Não há maior tragédia do que a igual intensidade, na mesma alma ou no mesmo homem, do sentimento intelectual e do sentimento moral. Para que um homem seja distintivamente e absolutamente moral, tem que ser um pouco estúpido. Para que um homem possa ser absolutamente intelectual, tem que ser um pouco imoral. Não sei que jogo ou ironia das coisas condena o homem à impossibilidade desta dualidade em grande. Por meu mal, ela dá-se em mim. Não foi o excesso de uma qualidade, mas o excesso de duas, que me matou para a vida. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 45. 1ª publ. in Obra Poética . Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Galhoz.). Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960 Meu orgulho, porém, nunca sofreu que eu me permitisse menos que o que a minha inteligência poderia fazer. Nunca pude conceder a mim mesmo a autorização para o meio termo, para qualquer coisa menos na obra que a minha personalidade inteira e o meu desejo todo (e a minha ambição toda). Se eu houvesse reconhecido na minha inteligência uma incapacidade para a obra sintética, teria sofreado o meu orgulho, reconhecendo-o por loucura. Mas a deficiência não esteve nunca na minha inteligência capaz sempre de grandes sínteses e de poderosas sistematizações. O meu mal estava na tibieza da vontade ante o esforço medonho que essas inteirezas envolviam. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 45. 1ª publ. in Obra Poética . Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Galhoz.). Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960 O escrúpulo é a morte da acção. Pensar na sensibilidade alheia é estar certo de não agir. Não há acção, por pequena que seja — e quanto mais importante, mais isso é certo — que não fira outra alma, que não magoe alguém, que não contenha elementos de que, se tivermos coração, nos não tenhamos que arrepender. Muitas vezes tenho pensado que a filosofia real do eremita estará antes na esquivar-se a ser hostil, pelo simples facto de viver, do que em qualquer pensamento directamente relacionado com o isolar-se. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 46. 1ª publ. in Obra Poética . Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Galhoz.). Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960. O ascetismo involuntário e débil (frouxo) das naturezas em quem a inteligência é como uma circulação do sangue, uma condição fundamental, uma base orgânica, da vida. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 46. 1ª publ. in Obra Poética . Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Galhoz.). Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960 Entre o asceta e o homem vulgar não reconheço, na esfera da dignidade da alma, uso intermédio ou médio termo. Quem usa que use, quem abdica que abdique. Use com a brutalidade do uso; abdique com a absoluteza da abdicação. Abdique sem lágrimas, sem consolações de si mesmo, senhor ao menos da força de saber abdicar. Despreze-se, sim, mas com dignidade. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 46. 1ª publ. in Obra Poética . Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Galhoz.). Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960 Quantas coisas, que temos por certas ou justas, não são mais que os vestígios dos nossos sonhos, o sonambulismo da nossa incompreensão! Sabe acaso alguém o que é certo ou justo? Quantas coisas, que temos por belas, não são mais que o uso da época, a ficção do lugar e da hora! Quantas coisas, que temos por nossas, não são mais que aquilo de que somos perfeitos espelhos, ou invólucros transparentes, alheios no sangue à raça da sua natureza! Quanto mais medito na capacidade que temos de nos enganar, mais se me esvai entre os dedos lassos a areia fina das certezas desfeitas. E todo o mundo me surge, em momentos em que a meditação se me torna um sofrimento, e com isso a mente se me obnubila, como uma névoa feita de sombra, um crepúsculo dos ângulos e das arestas, uma ficção do interlúdio, uma demora da antemanhã. Tudo se me transforma em um absoluto morto de ele mesmo, numa estagnação de pormenores. E os mesmos sentidos, com que transfiro a meditação para esquecê-la, são uma espécie de sono, qualquer coisa de remoto e de sequaz, interstício, diferença, acaso das sombras e da confusão. Nesses momentos, em que compreenderia os ascetas e os retirados, se houvesse em mim poder de compreender os que se empenham em qualquer esforço com fins absolutos, ou em qualquer crença capaz de produzir um esforço, eu criaria, se pudesse, toda uma estética da desconsolação, uma rítmica íntima de balada de berço, coada pelas ternuras da noite em grandes afastamentos de outros lares. