOS: Venha, venha a canção. FRED: Lá vai amigos (e depois) E oxalá que, ao cantá-la, esquecer possa Ou antes, não lembrar onde a aprendi. Criança então era feliz. Lá vai: Bom bebedor, bebe-me bem Bebe-me, bom bebedor. Só uma cousa boa esta vida tem É o vinho: mira-lh’ a cor! CORO A vida é um dia e a morte um horror Bebe-me, bebe-me, bom bebedor. Que morra de fome mulher e mãe Haja vinho, que é o melhor! CORO A vida é um dia e a morte um horror Bebe-me, bebe-me bom bebedor. Deixe a guela o vinho lá quando vem Em lugar dele o estertor. CORO A vida é um dia e a morte um horror Bebe-me, bebe-me bom bebedor. A vida sem vinho é um triste horror Bebe-me, bebe-me bom bebedor. O, leite, da parra é melhor que o amor Bebe-me, bebe-me bom bebedor CORO Bom bebedor bebe-lhe bem Bebe-lhe bom bebedor Que faz que a mulher ande à gandaia E a filha seja pior E a puta da neta levante a saia Até ao quintal do prior? O vinho é o mesmo e da mesma cor Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor CORO Bom bebedor, bebe-lhe bem Bebe-lhe bom bebedor. Bom bebedor, bebe-lhe rijo Bom bebedor, bebe-lhe bem; O vinho que dá? Alegria e mijo, E a vida não vale melhor E se a vida é isto e a cova um horror Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor. TODOS: Bravo! Bravo! FAUSTO:(saudando) A quem escreveu essa canção. Não foi o camarada? FRED: Versos, eu? Nada aprendi-a, e há o tempo. É pouca coisa, Uma maneira qualquer de berrar. FAUSTO: Eu sinto-me irrequieto. FRED: Isso é do vinho! FAUSTO: Do vinho? FRED: Olá se é. A uns dá-lhe assim A outros doutra maneira. Isso é confuso. Um velho tio meu que não fazia Senão beber... OUTRO: Fazia bem... FRED: Pois esse Dizia ser indício de saúde Dar o vinho p'ra bulhas e contendas «Estar irrequieto» como este lhe chama. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 139. Quando Descartes diz que a nossa inteligência é finita mas a vontade infinita, quer realmente dizer que não podemos conceber o que quisermos, visto a inteligência ter leis , portanto limitações, mas podemos imaginar o que quisermos. [...] 1. Consciência vaga. 2. C[onsciênci]a vaga do existir (S). 3. C[onsciênci]a vaga de um exterior e do existir (P e S). 4. C[onsciênci]a da reacção contra o exterior. A vontade pode ser inconsciente; não podem sê-lo nem o sen[timen]to nem o pensamento, nunca. Não penso nem sinto inconscientemente, mas [...] sem consciência. 1915? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 196. 5 Diálogos A.— (...) a inquisição? A única inquisição que há hoje é a estupidez... F.—Não. A Inquisição, que queimava os infiéis e os suspeitos; as perseguições religiosas, que exterminavam os contrários — nada disso é tirania religiosa: tudo isso é tirania política. A tirania religiosa é outra, de mais subtil e depravada espécie. A tirania religiosa é de índole hereditária e pedagógica. Cada vez que, opresso pela vida e posto à prova pela amargura, me lembro, no auge da minha angústia, de rezar, de recorrer à ideia de Cristo — então sou servo da verdadeira tirania religiosa. Cada vez que, perante os pobres (...) me enterneço e me comovo, e choro a sorte do mundo, sou servo da tirania religiosa. A tirania religiosa é esta, é isto. A outra, que queima infiéis e escorraça pagãos, essa, corno te disse, é tirania política exercida em nome da religião. Onde a religião deixa de ter força política, essa tirania deixa de existir. 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 75. «Cinco Diálogos sobre a Tirania» FAUSTO: (aos soldados) Nobres amigos, camaradas meus (Deixem que assim lhes chame) TODOS: É assim mesmo Nem nós de outra maneira o desejamos. UM: Não grite tanto. FAUSTO: Então eu grito? UM: Ou está gritando ou estou eu com sono. VÁRIOS: Cala-te aí, sendeiro! Deixa ouvir. UM: Nem eu... VÁRIOS: A besta não se calará?! Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 142. Tudo é mistério e o mistério é tudo. Tudo é mais que ilusão; o próprio sonho Do universo transcende-se a si mesmo E a compreensão, ao penetrar Escuramente a essência da ilusão, Fica sempre aquém mesmo do ver bem O quanto tudo é ilusão o sonho, E quanto o próprio pensamento fundo Se ilude na desilusão falaz E no desiludir-se dele mesmo. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 52. Tirania A. — Supondo, porém, que esse livro suposto fosse uma coisa para publicar, de que serviria publicá-lo? F. — Uma ideia expressa é uma força; nunca é de mais fazer valer os direitos da Inteligência. A. — Uma ideia expressa é uma falta de força — da força de a calar. Os mestres ensinam pela palavra, mas é no silêncio que eles aprenderam [?] F. — O dever dos intelectuais (em uma época como a nossa, em que o ódio maior é à Inteligência) é criarem uma atmosfera favorável à Inteligência, fazer constar a Inteligência como uma força, ou pelo menos, como urna coisa. A. — Nesse caso o facto mais interessante no teu livro é ele não ser nunca um facto. F. — Hoje a Inteligência, como em todos os períodos de decadência, passa a servir o instinto. E temos os vários fenómenos típicos da nossa época — o irracionalismo de Nietzsche, o instintivismo das correntes tradicionalistas, o pragmatismo, os intuicionismos todos — a soma de correntes que erigem o não compreender em melhor forma da compreensão. Que acre ironia a do Destino justo que fechou num manicómio a Nietzsche, ao ignóbil defensor do aristocratismo da plebe! A — Duvido que essa frase seja justa. F. — É justo. Tudo o que é instinto [?] é plebe, e tudo o que se ergue contra a Inteligência é o instinto [...] 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 76. «Cinco Diálogos sobre a Tirania» Já estou tranquilo. Já não espero nada. Já sobre meu vazio coração Desceu a inconsciência abençoada De nem querer uma ilusão. 20-7-1935 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 133. [FRANZ]: Isto de ser soldado Tem uma filosofia obrigatória Como o pé ao fim da perna. Hoje vivo Amanhã morto... D'aqui se conclui Que sendo o vivo vivo enquanto é vivo É morto é morto. OUTRO: Tira-lhe o cangirão da mão oh Vesgo [FRANZ]: Ia eu dizendo — deixa o cangirão! — Que quem hoje vive e que não sabe Se amanhã viverá é viver hoje Por amanhã. Como isto de amanhã Nem é aí um dia, mas é muitos Enquanto a gente vive é ir vivendo Em cada dia como se ele fosse Uma vida completa —                             Bravo o vinho Faz a este pensar. O que diria O teu tio bêbado, oh Francisco? [FRANZ]: É esta A tal filosofia do soldado A qual, senhores, a pensarmos bem É a de toda a vida. E não é pouco. FAUSTO: Dá-te o vinho razão, amigo. O homem É um soldado. E este com certeza De morrer no combate de amanhã. Portanto a tal (...) filosofia Que entre goles aí me gaguejaste É mais certa que pensas, meu amigo. É viver hoje que amanhã na vida Não há talvez — é certo — vem a morte. Bebo à saúde aqui do nosso amigo! TODOS: À saúde do Franz! [FRANZ]: Vá que o mereço! Mas olha lá: dá cá o cangirão Então só eu não beberei à minha? OUTRO: Vá que é beber-lhe bem. Não é por ser Minha saúde. É só por ser vinho Minha mãe! Minha triste vida! Minha sorte! (Chora) OUTRO: O que é isso? [FRANZ]: O cangirão Não tem mais vinho! Caguei vida. Rei e corno! Um rei corno — isso sabe a não sei o quê! E o cangirão já não tem quase nada O rei corno e eu sem vinho. (cai para debaixo da mesa) FAUSTO: Arre que besta! Mas tem sua graça! Está abraçado ao cangirão Diz que é uma rainha. [FRANZ]: Dá-me cá mais um gole Que isto de leito e corpo de rainha Não é com quatro goles que se entende. Um rei corno — isso é grande! Alma danada Onde é que me escondeste ó cangirão? (de debaixo da mesa) Já o rei é corno! FAUSTO: Lá quanto a Deus Quando o sinto a amargar-me a boca muito Faço isto (bebe) Tomo um gole. E vai p'ra baixo. TODOS: Viva Fausto! Eia, viva! viva! viva! FRITZ: Mas a vida rapaz? FAUSTO: Caguei p'rá vida! FRITZ: Toma! É assim rapaz! Canta-me dessas! És cá dos meus, apesar de doutor... TODOS: Doutor? Isto Doutor? Viva o Doutor! FAUSTO: Morra o doutor e viva Fausto! É assim! TODOS: Bravo. Morra o doutor e viva Fausto! FRANZ: ...Revolta... Não compreendo bem Passa-me o cangirão que já te entendo. Sem mais dois goles não percebo nada. FAUSTO: Já percebes Estupor avinhado? Já me entendes? Isto de vida — ouve — é sentir tudo Meter o agradável num só dia Como o pé num chinelo. Deixa lá O cangirão e ouve... Isto de vida É a gente gozar e após gozar Gozar mais, entendeste? FRANZ: E depois disso? FAUSTO: Depois disso gozar mais ainda. — Deixa-o lá. Só tem força p'ra beber. Não vê já mais que o olho do gargalo. FRITZ: Que é isso? FRANZ: Quero piscar o olho. Já me custa! Arre! Ou fecho ambos ou então nenhum. Bebendo mais um gole isto já passa... FAUSTO: Eu queria obter Uma enormidade de sensações Daquelas mais intensas que nós temos arrepio, calor, etcetra e tal... Isso como diz o matemático Elevado ao infinito e num momento Aqui é que é tentar chegar... UM: «Arrepio, calor, etcetra e tal» O que não se diz fica por dizer. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 142. Horror, ali que liga coisas que estejam Ali — ali — ali e eu vendo e ouvindo Tudo isto, horror, tresanda o pensamento. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 52. Diálogos sobre a tirania A liberdade individual não pode existir senão depois de conquistada a liberdade social, e, principalmente, a económica. De que me serve a liberdade de escrever um romance se, por uma questão de temperamento, só posso escrever concentradamente, e tenho de ir para um escritório todos os dias? Ora a liberdade económica existe pela existência do capital. É impossível universalmente; e o socialismo, em vez de ser uma libertação económica, é uma ausência completa de liberdade. O socialismo torna extensivo a toda a gente o servismo da maioria. Não são os escravos que querem libertar-se: são os escravos que querem escravizar tudo. Se eu sou corcunda, sejam todos corcundas,. É esta a razão por que, sem querer mas sabiamente, a Natureza fez o homem construir o privilégio. A aristocracia é a maneira de se poder pensar livremente. Disse-se que a maioria dos escritores tinham sido favorecidos pelas circunstâncias financeiras domésticas. Tomou-se isso por lamentável para os que não foram favorecidos. Mas o contrário é que é o sentimento bom: há que regozijar-nos com os que foram escolhidos, e não que lamentar os que o não foram, a não ser sentimentalmente. Bem diziam os homens da Idade Média, concebendo a liberdade, não como um direito, mas como um privilégio. 1918 (?) Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - . «Cinco Diálogos sobre a Tirania» [FAUSTO] Viva a vida! Te digo, amigo, viva! Viva a vida, que é tudo, e mais não há! s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 145. Quisera ter Isso que escuramente em mim aspiro: O pensamento abrangedor de tudo Numa compreensão única e funda. Todo o contido em artes, letras, todas As leis no fundo do universo nadas Que regem       (...)       até a história Em modalizações(...) Era isto que eu, num pensamento único, Abrangedor, quisera compreender. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 52d. TEORIA DO SUFRÁGIO POLÍTICO 1. Os três tipos de governo e a necessidade de presentemente haver um governo de opinião. 2. Em que consiste, e como se forma, a opinião pública. 3. Como aplicar a opinião pública, ou seja, como fazê-la manifestar-se o melhor possível. 4. O sufrágio, em si mesmo. 1919 Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 53. O resto da minha alma anda disperso Pelos gritos e a luz desta oca orgia Em estilhaços de conciência, ocupo O (...) a mim (...) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 145. Não é o vago Epicurismo de sentir a vida Deslizar e passar que me apavora; É a íntima alma deste deslizar A qual fitando negramente me entrega A pavor  (...) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 53. O voto popular não é uma manifestação de opinião; é uma expressão de sentimento. O operário é interiormente incompetente para discutir a questão social. Sentir-lhe os efeitos não dá maturidade [?] ou competência para a tratar. A questão social, económica, não é uma questão de vida colectiva, mas de vida individual. A questão política — qualquer questão política visa a melhorar ou (...) a vida colectiva como colectiva; enquanto a questão social, económica, visa a encarar a vida colectiva como agregado de vidas individuais. Isto dá uma natureza inteiramente diversa ao voto propriamente político, e ao voto propriamente social. Discutir por ex. se em determinado país deve existir monarquia ou república, este ou aquele partido no poder é acessível ao mais humilde membro de uma nacionalidade. E é acessível porque essa questão discute-se pelo instinto, não pela inteligência. A questão política é: o que é, neste [?] momento, melhor para o país? Qualquer questão social é: o que é, neste [?] momento, melhor para o país? Qualquer questão social é o que é que, neste momento [...] ajudar, [...] os interesses ou as aspirações, não do país, mas de tal ou tais — [...] classes ou dentro dele? Esta questão exige estudo. A outra não. Exige apenas o sentimento de confiança nestes ou naqueles homens, nestas ou naquelas instituições. O operário é competente para votar na, ou em, República, por este ou por aquele partido político; mas não o é para decidir de questões sociais ou mesmo de questões políticas na sua especialidade. Um operário por ex. que está num partido de que seja chefe o Dr. A[ntónio] J[osé] d’A[lmeida) não faz senão dar um voto de confiança ao partido da chefia daquele homem público, para ele, o partido, estudar particular, especializada — e quanto possível cientificamente as questões administrativas e governamentais que aparecem. A confiança é uma coisa social instintiva; pertence ao sentimento inteiramente (e apenas explicadamente [?] às ideias): por isso está ao alcance de todos, ainda para os mais limitados — desde que não sejam [...] absolutamente [...] da política — ter opinião, entendendo-se por opinião sentimento, sobre ela. Mas, dir-se-á, precisamente por essa razão, um operário pode votar num partido socialista confiando dele a especializada solução de questões sociais. Analisando, a ambiguidade [?] desfaz-se. O voto político indica a confiança num partido para resolver questões relativas à colectividade, ao país inteiro como país. O voto social indica num partido político a confiança que resolve problemas relativos ao próprio votante, à classe do próprio votante. A diferença é capital. Porque mesmo que se queira retorquir que o motivo de delegação é o mesmo — isto é, o reconhecer o povo a sua incapacidade para raciocinadamente resolver os problemas —, com facilidade se responde que é natural que uma classe ou grupo delegue num partido da sua confiança (que pelo voto lhe indica) o tratar de questões gerais políticas, em que essa classe não entra como classe, nem lucra senão no que lhe caiba compartilhar do lucro geral do país. E isto porque necessariamente não é qualquer indivíduo mas apenas aqueles cuja nativa inteligência os [...] para isso, que pode tomar conta activa nos destinos de uma nação, e ter o poder intelectual necessário para abranger a sociedade como todo [...] e (...) para quem se legisla. Os interesses de classe porém, mesmo politicamente e [...] transcendem a inteligência e a competência da própria classe. Toda a dona de casa, por estúpida que seja, sabe da gerência da sua casa. Todo o comerciante, por humilde que seja de competência ou inteligência, tem claras e nítidas noções sobre como deve tratar do seu negócio. E o camponês mais bronco, atado — improgressivo [?] tem um certo capital de sabedoria para as coisas [...] da sua lavoura, ou do (...) ou do seu trabalho manual. Sobre o que sociologicamente seja a vida [...], a dona de casa nada porém sabe. O [...] comerciante ignora por completo as vastas questões [...] ao comércio em geral e, muitas vezes, e na sua [...], no seu comércio em particular. O camponês, por inteligente que seja, ignora necessariamente o aspecto social da agricultura, o (...) nem o que propriamente é, sob a sua condição [?] de lavrador, cavador, trabalhador rural. [...] 1919 Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 55. FAUSTO (na taberna) Já não tenho alma. Dei-a à luz e ao ruído Só sinto um vácuo imenso onde (a) alma tive... Sou qualquer cousa de exterior apenas, Consciente apenas de já nada ser... Pertenço à estúrdia e à crápula da noite, Sou ser delas, encontro-me disperso Por cada grito bêbado, por cada Tom de luz no amplo bojo das botelhas. Participo da névoa luminosa Da orgia e da mentira do prazer. E uma febre e um vácuo que há em mim Confessa-me já morto... Palpo em torno De minha alma os fragmentos do meu ser Com o hábito imortal de prescrutar-me E não sei onde estou, ou quanto sou, Em que terreno de ruído e (...) Enterrei o meu espírito febril. Mas não é inda o fim. Inda é preciso Que a morte me desmembre em outro, e eu fique Ou o nada do nada ou o de tudo E acabe enfim esta consciência oca Que de existir me resta. Sinto um tropel esfuziante e quente De propósitos-sombras, e de impulsos Transbordado do cálix da consciência Para cima da vida... Sinto em mim Gritos de impulsos, (...) Sinto que qualquer coisa vai fazer-me Conceber o horror da acção e ousio Em que dispersarei enfim o resto Da minha alma já oca. Cesse, cesse Para sempre a minha alma de ser minha, Abafe-lhe a consciência de existir A minha voz. Acorde a minha voz Ao gritar os propósitos de sangue E horror cujo (...) não concebo E é forçoso que deixe fugir... (Alto) Eia! Camaradas! A orgia inda vai lenta! Vamos a mais! Vamos a pôr no berço As orgias romanas e a fazer Os nossos feitos desta noite rir De Nero e de Tibério! Vá que a vida É pouca para (...) Eia, vamos! Quem vive além na cidadela? O rei? Bom. E a rainha? Melhor é. Quem mais? As damas, os donzeis e os nobres todos Da corte? Vamos à obra... Ah, as damas. Violemos essa carne! Rasguemo-la a espadim e a lança. Somos A vingança dos servos! dos mandados As crianças (...) e pequeninos Seja nossa a hora última e (...) Dos donzeis Fogueira e (...) com os nobres todos Afoguemos o rei no (...) onde O mijo dos cavalos! Vamos! Às carnes brancas! Aos veludos! Não podem vir reforços. Se vierem Morramos combatendo... A morte é hoje Seja de hoje o gozo todo. Beba-se O vinho todo, que a partir da taça Será bom, pois que o vinho será gasto! (Lança fogo à taberna... Saem todos de espadas desembainhadas... Correm e dançam pela estrada fora. Archotes agitam-se no ar, dançam, espalham lume... Seguem na estrada... Aqui e além incendeiam as choupanas.) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 145. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.115, 129). A Consciência de existir, a raiz Do ilimitado, omnímodo mistério Que tem tronco de Ser, folhas de vida Flores de sentimento e sofrimento E frutos do pensar, podres depressa. A Consciência de existir, tormento Primeiro e último do raciocínio Que, porém, filho dela, a não atinge. A Consciência de existir me esmaga Com todo o seu mistério e a sua força De compreendida incompreensão profunda, Irreparavelmente circunscrita. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 53. Entre as várias superstições verbais, de que se compõe a pseudo-inteligência da nossa época, a mais vulgarmente citada é a da opinião pública. E, como acontece com todas as superstições, que conseguem deveras enraizar-se, mas que não conseguem nunca tornar-se lúcidas, este critério instintivo respeitador da opinião pública em palavras, porque sente que há por detrás da frase uma realidade, mas pouco respeitador dela em actos, porque não sente definidamente que realidade é essa, é ao mesmo tempo o esteio e o vício das sociedades modernas. Todos nós sentimos, qualquer que seja a nossa política, que, em última análise, toda a política tem que se conformar com a opinião pública, com a corrente predominante de opinião (corrente insistente de opinião). Quando, porém, se trata de definir o que seja uma corrente dessas, de que modo se manifesta, como se há-de distinguir a opinião pública de uma opinião parcial violenta ou intensa, o cérebro moderno, radicalmente indisciplinado, perde contacto com o problema e embrulha-se em palavras para não sentir o frio dos factos. O problema, porém, embora complexo, não é de uma dificuldade tal que um cérebro decentemente lúcido haja de recuar ante analisá-lo. E, como, de todos os problemas modernos, é talvez o mais urgente em que se defina, porque é o que é substancial, não será porventura tempo perdido aquele se entregue à consideração dos elementos verdadeiramente constitutivos da opinião pública, e dos erros que, em torno a esse problema, se têm amontoado. Urge, em primeiro lugar, e como é conveniente em problemas destes, reparar cuidadosamente em o que é que a frase, o termo, não significa. Comecemos por definir bem o que é que a opinião pública não é . Isso nos facilitará a investigação do que ela, efectivamente, seja. Afastemos imediatamente os dois erros palmares, que se dão em relação a este problema. A opinião pública não significa a opinião da maioria. A opinião pública não significa uma opinião política, mesmo que se trate de uma opinião pública em matéria política. Livres destes dois erros, poderemos atirar pela borda fora os dois erros palmares da pseudo-sociologia da época — o erro democrático, e o erro de supor que a opinião pública vale pelo que se manifesta. Tratemos, primeiro, do erro democrático. Antes de ser inteligência, o homem é instinto; e, ao passo que intelectualmente os homens diferem muito, tanto em quantum intelectual como em conteúdo intelectual, nos instintos diferem pouco. Temos, pois, que são os instintos que unem os homens e a inteligência que os separa. Uma sociedade é uma reunião de instintos, não é um concurso de inteligências. Não são as ideias que regem as sociedades, mas sim a ausência de ideias. Um povo vale pelo que não sabe que vale. A psicologia moderna, embora ainda por constituir como ciência completa, ou, pelo menos, organizada, chegou, porém, a uma conclusão, diametralmente oposta àquela em que apoiava o século dezoito as suas filosofias. A ciência psicológica sabe que, no homem como nos animais, o inconsciente, ou subconsciente, predomina sobre o consciente; que o homem é primariamente um animal irracional, e apenas episodicamente racional; que o homem é, na sua essência, uma criatura de instintos, como todos os animais, e apenas por acréscimo e individualidade, um ente intelectual. Ora uma reunião de homens, se é mais que um grupo casual em uma rua, e é esse o caso de uma sociedade, une-se por aquilo que lhes é comum, e não por aquilo que é diferente em cada um dos outros. A base da vida social é portanto o instinto, que é fundamental nos homens como nos animais (que também são gregários) e não a inteligência. O homem só é inteligente quando separado dos outros homens; junto com eles é apenas instintivo e a sua inteligência não serve, dado o caso normal, senão para esclarecer o instinto. Se a sociedade é uma aliança de instintos, um contrato social eternamente anterior aos que nele participam, segue que os fenómenos de psiquismo de conjunto, que se dêem em uma sociedade, são fenómenos do instinto, e não da inteligência. O primeiro corolário desta conclusão é que o sistema democrático é profundamente anticientífico, que o princípio do sufrágio, como expressão da opinião, é um erro crasso. O instinto não se exprime, o instinto não se define. Quando o instinto procura interpretar-se, erra; por isso os partidos políticos se apoiam nos erros que a inteligência faz ao interpretar o instinto. Uma vitória eleitoral é sempre a expressão da vitória da mais plausível das interpretações falsas da opinião pública. Votar é errar. O voto é individual, e a essência da opinião é não ser susceptível de fraccionamento em indivíduos. A opinião pública é um ente, de que os indivíduos que, sem querer, a compõem são células; a opinião pública não é uma soma, nem mesmo uma síntese, é um facto pré-intelectual. Concluir-se-á imediatamente: Se a opinião pública é só uma atmosfera e não uma corrente, se é um estado de alma colectiva e não uma tendência para a acção, como hão-de os homens públicos governar com a opinião pública? Como hão-de saber o que ela é, se a essência dela própria é não saber bem o que é? O erro em uma objecção destas está no conceito democrático de governo. Se se julga que governar é seguir a opinião pública, não há resposta. Mas governar com a opinião pública não é segui-la; governar com a opinião pública é interpretá-la. A sociedade tem o seu esteio no instinto; o governo é um fenómeno intelectual. Ora a relação entre a inteligência e o instinto é interpretativa. O estado de uma sociedade não depende das suas instituições políticas, mas da coesão entre os governantes e os governados. Quando essa coesão existe, isto é, quando a opinião pública, a opinião instintiva da nação e geral, individida, os próprios governantes partilham dela, dela participam. Basta-lhe, portanto, para governar, interpretarem o que está dentro de si próprios. Nas sociedades desnacionalizadas, nas sociedades estragadas pelas ideias estéreis do humanitarismo, do pacifismo e da fraternidade humana; nas sociedades que perderam as virtudes guerreiras e para quem o estrangeiro não é, como para as sociedades sãs, essencialmente o Inimigo — nessas sociedades os governantes perderam o contacto instintivo com a massa do povo, e não podem portanto interpretar o que não sentem. Podem ser homens pessoalmente honestos e bem intencionados; em geral não o são; mas não se pode interpretar os instintos dos outros. Como há-de um governante interpretar um instinto de que não participa? Os governantes não nascem Shakespeares, com a arte de interpretar os sentimentos dos outros; só têm, querendo os deuses, o poder de interpretar os próprios. A democracia é um sistema político que só aparece nas decadências. Quando uma sociedade sente instintivamente que lhe falta a coesão, espontaneamente tenta substituir a coesão por instinto por uma coesão por voto. — Resta saber como se pode criar uma opinião pública sã e activa. É infecunda toda a acção política que tenda a criar uma opinião capaz de se manifestar pelo voto; é infecunda toda a acção política que tenda a criar uma opinião capaz de se definir como política. Por isso só é fecunda uma acção política que crie opinião indirectamente, isto é, não tentando criar opinião para que essa opinião se manifeste, mas apenas para que ela exista. Pela doutrina democrática, mandar é obedecer. Pela verdadeira doutrina, mandar é compreender (mandar é orientar (no)) (mandar é interpretar). 1919 Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 56. Rascunho para o artigo “A Opinião Pública” (Uma cena em que mulheres, homens, todos correndo dão ideia — não dos horrores que se estão cometendo, mas de que se estão cometendo horrores de que não pode haver ideia. Finalmente uma cena em que à luz de um grande prédio em chamas se vêem entrar, da direita para a esquerda, outros soldados avançando; a luz reflecte-se nas suas lanças e couraças. O prédio desaba com grande ruído. A chama vai morrendo e no anormal crepúsculo nocturno sente-se o passo rápido e múltiplo do vasto regimento que se dirige ao encontro dos revoltados. Aqui talvez fujam e entre Fausto... Depois vão para a esquerda para qual lado irão então os outros soldados.) (Depois: Cena (de [..] ) dos dois) — Que será o clarão e aquele ruído? Gritos? (Pouco a pouco vão deixando de falar nisso (símbolo de como ao lado da intranquilidade, a pacatez vive) Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 148. Não é em mim o menor horror A consciência da minha inconsciência Do automatismo sobrenatural Que eu sou, círculo, de (...) sensações Rodando sempre, sempre equidistante Do centro inatingível do meu ser. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 53. Ora se a característica dos instintos individuais, embora úteis à sociedade, é que levam a um antagonismo com outros indivíduos, por certo que a característica dos instintos propriamente sociais será que levam ao contrário de um antagonismo com eles. Se pelos seus instintos individuais um homem se define para si próprio como em oposição aos outros homens, e portanto como diferente deles, pelos seus instintos sociais, ao contrário, define-se como em colaboração com eles, e portanto como seu semelhante. Os instintos propriamente sociais são, pois, aqueles pelos quais um indivíduo se sente semelhante de outro indivíduo da mesma sociedade, por divergentes que sejam as suas actividades, e antagónicos que sejam os seus temperamentos. E os instintos primordialmente, fundamentalmente sociais serão aqueles pelos quais um indivíduo se sente semelhante do maior número possível de indivíduos da sociedade a que pertence. A vida social, vimos, é essencialmente acção. Ora a mais simples, natural e vulgar de todas as acções é a de falar. A identidade que se sente através da conversa é portanto a mais profunda, a mais insistente, a mais quotidiana de todas. Por isso a que mais funda e imediatamente nos faz sentir-nos semelhantes de outro homem é o facto de ele falar a mesma língua que nós. Sentimos mais próximo e semelhante, por instinto, um estrangeiro que fale perfeitamente a nossa língua, que um nacional que, por qualquer razão, a ignore. E assim chegamos à descoberta do primeiro dos instintos propriamente sociais — a fraternidade patriótica, sentida através da comunidade linguística. Instintos individuais Instintos [...] — de família, de classe, de região Instintos sociais puros — de língua, de raça, de história. 1919 Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 57. Demonstrado, assim, que a Democracia moderna é radicalmente anti-social, pois que um dos seus princípios fundamentais, o do sufrágio político, é substancialmente antagónico, por “intelectual”, ao não intelectualismo que caracteriza as manifestações do instintivismo social e da chamada “opinião pública”, base [...] de toda a vida política, resta, neste capítulo, que provemos que a Democracia moderna é por igual antipopular e antipatriótica. A demonstração far-se-á contrapondo o segundo dos princípios democráticos, o liberalismo, ao segundo dos princípios do instintivismo social, a conservatividade; e contrapondo o terceiro dos princípios democráticos, o pacifismo, ao terceiro dos princípios do instintivismo social, que é o antagonismo. Assim se provará, no primeiro caso, a antipopularidade da Democracia moderna, e, no segundo caso, o seu antipatriotismo. Ao comparar os princípios liberais, ou liberalistas, com a essência conservativa do instintivismo social, temos que, logo de início, excluir uma possibilidade de erro, que é a que resultaria de se confundir conservatividade com conservantismo. Quando tivermos que considerar a opinião pública como fenómeno sempre tradicionalista (o que já provámos que era) será ocasião de encarar o problema do conservantismo, propriamente tal. O que nos preocupa agora, na análise comparativa do liberalismo da democracia moderna e da conservatividade do instintivismo social, é a definição diferencial dessa conservatividade. E, como o nome sugere conservantismo por semelhança etimológica, cumpre, antes de mais nada, distinguir. Quando, no anterior artigo, determinámos quais os característicos fundamentais do instinto, e, portanto da opinião pública (que havíamos provado ser uma soma de instintos e não uma soma [?] de ideias), notámos que um desses característicos do instinto era a sua conservatividade, e por esse termo designávamos a peculiaridade do instinto em não se adaptar, contraposta à contrária peculiaridade da inteligência, de ser essencialmente adaptativa. A conservatividade entende-se, portanto, como sendo aquela peculiaridade do instinto pela qual ele tende a conservar-se tal qual é, procurando, ante qualquer fenómeno externo, adaptá-lo a si, e não adaptar-se [a si] a ele. Resulta desta peculiaridade que se há tendência fundamental do instinto é a de fazer com que todas as coisas, com as quais se encontra, se convertam na sua própria substância, dele, instinto. Ora esta atitude dá como resultado nos indivíduos componentes da camada instintiva, e portanto sã, de uma nação, o egoísmo como fenómeno distintivo. O que na generalidade do instinto se caracteriza por a tendência não adaptativa, caracteriza-se na particularidade individual do instinto pela tendência centrípeta. Ora, como são as camadas populares (como vimos) as que concentram em si o instintivismo social, as que são depositárias do instinto de sociedade, segue que essas camadas são por igual depositárias do egoísmo como determinação individual desse fenómeno geral. E segue imediatamente que para uma teoria ser antipopular, basta que seja antiegoística. Basta que se lance para o seio de uma sociedade uma teoria, pela qual se ataque o egoísmo, para se lançar uma teoria pela qual se ataca o povo. Há, evidentemente, uma excepção; esse egoísmo nasce da espontânea aplicação particular do instintivismo social, mas esse instintivismo social tem como base o sentimento patriótico. Resulta que o sentimento patriótico e o egoísmo individual têm a mesma base instintiva, mas, nados da mesma raiz psíquica, São os termos equilibradores. O homem normal só deixa de ser egoísta ante um apelo ao seu sentimento patriótico; o instinto familiar, que normalmente condiciona o egoísmo, é apenas uma extensão quase física desse egoísmo, como aliás o é o próprio patriotismo. Sendo isto assim, não custa a ver que o princípio liberalista, ou igualitário, inteiramente se contrapõe ao egoísmo são dos homens. Busca o liberalismo a abolição de privilégios, a abolição de diferenças entre os homens; e leva isto mais ou menos longe, teoricamente, consoante a ousadia ou indisciplina mental dos teorizadores e praticamente consoante a perturbação social que se atravesse. A abolição de privilégios, parece, a princípio, que deve ser concordante com o egoísmo natural dos homens, pois que a abolição do privilégio de um homem pode favorecer o egoísmo de mil homens; e se há aqui egoísmo ferido, é só o egoísmo do desprivilegiado [...] Ao destruir privilégios, o liberalismo parte de um princípio falso, porque antiegoísta. Parte do princípio de que o privilégio é um estorvo, e não de que ele é uma vantagem; isto é, encara o privilégio do lado dos desprivilegiados, e não do lado dos privilegiados. Fazendo isto, o liberalismo encara o privilégio do lado antiegoísta. Encara o privilégio como uma coisa que não deve haver. Se fosse uma doutrina socialmente sã, devia encará-lo como uma coisa que devia haver em mais abundância, visto que, para quem o tem, é uma vantagem. O erro está nisto, e tanto é um erro, que a grande época democrática chamada a Idade Média tinha a opinião contrária; o próprio povo, cioso então dos seus direitos como nunca depois o foi, tinha essa ideia. Na Idade Média usava-se a palavra liberdade, como hoje, mas com o sentido oposto ao que hoje se usa. O povo medieval considerava a liberdade como um privilégio concedido, não como a ausência de um privilégio nos outros (Quote Pollard). Qualquer citação de uma autoridade competente pode servir para autenticar esta asserção. Como quaisquer outras, serve a palavra seguinte, do prof. A. W. Pollard, na sua Short History of England (p.53):... Pode o povo — sobretudo se foi oprimido — simpatizar a princípio com o movimento liberalista; mas tarde ou cedo, de desconfiar dele, passa a odiá-lo, porque, ou o liberalismo segue o seu caminho lógico e justo, e então mais tarde ou mais cedo entra em conflito com privilégios que a ele, povo, tocam já de perto; pequenos privilégios todos os têm, mais ou menos [...]; ou, que é o que em geral acontece, o liberalismo, por ser um absurdo sociológico e, portanto, encontrar atritos por toda a parte para a sua operação, gradualmente se vai desviando e vem a ser uma mera arma de espoliação, simultaneamente útil como isco para os idiotas e anzol para os objectos da cobiça. Mero implemento de ladrões, o liberalismo acaba por despertar as iras do povo; e se não as despertou antes, é que o povo, como é ignorante, não sabe o que é aquilo, ou que perigos lhe traz. Assim, sendo antiegoísta, o liberalismo é antipopular. Para se ser “liberal” é preciso ser-se inimigo do povo, não ter contactos nenhuns com a alma popular [...] Teoria, de resto arranjada por aristocratas ingleses como arma contra a velha monarquia, e por homens de letras franceses mais como arma contra a Igreja que contra o ancien régime, sua própria origem proclama impossível a sua popularidade. Feito por quem, ou não era povo ou não podia sentir como povo, não admira que esse sistema venha eivado de todos os vícios anti-instintivistas, de todas as raivas antipopulares. O assunto comportaria uma série muito mais extensa de observações, entre as quais a menos interessante não seria, por certo, a demonstração de que o povo é naturalmente aristocratista, de que nunca um povo foi espontaneamente democrático, de que nunca o povo defendeu, de seu, senão os seus egoísmos, e a sua pátria; nunca, nunca, excepto por perversão imposta, ou perversão da decadência, os seus “direitos”, as suas “justiças” foram assunto por que o homem do povo fizesse [?] o esforço do levantar de um braço ou de tirar as mãos das algibeiras. Consideremos agora a oposição, mais fácil de determinar, entre o instintivismo social, no seu característico antagonismo, e a