Acordo de noite, muito de noite, no silêncio todo. São — tictac visível — quatro horas de tardar o dia. Abro a janela directamente, no desespero da insónia. E, de repente, humano, O quadrado com cruz de uma janela iluminada! Fraternidade na noite! Fraternidade involuntária, incógnita, na noite! Estamos ambos despertos e a humanidade é alheia. Dorme. Nós temos luz. Quem serás? Doente, moedeiro falso, insone simples como eu? Não importa. A noite eterna, informe, infinita, Só tem, neste lugar, a humanidade das nossas duas janelas, O coração latente das nossas duas luzes, Neste momento e lugar, ignorando-nos, somos toda a vida. Sobre o parapeito da janela da traseira da casa, Sentindo húmida da noite a madeira onde agarro, Debruço-me para o infinito e, um pouco, para mim. Nem galos gritando ainda no silêncio definitivo! Que fazes, camarada, da janela com luz? Sonho, falta de sono, vida? Tom amarelo cheio da tua janela incógnita... Tem graça: não tens luz eléctrica. Ó candeeiros de petróleo da minha infância perdida! 25-11-1931 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 153. Aquela falsa e triste semelhança Entre quem julgo ser e quem eu sou. Sou a máscara que volve a ser criança, Mas reconheço, adulto, aonde estou, Isto não é o Carnaval, nem eu. Tenho vontade de dormir, e ando. O que passa, ondeando, em torno meu, Passa (...) Dormir, despir-me deste mundo ultraje, Como quem despe um dominó roubado. Despir a alma postiça como a um traje. Tenho náusea carnal do meu destino. Quase me cansa me cansar. E vou, Anónimo, (...) menino, Por meu ser fora à busca de quem sou. s.d. “Carnaval”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 7d. NOTAS SOBRE TAVIRA Cheguei finalmente à vila da minha infância. Desci do comboio, recordei-me, olhei, vi, comparei. (Tudo isto levou o espaço de tempo de um olhar cansado). Tudo é velho onde fui novo. Desde já — outras lojas, e outras frontarias de pinturas nos mesmos prédios — Um automóvel que nunca vi (não os havia antes) Estagna amarelo escuro ante uma porta entreaberta. Tudo é velho onde fui novo. Sim, porque até o mais novo que eu é ser velho o resto. A casa que pintaram de novo é mais velha porque a pintaram de novo. Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu. Outrora aqui antevi-me esplendoroso aos 40 anos — Senhor do mundo — É aos 41 que desembarco do comboio [indolentão?]. O que conquistei? Nada. Nada, aliás, tenho a valer conquistado. Trago o meu tédio e a minha falência fisicamente no pesar-me mais a mala... De repente avanço seguro, resolutamente. Passou roda a minha hesitação Esta vila da minha infância é afinal uma cidade estrangeira. (Estou à vontade, como sempre, perante o estranho, o que me não é nada) Sou forasteiro tourist, transeunte. E claro: é isso que sou. Até em mim, meu Deus, até em mim. 8-12-1931 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 154. Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras, Acordar da rua do Ouro Acordar do Rossio, às portas dos cafés, Acordar E no meio de tudo a gare, a gare que nunca dorme Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono. Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar, Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma, E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo E (...) Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne. Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha, Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom, São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada, Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes, Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste, Seja (...) A mulher que chora baixinho Entre o ruído da multidão em vivas... O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito, Cheio de individualidade para quem repara... O arcanjo isolado, escultura numa catedral, Syringe fugindo aos braços estendidos de Pã, Tudo isto tende para o mesmo centro, Busca encontrar-se e fundir-se Na minha alma. Eu adoro todas as coisas E o meu coração é um albergue aberto toda a noite. Tenho pela vida um interesse ávido Que busca compreendê-la sentindo-a muito. Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo, Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas. Para aumentar com isso a minha personalidade. Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio E a minha ambição era trazer o universo ao colo Como uma criança a quem a ama beija. Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras — Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo Do que as que vi ou verei. Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações. A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos. Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca. Dá-me lírios, lírios E rosas também. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 10. 1ª versão: Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. (Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1944. O horror sórdido do que, a sós consigo, Vergonhosa de si, no escuro, cada alma humana pensa. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 221. Tudo se funde no movimento (...) E cada arbusto fitado Nem é o terceiro que está a seguir. A bondade da chama nocturna em casas distantes, Os lares dos outros meras estrelas humanas na noite A indefinida felicidade para nós de ver outros a distância. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 11. Sucata de alma vendida pelo peso do corpo, Se algum guindaste te eleva é para te despejar... Nenhum guindaste te eleva senão para te baixar. Olho analiticamente sem querer, o que romantizo sem querer... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 158. Chove muito, chove excessivamente... Chove e de vez em quando faz um vento frio... Estou triste, muito triste, corno se o dia fosse eu. Num dia no meu futuro em que chova assim também E eu, à janela de repente me lembre do dia de hoje, Pensarei eu «ah nesse tempo eu era mais feliz» Ou pensarei «ah, que tempo triste foi aquele»! Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?... O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste E há uma grande dúvida de chumbo no meu coração... 20-11-1914 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 12. A alma humana é porca como um ânus E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações. Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago. A Távola Redonda foi vendida a peso, E a biografia do Rei Artur, um galante escreveu-a. Mas a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas, como um perfil distante. Está frio. Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xaile — O xaile que minha tia me punha aos ombros na infância. Mas os ombros da minha infância sumiram-se antes para dentro dos meus ombros. E o meu coração da infância sumiu-se antes para dentro do meu coração. Sim, está frio... Está frio em tudo que sou, está frio... Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha... E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas. Engelho o capote à minha volta... O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!... A multiplicidade da humanidade misturada Sim, aquilo a que chamam a vida, como se só houvesse outros e estrelas... Sim, a vida... Meus ombros descaem tanto que o capote resvala... Querem comentário melhor? Puxo-me para cima o capote. Ah, parte a cara à vida! Levanta-te com estrondo no sossego de ti! s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 159. O melodioso sistema do Universo, O grande festival pagão de haver o sol e a lua E a titânica dança das estações E o ritmo plácido das eclípticas Mandando tudo estar calado. E atender apenas ao brilho exterior do universo. 27-11-1914 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 13. São poucos os momentos de prazer na vida... É gozá-la... Sim, já o ouvi dizer muitas vezes Eu mesmo já o disse. (Repetir é viver.) É gozá-la não é verdade? Gozêmo-la, loura falsa, gozêmo-la, casuais e incógnitos, Tu, com teus gestos de distinção cinematográfica Com teus olhares para o lado a nada, Cumprindo a tua função de animal emaranhado; Eu no plano inclinado da consciência para a indiferença, Amemo-nos aqui. Tempo é só um dia. Tenhamos o [romantismo?] dele! Por trás de mim vigio, involuntariamente. Sou qualquer nas palavras que te digo, e são suaves — e as que esperas. Do lado de cá dos meus Alpes, e que Alpes! somos do corpo. Nada quebra a passagem prometida de uma ligação futura, E vai tudo elegantemente, como em Paris, Londres, Berlim. "Percebe-se", dizes, «que o senhor viveu muito no estrangeiro." E eu que sinto vaidade em ouvi-lo! Só tenho medo que me vás falar da tua vida... Cabaret de Lisboa? Visto que o é, seja. Lembro-me subitamente, visualmente, do anúncio no jornal... "Rendez-vous da sociedade elegante", Isto. Mas nada destas reflexões temerárias e futuras Interrompe aquela conversa involuntária em que te sou qualquer. Falo medias e imitações E cada vez, vejo e sinto, gostas mais de mim a valer que (...) hoje; É nesta altura que, debruçando-me de repente sobre a mesa Te segredo em segredo o que exactamente convinha. Ris, toda olhar e em parte boca, efusiva e próxima, E eu gosto verdadeiramente de ti. Soa em nós o gesto sexual de nos irmos embora. Rodo a cabeça para o pagamento... Alegre, alacre, sentindo-te, falas... Sorrio. Por trás do sorriso, não sou eu. 5-2-1932 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 160. Os mortos! Que prodigiosamente E com que horrível reminiscência Vivem na nossa recordação deles! A minha velha tia na sua antiga casa, no campo Onde eu era feliz e tranquilo e a criança que eu era... Penso nisso e uma saudade toda raiva repassa-me... E, além disso, penso, ela já morreu há anos... Tudo isto, vendo bem, é misterioso como um lusco-fusco... Penso, e todo o enigma do universo repassa-me. Revejo aquilo na imaginação com tal realidade Que depois, quando penso que aquilo acabou E que ela está morta, Encaro com o mistério mais palidamente Vejo-o mais escuro, mais impiedoso, mais longínquo E nem choro, de atento que estou ao terror da vida... Como eu desejaria ser parte da noite, Parte sem contornos da noite, um lugar qualquer no espaço Não propriamente um lugar, por não ter posição nem contornos, Mas noite na noite, uma parte dela, pertencendo-lhe por todos os lados E unido e afastado companheiro da minha ausência de existir... Aquilo era tão real, tão vivo, tão actual!... Quando em mim o revejo, está outra vez vivo em mim... Pasmo de que coisa tão real pudesse passar... E não existir hoje e hoje ser tão diverso... Corre para o mar a água do rio, abandona a minha vista, Chega ao mar e perde-se no mar, Mas a água perde-se de si-própria? Uma coisa deixa de ser o que é absolutamente Ou pecam de vida os nossos olhos e os nossos ouvidos E a nossa consciência exterior do Universo? Onde está hoje o meu passado? Em que baú o guardou Deus que não sei dar com ele? Quando o revejo em mim, onde é que o estou vendo? Tudo isto deve ter um sentido — talvez muito simples — Mas por mais que pense não atino com ele. 13-12-1914 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 14. Ah, que extraordinário, Nos grandes momentos do sossego da tristeza, Como quando alguém morre, e estamos em casa dele e todos estão quietos O rodar de um carro na rua, ou o canto de um galo nos quintais... Que longe da vida! É outro mundo. Viramo-nos para a janela, e o sol brilha lá fora Vasto sossego plácido da natureza sem interrupções! 28-3-1932? Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 161. Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades! A chegada pela manhã a cais ou a gares Cheios de um silêncio repousado e claro! Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega... E o som especial que o correr das horas tem nas viagens... Os ónibus ou os eléctricos ou os automóveis... O novo aspecto das ruas de novas terras... A paz que parecem ter para a nossa dor O bulício alegre para a nossa tristeza A falta de monotonia para o nosso coração cansado!... As praças nitidamente quadradas e grandes, As ruas com as casas que se aproximam ao fim, As ruas transversais revelando súbitos interesses, E através disto tudo, como uma coisa que inunda e nunca transborda, O movimento, o movimento Rápida coisa colorida e humana que passa e fica... Os portos com navios parados. Excessivamente navios parados, Com barcos pequenos ao pé esperando... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 15. I Todas as coisas são impressionantes. Enquanto houver no mundo sangue e rosas Há-de haver sempre certos bons instantes Em que se passam coisas sem ser coisas. Meu coração, um solavanco, ou antes Em intervalo consciente. Lousas Cobrem os que como eu tinham rompantes Em que iam à conquista das teimosas. Mas o foguete é um símbolo que sobe Para cair, depois de ruídos no alto Mera cana caduca, e até sobre Quem o deitou... E o que um garoto leva Da rua — a cana ardida — é quanto falto... Que absurdo pirotécnico me eleva? 9-9-1932 “Costa do Sol”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 162. Através do ruído do café cheio de gente Chega-me a brisa que passa pelo convés Nas longas viagens, no alto mar, no verão Perto dos trópicos (no amontoado nocturno do navio — Sacudido regularmente pela hélice palpitante — Vejo passar os uniformes brancos dos oficiais de bordo). E essa brisa traz um ruído de mar-alto, pluro-mar E a nossa civilização não pertence à minha reminiscência. 1-5-1915 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 16. Mas mesmo assim, de repente mas de vagar, de vagar, Atravessando todas estas coisas modernas e presentes, Vindo naturalmente através de todas estas coisas e estes ruídos, Como se tudo isto fosse um vidro fosco transparente a essa luz, Através do ruído dos guindastes, pelos interstícios do marulhar dos barcos, Coando pelas frinchas dos assobios dos comboios, Misteriosamente repassando, ensopando a faina das gentes, Torna, através do moderno e do actual, a eterna voz marítima, A eterna voz representativa das grandes coisas oceânicas, s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 17. MANIFESTO DE ÁLVARO DE CAMPOS Ora porra! Nem o rei chegou, nem o Afonso Costa morreu quando caiu do carro abaixo! E ficou tudo na mesma, tendo a mais só os alemães a menos... E para isto se fundou Portugal! 27-6-1916 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 20. Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão, Que me conheço atrozmente, que toda a literatura Que uso de mim para mim, para ter consciência de mim, Caiu, como o papel que embrulhou um rebuçado mau — Hoje tenho uma alma parecida com a morte dos nervos Necrose da alma, Apodrecimento dos sentidos. Tudo quanto tenho feito conheço-o claramente: é nada. Tudo quanto sonhei, podia tê-lo sonhado o moço de fretes. Tudo quanto amei, se hoje me lembro que o amei, morreu há muito. Ó Paraíso Perdido da minha infância burguesa, Meu Éden agasalhando o chá nocturno, Minha colcha limpa de menino! O Destino acabou-me como a um manuscrito interrompido. Nem altos nem baixos — consciência de nem sequer a ter... Papelotes da velha solteira — toda a minha vida. Tenho uma náusea do estômago nos pulmões. Custa-me a respirar para sustentar a alma. Tenho uma quantidade de doenças tristes nas juntas da vontade. Minha grinalda de poeta — eras de flores de papel, A tua imortalidade presumida era o não teres vida. Minha coroa de louros de poeta — sonhada petrarquicamente, Sem capotinho mas com fama, Sem dados mas com Deus — Tabuleta [de] vinho falsificado na última taberna da esquina! 9-3-1930 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 118. Há tantos deuses! São como os livros — não se pode ler tudo, nunca se sabe nada. Feliz quem conhece só um deus, e o guarda em segredo. Tenho todos os dias crenças diferentes Às vezes no mesmo dia tenho crenças diferentes E gostava de ser a criança que me atravessa agora A visão da janela abaixo — Comendo um bolo barato (ela é pobre) sem causa aparente nem final, Animal inutilmente erguido acima dos outros vertebrados E cantando, entre os dentes, uma cantiga obscena de revista... Sim, há muitos deuses... Mas dava eu tudo ao deus que me levasse aquela criança de aqui p'ra fora... 9-3-1930 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 119. Cesário, que conseguiu Ver claro, ver simples ver puro, Ver o mundo nas suas coisas, Ser um olhar com uma alma por trás, e que vida tão breve! Criança alfacinha do Universo. Bendita sejas com tudo quanto está à vista! Enfeito, no meu coração, a Praça da Figueira para ti E não há recanto que não veja para ti, nos recantos de seus recantos. 6-4-1930 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 120. CARRY NATION Não uma santa estética, como Santa Teresa, Não uma santa dos dogmas, Não uma santa. Mas uma santa humana, maluca e divina, Materna, agressivamente materna, Odiosa, como todas as santas, Persistente, com a loucura da santidade. Odeio-a e estou de cabeça descoberta E dou-lhe vivas sem saber porquê! Estupor americano aureolado de estrelas! Bruxa de boa intenção... Não lhe desfolhem rosas na campa, Mas louros, os louros da glória Façamos-lhe a glória e o insulto! Bebamos à saúde da sua imortalidade Esse vinho forte de bêbados. Eu, que nunca fiz nada no mundo, Eu, que nunca soube querer nem saber, Eu, que fui sempre a ausência da minha vontade, Eu te saúdo, mãezinha maluca, sistema sentimental! Exemplar da aspiração humana! Maravilha do bom gesto, duma grande vontade! Minha Joana de Arc sem pátria! Minha Santa Teresa humana! Estúpida como todas as santas E militante como a alma que quer vencer o mundo! É no vinho que odiaste que deves ser saudada! É com brindes gritados chorando que te canonizaremos! Saudação de inimigo a inimigo! Eu, tantas vezes caindo de bêbado só por não querer sentir, Eu, embriagado tantas vezes, por não ter alma bastante, Eu, o teu contrário, Arranco a espada aos anjos, aos anjos que guardam o Éden, E ergo-a em êxtase, e grito ao teu nome. 8-4-1930 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 121. PARAGEM. ZONA Tragam-me esquecimento em travessas! Quero comer o abandono da vida! Quero perder o hábito de gritar para dentro. Arre, já basta! Não sei o quê. mas já basta... Então viver amanhã, hein?... E o que se faz de hoje? Viver amanhã por ter adiado hoje? Comprei por acaso um bilhete para esse espectáculo? Que gargalhadas daria quem pudesse rir! E agora aparece o eléctrico — o de que eu estou à espera — Antes fosse outro... Ter de subir já! Ninguém me obriga, mas deixai-o passar, porquê? Só deixando passar todos, e a mim mesmo, e à vida... Que náusea no estômago real que é a alma consciente! Que sono bom o ser outra pessoa qualquer... Já compreendo porque é que as crianças querem ser guarda-freios... Não, não compreendo nada... Tarde de azul e ouro, alegria das gentes, olhos claros da vida... 28-5-1930 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 123. Estou cansado da inteligência. Pensar faz mal às emoções. Uma grande reacção aparece. Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo Na casa antiga da quinta velha. Pára. meu coração! Sossega, minha esperança factícia! Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui... Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer! Meu horizonte de quintal e praia! Meu fim antes do princípio! Estou cansado da inteligência. Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa! Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam internas Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho. 18-6-1930 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 125. DIAGNÓSTICO Pouca verdade! Pouca verdade! Tenho razão enquanto não penso. Pouca verdade... Devagar... Pode alguém chegar à vidraça... Nada de emoções!... Cautela! Sim, se mo dessem aceitaria... Não precisas insistir, aceitaria... Para quê? Que pergunta! Aceitaria... 18-6-1930 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 126. A rapariga inglesa, uma loura, tão jovem, tão boa Que queria casar comigo... Que pena eu não ter casado com ela... Teria sido feliz Mas como é que eu sei se teria sido feliz? Como é que eu sei qualquer coisa a respeito do que teria sido Do que teria sido, que é o que nunca foi? Hoje arrependo-me de não ter casado com ela, Mas antes que até a hipótese de me poder arrepender de ter casado com ela. E assim é tudo arrependimento, E o arrependimento é pura abstracção. Dá um certo desconforto Mas também dá um certo sonho... Sim, aquela rapariga foi uma oportunidade da minha alma. Hoje o arrependimento é que é afastado da minha alma. Santo Deus! que complicação por não ter casado com uma inglesa que já me deve ter esquecido!... Mas se não me esqueceu? Se (porque há disso) me lembra ainda e é constante (Escuso de me achar feio, porque os feios também são amados E às vezes por mulheres!) Se não me esqueceu, ainda me lembra. Isto, realmente, é já outra espécie de arrependimento. E fazer sofrer alguém não tem esquecimento. Mas, afinal, isto são conjecturas da vaidade. Bem se há-de ela lembrar de mim, com o quarto filho nos braços, Debruçada sobre o Daily Mirror a ver a Pussy Maria. Pelo menos é melhor pensar que é assim. É um quadro de casa suburbana inglesa, É uma boa paisagem íntima de cabelos louros, E os remorsos são sombras... Em todo o caso, se assim é, fica um bocado de ciúme. O quarto filho do outro, o Daily Mirror na outra casa. O que podia ter sido... Sim, sempre o abstracto, o impossível, o irreal mas perverso — O que podia ter sido. Comem marmelade ao pequeno almoço em Inglaterra... Vingo-me em toda a linguagem inglesa de ser um parvo português. Ah, mas ainda vejo O teu olhar realmente tão sincero como azul A olhar como uma outra criança para mim... E não é com piadas de sal do verso que te apago da imagem Que tens no meu coração; Não te disfarço, meu único amor, e não quero nada da vida. 29-6-1930 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 128. CUL DE LAMPE Pouco a pouco, Sem que qualquer coisa me falte, Sem que qualquer coisa me sobre, Sem que qualquer coisa esteja exactamente na mesma posição, Vou andando parado, Vou vivendo morrendo, Vou sendo eu através de uma quantidade de gente sem ser. Vou sendo tudo menos eu. Acabei. Pouco a pouco, Sem que ninguém me falasse (Que importa tudo quanto me tem sido dito na vida?), Sem que ninguém me escutasse (Que importa quanto disse e me ouviram dizer?) Sem que ninguém me quisesse (Que importa o que disse quem me disse que queria?), Muito bem... Pouco a pouco, Sem nada disso, Sem nada que não seja isso, Vou parando, Vou parar, Acabei. Qual acabei! Estou farto de sentir e de fingir em pensar, E não acabei ainda. Ainda estou a escrever versos. Ainda estou a escrever. Ainda estou. (Não, não vou acabar Ainda... Não vou acabar. Acabei.) Subitamente, na rua transversal, uma janela no alto e que vulto nela? E o horror de ter perdido a infância em que ali não estive E o caminho vagabundo da minha consciência inexequível. Que mais querem? Acabei. Nem falta o canário da vizinha ó manhã de outro tempo, Nem som (cheio de cesto) do padeiro na escada Nem os pregões que não sei já onde estão — Nem o enterro (ouço as vozes) na rua, Nem trovão súbito da madeira das tabuinhas de defronte no ar de verão Nem... quanta coisa, quanta alma, quanto irreparável! Afinal, agora tudo cocaína... Meu amor infância! Meu passado bibe! Meu repouso pão com manteiga boa à janela! Basta, que já estou cego para o que vejo! Arre, acabei! Basta! 2-7-1930 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 129. Sim, é claro, O Universo é negro, sobretudo de noite. Mas eu sou como toda a gente, Não tenha eu dores de dentes nem calos e as outras dores passam. Com as outras dores fazem-se versos. Com as que doem, grita-se. A constituição íntima da poesia Ajuda muito... (Como analgésico serve para as dores da alma, que são fracas...) Deixem-me dormir. 3-7-1930 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 130. Os galos cantam e estou bebedíssimo. Não fiz nada da vida senão tê-la. Mal amei, bebi bem, sonhei muitíssimo. Minha intenção não foi a minha estrela. Os galos cantam e eu cada vez mais Absorto no disperso que o álcool dá. Curara-me talvez a vida, ou sais, Ou poder crer, ou desejar o que há. Cantam tantos tão galos que me irrita Que a noite que ainda dura possa ser. Mas virá o dia, e, ao fim da parte escrita, A morte marra e eu deixo-me colher. 4-10-1931 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 240. Fernando Pessoa? O cão que veio do abismo Roeu-me os ossos da alma, E erguendo a perna — o que eu cismo — Mijou no meu misticismo Que me dava a minha calma. O cão veio de onde dorme Aquele anseio que tenho Por qualquer coisa de enorme Que indistintamente forme A forma de quanto estranho. E depois de isso completo O cão que veio do abismo Que estava inteiro e repleto Fez sobre tudo o dejecto Que é hoje o meu misticismo. 24-6-1934 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 241. Fernando Pessoa? Estou cheio de tédio, de nada. Em cima da cama Leio, com uma minuciosidade atómica, Lentamente, com uma atenção sem chama, A Nova Enciclopédia Maçónica. Penso no que fui (não me escapam as entrelinhas), E o que a minha alma quis e a minha vida fez. Coube-me, como a uma senhora um carrinho de linhas, No meio do Grau 32 do Rito Escocês. O que quis do passado por brisas se esfolha, O que pude de oculto teve a tempo medo; E olho a sorrir o título no alto da folha: Sublime Príncipe do Real Segredo... 8-8-1934 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 242. Fernando Pessoa? Se nada houvesse para além da morte, Nada, e o que o espírito é pronto a querer O que a imaginação em vão procura Não fosse nada... E só um vácuo inteiro No mundo, o enorme mundo perceptível, Não fosse, nem o azulado das ondas Nem a antecâmara da Realidade Não outra coisa que o oco dele próprio, E vazio do ser implodindo Éter da ininteligibilidade Onde o erro da razão sobre montes e vagas Sem nexo em existir sem leis flutua. Quem sabe se o supremo e ermo mistério Do universo não é ele existir Com inteireza tal em existir Que não tenha sentido nem razão Nem mesmo uma existência, de tão única, Concebível... Meu espírito, corrompe-se Ao místico furor do pensamento.. De horror sem dor Se o mundo inteiro, — abismo sem começo, Poço sem paredes, negro absurdo Aberto noutro absurdo ainda mais negro — Não tem possível interpretação Nem intertemporalidade num futuro Da razão, ou da alma, ou do universo Ele-próprio. Ah o ocaso sobre os montes Com que réstia de luz nos faz de longe O gesto lento de nos abençoar... E nem sombra, nem mesmo definida Tristeza dói... Ó sempre mesma dor do pensamento. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 244. Fausto? NOCTURNO DE DIA ...Não: o que tenho é sono. O quê? Tanto cansaço por causa das responsabilidades, Tanta amargura por causa de talvez se não ser célebre Tanto desenvolvimento de opiniões sobre a imortalidade... O que tenho é sono, meu velho, sono... Deixem-me ao menos ter sono; quem sabe que mais terei? 16-6-1928 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 88. O Chiado sabe-me a açorda. Corro ao fluir do Tejo lá em baixo. Mas nem ali há universo. E o tédio persiste como uma mão regando no escuro. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 379. Bernardo Soares? CANÇÃO À INGLESA Cortei relações com o sol e as estrelas, pus ponto no mundo. Levei a mochila das coisas que sei para o lado e p'ro fundo Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto, E o meu coração é o mesmo que fui, um céu e um deserto Falhei no que fui, falhei no que quis, falhei no que soube. Não tenho já alma que a luz me desperte ou a treva me roube, Não sou senão náusea, não sou senão cisma, não sou senão ânsia Sou uma coisa que fica a uma grande distância E vou, só porque o meu ser é cómodo e profundo, Colado como um escarro a uma das rodas do mundo. 1-12-1928 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 90. Não tenho sinceridade nenhuma que te dar. Se te falo, adapto instintivamente frases A um sentido que me esqueço de ter. 22-1-1929 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 91. O soslaio do operário estúpido para o engenheiro doido — O engenheiro doido fora da engenharia — O sorriso trocado que sinto nas costas quando passo entre os normais... (Quando me olham cara a cara não os sinto sorrir). 22-1-1929 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 93. Talvez não seja mais do que o meu sonho... Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro, Loura débil... Esse olhar para mim casual como um calendário... Esse agradecer-me quando a não deixei cair do eléctrico Um agradecimento... Perfeitamente... Gosto de lhe ouvir em sonho o seguimento que não houve De coisas que não chegou a haver, Há gente que nunca é adulta sem [...]! Creio mesmo que pouca gente chega a ser adulta — pouca — E a que chega a ser adulta de facto morre sem dar por nada. Loura débil, figura de inglesa absolutamente portuguesa, Cada vez que te encontro lembro-me dos versos que esqueci... É claro que não me importo nada contigo Nem me lembro de te ter esquecido senão quando te vejo, Mas o encontrar-te dá som ao dia e ao desleixo Uma poesia de superfície, Uma coisa a mais no a menos da improficuidade da vida... Loura débil, feliz porque não és inteiramente real, Porque nada que vale a pena ser lembrado é inteiramente real, E nada que vale a pena ser real vale a pena. 25-1-1929 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 95. O sorriso triste do ante-dia que começou Platina fria no engaste de negro azulando-se escuramente. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 97. Ah, abram-me outra realidade! Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos E ter visões por almoço. Quero encontrar as fadas na rua! Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras, Desta civilização feita com pregos. Quero viver como uma bandeira à brisa, Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer! Depois encerrem-me onde queiram. Meu coração verdadeiro continuará velando Pano brasonado a esfinges, No alto do mastro das visões Aos quatro ventos do Mistério. O Norte — o que todos querem O Sul — o que todos desejam O Este — de onde tudo vem O Oeste — aonde tudo finda — Os quatro ventos do místico ar da civilização — Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo 4-4-1929 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 99. A luz crua do estio prematuro Sai como um grito do ar da primavera... Meus olhos ardem-me como se viesse da Noite... Meu cérebro está tonto, como se eu quisesse justiça... Contra a luz crua todas as formas são silhuetas. 10-4-1929 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 101. Meu coração, mistério batido pelas lonas dos ventos... Bandeira a estralejar desfraldadamente ao alto, Árvore misturada, curvada, sacudida pelo vendaval, Agitada como uma espuma verde pegada a si mesma, (...) Para sempre condenada à raiz de não se poder exprimir! Queria gritar alto com uma voz que dissesse! Queria levar ao menos a um outro coração a consciência do meu! Queria ser lá fora... Mas o que Sou? O trapo que foi bandeira, As folhas varridas para o canto que foram ramos, As palavras socialmente desentendidas, até por quem as aprecia, Eu que quis fora a minha alma inteira, E ficou só a chapéu do mendigo debaixo do automóvel, Estragado estragado, E o riso dos rápidos Soou para trás na estrada dos felizes... 10-5-1929 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 102. Não ter deveres, nem horas certas, nem realidades... Ser uma ave humana Que passe haleyonica sobre a intransigência do mundo — Ganhando o pão da sua noite com o suor da fronte dos outros — Faz-tudo triste No coliseu com lágrimas, E compère antigo, um pouco mais cheio que Vénus de Milo, Na insubsistência dos acasos. E um pouco de sol, ao menos, para os sonhos onde não vivo. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 104. Com bandas militares à frente, compostas de volantes e hélices, Com uma vanguarda sonora de sereia de automóvel e de barco Com um estardalhaço longínquo, com saltos e alardes De bombos e pratos, com (...) Desencadeio-me a saudar-te. Pum! Pum, pum, pum... Pu-u-u-u-u-m! s.d. “Saudação a Walt Whitman” . Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 224d. Cá estamos no píncaro — nós dois. Nós dois e Homero? Não sabemos. Esse está mais abaixo. Estendemos a mão e cada qual ainda que cego chega a Deus (ele não) O quê — você não chega? Então você desaparece? — ou não chegou. Sou míope e português Se houver troca de louros (...) P'ra Apolo falta-me a beleza Mas também falta só isso. [...] [...] Camarada Will, qualquer de nós Vale o resto, excepto o outro Ave, poema mudo de verso (poema diverso) Verso mudo de frases Mesmo (ó diabo!) mudo de mim Não importa. Feliz encontro s.d. “Saudação a Walt Whitman” . Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 224e. SAUDAÇÂO A W. WHITMAN Para cantar-te, Para cantar-te como tu quererias que te cantassem, Melhor é cantar a terra, o mar, as cidades e os campos — Os homens, as mulheres, as crianças, As profissões, [...], as (...) Todas as coisas que, juntas, formam a síntese-universo, Todas as coisas que, separadas, valem a síntese-Universo, Todas as coisas que universais formam a síntese Deus. Ah, o poema que te cantasse bem, Seria o poema que todo cantasse tudo, O poema em que estivessem todas as vestes e todas as sedas — Todos os perfumes e todos os sabores E o contacto em todos os sentidos do tacto de todas as coisas tangíveis. Poema que dispensasse a música, música com vida, Poema que transcendesse a pintura, pintura com alma s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 224f. Ah, de que serve A arte que quer ser vida, sem a vida que quer ser? De que serve a arte se não é a arte que queremos? De que nos serve a vida se a queremos e não a buscamos, Se nunca é para nós a vida? Ah, p'ra saudar-te Era preciso o coração Da terra toda... O corpo-espírito das coisas, s.d. “Saudação a Walt Whitman” . Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 224g. PASSAGEM DAS HORAS OU WALT WHITMAN Eu, o ritmista febril Para quem o parágrafo de versos é uma pessoa inteira, Para quem, por baixo da metáfora aparente, Como em estrofe, anti-estrofe, epodo o poema que escrevo, Que por detrás do delírio construo Que por detrás de sentir penso Que amo, expludo, rujo, com ordem e oculta medida, Eu ante ti quereria ter menos de engenheiro na alma, Menos de grego das máquinas, de Bacante de Apolo Nos meus momentos de alma multiplicados em verso. Mas o ar do mar alto Chega, por um influxo de dentro do meu sangue Ao meu cérebro desterrado em terra, E a fúria com que medito, a raiva com que me domino Abre-se como uma vela, tomada de vento, aos ares Ampla servidão ao rasgo de assombro dos (...) s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 224h. P. DAS HORAS — Parte II — Grandes estandartes de fumo das chaminés das fábricas Sobre os telhados (...) Ó poderosamente gritos de combate! Vago rumor silencioso e comercial das ruas... E a ordem inconsciente dos que vão e vêm Pelas fitas dos passeios... À hora de sol em que as lojas descem os toldos s.d. “Passagem das Horas” . Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 225. DOIS EXCERTOS DE ODES (FINS DE DUAS ODES, NATURALMENTE) I ...... Vem, Noite antiquíssima e idêntica, Noite Rainha nascida destronada, Noite igual por dentro ao silêncio. Noite Com as estrelas lantejoulas rápidas No teu vestido franjado de Infinito. Vem, vagamente, Vem, levemente, Vem sozinha, solene, com as mãos caídas Ao teu lado, vem E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas. Funde num campo teu todos os campos que vejo, Faze da montanha um bloco só do teu corpo, Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo. Todas as estradas que a sobem, Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe. Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores, E deixa só uma luz e outra luz e mais outra, Na distância imprecisa e vagamente perturbadora. Na distância subitamente impossível de percorrer. Nossa Senhora Das coisas impossíveis que procuramos em vão, Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela. Dos propósitos que nos acariciam Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto. E que doem por sabermos que nunca os realizaremos... Vem, e embala-nos, Vem e afaga-nos. Beija-nos silenciosamente na fronte, Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam Senão por uma diferença na alma. E um vago soluço partindo melodiosamente Do antiquíssimo de nós Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida. Vem soleníssima, Soleníssima e cheia De uma oculta vontade de soluçar, Talvez porque a alma é grande e a vida pequena. E todos os gestos não saem do nosso corpo E só alcançamos onde o nosso braço chega, E só vemos até onde chega o nosso olhar. Vem, dolorosa, Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos, Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados, Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes. Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados. Vem, lá do fundo Do horizonte lívido, Vem e arranca-me Do solo de angústia e de inutilidade Onde vicejo. Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido, Folha a folha lê em mim não sei que sina E desfolha-me para teu agrado, Para teu agrado silencioso e fresco. Uma folha de mim lança para o Norte, Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei; Outra folha de mim lança para o Sul, Onde estão os mares que os Navegadores abriram; Outra folha minha atira ao Ocidente, Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro, Que eu sem conhecer adoro; E a outra, as outras, o resto de mim Atira ao Oriente, Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé, Ao Oriente pomposo e fanático e quente, Ao Oriente excessivo que eu nunca verei, Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta, Ao Oriente que tudo o que nós não temos. Que tudo o que nós não somos, Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva, Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo... Vem sobre os mares, Sobre os mares maiores, Sobre os mares sem horizontes precisos, Vem e passa a mão pelo dorso da fera, E acalma-o misteriosamente, Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito! Vem, cuidadosa, Vem, maternal, Pé antepé enfermeira antiquíssima, que te sentaste À cabeceira dos deuses das fés já perdidas, E que viste nascer Jeová e Júpiter, E sorriste porque tudo te é falso e inútil. Vem, Noite silenciosa e extática, Vem envolver na noite manto branco O meu coração... Serenamente como uma brisa na tarde leve, Tranquilamente com um gesto materno afagando. Com as estrelas luzindo nas tuas mãos E a lua máscara misteriosa sobre a tua face. Todos os sons soam de outra maneira Quando tu vens. Quando tu entras baixam todas as vozes, Ninguém te vê entrar. Ninguém sabe quando entraste, Senão de repente, vendo que tudo se recolhe, Que tudo perde as arestas e as cores, E que no alto céu ainda claramente azul Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem, A lua começa a ser real. 30-6-1914 “Dois Excertos de Odes (Fins de duas odes, naturalmente)”. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 155. 1ª publ. in Revista de Portugal , nº4. Lisboa: Jul. 1938. O bêbado caía de bêbado E eu, que passava, Não o ajudei, pois caía de bêbado, E eu só passava. O bêbado caiu de bêbado No meio da rua. E eu não me voltei, mas ouvi. Eu bêbado E a sua queda na rua. O bêbado caiu de bêbado Na rua da vida. Meu Deus! Eu também caí de bêbado Deus (...) s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 226. I Eu cantarei, Quando a manhã abrir as portas do meu esforço, Eu cantarei, Quando o alto-dia me fizer fechar os olhos, Eu cantarei, Quando o crepúsculo limar as arestas, Eu cantarei, Quando a noite entrar como a Imperatriz vencida Eu cantarei a Tua Glória e o meu desígnio. Eu cantarei E nas estradas ladeadas por abetos, Nas áleas dos jardins emaranhados, Nas esquinas das ruas, nos pátios Das casas-de-guarda, A Tua Vitória entrará como um som de clarim E o meu Desígnio espera-la-á sem segundo pensamento. II Perto da minha porta Onde brincam as crianças dos outros, Rompe um canto infantil, disciplinado e cómodo, E eu sou a quinta criança ali, se houver só quatro, E ninguém me abandonar embora eu não esteja lá Canto também, dormindo transparente e calado. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 227. O FUTURO Sei que me espera qualquer coisa Mas não sei que coisa me espera. Como um quarto escuro Que eu temo quando creio que nada temo Mas só o temo, por ele, temo em vão. Não é uma presença; é um frio e um medo. O mistério da morte a mim o liga. Ao [...] fim do meu poema. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 228. Todas as horas faço gaffes de civilidade e etiqueta (A vida social é complexa para a minha fraqueza de nervos) Mas nunca existiu quem só tivesse vivido em alma Numa eterna luta de Janus. Arre, a humanidade é uma coisa muito complexa... Tenho-a observado com os olhos e os nervos, e ainda não percebi. (Compreender é um navio ao longe) Toda a gente que tenho conhecido Estou farto de semi-deuses! Onde é que há gente no mundo? Não tenho um amigo, um conhecido, em quem batessem Ninguém que eu conheça perdeu o amor de uma mulher. Tenho feito muitas coisas más, muitas coisas reles, muitas infâmias. Tenho sido cobarde, revoltante, sujo. Não encontro ninguém assim. Todos têm sido príncipes, os que têm andado comigo s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 229. II Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades E a mão de mistério que abafa o bulício, E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe Para uma sensação exacta e precisa e activa da Vida! Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios E que misterioso o fundo unânime das ruas, Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre, Ó do «Sentimento de um Ocidental»! Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas. Que nem são países, nem momentos, nem vidas. Que desejo talvez de outros modos de estados de alma Humedece interiormente o instante lento e longínquo! Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem, Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas Como um mendigo de sensações impossíveis Que não sabe quem lhas possa dar... Quando eu morrer, Quando me for, ignobilmente, como toda a gente, Por aquele caminho cuja ideia se não pode encarar de frente, Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece, Seja por esta hora condigna dos tédios que tive, Por esta hora mística e espiritual e antiquíssima, Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece, Platão sonhando viu a ideia de Deus Esculpir corpo e existência nitidamente plausível. Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo. Seja por esta hora que me leveis a enterrar, Por esta hora que eu não sei como viver, Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho, Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva, Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas, Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar. Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que eu não tenho nem quero ter. Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas, Olha-me em silêncio e em segredo e pergunta a ti própria — Tu que me conheces — quem eu sou... 30-6-1914 “Dois Excertos de Odes (Fins de duas odes, naturalmente)”. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 160. 1ª publ. in Revista de Portugal , nº4. Lisboa: Jul. 1938. ODE MARÍTIMA Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão, Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido, Olho e contenta-me ver, Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira. Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo. Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio, Aqui, acolá, acorda a vida marítima, Erguem-se velas, avançam rebocadores, Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto. Há uma vaga brisa. Mas a minh'alma está com o que vejo menos. Com o paquete que entra, Porque ele está com a Distância, com a Manhã, Com o sentido marítimo desta Hora, Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea, Como um começar a enjoar, mas no espírito. Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma, E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente. Os paquetes que entram de manhã na barra Trazem aos meus olhos consigo O mistério alegre e triste de quem chega e parte. Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos. Todo o atracar, todo o largar de navio, É — sinto-o em mim como o meu sangue — Inconscientemente simbólico, terrivelmente Ameaçador de significações metafísicas Que perturbam em mim quem eu fui... Ah, todo o cais é uma saudade de pedra! E quando o navio larga do cais E se repara de repente que se abriu um espaço Entre o cais e o navio, Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente, Uma névoa de sentimentos de tristeza Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas Como a primeira janela onde a madrugada bate, E me envolve com uma recordação duma outra pessoa Que fosse misteriosamente minha. Ah, quem sabe, quem sabe, Se não parti outrora, antes de mim, Dum cais; se não deixei, navio ao sol Oblíquo da madrugada, Uma outra espécie de porto? Quem sabe se não deixei, antes de a hora Do mundo exterior como eu o vejo Raiar-se para mim, Um grande cais cheio de pouca gente, Duma grande cidade meio-desperta, Duma enorme cidade comercial, crescida, apopléctica, Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo? Sim, dum cais, dum cais dalgum modo material, Real, visível como cais, cais realmente, O Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente imitado, Insensivelmente evocado, Nós os homens construímos Os nossos cais nos nossos portos, Os nossos cais de pedra actual sobre água verdadeira, Que depois de construídos se anunciam de repente Coisas-Reais, Espíritos-Coisas, Entidades em Pedra-Almas, A certos momentos nossos de sentimento-raiz Quando no mundo-exterior como que se abre uma porta E, sem que nada se altere, Tudo se revela diverso. Ah o Grande Cais donde partimos em Navios-Nações! O Grande Cais Anterior, eterno e divino! De que porto? Em que águas? E porque penso eu isto? Grandes Cais como os outros cais, mas o ònico. Cheio como eles de silêncios rumorosos nas antemanhãs, E desabrochando com as manhãs num ruído de guindastes E chegadas de comboios de mercadorias, E sob a nuvem negra e ocasional e leve Do fundo das chaminés das fábricas próximas Que lhe sombreia o chão preto de carvão pequenino que brilha, Como se fosse a sombra duma nuvem que passasse sobre água sombria. Ah, que essencialidade de mistério e sentido parados Em divino êxtase revelador Ës horas cor de silêncios e angústias Não é ponte entre qualquer cais e O Cais! Cais negramente reflectido nas águas paradas, Bulício a bordo dos navios, Ó alma errante e instável da gente que anda embarcada, Da gente simbólica que passa e com quem nada dura, Que quando o navio volta ao porto Há sempre qualquer alteração a bordo! Ó fugas contínuas, idas, ebriedade do Diverso! Alma eterna dos navegadores e das navegações! Cascos reflectidos devagar nas águas, Quando o navio larga do porto! Flutuar como alma da vida, partir como voz, Viver o momento tremulamente sobre águas eternas. Acordar para dias mais directos que os dias da Europa. Ver portos misteriosos sobre a solidão do mar, Virar cabos longínquos para súbitas vastas paisagens Por inumeráveis encostas atónitas... Ah, as praias longínquas, os cais vistos de longe, E depois as praias próximas, os cais vistos de perto. O mistério de cada ida e de cada chegada, A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade Deste impossível universo A cada hora marítima mais na própria pele sentido! O soluço absurdo que as nossas almas derramam Sobre as extensões de mares diferentes com ilhas ao longe, Sobre as ilhas longínquas das costas deixadas passar, Sobre o crescer nítido dos portos, com as suas casas e a sua gente, Para o navio que se aproxima. Ah, a frescura das manhãs em que se chega, E a palidez das manhãs em que se parte, Quando as nossas entranhas se arrepanham E uma vaga sensação parecida com um medo — O medo ancestral de se afastar e partir, o misterioso receio ancestral à Chegada e ao Novo — Encolhe-nos a pele e agonia-nos, E todo o nosso corpo angustiado sente, Como se fosse a nossa alma, Uma inexplicável vontade de poder sentir isto doutra maneira: Uma saudade a qualquer coisa, Uma perturbação de afeições a que vaga pátria? A que costa? a que navio? a que cais? Que se adoece em nós o pensamento, E só fica um grande vácuo dentro de nós, Uma oca saciedade de minutos marítimos, E uma ansiedade vaga que seria tédio ou dor Se soubesse como sê-lo... A manhã de Verão está, ainda assim, um pouco fresca. Um leve torpor de noite anda ainda no ar sacudido. Acelera-se ligeiramente o volante dentro de mim. E o paquete vem entrando, porque deve vir entrando sem dúvida, E não porque eu o veja mover-se na sua distância excessiva. Na minha imaginação ele está já perto e é visível Em toda a extensão das linhas das suas vigias. E treme em mim tudo, toda a carne e toda a pele, Por causa daquela criatura que nunca chega em nenhum barco E eu vim esperar hoje ao cais, por um mandado oblíquo. Os navios que entram a barra, Os navios que saem dos portos, Os navios que passam ao longe (Suponho-me vendo-os duma praia deserta) — Todos estes navios abstractos quase na sua ida Todos estes navios assim comovem-me como se fossem outra coisa E não apenas navios, navios indo e vindo. E os navios vistos de perto, mesmo que se não vá embarcar neles, Vistos de baixo, dos botes, muralhas altas de chapas, Vistos dentro, através das câmaras, das salas, das despensas, Olhando de perto os mastros, afilando-se lá pró alto, Roçando pelas cordas, descendo as escadas incómodas, Cheirando a untada mistura metálica e marítima de tudo aquilo — Os navios vistos de perto são outra coisa e a mesma coisa, Dão a mesma saudade e a mesma ânsia doutra maneira. Toda a vida marítima! tudo na vida marítima! Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina E eu cismo indeterminadamente as viagens. Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte! Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas! As solidões marítimas como certos momentos no Pacífico Em que não sei por que sugestão aprendida na escola Se sente pesar sobre os nervos o facto de que aquele é o maior dos oceanos E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós! A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico! O Índico, o mais misterioso dos oceanos todos! O Mediterrâneo, doce, sem mistério nenhum, clássico, um mar para bater De encontro a esplanadas olhadas de jardins próximos por estátuas brancas! Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos, Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer! E vós, ó coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho! Componde fora de mim a minha vida interior! Quilhas, mastros e velas, rodas do leme, cordagens, Chaminés de vapores, hélices, gáveas, flâmulas, Galdropes, escotilhas, caldeiras, colectores, válvulas; Caí, por mim dentro em montão, em monte, Como o conteúdo confuso de uma gaveta despejada no chão! Sede vós o tesouro da minha avareza febril, Sede vós os frutos da árvore da minha imaginação, Tema de cantos meus, sangue nas veias da minha inteligência, Vosso seja o laço que me une ao exterior pela estética, Fornecei-me metáforas imagens, literatura, Porque em real verdade, a sério, literalmente, Minhas sensações são um barco de quilha pró ar, Minha imaginação uma âncora meio submersa, Minha ânsia um remo partido, E a tessitura dos meus nervos uma rede a secar na praia! Soa no acaso do rio um apito, só um. Treme já todo o chão do meu psiquismo. Acelera-se cada vez mais o volante dentro de mim. Ah, os paquetes, as viagens, o não-se-saber-o-paradeiro De Fulano-de-tal, marítimo, nosso conhecido! Ah, a glória de se saber que um homem que andava connosco Morreu afogado ao pé duma ilha do Pacífico! Nós que andámos com ele vamos falar nisso a todos, Com um orgulho legítimo, com uma confiança invisível Em que tudo isso tenha um sentido mais belo e mais vasto Que apenas o ter-se perdido o barco onde ele ia E ele ter ido ao fundo por lhe ter entrado água prós pulmões! Ah, os paquetes, os navios-carvoeiros, os navios de vela! Vão rareando — ai de mim! — os navios de vela nos mares! E eu, que amo a civilização moderna, eu que beijo com a alma as máquinas, Eu o engenheiro, eu o civilizado, eu o educado no estrangeiro, Gostaria de ter outra vez ao pé da minha vista só veleiros e barcos de madeira, De não saber doutra vida marítima que a antiga vida dos mares! Porque os mares antigos são a Distância Absoluta, O Puro Longe, liberto do peso do Actual... E ah, como aqui tudo me lembra essa vida melhor, Esses mares, maiores, porque se navegava mais devagar. Esses mares, misteriosos, porque se sabia menos deles. Todo o vapor ao longe é um barco de vela perto. Todo o navio distante visto agora é um navio no passado visto próximo. Todos os marinheiros invisíveis a bordo dos navios no horizonte São os marinheiros visíveis do tempo dos velhos navios, Da época lenta e veleira das navegações perigosas, Da época de madeira e lona das viagens que duravam meses. Toma-me pouco a pouco o delírio das coisas marítimas, Penetram-me fisicamente o cais e a sua atmosfera, O marulho do Tejo galga-me por cima dos sentidos, E começo a sonhar, começo a envolver-me do sonho das águas, Começam a pegar bem as correias-de-transmissão na minhÕalma E a aceleração do volante sacode-me nitidamente. Chamam por mim as águas, Chamam por mim os mares. Chamam por mim, levantando uma voz corpórea, os longes, As épocas marítimas todas sentidas no passado, a chamar. Tu, marinheiro inglês, Jim Barns meu amigo, foste tu Que me ensinaste esse grito antiquíssimo, inglês, Que tão venenosamente resume Para as almas complexas como a minha O chamamento confuso das águas, A voz inédita e implícita de todas as coisas do mar, Dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas. Esse teu grito inglês, tornado universal no meu sangue, Sem feitio de grito, sem forma humana nem voz, Esse grito tremendo que parece soar De dentro duma caverna cuja abóbada é o céu E parece narrar todas as sinistras coisas Que podem acontecer no Longe, no Mar, pela Noite... (Fingias sempre que era por uma escuna que chamavas, E dizias assim, pondo uma mão de cada lado da boca, Fazendo porta-voz das grandes mãos curtidas e escuras: Ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó—yyyy... Schooner ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó — yyyy...) Escuto-te de aqui, agora, e desperto a qualquer coisa. Estremece o vento. Sobe a manhã. O calor abre. Sinto corarem-me as faces. Meus olhos conscientes dilatam-se. O êxtase em mim levanta-se, cresce avança, E com um ruído cego de arruaça acentua-se O giro vivo do volante. Ó clamoroso chamamento A cujo calor, a cuja fúria fervem em mim Numa unidade explosiva todas as minhas ânsias, Meus próprios tédios tornados dinâmicos, todos!... Apelo lançado ao meu sangue Dum amor passado, não sei onde, que volve E ainda tem força para me atrair e puxar, Que ainda tem força para me fazer odiar esta vida Que passo entre a impenetrabilidade física e psíquica Da gente real com que vivo! Ah seja como for, seja por onde for, partir! Largar por aí fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar. Ir para Longe, ir para Fora, para a Distância Abstracta, Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas, Levado, como a poeira, plos ventos, plos vendavais! Ir, ir, ir, ir de vez! Todo o meu sangue raiva por asas! Todo o meu corpo atira-se prà frente! Galgo pla minha imaginação fora em torrentes! Atropelo-me, rujo, precipito-me!... Estoiram em espuma as minhas ânsias E a minha carne é uma onda dando de encontro a rochedos! Pensando nisto — ó raiva! pensando nisto — ó fúria! Pensando nesta estreiteza da minha vida cheia de ânsias, Subitamente, tremulamente, extraorbitadamente, Com uma oscilação viciosa, vasta, violenta, Do volante vivo da minha imaginação, Rompe, por mim, assobiando, silvando, vertiginando, O cio sombrio e sádico da estrídula vida marítima. Eh marinheiros, gajeiros! eh tripulantes, pilotos! Navegadores, mareantes, marujos, aventureiros! Eh capitães de navios! homens ao leme e em mastros! Homens que dormem em beliches rudes! Homens que dormem co'o Perigo a espreitar plas vigias! Homens que dormem co'a Morte por travesseiro! Homens que têm tombadilhos, que têm pontes donde olhar A imensidade imensa do mar imenso! Eh manipuladores dos guindastes de carga! Eh amainadores de velas, fogueiros, criados de bordo! Homens que metem a carga nos porões! Homens que enrolam cabos no convés! Homens que limpam os metais das escotilhas! Homens do leme! homens das máquinas! homens dos mastros! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Gente de boné de pala! Gente de camisola de malha! Gente de âncoras e bandeiras cruzadas bordadas no peito! Gente tatuada! gente de cachimbo! gente de amurada! Gente escura de tanto sol, crestada de tanta chuva, Limpa de olhos de tanta imensidade diante deles, Audaz de rosto de tantos ventos que lhes bateram a valer! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Homens que vistes a Patagónia! Homens que passastes pela Austrália! Que enchestes o vosso olhar de costas que nunca verei! Que fostes a terra em terras onde nunca descerei! Que comprastes artigos toscos em colónias à proa de sertões! E fizestes tudo isso como se não fosse nada! Como se isso fosse natural, Como se a vida fosse isso, Como nem sequer cumprindo um destino! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Homens do mar actual! homens do mar passado! Comissários de bordo! escravos das galés! combatentes de Lepanto! Piratas do tempo de Roma! Navegadores da Grécia! Fenícios! Cartagineses! Portugueses atirados de Sagres Para a aventura indefinida, para o Mar Absoluto, para realizar o Impossível! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Homens que erguestes padrões, que destes nomes a cabos! Homens que negociastes pela primeira vez com pretos! Que primeiro vendestes escravos de novas terras! Que destes o primeiro espasmo europeu às negras atónitas! Que trouxestes ouro, missanga, madeiras cheirosas, setas, De encostas explodindo em verde vegetação! Homens que saqueastes tranquilas povoações africanas, Que fizestes fugir com o ruído de canhões essas raças, Que matastes, roubastes, torturastes, ganhastes Os prémios de Novidade de quem, de cabeça baixa Arremete contra o mistério de novos mares! Eh-eh-eh-eh-eh! A vós todos num, a vós todos em vós todos como um, A vós todos misturados, entrecruzados, A vós todos sangrentos, violentos, odiados, temidos, sagrados, Eu vos saúdo, eu vos saúdo, eu vos saúdo! Eh-eh-eh-eh eh! Eh eh-eh-eh eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh eh! Eh lahô-lahô laHO-lahá-á-á-à-à! Quero ir convosco, quero ir convosco, Ao mesmo tempo com vós todos Pra toda a parte pr'onde fostes! Quero encontrar vossos perigos frente a frente, Sentir na minha cara os ventos que engelharam as vossas. Cuspir dos lábios o sal dos mares que beijaram os vossos, Ter braços na vossa faina, partilhar das vossas tormentas, Chegar como vós, enfim, a extraordinários portos! Fugir convosco à civilização! Perder convosco a noção da moral! Sentir mudar-se no longe a minha humanidade! Beber convosco em mares do sul Novas selvajarias, novas balbúrdias da alma, Novos fogos centrais no meu vulcânico espírito! Ir convosco, despir de mim — ah! põe-te daqui pra fora! — O meu traje de civilizado, a minha brandura de acções, Meu medo inato das cadeias, Minha pacífica vida, A minha vida sentada, estática, regrada e revista! No mar, no mar, no mar, no mar, Eh! pôr no mar, ao vento, às vagas, A minha vida! Salgar de espuma arremessada pelos ventos Meu paladar das grandes viagens. Fustigar de água chicoteante as carnes da minha aventura, Repassar de frios oceânicos os ossos da minha existência, Flagelar, cortar, engelhar de ventos, de espumas, de sóis, Meu ser ciclónico e atlântico, Meus nervos postos como enxárcias, Lira nas mãos dos ventos! Sim, sim, sim... Crucificai-me nas navegações E as minhas espáduas gozarão a minha cruz! Atai-me às viagens como a postes E a sensação dos postes entrará pela minha espinha E eu passarei a senti-los num vasto espasmo passivo! Fazei o que quiserdes de mim, logo que seja nos mares, Sobre conveses, ao som de vagas, Que me rasgueis, mateis, firais! O que quero é levar prà Morte Uma alma a transbordar de Mar, Ébria a cair das coisas marítimas, Tanto dos marujos como das âncoras, dos cabos, Tanto das costas longínquas como do ruído dos ventos Tanto do Longe como do Cais, tanto dos naufrágios Como dos tranquilos comércios, Tanto dos mastros como das vagas, Levar prà Morte com dor, voluptuosamente, Um copo cheio de sanguessugas, a sugar, a sugar, De estranhas verdes absurdas sanguessugas marítimas! Façam enxárcias das minhas veias! Amarras dos meus músculos! Arranquem-me a pele, preguem-a às quilhas. E possa eu sentir a dor dos pregos e nunca deixar de sentir! Façam do meu coração uma flâmula de almirante Na hora de guerra dos velhos navios! Calquem aos pés nos conveses meus olhos arrancados! Quebrem-me os ossos de encontro às amuradas! Fustiguem-me atado aos mastros, fustiguem-me! A todos os ventos de todas as latitudes e longitudes Derramem meu sangue sobre as águas arremessadas Que atravessam o navio, o tombadilho, de lado a lado, Nas vascas bravas das tormentas! Ter a audácia ao vento dos panos das velas! Ser, como as gáveas altas, o assobio dos ventos! A velha guitarra do Fado dos mares cheios de perigos, Canção para os navegadores ouvirem e não repetirem! Os marinheiros que se sublevaram Enforcaram o capitão numa verga. Desembarcaram um outro numa ilha deserta. Marooned! O sol dos trópicos pôs a febre da pirataria antiga Nas minhas veias intensivas. Os ventos da Patagónia tatuaram a minha imaginação De imagens trágicas e obscenas. Fogo, fogo, fogo, dentro de mim! Sangue! sangue! sangue! sangue! Explode todo o meu cérebro! Parte-se-me o mundo em vermelho! Estoiram-me com o som de amarras as veias! E estala em mim, feroz, voraz, A canção do Grande Pirata, A morte berrada do Grande Pirata a cantar Até meter pavor plas espinhas dos seus homens abaixo. Lá da ré a morrer, e a berrar, a cantar: Fifteen men on the Dead Man's Chest. Yo-ho ho and a bottle of rum! E depois a gritar, numa voz já irreal, a estoirar no ar: Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw! Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw! Fetch a-a-aft the ru-u-u-u-u-u-u-u-u-um, Darby. Eia, que vida essa! essa era a vida, eia! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Eh-lahô-lahô!-laHO-lahá-á-á-à-à! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Quilhas partidas, navios ao fundo, sangue nos mares! Conveses cheios de sangue, fragmentos de corpos! Dedos decepados sobre amuradas! Cabeças de crianças, aqui, acolá! Gente de olhos fora, a gritar, a uivar! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Embrulho-me em tudo isto como uma capa no frio! Roço-me por tudo isto como uma gata com cio por um muro! Rujo como um leão faminto para tudo isto! Arremeto como um toiro louco sobre tudo isto! Cravo unhas, parto garras; sangro dos dentes sobre isto! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! De repente estala-me sobre os ouvidos, Como um clarim a meu lado, O velho grito, mas agora irado, metálico, Chamando a presa que se avista, A escuna que vai ser tomada: Ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó—yyyy... Schooner ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó— yyyy... O mundo inteiro não existe para mim! Ardo vermelho! Rujo na fúria da abordagem! Pirata-mor! César-Pirata! Pilho, mato, esfacelo, rasgo! Só sinto o mar, a presa, o saque! Só sinto em mim bater, baterem-me As veias das minhas fontes! Escorre sangue quente a minha sensação dos meus olhos! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Ah piratas, piratas, piratas! Piratas, amai-me e odiai-me! Misturai-me convosco, piratas! Vossa fúria, vossa crueldade como falam ao sangue Dum corpo de mulher que foi meu outrora e cujo cio sobrevive! Eu queria ser um bicho representativo de todos os vossos gestos, Um bicho que cravasse dentes nas amuradas, nas quilhas, Que comesse mastros, bebesse sangue e alcatrão nos conveses, Trincasse velas, remos, cordame e poleame, Serpente do mar feminina e monstruosa cevando-se nos crimes! E há uma sinfonia de sensações incompatíveis e análogas. Há uma orquestração no meu sangue de balbúrdias de crimes, De estrépitos espasmados de orgias de sangue nos mares, Furibundamente, como um vendaval de calor pelo espírito, Nuvem de poeira quente anuviando a minha lucidez E fazendo-me ver e sonhar isto tudo só com a pele e as veias! Os piratas, a pirataria, os barcos, a hora, Aquela hora marítima em que as presas são assaltadas, E o terror dos apresados foge prà loucura — essa hora, No seu total de crimes, terror, barcos, gente, mar, céu, nuvens, Brisa, latitude, longitude, vozearia, Queria eu que fosse em seu Todo meu corpo em seu Todo, sofrendo, Que fosse meu corpo e meu sangue, compusesse meu ser em vermelho, Florescesse como uma ferida comichando na carne irreal da minha alma! Ah, ser tudo nos crimes! ser todos os elementos componentes Dos assaltos aos barcos e das chacinas e das violações! Ser quanto foi no lugar dos saques! Ser quanto viveu ou jazeu no local das tragédias de sangue! Ser o pirata-resumo de toda a pirataria no seu auge, E a vítima-síntese, mas de carne e osso, de todos os piratas do mundo! Ser o meu corpo passivo a mulher-todas-as-mulheres Que foram violadas, mortas, feridas, rasgadas pelos piratas! Ser no meu ser subjugado a fêmea que tem de ser deles E sentir tudo isso — todas estas coisas duma só vez — pela espinha! Ó meus peludos e rudes heróis da aventura e do crime! Minhas marítimas feras, maridos da minha imaginação! Amantes casuais da obliquidade das minhas sensações! Queria ser Aquela que vos esperasse nos portos, A vós, odiados amados do seu sangue de pirata nos sonhos! Porque ela teria convosco, mas só em espírito, raivado Sobre os cadáveres nus das vítimas que fazeis no mar! Porque ela teria acompanhado vosso crime, e na orgia oceânica Seu espírito de bruxa dançaria invisível em volta dos gestos Dos vossos corpos, dos vossos cutelos, das vossas mãos estranguladoras! E ela em terra, esperando-vos, quando viésseis, se acaso viésseis, Iria beber nos rugidos do vosso amor todo o vasto, Todo o nevoento e sinistro perfume das vossas vitórias, E através dos vossos espasmos silvaria um sabbat de vermelho e amarelo! A carne rasgada, a carne aberta e estripada, o sangue correndo! Agora, no auge conciso de sonhar o que vós fazíeis, Perco-me todo de mim, já não vos pertenço, sou vós, A minha femininidade que vos acompanha é ser as vossas almas! Estar por dentro de toda a vossa ferocidade, quando a praticáveis! Sugar por dentro a vossa consciência das vossas sensações Quando tingíeis de sangue os mares altos, Quando de vez em quando atiráveis aos tubarões Os corpos vivos ainda dos feridos, a carne rosada das crianças E leváveis as mães às amuradas para verem o que lhes acontecia! Estar convosco na carnagem, na pilhagem! Estar orquestrado convosco na sinfonia dos saques! Ah, não sei quê, não sei quanto queria eu ser de vós! Não era só ser-vos a fêmea, ser-vos as fêmeas, ser-vos as vítimas, Ser-vos as vítimas — homens, mulheres, crianças, navios —, Não era só ser a hora e os barcos e as ondas, Não era só ser vossas almas, vossos corpos, vossa fúria, vossa posse, Não era só ser concretamente vosso acto abstracto de orgia, Não era só isto que eu queria ser — era mais que isto o Deus-isto! Era preciso ser Deus, o Deus dum culto ao contrário, Um Deus monstruoso e satânico, um Deus dum panteísmo de sangue, Para poder encher toda a medida da minha fúria imaginativa, Para poder nunca esgotar os meus desejos de identidade Com o cada, e o tudo, e o mais-que-tudo das vossas vitórias! Ah, torturai-me para me curardes! Minha carne — fazei dela o ar que os vossos cutelos atravessam Antes de caírem sobre as cabeças e os ombros! Minhas veias sejam os fatos que as facas trespassam! Minha imaginação o corpo das mulheres que violais! Minha inteligência o convés onde estais de pé matando! Minha vida toda, no seu conjunto nervoso, histérico, absurdo, O grande organismo de que cada acto de pirataria que se cometeu Fosse uma célula consciente — e todo eu turbilhonasse Como uma imensa podridão ondeando, e fosse aquilo tudo! Com tal velocidade desmedida, pavorosa, A máquina de febre das minhas visões transbordantes Gira agora que a minha consciência, volante, É apenas um nevoento círculo assobiando no ar. Fifteen men on fhe Dead Man's Chest Yo-ho ho and a bottle of rum! Eh-lahô-lahô-laHO — láhá-á-ááá — ààà... Ah! a selvajaria desta selvajaria! Merda Pra toda a vida como a nossa, que não é nada disto! Eu prà'qui engenheiro, prático à força, sensível a tudo Prà'qui parado, em relação a vós, mesmo quando ando; Mesmo quando ajo, inerte; mesmo quando me imponho, débil; Estático, quebrado, dissidente cobarde da vossa Glória, Da vossa grande dinâmica estridente, quente e sangrenta! Arre! por não poder agir de acordo com o meu delírio! Arre! por andar sempre agarrado às saias da civilização! Por andar com a douceur des moeurs às costas, como um fardo de rendas! Moços de esquina — todos nós o somos — do humanitarismo moderno! Estupores de tísicos, de neurasténicos, de linfáticos, Sem coragem para ser gente com violência e audácia, Com a alma como uma galinha presa por uma perna! Ah, os piratas! os piratas! A ânsia do ilegal unido ao feroz, A ânsia das coisas absolutamente cruéis e abomináveis, Que rói como um cio abstracto os nossos corpos franzinos, Os nossos nervos femininos e delicados, E põe grandes febres loucas nos nossos olhares vazios! Obrigai-me a ajoelhar diante de vós! Humilhai-me e batei-me! Fazei de mim o vosso escravo e a vossa coisa! E que o vosso desprezo por mim nunca me abandone, Ó meus senhores! ó meus senhores! Tomar sempre gloriosamente a parte submissa Nos acontecimentos de sangue e nas sensualidades estiradas! Desabai sobre mim, como grandes muros pesados, Ó bárbaros do antigo mar! Rasgai-me e feri-me! De leste a oeste do meu corpo Riscai de sangue a minha carne! Beijai com cutelos de bordo e açoites e raiva O meu alegre terror carnal de vos pertencer. A minha ânsia masoquista em me dar à vossa fúria, Em ser objecto inerte e sentiente da vossa omnívora crueldade, Dominadores, senhores, imperadores, corcéis! Ah, torturai-me, Rasgai-me e abri-me! Desfeito em pedaços conscientes Entornai-me sobre os conveses, Espalhai-me nos mares, deixai-me Nas praias ávidas das ilhas! Cevai sobre mim todo o meu misticismo de vós! Cinzelai a sangue a minh'alma Cortai, riscai! Ó tatuadores da minha imaginação corpórea! Esfoladores amados da minha carnal submissão! Submetei-me como quem mata um cão a pontapés! Fazei de mim o poço para o vosso desprezo de domínio! Fazei de mim as vossas vítimas todas! Como Cristo sofreu por todos os homens, quero sofrer Por todas as vossas vítimas às vossas mãos, Ës vossas mãos calosas, sangrentas e de dedos decepados Nos assaltos bruscos de amuradas! Fazei de mim qualquer coisa como se eu fosse Arrastado — ó prazer, ó beijada dor! — Arrastado à cauda de cavalos chicoteados por vós... Mas isto no mar, isto no ma-a-a-ar, isto no MA-A-A-AR! Eh-eh-eh-eh-eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! EH-EH-EH-EH-EH-EH! No MA-A-AA-AR! Yeh eh-eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Grita tudo! tudo a gritar! ventos, vagas, barcos, Marés, gáveas, piratas, a minha alma, o sangue, e o ar, e o ar! Eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh-eh! Tudo canta a gritar! FIFTEEN MEN ON THE DEAD MAN'S CHEST. YO-HO-HO AND A BOTTLE OF RUM! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Eh-lahô-lahô-laHO-O-O-ôô-lahá-á á — ààà! AHÓ-Ó-Ó Ó Ó Ó-Ó Ó Ó Ó Ó — yyy!... SCHOONER AHÓ-Ó-Ó-Ó-Ó-Ó-Ó-Ó-Ó-Ó — yyyy!... Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw-aw! DARBY M'GRAW-AW-AW-AW-AW-AW-AW! FETCH A-A-AFT THE RU-U-U-U-U-UM, DARBY! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh eh-eh-eh! EH-EH EH-EH-EH EH-EH EH-EH EH-EH-EH! EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH EH EH-EH! EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH! EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH! Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu. Senti demais para poder continuar a sentir. Esgotou-se-me a alma, ficou só um eco dentro de mim. Decresce sensivelmente a velocidade do volante. Tiram-me um pouco as mãos dos olhos os meus sonhos. Dentro de mim há um só vácuo, um deserto, um mar nocturno. E logo que sinto que, há um mar nocturno dentro de mim, Sabe dos longes dele, nasce do seu silêncio, Outra vez, outra vez o vasto grito antiquíssimo. De repente, como um relâmpago de som, que não faz barulho mas ternura, Subitamente abrangendo todo o horizonte marítimo Húmido e sombrio marulho humano nocturno, Voz de sereia longínqua chorando, chamando, Vem do fundo do Longe, do fundo do Mar, da alma dos Abismos, E à tona dele, como algas, bóiam meus sonhos desfeitos... Ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó — yy... Schooner ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó — yy...... Ah, o orvalho sobre a minha excitação! o frescor nocturno no meu oceano interior! Eis tudo em mim de repente ante uma noite no mar Cheia de enorme mistério humaníssimo das ondas nocturnas. A lua sobe no horizonte E a minha infância feliz acorda, como uma lágrima, em mim. O meu passado ressurge, como se esse grito marítimo Fosse um aroma, uma voz, o eco duma canção Que fosse chamar ao meu passado Por aquela felicidade que nunca mais tornarei a ter. Era na velha casa sossegada ao pé do rio... (As janelas do meu quarto, e as da casa-de-jantar também, Davam, por sobre umas casas baixas, para o rio próximo, Para o Tejo, este mesmo Tejo, mas noutro ponto, mais abaixo... Se eu agora chegasse às mesmas janelas não chegava às mesmas janelas. Aquele tempo passou como o fumo dum vapor no mar alto...) Uma inexplicável ternura, Um remorso comovido e lacrimoso, Por todas aquelas vítimas — principalmente as crianças — Que sonhei fazendo ao sonhar-me pirata antigo, Emoção comovida, porque elas foram minhas vítimas; Terna e suave, porque não o foram realmente; Uma ternura confusa, como um vidro embaciado, azulada, Canta velhas canções na minha pobre alma dolorida. Ah, como pude eu pensar, sonhar aquelas coisas? Que longe estou do que fui há uns momentos! Histeria das sensações — ora estas, ora as opostas! Na loura manhã que se ergue, como o meu ouvido só escolhe As coisas de acordo com esta emoção — o marulho das águas, O marulho leve das águas do rio de encontro aos cais..., A vela passando perto do outro lado do rio, Os montes longínquos, dum azul japonês, As casas de Almada, E o que há de suavidade e de infância na hora matutina!... Uma gaivota que passa, E a minha ternura é maior. Mas todo este tempo não estive a reparar para nada. Tudo isto foi uma impressão só da pele, como uma carícia Todo este tempo não tirei os olhos do meu sonho longínquo, Da minha casa ao pé do rio, Da minha infância ao pé do rio, Das janelas do meu quarto dando para o rio de noite, E a paz do luar esparso nas águas!... Minha velha tia, que me amava por causa do filho que perdeu..., Minha velha tia costumava adormecer-me cantando-me (Se bem que eu fosse já crescido demais para isso)... Lembro-me e as lágrimas caem sobre o meu coração e lavam-no da vida, E ergue-se uma leve brisa marítima dentro de mim. Às vezes ela cantava a «Nau Catrineta»: Lá vai a Nau Catrineta Por sobre as águas do mar ... E outras vezes, numa melodia muito saudosa e tão medieval, Era a «Bela Infanta»... Relembro, e a pobre velha voz ergue-se dentro de mim E lembra-me que pouco me lembrei dela depois, e ela amava-me tanto! Como fui ingrato para ela — e afinal que fiz eu da vida? Era a «Bela Infanta»... Eu fechava os olhos e ela cantava: Estando a Bela Infanta No seu jardim assentada Eu abria um pouco os olhos e via a janela cheia de luar E depois fechava os olhos outra vez, e em tudo isto era feliz. Estando a Bela Infanta No seu jardim assentada, Seu pente de ouro na mão, Seus cabelos penteava Ó meu passado de infância, boneco que me partiram! Não poder viajar pra o passado, para aquela casa e aquela afeição, E ficar lá sempre, sempre criança e sempre contente! Mas tudo isto foi o Passado, lanterna a uma esquina de rua velha. Pensar isto faz frio, faz fome duma coisa que se não pode obter. Dá-me não sei que remorso absurdo pensar nisto. Oh turbilhão lento de sensações desencontradas! Vertigem ténue de confusas coisas na alma! Fúrias partidas, ternuras como carrinhos de linha com que as crianças brincam, Grandes desabamentos de imaginação sobre os olhos dos sentidos, Lágrimas, lágrimas inúteis, Leves brisas de contradição roçando pela face a alma... Evoco, por um esforço voluntário, para sair desta emoção, Evoco, com um esforço desesperado, seco, nulo, A canção do Grande Pirata, quando estava a morrer: Fifteen men on the Dead Man's Chest. Yo-ho-ho and a bottle of rum! Mas a canção é uma linha recta mal traçada dentro de mim... Esforço-me e consigo chamar outra vez ante os meus olhos na alma, Outra vez, mas através duma imaginação quase literária, A fúria da pirataria, da chacina, o apetite, quase o paladar, do saque, Da chacina inútil de mulheres e de crianças, Da tortura fútil, e só para nos distrairmos, dos passageiros pobres E a sensualidade de escangalhar e partir as coisas mais queridas dos outros, Mas sonho isto tudo com um medo de qualquer coisa respirar-me sobre a nuca. Lembro-me de que seria interessante Enforcar os filhos à vista das mães (Mas sinto-me sem querer as mães deles), Enterrar vivas nas ilhas desertas as crianças de quatro anos Levando os pais em barcos até lá para verem (Mas estremeço, lembrando-me dum filho que não tenho e está dormindo tranquilo em casa). Aguilhoo uma ânsia fria dos crimes marítimos, Duma inquisição sem a desculpa da Fé, Crimes nem sequer com razão de ser de maldade e de fúria, Feitos a frio, nem sequer para ferir, nem sequer para fazer mal, Nem sequer para nos divertirmos, mas apenas para passar o tempo, Como quem faz paciências a uma mesa de jantar de província com a toalha atirada pra o outro lado da mesa depois de jantar, Só pelo suave gosto de cometer crimes abomináveis e não os achar grande coisa, De ver sofrer até ao ponto da loucura e da morte-pela-dor mas nunca deixar chegar lá... Mas a minha imaginação recusa-se a acompanhar-me. Um calafrio arrepia-me. E de repente, mais de repente do que da outra vez, de mais longe, de mais fundo, De repente — oh pavor por todas as minhas veias! —, Oh frio repentino da porta para o Mistério que se abriu dentro de mim e deixou entrar uma corrente de ar! Lembro-me de Deus, do Transcendental da vida, e de repente A velha voz do marinheiro inglês Jim Barns com quem eu falava, Tornada voz das ternuras misteriosas dentro de mim, das pequenas coisas de regaço de mãe e de fita de cabelo de irmã, Mas estupendamente vinda de além da aparência das coisas, A Voz surda e remota tornada A Voz Absoluta, a Voz Sem Boca, Vinda de sobre e de dentro da solidão nocturna dos mares, Chama por mim, chama por mim, chama por mim... Vem surdamente, como se fosse suprimida e se ouvisse, Longinquamente, como se estivesse soando noutro lugar e aqui não se pudesse ouvir, Como um soluço abafado, uma luz que se apaga, um hálito silencioso, De nenhum lado do espaço, de nenhum local no tempo, O grito eterno e nocturno, o sopro fundo e confuso: Ahô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô — yyy ...... Ahô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô — — yyy...... Schooner ah-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô — — yy......... Tremo com frio da alma repassando-me o corpo E abro de repente os olhos, que não tinha fechado. Ah, que alegria a de sair dos sonhos de vez! Eis outra vez o mundo real, tão bondoso para os nervos! Ei-lo a esta hora matutina em que entram os paquetes que chegam cedo. Já não me importa o paquete que entrava. Ainda está longe. Só o que está perto agora me lava a alma. A minha imaginação higiénica, forte, prática, Preocupa-se agora apenas com as coisas modernas e úteis, Com os navios de carga, com os paquetes e os passageiros, Com as fortes coisas imediatas, modernas, comerciais, verdadeiras. Abranda o seu giro dentro de mim o volante. Maravilhosa vida marítima moderna, Toda limpeza, máquinas e saúde! Tudo tão bem arranjado, tão espontaneamente ajustado, Todas as peças das máquinas, todos os navios pelos mares, Todos os elementos da actividade comercial de exportação e importação Tão maravilhosamente combinando-se Que corre tudo como se fosse por leis naturais, Nenhuma coisa esbarrando com outra! Nada perdeu a poesia. E agora há a mais as máquinas Com a sua poesia também, e todo o novo género de vida Comercial, mundana, intelectual, sentimental, Que a era das máquinas veio trazer para as almas. As viagens agora são tão belas como eram dantes E um navio será sempre belo, só porque é um navio. Viajar ainda é viajar e o longe está sempre onde esteve — Em parte nenhuma, graças a Deus! Os portos cheios de vapores de muitas espécies! Pequenos, grandes, de várias cores, com várias disposições de vigias, De tão deliciosamente tantas companhias de navegação! Vapores nos portos, tão individuais na separação destacada dos ancoramentos! Tão prazenteiro o seu garbo quieto de coisas comerciais que andam no mar, No velho mar sempre o homérico, ó Ulisses! O olhar humanitário dos faróis na distância da noite, Ou o súbito farol próximo na noite muito escura («Que perto da terra que estávamos passando!» E o som da água canta-nos ao ouvido)!... Tudo isto hoje é como sempre foi, mas há o comércio; E o destino comercial dos grandes vapores Envaidece-me da minha época! A mistura de gente a bordo dos navios de passageiros Dá-me o orgulho moderno de viver numa época onde é tão fácil Misturarem-se as raças, transporem-se os espaços, ver com facilidade todas as coisas, E gozar a vida realizando um grande número de sonhos. Limpos, regulares, modernos como um escritório com guichets em redes de arame amarelo, Meus sentimentos agora, naturais e comedidos como gentlemen, São práticos, longe de desvairamentos, enchem de ar marítimo os pulmões, Como gente perfeitamente consciente de como é higiénico respirar o ar do mar. O dia é perfeitamente já de horas de trabalho. Começa tudo a movimentar-se, a regularizar-se. Com um grande prazer natural e directo percorro com a alma Todas as operações comerciais necessárias a um embarque de mercadorias A minha época é o carimbo que levam todas as facturas, E sinto que todas as cartas de todos os escritórios Deviam ser endereçadas a mim. Um conhecimento de bordo tem tanta individualidade, E uma assinatura de comandante de navio é tão bela e moderna! Rigor comercial do princípio e do fim das cartas: Dear Sirs — Messieurs — Amigos e Srs., Yours faithfully —... nos salutations empressées... Tudo isto não é só humano e limpo, mas também belo, E tem ao fim um destino marítimo, um vapor onde embarquem As mercadorias de que as cartas e as facturas tratam. Complexidade da vida! As facturas são feitas por gente Que tem amores, ódios, paixões políticas, às vezes crimes — E são tão bem escritas, tão alinhadas, tão independentes de tudo isso! Há quem olhe para uma factura e não sinta isto. Com certeza que tu, Cesário Verde, o sentias. Eu é até às lágrimas que o sinto humanissimamente. Venham dizer-me que não há poesia no comércio, nos escritórios! Ora, ela entra por todos os poros... Neste ar marítimo respiro-a, Porque tudo isto vem a propósito dos vapores, da navegação moderna, Porque as facturas e as cartas comerciais são o princípio da história E os navios que levam as mercadorias pelo mar eterno são o fim. Ah, e as viagens, as viagens de recreio, e as outras, As viagens por mar, onde todos somos companheiros dos outros Duma maneira especial, como se um mistério marítimo Nos aproximasse as almas e nos tornasse um momento Patriotas transitórios duma mesma pátria incerta, Eternamente deslocando-se sobre a imensidade das águas! Grandes hotéis do Infinito, oh transatlânticos meus! Com o cosmopolitismo perfeito e total de nunca pararem num ponto E conterem todas as espécies de trajes, de caras, de raças! As viagens, os viajantes — tantas espécies deles! Tanta nacionalidade sobre o mundo! tanta profissão! tanta gente! Tanto destino diverso que se pode dar à vida, Ë vida, afinal, no fundo sempre, sempre a mesma! Tantas caras curiosas! Todas as caras são curiosas E nada traz tanta religiosidade como olhar muito para gente. A fraternidade afinal não é uma ideia revolucionária. É uma coisa que a gente aprende pela vida fora, onde tem que tolerar tudo, E passa a achar graça ao que tem que tolerar, E acaba quase a chorar de ternura sobre o que tolerou! Ah, tudo isto é belo, tudo isto é humano e anda ligado Aos sentimentos humanos, tão conviventes e burgueses. Tão complicadamente simples, tão metafisicamente tristes! A vida flutuante, diversa, acaba por nos educar no humano. Pobre gente! pobre gente toda a gente! Despeço-me desta hora no corpo deste outro navio Que vai agora saindo. É um tramp-steamer inglês, Muito sujo, como se fosse um navio francês, Com um ar simpático de proletário dos mares, E sem dúvida anunciado ontem na última página das gazetas. Enternece-me o pobre vapor, tão humilde vai ele e tão natural. Parece ter um certo escrúpulo não sei em quê, ser pessoa honesta, Cumpridora duma qualquer espécie de deveres. Lá vai ele deixando o lugar defronte do cais onde estou. Lá vai ele tranquilamente, passando por onde as naus estiveram Outrora, outrora... Para Cardiff? Para Liverpool? Para Londres? Não tem importância. Ele faz o seu dever. Assim façamos nós o nosso. Bela vida! Boa viagem! Boa viagem! Boa viagem, meu pobre amigo casual, que me fizeste o favor De levar contigo a febre e a tristeza dos meus sonhos, E restituir-me à vida para olhar para ti e te ver passar. Boa viagem! Boa viagem! A vida é isto... Que aprumo tão natural, tão inevitavelmente matutino Na tua saída do porto de Lisboa, hoje! Tenho-te uma afeição curiosa e grata por isso... Por isso quê? Sei lá o que é!... Vai... Passa... Com um ligeiro estremecimento, (T-t--t---t----t-----t...) O volante dentro de mim pára. Passa, lento vapor, passa e não fiques... Passa de mim, passa da minha vista, Vai-te de dentro do meu coração. Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus, Perde-te, segue o teu destino e deixa-me... Eu quem sou para que chore e interrogue? Eu quem sou para que te fale e te ame? Eu quem sou para que me perturbe ver-te? Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro, Luzem os telhados dos edifícios do cais, Todo o lado de cá da cidade brilha... Parte, deixa-me, torna-te Primeiro o navio a meio do rio, destacado e nítido, Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto, Depois ponto vago no horizonte (ó minha angústia!), Ponto cada vez mais vago no horizonte..., Nada depois, e só eu e a minha tristeza, E a grande cidade agora cheia de sol E a hora real e nua como um cais já sem navios, E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira, Traça um semicírculo de não sei que emoção No silêncio comovido da minh'alma... s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 162. 1ª publ. in Orpheu , nº2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915. A FERNANDO PESSOA Depois de ler o seu drama estático «O Marinheiro» em «Orpheu I» Depois de doze minutos Do seu drama O Marinheiro , Em que os mais ágeis e astutos Se sentem com sono e brutos, E de sentido nem cheiro, Diz uma das veladoras Com langorosa magia: De eterno e belo há apenas o sono. Porque estamos nós falando ainda? Ora isso mesmo é que eu ia Perguntar a essas senhoras... 1915 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 215. 1ª publ. in Solução Editora , nº4. Lisboa: 1929. LISBON REVISITED (1923) Não: não quero nada Já disse que não quero nada. Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer. Não me tragam estéticas! Não me falem em moral! Tirem-me daqui a metafísica! Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — Das ciências, das artes, da civilização moderna! Que mal fiz eu aos deuses todos? Se têm a verdade, guardem-na! Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. Com todo o direito a sê-lo, ouviram? Não me macem, por amor de Deus! Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. Assim, como sou, tenham paciência! Vão para o diabo sem mim, Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! Para que havemos de ir juntos? Não me peguem no braço! Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho. Já disse que sou sozinho! Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia! Ó céu azul — o mesmo da minha infância — Eterna verdade vazia e perfeita! Ó macio Tejo ancestral e mudo, Pequena verdade onde o céu se reflecte! Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta. Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo... E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho! 1923 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 247. 1ª publ. in Contemporânea , nº 8. Lisboa: 1923. LISBON REVISITED (1926) Nada me prende a nada. Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. Anseio com uma angústia de fome de carne O que não sei que seja — Definidamente pelo indefinido... Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto De quem dorme irrequieto, metade a sonhar. Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias. Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver na rua. Não há na travessa achada número de porta que me deram. Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido. Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota. Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados. Até a vida só desejada me farta — até essa vida... Compreendo a intervalos desconexos; Escrevo por lapsos de cansaço; E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia. Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme; Não sei que ilhas do Sul impossível aguardam-me náufrago; Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso. Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma... E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei, Nos campos últimos da alma onde memoro sem causa (E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas), Nas estradas e atalhos das florestas longínquas Onde supus o meu ser, Fogem desmantelados, últimos restos Da ilusão final, Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido, As minhas coortes por existir, esfaceladas em Deus. Outra vez te revejo, Cidade da minha infância pavorosamente perdida... Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui... Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei, E aqui tornei a voltar, e a voltar, E aqui de novo tornei a voltar? Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram, Uma série de contas-entes ligadas por um fio-memória, Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim? Outra vez te revejo, Com o coração mais longínquo, a alma menos minha. Outra vez te revejo — Lisboa e Tejo e tudo —, Transeunte inútil de ti e de mim, Estrangeiro aqui como em toda a parte, Casual na vida como na alma, Fantasma a errar em salas de recordações, Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem No castelo maldito de ter que viver... Outra vez te revejo, Sombra que passa através de sombras, e brilha Um momento a uma luz fúnebre desconhecida, E entra na noite como um rastro de barco se perde Na água que deixa de se ouvir... Outra vez te revejo, Mas, ai, a mim não me revejo! Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico, E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim — Um bocado de ti e de mim!... 26-4-1926 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 249. 1ª publ. in Contemporânea, 3ª série, nº2. Lisboa: Jun. 1926. TABACARIA Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?), Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, E não tivesse mais irmandade com as coisas Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada De dentro da minha cabeça, E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida. Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade que devo À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. Falhei em tudo. Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. A aprendizagem que me deram, Desci dela pela janela das traseiras da casa, Fui até ao campo com grandes propósitos. Mas lá encontrei só ervas e árvores, E quando havia gente era igual à outra. Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar? Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! Génio? Neste momento Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, E a história não marcará, quem sabe?, nem um, Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. Não, não creio em mim. Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? Não, nem em mim... Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando? Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas — Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —, E quem sabe se realizáveis, Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? O mundo é para quem nasce para o conquistar E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, Ainda que não more nela; Serei sempre o que não nasceu para isso ; Serei sempre só o que tinha qualidades ; Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, E ouviu a voz de Deus num poço tapado. Crer em mim? Não, nem em nada. Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. Escravos cardíacos das estrelas, Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama; Mas acordámos e ele é opaco, Levantámo-nos e ele é alheio, Saímos de casa e ele é a terra inteira, Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido. (Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho, Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei A caligrafia rápida destes versos, Pórtico partido para o Impossível. Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, Nobre ao menos no gesto largo com que atiro A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas, E fico em casa sem camisa. (Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas, Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, Ou não sei quê moderno — não concebo bem o quê —, Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! Meu coração é um balde despejado. Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco A mim mesmo e não encontro nada. Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, Vejo os cães que também existem, E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, E tudo isto é estrangeiro, como tudo.) Vivi, estudei, amei, e até cri, E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente. Fiz de mim o que não soube, E o que podia fazer de mim não o fiz. O dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. Deitei fora a máscara e dormi no vestiário Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo E vou escrever esta história para provar que sou sublime. Essência musical dos meus versos inúteis, Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse, E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, Calcando aos pés a consciência de estar existindo, Como um tapete em que um bêbado tropeça Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada. Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada E com o desconforto da alma mal-entendendo. Ele morrerá e eu morrerei. Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos. A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também. Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, E a língua em que foram escritos os versos. Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra, Sempre o impossível tão estúpido como o real, Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?), E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. Semiergo-me enérgico, convencido, humano, E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário. Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. Sigo o fumo como uma rota própria, E gozo, num momento sensitivo e competente, A libertação de todas as especulações E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto. Depois deito-me para trás na cadeira E continuo fumando. Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira Talvez fosse feliz.) Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica. (O Dono da Tabacaria chegou à porta.) Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves! , e o universo Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu. 15-1-1928 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 252. 1ª publ. in Presença, nº 39. Coimbra: Jul. 1933. DOIS RITMOS Não sei se houve alguma vez espírito especulativo ou curioso que tentasse distinguir as civilizações antigas das modernas — entendendo por antigas a grega e a romana apenas — pela diferença dos sistemas rítmicos empregados no verso. O facto de que os gregos e os romanos usavam do sistema quantitativo para a medida de seus versos, quando os povos modernos se servem do sistema acentual e da rima tem por certo um sentido de distinção. Por fácil que se tornasse pelo hábito de assim escrever, certo é que o ritmo quantitativo é muito mais difícil de usar que o ritmo acentual. A civilização greco-romana tornava difícil a vitória; nós tornamos fácil o fingimento dela. Para fazer versos em grego ou em latim é preciso muito mais esforço que para fazê-los em qualquer língua moderna. A barreira da quantidade tem seu par na barreira da servidão. 1930 Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 270. O ritmo paragráfico tem sido mal recebido, e, em parte, compreende-se porquê. No caso de Whitman, a incompreensão — que em todo o caso não foi grande, e com certeza não foi geral — explica-se pela novidade, não só do próprio ritmo (aliás pressentido por vários, como Blake, (...), mas da matéria, pois foi Whitman o primeiro que teve o que depois se veio a chamar sensibilidade futurista — e cantou coisas que se consideravam pouco poéticas, quando é certo que só o prosaico é que é pouco poético, e o prosaico não está nas coisas mas em nós. Whitman, porém, desorientou porque apresentou duas novidades juntas. O mesmo ahurissement produzi eu com a minha Ode Triunfal, no Orpheu 1, visto que, embora escrita perto de setenta anos depois da primeira edição das Leaves of Grass , aqui ninguém sabia sequer da existência de Whitman, como não sabem em geral da própria existência das coisas. Mas no caso dos decadentes e simbolistas franceses, a incompreensão do ritmo paragráfico, e a aversão a ele, teve outra origem. Os decadentes franceses usaram um ritmo irregular e sem rima para dizer asneiras: o conteúdo matou o continente. Compreende-se que o infeliz que tomou o conhecimento do ritmo irregular através das imbecilidades de Maeterlinck, nas Serres Chaudes , do delírio idiota de René Ghil, das assonâncias sem sentido de Gustave Kahn, identificasse aquela ausência de fundo com a ausência de ritmo, nem sempre existente, pois, por exemplo, Khan tem ritmos realmente impressionantes. Isso, porém, nada tinha com o ritmo. Mallarmé, que escrevia em versos rigorosamente «clássicos», tinha a mesma nebulosidade de sentido, compelindo o leitor a decifrar charadas sem conceito ao mesmo tempo que procurava senti-las. O ritmo paragráfico, quando realmente se obtém, varia com os seus práticos. Largo, complexo, curioso misto de ritmos de verso e de prosa, em Whitman; curto, hirto, dogmático, prosaico sem prosa, poético sem quase poesia, no mestre Caeiro; pitoresco vindo parar à incrível idiotia de Marinetti, cuja banalidade mental lhe não permitia inserir qualquer ideia no ritmo irregular, porque lhe não permitia inseri-la em coisa nenhuma e lhe chamou «futurismo», como se a expressão «futurismo» contivesse qualquer sentido compreensível. «Futurista» é só toda a obra que dura; e por isso os disparates de Marinetti são o que há de menos futurista. Tomemos um exemplo, simples e breve, em Caeiro: Leve, leve, muito leve, (...) s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 272. 1ª versão in Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. ESCRITO NUM LIVRO ABANDONADO EM VIAGEM Venho dos lados de Beja. Vou para o meio de Lisboa. Não trago nada e não acharei nada. Tenho o cansaço antecipado do que não acharei, E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro. Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto: Fui como ervas, e não me arrancaram. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 260. 1ª publ. in Presença , nº10. Coimbra: Mar. 1928. APOSTILA Aproveitar o tempo! Mas o que é o tempo, que eu o aproveite? Aproveitar o tempo! Nenhum dia sem linha... O trabalho honesto e superior... O trabalho à Virgílio, à Milton... Mas é tão difícil ser honesto ou superior! É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio! Aproveitar o tempo! Tirar da alma os bocados precisos — nem mais nem menos — Para com eles juntar os cubos ajustados Que fazem gravuras certas na história (E estão certas também do lado de baixo que se não vê)... Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões, E os pensamentos em dominó, igual contra igual, E a vontade em carambola difícil. Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos — Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida. Verbalismo... Sim, verbalismo... Aproveitar o tempo! Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça... Não ter um acto indefinido nem factício... Não ter um movimento desconforme com propósitos... Boas maneiras da alma... Elegância de persistir... Aproveitar o tempo! Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro. Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto. Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste. Aproveitar o tempo! Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos. Aproveitei-os ou não? Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?! (Passageira que viajaras tantas vezes no mesmo compartimento comigo No comboio suburbano, Chegaste a interessar-te por mim? Aproveitei o tempo olhando para ti? Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante? Qual foi o entendimento que não chegámos a ter? Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?) Aproveitar o tempo! Ah, deixem-me não aproveitar nada! Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!... Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa, A poeira de uma estrada involuntária e sozinha, O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras, O pião do garoto, que vai a parar, E oscila, no mesmo movimento que o da alma, E cai, como caem os deuses, no chão do Destino. 11-4-1928 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 261. 1ª publ. in Presença , 2ª série, nº 1. Coimbra: Nov. 1939. O meu mestre Caeiro detestava as suposições. «Ora suponha que» ia eu uma vez dizendo, mas ele interrompeu: «Com que hei-de supor? Com os olhos? Com os ouvidos?» Respondi, sorrindo, «Com a alma». E o Mestre retorquiu-me (...) s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 174. OPIARY Life tastes to me like golden tobacco. I have never done anything but smoke life. After all of what use was it to me to have Gone to the East and seen India and China? The earth is similar and little And there is only one way of living. I pretended to study engineering. I lived in Scotland. I visited Ireland. My heart is a poor grandmother who goes about Begging at the doors of Joy. I am unfortunate by primogeniture. The gipsies stole my luck. Perhaps I shall not even find near death A place to shelter me from my cold. And I was a child like other people. I was born in a Portuguese province, And have met English people Who say I speak English perfectly. s.d. Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 88. 1ª publ.: Poemas de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Cleonice Berardinelli.) Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990. O meu mestre Caeiro disse uma vez que, quando o mundo material não tivesse outra vantagem, tinha a de ser visível. E cada vez que penso neste dito, mais profundo o sinto, apesar da sua simplicidade. Basta reparar na facilidade com que se não pode intrujar no material. Se um homem me diz que tem Deus na algibeira, não sei a que prova o hei-de submeter para (o) verificar. Mas se me diz que tem cinco libras, a prova é facílima. E isto quer dizer que no espiritual podemos todos mentir à vontade e que mais vale o físico, em fim de contas, que o metafísico. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 174. NAVAL ODE Alone, on the deserted quay, this summer morning, I look towards the bar, I look towards the Indefinite, I look and find pleasure in seeing, Little, black and clear, a steamer coming in. It is very far yet, distinct and classic after its own fashion. It leaves on the distant air behind it the vain curls of its smoke. It is coming in, and morn comes in with it, and on the river Here, there, naval life awakes, Sails arise, tugs advance, Small boats jut out from behind the ships in the port. There is a vague breeze. But my soul is with the things that I see least, With the in-coming steamer, Because it is with Distance, with Morn, With the naval meaning of this Hour, With the painful softness that rises in me like a qualm, Like a beginning of sea-sickness, but in my soul. I look from afar at the steamer, with a great independence of mind And a whell begins to spin in me, very slowly. The steamers that enter the bar in the morning, Bring to my eyes with their coming The glad and sad mystery of all who arrive and depart. They bring memories of distant quays, and of other moments Of another kind of the same mankind in other ports. Every (...), every departure of a ship, Is — I feel it in me like my blood — Unconsciously symbolic, terribly Threatening metaphysical meanings That startle in me the being I once … Ah, every quay is a regret made of stone! And when the ship leaves the quay And we note suddenly that a space is widening Between the quay and the ship, There comes to me, I know not why, a recent anguish, A mist of feelings of sadness That shines in the sun of my mosy anguishes Like the first window the morning strikes on, And clings round me like some one else's remembrance Which is somehow mysteriously mine. Ah, who knows, who knows, If I did not leave long ago, before Myself, A quay; if I did not depart, a ship in The oblique sun of morning, From another kind of port? Who knows if I did not leave, before the hour Of the exterior world as I see it Dawned for me, A large quay full of few people, Of a great half-awakened city, Of a great city commercial, overgrown, apopletical, As much as that can be outside Time and Space? Ay, from a quay, from a quay somehow material, Real, visible as a quay, really a quay, The Absolute Quay on whose type, unconsciously imitated, Insensibly evoked, We men have built Our quays in our harbours, Our quays, of actual stone overlooking true water, Which, once built, suddenly show themselves to be Real-Things, Things-Spirits, Entities in Stone-Souls, At certain moments of ours of root-sentiments When it seems that a door is opened in the outer world And, without anything changing Everything reveals itself to be different. Ah, the Great Quay whence we embarked in Ship-Nations! The Great Earlier Quay, eternal and divine! Of what port? Over what waters? And why do I think of this? A Great Quay like all other quays, but the Only One. Full, as they are, of murmurous silences in the fore-dawns And budding with the dawns in a noise of cranes And arrivals of goods-trains And under the black, occasional and light cloud Of the smoke of the chimneys of the near factories Which clouds its ground, black with small shining coal, As if it were the shadow of a cloud passing over dark water. Ah, what essentiality of mystery and arrested senses In a divine revealing ecstasy At the hours coloured like silences and anguishes Is the bridge between any quay and THE QUAY! Quay blackly reflected in the still waters, Suddle [?] on board the ships, Oh wandering and unstable soul of the people who live in ships, Of the symbolic people who pass and for whom, nothing lasts For when the vessel returns to the port, There is always some change on board! On continual flights, goings, drunknness of the Different! Eternal soul of navigators and navigations! Hulls slowly reflected in the waters When the ship leaves the port! To float as soul of life, to depart as voice, To live the moment tremulously on eternal waters! To wake to more direct days than the days of Europe, To see mysterious ports over the loneliness of the sea, To double distant capes and see sudden great landscapes Of unnumbred astonished alones! Ah, the distant beaches, the quays seen from afar, And then the near beaches and the quays seen from near. The mystery of each departure and of each arrival, The painful instability and incomprehensibility Of this impossible universe At each naval hour ever more deeply felt right in my skin. The absurd sob that our souls spill Over the ever-different tracts of seas with islands afar, Over the distant lines of the coasts we merely pass by, Over the clear growing-clear of ports, with their houses and their people, When the ship nears the land. Ah, the freshness of morns when we arrive, And the paleness of the morns when we depart, When our entrails are gripped up And a vague sensation resembling a fear — The ancestral fear of going away and leaving, The mysterious ancestral terror of Arrivals and New Things — Grips up our skin and gives us qualms And all our anguished body feels, As if it were our soul, An unexplained desire to feel this in some other way: A regret at something, A perturbation of tendernesses towards what vague fatherland? What coast? what ship? what quay? That thought sickens within us And only a great vaccum remains in us, A hollow satiety of naval minutes, And a vague anxiety that would be weariness or pain If it knew how to be that… The summer morning is, nevertheless, slightly cool, A slight night-dullness lies yet on the shaken air. The wheel within me quickens its motion slightly. And the steamer keeps on coming in, because surely it must coming in, And not because I see it moving in its excessive distance. In my imagination it is already near and visible In all the extent of the lines of its portholes, And everything trembles in me, all my flesh and all my skin, On account of that creature that never arrives in any ship And whom I have come to await to-day on this quay, through an oblique command. 1915 Pessoa Inédito . Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 89. 1ª publ.: Poemas de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Cleonice Berardinelli.) Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990. — Cegar! Cegar! exclamou Caeiro com um berro esquecido de toda a alternativa. — Você prefere... — Tudo menos cegar, gritou Caeiro. — Contudo, disse eu... — Quem me tira os testículos, tira-me só a possibilidade de todas as mulheres; quem me tira os olhos, tira-me realmente do universo inteiro. Falava o semi-deus criança. O seu critério organicamente infantil e divino não concebe os meandros do viril e do humano. Sim. O meu mestre Caeiro não sabe que quem nos tirasse os testículos nos tirava até a virgindade se a quisesse tirar. O meu mestre Caeiro não adivinha as ramificações [?] espirituais do líquido espermático. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 174. MODERNAS CORRENTES NA LITERATURA PORTUGUESA Em todas as épocas e em todos os países debatem-se, uma contra a outra, duas correntes, uma nacional e outra cosmopolita. Talvez fosse mais justo chamar à primeira não já nacional mas tradicionalista, porquanto, em países onde não esteja ainda estabelecida uma corrente nacional, isto é, onde ainda não se saiba o que é um sentimento nacional, esta corrente vira-se para um passado qualquer — o clássico, por exemplo. Assim, no tempo da Rainha Isabel em Inglaterra, a corrente clássica representada por Ben Jonson é que é tradicionalista porque se vira para os ideais artísticos de Grécia e Roma; a corrente representada por Shakespeare é a cosmopolita porque se entrega a si própria, e como entregar-se a si própria é entregar-se às influências do momento, e como as influências profundas do momento são comuns a todas as nações (mais ou menos) nesse tempo, segue que essa corrente é fatalmente o que se pode chamar cosmopolita. Em Portugal hoje debatem-se duas correntes, antes não se debatem por enquanto, mas em todo o caso a sua existência é antagónica. Uma é a da Renascença Portuguesa, a outra é dupla, é realmente duas correntes. Divide-se no sensacionismo, de que é chefe o sr. Alberto Caeiro, e no paùlismo, cujo representante principal é o sr. Fernando Pessoa. Ambas estas correntes são antagónicas àquela que é formada pela Renascença Portuguesa. Ambas são cosmopolitas, porquanto cada qual parte de uma das duas grandes correntes europeias actuais. O sensacionismo prende-se à atitude enérgica, vibrante, cheia de admiração pela Vida, pela Matéria e pela Força, que tem lá fora representantes com Verhaeren, Marinetti, a Condessa de Noailles e Kipling (tantos géneros diferentes dentro da mesma corrente!); o paùlismo pertence à corrente cuja primeira manifestação nítida foi o simbolismo. Ambas estas correntes tem entre nós este igual característico em relação ao seu ponto de partida e que é para nos orgulharmos — de que são avanços enormes nas correntes em que se integram. O sensacionismo é um grande progresso sobre tudo quanto lá fora na mesma orientação se faz. O paùlismo é um enorme progresso sobre todo o simbolismo e neo-simbolismo de lá fora. 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 125. Sensationism began with the friendship between Fernando Pessoa and Mário de Sá-Carneiro. It is probably difficult to separate the part each of them had in the origin of the movement, and certainly quite useless to determine it. The fact is they built up the beginnings between them . But each Sensationist worth mentioning is a separate personality, and they have naturally all interacted. Fernando Pessoa and Mário de Sá-Carneiro stand nearest to the symbolists. ÁIvaro de Campos and Almada-Negreiros are the nearest to the more modern style of feeling and writing. The others are intermediate. Fernando Pessoa suffers from classical culture. No sensationist has gone higher than Sá-Carneiro in the expression of what may be called, in sensationism, coloured feelings. His imagination — one of the very finest in modern literature, for he outdid Poe in the reasoning-tale, in The Strange Death of Professor Antena — rioted among the elements given it by the senses and his colour-sense is one of the intensest ones in literary men. Fernando Pessoa is more purely intellectual; his power lies more in the intellectual analysis of feeling and emotion, which he has carried to a perfection which renders us almost breathless. Of his static Drama The Sailor a reader once said: «It makes the exterior world quite unreal», and it does. No more remote thing exists in literature. Maeterlinck’s best nebulosity and subtlety is coarse and carnal by comparison. José de Almada-Negreiros is more spontaneous and rapid, but he is none the less a man of genius. He is younger than the others, not only in age, but in spontaneity and effervescence. His is a very distinct personality, and the wonder is how he came about it so early Luiz de Montalvor is the nearest to the symbolists. He is very little removed, in point of style and spiritual direction, from Mallarmé, who, it is not difficult to guess, must be his favourite poet. But there are clear sensationist elements in his poetry, things entirely out; of Mallarmé, more intellectually deeper, more heartfelt in the brain, to speak quite sensationistically. How far more interesting than the cubists and the futurists! I never wished to know personally any of the sensationists. Being persuaded that the best knowledge is impersonal. Álvaro de Campos is excellently defined as a Walt Whitman with a Greek poet inside. He has all the power of intellectual, emotional and physical sensation that characterised Whitman. But he has the precisely opposite trait — a Power of construction and orderly development of a poem that no poet since Milton has attained. Álvaro de Campos' Triumphal Ode , which is written in the whitmanesque absence of stanza and rhyme (and regularity) has a construction and an orderly development which stultifies the perfection that Lycidas , for instance, can claim in this particular. The Naval Ode , which covers no less than 22 pages of Orpheu , is a very marvel of organisation. No German regiment ever had the inner discipline which underlies that composition, which, from its typographical aspect, might almost be considered as a specimen of futurist carelessness. The same considerations apply to the magnificent Salutation to Walt Whitman in the third Orpheu . The same considerations might almost apply to José de Almada-Negreiros: if he were not less disciplined and more (...) The Scene of Hatred written by «J[osé de Almada-Negreiros], sensationist poet and Narcissus of Egypt» (as he calls himself) (...) He is said to have many unprinted works and some unprintable ones. The sensationist who has published most is Mário de Sá-Carneiro. He was born in May 1890 and committed suicide in Paris on the 26th April 1916. At the time the French papers called him, of course, a Futurist, though, and because, he was none. His chief strength is in the body of his tales, but their length precludes their inclusion in this anthology. But the bad point about these classics is that, even when they are classics, they are not Portuguese. Any man of genius — When genius is concerned — could have done that out of Portugal; so there was no use in doing it in Portuguese. We cannot admit a man writing in his native language unless he has something to say which only a man speaking that language could say. The great point about Shakespeare is that he could not but be English. That is why he wrote in English and was born in England. A thing that can just as well be said in one language as in another had better not be said at all. It is only new on the surface. (?) The Portuguese Sensationists are original and interesting because, being strictly Portuguese, they are cosmopolitan and universal. The Portuguese temperament is universal: that is its magnificent superiority. The one great act of Portuguese history — that long. cautious, scientific period of the Discoveries — is the one great cosmopolitan act in history. The whole people stamp themselves there. An original, typically Portuguese literature cannot be Portuguese, because the typical Portuguese are never Portuguese. There is something American, with the noise left out and the quotidian omitted, in the intellectual temper of this people. No people seizes so readly on novelties. No people depersonalises so magnificently. That weakness is its great strength. That temperamental nonregionalism is its unused might. That indefiniteness of soul is what makes them definite. Because the great fact about the Portuguese is that they are the most civilised people in Europe. They are born civilised, because they are born acceptors of all. They have nothing of what the old psychiatrists used to call misoneism, meaning only hatred of things new; they have a positive love of novelty and change. They have no stable elements, as the French have, who only make revolutions for export. The Portuguese are always making revolutions. When a Portuguese goes to bed he makes a revolution, because the Portuguese who wakes up the next day is quite different. He is precisely a day older, quite distinctly a day older. Other people wake up every morning yesterday. Tomorrow is always several years away. Not so this quite strange people. They go so quick that they leave everything undone, including going quick. Nothing is less idle than a Portuguese. The only idle part of the nation is the working part of it. Hence their lack of evident progress. As for modern Portuguese literature, the best thing is to go round the corner when it comes. It is the echo of an echo of an echo of something which was not worth saying. When it is not pure dirt, as in Abel Botelho’s novels, it ought to be dirt, at least to be something, as in the novels and poems of all the other authors. All classic Portuguese literature hardly rises to the interesting; it hardly rises to the classic. Putting aside a few things in Camoens, which are noble, several things of Anthero de Quental, which are great, one or two poems of Junqueiro, which are worth reading, if only to find how far he can educate himself out of having educated himself into Hugo, one poem of Teixeira de Pascoaes who has spent the rest of his literary life in apologising in bad poetry for having written one of the very greatest love poems in the world — if this is excepted, and some minor things which are exceptions by their very being minor things, the sum and whole of Portuguese literature is hardly literature and scarcely ever Portuguese. It is Provençal, Italian, Spanish and French, occasionally English, in some people, like Garrett, who knew enough French to read bad French translations of inferior English poems and go right when they go wrong on that. Portuguese literature has some good prose; Vieira is a master anywhere, though he preached. It is also said he is a guide to the language, but that can be excused, because he is a guide to Machiavelli through his Jesuit nature. There are fine things in the early chroniclers, but they came before Portugal awoke to find itself missing all over the world, with all the oceans open to the people who hadn’t dared to go there first. One or two modern poets climb up to the interesting, but they are tired when they reach it, and sleep out the rest of their literary lives. Thus Pascoaes, who wrote an a «Elegy» which stands above Browning's Last Ride Together as a metaphysical love poem, and after that a number of poems which stand below anything anybody likes to propose, and are an elegy on the inspiration of Pascoaes . There are a lot of local great poets who suffer from not having been anything in a former incarnation, and acting on an anamnesia of that. Indian astrologers say that a child cannot be born except at certain moments of the world-breath. These poets and prose-writers got advantage of the intervals and filled them all up. You could hardly do that out of Portugal, but you can do it badly in Portugal. ( var : You can do that out of Portugal, but you can’t do it quite so well as where Affonso Costa is a statesman and several other Costas people). There are only two interesting things in Portugal — the landscape and Orpheu . All the packing in between is used-up rotten straw. It has served in outer Europe and comes to an end in between the two interesting things in Portugal. It sometimes spoils the landscape by putting Portuguese people on it. But it cannot spoil Orpheu , because that is Portugal-proof. I had been a day and a half in Portugal when l noticed the landscape. It took me a year and a half to notice Orpheu . It is true I landed in Portugal from England at the same time as Orpheu from Olympus. But that does not matter and is only a God-sent coincidence, which I accept and am thankful for . If there were any instinct of the sensible in modern writing, I would begin with the landscape and finish up with Orpheu. But, God be thanked, there is no instinct «of the sensible in modern writing, so I leave the landscape and begin and end with Orpheu . The landscape is there all the time and can be looked at by those who choose and can go. Orpheu is there but it can hardly be read by all. At best it can be read by very few. But it is worth reading. It is worth learning Portuguese to read it. Not that there is any Goethe or Shakespeare in it. But there is enough to compensate for there being no Goethe nor Shakespeare. Orpheu is the sum and synthesis of all modern literary movements; that is why it is more worthy of being written about than the landscape which is only the absence of the people who live in it. Orpheu is a quarterly review of which, though it began a year and a half ago, only three numbers have appeared. That means nothing except that it means nothing. It has about eighty pages to each number and not very many collaborators covering those eighty pages. Some run through the three numbers, and others alternate. They are extraordinarily varied considering their small number and the fact that they are all very modern. Each number adds a new interest to this marvellous synthetic movement. I am waiting for the fourth number with absolute anguish. It may be silly, though it is true to say there is much more unexpectedness and interest in Orpheu than there is in the present War. 1916 Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 140. Prefácio para uma Antologia de Poetas Sensacionistas ANIVERSÁRIO No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, De ser inteligente para entre a família, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. Sim, o que fui de suposto a mim mesmo, O que fui de coração e parentesco, O que fui de serões de meia-província, O que fui de amarem-me e eu ser menino. O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... A que distância!... (Nem o acho...) O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa, Pondo grelado nas paredes... O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), O que eu sou hoje é terem vendido a casa. É terem morrido todos, É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio... No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, Por uma viagem metafísica e carnal, Com uma dualidade de eu para mim... Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui... A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —, As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça! Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! Hoje já não faço anos. Duro. Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Mais nada. Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!... O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!... 15-10-1929 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 284. 1ª publ. in Presença , nº 27. Coimbra: Jun.-Jul. 1930. Gostava de gostar de gostar. Um momento... Dá-me de ali um cigarro, Do maço em cima da mesa de cabeceira. Continua... Dizias Que no desenvolvimento da metafísica De Kant a Hegel Alguma coisa se perdeu. Concordo em absoluto. Estive realmente a ouvir. Nondum amabam et amara amabam (Santo Agostinho). Que coisa curiosa estas associações de ideias! Estou fatigado de estar pensando em sentir outra coisa. Obrigado. Deixa-me acender. Continua. Hegel... s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 89. Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos, E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício. A minha vida passada misturou-se-me com a futura, E houve no meio um ruído do salão de fumo, Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez. Ah, balouçado Na sensação das ondas, Ah, embalado Na ideia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã, De pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas, De não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali, Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse. Ah, afundado Num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono, Irrequieto tão sossegadamente, Tão análogo de repente à criança que fui outrora Quando brincava na quinta e não sabia álgebra, Nem as outras álgebras com x e y’s de sentimento. Ah, todo eu anseio Por esse momento sem importância nenhuma Na minha vida, Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma, Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem inteligência para o compreender E havia luar e mar e a solidão, ó Álvaro. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 90. O tumulto concentrado da minha imaginação intelectual... Fazer filhos à razão prática, como os crentes enérgicos... Minha juventude perpétua De viver as coisas pelo lado das sensações e não das responsabilidades. (Álvaro de Campos, nascido no Algarve, educado por um tio-avô, padre, que lhe instilou um certo amor às coisas clássicas). (Veio para Lisboa muito novo...) A capacidade de pensar o que sinto que me distingue do homem vulgar Mais do que ele se distingue do macaco. (Sim, amanhã o homem vulgar talvez me leia e compreenda a substância do meu ser. Sim, admito-o, Mas o macaco já hoje sabe ler o homem vulgar e lhe compreende a substância do ser). Se alguma coisa foi porque é que não é? Ser não é ser? As flores do campo da minha infância, não as terei eternamente, Em outra maneira de ser? Perderei para sempre os afectos que tive, e até os afectos que pensei ter? Há algum que tenha a chave da porta do ser, que não tem porta, E me possa abrir com razões a inteligência do mundo? s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 92. Ah, perante esta única realidade, que é o mistério, Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade, Perante este horrível ser que é haver ser, Perante este abismo de existir um abismo, Este abismo de a existência de tudo ser um abismo, Ser um abismo por simplesmente ser, Por poder ser, Por haver ser! — Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem, Tudo o que os homens dizem, Tudo quanto construem, desfazem ou se construi ou desfaz através deles. Se empequena! Não, não se empequena... se transforma em outra coisa — Numa só coisa tremenda e negra e impossível, Uma coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino — Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino. Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres, Aquilo que subsiste através de todas as formas De todas as vidas, abstractas ou concretas, Eternas ou contingentes, Verdadeiras ou falsas! Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora, Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar porque é um tudo, Porque há qualquer coisa, porque há qualquer coisa, porque há qualquer coisa! Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor, E é com minhas ideias que tremo, com a minha consciência de mim, Com a substância essencial do meu ser abstracto Que sufoco de incompreensível, Que me esmago de ultratranscendente, E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser, Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir! Cárcere do Ser, não há libertação de ti? Cárcere de pensar, não há libertação de ti? Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus! Nós, irmãos gémeos do Destino em ambos existirmos, Nós, irmãos gémeos dos Deuses todos, de toda a espécie, Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra, Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite. Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte, Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males, Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos, Porque não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte? Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro? A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo, São mistérios menores que a Morte? Como se tudo é o mesmo mistério? E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada. Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe! Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais, Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência, Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência, Porque é preciso existir para se criar tudo, E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser, E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 94. ODE MARCIAL Inúmero rio sem água — só gente e coisas, Pavorosamente sem água! Soam tambores longínquos no meu ouvido, E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores, Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo! Helahoho! helahoho! A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta... Ela cosia à tarde indeterminadamente... A mesa onde jogavam os velhos, Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues, Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror. Helahoho! helahoho! Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada, E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida. Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração. Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles Que matou, violou, queimou e quebrou. Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso com uma sombra disforme Passeiam por todo o mundo como Ashavero, Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito. E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente. Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências, A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar E tudo dói na minha alma extensa como um Universo. Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe. Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos. Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o. Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada... Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus. Quebrei a máquina de costura da viúva pobre. Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura. Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto? Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos, Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores, Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou, E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo. Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém! s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 304. LÀ-BAS, JE NE SAIS OÙ... Véspera de viagem, campainha... Não me sobreavisem estridentemente! Quero gozar o repouso da gare da alma que tenho Antes de ver avançar para mim a chegada de ferro Do comboio definitivo, Antes de sentir a partida verdadeira nas goelas do estômago, Antes de pôr no estribo um pé Que nunca aprendeu a não ter emoção sempre que teve que partir. Quero, neste momento, fumando no apeadeiro de hoje, Estar ainda um bocado agarrado à velha vida. Vida inútil, que era melhor deixar, que é uma cela? Que importa? Todo o universo é uma cela, e o estar preso não tem que ver com o tamanho da cela. Sabe-me a náusea próxima o cigarro. O comboio já partiu da outra estação... Adeus, adeus, adeus, toda a gente que não veio despedir-se de mim, Minha família abstracta e impossível... Adeus dia de hoje, adeus apeadeiro de hoje, adeus vida, adeus vida! Ficar como um volume rotulado esquecido, Ao canto do resguardo de passageiros do outro lado da linha. Ser encontrado pelo guarda casual depois da partida — «E esta? Então não houve um tipo que deixou isto aqui?» — Ficar só a pensar em partir, Ficar e ter razão, Ficar e morrer menos... Vou para o futuro como para um exame difícil. Se o comboio nunca chegasse e Deus tivesse pena de mim? Já me vejo na estação até aqui simples metáfora. Sou uma pessoa perfeitamente apresentável. Vê-se — dizem — que tenho vivido no estrangeiro. Os meus modos são de homem educado, evidentemente. Pego na mala, rejeitando o moço, como a um vício vil. E a mão com que pego na mala treme-me e a ela. Partir! Nunca voltarei. Nunca voltarei porque nunca se volta. O lugar a que se volta é sempre outro, A gare a que se volta é outra. Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia. Partir! Meus Deus, partir! Tenho medo de partir!... s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 307. Contudo, contudo, Também houve gládios e flâmulas de cores Na Primavera do que sonhei de mim. Também a esperança Orvalhou os campos da minha visão involuntária, Também tive quem também me sorrisse. Hoje estou como se esse tivesse sido outro. Quem fui não me lembra senão como uma história apensa. Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo. Caí pela escada abaixo subitamente, E até o som de cair era a gargalhada da queda. Cada degrau era a testemunha importuna e dura Do ridículo que fiz de mim. Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse, Mas pobre também do que, sendo rico e nobre, Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo. Sou imparcial como a neve. Nunca preferi o pobre ao rico, Como, em mim, nunca preferi nada a nada. Vi sempre o mundo independentemente de mim. Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas, Mas isso era outro mundo. Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja. Acima de tudo o mundo externo! Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 97. DOBRADA À MODA DO PORTO Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo, Serviram-me o amor como dobrada fria. Disse delicadamente ao missionário da cozinha Que a preferia quente, Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria. Impacientaram-se comigo. Nunca se pode ter razão, nem num restaurante. Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta, E vim passear para toda a rua. Quem sabe o que isto quer dizer? Eu não sei, e foi comigo... (Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim, Particular ou público, ou do vizinho. Sei muito bem que brincarmos era o dono dele. E que a tristeza é de hoje). Sei isso muitas vezes, Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram Dobrada à moda do Porto fria? Não é prato que se possa comer frio, Mas trouxeram-mo frio. Não me queixei, mas estava frio, Nunca se pode comer frio, mas veio frio. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 310. POEMA EM LINHA RECTA Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado, Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Toda a gente que eu conheço e que fala comigo Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho, Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida... Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes, meus irmãos, Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra? Poderão as mulheres não os terem amado, Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca! E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Eu, que tenho sido vil, literalmente vil, Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 312. VILEGIATURA O sossego da noite, na vilegiatura no alto; O sossego, que mais aprofunda O ladrar esparso dos cães de guarda na noite; O silêncio, que mais se acentua, Porque zumbe ou murmura uma coisa nenhuma no escuro... Ah, a opressão de tudo isto! Oprime como ser feliz! Que vida idílica, se fosse outra pessoa que a tivesse Com o zumbido ou murmúrio monótono de nada Sob o céu sardento de estrelas, Com o ladrar dos cães polvilhando o sossego de tudo! Vim para aqui repousar, Mas esqueci-me de me deixar lá em casa. Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente, A vaga náusea, a doença incerta, de me sentir. Sempre esta inquietação mordida aos bocados Como pão ralo escuro, que se esfarela caindo. Sempre este mal-estar tomado aos maus haustos Como um vinho de bêbado quando nem a náusea obsta. Sempre, sempre, sempre Este defeito da circulação na própria alma, Esta lipotimia das sensações, Isto... Tuas mãos esguias, um pouco pálidas, um pouco minhas, Estavam naquele dia quietas pelo teu regaço de sentada, Como e onde a tesoira e o dedal de uma outra. Cismavas, olhando-me, como se eu fosse o espaço. Recordo para ter em que pensar, sem pensar. De repente, num meio suspiro, interrompeste o que estavas sendo. Olhaste conscientemente para mim, e disseste: «Tenho pena que todos os dias não sejam assim» — Assim, como aquele dia que não fora nada... Ah, não sabias, Felizmente não sabias, Que a pena é todos os dias serem assim, assim; Que o mal é que, feliz ou infeliz, A alma goza ou sofre o íntimo tédio de tudo, Consciente ou inconscientemente, Pensando ou por pensar — Que a pena é essa... Lembro fotograficamente as tuas mãos paradas, Molemente estendidas. Lembro-me, neste momento, mais delas do que de ti. Que será feito de ti? Sei que, no formidável algures da vida, Casaste. Creio que és mãe. Deves ser feliz. Porque o não haverias de ser? Só por maldade... Sim, seria injusto... Injusto? (Era um dia de sol pelos campos e eu dormitava, sorrindo). ...... A vida... Branco ou tinto, é o mesmo: é para vomitar. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 314. O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso. óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó (O vento lá fora). s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 110. CLEARLY NON-CAMPOS! Não sei qual é o sentimento, ainda inexpresso, Que subitamente, como uma sufocação, me aflige O coração que, de repente, Entre o que vive, se esquece. Não sei qual é o sentimento Que me desvia do caminho, Que me dá de repente Um nojo daquilo que seguia, Uma vontade de nunca chegar a casa, Um desejo de indefinido, Um desejo lúcido de indefinido. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 317. Atribuição a Campos rejeitada: Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição Crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993 BARROW-ON-FURNESS I Sou vil, sou reles, como toda a gente, Não tenho ideais, mas não os tem ninguém. Quem diz que os tem é como eu, mas mente. Quem diz que busca é porque não os tem. É com a imaginação que eu amo o bem. Meu baixo ser porém não mo consente. Passo, fantasma do meu ser presente, Ébrio, por intervalos, de um Além. Como todos não creio no que creio. Talvez possa morrer por esse ideal. Mas, enquanto não morro, falo e leio. Justificar-me? Sou quem todos são... Modificar-me? Para meu igual?... — Acaba lá com isso, ó coração! s.d. “Barrow-on-Furness”. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 318. II Deuses, forças, almas de ciência ou fé, Eh! Tanta explicação que nada explica! Estou sentado no cais, numa barrica, E não compreendo mais do que de pé. Porque o havia de compreender? Pois sim, mas também porque o não havia? Água do rio, correndo suja e fria, Eu passo como tu, sem mais valer... Ó universo, novelo emaranhado, Que paciência de dedos de quem pensa Em outra coisa te põe separado? Deixa de ser novelo o que nos fica... A que brincar? Ao amor?, à indiferença? Por mim, só me levanto da barrica. s.d. “Barrow-on-Furness”. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 320. III Corre, raio de rio, e leva ao mar A minha indiferença subjectiva! Qual «leva ao mar»! Tua presença esquiva Que tem comigo e com o meu pensar? Lesma de sorte! Vivo a cavalgar A sombra de um jumento. A vida viva Vive a dar nomes ao que não se activa, Morre a pôr etiquetas ao grande ar... Escancarado Furness, mais três dias Te aturarei, pobre engenheiro preso A sucessibilíssimas vistorias... Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo (E tu irás do mesmo modo que ias), Qualquer, na gare , de cigarro aceso... s.d. “Barrow-on-Furness”. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 322. Não, não é cansaço... É uma quantidade de desilusão Que se me entranha na espécie de pensar, É um domingo às avessas Do sentimento, Um feriado passado no abismo... Não, cansaço não é... É eu estar existindo E também o mundo, Com tudo aquilo que contém, Com tudo aquilo que nele se desdobra E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais. Não. Cansaço porquê? É uma sensação abstracta Da vida concreta — Qualquer coisa como um grito Por dar, Qualquer coisa como uma angústia Por sofrer, Ou por sofrer completamente, Ou por sofrer como... Sim, ou por sofrer como... Isso mesmo, como... Como quê?... Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço. (Ai, cegos que cantam na rua, Que formidável realejo Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!) Porque oiço, vejo. Confesso: é cansaço!... s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 111. IV Conclusão a sucata!... Fiz o cálculo, Saiu-me certo, fui elogiado... Meu coração é um enorme estrado Onde se expõe um pequeno animálculo... A microscópio de desilusões Findei, prolixo nas minúcias fúteis... Minhas conclusões práticas, inúteis... Minhas conclusões teóricas, confusões... Que teorias há para quem sente O cérebro quebrar-se, como um dente Dum pente de mendigo que emigrou? Fecho o caderno dos apontamentos E faço riscos moles e cinzentos Nas costas do envelope do que sou... s.d. “Barrow-on-Furness”. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 324. DEMOGORGON Na rua cheia de sol vago há casas paradas e gente que anda. Uma tristeza cheia de pavor esfria-me. Pressinto um acontecimento do lado de lá das frontarias e dos movimentos. Não, não, isso não! Tudo menos saber o que é o Mistério! Superfície do Universo, ó Pálpebras Descidas, Não vos ergais nunca! O olhar da Verdade Final não deve poder suportar-se! Deixai-me viver sem saber nada, e morrer sem ir saber nada! A razão de haver ser, a razão de haver seres, de haver tudo, Deve trazer uma loucura maior que os espaços Entre as almas e entre as estrelas. Não, não, a verdade não! Deixai-me estas casas e esta gente; Assim mesmo, sem mais nada, estas casas e esta gente... Que bafo horrível e frio me toca em olhos fechados? Não os quero abrir de viver! Ó Verdade, esquece-te de mim! 12-4-1928 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 264. Lapsos corrigidos segundo: Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. Mas eu, em cuja alma se reflectem As forças todas do universo, Eu cuja reflexão emotiva e sacudida Minuto a minuto, emoção a emoção, Coisas antagónicas e absurdas se sucedem — Eu o foco inútil de todas as realidades, Eu o fantasma nascido de todas as sensações, Eu o abstracto, eu o projectado no écran, Eu a mulher legítima e triste do Conjunto, Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 113. ADIAMENTO Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã... Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, E assim será possível; mas hoje não... Não, hoje nada; hoje não posso. A persistência confusa da minha subjectividade objectiva, O sono da minha vida real, intercalado, O cansaço antecipado e infinito, Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico... Esta espécie de alma... Só depois de amanhã... Hoje quero preparar-me, Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte... Ele é que é decisivo. Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos... Amanhã é o dia dos planos. Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo; Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã... Tenho vontade de chorar, Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro... Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo. Só depois de amanhã... Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana. Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância... Depois de amanhã serei outro, A minha vida triunfar-se-á, Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático Serão convocadas por um edital... Mas por um edital de amanhã... Hoje quero dormir, redigirei amanhã... Por hoje qual é o espectáculo que me repetiria a infância? Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã, Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo... Antes, não... Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser. Só depois de amanhã... Tenho sono como o frio de um cão vadio. Tenho muito sono. Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã... Sim, talvez só depois de amanhã... O porvir... Sim, o porvir... 14-4-1928 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 266. 1ª publ. in Solução Editora, nº1. Lisboa 1929. NUVENS No dia triste o meu coração mais triste que o dia... Obrigações morais e civis? Complexidade de deveres, de consequências? Não, nada... O dia triste, a pouca vontade para tudo... Nada... Outros viajam (também viajei), outros estão ao sol (Também estive ao sol, ou supus que estive), Todos têm razão, ou vida, ou ignorância simétrica, Vaidade, alegria e sociabilidade, E emigram para voltar, ou para não voltar, Em navios que os transportam simplesmente. Não sentem o que há de morte em toda a partida, De mistério em toda a chegada, De horrível em todo o novo... Não sentem: por isso são deputados e financeiros, Dançam e são empregados no comércio, Vão a todos os teatros e conhecem gente... Não sentem: para que haveriam de sentir? Gado vestido dos currais dos Deuses, Deixá-lo passar engrinaldado para o sacrifício Sob o sol, alacre, vivo, contente de sentir-se... Deixai-o passar, mas ai, vou com ele sem grinalda Para o mesmo destino! Vou com ele sem o sol que sinto, sem a vida que tenho, Vou com ele sem desconhecer... No dia triste o meu coração mais triste que o dia... No dia triste todos os dias... No dia tão triste... 13-5-1928 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 268. «THE TIMES» Sentou-se bêbado à mesa e escreveu um fundo Do Times , claro, inclassificável, lido, Supondo (coitado!) que ia ter influência no mundo... ...... Santo Deus!... E talvez a tenha tido! 16-8-1928 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 270. Ora até que enfim..., perfeitamente... Cá está ela! Tenho a loucura exactamente na cabeça. Meu coração estoirou como uma bomba de pataco, E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima... Graças a Deus que estou doido! Que tudo quanto dei me voltou em lixo, E, como cuspo atirado ao vento, Me dispersou pela cara livre! Que tudo quanto fui se me atou aos pés, Como a serapilheira para embrulhar coisa nenhuma! Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada! Graças a Deus, porque, como na bebedeira, Isto é uma solução. Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago! Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos! Poesia transcendental, já a fiz também! Grandes raptos líricos, também já por cá passaram! A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários — Também não é novidade. Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim... Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o. Com esforço, mas era para bom fim. Ao menos era para um fim. E assim como sou não tenho nem fim nem vida... s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 116. GAZETILHA Dos Lloyd Georges da Babilónia Não reza a história nada. Dos Briands da Assíria ou do Egipto, Dos Trotskys de qualquer colónia Grega ou romana já passada, O nome é morto, inda que escrito. Só o parvo dum poeta, ou um louco Que fazia filosofia, Ou um geómetra maduro, Sobrevive a esse tanto pouco Que está lá para trás no escuro E nem a história já historia. Ó grandes homens do Momento! Ó grandes glórias a ferver De quem a obscuridade foge! Aproveitem sem pensamento! Tratem da fama e do comer, Que amanhã é dos loucos de hoje! s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 271. 1ª publ. in Presença , nº18. Coimbra: Jan. 1929. INSÓNIA Não durmo, nem espero dormir. Nem na morte espero dormir. Espera-me uma insónia da largura dos astros, E um bocejo inútil do comprimento do mundo. Não durmo; não posso ler quando acordo de noite, Não posso escrever quando acordo de noite, Não posso pensar quando acordo de noite — Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite! Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer! Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo, E o meu sentimento é um pensamento vazio. Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam — Todas aquelas de que me arrependo e me culpo —; Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam — Todas aquelas de que me arrependo e me culpo —; Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada, E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo. Não tenho força para ter energia para acender um cigarro. Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo. Lá fora há o silêncio dessa coisa toda. Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer, Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir. Estou escrevendo versos realmente simpáticos — Versos a dizer que não tenho nada que dizer, Versos a teimar em dizer isso, Versos, versos, versos, versos, versos... Tantos versos... E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim! Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir Sou uma sensação sem pessoa correspondente, Uma abstracção de autoconsciência sem de quê, Salvo o necessário para sentir consciência, Salvo — sei lá salvo o quê... Não durmo. Não durmo. Não durmo. Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma! Que grande sono em tudo excepto no poder dormir! Ó madrugada, tardas tanto... Vem... Vem, inutilmente, Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta... Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste, Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperanças, Segundo a velha literatura das sensações. Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança. O meu cansaço entra pelo colchão dentro. Doem-me as costas de não estar deitado de lado. Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado. Vem, madrugada, chega! Que horas são? Não sei. Não tenho energia para estender uma mão para o relógio, Não tenho energia para nada, para mais nada... Só para estes versos, escritos no dia seguinte. Sim, escritos no dia seguinte. Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte. Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora. Paz em toda a Natureza. A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras. Exactamente. A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras, Costuma dizer-se isto. A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece, Mas mesmo acordada a Humanidade esquece. Exactamente. Mas não durmo. 27-3-1929 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 273. ACASO No acaso da rua o acaso da rapariga loira. Mas não, não é aquela. A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro. Perco-me subitamente da visão imediata, Estou outra vez na outra cidade, na outra rua, E a outra rapariga passa. Que grande vantagem o recordar intransigentemente! Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga, E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta. Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso! Ao menos escrevem-se versos. Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por génio, se calhar. Se calhar, ou até sem calhar, Maravilha das celebridades! Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos... Mas isto era a respeito de uma rapariga, De uma rapariga loira, Mas qual delas? Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade, Numa outra espécie de rua; E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade, Numa outra espécie de rua; Porque todas as recordações são a mesma recordação, Tudo que foi é a mesma morte, Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã? Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional. Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas? Pode ser... A rapariga loira? É a mesma afinal... Tudo é o mesmo afinal... Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isso é o mesmo também afinal. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 277. RETICÊNCIAS Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção. Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado; Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa! Vou fazer as malas para o Definitivo, Organizar Álvaro de Campos, E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre... Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei. Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir... Produtos românticos, nós todos... E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada. Assim se faz a literatura... Santos Deuses, assim até se faz a vida! Os outros também são românticos, Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres, Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar, Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos, Os outros também são eu. Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente, Rodinha dentada na relojoaria da economia política, Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios, A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida... Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela, E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafísica. Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar, Fitei de frente todos os destinos pela distracção de ouvir apregoando, E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta, E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema... Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra... 15-5-1929 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 279. APONTAMENTO A minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu pela escada excessivamente abaixo. Caiu das mãos da criada descuidada. Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso. Asneira? Impossível? Sei lá! Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu. Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir. Fiz barulho na queda como um vaso que se partia. Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada E fitam os cacos que a criada deles fez de mim. Não se zangam com ela. São tolerantes com ela. O que eu era um vaso vazio? Olham os cacos absurdamente conscientes, Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes deles. Olham e sorriem. Sorriem tolerantes à criada involuntária. Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas. Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros. A minha obra? A minha alma principal? A minha vida? Um caco. E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem porque ficou ali. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 281. 1ª publ. in Presença , nº 20. Coimbra: Abr.-Maio 1929.. Lapsos corrigidos segundo: Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição Crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993 DE LA MUSIQUE Ah, pouco a pouco, entre as árvores antigas, A figura dela emerge e eu deixo de pensar... Pouco a pouco, da angústia de mim vou eu mesmo emergindo... As duas figuras encontram-se na clareira ao pé do lago... ...As duas figuras sonhadas, Porque isto foi só um raio de luar e uma tristeza minha. E uma suposição de outra coisa, E o resultado de existir... Verdadeiramente, ter-se-iam encontrado as duas figuras Na clareira ao pé do lago? (...Mas se não existem?...) ... Na clareira ao pé do lago?... 17-9-1929 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 283. O mesmo Teucro duce et auspice Teucro É sempre eras —   amanhã — que nos faremos ao mar. Sossega, coração inútil, sossega! Sossega, porque nada há que esperar, E por isso nada que desesperar também... Sossega... Por cima do muro da quinta Sobe longínquo o olival alheio. Assim na infância vi outro que não era este: Não sei se foram os mesmos olhos da mesma alma que o viram. Adiamos tudo, até que a morte chegue. Adiamos tudo e o entendimento de tudo, Com um cansaço antecipado de tudo, Com uma saudade prognóstica e vazia. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 118. Ah, onde estou ou onde passo, ou onde não estou nem passo, A banalidade devorante das caras de toda a gente! Ah, a angústia insuportável de gente! O cansaço inconvertível de ver e ouvir! (Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu). Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto, Estômago da alma alvorotado de eu ser... s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 119. Que lindos olhos de azul inocente os do pequenito do agiota! Santo Deus, que entroncamento esta vida! Tive sempre, feliz ou infelizmente, a sensibilidade humanizada, E toda a morte me doeu sempre pessoalmente, Sim, não só pelo mistério de ficar inexpressivo o orgânico, Mas de maneira directa, cá do coração. Como o sol doura as casas dos réprobos! Poderei odiá-los sem desfazer no sol? Afinal que coisa a pensar com o sentimento distraído Por causa dos olhos de criança de uma criança... s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 120. Que noite serena! Que lindo luar! Que linda barquinha Bailando no mar! Suave, todo o passado — o que foi aqui de Lisboa — me surge... O terceiro-andar das tias, o sossego de outrora, Sossego de várias espécies, A infância sem o futuro pensado, O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas, E tudo bom e a horas, De um bem e de um a-horas próprio, hoje morto. Meu Deus, que fiz eu da vida? Que noite serena, etc. Quem é que cantava isso? Isso estava lá. Lembro-me mas esqueço. E dói, dói, dói... Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 121. O ter deveres, que prolixa coisa! Agora tenho eu que estar à uma menos cinco Na Estação do Rossio, tabuleiro superior — despedida Do amigo que vai no «Sud Express» de toda a gente Para onde toda a gente vai, o Paris... Tenho que lá estar E acreditem, o cansaço antecipado é tão grande Que, se o «Sud Express» soubesse, descarrilava... Brincadeira de crianças? Não, descarrilava a valer... Que leve a minha vida dentro, arre, quando descarrile!... Tenho desejo forte, E o meu desejo, porque é forte, entra na substância do mundo. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 123. Começo a conhecer-me. Não existo. Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, Ou metade desse intervalo, porque também há vida... Sou isso, enfim... Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor. Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo. É um universo barato. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 124. Vai pelo cais fora um bulício de chegada próxima, Começam chegando os primitivos da espera, Já ao longe o paquete de África se avoluma e esclarece. Vim aqui para não esperar ninguém, Para ver os outros esperar, Para ser os outros todos a esperar, Para ser a esperança de todos os outros. Trago um grande cansaço de ser tanta coisa. Chegam os retardatários do princípio, E de repente impaciento-me de esperar, de existir, de ser, Vou-me embora brusco e notável ao porteiro que me dita muito... mas rapidamente. Regresso à cidade como à liberdade. Vale a pena sentir para ao menos deixar de sentir. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 125. A plácida face anónima de um morto. Assim os antigos marinheiros portugueses, Que temeram, seguindo contudo, o mar grande do Fim. Viram, afinal, não monstros nem grandes abismos, Mas praias maravilhosas e estrelas por ver ainda. O que é que os taipais do mundo escondem nas montras de Deus? s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 130. Desfraldando ao conjunto fictício dos céus estrelados O esplendor do sentido nenhum da vida... Toquem num arraial a marcha fúnebre minha! Quero cessar sem consequências... Quero ir para a morte como para uma festa ao crepúsculo. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 131. Poema pertencente a “A Partida”, segundo Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição Crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993 OPIÁRIO Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro É antes do ópio que a minh’alma é doente. Sentir a vida convalesce e estiola E eu vou buscar ao ópio que consola Um Oriente ao oriente do Oriente. Esta vida de bordo há-de matar-me. São dias só de febre na cabeça E, por mais que procure até que adoeça, Já não encontro a mola pra adaptar-me. Em paradoxo e incompetência astral Eu vivo a vincos de ouro a minha vida, Onda onde o pundonor é uma descida E os próprios gozos gânglios do meu mal. É por um mecanismo de desastres, Uma engrenagem com volantes falsos, Que passo entre visões de cadafalsos Num jardim onde há flores no ar, sem hastes. Vou cambaleando através do lavor Duma vida-interior de renda e laca. Tenho a impressão de ter em casa a faca Com que foi degolado o Precursor. Ando expiando um crime numa mala, Que um avô meu cometeu por requinte. Tenho os nervos na forca, vinte a vinte, E caí no ópio como numa vala. Ao toque adormecido da morfina Perco-me em transparências latejantes E numa noite cheia de brilhantes Ergue-se a lua como a minha Sina. Eu, que fui sempre um mau estudante, agora Não faço mais que ver o navio ir Pelo canal de Suez a conduzir A minha vida, cânfora na aurora. Perdi os dias que já aproveitara. Trabalhei para ter só o cansaço Que é hoje em mim uma espécie de braço Que ao meu pescoço me sufoca e ampara. E fui criança como toda a gente. Nasci numa província portuguesa E tenho conhecido gente inglesa Que diz que eu sei inglês perfeitamente. Gostava de ter poemas e novelas Publicados por Plon e no Mercure, Mas é impossível que esta vida dure, Se nesta viagem nem houve procelas! A vida a bordo é uma coisa triste, Embora a gente se divirta às vezes. Falo com alemães, suecos e ingleses E a minha mágoa de viver persiste. Eu acho que não vale a pena ter Ido ao Oriente e visto a Índia e a China. A terra é semelhante e pequenina E há só uma maneira de viver. Por isso eu tomo ópio. É um remédio. Sou um convalescente do Momento. Moro no rés-do-chão do pensamento E ver passar a Vida faz-me tédio. Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim, Muito a leste não fosse o oeste já! Pra que fui visitar a Índia que há Se não há Índia senão a alma em mim? Sou desgraçado por meu morgadio. Os ciganos roubaram minha Sorte. Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte Um lugar que me abrigue do meu frio. Eu fingi que estudei engenharia. Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda. Meu coração é uma avozinha que anda Pedindo esmola às portas da Alegria. Não chegues a Port-Said, navio de ferro! Volta à direita, nem eu sei para onde. Passo os dias no smoking-room com o conde — Um escroc francês, conde de fim de enterro. Volto à Europa descontente, e em sortes De vir a ser um poeta sonambólico. Eu sou monárquico mas não católico E gostava de ser as coisas fortes. Gostava de ter crenças e dinheiro, Ser vária gente insípida que vi. Hoje, afinal, não sou senão, aqui, Num navio qualquer um passageiro. Não tenho personalidade alguma. É mais notado que eu esse criado De bordo que tem um belo modo alçado De laird escocês há dias em jejum. Não posso estar em parte alguma. A minha Pátria é onde não estou. Sou doente e fraco. O comissário de bordo é velhaco. Viu-me co’a sueca... e o resto ele adivinha. Um dia faço escândalo cá a bordo, Só para dar que falar de mim aos mais. Não posso com a vida, e acho fatais As iras com que às vezes me debordo. Levo o dia a fumar, a beber coisas, Drogas americanas que entontecem, E eu já tão bêbado sem nada! Dessem Melhor cérebro aos meus nervos como rosas. Escrevo estas linhas. Parece impossível Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta! O facto é que esta vida é uma quinta Onde se aborrece uma alma sensível. Os ingleses são feitos pra existir. Não há gente como esta pra estar feita Com a Tranquilidade. A gente deita Um vintém e sai um deles a sorrir. Pertenço a um género de portugueses Que depois de estar a Índia descoberta Ficaram sem trabalho. A morte é certa. Tenho pensado nisto muitas vezes. Leve o diabo a vida e a gente tê-la! Nem leio o livro à minha cabeceira. Enoja-me o Oriente. É uma esteira Que a gente enrola e deixa de ser bela. Caio no ópio por força. Lá querer Que eu leve a limpo uma vida destas Não se pode exigir. Almas honestas Com horas pra dormir e pra comer, Que um raio as parta! E isto afinal é inveja. Porque estes nervos são a minha morte. Não haver um navio que me transporte Para onde eu nada queira que o não veja! Ora! Eu cansava-me do mesmo modo. Queria outro ópio mais forte pra ir de ali Para sonhos que dessem cabo de mim E pregassem comigo nalgum lodo. Febre! Se isto que tenho não é febre, Não sei como é que se tem febre e sente. O facto essencial é que estou doente. Está corrida, amigos, esta lebre. Veio a noite. Tocou já a primeira Corneta, pra vestir para o jantar. Vida social por cima! Isso! E marchar Até que a gente saia pla coleira! Porque isto acaba mal e há-de haver (Olá!) sangue e um revólver lá prò fim Deste desassossego que há em mim E não há forma de se resolver. E quem me olhar, há-de-me achar banal, A mim e à minha vida... Ora! um rapaz... O meu próprio monóculo me faz Pertencer a um tipo universal. Ah quanta alma haverá, que ande metida Assim como eu na Linha, e como eu mística! Quantos sob a casaca característica Não terão como eu o horror à vida? Se ao menos eu por fora fosse tão Interessante como sou por dentro! Vou no Maelstrom, cada vez mais prò centro. Não fazer nada é a minha perdição. Um inútil. Mas é tão justo sê-lo! Pudesse a gente desprezar os outros E, ainda que co’os cotovelos rotos, Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo! Tenho vontade de levar as mãos À boca e morder nelas fundo e a mal. Era uma ocupação original E distraía os outros, os tais sãos. O absurdo, como uma flor da tal Índia Que não vim encontrar na Índia, nasce No meu cérebro farto de cansar-se. A minha vida mude-a Deus ou finde-a... Deixe-me estar aqui, nesta cadeira, Até virem meter-me no caixão. Nasci pra mandarim de condição, Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira. Ah que bom que era ir daqui de caída Prà cova por um alçapão de estouro! A vida sabe-me a tabaco louro. Nunca fiz mais do que fumar a vida. E afinal o que quero é fé, é calma, E não ter estas sensações confusas. Deus que acabe com isto! Abra as eclusas — E basta de comédias na minh’alma! No Canal de Suez, a bordo. 3-1914 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 135. 1ª publ. in Orpheu , nº1. Lisboa: Jan.-Mar. 1915. Lapso corrigido segundo o original. ODE TRIUNFAL À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica Tenho febre e escrevo. Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! Em fúria fora e dentro de mim, Por todos os meus nervos dissecados fora, Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, De vos ouvir demasiadamente de perto, E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso De expressão de todas as minhas sensações, Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical — Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força — Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro, Porque o presente é todo o passado e todo o futuro E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão, E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta, Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem, Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes, Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando, Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma. Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina! Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento A todos os perfumes de óleos e calores e carvões Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável! Fraternidade com todas as dinâmicas! Promíscua fúria de ser parte-agente Do rodar férreo e cosmopolita Dos comboios estrénuos, Da faina transportadora-de-cargas dos navios, Do giro lúbrico e lento dos guindastes, Do tumulto disciplinado das fábricas, E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão! Horas europeias, produtoras, entaladas Entre maquinismos e afazeres úteis! Grandes cidades paradas nos cafés, Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas Onde se cristalizam e se precipitam Os rumores e os gestos do Útil E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo! Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares! Novos entusiasmos de estatura do Momento! Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas, Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos! Actividade internacional, transatlântica, Canadian - Pacific! Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis, Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots, E Piccadillies e Avenues de L’Opéra que entram Pela minh’alma dentro! Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule! Tudo o que passa, tudo o que pára às montras! Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos; Membros evidentes de clubes aristocráticos; Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete De algibeira a algibeira! Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa! Presença demasiadamente acentuada das cocotes Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?) Das burguesinhas, mãe e filha geralmente, Que andam na rua com um fim qualquer; A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos; E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra E afinal tem alma lá dentro! (Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!) A maravilhosa beleza das corrupções políticas, Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos, Agressões políticas nas ruas, E de vez em quando o cometa dum regicídio Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana! Notícias desmentidas dos jornais, Artigos políticos insinceramente sinceros, Notícias passez à-la-caisse , grandes crimes — Duas colunas deles passando para a segunda página! O cheiro fresco a tinta de tipografia! Os cartazes postos há pouco, molhados! Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca! Como eu vos amo a todos, a todos, a todos, Como eu vos amo de todas as maneiras, Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!) E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar! Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós! Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura! Química agrícola, e o comércio quase uma ciência! Ó mostruários dos caixeiros-viajantes, Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria, Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios! Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos! Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar! Olá grandes armazéns com várias secções! Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem! Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem! Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos! Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos! Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos! Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera. Amo-vos carnivoramente. Pervertidamente e enroscando a minha vista Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis, Ó coisas todas modernas, Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima Do sistema imediato do Universo! Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus! Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks, Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes — Na minha mente turbulenta e encandescida Possuo-vos como a uma mulher bela, Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama, Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima. Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas! Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios! Eh-lá-hô recomposições ministeriais! Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos, Orçamentos falsificados! (Um orçamento é tão natural como uma árvore E um parlamento tão belo como uma borboleta). Eh-lá o interesse por tudo na vida, Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras Até à noite ponte misteriosa entre os astros E o mar antigo e solene, lavando as costas E sendo misericordiosamente o mesmo Que era quando Platão era realmente Platão Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro, E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele. Eu podia morrer triturado por um motor Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída. Atirem-me para dentro das fornalhas! Metam-me debaixo dos comboios! Espanquem-me a bordo de navios! Masoquismo através de maquinismos! Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho! Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby, Morder entre dentes o teu cap de duas cores! (Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta! Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!) Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais! Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas. E ser levado da rua cheio de sangue Sem ninguém saber quem eu sou! Ó tramways , funiculares, metropolitanos, Roçai-vos por mim até ao espasmo! Hilla! hilla! hilla-hô! Dai-me gargalhadas em plena cara, Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas, Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas, Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria! Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto! Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro, As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam, Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto E os gestos que faz quando ninguém pode ver! Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva, Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos Em crispações absurdas em pleno meio das turbas Nas ruas cheias de encontrões! Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma, Que emprega palavrões como palavras usuais, Cujos filhos roubam às portas das mercearias E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! — Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada. A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão. Maravilhosamente gente humana que vive como os cães Que está abaixo de todos os sistemas morais, Para quem nenhuma religião foi feita, Nenhuma arte criada, Nenhuma política destinada para eles! Como eu vos amo a todos, porque sois assim, Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus, Inatingíveis por todos os progressos, Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida! (Na nora do quintal da minha casa O burro anda à roda, anda à roda, E o mistério do mundo é do tamanho disto. Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente. A luz do sol abafa o silêncio das esferas E havemos todos de morrer, Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo, Pinheirais onde a minha infância era outra coisa Do que eu sou hoje...) Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante! Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus. E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios De todas as partes do mundo, De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios, Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas. Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado! Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores! Eh-lá grandes desastres de comboios! Eh-lá desabamentos de galerias de minas! Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos! Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá, Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões, Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim, A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa, E outro Sol no novo Horizonte! Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo, Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje? Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento, O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro, O Momento estridentemente ruidoso e mecânico, O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais. Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar, Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar, Engenhos brocas, máquinas rotativas! Eia! eia! eia! Eia electricidade, nervos doentes da Matéria! Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente! Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez! Eia todo o passado dentro do presente! Eia todo o futuro já dentro de nós! eia! Eia! eia! eia! Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita! Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô! Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me. Engatam-me em todos os comboios. Içam-me em todos os cais. Giro dentro das hélices de todos os navios. Eia! eia-hô! eia! Eia! sou o calor mecânico e a electricidade! Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa! Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia! Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá! Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá! Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o! Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z! Ah não ser eu toda a gente e toda a parte! Londres, 1914 — Junho. 6-1914 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 144. 1ª publ. in Orpheu , nº1. Lisboa Jan.-Mar. 1915. Lacunas completadas segundo: Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição Crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993 Os antigos invocavam as Musas. Nós invocamo-nos a nós mesmos. Não sei se as Musas apareciam — Seria sem dúvida conforme o invocado e a invocação. — Mas sei que nós não aparecemos. Quantas vezes me tenho debruçado Sobre o poço que me suponho E balido «Ah!» para ouvir um eco, E não tenho ouvido mais que o visto — O vago alvor escuro com que a água resplandece Lá na inutilidade do fundo... Nenhum eco para mim... Só vagamente uma cara, Que deve ser a minha, por não poder ser de outro. É uma coisa quase invisível, Excepto como luminosamente vejo Lá no fundo... No silêncio e na luz falsa do fundo... Que Musa!. 3-1-1935 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 73. Há mais de meia hora Que estou sentado à secretária Com o único intuito De olhar para ela. (Estes versos estão fora do meu ritmo. Eu também estou fora do meu ritmo). Tinteiro grande à frente. Canetas com aparos novos à frente. Mais para cá papel muito limpo. Ao lado esquerdo um volume da «Enciclopédia Britânica». Ao lado direito — Ah, ao lado direito! A faca de papel com que ontem Não tive paciência para abrir completamente O livro que me interessava e não lerei. Quem pudesse sintonizar tudo isto! 3-1-1935 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 75. Eu, eu mesmo... Eu, cheio de todos os cansaços Quantos o mundo pode dar.— Eu... Afinal tudo, porque tudo é eu, E até as estrelas, ao que parece, Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças... Que crianças não sei... Eu... Imperfeito? Incógnito? Divino? Não sei... Eu... Tive um passado? Sem dúvida... Tenho um presente? Sem dúvida... Terei um futuro? Sem dúvida... A vida que pare de aqui a pouco... Mas eu, eu... Eu sou eu, Eu fico eu, Eu... 4-1-1935 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 76. Estou cansado, é claro, Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. De que estou cansado, não sei: De nada me serviria sabê-lo, Pois o cansaço fica na mesma. A ferida dói como dói E não em função da causa que a produziu. Sim, estou cansado, E um pouco sorridente De o cansaço ser só isto — Uma vontade de sono no corpo, Um desejo de não pensar na alma, E por cima de tudo uma transparência lúcida Do entendimento retrospectivo... E a luxúria única de não ter já esperanças? Sou inteligente: eis tudo. Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, E há um certo prazer até no cansaço que isto me dá, Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa. 24-6-1935 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 78. Lapso corrigido segundo: Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. Não estou pensando em nada E essa coisa central, que é coisa nenhuma, É-me agradável como o ar da noite, Fresco em contraste com o Verão quente do dia. Não estou pensando em nada, e que bom! Pensar em nada É ter a alma própria e inteira. Pensar em nada É viver intimamente O fluxo e o refluxo da vida... Não estou pensando em nada. É como se me tivesse encostado mal. Uma dor nas costas, ou num lado das costas. Há um amargo de boca na minha alma: É que, no fim de contas, Não estou pensando em nada, Mas realmente em nada, Em nada... 6-7-1935 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 80. O sono que desce sobre mim, O sono mental que desce fisicamente sobre mim, O sono universal que desce individualmente sobre mim — Esse sono Parecerá aos outros o sono de dormir, O sono da vontade de dormir, O sono de ser sono. Mas é mais, mais de dentro, mais de cima: É o sono da soma de todas as desilusões, É o sono da síntese de todas as desesperanças, É o sono de haver mundo comigo lá dentro Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso. O sono que desce sobre mim É contudo como todos os sonos. O cansaço tem ao menos brandura, O abatimento tem ao menos sossego, A rendição é ao menos o fim do esforço, O fim é ao menos o já não haver que esperar. Há um som de abrir uma janela, Viro indiferente a cabeça para a esquerda Por sobre o ombro que a sente, Olho pela janela entreaberta: A rapariga do segundo-andar de defronte Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém. De quem?, Pergunta a minha indiferença. E tudo isso é sono. Meu Deus, tanto sono!... 28-8-1935 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 82. Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas. As cartas de amor, se há amor, Têm de ser Ridículas. Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor É que são Ridículas. Quem me dera no tempo em que escrevia Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas. A verdade é que hoje As minhas memórias Dessas cartas de amor É que são Ridículas. (Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas). 21-10-1935 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 84. 1ª publ. in Acção , nº41. Lisboa: 6-3-1937. Quero acabar entre rosas, porque as amei na infância. Os crisântemos de depois, desfolhei-os a frio. Falem pouco, devagar, Que eu não oiça, sobretudo com o pensamento. O que quis? Tenho as mãos vazias, Crispadas flebilmente sobre a colcha longínqua. O que pensei? Tenho a boca seca, abstracta. O que vivi? Era tão bom dormir! 8-12-1931 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 86. 1ª publ. in Descobrimento . Lisboa: Inverno 1931-1932. O frio especial das manhãs de viagem, A angústia da partida, carnal no arrepanhar Que vai do coração à pele, Que chora virtualmente embora alegre. 9-10-1927 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 87. No fim de tudo dormir. No fim de quê? No fim do que tudo parece ser..., Este pequeno universo provinciano entre os astros, Esta aldeola do espaço, E não só do espaço visível, mas até do espaço total. s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 88. Na casa defronte de mim e dos meus sonhos, Que felicidade há sempre! Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi. São felizes, porque não são eu. As crianças, que brincam às sacadas altas, Vivem entre vasos de flores, Sem dúvida, eternamente. As vozes, que sobem do interior do doméstico, Cantam sempre, sem dúvida. Sim, devem cantar. Quando há festa cá fora, há festa lá dentro. Assim tem que ser onde tudo se ajusta — O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza. Que grande felicidade não ser eu! Mas os outros não sentirão assim também? Quais outros? Não há outros. O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada, Ou, quando se abre, É para as crianças brincarem na varanda de grades, Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram. Os outros nunca sentem. Quem sente somos nós, Sim, todos nós, Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada. Nada? Não sei... Um nada que dói... 16-6-1934 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 56. Ah a frescura na face de não cumprir um dever! Faltar é positivamente estar no campo! Que refúgio o não se poder ter confiança em nós! Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros. Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo, Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha. Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida. Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação. É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora, Deliberadamente à mesma hora... Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico. É tão engraçada esta parte assistente da vida! Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto, Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida. 17-6-1929 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 40. Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido, Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une, A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea — Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma, Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem — Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração. 31-12-1929 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 41. Chega através do dia de névoa alguma coisa do esquecimento, Vem brandamente com a tarde a oportunidade da perda. Adormeço sem dormir, ao relento da vida. É inútil dizer-me que as acções têm consequências. É inútil eu saber que as acções usam consequências. É inútil tudo, é inútil tudo, é inútil tudo. Através do dia de névoa não chega coisa nenhuma. Tinha agora vontade De ir esperar ao comboio da Europa o viajante anunciado, De ir ao cais ver entrar o navio e ter pena de tudo. Não vem com a tarde oportunidade nenhuma. 21-9-1930 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 42. Grandes são os desertos, e tudo é deserto. Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo. Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes — Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas, Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu. Grandes são os desertos, minha alma! Grandes são os desertos. Não tirei bilhete para a vida, Errei a porta do sentimento, Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse. Hoje não me resta, em vésperas de viagem, Com a mala aberta esperando a arrumação adiada, Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem, Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado) Senão saber isto: Grandes são os desertos, e tudo é deserto. Grande é a vida, e não vale a pena haver vida. Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem). Acendo o cigarro para adiar a viagem, Para adiar todas as viagens. Para adiar o universo inteiro. Volta amanhã, realidade! Basta por hoje, gentes! Adia-te, presente absoluto! Mais vale não ser que ser assim. Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro. E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito. Mas tenho que arrumar a mala, Tenho por força que arrumar a mala, A mala. Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão. Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala. Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas, A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino. Tenho que arrumar a mala de ser. Tenho que existir a arrumar malas. A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte. Olho para o lado, verifico que estou a dormir. Sei só que tenho que arrumar a mala, E que os desertos são grandes e tudo é deserto, E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci. Ergo-me de repente todos os Césares. Vou definitivamente arrumar a mala. Arre, hei-de arrumá-la e fechá-la; Hei-de vê-la levar de aqui, Hei-de existir independentemente dela. Grandes são os desertos e tudo é deserto, Salvo erro, naturalmente. Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado! Mais vale arrumar a mala. Fim. 4-10-1930 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 43. Tenho uma grande constipação, E toda a gente sabe como as grandes constipações Alteram todo o sistema do universo, Zangam-nos contra a vida, E fazem espirrar até à metafísica. Tenho o dia perdido cheio de me assoar. Dói-me a cabeça indistintamente. Triste condição para um poeta menor! Hoje sou verdadeiramente um poeta menor. O que fui outrora foi um desejo; partiu-se. Adeus para sempre, rainha das fadas! As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando. Não estarei bem se não me deitar na cama. Nunca estive bem senão deitando-me no universo. Excusez un peu... Que grande constipação física! Preciso de verdade e da aspirina. 14-3-1931 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 48. 1ª publ. in Presença , 2ª série, nº1. Coimbra: Nov. 1939. Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo, Espécie de acessório ou sobresselente próprio, Arredores irregulares da minha emoção sincera, Sou eu aqui em mim, sou eu. Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma. Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim. E ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente, Como de um sonho formado sobre realidades mistas, De me ter deixado, a mim, num banco de carro eléctrico, Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima. E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua, Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda, De haver melhor em mim do que eu. Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa, Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores, De haver falhado tudo como tropeçar no capacho, De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas, De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida. Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica, Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar, De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo — A impressão de pão com manteiga e brinquedos, De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina, De uma boa vontade para com a vida encostada de testa à janela, Num ver chover com som lá fora E não as lágrimas mortas de custar a engolir. Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado, O emissário sem carta nem credenciais, O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro, A quem tinem as campainhas da cabeça Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima. Sou eu mesmo, a charada sincopada Que ninguém da roda decifra nos serões de província. Sou eu mesmo, que remédio!... 6-8-1931 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 49. Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros, Contente da minha anonimidade. Domingo serei feliz — eles, eles... Domingo... Hoje é quinta-feira da semana que não tem domingo... Nenhum domingo. — Nunca domingo. — Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo que vem. Assim passa a vida, Subtil para quem sente, Mais ou menos para quem pensa: Haverá sempre alguém nas hortas ao domingo, Não no nosso domingo, Não no meu domingo, Não no domingo... Mas sempre haverá outros nas hortas e ao domingo! 9-8-1934 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 58. E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta, Letras e riscos irregulares abrindo para a maravilha. O que de sonho jaz nas encadernações vetustas, Nas assinaturas complicadas (ou tão simples e esguias) dos velhos livros. (Tinta remota e desbotada aqui presente para além da morte, O que de negado à nossa vida quotidiana vem nas ilustrações, O que certas gravuras de anúncios sem querer anunciam. Tudo quanto sugere, ou exprime o que não exprime. Tudo o que diz o que não diz, E a alma sonha, diferente e distraída. Ó enigma visível do tempo, o nada vivo em que estamos!) 14-1-1933 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 51. Lisboa com suas casas De várias cores, Lisboa com suas casas De várias cores, Lisboa com suas casas De várias cores... À força de diferente, isto é monótono. Como à força de sentir, fico só a pensar. Se, de noite, deitado mas desperto, Na lucidez inútil de não poder dormir, Quero imaginar qualquer coisa E surge sempre outra (porque há sono, E, porque há sono, um bocado de sonho), Quero alongar a vista com que imagino Por grandes palmares fantásticos. Mas não vejo mais, Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras, Que Lisboa com suas casas De várias cores. Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa. À força de monótono, é diferente. E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo. Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo, Lisboa com suas casas De várias cores. 11-5-1934 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 52. Esta velha angústia, Esta angústia que trago há séculos em mim, Transbordou da vasilha, Em lágrimas, em grandes imaginações, Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror, Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum. Transbordou. Mal sei como conduzir-me na vida Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! Se ao menos endoidecesse deveras! Mas não: é este estar entre, Este quase, Este poder ser que..., Isto. Um internado num manicómio é, ao menos, alguém, Eu sou um internado num manicómio sem manicómio. Estou doido a frio, Estou lúcido e louco, Estou alheio a tudo e igual a todos: Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura Porque não são sonhos Estou assim... Pobre velha casa da minha infância perdida! Quem te diria que eu me desacolhesse tanto! Que é do teu menino? Está maluco. Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano? Está maluco. Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou. Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer! Por exemplo, por aquele manipanso Que havia em casa, lá nessa, trazido de África. Era feiíssimo, era grotesco, Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê. Se eu pudesse crer num manipanso qualquer — Júpiter, Jeová, a Humanidade — Qualquer serviria, Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo? Estala, coração de vidro pintado! 16-6-1934 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 54. Começa a haver meia-noite, e a haver sossego, Por toda a parte das coisas sobrepostas, Os andares vários da acumulação da vida... Calaram o piano no terceiro-andar... Não oiço já passos no segundo-andar... No rés-do-chão o rádio está em silêncio... Vai tudo dormir... Fico sozinho com o universo inteiro. Não quero ir à janela: Se eu olhar, que de estrelas! Que grandes silêncios maiores há no alto! Que céu anticitadino! — Antes, recluso, Num desejo de não ser recluso, Escuto ansiosamente os ruídos da rua... Um automóvel! — demasiado rápido! — Os duplos passos em conversa falam-me O som de um portão que se fecha brusco dói-me... Vai tudo dormir... Só eu velo, sonolentamente escutando, Esperando Qualquer coisa antes que durma... Qualquer coisa... 9-8-1934 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 59. Depus a máscara e vi-me ao espelho. — Era a criança de há quantos anos. Não tinha mudado nada... É essa a vantagem de saber tirar a máscara. É-se sempre a criança, O passado que foi A criança. Depus a máscara e tornei a pô-la. Assim é melhor, Assim sou a máscara. E volto à personalidade como a um terminus de linha. 18-8-1934 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 61. Lapso corrigido segundo: Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. Na véspera de não partir nunca Ao menos não há que arrumar malas Nem que fazer planos em papel Com acompanhamento involuntário de esquecimentos, Para o partir ainda livre do dia seguinte. Não há que fazer nada Na véspera de não partir nunca. Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego! Grande tranquilidade a que nem sabe encolher ombros Por isto tudo, ter pensado o tudo É o ter chegado deliberadamente a nada. Grande alegria de não ter precisão de ser alegre, Como uma oportunidade virada do avesso. Há quantas vezes vivo A vida vegetativa do pensamento! Todos os dias sine linea Sossego, sim, sossego... Grande tranquilidade... Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas! Que prazer olhar para as malas fitando como para nada! Dormita, alma, dormita! Aproveita, dormita! Dormita! É pouco o tempo que tens! Dormita! É a véspera de não partir nunca! 27-9-1934 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 62. O que há em mim é sobretudo cansaço — Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço. A subtileza das sensações inúteis, As paixões violentas por coisa nenhuma, Os amores intensos por o suposto em alguém, Essas coisas todas — Essas e o que falta nelas eternamente —; Tudo isso faz um cansaço, Este cansaço, Cansaço. Há sem dúvida quem ame o infinito, Há sem dúvida quem deseje o impossível, Há sem dúvida quem não queira nada — Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: Porque eu amo infinitamente o finito, Porque eu desejo impossivelmente o possível, Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, Ou até se não puder ser... E o resultado? Para eles a vida vivida ou sonhada, Para eles o sonho sonhado ou vivido, Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... Para mim só um grande, um profundo, E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, Um supremíssimo cansaço, Íssimo, íssimo, íssimo, Cansaço... 