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 46. 1ª publ. in Obra Poética . Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Galhoz.). Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960 Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou a suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era um que via uma coisa e outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exactamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 47. Bernardo Soares? 1ª publ. in Obra Poética . Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Galhoz.). Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960. O que particularmente me indignava contra mim, nestes momentos de dúvida dolorosa, em que eu sabia de muito antes que a solução seria nenhuma, era a intromissão do factor social no jogo desequilibrado das minhas decisões. Nunca pude dominar o influxo da hereditariedade e da educação infantil. Pude sempre repugnar os conceitos estéreis de fidalguia e de posição social nunca os pude esquecer. São em mim como uma cobardia, que detesto, contra a qual me revolto, mas que me prende com laços estranhos à inteligência e à vontade. Tive um dia a ocasião de casar, porventura de ser feliz, com uma rapariga muito simples, mas entre mim e ela ergueram-se-me na indecisão da alma catorze gerações de barões, a visão da vila sorridente do meu casamento, o sarcasmo dos amigos nunca íntimos, um vasto desconforto feito de mesquinhezas, mas de tantas mesquinhezas que me pesava como a comissão de um crime. E assim eu, o homem de inteligência e de desprendimento, perdia a felicidade por causa dos vizinhos que desprezo. O modo como vestiria, as maneiras que teria, como receberia em minha casa, onde porventura eu não tivesse que receber alguém, quantas deselegâncias de frase ou de atitude a sua ternura me não pudesse fazer esquecer nem a sua dedicação velar — tudo isso se me erguia como um espectro de coisas sérias, como se fosse um argumento, nas vigílias em que me debatia para o desejo de a ter na vasta rede de impossibilidade que sempre me entaramelou. Lembro-me ainda, com uma precisão em que intercala o perfume vago do ar da Primavera, da tarde em que, meditando todas estas coisas, decidi abdicar do amor como de um problema insolúvel. Era em Maio — num Maio de verão suave, florido pelas pequenas extensões da quinta em várias cores esbatidas pela queda lenta da tarde começada. Eu passeava remorsos de mim entre os meus poucos arvoredos. Havia jantado cedo, e seguia, sozinho como um símbolo, sob as sombras inúteis e o sussurro lento das ramagens vagas. Tomou-me de repente um desejo de abdicação intensa, de claustro firme e último, uma repugnância de ter tido tantos desejos, tantas esperanças, com tanta facilidade externa de os realizar, e tanta impossibilidade íntima de o poder querer. Data dessa hora suave e triste o princípio do meu suicídio. s.d. Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 47. «Daphnis e Cloé» 1ª publ. in Obra Poética . Fernando Pessoa. (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Galhoz.). Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960 Nunca pude convencer-me de que podia, ou de que alguém seguramente poderia, dar alívio certo ou profundo, e muito menos cura, aos males humanos. Mas nunca, também, pude tirar deles o pensamento; a mais pequena angústia humana - mais, a mais leve imaginação dela - sempre me angustiou, me transtornou, me tirou do poder de me concentrar e de me egoizar. O convencimento da futilidade de toda a terapêutica para a alma deveria, por certo, erguer-me a um píncaro de indiferença, entre o qual e as agitações da terra velassem tudo as nuvens daquele mesmo convencimento. O pensamento, porém, poderoso como é, nada pode contra a rebeldia da emoção. Não podemos não sentir, como podemos não andar. Assim assisto, e assisti sempre, desde que me lembro de sentir com as emoções mais nobres, à dor, à injustiça e à miséria que há no mundo do mesmo modo que assistiria um paralítico ao afogamento de um homem que ninguém ainda que válido, poderia salvar. A dor alheia tornou-se em mim mais do que uma só dor - a de a ver, a de a ver irreparável, e a de saber que o conhecê-la irreparável me empobrece até da nobreza inútil de querer ter os gestos de a reparar. A minha falta de impulso foi sempre, afinal, a fonte da origem destes males todos - o não saber querer antes de pensar, o