Democracia Moderna, no seu pacifismo característico. O patriotismo, vimos nós e demonstrámos, é a base do instinto social — é, mesmo o único instinto social verdadeiro; não é, de resto, mais que um egoísmo colectivo, ou, melhor, a forma colectiva do egoísmo, base de toda a vida psíquica. Demonstrámos também que, ao contrário da inteligência, que busca compreender, e, pois que o busca, não pode odiar o que compreende, o instinto odeia tudo quanto não seja ele, que o instinto é, portanto, radicalmente antagonista. No campo individual isto dá a ânsia da concorrência, a tendência constante para esmagar e entravar o esforço alheio (no que individual) que é a base da vida da humanidade, a causa dolorosa de toda a civilização. Se o amor é a fonte de toda a vida individual, o ódio é a fonte de toda a vida social. E do ódio entre homem e homem que a civilização nasce, e não só do ódio entre homem e homem, como do ódio entre nação e nação. No campo colectivo, o egoísmo tornado nacionalismo espontaneamente odeia o estrangeiro; todo o estrangeiro, para um povo são, é o seu inimigo. A expressão vulgar «uma nação amiga», quando não seja uma amabilidade [...], como o «atento venerador e obrigado» da correspondência comercial, é um crime sociológico; há só uma nação amiga, é a própria; só há uma nação que estimamos como nação, é a nossa. O resto é lixo de teorias. «A guerra», disse Heraclito, «é a mãe de todas as coisas.» E assim é. Maldade e corrupção humana? pecado original pesando sobre a estirpe dos homens? Seja o que for, assim é, e por certo a tese cristã da maldade fundamental dos homens tem mais base que a tese liberalista da sua bondade fundamental. Contrapusemos, assim, sucessivamente aos três princípios fundamentais do instintivismo social, base de toda a saúde das colectividades e das nações, os três princípios fundamentais do fenómeno de baixo intelectualismo chamado a Democracia moderna. Vimos que à não intelectualidade do instintivismo se opunha a pseudo-intelectualidade do princípio do sufrágio, e que, assim, e por esse seu princípio, a Democracia moderna é anti-social. Vimos que à conservatividade do instintivismo se opunha o pseudo-altruísmo nivelador do liberalismo, e que, assim, e por esse seu princípio, a Democracia moderna é antipopular. Vimos que ao antagonismo do instintivismo social se opunha o pacifismo fraternitário, e que, assim, e por esse seu princípio, a Democracia moderna é antinacional e antipatriótica. E assim demonstrámos que a análise escrupulosa do que seja a opinião pública, e de quais as bases psíquicas de uma vida social sã leva inevitavelmente ao esfrangalhamento integral do conceito moderno de Democracia. Cumpre juntar a estas considerações só mais uma, tendente a esclarecer o aparecimento nesta análise de urna condicionação constante. Dissemos sempre “Democracia moderna”. Assim dissemos porque “Democracia” de per si, comporta dois outros sentidos: podia entender-se, sem este escrúpulo nosso, que o nosso argumento se entendia também com a Democracia antiga dos pagãos, sistema muito diferente, e solidamente assente na dupla base da servidão e do aristocracismo — dupla aristocratização social; e podia entender-se que o nosso argumento implicava com a democracia monárquica (tal na verdade foi) da Idade Média que, por bárbara é excluída destas considerações, e por sã alheia a elas. Resta, agora, que demonstremos a segunda parte da nossa tese primária. Vimos já o que se podia deduzir de ser a opinião pública um instinto; vamos ver agora o que se pode deduzir de ser a opinião pública (como demonstrámos) sempre tradicionalista. As sociedades vivem (como demonstrámos em o nosso artigo “Como Organizar Portugal”) pelo equilíbrio de duas forças — a força conservadora, ou tradicionalista e a força progressiva ou antitradicionalista. No nosso artigo “C[omo] O[rganizar] P[ortugal]“ assim o provámos; mas em verdade não houve necessidade de provas[...] Se a opinião pública é sempre tradicionalista, segue que a opinião pública é sempre oposta ao progresso, segue também que as forças progressivas da sociedade, sobre trabalharem sempre em oposição à opinião pública, isto é, o instinto social, se acha naturalmente localizado. Vejamos o conteúdo lógico de cada uma destas duas conclusões. Que a opinião pública é sempre oposta ao progresso, é facto dos mais fácil e universalmente constatados pela história e pela experiência. A função social da opinião pública, como tal, é resistir ao progresso, mas, como ao progresso se não pode resistir, a função resume-se, por fim, em equilibrar a velocidade excessiva, que as classes progressivas tendem a imprimir à vida social. Como é que, então, se há-de fazer progredir uma sociedade, se a maioria dessa sociedade se opõe sempre ao progresso? A pergunta, que parece natural, envolve um erro, e no esclarecimento desse erro, ou mal-entendido, vai a solução verdadeira do problema. Para fazer progredir a sociedade os dirigentes têm evidentemente que contrariar os instintos conservadores da opinião pública, propriamente tal. Mas a opinião pública, se, a princípio, recebe sempre mal as inovações, como tais, deixa de as receber mal quando elas obedeçam a uma de três condições possíveis: Os progressos que não envolvem conflito com as tradições nacionais, evidentemente que não ferem a opinião pública profundamente. O estabelecimento de vias férreas, por exemplo, ainda que, por ser novidade, excitasse fortemente contra ele a opinião pública (como nos célebres discursos no parlamento britânico, e no procedimento inimigo de tantas populações pela Europa fora) não feriu senão um hábito — o hábito de estas inovações não existirem —, não atacou instinto tradicional nenhum. Este género de inovações, quando a opinião verifica que são úteis — o que é fácil que verifique — e quando manifestamente não firam as suas tradições, pertencem à esfera legítima do governo. Aqui podem os dirigentes inovar à vontade, que governam legitimamente. E assim com todas as coisas de índole administrativa, em cuja natureza não está ferirem as tradições nacionais. Neste ponto portanto — no ponto administrativo — podem as classes progressivas fazer o que quiserem, que não encontraram obstáculo real no conservantismo são e legítimo do povo. O povo nem compreende as fórmulas e regras administrativas, nem a aplicação delas, salvo em casos de grande amplitude reformadora, atinge o conservantismo popular. No campo de política interna, já a questão se não passa da mesma maneira. Há períodos da vida nacional em que se torna preciso adoptar medidas que vão com certeza alterar costumes assentes, que chocarão portanto o conservantismo popular. A medida do estadista está em saber fazer estas reformas sem sobressaltar e sem levantar a si próprio atritos. Os “estadistas” de mentalidade revolucionária, que resolvem os problemas eliminando um dos termos, estabelecem sempre contra si a reacção conservadora (que sobe do povo às classes dirigentes mais ligadas a ele — como às classes agrárias, que eram pelo Rei contra o Parlamento na guerra civil inglesa), e como no caso recente da reacção sidonista, contra a imperícia democrática. Nenhum problema político deve ser resolvido de acordo com a opinião popular, porque a opinião popular é sempre de opinião que o que está é que está bem. Mas nenhum problema político deve ser resolvido contra a opinião popular, porque tal solução, não sendo adaptável pelo instinto do povo, queda nula nos seus efeitos nacionais — como a separação da igreja e do estado decretada por Costa, que não fez mais que avivar a fé católica em Portugal, resultado que, por certo, aquele pseudo-estadista não procurou. Os estadistas de primeira ordem, como Bismarck ou Cromwell, governaram sempre contra a opinião pública. Os estadistas de segunda ordem, como Napoleão, governaram sempre com ela. O conservantismo faz com que não haja nunca indicações positivas de opinião pública; a opinião pública nunca pede que, pede sempre que não. (Faquet.) Não há movimentos revolucionários nacionais, a valer, senão contra o estrangeiro, ou contra-revolucionários de dentro. Só há contra-revoluções nacionais, não revoluções. 1919 Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 58. Rascunho para o artigo “A Opinião Pública” Cidades, com seus comércios (...) Tudo é mesmamente estranho, mesmamente Descomunal ao pensamento fundo Estranhamente incompreendido. Tudo é mistério, tudo é transcendente Na sua complexidade enorme, Um raciocínio visionado e exterior; Uma ordeira misteriosidade, Silêncio interior cheio de som. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 54. 1ª versão: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.77). If 2 principles be real, are they real in virtue of being 2, or in virtue of being real? Reality then is something outside, above them. 1906? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 26. Do horror do mistério são talvez Símbolos grosseiros esses horrendos Gorgona e Demogórgon fabulosos, Fatais um pelo aspecto outro no nome. Neles se vê a ávida ansiedade De dar em concepção que torturasse De terror, isso que de vago e estranho, Atravessando como um arrepio Do pensamento a solidão, integra Em luz parcial  (...)  a negra lucidez Do mistério supremo. É conhecer, O erguer desses ídolos de horror, A existência daquilo que, pensado A fundo, redemoínha o pensamento Por loucos vãos, declives de loucura Despenhadeiros de aflição, confusos Torturamentos, e o que mais d'angústia E pavor não se exprime sem que falhe Na própria concepção o conceber. É o horror dos horrores esse horror De haver d'alma um estado, aquele estado Em que o mistério lhe penetra o abismo, E não haver palavras ou ideias Que atinjam esse estado ou comuniquem D'ideias a ideias o que passa De vago e horroroso. Do mistério O pavor é duplo — é o horror em si O horror que sentimos ao senti-lo. Este que torna alegre e descuidosa A loucura, ao seu lado, que ligeiro Faz parecer tudo que de pavor Confrange, ou (...), enlouquece, Esta vacuidade angustiosa Do pensamento prenhe — quando tento Lembrar-me que a uma Cousa, Ser real Corresponde — só essa ideia possível Me gela a consciência de existir E me entupe de pavor o fundo Sentimento do mundo e de mim mesmo. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 54. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.95). Boca de riso escarlate/E de sorriso de rir... Boca de riso escarlate E de sorriso de rir... Meu coração bate, bate, Bate de te ver e ouvir. s.d. Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 49. A nossa ânsia de verdade é grande, e por certo o que quiséramos fora, não esta doutrina do Limiar, senão a casa e o lar que há nele. De aí a arte, feita para entretimento dos outros e nossa ocupação, dos que somos ocupáveis desse modo. Negada a verdade, não temos com que entreter-nos senão a mentira. Com ela nos entretenhamos, dando-a porém como tal, que não como verdade; se uma hipótese metafísica nos ocorre, façamos com ela, não a mentira de um sistema (onde possa ser verdade) mas a verdade de um poema ou de uma novela - verdade em saber que é mentira, e assim não mentir. (...) e assim construí para mim esta regra de vida. Procurei a verdade ardentemente, ora com uma atenção (…) s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 90. Indicação preliminar: «Regra de vida»; indicação final: «ou em prefácio às Ficções do Interlúdio». O inexplicável horror De saber que esta vida é verdadeira, Que é uma cousa real, que é [como um] ser Em todo o seu mistério [...] Realmente real. s.d. “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). - 95. Ricardo Reis — vida dele. O Dr. Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 29 de Janeiro de 1914, pelas 11 horas da noite. Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos, especialmente de realização, da arte moderna. Segundo o meu processo de sentir as coisas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa reacção momentânea. Quando reparei em que estava pensando, vi que tinha erguido uma teoria neoclássica, e que a ia desenvolvendo. Achei-a bela e calculei interessante se a desenvolvesse segundo princípios que não adopto nem aceito. Ocorreu-me a ideia de a tornar um neoclassicismo «científico» [...] reagir contra duas correntes — tanto contra o romantismo moderno, como contra o neoclassicismo à Maurras. [...] 1914? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 385. O neo-romantismo reaccionário - análise e refutação do integralismo monárquico. - F. Pessoa. Introdução ao estudo do problema nacional. - F. Pessoa. A Alemanha na guerra. Defesa e justificação da sua atitude. - António Mora. A Guerra - Estudo variológico - Fernando Pessoa. O caso de «Orpheu». - F. Pessoa. Prolegómenos a uma recontrução do paganismo. - A. Mora. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa. Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. O traço constante de uma vida dispersa - a solidão que me acompanha sempre por mim e por isso me define e sempre definiu. De todas as formas com que se o homem entretém em viver, nenhuma deveras me foi dada. Tenho passado pela vida como um espectro da minha vida, feito d'outra matéria que em [ ?] nós há [? ] e pensando com o meu espírito, irmão gémeo da negação de mim mesmo. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 91. Indicação preliminar: «Ficções do Interlúdio, Prefácio». Dois horrores Me esmagam, cada um dos quais parece O maior dos horrores que há maiores: Um, o horror da morte, outro, o horror De não poder evitar encontrar Esse horror — ter que morrer. Dois... Dois só horrores? Não. À roda destes Giram milhares, interpenetrantes, Complexos, uns dos outros produzidos E nessa treva hedionda, nesse inferno Que me tem lugar n'alma o pensamento E o sentimento, horrorosamente Conscientes e agudos cambaleiam, Mergulham, desvariam, gritam, sangram, Mas sempre claros, sempre conscientes, Sempre em cada parcela desse horror, Medindo todo o horror e descobrindo Os outros e os outros e os outros E assim sempre, assim sempre, sem parar, Arrasto, em agonia inconcebida De qualquer agonia imaginante Doutros homens, a vida torturada, Esta vida que a dor me faz eterna E o horror da morte fugidia e mínima Em toda a parte, todo o mundo, o horror. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 55. Redemoinha o vento, Anda à roda o ar. Vai meu pensamento Comigo a sonhar. Vai saber na altura Como no arvoredo Se sente a frescura Passar alta a medo. Vai saber de eu ser Aquilo que eu quis Quando ouvi dizer O que o vento diz. 1-9-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 162. Eu sou o disfarçado, a máscara insuspeita. Entre o trivial e o vil m [ inha ] alma insatisfeita Indescoberta passa, e para eles tem Um outro aspecto, porque, vendo-o, não a vêem, Porque adopto o seu gesto, afim que [ … ] Julga o vil que sou vil, e, porque não me No meandro interior por onde é vil quem é Julga-me o inábil na vileza que me vê. Assim postiço igual dos inferiores meus, Passo, príncipe oculto, alheio aos próprios véus, Porque os véus que me impõe a urgência de viver, São outro modo, e outra (...), e outro ser: Porque não tenho a veste e a púrpura visível Como régio meu ser não é aceite ou crível; Mas como qualquer em meu gesto se trai Da grandeza nativa que irreprimível sai Um momento de si e assoma ao meu ser falso, Isso, porque desmancha a inferioridade a que me alço, Em vez de grande, surge aos outros inferior. E aí no que me cerca o desconhecedor Que me sente diferente e não me pode ver Superior, julga-me abaixo do seu ser. Mas eu guardo secreto e indiferente o vulto Do meu régio futuro, o meu destino oculto Aos olhos do Presente, o Futuro o escreveu No Destino Essencial que fez meu ser ser eu. Por isso indiferente entre os triviais e os vis Passo, guardado em mim. Os olhares subtis Apenas decompõem em postiças verdades O que de mim se vê nas exterioridades. Os que mais me conhecem ignoram-me de todo. 13-3-1918 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 92. Resposta a A. Mora: É de uma crudelíssima ironia que aquela raça que considera os latinos como degenerados e estúpidos, encontre num espírito latino o seu maior justificador. Porque o curioso desta questão, de que vou tratar, é que nada apareceu a favor dos alemães que de longe se possa comparar, em brilhantismo, em grandeza, em serenidade lúcida e justa, ao extraordinário opúsculo do Dr. António Mora. Creio que o dr. António Mora não compreendeu devidamente o fenómeno psíquico denominado a cultura alemã. Ela baseia-se, simplesmente, nisto: cultura geral do espírito, orientação especializada da acção desse espírito. É só isto. No campo literário é uma atitude metafísica especializada para o campo literário. No campo político é uma atitude metafísica especializada para a prática política. No fundo há uma cultura geral, uma filosofia, uma noção geral da vida e das coisas, que determinados fins práticos canalizam para si. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 400. Abismo de ser muitos! Noite Minha! Encruzilhada do meu vasto ser! Quem quero que seja eu? Quem, no entrever Do que fui, treva anónima e mesquinha? Como o último estandarte da rainha Com quem o império findo se perdeu, Descem dos astros mudos do atro céu, Poesia, as razões de quanto fui ou tinha. Nos rumores da treva do que foi Recuam na derrota a murmurar As hostes sem (...) e sem herói Do meu destino feito a ignorar, E, como à última rainha, dói No meu peito um segredo por achar. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 93. Oligarquia das Bestas Mas o leitor escusa de se impingir a maçada de ler as obras afonsinas para perceber que o chefe das hostes oligárquicas nem tem talento, nem cultura, nem simples erudição. Que não tem talento mostra-o a absoluta ausência de ideias gerais, abstractas, propria[mente] ideias que os seus discursos mostram; que não tem cultura indica-o a sua absoluta nudez de (...), a absoluta [...] (...); que nem tem erudição exibe-o a escassez de ostentação e citações com que os [...], ainda que sem talento nem cultura, se salvam da nulidade intelectual nitidamente ostensiva. — Um discurso de A. C. é exactamente um discurso de J. Franco. O talento de A. C. é pequeníssimo, a cultura nenhuma, a erudição parca e não assimilada [...] Em talento e cultura A. O. e J. F. são iguais; em convicção, a pouca que A. C. tem [...] é mais que a nula do Ditador monárquico. A pouca erudição que tem A. C. faz-lhe mal: fá-lo perder a força toda. J. F. era mais perfeito porque mais de todo entregue à perfeição do tipo psicológico a que tanto ele como o D[itador] Rep[ublicano] pertencem. A diferença entre A. C. . e F. não está na superioridade de talento, mas na superioridade de equilíbrio. C[osta] é mais [?] equilibrado que Franco. [...] De resto, é, como mais equilibrado, menos forte. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 69. Desce a névoa da montanha, Desce ou nasce ou não sei quê... Minha alma é a tudo estranha, Quando vê, vê que não vê. Mais vale a névoa que a vida... Desce, ou sobe: enfim, existe. E eu não sei em que consiste Ter a emoção por vivida, E, sem querer, estou triste. 2-9-1935 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 134. Eu sou uma antologia. Escrevo tão diversamente Que, pouca ou muita valia Dos poemas, ninguém diria Que o poeta é um somente. …… Depois para si o poeta Deve ser poeta também Se ele não tem a completa Diversidade Não é poeta, é só alguém. Eu graças a Deus não tenho Nenhuma individualidade Sou como o mundo (...) 13-12-1932 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 94. Oligarquia das Bestas Radicais on Reaccionários (1) Reaccionários de espírito, mas aduladores do povo (A. C.). (2) Radicais ambiciosos. 3) Radicais sinceros (Bdº Machado) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 70. Qualquer caminho leva a toda a parte. Qualquer ponto é o centro do infinito. E por isso, qualquer que seja a arte De ir ou ficar, do nosso corpo ou espírito, Tudo é estático e morto. Só a ilusão Tem passado e futuro, e nela erramos. Não ha estrada senão na sensação É só através de nós que caminhamos. Tenhamos pra nós mesmos a verdade De aceitar a ilusão como real Sem dar crédito à sua realidade. E, eternos viajantes, sem ideal Salvo nunca parar, dentro de nós, Consigamos a viagem sempre nada Outros eternamente, e sempre sós; Nossa própria viagem é viajante e estrada. Que importa que a verdade da nossa alma Seja ainda mentira, e nada seja A sensação, e essa certeza calma De nada haver, em nós ou fora, seja Inutilmente a nossa consciência? Faça-se a absurda viagem sem razão. Porque a única verdade é a consciência E a consciência é ainda uma ilusão. E se há nisto um segredo e uma verdade Os deuses ou destinos que a demonstrem Do outro lado da realidade, Ou nunca a mostrem, se nada há que mostrem. O caminho é de âmbito maior Que a aparência visível do que está fora, Excede de todos nós o exterior Não para como as coisas, nem tem hora. Ciência? Consciência? Pó que a estrada deixa E é a própria estrada, sem a estrada ser. É absurda a oração, absurda a queixa. Resignar(-se) é tão falso como ter. Coexistir? Com quem, se estamos sós? Quem sabe? Sabe [... ] que são? Quantos cabemos dentro em nós? Ir é ser. Não parar é ter razão. 11-10-1919 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 95. Oligarquia das Bestas A[ntónio] J[osé] d'Al[meida] (...) a estulta (...) de trazer o seu nome escrito na sua bandeira; de fazer do seu retrato parte do seu brasão político. Como a pose dos que põem fósforos de cera de dez réis em caixas de fósforos de vintém. Com uma pose [...] cauta lucra-se diariamente um bilhete postal para o Continente ou Espanha. (Dez réis de pose.) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 71. QUARESMA, DECIFRADOR 1. Introdução. 2. O Caso do Quarto Fechado. 3. O Pergaminho Roubado. 4. O Desaparecimento do Dr. Reis Dores. 5. O Roubo na Rua dos Capelistas. 6. A Morte do Sr. Arnott. 7. O Caso da Janela Estreita. one per month. ?  Case of the Science Master. ?  Quadratic Equation. ?  Cifra Witteral. ?  Murder in 3 rd Floor. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 220. Dói-me o nevoeiro, dói-me o céu Que não está cá. Estou cansado de ser tudo menos eu. Onde é que está A unidade que Deus, suponho, me deu? Perdi-a por sentir, ou por pensar? Não serve saber. Extraviei-a, como um embrulho, a sonhar? Perder por perder, Mais vale deixar perder e não procurar. 24-8-1930 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 96. Oligarquia das Bestas Af. Costa é o perfeito tipo do salteador político. Maior (...) não deparou o Destino à política. O seu partido é as fezes da República. Mas como pode ser libertador um pobre idiota que nunca se libertou a si de coisa alguma? Como pode libertar ou ajudar a libertar um escroque-nato (diabo [?], como diz o Evangelho)? Que compreensão da liberdade-pátria [...] tem um secundário da vida, que nunca assimilou uma vida, nem criticou um facto? que nunca pariu de seu cunho filho que o seu [...] fracasso, mas andou abrindo as pernas do espírito, prostituidamente, a quanto genitor intelectual afadistado [?] de compreensão deparou na estrada do destino — filhos aliás em que só mostrou a maternidade do seu espírito pela deformidade em que as crias borram [?] o já de si paterno tipo intelectual de Libertador-Aquiles [?]? Mero passeio de vista baixa, capão de alma, sem crenças, nem decências, nem aspirações — Carimbiborrão de quem o pariu, jesuíta vermelho, de uma (...), de uma subtileza que não intruja, de uma (...) — falho mesmo como malandro, cão [?] também como intrujão, tipo patibular a quem não vale a pena de morte estar abolida em Portugal, porque não faltam [...] — alma (...), nem escasseiam espingardeiros. Restos do festim monárquico, que nos querem obrigar a comer em prato sujo, de orla vermelha e verde, quando temos que comer, e não nos falta água para ter pratos limpos para o jantar do povo [?]. Corra-se com aquilo. Varra-se da vista da consciência pública esse livro humano. Que te há-de um português chamar, ó merecedor de termos, para que ainda não há nenhuns conceitos? [...] pulha, bandalho, pernicioso [?], (...) — como todos estes termos falham ante o teu merecimento de insultos, oh hiper-tudo-isto! s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 72. AVE-MARIA À minha mãe Ave Maria, tão pura, Virgem nunca maculada Ouvide a prece tirada No meu peito da amargura. Vós que sois cheia de graça Escutai minha oração, Conduzi-me pela mão Por esta vida que passa. O Senhor, que é vosso filho Que seja sempre connosco, Assim como é convosco Eternamente o seu brilho. Bendita sois vós, Maria, Entre as mulheres da terra E voss'alma só encerra Doce imagem d'alegria. Mais radiante do que a luz E bendito, oh Santa Mãe É o fruto que provém Do vosso ventre, Jesus! Ditosa Santa Maria, Vós que sois a Mãe de Deus E que morais lá nos céus Orai por nós cada dia. Rogai por nós, pecadores, Ao vosso filho, Jesus, Que por nós morreu na cruz E que sofreu tantas dores. Rogai, agora, oh mãe querida E (quando quiser a sorte) Na hora da nossa morte Quando nos fugir a vida. Avé Maria, tão pura, Virgem nunca maculada, Ouvide a prece tirada No meu peito da amargura. 12-4-1902 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 97. Oligarquia das Bestas B. Machado, no discurso do Porto, mostra-se tão ignorante de como se é subtil, tão brutamontes no cá-estou-eu, tão labrego no insinuar, tão indecentemente saracoteador da sua candidatura, que qualquer meio-juízo compreenderia o que de anti-diplomático, não-frio e nada-esperto aquele espírito é. E esta consideração sobressalta porque nos põe na alma uma interrogação do que seria nas [...] do ministério dos negócios estrangeiros a acção de tão desmandada besta. O discurso do Porto faz na [...] da verdade a frase retratadora de Homem Cristo: pano-[...] era o que ele chamara a Bernardino. Chamara-lhe também [...]; mas há melhor no [...] género -"Bernardino Manchado" sabe [?] menos da exactidão alfabética — porém mais vincadamente perto da precisão descritiva. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 73. Vai pela estrada que na colina É um risco branco na encosta verde — Risco que em arco sobe e declina E, sem que iguale, se à vista perde — A cavalgada, formigas, cores, De gente grande que aqui passou. Eram dois sexos multicolores E riram muitos por onde estou. Por certo alegres assim prosseguem. Quem porém sabe se o não sou mais — Eu, só de vê-los e como seguem; Eu, só de achá-los todos iguais? Eles para eles são um do outro; Pra mim são todos — a cavalgada —, Numa alegria, distante e neutro, Que a nenhum deles pode ser dada. Os sentimentos não têm medida, Nem, de uns para outros, comparação. Vai já na curva que é a descida A cavalgada meu coração. 15-12-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 113. AVE-MARIA À minha mãe Ave Maria, tão pura, Virgem nunca maculada Ouvi a prece tirada No meu peito da amargura! Vós que sois cheia de graça, Escutai minha oração, Conduzi-me pela mão Por esta vida que passa! O Senhor, que é vosso filho, Que seja sempre connosco, Assim como é convosco Eternamente o seu brilho. Bendita sois vós, Maria, Entre as mulheres da terra; E vossa alma só encerra Doce imagem de alegria! Mais radiante do que a luz E bendito, oh Santa Mãe É o fruto que provém Do vosso ventre, Jesus! Gloriosa Santa Maria, Vós que sois a Mãe de Deus E que morais lá nos céus Velai por mim cada dia! Rogai por nós, pecadores, Ao vosso filho, Jesus, Que por nós morreu na cruz E que sofreu tantas dores! Orai agora, oh Mãe querida, E (quando quiser a sorte) Na hora da nossa morte Quando nos fugir a vida! Avé Maria, tão pura, Virgem nunca maculada, Ouvide a prece tirada No meu peito da amargura. 7-4-1902 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 98. 2ª versão, com data fictícia. If evolution is to be universally true, itself it must evolute. But if it must evolute evolution is no longer universally true, for it changes, for it ceases to be evolution. Since things are by nature numerical, i.e., plural, they cannot pertain to an infinite. The sum of things to things, of numbers to numbers cannot give the infinite for to give the infinite among the finite, is to introduce into a numeric sum something which is not a number. If infinite be a quantity (as some give us to understand when they say the infinite is «that which is greater than a conceivable number», «greater indicates quantity»), if this be so, the infinite when entering into a calculation in other quantities, possess the properties of a quantity, i.e. of dealing with different quantities of giving different results. But this is precisely what it does not. 2 ´ ¥, 100 ´ ¥, ten million by infinite give the same thing: infinite. No quantity can do this. 1907? Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. - 60. Lisboa, 19 de Fevereiro de 1915. Meu querido Amigo: Naturalmente receberei daqui a dias, enfim, carta sua. É com urgência que lhe escrevo esta; mal tenho tempo para lhe escrever esta mala, mas há a urgência que consta do seguinte, para o que peço a sua, não melhor, mas óptima, atenção. Vai entrar imediatamente no prelo a nossa revista, «Orpheu», de que é director em Portugal um poeta, Luís de Montalvor, amigo íntimo do Sá-Carneiro, e meu amigo também, e no Brasil um dos mais interessantes e nossos dos poetas brasileiros de hoje, Ronald de Carvalho. Vai entrar amanhã mesmo no prelo. Deve ter perto de 80 páginas, e é trimestral. Se você mandar colaboração para chegar aqui no vapor do princípio do mês que vem era óptimo. Não nos falte . Seria para nós um grande desgosto que a revista aparecesse sem v. colaborar. Naturalmente teremos ocasião de publicar umas 6 páginas suas, a página contendo ou 2 sonetos ou 6 quadras — isto para v. fazer ideia do tamanho. Mande quanto original v. possa, excedendo bastante o necessário; v. não se importará naturalmente que eu aqui escolha de entre essas poesias as mais adaptadas ao nosso fim? Não se importa, com certeza. Por isso não falte . Olhe que a revista vai amanhã entrar na tipografia, começar a compor-se. V. tem tempo, mas não perca vapor. Mande quanto possa pelo primeiro. Mande o mais interseccionista que tiver — não as Odes Proféticas por exemplo. Mande coisas género Outro (não tenho aqui cópia) e coisas análogas. NÃO NOS FALTE. Meus cumprimentos a seu Pai. Um grande abraço do todo e sempre seu Fernando Pessoa P.S. - Se puder registe a carta, para não se perder. Meu endereço (lembra-se?): Fernando Pessoa Na casa A. Xavier Pinto e C.a Campo das Cebolas, 43 Lisboa A casa comercial onde estou mudou de firma agora. Mas não fazia mal pôr o nome antigo. 19-2-1915 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 57. Oligarquia das Bestas No género desequilibrados políticos, temos Bruno António Claro. Este último tem feito mais mal no Norte que todos os conspiradores que lá estão. Os conspiradores trabalham às escuras. Este é em pleno dia que conspira. O modo de conspirar dele é inconsciente: é um errar a compreensão da situação política. Veja-se o tom de variadas crónicas ( O Porto , 19/9/11 — Em Penacova). É Homem Cristo exactamente. O mesmo tom (...), mesmo modo de falar pessoal e cheio de eu, o mesmo amor a inimigos da República, o mesmo [...] republicano junto a adulação e (...) de tudo quanto é reaccionário. O mesmo manter o mal-estar (...) O mal que a lei de separação possa ter feito no norte é mínimo comparado ao que têm feito os seus críticos — este especialmente. Verdadeiro rep[ublicano]? Rep. de sempre? Ora, ora. E o que é que dizia o antes [?] conspirador Homem Cristo? Em lugar de incutir no espírito popular a ideia que a Rep[ública] é superior à lei de separação; de (...), António Claro escolhe o que é mau na Rep[ública], toma-o como típico da Repª e assim o apresenta ao povo de Braga, ao do Porto, ao de Viana do Castelo, ao de Guimarães — ao Norte reaccionário. Tudo isto indica um certo desequilíbrio mental. Ora os doidos internam-se, ou, pelo menos, calam-se. (...) Fala da lei do divórcio, desintegra a família (...) — e fala como se a lei fosse de divórcio obrigatório. (...) Digo que é um traidor. Paiva Couceiro também tem antecedentes pessoais [?] da alta nobreza [...] — mas mostra sempre o laivo da loucura. É um louco cercado de malandros, dirigido por lunáticos [?]. É o que A. Claro está sendo (explorado e aproveitado por toda a malandragem reaccionária do Norte). Nada de simpatias estúpidas pela Igreja. Uma coisa é a fé católica do povo, outra a Igreja. Uma não nos faz mal, a outra odeia-nos e combate-nos; uma é um elemento social, uma força social normal e, por isso, aproveitável, outra uma força degenerativa (...) Nada de choramingas reles sobre o padre-cura da nossa meninice, figura postiça [?] que geralmente faz chorar quem nunca na meninice teve que gramar [?] padres-curas. Uma coisa é o misticismo português, (que nem sequer é propriamente católico) outra coisa a vasta horda de bandidos que cofrearam [?] Paiva Couceiro, e lhe aproveitaram a loucura, fazendo a ruína moral e social de um homem cujas qualidades não mereciam que o fizessem vítima. Nobres prelados? O pederastão da Voz? Tanto bandido, tanto pulha (...)? Pregadores da castidade que não são castos, da suavidade que [...] sangue (...) patriotas que mijam no nome da pátria, (...) Cantem-lhes os hinos que quiserem, que, seja qual for a letra, a música é o Hino da Carta. É porque isto não esqueceu que Af. Costa tem ainda tanto partidário. E os austeros rep[ublicanos] suspirantes e lacrimejantes, tipo António Claro, que se removam para a merda [?] e vão intrujar outros que estejam para lhes aturar o [...] O perigo da Rep[ública] é estar entalada entre Af.s Costas e os Antónios Claros. A. Claro não viu que o anticlericalismo deste princípio da rep[ública] é um desforço e uma defesa. Desforço — e desforço bem suave e (...) — contra quem tudo fez, todas as infâmias, todas as calúnias, todos os ódios (...) contra ela [...] Partidário, por de todo liberal, da manutenção das ordens religiosas, aplaudo o decreto que as expulsou. E aplaudo-o porque foi uma defesa necessária e um desforço preciso. Escrever, nas horas angustiosas da repª, os artigos que escrevem Bruno e António Claro, representa uma perversão dos sentimentos políticos e sociais [...] Continuar no mesmo tom agora (A. Claro, não Bruno), para que isto não acalme, nem (...), fomentar discórdias, espicaçar ódios (...) — é a tal ponto (...) O Porto parece um manifesto de conspiradores. Quando a Repª se sacudir dos A. Costas, dos Basílios Teles, quando conseguir que os Brunos contem só extra-politicamente (...) Merecedora de elogios é a atitude do Sr. Cunha e Castro. Esse discordou mas absteve-se de falar. Mil vezes mais lúcido (não digo mais inteligente) que todos os Brunos e Antónios Claros (...) António Claro e os outros como ele têm outra táctica — não é criticar, é alarmar. Não atacam Af. Costa, que aliás está fora do poder, mas falam como se ele estivesse chefe de ministério e a caminho de perder isto tudo. O Porto deve ter já uma grande trupe; não há agora o Povo de Aveiro. "As hostes" de [...]: (l) Os reaccionários. (2) Os radicais. (3) Os agitadores (os alarmistas) s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 74. Lisboa, 4 de Março de 1915. Meu querido Amigo: Agradeço-lhe muito o seu telegrama, posto que sinta que v. se tivesse dado ao incómodo e à despesa de o fazer. Isso mostra o seu interesse pela nossa revista, mas era realmente desnecessário que v. se tivesse incomodado assim. Chegando os seus poemas na mala de aqui a dias chegam bem a tempo. Oxalá v. tenha mandado bastantes coisas, para podermos ver bem quais devem representar melhor para o público a feição do seu Espírito. A composição da nossa revista será a seguinte: 1. Introdução — Luís de Montalvor. 2. Para os «Indícios de Oiro» — poemas de Mário de Sá-Carneiro. 3. Poemas — de Ronald de Carvalho. 4. O Marinheiro — drama estático em um quadro, de Fernando Pessoa. 5. Treze Sonetos — de Alfredo Pedro Guisado. 6. Frisos — contos do desenhador, José de Almada Negreiros. 7. Poemas (ou outro título qualquer) de Côrtes-Rodrigues. 8. Narciso — poema de Luís de Montalvor. Tudo isto deve dar para cima de 80 páginas. A revista — não sei se já lhe disse — é trimestral. O primeiro número deve sair no fim de Março corrente; os outros, correspondentemente, em fins de Junho, Setembro, Dezembro. O preço de cada número é de 300 réis. A assinatura para continente e ilhas é 1000 réis por ano, pelos 4 números. Vamos a ver se conseguimos aguentar a revista até, pelo menos, ao 4.