SONHO Sonhei esta existência de venturas, Sonhei que o mundo era só d'amor, Não pensei que havia amarguras E que no coração habita a dor. Sonhei que m'afagavam as ternuras De leda vida e que jamais palor Marcou na face humana as desventuras Que a lei de Deus impôs com rigor. Sonhei tudo azul e cor-de-rosa E a sorte ostentando-se furiosa Rasgou o sonho formoso que tive; Sonhando sempre eu não tinha sonhado Que n'esta vida sonha-se acordado, Que n'este mundo a sonhar se vive! 24-5-1902 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 106. 1ª publ.: «Fernando Pessoa: a sua estreia aos 14 anos e outras poesias de 1902 a 1905». Pedro da Silveira. In Revista da Biblioteca Nacional , série 2, vol. 3, nº 3. Lisboa: Set.-Dez. 1988. METEMPSICOSE Quando a vi o outro dia longe passeando, Formosa como nunca, a sua formosura Traduziu-se em minh'alma em mística ternura, Tirou da minha mente o que era vil, nefando. Eu senti que m'estava logo dominando Aquel' celeste olhar de suprema candura E que d'esta minh'alma a noite sempre escura Se tomou como o dia com o sol brilhando! Aquele olhar tirou as ideias fatais Da pobre minha mente que agora fremita Sob impulsos mais puros, ardentes, leais; E se só pelo bem meu coração palpita, Se sonha minha mente sonhos ideais, É a sua alma pura que em minha alma habita!! 5-7-1902 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 107. 1ª publ.: ref. (1) GALERIA PORTUGUESA 1 - No Comboio Eu e ela, sentados lado a lado, N'um comboio que andava a toda a pressa, A olhar-me d'alto a baixo ela começa Com o seu olhar sério, recatado. Mas defronte de nós vinha sentado Um cónego que lê muito depressa Um breviário, ou coisa assim como essa, Sem os olhos d'aí ter desviado Quando saiu gritei logo: Bendito! Parte logo o comboio e fica a bela Sozinha, e com o seu olhar maldito... «Pra onde vai», digo eu, «linda donzela?» Responde ela n'um tom muito esquisito: «Eu vou todos os dias p'ra Palmela! » 5-7-1902 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 108. 1ª publ.: ref. (1) GALERIA AFRICANA 1. Mulher Universal O seu rosto repleto de meiguice Inda contém os rastos de bexiga, Quer que eu guarde segredo e que não diga O que eu a todos digo e sempre disse: - É alourada como esbelta «miss», Dos franceses costumes é amiga, E quer que assim como ela tudo siga Das lindas gaditanas a doidice... Leitor, aos seus encantos seja cego, Ante seus olhos seja forte - adeus! - Se cede à fala que ela tem di lá. Que é bonita, leitor, eu não te nego, Mas quando ri (louvado seja Deus) Parece estar tocando um fungágá !!… 5-7-1902 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 109. 1ª publ.: ref. (1) FALAR E ESCREVER Ao Caturra Júnior Depois de trabalho vário Ando triste como vê. Não entendo o dicionário, Não conheço o abecedário, Caturra! O que fez você! Falar é com um só L (Agora não foge a burra) Ora é isto que m'impele A beber o amargo fel Das tolices do Caturra. Cedilha-se agora o C Antes de i, e (e mais nada) Ando triste como vê Caturra! O que fez você! Alma do diabo - danada! Tu mandas p'rá Grécia o K; -  Kágado - vamos a ver, -  Cágado - escreve-se lá Na oficina de cá Do Caturra -  pode crer! O acento digo aqui Mudas sempre (como o vento) A palavra acima ali Está mesmo a calhar p'ra ti Se lhe mudas o acento! Escreve lá à tua moda Na minha eu hei-de ficar; Não m'importo com a roda Quem está bem deixa-se estar! 24-5-1902 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 110. 1ª publ.: ref. (1) EPIGRAMA O poeta Brás Ferreira Discute co'o primo Bento Se cágado tem o acento Na segunda ou na primeira. Grita-lhe a mulher, «Ó Brás, Acaba co'a discussão; É bem fácil a questão: O assento está sempre atrás.» 