9-10-1934 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 64. Às vezes tenho ideias, felizes, Ideias subitamente felizes, em ideias E nas palavras em que naturalmente se despejam... Depois de escrever, leio... Porque escrevi isto? Onde fui buscar isto? De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu... Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?... 18-12-1934 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 66. Lapso corrigido segundo: Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. O QUE É A METAFÍSICA? Na opinião de Fernando Pessoa, expressa no ensaio «Athena», a filosofia — isto é, a metafísica — não é uma ciência, mas uma arte. Não creio que assim seja. Parece‑me que Fernando Pessoa confunde o que a arte é com o que a ciência não é. Ora o que não é ciência, nem por isso é necessariamente arte: é simplesmente não‑ciência. Pensa Fernando Pessoa, naturalmente, que como a metafísica não chega, nem aparentemente pode chegar, a uma conclusão verificável, não é uma ciência. Esquece que o que define uma actividade é o seu fim; e o fim da metafísica é idêntico ao da ciência — conhecer factos, e não ao da arte — substituir factos. As ciências realizam esse fim de conhecer factos — realizam‑no umas mais, outras menos — porque os factos que pretendem conhecer são definidos. Mas, antes de conhecidos, todos os factos são in‑definidos; e toda a ciência, em relação a eles, está no estado da metafísica. Por isso chamarei à metafísica, não uma arte, mas uma ciência virtual, pois que tende para conhecer e ainda não conhece Se ficará sempre virtual, se o não ficará; se há outro «plano» ou vida em que deixe de ser virtual — são coisas que nem eu nem Fernando Pessoa sabemos, porque verdadeiramente não sabemos nada. Repare Fernando Pessoa que a sociologia é uma ciência tão virtual como a metafísica. A que conclusão, escassa que seja, se chegou já em sociologia? Positivamente, a nenhuma. Um congresso de sociologia, ocupando‑se de ao menos definir essa ciência, não o conseguiu. A política moderna é tão complicadamente confusa porque o espírito moderno obriga‑nos (talvez sem razão) a buscar uma ciência para tudo, e, como aqui não temos uma ciência mas só a preocupação de a ter, cada um toma por absoluta a sociologia relativa, isto é, nula, que inventou ou que, mais ou menos estropiadamente, assimilou de outro que também do assunto não sabia nada. Compare Fernando Pessoa as discussões dos escolásticos com, sobretudo, as dos socialistas, comunistas e anarquistas modernos. É o mesmo especulativismo de manicómio, ressalvando que os escolásticos eram subtis, disciplinados no raciocínio e inofensivos, e os modernos «avançados» (como a si próprios se chamam, como se houvesse «avanço» onde não há ciência) são estúpidos, confusos e, dada a pseudo‑semicultura da época, incómodos. Discutir quantos anjos podem convenientemente fixar‑se na ponta de uma agulha, pode ser improfícuo — e é com certeza mais engraçado — que discutir qual será ou deve ser o regime humanitário (e porque não anti‑humanitário?) e equitativo (e porque não mais injusto e desigual do que o presente?) em que viverá a humanidade futura (e que sabemos nós, que ignoramos toda e qualquer lei sociológica, que desconhecemos portanto, mesmo sob a acção delas, quais são as forças naturais que actualmente nos regem e arrastam e para onde, o que será a humanidade futura, o que quererá — pois pode não querer para si o que qualquer de nós quer para ela —, ou mesmo se haverá humanidade futura, ou um cataclismo destruidor da terra, e da nossa sociologia ainda incompleta, e dos humanitarismos de bizantinos que não sabem ler?). Repare ainda Fernando Pessoa no facto — que aliás cita em outra conexão — de que a ciência tende para ser matemática à medida que se aperfeiçoa para reduzir tudo a fórmulas «abstractas», precisas, onde é máxima a libertação das «equações pessoais», isto é, dos erros de observação e coordenação produzidos pela falibilidade dos sentidos e do entendimento do observador ( 1 ). Ora «fórmulas abstractas» é justamente o que a metafísica procura. E a matemática, nos seus níveis «superiores», confina com a metafísica, ou, pelo menos, com ideias metafísicas. Tudo isto não quer dizer, é certo, que a metafísica venha a ser mais que uma ciência virtual, ou que não venha a ser mais. Quer dizer apenas que ela é efectivamente, não uma arte, mas uma ciência virtual. Pasmarão talvez destas considerações os que leram o meu Ultimatum, no «Portugal Futurista» (1917). Nesse Ultimatum lê‑se sobre a filosofia uma opinião que parece, salvo que a precedeu, exactamente a mesma que a de Fernando Pessoa. Não é bem assim. A conclusão prática pode ser realmente idêntica, mas a conclusão teórica, que é a prática para uma teoria, é diferente. A minha teoria, em resumo, era que: 1.° — se deve substituir a filosofia por filosofias, isto é, mudar de metafísica como de camisa, substituindo à metafísica procura da verdade, a metafísica procura da emoção e do interesse; e que 2.º — se deve substituir a metafísica pela ciência. É fácil de ver como esta teoria, tendo na prática quase os mesmos resultados que o pensamento de Fernando Pessoa, é diferente dele. Não rejeito a metafísica, rejeito as ciências virtuais todas, isto é, todas as ciências que não se aproximaram ainda do estado, vá, «matemático»; mas, para não desaproveitar essas ciências virtuais, que, porque existem, representam uma necessidade humana, faço artes delas, ou antes, proponho que se faça artes delas — da metafísica, metafísicas várias, buscando arranjar sistemas do universo coerentes e engraçados, mas sem lhes ligar intenção alguma de verdade, exactamente como em arte se descreve e expõe uma emoção interessante, sem se considerar se corresponde ou não a uma verdade objectiva de qualquer espécie. É por esta mesma razão que substituo por partes as ciências virtuais no campo subjectivo, para não desamparar o desejo ou ambição humana que as faz existir, e exige, como todos os desejos, uma satisfação, embora ilusó ria, que subs tituo as ciências virtuais pelas ciências reais no campo objectivo. Ponhamos ainda mais a claro a discordância entre mim e Fernando Pessoa. Para ele a metafísica é essencialmente arte, e a sociologia, de que não fala, é naturalmente ciência. Para mim são, ambas e igualmente, essencialmente ciências, não o sendo porém ainda, nem talvez nunca, mas por uma razão extrínseca e não intrínseca. Proponho pois que se substituam por artes enquanto não são efectivamente ciências, o que pode ser que seja sempre, dando‑se então na prática, entre a minha teoria e a de Fernando Pessoa, aquela coincidência de efeitos que não é raro entre teorias não só diversas, mas absolutamente opostas. Esclareço ainda mais ... A metafísica pode ser uma actividade científica, mas também pode ser uma actividade artística. Como actividade científica, virtual que seja, procura conhecer; como actividade artística, procura sentir. O campo da metafísica é o abstracto e o absoluto. Ora o abstracto e o absoluto podem ser sentidos, e não só pensados, pela simples razão de que tudo pode ser, e é, sentido. O abstracto pode ser considerado, ou sentido, como não‑concreto, ou como directamente abstracto, isto é, relativamente ou absolutamente. A emonão do abstracto como não‑concreto — isto é, indefinido — é a base, ou mesmo a essência, do sentimento religioso, incluindo neste sentimento tanto a religiosidade do Além, como a religiosidade laica de uma humanidade futura, porque, desde que se forme uma visão de uma humanidade definitiva, ou de um ideal político definitivo, isto é, absoluto, sente‑se não concretamente, porque se sente em relacão à realidade concreta, mas em oposição ao «fluxo e refluxo eterno», que é a base dela. A emocão do abstracto como abstracto — isto é, definido — é a base, ou mesmo a essência, do sentimento metafísico. O sentimento metafísico e o religioso são directamente opostos, o que se vê claramente na infecundidade metafísica (a falta de grandes originalidades metafísicas) em épocas como a nossa, em que a especulação social utópica é o fenómeno marcante, e não haveria metafísica alguma se não houvesse deficiência da outra parte do espírito religioso, e aquela liberdade de pensamento que estimula toda a espécie de especulação; ou como a Idade Média, perdida na adaptação teológica de metafísicas gregas, e em cuja noite caliginosa só de vez em quando brilha metafisicamente o astro breve de uma heresia. O sentimento religioso é inteiramente irracionalizável, nem pode haver teologia, ou sociologia utópica, senão por engano ou doença. O sentimento metafísico é racionalizável, como todo o sentimento de uma coisa definida, que basta tornar‑se inteiramente definida para se tornar matéria racional, ou científica. Proponho eu, simplesmente, que a matéria da metafísica, enquanto não está inteiramente definida, e portanto em estado de se pensar, e a metafísica se tornar ciência, seja ao menos sentida, e a metafísica seja arte; visto que tudo, bom ou mau, verdadeiro ou falso, tem afinal, porque existe, um direito vital a existir. A minha teoria estética e social no Ultimatum resume‑se nisto: na irracionalização das actividades que não são (pelo menos ainda) racionalizáveis. Como a metafísica é uma ciência virtual, e a sociologia é outra, proponho a irracionalização de ambas — isto é, a metafísica tornada arte, o que a irracionaliza porque Ihe tira sua finalidade própria; e a sociologia tornada só a política, o que a irracionaliza porque a torna prática quando ela é teórica. Não proponho a substituição da metafísica pela religião e da sociologia pelo utopismo social, porque isso seria, não irracionalizar, mas sub‑racionalizar essas actividades, dando‑lhes, não uma finalidade diversa, mas um grau inferior da sua própria finalidade. É isto, em resumo, o que defendi no meu Ultimatum. E as teorias, política e estética, inteiramente originais e novas, que proponho nessa proclamação, são, por uma razão lógica, inteiramente irracionais, exactamente como a vida. ÁLVARO DE CAMPOS ( 1 ) Convém que, para prevenção dos leigos, se faça uma observação, embora digressiva, a este respeito. As ciências, ao aproximarem‑se do estado matemático, tornam‑se mais precisas: é porém duvidoso que, por isso, se tornem mais certas. Tanto os puros matemáticos como os leigos em matemática tendem a atribuir a esta ciência um carácter de «certeza» que não é necessariamente exacto. A matemática é uma linguagem perfeita, mais nada. Há a considerar a relatividade dos próprios princípios matemáticos — não a simples relatividade condicional, conhecida há muito de todos que sabem que para muita aplicação prática, isto é, verdadeiramente científica, da matemática, é preciso introduzir coeficientes de correcção; mas uma relatividade mesmo incondicional, sobejamente demonstrada já, por exemplo e para a geometria, pela existência de geometrias não‑euclidianas, tão «certas» na aplicação como a «clássica». Convém ainda avisar esses mesmos leigos que a expressão «relatividade» é aqui empregada no seu sentido tradicional e lógico e não no sentido, aliás infeliz e absurdo, em que se chama «da relatividade» à teoria de Einstein, que é simplesmente uma teoria, primeiro restrita, depois generalizada, do movimento relativo. s.d. Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 11. 1ª publ. in Athena , nº 2. Lisboa: Nov. 1924. Símbolos? Estou farto de símbolos... Mas dizem-me que tudo é símbolo. Todos me dizem nada. Quais símbolos? Sonhos.— Que o sol seja um símbolo, está bem... Que a lua seja um símbolo, está bem... Que a terra seja um símbolo, está bem... Mas quem repara no sol senão quando a chuva cessa, E ele rompe as nuvens e aponta para trás das costas Para o azul do céu? Mas quem repara na lua senão para achar Bela a luz que ela espalha, e não bem ela? Mas quem repara na terra, que é o que pisa? Chama terra aos campos, às árvores, aos montes. Por uma diminuição instintiva, Porque o mar também é terra... Bem, vá, que tudo isso seja símbolo... Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra, Mas neste poente precoce e azulando-se O sol entre farrapos finos de nuvens, Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado, E o que fica da luz do dia Doura a cabeça da costureira que pára vagamente à esquina Onde demorava outrora com o namorado que a deixou? Símbolos? Não quero símbolos... Queria — pobre figura de miséria e desamparo! — Que o namorado voltasse para a costureira. 18-12-1934 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 67. Não sei quem foi a mulher que Caeiro amou. Nunca terminei sabê-lo, nem com a curiosidade. Há coisas que [a] alma se recusa a não ignorar. Bem sei que ninguém é obrigado a corresponder ao amor, e que os grandes poetas não têm nada com ser grandes amados. Mas há um rancor transcendente (...) Que ela fique anónima, até para Deus! s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 423. Ali não havia electricidade. Por isso foi à luz de uma vela mortiça Que li, inserto na cama, O que estava à mão para ler — A Bíblia, em português (coisa curiosa!), feita para protestantes E reli a «Primeira Epístola aos Coríntios». Em torno de mim o sossego excessivo de noite de província Fazia um grande barulho ao contrário, Dava-me uma tendência do choro para a desolação. A «Primeira Epístola aos Coríntios»... Relia-se à luz de uma vela subitamente antiquíssima, E um grande mar de emoção ouvia-se dentro de mim... Sou nada... Sou uma ficção... Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo? «Se eu não tivesse a caridade». E a soberana luz manda, e do alto dos séculos, A grande mensagem com que a alma é livre... «Se eu não tivesse a caridade»... Meu Deus, e eu que não tenho a caridade!... 20-12-1934 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 69. Não sei quem foi a mulher que teve o descaramento de ser amada pelo meu mestre Caeiro. Não quero saber, com quanto sou. Fosse quem fosse ou fingisse, desprezo-a do alto de quem sou e em nome do universo. Que ela fique sempre anónima, até para si mesma. Que «arre» lhe seja o passaporte e o que faltar lhe ponha o visto. Desista! Não merece mais que o Disparate! Apague-se à borracha o que se não chegou a ler. 11-7-1930 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 424. …… = O homem que cai na vida chamada dissoluta, e nela se fixa mantém-se homem, cumpre o seu dever para consigo próprio que é o de se dar prazer sexual, visto que tem faculdades psíquicas e físicas que o exigem. Excusa - dada a existência da prostituição - de se intranquilusar nessa caça ao prazer; pode anular uma coisa a que os moralistas chamam «as suas faculdades superiores de amoroso», mas essas faculdades não são senão as que tendem para o sossego sexual, interpretadas através dos sonetos de Petrarca que, aliás, teve variados bastardos. Mas a mulher que ganha a vida perde a sua qualidade fundamental de mulher. Todo o tempo que gasta a trabalhar para ganhar a vida, perde-o para o seu único fim vital e psíquico, que é captar o homem. Por isso a única profissão feminina que não estraga a mulher é a de prostituta. - Eh? = Absolutamente. A mulher que ganha a vida «honradamente» é uma invertida. O que no homem corresponde a esse desvio feminino é a inversão sexual. É o desvio do fenómeno sexual para onde o sossego é obtido pela impossibilidade natural de realizar o fenómeno sexual. Essa impossibilidade pode ser porque as relações sexuais entre homens são realmente possíveis. Mas isso é um requinte da inversão sexual normal em determinado tipo de homem, que, por si, não é anormal. Shakespeare nos seus Sonetos, apaixonando-se por um mancebo qualquer, foi, como sempre o grande normal que ele era, e representante supremo do tipo máximo masculino, o do homem cheio de interesses e atenções para tantas coisas da vida, que não pode gastar tempo na caça ao prazer sexual normal, e por isso o substitui pelo prazer sexual dado pela amizade com outros homens levada ao requinte, visto que esses interesses da sua vida o levarão por certo a lidar mais com homens do que com mulheres. - Essa teoria é fantástica. Com que então, para si, a inversão sexual é de certo modo uma coisa normal? = A inversão sexual masculina; da feminina só falei por alto. Essa é anormal. A mulher não tem direito à inversão sexual. Nela é uma degenerescência... - A propósito: que papel tem na sua teoria - que explicação, quero eu dizer - a inversão sexual feminina propriamente tal? = Ah, essa? É simples. É simples e um pouco complexa, sobretudo para explicar. Primeiro, a mulher desvia-se do seu papel normal de captar o homem. Feito isso, ela já está invertida, está homem. Safo, por exemplo, caindo no erro terrível e imoralíssimo, de, sendo mulher, escrever versos, ficou ipso facto invertida; uma vez invertida, tomou-se psiquicamente homem. - Sim, está bem. Já vejo o resto. Daí a sentir uma atração física pela mulher, o passo é um e curto. Resta saber se essa explicação corresponde à realidade. É tão simples que deve ser falsa, e tão natural que o é com certeza. …… s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 425. ARCO DO TRIUNFO - Álvaro de Campos 1. Três sonetos: I. (A Raul de Campos) II. III. (A Daisy M.) 2. Opiário.        A Fernando Pessoa 3. Carnaval. 4. Ode Triunfal.        A Mário de Sá-Carneiro 5. Ode Marítima.        A Santa Rita Pintor 6. Ultimatum. 7. Saudação a Walt Whitman. 8. A Passagem das Horas.        A José de Almada Negreiros 9. Ode Marcial.        A Raul Leal 10. A Partida (fragmentos). (11.)(Fragmentos de afirmações). 12. Arco de Triunfo. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 427. BICARBONATO DE SODA Súbita, uma angústia... Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma! Que amigos que tenho tido! Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido! Que esterco metafísico os meus propósitos todos! Uma angústia, Uma desconsolação da epiderme da alma, Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço... Renego. Renego tudo. Renego mais do que tudo. Renego a gládio e fim todos os deuses e a negação deles. Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na circulação do sangue? Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro? Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me? Não: vou existir. Arre! Vou existir. E-xis-tir... E--xis--tir... Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue! Renunciar de portas todas abertas, Perante a paisagem todas as paisagens, Sem esperança, em liberdade, Sem nexo, Acidente da inconsequência da superfície das coisas, Monótono mas dorminhoco, E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas! Que verão agradável dos outros! Dêem-me de beber, que não tenho sede! 20-6-1930 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 287. Não: devagar. Devagar, porque não sei Onde quero ir. Há entre mim e os meus passos Uma divergência instintiva. Há entre quem sou e estou Uma diferença de verbo Que corresponde à realidade. Devagar... Sim, devagar... Quero pensar no que quer dizer Este devagar... Talvez o mundo exterior tenha pressa demais. Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo. TaIvez a impressão dos momentos seja muito próxima... Talvez isso tudo... Mas o que me preocupa é esta palavra devagar... O que é que tem que ser devagar? Se calhar é o universo... A verdade manda Deus que se diga. Mas ouviu alguém isso a Deus? 30-12-1934 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 71. O Sensacionismo começou com a amizade entre Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Provavelmente é difícil destrinçar a parte de cada um na origem do movimento e, com certeza, absolutamente inútil determiná-lo. O facto é que ambos lhe deram início. Mas cada sensacionista digno de menção é uma personalidade à parte e, naturalmente, todos exerceram uma actividade recíproca. Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro estão mais próximos dos simbolistas. Álvaro de Campos e Almada Negreiros são mais afins da moderna maneira de sentir e de escrever. Os outros são intermédios. Fernando Pessoa padece de cultura clássica. Nenhum sensacionista foi mais além do que Sá-Carneiro na expressão do que em sensacionismo se poderá chamar sentimentos coloridos. A sua imaginação — uma das mais puras na moderna literatura, pois ele excedeu Poe no conto dedutivo em A Estranha Morte do Professor Antena —corre desenfreada por entre os elementos que os sentidos lhe facultaram, e o seu sentido da cor é dos mais intensos entre os homens de letras. Fernando Pessoa é mais puramente intelectual; a sua força reside mais na análise intelectual do sentimento e da emoção, por ele levada a uma perfeição que quase nos deixa com a respiração suspensa. Do seu drama estático, O Marinheiro, disse uma vez um leitor: «Torna o mundo exterior inteiramente irreal» e, de facto, assim é. Nada de mais remoto existe em literatura. A melhor nebulosidade e subtileza de Maeterlinck é grosseira e carnal em comparação. José de Almada-Negreiros é mais espontâneo e rápido, mas nem por isso deixa de ser um homem de génio. Ele é mais novo do que os outros, não só em idade como também em espontaneidade e efervescência. Possui uma personalidade muito distinta — para admirar é que a tivesse adquirido tão cedo. Luís de Montalvor é quem está mais próximo dos simbolistas. No que se refere a estilo e orientação espiritual não está muito distante de Mallarmé, o qual, não é difícil adivinhar, é, com certeza, o seu poeta favorito. Mas existem claros elementos sensacionistas na sua poesia, coisas inteiramente tiradas a Mallarmé, mais intelectualmente profundas, mais sinceramente sentidas no cérebro, para falar, de todo em todo, à sensacionista. São, de longe, bem mais interessantes do que os cubistas e os futuristas! Nunca desejei conhecer pessoalmente qualquer dos sensacionistas por estar persuadido de que o melhor conhecimento é impessoal. Álvaro de Campos define-se excelentemente como sendo um Walt Whitman com um poeta grego lá dentro. Há nele toda a pujança da sensação intelectual, emocional e física que caracterizava Whitman; mas nele verifica-se o traço precisamente oposto — um poder de construção e de desenvolvimento ordenado de um poema que nenhum poeta depois de Milton jamais alcançou. A Ode Triunfal de Álvaro de Campos, whitmanescamente caracterizada pela ausência de estrofe e de rima (e regularidade), possui uma construção e um desenvolvimento ordenado que estultifica a perfeição que Lycidas , por exemplo, pode reivindicar neste particular. A Ode Marítima que ocupa nada menos de 22 páginas de Orpheu, é uma autêntica maravilha de organização. Nenhum regimento alemão jamais possuiu a disciplina interior subjacente a essa composição, a qual, pelo seu aspecto tipográfico, quase se pode considerar um espécime de desleixo futurista. As mesmas considerações são de aplicar à magnífica Saudação a Walt Whitman no terceiro Orpheu As mesmas considerações quase que se podem aplicar a José de Almada-Negreiros, se ele não fosse menos disciplinado e mais (...). A Cena de Ódio escrita por «J.[osé de Almada-Negreiros] um poeta sensacionista e Narciso do Egipto» (como ele se intitula a si próprio) (...). Diz-se que possui muitas obras por publicar e algumas impublicáveis. O sensacionista que mais publicou foi Mário de Sá-Carneiro. Nasceu em Maio de 1890 e suicidou-se em Paris a 26 de Abril de 1916. Nessa altura os jornais franceses apodaram-no de futurista, embora — e porque — ele o não fosse. O seu grande mérito reside no conjunto dos seus contos, mas a sua extensão não permite inclui-los nesta antologia. Mas o ponto fraco destes clássicos é, mesmo quando clássicos, não serem portugueses. Qualquer homem de génio — quando de génio se trata — poderia ter procedido assim fora de Portugal; por isso não valeu a pena fazê-lo em português. Não podemos admitir um homem a escrever a sua língua natal a não ser que tenha algo a dizer que só um homem falando essa língua pudesse dizer. O forte de Shakespeare é ele não poder ter sido senão inglês. Por isso ele escreveu em inglês e nasceu em Inglaterra. Uma coisa que pode ser dita tão bem numa língua como noutra é melhor não se dizer. É nova apenas à superfície.(?) Os sensacionistas portugueses são originais e interessantes porque, sendo estritamente portugueses, são cosmopolitas e universais. O temperamento português é universal; esta, a sua magnífica superioridade. O acto verdadeiramente grande da História portuguesa — esse longo, cauteloso, científico período dos Descobrimentos — é o grande acto cosmopolita da História. Nele se grava o povo inteiro. Uma literatura original, tipicamente portuguesa não o pode ser porque os portugueses típicos nunca são portugueses. Há algo de americano, com a barulheira e o quotidiano omitidos, no temperamento intelectual deste povo. Ninguém como ele se apropria tão prontamente das novidades. Nenhum povo despersonaliza tão magnificamente. Essa fraqueza é a sua grande força. Esse não-regionalismo temperamental é o seu inusitado poder. É essa indefinidade de alma que o define. Porque o facto significativo acerca dos portugueses é que eles são o povo mais civilizado da Europa. Eles nascem civilizados porque nascem aceitadores de tudo. Neles nada há do que os antigos psiquiatras costumavam chamar misoneismo, o que significa apenas ódio às coisas novas; gostam francamente de mudar e do que é novo. Não possuem elementos estáveis, como os franceses, que só fazem revoluções para exportação. Os portugueses estão sempre a fazer revoluções. Quando um português se vai deitar faz uma revolução porque o português que acorda na manhã seguinte é diferente. É precisamente um dia mais velho, um dia mais velho sem dúvida alguma. Outros povos acordam todas as manhãs no dia de ontem; o amanhã está sempre a vários anos de distância. Mas não esta tão estranha gente. Move-se tão rapidamente que deixa tudo por fazer, incluindo ir depressa. Não há nada menos ocioso do que um português. A única parte ociosa do país é a que trabalha. Daí a sua falta de evidente progresso. No que se refere à literatura portuguesa moderna, o melhor é «virarmos a esquina» quando ela aparece. É o eco de um eco de um eco de algo que não valeu a pena dizer-se. Quando não é puro esterco, como nos romances de Abel Botelho, deveria sê-lo, para, ao menos, ser alguma coisa, como nos romances e poemas de todos os outros autores. Toda a literatura portuguesa clássica dificilmente chega a ser interessante; até dificilmente chega a ser clássica. Pondo de parte algumas coisas de Camões que são nobres; várias outras de Antero de Quental que são grandes; um ou dois poemas de Junqueiro que valem a pena ser lidos, quanto mais não seja para vermos até que ponto ele se pode educar para além de se ter educado em Hugo; um poema de Teixeira de Pascoaes que passou o resto da vida literária a pedir desculpa em má poesia por ter escrito um dos maiores poemas de amor do mundo — se exceptuarmos isto e outras insignificâncias que são excepções precisamente por serem insignificâncias, o conjunto da literatura portuguesa dificilmente é literatura e quase nunca é portuguesa. É provençal, italiana, espanhola e francesa, ocasionalmente inglesa, em alguns, como Garrett, que sabia o francês bastante para ler más traduções francesas de poemas ingleses inferiores e acertar quando eles erram. Possui a literatura portuguesa alguma boa prosa; Vieira é um mestre em qualquer parte, embora fosse um pregador. Diz-se também que é um guia da linguagem, mas isso pode-se desculpar porque ele é um guia para Machiavelli através da sua natureza de jesuíta. Há coisas esplêndidas nos cronistas antigos, mas estes surgiram antes de Portugal ter dado conta de si, ausente por todo mundo, com todos os mares abertos aos povos que não ousaram lá ir primeiro. Um ou dois poetas modernos ascendem ao interessante, mas já estão fatigados quando lá chegam e passam a dormir o resto das suas vidas literárias. Assim, Pascoaes, que escreveu uma «Elegia» que paira acima de The Last Ride Together, de Browning, como poema metafísico de amor, e depois deste umas tantas poesias que estão abaixo do que alguém queira sugerir e que são uma elegia à inspiração de Pascoaes. Há uma porção de grandes poetas locais que se ressentem de não ter sido nada numa incarnação pretérita e de agirem na anamnésia disso. Dizem os astrólogos indianos que uma criança só pode nascer em certos momentos da respiração do mundo. Estes poetas e prosadores aproveitaram-se dos intervalos e preencheram-nos todos. Isto dificilmente se poderia fazer fora de Portugal, mas pode-se fazê-lo mal em Portugal. (var.: Pode-se fazer isto fora de Portugal, mas não tão bem onde Afonso Costa é um estadista e vários outros Costas povo) . Há apenas duas coisas interessantes em Portugal — a paisagem e o Orpheu. Tudo o que está de permeio é palha podre usada, que serviu pela Europa em fora e acaba entre as duas coisas interessantes em Portugal. Por vezes estraga a paisagem pondo-lhe lá portugueses. Mas não pode estragar o Orpheu porque esse é à prova de Portugal. Ao fim de dia e meio em Portugal dei pela paisagem; levei ano e meio a dar pelo Orpheu. É verdade que desembarquei em Portugal, vindo de Inglaterra, na. mesma altura em que Orpheu chegou do Olimpo. Mas isso não importa e é apenas uma feliz coincidência que eu aceito gratamente Se existisse qualquer instinto do sensato em moderna literatura, eu começaria pela paisagem e terminaria pelo Orpheu. Mas, graças a Deus, não há nenhum instinto do sensato em moderna literatura, por isso deixo de parte a paisagem e começo e termino pelo Orpheu. A paisagem está lá sempre e pode ser contemplada por quem queira e possa. O Orpheu lá está, mas dificilmente pode ser lido por toda a gente. Quando muito poderá ser lido por muito poucos. Mas vale a pena fazê-lo. Vale a pena aprender português para o ler. Não é que lá haja algum Goethe ou Shakespeare. Mas existe o suficiente para compensar não haver lá nem Goethe nem Shakespeare. O Orpheu é a soma e a síntese de todos os movimentos literários modernos; eis porque é mais merecedor de que se escreva sobre ele do que sobre a paisagem que é apenas a ausência das pessoas que nela vivem. O Orpheu é uma revista trimestral da qual, embora tenha começado há ano e meio, só se publicaram três números. Isto nada significa excepto que nada significa. Cada número tem cerca de oitenta páginas e poucos colaboradores. Alguns figuram nos três números, outros alternam-se. São extraordinariamente variados atendendo ao seu reduzido número e ao facto de todos serem muito modernos. Cada número acrescenta um novo interesse a este maravilhoso movimento sintético. Aguardo ansiosamente o quarto número. Pode ser disparate, embora seja verdade, dizer que há mais imprevisto e interesse em Orpheu do que na presente guerra. 1916 Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 148. Trad: Tomás Kim Desde que me convenci da inutilidade de qualquer esforço desinteressado, nunca mais pensei em escrever um livro; limito-me a apontamentos. Inútil por inútil, diminua ao menos a maçada. Estes apontamentos são a respeito da política do futuro. Contêm um plano político. Não serão adoptados na prática, porque a prática não adopta, mas cria. Escrevo-os como se escrevesse um poema - e é esta a única atitude razoável que recomenda o próprio teorista: considere-se poeta, ou, se não, cale-se. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 304. MENSAGEM AO DIABO É preciso criar abismos, para a humanidade que os não sabe saltar se engolfar neles para sempre. Criar todos os prazeres, os mais artificiais possível, os mais estúpidos possível, para que a chama atraia e queime. O problema da sobrepovoação, o problema da sobreprodução eliminam-se criando-se focos de eliminação humana (por meio de todos os vícios), criando focos de inércia humana (por meio de todas as seduções). Fazer suicidas, eis a grande solução sociológica. É facil ouvir de qualquer megera limpa que «não crê na Lei de Cristo», é animá-la em seguir a não-lei de Cristo. Em três anos está gasta e finda, e então descobre que o pior de não seguir a lei de Cristo é que os outros a não seguem também. E o caixote do lixo recebe-a como às teorias dos mestres a quem ela ensinou. É nosso dever de sociólogos untar o chão, ainda que seja com lágrimas, para que escorreguem nele os que dançam. E comunistas, batonnières dos beiços, humanitários, cultos do internacionalismo - tudo isso colabora ardentemente na eliminação deles mesmos que se precisa. Depois, dos recantos das províncias, onde tomam chá com a família, ou lavram as terras sem teorias nem desejos, os fortes surgem e a civilização continua. Porque sempre a Realidade é um bocado de sol simples, um quintal herdado e a certeza de ser um indivíduo. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 305. EPISÓDIOS .... O tédio dos [radidiotas?] e dos [aerochatos?] De todo o conseguimento quantitativo desta vida sem qualidade, A náusea de ser contemporâneo de mim mesmo E a ânsia de novo novo, de certo verdadeiro, De fonte, de começo, de origem. A pedra no anel errado no teu dedo Como fulgura na minha memória, Ó pobre esfinge da aristocracia burguesa conversada em viagem! Que vagos amores escondias na tua elegância verdadeira Tão falsos, pobre iludida lúcida, Encontrada a bordo desse navio, como de todos os navios! Tomavas cocaína por superioridade ensinada, Rias dos velhos maçadores menos maçadores que tu, Pobre criança órfã de mais que pai e mãe, Pobre-diabo meio-flapper, tão [transtransviada?]! E eu, o moderno que o não sou, eu que consinto Nos arredores da minha sensibilidade as tendas dos ciganos, De toda a modernidade papel-moeda; Eu, incongruente e sem esperanças, Passageiro como tu no navio, mas mais passageiro que tu, Porque onde tu és certa eu sou incerto, Onde tu sabes o que és eu não sei o que sou e sei que não sabes o que és, E entre as danças tocadas ad nauseam pela banda de bordo Debruço-me sobre o mar nocturno e tenho saudades de mim. Que fiz eu da vida? Que fiz eu do que queria fazer da vida? Que fiz do que podia ter feito da vida? Serei eu como tu, ó viajante do Anel Anafrodisíaco? Olho-te sem te distinguir da matéria amorfa das coisas E rio no fundo do meu pensamento oceânico e vazio. No quintal da minha casa provinciana e pequena — Casa como a que têm milhões não como eu no mundo — Deve haver paz a esta hora, sem mim. Mas em mim é que nunca haverá paz, Nem com que se faça a paz, Nem com que se imagine a paz... Porque então sorrio eu de ti, viajante superfina? Ó pobre água-de-Colónia da melhor qualidade, Ó perfume moderno do melhor gosto, em frasco de feitio, Meu pobre amor que não amo caricatural e bonita! Que texto para um sermão o que não és! Que poemas não faria um poeta verdadeiro sem pensar em ti! Mas a banda de bordo estruge e acaba... E o ritmo do mar homérico trepa por cima do meu cérebro — Do velho mar homérico, ó selvagem deste cérebro grego, Com penas na cabeça da alma, Com argolas no nariz da sensualidade, E com consciência de meio-manequim de ter aspecto no mundo. Mas o facto é que a banda de bordo cessa, E eu verifico Que pensei em ti enquanto durou a banda de bordo. No fundo somos todos Românticos, Vergonhosamente românticos E o mar continua, agitado e calmo, Servo sempre da atenção severa da lua, Como, aliás, o sorriso com que me interrogo E olho para o céu sem metafísica e sem ti... Dor de corno... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 33. Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo ele todas as maneiras. Sentir tudo excessivamente Porque todas as coisas são, em verdade excessivas E toda a realidade é um excesso, uma violência, Uma alucinação extraordinariamente nítida Que vivemos todos em comum com a fúria das almas, O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos. Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas, Quanto mais personalidades eu tiver, Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver, Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas, Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento, Estiver, sentir, viver, for, Mais possuirei a existência total do universo, Mais completo serei pelo espaço inteiro fora, Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for, Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo, E fora d'EIe há só EIe, e Tudo para Ele é pouco. Cada alma é uma escada para Deus, Cada alma é um corredor-Universo para Deus, Cada alma é um rio correndo por margens de Externo Para Deus e em Deus com um sussurro soturno. Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito, Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo! Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande. As coisas, ele braços cruzados sobre o peito, reparam Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos Que as vê como vagos vultos nocturnos na noite negra. Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso. Todo o Mundo com a sua forma visível do costume, Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso. Escuto-o. e no meu coração um grande pasmo soluça. Sursum corda! Ó Terra, jardim suspenso, berço Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva! Mãe verde e florida todos os anos recente, Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adónis Num rito anterior a todas as significações, Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales! Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões, Grande voz acordando em cataratas e mares, Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança, Em cio de vegetação e florescência rompendo Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso À tua própria vontade transtornadora e eterna! Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados, Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones, Mãe caprichosa que faz vegetar e secar. Que perturba as próprias estações e confunde Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos! Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino! Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica íntima Volteia serpenteando ficando como um anel Nevoento, de sensações reminiscidas e vagas, Em torno ao teu vulto interno túrgido e fervoroso. Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente Meu coração a ti aberto! Como uma espada trespassando meu ser erguido e extático, Intersecciona com o meu sangue, com a minha pele e os meus nervos, Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre. Sou um monte confuso de forças cheias de infinito Tendendo em todas as direcções para todos os lados do espaço, A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim Não passem de mim, não quebrem meu ser, não partam meu corpo, Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas, Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos. Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo. Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão, No vasto chão supremo que não está em cima nem em baixo Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais. Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima, Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo De chamas explosivas buscando Deus e queimando A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica, A minha inteligência limitadora e gelada. Sou uma grande máquina movida por grandes correias De que só vejo a parte que pega nos meus tambores, O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis, E nunca parece chegar ao tambor donde parte... Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si, Cruzando-se em todas as direcções com outros volantes, Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus. Dentro de mim estão presos e atados ao chão Todos os movimentos que compõem o universo, A fúria minuciosa e (...) dos átomos A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos, A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam, E a chuva como pedras atiradas de catapultas De enormes exércitos de anões escondidos no céu. Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma. Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia. sacode, Freme, treme, espuma, venta, viola, explode. Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge, Se com todo o meu corpo todo o universo e a vida, Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes , Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos Sobrevive-me em minha vida em todas as direcções! s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 34. 1ª versão: Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. (Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1944. OS EMIGRADOS Sós nas grandes cidades desamigas, Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa Mutilados da relação com os outros Que depois contado na pátria os triunfos da sua estada. Coitados dos que conquistam Londres e Paris! Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras Apenas sonharam de perto o que viram — Permanentemente estrangeiros. Mas não rio deles. Tenho eu feito outra coisa com o ideal? E o propósito que uma vez formei num hotel planeando a legenda? É um dos pontos negros da biografia que não tive. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 35. [1ª Ode] Uma vontade física de comer o Universo Toma às vezes o lugar do meu pensamento... Uma fúria desmedida A conquistar a pose como que observadora Dos céus e das estrelas Persegue-me como um remorso de não ter cometido um crime. Como quem olha um mar Olho os que partem em viagem... Olho os comboios como quem os estranha Grandes coisas férreas e absurdas que levam almas. Que levam consciências da vida e de si-próprias Para lugares verdadeiramente reais, Para os lugares que — custa a crer — realmente existem Não sei como, mas é no espaço e no tempo E têm gente que tem vidas reais Seguidas hora a hora como as nossas vidas... Ah, por uma nova sensação física Pela qual eu possuísse o universo inteiro Um uno tacto que fizesse pertencer-me, A meu ser possuidor fisicamente, O universo com todos os seus sóis e as suas estrelas E as vidas múltiplas das suas almas... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 36. 2ª Ode E eu era parte de toda a gente que partia. A minha alma era parte do lenço com que aquela rapariga acenava Da janela afastando-se de comboio... O adeus do rapaz de boné claro É dirigido a alguém dentro de mim Sem que ele o queira ou o saiba... E Paris-Fuentes d'Oñoro Em letras encarnadas em fundo branco Ao centro da carruagem, e no alto Em letras que parecem mais vivas e sábias Cª Internacional dos Wagons [...] E o comboio avança — eu fico... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 37. Toda a gente é interessante se a gente souber ver toda a gente Que obra-prima para um pintor possível em cada cara que existe! Que expressões em todas, em tudo! Que maravilhosos perfis todos os perfis! Vista de frente, que cara qualquer cara! Os gestos humanos de cada qual, que humanos os gestos! s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 38. Ah as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro... As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas! Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 39. Vou atirar uma bomba ao destino. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 42. Ah, sempre me contentou que a plebe se divertisse. Sou-lhe alheio à alegria, mas não alheio a que a tenha Quero que sejam alegres à maneira deles. Se o fossem à minha seriam tristes. Não pretendo ser como eles, nem que eles sejam como eu. Cada um no seu lugar e com a alegria dele Cada um no seu ponto de espírito e faltando a língua dele. Ouço a sua alegria, amo-a, não participo não a posso ter. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 43. Ah quem tivesse a força para desertar deveras! s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 44. O nosso Ricardo Reis teve uma inspiração feliz se é que ele usa inspiração, pelo menos por fora das explicações, quando reduziu a seis linhas a sua arte poética: Não a arte poética, mas a sua. Que ele ponha na mente activa o esforço só da «altura» (seja isso o que for), concedo, se bem que me pareça estreita uma poesia limitada ao pouco espaço que é próprio dos píncaros. Mas a relação entre a altura e os versos de um certo número de sílabas é-me mais velada. E, é curioso, o poema, salvo a história da altura, que é pessoal, e por isso fica com o Reis, que aliás a guarda para si, é cheio de verdade: Que quando é alto e régio o pensamento, Súbdita a frase o busca E o escravo ritmo o serve. Ressalvando que pensamento deve ser emoção, e, outra vez, a tal altura, é certo que, concebida fortemente a emoção, a frase que a define espontaneiza-se, e o ritmo que a traduz surge pela frase fora. Não concebo, porém, que as emoções, nem mesmo as do Reis, sejam universalmente obrigadas a odes sáficas ou alcaicas, e que o Reis, quer diga a um rapaz que lhe não fuja, quer diga que tem pena de ter que morrer, o tenha forçosamente que fazer em frases súbditas que por duas vezes são mais compridas e por duas vezes mais curtas, e em ritmos escravos que não podem acompanhar as frases súbditas senão em dez sílabas para as duas primeiras, e em seis sílabas as duas segundas, num graduar de passo desconcertante para a emoção. Não censuro o Reis mais que a outro qualquer poeta. Aprecio-o, realmente, e para falar verdade, acima de muitos, de muitíssimos. A sua inspiração é estreita e densa, o seu pensamento compactamente sóbrio, a sua emoção real se bem que demasiadamente virada para o ponto cardeal chamado Ricardo Reis. Mas é um grande poeta — aqui o admiro —, se é que há grandes poetas neste mundo fora do silêncio de seus próprios corações. s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 389. Discípulo, como comovidamente sou, do meu mestre Caeiro, sou discípulo com inteligência, e portanto com crítica. Nem ele quereria ser seguido de outra maneira, pois não gostava de animais. Assim, nunca aceitei aquele critério que há em Caeiro, e que não é das coisas originais que há nele, de que há uma distinção qualquer entre o natural e o artificial. Não há tal distinção, porque ambos são reais. Compreendo a distinção entre os sonhos e a vida, ainda que conceda que um bom metafísico a possa confundir. Mas a distinção entre a árvore e a máquina sempre me pareceu falsa. Parece que a árvore e a máquina são distintas porque a primeira é um produto imediato da natureza, e a segunda um produto mediato aparecido por intermédio da inteligência humana. Mas, na realidade, todo o produto é mediato: a árvore aparece através da semente, a máquina através da inteligência. Tanto a semente como a inteligência são elementos da realidade. E, se dissermos que a árvore surge da semente e a máquina do cérebro teremos reduzido tudo a termos materiais e estabelecido a igualdade de direitos na matéria. Não, não aceitei nunca o critério de Caeiro sobre o artificial, nem o critério de Caeiro sobre o humanitário. Caeiro despreza o artificial porque não nasce da terra, e despreza o humanitário, porque não nasce do egoísmo. Mas a flor da árvore não nasce da terra mas da árvore, e o amor da humanidade não nasce do egoísmo mas do cansaço dele. Tudo é natural mas com uma circunferência maior. Oiço ainda, na lembrança do meu coração, aquela voz plácida e fria - tão cheia contudo de todo o calor íntimo da realidade! - dizer-me, com a sua simplicidade de dentro: «Álvaro de Campos, eu creio no que tenho que aceitar.» E eu adopto a frase letra a letra. Creio na máquina porque tenho que a aceitar do mesmo modo que a árvore. Sim, sei bem que a Natureza é o refúgio, que os campos albergam os tuberculosos de todos os pontos do corpo, que o vento passando na folhagem etc. etc. Mas já me isolei numa grande fábrica, entre os seus ruídos; já fugi do mundo num grande café internacional, já fui eremita no ermo de ninguém saber quem eu era numa vila de província cujo nome eu não conhecia nem conheço. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 401. «Notas para a recordação do meu mestre Caeiro»? A frescura de impressões, o modo directo de sentir que aprendi nos seus versos, apliquei-o a outros assuntos, a uma Natureza de ordem diversa. Assim, reparei que uma máquina é tão natural - porque é tão real, e, afinal, ser natural é ser real, se fôssemos a pensar a fundo - como uma árvore; e uma cidade como uma aldeia. O que é essencial é sentir directamente e com ingenuidade as coisas - árvores ou máquinas, campo ou cidade. A m[inha ] sensibilidade predispõe-me a sentir a máquina mais do que a árvore, a cidade mais do que o campo. Não deixo por isso de ter direito ao nome de poeta. O essencial ésentir directa e simplesmente. Eu sinto directa e simplesmente. Sinto o complexo, o anormal e o artificial? É o meu modo de sentir. Logo que eu os sinta espontaneamente, estou no meu lugar, no lugar que a Natureza, criando-me assim, me impôs. Cumpro o meu dever. Chamam-me um «transviado». Não o sou. [...] Nasci para sentir as coisas simplesmente, tanto como vós; eu não nasci, como vós para sentir só as coisas simples. Se eu sou eu e não vós, para que hei-de escrever como escreveis? Escrevo [... ] em mim é eu ser eu. Em que sou eu «transviado» em ser eu? Para mim o único modo de transviar é criar um sistema, ou pertencer a um sistema. Há horas do dia em que sou materialista [ ?] e outras em que sou ultramontano, completamente ultramontano. É conforme sinto. Acho isto natural. Se, como a grande maioria da gente, eu [ ...], se eu fosse panteísta, espiritualista, protestante, católico (...), qualquer coisa que se saiba o que é e se pode definir, eu mereceria o nome de transviado. Apenas vejo nunca pertencendo a um sistema ou a uma filosofia, mas pertencendo a um cérebro e a um sistema nervoso, e estes têm um modo de sentir e não uma religião, ou uma estética, ou uma moral qualquer. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 403. O que o mestre Caeiro me ensinou foi a ter clareza; equilíbrio, organismo no delírio e no desvairamento, e também me ensinou a não procurar ter filosofia nenhuma, mas com alma. s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 405. NEERA Não é natural, disse o meu mestre Caeiro, mas está certo como uma ponte. Só dois momentos depois é que cingi a formidável justeza do dito. Neera, o concreto de abstracção clássica, ponte entre o abstracto de «amada» e o concreto de «jovem poesia» [?] falso mas necessário, porque os rios a passarem [...] têm em ter ponte. 1931 Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 164. O homem, bobo da sua aspiração, sombra chinesa da sua ânsia inútil, segue, revoltado e ignóbil, servo das mesmas leis químicas, no rodar imperturbável da Terra, implacavelmente em torno a um astro amarelo, sem esperança, sem sossego [?], sem outro conforto que o abafo das suas ilusões da realidade e a realidade das suas ilusões. Governa estados, institui leis, levanta guerras; deixa de si memórias de batalhas, versos, estátuas e edifícios. A Terra esfriará sem que isso valha. Estranho a isso, estranho [?] desde a nascença, o soI um dia, se alumiou, deixará de alumiar; se deu vida, dará a si a morte. Outros sistemas de astros e de satélites darão porventura novas humanidades; outras espécies de eternidades fingidas alimentarão almas de outra espécie; outras crenças passarão em corredores longínquos da realidade múltipla. [?] Cristos outros [?] subirão em vão a novas cruzes. Novas seitas secretas terão na mão os segredos da magia ou da Cabala. E essa magia será outra, e essa Cabala diferente. [...] Só uma obediência passiva, sem revoltas nem sorrisos, tão escrava como a revolta [...], é o sistema espiritual adequado à exterioridade absoluta da nossa vida serva. 1928? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 405. Fernando Pessoa escreveu a fio — a fio, humanamente — aqueles poemas complicados. O Fernando Pessoa que, quando escreve uma quadra, emprega esforços de organização industrial para ver como há-de dispor através dela os dezassete raciocínios que ela é obrigada por lei a conter; que, quando sente qualquer coisa, se pôe logo a cortá-la com uma tesoura de cinco críticos, a embrulhar-se em porque é que o segundo verso contém um adjectivo biforme e em ver como é que não sendo «mas» bom português naquela altura, vai conseguir que «senão» tenha uma sílaba só. Este homem, tão inutilmente bem dotado, vivendo constantemente na parabulia da sua complexidade, teve naquele momento — também ele — a sua libertação. Se algum dia se esquecer ao ponto de publicar qualquer livro, se o livro for de versos, e vierem datados os pequenos poemas, ver-se-á que há qualquer coisa de diferente nos que têm datas posteriores a 8 de Março de 1914. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 172. O meu mestre Caeiro odiava a ambição. Um dia disse-lhe que desejava ser o mais livre do mundo. «Álvaro de Campos», respondeu ele, «você é o que é sem mais nada». 1931 Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 174. PASSAGEM DAS HORAS Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro. As mulheres que chegam às portas depressa Viram apenas que eu passei. Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver, Inatingível a metais e encrustamentos. Ó tarde, que reminiscências! Ontem ainda, criança que se debruçava no poço, Eu via com alegria meu rosto na água longínqua. Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo. Mas se rio é só porque fui outro eu A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço. Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali. Os mortos — eles nunca me deixam! Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias. E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica Toca-me levemente uma saudade no braço E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser. Ah, sê materna! Ah, sê melíflua e taciturna Ó noite aonde me esqueço de mim Lembrando... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 26g. 1ª versão: Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. (Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1944. A PARTIDA Agora que os dedos da Morte à roda da minha garganta Sensivelmente começam a pressão definitiva... E que tomo consciência exorbitando os meus olhos, Olho p'ra trás de mim, reparo pelo passado fora Vejo quem fui, e sobretudo quem não fui Considero lucidamente o meu passado misto E acho que houve um erro Ou em eu viver ou em eu viver assim. Será sempre que quando a Morte me entra no quarto E fecha a porta a chave por dentro, E a coisa é definitiva, inabalável, Sem Cour de cassation para o meu destino findo, Será sempre que, quando a meia-noite soa na vida Uma exasperação de calma, uma lucidez indesejada Acorda como uma coisa anterior à infância no meu partir? Último arranco, extenuante clarão, de chama que a seguir se apaga Frio esplendor do fogo de artifício antes da cinza completa, Trovão máximo sobre as nossas cabeças, por onde Se sabe que a trovoada, por estar [...], decresceu. Viro-me para o passado. Sinto-me ferir na carne. Olho com essa espécie de alegria da lucidez completa Para a falência instintiva que houve na minha vida Vão apagar o último candeeiro Na rua amanhecente de minha Alma! Sinal de [..] O último candeeiro que apagam! Mas antes que eu veja a verdade, pressinto-a Antes que a conheça, amo-a. Viro-me para trás, para o passado, não [visiono? ]; Olho e o passado é uma espécie de futuro para mim. Mestre, Alberto Caeiro, que eu conheci no princípio E a quem depois abandonei como um espantalho reles, Hoje reconheço o erro, e choro dentro de mim, Choro com a alegria de ver a lucidez com que choro E embandeiro em arco à minha morte e à minha falência sem fim, Embandeiro em arco a descobri-la, só a saber quem ela é. Ergo-me em fim das almofadas quase cómodas E volto ao meu remorso sadio. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 27a. A PARTIDA Ave atque vale, ó assombroso universo! Ave atque vale, de que diversa maneira É que eu te verei, e será definitivamente, Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer, Mais lados de onde te olhar, — e talvez nunca te verei do Único — Seja como for, ave atque vale, ó Mundo! Partirei para aquele teu aspecto que a Morte deve revelar-me Com o coração confrangido, a alma ansiosa, o olhar vago, E toda a consciência da aventura pondo-me ondas no sangue... Eu partirei para a Morte nada esperando encontrar Mas disposto a ver coisas prodigiosas do outro lado do Mundo. Ave atque vale, ó Universo espontâneo! Verde esmiuçado a ervas nos prados contentes, Verde escurecido das copas das árvores ao vento, Escura brancura da água, Penugem invisível dos brejos Garras de sombra imaterial dos vendavais, Grandes extensões (...) dos mares Curso evidente dos rios Ave atque vale! Até Deus! Até Mim! Até Vós! Quando eu abandonar o meu ser como uma cadeira donde me levanto Deixar atrás o mundo como a um quarto donde saio, Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento, de sentir as coisas, Como uma capa que me prenda, Quando de vez minha alma chegar à superfície da minha pele E dispersar o meu ser pelo universo exterior, Seja com alegria que eu reconheça que a Morte Vem como um sol distante na antemanhã do meu novo ser. Numa viagem oblíqua do meu leito de moribundo Viagem em diagonal às dimensões dos objectos Para o canto do tecto mais longe, a cama erguer-se-á do chão, Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá Como um comboio sobre os rails directamente... (...) Não tenho medo, ó Morte, ao que não deixa entrever O teu postigo proibido na tua porta sobre o mundo. Estendo os braços para ti como uma criança Do colo da ama para o aparecimento da mãe... Por ti deixo contente os meus brinquedos de adulto, Por ti não tenho parentes, não tenho nada que me prenda A este prodigioso, constante e doentio universo... Todo o Definitivo deve estar em Ti ou em parte nenhuma. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 27b. A PARTIDA E eu o complexo, eu o numeroso, Eu a saturnália de todas as possibilidades, Eu o quebrar do dique de todas as personalizações, Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (...) Eu o prolixo até de continências e paragens, Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos Todas as sensibilidades correspondentes a rodas as metafísicas Que tenho desembarcado em todos os portos da alma, Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito, Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio, O (...) O criador de Weltanschauungen, Pródigo semeador pela minha própria indiferença De correntes de moderno todas diferentes Todas no momento em que são concebidas verdades Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas — Eu morrerei assim? Não: o universo é grande E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem. Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos E a morte revelará coisas absolutamente inéditas... Deus será mais contente. Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer, Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte Quando definitivamente Como um vapor largando do cais para longa viagem, Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma Eu largado para X, perturbado pela partida Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes, Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar, Eia — por aí fora, por esses mares internado, À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo — Que oscila à vista. Eia por aí fora... Ave atque vale, ó prodigioso Universo... Haverá primeiro Uma grande aceleração das sensações, um (...) Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência, (...) (E até à aterissage final do meu aero (...) ) Uma grande conglobação das sensações incontíguas, Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus Do meu (...) Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos, Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto, E quando, prestes a partir, Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo, Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente E com um tal aumentar do ruído dos motores Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto, Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível, Sulco de movimento no estaleiro das coisas, Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática — s-s-s-ss-sss z-z-z-z-z-z automóvel divino s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 27c. E quando o leito estiver quase ao pé do tecto E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários, E sentindo na alma o movimento da hélice do navio, Verei já tudo ao longe e diferente e frio... As minhas sensações numa cidade amontoada distante E ao fundo, por detrás delas, o universo inteiro, ponte que finda... s.d. “A Partida”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 27d. A morte — esse pior que tem por força que acontecer; Esse cair para o fundo do poço sem fundo; Esse escurecer universal para dentro; Esse apocalipse da consciência , com a queda de todas as estrelas — Isso que será meu um dia, Um dia pertíssimo, pertíssimo, Pinta de negro todas as minhas sensações, E é areia sem corpo escorrendo-me por entre os dedos O pensamento e a vida. A gare no deserto, deserta; O intérprete mudo; O boneco humano sem olhos nem boca Embandeirado a fogo-fátuo Num mar que é só puro espaço Sob um céu sacudido por relâmpagos pretos... Sinistra singre, roída de vermes audíveis a quilha sentiente E sejam os mastros dedos de âmbar, longuíssimos, Apontando o vácuo das coisas (que é o abismo em tudo)... As velas de um reposteiro vermelho lindo e baço Se abram ao vento soprando de um buraco enorme sem fim, E comecem, fora do tempo, uma viagem ao fim de tudo. Estica um horror consciente no gemer dos cabos... O ruído do ranger da madeira é dentro da alma... O avanço velocíssimo é uma coisa que falta... E se a vida é horizontal, isto dá-se verticalmente... s.d. “A Partida”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 27e. Entremos na morte com alegria! Caramba O ter que vestir fato, o ter que lavar o corpo, O ter que ter razão, semelhanças, maneiras e modos; O ter rins, fígado, pulmões, brônquios, dentes. Coisas onde há dor de [...] e moléstias (Merda para isso tudo!) Estou morto, de tédio também Eu bato, a rir, com a cabeça nos astros Como se desse com ela num arco de brincadeira Estendido, no carnaval, de um lado ao outro do corredor, Irei vestido de astros; com o sol por chapéu de coco No grande Carnaval do espaço entre Deus e a vida. Meu corpo é a minha roupa de baixo; que me importa Que o seu carácter de lixo seja terra no jazigo Que aqui ou ali a coma a traça orgânica toda? Eu sou Eu . Viva eu porque estou morto! Viva! Eu sou eu . Que tenho eu com a roupa-cadáver que deixo? Que tem o cu com as calças? Então não teremos nós cuecas por esse infinito fora? O quê, o para além dos astros nem me dará outra camisa? Bolas, deve haver lojas nas grandes ruas de Deus. Eu, assombroso e desumano, Indistinto a esfinges claras, Vou embrulhar-me em estrelas E vou usar o Sol como chapéu de coco Neste grande carnaval do depois de morrer. Vou trepar, como uma mosca ou um macaco pelo sólido Do vasto céu arqueado do mundo, Animando a monotonia dos espaços abstractos Com a minha presença subtilíssima. s.d. “A Partida”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 27f. Todos julgamos que seremos vivos depois de mortos. Nosso medo da morte é o de sermos enterrados vivos. Queremos ao pé de nós os cadáveres dos que amámos Como se aquilo ainda fosse eles E não o grande maillot interior que a nascença nos deu. s.d. “A Partida”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 27g. Quando for a Grande Partida, Quando embarcarmos de vez para fora dos seres e dos sentimentos E no paquete A Morte (que rótulo levarão as nossas malas... Que nome comprazentemente estrangeiro, de lugar, é o do porto de destino?) Quando, emigrantes para sempre, fizermos a viagem irreparável, E abandonarmos este oco e pavoroso mundo tão (...) para os nervos, Estas sensações das coisas tão ligadas e misteriosas, Estes sentimentos humanos tão naturais e inexplicáveis Estas torturas, estes desejos para fora daqui (e de agora), estas saudades súbitas e sem objecto, Este subir do nosso feminino ao olhar que se vela e é materno para as coisas pequeninas, Para os soldados de chumbo, e os comboios de corda e as fivelas dos sapatos da nossa infância, Quando, de vez, para sempre, irremediavelmente, (...) s.d. “A Partida”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 27h. Da casa do monte, símbolo eterno e perfeito, Vejo os campos, os campos todos, E eu os saúdo por fim com a voz verdadeira, Eu lhes dou vivas, chorando, com as lágrimas certas e os vivas exactos — Eu os aperto a meu peito, como filho que encontrasse o pai perdido. Vivam, vivam, vivam Os montes, e a planície, e as ervas! Vivam os rios, vivam as fontes! Vivam as flores, e as árvores, e as pedras! Vivam os entes vivos e os bichos pequenos, Os bichos que correm, insectos e aves, Os animais todos, tão reais sem mim, Os homens, as mulheres, as crianças, As famílias, e as não-famílias, igualmente! Tudo quanto sente sem saber porquê! Tudo quanto vive sem pensar que vive! Tudo que acaba e nunca se aumenta com nada, Sabendo, melhor que eu, que nada há que temer, Que nada é fim, que nada é abismo, que nada é mistério, E que tudo é Deus, e que tudo é Ser, e que tudo é Vida. Ah, estou liberto! Ah, quebrei todas As algemas do pensamento. Eu, o claustro e a cave voluntários de mim mesmo, Eu o próprio abismo que sonhei, Eu, que vi em tudo caminhos e atalhos de sombra E a sombra e os caminhos e os atalhos eram eu! Ah, estou liberto... Mestre Caeiro, voltei à tua casa do monte E vi o mesmo que vias, mas com meus olhos, Verdadeiramente com meus olhos, Verdadeiramente verdadeiros... Ah vi que não há muitos abismos! Vi que (...) s.d. “A Partida”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 27I. Se as crianças não percebem os adultos - que, aliás, nada têrm que perceber porque são todos iguais, e o que é igual a outra coisa não existe - , mais certo é que os adultos não percebem as crianças. Ser adulto é esquecer-se de que se foi criança. Por isso os pais castigam os filhos por aquilo mesmo que fizeram na mesma idade. Quando um pai se lembra do que foi, e não castiga o filho, é porque procede racionalmente: acha que, se se lembrasse do que foi, não deveria castigar o filho. Na realidade não se lembra. Teria ficado criança se se lembrasse. Isto vem a propósito do resultado horroroso que, num certo aspecto, a influência de Caeiro deu na receptiva de Ricardo Reis. A ausência de preocupação metafísica em Caeiro, natural em quem pensa infantilmente, tornou-se, na interpretação adulta de Reis, uma coisa monstruosa. Como Caeiro, Ricardo Reis encara a vida e a morte naturalmente, mas, ao contrário de Caeiro, pensando nelas. De aí esses versos de uma materialidade angustiante, até para ele mesmo que os escreve. Quando Reis fala da morte, parece que antecipa ser enterrado vivo. Considera-se nada, excepto para o efeito dispensável de sentir sobre si a «húmida terra imposta», e outras maneiras igualmente sufocantes de dizer a mesma coisa. O sentimento que em Caciro é um campo sem nada é em Reis um túmulo também sem nada. Adoptou o nada de Caeiro mas não tinha a ciência de o não deixar apodrecer. Envelhecer e morrer parecem ser para Ricardo Reis a súmula e o sentido da vida. Para Caeiro não há envelhecer, e morrer está para lá dos montes. Isto vem a propósito de influências, creio. Reis não tem metafísica. Adoptou a de Caeiro e o resultado foi aquele. Não nego que tenha relevo estético; nego que se possa decentemente ler. Cada um de nós deve ter uma metafísica própria, pois cada um de nós é cada um de nós. Se recebermos influências, recebamo-las para os nossos ritmos, para as nossas imagens, para a disposição dos nossos poemas. Mas não a recebamos para a nossa própria alma! 28-9-1932 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 379. «Notas para a recordação do meu mestre Caeiro» Há tanto tempo que não sou capaz De escrever um poema extenso! Há anos... Perdi a virtude do desenvolvimento rítmico Em que a ideia e a forma, Numa unidade de corpo com alma, Unanimemente se moviam... Perdi tudo que me fazia consciente De uma certeza qualquer no meu ser... Hoje o que me resta? O sol que está sem que eu o chamasse... O dia que me não custou esforço... Uma brisa, com a festa de uma brisa Que me dão uma consciência do ar... E o egoísmo doméstico de não querer mais nada Mas, ah!, minha Ode Triunfal , O teu movimento rectilíneo! Ah, minha Ode Marítima A tua estrutura geral em estrofe antiestrofe e epodo! E os meus planos, então, os meus planos — Esses é que eram as grandes odes. E aquela a última a suprema a impossível! 