º número, para que ao menos um volume fique formado. Vai ficar uma coisa muito boa, com um ar definitivo, de coisa que fica. Bem orientada, deve pegar a valer. Parece-me isto, sobretudo por causa da venda e das assinaturas no Brasil, que o Luís de Montalvor (director em Portugal), que esteve bastante tempo no Brasil, e o Ronald de Carvalho, director do Brasil, devem conseguir obter. Ora, a propósito de assinaturas, ocorre-me que, quando nós aqui falámos em sair, não sei se era com a Lusitânia, se era com a Europa, v. me citou nomes de várias pessoas cuja assinatura para a revista v. disse poder obter. V. recorda-se sem dúvida que tratámos deste assunto nos «Irmãos Unidos» e que eu assentava num livrinho os nomes dos assinantes prováveis, pondo adiante, entre parênteses, as iniciais de aquele de nós que as poderia obter. Tenho aqui esse livrinho e transcrevo os nomes seguintes, de assinaturas prováveis, aos quais estão apensas as iniciais de v. É para v. ver se pode conseguir, então, estas assinaturas, e outras de que se recorde. Escreva-me sobre este assunto, dizendo-me tudo o que for preciso para nós aqui tratarmos dessas assinaturas; a saber — (1) se devemos enviar as revistas para v., ou para eles, ou para outra parte qualquer; (2) se as revistas deverão ser dirigidas a cada um dos que v. indicar acompanhadas de uma carta da gerência da revista pedindo a assinatura — tendo v., é claro, previamente falado com esses indivíduos a respeito disso. Indique-me tudo como puder, na primeira mala, visto que essa sua carta deve chegar aqui antes (com certeza) de a revista estar impressa. Temos que tratar afincadamente — como v. compreende — da parte-administração da revista; que é por descurar esta parte que costumam cair, em geral, as revistas literárias. Indique-me v. também para onde, em Ponta Delgada (e outros pontos de 5. Miguel, se valer a pena) se devem mandar exemplares para a venda avulso; quantos exemplares; se v. fala aos donos desses estabelecimentos, etc., etc. Temos que firmar esta revista, porque ela é a ponte por onde a nossa Alma passa para o futuro. Aí vão os nomes que v. citou como sendo os dos assinantes que v. poderia arranjar: Agostinho Pizarro — Dr. António César Rodrigues — P. e Manuel Ernesto Ferreira — Teobaldo da Câmara — Dr. Albano de Gusmão Tavares — José Leão — Teotónio da Silveira Moniz — Dr. António Saraiva — Dr. Mont'Alverne de Sequeira — Honorato Bernardo Bettencourt — Augusto Loureiro — Cândido Garcia Reis — Alberto Martins — Dr. Nuno de Gusmão — Dr. Eduardo de Luís Tavares — Marquês de Jácome Corréa — Coronel Francisco Afonso Chaves — Narciso de Morais — Conde de Botelho. Não sei se eles são todos de aí. V. verá e dirá. Claro está que não incluí na lista os nomes do Norberto Corrêa e do Rocha, porque a esses falo eu aqui. Na lista vai o nome Cândido Garcia Reis. É aquele rapaz a quem v. me apresentou, não é verdade? aquele que estava doente. Incluí o nome dele na lista porque, apesar de ele estar cá (vi-o há dias), não o conheço suficientemente para lhe poder falar sobre o assunto. Ia-me esquecendo ... com efeito, esqueci-me... Na lista da colaboração da revista, depois dos Frisos do Almada Negreiros vão duas poesias do meu filho Álvaro de Campos — o homem da ode de cuja terminação (descritiva da Noite) você tanto gostava. Uma das poesias é aquela Ode Triunfal (o canto das máquinas e da civilização moderna) que v. já conhece. A outra é uma poesia anterior (que é posterior) do mesmo cavalheiro. Depois, quando seguir para aí a revista, lhe falarei deste assunto mais detalhadamente. Escuso de lhe falar do segredo «absoluto» disto tudo, não é verdade? Estou ainda sem saber se v. recebeu aquela minha carta em que eu lhe mandava versos. Oxalá não se perdesse. Teria muita pena se assim tivesse acontecido. O meu drama estático «O Marinheiro» está bastante alterado e aperfeiçoado; a forma que v. conhece é apenas a primeira e rudimentar. O final, especialmente, está muito melhor. Não ficou, talvez, uma coisa grande, como eu entendo as coisas grandes; mas não é coisa de que eu me envergonhe, nem — creio — me venha a envergonhar. Dê os meus melhores cumprimentos a seu Pai e receba, meu querido Côrtes-Rodrigues, um grande abraço do seu muito amigo, admirador e obrigado. Fernando Pessoa P. S. — O Guisado tem feito ultimamente extraordinárias e inesperadas coisas, versos ofuscantemente belos. 4-3-1915 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 58. Oligarquia das Bestas Lama de portugueses, esterco de gente, sem uma ideia grande nem um sentimento generoso, sem outro ideal que o [...] individual ou colectivo, quando a tanto [...] (...) Sub-homens. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 75. Vi passar, num mistério concedido, Um cavaleiro negro e luminoso Que, sob um grande pálio rumoroso, Seguia lento com o seu sentido. Quatro figuras que lembrando olvido Erguiam alto as varas, e um lustroso Torpor de luz dormia tenebroso Nas dobras desse pano estremecido. Na fronte do vencido ou vencedor Uma coroa pálida de espinhos Lhe dava um ar de ser rei e senhor. [...] 16-12-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 115. Lisboa, 19 de Março de 1915. Meu querido Amigo: Muito obrigados — nós todos — pelos seus poemas. Chegaram a tempo, muito a tempo; está já composta e impressa a folha do Orpheu em que eles estão. A revista deve estar inteiramente pronta aí por 25 deste mês. De maneira que só para a mala do dia 4 de Abril lha poderemos mandar. Para essa mala mais detidamente lhe escreverei. Meus cumprimentos a seu Pai. Abraça-o muito apertadamente o seu Fernando Pessoa 19-3-1915 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 61. Oligarquia das Bestas Como exemplo de fraqueza governativa, pondere-se sob que cor existe intracivilizacionalmente aquela patriótica associação de parvos e de odiosos que é a Carbonária Portuguesa. Que se constituísse para fazer a revolução, vá; é uma colectividade mórbida, sociologicamente falando, e não é para admirar que, num tempo mórbido, como é todo o período revolucionário, seja precisa. Mas, acabado esse período, para que continuar a existir? Def[esa] da Repª ? Há a polícia, o exército, a marinha [?]. E espionagem particular — podem executar os centros republicanos, se quiserem. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 76. Ladram uns cães a distância, Cai uma tarde qualquer, Do campo vem a fragrância De campo, e eu deixo de ver. Um sonho meio sonhado, Em que o campo transparece, Está em mim, está a meu lado, Ora me lembra ou me esquece. E assim neste ócio profundo Sem males vistos ou bens, Sinto que todo este mundo É um largo onde ladram cães. 25-12-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 116. Initiation There are many Kabbalas, and it is hard to believe that we cannot attain to union with God, whatever that may mean, unless we are acquainted with the Hebrew alphabet. There are Errors of the Path, Errors of the Inn and Errors of the Cave. Those are errors of the path where the path itself is taken for its purpose. Those are errors of the Inn where halfway is taken for all the way. Those are errors of the Cave where the cave, which is at the base of the Castle, is taken for the Castle itself (is taken for the Hall of the Castle). These errors are common to all paths, and that of Gnosis is no more free from them than the mystical and the magical paths. I can dispense with asceticism, but not with truth, nor will I believe that God will not be manifest to me unless I can sit still for five hours or can breathe naturally through either nostril at will. The fact is, however, that whatever the path that is taken, it should not be taken before the preparatory grades, the neophyte grades, have been traversed. Mysticism seeks to transcend the intellect (by intuition), magic to transcend the intellect by power; gnosis to transcend the intellect by a higher intellect. But to transcend a thing rightly you must first pass through that thing. The advantage of the gnostic path is that there is less temptation to reach the higher intellect without passing through the lower, since both are intellect and there is a difference of quantity between the one and the other, than in the mystic and the magic paths, where there is a difference of quality, not quantity, between emotion and intellect; between the will and intellect. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 71. “Essay on Initiation.” Lisboa, 4 de Abril de 1915. Meu caro Côrtes-Rodrigues: Muito à pressa. Ontem deitei no correio um Orpheu para si. Foi só um porque podemos dispor de muito poucos. Deve esgotar-se rapidamente a edição. Foi um triunfo absoluto, especialmente com o reclame que A Capital nos fez com uma tareia na 1.ª página, um artigo de duas colunas. Não lhe mando o jornal porque lhe escrevo à pressa, da Brasileira do Chiado. Para a mala seguinte contarei tudo detalhadamente. Há imenso que contar. Agora tenho tido muito que fazer. Da livraria depositária é que seguirão os exemplares para os assinantes e livrarias daí. Naturalmente não há números para irem para todos os nomes que v. indica. Vão para alguns. Naturalmente temos que fazer segunda edição. « Somos o assunto do dia em Lisboa »; sem exagero lho digo. O escândalo é enorme. Somos apontados na rua, e toda a gente — mesmo extra-literária — fala no Orpheu. Há grandes projectos. Tudo na mala seguinte. O escândalo maior tem sido causado pelo 16 do Sá-Carneiro e a Ode Triunfal. Até o André Brun nos dedicou um número das Migalhas. Meus cumprimentos a seu Pai. um abracíssimo do Fernando Pessoa 4-4-1915 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 63. Oligarquia das Bestas A. C. Quem, como eu, está de pergunta [?] para este José do Telhado de revenda. Este [...] com uma sub-erudição [...] e trapos [?] sujos das calças de Bernardino Machado, sem inteligência nem carácter, sem noção mais do que periférica sequer dessa mesquinha coisa que seja o ser um estadista do seu tempo. Nem ministro logrou ser, de ridículo (...), nem mesmo quando não se [...], mas deve levar a inibição até ao esfíncter para não borrar as ceroulas, o que é ridículo já. O ódio que tem por ele toda a gente culta [...] por um malandrim ignorante e sujo, que vem à nossa presença [...] com ranho no bico  (...) [...] Ser dominado por D. Carlos e um J. Franco — um tem atrás de si a tradição monárquica, que a nossa ilusão pode fazer-nos crer grande, julgando-nos sob um deserto de boas almas — o que (...) Mas Custa! Este é um piolho da [...] política [...]  Era possível odiar Franco. A este esfregão nem isso é possível: os nossos sentidos com respeito a ele tomam de seu efeito a moleza [?] e (...) e esboroam-se em nós em desprezo. [...] Franco seria um tirano de merda; este é um tirano de caca. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 77. Monólogo na Noite Sou a Consciência em Ódio ao inconsciente. Sou um símbolo encarnado em dor e ódio Pedaço d’alma de possível Deus Arremessado para o mundo Com a saudade pávida da pátria A cujo horror tremo ao pensar voltar Mas sem nada da (...) e da ilusão Para viver neste desterro. Amor, Paz, amizade, tudo quanto ajuda A viver a mentira do universo Falha-me e eu (...) Ó sistema mentido do universo Estrelas-nadas, sóis irreais Oh com que ódio carnal e estonteante Meu ser de desterrado vos odeia. Eu sou o inferno. Sou o Cristo negro Pregado na cruz ígnea de mim mesmo Sou o saber que ignora; Sou a insânia da dor e do pensar Sobre o livro de horror do mundo. Por que fui eu, amaldiçoado horror Que me fizeste ser e que eu nem posso Pensar para te amaldiçoar, ou crer Em ti, tão cheio do consciente e mensurante Que o ódio me não cegue para ver Que não sei que tu és para saber Se sequer poderei pensar odiar-te. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 112. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.86). Leves véus velam, nuvens vãs, a Lua. Crepúsculo na noite..., e é triste ver, Em vez da límpida amplitude nua Do céu, a noite e o céu a escurecer. A noite é húmida de conhecer, Sem que humidade de água seja sua. [...] 9-1-1933 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 117. The Infinite and the Eternal are the sensible expressions of the Immense. The Infinite and the Eternal, as elevations of the second degree, are the second stage of man's aspiration after truth. The Infinite and the Eternal are man's attempt to find an Absolute; they are, in very deed, a degrading of the Absolute. * Categories of Intellect Being . Extension : Time . Situation . Space . Relation . Quality. Quantity. Possession. 1916? Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 27. Oc. There are three distinct types of initiation — symbolic or outer, intellectual (outer of inner), and vital (inner). In the symbolic initiations, which reinforce the will and therefore lead to Magic as attainment, the candidate does not pass through stages of understanding, but through stages of intuition, so to speak; he is continually on the surface and appearance of things, and, though he attains the highest degree in whatever order or orders he goes through, that highest degree need not correspond (generally does not correspond) to anything like a parallel degree in any of the inner initiations. In the intellectual initiations, which reinforce the intellect and therefore lead to Mysticism as attainment, the candidate passes through stages of understanding, but not through stages of life; he may know much, but he need not live that which he knows on the same level as he knows it. In the vital initiations, which reinforce the emotion and therefore lead to Alchemy as an attainment, the candidate lives that which he feels and knows. (Is this right? Do not rather these initiations differ on another score, whereas the difference between Magic, Mysticism and Alchemy (what of Gnosis?) lies on another plane of interpretation? Are not these initiations rather physical, etheric and astral? (or, perhaps, etheric, astral and spiritual, or astral, mental and spiritual?) — Possibly there are three modes in which initiations can be interpreted: (l) the three ways of attainment, magical, mystical and gnostic, (2) the three stages of attainment, Neophyte, Adept and Master, (3) the three degrees of attainment, astral, mental and spiritual. s.d. Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. - 72. Lisboa, 19 de Abril de 1915. Meu querido Amigo: Com a minha vida, indisciplinadora de almas, no escritório, acrescida da minha vida jornalística de agora (sou redactor duma nova folha que aqui há, O Jornal — caí nesta vala temporariamente), mal tenho tempo para as minhas simples coisas da vida intelectual, de modo que por pouco me não escapou o dia de lhe escrever. Lembrou-me hoje de repente, e felizmente lembrou-me a tempo, visto que são 19. E não tenho tempo para tratar de reunir alguns, pelo menos, dos artigos que se têm escrito sobre o Orpheu; tenho pena de que o não possa fazer, porque v. havia de rir imenso com eles. Para a outra mala — definitivamente lho prometo — não me esquecerei. Tantos e tais foram os artigos, que em três semanas o Orpheu se esgotou — totalmente , completamente se esgotou . Para a outra mala fica, igualmente, o escrever-lhe uma longa carta sobre o assunto. São 12¼ da noite — isto é, como dizia o Dr. Assis, «já é amanhã». Paro aqui, portanto. Meus cumprimentos a seu Pai; um grande abraço para si do muito seu Fernando Pessoa (Saudades do Sá-Carneiro e do Alfredo Guisado.) 19-4-1915 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 63. Oligarquia das Bestas A. C. é um dos maiores bandidos que têm aparecido à superfície da política lusitana. Tipo perfeito de adiantada-fome, (...) do alto cacique. Em A. C o homem teórico é uma manta de retalhos, duplamente heterogénea, por de retalhos e por de retalhos de várias espécies. Nada de original... Os fundilhos, de Karl Marx traduzido, corpo e alma para francês [?], do Bernardino Machado estão [...] limitados a norte por um punho de [...] a sul por (...) Remata tudo, única coisa completa e em bom estado, as luvas de Rodrigo da Fonseca Magalhães. O homem prático (...) [...] s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 78. Se eu morrer, na minha cova Ponham letreiro mostrando Que morri quando era nova Que morri sempre te amando. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 115. Quero, terei — Se não aqui, Noutro lugar que inda não sei. Nada perdi. Tudo serei. 9-1-1933? Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 118. Lisboa, 23 de Junho de 1915. Meu caro Côrtes-Rodrigues: É uma circunstância violenta e aflitiva. V. pode emprestar-me cinco mil réis até ao dia 1 do mês que vem (1 de Julho)? É aflitivíssimo o caso, creia. E o pagamento é pronto e certo no referido dia 1, se não for antes, o que pode acontecer, mas não prometo. Se v. me pudesse fazer isto! Valia-me numa conjuntura em que não tenho ninguém para quem me vire. Era questão de uns dias; nem eu — desde o que v. já me explicou sobre a sua situação — lhe faria partida alguma, ou seria capaz de lhe dizer que lhe pagava em determinado dia, se me fosse impossível fazê-lo. Se v. puder, não deixe de me fazer isto! Não estarei no escritório amanhã senão tarde. Mas, vindo v. cá e deixando-me em envelope a quantia, ser-me-á entregue fielmente quando eu chegue. Não me julgue indelicado por lhe pedir, ainda por cima, que venha aqui ao escritório e, mais, dizendo-lhe que talvez eu não esteja. É que tenho coisas inadiáveis de que tratar e não poderia marcar horas e lugar mais conveniente onde encontrá-lo. Desculpe. Veja se me pode fazer isto, sim? É só por estes 5 ou 6 dias. Decerto que poderá ser. Seu mto. am. o e grato F. Pessoa 23-6-1915 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 64. HORA ABSURDA O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas... Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso... E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso... Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte... O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto... Minha ideia de ti é um cadáver que o mar traz à praia..., e entanto Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte... Abre todas as portas e que o vento varra a ideia Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões... Minha alma é uma caverna enchida pela maré cheia, E a minha ideia de te sonhar uma caravana de histriões... Chove ouro baço, mas não no lá-fora... É em mim... Sou a Hora, E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela... Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora... No meu céu interior nunca houve uma única estrela... Hoje o céu é pesado como a ideia de nunca chegar a um porto... A chuva miúda é vazia... a Hora sabe a ter sido... Não haver qualquer coisa como leitos para as naus!... Absorto Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido... Todas as minhas horas são feitas de jaspe negro, Minhas ânsias todas talhadas num mármore que não há, Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro, E a minha bondade inversa não é nem boa nem má... Os feixes dos lictores abriram-se à beira dos caminhos... Os pendões das vitórias medievais nem chegaram às cruzadas... Puseram in-fólios úteis entre as pedras das barricadas... E a erva cresceu nas vias férreas com viços daninhos... Ah, como esta hora é velha!... E todas as naus partiram! Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam De Longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam... O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono Da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada E sente saudades de si ante aquele lugar-Outono... Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada... A doida partiu todos os candelabros glabros, Sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas... E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos candelabros... E que querem ao lado aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?... Porque me aflijo e me enfermo?... Deitam-se nuas ao luar Todas as ninfas... Veio o sol e já tinham partido... O teu silêncio que me embala é a ideia de naufragar, E a ideia de a tua voz soar a lira dum Apolo fingido... Já não há caudas de pavões todas olhos nos jardins de outrora... As próprias sombras estão mais tristes... Ainda Há rastos de vestes de aias (parece) no chão, e ainda chora Um como que eco de passos pela alameda que eis finda... Todos os ocasos fundiram-se na minha alma... As relvas de todos os prados foram frescas sob meus pés frios... Secou em teu olhar a ideia de te julgares calma, E eu ver isso em ti é um porto sem navios... Ergueram-se a um tempo todos os remos... Pelo ouro das searas Passou uma saudade de não serem o mar.. Em frente Ao meu trono de alheamento há gestos com pedras raras... Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente... Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol! Todas as princesas sentiram o seio oprimido... Da última janela do castelo só um girassol Se vê, e o sonhar que há outros põe brumas no nosso sentido... Sermos, e não sermos mais!... Ó leões nascidos na jaula!... Repique de sinos para além, no Outro Vale... Perto?... Arde o colégio e uma criança ficou fechada na aula... Porque não há-de ser o Norte o Sul?... O que está descoberto?... E eu deliro... De repente pauso no que penso... Fito-te E o teu silêncio é uma cegueira minha... Fito-te e sonho... Há coisas rubras e cobras no modo como medito-te, E a tua ideia sabe à lembrança de um sabor de medonho... Para que não ter por ti desprezo? Porque não perdê-lo?... Ah, deixa que eu te ignore... O teu silêncio é um leque — Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo, Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque... Gelaram todas as mãos cruzadas sobre todos os peitos... Murcharam mais flores do que as que havia no jardim... O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos, E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim... Alguém vai entrar pela porta... Sente-se o ar sorrir... Tecedeiras viúvas gozam as mortalhas de virgens que tecem... Ah, o teu tédio é uma estátua de uma mulher que há-de vir, O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem... É preciso destruir o propósito de todas as pontes, Vestir de alheamento as paisagens de todas as terras, Endireitar à força a curva dos horizontes, E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras... Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!... Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã — como nos desalegra!... Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra... Suave. como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce... Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito... A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece, E o meu saber-te a sorrir uma flor murcha a meu peito... Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!... Ah, se fôssemos as duas cores de uma bandeira de glória!... Estátua acéfala posta a um canto, poeirenta pia baptismal, Pendão de vencidos tendo escrito ao centro este lema — Vitória! O que é que me tortura?... Se até a tua face calma Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos... Não sei... Eu sou um doido que estranha a sua própria alma... Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos... 4-7-1913 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 21. 1ª publ. in Exílio , nº 1. Lisboa: Abr. 1916. Momento imperceptível, Que coisa foste, que há Já em mim qualquer coisa Que nunca passará? Sei que, passados anos, O que isto é lembrarei, Sem saber já o que era, Que até já o não sei. Mas, nada só que fosse, Fica dele um ficar Que será suave ainda Quando eu o não lembrar. 5-9-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 163. Alemanha e a Guerra Mas neste momento, chegados nós a esta solução, visto como nasceu e como se formou, e que sentido civilizacional tem o Império Germânico, reparamos de súbito que a psique desse império, tal qual chegámos a vê-la ser, tem um feitio especial. Reparemos no seguinte: Os princípios emanados da Rev. Francesa estão na linha directa da evolução da civilização moderna. São eles, e não os princípios reactivos do império germânico, que estão na linha de evolução das sociedades modernas. Desde a Renascença que progressivamente se tem vindo caminhando para um individualismo mais acentuado, para uma cada vez mais complexa e turbulenta vida nacional. Qual é o facto capital da nossa civilização? Sabido que o facto mais importante de qualquer civilização é o conceito que nela se faz do conjunto das coisas e das suas relações veremos facilmente que no fenómeno religioso é que reside, fundamentalmente, o critério indicador da base civilizacional. Ora a nossa civilização é cristã. Assenta sobre os princípios religiosos chamados, no seu conjunto, cristianismo. Quais são esses princípios? Será possível determinar a evolução das sociedades modernas pela evolução desses princípios? É fácil. O cristianismo é, acima de tudo, uma teoria igualitária. É, em seguida, uma teoria individualista; para o cristão cada alma humana tem uma importância excepcional, com as suas divinas qualidades de livre-arbítrio, de aspiração potencial ao Divino, de capacidade de imortalidade. Em terceiro lugar, logicamente, o cristianismo é uma teoria de fraternidade e de paz. De modo que o cristianismo assenta sobre três princípios: liberdade, igualdade e fraternidade. A Revolução Francesa foi puro cristianismo. Ocorrerá a um leitor menos subtil perguntar por que é que se o cristianismo é liberdade, igualdade e fraternidade, ele tem aplicado tão pouco esses princípios pela civilização fora. Em primeiro lugar, porque esses princípios são antagónicos à existência social, e aplicá-los, realmente e a valer, seria destruir a sociedade. Em segundo lugar, porque as sociedades cristãs têm em geral sido sociedades atrasadas, como as medievais, onde, além do forte império das instituições sociais rudimentares, como a força, a autoridade, pouco campo psíquico há, dado que são sãs e rudes, para a aplicação dos princípios de ternura e paz que o cristianismo trouxe. — E pergunte o leitor a si próprio de que modo têm aplicado a liberdade, a igualdade e a fraternidade as próprias sociedades emanadas da Revolução Francesa. Reporte-se ao caso — que está em primeira plana, porque ali foi feita essa Revolução — da França. Até que ponto tem este país aplicado na sua vida política esses ternos e comoventes princípios cristãos? Qual o processo sociológico pelo qual irrompeu — sob aspectos aliás longe de cristãos — o movimento cristão chamado a Revolução Francesa? Temos, para o ver claramente, que esboçar a evolução do cristianismo moderno. Desde que se separou, na Renascença e depois da Reforma, do cristianismo católico, o espírito cristão tem caminhado lentamente num determinado sentido. Esse sentido é o de afastar cada vez mais o dogma, a “letra”, como diz o Evangelho, e de se dedicar cada vez mais ao “espírito”. O protestantismo mais não é do que a subordinação do dogma à doutrina, a substituição gradual da autoridade pela consciência no cristianismo. O cristianismo envolve três elementos: o dogma, a fé propriamente dita e a atitude emocional resumida nessa fé. Ora o protestantismo substituiu ao dogma a fé. Qual seria a evolução seguinte do cristianismo? A substituição do espírito cristão, puro e simples, à própria fé que o representa. Vimos já que esse espírito cristão é, na sua essência, Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Daí a Revolução Francesa estar na linha de evolução religiosa do cristianismo. Esse movimento segue-se logicamente ao protestantismo. A Revolução Francesa é a Nova Reforma. As ideias democráticas são cristianismo puro. Como tal pertencem ao espírito cristão. Como tais, são inimigas do catolicismo, que é o dogma, a parte mais dura e rígida do cristianismo; como o protestantismo, erguendo-se pela fé, foi contra o espírito católico. A Europa é cada vez mais cristã. Cada vez mais abandona a letra do Cristianismo e se aplica ao seu espírito. Todo o fanatismo, toda a intolerância, toda a confusão mental, a sentimentalidade doentia dos democratas, mostram bem a base doentiamente religiosa do seu sistema. Ora a nossa civilização, se bem que cristã de natureza, repousa sobre uma outra base, que não o cristianismo. Todo o nosso trabalho mental, toda a nossa disciplina de espírito, toda alma da nossa jurisprudência, o âmago do nosso modo de governar assentam numa base — o espírito pagão — a cultura grega e a administração romana. Nascido, como foi, na decadência do império romano, o cristianismo é um paganismo decadente. Quanto mais cristão se torna, quanto mais se afasta do paganismo — isto é do catolicismo, que é abundantemente pagão, sobretudo pelo ritual — tanto mais o cristianismo se afirma decadente e doentio. Temos, pois, uma dupla evolução dentro da nossa civilização. Temos a evolução dela no que propriamente cristã. E temos a sua evolução no que pagã. Na linha de evolução cristã, vimos que estão a Reforma e a Revolução Francesa. A Revolução Francesa resultou da penetração da França pelo espírito protestante, quer através do suíço Rosseau, quer através da furiosa anglofilia do século XVIII em França. Mas na evolução das sociedades modernas outra linha se segue, paralelamente; temos o movimento da Renascença, que é diferente. Ele ajudou a formar-se a reforma, mas, em si, tem características inteiramente diferentes. É pagão, puramente pagão. Assim, quando ele aparece, vemos aparecer os característicos típicos da mentalidade pagã: o despotismo pessoal, (...) Para onde seguiu este movimento que a Renascença gerou? Qual é o movimento que o prolonga, e houve deveras movimento que o prolongasse? Como nasceu a Renascença? Não nasceu, repare-se, duma evolução do cristianismo; nasceu, ao contrário, duma aplicação de parte do espírito cristão a pontos anticristãos. Aquela parte do cristianismo representada pelo dogma, com a sua dureza e a sua autoridade, foi utilizada pela Renascença, mas o espírito cristão abandonado por completo. De maneira que a Renascença é um movimento de característicos inteiramente opostos aos da Reforma (não esqueço que veio antes). Segue um sentido contrário. Adopta do cristianismo a atitude imperialista e dogmática; mas despreza-lhe os correctivos a essa atitude que vem do espírito cristão, sempre presente onde haja cristianismo. Para a paganização total, seria preciso despir do imperialismo o espírito pagão. Caído o império germânico, esse fim será talvez conseguido. O imperialismo de domínio é da decadência do paganismo, de Atenas e Roma decadentes. Precisamos criar um imperialismo de influência, como o de Atenas original. 1. Formação do Estado Alemão e do Actual Império. 2. O Estado Alemão como Força Civilizadora. 3. O Estado Alemão como Estado Pagão. 4. O Estado Alemão e a Guerra Actual (Presente). 5. Conclusões. s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 40. PRIMEIRA VOZ: Que forma velada Que oculto esplendor De longe me agrada? Nem forma, nem cor... Só o vago palor De chama azulada Quem diz que não seja A forma o que tem, O que só se deseja E nunca se obtém... A sombra do bem Que em sonhos se almeja? Oh, paira distante, Sê sempre ilusão Teu vulto levante Minha dor do chão E o meu coração Não mais desencante! Oh paira distante E incerto, flutuante, Ondeia fragrante Teu vulto, visão, O meu coração Não mais desencante! SEGUNDA [voz]: Quem fez pairar por sobre a vida A aura alada, névoa incerta Que dá a dor esperança e à vida A brisa, a (...) e a aberta? Nunca eu te conheça, Incerteza, afago... Silêncio, começa Onde eu me embriago. Nunca eu te adivinhe Anseio, visão, Sonho que acarinhe O meu coração. Mar alto, não deixes O barco voltar... Meus olhos não feches Deixa-me sonhar 6-10-1916 Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 115. É um campo verde e vasto, Sozinho sem saber, De vagos gados pasto, Sem águas a correr. Só campo, só sossego, Só solidão calada. Olho-o, e nada nego E não afirmo nada. Aqui em mim me exalço No meu fiel torpor. O bem é pouco e falso, O mal é erro e dor. Agir é não ter casa, Pensar é nada ter. Aqui nem luzes [?] ou asa Nem razão para a haver. E um vago sono desce Só por não ter razão, E o mundo alheio esquece À vista e ao coração. Torpor que alastra e excede O campo e o gado e os ver. A alma nada pede E o corpo nada quer. Feliz sabor de nada. Inscíência do mundo, Aqui sem porto ou estrada, Nem horizonte ao fundo. 24-1-1933 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 119. CHUVA OBLÍQUA I Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios Que largam do cais arrastando nas águas por sombra Os vultos ao sol daquelas árvores antigas... O porto que sonho é sombrio e pálido E esta paisagem é cheia de sol deste lado... Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol... Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo... O vulto do cais é a estrada nítida e calma Que se levanta e se ergue como um muro, E os navios passam por dentro dos troncos das árvores Com uma horizontalidade vertical, E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro... Não sei quem me sonho... Súbito toda a água do mar do porto é transparente E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada, Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto, E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro, E passa para o outro lado da minha alma... 8-3-1914 «Chuva Oblíqua». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 27. 1ª publ. in Orpheu , nº 2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915. Alemanha e a Guerra O grande problema do Estado futuro consiste na organização com a mínima compressão possível da liberdade. No estado em que as almas estão hoje, não é possível organizar sem oprimir e não é possível portanto um Estado alemão sem uma tirania alemã. Tem-se exagerado, de resto, o aspecto dessa tirania. Os que a “sofrem” parecem não a sentir muito. Dado que os princípios emanados da Revolução Francesa tendiam a agravar enormemente as naturais tendências de qualquer sociedade a desintegrar-se, e as maiores tendências para a desintegração das sociedades modernas, vítimas da incursão rápida de um grande número de factores (estranhos a essa Revolução alguns, outros presos a ela, outros estranhos, mas misturando-se-lhe), o Estado alemão, se havia de organizar, de disciplinar, de civilizar, tinha, fatalmente, que começar por se opor a essas tendências, por tentar esmagá-las. Tal qual como, entre nós, há pouco, o general Pimenta de Castro, querendo implantar entre nós a liberdade, teve fatalmente que empregar certa violência para com o partido democrático, por ser esse o inimigo da liberdade, e por sinal caiu por não oprimir bastante essa horrenda (...) O Estado alemão, por isso, tinha forçosamente que ser um estado “reaccionário”. De resto, os outros aspectos da sua vida a isso o obrigavam. O seu carácter de estado hegemónico e guerreiro (a Prússia, Kriegsstaat , como diz Treitschke), as suas tradições imperialistas, a tendência universalista da sua cultura (goethiana ou outra) que, para ser cosmopolita sem ser antinacional, risco que corria, dado o carácter disperso dos estados alemães — tinha de dar à sua própria universalidade um carácter de dureza, de se apoiar à tendência militarista do estado-regente: tudo isto criou o estado alemão, tal qual nós o conhecemos, e tudo isto é, como estamos vendo, fortemente e conscientemente, e habilmente civilizacional. Em contraste com a vida anárquica e dispersa das sociedades extragermânicas, o Estado alemão tomou consciência cívilizacionaI de si próprio; e isso nenhum outro estado europeu ainda fez. É vasto o império inglês, mas a Inglaterra não criou um imperialismo; expandiu-se, mas não civilizacionou o espírito de expansão. O seu império é uma obra de acaso, de indivíduos, de muitos indivíduos, de muitos indivíduos pessoalmente activos e trabalhadores, cada qual tratando de si, ou unindo-se em grupos sem outro fim que um fim estreitamente administrativo, como se viu no sentido estreito e material da estreita obra do seu sumo homem, Cecil Rhodes. Ora, nenhuma nação tem o direito de usar do império ( to wield empire) se não é capaz de organizar o império. Emprego as razões mais evidentes, e deixo de lado as superiores, as mais importantes. Essas jazem ocultas na teoria do imperialismo, que é quase hora de fazer — não imperialismo entendido como domínio pela força (quem o iria teorizar para o nosso pequeno povo?), mas o imperialismo como influenciação civilizacional, que um povo, pequeno ou grande, pode realizar, e de esta ou aquela maneira, consoante é grande ou pequeno. A coisa que mais urgentemente se impõe hoje em Portugal é a construção de um imperialismo português. Qual deve ser esse imperialismo, de que espécie, agindo de que maneira? Tudo isso sairá da consideração atenta do problema, e do sentido especial que a palavra “imperialismo” terá de tomar neste caso. Para isso, a meu ver, nada pode ter tão férteis resultados como uma aliança espiritual com a Alemanha, que, por ser nossa análoga psíquica, nos deve legar a continuação espiritual daquele imperialismo, daquela atitude anticristã, que ela, por seu grande poder material, não pode doravante tentar realizar senão pela força, e não pelo espírito. Toda a obra antigermânica, hoje, em Portugal, emana de traidores à pátria porque emana de criaturas desintegradas da nossa alma nacional. Os que querem um Portugal honesto, feliz, rico e honrado, querem a negação da acção civilizacional portuguesa, querem que desçamos ao burguesismo nacional duma pseudonação como a Suíça ou a Bélgica, querem que abandonemos o nosso grande papel na construção do novo mundo, que abdiquemos de realizar em espírito aquilo que realizámos outrora em corpo — o alargamento do mundo e a descoberta de novas terras, de novos mares, de novos céus. Mais alta é a missão portuguesa do que tudo quanto pode sugerir a barriga dos portugueses, nessa pervertida teoria política que toda a chusma de traidores e de idiotas que são os nossos políticos e os nossos jornalistas querem impor a Portugal. Mais alta é a obra, e ela, a ser feita, terá de ser feita quebrando aos pés toda a longa podridão humanitária, democrática, organizando uma aristocracia forte, dominando completamente a nossa plebe ineficaz salvo escravizada. Realizemos em nossa alma a vinda de D. Sebastião. Realize-mo-la como ela deve ser realizada, seguindo as pisadas da Alemanha, e levando a obra mais além — obra pagã, obra anti-humanitária, obra de transcendência e de elevação, feita através daquela crueldade para com nós próprios que o espírito de Nietzsche, num momento lúcido, viu ser a base de todo o sentimento do império. Criar em Portugal o sentimento duma missão civilizadora! Esse deve ser o nosso ideal. O resto não importa. Que para chegar aí seja preciso varrer à metralha as ruas, calcar aos pés a felicidade e a liberdade do povo, arremessá-lo como um aríete de encontro às barreiras do nosso espírito — que importa isso, se só assim podemos deixar ficar Portugal no mundo depois de ele desaparecer? Grande e difícil é a obra! Grande e difícil o varrer dos ideais democráticos, humanitários e utilitários. Mas a grande anti-cristã (anti-cristã em tudo, antidemocrática, anticatólica antimonárquica) deve ser feita. Tristes de nós se faltarmos à missão divina que Aquele que nos pôs ao Ocidente da Europa, e tais nos fez quais somos, nos impôs quando nos deu este nosso acesso e transcendido espírito aventureiro. Depois da conquista dos mares deve vir a conquista das almas. O resto — a felicidade nacional, a boa administração, a liberdade, a lealdade, a honra — não são senão o lixo que atulha o caminho dos nosso gestos. Sursum corda! s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 41. Dos montes, dos vales, Das luzes, das flores O prazer vem; Que importa, pois, Tempo, que te resvales? Riamos, que amores pra outros amores, São o Além! Há risos e beijos E olhares e abraços De amor, E risos e olhares acendem desejos, E dizem matar-me em corpos e braços Num estertor. E como a verdade E a existência É o prazer nu, Dancemos s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 117. Falhei. Os astros seguem seu caminho. Minha alma, outrora um universo meu, É hoje, sei, um lúgubre escaninho De consciência sob a morte e o céu. Falhei. Quem sou vivi só de supô-lo. O que tive por meu ou por haver Fica sempre entre um polo e o outro polo Do que me nunca há-de pertencer. Falhei. Enfim! Consegui ser quem sou, O que é já nada, com a lenha velha Onde, pois valho só quanto me dou, Pegarei facilmente uma centelha. 