17-9-1905 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 181. DESAPONTAMENTO Era uma linda tarde de abril, domingo. Mas ainda mais lindo era o pensamento que eu havia de ver a Raquel. Ela costumava passar por ali todos os dias, mas só aos domingos é que eu a podia ver, pois nos dias de semana estava àquela hora na repartição... Mas ia vê-la hoje e só pensar n'isso me alegrava. Todo o homem que ama sabe que não há nada superior ao amor... Mas custa esperar e já tinha decorrido uma hora... duas, três, quatro.... apre que já se ia fazendo tarde! Já era uma noite de abril e a modo que se tendia fazer n'um outro dia d'abril sem chegar a Raquel. Estava já disposto a me ir embora, mas o amor bradou-me - «espera»... e esperei. Até que enfim! Oiço passos do outro lado da esquina... apresso-me... corro... volto a esquina e caio nos braços de... um cauteleiro!!! «Ah meu senhor! há só o mil quinhentos e cinquenta e quatro - e amanhã é que anda a ro-oda!» Desapontamento! Desilusão! Mas para fazer alguma coisa comprei o vigésimo e segui para casa. No dia seguinte saía-me a sorte grande! Ah! foi a Divina Providência! Sim foi a Providência! Sim foi a Providência que deu aquela intermitente à Raquel e me mandou o cauteleiro em seu lugar!! Ah! Deus é bom! Enganei-me há pouco, meus amigos. Há uma coisa superior ao amor: - É ... a massa !!! 22-3-1902 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 112. Theodoro Luciano - Os seus versos são muito bonitos, mas são só para Carnaval. Basta tomar os primeiros versos de um dos sonetos: Em branca cama estava recostada Quando eu a vi linda, bela, formosa Com a bran ca ca melia ou a rosa... T'arrenego, diabo! Credo em Cruz! etc. etc. 1.º - Leia as sílabas sublinhadas e diga se isso é coisa que se ponha em letra redonda. 2.º - Queria saber a diferença entre linda, bela e formosa? 3.º - Já viu decassílabos com 8 sílabas como é o seu terceiro verso? 4.º - Também eu queria saber se a camélia está vestida? E se ela estava assim? Provado pois que são versos de Carnaval. 5-7-1902 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 113. Ilustríssimo Senhor M[ui ] to digno director D'este jornal - «O Pimpão»: Nas charadas um novato Vem fazer, não sem recato, A sua apresentação. Ao amável director Um presente eu desejara Vos trazer, ou prenda rara D'alguma casa estrangeira, Do que esta pobre charada Detestável - frioleira. Antes de na faina entrar Eu, logo, ao apresentar Esta maçada sem cor, No verso pedir queria Protecção e simpatia Ao amável director. Esperando uma audiência Favorável, e apegado Aos termos que uso pôr, Eu sou de Vossa Excelência Criado muito obrigado E atento venerador s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 114. Para música (Fragmento) QUANDO ELA PASSA Quando eu me sento à janela P'los vidros qu'a neve embaça Vejo a doce imagem d'ela Quando passa... passa.… passa... N'esta escuridão tristonha Duma travessa sombria Quando aparece risonha Brilha mais qu'a luz do dia. Quando está noite ceifada E contemplo imagem sua Que rompe a treva fechada Como um reflexo da lua, Penso ver o seu semblante Com funda melancolia Qu'o lábio embriagante Não conheceu a alegria E vejo curvado à dor Todo o seu primeiro encanto Comunica-mo o palor As faces, aos olhos pranto. Todos os dias passava Por aquela estreita rua E o palor que m'aterrava Cada vez mais s'acentua Um dia já não passou O outro também já não A sua ausência cavou Ferida no meu coração Na manhã do outro dia Com o olhar amortecido Fúnebre cortejo via E o coração dolorido Lançou-me em pesar profundo Lançou-me a mágoa seu véu: Menos um ser n'este mundo E mais um anjo no céu. Depois o carro funério Esse carro d'amargura Entrou lá no cemitério Eis ali a sepultura: Epitáfio. Cristãos! Aqui jaz no pó da sepultura Uma jovem filha da melancolia O seu viver foi repleto d'amargura Seu rir foi pranto, dor sua alegria. Quando eu me sento à janela P'los vidros qu'a neve embaça Julgo ver imagem dela Que já não passa... não passa. 15-5-1902 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 105.