9-8-1934 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 193. Sem impaciência. Sem curiosidade, Sem atenção Vejo-o crochet que com ambas as mãos combinadas Fazes. Vejo-o do alto de um monte inexistente, Malha após malha formando pano... Qual é a razão que te dá entretenimento Às mãos e à alma essa coisa rala Por onde se pode meter um fósforo apagado? Mas também Qual é a razão que assiste a eu te criticar Nenhuma. Eu também tenho um crochet. Data de desde quando comecei a pensar... Malhas sobre malhas formando um todo sem todo Um pano que não sei se é para um vestido ou p'ra nada Uma alma que não sei se é para sentir ou viver... Olho-te com tanta atenção Que já nem dou por ti... Crochet, almas, filosofia... Todas as religiões do mundo... Tudo quanto nos entretém ao serão de sermos... Dois marfins, uma volta, o silêncio... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 194. ... Como, nos dias de grandes acontecimentos no centro da cidade, Nos bairros quase-excêntricos as conversas em silêncio às portas A expectativa em grupos... Ninguém sabe nada. Leve rastro de brisa Coisa nenhuma que é real E que, com um afago ou um sopro Toca o que há até que seja... Magnificência da naturalidade. Coração. Que Áricas inéditas em cada desejo! Que melhores coisas que tudo lá longe! Meu cotovelo toca no da vizinha do eléctrico Com uma involuntariedade fruste Curto-circuito da proximidade... Ideias ao acaso Como um balde que se entornou — Fito-o é um balde entornado... Jaz: jazo... 16-8-1934 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 198. Depois de não ter dormido, Depois de já não ter sono, Interminável madrugada em que se pensa sempre sem se pensar, Vi o dia vir Como a pior das maldições — A condenação ao mesmo Contudo, que riqueza de azul verde e amarelo dourado de vermelho No céu eternamente longínquo — Nesse oriente que estragaram Dizendo que vêm de lá as civilizações; Nesse oriente que nos roubaram Com o Conto do Vigário dos mitos solares, Maravilhoso oriente sem civilizações nem mitos, Simplesmente céu e luz, Material sem materialidade... Todo luz, mesmo assim A sombra, que é a luz da noite dada ao dia, Enche por vezes, irresistivelmente natural. O grande silêncio do trigo sem vento, O verdor esbatido dos campos afastados, A vida e o sentimento da vida. A manhã inunda toda a cidade. Meus olhos pesados do sono que não tivestes, Que amanhã inundará o que está por trás de vós. Que é vós, Que sou eu? 5-9-1934 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 199. Heia? Heia o quê e porquê? O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa, Que valha pensar em heia!? Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos... No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder, E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio Mas o Império finda nas nossas veias aguadas E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir... Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto, Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque, Tu, afinal, inocente em viva histeria, Afinal apenas “acariciador da vida”, Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção, — Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida? Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos, Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral, Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal, Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas? Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos — E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro, No cérebro explosivo e sem diques, Na inteligência mestra e dinâmica, Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos? Raios partam a mandriice que nos faz poetas, A degenerescência que nos engana artistas, O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos, Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias. Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade... Bebamos isto como um remédio amargo E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão Isto, afinal é saudar-te? Seja o que for, é saudar-te, Seja o que valha, é amar-te, Seja o que calhe, é concordar contigo... Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas, Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo — (Quando parte o último comboio? — Vilegiatura em Deus...) Vamos, confiadamente, vamos... Isto tudo deve ter um outro sentido Melhor que viver e ter tudo... Deve haver um ponto da consciência Em que a paisagem se transforme E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos... Em que comece ti haver fresco na alma E sol e campo nos sentidos despertos [...] Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos... Espera-me à porta, Walt; lá estarei... Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada... E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe, Tão absoluta e abstractamente longe, Definitivamente longe. s.d. “Saudação a Walt Whitman”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24h. E deito um cigarro meio fumado fora Para irremediavelmente acender um novo cigarro Impaciente até à angústia, Como quem espera numa estação dos arredores O comboio que há-de trazer ah tão talvez, quem talvez venha s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 200. Heia o quê? Heia porquê? Heia p’ra onde? Heia até onde? Heia p’ra onde, corcel suposto? Heia p’ra onde, comboio imaginário? Heia p’ra onde, seta, pressa, velocidade Todas só eu a penar por elas Todas só eu a não tê-las por todos os meus nervos fora. Heia p’ra onde, se não há onde nem como? Heia p’ra onde, se estou sempre onde estou e nunca adiante Nunca adiante, nem sequer atrás, Mas sempre fatalissimamente no lugar do meu corpo, Humanissimamente no ponto-pensar da minha alma, Sempre o mesmo átomo indivisível da personalidade divina? Heia p’ra onde ó tristeza de não realizar o que quero? Heia p’ra onde, para quê, o quê, sem o quê? Heia, heia, heia, mas ó minha incerteza, p’ra onde? Não escrever versos, versos, versos a respeito do ferro, Mas ver, ter, ser o ferro e ser isso os meus versos, Versos — ferro — versos, círculo material-psíquico-eu (quando parte o último comboio?) s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24h. SAUDAÇÃO A expressão, aborto abandonado Em qualquer vão-de-escada da realidade. O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar? O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos? (Quando é que parte o último comboio, Walt, Quando é que parte o último comboio?) Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje (...) A química por baixo do Aqui jaz.. A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta À hora em que era costume ele vir para casa E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...] E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado. s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24I. Tantos poemas contemporâneos! Tantos poetas absolutamente de hoje — Interessante tudo, interessantes todos... Ah, mas é tudo quase... É tudo vestíbulo E tudo só para escrever. Nem arte, Nem ciência Nem verdadeira nostalgia... Este olhou bem o silêncio desse cipreste... Esse viu bem o poente por trás do cipreste... Este reparou bem na emoção que tudo isso daria... Mas depois?... Ah, meus poetas, meus poemas — e depois? O pior é sempre o depois... É que para dizer é preciso pensar — Pensar com o segundo pensamento — E vocês meus velhos, poetas e poemas, Pensam só com a rapidez primária da asneira — é (...) e da pena — Mais vale o clássico seguro. Mais vale o soneto contente. Mais vale qualquer coisa, ainda que má, Que os arredores inconstruídos duma qualquer coisa boa... "Tenho a minha alma!" Não, não tens: tens a sensação dela. Cuidado com a sensação. Muitas vezes é dos outros, E muitas vezes é nossa Só pelo acidente estonteado de a sentirmos... 1-11-1934 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 204. Para saudar-te Para saudar-te como se deve saudar-te Preciso tornar os meus versos corcel, Preciso tornar os meus versos comboio, Preciso tornar os meus versos seta, Preciso tornar os versos pressa, Preciso tornar os versos nas coisas do mundo Tudo cantavas, e em ti cantava tudo — Tolerância magnífica e prostituída A das tuas sensações de pernas abertas Para os detalhes e os contornos do sistema do universo s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24l. De modo que, se V. Ex. me garante — e agora, vendo as coisas mais calmamente, estou certo que assim é — que o seu primitivo artigo não era escrito no espírito de pura insolência, e que não havia a intenção de insultar o Orfeu, atribuindo aos seus colaboradores o plano de uma récita onde se plagiava imbecilmente as mais imbecis produções de Marinetti, eu desde já declaro não ter dúvida em dar por não escritas as frases que constituem a única parte da minha carta, que podia ser tida por insolente. Resta um ponto, e este, quero frisá-lo claramente, para que nenhuma dúvida reste. A minha carta terminava com as frases, que na Capital foram transcritas, sobre o desastre acontecido ao chefe do partido cognominado democrático. Apontou v. Ex ª à execração pública o autor de semelhante trecho, desapiedado e mau. Peço encarecidamente a V. Ex ª que me deixe vincar bem o quanto eu, longe de retirar essas frases, mais convictamente e mais ardentemente as apoio e as vinco. O chefe do partido democrático não merece a consideração devida a qualquer vulgar membro da humanidade. Ele colocou-se fora das condições em que se pode ter piedade ou compaixão pelos homens. A sua acção através da sociedade portuguesa tem sido a dum ciclone, devastando, estragando, perturbando tudo, com a diferença, a favor do ciclone, que o ciclone, ao contrário de Costa, não emporcalha e enlameia. Para o responsável máximo do estado de anarquia, de desolação, e de tristeza em que jazem as almas portuguesas, para o sinistro chefe de regimentos de assassinos e de ladrões, não pode haver a compaixão que os combatentes leais merecem, que aos homens vulgares é devida. Costa nem sequer tem o relevo intelectual que doure a sua torpeza. A sua figura é a dum sapo que misteriosamente se tornasse fera. Pode ter-se compaixão por aqueles por quem se tem ódio. É impossível a compaixão por aqueles que não podem deixar de inspirar ódio e nojo, conjuntamente. Por isso eu quero frisar — e sei que ao frisá-lo estão comigo os votos de grande número dos portugueses, dos católicos oprimidos, das classes médias atacadas, dos cidadãos pacíficos assaltados nas ruas, de todos aqueles que o General Pimenta de Castro representava — que só não se regozija, no desastre acontecido a Costa, a circunstância, que infelizmente se parece confirmar, do seu restabelecimento. Esse homem — esse homem sem relevo espiritual, sem nobreza de carácter, que nunca teve uma ideia elevada, um gesto generoso, um momento de ternura — esse homem não pertence ao número daqueles por quem nós podemos sentir humanamente. 1915 Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 66. Carta não enviada Subiste à glória pela descida abaixo. Paradoxo? Não: a realidade. O paradoxo é o que é palavras A realidade é o que és. Subiste porque desceste. Está bem. Amanhã talvez eu faça a mesma coisa. Por ora, se calhar, invejo-te. Não sei se te invejo a vitória. Não sei se te invejo o consegui-la. Mas realmente creio que te a invejo Sempre é vitória... Façam um embrulho de mim E depois deitem-me ao rio. E não esqueçam o «se calhar» quando lá me deitarem. Isso é importante. Não esqueçam o «se calhar». Isso é que é importante. Porque tudo é se calhar... 30-11-1934 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 205. Abram falência à nossa vitalidade! Escrevemos versos, cantamos as coisas-falências; não as vivemos. Como poder viver todas as vidas e todas as épocas E todas as formas da forma E todos os gestos do gesto? O que é fazer versos senão confessar que a vida não basta O que é arte senão uma esperança que não é ninguém Adeus, Walt, adeus! Adeus até ao indefinido do para além do Fim. Espera-me, se aí se pode esperar, Quando parte o último comboio? Quando parte? (Quando partimos) s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24m. Depois de quando deixei de pensar em depois Minha vida tornou-se mais calma — Isto é, menos vida. Passei a ser o meu acompanhamento em surdina. Olho, do alto da janela baixa, As garotas que dançam a brincar na rua. O seu destino inevitável Dói-me. Vejo-lho no vestido entreaberto nas costas, e dói-me. Grande cilindro, quem te manda cilindrar esta estrada Que está calçada de almas? (Mas a tua voz interrompe-me — Voz alta, lá de fora do jardim, rapariga — E é como se eu deixasse Cair irresolutamente um livro no chão.) Não teremos meu amor, nesta dança da vida. Que fazemos por brincadeira natural, As mesmas costas desabotoadas E o mesmo decote a mostrar-nos a pele por cima da camisa suja? 3-1-1935 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 212. Choro como a criança a quem falta a lua perto, Como o amante abandonado pela que não tem ainda, Com o livro inexplícito do seu Reino por vir, O que se julga em vão Motor, Eixo do movimento dos espíritos, Fulcro das ambições sombrias, Auge dinâmico das tropas da ascensão, Ou, mais claro e mais rápido, ProtopIasma do mundo matemático do futuro! Quem sou eu, afinal, por que te saúdo? Quem com nome e língua e sem voz? A labuta prostituta do [caldeamento?] de (...) Nos altos fornos de mim! s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24n. Não sei se os astros mandam neste mundo, Nem se as cartas — As de jogar ou as do Tarot — Podem revelar qualquer coisa. Não sei se deitando dados Se chega a qualquer conclusão. Mas também não sei Se vivendo como o comum dos homens Se atinge qualquer coisa. Sim, não sei Se hei-de acreditar neste sol de todos os dias, Cuja autenticidade ninguém me garante. Ou se não será melhor, por melhor ou por mais cómodo, Acreditar em qualquer outro sol — Outro que ilumine até de noite. — Qualquer profundidade luminosa das coisas De que não percebo nada... Por enquanto (Vamos devagar) Por enquanto Tenho o corrimão da escada absolutamente seguro. Seguro com a mão — O corrimão que me não pertence E apoiado ao qual ascendo... Sim... Ascendo Ascendo até isto: Não sei se os astros mandam neste mundo... 5-1-1935 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 214. Minha oração-cavalgada! Minha saudação-arranco! Quem como tu sentiu a vida individual de tudo? Quem como tu esgotou sentir-se — a vida — sentir-nos? Quem como tu tem sempre o sobresselente por próprio E transborda por norma da norma — forma da Vida? (...) a minha alegria é uma raiva, o meu arranco um choque (Pá!) em mim... Saúdo-te em ti ó Mestre da minha doença de saúde, o primeiro doente perfeito da universalite que tenho o caso-nome do “mal de Whitman” que há dentro de mim! St. Walt dos Delírios Ruidosos e a Raiva! s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24o. Ah! Ser indiferente! É do alto do poder da sua indiferença Que os chefes dos chefes dominam o mundo. Ser alheio até a si mesmo! É do alto do sentir desse alheamento Que os mestres dos santos dominam o mundo. Ser esquecido de que se existe! É do alto do pensar desse esquecer Que os deuses dos deuses dominam o mundo. (Não ouvi o que dizias... ouvi só a musica, e nem a essa ouvi... Tocavas e falavas ao mesmo tempo? Sim, creio que tocavas e falavas ao mesmo tempo... Com quem? Com alguém em quem tudo acabava no dormir do mundo... 12-1-1935 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 215. Abram todas as portas! Partam os vidros das janelas! Omitam fechos na vida de fechar! Omitam a vida de fechar da vida de fechar! Que fechar seja estar aberto sem fechos que lembrem, Que parar seja o nome alvar de prosseguir, Que o fim seja sempre uma coisa abstracta e ligada Fluida a todas as horas de passar por ele! Eu quero respirar! Dispam-me o peso do meu corpo! Troquem a alma por asas abstractas, ligadas a nada! Nem asas, mas a Asa enorme de Voar! Nem Voar mas o que fica de veloz quando cessar é voar E não há corpo que pese na alma de ir! Seja eu o calor das coisas vivas, a febre Das seivas, o ritmo das ondas e o (...) Intervalo em Ser para deixar Ser ser...! Fronteiras em nada! Divisões em nada! Só Eu s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24p. Para cantar-te, Para saudar-te Era preciso escrever aquele poema supremo, Onde, mais que em todos os outros poemas supremos, Vivesse, numa síntese completa feita de uma análise sem esquecimentos, Todo o Universo de coisas, de vidas e de almas, Todo o Universo de homens, mulheres, crianças, Todo o Universo de gestos, de actos, de emoções, de pensamentos, Todo o Universo das coisas que a humanidade faz, Das coisas que acontecem à humanidade — Profissões, leis, regimentos, medicinas, o Destino, Escrito a entrecruzamentos, a intersecções constantes No papel dinâmico dos Acontecimentos, No papiro rápido das combinações sociais, No palimpsesto das emoções renovadas constantemente. s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24q. O verdadeiro poema moderno é a vida sem poemas, E o comboio real e não os versos que o cantam É o ferro dos rails, dos rails quentes, é o ferro das rodas, é o giro real delas. E não os meus poemas falando de rails e de rodas sem eles. s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24r. II Deixo, deuses, atrás a dama antiga (Com uma letra diferente fixo O absurdo, e rio, porque sofro). Digo: Deixo atrás quem amei, como um prefixo... Outrora eu, que era anónimo e prolixo (Dois adjectivos que de há muito sigo) Amei por ter um coração amigo. Amo hoje o que amo só porque o persigo. Dêem-me vinho que um Horácio cante! Quero esquecer o que de meu é meu... Quero, sem que me mexa, ir indo adiante. Estou no Estoril e olho para o céu... Ah que ainda é certo aquele azul ovante Que esplendeu astros sobre o mar egeu. 9-9-1932 "Costa do Sol". Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 162. III Somos meninos de uma primavera De que alguém fez tijolos. Quando cismo Tiro da cigarreira um misticismo Que acendo e fumo como se o esquecera. No teu ar de dormir nessa cadeira, (Reparo agora, feito o exorcismo, Que o terceiro soneto ergue do abismo) És sempre a mesma, anónima — terceira... Ó grande mar atlântico, desculpa! Cuspi à tua beira três sonetos. Sim, mas cuspi-os sobre a minha culpa. Mulher, amor, [alcova?] — sois tercetos!. Só vós ó mar e céu nos libertais, Que qualquer trapo incógnito franjais Sossego? Outrora? Ora adeus! Foi feita No cárcere a Marília de Dirceu. De realmente meu só tenho eu. Pudesse eu pôr um dique ao que em mim espreita, (No seu perfil de pálida imperfeita, Recorte morto contra um vivo céu, 9-9-1932 "Costa do Sol". Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 162. Ah, como outrora era outra a que eu não tinha! Como amei quando amei! Ah, como eu ria. Como com olhos de quem nunca via Tinha o trono onde ter uma rainha. Sob os pés seus a vida me espezinha Reclinas-te tão bem! A tarde esfria... Ó mar sem cais nem lodo ou maresia, Que tens comigo, cuja alma é a minha? Sob uma umbrela de chá em baixo estamos E é súbita a lembrança opositória Da velha quinta e do espalmar dos ramos Sob os quais a merenda... Oh amor, oh glória! Fechem-me os olhos para toda a história! Como sapos saltamos e erramos... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 163. Arre, que tanto é muito pouco! Arre, que tanta besta é muito pouca gente! Arre, que o Portugal que se vê é só isto! Deixem ver o Portugal que não deixam ver! Deixem que se veja, que esse é que é Portugal! Ponto. Agora começa o Manifesto: Arre! Arre! Oiçam bem: ARRRRRE! s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 21. Ora porra! Então a imprensa portuguesa é que é a imprensa portuguesa? Então é esta merda que temos que beber com os olhos? Filhos da puta! Não, que nem há puta que os parisse. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 22. Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite, Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada. Navios que se afastam ponteados de luz na treva, Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 165. ODE MARCIAL Clarins na noite, Clarins na noite, Clarins subitamente distintos na noite... (É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada o ruído longínquo?) O que é [que] estremece de diverso pela erva e nas almas? O que é que se vai alterar e já lá longe se altera — Na distância, no futuro, na angústia — não se sabe onde — ? Clarins na noite, Clarins... na noite, Clari-i-i-i-ins..... É de cavalgada, É de cavalgada, de cavalgada, É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada O ruído, ruído, ruído agora já nítido. Vejo-as no coração e no horror que há em mim: Valquírias, bruxas, amazonas do assombro... São um grande sonho — mistério de sombras pegadas que mexe na noite. Vêm em cavalgada, e a terra estremece duas vezes, E o coração como a terra estremece duas vezes também. Vêm do fundo do mundo, Vêm do abismo das coisas, Vêm de onde partem as leis que governam tudo; Vêm de onde a injustiça derrama-se sobre os seres, Vêm de onde se vê que é inútil amar e querer, E só a guerra e o mal são o dentro e fora do mundo. Hela-hô-hôôô...helahô-hôôôôô....... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 23a. Na ampla sala de jantar das tias velhas O relógio tictaqueava o tempo mais devagar. Ah o horror da felicidade que se não conheceu Por se ter conhecido sem se conhecer, O horror do que foi porque o que está está aqui. Chá com torradas na província de outrora Em quantas cidades me tens sido memória e choro! Eternamente criança, Eternamente abandonado, Desde que o chá e as torradas me faltaram no coração. Aquece, meu coração! Aquece ao passado, Que o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu... 29-1-1933 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 167. Ruído longínquo e próximo não sei porquê Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe... Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos? Em que fronteiras deu a morte rendez-vous Ao destino das nações? Ó Águia Imperial, cairás? Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue, Pela terra, onde sob o teu cair Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo Que deste sobre a Europa confusa? Cairás, ó matutino galo francês, Sempre saudando a aurora? Que amos saúdas agora Que sol de sangue no azul pálido do horizonte matutino? Porque atalhos de sombra que caminho buscas, Que caminho para onde? Ó civilizações chegando à encruzilhada nocturna D'onde tiraram o ponto-de-apoio E donde partem caminhos curvos não sei para onde, E não ha luar sobre as indecisões... Deus seja connosco... Chora na noite a Senhora de [...], Torcendo as mãos, de modo a ouvir-se que elas se torcem No silêncio profundo. Deus seja connosco no céu e na terra, Ó Deusa Tutelar do Futuro, ó Ponte Sobre os abismos do que não sabemos que seja... Deus seja connosco, e não esqueçamos nunca Que o mar é eterno e afinal de tudo tranquilo E a terra grande e mãe e tem a sua bondade Porque sempre podemos nela recostar a cabeça cansada E dormir encostados a qualquer coisa. Clarins na noite, desmaiando... Ó Mistério Que se está formando lá fora, na Europa, no Império... Tropel vário de raças inimigas que se chocam Mais profundamente do que seus exércitos e suas esquadras, Mais realmente do que homem contra homem e nação contra nação... Clarins de horror trémulo e frio na noite profunda... E o quê?... Tambores para além do mistério do mundo? Tambores de quê... dormis deitados, dobres minúsculos sobre quê? Passa na noite um só passo soturno do uno exército enorme... Clarins sobrepostos mais perto na Noite... Ó Homem de mãos atadas e levado entre sentinelas Para onde, porque caminho, para ao pé de quem? Para ao pé [de] quem, clarins anunciadores de quê? (Tityro, a tua flauta e os campos de Itália sob César Augusto Ah, porque se armam de lágrimas absurdas os olhos E que dor é esta, do antigo e do actual e do futuro, Que dói na alma como uma sensação de exílio? Tityro a tua flauta em Éclogas longínquas... Virgílio a adular o César que venceu Per populum dat juri... Um pobre em guerra, Ó minha alma intranquila... Ó silêncios que as pontes Sob as fortalezas antiquissimamente teriam, Sabeis e vedes que a terra treme sob os passos dos exércitos, Fluxo eterno e divino das ondas sob os cruzadores e os torpedeiros... 2-8-1914 «Ode Marcial». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 23b. A obra de Caeiro divide-se, não só no livro, mas na verdade, em três partes - «O Guardador de Rebanhos», «O Pastor Amoroso» e aquela terceira parte a que Ricardo Reis pôs o nome autêntico de «Poemas Inconjuntos». «O Pastor Amoroso» é um interlúdio inútil, mas os poucos poemas que o compõem são dos grandes poemas de amor do mundo, porque são poemas de amor por serem de amor, e não por serem poemas. O poeta amou porque amou, e não porque há amor, e foi isso mesmo que disse. «O Guardador de Rebanhos» é a vida mental de Caeiro até a diligência levantar no alto da estrada. Os «Poemas Inconjuntos» são já a descida. Distingo assim, para mim próprio: há poemas dos «P[oemas] I[nconjuntos]» que eu imagino que talvez pudesse ter escrito. Não há giro da minha imaginação que me faça passar pelo sonho de poder ter escrito qualquer poema de «O G [ uardador] de Rebanhos». Nos poemas inconjuntos há cansaço, e portanto diferença. Caeiro é Caeiro, mas Caeiro doente. Nem sempre doente, mas às vezes doente. Idêntico mas um pouco alheado. Isto aplica-se sobretudo aos poemas médios dessa terceira parte da sua obra. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 367. «Notas para a recordação do meu mestre Caeiro» A clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais A alegria humana, vivaz, sobre o caso da vizinha Da mãe inconsolável a que o filho morreu há um ano Trapos somos, trapos amamos, trapos agimos — Que trapo tudo que é este mundo! 29-1-1933 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 168. [I] Hela hoho, helahoho! Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras... Numa manhã triunfal, Numa longa linha como que pintada em minha alma , Sucessivamente, indeterminadamente, Couraças, lanças, capacetes brilhando, Escudos virados para mim, Viseiras caídas, cotas de malha , Os prélios, as justas, os combates, as emboscadas. Archeiros de Crecy e de Azincourt! [Armas de Arras?]. E tudo é uma poeira incerta, uma nuvem de gente anónima Que o vento da estratégia levanta em [formas divinas?], E em ondas sopra entre os meus olhos atentos E o Sol da verdade eterna, e a encobre sinistramente. Marcha triunfal, onde a um tempo e não a um tempo, Onde numa simultaneidade por transparências uns de outros, Surgem, aparecem, aglomeram-se em minha consciência, Os guerreiros de todos os tempos, os soldados de todas as raças, As couraças de todas as origens, As armas brancas de todas as forjas, As hostes compostas de usos marciais de todos os exércitos. s.d. «Ode Marcial». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 23c. Ah o som de abanar o ferro da engomadeira À janela ao lado da minha infância debruçada! O som de estarem lavando a roupa no tanque! Todas estas coisas são, de qualquer modo, Parte do que sou. (Ó ama morta, que é do teu carinho grisalho?) Minha infância da altura da cara pouco acima da mesa... Minha mão gordinha pousada na borda da toalha que se enrodilhava. E eu olhava por cima do prato, nas pontas dos pés. (Hoje se me puser nas pontas dos pés, é só intelectualmente.) E a mesa que tenho não tem toalha, nem quem lhe ponha toalha... Estudei o fermento da falência Na demonologia da imaginação... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 169. II A Guerra! Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras... As civilizações guerreiras de todos os tempos e lugares... Num panorama confuso e lúcido, Em quadras misturadas e não misturadas, separadas e compactas, mas só quando Em desfile sucessivo e apesar disso ao mesmo tempo, Passam... Passam e eu, eu que estou estendido na erva E vi os carros passarem, passarem — cessarem depois para nós mesmos Vejo-os e o meu espanto nem é muito calmo nem interessado Nem os vê nem os deixa de ver, E eles passam por mim como um pó ou leve vento sobe pelos ares. Ah a pompa antiga, e a pompa moderna, os uniformes dos engenhos de guerra, A fúria terna e [...] dos combates Os mortos sempre a mesma misteriosa vida — o corpo no chão (e o que é o mundo, afinal, e aonde?) A ferida [...] E o céu, o eterno céu insensível sobre isso tudo! s.d. «Ode Marcial». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 23d. E o som só dentro do relógio acentuado No serão sem ninguém das casas de jantar da província Põe-me o tempo inteiro em cima da alma, E enquanto não chega a hora do chá das tias velhas, O meu coração ouve o tempo passar e sofre comigo. Tic-tac mais sonolento que o dos outros relógios — Na parede, de madeira, este tem pêndulo e oscila. O meu coração tem saudades não sabe de quê. Tenho que morrer... Tic-tac mecânico e certo — serão sereno mecânico na província. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 170. Barcos pesados vindo para as melancólicas sombras Dos grandes olhos incompletos dos arcos das pontes Enormes escaladas medievais dos altos muros do castelo (Luzem como escamas os aços dos elmos e das couraças) E os escudos deitados [clamam?] como goelas fumegantes dos que assaltam E o súbito desabrochar aéreo das grandes flores amarelas e violentas das granadas. (Onde o teu cavalo pôs a pata, Átila, torna a crescer erva E tudo renasce e a vida da natureza cobre O que fica das conquistas) Antenas de ferro — capacetes em bico — de Bismarck s.d. «Ode Marcial». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 23e. O conto antigo da Gata Borralheira, O João Ratão e o Barba Azul e os 40 Ladrões, E depois o Catecismo e a história de Cristo E depois todos os poetas e todos os filósofos; E a lenha ardia na lareira quando se contavam contos, O sol havia lá fora em dias de destino, E por cima da leitura dos poetas as árvores e as terras... Só hoje vejo o que é que aconteceu na verdade. Que a lenha ardida, cantante porque ardia, Que o sol dos dias de destino, porque já não há, Que as árvores e as terras (para além das páginas dos poetas) — Que disto tudo só fica o que nunca foi: Porque a recompensa de não existir é estar sempre presente. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 171. As mortes, o ruído, as violações, o sangue, o brilho das baionetas... Todas estas coisas são uma só coisa e essa coisa sou Eu... s.d. «Ode Marcial». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 23f. Névoas de todas as recordações juntas (A institutrice loura dos jardins pacatos) Recordo tudo a ouro do sol e papel de seda... E o arco da criança passa veloz por quase rente a mim... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 172. ODE MARCIAL Inúmero rio sem água — só gente e coisas Pavorosamente sem água! Soam tambores longínquos no meu ouvido, E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores, Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo! Helahoho! helahoho! A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta Ela cosia à tarde indeterminadamente... A mesa onde jogavam os velhos, (...) Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues, Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror. Helahoho! helahoho! Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada, E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida. Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração. Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles Que matou, violou, queimou e quebrou, Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso como uma sombra disforme Passeiam por todo o mundo como Ashavero, Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente. Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências, A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar E tudo dói na minha alma extensa como um Universo. Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe, Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos. Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o, Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada... Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus. Quebrei a máquina de costura da viúva pobre. Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura. Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto? Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos, Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores, Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou, E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém! s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 23g. Se eu tirar com urna pancada O bolo barato da boca da criança pobre Onde encontrarei justiça no mundo, Onde me esconderei dos olhos do Vulto Invisível que espreita pelas estrelas Quando o coração vê pelos olhos o mistério olhar o universo? Minha emoção concreta, ó brinquedo de crianças, Ó pequenas alegrias legítimas da gente obscura, Ó pobre riqueza exígua dos que não são ninguém... Os móveis comprados com tanto sacrifício, As toalhas remendadas com tanto cuidado, As pequenas coisas de casa tão ajustadas e postas no lugar E a roda de um dos mil carros do rei vencedor Parte tudo, e todos perderam tudo. Que imperador tem o direito De partir a boneca à filha do operário? Que César com suas legiões tem justiça Para partir a máquina de costura da velha Se eu for pela rua E arrancar a fita suja na mão da garota E a fizer chorar, onde encontrar qualquer Cristo? s.d. «Ode Marcial». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 23h. Tratei sempre o meu mestre Caeiro humana e simplesmente por Caeiro. Nunca lhe chamei mestre a ele: essas coisas dizem-se mas não se falam, isto é, escrevem-se mas não se dizem. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 368. «Notas para a recordação do meu mestre Caeiro» Meu pobre amigo, não tenho compaixão que te dar. A compaixão custa, sobretudo sincera, e em dias de chuva. Quero dizer: custa sentir em dias de chuva. Sintamos a chuva e deixemos a psicologia para outra espécie de céu. Com que então problema sexual? Mas isso depois dos quinze anos é uma indecência. Preocupação com o sexo oposto (suponhamos) e a sua psicologia — Mas isso é estúpido, filho. O sexo oposto existe para ser procurado e não para ser compreendido. O problema existe para estar resolvido e não para preocupar. Compreender é ser impotente. E você devia revelar-se menos. "La Colére de Samson", conhece? "La femme, enfant malade et [...]" Mas não é nada disso. Não me mace, nem me obrigue a ter pena! Olhe: tudo é literatura. Vem-nos tudo de fora, como a chuva. A maneira? Se nós somos páginas aplicadas de romances? Traduções, meu filho. Você sabe porque está tão triste? É por causa de Platão, Que você nunca leu. E um soneto de Petrarca, que você desconhece, sobrou-lhe errado, E assim é a vida. Arregace as mangas da camisa civilizada E cave terras exactas! Mais vale isso que ter a alma dos outros. Não somos senão fantasmas de fantasmas, E a paisagem hoje ajuda muito pouco. Tudo é geograficamente exterior. A chuva cai por uma lei natural E a humanidade ama porque ama falar no amor. 9-7-1930 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 133. A vida é para os inconscientes (Ó Lydia, Celimène, Daisy) E o consciente é para os mortos — o consciente sem a Vida... Fumo o cigarro que cheira bem à mágoa dos outros, E sou ridículo para eles porque os observo e me observam. Mas não me importo. Desdobro-me em Caeiro e em técnico — Técnico de máquinas, técnico de gente, técnico da moda — E do que descubro em meu torno não sou responsável nem em verso. O estandarte roto, cosido a seda, dos impérios de Maple — Metam-no na gaveta das coisas póstumas e basta... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 134. Vendi-me de graça aos casuais do encontro. Amei onde achei, um pouco por esquecimento. Fui saltando de intervalo em intervalo E assim cheguei a onde cheguei na vida. Hoje, recordando o passado Não encontro nele senão quem não Fui... A criança inconsciente na casa que cessaria, A criança maior errante na casa das tias já mortas, O adolescente inconsciente ao cuidado do primo padre tratado por tio, O adolescente maior enviado para o estrangeiro (mania do tutor novo). O jovem inconsciente estudando na Escócia, estudando na Escócia... O jovem inconsciente já homem cansado de estudar na Escócia. O homem inconsciente tão diverso e tão estúpido de depois... Não tendo nada de comum com o que foi, Não tendo nada de igual com o que penso, Não tendo nada de comum com o que poderia ter sido. Eu... Vendi-me de graça e deram-me feijões por troco Os feijões dos jogos de mesa da minha infância varrida. 19-7-1930 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 135. Não! Só quero a liberdade! Amor, glória, dinheiro são prisões. Bonitas salas? Bons estofos? Tapetes moles? Ah, mas deixem-me sair para ir ter comigo. Quero respirar o ar sozinho, Não tenho pulsações em conjunto, Não sinto em sociedade por quotas, Não sou senão eu, não nasci senão quem sou, estou cheio de mim. Onde quero dormir? No quintal... Nada de paredes — ser o grande entendimento — Eu e o universo, E que sossego, que paz não ver antes de dormir o espectro do guarda-fatos Mas o grande esplendor, negro e fresco de todos os astros juntos, O grande abismo infinito para cima A pôr brisas e bondades do alto na caveira tapada de carne que é a minha cara, Onde só os olhos — outro céu — revelam o grande ser subjectivo. Não quero! Dêem-me a liberdade! Quero ser igual a mim mesmo. Não me capem com ideais! Não me vistam as camisas-de-forças das maneiras! Não me façam elogiável ou inteligível! Não me matem em vida! Quero saber atirar com essa bola alta à lua E ouvi-la cair no quintal do lado! Quero ir deitar-me na relva, pensando "Amanhã vou buscá-la"... Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado... Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado... " Amanhã vou buscá-la ao quintal" Buscá-la ao quintal Ao quintal ao lado... 11-8-1930 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 136. A liberdade, sim, a liberdade! A verdadeira liberdade! Pensar sem desejos nem convicções. Ser dono de si mesmo sem influência de romances! Existir sem Freud nem aeroplanos, Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço! A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais A liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida! Como o luar quando as nuvens abrem A grande liberdade cristã da minha infância que rezava Estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim... A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente, A noção jurídica da alma dos outros como humana, A alegria de ter estas coisas, e poder outra vez Gozar os campos sem referência a coisa nenhuma E beber água como se fosse todos os vinhos do mundo! Passos todos passinhos de criança... Sorriso da velha bondosa... Apertar da mão do amigo [sério?]... Que vida que tem sido a minha! Quanto tempo de espera no apeadeiro! Quanto viver pintado em impresso da vida! Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade, Dêem-ma no púcaro velho de ao pé do pote Da casa do campo da minha velha infância... Eu bebia e ele chiava, Eu era fresco e ele era fresco, E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre. Que é do púcaro e da inocência? Que é de quem eu deveria ter sido? E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim? 17-8-1930 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 137. Tenho escrito mais versos que verdade. Tenho escrito principalmente Porque outros têm escrito. Se nunca tivesse havido poetas no mundo, Seria eu capaz de ser o primeiro? Nunca! Seria um indivíduo perfeitamente consentível, Teria casa própria e moral. Senhora Gertrudes! Limpou mal este quarto: Tire-me essas ideias de aqui! 15-10-1930? Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 142. OXFORD SHORES' Quero o bem, e quero o mal, e afinal não quero nada. Estou mal deitado sobre a direita, e mal deitado sobre a esquerda E mal deitado sobre a consciência de existir. Estou universalmente mal, metafisicamente mal, Mas o pior é que me dói a cabeça. Isso é mais grave que a significação do universo. Uma vez, ao pé de Oxford, num passeio campestre, Vi erguer-se, de urna curva da estrada, na distância próxima A torre-velha de uma igreja acima de casas da aldeia ou vila. Ficou-me fotográfico esse incidente nulo Como uma dobra transversal escangalhando o vinco das calças. Agora vem a propósito... Da estrada eu previa espiritualidade a essa torre de igreja Que era a fé de todas as eras, e a eficaz caridade. Da vila, quando lá cheguei, a torre da igreja era a torre da igreja, E, ainda por cima, estava ali. É - se feliz na Austrália, desde que lá se não vá. 4-6-1931 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 146. AH, UM SONETO... Meu coração é um almirante louco Que abandonou a profissão do mar E que a vai relembrando pouco a pouco Em casa a passear a passear... No movimento (eu mesmo me desloco Nesta cadeira, só de o imaginar) O mar abandonado fica em foco Nos músculos cansados de parar. Há saudades nas pernas e nos braços. há saudades no cérebro por fora. Há grandes raivas feitas de cansaços. Mas — esta é boa! — era do coração Que eu falava... e onde diabo estou eu agora Com almirante em vez de sensação?... 12-10-1931? Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 148. Meu coração. o almirante errado Que comandou a armada por haver Tentou caminho onde o negou o Fado, Quis ser feliz quando o não pôde ser. E assim, [fechado?], absurdo, postergado, Dado ao que nos resulta de se abster, Não foi dado, não foi dado, não foi dado E o verso errado deixa-o entender. Mas há compensações absolutórias Na sombra — no silencio da derrota Que tem mais rosas de alma que as vitórias. E assim surgiu, Imperial, a frota Carregada de anseios e de glórias Com que o almirante prosseguiu na rota. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 149. Estou escrevendo sonetos regulares (Ou quase regulares) como um poeta... Mas se eu dissesse a alguém a dor completa Que me faz ter tais gestos e tais ares, (...) Ninguém acreditava. Ó grandes mares Da emoção subindo em névoa preta Até a mágoa ser como a do asceta. (...) Com um estalido de "mola de pressão" Fecho a carteira dos apontamentos Onde fixei a minha indecisão, Não sou meu ser, nem sou meus pensamentos, A minha vida é um príncipe ao balcão s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 150. V Há quanto tempo, Portugal, há quanto Vivemos separados! Ah, mas a alma, Esta alma incerta, nunca forte ou calma, Não se distrai de ti, nem bem nem tanto. Sonho, histérico oculto, um vão recanto... O rio Furness, que é o que aqui banha, Só ironicamente me acompanha, Que estou parado e ele correndo tanto... Tanto? Sim, tanto relativamente... Arre, acabemos com as distinções, As subtilezas, o interstício, o entre, A metafísica das sensações — Acabemos com isto e tudo mais... Ah, que ânsia humana de ser rio ou cais! s.d. “Barrow-on-Furness”. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 326. POEMA DE CANÇÃO SOBRE A ESPERANÇA I Dá-me lírios, lírios, E rosas também. Mas se não tens lírios Nem rosas a dar-me, Tem vontade ao menos De me dar os lírios E também as rosas. Basta-me a vontade, Que tens, se a tiveres, De me dar os lírios E as rosas também, E terei os lírios — Os melhores lírios — E as melhores rosas Sem receber nada. A não ser a prenda Da tua vontade De me dares lírios E rosas também. II Usas um vestido Que é uma lembrança Para o meu coração. Usou-o outrora Alguém que me ficou Lembrada sem vista. Tudo na vida Se faz por recordações. Ama-se por memória. Certa mulher faz-nos ternura Por um gesto que lembra a nossa mãe. Certa rapariga faz-nos alegria Por falar como a nossa irmã. Certa criança arranca-nos da desatenção Porque amámos uma mulher parecida com ela Quando éramos jovens e não lhe falávamos. Tudo é assim, mais ou menos, O coração anda aos trambulhões. Viver é desencontrar-se consigo mesmo. No fim de tudo, se tiver sono, dormirei. Mas gostava de te encontrar e que falássemos. Estou certo que simpatizaríamos um com o outro. Mas se não nos encontrarmos, guardarei o momento Em que pensei que nos poderíamos encontrar. Guardo tudo, (Guardo as cartas que me escrevem, Guardo até as cartas que não me escrevem — Santo Deus, a gente guarda tudo mesmo que não queira, E o teu vestido azulinho, meu Deus, se eu te pudesse atrair Através dele até mim! Enfim, tudo pode ser... És tão nova — tão jovem, como diria o Ricardo Reis — E a minha visão de ti explode literariamente, E deito-me para trás na praia e rio como um elemental inferior, Arre, sentir cansa, e a vida é quente quando o sol está alto. Boa noite na Austrália! 17-6-1929 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 106. Já sei: alguém disse a verdade. Até os cordéis parecem aflitos, Entra neste lar o objectivo. E cada um ficou de fora, como um pano na corda Que a chuva apanha esquecido na noite de janelas fechadas. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 107. Não se preocupem comigo: também tenho a verdade. Tenho-a a sair da algibeira como um prestidigitador. Também pertenço... Ninguém conclui sem mim, é claro, E estar triste é ter ideias destas. Ó meu capricho entre terraços aristocráticos, Comes açorda em mangas de camisa no meu coração. 18-6-1929 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 108. Ah, no terrível silêncio do quarto O relógio com o seu som de silêncio! Monotonia! Quem me dará outra vez a minha infância perdida? Quem ma encontrará no meio da estrada de Deus — Perdida definitivamente, como um lenço no comboio. 16-8-1929 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 109. E eu que estou bêbado de toda a injustiça do mundo... — O dilúvio de Deus e o bebé loirinho boiando morto à tona de água, Eu, em cujo coração a angústia dos outros é raiva, E a vasta humilhação de existir um amor taciturno — Eu, o lírico que faz frases porque não pode fazer sorte, Eu, o fantasma do meu desejo redentor, névoa fria — Eu não sei se devo fazer poemas, escrever palavras, porque a alma — A alma inúmera dos outros sofre sempre fora de mim. Meus versos são a minha impotência. O que não consigo, escrevo-o; E os ritmos diversos que faço aliviam a minha cobardia. A costureira estúpida violada por sedução, O marçano rato preso sempre pelo rabo, O comerciante próspero escravo da sua prosperidade — Não distingo, não louvo, não (...) — São todos bichos humanos, estupidamente sofrentes. Ao sentir isto tudo, ao pensar isto tudo, ao raivar isto tudo, Quebro o meu coração fatidicamente como um espelho, E toda a injustiça do mundo é um mundo dentro de mim. Meu coração esquife, meu coração (...), meu coração cadafalso — Todos os crimes se deram e se pagaram dentro de mim. Lacrimejância inútil, pieguice humana dos nervos, Bebedeira da servilidade altruísta, Voz com papelotes chorando no deserto de um quarto andar esquerdo... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 110. DILUENTE A vizinha do número quatorze ria hoje da porta De onde há um mês saiu o enterro do filho pequeno. Ria naturalmente com a alma na cara. Está certo: é a vida. A dor não dura porque a dor não dura. Está certo. Repito: está certo. Mas o meu coração não está certo. O meu coração romântico faz enigmas do egoísmo da vida. Cá está a lição, ó alma da gente! Se a mãe esquece o filho que saiu dela e morreu, Quem se vai dar ao trabalho de se lembrar de mim? Estou só no mundo, como um peão de cair. Posso morrer como o orvalho seca. Por uma arte natural de natureza solar, Posso morrer à vontade da deslembrança, Posso morrer como ninguém... Mas isto dói, Isto é indecente para quem tem coração... Isto... Sim, isto fica-me nas goelas como uma sanduíche com lágrimas... Gloria? Amor? O anseio de uma alma humana? Apoteose ás avessas... Dêem-me Agua de Vidago, que eu quero esquecer a Vida! 29-8-1929 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 111. Bem sei que tudo é natural Mas ainda tenho coração... Boa noite e merda!... (Estala, meu coração!) (Merda para a humanidade inteira!) Na casa da mãe do filho que foi atropelado, Tudo ri, tudo brinca. E há um grande ruído de buzinas sem conta a lembrar Receberam a compensação: Bebé igual a X, Gozam o X neste momento, Comem e bebem o bebé morto, Bravo! São gente! Bravo! São a humanidade! Bravo: são todos os pais e todas as mães Que têm filhos atropeláveis! Como tudo esquece quando há dinheiro. Bebé igual a X. Com isso se forrou a papel uma casa. Com isso se pagou a última prestação da mobília. Coitadito do Bebé. Mas, se não tivesse sido morto por atropelamento, que seria das contas? Sim, era amado. Sim, era querido Mas morreu. Paciência, morreu! Que pena, morreu! Mas deixou o com que pagar contas E isso é qualquer coisa. (É claro que foi uma desgraça) Mas agora pagam-se as contas. (É claro que aquele pobre corpinho Ficou triturado) Mas agora, ao menos, não se deve na mercearia. (É pena sim, mas há sempre um alívio.) O bebé morreu, mas o que existe são dez contos. Isso, dez contos. Pode fazer-se muito (pobre bebé) com dez contos. Pagar muitas dívidas (bebezinho querido) Com dez contos. Pôr muita coisa em ordem (Lindo bebé que morreste) com dez contos. Bem se sabe é triste (Dez contos) Uma criancinha nossa atropelada (Dez contos) Mas a visão da casa remodelada (Dez contos) De um lar reconstituído (Dez contos) Faz esquecer muitas coisas (como o choramos!) Dez contos! Parece que foi por Deus que os recebeu (Esses dez contos). Pobre bebé trucidado! Dez contos. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 112. P-HÁ Hoje, que sinto nada a vontade, e não sei que dizer, Hoje, que tenho a inteligência sem saber o que querer, Quero escrever o meu epitáfio: Álvaro de Campos jaz Aqui, o resto a Antologia grega traz... E a que propósito vem este bocado de rimas? Nada... Um amigo meu, chamado (suponho) Simas, Perguntou-me na rua o que é que estava a fazer, E escrevo estes versos assim em vez de lho não saber dizer. É raro eu rimar, e é raro alguém rimar com juízo. Mas às vezes rimar é preciso. Meu coração faz pá como um saco de papel socado Com força, cheio de sopro, contra a parede do lado. E o transeunte, num sobressalto, volta-se de repente E eu acabo este poema indeterminadamente. 2-12-1929 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 114. Esse é um génio, é o que é novo é (...) Outro é um deus, e as crianças do mundo não lhe cospem na cara. Queria ser uma pedra, não aspiro a mais, quero Ser uma coisa que não possa ter vergonha nem desespero, Fui rei nos meus sonhos, mas nem sonhos houve, além de mim E a última palavra que se escreve nos livros é a palavra Fim. 1929? Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 115. Passo, na noite da rua suburbana, Regresso da conferência com peritos como eu. Regresso só, e poeta agora, sem perícia nem engenharia, Humano até ao som dos meus sapatos solitários no princípio da noite Onde ao longe a porta da tenda tardia se encobre com o último taipal. Ah, o som do jantar nas casas felizes! Passo, e os meus ouvidos vêem para dentro das casas. O meu exílio natural enternece-se no escuro Da aia meu lar, da rua meu ser, da rua meu sangue. Ser a criança economicamente garantida, Com a cama fofa e o sono da infância e a criada! O meu coração sem privilégio! Minha sensibilidade da exclusão! Minha mágoa extrema de ser eu! Quem fez lenha de todo o berço da minha infância? Quem fez trapos de limpar o chão dos meus lençóis de menino? Quem expôs por cima das cascas e do cotão das casas Nos caixotes de lixo do mundo As rendas daquela camisa que usei para me baptizarem? Quem me vendeu ao Destino? Quem me trocou por mim? Venho de falar precisamente em circunstâncias positivas. Pus pontos concretos, como um numerador automático. Tive razão como uma balança. Disse como sabia. Agora, a caminho do carro eléctrico do término de onde se volta à cidade, Passo, bandido, metafísico, sob a luz dos candeeiros afastados E na sombra entre os dois candeeiros afastados tenho vontade de não seguir. Mas apanharei o eléctrico. Soará duas vezes a campainha lá do fim invisível da correia puxada Pelas mãos de dedos grossos do condutor por barbear. Apanharei o eléctrico. Ai de mim; apesar de tudo sempre apanhei o eléctrico — Sempre, sempre, sempre... Voltei sempre à cidade, Voltei sempre à cidade, depois de especulações e desvios, Voltei sempre com vontade de jantar. Mas nunca jantei o jantar que soa atrás de persianas Das casas felizes dos arredores por onde se volta ao eléctrico, Das casas conjugais da normalidade da vida! Pago o bilhete através dos interstícios, E o condutor passa por mim como se eu fosse a Crítica da Razão Pura... Paguei o bilhete. Cumpri o dever. Sou vulgar. E tudo isto são coisas que nem o suicídio cura. 6-1-1930 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 117. Ah, quem me dera ser desempregado! Não ter que fazer a valer, mas de dentro! Ter (...) 28-2-1931 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 230. A água de aqui é boa, não é? Se é! Quantos vinhos que julguei melhores bebi! A água de aqui — a verdade! A verdade não — a melhor aparência dela... Quando, em grandes praças de eu distra[ído], Apregoam em torno de mim os jornais todos e eu durm[o] s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 232. Onde é que os mortos dormem? Dorme alguém Neste universo atomicamente falso? s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 232. Saudação a todos quantos querem ser felizes: Saúde e estupidez! Isto de ter nervos Ou de ter inteligência Ou até de julgar que se tem uma coisa ou outra Há-de acabar um dia... Há-de acabar com certeza Se os governos autoritários continuarem. 1935 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 233. A coisa estranha e muda em todo o corpo, Que está ali, ebúrnea, no caixão, O corpo humano que não é corpo humano Que ali se cala em todo o ambiente; O cais deserto que ali aguarda o incógnito O assombro álgido ali entreabrindo A porta suprema e invisível; O nexo incompreensível Entre a energia e a vida, Ali janela para a noite infinita... Ele — o cadáver do outro, Evoca-me do futuro [Eu próprio dois?], ou nem assim... E embandeiro em arco a negro as minhas esperanças Minha fé cambaleia como uma paisagem de bêbedo, Meus projectos tocam um muro infinito até infinito. 1926? Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 64. A estrada inteiramente insubjectiva Branca, branca, sem pensamento algum s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 234. Faróis distantes, De luz subitamente tão acesa, De noite e ausência tão rapidamente volvida, Na noite, no convés, que consequências aflitas! Mágoa última dos despedidos , Ficção de pensar... Faróis distantes... Incerteza da vida... Voltou crescendo a luz acesa avançadamente, No acaso do olhar perdido... Faróis distantes... A vida de nada serve... Pensar na vida de nada serve... Pensar de pensar na vida de nada serve... Vamos para longe e a luz que vem grande vem menos grande, Faróis distantes... 30-4-1926 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 66. Nas minhas veias, por onde corre, numa lava de asco A fúria do horror da vida! s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 235. ODE MORTAL Tu, Caeiro meu mestre, qualquer que seja o corpo Com que vestes agora, distante ou próximo, a essência Da tua alma universal localizada, Do teu corpo divino intelectual... Viste com a tua cegueira perfeita, sabes o não ver... Porque o que viste com os teus dedos materiais e admiráveis Foi a face sensível e não a face fisiognomónica das coisas Foi a realidade, e não o real. É à luz que ela é visível, E ela só é visível porque há luz, Porque a verdade que é tudo é só a verdade que há em tudo E a verdade que há em tudo é a verdade que o excede! Ah, sem receio! Ah, sem angústia! Ah, sem cansaço antecipado da marcha Nem cadáver velado pelo próprio cadáver na alma Nas noites em que o vento assobia no mundo deserto E a casa onde durmo é um túmulo de tudo, Nem o sentir-se muito importante sentindo-se cadáver, Nem a consciência de não ter consciência dentro de tábuas e chumbo, Nem nada... Olho o céu do dia, espelha o céu da noite E este universo esférico e côncavo Vejo-o como um espelho dentro do qual vivemos, Limitado porque é a parte de dentro Mas com estrelas e o sol rasgando o visível Por fora, para o convexo que é infinito... E aí, no Verdadeiro, Tirarei os astros e a vida da algibeira como um presente ao Certo, Lerei a Vida de novo, como numa carta guardada E então, com luz melhor, perceberei a letra e saberei. O cais está cheio de gente a ver-me partir. Mas o cais é à minha volta e eu encho o navio — E o navio é cama, caixão, sepultura — E eu não sei o que sou pois já não estou ali... E eu, que cantei A civilização moderna, aliás igual à antiga, As coisas do meu tempo só porque esse tempo foi meu, As máquinas, os motores, (...) Vou em diagonal a tudo para cima. Passo pelos interstícios de tudo, E como um pó sem ser rompo o invólucro E partirei, globe-trottrer do Divino, Quantas vezes, quem sabe?, regressando ao mesmo ponto (Quem anda de noite que sabe do andar e da noite?), Levarei na sacola o conjunto do visto — O céu e de estrelas, e o sol em todos os modos, E todas as estações e as suas maneiras de cores, E os campos, e as serras, e as terras que cessam em praias E o mar para além, e o para além do mar que há além. E de repente se abrirá a Última Porta das coisas, E Deus, como um Homem, me aparecerá por fim. E será o Inesperado que eu esperava — O Desconhecido que eu conheci sempre — O único que eu sempre conheci, E (...) Gritai de alegria, gritai comigo, gritai, Coisas cheias, sobre-cheias, Que sois minha vida turbilhonante... Eu vou sair da esfera oca Não por uma estrela, mas pela luz de um estrela — Vou para o espaço real... Que o espaço cá dentro é espaço por estar fechado E só parece infinito por estar fechado muito longe — Muito longe em pensá-lo. A minha mão está já no puxador-luz. Vou abrir com um gesto largo, Com um gesto autêntico e mágico A porta para o Convexo, A janela para o Informe, A razão para o maravilhoso definitivo. Vou poder circum-navegar por fora este dentro Que tem as estrelas no fim, vou ter o céu Por baixo do sobrado curvo — Tecto da cave das coisas reais, Da abóbada nocturna da morte e da vida... Vou partir para FORA, Para o Arredor Infinito, Para a circunferência exterior, metafísica, Para a luz por fora da noite, Para a Vida-morte por fora da morte-Vida. 12-1-1927 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 68. Há cortejos, pompas, discursos, Na inauguração quotidiana dos meus sentimentos inúteis... São iluminadas à veneziana por luzes contentes As minhas decepções, e os meus desesperos vão em carrossel Por uma necessidade [fatídica?] do destino. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 236. Fernando Pessoa? Ai, Margarida, Se eu te desse a minha vida, Que farias tu com ela? — Tirava os brincos do prego, Casava c'um homem cego E ia morar para a Estrela. Mas, Margarida, Se eu te desse a minha vida, Que diria tua mãe? — (Ela conhece-me a fundo.) Que há muito parvo no mundo, E que eras parvo também. E, Margarida, Se eu te desse a minha vida No sentido de morrer? — Eu iria ao teu enterro, Mas achava que era um erro Querer amar sem viver. Mas, Margarida, Se este dar-te a minha vida Não fosse senão poesia? — Então, filho, nada feito. Fica tudo sem efeito. Nesta casa não se fia. Comunicado pelo Engenheiro Naval Sr. Álvaro de Campos em estado de inconsciência alcoólica. 1-10-1927 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 70. Durmo, remoto; sonho, diferente, Meu coração, ansioso e pressuroso, Foi entalado num comboio entre Os dois vagões do meu destino ocioso. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 237. Fernando Pessoa? Perdi a esperança como uma carteira vazia... Troçou de mim o Destino; fiz figas para o outro lado, E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho. (Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação, E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam. Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram , Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita, Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado) 17-12-1927 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 72. TRAMWAY Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas, Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas). Amanhã elas, postas em verso, serão Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!) Triunfo meta, início, clarão Que talvez não acabe. E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado Só sente em mim que sou o que, estrangeiro, Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado Por quem entra primeiro. Que o que vale são as ideias que tenho, enfim, O resto, o que aqui está sentado, sou eu, Vestido, visual, regular, sempre em mim, Sob o azul do céu. Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo Senso essencial, mas certeiro e conciso Da vida e do mundo! Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias, Sob o céu mais análogo ao que penso comigo Que este carro vai com os bancos cheios Para onde eu sigo. E o ponto de absurdo de tudo isto qual é? Onde é que está aqui o erro que sinto? A minha razão enternecida aqui perde pé E pensando minto, Mas a que verdade minto, que ponte, Há entre o que é falso aqui e o que é certo? Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte, Se o que está a descoberto Agora no meu meditar é uma treva e um abismo Que hei-de fazer da minha consciência dividida? Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo? De que lado é que é a vida? 8-10-1919 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 238. Fernando Pessoa? Quase sem querer (se o soubéssemos!) os grandes homens saindo dos homens vulgares O sargento acaba imperador por transições imperceptíveis Em que se vai misturando O conseguimento com o sonho do que se consegue a seguir E o caminho vai por degraus visíveis, depressa. Ai dos que desde o principio vêem o fim! Ai dos que aspiram a saltar a escada! O conquistador de todos os impérios foi sempre ajudante de guarda-livros A amante de todos os reis — mesmo dos já mortos — é mãe séria e carinhosa, Se assim como vejo os corpos por fora, visse as almas por dentro. Ah, que penitenciaria os Anjos! Que manicómio o sentido da vida! s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 74. CANÇÃO ABRUPTA O céu de todos os universos Cobre em meu ser todo o verão... Vai p'ra as profundas dos infernos E deixa em paz meu coração! Quê? Não me fica se te opões? Pois leva-o, guarda-o, bem ou mal Eu tenho muitos corações É um privilégio intelectual Madonna que vais comprar couves Não te esqueças de me esquecer O teu perfil dá-me trabalho Quero (...) Bem sei, o teu perfil persiste Amo-te e é triste não poder Deixar de amar-te sem estar triste... Se és mulher que em verdade existe Raios te parta! Vai morrer! 1-12-1928 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 239. Ou Fernando Pessoa? No conflito escuro e besta Entre a luz e o lojame Que ao menos luz se derrame Sobre a verdade, que é esta: Como é uso dos lojistas Aumentar aos cem por cento, Protestam contra um aumento Que é reles às suas vistas. E gritam que é enxovalho Que os grandes, quando ladrões, Nem guardem as tradições Dos gatunos de retalho. Lojistas, que vos ocorra Roubar duzentos por cento! E acaba logo o argumento Entre a Máfia e a Camorra... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 76. Às vezes medito, Às vezes medito, e medito mais fundo, e ainda mais fundo E todo o mistério das coisas aparece-me como um óleo à superfície, E todo o universo é um mar de caras de olhos fechados para mim. Cada coisa — um candeeiro de esquina, uma pedra, uma árvore, E um olhar que me fita de um abismo incompreensível, E desfilam no meu coração os deuses todos, e as ideias dos deuses. Ah, haver coisas! Ah, haver seres! Ah, haver maneira de haver seres De haver haver, De haver como haver haver, De haver... Ah, o existir o fenómeno abstracto — existir, Haver consciência e realidade, O que quer que isto seja... Como posso eu exprimir o horror que tudo isto me causa? Como posso eu dizer como é isto para se sentir? Qual é alma de haver ser? Ah, o pavoroso mistério de existir a mais pequena coisa Porque é o pavoroso mistério de haver qualquer coisa Porque é o pavoroso mistério de haver... 