1-2-1933 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 121. Já não me importo Até com o que amo ou creio amar. Sou um navio que chegou a um porto E cujo movimento é ali estar. Nada me resta Do que quis ou achei. Cheguei da festa Como fui para lá ou ainda irei Indiferente A quem sou ou suponho que mal sou, Fito a gente Que me rodeia e sempre rodeou, Com um olhar Que, sem o poder ver, Sei [?] que é sem ar De olhar a valer. E só me não cansa O que a brisa me traz De súbita mudança No que nada me faz. 2-9-1935 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 135. Noite de 26-6-1915. Irmão em pseudo: Saberás que hoje, pelas 6 horas da tarde, inesperadamente, tudo se resolveu. Eu nada já esperava, como sabias, e eis que de repente uma porta se abriu nas ocorrências, mesmo defronte do meu Desejo. Um astro benéfico talvez transitando um ponto vital do horóscopo? Verei se assim foi. Saúdo-te. Fernando Pessoa 26-6-1915 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 65. II Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia, E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça... Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso, E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro... O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar... Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça E sente-se chiar a água no facto de haver coro... A missa é um automóvel que passa Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste... Súbito vento sacode em esplendor maior A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe Com o som de rodas de automóvel... E apagam-se as luzes da igreja Na chuva que cessa... 8-3-1914 «Chuva Oblíqua». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 26. 1ª publ. in Orpheu , nº 2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915. Em «O Mundo» , de 10 deste Julho, publicou o Sr. João de Barros, a propósito da Guerra, um apelo aos escritores portugueses. O apelo era para que, embora Portugal tivesse (por razões diplomáticas) de não intervir na guerra, eles, representantes pela inteligência da raça portuguesa, declarassem bem alto que estão ao lado dos aliados na presente contenda. O Sr. João de Barros justificava este apelo, não só pela necessidade de se sair do silêncio em que, até agora, têm jazido os intelectuais pátrios mas também mediante o, conhecido e previsível, argumento de que Portugal se deve declarar nitidamente compartilhador espiritual das aspirações e da causa dos aliados, vistos o seu carácter de povo “latino”, o facto de que os aliados lutam «pela liberdade e pela justiça», pela civilização “latina” e por outras coisas já nossas conhecidas em estas conjunturas dialécticas. Eu concordo com a necessidade, que o Sr. João de Barros oportunamente apontou, de que os intelectuais portugueses saiam do seu silêncio. Concordo com que, sendo eles — por sua natureza de intelectuais — os orientadores-natos da gente da sua raça, devam, na conjuntura civilizacional presente, dizer qualquer coisa, assentar quaisquer princípios. Levo mais longe do que uma mera concordância o meu assentimento à observação do Sr. João de Barros. Acho que é chegada a hora de se dizer alto e claro ao povo português qual é a verdade portuguesa sobre a guerra, isto é, qual seja a atitude genuinamente e relevantemente nacional que deve surgir perante o aspecto que toma o actual conflito. Tanto mais concordo com a urgência desta necessidade quanto me parece que nela está envolvida a mais larga urgência, que há, de aclarar um pouco ao povo português qual deva ser, em boa lógica nacional, o sentido do seu destino. E reforça-se em mim o desejo de trazer qualquer contribuição a este assunto, quanto mais pondero que até agora este povo não tem sido senão vítima de ludíbrio baixo e reles de políticos sem carácter, de dirigentes em inteligência e de jornalistas sem patriotismo nem cultura — o que importa muito para um povo que, mesmo nas suas camadas ditas “superiores”, pouco vai além do jornal no seu trato inteligente com as coisas hodiernas. Proponho-me demonstrar — em contrário do sentido do apelo do Sr. João de Barros — que a alma portuguesa deve estar com a sua irmã, a alma germânica, na guerra presente. Antes de mais nada, indicarei quais os pontos que não trato neste breve opúsculo, quer porque sejam de algum modo estranhos ao seu âmbito, quer porque sejam de uma ou outra maneira desnecessários ao seu fim. Como o Sr. João de Barros no seu artigo, não me preocupará o problema da nossa participação na guerra. Duas razões me conduzem a esta abstinência. A primeira é que, país pequeno, fraco e desgovernado (por dois regimes de impostores e de ladrões), país colocado fora do teatro directo da guerra, a nossa acção militar ou outra nada traria por si de útil à solução, guerreira ou outra, do problema. Nada pesamos na balança das forças eficientes e por isso qualquer consideração sobre a nossa devida atitude espiritual não pode envolver uma necessidade de que essa atitude passe de espiritual a activa. — A segunda razão é que — posto pois o problema da nossa intervenção na guerra apenas como problema de conveniência nacional — era preciso para determinar tal conveniência, ou negá-la, que eu conhecesse qual é, deveras, a nossa situação internacional, e eu não a conheço. — Resta a terceira razão; e essa, embora em si de pouco peso, é a de mais directo relevo para o assunto que trato. É que, como desde logo o notou o Sr. João de Barros, sujeito também porventura à consideração das duas razões que apontei, não se trata de determinar qual deva ser o papel do estado português na actual conjuntura, mas sim qual o dos espíritos portugueses perante ela. Resumirei portanto o meu esforço — conforme nisto com a justa exigência limitativa do Sr. João de Barros — a demonstrar que espiritualmente, e pelas várias razões que exporei, a alma portuguesa deve estar com a alma alemã. Eu disse que havia duas ordens de coisas, relacionadas com este assunto, que não trataria. As primeiras são aquelas que seria desnecessário tratar. A estas me referi no parágrafo concluso. Resta dizer qual é a outra ordem de coisas — aquelas de que disse que eram propriamente, não desnecessárias, mas estranhas, ao assunto tal como tenho de o versar. São duas coisas apenas. A primeira é a hipótese sobre qual deva ser o resultado da guerra, quer material, quer espiritual, civilizacional. Compreende-se bem que importa pouco, para o estudo presente, qual seja o resultado material e imediato da guerra. Esse resultado depende da acção das grandes forças em choque presentemente, e o nosso reduzido núcleo nacional nada tira nem põe, nada pode tirar ou pôr, para o caso. Esse resultado, de outro lado, afectar-nos-á consoante o estado verdadeiro da nossa situação internacional, e essa, como disse, nem sei qual seja, nem vem para o caso presente, pois que a atitude intelectual, que tomarmos, pouca ou nenhuma importância pode ter para o que depende apenas da desconhecida situação em que o nosso país se encontra internacionalmente colocado. Esse resultado, por último, justamente por se tratar do resultado material da guerra, cai fora da órbita das nossas considerações, que, versando qual deva ser a nossa atitude espiritual perante esta guerra, ex hipothesi se não preocupam com os resultados materiais da guerra, senão nos seus prováveis reflexos espirituais, o que nos coloca já na consideração dos resultados espirituais da guerra. A consideração dos resultados espirituais da guerra toma dois aspectos, conforme nos refiramos aos resultados directamente espirituais por reflexo dos materiais (...) s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 28. O decorrer dos dias E todo o subjectivo e objectivo Envelhecer de tudo não me dói Por sentido, mas sim por ponderado; Nem ponderado dói, mas apavora. Tudo tem as raízes na treva Do mistério e eu sou disso sempre Demasiado consciente, muito Atento ao substancial de existir E à imanência do mistério em tudo. Cada cousa p'ra mim é porta aberta Por onde vejo a mesma escuridão. Quanto mais olho mais eu compreendo De quanto é escura aquela escuridão; E quanto mais o compreendo mais Me sinto escuro em o compreender. Desde que despertei para a consciência Do abismo da morte que me cerca, Não mais ri nem chorei, porque passei, Na monstruosidade do sofrer, Muito além da loucura da que ri Ou da que chora, monstruosamente Consciente de tudo e da consciência Que de tudo horrivelmente tenho. Todas as máscaras que a alma humana Para si mesma usa, eu arranquei... A própria dúvida, trementemente Arranquei eu de mim, e inda depois Outra mascara (...) arranquei Mas o que vi então — essa nudez Da consciência em mim, como relâmpago Que tivesse uma voz e uma expressão Gelou-me para sempre em outro ser Do mesmo antes, já (...), eu. Assim a própria dúvida, o horror Do mistério do mundo já de mim Foram em alma passados, mais além Fui, e isso que encontrei e em que me falou Como que o ser, isso que não tem nome Claramente e pavidamente vi Vi e não compreendi; só compreendi Que não há forma de pensar ou crêr, De imaginar, sonhar ou de sentir, Nem rasgo de (...) ou de loucura Que ouse pôr a alma humana frente a frente Com isso que uma vez visto e sentido Me mudou, qual se ao universo o sol Falhasse súbito, sem duração No acabar, e num momento tudo Fosse luz, fosse treva numa como Que mudança por mais que imediata Estranha ao tempo. Compreendi Mas o quê? Quando vi e compreendi Compreendendo, só na incompreensão Eu encontro o terror disso que foi Essa revelação. Tudo que toma forma ou ilusão De forma nas palavras não consegue Dar-me sequer, cerrado em mim o olhar Do pensamento, a ilusão de ser Uma expressão disso que não se exprime, Nem por dizer que não se exprime. Vida, Ideia, Essência, Transcendência, Ser, Tudo quanto de vago e prenhe de tudo Possa ocorrer ao sonho de pensar, Inda que fundamente concebido Nem pelo horror desse impossível deixa Transver sombra ou lembrança do que é. Com que realidade o mundo é sonho. Com que ironia mais que tudo amarga Me não confrange fria e negramente Esta infinita pretensão a ser! E vi e compreendi, ó alma, e como Que de compreender morri em mim. Não há memória que criada fosse Para servir a ver o que então vi, Mais fundamenre do que em pura alma Ou consciência pura. E inda que mais Eu torne a compreender e a ver rasgado O véu do Inominável Templo, eu Tornarei sempre a não saber que vi. A própria consciência abstracta e pura Não tem poder para ser consciência Para essa mais do que revelação... Oh horror! Oh horror! Sinto outra vez Essa frieza precursora n'alma Da suprema intuição. Ah não poder Fora do ser ou do sentir esconder-me! Ah, não poder gritar, pedir, deixar-me! Ah, qualquer coisa mais do que uma luz Vou sentindo que vai breve raiar De dentro em dentro no (...) ser... Aproximar (...) da minha alma. Morte! Treva! (...) a mim! a mim! (com um grito pavoroso F. atira-se de encontro à parede, dando com a cabeça uma, duas, três vezes até cair no chão inanimado). s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 121. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.106, 111). Deixei de ser aquele que esperava, Isto é, deixei de ser quem nunca fui... Entre onda e onda a onda não se cava, E tudo, em ser conjunto, dura e flui. A seta treme, pois que, na ampla aljava, O presente ao futuro cria e inclui. Se os mares erguem sua fúria brava É que a futura paz seu rastro obstrui. Tudo depende do que não existe. Por isso meu ser mudo se converte Na própria semelhança, austero e triste. Nada me explica. Nada me pertence. E sobre tudo a lua alheia verte A luz que tudo dissipa e nada vence. 10-2-1933 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 122. O ateísmo É (facto estranho) um acompanhamento Das moribundas civilizações. Mas por quê? A loucura por que é Mais sã que a falta dela? Deve ser Aqui porque a um austero e forte povo É crença parte dessa austeridade. Os ligeiros descrêem por ligeiros... Mais nada. Não confundo eu a descrença Dos grandes pensadores agónica, Co'a a descrença adiposa do corrupto Vulgar, vazia mais que tudo. Sim, Mas por quê — qual a íntima razão Que a crença e o sonho sejam necessários E tudo o mais funesto? Outro mistério, O mistério moral de lei moral Que me tolhe o caminho. Aonde via Claro, reconhecendo-me por cego Já hesito, duvido e me embaraço. Horror! eterno horror! horror, horror! (senta-se) O ser e o ser: é claro. Mas Ser... Ser... Vazio termo prenhe d'absolutos Mas ele mesmo... o ser é o ser.. Transcendendo absoluto e relativo. O Ser é o Ser; é a única verdade Epigramática no seu vazio. Logo que pensamento daqui saia Por impossíveis raciocínios, ou Por intuições ocas e vãs, delira. Ironia suprema do saber: Só conhecer isso que não entende, Só entender o que entender não pode! Isto são termos: seu horror é vago. Mas que liga espaço, tempo, que liga seres, Que liga um mundo, (...) cores, sons, Movimentos, mudanças (...) Que liga qualquer cousa, sim que a liga? Isto, considerado intimamente, Afoga-me de horror. E eu cambaleio Pelas vias escuras da loucura, Olhos vagos de susto pelo facto De haver realidade, e de haver ser. Estrelas distantes, flores, campos — tudo Desde o maior ao mínimo, do grande Ao vulgar, quando eu, aqui sentado, Fixamente o contemplo até que chegue À consciência sobrenatural Daquilo como SER, desse existir Como existência, tremo e de repente, Uma sombra da noite pavorosa Invade-me o gelado pensamento, E eu, parece-me que um desmaio envolve O que em mim é mais meu, que vou caindo Num precipício cujo horror não sei, Nem a mim mesmo logro figurar, Que só calculo quando nele estou. Formas da natureza variadas, Vossa beleza cedo vos senti. Infante eu era ainda e vinha olhar Do monte que deitava para o mar O sol morrer até que o frio cinzento Da noite a face (...) compungia. Não sei, não bem me lembro, ainda que tenha Vagas ideias daquela existência, Do que senti então. Era talvez O começo da onda do soluço Que depois dentro em mim murmuraria. E hoje, Não chegados ainda os cinco lustros, Cansado já e velho. O pensamento Gasto como a uma folha do punhal Que seja esmero do possuidor Ter sempre mui aguda e que, amolando, Gasta, assim mesmo gasta o pensamento O sentir. Velho estou. E se não fosse O meu desesperado horror à morte, Já buscado a teria. Em tudo vejo Sombras e medos. Fico mudo, pois, Mas no horror de saber que me não poupam Imóvel esteja eu, os (...) todos Dos inevitáveis. Lágrimas, vinde — Ah Deus que quase choro Por não poder chorar-vos. Acusa a luz, acusa a escuridão (Disse em dia terrível ao meu cérebro) Que até o forte sol fez esquecer. Acendamos a luz. Ah solidão! 1912 Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 32. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.98). Meu caro Côrtes-Rodrigues: Quando puder, passe pelo escritório, entre as 2 e as 6 horas. Gostava de lhe falar. Só ontem encontrei o livro de Vallet. Não o deixo no Estácio porque queria que v. me viesse falar. Apareça um destes dias. O Sá-Carneiro foi para Paris. Apareça. O seu Fernando Pessoa 14-7-1915. 14-7-1915 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 65. III A Grande Esfinge do Egipto sonha por este papel dentro... Escrevo — e ela aparece-me através da minha mão transparente E ao canto do papel erguem-se as pirâmides... Escrevo — perturbo-me de ver o bico da minha pena Ser o perfil do rei Cheops... De repente paro... Escureceu tudo... Caio por um abismo feito de tempo... Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro E todo o Egipto me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena... Ouço a Esfinge rir por dentro O som da minha pena a correr no papel... Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme, Varre tudo para o canto do tecto que fica por detrás de mim, E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve Jaz o cadáver do rei Cheops, olhando-me com olhos muito abertos, E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo E uma alegria de barcos embandeirados erra Numa diagonal difusa Entre mim e o que eu penso... Funerais do rei Cheops em ouro velho e Mim!... 8-3-1914 «Chuva Oblíqua». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 27. 1ª publ. in Orpheu , nº 2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915. Resposta ao apelo de J. de Barros Quanto mais aprofundarmos o assunto, maiores aparecerão as semelhanças, mais claras as razões para que a nossa aproximação espiritual seja com a Alemanha, e não com os aliados. Reportemo-nos ao papel civilizacional dos dois países. Já vimos que esse papel envolveu, em ambos os casos, uma idêntica inversão do carácter nacional, em ambos os casos um conceito metódico e organizado da obra civilizacional. Outras, flagrantes, semelhanças existem. Para o Portugal presente, oprimido e esbatido, como para a Alemanha humilhada do princípio do século passado, o que existe que os levante é uma tradição de império, e, em ambos os casos, uma tradição inteiramente quebrada e envilecida. Em ambos os casos se dá um fenómeno curioso, evocador dessa tradição através dum curioso sentimento de misticismo nacional. No caso da Alemanha é a lenda de Frederico Barbarossa, morto em viagem para o Oriente, e que espera o dia em que, voltando, há-de restituir à sua Pátria o império e a grandeza. (Q. Rückert.) Assim, entre nós, da nossa grandeza ida, do nosso império morto, ficou a lenda mística e nacional de D. Sebastião, o qual também, para além de nós, espera a hora em que regresse para nos restituir a nossa grandeza. Ambas as lendas — bem sei — integram-se, segundo o delírio analógico de certos estudiosos magros destes assuntos, na lenda antiquíssima do Rei Artur. Mas isso é a aparência ilusória. O facto essencial é que, no caso da Alemanha, como no de Portugal, há bases concretas nacionais para que a lenda surgisse. Barbarossa e D. Sebastião — a semelhança mística e nacional das duas figuras é de ordem a fazer pensar, sobretudo quando ela se sobrepõe ás outras semelhanças essenciais, que já vimos, entre os caracteres básicos das duas nações. A mais nítida obra civilizacional alemã do passado foi a Reforma. Se virmos em que condições nacionais essa obra se deu, não será difícil ver que elas se aproximam, flagrantemente, daquelas em que se deram as descobertas, salvo a superior orientação metódica e científica destas, análogas já não à obra alemã na Reforma, mas ao desenvolvimento organizado do actual Império Germânico. Mas aí há um factor que tudo explica — a nítida individualidade do nosso país, individualidade nítida que não existia nos dispersos estados da Alemanha quando Lutero surgiu. — Aquela semelhança, porém, a que íamos aludir é a da confusão civilizacional em que as duas obras se realizaram. Portugal, se bem que nacionalidade nítida, era nacionalidade emergente; tanto assim que foi fácil, logo que entrou em decadência, ligá-lo a Espanha. Semelhantemente, na Alemanha da Reforma, a acção alemã é nítida, mas a coesão nacional confusa. Mas, nos dois casos, a obra civilizacional realizada ficou como tradição espiritual, como base para a construção da nacionalidade futura . s.d. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 29. FAUSTO: Febre! Febre! Estou trémulo de febre E de delírio, e ainda assim é grato Tudo isto a não sei que se passa Sem propósito de passar e... não, não, não... Fiquei fingindo que fujo... Fugirei... Onde estou? O que foi? que faço aqui? Arde-me a alma toda, arde-me arde Como uma cousa que arde. (foge de casa) Ancião, não podes tu Arranjar-me um remédio para a vida? Quero vivê-la sem saber que a vivo, Como tu vives... Corta-me o sorriso Ou te apunhalo! De que te ris? Não rias! Dá-me já, dá-me, dá-me filtros ou (...) Com que eu me esqueça. (estende a mão) Dá cá, não importa Falar Tudo é inútil. (arranca-lhe o frasco da mão) Atordoar-me-á isto a alma toda Toda até dentro, muito dentro, velho? VELHO: Não te compreendo, mas se é esqueceres Que queres, bebe. FAUSTO: Quero, quero, vamos, Esqueçamo-nos. Tens algo de mais forte Para mais do que esquecer; depressa, diz. VELHO: Mal te compreendo, mas não tenho. FAUSTO: Este Quer (...) fins. (bebe sofregamente) E dormirei, ó velho, Acabará em mim parte de mim E viverei morto para viver (cai no chão) VELHO: Estranha e horrível criatura! O que de temor me faz. Todas espécies De homens conheço, por ciência Sei ler os vícios íntimos e os crimes Nos olhares. Mas este... Não é vício Nem crime, nem tristeza, nem parece Propriamente pavor, o que obscurece Como uma escuridão de dentro d'alma, Toda a vida e expressão de sua face. E essas palavras de que usa «esquecer A vida», «mais do que esquecer» «em Acabará então parte de mim» Que significam? Não sei, mas sinto Que condizem secreta e intimamente Com esse íntimo ser que eu não conheço. Qualquer que seja essa desgraça, estranho, Dorme e ou esqueça ou aconteça em ti Isso que semelhante ao esquecer Desordenadamente me disseste No teu intimo (...) desejar. Dorme, e que o filtro opere no silêncio Da tua alma, obra interior de paz E que ao descerrares para mim os olhos Eu lhes veja a expressão já transmutada Para compreensível e humana Expressão de um humano sentimento. (Vai para o levantar mas retrai-se) Não; dorme onde caíste e que o filtro Sem sonho ou (...) de alteração Te adormeça a existência intimamente E ao escuro desejo que tu tens (exit) FAUSTO: Eu sou outro que os homens, ó ancião, O teu filtro de paz e esquecimento Não me faz esquecer e só a sombra De uma possível paz me entrou n'alma. Para a paz que eu queria esta que tenho É como archote para a luz do sol. Intimamente nada se parece. Paralisaste em mim a engrenagem Do pensamento e sentimento antigos Mas quebrados ficaram-me visíveis E inesquecidos n'alma. Sou demais Em consciência para os filtros frágeis De que o teu tosco engenho te fez sábio. Não tornarei, eu sinto-o, a sentir O que sentia antigamente. Foi-se Não sei como, o interior do meu ser Com suas intuições, mas não se foi A memória terrível do horror Da minha vida antiga, perto e longe Já do que eu sou, nem o que o uso fez Ao sentimento e ao pensamento antigos; Ainda os tenho comigo. Fica com eles A memória presente do terror. Sou o que era, velho. Nas cinzas do meu ser ainda há calor Para que o fogo lembre. VELHO: Esfriarão. FAUSTO: Não o sinto possível. Há ainda Memória e consciência de existir Por demais em minha alma. O teu filtro Não foi feito para entes como eu. Entes? Não que como eu, só eu. VELHO: Virá VELHO: Dentro em breve o sossego. FAUSTO: Por que o dizes? VELHO: A outros veio! FAUSTO: A outros, mas que outros Se assemelham a mim, ó velho estulto? Alma vazia cheia de licores! Mas de que serve injuriar-te? Tu Não serás por injúrias acordado Para a compreensão. (Soergue-se) Estranho sentimento. Como que a alma Corporeamente me é pesada! A vida Como que está atordoada e lenta... Mas tenho, ó velho, consciência disso! Teu filtro, miserável, é humano! É para entes humanos que foi feito. Inda me lembro bem que eu não o sou. (pausa) Olha pr'a mim! Que tenho no olhar Como pareço ser? VELHO: Doente, triste E como que quem sente vago pavor... FAUSTO: Maldita a ideia que te faz tocar No que eu não posso mais sentir, mas posso Apavorar-me de já ter sentido E lembrar-me. Não fales mais. Eu vou... (Pondo-se de pé) Eu vou não sei onde...Como me treme Com que debilidade e sentimento De estar mudado o corpo todo. Velho, Adeus, quisera ter achado em ti O que em ti não podia ter achado. Os teus remédios nada valem. Eu Deveria ao pedir tê-lo sabido; Mas... Não tens outro, diz-me... Tu que filtros Possuis, não tens venenos mais subtis Para a existência? VELHO: Tu bebeste aquele Que eu de mais forte tinha, e que eu quisera Não te dar. Arrancaste-mo da mão. Talvez não vejas quanto estás melhor... FAUSTO: Velho, eu não erro com o pensamento. Sei como estou. Não estou como quisera Que me fizeras estar. VELHO: Há um filtro Diferente daquele que tomaste; Diverso na intenção com que obra n'alma, Mas parecido no fazer esquecer. FAUSTO: Como diverso na intenção? VELHO: Em vez De apagar, (...), adormecer, Faz, com terrível excitar da vida, Nascer n'alma um conflito de desejos Um desejo de tudo possuir, De tudo ser, de tudo ver, amar, Gozar, odiar, querer e não querer, Reunir vícios e virtudes — tudo Como que na ânsia férvida dum trago Da taça de existir. FAUSTO: E tu... VELHO: Não fui eu Quem concebeu ou fabrica o filtro Nem há mais (...) do que para um homem. FAUSTO: Tu vendes-mo... Ah, não, que eu nada tenho Nem sei se tive ou poderia ter. Tu dás-mo, velho. Não te servirá De nada. Talvez esse filtro dê O esquecimento (...) à minha alma. Inda que a decepção me cause um vago Desejo inquieto e como que inquerente Entre um querer e um não querer, sendo ambos E nenhum. Torna a ele. Quem o fez? Porque o fez? Onde o tens? Repete mesmo O que de seus efeitos me disseste. E esses efeitos tê-los-á; repete, Quero que ainda me decida mais A pedir-to e a usá-lo. Por enquanto Sou para ele a própria indecisão. VELHO: (...) FAUSTO: Que me decida ou não a beber dele Esse filtro a ti de nada serve. Dá-mo pois. VELHO: Não to dou. FAUSTO: O filtro, velho. Não me (...); o filtro. VELHO: Não to dou. FAUSTO: O filtro. VELHO: Não to posso dar. FAUSTO: O filtro. VELHO: Para que avanças? Eu que mal te fiz? FAUSTO: O filtro; dá-me o filtro. VELHO: Mas não posso. FAUSTO: Velho, repara em mim. Há na minha alma Uma ira calma e fria! Foge que ela Na acção te mostre o que é. VELHO: Não posso dar-te, Em verdade to digo, o filtro. Eu Fiz-te o bem que pude; porque então Avançando assim calmo para mim No horror de qualquer (...) intenção Te vejo o mesmo sempre? Poupa-me isso Terrível que há em ti e que não trais Em movimento ou vaga intimidade Do olhar.. Piedade, piedade... Piedade, senhor! Eu dou-te o filtro Eu dou-te o filtro. Piedade eu dou. (Fausto levanta do punhal e fells him) (após matar) FAUSTO: Nem sinto horror, nem medo, ou dor, ou ânsia Nem qualquer forma de estranheza sinto Pelo que fiz por mais que tente querer Sentir, e pelo próprio pensamento De o dever sentir à força ter Uma dor, um remorso, um sentimento. Nada... Vejo, sinto, e vejo apenas Como qualquer cousa natural Visse, sem que devesse invocar Sentimento (...) algum. Por mais Que queira pensar-me a conceber Quanto é estranho, e horroroso, O que fiz, não me posso humanizar Ao ponto de (...) Por mais que a mera vista me convença De que matei, por mais que tente Fitar com a alma o corpo e o derramado Sangue que vejo, nega-se-me o ser A mais do que a olhar e só olhar. É uma alma morta ante um corpo morto. Compreendo bem o que sentir eu devo Mas não consigo mesmo a imaginar-me Sentindo-o. Estranho! Nem sequer evoco Por sentimentos de quanto é de horror A morte, um ente morto, e o mistério Nisto tudo. Sim, sinto-lhe o mistério Mas este sentimento de mistério Não se me liga a um sentimento Que liga esse corpo a mim que fiz O que de mistério está ali. Tremo ao sentir quanto é mistério a morte; Mas na alma desligado está Com completa separação e nítida De sentimento algum que me deixasse O ser na ânsia de inquirir. (pausa) Visto porém, que nada sinto, nada, Acabe este mesmo reflectir Mais que infrutífero de sentimento, Porque mais frio cada vez me sinto Ao perceber que nada sei sentir Nem estranheza sinto Nem estranheza de não ter estranheza Nem estranheza mesmo De não sentir por mais que eu queira Fazer crer que devia sentir estranheza. Procuremos o filtro. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 123. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.137). Vai alta a nuvem que passa, Branca, desfaz-se a passar, Até que parece no ar Sombra branca que esvoaça. Assim no pensamento Alta vai a intuição, Mas desfaz-se em sonho vão Ou em vago sentimento. E se quero recordar O que foi nuvem ou sentido Só vejo alma ou céu despido Do que se desfez no ar. 15-6-1933 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 123. CRISTO: A sonhar eu venci mundos, Minha vida um sonho foi. Cerra teus olhos profundos Para a verdade que dói. A Ilusão é mãe da vida: Fui doido e tido por Deus. Só a loucura incompreendida Vai avante para os céus. Cheio de dor e de susto Toda a vida delirei, E assim fui ao céu sem custo, Nem por que lá fui eu sei. Meu egoísmo e vã preguiça Um choroso amor gerou; De ser Deus tive a cobiça, Vê se sou Deus ou não sou! Como tu eu não fui nada, E vales mais do que eu; Nada eu. De alucinada Minha alma a si se envolveu Na inconsciência profunda Que nunca deixa infeliz Ser de todo — e assim se funda Uma fé — vê quem o diz. Assim sou e em meu nome Inda muitos o serão; Um Deus — supremo renome, E doido! — suma abjecção. CORO DE VOZES MÁSCULAS: Através de ferro e fogo Por ti iremos Ver a pugna. Por teu Nome logo Iremos. No combate, na fogueira, Cessaremos Mortos, mortos. BUDA: O meu sonho foi incompleto Por isso eu compreendi Que sofrer é o nome do trajecto Que o mundo faz de si a si. GOETHE: Do fundo da inconsciência Da alma sobriamente louca Tirei poesia e ciência E não pouca. Maravilha do inconsciente! Em sonhos sonhos criei E o mundo atónito sente Como é belo o que lhe dei. SHAKESPEARE: E é loucura a inspiração! VOZES: Só a loucura é que é grande! E só ela é que é feliz! s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 34. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p. 99, 100). Meu caro Côrtes-Rodrigues: Felizmente para mim tenho tido bastante que fazer. Sobra-me tempo apenas, portanto, para estas linhas. Escrevo-lhe para lhe dizer que lhe não posso escrever: é mais um paradoxo do muito e sempre seu Fernando Pessoa 19-8-1915. Meus cumprimentos a seu Pai. 19-8-1915 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 66. IV Que pandeiretas o silêncio deste quarto!... As paredes estão na Andaluzia... Há danças sensuais no brilho fixo da luz... De repente todo o espaço pára.... Pára, escorrega, desembrulha-se..., E num canto do tecto, muito mais longe do que ele está, Abrem mãos brancas janelas secretas E há ramos de violetas caindo De haver uma noite de Primavera lá fora Sobre o eu estar de olhos fechados... 8-3-1914 «Chuva Oblíqua». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 28. 1ª publ. in Orpheu , nº 2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915. Há só um problema de pós-guerra: é o problema da organização. Conforme esse problema se resolver, se resolverão os outros, todos dependentes dele. Porque de nada serve querer organizar ou a indústria, ou o trabalho, ou outra coisa qualquer que seja, sem primeiro organizar a organização, sem primeiro organizar os organizadores. Dar à palavra “organização”, ou a esse bordão absurdo dos idiotas da Inglaterra, “reconstrução”, um valor mágico ou miraculoso, de sorte que a mera invocação da ideia de organizar misteriosamente dê vista aos cegos, ouvido aos surdos e vida aos mortos — é de mais para uma época que, embora tenha uma mentalidade profundamente retrógrada, se tem por científica. Quem há-de organizar? Como organizar sem organizadores? Não basta a ideia da organização a seguir: temos que ter também homens que organizem. Muitas ideias são, quando não realmente boas, pelo menos aceitáveis; e assim pareceriam, se à testa da sua realização se não colocassem as incompetências do costume. É difícil fazer, mesmo, a crítica de certas ideias, porque, sem querer, fazemos a crítica dos homens que se interpretam. O próprio bolchevismo poderá na verdade ser interpretado pela figuras desmanchadas e reles de Lenine ou de Trotsky — esses infelizes que, em uma época científica, governam a romântica, à (...) Como, porém, organizar organizadores? O temperamento do organizador nasce, nos seus fundamentos, com o indivíduo; esse ponto está fora da competência de alguém. Mas é possível educar organizadores, para que, sabendo organizar por instinto, saibam organizar melhor por educação. Sobre o bolchevismo, por exemplo, a única coisa que há de certo é a incompetência pavorosa dos seus chefes; e isso não admira. Totalmente destituídos de cultura científica e moderna, cérebros românticos sem noção nenhuma das realidades práticas, infelizes que a irrisão do Destino atirou para a celebridade por aquele princípio há muito exposto por Shakespeare, de que «alguns nascem grandes, outros conquistam a grandeza, e a outros empurram-nos para lá». A encenação dos incompetentes é a mais cruel das ironias dos deuses. Venha o que vier, por esse mundo fora, há-de ser por força transitório, absurdo, mal feito. Digo, «venha o que vier», e aplico a frase à coisa que venha — neomilitarismo, bolchevismo, industrialismo à americana, seja o que for. A falta de clareza mental e de capacidade para a acção superior, isto é, para a acção organizadora, é o característico supremo da nossa época. O que há a inquirir é só isto: em que pontos deve incidir a organização preliminar? O que é que nós devemos organizar, antes de organizar qualquer coisa? Para isso, devemos, evidentemente, começar por estabelecer, para nós, quais as regras fundamentais de toda a organização. Essas regras, nem por serem intuitivas, têm sido estudadas; muita gente que, ao lê-las, dirá que já as conhece, na verdade nem as conhece a elas, nem a coisa nenhuma. O característico fundamental do incompetente é já saber o que os outros iam fazer, depois de o ver feito. São três as regras intelectuais da organização perfeita, e elas aplicam-se tanto à organização de um estado, como à de uma oficina. Elas reportam-se a qualquer coisa que se pretenda organizar — mesmo que essa coisa seja um disparate, ou um crime. Não defendo a organização para fins criminosos, ou para o intuito humaníssimo de não fazer senão asneiras; defendo, só, a organização, o princípio de organizar. (Não digo, “da organização perfeita”, porque “organizar” quer dizer “organizar perfeitamente”; organização imperfeita não é organização.) 1.ª regra: simplificação dos fundamentos da matéria a organizar; 2.ª regra: colocação dos executantes da organização, a cada um no lugar que lhe compete; 3.ª regra: centralização dos serviços propriamente de organização. 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 50. Eu quisera poder abrir a mão E deixar-te cair. Atrais-me estranho E vago horror, tu líquido que podes Adormecer-me na loucura e (...) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 130. A novela inacabada, Que o meu sonho completou, Não era de rei ou fada Mas era de quem não sou. Para além do que dizia Dizia eu quem não era... A Primavera floria Sem que houvesse Primavera. Lenda do sonho que vivo, Perdida por a salvar... Mas quem me arrancou o livro Que eu quis ter sem acabar? 18-7-1933 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 124. Tudo é mistério para mim que o é... A luz do sol: o mistério feito brilho, Canto d'ave: o mistério feito voz Entristecem-me pois. Só uma cousa Uma vez descoberta não se evita Nem evitar se pode: é o mistério E o seu íntimo e (...) horror O horror nitidamente negro e abismado. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 36. Meu caro: Estarei amanhã aqui no escritório entre a 1 e as 2 horas. Apareça v. nessa ocasião. Se a tese não for muito grande, talvez não seja impossível tê-la pronta na segunda-feira. Mas só vendo-a. Muito seu, Fernando Pessoa 16-X-1915. 