não saber entregar-me, o não saber decidir do único modo como se decide - com a decisão, que não com o conhecimento - , burro de Buridan morrendo na bissectriz matemática da água da emoção e da palha do esforço, podendo, se não pensasse, morrer sim, porém não de fome nem de sede. Tudo, quanto penso ou sinto, inevitavelmente se me volve em modos de inércia. O pensamento, que em outros é uma bússola da acção, é para mim um microscópio dela, que me faz ver universos a atravessar onde um passo bastara para transpor - como se o argumento de Zenão, da intransponibilidade de cada espaço, que, por ser infinitamente divisível, é pois infinito, fosse uma droga estranha com que me houvessem intoxicado o organismo espiritual. E o sentimento, que em outros se introduz na vontade como a mão na luva, ou a mão nos copos da espada, foi sempre em mim uma outra maneira de pensar - fútil como uma raiva com que trememos até nos não podermos mexer, espécie de pânico da exaltação que, como o pânico, deixa colado ao chão o medroso a quem o mesmo medo deveria fazer fugir. Toda a minha vida tem sido uma batalha perdida no mapa; a cobardia nem sequer foi no campo, onde talvez a não houvesse, mas no gabinete do chefe do Estado Maior, e de ele a sós com a sua convicção da derrota. Não se ousou o plano porque haveria de ser imperfeito; não se ousou torná-lo perfeito, ainda que não pudesse realmente sê-lo, porque a convicção de que não seria perfeito quebrou a vontade com que ele, ainda que imperfeito, sempre se poderia tentar. Nem me ocorreu nunca que o plano, embora imperfeito, poderia ser mais perfeito que o do inimigo. É que o meu vero inimigo, vitorioso contra mim desde Deus, era aquela mesma ideia de perfeição, que me saía à frente antes que todas as hostes do mundo, na vanguarda trágica de todos os comandos do mundo. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 197. «A Educação do Estóico» Nunca tive saudades, porque nunca tive de que as ter e fui sempre racional em meus sentimentos. Como nada fiz da minha vida, não tenho de que recordar-me com saudade; pude ter esperanças, porque o que não existe pode ser tudo; hoje nem tenho esperanças, porque não vejo razão porque o futuro seja differente do passado. Há quem tenha saudades do passado, só por ele ter passado, e a quem até o mal que foi parece um bem, por isso mesmo que foi e com ele o que éramos quando nos sucedeu. Nunca pude dar tanta importância à mera abstracção do tempo, que houvesse de ter pena do meu passado só por não poder tornar a tê-lo, ou só por então ser mais jovem do que hoje sou. E esse modo de ter pena do passado, qualquer, ainda que nulo, o pode ter; e repudio o que seja de todos. Nunca tive saudades. Não há época da minha vida que eu não recorde com dissabor. Em todas fui o mesmo - o que perdeu o jogo ou desmereceu do pouco da vitória. Tive, sim, esperanças, porque tudo é ter esperanças ou é morte. O esforço cada vez mais difícil, a esperança cada vez mais tarda, a dissemelhança entre o que sou e o que supuz que poderia ser cada vez mais acentuada na noite da minha futilidade severa. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 198. «A Educação do Estóico» A primeira noção clara que tive deste meu terrível desinteresse por mim mesmo e por o que antigamente considerara mais meu, foi quando um dia, estando longe de casa, ouvi um rebate de fogo que me pareceu na freguesia. Ocorreu-me que fosse em minha casa, onde, aliás, não fora. E, ao passo que, antigamente, um pavor de se poderem perder meus manuscritos me haveria tomado toda a alma, notei, com pasmo duplo, que a possibilidade de o fogo ser em minha casa me deixara indiferente, quase feliz na ideia de que, destruídos esses manuscritos, se me simplificaria a vida. Antigamente, a perda dos meus manuscritos, de toda a obra fragmentária mas cuidada da minha vida, reduzir-me-ia à loucura; já agora a contemplava como um incidente casual do meu destino, não como um golpe mortal que aniquilasse, por lhe aniquilar as manifestações, a minha própria personalidade. Comecei então a compreender como por fim cansa de tudo o esforço contínuo da perfeição inatingível, e compreendi os grandes místicos e os grandes ascetas, que reconhecem na alma a futilidade da vida. Que iria de mim naqueles papéis escritos? Antes, eu diria «tudo»; hoje diria, ou «nada», ou «pouco», ou «uma coisa estranha». Tornara-me objectivo para mim mesmo. Mas não podia distinguir se com isso me achara ou me perdera. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 199. «A Educação do Estóico» Seria o fogo em minha casa? Corriam risco de arder todos os meus manuscritos, toda a expressão de toda a minha vida? Sempre que esta ideia, antigamente, simplesmente me ocorrera, um pavor enorme me fazia estarrecer. E agora reparei de repente, não sei já se com pasmo se sem pasmo, não sei dizer se com pavor ou não, que me não importaria que ardessem. Que fonte - que fonte secreta mas tão minha - se me havia secado na alma? Reparei então que tantos anos de cansaço estéril haviam transportado até ao íntimo da minha alma um cansaço estéril e profundo. Eu adormecera, e comigo haviam adormecido todos os privilégios da minha alma - os desejos que sonham alto, as emoções que sonham forte, as angústias que sonham ao invés. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 199. «A Educação do Estóico» A conduta racional da vida é impossível. A inteligência não dá regra. E então compreendi o que talvez está oculto no mito da Queda: bateu-me no olhar da alma, como um relâmpago batera no do corpo, o terrível e verdadeiro sentido daquela tentação, pela qual Adão comera da Árvore dita da Ciência. Desde que existe inteligência, toda a vida é impossível. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 200. «A Educação do Estóico» Atingi à saciedade do nada, à plenitude de coisa nenhuma. O que me levará ao suicídio é um impulso como o que leva a deitar cedo. Tenho um sono íntimo de todas as intenções. Nada pode já transformar a minha vida. Se... se... Sim, mas se é sempre uma coisa que não aconteceu; e, se não aconteceu, para quê supor o que seria se ela fosse? s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 201. «A Educação do Estóico» Viu-a desaparecer com mágoa, com rancor, com humilhação, mas também com um grande alívio, um repouso fundo da respiração da alma, por fim restituída a si mesma. E sentiu, com todo o subtil da intuição, que ela deveria estar sentindo isso mesmo agora, mas deveria estar sorrindo um pouco mais... E sentiu ainda, como um post-scriptum da análise, a onda de pena dele - maternal e de pessoa crescida - que haveria de completar na alma dela a meditação com que olharia distraidamente a curva nítida do Tejo pelas alturas de Carcavelos. E viu fotograficamente, através dos olhos supostos dela, erguer-se, à beira das ondas, amarelo e baixo, o forte pequeno que não serve para nada. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 202. «Daphne e Chloe». 1ª publ. in Obra Poética . Fernando Pessoa (Organização, introdução e notas de Maria Aliete Dores Galhoz.) Rio de Janeiro: Ed. José Aguilar, 1960. Verificou, sem mágoa quase, que as coisas haviam corrido paralelas à vida, não com ela; que haveriam pois forçosamente que ser fúteis, como tudo quanto é grande e muito que é pequeno. Teve a sensação estranha de que lhe sucedera uma coisa descritível somente em termos absurdos - não sabia se a descrever como um ganho ou uma perda, nem em que era ganho ou perda, fosse qual fosse realmente. Mas uma impressão lhe ficava, e era a mais absurda de todas: de que, com este incidente, perdera experiência, coisa quase inconcebível se não fosse que a realidade a fazia poder-se conceber. Depois, confessar-se não é necessariamente dar-se; é dar só parte de si, e que parte nunca se sabe ao certo. Confessar-se não é muitas vezes mais que evitar dar-se. Como se canta para não falar e se fala para não pensar, confessa-se para se não sentir. Tudo isto era possível, provável, até certo. Sentiu a grande humilhação de ter sido estimado à laia de amor. A própria troça fora melhor, porque a troça fora da mulher, mas a estima era da natureza através dela. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 203. «Daphne e Chloe». (…) e aquele tempo perdido em analisar o que nunca se chegou a passar, a medir os precisos termos de relações que nunca se dariam. Fora um capricho, não do temperamento, mas da simples imaginação. Cada um fora um sonho para o outro, uma espécie de trampolim para saltar dentro de si mesmo de um esquema de emoções para outro esquema de emoções, de uma possibilidade para outra possibilidade. Aquela banalidade de vida é que era a realidade da vida dela; aquela impossibilidade de fazer mais que sonhar é que era a certeza dele. O que ela manifestara para com ele fora apenas um sonho em voz alta, e o que ele manifestara para ela uma possibilidade em voz baixa. As vozes harmonizavam-se pela própria desarmonia. Aquele homem forte e estreito, (...) esse é que era o homem dela; ele, Carlos, era apenas o artista dela. E lembrou-lhe a frase de um amigo seu, a quem