29-4-1928 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 82. NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA NOVA Tantos bons poetas! Tantos bons poemas! São realmente bons e bons, Com tanta concorrência não fica ninguém, Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade, Obtendo lugares por capricho do Empresário. Tantos bons poetas! Para que escrevo eu versos? Quando os escrevo parecem-me O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece — A única coisa grande no mundo... Enche o universo de frio o pavor de mim. Depois, escritos, visíveis, legíveis... Ora... E nesta antologia de poetas menores? Tantos bons poetas! O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue O génio, e os bons poemas dos bons poetas? Sei lá se realmente se distingue... O melhor é dormir... Fecho a antologia mais cansado do que do mundo — Sou vulgar?... Há tantos bons poetas! Santo Deus!... 1-5-1928 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 83. No ocaso, sobre Lisboa, no tédio dos dias que passam, Fixo no tédio do dia que passa permanentemente Moro na vigília involuntária como um fecho de porta Que não fecha coisa nenhuma. Meu coração involuntário, impulsivo, Naufraga a esfinges indigentes Nas consequências e fins, [acordando?] no [além?]... 1-5-1928? Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 84. Exma. Senhora D. Ophélia Queiroz: Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.ª — considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) — que V. Ex. ª está proibida de: (1) pesar menos gramas, (2) comer pouco, (3) não dormir nada, (4) ter febre, (5) pensar no indivíduo em questão. Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.ª a pegar na imagem mental, que acaso tenha formado do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo. Cumprimenta V. Ex. ª Álvaro de Campos eng. Naval 25/9/1929 ABEL 25-9-1929 Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994). - 41. Um especialista é um homem que sabe qualquer coisa de uma coisa e nada de todas as coisas. De uma coisa não se pode saber senão qualquer coisa, porque o conhecimento humano é limitado. E, para perceber qualquer coisa seria preciso perceber todas as coisas, pois uma coisa é parte de todas as coisas. O especialista, pois, é um homem que não sabe nada e vive dessa ciência. O especialista é util apenas quando a sua especialidade é tão restrita que não tem importância. Pode haver bons especialistas de pregar pregos; não pode haver bons especialistas de construção de civilizações. Há muito bons cavadores e nenhum bom psiquiatra. O especialista é um homem que tem a opinião dos outros, embora sobre um só assunto. O especialista é incapaz de iniciativa. Por isso os especialistas são muitos e felizes. Vida e Obras do Engenheiro. Álvaro de Campos / Fernando Pessoa. (Organização de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1990. - 151. Um especialista é um homem que sabe qualquer coisa de uma coisa e nada de todas as coisas. De uma coisa não se pode saber senão qualquer coisa, porque o conhecimento humano é limitado. E, para perceber qualquer coisa seria preciso perceber todas as coisas, pois uma coisa é parte de todas as coisas. O especialista, pois, é um homem que não sabe nada e vive dessa ciência. O especialista é útil apenas quando a sua especialidade é tão restrita que não tem importância. Pode haver bons especialistas de pregar pregos; não pode haver bons especialistas de construção de civilizações. Há muito bons cavadores e nenhum bom psiquiatra. O especialista é um homem que tem a opinião dos outros, embora sobre um só assunto. O especialista é incapaz de iniciativa. Por isso os especialistas são muitos e felizes. s.d. Vida e Obras do Engenheiro. Álvaro de Campos / Fernando Pessoa. (Organização de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1990. - 151. O ritmo paragráfico é tão fácil, ou tão difícil, como o ritmo vulgar. É falsa a alegação de que qualquer pode escrever bem o ritmo irregular. Mais fácil é escrever bem em ritmo regular. O ritmo regular moderno habilita a não pensar, a não sentir um outro ritmo. Está certo, está certo. Muitas vezes está errado. O ritmo quantitativo era, ao menos, mais difícil. O ritmo paragráfico exige uma atenção enorme às ideias, às emoções, à expiração (...) pois tudo isso faz parte do ritmo, que não é só para o ouvido, mas para a linguagem [?] do ouvido com o entendimento. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 273. São três os sentidos que colaboraram na formação das artes, ou, pelo menos, das artes superiores: a vista, de onde se formou a pintura, a escultura, a arquitectura, o ouvido donde se formou a música; a (...) Quando se traduz um poema, traduz-se a ideia e o objecto; a liberdade está nos pontos intermédios das frases, das imagens até. Por isso é intraduzível nas línguas modernas a poesia quantitativa dos gregos e dos romanos. A arte verbal de dizer as coisas de maneira que o ritmo influa no sentido chama-se poesia. Todos conhecem o «pensamento» trazido pela rima; e com o ritmo dá-se o mesmo. O que é pensado para se dizer, ou porque se está dizendo, em poesia não é pensado do mesmo modo que se onde está a poesia estivesse a prosa. O ritmo dentro do mesmo espírito tem outra marcha ou direcção. Reescrevamos a Ilíada na forma de uma crónica medieval, e será uma boa crónica medieval, mais nada. Dispamos o Paraíso Perdido da música rítmica da [...] e será um monumento de fantasia teológica, tediento e fruste. A preocupação do ritmo infiltrou-se no poema, na substância da mesma ideação, e o que é para ser pensado ritmicamente não é pensado como se fosse só pensado. s.d. Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 274. ...... O que eu adoro nos seus versos não é o sistema filosófico que me dizem que se pode tirar de lá: é o sistema filosófico que não se rode tirar de lá. É a frescura, a limpidez, a primitividade de sensações. É a falta de sistema, precisamente. É que os seus versos não me fazem pensar: fazem-me sentir; e não me fazem sentir amor, ódio, qualquer paixão ou emoção comercial — fazem-me sentir as coisas como se eu estivesse olhando para elas com um grande interesse e atenção. Acho que está gasta a poesia amorosa, a poesia sentimental, a poesia patriótica, a poesia da natureza, a poesia de (...) — está gasta toda a poesia que é poesia de tal coisa ou de tal outra coisa. Só não está gasta a poesia das sensações, porque as sensações são individuais e as individualidades nunca se repetem. Devemos, creio, tentar dar o mais completamente possível uma expressão às nossas sensações. As nossas sensações individuais não são as de amor, as de ódio, as (...) - porque essas são demasiado semelhantes em todos os homens, e só pode haver variação na expressão delas, pelo qual processo a arte fatalmente se formaliza, se plasticiza em excesso. O que é bem nosso nas sensações, as sensações que são bem nossas, são as sensações directas, as que não têm carácter social, as que vêm directamente de ver, ouvir, cheirar, palpar, gostar, e as sensações de vidas previamente vividas, provindas do nosso passado que é só nosso, em cada um de nós só dele essas sensações provêm, por contraditórias, absurdas, desumanas que sejam. Por isso eu digo que não há poetas do amor, nem da pátria, nem do (...), nem de outra coisa de ordem social . A poesia é individual. A poesia não é para exprimir as emoções sociais. As emoções sociais exprimem-se pela acção , cada emoção social pela acção relativa a ela. A poesia existe para exprimir aquilo que as acções e os gestos não podem exprimir. Na sua poesia, meu querido Mestre, é a realização disto que eu aprecio, não a qualidade, que lhe atribuem, de cantar não sei que virtudes pagãs. O paganismo importa-me tão pouco como o cristianismo, como qualquer coisa que não seja eu e as minhas sensações. Basta o seu desprezo pelas actuais doutrinas, artísticas e sociais, para me encher de entusiasmo. Dirão, é verdade, que o que é individual não deve constituir arte, porque os outros não sentirão. É um disparate. Logo que urna coisa se pode exprimir por palavras, outra pessoa, se não é estúpida ou de outra ordem da sensibilidade — e vive (...) —, pode senti-la. Aquelas emoções estranhas que não se podem exprimir... se elas se não podem exprimir como é que os outros as hão-de compreender ou deixar de compreender? Desde que uma coisa cabe em palavras, cabe na compreensão dos outros. Essa compreensão, é verdade, nunca é perfeita, porque todos somos diferentes e não sentimos as coisas do mesmo modo; mas é compreendida e isso basta. Eu explico ainda melhor. Toda a gente sente uma sensação de alegria perante um dia extraordinariamente belo. Esta emoção é autêntica, porque não serve para fim nenhum social, nem se pode traduzir por um acto, por uma acção — podemos olhar para o dia e gozá-lo, mas é uma emoção noutro sentido. Apreciar uma mulher bela ou qualquer beleza, é já outra coisa — e por isso é positivamente desprezível — porque aí a comparação pode ter o motivo de se passar a uma expressão máxima e mais directa, repare-se bem, mais directa. Já me disseram que há paisagens perante as quais não se podia fazer se não urrar de alegria. Urre-se, se isso é que exprime alegria. Sé é coisa que se possa dizer, diga-se. Mas acaba-se, de uma vez para sempre, com a poesia social, amorosa, patriótica, de ódio, de amor, (...) Quem tiver acessos de humanitarismo deve dar escolas, ou ser enfermeiro, ou outra coisa assim. O humanitarismo distribui-se por muitos, porque é de ordem social com emoção. A vida é uma viagem que uns fazem em caixeiros-viajantes, outros em navios em lua de mel, e outros, como eu, em tourists . Eu atravesso a vida para olhar para ela. Tudo é paisagem para mim, como para o bom tourist — campos, cidades, casas, fábricas, luzes, bares, mulheres, dores, alegrias, dúvidas, guerras (...). Quero, para aproveitar a minha viagem, sentir o maior número de coisas no mais pequeno espaço de tempo possível. Sentir tudo de todas as maneiras, amar tudo de todas as formas, tocar e ver coisas e não lhes pegar, passar por elas e não olhar para trás — parece-me o único destino digno dum poeta. 1917 Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 231. Carta a Caeiro. 1ª versão: Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. A frescura de impressões, o modo directo de sentir que aprendi nos seus versos, apliquei-o a outros assuntos, a uma Natureza de ordem diversa. Assim, reparei que uma máquina é tão natural — porque é tão real, e, afinal, ser natural é ser real, se formos a pensar a fundo — como uma árvore; e uma cidade como uma aldeia. O que é essencial é sentir directamente e com ingenuidade as coisas — árvores ou máquinas, campo ou cidade. A minha sensibilidade predispõe-me a sentir a máquina mais do que a árvore, a cidade mais do que o campo. Não deixo por isso de ter direito ao nome de poeta. O essencial é sentir directa e simplesmente. Eu sinto directa e simplesmente. Sinto o complexo, o anormal e o artificial? É o meu modo de sentir. Logo que eu os sinta espontaneamente, estou no meu lugar, no lugar que a Natureza, criando-me assim, me impôs. Cumpro o meu dever. Chamam-me um «transviado». Não o sou.  [...] e não transviado de mim próprio senão transviado [...]. Nasci para sentir as coisas simplesmente, tanto como vós; mas não nasci, como vós, para sentir só as coisas simples. Se eu sou eu e não vós, para que hei-de escrever como escreveis? Escrevo como [...] em mim é eu ser eu. Em que sou eu «transviado» em ser eu? Para mim o único modo de transviar é criar um sistema, ou pertencer a um sistema. Há horas do dia em que sou materialista e outras em que sou ultramontano, completamente ultramontano. É conforme sinto. Acho isso natural. Se, como a grande maioria dos poetas, eu seguisse um caminho trilhado, se eu fosse panteísta, espiritualista, protestante, católico (...), qualquer coisa que se saiba o que é e se pode definir , eu mereceria o nome de transviado . Porque ninguém nasce pertencendo a um sistema ou a uma filosofia, nasce pertencendo a um cérebro e a um sistema nervoso, e estes têm um modo de sentir e não uma religião, ou uma estética, ou uma moral qualquer. 1917 Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 232. Carta a Caeiro. 1.Toda a arte é a sobreposição às Coisas da nossa interpretação ou ideia delas. 2.A arte real é encontrar o ponto exacto de contacto entre as coisas e a nossa interpretação delas. Podemos ver uma árvore quadrada, ou azul... 3.Precisamos determinar quais as formas exteriores que os nossos sentimentos revestem, para, pintando ou descrevendo em palavras, podermos compor um estado de espírito uno às coisas. Assim, se assentarmos em que a Esperança é verde, teremos que pintar uma paisagem que olhemos em momento de esperança acrescentando verde às cores dessa paisagem... As coisas brancas serão verdes... As coisas verdes exactamente verdes, as coisas encarnadas verde mais encarnado, as coisas azuis, verde mais azul... Assim com a forma uma sensação quadrada não só impõe à tela real uma forma quadrada, mas impõe que cada coisa tenha uma forma que seja quadrada mais a sua forma habitual, isto é, com respeito a uma árvore, por exemplo, se ela é assim [...] fazê-la assim [...] de modo a caber cada num quadrado. 1914? Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 237. As omissões no texto correspondem a dois desenhos. Se eu vir aquela árvore como toda a gente a vê, não tenho nada a dizer sobre aquela árvore. Não vi aquela árvore. É quando a árvore desencadeia em mim uma série conexa de emoções que a vejo diferente e justa. E na proporção em que essas ideias e emoções forem aceitáveis a toda a gente, e não só individuais, a árvore será A Árvore. Depois de um quarto de hora de artistas, é uma libertação trocar o privilégio das boas tardes com um carroceiro humano. 1914? Poemas Completos de Alberto Caeiro . Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. - 237. A INFLUÊNCIA DA ENGENHARIA NAS ARTES RACIONAIS (Apontamentos para uma estética não-aristotélica) Quanto piu un’ arte porta seco fatica di corpo, tanto piu è vile. Leonardo da Vinci De há muito sustento a teoria que a civilização é a criação de estímulos em excesso constantemente progressivo sobre a nossa capacidade de reacção a eles. A civilização é pois a tendência para a morte pelo desequilíbrio. A coisa mais útil que a ficção real chamada um povo pode fazer é resistir a civilizar-se por processos de civilização. Existir é não se deixar matar; ser civilizado é inventar reacções para os estímulos que excedem já a reacção possível, isto é, inventar reacções artificiais, quer dizer civilizadas, contra a própria civilização. Tudo que é vivo subsiste pelo equilíbrio de duas forças — a de integração e a de desintegração, o anabolismo e o catabolismo dos fisiologistas. A que desintegra faz viver e morrer; a que integra faz morrer e viver. Uma insiste, e outra subsiste. Até à civilização (sociedade), e na ordem biótica, e mesmo abaixo da biótica, a força que insiste é que cria, porque destrói, e destruir é transformar; a força que subsiste é que deixa criar, porque não deixa destruir, e destruir é transformar para outro. Na ordem acima da biótica — isto é, nas sociedades — inverte-se a dinâmica dos factores agentes: a tendência para subsistir é que mata, a tendência para não subsistir é que faz viver. Isto porque a sociedade é um corpo naturalmente artificial, e vive por isso segundo leis que são contrárias às leis naturais. O que faz subsistir nas sociedades? A tradição, a continuidade, a tendência para permanecer, isto é, para não viver. E a tradição, a tendência para permanecer, tem três formas — o apego ao passado, que é a tradição vulgar; o apego ao presente, que é a moda; e o apego ao futuro, que é o ideal social em que se confia. O que faz viver, isto é, não subsistir, nas sociedades ? A anti-tradição, a tendência para não permanecer. E a tendência para não permanecer tem só uma forma — o apego ao não-passado, ao não-presente, e ao não-futuro. Isto quer dizer o apego ao abstracto e ao ideal em que não se confia. Por isso a força que conserva as sociedades é a inteligência de abstracção e imaginação. A inteligência de abstracção e imaginação tem duas formas — a matemática e a crítica. A matemática abstrai de toda a experiência, excepto da essência da experiência; o único critério de verdadeira objectividade que temos é o critério de matematização. A crítica abstrai de toda a experiência excepto de ela ser nossa; o único critério de verdadeira subjectividade que temos é o da confrontação, não das nossas impressões com as coisas, mas das coisas com as nossas impressões. Deve compreender-se que entendo por crítica toda a actividade crítica: a crítica, no sentido em que emprego a palavra, inclui toda a forma de actividade que ou não aceita, ou quer substituir a objectividade da experiência. Assim, a arte é uma forma de crítica, porque fazer arte é confessar que a vida ou não presta, ou não chega. Assim, também, a parte por assim dizer dogmática da religião (não a sua parte social nem a sua parte metafísica) é uma forma de crítica, porque crer numa coisa sem ser com uma razão, embora aparente (como acontece na metafísica, que procura explicar), não sendo essa coisa um elemento da experiência (objectiva), é querer substituir essa experiência... A crítica é, em suma, todo o artifício que é feito com inteligência, e sem fim social nenhum. Desde que sirva um ideal em vez de uma impressão [?], a crítica é falsa como crítica, não é crítica, em suma, mas só opinião. 1924 Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 33. TRAPO O dia deu em chuvoso. A manhã, contudo, estava bastante azul. O dia deu em chuvoso. Desde manhã eu estava um pouco triste. Antecipação? Tristeza? Coisa nenhuma? Não sei: já ao acordar estava triste. O dia deu em chuvoso. Bem sei: a penumbra da chuva é elegante. Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante. Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? Dêem-me o céu azul e o sol visível. Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim. Hoje quero só sossego. Até amaria o lar, desde que o não tivesse. Chego a ter sono de vontade de ter sossego. Não exageremos! Tenho efectivamente sono, sem explicação. O dia deu em chuvoso. Carinhos? Afectos? São memórias... É preciso ser-se criança para os ter... Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro! O dia deu em chuvoso. Boca bonita da filha do caseiro, Polpa de fruta de um coração por comer... Quando foi isso? Não sei... No azul da manhã... O dia deu em chuvoso. 10-9-1930 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 289. 1ª publ. in Presença , nº 34. Coimbra: Fev. 1932. No lugar dos palácios desertos e em ruínas À beira do mar, Leiamos, sorrindo, os segredos das sinas De quem sabe amar. Qualquer que ele seja, o destino daqueles Que o amor levou Para a sombra, ou na luz se fez a sombra deles, Qualquer fosse o voo. Por certo eles foram mais reais e felizes. 1-3-1917 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 19. Atribuição a Campos rejeitada: Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição Crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. Não sei. Falta-me um sentido, um tacto Para a vida, para o amor, para a glória... Para que serve qualquer história, Ou qualquer facto? Estou só, só como ninguém ainda esteve, Oco dentro de mim, sem depois nem antes. Parece que passam sem ver-me os instantes, Mas passam sem que o seu passo seja leve. Começo a ler, mas cansa-me o que inda não li. Quero pensar, mas dói-me o que irei concluir. O sonho pesa-me antes de o ter. Sentir É tudo uma coisa como qualquer coisa que já vi. Não ser nada, ser uma figura de romance, Sem vida, sem morte material, uma ideia, Qualquer coisa que nada tornasse útil ou feia, Uma sombra num chão irreal, um sonho num transe. 1-3-1917 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 20. Atribuição a Campos rejeitada: Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição Crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. Se te queres matar, porque não te queres matar? Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida, Se ousasse matar-me, também me mataria... Ah, se ousares, ousa! De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas A que chamamos o mundo? A cinematografia das horas representadas Por actores de convenções e poses determinadas, O circo policromo do nosso dinamismo sem fim? De que te serve o teu mundo interior que desconheces? Talvez, matando-te, o conheças finalmente... Talvez, acabando, comeces... E de qualquer forma, se te cansa seres, Ah, cansa-te nobremente, E não cantes, como eu, a vida por bebedeira, Não saúdes como eu a morte em literatura! Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente! Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém... Sem ti correrá tudo sem ti. Talvez seja pior para outros existires que matares-te... Talvez peses mais durando, que deixando de durar... A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado De que te chorem? Descansa: pouco te chorarão... O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco, Quando não são de coisas nossas, Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte, Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros... Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda Do mistério e da falta da tua vida falada... Depois o horror do caixão visível e material, E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali. Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas, Lamentando a pena de teres morrido, E tu mera causa ocasional daquela carpidação, Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas... Muito mais morto aqui que calculas, Mesmo que estejas muito mais vivo além... Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova, E depois o princípio da morte da tua memória. Há primeiro em todos um alívio Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido... Depois a conversa aligeira-se quotidianamente, E a vida de todos os dias retoma o seu dia... Depois, lentamente esqueceste. Só és lembrado em duas datas, aniversariamente: Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste; Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada. Duas vezes no ano pensam em ti. Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram, E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti. Encara-te a frio, e encara a frio o que somos... Se queres matar-te, mata-te... Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!... Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida? Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera As seivas, e a circulação do sangue, e o amor? Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida? Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem, Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma? És importante para ti, porque é a ti que te sentes. És tudo para ti, porque para ti és o universo, E o próprio universo e os outros Satélites da tua subjectividade objectiva. És importante para ti porque só tu és importante para ti. E se és assim, ó mito, não serão os outros assim? Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido? Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces, Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial? Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida? Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente: Torna-te parte carnal da terra e das coisas! Dispersa-te, sistema físico-químico De células nocturnamente conscientes Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos, Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências, Pela relva e a erva da proliferação dos seres, Pela névoa atómica das coisas, Pelas paredes turbilhonantes Do vácuo dinâmico do mundo... 26-4-1926 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 22. Tão pouco heráldica a vida! Tão sem tronos e ouropéis quotidianos! Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida Afogai-me, ó ruído da acção, no som dos vossos oceanos! Sede abençoados, (...) carros, comboios e trens Respirar regular de fábricas, motores trementes a atroar Com vossa crónica (...) Sede abençoados, vós ocultais-me a mim... Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora Vós despis de seu murmúrio o mistério Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora Dorme em vosso embalar férreo, Levai-me para longe de eu saber que vida é que sinto Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso A vida que eu vivo — ó (...) - é a vida que me minto Só tenho aquilo que (...); só quero o que ter não posso. 1914 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 1. Faróis distantes, De luz subitamente tão acesa, De noite e ausência tão rapidamente volvida, Na noite, no convés, que consequências aflitas! Mágoa última dos despedidos, Ficção de pensar... Faróis distantes... Incerteza da vida... Voltou crescendo a luz acesa avançadamente, No acaso do olhar perdido... Faróis distantes... A vida de nada serve... Pensar na vida de nada serve... Pensar de pensar na vida de nada serve... Vamos para longe e a luz que vem grande vem menos grande. Faróis distantes... 30-4-1926 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 26. Não atribuído a Campos: Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição Crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. I Quando olho para mim não me percebo. Tenho tanto a mania de sentir Que me extravio às vezes ao sair Das próprias sensações que eu recebo. O ar que respiro, este licor que bebo Pertencem ao meu modo de existir, E eu nunca sei como hei-de concluir As sensações que a meu pesar concebo. Nem nunca, propriamente, reparei Se na verdade sinto o que sinto. Eu Serei tal qual pareço em mim? serei Tal qual me julgo verdadeiramente? Mesmo ante às sensações sou um pouco ateu, Nem sei bem se sou eu quem em mim sente. Lisboa, (uns seis a sete meses antes do Opiário) Agosto 1913 1915 “Três Sonetos” Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 2. O florir do encontro casual Dos que hão sempre de ficar estranhos... O único olhar sem interesse recebido no acaso Da estrangeira rápida... O olhar de interesse da criança trazida pela mão Da mãe distraída... As palavras de episódio trocadas Com o viajante episódico Na episódica viagem... Grandes mágoas de todas as coisas serem bocados... Caminho sem fim... 30-4-1926 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 27. II A Praça da Figueira de manhã, Quando o dia é de sol (como acontece Sempre em Lisboa), nunca em mim esquece, Embora seja uma memória vã. Há tanta coisa mais interessante Que aquele lugar lógico e plebeu, Mas amo aquilo, mesmo aqui... Sei eu Porque o amo? Não importa nada. Adiante... Isto de sensações só vale a pena Se a gente se não põe a olhar p’ra elas. Nenhuma d'elas em mim é serena... De resto, nada em mim é certo e está De acordo comigo próprio. As horas belas São as dos outros, ou as que não há. Londres (uns cinco meses antes do Opiário) Outubro 1913 1915 “Três Sonetos” Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 2. Nas praças vindouras — talvez as mesmas que as nossas — Que elixires serão apregoados? Com rótulos diferentes, os mesmos do Egipto dos Faraós; Com outros processos de os fazer comprar, os que já são nossos. E as metafísicas perdidas nos cantos dos cafés de toda a parte, As filosofias solitárias de tanta trapeira de falhado, As ideias casuais de tanto casual, as intuições de tanto ninguém — Um dia talvez, em fluido abstracto, e substância implausível, Formem um deus, e ocupem o mundo. Mas a mim, hoje, a mim Não há sossego de pensar nas propriedades das coisas, Nos destinos que não desvendo, Na minha própria metafísica, que tenho porque penso e sinto Não há sossego, E os grandes montes ao sol têm-no tão nitidamente! Têm-no? Os montes ao sol não têm coisa nenhuma do espírito. Não seriam montes, não estariam ao sol, se o tivessem. O cansaço de pensar, indo até ao fundo de existir, Faz-me velho desde antes de ontem com um frio até no corpo. O que é feito dos propósitos perdidos, e dos sonhos impossíveis? E porque é que há propósitos mortos e sonhos sem razão? Nos dias de chuva lenta, contínua, monótona, uma, Custa-me levantar-me da cadeira onde não dei por me ter sentado, E o universo é absolutamente oco em torno de mim. O tédio que chega a constituir nossos ossos encharcou-me o ser, E a memória de qualquer coisa de que me não lembro esfria-me a alma. Sem dúvida que as ilhas dos mares do sul têm possibilidades para o sonho, E que os areais dos desertos todos compensam um pouco a imaginação; Mas no meu coração sem mares nem desertos nem ilhas sinto eu, Na minha alma vazia estou, E narro-me prolixamente sem sentido, como se um parvo estivesse com febre. Fúria fria do destino, Intersecção de tudo, Confusão das coisas com as suas causas e os seus efeitos, Consequência de ter corpo e alma, E o som da chuva chega até eu ser, e é escuro. 3-2-1927 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 28. III Olha, Daisy, quando eu morrer tu hás-de Dizer aos meus amigos ai de Londres, Que embora não o sintas, tu escondes A grande dor da minha morte. Irás de Londres p’ra York, onde nasceste (dizes — Que eu nada que tu digas acredito...) Contar àquele pobre rapazito Que me deu tantas horas tão felizes (Embora não o saibas) que morri. Mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar, Nada se importará. Depois vai dar A notícia a essa estranha Cecily Que acreditava que eu seria grande... Raios partam a vida e quem lá ande!... (A bordo do navio em que embarcou para o Oriente; uns quatro meses antes do Opiário, portanto) Dezembro 1913 1915 “Três Sonetos” Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 2. 1ª publ. com o título “Soneto Já Antigo” in Contemporânea, nº 6. Lisboa: Dez. 1922. Mestre, meu mestre querido! Coração do meu corpo intelectual e inteiro! Vida da origem da minha inspiração! Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida? Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada. Alma abstracta e visual até aos ossos, Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo, Refúgio das saudades de todos os deuses antigos, Espírito humano da terra materna, Flor acima do dilúvio da inteligência subjectiva... Mestre, meu mestre! Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos, Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser, Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos, Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim! Meu mestre e meu guia! A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou, Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente, Natural como um dia mostrando tudo, Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade. Meu coração não aprendeu nada. Meu coração não é nada, Meu coração está perdido. Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu. Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi! Depois tudo é cansaço neste mundo subjectivado, Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas, Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas, Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente. Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento Pela indiferença de toda a vila. Depois, tenho sido como as ervas arrancadas, Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido. Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça, E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém Depois, mas porque é que ensinaste a clareza da vista, Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara? Porque é que me chamaste para o alto dos montes Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar? Porque é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela Como quem está carregado de ouro num deserto, Ou canta com voz divina entre ruínas? Porque é que me acordaste para a sensação e a nova alma, Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha? Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele Poeta decadente, estupidamente pretensioso, Que poderia ao menos vir a agradar, E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver. Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano! Feliz o homem marçano, Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada. Que tem a sua vida usual, Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio. Que dorme sono, Que come comida, Que bebe bebida, e por isso tem alegria. A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação. Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo. Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dormir. 15-4-1928 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 31. VIAGEM Sonhar um sonho é perder outro. Tristonho Fito a ponte pesada e calma... Cada sonho é um existir de outro sonho Ó eterna desterrada em ti própria, ó minha alma! Sinto em meu corpo mais conscientemente O rodar estremecido do comboio. Pára?... Com um como que intento intermitente De (...) mal-roda, estaca. Numa estação, clara De realidade e gente e movimento. Olho p'ra fora... Cesso. Estagno em mim. Resfolgar da máquina... Carícia de vento Pela janela que se abre... Estou desatento... Parar... seguir... parar... Isto é sem fim Ó o horror da chegada! Ó horror. Ó nunca chegares, ó ferro em trémulo seguir! À margem da viagem prossegue... Trunca A realidade, passa ao lado do ir E pelo lado interior da Hora Foge, usa a eternidade, vive... Sobrevive ao momento (...) vai! Suavemente... suavemente, mais suavemente e demora (...) entra na gare... Range-se... estaca... É agora! Tudo o que fui de sonho, o eu-outro que tive Resvala-me pela alma... Negro declive Resvala, some-se, para sempre se esvai E da minha consciência um Eu que não obtive Dentro em mim de mim cai. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 4. Na noite terrível, substância natural de todas as noites, Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites, Relembro, velando em modorra incómoda, Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida. Relembro, e uma angústia Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo. O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver! Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão. Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte. Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures, Na ilusão do espaço e do tempo, Na falsidade do decorrer. Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei; O que só agora vejo que deveria ter feito, O que só agora claramente vejo que deveria ter sido — Isso é que é morto para além de todos os Deuses, Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver... Se em certa altura Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita; Se em certo momento Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim; Se em certa conversa Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro — Se tudo isso tivesse sido assim, Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro Seria insensivelmente levado a ser outro também. Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido, Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo; Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse; Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas, Claras, inevitáveis, naturais, A conversa fechada concludentemente, A matéria toda resolvida... Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói. O que falhei deveras não tem esperança nenhuma Em sistema metafísico nenhum. Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei. Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar? Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver. Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos. Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca Como uma verdade de que não partilho, E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p’ra mim. 11-5-1928 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 34. Lentidão dos vapores pelo mar... Tanto que ver, tanto que abarcar. No eterno presente da pupila Ilhas ao longe, costas a despontar Na imensidão oceânica e tranquila. Mais depressa... Sigamos... Hoje é o real... O momento embriaga... A alma esquece Que existe no mover-se... Cais, carnal... Para os botes no cais quem é que desce? Que importa? Vamos! Tudo é tão real! Quantas vidas que ignoro que me ignoram! Passo por casas, fumo em chaminés Interiores que adivinho! Choram Em mim desejos lívidos resvés Do tédio de ser isto aqui, e ali Outro não-eu... Sigamos... Outras terras! Quantas paisagens vivi! Planícies! mares! serras Ao longe! Pareceis com tanta curva, Pinheirais! Igualdade das culturas! Dias monótonos de chuva... Noites de lua nova — canto de ruelas escuras Antros... Dias de sol — de agasalho De que o olhar abrasa e amodorrado Mal tem espaço para desejar... Campos cheios de vultos em trabalho À sombra de um carvalho ali isolado — Ah e eu passo! — um mendigo a descansar. O longe! O além! O outro! A rota! Ir! Ir absolutamente! ir entregadamente Ir sem mais consciência de sentir Que tem um suicida na corrente Que passa a dor da morte na água a rir. Sonho-desolação! Ó meu desejo e tédio das viagens, Cansado anseio do meu coração — Cidades, brumas, margens De rios desejadas para     olhar... Costa triste, ermo mar Barulhando segredos, Negrume cortiçado dos rochedos D'onde pulsa chiando a espuma na água — — Frio pela consciência dos meus nervos — De não estar eu a ver-vos, ódio-mágoa! Ó Tédio! só pensar estar a ver-vos... Gozo gloriosamente estéril e oco De encher de memórias de cidades, De campos fugitivos, feitos pouco Na fuga do comboio — sociedades Só pensadas de velha bancarrota Surpresas no olhar sobre colinas, Rios sob pontes, águas instantâneas Grandes cidades através neblinas Fábricas — fumo e fragor — sonhos insónias... Mares súbitos, através carruagens Vistos por meu olhar sempre cansado Tudo isto cansa, só de imaginado Tenho em minha alma o tédio das viagens Que quero eu ser? Eu que desejo querer? Feche eu os olhos, e o comboio seja Apenas um estremecimento a [encher?] Meu corpo inerte, meu cérebro que nada deseja E já não quer saber o que é viver... Minuto exterior pulsando em mim Minuciosamente, entreondulando Numa oscilada indecisão sem fim Meu corpo inerte... Sigo, recostando Minha cabeça no vidro que me treme De encontro à consciência o meu ser todo; Para quê viajar? O tédio vai ao leme De cada meu angustiado modo. Por entre árvores — fumo... Ó domésticos (...) escondidos! Ó tédio... Ó dor... O vago é o meu rumo. Viajo só pelos meus sentidos Dói-me a monotonia dessa viagem... Peso-me... Entreolho sem me levantar Estações (...) ... [Campolides?]... Reagem Inutilmente em mim desejos de gozar... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 73. Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra, Ao luar e ao sonho, na estrada deserta, Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça, Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo, Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter, Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir? Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa, Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa. Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência, Sempre, sempre, sempre, Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma, Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida... Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante, Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram. Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita. Em quantas coisas que me emprestaram guio como minhas! Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou! À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada. À direita o campo aberto, com a lua ao longe. O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade, É agora uma coisa onde estou fechado, Que só posso conduzir se nele estiver fechado, Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim. À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto. A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha. Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz. Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real. Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha No pavimento térreo, Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga, E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi. Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa? Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio? Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite, Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente, Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço, E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível, Acelero... Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo, À porta do casebre, O meu coração vazio, O meu coração insatisfeito, O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida. Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante, Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação, Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra, Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim... 11-5-1928 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 37. CARNAVAL A vida é uma tremenda bebedeira. Eu nunca tiro dela outra impressão. Passo nas ruas, tenho a sensação De um carnaval cheio de cor e poeira... A cada hora tenho a dolorosa Sensação, agradável todavia, De ir aos encontrões atrás da alegria Duma plebe farsante e copiosa... Cada momento é um carnaval imenso Em que ando misturado sem querer. Se penso nisto maça-me viver E eu, que amo a intensidade, acho isto intenso De mais... Balbúrdia que entra pela cabeça Dentro a quem quer parar um só momento Em ver onde é que tem o pensamento Antes que o ser e a lucidez lhe esqueça... Automóveis, veículos, (...) As ruas cheias, (...) Fitas de cinema correndo sempre E nunca tendo um sentido preciso. Julgo-me bêbado, sinto-me confuso, Cambaleio nas minhas sensações, Sinto uma súbita falta de corrimões No pleno dia da cidade (...) Uma pândega esta existência toda... Que embrulhada se mete por mim dentro E sempre em mim desloca o crente centro Do meu psiquismo, que anda sempre à roda... E contudo eu estou como ninguém De amoroso acordo com isto tudo... Não encontro em mim, quando me estudo, Diferença entre mim e isto que tem Esta balbúrdia de carnaval tolo, Esta mistura de europeu e zulu Este batuque tremendo e chulo E elegantemente em desconsolo... Que tipos! Que agradáveis e antipáticos! Como eu sou deles com um nojo a eles! O mesmo tom europeu em nossas peles E o mesmo ar conjuga-nos Tenho às vezes o tédio de ser eu Com esta forma de hoje e estas maneiras... Gasto inúteis horas inteiras A descobrir quem sou; e nunca deu Resultado a pesquisa... Se há um plano Que eu forme, na vida que talho para mim Antes que eu chegue desse plano ao fim Já estou como antes fora dele. É engano A gente ter confiança em quem tem ser... (...) Olho p'ró tipo como eu que ai vem... (...) Como se veste (...) bem Porque é uma necessidade que ele tem Sem que ele tenha essa necessidade. Ah, tudo isto é para dizer apenas Que não estou bem na vida, e quero ir Para um lugar mais sossegado, ouvir Correr os rios e não ter mais penas. Sim, estou farto do corpo e da alma Que esse corpo contém, ou é, ou faz-se... Cada momento é um corpo no que nasce... Mas o que importa é que não tenho calma. Não tenciono escrever outro poema Tenciono só dizer que me aborreço. A hora a hora minha vida meço E acho-a um lamentável estratagema De Deus para com o bocado de matéria Que resolveu tomar para meu corpo... Todo o conteúdo de mim é porco E de uma chatíssima miséria. Só é decente ser outra pessoa Mas isso é porque a gente a vê por fora... Qualquer coisa em mim parece agora s.d. “Carnaval” Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 7a. É Carnaval, e estão as ruas cheias De gente que conserva a sensação, Tenho intenções, pensamento, ideias, Mas não posso ter máscara nem pão. Esta gente é igual, eu sou diverso — Mesmo entre os poetas não me aceitariam. Às vezes nem sequer ponho isto em verso — E o que digo, eles nunca assim diriam. Que pouca gente a muita gente aqui! Estou cansado, com cérebro e cansaço. Vejo isto, e fico, extremamente aqui Sozinho com o tempo e com o espaço. Detrás de máscaras nosso ser espreita, Detrás de bocas um mistério acode Que meus versos anódinos enjeita. Sou maior ou menor? Com mãos e pés E boca falo e mexo-me no mundo. Hoje, que todos são máscaras, és Um ser máscara-gestos, em tão fundo... s.d. “Carnaval”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 7b. CARNAVAL 3 (...) não tenho compartimentos estanques Para os meus sentimentos e emoções... Vidas, realmente se misturam O que era cérebro acaba sentimento Minha unidade morre ao relento (...) Quando quero pensar, sinto, não sei Se me sinto quem sou e queria. Psique de fora da psicologia, Vivo fora da (...) e da lei Amorfo anexo ao mundo exterior Reproduzindo tudo o que nele há Sem que em meu ser qualquer ser meu me vá Compensar pessoalmente a minha dor. Não: sempre as dores doutra gente que é eu (Sempre alegrias de várias pessoas) [...] Sempre de um centro diferente e meu Carnaval de (...) Bebendo p'ra se sentir alegres e outros Outros bebendo como eles (...) se sentem Tendo de ser alegres (...) Dêem-me um sentir que cansa e é bom e cessa Prendam-me para que eu não faça mais versos Façam [ad finem?] com que o sentir cesse Proíbam-me pensar com a cabeça. Dói-me a vida em todos os meus poros Estala-me na cabeça o coração, (...) Para que escrevo? É uma pura perda. (...) Depois. [...] Se escrevo o que sinto [...]. Bom. Merda. Pronto. Acabou-se. Quebro a pena e a tinta Entorno-a aqui só para a entornar... Não haver vida que se possa DAR! Não haver alma com que não se sinta! Não haver como essa alma consertar-me Com cordéis ou arames que se aguentem Com ferros e madeiras que não mentem E me dêem unidade no aguentar-me! Não haver (...) Não haver, não [...] Não haver. Não Haver! s.d. “Carnaval”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 7c. ULTIMATUM de Álvaro de Campos Mandado de despejo aos mandarins da Europa! Fora. Fora tu , Anatole France , Epicuro de farmacopeia homeopática, tenia-Jaurès do Ancien Régime, salada de Renan-Flaubert em loiça do século dezassete, falsificada! Fora tu, Maurice Barrès, feminista da Acção, Châteaubriand de paredes nuas, alcoviteiro de palco da pátria de cartaz, bolor da Lorena, algibebe dos mortos dos outros, vestindo do seu comércio ! Fora tu, Bourget das almas, lamparineiro das partículas alheias, psicólogo de tampa de brasão, reles snob plebeu, sublinhando a régua de lascas os mandamentos da lei da Igreja! Fora tu, mercadoria Kipling, homem-prático do verso, imperialista das sucatas, épico para Majuba e Colenso, Empire-Day do calão das fardas, tramp-steamer da baixa imortalidade ! Fora ! Fora ! Fora tu, George Bernard Shaw, vegeteriano do paradoxo, charlatão da sinceridade, tumor frio do ibsenismo, arranjista da intelectualidade inesperada, Kilkenny-Cat de ti próprio, Irish Melody calvinista com letra da Origem das Espécies! Fora tu, H. G. Wells, ideativo de gesso, saca-rolhas de papelão para a garrafa da Complexidade ! Fora tu, G. K. Chesterton, cristianismo para uso de prestidigitadores, barril de cerveja ao pé do altar, adiposidade da dialéctica cockney com o horror ao sabão influindo na limpeza dos raciocínios ! Fora tu, Yeats da céltica bruma à roda de poste sem indicações, saco de podres que veio à praia do naufrágio do simbolismo inglês! Fora ! Fora ! Fora tu, Rapagnetta-Annunzio, banalidade em caracteres gregos, «D. Juan em Patmos» (solo de trombone)! E tu, Maeterlinck, fogão do Mistério apagado! E tu, Loti, sopa salgada, fria! E finalmente tu, Rostand-tand-tand-tand-tand-tand-tand-tand! Fora! Fora! Fora! E se houver outros que faltem, procurem-nos aí para um canto! Tirem isso tudo da minha frente! Fora com isso tudo! Fora! Aí ! Que fazes tu na celebridade, Guilherme Segundo da Alemanha, canhoto maneta do braço esquerdo, Bismarck sem tampa a estorvar o lume ?! Quem és tu, tu da juba socialista, David Lloyd George, bobo de barrete frígio feito de Union Jacks?! E tu, Venizelos, fatia de Péricles com manteiga, caída no chão de manteiga para baixo?! E tu, qualquer outro, todos os outros, açorda Briand-Dato-Boselli da incompetência ante os factos, todos os estadistas pão-de-guerra que datam de muito antes da guerra! Todos! todos! todos! Lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual! E todos os chefes de estado, incompetentes ao léu, barris de lixo virados pra baixo à porta da Insuficiência da Época! Tirem isso tudo da minha frente! Arranjem feixes de palha e ponham-nos a fingir gente que seja outra! Tudo daqui para fora! Tudo daqui para fora! Ultimatum a eles todos, e a todos os outros que sejam como eles todos! Se não querem sair, fiquem e lavem-se ! Falência geral de tudo por causa de todos ! Falência geral de todos por causa de tudo ! Falência dos povos e dos destinos — falência total ! Desfile das nações para o meu Desprezo! Tu, ambição italiana, cão de colo chamado César! Tu, «esforço francês», galo depenado com a pele pintada de penas! (Não lhe dêem muita corda senão parte-se!) Tu organização britânica, com Kitchener no fundo do mar desde o princípio da guerra! (It's a long, long way to Tipperary, and a jolly sight longer way to Berlin !) Tu, cultura alemã, Esparta podre com azeite de cristianismo e vinagre de nietzschização, colmeia de lata, transbordeamento imperialóide de servilismo engatado! Tu, Áustria-súbdita, mistura de sub-raças, batente de porta tipo K! Tu, Von Bélgica, heróica à força, limpa a mão à parede que foste! Tu, escravatura russa, Europa de malaios, libertação de mola desoprimida porque se partiu! Tu, «imperialimo» espanhol, salero em política, com toureiros de sambenito nas almas ao voltar da esquina e qualidades guerreiras enterradas em Marrocos ! Tu, Estados Unidos da America, síntese-bastardia da baixa-Europa, alho da aÁorda transatlântica, pronúncia nasal do modernismo inestético! E tu, Portugal-centavos, resto de Monarquia a apodrecer República, extrema-unção-enxovalho da Desgraça, colaboração artificial na guerra com vergonhas naturais em África! E tu, Brasil «república irmã», blague de Pedro Álvares Cabral, que nem te queria descobrir! Ponham-me um pano por cima de .tudo isso! Fechem-me isso à chave e deitem a chave fora! Onde estão os antigos, as forças, os homens, os guias, os guardas? Vão aos cemitérios, que hoje são só nomes nas lápides! Agora a filosophia é o ter morrido Fouillée! Agora a arte é o ter ficado Rodin! Agora a literatura é Barrès significar! Agora a crítica é haver bestas que não chamam besta ao Bourget! Agora a política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência! Agora a religião é o catolicismo militante dos taberneiros da fé, o entusiasmo cozinha-franceza dos Maurras de razão-descascada, é a espectaculite dos pragmatistas cristãos, dos intuicionistas católicos, dos ritualistas nirvânicos, angariadores de anúncios para Deus ! Agora é a guerra, jogo do empurra do lado de cá e jogo de porta do lado de lá! Sufoco de ter só isto à minha volta! Deixem-me respirar! Abram todas as janelas ! Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo! Nenhuma ideia grande, ou noção completa ou ambição imperial de imperador-nato! Nenhuma ideia de uma estrutura, nenhum senso do Edifício, nenhuma ânsia do Orgânico-Criado! Nem um pequeno Pitt, nem um Goethe de cartão, nem um Napoleão de Nürnberg! Nem uma corrente literária que seja sequer a sombra do romantismo ao meio-dia! Nem um impulso militar que tenha sequer o vago cheiro de um Austerlitz! Nem uma corrente política que soe a uma ideia-grão, chocalhando-a, ó Caios Grachos de tamborilar na vidraça! Época vil dos secundários, dos aproximados, dos lacaios com aspirações de lacaios a reis-lacaios! Lacaios que não sabeis ter a Aspiração, burgueses do Desejo, transviados do balcão instintivo! Sim, todos vós que representais a Europa, todos vós que sois políticos em evidência em todo o mundo, que sois literatos meneurs de correntes europeias, que sois qualquer coisa a qualquer coisa neste maelström de chá-morno! Homens-altos de Lilliput-Europa, passai por baixo do meu Desprezo ! Passai vós, ambiciosos do luxo quotidiano, anseios de costureiras dos dois sexos, vós cujo tipo é o plebeu Annunzio, aristocrata de tanga de ouro! Passai vós, que sois autores de correntes artísticas, verso da medalha da impotência de criar! Passai, frouxos que tendes a necessidade de serdes os istas de qualquer ismo! Passai, radicais do Pouco, incultos do Avanço, que tendes a ignorância por coluna da audácia, que tendes a impotência por esteio das neo-teorias! Passai, gigantes de formigueiro, ébrios da vossa personalidade de filhos de burguês, com a mania da grande-vida roubada na dispensa paterna e a hereditariedade indesentranhada dos nervos! Passai, mistos; passai, débeis que só cantais a debilidade; passai, ultra-débeis que cantais só a força, burgueses pasmados ante o atleta de feira que quereis criar na vossa indecisão febril ! Passai, esterco epileptóide sem grandezas, histerialixo dos espectáculos, senilidade social do conceito individual de juventude! Passai, bolor do Novo, mercadoria em mau estado desde o cérebro de origem! Passai à esquerda do meu Desdém virado à direita, criadores de «sistemas filosóficos», Boutroux, Bergsons, Euckens, hospitais para religiosos incuráveis, pragmatistas do jornalismo metafísico, lazzaroni da construção meditada! Passai e não volteis, burgueses da Europa-Total, párias da ambição do parecer-grandes, provincianos de Paris! Passai, decigramas da Ambição, grandes só numa época que conta a grandeza por centimiligramas! Passai, provisórios, quotidianos, artistas e políticos estilo lightning-lunch, servos empoleirados da Hora, trintanários da Ocasião! Passai, «finas sensibilidades» pela falta de espinha dorsal; passai, construtores de café e conferência, monte de tijolos com pretensões a casa! Passai, cerebrais dos arrabaldes, intensos de esquina-de-rua! Inútil luxo, passai, vã grandeza ao alcance de todos, megalomonia triunfante do aldeão de Europa-aldeia! Vós que confundis o humano com o popular, e o aristocrático com o fidalgo! Vós que confundis tudo, que, quando não pensais nada, dizeis sempre outra coisa! Chocalhos, incompletos, maravalhas, passai! Passai, pretendentes a reis parciais, lords de serradura, senhores feudais do Castelo de Papelão! Passai, romantismo póstumo dos liberalões de toda a parte, classicismo em álcool dos fetos de Racine, dinamismo dos Whitmans de degrau de porta, dos pedintes da inspiração forçada, cabeças ocas que fazem barulho porque vão bater com elas nas paredes! Passai, cultores do hipnotismo em casa, dominadores da vizinha do lado, caserneiros da Disciplina que não custa nem cria ! Passai, tradicionalistas auto-convencidos, anarquistas deveras sinceros, socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar! Rotineiros da revolução, passai! Passai eugenistas, organizadores de uma vida de lata, prussianos da biologia aplicada, neo-mendelianos da incompreensão sociológica! Passai, vegeterianos, teetotalers, calvinistas dos outros, kill-joys do imperialismo de sobejo! Passai, amanuenses do «vivre sa vie» de botequim extremamente de esquina, ibsenóides Bernstein-Bataille do homem forte de sala de palco! Tango de pretos, fosses tu ao menos minuete! Passai, absolutamente, passai! Vem tu finalmente ao meu Asco, roça-se tu finalmente contra as solas do meu Desdém, grand finale dos parvos, conflagração-escárneo, fogo em pequeno monte de estrume, síntese dinâmica do estatismo ingénito da Época! Roça-te tu e rojate, impotência a fazer barulho! Roça-te, canhões declamando a incapacidade de mais ambição que balas, de mais inteligência que bombas! Que esta é a equação-lama da infâmia do cosmopolitismo de tiros: JONNART BÉLGICA VON BISSING GRÉCIA Proclamem bem alto que ninguém combate pela liberdade ou pelo Direito!Todos combatem por medo dos outros ! Não tem mais metros que estes milímetros a estatura das suas direcções! Lixo guerreiro-palavroso! Esterco Joffre-Hindenburguesco! Sentina europeia de Os Mesmos em excisão balofa! Quem acredita neles? Quem acredita nos outros? Façam a barba aos poilus! Descasquetem o rebanho inteiro! Mandem isso tudo pra casa descascar batatas simbólicas! Lavem essa celha de mixórdia inconsciente! Atrelem uma locomotiva a essa guerra! Ponham uma coleira a isso e vão exibi-lo para a Austrália! Homens, nações, intuitos, está tudo nulo! Falência de tudo por causa de todos! Falência de todos por causa de tudo! De um modo completo, de um modo total, de um modo integral: MERDA! A Europa tem sede de que se crie, tem fome de Futuro ! A Europa quer grandes Poetas, quer grandes Estadistas, quer grandes Generais ! Quer o Político que construa conscientemente os destinos inconscientes do seu povo ! Quer o Poeta que busque a Imortalidade ardentemente, e não se importe com a fama, que é para as actrizes e para os produtos farmacêuticos! Quer o General que combata pelo Triunfo Construtivo, não pela vitória em que apenas se derrotam os outros! A Europa quer muito destes Políticos, muitos destes Poetas, muitos destes Generais! A Europa quer a Grande Ideia que esteja por dentro destes Homens Fortes — a ideia que seja o Nome da sua riqueza anónima! A Europa quer a Inteligência Nova que seja a Forma da sua Mateira caótica! Quer a Vontade Nova que faça um Edifício com as pedras-ao-acaso do que é hoje a Vida! Quer a sensibilidade Nova que reúna de dentro os egoísmos dos lacaios da Hora! A Europa quer Donos! O Mundo quer a Europa! A Europa está farta de não existir ainda ! Está farta de ser apenas o arrabalde de si-própria ! A Era das Máquinas procura, tacteando, a vinda da Grande Humanidade! A Europa anseia, ao menos, por Teóricos de O-que-será, por Cantores-Videntes do seu Futuro! Dai Homeros À Era das Máquinas, ó Destinos científicos! Dai Miltons à época das Coisas Eléctricas, ó Deuses interiores à Matéria! Dai-nos Possuidores de si-próprios, Fortes Completos, Harmónicos Subtis! A Europa quer passar de designação geográfica a pessoa civilizada ! O que aí está a apodrecer a Vida, quando muito é estrume para o Futuro! O que aí está não pode durar, porque não é nada! Eu, da Raça dos Navegadores, afirmo que não pode durar! Eu, da Raça dos Descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um Novo Mundo! Quem há na Europa que ao menos suspeite de que lado fica o Novo Mundo agora a descobrir? Quem sabe estar em um Sagres qualquer? Eu, ao menos, sou uma grande Ânsia, do tamanho exacto do Possível! Eu, ao menos sou da estatura da Ambição Imperfeita, mas da Ambição para Senhores, não para escravos! Ergo-me ante, o sol que desce, e a sombra do meu Desprezo anoitece em vós! Eu, ao menos, sou bastante para indicar o Caminho! Vou indicar o caminho! ATENÇÃO! Proclamo, em primeiro lugar, A Lei de Malthus da Sensibilidade Os estímulos da sensibilidade aumentam em progressão geométrica; a própria sensibilidade apenas em progressão aritmética. Compreende-se a importância desta lei. A sensibilidade — tomada aqui no mais amplo dos seus sentidos possíveis — é a fonte de toda a criação civilizada. Mas essa criação só pode dar-se completamente quando essa sensibilidade esteja adaptada ao meio em que funciona; na proporção da adaptação da sensibilidade ao meio está a grandeza e a força da obra resultante. Ora a sensibilidade, embora varie um pouco pela influência insistente do meio actual, é, nas suas linhas gerais, constante, e determinada no mesmo indivíduo desde a sua nascença, função do temperamento que a hereditariedade lhe infixou. A sensibilidade, portanto, progride por gerações. As criações da civilização, que constituem o «meio» da sensibilidade, são a cultura, o progresso científico, a alteração nas condições políticas (dando à expressão um sentido completo); ora estes ó e sobretudo o progresso cultural e científico, uma vez começado — progridem não por obra de gerações, mas pela interacção e sobreposição da obra de indivíduos, e, embora lentamente a princípio, breve progridem ao ponto de tomarem proporções em que, de geração a geração, centenas de alterações se dão nestes novos estímulos da sensibilidade, ao passo que a sensibilidade deu; ao mesmo tempo, só um avanço, que é o de uma geração, porque o pai não transmite ao filho senão uma pequena parte das qualidades adquiridas. Temos, pois, que a uma certa altura da civilização há de haver uma desadaptação da sensibilidade ao meio, que consiste dos seus estímulos — uma falência portanto. Dá-se isso na nossa época, cuja incapacidade de criar grandes valores deriva dessa desadaptação. A desadaptação não foi grande no primeiro período da nossa civilização, da Renascença ao século XVIII, em que os estímulos da sensibilidade eram sobretudo de ordem cultural, porque esses estímulos, por sua própria natureza, eram de progresso lento, e atingiam a princípio apenas as camadas superiores da sociedade. Acentuou-se a desadaptação no segundo período, que parte da Revolução para o século XIX, e em que os estímulos são já sobretudo políticos, onde a progressão é facilmente maior e o alcance do estímulo muito mais vasto. Cresceu a desadaptação vertiginosamente no período desde meados do século XIX à nossa época, em que o estímulo, sendo as criações da ciência, produz já uma rapidez de desenvolvimento que deixa atrás os progressos da sensibilidade, e, nas aplicações práticas da ciência, atinge toda a sociedade. Assim se chega à enorme desproporção entre o termo presente da progressão geométrica dos estímulos da sensibilidade e o termo correspondente da progressão aritmética da própria sensibilidade. Daí a desadaptação, a incapacidade criativa da nossa época. Temos, portanto, um dilema: ou morte da civilização, ou adaptação artificial, visto que a natural, a instinctiva faliu. Para que a civilização não morra, proclamo, portanto em segundo lugar, A Necessidade da Adaptação Artificial O que é a adaptação artificial? É um acto de cirurgia sociológica. É a transformação violenta da sensibilidade de modo a tornar-se apta a acompanhar pelo menos por algum tempo, a progressão dos seus estímulos. A sensibilidade chegou a um estado mórbido, porque se desadaptou. Não há que pensar em curá-la. Não há curas sociais. Há que pensar em operá-la para que ela possa continuar a viver. Isto é, temos que substituir a morbidez natural da desadaptação pela sanidade artificial feita pela intervenção cirúrgica, embora envolva uma mutilação. O que é que é preciso eliminar do psiquismo contemporâneo? Evidentemente que é aquilo que seja a aquisição fixa mais recente no espírito — isto é, aquela aquisição geral do espírito humano civilizado que seja anterior ao estabelecimento da nossa civilização, mas recentemente anterior; e isto por três razões: (a) porque, por ser a mais recente das fixações psíquicas, é a menos difícil de eliminar; (b) porque, visto que cada civilização se forma por uma reacção contra a anterior, são os princípios da anterior que são os mais antagónicos à actual e que mais impedem a sua adaptação às condições especiais que durante esta apareçam; (c) porque, sendo a aquisição fixa mais recente, a sua eliminação não ferirá tão fundo a sensibilidade geral como o faria a eliminação, ou a pretensão de eliminar, qualquer fundo depósito psíquico. Qual é a ultima aquisição fixa do espírito humano geral? Deve ser composta de dogmas do cristianismo, porque a Idade Média, vigência plena daquele sistema religioso, precede imediatamente e duradouramente, a eclosão da nossa civilização, e os princípios cristãos são contraditados pelos firmes ensinamentos da ciência moderna. A adaptação artificial será portanto espontanente feita desde que se faça uma eliminação das aquisições fixas do espírito humano, que derivam da sua mergência no cristianismo. Proclamo, por isso, em terceiro lugar, A intervenção cirúrgica anti-cristã Resolve-se ela, como é de ver, na eliminação dos três preconceitos, dogmas, ou atitudes, que o cristianismo fez que se infiltrassem na própria substância da psique humana. Explicação concreta: 1. — Abolição do dogma da personalidade — isto é, de que temos uma Personalidade «separada» das dos outros. É uma ficção teológica. A personalidade de cada um de nós é composta (como o sabe a psicologia moderna, sobretudo desde a maior atenção dada à sociologia) do cruzamento social com as «personalidades» dos outros, da imersão em correntes e direcções sociais e da fixação de vincos hereditários, oriundos, em grande parte, de fenómenos de ordem colectiva. Isto é, no presente, no futuro, e no passado, somos parte dos outros, e eles parte de nós. Para o auto-sentimento cristão, o homem mais perfeito é o que com mais verdade possa dizer «eu sou eu»; para a ciência, o homem mais perfeito é o que com mais justiça possa dizer «eu sou todos os outros». Devemos pois operar a alma, de modo a abri-la à consciência da sua interpenetração com as almas alheias obtendo assim uma aproximação concretizada do Homem-Completo, do Homem-Síntese da Humanidade. Resultados desta operacão: (a) Em política: Abolição total do conceito de democracia, conforme a Revolução Francesa, pelo qual dois homens correm mais que um homem só, o que é falso, porque um homem que vale por dois é que corre mais que um homem só! Um mais um não são mais do que um, enquanto um e um não formam aquele Um a que se chama Dois. — Substituição, portanto, à Democracia, da Ditadura do Completo, do Homem que seja, em si-próprio, o maior número de Outros; que seja, portanto, A Maioria. Encontra-se assim o Grande Sentido da Democracia, contrário em absoluto ao da actual, que, aliás, nunca existiu. (b) Em arte: Abolição total do conceito de que cada indivíduo tem o direito ou o dever de exprimir o que sente. Só tem o direito ou o dever de exprimir o que sente, em arte, o indivíduo que sente por vários. Não confundir com «a expressão da Época», que é buscada pelos indivíduos que nem sabem sentir por si-próprios. O que é preciso é o artista que sinta por um certo número de Outros, todos diferentes uns dos outros, uns do passado, outros do presente, outros do futuro. O artista cuja arte seja uma Síntese-Soma, e não uma Síntese-Subtracção dos outros de si, como a arte dos actuais. (c) Em filosofia: Abolição do conceito de verdade absoluta. Criação da Super-Filosofia. O filósofo passará a ser o interpretador de subjectividades entrecruzadas, sendo o maior filósofo o que maior número de filosofias espontâneas alheias concentrar. Como tudo é subjectivo, cada opinião é verdadeira para cada homem: a maior verdade será a soma-síntese-interior do maior número destas opiniões verdadeiras que se contradizem umas às outras. 