16-10-1915 Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão.)Lisboa: Confluência, 1944 (3.ª ed. Lisboa: Livros Horizonte, 1985). - 66. V Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel ... Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim... Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora, E as luzes todas da feira fazem ruído dos muros do quintal... Ranchos de raparigas de bilha à cabeça Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol, Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira, Gente toda misturada com as luzes das barracas com a noite e com o luar, E os dois grupos encontram-se e penetram-se Até formarem só um que é os dois... A feira e as luzes da feira e a gente que anda na feira, E a noite que pega na feira e a levanta ao ar, Andam por cima das copas das árvores cheias de sol, Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol, Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça, E toda esta paisagem de Primavera é a lua sobre a feira, E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol... De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira E, misturado, o pó das duas realidades cai Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar... Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos... As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira, Sozinha e contente como o dia de hoje... 8-3-1914 «Chuva Oblíqua». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 29. 1ª publ. in Orpheu , nº 2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915. O fenómeno religioso é um elemento dissolvente das sociedades. Ou a religião é tradicional, e é um elemento de estagnação, de resistência ao desenvolvimento social; ou é uma religião nova e é uma perturbação social, como o foi o Cristianismo no Império Romano. O pior é que a plebe é estruturalmente religiosa, nem pode ser senão religiosa. Por isso a predominância do espírito religioso numa sociedade representa a predominância do espírito popular, a degradação do espírito de aristocracia e escol, pelo qual as sociedades se governam e progridem. Vemos hoje em conflito, por quase todo o mundo, e por isso entre nós também, duas religiões: o Cristianismo, progressivamente regressante ao tipo católico, e o bolchevismo. O bolchevismo (entendendo por bolchevismo o sindicalismo revolucionário e o comunismo, e não só este último) é um fenómeno reaccionário e religioso. Nada tem de propriamente social, nem podia ter, porque, se o tivesse, não o poderiam adoptar as plebes, incapazes de outra coisa que não de religião. E fácil provar o carácter reaccionário do bolchevismo, como é fácil provar o seu carácter religioso — mais fácil ainda. O ódio religioso é sobretudo grande de religião filha para religião mãe. O Cristianismo, que nasceu do paganismo, odiou e combateu este supremamente. O protestantismo, que nasceu do catolicismo, supremamente o odiou e o combateu. Assim se explica o ódio mortal que o bolchevismo vota ao cristianismo. O bolchevismo mantém a velha mania cristã de se fazer mártir, e de inventar perseguições quando lhas não façam. Sabe-se hoje que grande parte das perseguições feitas aos cristãos — muito embora, perseguindo os cristãos, o Império Romano exercesse o que hoje se chamaria “defesa social” — são puramente míticas, sendo das variadíssimas invenções dos propagandistas primitivos do Cristianismo. A nossa civilização é organicamente individualista. É-o porque assenta em dois elementos: a cultura grega, que se pode definir como sendo o individualismo racionalista, e o capitalismo moderno, em que o fenómeno concorrência é distintivo. Sempre que a civilização tentou fugir ao tipo individualista, estagnou ou perturbou-se. Ora o regime concorrencial, desde que chegue a um desenvolvimento intenso, torna difícil a adaptação dos fracos a ele. Torna, com o acréscimo da instrução, igualmente difícil a adaptação dos ignorantes. Por isso os débeis os incultos espontaneamente se revoltam contra ele. Revoltam-se exactamente porque são fracos, pois se fossem fortes adaptavam-se e lutavam. Revoltam-se exactamente porque são ignorantes. Revoltam-se porque têm o rancor do débil ao forte, do indolente ao activo. E como se revoltam? Revertendo espontaneamente a tipos anteriores de sociedade — ao tipo corporativo da Idade Média, rebaptizado de sindicalismo. E é de notar que esta reversão, este ódio ao individualismo económico, se revela nas duas correntes extremas — no integralismo e no bolchevismo. E um fenómeno patentemente reaccionário. Baseia-se o bolchevismo em dois dogmas — o livre arbítrio (que supõe que o homem é quem dirige os seus destinos, e que a palavra “liberdade” tem qualquer sentido absoluto), e no milagre (pois, pretendendo construir uma sociedade fora do egoísmo, da vaidade, da cobiça humanas — fontes de todo o progresso e de toda a vida social —, pretende por isso mesmo suspender as leis naturais, e à suspensão das leis naturais é que chamo milagre). Nestes dois dogmas — patentemente derivados do cristianismo — assentam os dois misticismos bolchevistas. O ódio feroz do bolchevismo ao cristianismo é bem o ódio de fanáticos a fanáticos, de uma religião a outra. Não nos iludamos, supondo que assistimos a uma luta de classes: continuamos na fatalidade europeia das guerras religiosas, das lutas de (...) desde que o paganismo caiu, com Juliano, e a paz religiosa abandonou o mundo. 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 49. No escuro mesmo destes pensamentos Acordo às vezes e então eu sinto Quão longe do real e do humano Da superflcie lúcida da vida Me acho sepulto confrangidamente Com uma consciência e nitidez Aguda e transcendente. Dolorido Mais que alma até ao íntimo do ser. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 131. XI A ÚLTIMA NAU Levando a bordo El-Rei D. Sebastião, E erguendo, como um nome, alto o pendão Do Império, Foi-se a última nau, ao sol aziago Erma, e entre choros de ânsia e de pressago Mistério. Não voltou mais. A que ilha indescoberta Aportou? Voltará da sorte incerta Que teve? Deus guarda o corpo e a forma do futuro, Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro E breve. Ah, quanto mais ao povo a alma falta, Mais a minha alma atlântica se exalta E entorna, E em mim, num mar que não tem tempo ou espaço. Vejo entre a cerração teu vulto baço Que torna. Não sei a hora, mas sei que há a hora, Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora Mistério. Surges ao sol em mim, e a névoa finda: A mesma, e trazes o pendão ainda Do Império. s.d. Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 71. E o sentimento de que a vida passa E o senti-la a passar Toma em mim tal intensidade De desolado e confrangido horror Que a esse próprio horror, horror eu tenho, Por ele e por senti-lo, e por senti-lo Como tal. Feliz a humanidade que, a não ser Em momentos febris e desolados, Não sente o esvair da existência (E há quem a sinta com tristeza imensa) Mas eu... eu não a sinto fugir-me, Penso-a a fugir-me e em lugar de tristeza Só esse horror é meu, silente e fundo. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 36. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p. 95). VI O maestro sacode a batuta, E lânguida e triste a música rompe... Lembra-me a minha infância, aquele dia Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado O deslizar dum cão verde, e do outro lado Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo, Prossegue a música, e eis na minha infância De repente entre mim e o maestro, muro branco, Vai e vem a bola, ora um cão verde, Ora um cavalo azul com um jockey amarelo... Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música, Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo... (Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...) Atiro-a de encontro à minha infância e ela Atravessa o teatro todo que está aos meus pés A brincar com um jockey amarelo e um cão verde E um cavalo azul que aparece por cima do muro Do meu quintal... E a música atira com bolas À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos De batuta e rotações confusas de cães verdes E cavalos azuis e jockeys amarelos.., Todo o teatro é um muro branco de música Por onde um cão verde corre atrás da minha saudade Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo... E dum lado para o outro, da direita para a esquerda, Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa Com orquestras a tocar música, Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância... E a música cessa como um muro que desaba, A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos, E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto, Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro, E curva-se sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça, Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo... 8-3-1914 «Chuva Oblíqua». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 30. 1ª publ. in Orpheu , nº 2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915. A tese foi posta em tempos, como uma verdade suprema, pelo biologista Haeckel. Entre o macaco e o homem normal, disse de, há menos diferença que entre o homem normal e um homem de génio. Entre o trabalhador do cérebro, como lhe chamam, e o trabalhador do braço não há identidade nem semelhança: há uma profunda, uma radical, oposição. O que é certo é que entre um operário e um macaco há menos diferença que entre um operário e um homem realmente culto. O povo não é educável, porque é povo. Se fosse possível convertê-lo em indivíduos, seria educável, seria educado, porém já não seria povo. O ódio à ciência, as leis naturais, é o que caracteriza a mentalidade popular. O milagre é o que o povo quer, é o que o povo compreende. Que o faça Nossa Senhora de Lourdes ou de Fátima, ou que o faça Lenine nisso só está a diferença. O povo é fundamentalmente, radicalmente, irremediavelmente reaccionário. O liberalismo é um conceito aristocrático, e portanto inteiramente oposto à democracia. Sim, fixemo-nos nisto. Eliminemos as distinções puramente exteriores, como a entre pretos e brancos. A distinção verdadeira é de outra ordem. É entre gente e indivíduos. Aceito um homem do povo como um irmão em Deus, como um irmão em Cristo mas não como irmão em Natureza. Perante a religião somos iguais; perante a Natureza e a ciência não há entre nós espécie alguma de igualdade. Onde quer que se estabeleça igualdade entre coisas naturalmente diferentes, há mística, há religião; o que não há é ciência. As religiões todas, mais ou menos visivelmente, dividem-se cada uma em duas partes: o culto externo e a doutrina externa, e o que é dado na iniciação, ou individual e mística, ou ritual e mágica. Ora a cultura é uma iniciação. E é-o porque tem a essência da iniciação — ser uma outra vida. 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 52. Como há haver? Que é ser? Que é haver ser? O horror que haja existir, e como o haja, Tortura-me até ao abismo que há em mim. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 131. PASSOS DA CRUZ I Esqueço-me das horas transviadas... O Outono mora mágoas nos outeiros E põe um roxo vago nos ribeiros... Hóstia de assombro a alma, e toda estradas... Aconteceu-me esta paisagem, fadas De sepulcros a orgíaco... Trigueiros Os céus da tua face, e os derradeiros Tons do poente segredam nas arcadas... No claustro sequestrando a lucidez Um espasmo apagado em ódio à ânsia Põe dias de ilhas vistas do convés No meu cansaço perdido entre os gelos, E a cor do Outono é um funeral de apelos Pela estrada da minha dissonância... s. d. «Passos da Cruz». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 33. 1ª publ. in Centauro , nº 1. Lisboa: Out.-Dez. 1916. Vai alto pela folhagem Um rumor de pertencer, Como se houvesse na aragem Uma razão de querer. Mas, sim, é como se o som Do vento no arvoredo Tivesse um intuito, ou bom Ou mau, mas feito em segredo, E que, pensando no abismo Onde os ventos são ninguém, Subisse até onde cismo, E, alto, alado, num vaivém De tormenta comovesse As árvores agitadas Até que delas me viesse Este mau conto de fadas. 5-9-1933 Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 164. Primeira Pergunta: Admitindo que haja uma crise [...] e económica na Europa (ou na civilização moderna), e que a única solução dessa crise consista na subversão integral do actual sistema económico, quem vai fazer essa subversão? Não são as classes capitalistas, evidentemente, pois essas estão interessadas na conservação do actual regime económico, e só por dolo ou disfarce poderiam fingir colaborar em qualquer transformação económica radical. São então as classes designadas como proletariado? Uma alteração radical de um sistema qualquer, económico ou outro, supõe não só a força para o destruir, como também a capacidade para lhe substituir outro. Admitindo que o proletariado tenha a força para substituir o actual regime económico, pode crer-se que tenha a competência para lhe substituir qualquer outro, aquele mesmo que desejam substituir-lhe? O proletariado é de todas as classes sociais a mais ignorante e inculta. Não será por sua culpa que o é, porém o facto é que o é. Para uma obra construtiva de natureza intelectual, como é a criação de um regime qualquer, falta-lhe portanto a base intelectual. Acresce que o proletariado está por natureza historicamente afastado do governo, de qualquer tipo que seja; está inadaptado a governar. Falta-lhe portanto a base, por assim dizer, orgânica. Só tem a seu favor o ter interesse em efectuar essa mudança; porém o interesse em uma coisa nem pressupõe a competência para entender nela, pois o doente, sendo quem mais interesse tem em ser curado, nem por isso entende mais da doença do que o médico, que a não tem. Nem eles, nem os seus dirigentes governam, não têm tradições mas não podem portanto saber [...] governar para manter o que é, [...] quanto mais governar para transformar, o que exige [...] É então uma terceira classe, que nem é bem a classe capitalista, nem ao certo o proletariado? Suponhamos que é, e que essa classe é ou uma classe de técnicos, ou uma classe de proletários intelectualizados, ou qualquer outra assim. Seja qual for, seja o que for, ou essa classe se subordina ao proletariado, ou não. Se se subordina, é o mesmo que fosse o próprio operariado; e o argumento empregado contra este aplica-se àquela. Se não se subordina, porém se lhe impõe, é por uma de duas razões que o faz: ou por influir nele e em absoluto se lhe impor, ou por ser geralmente aceite por ele. Se é por se lhe impor por influência, que garantia tem o proletariado que essa classe, uma vez que fosse efectuada a revolução social, serviria o proletariado, a quem se impõe, e não interesses seus apenas? Não sendo aceite espontaneamente pelo proletariado, prova-se que ela lhe fica sempre estranha. Sendo estranha na oposição e na propaganda, muito mais estranha ficará quando entre os dois se abrir o abismo do poder. Trata-se, então, de uma classe geralmente aceite pelo proletariado? Aceite como? Por se identificar com ele em tudo? Estamos no caso anterior, e essa classe, na verdade fundida no operariado, é como que parte dele, e o argumento dirigido contra o proletariado como agente da transformação social prevalece contra esta classe postiça. E por ser por ele aceite como intelectualmente superior e apta a representar as suas aspirações e pô-las em prática? Que competência tem quem é estúpido para avaliar da inteligência alheia? que competência quem é inculto para avaliar da cultura de outrem? que competência quem é inexperiente na arte de governar e de dirigir para avaliar da experiência de outrem nessas artes, sendo que, ainda, esses tais nem sequer governaram ainda? Quem se impõe à aceitação dos estúpidos, dos incultos, dos inexperientes e incompetentes, força é que se lhes torne ou acessível, ou estimável. Quem é na verdade superior em inteligência não pode tornar-se acessível aos inferiores, nem se ajeita a tornar-se-lhes estimável. Em matéria intelectual não tem o operário inteligência a que apelar [?] [...] De aqui se conclui que não há classe social nenhuma competente, ou por carência de interesse ou por carência de habilidade, para efectuar a transformação económica que os radicais desejam que se realize. Isto é, admitindo que (...) não há gente para efectuar essa solução. 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 45. Quando penso nas outras consciências E no mistério que contêm, de haver Pluralidade de conscientes (pois Una se afigura ao pensamento A consciência) quando penso assim Angustia-me logo o não poder Penetrar nessas vidas e sentir (Como não sei) as várias sensações Das várias humanas personalidades: Do guerreiro, da virgem, do (...) Do sábio, do operário, Da costureira, da rameira mesmo, Do assassino, do homem das montanhas De tudo e de todos. Atormenta-me Uma necessidade de o saber Que faz sorrir o pranto da minha alma. O que pensarão eles, sentirão? Eu quisera sabê-lo, conhecê-lo, Perdendo e não perdendo este meu ser. Curiosidade louca que se impõe À minha (...) Todo mistério Tento ver e cada um vai incompreensível Rindo, rindo, chorando, cantando Pelejando, sofrendo, enfim morrendo Inconsciente do que leva em si, Além da loucura. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 131. Ninguém compreende o meu sofrer Nem compreende porque não compreende. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 37. II Há um poeta em mim que Deus me disse... A Primavera esquece nos barrancos As grinaldas que trouxe dos arrancos Da sua efémera e espectral ledice... Pelo prado orvalhado a meninice Faz soar a alegria os seus tamancos... Pobre de anseios teu ficar nos bancos Olhando a hora como quem sorrisse... Florir do dia a capitéis de Luz... Violinos do silêncio enternecidos... Tédio onde o só ter tédio nos seduz... Minha alma beija o quadro que pintou... Sento-me ao pé dos séculos perdidos E cismo o seu perfil de inércia e voo... s. d. «Passos da Cruz». Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 35. 1ª publ. in Centauro , nº 1. Lisboa: Out.-Dez. 1916. Os grandes movimentos revolucionários — quer se concretizem em convulsões sociais, quer apenas se manifestem em ideias que tendem para essas convulsões — derivam sempre de um sentimento nítido e portanto certo, de uma injustiça, e de uma ideia vaga, e portanto errada, do modo de remediar essa injustiça. Todos os grandes movimentos revolucionários existem, portanto, em virtude de uma razão sentimental a que se junta uma sem-razão intelectual. Por isso eles são simultaneamente defensáveis e absurdos; defensáveis quando se olha às injustiças e às tiranias, que os causam e possibilitam; absurdos, quando se analisam as ideias, sempre excessivas e inaplicáveis, que pretendem pôr em prática. Não há grande movimento revolucionário — isto é, movimento revolucionário extenso e profundo — que seja possível sem uma razão qualquer. Não há revoluções feitas por mera leitura de livros, por mera influência de ideias, por mera insinuação de oradores. Os homens são, de seu natural, inertes e misoneicos. O homem é um animal com hábitos, como os outros animais; mas o homem tem, além dos hábitos propriamente ditos, outra espécie de hábitos chamados tradições. Dificilmente as quebra; dificilmente se une para as quebrar; dificilmente se ergue contra os seus semelhantes nacionais e sociais, com raiva e ódio, para as quebrar. É preciso, por isso, que a doutrina revolucionária, uma vez lançada, encontre eco no coração humano. Ir dizer a um povo, que não tem fome, que se revolte porque a tem, pode fazer um ou outro convertido, entre os que realmente têm fome, e entre os que julgam que a têm; mas um tal movimento não logra por certo o número de aderentes precisos para que converta em revolução. Há sempre, é claro, argumentos possíveis para casos destes. Em todas as épocas houve ricos e pobres, e em todas as épocas houve uma certa injustiça evidente na distribuição da riqueza. Mas — embora em todas as épocas houvesse quem pregasse a revolta contra os ricos, nem em todas essa revolta congregou adeptos em número que roçasse pelo considerável. Em todas as épocas houve uma certa injustiça política e social, à parte riqueza; mas, embora em todas as épocas surgisse quem flagelasse essas injustiças sociais, nem em todas congregou adeptos essa indignação. Por força, pois que havia em certas épocas condições especiais que fizeram com que calasse no animo das multidões, por infiltração lenta, certa teorização contra a injustiça. E quando a injustiça se tornou um sistema, como na França do ancien régime, em que já não havia diferenças sociais pronunciadas, mas um uso constantemente tirânico das diferenças sociais pronunciadas; e como na Rússia dos Czares, em que a tirania era não um acaso do desgoverno, mas uma modalidade substância do governo que havia. Para que a injustiça seja geralmente sentida como tal, não basta, porém, que simplesmente exista. O ancien régime, quando caiu era já velho, e sempre havia sido tirânico; a tirania czarista não era de ontem, nem de antes de ontem. Para que a injustiça seja sentida como tal, e dê portanto azo à formação do espírito de revolta, é preciso que perca a base por onde existia. O czarismo não caiu só por ser tirânico, mas porque, sobre ser tirânico, perdeu o consenso geral. Quando o czar era na verdade o representante sentimental do povo russo, todas as tiranias eram possíveis em seu nome, porque a sua autoridade, inclusive para praticá-las, era aceite geralmente. Levantam-se vozes a clamar contra a injustiça. Ora um poder injustamente injusto implica um governo ou instituição desadaptada do meio. Um governo desadaptado do meio implica um governo-incapaz de acção coerente e forte. Um governo incapaz de acção coerente e forte perante ataques à sua constituição, alternadamente os tolera e os persegue com violência. E quer pela tolerância, quer pela perseguição, a voz que clama ganha alento. Por fim a onda revolucionária triunfa — ou por um impulso de reforma, se há ainda no sistema vigente forças de adaptação; ou por força da violência se esse regime não se adapta; e então segue a anarquia que havia, porque a lei da continuidade histórica não admite revoluções capazes de transformar nada. A anarquia revolucionária é sempre o seguimento da anarquia disfarçada que a precedeu. Não há revoluções contra organizadores. Há só revoluções contra desorganizados. Isto é, a desorganização de um país mal governado, quando produz uma revolução, prolonga-se, não se transforma. Assim, quem não vê a perfeita continuidade piorada de processos — do ancien régime para o terror, do czarismo para o bolchevismo, da monarquia de D. Carlos e de D. Manuel II para a triste república portuguesa? Visando o estabelecimento da liberdade, a Revolução Francesa suprimiu-a toda; inverteu os termos da opressão, nada mais. Visando a liberdade, a libertação dos operários e dos fracos o bolchevismo oprimiu outros fracos e não aos que disse servir desoprimiu. Visando a reformar uma administração corrupta, e subverter uma semitirania política, a República Portuguesa instaurou uma administração mais corrupta ainda, uma semitirania por certo ainda mais opressiva. Isto está na fatalidade das revoluções, que, como derivam de uma inadaptação, são fenómenos doentios (...) As ideias revolucionárias — ou nasçam da própria injustiça que motiva o sentimento revolucionário, ou sejam estranhas a ele e por ele adaptadas — são sempre absurdas; são-no por duas razões. As revoluções, como vimos, baseiam-se num sentimento forte de injustiça, sentimento que se torna geral. Ora um sentimento geral e forte de injustiça gera por força ideias absurdas. Em 1.º lugar, um sentimento forte é uma condição negativa para a lucidez; quem estuda apaixonadamente (salvo no sentido de entusiasmo intelectual) um problema, estuda-o sempre mal. Em 2.º lugar, um sentimento de injustiça envolve sempre um ódio ou rancor a quem a pratica; e a teoria nascida, ou adaptada, por esse sentimento tenderá fatalmente a ser excessiva no sentido contrário — não só a desfazer a injustiça, como a castigá-la, isto é, a ferir e vingar-se nos que a praticam, ou se supõe que a praticam. Resultará uma teoria tão injusta como a prática a que essa teoria se contrapõe. Em 3.º lugar, os problemas que uma revolução busca resolver são sempre problemas sociais, todos, por natureza, de uma grande complexidade. Ora, uma teoria de contra-injustiça, para ser geralmente sentida, tem que ser simples; porque o geral da humanidade não pode compreender ideias complexas. A teoria tem portanto que ser inadaptável à complexidade do problema. Por isso, de toda e qualquer ideia revolucionária se pode afirmar mas sem se saber qual é, mas sabendo só que é revolucionária, que é falsa; mas também se pode afirmar, se foi aceite por muitos, se serviu de estímulo a movimentos e agitações, que teve uma razão sentimental de existir, e que há uma injustiça a reparar, uma reforma a fazer. Estudar qual essa reforma é que é, em qualquer caso, o papel — em geral inútil — do sociólogo. Uma revolução verdadeiramente tal não falha nunca; as ideias revolucionárias falham sempre. Finalmente estabelece-se o equilíbrio, e vê-se que o que resultou da revolução, das contra-revoluções e tudo isso, foi uma diagonal a esse paralelogramo de forças — direcção social que não é nem a que estava, nem a que está. O papel do homem de ciência — livre dos preconceitos revolucionários, absurdos todos porque são revolucionámos; livre também dos preconceitos contra-revolucionários, porque, por idêntica razão, são igualmente absurdos, é preestabelecer a hipótese de equilíbrio final. 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 48. Quando às vezes eu penso em meu futuro, Abre-se de repente   (...)   abismo Perante o qual me cambaleia o ser. E ponho sobre os olhos as mãos da alma Para esconder aquilo que não vejo. — Oh lúgubres gracejos de expressão! Estorce-se-me a alma sacudida e louca Até parecer rindo. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 37. 1ª versão: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.97). O véu das lágrimas não cega. Vejo, a chorar, O que essa música me entrega — A mãe que eu tinha, o antigo lar, A criança que fui, O horror do tempo, porque flui, O horror da vida, porque é só matar! Vejo e adormeço, Num torpor em que me esqueço Que existo inda neste mundo que há... Estou vendo minha mãe tocar. E essas mãos brancas e pequenas, Cuja carícia nunca mais me afagará —, Tocam ao piano, cuidadosas e serenas, (Meu Deus!) Un soir à Lima. Ah, vejo tudo claro! Estou outra vez ali. Afasto do luar externo [?] e raro Os olhos com que o vi. Mas quê? Divago e a música acabou... Divago como sempre divaguei Sem ter na alma certeza de quem sou, Nem verdadeira fé ou firme lei Divago, crio eternidades minhas Num ópio de memória e de abandono. Entronizo fantásticas rainhas Sem para elas ter o trono. Sonho porque me banho No rio irreal da música evocada. Minha alma é uma criança esfarrapada Que dorme num recanto obscuro. De meu só tenho, Na realidade certa e acordada, Os trapos da minha alma abandonada, E a cabeça que sonha contra o muro. Mas, mãe, não haverá Um Deus que me não torne tudo vão, (ou) Um outro mundo em que isso agora está? Divago ainda: tudo é ilusão. Un soir à Lima Quebra-te, coração... 17-9-1935 Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 137. Uma coisa que preocupa muito, ao que parece, os críticos que já têm quarenta anos é a atitude pouco “generosa” — no sentido que dão a este termo em política — das novas gerações. Não são democráticos, não são libertários, não simpatizam com os oprimidos, não odeiam a Igreja, não erguem a voz pela Justiça. Parece aos mesmos críticos que esta atitude é triste. Talvez o não seja. Parece-lhes reaccionária. Talvez o não seja. Tudo depende do modo como se encara generosidade e reacção. E afinal o que esta atitude é uma coisa muito simples — é fruto da experiência. A mocidade de há vinte anos vinha após a experiência constitucional, e toda a sua tendência, ante a falência dessa experiência, era contra o constitucionalismo. A mocidade de hoje vem após as democráticas, e, sempre no seu papel de mocidade, representa a reacção contra essas experiências, cuja falência estrondosa é de quotidiana evidência. A mocidade de hoje viu, além disso, que os libertários, os socialistas, os democratas a arder em amor pelo povo, acabavam na concussão e no peculato, no uso, nas suas relações com o povo, da polícia e do exército. E, como esta experiência é a última, a mocidade de hoje lembrou-se de concluir que a realidade vale mais que as boas intenções, que é inútil pregar boas doutrinas se apenas as más podem vingar. Mais vale, pensaram eles, que se defendam, desde logo, as doutrinas antipáticas. Por mim, acho preferível defender, como algum dia farei, com a devida argumentação sociológica, que é mais legítimo que os políticos roubem e espoliem o povo, do que roubar e espoliar o povo chamando a essa atitude “governo popular”, “democracia”, “liberdade” e outras coisas assim. O amor à verdade substitui, na mocidade de hoje, o amor à mentira, ainda que generosamente encarado, que caracterizava a mocidade de ontem e de antes de ontem. De nada serve servir a mentira, por generosidade que seja. O anarquismo, o socialismo, o democratismo — todo esse lixo de teorias simpáticas que se esquecem de que teorizam para a humanidade de carne-e-osso — foram divinizações da mentira. E foram essa coisa a que Carlyle chama a pior espécie da mentira — a mentira que se julga verdade. Não foram o erro, que é admissível. Foram a mentira inconsciente. Qualquer erra. Mas não todos mentem inconscientemente. 1918? Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 51. Triste horror d'alma, não evoco já Com grata saudade tristemente Estas recordações da juventude! Já não sinto saudades como há pouco Inda as sentia. Vai-se-me desmaiando, Co'a força de pensar, contínuo e árido, Toda a verdura e flor do pensamento. Ao recordar agora apenas sinto Como um cansaço só de ter vivido, Desconsolado e mudo sentimento De ter deixado atrás parte de mim, E saudade de não ter saudade, Saudade de tempos em que a tinha. Se a minha infância agora evoco, vejo ( Estranho! — como uma outra criatura Que me era amiga, numa vaga Objectivada subjectividade. Ora a infância me lembra como um sonho, Ora a uma distância sem medida No tempo, desfazendo-me em espanto; E a sensação que sinto ao perceber Que vou passando, já tem mais de horror Que tristeza, apavora-me e confrange E nada evoca nada a não ser o mistério Que o Tempo tem fechado em sua mão. Mas a dor é maior! s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 37. 1ª versão: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.118). Fantasmas sem lugar, que a minha mente Figura no visível, sombras minhas Do diálogo comigo. s.d. “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). - 80. Cantos, sois sombras da minha alma. Todos Sois ilusões; minha alma canta em vós Pedindo esse descanso que não tem. Fugir de mim não posso. VOZ LÍMPIDA: Venho d'além das estrelas, Sou mais bela do que elas, Cantar-te, Fausto, Canções mais tristes que o mundo, Cheias dum vagar profundo, Té sorrir teu coração Exausto. Esta minha melodia Fará abrir, como dia No seu raiar, Teu coração entornando O seu fel antigo e brando Como uma flor[?] e a ilusão Voltar. OUTRA: Eu chorarei sobre ti Lágrimas de redenção. Os meus cabelos compridos Em que tantos envolvi Tua face envolverão. Nunca mais tu sentirás Dentro em ti a sensação De desolada desgraça; És meu e comigo virás Para a terra da ilusão. No meu seio de luar Ganharás como um perdão Por tanta mágoa. Teus olhos Dormirão, e ao acordar Outra vez se cerrarão, Ao sono te voltarão. (Fausto continua dormindo. A luz da lâmpada esvai-se lentamente e apaga-se. Noite e silêncio.) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 38. UMA VOZ: Dorme grande inconsolável Da vida, na escuridão. Não chores — que nada é estável... Não sentes a minha mão, Calma sobre a tua fronte? Dorme, e que a noite te conte Ilusões ao coração! Dorme, dorme, eu vou cantar-te Melodias d'além-céu, E a solidão há-de amar-te Que por enquanto és só meu... Dorme e apaga o pensamento... Se pensar é um tormento, Ninguém como tu sofreu. Hei-de envolver-te no manto Que a Dor teceu para ti; A Vida causa-te espanto E a Morte não te sorri. Deixa, deixa que assim seja: Minha boca, quando beija, Chama o coração a si. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 43. Considerações pós-revolucionárias O que já avançámos socialmente — conquistámos mais liberdade individual (contra o socialismo [?]) e social (contra o anarquismo). s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 50. " Considerações pós-revolucionárias" Enquanto houver capital — e há-de haver sempre — toda a lei feita contra o capital há-de redundar em contra o trabalho. Capital e trabalho estão ligados; quem ataca um, julgando favorecer o outro, faz mal a ambos, porque o faz a um e esse está ligado ao outro. São coisas antagónicas para quem esta no hábito metafísico de tomar [?] abstracções por realidades, mas sociologicamente completam-se; são as duas faces da vida económica. Pode-se acabar com o capital, mas para isso é preciso ou é resultado o acabar também com o trabalho. As noções [?] "trabalho" e "capital" [...] uma à outra; Por este mesmo argumento, o modo mais simples de acabar com as greves é, p. ex., fuzilar os operários. Mas assim acaba o [...] trabalho. Isto dá, [...] e flagrantemente a noção da asneira que se faz atacando ou trabalho ou capital. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 51. Considerações pós-revolucionárias Ainda bem que isto vai mal, porque isso é a nossa salvação. A república actual é a continuação do estado de coisas da monarquia, com simplesmente isto a mais: a abolição do facto que impedia sequer a pensabilidade de melhorar esse estado de coisas. Porque é a república, i. é, será não a causa, mas a condição de um progresso ulterior. A [...] república indica que uma corrente social se substituía a outra no estado; mas essa substituição não é feita como a de um peão por uma rainha no xadrez. O estado de coisas social não muda de momento; começa a exercer-se sobre ele obscuramente a influência de uma outra corrente, purificadora esta, que lentamente vai alterando esse modo-de-ser social. Claro está que os homens que vão à frente dessa corrente no deslizar gradual de (...) antigo são os que mais se parecem — por falta de sinceridade [?], de modéstia, de competência, com os homens do anterior regime. Gradualmente o bem se vai substituindo ao mau, mas a substituição imediata é pequena na diferença dos homens. É preciso não perder isto de vista, para que se não erre a significação do actual estado de coisas em Portugal. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 52. Considerações pós-revolucionárias A lei da continuidade social tem mais (...) significação do que [...] se julga. Em Inglaterra foi insanguínea a reforma porque a monarquia não precisava, por se adaptar ao carácter inglês — de ser eliminada. A única condição precisa aos reformadores era convencer a nação da necessidade da reforma. Em Portugal havia mais uma, além dessa — a de eliminar aquilo que impedia o convencimento [?] completo da nação, e a (...) da vontade dos muitos já convencidos. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 53. Considerações pós-revolucionárias A crítica psicológica em sociologia dá resultados como o de sustentar erros como o de que uma Democracia exige um povo culto, como o de medir o valor de um partido por actos dos seus chefes respeitados mas não respeitáveis. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 54. XII PRECE Senhor, a noite veio e a alma é vil. Tanta foi a tormenta e a vontade! Restam-nos hoje, no silêncio hostil, O mar universal e a saudade. Mas a chama, que a vida em nós criou, Se ainda há vida ainda não é finda. O frio morto em cinzas a ocultou: A mão do vento pode erguê-la ainda. Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —, Com que a chama do esforço se remoça, E outra vez conquistemos a Distância — Do mar ou outra, mas que seja nossa! s.d. Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 73. Considerações pós-revolucionárias Se com respeito aos indiferentes, especialmente (...), o governo tem sido pouco de [...] (...) Com respeito aos antigos monárquicos, tem sido de uma falta de diplomacia e de táctica política que apavora. Para se poder desculpar isto com a (...) de que é (...) [...] um governo revolucionário, tem pouca energia criadora, pouca grandeza. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 55. Iconoclasta REPÚBLICA E RELIGIÃO Neste ponto, mais do que em nenhum outro, precisa a democracia portuguesa que lhe apontem o verdadeiro caminho. O argumento (de V. de Vilhena, [...], etc.) não vale nada. À mão está a Igreja logo que esteja sob as leis do país, como deve estar tudo quanto nesse país existe; nem mais é justo, nem mais é preciso. A propaganda anticlerical tem, no nosso país, tido uma orientação péssima. Tem sido quase tão má como a propaganda anti-clerical francesa, com a agravante, que a francesa não tem, de ser em métodos e (...) estrangeira, tirada da França, no nosso caso. Ora nós somos portugueses, que não franceses. O vago misticismo que nos caracteriza — e que é de todo ausente do espírito francês — não pode ser desdenhado, com risco de preparar uma reacção tremenda. Incutir positivismo à alma portuguesa é esforçar-se por matá-la. O português pode não ter necessidade de crer, mas tem, sempre, de divagar e sonhar. Estas questões de psicologia são mais importantes do que a muita gente — aliás estúpida dentro de concebíveis limites — parece. Conta-se entre os nossos propagandistas anti-religiosos gente que não soube distinguir entre uma teoria e uma lei, entre um facto científico e um sistema de metafísica baseado sobre dados da ciência. Basta-lhes ou que um facto seja afirmado por um homem de ciência para que seja crível; e se se dá o caso de esse facto vir de encontro às crenças religiosas, põe as mãos no fogo pela verdade dele. Assim temos idiotas que ignoram que Os Enigmas do Universo de Haeckel é uma obra em grande parte de metafísica. Temos desgraçados que afirmam que a c[iência] nega ou desprova a imortalidade da alma, quando o facto evidente é que não há ciência nenhuma sob cuja alçada esteja esse problema, nem que tenha elementos para sequer conceber possível a sua solução. O problema da imortalidade da alma é puramente metafísico; nada tem com a c[iência]. Quem quiser crer na imortalidade da alma pode fazê-lo, que nenhuma ciência lhe pode dizer nada. (Tão idiota é Haeckel ao querer provar a mortalidade da alma, como (...) ao querer responder-lhe nos mesmos termos — idiotas porque julgam fazer ciência, quando é metafísica que fazem.) Quais devem ser as relações entre o Estado o a Igreja, em uma democracia? Vejamos primeiro — tão rapidamente quanto for possível à necessidade de clareza — em que basicamente difere o espírito republicano do espírito monárquico; porque — e este ponto parece ser quase desconhecido, e não só em Portugal — não há sociologicamente mon[arquia] e rep[ública]; mas espírito monárquico e espírito republicano, o que é importantemente diferente. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 56. Lá fora onde árvores são O que se mexe a parar Não vejo nada senão, Depois das árvores, o mar. É azul intensamente, Salpicado de luzir, E tem na onda indolente Um suspirar de dormir. Mas nem durmo eu nem o mar, Ambos nós, no dia brando, E ele sossega a avançar E eu não penso e estou pensando. 14-8-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 89. Considerações pós-revolucionárias Não apreciamos, é bom que se confesse, o espírito jornalístico ou a mentalidade jornalística. Amantes extremamente da lógica na exposição e da sociologia na interpretação — resultantemente [?] vemos que por um lado o artigo de jornal, fragmentadamente lógico como se impõe que seja, e por outro sociologicamente incompleto — tudo isso porque limitado interna e externamente, isto é, porque não podendo, como um livro, declarar guerra a limites, nem como o tratado ou a dissertação fechar-se em linguagem especialista [?] não [...] o senso comum. Por isso vos prometemos que esta publicação terá, ainda que, por um acaso de qualquer espécie, tivesse tiragem digna do nome, apenas curta a vida. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 57. Nada que sou me interessa. Se existe em meu coração Qualquer coisa que tem pressa Terá pressa em vão. Nada que sou me pertence. Se existo em quem me conheço Qualquer coisa que me vence Depressa a esqueço. Nada que sou eu serei. Sonho, e só existe em meu ser, Um sonho do que terei. Só que o não hei-de ter. 24-8-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 90. Ouvi os sábios todos discutir, Podia a todos refutar a rir. Mas preferi, bebendo na ampla sombra, Indefinidamente só ouvir. Manda quem manda porque manda, nem Importa que mal mande ou mande bem. Todos são grandes quando a hora é sua. Por baixo cada um é o mesmo alguém. Não invejo a pompa, e ao poder, Visto que pode, sem razão nem ser. Obedece, que a vida dura pouco Nem há por isso muito que sofrer. 3-10-1935 a. m. Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 140. O ICONOCLASTA A publicação que encetamos — chamamos-lhe publicação por (...) — não se promete sequer com esperança longa ou sequer razoável vida. Destina-se apenas, quase se não completamente, a uma propaganda. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 57a. O ponteiro dos segundos É o exterior de um coração. Conta a minutos os mundos, Que os mundos são sensação. Vejo, como quem não vê Seu curso em círculo dar Um sentido aqui ao pé Do universo todo no ar. [...] 29-8-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 91. 1. Com a alma atormentada pela impotência do ódio que nos nascera da contemplação dessa horrorosa maioria traidora que ora no parlamento é para o rigoroso sociólogo apta e completamente representativa da monarquia portuguesa, lucubrávamos com impaciência o esboço mental de um artigo, onde, a par da frase enraivecida e áspera, a psicologia explicativa não fizesse falta. Servir-nos-ia de tema para esse artigo a figura porcamente representativa do Sr. José Luciano de Castro, bandalho máximo da política portuguesa. Pouco mais houvéramos obtido, porém, do que a intuição daquele epíteto, e a correspondente compreensão psicológica do que de adaptado era ao indivíduo a quem o aplicaríamos, quando, por um acaso que sentimos não poder considerar obra da Providência, nos veio ter às mãos um panfleto partidário que num catálogo se designaria do modo seguinte: "A ... transcribe). Os panfletos partidários têm geralmente valor, seja qual for a circunstância de momento e de carácter em que foram escritos, quando sejam escritos da oposição. Por isso, sem deixar de seguir um critério imparcial e rigorosamente psicológico, detivemo-nos na leitura das trinta e duas páginas subordinadas ao título que acima foi. Era o que queríamos. Aquele panfleto, cujo autor não sabemos, nem, realmente, nos importa saber, basta-nos como ponto de partida fácil para as deduções de natureza sociológica e sociologicamente psicológica que nos propúnhamos fazer neste artigo. Neste artigo — especializámos, porque no livro sobre a significação sociológica do que actualmente se passa e modernamente se tem passado em Portugal, que preparamos, o problema tem de ser mais fria e analisadamente resolvido. A sociologia de artigo de jornal ou revista tem, posto em certa, de ser mais resumida nas suas provas (...) E a razão simples é que as provas sociológicas de um facto social qualquer ser desta ou daquela maneira interpretado são sempre longas e difíceis de rápida exposição, porque as deduções têm de ser matematicamente elos. O progressismo representativo da monarquia constitucional. O caminho que o progressismo seguiu é o que ela seguiu, Analisando um, analisaremos o outro caso. Ladrões natos, liquidando em traidores comprados e espontâneos de uma inconsciência e (...) que apavoram, os progressistas, aptamente representados pelo seu chefe, o Bandalho Máximo, simbolizam a Monarquia. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 58. O mistério ideal dum corpo humano, O qual se as potestades e os seus seres Intimamente vissem e soubessem Nenhum homem em guerra ou dessidência Cairia, tal o terror que inspira E o respeito que nasce do terror! O corpo humano o mistério inventa. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 97. Em outro mundo, onde a vontade é lei, Livremente escolhi aquela vida Com que primeiro neste mundo entrei. Livre, a ela fiquei preso e eu a paguei Com o preço das vidas subsequentes De que ela é a causa, o deus; e esses entes, Por ser quem fui, serão o que serei. Porque pesa em meu corpo e minha mente Esta miséria de sofrer? Não foi Minha a culpa e a razão do que me dói. Não tenho hoje memória, neste sonho Que sou de mim, de quanto quis ser eu. Nada de nada surge do medonho Abismo de quem sou em Deus, do meu Ser anterior a mim, a me dizer Quem sou, esse que fui quando no céu, Ou o que chamam céu, pude querer. Sou entre mim e mim o intervalo — Eu, o que uso esta forma definida De onde para outra ulterior resvalo. Em outro mundo [...] 1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 92. Seria doce amar, cingir a mim Um corpo de mulher, mas fixo e grave E feito em tudo transcendentalmente. O pensamento impede-me e confrange-me Do terror de ter perto e comungar Em sensação ou ser com outro corpo. Gelada mão misteriosa cai Sobre a imaginação que nem em si Me pode amante conceber. Ó corpo! Amante, entrega-te! Talvez Te salves entregando-te e amando! Mas não! A consciência do mistério Mantém-me isolado e em horror Perante tudo. Ah não poder Arrancar de mim a consciência! s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 97. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.124). Minhas mesmas emoções São coisas que me acontecem. 31-8-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 94. Meu querido Gaspar Simões : Desculpe não lhe ter escrito há mais tempo, como devia e queria, para lhe agradecer o Amores Infelizes, que muito e deveras apreciei. Devo-lhe ainda uma carta «crítica» acerca do Elói. Conto poder escrever-lha durante o mês que vem, que tenciono passar, na sua maior parte, no Estoril; nela tratarei, então, deste seu novo livro também. Vai por este correio, registrado, o meu livro Mensa­gem. Só agora, uns vinte e tantos dias depois de ser posto à venda, tenho exemplares para mim, em número que se veja, e não seja portanto absorvido por ofertas, materialmente inevitáveis, a pessoas com quem estou em contacto directo diário ou frequente. Desculpe-me, pois, também esta demora. Envio esta carta, e o livro, para Coimbra, mas não sei se v. estará lá nesta altura da ano. Suponho, porém, que uma e outra coisa lhe chegarão, e sem grande demora. Boas festas e um Ano Novo como v. o quer. Abraça-o o amigo grato e o admirador de sempre Fernando Pessoa. 24-XII-1934. P. S . – Quer exemplares do livro para Presença? Há e posso mandar quando quiser. 24-12-1934 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982). - 112. (A desilusão de Fausto é de três espécies: 1) verifica, no facto de que Maria o ama em parte sem saber porquê e em parte por qualidades que lhe supõe e ele não tem, que o amor é coisa que não se pode querer compreender e entre o qual e ele há um abismo profundíssimo; 2) verifica, na sua incapacidade não só de compreender o amor; como até de o sentir ou, talvez melhor, de se sentir sentindo-o, que esse abismo que existe entre ele e o amor começa por ser um abismo que existe entre ele e ele próprio; 3) verifica (...)) s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 99. Depois que o som da terra, que é não tê-lo, Passou, nuvem obscura, sobre o vale E uma brisa afastando meu cabelo Me diz que fale, ou me diz que cale, A nova claridade veio, e o sol Depois, ele mesmo, e tudo era verdade, Mas quem me deu sentir e a sua prole? Quem me vendeu nas hastas da vontade? Nada. Uma nova obliquação da luz, Interregno factício onde a erva esfria. E o pensamento inútil se conduz Até saber que nada vale ou pesa. E não sei se isto me ensimesma ou alheia, Nem sei se é alegria ou se é tristeza. 13-9-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 95. MARIA: Amo como o amor ama. Não sei razão pra amar-te mais que amar-te. Que queres que te diga mais que te amo, Se o que quero dizer-te é que te amo? Não procures no meu coração... Quando te falo, dói-me que respondas Ao que te digo e não ao meu amor. Quando há amor a gente não conversa: Ama-se, e fala-se para se sentir. Posso ouvir-te dizer-me que tu me amas, Sem que mo digas, se eu sentir que me amas. Mas tu dizes palavras com sentido, E esqueces-te de mim; mesmo que fales Só de mim, não te lembras que eu te amo. Ah, não perguntes nada, antes me fala De tal maneira, que, se eu fora surda, Te ouvisse toda com o coração. Se te vejo não sei quem sou; eu amo. Se me faltas, (...) Mas tu fazes, amor, por me faltares Mesmo estando comigo, pois perguntas Quando deves amar-me. Se não amas, Mostra-te indiferente, ou não me queiras, Mas tu és como nunca ninguém foi, Pois procuras o amor pra não amar, E, se me buscas, é como se eu só fosse O Alguém pra te falar de quem tu amas. Diz-me porque é que o amor te faz ser triste? Canso-te? Posso eu cansar-te se amas? Ninguém no mundo amou como tu amas. Sinto que me amas, mas que a nada amas, E não sei compreender isto que sinto. Dize-me qualquer palavra mais sentida Que essas palavras que, como se as perderas, buscas E encontras cinzas. Quando te vi, amei-te já muito antes. Tornei a achar-te quando te encontrei. Nasci pra ti antes de haver o mundo. Não há coisa feliz ou hora alegre Que eu tenha tido pela vida fora, Que não o fosse porque te previa, Porque dormias nela tu futuro, E com essas alegrias e esse prazer Eu viria depois a amar-te. Quando, Criança, eu, se brincava a ter marido, Me faltava crescer e o não sentia, O que me satisfazia eras já tu, E eu soube-o só depois, quando te vi, E tive para mim melhor sentido, E o meu passado foi como uma estrada Iluminada pela frente, quando O carro com lanternas vira a curva Do caminho e já a noite é toda humana. Tens um segredo? Dize-mo, que eu sei tudo De ti, quando m'o digas com a alma. Em palavras estranhas que m'o fales, Eu compreenderei só porque te amo. Se o teu segredo é triste, eu saberei Chorar contigo até que o esqueças todo. Se o não podes dizer, dize que me amas, E eu sentirei sem qu'rer o teu segredo. Quando eu era pequena, sinto que eu Amava-te já hoje, mas de longe, Como as coisas se podem ver de longe, E ser-se feliz só por se pensar Em chegar onde ainda se não chega. Amor, diz qualquer coisa que eu te sinta! FAUSTO: Compreendo-te tanto que não sinto. Oh coração exterior ao meu! Fatalidade filha do destino E das leis que há no fundo deste mundo! Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto De o sentir...? MARIA: Para que queres compreender Se dizes qu'rer sentir? s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 99. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.126). Primeiro D. SEBASTIÃO Esperai! Caí no areal e na hora adversa Que Deus concede aos seus Para o intervalo em que esteja a alma imersa Em sonhos que são Deus. Que importa o areal e a morte e a desventura Se com Deus me guardei? É O que eu me sonhei que eterno dura, É Esse que regressarei. s.d. Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 81. Rala cai chuva. O ar não é escuro. A hora Inclina-se na haste; e depois volta. Que bem a fantasia se me solta! Com que vestígios me descobre agora! Tédio dos interstícios, onde mora A fazer de lagarto. — O muro escolta A minha eterna angústia de revolta E esse muro sou eu e o que em mim chora. Não digas mais, pois te ignorei cativo... Teus olhos lembram o que querem ser, Murmúrio de águas sobre a praia, e o esquivo Langor do poente que me faz esquecer. Que real que és! Mas eu, que vejo e vivo, Perco-te, e o som do mar faz-te perder. 1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 96. O pensamento que a dor (...) E a aspiração que a sua essência ignora. Se olho em torno de mim que longe eu vejo A humanidade do meu pensamento, Incompreendido eu sempre. A envolver a humanidade inteira Na inabjecção do meu desprezo frio. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 18. Reza por mim. Reza por mim! A mais não me enterneço. Só por mim mesmo sei enternecer-me Sob a ilusão de amar e de sentir Em que forçadamente me detive. Reza por mim, por mim! Eis a que chega A minha tentativa a querer amar. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 101. 1ª versão: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.128). Eh, como outrora era outra a que eu não tinha! Como amei quando amei! Ah, como eu via Como e com olhos de quem nunca lia Tinha o trono onde ter uma rainha. Sob os pés seus a vida me espezinha. Reclinando-te tão bem? A tarde esfria... Ó mar sem cais nem lado na maresia, Que tens comigo, cuja alma é a minha? Sob uma umbela de chá em baixo estamos E é súbita a lembrança Da velha quinta e do espalmar dos ramos Sob os quais a merendar — Oh, amor da glória! Fecharam-me os olhos para toda a história! Como sapos saltamos e erramos... s.d. Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 97. Basta ser breve e transitória a vida Para ser sonho. A mim, como a quem sonha, E obscuramente pesa a certa mágoa De ter que despertar — a mim a morte Mais como o horror de me tirar o sonho E dar-me a realidade me apavora, Que como morte. Quantas vezes, (...), Em sonhos vários conscientemente Imersos, nos não pesa ter que ver A realidade e o dia! Sim, este mundo com seu céu e terra, Com seus mares e rios e montanhas, Com seus arbustos, aves, bichos, homens Com o que o homem, com translata arte De qualquer outra, divina, faz — Casas, cidades, cousas, modos — Este mundo que sonho reconheço, Por sonho amo, e por ser sonho o não Quisera deixar nunca, e por ser certo Que terei que deixá-lo e ver verdade, Me toma a gorja com horror de negro O pensamento da hora inevitável, E a verdade da morte me confrange. Pudesse eu, sim pudesse, eternamente Alheio ao verdadeiro ser do mundo, Viver sempre este sonho que é a vida! Expulso embora da divina essência, Ficção fingindo, vã mentira eterna, Alma-sonho, que eu nunca despertasse! Suave me é o sonho, e a vida porque é Temo a verdade e a verdadeira vida. Quantas vezes, pesada a vida, busco No seio maternal da noite e do erro, O alívio de sonhar, dormindo; e o sonho Uma perfeita vida me parece... Perfeita porque falsa, e porventura Porque depressa passa. E assim é a vida. 3-3-1928 Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 18. 1ª versão: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.92). FAUSTO: Reza por mim Maria MARIA: (Rezo por ti? Sim rezarei. Mas o que tens?) FAUSTO: Reza por mim e diz a Deus (...) Reza por mim, Maria, e eu sentirei Uma calma d'amor sobre o meu ser, Como o luar sobre um lago estagnado, A fazê-lo um milagre de beleza. Reza por mim e diz: Oh Deus, meu Deus, Fazei-o inda feliz esse a quem amo (Se é que me amas...). MARIA: Inda duvidas, meu amor? FAUSTO: Dize: Fazei feliz esse a quem amo E que, qual condenado pela vida, Arrasta a grilheta da dor, Cujos olhos não choram por não ter Na alma já lágrimas p'ra chorar, Que, tendo erguido o seu pensar ao cume Do humano pensar... Não, não importa, Não digas nada, reza e que a tua alma, Compadecendo-se de mim encontre Os termos, as palavras que na prece Murmurará... Choras? Fiz-te chorar? MARIA: Sim... Não... Eu choro apenas de te ver Triste e (...) sem que eu compreenda Tua tristeza, meu amor. Vem ela De alguma dor — oh dize-me, partilha Comigo a tua dor que eu te darei O meu carinho, porque te amo tanto... FAUSTO: Tu amas-me, tu amas-me, Maria? MARIA: Ah, tu duvidas? Meu amor, duvidas? Temes talvez que o meu acanhamento, Que vem d'amor, eu não sei como, seja Indiferença... Não... ah não o creias! Eu não tenho a viveza, nem a ardência Que algumas têm, tremo de mim mesma Do meu amor, mas eu não sei por quê... Mas amo-te... Se te amo, porque hás-de Tu duvidar de mim? Ah, se palavras Podem levar a alma nelas, Fausto, Se o amor, este amor como eu sinto, Pode dizer-se sem o duvidar Se o que eu sinto em minha alma quando te vejo Quando sinto o teu passo, quando penso Em ti, amor, em ti, se olhares, beijos Podem mostrar o amor, todo o amor — Crê que as minhas palavras, os meus beijos, O meu olhar têm esse amor. Se eu não posso Gritar:amor, amor, ardentemente E desmedidamente, e a voz em fogo, É que em mim mesmo, nasce-me um pudor De o dizer muito alto (mas não creias Que é por amar-te pouco, que só é De amar-te muito e amar-te como te amo) Se isto não faço, não duvides, não... Eu não sei dizer mais; não aprendi Como o amor fala não, não aprendi, Porque o amor não fala, não pode Dizer-se todo, senão não seria Amor, ao menos este amor que eu sinto. Não sei, não sei dizer-te... Não duvides! Eu pareço talvez fria aos teus olhos; Não duvides que eu sofra muito, muito Por duvidares E eu amo-te... Meu Deus, como eu te amo! FAUSTO (aparte): Como eu sinto de ouvi-la e de sentir (Sentir pelo meu pensamento) quanto É aquele amor e como ele é amor, Minha alma fria, meu coração frio! Aquilo é amor... Eu, pois, nunca amarei... Que ela fala e eu compreendo (se compreendo! Quanto ela ama, como ela fala amor). Nada sinto em mim que nasça, surja E vá de encontro ao seu amor. Não posso Fazer erguer em mim um sentimento Que dê as mãos àquele. E, de o não poder, Eu mais frio me sinto, mais pesado N'alma, na minha desconsolação. Como me sinto falso, falso a mim mesmo, Falso à existência, falso à vida, ao amor! (alto) Perdoa, amor (aparte) Amor! Como me amarga De vazia em meu ser esta palavra! Como de isso assim ser me encolerizo! (alto) Perdoa, meu amor! Cedo aprendi a duvidar de tudo Por duvidar de mim, sem o querer, Sem razão de o querer ou de o pensar Durante em honras, amor, felicidade... Em tudo... Mas eu creio em ti, Maria, Eu creio em ti... Como és bela! Não, não chores, Quero falar ternura e não o sei; Tenho a alma fria — oh raiva! é impossível. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 101. Oscila o incensório antigo Em fendas e ouro ornamental. Sem atenção, absorto sigo Os passos lentos do ritual. Mas são os braços invisíveis E são os cantos que não são E os incensórios de outros níveis Que vê e ouve o coração. Ah, sempre que o ritual acerta Seus passos e seus ritmos bem, O ritual que não há desperta E a alma é o que é, não o que tem. Oscila o incensório visto, Ouvidos cantos estão no ar, Mas o ritual a que eu assisto É um ritual de relembrar. No grande Templo antenatal, Antes de vida e alma e Deus... E o xadrez do chão ritual É o que é hoje a terra e os céus... 22-9-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 98. Segundo O QUINTO IMPÉRIO Triste de quem vive em casa, Contente com o seu lar, Sem que um sonho, no erguer de asa, Faça até mais rubra a brasa Da lareira a abandonar! Triste de quem é feliz! Vive porque a vida dura. Nada na alma lhe diz Mais que a lição da raiz — Ter por vida a sepultura. Eras sobre eras se somem No tempo que em eras vem. Ser descontente é ser homem. Que as forças cegas se domem Pela visão que a alma tem! E assim, passados os quatro Tempos do ser que sonhou, A terra será teatro Do dia claro, que no atro Da erma noite começou. Grécia, Roma, Cristandade, Europa — os quatro se vão Para onde vai toda idade. Quem vem viver a verdade Que morreu D. Sebastião? 21-2-1933 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 82. Como é estranho Não o achas?... o mar, o céu, a terra, ali! ali! ali! Com realidade e exterioridade E eu aqui, duvidando por os ver, Estremunhado n'alma. Oh, horror, volte... Não volte, não, não volte, a intuição Do ser... Não volte que eu não gritaria. Antegrito o senso do mistério. Nem perante outro ser abria a voz Para o mistério. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 104. Ouço sem ver, e assim, entre o arvoredo, Vejo ninfas e faunos entremear As árvores que fazem sombra ou medo E os ramos que sussurram de eu olhar. Mas que foi que passou? Ninguém o sabe. Desperto, e ouço bater o coração — Aquele coração em que não cabe O que fica da perda da ilusão. Eu quem sou, que não sou meu coração? 24-9-1932 Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). - 100. Não é o horror à morte porque raie Nela o mistério em mim, nem venha nela Ou o acabar-me, ou o continuar-me, Que em qualquer cousa horrenda de diversa, Para um pávido outro-eu me transmigrando, Me anule para um Mais que me apavora. Não. Não é na minha alma que os sineiros Rebatem medos pelo que hei-de ser É a minha carne que em minha alma grita Horror à morte, carnalmente o grita, Grita-o sem consciência e sem propósito, Grita-o sem outro modo do que o medo, Um pavor corporado, um pavor frio Como uma névoa, um pavor de todo eu Subindo à tona intelectual de mim. Não temo a morte como qualquer cousa Que eu veja ou ouça, mas como quem teme Quando não sabe o que é que teme, e teme. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 19. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.132). Um corpo humano! Às vezes, eu olhando o próprio corpo Estremecia de terror ao vê-lo Assim na realidade, tão carnal. Encarnação do mistério, tão próximo Misteriosidade e transcendente Apontar-se-(me) em mim do negro e fundo Mistério do universo. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 104. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.121). Condenados sem fim ao erro eterno. Porque não será isto a realidade? Porque não há-de ser, fantasma eterno, O abstracto e inúmero velado mundo, Sempre velado e abstracto, a sua própria Unidade uma imprecisão, Um todo indefinido, e mais que um todo Onde a verdade e o erro, pontos fixos, Nada sejam senão um maior erro? s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 20. Sinto esse frio coração eu mesmo Admirado de ser um coração, Tão frio está! Já o sonho Porque quis fingir para mim mesmo Esquecê-lo s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 105. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.124). O que é haver haver? Porque é que o que é É isto que é? Como é que o mundo é mundo? Ah, o horror de pensar, como que súbito Desconhecer onde estou. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 20. A EVOLUÇÃO DO COMÉRCIO Este estudo é propriamente nosso. Não lhe fomos buscar os elementos a nenhum tratado. Não tivemos mestre para escrevê-lo. O conhecimento atento da história, e a análise firme dos factos que ela fornece, foi quanto nos foi preciso para a sua elaboração. Como não plagiámos, nem imitámos, nem se quer aceitámos criticamente, mas pensámos por nossa cabeça, visto que ela existe, achamos conveniente começar este artigo por dizer que ele é nosso, e que em nenhum ensaio ou tratado estranho se encontra o estudo que ele encerra, nem, portanto, os ensinamentos que desse estudo se derivam. O seu a seu dono, mesmo quando sejamos nós o dono... A actividade social chamada comércio, por mal vista que esteja hoje pelos teoristas de sociedades impossíveis, é contudo um dos dois característicos distintivos das sociedades chamadas civilizadas. O outro característico distintivo é o que se denomina cultura. Entre o comércio e a cultura houve sempre uma relação íntima, ainda não bem explicada, mas observada por muitos. É, com efeito, notável que as sociedades que mais proeminentemente se destacaram na criação de valores culturais são as que mais proeminentemente se destacaram no exercício assíduo do comércio. Comercial, eminentemente comercial, foi Atenas. Comercial, eminentemente comercial, foi Florença. A relação entre os dois fenómenos é ao mesmo tempo de paralelismo e de causa-e-efeito. Toda a vida é essencialmente relação, e a vida social, portanto, é essencialmente relação entre mdivíduos, quando simples vida social; e entre povos, quando vida civilizacional. Ora, como os fenómenos da vida superior são de duas ordens — materiais e mentais —, devem ser materiais e mentais os fenómenos da vida superior civilizacional; e, como a vida é essencialmente relação, esses fenómenos devem ser de relação. Como o comércio é, por sua natureza, uma entrepenetração económica das sociedades, é no comércio que as relações materiais entre sociedades atingem o seu máximo; e como a cultura é uma entrepenetração artística e filosófica das sociedades, é na cultura que as relações mentais entre povos conseguem o seu auge. Segue que uma sociedade com um alto grau de desenvolvimento material e mental e, portanto, com um alto desenvolvimento da vida de relação, forçosamente será altamente comercial e altamente cultural, paralelamente. Acresce, ainda, que o comércio é uma distribuição, centrífuga ou centrípeta, da produção material, ou indústria; e a cultura é uma distribuição, centrífuga ou centrípeta, da produção mental, ou arte. Os fenómenos são, pois, rigorosamente paralelos. E, assim como nos países de grande produção artística a curiosidade pela arte alheia se desenvolve, pois que a criação artística própria não pode exercer-se sem interesse pela arte, e portanto também pela arte dos outros, assim também num país de grande produção industrial a necessidade de produtos, alheios — que o próprio país não pode, ou não pode convenientemente, produzir — nasce do estímulo às necessidades internas que essa grande produção criou, depois de ter tido nelas origem. Mas entre os dois fenómenos — comércio e cultura — há, também, uma relação de causa-e-efeito. A cultura, ao aperfeiçoar-se, tende para a universalidade, isto é, para não excluir da sua curiosidade elemento algum estranho. Quanto mais fácil for o contacto com elementos estranhos tanto mais essa curiosidade se animará, e a cultura permanecerá viva. Ora como o fenómeno material precede sempre o fenómeno mental, o meio mais seguro de se formarem contactos mentais é terem-se formado contactos materiais; e como a cultura exige necessariamente um contacto demorado e pacífico, o contacto material, que a estimule, terá que ser demorado e pacífico — e é isto mesmo que, em contraposição à guerra, distingue a actividade social chamada comércio. O estabelecimento, um pouco demorado desta analogia ou paridade entre o fenómeno cultural e o comércio não é uma espécie de degressão ou devaneio neste artigo e nesta Revista. Visa, antes de mais nada, a mostrar claramente a importância social do comércio, e a mostrá-la àqueles mesmos que frequentemente a esquecem ou a negam. E como esses, em geral, são os que são ou se julgam pessoas de cultura, o argumento, que se lhes opõe, é tirado das próprias preocupações deles; responde-se-lhes na própria língua que falam ou dizem falar. Mas esta demonstração visa, também, a estabelecer — para o que vamos expor do que nos parece terem sido, adentro da civilização europeia, os estádios da evolução do comércio — uma espécie de contraprova constante. Se comércio e cultura são actividades sociais necessariamente análogas e paralelas, deve haver uma analogia e um paralalelismo entre os estádios da evolução comercial e os da evolução cultural. Determinado, pois, um estádio da evolução do comércio, será fácil verificar se está bem determinado, verificando-se se lhe corresponde um estádio paralelo de cultura. Três são as fases que, a nosso ver, o comércio tem atravessado no decurso da civilização a que pertencemos — isto é, daquela civilização que começa na chamada Idade Média e de aí se estende aos nossos dias. A primeira frase — a do comerciante mercador (assim lhe chamaremos) — vai do início dessa civilização até ao começo da época “moderna”, isto é, o período, do século dezoito para o dezanove, em que se deu o advento da máquina e do individualismo económico. A segunda fase — a que chamaremos do comerciante negociante — vai de aqui até à vinda, não já da máquina, mas da ciência da máquina, ou seja do que denota a formação do tipo industrial moderno — a predominância absoluta (pois até ali era só relativa) da ciência, por meio da engenharia, na vida prática; a mecanização, como dizia Rathenau. A terceira fase — a do comerciante industrial (tal é o nome que lhe da- remos) — é a que parte e nasce deste último fenómeno e está dando a cor ao tempo presente. A razão dos três nomes distintivos, de que acabamos de servir-nos, ver-se-á no decurso desta breve exposição. Cumpre, porém, e sempre, advertir que a realidade não é uma régua, nem uma série de caixas: não tem marcas distintas, nem conhece separações absolutas. Quando, portanto, estabelecemos, para a nossa conveniência mental, “fases” e “períodos” na vida e na história, e indicamos certos fenómenos como sinais do princípio e do fim dessas fases, não devemos esquecer que esses fenómenos, que nos servem convenientemente de balizas, não são instantâneos mas prolongados; e que, assim, há um largo espaço em que duas “épocas” sucessivas se confundem e se misturam, a ponto de não podermos bem dizer se tal ano ou caso está em uma ou outra delas, ou se não estará, por assim falar, em as duas ao mesmo tempo. Com esta reserva fundamental têm sempre que entender-se as classificações que se fazem na vida e, sobretudo, na história. Acresce, em matéria histórica, uma outra reserva, não menos importante. “Civilização” é um termo abstracto; a realidade concreta está nas nações, ou nas regiões ou camadas sociais delas, que compõem essa “civilização”. Ora essas várias nações e, dentro elas, essas partes delas, não caminham a par e no mesmo passo. No mesmo século há países que estão vivendo em “séculos” diferentes; no mesmo pais há regiões e camadas sociais que estão vivendo simultaneamente em épocas diversas. Quando estudamos um período histórico, e buscamos determinar os seus característicos, fazemo-lo pelos países e pelas camadas sociais que estão na vanguarda típica do movimento que nos parece ser o da civilização, muito embora esses países e essas camadas sejam na ocasião uma minoria. Nem se deve confundir a vanguarda da “civilização” com a vanguarda da vitalidade social: quando é ascendente a curva da civilização, a vanguarda está no ponto mais alto; quando é descendente, está no ponto mais baixo. Avança-se para a morte como para a vida. Com estas reservas fatais terá o leitor consciente que entender, não só este breve ensaio, mas qualquer estudo histórico em que se fale da “evolução”, de “fases de progresso”, de “períodos de civilização”. Na época em que colocamos o primeiro estádio da evolução do comércio a civilização tinha inicialmente, e substancialmente, o tipo guerreiro e religioso. Sendo assim, o exercício de qualquer mister que não fosse o das armas ou do sacerdócio resultava, para a imaginação de todas as classes, inferior e desprezível. Os misteres que tinham por fim visível o lucro tinha-os essa época por uma espécie de servidão voluntária, e o distinguia com o ferrete com que se marca a sordidez. Na proporção em que ainda sobrevive (pois há fenómenos sociais em que ainda sobrevive), o espírito que animou a formação e a conservação dessa época, nessa mesma proporção se mantém ainda o desprezo pelo comerciante. Atinge de preferência, é certo, o pequeno comerciante de retalho, cuja modéstia social lhe não confere o antigo opróbio. E, até certo ponto, o pequeno retalhista — neste mundo moderno de grandes armazéns e grandes armazenistas — é realmente uma sobrevivência, embora uma sobrevivência necessária. Traz, portanto, ligado a si, com os característicos da época ida em que todos eram mentalmente como ele — por muito que materialmente divergissem —, uma espécie de sombra do desdém que nessa época lhe davam. Esta atitude social, universal na Idade Média para o comércio inteiro, sofreu uma transformação, não decisiva mas episódica, na Renascença; e, como é natural, sobretudo a sofreu nas pequenas repúblicas semiburguesas que distinguiam principalmente a Itália nesse período. Mas, no conceito geral, o comerciante não deixou de ser encarado como, mais tarde — fora já da época da verdadeira servidão —, haveria de ser encarado o operário; como, aliás, muita gente ainda encara o operário nos nossos dias. E, se o comerciante escapava a este opróbio nas cidades-estados da Renascença era, em verdade, não só pelo carácter especial da civilização nessas comunidades, mas principalmente em virtude da riqueza que acumulasse. A época não dava para melhor conceito. Era o homem rico, e não o comerciante, que nessas sociedades desnobilizadas conseguia a consideração social. Subsistia forte o velho instinto aristocrático: tornadas necessariamente, em muitos casos, pequenas plutocracias, as cidades-estado da Renascença honravam essencialmente o comerciante, quando o honravam, não como comerciante mas como plutocrata — como, portanto, em certo modo, aristocrata adentro desse sistema. A contraprova, segundo o critério que estabelecemos, é fácil. A emergência episódica do comerciante na vida social foi acompanhada nesta época, e exactamente nas mesmas comunidades, pela emergência, igualmente episódica, do artista. O facto é conhecidíssimo. O tipo geral de cultura, porém, era de pura erudição; e, sendo assim, a cultura era necessariamente restrita. Era, ainda, servil e empírica, pois a simples erudição é, de sua natureza, parasitária; e o espírito científico, que então renascia, não penetrava, senão incerta e episodicamente, na cultura. Onde havia cultura, porém, e notadas as reservas expostas, ela era intensa, profunda e curiosa. O comércio, nesta época, tinha exactamente o carácter empírico, “especial” e, como comércio consciente, episódico, que a cultura do mesmo tempo revela. A mentalidade do comerciante desse tempo era a do nosso comerciante de retalho, ainda que exercesse o comércio em grande escala. O comércio por grosso, como hoje o entendemos, não era conhecido. Á parte isto, havia um comércio empírico, de aventura. Assim, ao conceito social que se formava do comércio correspondia, em certo modo, a própria primitividade dele, ou, em outras palavras, o conceito que ele formava de si mesmo. Nenhum elemento de expansão consciente, ou de organização esboçada, havia entrado, ou podia entrar, no comércio deste tempo. A inexistência da contabilidade, propriamente dita, define suficientemente o carácter comercial do período. As determinantes sociais do tempo eram outras; o comércio vivia à parte, se não economicamente, pelo menos socialmente. É esta a fase a que chamámos “do comerciante mercador”. Em certo sentido, e por uma razão já exposta, poderíamos ter-lhe chamado “do comerciante operário”. Haveria restrições especiais que fazer; mas em sua generalidade representativa, a designação não seria injusta. Assim as coisas se mantiveram, salvas as primícias das forças vindouras, até se darem, ou se acentuarem, os três fenómenos que transformaram, simultânea e relacionadamente, os métodos comerciais e a situação social do comerciante. Esses três fenómenos foram: 1) a transformação social, havia muito preparada, que irrompeu violentamente na Revolução Francesa; 2) o desenvolvimento da vida ultramarina; e 3) o advento da máquina e, correlativamente, o aperfeiçoamento dos transportes. O efeito da primeira destas causas foi psicologicamente curioso. A alteração da situação social do comerciante, proveniente da alteração geral de posições sociais, transformou necessariamente a mentalidade dele. O mesmo homem tem uma alma diferente, sobretudo na acção, quando se sente livre e quando se sente subordinado. Ao subordinado são organicamente impossíveis a iniciativa e a organização. Na época em que era socialmente subordinado, não podia o comerciante sequer pensar em dar ao comércio uma expansão coerente, 1.