alguém repreendera o não reparar numa mulher lindíssima com a frase «O sr. não é um homem?», e a resposta, «Não senhor: sou um artista». Julgou que o quadro analítico se completaria por fora com o fumo do comboio afastando-se; por isso virou-se para trás de repente e alongou o olhar pela distância em direcção a Lisboa. Mas lembrou-se de que se tinha esquecido de que a linha estava electrificada. As influências da cultura são muito maiores do que se julga. Amamos em parte com o instinto sexual, em parte com a atracção emotiva, mas também, e em grande parte, com vários versos de vários poetas, certos quadros, memórias de trechos musicais, e abundantes citações de romancistas. Os rapazes que lêem contos policiais e querem ser polícias amadores no bairro não diferem dos que lerem Madame Bovary in anima vili. Mas a maioria das vezes o momento está fora de lugar ou o lugar longe do momento. O homem certo está errado, ou não aproveita o que lhe dão quando lhe não disseram que lho davam, e por isso mesmo. No fundo, os maridos têm muita sorte, e as mulheres sérias grandes defesas nas contingências do Destino. E aquele elemento de banalidade, de estupidez mesmo, que oferece obstáculo permanente à própria imaginação, e prende curtos os animais do íntimo desejo, à porta de casa das coisas que se não revelam? E aquele amor a um conforto da superfície da alma? E aquele uso do mesmo homem, aceite como uma maçada sossegada e, por usual, cómoda - o marido parte da vida como o arranjo da cozinha, o passajar de roupa ou o tratar das crianças?... s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 204. «Daphne e Chloe». Depois - reparou - a própria inteligência, que ela sem dúvida tinha, produz um espírito de justiça e de lealdade... E trair aquele homem simples, sem interesse mas digno de amizade, seria para ela uma coisa quase criminal, uma coisa indigna não da pessoa dela, mas da sua inteligência. Era coisa possível só com a imaginação, mas ficando na imaginação. As mesmas qualidades de clareza de inteligência, que a levavam a devanear para longe daquele marido real, a levavam a respeitar, não a ele, mas a sua relação com ele. O homem banal vencia porque era banal. Poderia, sim, acontecer que um amor violento arrastasse aquela mulher, de repente, para fora dos eixos lentos da vida quotidiana e seria; mas esse amor ou teria que ter vindo mais cedo, ou que vir muito mais tarde, e mais cedo seria cedo, e mais tarde seria tarde; ou haveria de o causar alguém não inteiramente diferente daquele marido ocupador - alguém fogoso ou estranho, mas banal também, para que o passo do dever para a aventura se desse facilmente, e não fosse o trânsito da vida para o sonho ou de uma vida para outra vida, coisa que a própria dificuldade convertia em nada, nascendo a inércia da inércia. Os seus olhos eram negros e um pouco tristes. Na curva de meditação meio-sensual da sua boca sem sensualidade havia um desdém velado como um esquecimento. O nariz fino dava um tom vagamente aristocrático, segundo essas convenções de caras, à expressão geral do rosto de que directamente não participava. Tinha cabelos escuros de criança crescida, e punha neles as mãos, para os compor, com um gesto já um pouco diferente. As suas mãos eram longas, não extremamente belas, mas boas; tinham uma grande doçura e uma elegância sem sabedoria. Tudo estava perdido, que nunca estivera para poder ser ganho. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 205. «Daphne e Chloe». «Qualquer mulher casa com qualquer homem», disse ela, «à parte, é claro, certas coisas de dinheiro e situação social. Mas a mulher escolhe em geral o que lhe aparece e não seja absolutamente mau. Depois tem uma desilusão...» «Sempre?» »Quase sempre, ou pode mesmo dizer sempre... Muitas vezes pode não se perceber porque a maneira de sentir as desilusões varia conforme as pessoas. Umas sentem-nas lá dentro, e nada passa para fora, a não ser uns maus modos numa altura, e uns silêncios numa altura em que se devia falar, e o... emfim, outras coisas parecidas com estas que eu não lhe devia estar a contar.» «Porquê? Eu não as adivinhava?» «Não. Nunca as adivinhava. Não me vá perguntar porquê, se faz favor...» «Sim, compreendo... Há primeiro uma questão de instinto sexual...» «De instinto? Talvez...» «Ou, melhor, de necessidade sexual... » «Sim...» e de repente rompeu numa gargalhada sua. O Carlos estagnou na inteligência. Não conseguia dar àquela gargalhada uma colocação tipográfica. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 205. «Daphne e Chloe».