2. — Abolição do preconceito da individualidade. — É outra ficção teológica — a de que a alma de cada um é una e indivisível. A ciência ensina, ao contrário, que cada um de nós é um agrupamento de psiquismos subsidiários, uma síntese malfeita de almas celulares. Para o auto-sentimento cristão, o homem mais perfeito é o mais coerente consigo próprio; para o homem de ciência, o mais perfeito é o mais incoerente consigo próprio, Resultados: (a) Em política: A abolição de toda a convicção que dure mais que um estado de espírito, o desaparecimento total de toda a fixidez de opiniões e de modos-de-ver; desaparecimento portanto de todas as instituições que se apoiem no facto de qualquer «opinião pública» poder durar mais de meia-hora. A solução de um problema num dado momento histórico será feita pela coordenação ditatorial (vide parágrafo anterior) dos impulsos do momento dos componentes humanos desse problema, que é uma coisa puramente subjectiva, é claro. Abolição total do passado e do futuro como elementos com que se conte, ou em que se pense, nas soluções políticas. Quebra inteira de todas as continuidades. (b) Em arte: Abolição do dogma da individualidade artística. O maior artista será o que menos se definir, e o que escrever em mais géneros com mais contradições e dissemelhanças. Nenhum artista deverá ter só uma personalidade. Deverá ter várias, organizando cada uma por reunião concretizada de estados de alma semelhantes, dissipando assim a ficção grosseira de que é uno e indivisível. (c) Em filosofia: Abolição total da Verdade como conceito filosófico, mesmo relativo ou subjectivo. Redução da filosofia à arte de ter teorias interessantes sobre o «Universo». O maior filósofo aquele artista do pensamento, ou antes da «arte abstracta» (nome futuro da filosofia) que mais teorias coordenadas, não relacionadas entre si, tiver sobre a «Existência». 3. — Abolição do dogma do objectivismo pessoal. — A objectividade é uma média grosseira entre as subjectividades parciais. Se uma sociedade for composta, por ex., de cinco homens, a, b, c, d, e e, a «verdade» ou «objectividade» para essa sociedade será representada por a+b+c+d+e 5 No futuro cada indivíduo deve tender para realizar em si esta média. Tendência, portanto de cada indivíduo, ou, pelo menos, de cada indivíduo superior, a ser uma harmonia entre as subjectividades alheias (das quais a própria faz parte), para assim se aproximar o mais possível daquela Verdade-Infinito, para a qual idealmente tende a série numérica das verdades parciais. Resultado: (a) Em política: O domínio apenas do indivíduo ou dos indivíduos que sejam os mais hábeis Realizadores de Médias, desaparecendo por completo o conceito de que a qualquer indivíduo é lícito ter opiniões sobre política (como sobre qualquer outra coisa), pois que só pode ter opiniões o que for Média. (b) Em arte: Abolição do conceito de Expressão, sustituído pelo de Entre-Expressão. Só o que tiver a consciência plena de estar exprimindo as opiniões de pessoa nenhuma (o que for Média portanto) pode ter alcance. (c) Em filosofia: Substituição do conceito de Filosofia pelo de Ciência, visto a Ciência ser a Média concreta entre as opiniões filosóficas, verificando-se ser média pelo seu «carácter objectivo», isto é, pela sua adaptação ao «universo exterior» que é a Média das subjectividades. Desaparecimento portanto da Filosofia em proveito da Ciência. Resultados finais, sintéticos: (a) Em política: Monarquia Científica, antitradicionalista e anti-hereditária, absolutamente espontânea pelo aparecimento sempre imprevisto do Rei-Média. Relegação do Povo ao seu papel cientificamente natural de mero fixador dos impulsos de momento. (b) Em arte: Substituição da expressão de uma época por trinta ou quarenta poetas, pela sua expressão por (por ex.), dois poetas cada um com quinze ou vinte personalidades, cada uma das quais seja uma Média entre correntes sociais do momento. (c) Em filosofia: Integração da filosofia na arte e na ciência; desaparecimento, portanto, da filosofia como metafísica-ciência. Desaparecimento de todas as formas do sentimento religioso (desde o cristianismo ao humanitarismo revolucion´srio) por não representarem uma Média. Mas qual o Método, o feitio da operação colectiva que há de organizar, nos homens do futuro, esses resultados? Qual o Método operatório inicial? O Método sabe-o só a geração por quem grito por quem o cio da Europa se roça contra as paredes ! Se eu soubesse o Método, seria eu-próprio toda essa geração! Mas eu só vejo o Caminho; não sei onde ele vai ter. Em todo o caso proclamo a necessidade da vinda da Humanidade dos Engenheiros! Faço mais: garanto absolutamente a vinda da Humanidade dos Engenheiros! Proclamo, para um futuro próximo, a criação científica dos Super-homens! Proclamo a vinda de uma Humanidade matemática e perfeita! Proclamo a sua Vinda em altos gritos! Proclamo a sua Obra em altos gritos! Proclamo‑A, sem mais nada, em altos gritos! E proclamo também: Primeiro: O Super-homem será, não o mais forte, mas o mais completo! E proclamo também: Segundo: O Super-homem será, não o mais duro, mas o mais complexo! E proclamo também: Terceiro: O Super-homem será, não o mais livre, mas o mais harmónico! Proclamo isto bem alto e bem no auge, na barra do Tejo, de costas para a Europa, braços erguidos, fitando o Atlântico e saudando abstractamente o Infinito. 1917 Portugal Futurista , nº 1. Lisboa: 1917. (Ed. facsimil. Lisboa: Contexto, 1981) - 30. Se eu vir aquela árvore como toda a gente a vê, não tenho nada a dizer sobre aquela árvore. Não vi aquela árvore. É quando a árvore desencadeia em mim uma série conexa de emoções que a vejo diferente e justa. E na proporção em que essas ideias e emoções forem aceitáveis a toda a gente, e não só individuais, a árvore será A Árvore. Depois de um quarto de hora de artistas, é uma libertação trocar o privilégio das boas tardes com um carroceiro humano. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 306. OLIMPÍADAS O sport é a inteligência inútil manifestada nos movimentos do corpo. O que o paradoxo alegra no contágio das almas, o sport aligeira na demonstração dos bonecos delas. A beleza existe, verdadeiramente, só nos altos pensamentos, nas grandes emoções, nas vontades conseguidas. No sport - ludo, jogo, brincadeira - o que existe é supérfluo, como o que o gato faz antes de comer o rato que lhe há-de escapar. Ninguém pensa a sério no resultado, e, enquanto dura o que desaparece, existe o que não dura. Há uma certa beleza nisso, como no dominó, e, quando o acaso proporciona o jogo acertado, a maravilha entesoura o corpo encostado do vencedor. Fica, no fim, e sempre virado para o inútil, o inconseguido do jogo. Pueri ludunt, como no primário do latim... Ao sol brilham, no seu breve movimento de glória espúria, os corpos juvenis que envelhecerão, os trajectos que, com o existirem, deixaram já de existir. Entardece no que vemos, como no que vimos. A Grécia antiga não nos afaga senão intelectualmente. Ditosos os que naufragam no sacrifício da posse. São comuns e verdadeiros. O sol das arenas faz suar os gestos dos outros. Os poetas cantam-nos antes que desça todo o sol. São todos peixes num aquário cuidado de além do vidro pela inteligência que lhes não toca. E a beleza deles, como a de tudo, é isto um movimento por detrás de um vidro, um brilho de corpo dogmatizado por uma clausura. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 308. O sport é a revelação do corpo humano na sua imitação da alma na ambição de conquistar. O corpo conquista o que a alma deseja: isso é o amor; a alma conquista o que o corpo deseja, isso é o outro amor. Mas no sport o corpo conquista o que a alma conquista; vão juntos na dinâmica. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 309. Desde que se pensa a sério em qualquer coisa é difícil ter uma opinião sobre ela. Estar certo é não reparar. Só vê nitidamente uma coisa quem não vê nitidamente essa coisa. Existir é estar desatento. Morrer é dar tanta atenção ao corpo que ele se desfaz debaixo da atenção. Blagues? E as de Deus? Ao voltar hoje a página de um livro de filosofia, tive a revelação de que a página seguinte seria igualmente inútil. Eu tinha chegado a grandes conclusões marginais, mas... Todo o pensamento humano são páginas que se voltam, e a seguinte continua a antecedente às vezes no meio de uma palavra. O sentido do capítulo é o máximo do esforço atento de uma leitura possível. E quanto ao livro inteiro... é sempre o primeiro volume da obra de que se não publicaram mais. La suite au prochain zéro. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 310. Mais vale nunca do que tarde. O santo português, como diz o ditado, é S. Nunca. Façamos a festa do seu dia - 29 de Fevereiro em ano não bissexto. Mais valem dois pássaros na mão do que um a voar. Nem tudo que é ouro é luz. Candeia que vai adiante alumia duas rezes. Deus escreve os tortos por linhas direitas. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 311. NOVELA CURTA O meu amigo Moreira mandou uma vez construir, num quintal velho que tinha, uma casa elegante para um cão. Encarregou disso um mestre de obras, que, atraído pela estranheza do assunto e pela suposta loucura do criador do propósito, construiu uma espécie de chalet digno de ser pago, sem sobras, por alto preço. Quando a casa para o cão estava pronta, o Moreira compareceu e aprovou. Elogiou o mestre de obras, e foi-se embora, meditando. Dias depois, quando o mestre de obras apareceu com a conta, o Moreira pediu-lhe que o acompanhasse ao quintal velho. Chegados ali, disse-lhe com enternecimento, apontando para a casa do cão. - Olhe, mestre, meta a conta ali dentro. Ela é que é o cão. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 312. PASSAGEM DAS HORAS Nada me prende, a nada me ligo, a nada pertenço. Todas as sensações me tomam e nenhuma fica. Sou mais variado que uma multidão de acaso, Sou mais diverso que o universo espontâneo, Todas as épocas me pertencem um momento, Todas as almas um momento tiveram seu lugar em mim. Fluido de intuições, rio de supor-mas, Sempre ondas sucessivas, Sempre o mar — agora desconhecendo-se Sempre separando-se de mim, indefinidamente. Ó cais onde eu embarque definitivamente para a Verdade, Ó barco com capitão e marinheiros, visível no símbolo, Ó águas plácidas, como as de um rio que há, no crepúsculo Em que me sonho possível — Onde estais que seja um lugar, quando sois que seja uma hora? Quero partir e encontrar-me, Quero voltar a saber de onde, Como quem volta ao lar, como quem torna a ser social, Como quem ainda é amado na aldeia antiga, Como quem roça pela infância morta em cada pedra de muro, E vê abertos em frente os eternos campos de outrora E a saudade como uma canção de mãe a embalar flutua Na tragédia de já ser passado, Ó terras ao sul, conterrâneas, locais e vizinhas! Ó linha dos horizontes, parada nos meus olhos, Que tumulto de vento próximo me é ainda distante, E como oscilas no que eu vejo, de aqui! Merda p'rá vida! Ter profissão pesa aos ombros como um fardo pago, Ter deveres estagna, Ter moral apaga, Ter a revolta contra deveres e a revolta contra a moral, Vive na rua sem siso. 10-4-1923 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 46. AH, UM SONETO... Meu coração é um almirante louco que abandonou a profissão do mar e que a vai relembrando pouco a pouco em casa a passear, a passear... No movimento (eu mesmo me desloco nesta cadeira, só de o imaginar) o mar abandonado fica em foco nos músculos cansados de parar. Há saudades nas pernas e nos braços. Há saudades no cérebro por fora. Há grandes raivas feitas de cansaços. Mas — esta é boa! — era do coração que eu falava... e onde diabo estou eu agora com almirante em vez de sensação?... s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 291. 1ª publ. in Presença , nº 34. Coimbra: Fev. 1932. O que é haver ser, o que é haver seres, o que é haver coisas, O que é haver vida em plantas e nas gentes, E coisas que a gente constrói — Maravilhosa alegria de coisas e de seres — Perante a ignorância em que estamos de como isto tudo pode ser. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 52. Cristãos, pagãos, [...], (...) A qual de vós fará o Mistério a vontade? A incerteza do que é a morte é o que nos vale na vida. O desconhecimento do que é a morte é o sentido da vida. O desconhecermos a morte é que faz a beleza da vida. Quem sabe o valor exacto de uma vida? Sei que há uma vida, e que apagam essa vida — não sei é quem apaga Mas sei que de cada vida que passa há um universo em mim. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 54. O descalabro a ócio e estrelas... Nada mais... Farto... Arre... Todo o mistério do mundo entrou para a minha vida económica. Basta!... 0 que eu queria ser, e nunca serei, estraga-me as ruas. Mas então isto não acaba? É destino? Sim, é o meu destino Distribuído pelos meus conseguimentos no lixo E os meus propósitos à beira da estrada — Os meus conseguimentos rasgados por crianças, Os meus propósitos mijados por mendigos, E toda a minha alma uma toalha suja que escorregou para o chão. ...... O horror do som do relógio à noite na sala de jantar de uma casa de província — Toda a monotonia e a fatalidade do tempo... O horror súbito do enterro que passa E tira a máscara a todas as esperanças. Ali... Ali vai a conclusão. Ali, fechado e selado, Ali, debaixo do chumbo lacrado e com cal na cara Vai o que pena como nós, Vai o que sentiu como nós, Vai o nós! Ali, sob um pano cru acro e horroroso como uma abóbada de cárcere Ali, ali, ali... E eu? s.d. Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. (Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1944. - . Lapsos corrigidos segundo Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. Mas não e só o cadáver Essa pessoa horrível que não é ninguém, Essa novidade abísmica do corpo usual, Esse desconhecido que aparece por ausência na pessoa que conhecemos, Esse abismo cavado entre vermos e entendermos — Não é só o cadáver que dói na alma com medo, Que põe um silêncio no fundo do coração, As coisas usuais externas de quem morreu Também perturbam a alma, mas com mais ternura no medo. Sejam de um inimigo, Quem pode ver sem saudade a mesa a que ele sentava, A caneta com que escrevia? Quem pode ver sem uma angústia própria A espingarda do caçador desaparecido sem ela para alívio de todos os montes? O casaco do mendigo morto, onde ele metia as mãos (já ausentes para sempre) na algibeira, Os brinquedos, horrivelmente arrumados já, da criança morta, Tudo isso me pesa de repente no entendimento estrangeiro E uma saudade do tamanho do espaço apavora-me a alma... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 56. Duas horas e meia da madrugada. Acordo e adormeço. Houve em mim um momento de vida diferente entre sono e sono. Se ninguém condecora o sol por dar luz, Para que condecoram quem é herói? Durmo com a mesma razão com que acordo E é no intervalo que existo Nesse momento em que acordei, dei por todo o mundo — Uma grande noite incluindo tudo Só para fora s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 58. O dia esta a intentar raiar. As estrelas cosmopolitas Fecham-se para nada no céu [solene?] Numa grande premeditação de raiar o dia O céu empalidece no oriente... É quase azul negro o escuro claro onde estão semeadas as estrelas. Ergo a cabeça da orgia dos astros. Raça contraditória do abismo. Começamos a esfinges. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 59. Quando nos iremos, ah quando iremos de aqui? Quando, do meio destes amigos que não conheço, Do meio destas maneiras de compreender que não compreendo, Do meio destas vontades involuntariamente Tão contrárias à minha, tão contrárias a mim?! Ah, navio que partes, que tens por fim partir, Navio com velas, navio com máquina, navio com remos, Navio com qualquer coisa com que nos afastemos, Navio de qualquer modo deixando atrás esta costa, Esta, a sempre esta costa, esta sempre esta gente, Só válida à emoção através da saudade futura, Da saudade, esquecimento que se lembra, Da saudade, engano que se deslembra da realidade, Da saudade, remota sensação do incerto Vago misterioso antepassado que fomos, Renovação da vida antenatal, [...] Absurdamente surgindo, estática e constelada Do vácuo dinâmico do mundo. Que eu sou daqueles que sofrem sem sofrimento, Que têm realidade na alma, Que não são mitos, são a realidade Que não têm alegria do corpo ou da alma, daqueles Que vivem pedindo esmola com a vontade de perdê-la... Eu quero partir, como quem exemplarmente parte. Para que hei-de estar onde estou se é só onde estou? Para que hei-de ser sempre eu se eu não posso ser quem sou, Mas isto tudo é como uma realidade longínqua Daqueles que não partiram ou daqueles Cujo lar é nenhum e de memória Quando, navio [...], deixaremos o lar que não temos? Navio, navio, vem! Ó lugre, corveta, barca, vapor de carga, paquete, Navio carvoeiro, veleiro de mastro, carregado de madeira, Navio de passageiros de todas as nações diversas, Navio todos os navios, Navio possibilidade de ir em todos navios Indefinidamente, incoerentemente, À busca de nada, À busca de não buscar, À busca só de partir. À busca só de não ser À primeira morte possível ainda em vida — O afastamento, a distância, a separar-nos de nós. Porque é sempre de nós que nos separamos quando deixamos alguém, É sempre de nós que partimos quando deixamos a costa, A casa, o campo, a margem, a gare, ou o cais. Tudo que vimos é nós, vivemos só nós o mundo. Não temos senão nós dentro e fora de nós, Não temos nada, não temos nada, não temos nada... Só a sombra fugaz no chão da caverna no depósito de almas, Só a brisa breve feita pela passagem da consciência, Só a gota de água na folha seca, inútil orvalho, Só a roda multicolor girando branca aos olhos Do fantasma inteiro que somos, Lágrima das pálpebras descidas Do olhar velado divino. Navio quem quer que seja, não quero ser eu! Afasta-me A remo ou vela ou máquina, afasta-me de mim! Vá. Veja eu o abismo abrir-se entre mim e a costa, O rio entre mim e a margem. O mar entre mim e o cais, A morte, a morte, a morte, entre mim e a vida! 28-10-1924 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 59. Ver as coisas até ao fundo... E se as coisas não tiverem fundo? Ah, que bela a superfície! Talvez a superfície seja a essência E o mais que a superfície seja o mais que tudo E o mais que tudo não é nada. Ó face do mundo, só tu, de todas as faces, És a própria alma que reflectes s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 60. Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele; E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha (Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro: Não sou parvo nem romancista russo, aplicado, E romantismo, sim, mas devagar...). Sinto urna simpatia por essa gente toda, Sobretudo quando não merece simpatia. Sim, eu sou também vadio e pedinte, E sou-o também por minha culpa. Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte: É estar ao lado da escala social, É não ser adaptável às normas da vida, Às normas reais ou sentimentais da vida — Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta, Não ser pobre a valer, operário explorado, Não ser doente de uma doença incurável, Não ser sedento de justiça, ou capitão de cavalaria Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas, E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor. Não: tudo menos ter razão! Tudo menos importar-me com a humanidade! Tudo menos ceder ao humanitarismo! De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela? Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou, Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente: É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio, É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte. Tudo mais é estúpido como um Dostoievski ou um Gorki. Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir. E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece. Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato, E estou-me rebolando numa grande caridade por mim. Coitado do Álvaro de Campos! Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações! Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia! Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos, Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita, Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão. Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa! Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo! E, sim, coitado dele! Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam, Que são pedintes e pedem, Porque a alma humana é um abismo. Eu é que sei. Coitado dele! Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma! Mas até nem parvo sou! Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais. Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido. Não me queiram converter a convicção: sou lúcido. Já disse: Sou lúcido. Nada de estéticas com coração: Sou lúcido. Merda! Sou lúcido. s.d. Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. (Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1944. - . Lapsos corrigidos segundo Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. Deus é um conceito económico. À sua sombra fazem a sua burocracia metafísica os padres das religiões todas. 1916? Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 411. Não posso aceitar a atitude crítica de Ricardo Reis para com a obra de Caeiro. Ricardo Reis elogia a obra de Caeiro, não por ser uma obra de arte, mas por ser uma obra de verdade. Não aceito, repito. Tenho a obra de Caeiro por bela independentemente da verdade que contenha ou até não contenha. E é por isso mesmo que chamo à obra de Caeiro uma obra de arte. É obra de arte tudo aquilo que produz uma emoção de prazer independentemente de satisfação, utilidade ou verdade. Repudio o chamado nu artístico, porque dá, ou desde que dê, uma sensação sexual, isto é, uma sensação, embora fruste, de satisfação; pois toda a emoção sexual é um prazer de satisfação, e não simplesmente um prazer. A chamada arte industrial só é arte se nela se não atendeu à utilidade do objecto em que se aplicou. Desde que um cartaz visa a produzir um efeito puramente publicitário, pode ser um bom cartaz, mas pode ser também uma má obra de arte. E - chegamos ao ponto - desde que numa frase interesse a verdade que ela contém, ou que ela interesse pela verdade que possa conter, essa frase pode pertencer à filosofia; deixa de pertencer à arte. Quando Caeiro diz, «A Natureza é partes sem um todo» o que nos dá a emoção de prazer é a frase e não a sua verdade possível, ou o aceitarmo-la por verdadeira. Mas é a frase por ser assim como é, na sua vividez paradoxal. Se Caeiro houvesse dito a mesma coisa de outra maneira, da maneira filosófica - por exemplo, «A Natureza é essencialmente plural, e é impossível reduzi-la a unidade», nada haveria de belo no dizer; a própria ideia perde a realidade, descarna-se, é esqueleto e filosofia. É por isto que discordei sempre da tese posta por Fernando Pessoa, de que a filosofia é uma das artes. Achei sempre que a filosofia era uma ciência virtual, ou uma tentativa de ciência, ou uma ciência fruste. Há nos filósofos frases casuais que têm poesia, e grande poesia. Mas são as frases só. Quando Platão diz «Deus geometriza», isto é belo independentemente de Deus geometrizar, ou até existir. É belo porque exprime em cor e corpo uma ideia grande. A poesia é toda aquela forma da arte literária em que se recebe uma emoção estética por motivos independentes do sentido da frase. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 412. Lisboa, 4 de Junho de 1915 Exm.º Senhor Director do Diário de Notícias, E/V. Regressando ontem a Lisboa, só então tive ocasião de ler uma crítica, há poucos dias publicada no jornal que V. Ex.ª proficientemente dirige, ao extraordinário livro do sr. Mário de Sá-Carneiro, meu ilustre camarada do Orpheu. Não é à crítica que me quero referir, porque ninguém pode esperar ser compreendido antes que os outros aprendam a língua em que fala. Repontar com isso seria além de absurdo, indício de um grave desconhecimento da história literária, onde os génios inovadores foram sempre, quando não tratados como doidos (como Verlaine e Mallarmé), tratados como parvos (como Wordsworth, Keats e Rossetti) ou como, além de parvos, inimigos da pátria, da religião e da moralidade, como aconteceu a Antero de Quental, sobretudo nos significativos panfletos de José Feliciano de Castilho, que, aliás não era nenhum idiota. Não é a isto que me quero referir. O que quero acentuar, acentuar bem, acentuar muito bem, é que é preciso que cesse a trapalhada, que a ignorância dos nossos críticos está fazendo, com a palavra futurismo. Falar em futurismo, quer a propósito do 1º nº Orpheu quer a propósito do livro do sr. Sá-Carneiro, é a coisa mais disparatada que se pode imaginar. Nenhum futurista tragaria o Orpheu. O Orpheu seria, para um futurista, uma lamentável demonstração de espírito obscurantista e reaccionário. A atitude principal do futurismo é a Objectividade Absoluta, a eliminação, da arte, de tudo quanto é alma, quanto é sentimento, emoção, lirismo, subjectividade em suma. O futurismo é dinâmico e analítico por excelência. Ora se há coisa que [seja] típica do Interseccionismo (tal é o nome do movimento português) é a subjectividade excessiva, a síntese levada ao máximo, o exagero da atitude estática. «Drama estático», mesmo, se intitula uma peça, inserta no 1.º número do Orpheu, do sr. Fernando Pessoa. E o tédio, o sonho, a abstracção são as atitudes usuais dos poetas meus colegas naquela brilhante revista. A César o que é de César. Aos Interseccionistas, chame-se interseccionistas. Ou chame-se-lhes paúlicos, se se quiser. Esse termo, ao menos, caracteriza-os, distinguindo-os de outra qualquer escola. Englobar os colaboradores do Orpheu no futurismo é nem sequer saber dizer disparates, o que é lamentabilíssimo. No 2.º número do Orpheu virá colaboração realmente futurista, é certo. Então se poderá ver a diferença, se bem que seja, não literária, mas pictural essa colaboração. São quatro quadros que emanam da alta sensibilidade moderna do meu amigo Santa Rita Pintor. Até aqui tenho falado em geral, mais pelos meus colegas do que por mim. O meu caso é diferente. Permita-me V. Ex.ª que me refira a ele. A minha Ode Triunfal, no 1º número do Orpheu, é a única coisa que se aproxima do futurismo. Mas aproxima-se pelo assunto que me inspirou, não pela realização — e em arte a forma de realizar é que caracteriza e distingue as correntes e as escolas. Eu, de resto, nem sou interseccionista (ou paúlico) nem futurista. Sou eu, apenas eu, preocupado apenas comigo e com as minhas sensações. Espero da lealdade jornalística de V. Ex.ª a inserção desta carta em lugar onde pelo menos os jornalistas a leiam. Na impossibilidade de fazer os nossos críticos compreender, tentemos ao menos levá-los a fingir que compreendem. De V. Ex.ª Cdo. Venr. e Obgdo. ÁLVARO DE CAMPOS engenheiro e poeta sensacionista 4-6-1915 Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 412. ÁLVARO DE CAMPOS, ENGENHEIRO NAVAL E POETA FUTURISTA concede ao [jornal «...»] uma entrevista sensacional:  A situação da Inglaterra — A situação da Europa — A situação de Portugal Pontos de vista originalíssimos A estada ocasional em Lisboa, vindo de Newcastle-upon-Tyne, de Álvaro de Campos, engenheiro naval da casa Forsyth e um dos mais célebres colaboradores do celebrado Orpheu, sugeriu-nos a ideia de inquirir o que pensaria do estado actual de coisas em Portugal, sobretudo relacionando-o com o da Europa (e isso era, para nós, o ponto mais interessante), um dos espíritos mais originais e brilhantes do que talvez já se não possa continuar chamando «a nova geração». Encontrámos Álvaro de Campos no Terreiro do Paço, por uma coincidência feliz, quando ele ia, ainda com tempo, para tomar o vapor para o rápido do Algarve. E a nossa primeira pergunta, passadas as saudações iniciais, foi esta: — A situação actual em Inglaterra? — Muito má industrialmente hoje, e portanto muito má politicamente amanhã. A crise industrial deriva de causas algumas antigas, outras modernas, de causas algumas economicamente certas, outras economicamente fictícias. O mal é radical. Os governos têm sido de uma notável incapacidade na solução dos principais problemas com que têm sido confrontados — o problema industrial propriamente dito, o problema do desemprego, o próprio problema do alojamento. A Grã-Bretanha continua entretendo-se demasiado com as velhas ficções políticas, relíquias de uma época extinta. Ainda há muita gente em Inglaterra que tem no íntimo da alma a convicção de que uma eleição geral é uma coisa no género e da categoria de uma lei da natureza, e de que a «vontade do povo» é frase que comporta qualquer espécie de sentido. O que há de mais estranho nos indivíduos políticos é o pouco que conseguem aprender com a experiência flagrante. Metem-se-lhes na cabeça certas ideias, e atravessam a vida com essas ideias, embora a experiência quotidianamente as desminta. Desde que o desmentido não seja violento — e assim é em todas as sociedades em que, como a inglesa, se não está em estado revolucionário —, o apego às velhas fórmulas e às ficções mortas persiste, o sonho idiota dos bons tempos, em que estas ideias eram tão falsas como são hoje e também ninguém dava por isso. Os políticos destes países pacíficos e ordeiros dão-me a impressão, quando se aproxima deles um período de agitação e de revolução, de homens que quisessem andar sobre água pela razão de a água apresentar, como a terra, uma superfície lisa. Empregam a experiência de um passado que foi uma coisa para lhes servir em um futuro que é outra coisa. Se lêem história, lêem-na como se fosse só livros, e não coisas que acontecessem. Estou certo que um inglês tem a ideia obscura de que guerra civil e revolução são, em Inglaterra, coisas que se deram no século XVII, como se fossem os números das datas, e por isso se não podem tornar a dar. Os políticos ingleses, que são inteligentes para os problemas secundários e de uma estupidez crassa para os problemas fundamentais, andam a dizer, e com eles grande parte dos jornais, que a «maioria» do operariado, do operariado «são», como eles dizem (a frase, é claro, não quer dizer nada), não está com os comunistas. É de impacientar um cristal este modo [de] pensar. Que diabo importa que a maioria do operariado «esteja» ou «não esteja» com os extremistas, quando os extremistas levam essa maioria passiva para onde querem? Que diabo importa que a maioria do operariado não concorde com o extremismo, se a maioria do operariado não está organizada, e o comunismo inglês está? Que importa a opinião dessa «maioria», se ela pensa politicamente, e o comunismo revolucionariamente? Em tempo de paz, e de eleições gerais (e os políticos ingleses julgam que as eleições gerais são a chave do universo), está bem que um milhão de eleitores valha mais que dez mil eleitores. Mas em tempo de guerra um milhão de gente organizada para a paz não vale um exército de dez mil homens expressamente organizado para a guerra. Os políticos ingleses julgam que as revoluções não se podem fazer quando a maioria do país não quer; quando as revoluções, para se fazerem, exigem apenas uma minoria audaz organizada para as fazer, e capaz de as fazer. A massa do país nunca importa. Julga alguém que o «povo» faz revoluções? Julga alguém que o regime russo actual é maioritário? Porque há tanta gente estúpida no mundo, o sr. sabe? A maioria é essencialmente espectadora. As próprias eleições, dada a complexidade e o custo do maquinismo eleitoral, nunca podem ser vencidas senão por partidos eleitoralmente organizados. O eleitor não escolhe o que quer; escolhe entre isto e aquilo que lhe dão, o que é diferente. Tudo é oligárquico na vida das sociedades. A democracia é o mais estúpido de todos os mitos, porque nem sequer tem carácter místico. — [O que pensa v. da questão social?] — Não há questão social — creio que é «questão social» que as bestas dizem — em parte nenhuma. A Europa é hoje o teatro de um grande conflito, de um conflito ligeiramente triangular. Estão em guerra, no mundo, duas grandes forças — a plutocracia industrial e a plutocracia financeira. A plutocracia industrial com o seu tipo de mentalidade organizadora, a plutocracia financeira com o seu tipo de mentalidade especulativa; a industrial com a sua índole mais ou menos nacionalista, porque a indústria tem raízes, e liga portanto com as outras forças que as têm, a financeira com a sua índole mais ou menos internacional, porque não tem raízes, e não liga portanto senão consigo mesma, ou, então só com aquela raça praticamente privilegiada que, através da finança internacional, se pode dizer que hoje, sem ter pátria, governa e dirige as pátrias todas. Mas as forças proletárias, o bolchevismo, o radicalismo? — Isso são mitos. Não há correntes proletárias, não há bolchevismo (nem na Rússia), não há radicalismo em parte nenhuma. Tudo isso é o avesso da plutocracia financeira, e é provadamente dirigido e financiado por ela. Não há movimento nenhum de ordem radical que não seja movido, em última causa, pelo Frankfurter Bund, ou por qualquer outro organismo derivado da Internacional Financeira, que é a autêntica internacional. Os operários são todos uns idiotas, e os seus chefes, ou idiotas também, ou loucos; todos são elementos essencialmente sugestionáveis, instrumentos inconscientes de forças de cuja existência muitos deles nem sequer suspeitam. No congresso recente das Associações de Classe inglesas (Trade Unions), foram votadas várias moções de carácter extremista; mas é singular que todas elas visam coisas que deixam livre o «capitalismo» internacional. A execução dos princípios consignados nessas moções importaria a ruína da indústria inglesa, e a do império britânico; deixaria porém de pé todas as forças e meios de acção do autêntico capitalismo, da finança internacional. :É interessante este extremismo, não é? Foi precipitada, disse-se, a redacção dessas moções; mas é curioso que a precipitação nunca atingiu o fenómeno máximo do capitalismo, sendo elas todas dirigidas contra o capitalismo... — [E a situação em Portugal?] — Portugal é uma plutocracia financeira de espécie asinina. É, como todos os países modernos, excepto, talvez, a Itália, uma oligarquia de simuladores. Mas é uma oligarquia de simuladores provincianos, pouco industriados na própria histeria postiça. Ninguém já engana ninguém — o que é tristíssimo — na terra natal do Conto do Vigário. Não temos senão os vigaristas de praça como prova de qualquer sobrevivência das qualidades de intrujice da nação. Ora um país sem grandes intrujões é um país perdido, porque a civilização, em qualquer dos seus níveis, é essencialmente a organização da artificialidade, isto é, da intrujice. «Quem não intruja não come»; é esta a forma sociológica dum provérbio que o povo não sabe dizer, porque o povo nunca sabe dizer nada. De resto, a sociologia também não existe. — Assistiu a alguma sessão do julgamento do 18 de Abril? — «Para quê? As farsas não me divertem. O 18 de Abril — em que, aliás, não surgiu um único elemento intelectualmente superior, nem um chefe — porque ser chefe não é ser vencido — foi simplesmente o conflito entre duas correntes que, com igual intensidade, presentemente agitam Portugal. Há em Portugal hoje duas correntes perfeitamente definidas: a que acha insuportável este estado de coisas; e a que descrê de todos os processos revolucionários para o resolver. Essas duas correntes chocaram-se no 18 de Abril, e venceu a segunda. Eis tudo. O resto é uma farsa de questões pessoais que não interessa senão idiotas. Os homens não importam, de um lado ou de outro; o que importa é as correntes essenciais, que esses homens, de um lado e de outro, de uma maneira e de outra, temporariamente incarnaram. Que importa que fulano tivesse dado a sua palavra que fazia isto ou aquilo, ou alguém supusesse por ter ouvido dizer a sicrano, que parece que o soubera de beltrano, que essa palavra estava dada? O que importa é o conflito do país consigo mesmo, a guerra civil na alma nacional. O país hoje quer duas coisas ao mesmo tempo: quer mudança, e não quer revoluções. É a quadratura do círculo a resolver in anima vili. — O que há a fazer, então? — Para nos salvarmos? Aderir antecipadamente ao futuro império de Israel. Os judeus têm ganha a primeira batalha; ganharam-na em Moscóvia, como ali a perdeu Napoleão. No devido tempo ganharão também o seu Waterloo. A civilização europeia actual está moribunda. Não é o capitalismo, nem a burguesia, nem nenhuma outra dessas fórmulas vazias que está morrendo; é a civilização actual — a civilização greco-romana e cristã. Já nada a pode salvar. Poderíamos pensar, um tempo, em nos salvarmos com a plutocracia industrial, mas como, se a plutocracia industrial está caindo? se está caindo em proveito da plutocracia financeira? — Mas como é que aderiremos antecipadamente ao futuro império de Israel, supondo que ele venha? — Desintegrando propositadamente todas as forças contrárias, esforçando-nos por escangalhar a indústria nacional, por aluir o pouco que resta de influência católica (excepto ritualmente não é de grande coisa), por substituir uma cultura técnica à cultura clássica, por desintegrar a família no seu sentimento tradicional. . . — Mas isso é monstruoso! E é v., um engenheiro, que fala de desintegrar a indústria? — É monstruoso, é; a vida é frequentemente monstruosa. E quanto a eu, engenheiro, falar em desintegrar a indústria, não me refiro à indústria senão como indústria nacional. Não digo «desintegrar a técnica». Devemos criar a humanidade dos técnicos... Alguma coisa disto — antes de toda a orientação neste sentido que tem surgido adentro do bolchevismo, dirigida de cima, de fora, e por mão de mestre —, já eu tinha proclamado a essência no meu Ultimatum de 1917, publicado no número único do Portugal Futurista nesse mesmo ano. — Mas isso é bolchevismo! — Não é, e é. Não é bolchevismo porque nada vai aqui de interesse pelas plebes, pelos operários, que devem ser reduzidos a uma condição de escravatura ainda mais intensa e rígida que aquilo a que eles chamam a «escravatura» capitalista. A massa humana deve ser compelida a amalgamar-se numa classe composta do actual proletariado e dos restos das classes médias. — Mas o que tem o Império de Israel com o império dos técnicos? — Essencialmente, nada. Mas o único império que pode haver é o de Israel, e a única maneira de realizar hoje um império é utilizando a técnica, que é o característico distintivo da nossa época. Bem vê, uma coisa é império, propriamente dito, outra coisa o processo pelo qual se mantém e conserva. Todas as civilizações, parece, nascem de um domínio de uma nação sobre outra, de uma classe sobre outra. Um velho sociólogo, dos mais notáveis, embora esquecido, Stuart Glennie, expôs há uns bons trinta anos esta teoria. Deixe ver... Talvez me recorde da sua definição de civilização, colhida através do exame mais exaustivo que se pode fazer dos mitos e dos usos primitivos. — Pareceu-nos sempre que essa história do «judaísmo» e do perigo judeu era uma madureza de fanáticos. . . — Nalgumas das suas manifestações, é. Mas na essência não é madureza nenhuma. Madureza seria, sem dúvida, a de alguém que no tempo de Tibério ou de Nero se lembrasse de dizer que o Império Romano corria risco de ser absorvido, conquistado, por uma obscura seita judaica chamada o cristianismo. (...) 1919 Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 415. «Cancioneiro» é, como a mesma palavra o diz, uma colectânea (colecção) de Canções. Canção é, propriamente, todo aquele poema que contém emoção bastante para que pareça ser feito para se cantar, isto é, para nele existir naturalmente o auxílio, ainda que implícito, da música. Pode ser narrativo, como quando é balada; (...) o que não pode ser, por um lado, é longo, pois o canto não pode durar muito, e o libreto de uma ópera não é mais que uma colecção de canções; por outro lado, é epigramático, ou vazado em moldes semelhantes aos do epigrama, pois o epigrama é o poema destituído de emoção, excepto a mínima inexcluível de tudo quanto é humano, e os moldes da poesia de estilo epigramático excluem a musicalidade. Por isso se não pode chamar canção a um soneto, que é um epigrama de catorze versos, dispostos em duas quadras e dois tercetos, como no soneto regular, ou em três quadras e um dístico , como no soneto Shakespeariano. [Dissemos que devemos chamar canção um poema] que contém emoção bastante para parecer que nele se está cantando. A canção exclui, portanto, tudo quanto se não pode cantar. Não se pode cantar o que é longo; não se pode cantar o que é duro; não se pode cantar o que é rígido e formal. Por isso a canção exclui o poema longo, exclui o poema satírico, exclui o epigrama e todo poema que se serve de uma forma rígida, como, por exemplo, o soneto. Salvas essas limitações, todo poema é uma canção. Não pode chamar-se canção o que exclui o elemento musical. Por isso não pode chamar-se canção a um poema em verso irregular ou livre, nem a um poema onde não haja rima. s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 427. Prefácio para o «Cancioneiro» Mankind means man: it is man that creates civilization, which woman does but biotogically render possible, which at most she does but preserve. (Woman creates man). Woman is complementary, but sexually and there emotionally complementary, not intellectually. Men are each others' intellectual complementaries. The ancients know no such slavish thing as the «importance» of love in a man's life, thought they know it was sovereignly important in a woman's. Their sanity made them aware of the secondary importance of woman. All Christian literature is a litany to the Virgin Mary, in the person of several ladies who generally have borne more resemblance to Mary Magdelene of the first phase. All Christian literature is woman-ridden; worse it is female. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 415. Precedido pela indicação: «Cult of a woman» Fixar um estado de alma, ainda que o não seja, em versos que o traduzam impessoalmente; descrever as emoções que se não sentiram com a própria emoção com que se sentiram — é este o privilégio dos que são poetas porque, se o não fossem, ninguém os acreditava. Há poetas que fazem isto conscientemente, como Fernando Pessoa. Há poetas que fazem isto inconscientemente, como Fernando Pessoa. Sou demasiado amigo de Fernando Pessoa para dizer bem dele sem me sentir mal: a verdade é uma das piores hipocrisias a que a amizade obriga. Se o leitor achar injustas as palavras que precedem estas, suponha que escrevi as que julga justas. O que estiver bem estará bem sem nenhum de nós. De resto, o único prefácio de uma obra é o cérebro de quem a lê. s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 428. REALIDADE Sim, passava aqui frequentemente há vinte anos... Nada está mudado — ou, pelo menos, não dou por isso — Nesta localidade da cidade... Há vinte anos!... O que eu era então! Ora, era outro... Há vinte anos, e as casas não sabem de nada... Vinte anos inúteis (e sei lá se o foram! Sei eu o que é útil ou inútil?)... Vinte anos perdidos (mas o que seria ganhá-los?) Tento reconstruir na minha imaginação Quem eu era e como era quando por aqui passava Há vinte anos... Não me lembro, não me posso lembrar. O outro que aqui passava então, Se existisse hoje, talvez se lembrasse... Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro Do que esse eu-mesmo que há vinte anos passava aqui! Sim, o mistério do tempo. Sim, o não se saber nada, Sim, o termos todos nascido a bordo. Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer... Daquela janela do segundo-andar, ainda idêntica a si mesma, Debruçava-se então uma rapariga mais velha que eu, mais lembradamente de azul. Hoje, se calhar, está o quê? Podemos imaginar tudo do que nada sabemos. Estou parado física e moralmente: não quero imaginar nada... Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro. Pois Deus dá licença que o que não existe seja fortemente iluminado. Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente. Quando muito, nem penso... Tenho a impressão que as duas figuras se cruzaram na rua, nem então nem agora, Mas aqui mesmo, sem tempo a perturbar o cruzamento. Olhámos indiferentemente um para o outro. E eu o antigo lá subi a rua imaginando um futuro girassol. E eu o moderno lá desci a rua não imaginando nada. Talvez isto realmente se desse... Verdadeiramente se desse... Sim, carnalmente se desse... Sim, talvez... 15-12-1932 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 293. Neste «Cancioneiro», e assim neste livro como em outros, que porventura se lhe sigam, sirvo-me de dois artifícios de disposicão, que há razão talvez para explicar aos leitores. A maioria dos poemas não têm títulos; os que os têm, têm-nos impressos em tipo menor, como se foram epígrafes. Nenhum dos poemas tem data, porém indico em apêndice especial as datas, exactas ou aproximadas, de todos eles. As razões para estas duas inovações são, quanto à primeira, que o título, sendo importante ou mesmo essencial em as artes que não contêm em si toda a explicação, não é preciso, senão ocasionalmente, em literatura, onde o texto deve ordinariamente dizer tudo; quanto à segunda, que a data, como também o tempo que um poema leva a compor, nada tem com o mesmo poema, sendo tão somente um elemento de interesse psicológico, que, fornecido como tal ao leitor, força é que se lhe forneça separado do poema, para cuja estimação não tem que entrar. Adopto uma ortografia etimológica extrema, cuja explicação perfeita não pode ser feita em palavras resumidas. Como em nada sofre, com ela, a leitura dos poemas, abstenho-me sequer de resumir essa explicação. s.d. Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 429. Prefácio para o «Cancioneiro» As figuras de amadas, que aliás não existem como figuras, nos versos de Ricardo Reis são abstracções às avessas, ou vistas do avesso. Não são abstracções no sentido de serem abstractas, mas no sentido de terem apenas a realidade necessária para serem consideradas como existindo. São Chloes, Lydias e outras romanidades assim, não porque não existam, mas porque para o caso tanto vale ser Chloe como Maria Augusta, e, ao passo que esta última faz supor uma costureira, ou coisa parecida, com a agravante de o poder ser deveras, a gente sente-se realmente pagão com a Lydia. No que o Reis tem muita sorte é em escrever tão comprimidos que é quase impossível seguir com a precisa atenção - supondo que ela é precisa - o sentido completo e exacto de todos os seus dizeres. É isso que faz com que aquela ode que começa: «A flor que és, não a que dás, eu quero» (pasmem, aliás, do «eu» antes do «quero», contra toda a índole linguistica portuguesa do Ricardo Reis!) disfarce que é dirigida a um rapaz, pois poucos há (perdidos como vão na escuridão sintáctica do poeta) que reparem no pequeno «o» que define a coisa. «Se te colher avaro A mão da infausta sphynge,» etc. É a primeira vez que a sintaxe aparece como véu de pudor - delgado sendal, ou lá o que quer que seja, que cobre as partes do discurso. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 417. Mas a sensibilidade do nosso Ricardo Reis é estrondosamente reumática. Faz festas à Musa, olhando para outro lado, pensando sei lá em quê. Não pesquisemos. E, aliás, nas festas de Ricardo Reis não há foguetes, porque a ode alcaica foi sempre uma pessoa sossegada. Nesta agitação interior da sensibilidade portuguesa, figuramos no texto nós dois, Caeiro e eu; o Fernando Pessoa é uma nota à margem, e o Ricardo Reis uma nota falsa. Da filosofia íntima de Ricardo Reis conclui-se que ele não espera nada da vida senão vinho e morte. É simples mas um pouco frio, pois não aquecemos o vinho, como os romanos. Este contemplar calmo e quase afectivo da esperança da mortalidade absoluta tem qualquer coisa de já morto. Um ente vivo deve ao menos revoltar-se por ter que morrer, a não ser que julgue que não morre. Mas o Ricardo Reis trata a mortalidade como se fosse a imortalidade e tem uma fé simples e confiante em coisa nenhuma. Os faquirs concentravam-se fitando um ponto qualquer sem importância; mas não se poderiam concentrar se fitassem o espaço despido. O Ricardo Reis consegue este faquirismo da sensibilidade: fita o Nada, sorri, e pede vinho. De vez em quando vira-se para o outro lado e pede que o coroem de rosas. Nos intervalos vira-se para o terceiro lado e diz «Chloe». Esta Chloe, que às vezes descamba em Lydia, é pranteada na ode do Livro 1 com um adjectivo no masculino. Bem sei que em Caeiro há a mesma indiferença para com a morte. Mas Caeiro encara a morte como uma criança que ouviu falar dela; Ricardo Reis como um velho que a tem à porta. Nem um nem outro acredíta na imortalidade, mas Caeiro não acredita porque não pensa, e Ricardo Reis não acredita porque não acredita em nada. Por isso a leitura de Caeiro, com mortalidade e tudo, anima e estimula como o sol e o céu, que também não acreditam na imortalidade, e pela mesma razão de Caeiro; e a leitura de Ricardo Reis desanima e desconsola - a ponto de chegar a estorvar, com um estrangulamento do nosso pobre coração, a verdadeira alegria estética que nos causa. Aquilo é belo como um belo cemitério. Admiramos e saimos logo. Quanto mais belo mais nos aflije. Por baixo, por contraste com a própria beleza, sente-se, como uma presença carnal às avessas, a realidade imaginável do Nada. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 418. Meu querido José Pacheco: Venho escrever-lhe para o felicitar pela sua « Contemporânea » para lhe dizer que não tenho escrito nada e para por alguns embargos ao artigo do Fernando Pessoa. Quereria mandar-lhe também colaboração. Mas, como lhe disse, não escrevo. Fui em tempos poeta decadente; hoje creio que estou decadente, e já o não sou. Isto de mim, que é quem mais próximo está de mim, apesar de tudo. De si e de sua revista, tenho saudades do nosso « Orpheu » ! V . continua sub-repticiamente, e ainda bem . Estamos, afinal, todos no mesmo lugar. Parece que variamos só com a oscilação de quem se equilibra. Repito-lhe que o felicito. Julgava difícil fazer tanto bem aos olhos em Portugal com uma coisa impressa. Julgo bom que julgasse mal. Auguro à « Contemporânea » o futuro que lhe desejo. Agora o artigo do Fernando. Com o intervalo entre a primeira palavra desta carta e a primeira palavra deste parágrafo, já quase me não lembra o que é que lhe queria dizer do artigo. Talvez pensasse em dizer exactamente o que vou escrever a seguir. Enfim, prometi, e digo o que sinto agora, e segundo os nervos deste momento. Continua o Fernando Pessoa com aquela mania, que tantas vezes lhe censurei, de julgar que as coisas se provam. Nada se prova senão para ter a hipocrisia de não afirmar. O raciocínio é uma timidez — duas timidezes talvez, sendo a segunda a de ter vergonha de estar calado. Ideal estético, meu querido José Pacheco, ideal estético! Onde foi essa frase buscar sentido? E o que encontrou lá quando o descobriu? Não há ideias nem estéticas senão nas ilusões que nós fazemos deles. O ideal é um mito da acção, um estimulante como o ópio ou a cocaína: serve para sermos outros, mas paga-se caro — com o nem sermos quem poderíamos ter sido. Estética, José Pacheco? Não há beleza, como não há moral, como não há fórmulas senão para definir compostos. Na tragédia físico-química a que se chama a Vida, essas coisas são como chamas — simples sinais de combustão. A beleza começou por ser uma explicação que a sexualidade deu a si-própria de preferências provavelmente de origem magnética. Tudo é um jogo de forças, e na obra da arte não temos que procurar «beleza» ou coisa que possa andar no gozo desse nome. Em toda a obra humana, ou não humana, procuramos só duas coisas, força e equilíbrio de força — energia e harmonia, se V. quiser. Perante qualquer obra de qualquer arte — desde a de guardar porcos à de construir sinfonias — pergunto só: quanta força? quanta mais força? quanta violência de tendência? quanta violência reflexa de tendência, violência de tendência sobre si própria, força da força em não se desviar da sua direcção, que é um elemento da sua força? O resto é o mito das Danaides, ou outro qualquer mito — porque todo o mito é o das Danaides, e todo o pensamento (diga-o ao Fernando) enche eternamente um tonel eternamente vazio. Li o livro do Botto e gosto dele. Gosto dele porque a arte do Botto é o contrário da minha. Se eu gostasse só da minha arte, nem da minha arte gostava, porque vario. E, à parte gostar, porque gosto? É sempre mau perguntar, porque pode haver resposta. Mas pergunto — porque gosto? Há força, há equilíbrio de força, nas « Canções »? Louvo nas « Canções » a força que lhes encontro. Essa força não vejo que tenha que ver com ideais nem com estéticas. Tem que ver com imoralidade. É a imoralidade absoluta, despida de dúvidas. Assim há direcção absoluta — força portanto; e há harmonia em não admitir condições a essa imoralidade. O Botto tende com uma energia tenaz para todo o imoral; e tem a harmonia de não tender para mais coisa alguma. Acho inútil meter os gregos no caso; grego se veria o Fernando com eles se eles lhe aparecessem a pedir-lhe contas do sarilho de estéticas em que os meteu. Os gregos eram lá estetas! Os gregos existiram. A arte do Botto é integralmente imoral. Não há célula nela que esteja decente. E isso é uma força porque é uma não hipocrisia, uma não complicação. Wilde tergiversava constantemente. Baudelaire formulou uma tese moral da imoralidade; disse que o mau era bom por ser mau, e assim lhe chamou bom. O Botto é mais forte: dá à sua imoralidade razões puramente imorais, porque não lhe dá nenhumas. O Botto tem isto de forte e de firme: é que não dá desculpas. E eu acho, e deverei talvez sempre achar, que não dar desculpas é melhor que ter razão. Não lhe digo mais. Se continuasse, contradizer-me-ia. Seria abominável, porque talvez fosse uma maneira (a inversa) de ser lógico. Quem sabe? Relembro saudosamente — aqui do Norte improfícuo — os nossos tempos do « Orpheu », a antiga camaradagem, tudo em Lisboa de que eu gostava, e tudo em Lisboa de que eu não gostava — tudo com a mesma saudade. Saudo-o em Distância Constelada. Esta carta leva-lhe a minha afeição pela sua revista; não lhe leva a minha amizade por si porque V. já há muito tempo aí a tem. Diga ao Fernando Pessoa que não tenha razão. Um abraço do camarada amigo ÁLVARO DE CAMPOS Newcastle-on-Tyne, 17 Outubro 1922. 1922 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 233. 1ª publ. in “Contemporãnea”, nº 4. Lisboa: 1922. AVISO POR CAUSA DA MORAL Quando o público soube que os estudantes de Lisboa, nos intervalos de dizer obscenidades às senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciência. Sim — exactamente a exclamação que acaba de escapar ao leitor... Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que têm, boas ou más — boas ou más, que a gente nunca sabe com quais é que vai para o Diabo. Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores. Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem ciências, se estudam ciências; estudem artes, se estudam artes; estudem letras, se estudam letras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte. Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível. Porque há só duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, que é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer. Tudo mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes. Europa , 1923. 1922 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 239. Publicado em folha volante. Da casa do monte, símbolo eterno e perfeito, Vejo os campos, os campos todos, E eu os saúdo por fim com a voz verdadeira, Eu lhes dou vivas, chorando, com as lágrimas certas e os vivas exactos — Eu os aperto a meu peito, como filho que encontrasse o pai perdido. Vivam, vivam, vivam Os montes, e a planície, e as ervas! Vivam os rios, vivam as fontes! Vivam as flores, e as árvores, e as pedras! Vivam os entes vivos e os bichos pequenos, Os bichos que correm, insectos e aves, Os animais todos, tão reais sem mim, Os homens, as mulheres, as crianças, As famílias, e as não-famílias, igualmente! Tudo quanto sente sem saber porquê! Tudo quanto vive sem pensar que vive! Tudo que acaba e nunca se aumenta com nada, Sabendo, melhor que eu, que nada há que temer, Que nada é fim, que nada é abismo, que nada é mistério, E que tudo é Deus, e que tudo é Ser, e que tudo é Vida. Ah, estou liberto! Ah, quebrei todas As algemas do pensamento. Eu, o claustro e a cave voluntários de mim mesmo, Eu o próprio abismo que sonhei, Eu, que vi em tudo caminhos e atalhos de sombra E a sombra e os caminhos e os atalhos eram eu! Ah, estou liberto... Mestre Caeiro, voltei à tua casa do monte E vi o mesmo que vias, mas com meus olhos, Verdadeiramente com meus olhos, Verdadeiramente verdadeiros... Ah vi que não há muitos abismos! (...) Não há abismos! Nada é sinistro! Não há mistério verdadeiro! Não há mistério ou verdade! Não há Deus, nem vida, nem alma distante da vida! Tu, tu mestre Caeiro, tu é que tinhas razão! Mas ainda não viste tudo; tudo é mais ainda! Alegre cantaste a alegria de tudo, Mas sem pensá-lo tu sentias Que é porque a alegria de tudo é essencialmente inevitável. Como cantaras alegre a morte futura Se a puderas pensar como morte, Se deveras sentiras a noite e o acabamento? Não, não: tu sabias Não com teu pensamento, mas com teu corpo inteiro, Com todos os teus sentidos tão acordados ao mundo Que não há nada que morra, que não há coisa que cesse, Que cada momento não passa nunca, Que a flor colhida fica sempre na haste, Que o beijo dado é eterno, Que na essência e universo das coisas Tudo é alegria e sol E só no erro e no olhar há dor e dúvida e sombra. Embandeira em canto e rosas! E da estação de província, do apeadeiro campestre, — Lá vem o comboio! Com lenços agitados, com olhos que brilham eternos Saudemos em ouro e flores a morte que chega! Não, não enganas! Avó carinhosa de terra já grávida! Madrinha disfarçada dos sentimentos expressos! E o comboio entra na curva, mais lento, e vai parar... E com grande explosão de todas as minhas esperanças Meu coração universo Inclui a ouro todos os sóis, Borda-se a prata todas as estrelas, Entumesce-se em flores e verduras, E a morte que chega conclui que a já conhecem E no seu rosto grave desabrocha O sorriso humano de Deus! s.d. “A Partida”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 27i-27j. O QUE É A METAFÍSICA? Na opinião de Fernando Pessoa, expressa no ensaio « Athena », a filosofia — isto é, a metafísica — não é uma ciência, mas uma arte. Não creio que assim seja. Parece-me que Fernando Pessoa confunde o que a arte é com o que a ciência não é. Ora o que não é ciência, nem por isso é necessariamente arte: é simplesmente não-ciência. Pensa Fernando Pessoa, naturalmente que como a metafísica não chega, nem aparentemente pode chegar, a uma conclusão verificável, não é uma ciência. Esquece que o que define uma actividade é o seu fim; e o fim da metafísica é idêntico ao da ciência — conhecer factos, e não ao da arte — substituir factos. As ciências realizam esse fim de conhecer factos — realizam-no umas mais, outras menos- — porque os factos que pretendem conhecer são definidos. A metafísica procura conhecer factos in ou mal definidos. Mas, antes de conhecidos, todos os factos são indefinidos; e toda a ciência, em relação a eles, está no estado da metafísica. Por isso chamarei à metafísica, não uma arte, mas uma ciência virtual , pois que tende para conhecer e ainda não conhece. Se ficará sempre virtual, se o não ficará; se há outro «plano» ou vida em que deixe de ser virtual — são coisas que nem eu nem Fernando Pessoa sabemos, porque verdadeiramente não sabemos nada. Repare Fernando Pessoa que a sociologia é uma ciência tão virtual como a metafísica. A que conclusão, escassa que seja, se chegou já em sociologia? Positivamente, a nenhuma. Um congresso de sociologia, ocupando-se de ao menos definir essa ciência, não o conseguiu. A política moderna é tão complicadamente confusa porque o espírito moderno obriga-nos (talvez sem razão) a buscar uma ciência para tudo, e, como aqui não temos uma ciência mas só a preocupação de a ter, cada um toma por absoluta a sociologia relativa, isto é nula, que inventou ou que, mais ou menos estropiadamente, assimilou de outro que também no assunto não sabia nada. Compare Fernando Pessoa as discussões dos escolásticos com, sobretudo, as dos socialistas, comunistas e anarquistas modernos. É o mesmo especulativismo de manicómio, ressalvando que os escolásticos eram subtis, disciplinados no raciocínio e inofensivos, e os modernos «avançados» (como a si-próprios se chamam, como se houvesse «avanço» onde não há ciência) são estúpidos, confusos e, dada a pseudo-semicultura da época, incómodos. Discutir quantos anjos podem convenientemente fixar-se na ponta de uma agulha, pode ser improfícuo; mas não é menos improfícuo — e é com certeza mais engraçado — que discutir qual será ou deve ser o regime humanitário (e porque não anti-humanitário?) e equitativo (e porque não mais injunto e desigual do que o presente?) em que viverá a humanidade futura (e que sabemos nós, que ignoramos toda e qualquer lei sociológica, que desconhecemos portanto, mesmo sob a acção delas, quais são as forças naturais que actualmente nos regem e arrastam e para onde, o que será a humanidade futura, o que quererá — pois pode não querer para si o que qualquer de nós quer para ela — , ou mesmo se haverá humanidade futura, ou um cataclismo destruidor da terra, e da nossa sociologia ainda incompleta, e dos humanitarismos de bizantinos que não sabem ler?). Repare ainda Fernando Pessoa no facto — que aliás cita em outra conexão — de que a ciência tende para ser matemática à medida que se aperfeiçoa, para reduzir tudo a fórmulas «abstractas», precisas, onde é máxima a libertação das «equações pessoais», isto é, dos erros de observação e coordenação produzidos pela falibilidade dos sentidos e do entendimento do observador ('). Ora «fórmulas abstractas» é justamente o que a metafísica procura. E a matemática, nos seus níveis «superiores», confina com a metafísica, ou, pelo menos, com ideias metafísicas. Tudo isto não quer dizer, é certo, que a metafísica venha a ser mais que uma ciência virtual, ou que não venha a ser mais. Quer dizer apenas que ela é efectivamente, não uma arte, mas uma ciência virtual. Pasmarão talvez destas considerações os que leram o meu Ultimatum , no « Portugal Futurista » (1917). Nesse Ultimatum lê-se sobre a filosofia uma opinião que parece, salvo que a precedeu, exactamente a mesma que a de Fernando Pessoa. Não é bem assim. A conclusão prática pode realmente ser idêntica, mas a conclusão teórica, que é a prática para uma teoria, é diferente. A minha teoria, em resumo, era que: 1. ° — se deve substituir a filosofia por filosofias, isto é, mudar de metafísica como de camisa, substituindo à metafísica procura da verdade a metafísica procura da emoção e do interesse; e que 2. ° — se deve substituir a metafísica pela ciência. E fácil de ver como esta teoria, tendo na prática quase os mesmos resultados que o pensamento de Fernando Pessoa, é diferente dele. Não rejeito a metafísica, rejeito as ciências virtuais todas , isto é, todas as ciências que não se aproximaram ainda do estado, vá, «matemático»; mas, para não desaproveitar essas ciências virtuais, que, porque existem, representam uma necessidade humana, faço artes delas , ou, antes proponho que se faça artes delas — da metafísica, metafísicas várias, buscando arranjar sistemas do universo coerentes e engraçados, mas sem lhes ligar intenção alguma de verdade, exactamente como em arte se descreve e expõe uma emoção interessante, sem se considerar se corresponde ou não a uma verdade objectiva de qualquer espécie. E por esta mesma razão, por que substituo por partes as ciências virtuais no campo subjectivo, para não desamparar o desejo ou ambição humana que as faz existir, e exige, como todos os desejos, uma satisfação embora ilusória, que substituo as ciências virtuais pelas ciências reais no campo objectivo. Ponhamos ainda mais a claro a discordância entre mim e Fernando Pessoa. Para ele a metafísica é essencialmente arte , e a sociologia, de que não fala, é naturalmente, ciência. Para mim são, ambas e igualmente, essencialmente ciências, não o sendo porém ainda, nem talvez nunca, mas por uma razão extrínseca e não intrínseca. Proponho pois que se substituam por artes enquanto não são efectivamente ciências, o que pode ser que seja sempre, dando-se então na prática, entre a minha teoria e a de Fernando Pessoa, aquela coincidência de efeitos que não é rara entre teorias não só diversas, mas absolutamente opostas. Esclareço ainda mais... A metafísica pode ser uma actividade científica, mas também pode ser uma actividade artística. Como actividade científica, virtual que seja, procura conhecer ; como actividade artística, procura sentir . O campo da metafísica é o abstracto e o absoluto. Ora o abstracto e o absoluto podem ser sentidos, e não só pensados, pela simples razão de que tudo pode ser, e é, sentido. O abstracto pode ser considerado, ou sentido, como não-concreto, ou como directamente abstracto, isto é relativamente ou absolutamente. A emoção do abstracto como não concreto — isto é, indefinido — é a base, ou mesmo a essência, do sentimento religioso , incluindo neste sentimento tanto a religiosidade do Além, como a religiosidade laica de uma humanidade futura, porque, desde que se forme uma visão de uma humanidade definitiva , ou de um ideal político definitivo , isto é absoluto, sente-se não concretamente, porque se sente em relação à realidade concreta, mas em oposição ao «fluxo e refluxo eterno», que é a base dela. A emoção do abstracto como abstracto — isto é, definido — é a base ou mesmo a essência, do sentimento metafísico . O sentimento metafísico e o religioso são directamente opostos, o que se vê claramente na infecundidade metafísica (a falta de grandes originalidades metafísicas) em épocas como a nossa, em que a especulação social utópica é o fenómeno marcante, e não haveria metafísica alguma se não houvesse deficiência da outra parte do espírito religioso, e aquela liberdade de pensamento que estimula toda a espécie de especulação; ou como a Idade Média, perdida na adaptação teológica de metafísicas gregas, e em cuja noite caliginosa só de vez em quando brilha metafisicamente o astro breve de uma heresia. O sentimento religioso é inteiramente irracionalizável, nem pode haver teologia, ou sociologia utópica, senão por engano ou doença. O sentimento metafísico é racionalizável, como todo o sentimento de uma coisa definida, que basta tornar-se inteiramente definida para se tornar matéria racional, ou científica. Proponho eu, simplesmente, que a matéria da metafísica, enquanto não está inteiramente definida, e portanto em estado de se pensar, e a metafísica se tornar ciência, seja ao menos sentida , e a metafísica seja arte; visto que tudo, bom ou mau, verdadeiro ou falso, tem afinal, porque existe, um direito vital a existir. A minha teoria estética e social no Ultimatum resume-se nisto: na irracionalização das actividades que não são (pelo menos ainda) racionalizáveis. Como a metafísica é uma ciência virtual, e a sociologia é outra, proponho a irracionalização de ambas — isto é, a metafísica tornada arte, o que a irracionaliza porque lhe tira a sua finalidade própria; e a sociologia tornada só a política, o que a irracionaliza porque a torna prática quando ela é teórica. Não proponho a substituição da metafísica pela religião e da sociologia pelo utopismo social, porque isso seria, não irracionalizar, mas subracionalizar essas actividades, dando-lhes, não uma finalidade diversa, mas um grau inferior da sua própria finalidade. É isto, em resumo, o que defendi no meu Ultimatum . E as teorias, política e estética, inteiramente originais e novas, que proponho nessa proclamação, são, por uma razão lógica, inteiramente irracionais, exactamente como a vida. ÁLVARO DE CAMPOS (l) Convém que, para prevenção dos leigos, se faça uma observação, embora digressiva, a este respeito. As ciências, ao aproximarem-se do estado matemático, tornam-se mais precisas: é porém duvidoso que, por isso, se tornem mais certas. Tanto os puros matemáticos como os leigos em matemática tendem a atribuir a essa ciência um carácter de «certeza» que não é necessariamente exacto. A matemática é uma linguagem perfeita, mais nada. Há a considerar a relatividade dos próprios princípios matemáticos — não a simples relatividade condicional, conhecida há muito de todos que sabem que para muita aplicação prática, isto é, verdadeiramente científica da matemática, é preciso introduzir coeficientes de correcção; mas uma relatividade mesmo incondicional, sobejamente demonstrada já, por exemplo e para a geometria, pela existência de geometrias não-euclidianas, tão «certas» na aplicação como a «clássica». Convém ainda avisar esses mesmos leigos que a expressão «relatividade» é aqui empregada no seu sentido tradicional e lógico, e não no sentido, aliás infeliz e absurdo, em que se chama «da relatividade» à teoria de Einstein, que é simplesmente uma teoria, primeiro restrita, depois generalizada, do movimento relativo. 