º, porque essa expansão era automaticamente tolhida por forças sociais invencíveis; 2.º, porque, repercutidas essas forças sociais subconscientemente, no espírito do próprio comerciante, a ele nem sequer ocorria a possibilidade dessa expansão coerente. Os espíritos subordinados só se sentem bem na rotina, porque a rotina é a subordinação. Liberto, porém, o comerciante, pela transformação social moderna, dos últimos vínculos da Idade Média, pode por fim dedicar-se ao comércio, não como a um simples modo de ganhar a vida mas como a uma profissão; não como a um mister mas como a uma arte. Foi pois nesta época que se definiram ou se iniciaram os tipos de comércio hoje correntes, e que nós, nascidos já tarde na nova era, mal podemos pensar que não existissem sempre. Aperfeiçoou-se o espírito de distribuição e o próprio espírito de comércio. Desta época datam, organizadamente, o comércio de atacado e o comércio de concentração; nela se desenvolveu a vida comissionária e, mais tarde, se formaram os “grandes armazéns" de retalho, os consignatários e, por especializações sucessivas, os agentes de toda a ordem que hoje simplificam as operações de importação e exportação, de distribuição e de transporte. Paralelamente a isto, os reflexos económicos do individualismo do tempo, estimulando — fomentando mesmo — a concorrência, compeliram o comerciante a sistematizar cada vez mais os seus esforços, a orientar cada vez mais pensadamente a sua actividade, a fazer do seu comércio, não só uma arte, mas uma arte cuidadosamente exercida. Neste mesmo sentido influíram poderosamente as outras duas causas que citámos como determinantes deste período comercial. O desenvolvimento da vida ultramarina, estimulando largamente o comércio a grande distância e em grande escala, veio alargar os horizontes habituais do comércio normal e forçar grande número de comerciantes a, segundo a frase inglesa, “pensar imperialmente”. E o advento da máquina, forçando inevitavelmente a indústria a tomar contacto directo com a ciência, alguma coisa insensivelmente lhe insuflou da sistematização que é a essência desta; e como o comércio está em contacto íntimo com a indústria, para ele foi também passando lentamente esse espírito de sistematização. Em contraposição a isto, mas de acordo com o individualismo da época, o grande impulso que o comércio recebera, a libertação que teve da inferiorização social, as facilidades que estabeleceu a multiplicação de transportes e a sua melhoria — tudo isto fez com que se canalizassem para o comércio inúmeras actividades sem preparação especial ou tradicional para o exercício dele. E isto retardou e complicou a sistematização que se esboçava. É esta fase toda que chamámos “do comerciante negociante”. Empregámos esta expressão não como boa, mas à falta de melhor, e sobretudo para não dizer “do comerciante comerciante”, como seria realmente próprio. O que queremos indicar por ela é que neste período o comércio tomou realmente, e até certo ponto, consciência de si mesmo. Organizou-se individualmente, analiticamente. Tornou-se arte, mais ou menos bem aplicada. Distingue este período, significativamente, a organização definida da contabilidade. Uma coisa ainda faltava a este comércio — o elemento final da organização, que é a coordenação, a síntese. Há organização, mas fragmentária; há sistematização, mas ainda instintiva. Por isso nos servimos da palavra “arte” ao caracterizar este período, e erraríamos se usássemos de qualquer termo que se aproximasse de “ciência”. O fenómeno cultural, que acompanha este fenómeno comercial, é de um paralelismo flagrante e exacto. O que distingue, nessa esfera, esta época é a preocupação científica e a da vulgarização ou popularização da cultura. Com a ciência, a cultura toma consciência de si mesma; com o querer por força vulgarizar a ciência, perturba e perverte essa consciência que logrou. A vulgarização científica e cultural do século dezanove foi quase sempre incoerente e incoordenada, a popularização de conhecimentos as mais das vezes imprudente e imperfeita. Há coisas que se perdem quando se vulgarizam; há matérias de todo impossíveis de popularizar. E o crescente desenvolvimento, a crescente especialização da ciência, directa e indirecta, não fez senão multiplicar os conhecimentos invulgarizáveis. O que, em matéria cultural, essencialmente carimba este período é a emergência do jornalismo; e, em verdade, a evolução do jornalismo e a do comércio moderno são de um paralelismo nitidíssimo. Como destas observações claramente se depreende, estamos ainda hoje, em grande parte, e em muitas nações, adentro deste período, ou seja, ainda no século dezanove. Mas as nações da vanguarda comercial e cultural — valha essa vanguarda o que valer — passaram já nitidamente para outro período, e o certo é que em todas as nações se esboçam, com maior ou menor clareza, os característicos dum período novo. Três são as influências que geraram, e estão gerando, a transformação do segundo período no terceiro: 1) a intensificação de todos os factores que criaram o segundo período, incluindo o próprio individualismo — intensificação porém tão grande que a diferença entre os dois períodos, de quantitativa, passou a ser qualitativa; 2) o aparecimento nítido de concorrências nacionais, organizadas e definidas, umas vezes reforçando, outras sobrepondo-se às concorrências individuais; e 3) o reaparecimento, e desenvolvimento rapidíssimo, do princípio sindical. O efeito principal destas causas — nitidamente sobre o comércio, menos nitidamente, do ponto de vista prático, sobre a cultura — foi, onde quer que tenham aparecido fortemente, coagir o indivíduo, na sua vida material, a um grau de disciplina e de organização que em certas coisas — e o comércio é uma delas —merece já, quase, o nome de científica. A concorrência individual, desenvolvendo-se para além de tudo que o século passado sonhara, obrigou o indivíduo a tomar todas as precauções para poder vencer; e onde essas precauções não são o abandono de todos os escrúpulos — fenómeno aliás hoje correntíssimo em todos os ramos — são o estudo atento dos processos a empregar, o estudo científico onde seja possível, para tomar a dianteira aos concorrentes. O desenvolvimento desmedido da ciência operou evidentemente no mesmo sentido — directamente, penetrando todos do espírito científico, mas do espírito científico de precisão e, sobretudo, especialização, pois as ciências, à medida que se desenvolvem, aproximam-se de um estado matemático e, ao mesmo tempo, se especializam acentuadamente; e, indirectamente, através da indústria, agora inteiramente penetrada da ciência, como se vê na proeminência enorme, e crescente, da engenharia, hoje cheia de ramificações. Neste mesmo sentido operaram os factores a que chamámos as concorrências nacionais e o princípio sindical — este último, porém, um pouco duvidosamente. A “concorrência nacional”organizada foi trazida para a evidência universal pela Alemanha, cujo sistema de estado não só a estimulava, mas como que a compelia, a organizar nacionalmente, como uma guerra — com uma táctica e uma estratégia estudadas —, a expansão do seu comércio. Este factor mais obrigou os comerciantes de toda a parte a dar ao seu comércio uma organização e uma coordenação parecidas com aquelas que são hoje inevitáveis na indústria. E é por isto que damos a este período da evolução do comércio o nome de “do comerciante industrial”. O princípio sindical — propriamente reaccionário ou retrógrado, pois que é uma reversão às corporações medievais — emergiu nas classes operárias, e de aí galgou para todas as outras. Como, seja mau ou bom do ponto de vista social, sempre é um elemento de coordenação, temos nele mais um elemento que se reflectiu no espírito geral e o impeliu mais para se compenetrar da necessidade de organização. Acresce que o espírito de classe ou de profissão, que ele tende a criar, tem também efeitos de rigorosa especialidade, onde esse espírito não seja apenas político; assim, no caso das associações comerciais, gerais e especiais, e das câmaras de comércio, se estabeleceu para o comerciante individual uma maior facilidade de estudar a sua profissão, ou o ramo especial dela que exerce. E o espírito geral de organização com isto necessariamente se ampliou. O certo é que hoje, e mormente nos países mais avançados materialmente, se vai tornando cada vez mais difícil o exercício profícuo e duradouro do comércio a quem não o exerça como se fosse uma indústria, com estudo, “ciência” e sistematização completa. Nesses mesmos países a especialização vai crescendo; é corrente nos Estados Unidos da América as indústrias afastarem de si por completo toda a actividade comercial, delegando em distribuidores domésticos e de exportação a venda dos artigos que fabricam. Em tudo isto se vê o espírito que anima, no comércio, a nossa época. Não sabemos se isto é progresso — porque, em verdade, não se sabe ao certo o que é que constitui o progresso —, mas é fora de dúvida que é muito mais profícuo, muito mais interessante e, até, muito mais simples o comércio quando é exercido desta maneira. A simplificação da contabilidade organizada também define bem, em sua espécie, esta época do comércio. Como estas observações, que acabamos de fazer sobre a fase actual do comércio, são de uma grande evidência, e todos devem compreender que são exactas, não é necessário buscarmos neste caso a contraprova cultural, ou qualquer contraprova mesmo. E é bom que não tenhamos que ir buscar a contraprova cultural, pois — talvez porque a nossa época atravessa uma grande crise de cultura — os fenómenos de coordenação cultural estão muito menos nítidos do que os de coordenação comercial. O que se esboça, porém, nos centros culturais mais representativos vem confirmar nitidamente o que já se passa nos meios comerciais do mesmo nível. Mas, por enquanto, não há nesse campo superior mais que esboços, desejos, tendências. O espírito da ciência e da engenharia ainda não chegou à arte e à literatura. 25-3-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 132. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 3. Lisboa: 25-3-1926. Diálogo na Noite Ó vestidas razões! Dor que é vergonha E por vergonha de si própria cala A si mesma o seu nexo! Ó vil e baixa Porca animalidade do animal, Que se diz metafísica por medo A saber-se só baixa e a si dá nomes De (...) Ó horror metafísico de ti! Sentido pelo instinto, não na mente, Vil metafísica do horror da carne, Medo do amor... Entre o teu corpo e o meu desejo dele Stá o abismo de seres consciente; Pudesse-te eu amar sem que existisses E possuir-te sem que ali estivesses! Ah, que hábito recluso de pensar Tão desterra o animal, que ousar não ouso O que a mais vil besta do mundo vil Obra por maquinismo. Tanto fechei à chave aos olhos de outros Quanto em mim é instinto, que não sei Com que gestos ou modos revelar Um só instinto meu a olhos que olhem, Ser testemunhado no meu corpo E no meu natural! Ó olhos de outrem Se fosseis cegos e também o tacto! Nem nudez de alma ou corpo sei haver Para outro! Ser sozinho eternamente... Ah! que tão caro eu paguei o pensamento Que nada compensou! Que com tristes (...) Deus pessoal, deus gente deixa que creiam, Existe para que eu te possa odiar! Quero alguém a quem possa a maldição Lançar da minha vida que morri, E não o vácuo só da noite muda Que me não ouve, e o espaço sem mais nada Que, se eu cuspir para ele, deixará O que cuspi cair em mim. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 105. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.119). Num atordoamento e confusão Arde-me a alma, sinto nos meus olhos Um fogo estranho, de compreensão E incompreensão urdido, enorme Agonia e anseio de existência Horror e dor, [agonia] sem fim! s.d. “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966). - 80. 0 pensamento é enterrado vivo No mundo e ali sufoca. Sufoco em pensamento ao existir. Oh, horror! Oh inferno verdadeiro Passado no frio âmago desta alma Que se encolhe e arrepia de pavor Como querendo desaparecer E é consciente sempre de ter vulto Para o pavor tomar. Oh sumo horror Que o universo (...) Sufoco em alma! Suma-se-me a vida E a consciência e eu deixe de pensar De fitar o mistério e sem querer Compreender-lhe o horror! Abra-me o sonho Ou a loucura a tenebrosa porta Que a treva é menos negra que esta luz. O terror desvaria-me, o terror De me sentir vivo e ter o mundo Fechado a laços de compreensão Na minha alma gelada de pavor. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 21. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.85). Sonho feito do horror do pensamento, Informe e hórrido, para sempre Longe de mim vossa lembrança horrível. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 21. E assim estou, pensando mais que todos, Braços cruzados (...) além da fé, E raciocínio, e assim sem alegria Nem dúvida, além delas, da tristeza De quem aqui chegou, tornado apenas. Não tenho, não, já dúvida ou alegria Mas nem regresso mais a essa dúvida Nem a essa alegria regressara, Se possível me fosse; tenho o orgulho De ter chegado aqui onde ninguém Nem nas asas do doido pensamento Nem nas asas da louca fantasia Chegou. E aqui me quedo consolado Nesta perene desolação. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 21. 1ª versão inc.: “Primeiro Fausto” in Poemas Dramáticos . Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de Eduardo Freitas da Costa.) Lisboa: Ática, 1952 (imp.1966, p.101). Terceiro O DESEJADO Onde quer que, entre sombras e dizeres, Jazas, remoto, sente-te sonhado, E ergue-te do fundo de não-seres Para teu novo fado! Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo, Mas já no auge da suprema prova, A alma penitente do teu povo À Eucaristia Nova. Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido, Excalibur do Fim, em jeito tal Que sua Luz ao mundo dividido Revele o Santo Gral! 18-1-1934 Mensagem . Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 84. AS NOSSAS ENTREVISTAS O escritor Fernando Pessoa expõe-nos as suas ideias sobre os vários aspectos da arte e da literatura portuguesas. Entrevistar Fernando Pessoa não é fácil. Só é fácil entrevistar os que não pensam, os que não se importam de jogar palavras, ao acaso, atirando-as impudicamente ao vento. Fernando Pessoa, quer como Fernando Pessoa, quer como Álvaro de Campos - o engenheiro alucinado que comporta o seu segundo eu, e que aparece em toda a parte, enchendo a voz de louvores e raios para a Vida - raios partam a Vida e quem lá ande! -é sempre um voluptuoso do raciocínio, um amante da inteligência, podemos dizer: um criador duma nova Razão. Paradoxal? Sem dúvida. Mas há tantas maneiras de ser paradoxal! A entrevista que se segue, toda escrita por Fernando Pessoa - nem podia deixar de ser, visto Fernando Pessoa possuir uma sintaxe própria para a lógica própria dos seus pensamentos, misto de seriedade e de ironia, vai decerto prender o espírito dos leitores... Atenção! Fernando Pessoa vai responder às perguntas que lhe fizemos: - Que pensa da nossa crise? Dos seus aspectos - político, moral e intelectual? - A nossa crise provém, essencialmente, do excesso de civilização dos incivilizáveis. Esta frase, como todas que envolvem uma contradição, não envolve contradição nenhuma. Eu explico. Todo povo se compõe de uma aristocracia e de ele mesmo. Como o povo é um, esta aristocracia e este ele mesmo têm uma substância idêntica; manifestam-se, porém, diferentemente A aristocracia manifesta-se como indivíduos, incluindo alguns indivíduos amadores; o povo revela-se como todo ele um indivíduo só. Só colectivamente é que o povo não é colectivo. O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo. Ora ser tudo em um indivíduo é ser tudo; ser tudo em uma colectividade é cada um dos indivíduos não ser nada. Quando a atmosfera da civilização é cosmopolita, como na Renascença, o português pode ser português, pode portanto ser indivíduo, pode portanto ter aristocracia. Quando a atmosfera da civilização não é cosmopolita - como no tempo entre o fim da Renascença e o princípio, em que estamos, de uma Renascença nova - o português deixa de poder respirar individualmente. Passa a ser só portugueses. Passa a não poder ter aristocracia. Passa a não passar. (Garanto-lhe que estas frases têm uma matemática íntima.) Ora um povo sem aristocracia não pode ser civilizado. A civilização, porém, não perdoa. Por isso esse povo civiliza-se com o que pode arranjar, que é o seu conjunto. E como o seu conjunto é individualmente nada, passa a ser tradicionalista e a imitar o estrangeiro, que são as duas maneiras de não ser nada. É claro que o português, com a sua tendência para ser tudo, forçosamente havia de ser nada de todas as maneiras possíveis. Foi neste vácuo de si próprio que o português abusou de civilizar-se. Está nisto, como lhe disse, a essência da nossa crise. As nossas crises particulares procedem desta crise geral. A nossa crise política é o sermos governados por uma maioria que não há. A nossa crise moral é que desde 1580 - fim da Renascença em nós e de nós na Renascença - deixou de haver indivíduos em Portugal para haver só portugueses. Por isso mesmo acabaram os portugueses nessa ocasião. Foi então que começou o português à antiga portuguesa, que é mais moderno que o português, e é o resultado de estarem interrompidos os portugueses. A nossa crise intelectual é simplesmente o não termos consciência disto. Respondi, creio, à sua pergunta. Se V. reparar bem para o que lhe disse, verá que tem um sentido. Qual, não me compete a mim dizer. - Que pensa dos nossos escritores do momento, prosadores poetas e dramaturgos? - Citar é ser injusto. Enumerar é esquecer. Não quero esquecer ninguém de quem me não lembre. Confio ao silêncio a injustiça. A ânsia de ser completo leva ao desespero de o não poder ser. Não citarei ninguém. Julgue-se citado, quem se julgue com direito a sê-lo. Resolvo assim todos. Lavo as mãos, como Pilatos; lavo-as, porém, inutilmente, porque é sempre inutilmente que se faz um gesto simplificador. Que sei eu do presente, salvo que ele é já o futuro? Quem são os meus contemporâneos? Só o futuro o poderá dizer. Coexiste comigo muita gente que vive comigo apenas porque dura comigo. Esses são apenas os meus conterrâneos no tempo; e eu não quero ser bairrista em matéria de imortalidade. Na dúvida, repito, não citarei ninguém. - Estaremos em face de uma renascença espiritual? - Estamos tão desnacionalizados que devemos estar renascendo. Para os outros povos, na sua totalidade eles próprios, o desnacionalizar-se é o perder-se. Para nós, que não somos nacionais, o desnacionalizar-se é o encontrar-se. Apesar dos grandes obstáculos à nossa regeneração - todas as doutrinas de regeneração - estamos no início de tornar a começar a existir. Chegámos ao ponto em que colectivamente estamos fartos de tudo e individualmente fartos de estar fartos. Extraviámo-nos a tal ponto que devemos estar no bom caminho. Os sinais do nosso ressurgimento próximo estão patentes para os que não vêem o visível. São o caminho-de-ferro de Antero a Pascoaes e a nova linha que está quase construída. Falo em termos de vida metálica porque a época renasce nestes termos. O símbolo, porém, nasceu antes dos engenheiros. Nada há a esperar, é certo, das classes dirigentes, porque não são dirigentes; e ainda menos da proletariagem, porque ser inferior não é uma superioridade. Com razão lhes chamei eu, a estes, subgente, num artigo da antiga Águia - da Águia que voava. Só a burguesia, que é a ausência da classe social, pode criar o futuro. Só de uma classe que não há pode nascer uma classe que não há ainda. Seja como for, avancemos confiadamente. Todos os caminhos vão dar à ponte quando o rio não tem nenhuma. - O que se deve entender por arte portuguesa? Concorda com este termo? Há arte verdadeiramente portuguesa? - Por arte portuguesa deve entender-se uma arte de Portugal que nada tenha de português, por nem sequer imitar o estrangeiro. Ser português, no sentido decente da palavra, é ser europeu sem a má-criação de nacionalidade. Arte portuguesa será aquela em que a Europa - entendendo por Europa principalmente a Grécia antiga e o universo inteiro - se mire e se reconheça sem se lembrar do espelho. Só duas nações - a Grécia passada e Portugal futuro - receberam dos deuses a concessão de serem não só elas mas também todas as outras. Chamo a sua atenção para o facto, mais importante que geográfico, de que Lisboa e Atenas estão quase na mesma latitude. - O regionalismo na literatura e na pintura? - O regionalismo é uma degeneração gordurosa do nacionalismo, e o nacionalismo também. E como o nacionalismo é antiportuguês (sendo bom, cá no Sul, só para os povos latinos e ibéricos), o regionalismo em Portugal é uma doença do que não há. Amar a nossa terra não é gostar do nosso quintal. E isto de quintal também tem interpretações. O meu quintal em Lisboa está ao mesmo tempo em Lisboa, em Portugal e na Europa. O bom regionalismo é amá-lo por ele estar na Europa. Mas quando chego a este regionalismo, sou já português, e já não penso no meu quintal. (O facto de o meu quintal ser inteiramente metafórico não diminui a verdade de tudo isto: Deus, e o próprio universo, são metáforas também.) - Teriam existido em toda a nossa história literária períodos de criação? - O nosso único período de criação foi dedicado a criar um mundo. Não tivemos tempo para pensar nisso. O próprio Camões não foi mais que o que esqueceu fazer. Os Lusíadas é grande, mas nunca se escreveu a valer. Literariamente, o passado de Portugal está no futuro. O Infante, Albuquerque e os outros semideuses da nossa glória esperam ainda o seu cantor. Este poderá não falar deles; basta que os valha em seu canto, e falará deles. Camões estava muito perto para poder sonhá-los. Nas faldas do Himalaia o Himalaia é só as faldas do Himalaia. É na distância, ou na memória, ou na imaginação que o Himalaia é da sua altura, ou talvez um pouco mais alto. Há só um período de criação na nossa história literária: não chegou ainda. - Continuará sendo o lirismo a nossa feição literária predominante? - Há duas feições literárias -a épica e a dramática. O lirismo é a incapacidade comovida de ter qualquer delas. O que é ser lírico? É cantar as emoções que se têm. Ora cantar as emoções que se têm faz-se até sem cantar. O que custa é cantar as emoções que se não têm. Sentir profundamente o que se não sente é a flâmula de almirante da inspiração. O poeta dramático faz isto directamente; o poeta épico fá-lo indirectamente, sentindo o conjunto da obra mais que as partes dela, isto é, sentindo exactamente aquele elemento da obra de que não pode haver emoção nenhuma pessoal, porque é abstracto e por isso impessoal. Fomos esboçadamente épicos. Seremos inviolavelmente dramáticos. Fomos líricos quando não fomos nada. O lirismo só continuará sendo a nossa feição predominante se não formos capazes de ter feição predominante. - O que calcula que seja o futuro da raça portuguesa? - O Quinto Império. O futuro de Portugal —que não calculo mas sei —está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamo. Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeismo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade. 13-10-1923 Ultimatum e Páginas de Sociologia Política . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. - 3. 1ª publ. in Revista Portuguesa, nº 23-24. Lisboa: 13-10-1923. Fausto ao espelho «Deus existe mas não é Deus» eis a chave transcendente de todo o ocultismo. É este o símbolo representado por «morte de Deus-Homem». Pode Deus existir mas não ser Deus; Transcendente mentira realmente Existindo e cercando-nos, O único Horror de um mistério maior. Se Deus houvera dado À verdade outro ser Que não o ser pensando O Como a conceber, Não nos dera a verdade Mas qualquer ilusão Na cómoda eternidade Da vasta escuridão. Fora Deus Deus, Deus fosse menos que este Pensamento que abre na minha alma Um poço sem paredes, e eu pudesse Ao pensamento exceder o sumo Inexcedível, figurar mais vasto Deus que Deus é... Como seria assim? Por ser o ser que é absoluto ser! Não haver para além do sempre além Ou novas direcções do infinito, Número infinito de infinitos. [ ... ] Ah, parar de pensar! Pôr um limite Ao mistério possível. Ter o mundo Este infinito [?] mundo por o mundo, Por Deus o Deus que é dele e o fez e ama! Este meu pensamento transciente De transcendência, por magia ignota Evoque do Incógnito um torpor Com que se o mesmo casasse! Ah, um sono, um Sono Um sono de pensar me roube a mim! Treva! morte! Trevas e morte do Eu! Matar-me dentro da alma! Que eu não pense Por absoluta ausência e em mim descanse Esta concentração multiplicada De mais mundos que os mundos infinitos, De mais seres que o ser que é mais que os seres! E eu mesmo em morte inteira seja Abismo! Vale-me o morte. s.d. Fausto - Tragédia Subjectiva . Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988. - 22. PORTUGAL, VASTO IMPÉRIO - Um inquérito nacional I - Sim ou não Portugal, potência de primeira grandeza na Renascença guarda em si a vitalidade necessária para manter no futuro, na nova Renascença que há-de seguir-se à Idade Média que atravessamos, o lugar de uma grande potência. Cumpre, antes de mais nada, definir a expressão “grande potência”. Por “grande potência” se deve entender, evidentemente, uma nação que influi notavelmente na vida ou nos destinos da civilização. Podemos, porém, distinguir três maneiras de assim influir notavelmente. Distinguiremos, portanto, três espécies de “grande potência”. Influir é transformar . Há três maneiras de transformar: transformar para menos, ou desagregar; transformar para mais, ou desenvolver; transformar para outro, ou construir. Força é, pois, que as grandes potências se manifestem tais, ou pela desagregação que produzem, ou pelo desenvolvimento que promovem, ou pela construção que estabelecem, ou novidade que originam. Duas são as forças da desagregação - a decadência e a violência externa. A decadência é intransmissível: pode ser estimulada, porém não imposta; são portanto seus estímulos, que não ela mesma, que comportam transmissão. A violência externa, pelo contrário, é imposição por natureza. Uma grande potência de desagregação significa portanto uma grande potência de violência, ou seja uma grande potência guerreira. É este o sentido em que ordinariamente se toma a expressão “grande potência”: é que a violência, como é a força visível, representa para o comum dos homens o modo único da força. Duas são também as forças de desenvolvimento - o estímulo físico ou material e o estímulo intelectual ou moral. Na vida das sociedades, o primeiro é dado pelo comércio, o segundo pela cultura. Com efeito, o desenvolvimento dos povos se efectua, no que material, pela multiplicação de contactos económicos; no que mental, pela multiplicação de contactos culturais. E o comércio e a cultura andam comummente a par: é que a multiplicação de relações de uma espécie facilita inevitavelmente a multiplicação de relações da outra espécie. Há, pois, duas espécies de “grandes potências” expansivas da vida alheia: as potências primordialmente económicas, como a Alemanha e os Estados Unidos, e as potências culturais, como antigamente a Itália e subsequentemente a França. Qualquer transformação pode ser definida como sendo “para outro”, porém a transformação construtiva merece esse nome distintivamente. Na transformação para mais ou para menos a coisa transformada mantém os seus característicos essenciais; a transformação é quantitativa. Na transformação para outro a mudança é qualitativa. Que característicos adquire, porém, a coisa transformada, ao ser transformada “para outro”? Os do elemento transformador, pois outros não há que possivelmente adquira. Segue, pois, que a transformação construtiva implica uma conversão da substância da coisa transformada na substância da coisa transformadora. À nação que exerce esta espécie de influências, que é uma “grande potência” nesta função, chama-se com justeza, não grande potência, senão Império. Até hoje, adentro da civilização que vivemos, tem havido quatro impérios - o grego, o romano, o cristão, e o inglês (que não o britânico, que é império em outro, e mais baixo, sentido). Com sua prodigiosa visão, histórica como profética, distingue sempre Nostradamo entre o que chama simplesmente empire (que é qualquer dos grandes domínios fugazes com que se orna a história) e grand empire, que é o Império no sentido em que aqui usamos o termo. Sem dúvida que as três formas de ser grande potência se não excluem entre si; antes a duas, e a mais que duas, as pode reunir uma só nação. Postos estes princípios, pergunta-se: para que forma de grande potência tem Portugal condições, se as tem para alguma? Portugal, grande potência guerreira, ou desagregadora, é invisionável, o que não quer dizer que seja impossível, pois não podemos prever que alianças ou combinações poderão surgir do abismo do futuro. A pergunta, porém, refere-se às condições que Portugal tem , que não àquelas que poderá um dia vir a ter; e por “condições que tem” se entendem aquelas que ou estão hoje claramente latentes nele, ou em qualquer forma ou esboço nele se revelaram no passado. Ora pondo de parte, por irrisório neste respeito, o que somos hoje, o facto é que nunca tivemos condições ou propensão para a forma guerreira de grande potência. Nem para tal nos dispunha a nossa situação terrestre de nação pequena e excêntrica em continente e península, nem, em prova disso, nos empenhámos nunca com vantagem em guerras puramente agressivas, excepto as que precederam inevitavelmente do nosso mester orgânico de descobridores E estas viveram na atmosfera triunfal do fenómeno que lhes deu origem. Portugal grande potência económica é talvez ainda mais invisionável que Portugal grande potência guerreira. Uma potência guerreira forma-se e desenvolve-se com mais facilidade e rapidez que uma potência económica, pois procede de instintos e forças mais primitivos do que esta. E se de potência guerreira não temos tradição senão por assim dizer corolária, de potência económica não temos tradição nenhuma, ou a temos negativa. Ainda, pois, que uma expansão ou federação futura nos convertesse em grande nação - sem o que se não pode ser uma grande potência económica -, nossa acção nesse campo seria sempre limitada pela de núcleos não só quantitativamente superiores ao nosso, mas ainda preparados tradicionalmente para o exercício dessa espécie de influência. Portugal grande potência cultural é uma hipótese já de outro género. O exercício da grande influência guerreira ou económica implica a existência de uma nação grande, unida, disciplinada, o da grande influência cultural dispensa estes característicos. Exerceu-a a Itália quando nem sequer era nação, senão uma justaposição de pequenos estados, em conflito perpétuo uns com os outros, e cada um em quase constante desordem interna. Nem a nossa condição actual é, pois, obstáculo neste respeito; é-o, porém, a nossa carência quase absoluta de tradição cultural, propriamente dita. Quantitativamente, nunca a tivemos; qualitativamente, pouco. No fim da chamada Idade Média, e no princípio da Renascença, esboçámos, é certo, um acentuado movimento cultural, que abrange os Cancioneiros, os Romances de Cavalaria, e um ou outro fenómenos como a especulação de Francisco Sanches, aliás formado em outro ambiente; mas em breve o vinco, muito mais tipicamente nacional, das descobertas, arrastava para si toda a vitalidade portuguesa, e o catolicismo, então em período de reacção, se encarregou de anular aquela liberdade de especulação, sem a qual a cultura é impossível. Ficámos no estado vil de inteligência, servil e mimético, em que desde esse tempo temos vegetado. Se, porém, a necessidade cultural fosse, por qualquer razão, em nós orgânica, teria havido dela sinais, sobretudo desde que entrámos, com o mimetismo já citado, em regime liberal e depois em República. Mas o que tem havido é menos que pouco, a nossa indisposição cultural permanece evidente Portugal grande potência construtiva, Portugal Império - aqui, sim, é que, através de grandeza e de decadência, se revela o nosso instinto, e se mantém a nossa tradição. Somos, por índole uma nação criadora e imperial. Com as Descobertas, e o estabelecimento do Imperialismo Ultramarino, criámos o mundo moderno - criação absoluta, tanto quanto socialmente isso é possível, que não simples elaboração ou renovação de criações alheias. Nas mais negras horas da nossa decadência, prosseguiu, sobretudo no Brasil, a nossa acção imperial, pela colonização; e foi nessas mesmas horas que em nós nasceu o sonho sebastianista, em que a ideia do Império Português atinge o estado religioso. Portugal tem pois condições orgânicas para ser uma grande potência construtiva ou criadora, um Império. Uma coisa, porém, é dizer-se que Portugal tem condições para sê-lo; outra é predizer que o será. A pergunta não exige esta segunda demonstração, que, aliás, por extensa não poderia ser aqui dada. Nem há mester que se diga, também, em que consistirá presumivelmente essa criação portuguesa, qual será o sentido e o conteúdo desse Quinto Império. Fora preciso um livro inteiro para o dizer, nem chegou ainda a hora de dizer-se. II - Sim ou não Portugal, sendo a terceira potência colonial tem todos os direitos a ser considerada uma grande potência europeia? Como Portugal, grande potência, está no futuro - ou, se se preferir, só pode estar no futuro -, não pode exigir ao presente que o considere por aquilo que ele ainda não é, nem se sabe ao certo se será. Mas, como é a terceira potência colonial, pode e deve exigir que o tratem como a terceira potência colonial. III - Sim ou não Portugal, amputado das suas colónias, perderá toda a razão de ser como povo independente no comércio europeu? Para o destino que presumo que será o de Portugal, as colónias não são precisas. A perda delas, porém, também não é precisa para esse destino. E, por certo, sem colónias, ficaria Portugal diminuído ante o mundo e perante si mesmo, material como moralmente. As colónias, portanto, não sendo uma necessidade, são contudo uma vantagem. IV - Sim ou não o moral da Nação pode ser levantado por uma intensa propaganda, pelo jornal, pela revista e pelo livro, de forma a criar uma mentalidade colectiva capaz de impor aos políticos uma política de grandeza nacional? Na hipótese afirmativa, qual o caminho a seguir? Há só uma espécie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação — a construção ou renovação e a difusão consequente e multímoda de um grande mito nacional. De instinto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instinto, que não há verdade, ou que a verdade é inatingível. O mundo conduz-se por mentiras; quem quiser despertá-lo ou conduzi-lo terá que mentir-lhe delirantemente, e fá-lo-á com tanto mais êxito quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que criou. Temos, felizmente, o mito sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portuguesa. Nosso trabalho é pois mais fácil; não temos que criar um mito, senão que renová-lo. Comecemos por nos embebedar desse sonho, por o integrar em nós, por o encarnar. Feito isso, cada um de nós independentemente e a sós consigo, o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevermos, e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da Nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 100. 1ª publ. in O Jornal do Comércio e das Colónias , 73º ano, nº 21693, Lisboa, 28-5-1926. 2ª publ. in Portugal, Vasto Império . Augusto da Costa. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1934. ANTINOUS The rain outside was cold in Hadrian’s soul. The boy lay dead On the low couch, on whose denuded whole, To Hadrian's eyes, whose sorrow was a dread, The shadowy light of Death's eclipse was shed. The boy lay dead, and te day seemed a night Outside. The rain fell like a sick affright Of Nature at her work in killing him. Memory of what he was gave no delight, Delight at what he was was dead and dim. O hands that once had clasped Hadrian's warm hands, Whose cold now found them cold! O hair bound erstwhile with the pressing bands! O eyes half-diffidently bold! O bare female male-body such As a god's likeness to humanity! O lips whose opening redness erst could touch Lust's seats with a live art's variety! O fingers skilled in things not to be told! O tongue which, counter-tongued, made the blood bold! O complete regency of lust throned on Raged consciousness's spilled suspension! These things are things that now must be no more. The rain is silent, and the Emperor Sinks by te couch. His grief is like a rage, For the gods take away the life they give And spoil te beauty they made live. He weeps and knows that every future age Is looking on him out of the to-be; His love is on a universal stage; A thousand unborn eyes weep with his misery. Antinous is dead, is dead for ever, Is dead for ever and all loves lament. Venus herself, that was Adonis' lover, Seeing him, that newly lived, now dead again, Lends her old grief's renewal to be blent With Hadrian's pain. Now is Apollo sad because te stealer Of his white body is for ever cold. No careful kisses on that nippled point Covering his heart-beats' silent place restore His life again to ope his eyes and feel her Presence along his veins Love's fortress hold. No warmth of his another's warmth demands. Now will his hands behind his head no more Linked, in that posture giving all but hands, On the projected body hands implore. The rain falls, and he lies like one who hath Forgotten all the gestures of his love And lies awake waiting their hot return. But all his arts and toys are now with Death. This human ice no way of heat can move; These ashes of a fire no flame can burn. O Hadrian, what will now thy cold life be? What boots it to be lord of men and might? His absence o' er thy visible empery Comes like a night, Nor is there morn in hopes of new delight. Now are thy nights widowed of love and kisses; Now are thy days robbed of the night's awaiting; Now have thy lips no purpose for thy blisses, Left but to speak the name that Death is mating With solitude and sorrow and affright. Thy vague hands grope, as if they had dropped joy. To hear that the rain ceases lift thy head, And thy raised glance take to the lovely boy. Naked he lies upon that memoried bed; By thine own hand he lies uncoverèd. There was he wont thy dangling sense to cloy, Ande uncloy with more cloying, and annoy With newer uncloying till thy senses bled. His hand and mouth knew games to reinstal Desire that thy worn spine was hurt to follow. Sometimes it seemed to thee that all was hollow In sense in each new straining of sucked lust. Then still new turns of toying would he call To thy nerves’ flesh, and thou wouldst tremble and fall Back on thy cushions with thy mind's sense hushed. «Beautiful was my love, yet melancholy. He had that art, that makes love captive wholly, Of being slowly sad among lust's rages. Now the Nile gave him up, the eternal Nile. Under his wet locks Death's blue paleness wages Now war upon our wishing with sad smile.» Even as he thinks, the lust that is no more Than a memory of lust revives and takes His senses by the hand, his felt flesh wakes, And all becomes again what 'twas before. The dead body on the bed starts up and lives And comes to lie with him, close, closer, and A creeping love-wise and invisible hand At every body-entrance to his lust Whispers caresses which flit off yet just Remain enough to bleed his last nerve's strand, O sweet and cruel Parthian fugitives! So he half rises, looking on his lover, That now can love nothing but what none know. Vaguely half-seeing what he doth behold, He runs his cold lips all the body over. And so ice-senseless are his lips that, lo!, He scarce tastes death from the dead body's cold, But it seems both are dead or living both And love is still the presence and the mover. Then his lips cease on the other lips' cold sloth. Ah, there the wanting breath reminds his lips That from beyond the gods hath moved a mist Between him and this boy. His finger-tips, Still idly searching o'er the body, list For some flesh-response to their waking mood. But their love-question is not understood: The god is dead whose cult was to be kissed! He lifts his hand up to where heaven should be And cries on the mute gods to know his pain. Let your calm faces turn aside to his plea, O granting powers! He will yield up his reign. In the still deserts he will parchèd live, In the far barbarous roads beggar or slave, But to his arins again the warm boy give! Forego that space ye meant to be his grave! Take all the female loveliness of earth And in one mound of death its remnant spill! But, by sweet Ganymede, that Jove found worth And above Hebe did elect to fill His cup at his high feasting, and instil The friendlier love that fills the other's dearth, The clod of female embraces resolve To dust, O father of the gods, but spare This boy and his white body and golden hair! Maybe thy better Ganymede thou feel'st That he should be, and out of jealous care From Hadrian's arms to thine his beauty steal'st. He was a kitten playing with lust, playing With his own and with Hadrian's, sometimes one And sometimes two, now linking , now undone; Now Ieaving lust, now lust's high lusts delaying; Now eyeing lust not wide, but from askance Jumping round on lust's half-unexpectance; Now softly gripping, then with fury holding, Now playfully playing, now seriously, now lying By th' side of lust looking at it, now spying Which way to take lust in his lust's withholding. Thus did the hours slide from their tangled hands And from their mixèd limbs the moments slip. Now were his arms dead leaves, now iron bands; Now were his lips cups, now the things that sip; Now were his eyes too closed and now too looking; Now were his uncontinuings frenzy working; Now were his arts a feather and now a whip. That love they lived as a religion Offered to gods that come themselves to men. Sometimes he was adorned or made to don Half-vestures, then in statued nudity Did imitate some god that seems to be By marble's accurate virtue men's again. Now was he Venus, white out of the seas; And now was he Apollo, young and golden; Now as Jove sate he in mock judgment over The presence at his feet of his slaved lover; Now was he an acted rite, by one beholden, In ever-repositioned mysteries. Now he is something anyone can be. O stark negation of the thing it is! O golden-haired moon-cold loveliness! Too cold! too cold! and love as cold as he! Love through the memories of his love doth roam As through a labyrinth, in sad madness glad, And now calls on his name and bids him come, And now is smiling at his imaged coming That is i'th' heart like faces in the gloaming — Mere shining shadows of the forms they had. The rain again like a vague pain arose And put the sense of wetness in the air. Suddenly did the Emperor suppose He saw this room and all in it from far. He saw the couch, the boy, and his own frame Cast down against the couch, and he became A clearer presence to himself, and said These words unuttered, save to his soul's dread: « I shall build thee a statue that will be To the continued future evidence Of my love and thy beauty and the sense That beauty giveth ot divinity. Though death with subtle uncovering hands remove The apparel of life and empire from our love, Yet its nude statue, that thou dost inspirit, All future times, whether they will't or not, Shall, like a gift a forcing god hath brought, Inevitably inherit. «Ay, this thy statue shall I build, and set Upon the pinnacle of being thine, that Time By its subtle dim crime Will fear to eat it from life, or to fret With war's or envy's rage from bulk and stone. Fate cannot be that! Gods themselves, that make Things change, Fate's own hand, that doth overtake The gods themselves with darkness, will draw back From marring thus thy statue and my boon, Leaving the wide world hollow with thy lack. «This picture of our love will bridge the ages. It will loom white out of the past and be Eternal, like a Roman victory, In every heart ,the future will give rages Of not being our love's contemporary. «Yet oh that this were needed not, and thou Wert the red flower perfuming my life, The garland on the brows of my delight, The living flame on altars of my soul! Would all this were a thing thou mightest now Smile at from under thy death-mocking lids And wonder that I should so put a strife Twixt me and gods for thy lost presence bright; Were there nought in this but my empty dole And thy awakening smile half to condole With what my dreaming pain to hope forbids.» Thus went he, like a lover who is waiting, From place to place in his dim doubting mind. Now was his hope a great intention fating Its wish to being, now felt he he was blind In some point of his seen wish undefined. When love meets death we know not what to feel. When death foils love we know not what to know. Now did his doubt hope, now did his hope doubt; Now what his wish dreamed the dream's sense did flout And to a sullen emptiness congeal. Thcn again the gods fanned love's darkening glow. «Thy death has given me a higher lust — A flesh-lust raging for eternity. On mine imperial fate I set my trust That the high gods,that made me emperor be, Will not annul from a more real life My wish that thou should'st live for e'er and stand A fleshly presence on their better land, More lovely yet not lovelier, for there No things impossible our wishes mar Nor pain our hearts with change and time and strife. «Love, love, my love! thou art already a god. This thought of mine, which I a wish believe, Is no wish, but a sight, to me allowed By the great gods, that love love and can give To mortal hearts, under the shape of wishes — Of wishes having undiscovered reaches —, A vision of the real things beyond Our life-imprisoned life, our sense-bound sense. Ay, what I wish thee to be thou art now Already. Already on Olympic ground Thou walkest and art perfect, yet art thou, For thou needst no excess of thee to don Perfect to be, being perfection. «My heart is singing like a morning bird. A great hope from the gods comes down to me And bids my heart to subtler sense be stirred And think not that strange evil of thee That to think thee mortal would be. «My love, my love, my god-love! Let me kiss On thy cold lips thy hot lips now immortal, Greeting thee at Death's portal's happiness, For to the gods Death's portal is Life's portal. «Were no Olympus yet for thee, my love Would make thee one, where thou sole god mightst prove, And I thy sole adorer, glad to be Thy sole adorer through infinity. That were a universe divine enough For love and me and what to me thou art. To have thee is a thing made of gods' stuff And to look on thee eternity's best part. «But this is true and mine own art: the god Thou art now is a body made by me, For, if thou art now flesh reality Beyond where men age and night cometh still, 'Tis to my love's great making power thou owest 'I'hat life thou on thy merúory bestowest And mak'st it carnal. Had my love not held An empire of my mighty legioned will, Thou to gods' consort hadst not been compelled. «My love that found thee, when it found thee did But find its own true body and exact look. Therefore when now thy memory I bid Become a god where gods are, I but move To death's high column's top the shape it took And set it there for vision of all love. «O love, my love, put up with my strong will Of loving to Olympus, be thou there The latest god, whose honey-coloured hair Takes divine eyes! As thou wert on earthe, still In heaven bodifully be and roam, A prisoner of that happiness of home, With elder gods, while I on earth do make A statue for thy deathlessness' seen sake. «Yet thy true deathless statue I shall build Will be no stone thing, but that same regret By which our love's eternity is willed. One side of that is thou, as gods see thee Now, and the other, here, thy memory. My sorrow wiII make that men's god, and set Thy naked memory on the parapet That looks upon the seas of future times. Some will say all our love was but our crimes; Others against our names the knives will whet Of their glad hate of beauty's beauty, and make Our names a base of heap whereon to rake The names of all our brothers with quick scorn. Yet will our presence, like eternal Morn, Ever return at Beauty's hour, and shine Out of the East of Love, in light to enshrine New gods to come, the lacking world to adorn. «All that thou art now is thyself and I. Our dual presence has its unity In that perfection of body which my love By loving it, became, and did from life Raise into godness, calm above the strife Of times, and changing passions far above. «But since men see more with the eyes than soul, Still I in stone shall utter this great dole; Still, eager that men hunger by thy presence, I shall to marble carry this regret That in my heart like a great star is set. Thus, even in stone, our love shall stand so great In thy statue of us, like a god's fate, Our love’s incarnate and discarnate essence, That, like a trumpet reaching over seas And going from continent to continent, Our love shall speak its joy and woe, death-blent, Over infinities and eternities. «And here, memory or statue, we shall stand, Still the same one, as we were hand in hand Nor felt each other's hand for feeling feeling. Men still will see me when thy sense they take. The entire gods might pass, in the vast wheeling Of the globed ages. If but for thy sake, That, being theirs, hadst gone with their gone band, They would return, as they had slept to wake. «Then the end of days when Jove were born again And Ganymede again pour at his feast Would see our dual soul from death released And recreated unto joy, fear, pain — All that love doth contain; Life — all the beauty that doth make a lust Of love's own true love, at the spell amazed; And, if our very memory wore to dust, By some god's race of the end of ages must Our dual unity again be raised.» It rained still. But slow-treading night came in, Closing the weary eyelids of each sense. The very consciousness of self and soul Grew, like a landscape through dim raining, dim. The Emperor lay still, so still that now He half forgot where now he lay, or whence The sorrow that was still salt on his lips. All had been something very far, a scroll Rolled up. The things he felt were like the rim That haloes round the moon when the night weeps. His head was bowed into his arms, and they On the low couch, foreign to his sense, lay. His closed eyes seemed open to him, and seeing The naked floor, dark, cold, sad and unmeaning. His hurting breath was all his sense could know. Out of the falling darkness the wind rose And fell; a voice swooned in the courts below; And the Emperor slept. The gods came now And bore something away, no sense knows how, On unseen arms of power and repose. 1915 Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 90. 1ª ed.: Antinous . Fernando Pessoa. Lisbon: 1918. 2ªed. revista e alterada in English Poems I-II . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. PREFÁCIO [a Quinto Império, de Augusto Ferreira Gomes] A esperança do Quinto Império, tal qual em Portugal a sonhamos e concebemos, não se ajusta, por natureza, ao que a tradição figura como o sentido da interpretação dada por Daniel ao sonho de Nebucadnezar. Nessa figuração tradicional, é este o seguimento dos impérios: o Primeiro é o da Babilónia, o Segundo o Medo-Persa, o Terceiro o da Grécia e o Quarto o de Roma, ficando o Quinto, como sempre, duvidoso. Nesse esquema, porém, que é de impérios materiais, o último é plausivelmente entendido como sendo o Império de Inglaterra. Desse modo se interpreta naquele país; e creio que nesse nível, se interpreta bem. Não é assim no esquema português. Este, sendo espiritual, em vez de partir, como naquela tradição, do Império material de Babilónia, parte, antes, com a civilização em que vivemos, do império espiritual da Grécia, origem do que espiritualmente somos. E, sendo esse o Primeiro Império, o Segundo é o de Roma, o Terceiro o da Cristandade, e o Quarto o da Europa - isto é, da Europa laica de depois da Renascença. Aqui o Quinto Império terá que ser outro que o inglês, porque terá que ser de outra ordem. Nós o atribuímos a Portugal, para quem o esperamos. * A chave está dada, clara e obscuramente, na primeira quadra do Terceiro Corpo das Profecias do Bandarra, entendendo-se que Bandarra é um nome colectivo, pelo qual se designa, não só o vidente de Trancoso, mas todos quantos viram, por seu exemplo, à mesma Luz. Este Terceiro Corpo não é, nem poderia ser do Bandarra de Trancoso. Dizemos, contudo, que é do Bandarra. A quadra é assim: Em vós que haveis de ser Quinto Depois de morto o Segundo, Minhas profecias fundo Nestas letras que VOS Pinto. A palavra VOS, no quarto verso, tem a variante AQUI em alguns textos. Mas, de qualquer dos modos, a interpretação vem a ser igual. Considerando, pelo lema da Tripeça, que todas as profecias têm três tempos distintos, esta será interpretada em relação a três tempos de Portugal, segundo as “letras” são “pintadas”. Se as letras são as da palavra VOS, indicam, como se mandou que se soubesse, Vis, Otium, Scientia. E se as letras são as da palavra AQUI, indicam, segundo a mesma ordem, Arma, Quies, Intellectus , que logo se vê serem termos sinónimos dos outros. Temos pois que a Nação Portuguesa percorre, em seu caminho imperial, três tempos - o primeiro caracterizado pela Forca ( Vis ) ou as Armas (Arma), o segundo pelo Ócio ( Otium) ou o Sos sego (Quies), e o terceiro pela Ciência (Scientia) ou a Inteligência (Intellectus). E os tempos e os modos estão indicados nos primeiros dois versos da quadra: Em vós que haveis de ser Quinto Depois de morto o Segundo... No primeiro tempo - a Força ou Armas - trata-se de el-rei D. Manuel o Primeiro, que é o quinto rei da dinastia de Avis, e sucede a D. João o Segundo, depois deste morto. Foi então o auge do nosso período de Força ou Armas, isto é, de poder temporal. No segundo tempo - Ócio ou Sossego - trata-se de el-rei D. João o Quinto, que sucede a D. Pedro o Segundo, depois de este morto. Foi então o auge do nosso período de esterilidade rica, do nosso repouso do poder - o ócio ou sossego da profecia. No terceiro tempo - Ciência ou Inteligência - trata-se do Quinto Império, que sucederá ao Segundo, que é o de Roma, depois de este morto. Quanto ao que quer dizer esta Roma, a cujo fim ou morte se seguirá o Império Português, ou Quinto Império, ou o que seja a Ciência ou Inteligência que definirá a este - não direi se o sei ou o não sei, se o presumo ou o não presumo. Saber seria de mais; presumir seria de menos. Quem puder compreender que compreenda. As profecias são de duas ordens — as que, como a de Daniel e esta do falso Bandarra, têm em si uma grande luz; e as que, como as do vero Bandarra e as do livro presente, têm em si uma grande treva. Aquelas são o fio do labirinto, estas o mesmo labirinto. Umas e outras, porém, entre si se complementam. Por umas as outras se esclarecem, tanto quanto pode ser, porque a luz afasta as trevas, mas sem as trevas se não veria a luz. Tão certo é o que se diz em certo passo secreto — que a melhor luz que temos neste mundo não é mais que treva visível... s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 99. 1ª publ. in Quinto Império . Augusto Ferreira Gomes. Lisboa: A. M. Pereira, 1934. Iconoclasta Não vê, porém, o Sr. A[fonso] C[osta] que este argumento serve admiravelmente os seus adversários — e justa e legalmente [?] lhes serve. Porque se (...) então o que quer dizer a grande circulação do Mundo, apesar da linguagem desprezível e provocadora dele? s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 30. O QUINTO IMPÉRIO I. O Conceito de Quinto Império e as interpretações que se dão aos cinco impérios. A nossa interpretação. II. Explicação da última interpretação. Indicação sociológica e histórica da evolução da civilização europeia desde a Grécia até nós. Dedução do que deverá ser o Quinto Império, considerando a linha íntima da evolução europeia através dos outros quatro. III. A evolução portuguesa, os três estorvos ao Primeiro Movimento Imperial (precisa explicar-se primeiro o que são os três géneros de império). IV. As figuras simbólicas dos cinco impérios; não referir (por motivos da quarta) quais são as figuras dos primeiros quatro impérios. D. Sebastião: as razões por que é a figura simbólica do Quinto Império e, no mesmo passo, de Portugal. V. A tradição profética sebástica. (Fazer o estudo II rigorosamente sociológico, e assim seu seguimento. Não tocar no que está por baixo do sentido dos cinco exemplares. Isto pertence ao outro Estudo.) s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 84. I We pass and dream. Earth smiles. Virtue is rare. Age, duty, gods weigh on our conscious bliss. Hope for the best and for the worst prepare. The sum of purposed wisdom speaks in this. 1920 «Inscriptions». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 116. 1ª ed. in English Poems I-II . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Considerações pós-revolucionárias Afonso Costa é o tipo simbolizante do actual período republicano. Corno com razão mostrou Bruno ( D[iário] da T[arde] (...)), implantada a República, estava cumprida a missão do partido republicano. Devia imediatamente cindir-se nos dois grupos — conservador e radical. E assim, como muito bem afirma o mesmo escritor ilustre, (transcrever). Assim, ficando anormalmente (...), o partido republicano, nascem os [...] Ora a corrente típica tem por símbolo Afonso Costa. Identificava-se o partido republicano com a nação. Deviam caber-lhe dentro, portanto, as correntes da vida nacional. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 31. A ESSÊNCIA DO COMÉRCIO Aqui há anos, antes da Grande Guerra, correu os meios ingleses, como exemplo demonstrativo da insinuação comercial alemã, a notícia do caso curioso das “taças para ovos” (eggcups) que se vendiam na Índia. O inglês costuma comer os “ovos”, a que nós chamamos “quentes”, não em copos e partidos, mas em pequenas taças de louça, do feitio de meio ovo, e em que o ovo, portanto, entra até metade; partem a extremidade livre do ovo, e comem-no assim, com, uma colher de chá, depois de lhe ter deitado sal e pimenta. Na Índia, colónia britânica, assim se comiam, e naturalmente ainda se comem, os ovos “quentes". Como é de supor, eram casas inglesas as que, por tradição aparentemente inquebrável, exportavam para a Índia as taças para este fim. Sucedeu, porém, que, alguns anos antes da Guerra, as firmas inglesas exportadoras deste artigo notaram que a procura dele na Índia decrescera quase até zero. Estranharam o facto, buscaram saber a causa, e não tardou que descobrissem que estavam sendo batidas por casas exportadoras alemãs, que vendiam idêntico artigo ao mesmo preço. Se as casas alemãs houvessem entrado no mercado índio com o artigo a preços mais baixos, sem dúvida que os agentes dos exportadores ingleses teriam advertido estes sem demora. Mas, como o preço era igual e a qualidade igual também, não era necessário o aviso; nem houve receio senão quando se verificou que havia razão para mais que receio — isto é, quando se verificou que, nestas condições de duvidosa vantagem para um novo concorrente, o artigo alemão vencera por completo. Feita a averiguação ansiosa da causa deste mistério, não tardou que se descobrisse. Os ovos das galinhas indianas eram — e naturalmente ainda são — ligeiramente maiores que os das galinhas da Europa, ou, pelo menos, das da Grã-Bretanha. Os fabricantes ingleses exportavam as taças de tipo único que produziam para o consumo doméstico. Essas taças, evidentemente, serviam de um modo imperfeito aos ovos das galinhas da Índia. Os Alemães notaram isto, e fizeram taças ligeiramente maiores, próprias para receber esses ovos. Não tinham que alterar qualidade (podiam até baixá-la), nem que diminuir o preço; tinham certa a vitória por o que em linguagem científica se chama a adaptação ao meio. Tinham resolvido, na Índia e para si, o problema de comer o ovo de Colombo. Esta história, em aparência tão simples, encerra um ensinamento que todo o comerciante, que o não seja simplesmente por brincar às vendas, devia tomar a peito, compreender na sua essência. Um comerciante, qualquer que seja, não é mais que um servidor do público, ou de um público; e recebe uma paga, a que chama o seu “lucro”, pela prestação desse serviço. Ora toda a gente que serve deve, parece-nos, buscar agradar a quem serve. Para isso é preciso estudar a quem se serve — mas estudá-lo sem preconceitos nem antecipações; partindo, não do princípio de que os outros pensam como nós, ou devem pensar como nós —porque em geral não pensam como nós —, mas do princípio de que, se queremos servir os outros (para lucrar com isso ou não), nós é que devemos pensar como eles: o que temos que ver é como é que eles efectivamente pensam, e não como é que nos seria agradável ou conveniente que eles pensassem. Nada revela mais uma incapacidade fundamental para o exercício do comércio que o hábito de concluir o que os outros querem sem estudar os outros, fechando-nos no gabinete da nossa própria cabeça, e esquecendo que os olhos e os ouvidos — os sentidos, enfim — é que fornecem os elementos que o nosso cérebro há-de elaborar, para com essa elaboração formar a nossa experiência. O estudo do público, isto é dos mercados, é de três ordens — económico, psicológico e propriamente social. Isto é, para entrar num mercado, seja doméstico ou estranho, é preciso: 1) saber as condições de aceitação económica do artigo, e aquelas em que trabalha, e em que oferece, a concorrência; 2) conhecer a índole dos compradores, para, à parte questões de preço, saber qual a melhor forma de apresentar, de distribuir e de reclamar o artigo; 3) averiguar quais as circunstâncias especiais, se as houver, que, de ordem profunda e social ou política, ou superficial e de moda ou de momento, obrigam a determinadas correcções no resultado dos dois estudos anteriores. É espantoso — não: é pavoroso — o número de comerciantes que cotam para um mercado, estrangeiro e até nacional, espontaneamente ou solicitados, sem averiguar se não estarão cotando um preço que seja um disparate de tal ordem que os desqualifique intelectualmente — e a desqualificação intelectual é por vezes pior que a moral — no espírito dos que recebem a oferta. Quando um comerciante, que use a cabeça para fins mais interiores que a colocação do chapéu, verifica que lhe é impossível cotar convenientemente para certo mercado, deve responder a um pedido de cotação que, dadas estas ou aquelas circunstâncias, não pode cotar nesse momento; ou que oferece a um preço mais alto que o do mercado (mas mostre que conhece o preço do mercado), porém que o artigo, se é mais caro, é porque é melhor; ou que, por não ter nesse momento disponível senão um tipo desse artigo, não pode cotar senão em determinadas condições. A maioria dos comerciantes — sim, infelizmente, a maioria! —não faz isto, nem nada que disto se aproxime. Cota um preço, porque esse preço lhe dará certo lucro e não olha a mais. Não lhe passa pela cabeça, sequer, que é preciso, às vezes, não cotar com lucro, sendo essa ausência de lucro uma autêntica despesa de publicidade. E porque não lhe passa isto pela cabeça? Porque vive só no presente e tem casa comercial sem amanhã. Porque não pensa que, mesmo quando se não possa cotar convenientemente, se deve atrair convenientemente; e que a demonstração de inteligência e de estudo das conveniências e necessidades alheias é \ uma demonstração da posição sobre os ombros de uma cabeça que contém miolos. O estudo psicológico do mercado é também importante, mas, ao passo que o seu estudo económico é essencial e fundamental em qualquer género de comércio, é o comércio de retalho e as formas do outro comércio (de origem directamente industrial) que com ele tem semelhança, que mais têm que atender a este elemento. A maneira de fabricar, de apresentar, de distribuir e de reclamar um artigo varia conforme a índole geral dos indivíduos que compõem o mercado onde se pretende vendê-lo. Num meio de gente educada as condições são diferentes, para todos estes casos, do que num meio de analfabetos. Um meio provinciano — educado ou não — tem uma psicologia distinta da de um meio de cidade. O modo de encarar a vida, ou, pelo menos, certos aspectos da vida, varia de país para país, de região para região. A humanidade, sem dúvida, é a mesma em toda a parte. Sucede, porém, que em toda a parte é diferente. É a mesma nas coisas essenciais, nos sentimentos fundamentais; mas, as mais das vezes, não são as coisas realmente essenciais que ela tem por essenciais, nem os sentimentos fundamentais que a preocupam como fundamentais. Em todos os tempos, em todas as terras, é o local, o superficial, o ocasional, o que mais tem preocupado a humanidade. Ora, é ao que mais preocupa a humanidade e constitui portanto as suas necessidades, que o comércio essencialmente se dirige. E é por isso que o comerciante, que deveras o seja, tem para consigo mesmo o dever de estudar psicologicamente, e um a um, os agrupamentos humanos a que destina os seus artigos. O estudo propriamente social do meio é aparentado com o seu estudo psicológico, mas, ao mesmo tempo, distinto dele. O estudo psicológico tem por objecto a mentalidade típica dos componentes de um determinado meio comerciável; o estudo propriamente social tem por objecto os hábitos puramente exteriores, as convenções, permanentes ou de acaso (e a estas últimas chama-se modas), e os caprichos incaracterísticos desses mesmos indivíduos. É claro que esses hábitos e essas convenções formam parte da índole dessa gente; mas é uma parte “externa”, que não pode ser adivinhada através de um estudo cuidadoso dos indivíduos, mas tem que ser conhecida, mais propriamente, através do estudo do meio em que eles vivem, considerado como destacado deles. Suponhamos que temos que introduzir determinado artigo na Itália. Nem para todos os artigos se dará — mas sem dúvida haverá alguns para cuja colocação importe considerar (à parte as circunstâncias económicas, de que não estamos agora tratando) o italiano como italiano; o italiano como romano, veneziano, genovês, etc.; o italiano como governado pelo regime fascista; o italiano como crescentemente detestador da França; e assim indefinida, mas, ao mesmo tempo, muito definidamente. Um industrial que inventasse e produzisse um tipo de whisky novo, bom e barato, teria um mercado certo nas Ilhas Britânicas; mas, se tivesse a lembrança de ornar as garrafas desse líquido de um rótulo com a bandeira daquele império, não deveria admirar-se de ver a maioria dos habitantes do Estado Livre da Irlanda impor-se o horroroso sacrifício de o não beber. O produto estava psicologicamente certo para esse meio, mas estava “socialmente” errado. Parece-nos que assim transmitimos claramente ao leitor a ideia da distinção entre o critério psicológico e o, por assim dizer, sociológico no estudo comercial dos mercados. Em resumo: o comerciante é um servidor do público, tem que estudar esse público, e as diferenças de público para público se o artigo que vende ou explora não é limitado a um mercado só.O comerciante não pode ter opiniões como comerciante nem deve fazer comercialmente qualquer coisa que leve a crer que as tem. Um comerciante português que faça um rótulo encarnado e verde, ou azul e branco, comete um erro comercial: quem segue a política das cores do rótulo não lhe compra o produto por isso, e quem segue a política oposta deixa muitas vezes de o comprar. Por um lado não ganha, por outro perde. Mais incisívamente ainda: o comerciante não tem personalidade, tem comércio; a sua personalidade deve estar subordinada, como comerciante, ao seu comércio; e o seu comércio está fatalmente subordinado ao seu mercado, isto é, ao público que o fará comércio e não brincadeira de crianças com escritório e escrita. 25-1-1926 Páginas de Pensamento Político. Vol II. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986. - 141. 1ª Publ. in Revista de Comércio e Contabilidade , nº 1. Lisboa: 25-1-1926. Quinto Império As interpretações desta profecia têm sido em número quase incontável. Umas assentam no critério de que os cinco impérios são impérios materiais, outras de que são impérios espirituais outras ainda em que são impérios num sentido translato e figurado. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 95. II Me, Chloe, a maid, the mighty fates have given, Who was nought to them, to the peopled shades. Thus the gods will. My years were but twice seven. I am forgotten in my distant glades. 1920 «Inscriptions». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 116. 1ª ed. in English Poems I-II . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Considerações pós-revolucionárias Radicais portugueses: duas espécies: a de M[achado] Santos, que estão com Bruno, B[asílio] Teles e outros; e os que evoluíram para ter por chefe A[fonso] Costa, mas realmente e inconscientemente militam sob o comando de Paiva. Couceiro. Estes últimos, que incluem a ralé da revolução e os carbonários que se não bateram (...). São um grupo de todo nefasto. A Oligarquia das Bestas. A Pamphlet against an [...], against A[fonso] C[osta], etc. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 32. O conceito de “quinto império” é antigo na profética cristã e pré-cristã, entendendo por “pré-cristã” a hebraica, isto é, a daquele povo que foi especialmente pré-cristão em ser, em grande parte, origem do mesmo cristianismo. No esquema profético, em que este conceito aparece, determina-se a existência de cinco impérios até àquilo a que simbolicamente os profetas chamam “o fim do mundo” — expressão esta que eles porventura sentem como sendo efectivamente o “fim do mundo”, mas que deve entender-se como significando o fim do que para eles é o “mundo”, isto é, o fim do conceito que têm do mundo, ou, esclarecendo melhor, o fim do ciclo psíquico — ordinariamente um ciclo religioso — a que pertencem e em que pensam. Convém notar bem este sentido profético da expressão, tantas vezes empregada, o “fim do mundo”, ou “o fim da coisas”. Usada por um cristão, serve ela instintivamente de designar o fim da religião cristã; como, porém, uma mentalidade religiosa não concebe, de instinto ou de inteligência, o fim da sua religião — que seria o fim da Verdade, o que é impensável —, o que aparece na sua visão profética como o fim dessa religião, imediatamente se lhe desenha no espírito como o fim do mesmo mundo, a dissolução das coisas, a morte do universo — a tal ponto, e tão naturalmente, confundimos o universo real com o nosso conceito dele. Quando, por isso, o católico Nostradamo profetiza para o fim do século vinte o “fim das coisas” entendemo-lo como prevendo para esse tempo, não o acabamento da terra, ou a extinção da matéria universal, mas tão-somente o fim ou da religião cristã, ou, pelo menos, da sua forma católica, se não for apenas o da forma romana do catolicismo. Tudo isto, aliás, adiante estudaremos e examinaremos com maior cuidado. s.d. Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 92. III From my villa on the hill I long looked down Upon the muttering town; Then one day drew (life sight-sick, dull hope shed) My toga o'er my head (The simplest gesture being the greatest thing) Like a raised wing. 1920 «Inscriptions». in Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 116. 1ª ed. in English Poems I-II . Fernando Pessoa. Lisbon: Olisipo, 1921. Considerações pós-revolucionárias Corrente definida, por enquanto, dentro do partido republicano há uma apenas a do talassismo republicano. O resto do partido mantém-se indeciso e perturbado perante ela. A palavra talassa ficou, da célebre mensagem do Brasil, para designar primeiro um indivíduo membro do partido franquista, logo em seguida estendeu-se a sua significação para a de um monárquico ferrenho, estúpido, sectário e feroz. Vamos estender ainda mais o uso do termo, porque o seu sentido pejorativo a isso nos convida; vamos chamar talassismo ao estado de espírito caracterizado pelo sectarismo puro — isto é, pelo estúpido apego a uma doutrina estupidamente compreendida. A ferocidade contra os inimigos, a ganância, o egoísmo hediondo, a vaidade [...] são coisas que o mais leigo em saber o que é o sectarismo estúpido deduzirá do mero termo como necessariamente características daqueles a quem o termo se aplica. Quem leu os jornais talassas encontrou neles estes (...): ódio latente e feroz, dedicação absoluta a certos indivíduos em geral e a um especialmente, inteira falta de generosidade para com os adversários, ignorância profunda, inclemência [?] ignóbil quando na oposição, altivez [...] e idiota quando no poder. Estas características, porém, tão distintivas são de o Mundo como do antigo Diário [...] e mais recente Correio da Manhã. Se não citamos é porque ao leitor basta para exemplo um qualquer número de qualquer dos 2 jornais. A única diferença está na política e nos ídolos. Para uns, Franco, Vasconcellos Porto, (...); para outros, Afonso Costa, Alexandre Braga, (...) O modo de ser psicológico é idêntico em absoluto. É perfeita, é quase absoluta, a identidade entre João Franco e Afonso Costa. Em ambos, quanto a inteligência, a mesma incapacidade para altas empresas intelectuais, a mesma impossibilidade de abarcar ideias abstractas, (...) Resta a diferença de opiniões. Por alguma razão iria Franco para a extrema direita da reacção e Afonso Costa para a república. É a diferença [?] de equilíbrio mental: o equilibrado vai para a corrente sã, instintivamente; o desequilibrado, sem saber porquê, para a corrente doentia. Por temperamento, assim foi. Nenhum republicano da situação [?] Afonso Costa pode chamar talassa, a não ser que o chame a si mesmo. s.d. Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 33.