1924 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 243. 1ª publ. in “Athena”, nº 2. Lisboa: Nov. 1924. E se todos ligam pouca importância à morte, nem conseguem Sofrendo, ter verdadeiramente a concentração de sofrer, É que a vida não crê na morte, é que a morte é nada. Embandeira em arco, a todas as cores, ao vento Sob o grande céu luminoso e azul da terra... Danças e cantos, Músicas alacres, Ruídos de risos e falas, e conversas banais, Acolham a morte que vem, porque a morte não vem, E a vida sente em todas as suas veias, O corpo acha em tudo o que nele é alma, Que a vida é tudo, e a morte é nada, e que o abismo É só a cegueira de ver, Que tudo isto não pode existir e deixar de existir, Porque existir é ser, e ser não se reduz ao nada. Ah, se todo este mundo claro, e estas flores e luz, Se todo este mundo com terra e mar e casas e gente, Se todo este mundo natural, social, intelectual, Estes corpos nus por baixo das vestes naturais, Se isto é ilusão, porque é que isto está aqui? Ó mestre Caeiro, só tu é que tinhas razão! Se isto não é, porque é que é? Se isto não pode ser, então porque pôde ser? Acolhei-a, ao chegar, A ela, à Morte, a esse erro da vista, Com os cheiros dos campos, e as flores cortadas trazidas ao colo, Com as romarias e as tardes pelas estradas, Com os ranchos festivos, e os lares contentes, Com a alegria e a dor, com o prazer e a mágoa, Com todo o vasto mar movimentado da vida. Acolhei-a sem medo, Como quem na estação de província, no apeadeiro campestre, Acolhe o viajante que há-de chegar no comboio de Além. Acolhei-a contentes, Crianças cantando de riso, corpos de jovens em fogo, Alegria rude e natural das tabernas, E os braços e os beijos e os sorrisos das raparigas. Embandeira em arco a cores de sangue e verde, Embandeira em arco a cores de luz e de fogo, Que a morte é a vida que veio mascarada, E o além será isto, isto mesmo, noutro presente Não sei de que novo modo diversamente. Gritai às alturas, Gritos pelos vales, Que a morte não tem importância nenhuma, Que a morte é um [suposto?], Que a morte é um (...) E que se tudo isto é um sonho, é a morte um sonho também. s.d. “A Partida”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 27l. PSIQUETIPIA (OU PSICOTIPIA) Símbolos. Tudo símbolos... Se calhar, tudo é símbolos... Serás tu um símbolo também? Olho, desterrado de ti, as tuas mãos brancas Postas, com boas maneiras inglesas, sobre a toalha da mesa, Pessoas independentes de ti... Olho-as: também serão símbolos? Então todo o mundo é símbolo e magia? Se calhar é... E porque não há-de ser? Símbolos... Estou cansado de pensar... Ergo finalmente os olhos para os teus olhos que me olham. Sorris, sabendo bem em que eu estava pensando... Meu Deus! e não sabes... Eu pensava nos símbolos... Respondo fielmente à tua conversa por cima da mesa... « It was very strange, wasn’t it? » « Awfully strange. And how did it end? » « Well, it didn’t end. It never does, you know. » Sim, you know... Eu sei... Sim, eu sei... É o mal dos símbolos, you know. Yes, I know . Conversa perfeitamente natural... Mas os símbolos? Não tiro os olhos de tuas mãos... Quem são elas? Meu Deus! Os símbolos... Os símbolos... 7-11-1933 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 296. APONTAMENTOS PARA UMA ESTÉTICA NÃO-ARISTOTÉLICA I Toda a gente sabe hoje, depois de o saber, que há geometrias chamadas não-euclidianas, isto é, que partem de postulados diferentes dos de Euclides, e chegam a conclusões diferentes. Estas geometrias têm cada uma um desenvolvimento lógico: são sistemas interpretativos independentes, independentemente aplicáveis à realidade. Foi fecundo em matemática e além da matemática (Einstein bastante lhe deve) este processo de multiplicar as geometrias «verdadeiras», e fazer, por assim dizer, abstracções de vários tipos na mesma realidade objectiva. Ora, assim como se podem formar, se formaram, e foi útil que se formassem, geometrias não euclidianas, não sei que razão se poderá invocar para que não possam formar-se, não se formem, e não seja útil que se formem, estéticas não-aristotélicas . Há muito tempo que, sem reparar que o fazia, formulei uma estética não aristotélica. Quero deixar escritos estes apontamentos para ela, em paralelo, não sei se modesto, com a tese de Riemann sobre a geometria clássica. Chamo estética aristotélica à que pretende que o fim da arte é a beleza, ou, dizendo melhor, a produção nos outros da mesma impressão que a que nasce da contemplação ou sensação das coisas belas. Para a arte clássica — e as suas derivadas, a romântica, a decadente, e outras assim — a beleza é o fim; divergem apenas os caminhos para esse fim, exactamente como em matemática se podem fazer diversas demonstrações do mesmo teorema. A arte clássica deu-nos obras grandes e sublimes, o que não quer dizer que a teoria da construção dessas obras seja certa, ou que seja a única teoria «certa». É frequente, aliás, e tanto na vida teórica como na prática, chegar-se a um resultado certo por processos incertos ou mesmo errados. Creio poder formular uma estética baseada, não na ideia de beleza, mas na de força — tomando, é claro, a palavra força no seu sentido abstracto e científico; porque se fosse no vulgar, tratar-se-ia, de certa maneira, apenas de uma forma disfarçada de beleza. Esta nova estética, ao mesmo tempo que admite como boas grande número de obras clássicas — admitindo-as porém por uma razão diferente da dos aristotélicos, que foi naturalmente também a dos seus autores — estabelece uma possibilidade de construírem novas espécies de obras de arte que quem sustente a teoria aristotélica não poderia prever ou aceitar. A arte, para mim, é, como toda a actividade , um indício de força, ou energia; mas, como a arte é produzida por entes vivos, sendo pois um produto da vida, as formas da força que se manifestam na arte são as formas da força que se manifestam na vida. Ora a força vital é dupla, de integração e de desintegração — anabolismo e catabolismo, como dizem os fisiologistas. Sem a coexistência e equilíbrio destas duas forças não há vida, pois a pura integração é a ausência da vida e a pura desintegração é a morte. Como estas forças essencialmente se opõem e se equilibram para haver, e enquanto há, vida, a vida é uma acção acompanhada automática e intrinsecamente da reacção correspondente. E é no automatismo da reacção que reside o fenómeno específico da vida. O valor de uma vida, isto é, a vitalidade de um organismo, reside pois na intensidade da sua força de reacção. Como, porém, esta reacção é automática, e equilibra a acção que a provoca, igual, isto é, igualmente grande, tem que ser a força de acção, isto é, de desintegração. Para haver intensidade ou valor vital (no conceito de vida não pode caber outro conceito de valor que não o de intensidade, isto é, de grau de vida), ou vitalidade, é forçoso que essas duas forças sejam ambas intensas, mas iguais, pois, se o não forem, não só não há equilíbrio mas também uma das forças é pequena, pelo menos em relação à outra. Assim o equilíbrio vital é, não um facto directo — como querem para a arte (não esqueçamos o fim destes apontamentos) os aristotélicos — mas o resultado abstracto do encontro de dois factos. Ora a arte, como é feita por se sentir e para se sentir — sem o que seria ciência ou propaganda — baseia-se na sensibilidade. A sensibilidade é pois a vida da arte. Dentro da sensibilidade, portanto, é que tem que haver a acção e a reacção que fazem a arte viver, a desintegração e integração que, equilibrando-se lhe dão vida. Se a força de integração viesse, na arte, de fora da sensibilidade, viria de fora da vida ; não se trataria de uma reacção automática ou natural, mas de uma reacção mecânica ou artificial. Como aplicaremos à arte o princípio vital de integração e desintegração? O problema não oferece dificuldades; como a maioria dos problemas, basta, para o resolver, ver bem que problema ele é. Indo ao aspecto fundamental da integração e da desintegração, isto é, à sua manifestação no mundo chamado inorgânico, vemos a integração manifestar-se como coesão, a desintegração como ruptibilidade , isto é, tendência a, por causas (neste nível) quase todas macroscopicamente externas — aliás perpetuamente operantes, em grau menor ou maior — o corpo se cindir, se quebrar, deixar de ser o corpo que é. No mundo chamado orgânico mantêm-se, variando o nome porque a forma de manifestação, estas duas forças. Na sensibilidade o princípio de coesão vem do indivíduo, que essa sensibilidade caracteriza, ou, antes, essa forma de sensibilidade, pois é a forma-tomando este termo no sentido abstracto e completo-que define o composto individualizado. Na sensibilidade o princípio de ruptibilidade está em variadíssimas forças, na sua maioria externas, que, porém se reflectem no indivíduo físico através da não-sensibilidade, isto é, da inteligência e da vontade — a primeira tendendo a desintegrar a sensibilidade perturbando-a, inserindo nela elementos (ideias) gerais e assim contrários necessariamente aos individuais, a tornar a sensibilidade humana em vez de pessoal; a segunda tendendo a desintegrar a sensibilidade limitando-a, tirando-lhe todos aqueles elementos que não sirvam, ou, por excessivos, à acção em si, ou, por supérfluos, à acção rápida e perfeita, a tornar pois a sensibilidade centrífuga em vez de centrípeta. Contra estas tendências disruptivas a sensibilidade reage, para coerir, e como toda a vida , reage por uma forma especial de coesão, que é a assimilação , isto é, a conversão dos elementos das forças estranhas em elementos próprios, em substância sua . Assim, ao contrário da estética aristotélica, que exige que o indivíduo generalize ou humanize a sua sensibilidade, necessariamente particular e pessoal, nesta teoria o percurso indicado é inverso: é o geral que deve ser particularizado, o humano que se deve pessoalizar, o «exterior» que se deve tornar «interior». Creio esta teoria mais lógica — se é que há lógica — que a aristotélica; e creio-o pela simples razão de que, nela, a arte fica o contrário da ciência, o que na aristotélica não acontece. Na estética aristotélica, como na ciência, parte-se, em arte, do particular para o geral; nesta teoria parte-se, em arte, do geral para o particular, ao contrário de na ciência, em que, com efeito e sem dúvida, é do particular para o geral que se parte. E como ciência e arte são, como é intuitivo e axiomático, actividades opostas, opostos devem ser os seus modos de manifestação, e mais provavelmente certa a teoria que dê esses modos como realmente opostos que aquela que os dê como convergentes ou semelhantes. II Acima de tudo, a arte é um fenómeno social. Ora no homem há duas qualidades directamente sociais, isto é, dizendo directamente respeito à sua vida social: o espírito gregário, que o faz sentir-se igual aos outros homens ou parecido com eles, e portanto aproximar-se deles; e o espírito individual ou separativo, que o faz afastar-se deles, colocar-se em oposição a eles, ser seu concorrente, seu inimigo, ou seu meio inimigo. Qualquer indivíduo é ao mesmo tempo indivíduo e humano: difere de todos os outros e parece-se com todos os outros. Uma vida social sã no indivíduo resulta do equilíbrio destes dois sentimentos: uma fraternidade agressiva define o homem social e são. Ora se a arte é um fenómeno social, no ser social vai já o elemento gregário; resta saber onde está nela o elemento separativo. Não o podemos buscar fora da arte, porque então haveria na arte um elemento estranho a ela, e ela seria tanto menos arte; temos que o buscar dentro da arte — isto é, o elemento separativo tem que se manifestar na arte também, e como arte . Quer isto dizer que, na arte, que é antes de tudo um fenómeno social, tanto o espírito gregário como o separativo têm que assumir a forma social . Ora o espírito separativo, antigregário, tem, é claro, duas formas: o afastamento dos outros, e a imposição do indivíduo aos outros, a sobreposição do indivíduo aos outros — o isolamento e o domínio . Destas duas formas a segunda é que é a forma social , pois isolar-se é deixar de ser social. A arte, portanto, é antes de tudo, um esforço para dominar os outros . Há, evidentemente, várias maneiras de dominar ou procurar dominar os outros; a arte é uma delas. Ora há dois processos de dominar ou vencer — captar e subjugar. Captar é o modo gregário de dominar ou vencer; subjugar é o modo antigregário de dominar ou vencer. Ora em todas as actividades sociais superiores há estes dois processos, porque fatalmente não pode haver outros; e se me refiro distintamente às actividades sociais superiores é que são estas, porque são superiores, as que envolvem a ideia de domínio. São três as actividades sociais superiores — a política, a religião e a arte. Em cada um destes ramos da actividade social superior há o processo de captação e o processo de subjugação. Na política há a democracia, que é a política de captação, e a ditadura, que é a política de subjugação. É democrático todo o sistema que vive de agradar e de captar — seja a captação oligárquica ou plutocrática da democracia moderna, que, no fundo, não capta senão certas minorias, que incluem ou excluem a maioria autêntica; seja a captação mística e representativa da monarquia medieval, único sistema portanto verdadeiramente democrático, pois só a monarquia, pelo seu carácter essencialmente místico, pode captar as maiorias e os conjuntos, organicamente místicos na sua profunda vida mental. É ditatorial todo o sistema político que vive de subordinar e de subjugar — seja o despotismo artificial do tirano de força física, inorgânico e irrepresentativo, como nos impérios decadentes e nas ditaduras políticas ; seja o despotismo natural do tirano de força mental, orgânico e representativo, enviado oculto, na ocasião da sua hora, dos destinos subconscientes de um povo. Na religião há a metafísica, que é a religião de captação, porque tenta insinuar-se pelo raciocínio, e explicar ou provar é querer captar; e há a religião propriamente dita, que é o sistema de subjugação, porque subjuga pelo dogma improvado e pelo ritual inexplicável, agindo assim directa e superiormente sobre a confusão das almas. Assim como na política e na religião, assim na arte. Há uma arte que domina captando, outra que domina subjugando. A primeira é a arte segundo Aristóteles, a segunda a arte como eu a entendo e defendo. A primeira baseia-se naturalmente na ideia de beleza , porque se baseia no que agrada ; baseia-se na inteligência , porque se baseia no que, por ser geral, é compreensível e por isso agradável ; baseia-se na unidade artificial, construída e inorgânica, e portanto visível , como a de uma máquina, e por isso apreciável e agradável. A segunda baseia-se naturalmente na ideia de força , porque se baseia no que subjuga ; baseia-se na sensibilidade , porque é a sensibilidade que é particular e pessoal, e é com o que é particular e pessoal em nós que dominamos, porque, se não fosse assim, dominar seria perder a personalidade, ou, em outras palavras, ser dominado; e baseia-se na unidade espontânea e orgânica, natural , que pode ser sentida ou não sentida, mas que nunca pode ser vista ou visível, porque não está ali para se ver. Toda a arte parte da sensibilidade e nela realmente se baseia. Mas, ao passo que o artista aristotélico subordina a sua sensibilidade à sua inteligência, para poder tornar essa sensibilidade humana e universal, ou seja para a poder tornar acessível e agradável, e assim poder captar os outros, o artista não-aristotélico subordina tudo à sua sensibilidade, converte tudo em substância de sensibilidade, para assim, tornando a sua sensibilidade abstracta como a inteligência (sem deixar de ser sensibilidade), emissora como a vontade (sem que seja por isso vontade), se tornar um foco emissor abstracto sensível que force os outros, queiram eles ou não, a sentir o que ele sentiu, que os domine pela força inexplicável, como o atleta mais forte domina o mais fraco, como o ditador espontâneo subjuga o povo todo (porque é ele todo sintetizado e por isso mais forte que ele todo somado), como o fundador de religiões converte dogmática e absurdamente as almas alheias na substância de uma doutrina que, no fundo, não é senão ele próprio. O artista verdadeiro é um foco dinamogéneo; o artista falso, ou aristotélico, é um mero aparelho transformador, destinado apenas a converter a corrente contínua da sua própria sensibilidade na corrente alterna da inteligência alheia. Ora entre os artistas «clássicos», isto é, aristotélicos, há verdadeiros e falsos artistas; e também nos não-aristotélicos há verdadeiros artistas e há simples simuladores — porque não é a teoria que faz o artista, mas o ter nascido artista. O que porém entendo e defendo é que todo o verdadeiro artista está dentro da minha teoria, julgue-se ele aristotélico ou não; e todo o falso artista está dentro da teoria aristotélica, mesmo que pretenda ser não-aristotélico. É o que falta explicar e demonstrar. A minha teoria estética baseia-se — ao contrário da aristotélica, que assenta na ideia de beleza — na ideia de força. Ora a ideia de beleza pode ser uma força. Quando a «ideia» de beleza seja uma «ideia» da sensibilidade, uma emoção e não uma ideia, uma disposição sensível do temperamento, essa «ideia» de beleza é uma força. Só quando é uma simples ideia intelectual de beleza é que não é uma força. Assim a arte dos gregos é grande mesmo no meu critério, e sobretudo o é no meu critério. A beleza, a harmonia, a proporção não eram para os gregos conceitos da sua inteligência, mas disposições íntimas da sua sensibilidade. É por isso que eles eram um povo de estetas , procurando, exigindo a beleza todos, em tudo, sempre . É por isso que com tal violência emitiram a sua sensibilidade sobre o mundo futuro que ainda vivemos súbditos da opressão dela. A nossa sensibilidade, porém, é já tão diferente — de trabalhada que tem sido por tantas e tão prolongadas forças sociais — que já não podemos receber essa emissão com a sensibilidade, mas apenas com a inteligência. Consumou este nosso desastre estético a circunstância de que recebemos em geral essa emissão da sensibilidade grega através dos romanos e dos franceses. Os primeiros, embora próximos dos gregos no tempo, eram, e foram sempre, a tal ponto incapazes de sentimento estético que tiveram que se valer da inteligência para receber a emissão da estética grega. Os segundos, estreitos de sensibilidade e pseudovivazes de inteligência, capazes portanto de «gosto» mas não de emoção estética, deformaram a já deformada romanização do helenismo, fotografaram elegantemente a pintura romana de uma estátua grega. Já é grande, para quem souber medi-la, a distância que vai da « Ilíada » à « Eneida » — tão grande que a não oculta mesmo uma tradução; a de um Píndaro a um Horácio parece infinita. Mas não é menor a que separa mesmo um Homero bidimensional como Vergílio, ou um Píndaro em projecção de mercator como Horácio, da chateza morta dum Boileau, dum Corneille, dum Racine, de todo o insuperável lixo estético do «classicismo» francês, esse «classicismo» cuja retórica póstuma ainda estrangula e desvirtua a admirável sensibilidade emissora de Vítor Hugo. Mas, assim como para os « clássicos», ou pseudoclássicos — os «aristotélicos» propriamente ditos — a beleza pode estar, não nas disposições da sua sensibilidade, mas só nas preocupações da sua razão, assim, para os não-aristotélicos postiços, pode a força ser uma ideia da inteligência e não uma disposição da sensibilidade. E assim como a simples ideia intelectual de beleza não habilita a criar beleza, porque só a sensibilidade verdadeiramente cria, porque verdadeiramente emite , assim também a simples ideia intelectual de força, ou de não-beleza, não habilita a criar, mais que a outra, a força ou a não-beleza que pretende criar. É por isso que há — e em que abundância os há! — simuladores da arte da força ou da não-beleza, que nem criam beleza nem não-beleza, porque positivamente não podem criar nada; que nem fazem arte aristotélica falsa, porque a não querem fazer, nem arte aristotélica falsa, porque não pode haver arte não-aristotélica falsa. Mas em tudo isto fazem sem querer, e ainda que mal, arte aristotélica, porque fazem arte com a inteligência, e não com a sensibilidade. A maioria, senão a totalidade, dos chamados realistas, naturalistas, simbolistas, futuristas, são simples simuladores, não direi sem talento, mas pelo menos, e só alguns, só com o talento da simulação. O que escrevem, pintam ou esculpem pode ter interesse, mas é o interesse dos acrósticos, dos desenhos de um só traço e de outras coisas assim. Logo que se lhe não chame «arte», está bem. De resto, até hoje, data em que aparece pela primeira vez uma autêntica doutrina não aristotélica da arte, só houve três verdadeiras manifestações de arte não-aristotélica. A primeira está nos assombrosos poemas de Walt Whitman; a segunda está nos poemas mais que assombrosos do meu mestre Caeiro; a terceira está nas duas odes — a Ode Triunfal e a Ode Marítima — que publiquei no « Orpheu ». Não pergunto se isto é imodéstia. Afirrno que é verdade. ÁLVARO DE CAMPOS 1924 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 251. 1ª publ. in “Athena”, nº 3 e 4. Lisboa: Dez.-Jan. 1924-25. Meu amor perdido, não te choro mais, que eu não te perdi! Porque posso perder-te na rua, mas não posso perder-te no ser, Que o ser é o mesmo em ti e em mim. Muito é ausência, nada é perda! Todos os mortos — gente, dias, desejos, Amores, ódios, dores, alegrias — Todos estão apenas em outro continente... Chegará a vez de eu partir e ir vê-los. De se reunir a família e os amantes e os amigos Em abstracto, em real, em perfeito Em definitivo e divino. Reunir-me-ei em vida e morte Aos sonhos que não realizei Darei os beijos nunca dados, Receberei os sorrisos, que me negaram, Terei em forma de alegria as dores que tive... Ah, comandante, quanto tarda ainda A partida do transatlântico? Faz tocar a banda de bordo — Músicas alegres, banais, humanas, como a vida — Faz partir, que eu quero partir... Som do erguer do ferro, meu estertor Quando é que por fim eu te ouvirei? Fremir do costado pela pulsação das máquinas — Meu coração no bater final convulso —, [Toque de vigias, suspiros do porto?] (...) Lenços a acenarem-me do cais em que ficam... Até mais tarde, até quando vierdes, até sempre! Até o eterno em alegre Agora, Até o (...) s.d. “A Partida”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 27m. AMBIENTE Nenhuma época transmite a outra a sua sensibilidade; transmite-lhe apenas a inteligência que teve dessa sensibilidade. Pela emoção somos nós; pela inteligência somos alheios. A inteligência dispersa-nos; por isso é através do que nos dispersa que nos sobrevivemos. Cada época entrega às seguintes apenas aquilo que não foi. Um deus, no sentido pagão, isto é, verdadeiro, não é mais que a inteligência que um ente tem de si próprio, pois essa inteligência, que tem de si próprio, é a forma impessoal, e por isso ideal, do que é. Formando de nós um conceito intelectual, formamos um deus de nós próprios. Raros, porém, formam de si próprios um conceito intelectual, porque a inteligência é essencialmente objectiva. Mesmo entre os grandes génios são raros os que existiram para si próprios com plena objectividade. Viver é pertencer a outrem. Morrer é pertencer a outrem. Viver e morrer são a mesma coisa. Mas viver é pertencer a outrem de fora , e morrer é pertencer a outrem de dentro . As duas coisas assemelham-se, mas a vida é o lado de fora da morte. Por isso a vida é a vida e a morte a morte, pois o lado de fora é sempre mais verdadeiro que o lado de dentro, tanto que é o lado de fora que se vê. Toda a emoção verdadeira é mentira na inteligência, pois se não dá nela. Toda a emoção verdadeira tem portanto uma expressão falsa. Exprimir-se é dizer o que se não sente. Os cavalos da cavalaria é que formam a cavalaria. Sem as montadas, os cavaleiros seriam peões. O lugar é que faz a localidade. Estar é ser. Fingir é conhecer-se. 1927 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 263. 1ª publ. in “Presença”, nº 5. Coimbra: Jun. 1927. Grande libertador, Que quebraste as algemas de todas as mortes — as do corno e as da alma, A morte, a doença, a tristeza, A arte, a ciência, a filosofia,... Grande libertador Que arrasaste os muros da cadeia velha E fizeste ruir os andaimes da cadeia nova, Que abriste de par em par as janelas todas Das salas todas de todas as casas E o vento real limpa do fumo e do sono As salas dadas aos prazeres das salas, s.d. “A Partida”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 27n. NOTAS PARA A RECORDAÇÃO DO MEU MESTRE CAEIRO (algumas delas) Conheci o meu mestre Caeiro em circunstâncias excepcionais — como todas as circunstâncias da vida, e sobretudo as que, não sendo nada em si mesmas, hão-de vir a ser tudo nos resultados. Deixei em quase três quartos o meu curso escocês de engenharia naval; parti numa viagem ao Oriente; no regresso, desembarcando em Marselha, e sentindo um grande tédio de seguir, vim por terra até Lisboa. Um primo meu levou-me um dia de passeio ao Ribatejo; conhecia um primo de Caeiro, e tinha com ele negócios; encontrei-me com o que havia de ser meu mestre em casa desse primo. Não há mais que contar, porque isto é pequeno, como toda a fecundação. Vejo ainda, com claridade da alma, que as lágrimas da lembrança não empanam, porque a visão não é externa... Vejo-o diante de mim, vê-lo-ei talvez eternamente como primeiro o vi. Primeiro, os olhos azuis de criança que não têm medo; depois, os malares já um pouco salientes, a cor um pouco pálida, e o estranho ar grego, que vinha de dentro e era uma calma, e não de fora, porque não era expressão nem feições. O cabelo, quase abundante, era louro, mas, se faltava luz, acastanhava-se. A estatura era média, tendendo para mais alta, mas curvada, sem ombros altos. O gesto era branco, o sorriso era como era, a voz era igual, lançada num tom de quem não procura senão dizer o que está dizendo-nem alta, nem baixa, clara, livre de intenções, de hesitações, de timidezas. O olhar azul não sabia deixar de fitar. Se a nossa observação estranhava qualquer coisa, encontrava-a: a testa, sem ser alta, era poderosamente branca. Repito: era pela sua brancura, que parecia maior que a da cara pálida, que tinha majestade. As mãos um pouco delgadas, mas não muito; a palma era larga. A expressão da boca, a última coisa em que se reparava — como se falar fosse, para este homem, menos que existir — era a de um sorriso como o que se atribui em verso às coisas inanimadas belas, só porque nos agradam — flores, campos largos, águas com sol — um sorriso de existir, e não de nos falar. Meu mestre, meu mestre, perdido tão cedo! Revejo-o na sombra que sou em mim, na memória que conservo do que sou de morto... Foi durante a nossa primeira conversa. Como foi não sei, e ele disse: «Está aqui um rapaz Ricardo Reis que há-de gostar de conhecer: ele é muito diferente de si». E depois acrescentou, «tudo é diferente de nós, e por isso é que tudo existe». Esta frase, dita como se fosse um axioma da terra, seduziu-me com um abalo, como o de todas as primeiras posses, que me entrou nos alicerces da alma. Mas, ao contrário da sedução material, o efeito em mim foi de receber de repente, em todas as minhas sensações, uma virgindade que não tinha tido. * Referindo-me, uma vez, ao conceito directo das coisas, que caracteriza a sensibilidade de Caeiro, citei-lhe, com perversidade amiga, que Wordsworth designa um insensível pela expressão: A primrose by the river's brim A yellow primrose was to him And it was nothing more. E traduzi (omitindo a tradução exacta de «primrose», pois não sei nomes de flores nem de plantas): «Uma flor à margem do rio para ele era uma flor amarela, e não era mais nada». O meu mestre Caeiro riu. «Esse simples via bem: uma flor amarela não é realmente senão uma flor amarela». Mas, de repente, pensou. «Há uma diferença», acrescentou. «Depende se se considera a flor amarela como uma das várias flores amarelas, ou como aquela flor amarela só». E depois disse: «O que esse seu poeta inglês queria dizer é que para o tal homem essa flor amarela era uma experiência vulgar, ou coisa conhecida. Ora isso é que não está bem. Toda a coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos. E então cada flor amarela é uma nova flor amarela, ainda que seja o que se chama a mesma de ontem. A gente não é já o mesmo nem a flor a mesma. O próprio amarelo não pode ser já o mesmo. É pena a gente não ter exactamente os olhos para saber isso, porque então éramos todos felizes». * O meu mestre Caeiro não era um pagão: era o paganismo. O Ricardo Reis é um pagão, o António Mora é um pagão, eu sou um pagão; o próprio Fernando Pessoa seria um pagão, se não fosse um novelo embrulhado para o lado de dentro. Mas o Ricardo Reis é um pagão por carácter, o António Mora é um pagão por inteligência, eu sou um pagão por revolta, isto é, por temperamento. Em Caeiro não havia explicação para o paganismo; havia consubstanciação. Vou definir isto da maneira em que se definem as coisas indefiníveis — pela cobardia do exemplo. Uma das coisas que mais nitidamente nos sacodem na comparação de nós com os gregos é a ausência de conceito de infinito, a repugnância de infinito, entre os gregos. Ora o meu mestre Caeiro tinha lá mesmo esse mesmo conceito. Vou contar, creio que com grande exactidão, a conversa assombrosa em que mo revelou. Referia-me ele, aliás desenvolvendo o que diz num dos poemas de « O Guardador de Rebanhos », que não sei quem lhe tinha chamado em tempos «poeta materialista». Sem achar a frase justa, porque o meu mestre Caeiro não é definível com qualquer frase justa, disse, contudo, que não era absurda de todo a atribuição. E expliquei-lhe, mais ou menos bem, o que é o materialismo clássico. Caeiro ouviu-me com uma atenção de cara dolorosa, e depois disse-me bruscamente: «Mas isso o que é é muito estúpido. Isso é uma coisa de padres sem religião, e portanto sem desculpa nenhuma». Fiquei atónito, e apontei-lhe várias semelhanças entte o materialismo e a doutrina dele, salva a poesia desta última. Caeiro protestou. «Mas isso a que V. chama poesia é que é tudo. Nem é poesia: é ver. Essa gente materialista é cega. V. diz que eles dizem que o espaço é infinito. Onde é que eles viram isso no espaço?» E eu, desnorteado. «Mas V. não concebe o espaço como infinito? Você não pode conceber o espaço como infinito?» «Não concebo nada como infinito. Como é que eu hei-de conceber qualquer coisa como infinito?» «Homem», disse eu, «suponha um espaço. Para além desse espaço há mais espaço, para além desse mais, e depois mais, e mais, e mais... Não acaba...» «Porquê?» disse o meu mestre Caeiro. Fiquei num terramoto mental. «Suponha que acaba», gritei. «O que há depois?» «Se acaba, depois não há nada», respondeu. Este género de argumentação, cumulativamente infantil e feminina, e portanto irresponsável, atou-me o cérebro durante uns momentos. «Mas V. concebe isso?» deixei cair por fim. «Se concebo o quê? Uma coisa ter limites? Pudera! O que não tem limites não existe. Existir é haver outra coisa qualquer e portanto cada coisa ser limitada. O que é que custa conceber que uma coisa é uma coisa, e não está sempre a ser uma outra coisa que está mais adiante?» Nessa altura senti carnalmente que estava discutindo, não com outro homem, mas com outro universo. Fiz uma última tentativa, um desvio que me obriguei a sentir legítimo. «Olhe, Caeiro... Considere os números... Onde é que acabam os números? Tomemos qualquer número — 34, por exemplo. Para além dele temos 35, 36, 37, 38, e assim sem poder parar. Não há número grande que não haja um número maior. . .» «Mas isso são só números», protestou o meu mestre Caeiro. E depois acrescentou, olhando-me com uma formidável infância: «O que é o 34 na realidade?» * Há frases repentinas, profundas porque vêm do profundo, que definem um homem, ou, antes, com que um homem se define, sem definição. Não me esquece aquela em que Ricardo Reis uma vez se me definiu. Falava-se de mentir, e ele disse: «Abomino a mentira, porque é uma inexactidão». Todo o Ricardo Reis — passado, presente e futuro — está nisto. O meu mestre caeiro, como não dizia senão o que era, pode ser definido por qualquer frase sua, escrita ou falada, sobretudo depois do período que começa do meio em diante de « O Guardador de Rebanhos ». Mas, entre tantas frases que escreveu e se imprimem, entre tantas que me disse o relato ou não relato, a que o contém com maior simplicidade é aquela que uma vez me disse em Lisboa. Falava-se de não sei quê que tinha que ver com as relações de cada qual consigo mesmo. E eu perguntei de repente ao meu mestre Caeiro, «está contente consigo?» E ele respondeu: «Não: estou contente». Era como a voz da Terra, que é tudo e ninguém. * Nunca vi triste o meu mestre Caeiro. Não sei se estava triste quando morreu, ou nos dias antes. Seria possível sabê-lo, mas a verdade é que nunca ousei perguntar aos que assistiram à morte qualquer coisa da morte ou de como ele a teve. Em todo o caso, foi uma das angústias da minha vida — das angústias reais em meio de tantas que têm sido fictícias — que Caeiro morresse sem eu estar ao pé dele. Isto é estúpido mas humano, e é assim. Eu estava em Inglaterra. O próprio Ricardo Reis não estava em Lisboa; estava de volta no Brasil. Estava o Fernando Pessoa, mas é como se não estivesse. O Fernando Pessoa sente as coisas mas não se mexe, nem mesmo por dentro. Nada me consola de não ter estado em Lisboa nesse dia, a não ser aquela consolação que pensar no meu mestre Caeiro espontaneamente me dá. Ninguém é inconsolável ao pé da memória de Caeiro, ou dos seus versos; e a própria ideia do nada — a mais pavorosa de todas se se pensa com a sensibilidade — tem, na obra e na recordação do meu mestre querido, qualquer coisa de luminoso e de alto, como o sol sobre as neves dos píncaros inatingíveis. 1931 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 267. Lacunas completadas segundo o original. 1ª publ. in “Presença”, nº 30. Coimbra: Jan.-Fev. 1931. Agora que estou quase na morte e vejo tudo já claro, Grande Libertador, volto submisso a ti. Sem dúvida teve um fim a minha personalidade. Sem dúvida porque se exprimiu, quis dizer qualquer coisa Mas hoje, olhando pra trás, só uma ânsia me fica — Não ter tido a tua calma superior a ti-próprio, A tua libertação constelada de Noite Infinita. Não tive talvez missão alguma na terra, s.d. “A Partida”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 27o. NOTA AO ACASO O poeta superior diz o que efectivamente sente. O poeta médio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir. Nada disto tem que ver com a sinceridade. Em primeiro lugar, ninguém sabe o que verdadeiramente sente: é possível sentirmos alívio com a morte de alguém querido, e julgar que estamos sentindo pena, porque é isso que se deve sentir nessas ocasiões. A maioria da gente sente convencionalmente, embora com a maior sinceridade humana; o que não sente é com qualquer espécie ou grau de sinceridade intelectual, e essa é que importa no poeta. Tanto assim é que não creio que haja, em toda a já longa história da Poesia, mais que uns quatro ou cinco poetas, que disessem o que verdadeiramente, e não só efectivamente, sentiam. Há alguns, muito grandes, que nunca o disseram, que foram sempre incapazes de o dizer. Quando muito há, em certos poetas, momentos em que dizem o que sentem. Aqui e ali o disse Wordsworth. Uma ou duas vezes o disse Coleridge: pois a Rima do Velho Nauta e Kubla Khan são mais sinceros que todo o Milton, direi mesmo que todo o Shakespeare. Há apenas uma reserva com respeito a Shakespeare: é que Shakespeare era essencial e estruturalmente factício; e por isso a sua constante insinceridade chega a ser uma constante sinceridade, de onde a sua grandeza. Quando um poeta inferior sente, sente sempre por caderno de encargos. Pode ser sincero na emoção: que importa, se o não é na poesia? Há poetas que atiram com o que sentem para o verso; nunca verificaram que o não sentiram. Chora Camões a perda da alma sua gentil; e afinal quem chora é Petrarca. Se Camões tivesse tido a emoção sinceramente sua, teria encontrado uma forma nova, palavras novas — tudo menos o soneto e o verso de dez sílabas. Mas não: usou o soneto em decassílabos como usaria luto na vida. O meu mestre Caeiro foi o único poeta inteiramente sincero do mundo. 1935 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 275. 1ª publ. in “Sudoeste”, nº 3. Lisboa: Nov. 1935. Minha imaginação é um Arco de Triunfo. Por baixo passa roda a Vida. Passa a vida comercial de hoje, automóveis, camiões, Passa a vida tradicional nos trajes de alguns regimentos, Passam todas as classes sociais, passam todas as formas de vida, E no momento em que passam na sombra do Arco de Triunfo Qualquer coisa de triunfal cai sobre eles, E eles são, um momento, pequenos e grandes. São momentaneamente um triunfo que eu os faço ser. O Arco de Triunfo da minha Imaginação Assenta de um lado sobre Deus e do outro Sobre o quotidiano, sobre o mesquinho (segundo se julga), Sobre a faina de todas as horas, as sensações de todos os momentos, E as rápidas intenções que morrem antes do gesto. Eu-próprio, aparte e fora da minha imaginação, E contudo parte dela, Sou a figura triunfal que olha do alto do arco, Que sai do arco e lhe pertence, E fita quem passa por baixo elevada e suspensa, Monstruosa e bela. Mas às grandes horas da minha sensação, Quando em vez de rectilínea, ela é circular E gira vertiginosamente sobre si-própria, O Arco desaparece, funde-se com a gente que passa, E eu sinto que sou o Arco, e o espaço que ele abrange, E toda a gente que passa, E todo o passado da gente que passa, E todo o futuro da gente que passa, E toda a gente que passará E toda a gente que já passou. Sinto isto, e ao senti-lo sou cada vez mais A figura esculpida a sair do alto do arco Que fita para baixo O universo que passa. Mas eu próprio sou o Universo, Eu próprio sou sujeito e objecto, Eu próprio sou Arco e Rua, Eu próprio cinjo e deixo passar, abranjo e liberto, Fito de alto, e de baixo fito-me fitando, Passo por baixo, fico em cima, quedo-me dos lados, Totalizo e transcendo, Realizo Deus numa arquitectura triunfal De arco de Triunfo posto sobre o universo, De arco de triunfo construído Sobre todas as sensações de todos que sentem E sobre todas as sensações de todas as sensações... Poesia do ímpeto e do giro, Da vertigem e da explosão, Poesia dinâmica, sensacionista, silvando Pela minha imaginação fora em torrentes de fogo, Em grandes rios de chama, em grandes vulcões de lume. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 28. OUTRA NOTA AO ACASO Toda a arte é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa. Há duas formas de dizer — falar e estar calado. As artes que não são a literatura são as projecções de um silêncio expressivo. Há que procurar em toda a arte que não é a literatura a frase silenciosa que ela contém, ou o poema, ou o romance, ou o drama. Quando se diz «poema sinfónico» fala-se exactamente, e não de um modo translato e fácil. O caso parece menos simples para as artes visuais, mas, se nos prepararmos com a consideração de que linhas, planos, volumes, cores, justaposições e contraposições são fenómenos verbais dados sem palavras ou antes por hieroglifos espirituais, compreenderemos como compreender as artes visuais, e, ainda que as não cheguemos a compreender ainda, teremos, ao menos, já em nosso poder o livro que contém a cifra e a alma que pode conter a decifração. Tanto basta até chegar o resto. 1936 Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. - 279. 1ª publ. in “Presença”, nº 48. Coimbra: Jul. 1936. Com as malas feitas e tudo a bordo E nada mais a esperar da terra que deixamos, Já com os trajes moles característicos dos viajantes, debruçados da amurada Digamos adeus com um levantar da alegria ao que fica, Adeus às afeições, e aos pensamentos domésticos, e às lareiras, e aos irmãos, E enquanto se abre o espaço entre o navio lento e o cais Gozemos uma grande esperança indefinida e arrepiada, Uma trémula sensação de futuro. Eis-nos a caminho, e quase a meio do rio Aumenta a nitidez deixada na terra Dos alpendres e dos guindastes ou das mercadorias descarregadas E não é a nós, felizmente, que diz adeus aquela família Aglomerada no extremo do cais, com um cuidado subjectivo e visível De não cair dentro de água no meio da emoção. Olhemos para os companheiros de bordo. Como são diversos! Uns vão em trânsito. Não é com eles nenhuma destas despedidas. Outros, com um ar palidamente sorridente de não querer chorar, Acenam com um gesto deselegante e pouco afoito com os lenços Para lenços que se acenam de outra gente que ficou no cais No cais — ah reparem — subitamente tão mais longe do que notámos. A amargura alegre da ida, O sabor especial a começo de viagem marítima, a mistura com nossos sentidos De cheiro das malas, de cheiro a navio, de cheiro a comida de bordo, E a nossa alma é um composto confuso de cheiros e sabores E tudo é a viagem indefinida que faremos vista através do paladar e do olfacto, Tudo é a incerteza sensual da vida sentida pela espinha abaixo... E nós não deixamos ninguém... Se deixássemos, ah os lenços que lindos!, o navio que se afasta Afastar-se-ia de mais do que da terra; Afastava-se do nosso passado todo, de nós-mesmos, ficados no cais e aqui a caminho, Do sentimento doméstico com que beijamos a nossa mãe, Da alegria com que às vezes, brincando, arreliamos as nossas irmãs... Partir! partir é viver excessivamente. O que é tudo senão partir... Todos os dias do cais da nossa vida nos separamos, navios (...), E vamos para o futuro como se fossemos para o Mistério, Mas que sabemos nós para onde vamos, ó dor, e o que somos, E que proteico e fluido Deus é tutelar das partidas? Olha, de longe, já os guindastes ainda mexendo, Olha as figuras no cais, negras figuras, manchadas de lenços que se acenam, Olha os casarões de zinco ondulado dos cais e docas, às portas deles, O sossego destacado e acostumado a isto dos empregados e dos carregadores... Vai tal angústia, tão inexplicável angústia na minha alma, Que não sei como têm coragem, vendo que eu grito assim, para estarem parados No cais, tranquilamente os descarregadores e os guardas fiscais! Bebedeira da vida... ligeiro nervoso nas nossas sensações... Perturbação alcoólica dos nossos sentidos íntimos... A nossa alma sai um pouco para fora do seu lugar E as rodas da nossa vida quotidiana começam a cambalear como se fossem sair do eixo... Pelo convés fora a gente que já está acostumada a estar aqui a bordo Está alheia a isto e interessada contudo (Ah [enquanto eu atirar meu directo olhar, nunca?] olhar tranquilo, Fremem em mim os nervos vibrados de todos que vejo que sentem, Correm-me dos olhos as lágrimas de todos que choram porque se separam, Tenho nas mãos os gestos circulares de mãos saudosas já que acenam com lenços, Sou todas as penas que toda esta gente tem de se ir embora... Sou as esperanças que levam consigo e agora lhes fazem mais trémula a dor da partida, Estou [...] por dentro deles todos, na roupa que compraram para a viagem, Nos pequenos objectos que, na véspera («Lá me ia esquecendo» dizem, e era uma coisa inútil) Compraram de noite numa loja feérica cheia de malas de couro e que ia fechar... Ah, com todos os nervos de toda a gente, os meus nervos vibram... E com os estremeções das máquinas do navio, e com o estralejar da bandeira ao vento E com o túmido tremor das enxárcias e com o ondular dos toldos E toda a minha alma é uma dolorosa vibração física em ritmos de mim). Vida cosmopolita atirada aos quatro ventos... Vida de tanta gente real a bordo de tantos navios... Embriaguez de lidar com outra gente e saber que eles existem e têm vidas passadas, preparadas, gozadas, Sofridas, e tão curioso o traje, interessante a moral, de cada pessoa, E tão cheio de enigmas e de metafísicas o modo como falam, como riem, como arranjam o cabelo, como se entendem uns com os outros... Sensação metafísica das outras pessoas e das suas realidades, e do seu décor... Ó doença humanitária dos meus nervos vibrando cheios de outras pessoas, Volúpia de gozar e sofrer através de hipóteses dos outros... E eu ser só eu, só eu eternamente, e não ter outras vidas senão a minha! Como se tocassem o fado de repente à meia-noite numa aldeia na América do Norte, Um fatalismo metafísico com os nervos de toda a gente vibra em mim a cada momento Quando reparo cosmopoliticamente nos outros, e ouço várias línguas E vejo nos gestos e nos trajes — que parecem idênticos mas são tão diferentes — várias pátrias, vários costumes, E entrevejo lares diversos, vidas comerciais complexas, amores desconhecidos, mas de cidades que desconheço, Tudo como num animatógrafo num teatro do tamanho do Universo, Onde se soubesse que acabava o mundo e saindo para fora, Não há casa para onde se regresse, nem automóvel que nos leve para um lugar qualquer, Mas a Noite Absoluta, e Deus talvez como uma Lua Enorme significando IV Profunda e religiosa solidão do indefinido Universo, Vastidão enorme, nem larga nem alta nem comprida, mas só espaço, o constelado espaço Deste mistério azul-negro e estrelado onde a terra é uma coisa E as vidas aparecem como lanchas à superfície da água... Raios de sol entrando pela janela entreaberta no quarto da casa de campo, Meios-dias nas eiras abandonadas, Tardes noites para encontros em outras margens de rios, Fazei do nosso conseguimento natural um sossego, uma capa E descei sobre a minha alma... Vós, ó campos repousados e incivilizados Vós ó rios tranquilamente passando por uma inquietação, Vós ó jardins públicos às tardes visitados Vós ó tanques de quintas, vós ó lareiras em solares, E disperso arfar de sedas pretas o silêncio da noite. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 29. Meu cérebro fotográfico... Vaga náusea física... o cies no longe cheira-me a aqui perto... Que tristeza a de partir! What time did the captain say an order to leave? de partir e deixar atrás de nós Não só as pedras da cidade, e as casas e a cidade vista de longe Mas oh, [...] just ever and ever on that village on the other side up at river, it's just perfect in this [...] Também as memórias antigas, as carícias maternas hoje na sepultura, Tudo isso parece que ficou aqui, deixado aqui, e nós indo sem levar isso tudo... Non, Monsieur, c'est de l'autre bord... Ó Chico, não te chegues para fora ([...] oh!) podes cair! Que lume na lenha da velha lareira provinciana — o senhor dá-me licença?... passa uma farda de guarda fiscal pelo meu ombro — e dos contos que me contavam nas noites de inverno u-uf-u-u-u-u... o apito do vapor... Et vous aussi, Mark — Sim senhor, para o Rio de Janeiro Tenho lá... yes, all the time... Ó pobre pequenino rio da minha terra! O ruído da água — shl, shl, shlbrtsher, shlbrtsher, e o meu velho primo, perdido para sempre Quase que me esqueço de me poder lembrar dele came into the smoking room... God [...] Lisboa? Oh, yes, but not (entram para dentro alguns dias [...] através da minha sensação deles no meu cérebro que não tem olhos para os ver) u-u-u-u-u-u-u u u-u u-u-u-u-u-u u-u-u-u-u-u-u-u-u u-u-u-u-u-u-u u-u-u-u-u-u u u-u-u u-u-u u-u u-fff-(uu uff) f.f. (fff) 1916? Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 30. Foi numa das minhas viagens... Era mar-alto e luar. Cessara o ruído da noite a bordo. Um a um grupo a grupo, recolheram-se os passageiros, A banda era só uma estante que ficara a um canto não sei porquê... Só na sala de fumo em silêncio jogava xadrez... A vida soava pela porta aberta para a casa das máquinas. Só... E um era uma alma nua diante do Universo... (Ó minha vila natal em Portugal tão longe! Porque não morri eu criança quando só te conhecia a ti?) Ah. quando nos fazemos ao mar Quando largamos da terra, quando a vamos perdendo de vista, Quando tudo se vai enchendo de vento puramente marítimo, Quando a costa se torna uma linha sombria, Nessa linha cada vez mais vaga no anoitecer (pairam luzes) — Ah então que alegria de liberdade para quem se sente. Cessa de haver razão para existir socialmente. Não há já razões para amar, odiar, dever, Não há já leis, não há mágoas que tenham sabor humano... Há só a Partida Abstracta, o movimento das águas O movimento do afastamento, o som Das ondas arrulhando à proa, E uma grande paz intranquila entrando suave, no espírito. Ah ter toda a minha vida Fixa instavelmente num momento destes, Ter todo o sentido da minha duração sobre a terra Tornado um afastamento dessa costa onde deixei tudo — Amores, irritações, tristezas, cumplicidades, deveres, A angústia irrequieta dos remorsos, A fadiga da inutilidade de tudo, A saciedade até das coisas imaginadas, A náusea, as luzes, As pálpebras pesadas sobre a minha vida perdida... Irei p'ra longe, p'ra longe! P'ra longe, ó barco sem causa, Para a irresponsabilidade pré-histórica das águas eternas, Para longe, p’ra sempre para longe, ó morte. Quando [souber?] onde para longe e porque para longe, ó vida... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 31. Ah, estranha vida a de bordo! Cada novo dia Raia mais novo e mais outro que cada dia na terra. Ruído dos guindastes! Carga em transbordo! Energia Das coisas (...) (...) melodia Para a minha alma que ante o Real o perde e o erra... No mar, no navegar, — ruído de hélice eterno! O tempo é outro tempo, o espaço é de outra largura E cada costa que surge é um dia que raia e é terno De oco o olhar que abrange a imensidão e nada possui, E o respirar do ar s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 32. MAGNIFICAT Quando é que passará esta noite interna, o universo, E eu, a minha alma, terei o meu dia? Quando é que despertarei de estar acordado? Não sei. O sol brilha alto, Impossível de fitar. As estrelas pestanejam frio, Impossíveis de contar. O coração pulsa alheio, Impossível de escutar. Quando é que passará este drama sem teatro, Ou este teatro sem drama, E recolherei a casa? Onde? Como? Quando? Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo? É esse! É esse! Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei; E então será dia. Sorri, dormindo, minha alma! Sorri, minha alma, será dia! 7-11-1933 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 298. REGRESSO AO LAR Há quanto tempo não escrevo um soneto Mas não importa: escrevo este agora. Sonetos são infância e, nesta hora. A minha infância é só um ponto preto Que num imóbiI e fútil trajecto Do comboio que sou me deita fora E o soneto é como alguém que mora Há dois dias em tudo que projecto. Graças a Deus, ainda sei que há Quatorze linhas a cumprir iguais Para a gente saber onde é que está... Mas onde a gente está, ou eu, não sei... Não quero saber mais de nada mais E berdamerda para o que saberei. 3/2/1935 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 216. Sim, está tudo certo. Está tudo perfeitamente certo. O pior é que está tudo errado. Bem sei que esta casa é pintada de cinzento Bem sei qual é o número desta casa — Não sei, mas poderei saber, como está avaliada Nessas oficinas de impostos que existem para isto — Bem sei, bem sei... Mas o pior é que há almas lá dentro E a Tesouraria de Finanças não conseguiu livrar A vizinha do lado de lhe morrer o filho. A Repartição de não sei quê não pode evitar Que o marido da vizinha do andar mais acima lhe fugisse com a cunhada... Mas, está claro, está tudo certo... E, excepto estar errado, é assim mesmo: está certo... 5-3-1935 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 217. Estou tonto, Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar, Ou de ambas as coisas. O que sei é que estou tonto E não sei bem se me devo levantar da cadeira Ou como me levantaria dela. Fiquemos nisto: estou tonto. Afinal Que vida fiz eu da vida? Nada. Tudo interstícios, Tudo aproximações, Tudo função do irregular e do absurdo, Tudo nada... É por isso que estou tonto... Agora Todas as manhãs me levanto Tonto... Sim, verdadeiramente tonto... Sem saber em mim o meu nome, Sem saber onde estou, Sem saber o que fui, Sem saber nada. Mas se isto é assim é assim. Deixo-me estar na cadeira. Estou tonto. Bem, estou tonto. Fico sentado E tonto, Sim, tonto, Tonto... Tonto... 12-9-1935 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 221. ODE MARCIAL Ave guerra, som da luz e do fogo Ave, ave, ave pelos teus arsenais e pelas tuas esquadras, Ave, ave, ave, pelos teus barcos e pelas tuas fábricas, Ave por toda a tua civilização de metal em obra, Ave por todo o teu aço! Ave por todo o teu alumínio! Ave por todas as tuas máquinas, ave! Ave, ave, ave, por toda a força motriz que tu és! Farol do Aplicado! Eclusa (...) Grande ponte perfeitamente construída sobre (...) s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 223a. No meu verso canto comboios, canto automóveis, canto vapores, Mas no meu verso, por mais que o ice, ha só ritmos e ideias, Não há ferro, aço, rodas, não há madeiras, nem cordas, Não há a realidade da pedra mais nula da rua, Da pedra que por acaso ninguém olha ao pisar Mas que pode ser olhada, pegada na mão, pisada, E os meus versos são como ideias que podem não ser compreendidas. O que eu quero não é cantar o ferro: é o ferro. O que eu penso é dar só a vida do aço — e não o aço — O que me enfurece em todas as emoções da inteligência É não trocar o meu ritmo que imita a água cantante Pelo frescor real da água tocando-me nas mãos, Pelo som visível do rio onde posso entrar e molhar-me, Que pode deixar o meu fato a escorrer, Onde me posso afogar, se quiser, Que tem a divindade natural de estar ali sem literatura. Merda! Mil vezes merda para tudo o que eu não posso fazer. Que tudo, Walt — [...] ? — que é tudo, tudo, tudo? Todos os raios partam a falta que nos faz não ser Deus Para ter poemas escritos a Universo e a Realidades por nossa carne E ter ideias-coisas e o pensamento Infinito! Para ter estrelas reais dentro do meu pensamento-ser Nomes-números nos confins da minha emoção-a-Terra. s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24s. ODE MARCIAL O que quer que seja que cria e mantém este mundo, Se é gente, que sinta como gente, tenha piedade da gente! E se não é nada, que o acaso, guiado ou vivo antes, O esboroe na terra e acabe com esta dolorosa função. A pensar em tudo, eu quero que tudo (...), Pensar em tudo isto é doer-me a alma angustiadamente E o ver isso é vermos melhor o que fazer ou poder. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 223b. Futilidade, irrealidade, (...) estática de toda a arte, Condenação dos artistas a não viver! Ó quem nos dera, Walt, A terceira coisa, a média entre a arte e vida A coisa que sentiste, e não seja estática nem dinâmica, Nem real nem irreal Nem nós nem os outros — Mas como até imaginá-la? Ou mesmo apreendê-la Mesmo sem a esperança de não a ter nunca? A dinâmica pura, a velocidade em si, Aquilo que dê absolutamente as coisas, Aquilo que chegue tactilmente aos sentidos, Construamos comboios, Walt, e não os cantemos, Cavemos e não cantemos, meu velho, o cavador e o campo, Provemos e não escrevamos, Amemos e não construamos, Metamos dois tiros de revólver na primeira cabeça com chapéu E não façamos onomatopeias inúteis e vãs no nosso verso No nosso verso escrito em prosa, e depois [....]. Poema que esculpisse em Móvel e Eterno a escultura, Poema que (...)se palavras Que (...) ritmo o canto, a dança e (...) Poema que fosse todos os poemas, Que dispensasse bem outros poemas, Poema que dispensasse a Vida. Irra, faço o que quero, estorça o que estorça no meu ser central, Force o que force em meus nervos industriados a tudo, Maquine o que maquine no meu cérebro furor e lucidez, Sempre me escapa a coisa em que eu penso, Sempre me falta a coisa que (...) e eu vou ver se me falta, Sempre me falta, em cada cubo, seis faces, Quatro lados em cada quadrado do que quis exprimir, Três dimensões na solidez que procurei perpetuar... Sempre um comboio de criança movido a corda, a corda, Terá mais movimento que os meus versos estáticos e lidos, Sempre o mais verme dos vermes, a mais química célula viva Terá mais vida, mais Deus, que toda a vida dos meus versos, Nunca como os duma pedra todos os vermelhos que eu descreva, Nunca como numa música todos os ritmos que eu sugira! Nunca como (...) Eu nunca farei senão copiar um eco das coisas, O reflexo das coisas reais no espelho baço de mim. A morte de tudo na minha sensibilidade (que vibra tanto!) A secura real eterna do rio lúcido da minha imaginação! Quero cantar-te e não posso cantar-te, Walt! Quero dar-te o canto que te convenha, Mas nem a ti, nem a nada, — nem a mim, ai de mim! — dou um canto... Sou um surdo-mudo berrando em voz alta os seus gestos, Um cego fitando à roda do olhar um invisível-tudo Assim te canto, Walt, dizendo que não posso cantar-te! Meu velho comentador da multiplicidade das coisas, Meu camarada em sentir nos nervos a dinâmica marcha Da perfeita físico-química da Da energia fundamental da aparência das coisas para Deus, Da distinta forma de sujeito e objecto para além da vida Andamos a jogar às escondidas com a nossa intenção... Fazemos arte e o que queremos fazer afinal é a vida. O que queremos fazer já está feito e não está em nós fazê-Io, E fá-lo o [...] melhor do que nós, mais de perto, Mais instintivamente [...] Sim, se o que nos poemas é o que vibra e fala, 4O mais casto gesto da vida é mais sensual que o mais sensual dos poemas, Porque é feito por alguém que vive, porque é (...) porque é Vida. s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24t. Campina e trigo, campina, Campina e trigo.) Como ao som de uma marcha ao mesmo tempo marcial e fúnebre, [...] e alegria e temor Rompem... A vida é antagonismo, [...]? Queda de impérios, tudo a fugir... sangue, ruídos... tumultos Amontoamentos de coisas pilhadas num saque, Despensas junto das cidades, entre casas caídas, Choros, raivas, inferno de som, A vida e a sua tragédia toda vivida num dia, numa hora... Todo o mistério e horror de nos acontecerem coisas Todo o horror de quem vive sossegado e de repente vê a morte Vê o inferno, [...] (Pobre de [...]!) Tudo quebrado, tudo ferido, tudo diverso de quando era normal a vida... (Ditosos os que morrem logo depois de nascer E para quem a luz da vida não é mais do que um relâmpago no horizonte!) (Poder pensar claro neste assunto! Poder ver bem e sem sofrer ser outro o que é isto! Ah quem me dera ter o coração ampliado e arrumado Como um interior de casa de família de gente que tem com que viver!) E o ruído dos saques, o fragor das batalhas, os choros, as mágoas, os (...) Os choques dos homens São um mar de confusão onde a nossa lucidez se afunda. Perco-me de compreender... Apanho-me nessa tragédia de pasmo humanitário. s.d. “Ode Marcial”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 223c. Paro, escuto, reconheço-me! O som da minha voz caiu no ar sem vida. Fiquei o mesmo, tu estás morto, tudo é insensível... Saudar-te foi um modo de eu querer animar-me, Para que te saudei sem que me julgue capaz Da energia viva de saudar alguém! Ó coração por sarar! quem me salva de ti? s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24u. Dá-nos a Tua paz, Deus Cristão falso, mas consolador, porque todos Nascem para a emoção rezada a ti; Deus anti-científico mas que a nossa mãe ensina; Deus absurdo da verdade absurda, mas que tem a verdade das lágrimas Nas horas de fraqueza em que sentimos que passamos Como o fumo e a nuvem, mas a emoção não o quer, Como o rasto na terra, mas a alma é sensível... Dá-nos a Tua paz, ainda que não existisses nunca, A Tua paz no mundo que julgas Teu, A Tua paz impossível tão possível à Terra, À grande mãe pagã, cristã em nós a esta hora E que deve ser humana em tudo quanto é humano em nós. Dá-nos a paz como uma brisa saindo Ou a chuva para a qual há preces nas províncias, E chove por leis naturais tranquilizadoramente. Dá-nos a paz, porque por ela siga, e regresse O nosso espírito cansado ao quarto de arrumações e coser Onde ao canto está o berço inútil, mas não a mãe que embala, Onde na cómoda velha está a roupa da infância, despida Com o poder iludir a vida com o sonho... Dá-nos a tua paz. O mundo é incerto e confuso, O pensamento não chega a parte nenhuma da Terra, O braço não alcança mais do que a mão pode conter, O olhar não atravessa os muros da sombra, O coração não sabe desejar o que deseja A vida erra constantemente o caminho para a Vida. Dá-nos, Senhor, a paz, Cristo ou Buda que sejas, Dá-nos a paz e admite Nos vales esquecidos dos pastores ignotos Nos píncaros de gelo dos eremitas perdidos, Nas ruas transversais dos bairros afastados das cidades, A paz que é dos que não conhecem e esquecem sem querer. Materna paz que adormeça a terra, Dormente à lareira sem filosofias, Memória dos contos de fadas sem a vida lá fora, A canção do berço revivida através do menino sem futuro, O calor, a ama, o menino, O menino que se vai deitar E o sentido inútil da vida, O coveiro antigo das coisas, A dor sem fundo da terra, dos homens, dos destinos Do mundo... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 25. PECADO ORIGINAL Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? Será essa, se alguém a escrever, A verdadeira história da humanidade. O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo; O que não há somos nós, e a verdade está aí. Sou quem falhei ser. Somos todos quem nos supusemos. A nossa realidade é o que não conseguimos nunca. Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância? Que é daquela nossa certeza — o propósito à mesa de depois? Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas Sobre o parapeito alto da janela de sacada, Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar. Que é da minha realidade, que só tenho a vida? Que é de mim, que sou só quem existo? Quantos Césares fui! Na alma, e com alguma verdade; Na imaginação, e com alguma justiça; Na inteligência, e com alguma razão — Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! Quantos Césares fui! Quantos Césares fui! Quantos Césares fui! 7-12-1933 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 299. Chove fogo — ouro de barulho estruge... "Hela-hohô-ô (ô)... Z — zz Sher Rr to go. Shabababulá... [...] ESPAÇO... Tudo se apaga como uma grande lâmpada eléctrica que se funde... Vem do fundo do mundo Vem do horizonte mudo, confuso do mundo, Sussurro surdo, escuro, murmúrio De uma cavalgada que dura, que dura furiosa no ouvido, Inúmera cavalgada vem... Vêm do fundo do mundo confuso Vêm do abismo do espaço nocturno... À pressa, negros, rápidos, de repente surdem... Súbito outra vez tremem... Oscilam no ruído que tem rasto no escuro... Inúmera cavalgada... Quem? Vem apertada nos passos confusos Vem apertada nos ruídos dispersos, Vem aclamada nos ruídos mudos Vem apertada nos ruídos confusos, Vem apertada, vem apertada, vem apertada Todo o horizonte está cheio por dentro de um grito absurdo Helahôhô... Helahôhô... s.d. “Ode Marcial”. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 223d. A PASSAGEM DAS HORAS Sentir tudo de todas as maneiras, Ter todas as opiniões, Ser sincero contradizendo-se a cada minuto, Desagradar a si-próprio pela plena liberalidade de espírito, E amar as coisas como Deus. Eu, que sou mais irmão de uma árvore que de um operário, Eu, que sinto mais a dor suposta do mar ao bater na praia Que a dor real das crianças em quem batem (Ah, como isto deve ser falso, pobres crianças em quem batem — E porque é que as minhas sensações se revezam tão depressa?) Eu, enfim, que sou um diálogo contínuo Um falar-alto incompreensível, alta-noite na torre, Quando os sinos oscilam vagamente sem que mão lhes toque E faz pena saber que há vida que viver amanhã. Eu, enfim, literalmente eu, E eu metaforicamente também, Eu, o poeta sensacionista, enviado do Acaso Às leis irrepreensíveis da Vida, Eu, o fumador de cigarros por profissão adequada, O indivíduo que fuma ópio, que toma absinto, mas que, enfim, Prefere pensar em fumar ópio a fumá-lo E acha mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo... Eu, este degenerado superior sem arquivos na alma, Sem personalidade com valor declarado, Eu, o investigador solene das coisas fúteis, era capaz de ir viver na Sibéria só por embirrar com isso E que acho que não faz mal não ligar importância à pátria Porque não tenho raiz, como uma árvore, e portanto não tenho raiz... Eu, que tantas vezes me sinto tão real como uma metáfora, Como uma frase escrita por um doente no livro da rapariga que encontrou no terraço, Ou uma partida de xadrez no convés dum transatlântico, Eu, a ama que empurra os perambulators em todos os jardins públicos, Eu, o polícia que a olha, parado para trás na álea, Eu, a criança no carro, que acena à sua inconsciência lúcida com um colar com guizos, Eu, a paisagem por detrás disto tudo, a paz citadina Coada através das árvores do jardim público, Eu, o que os espera a todos em casa, Eu, o que eles encontram na rua Eu, o que eles não sabem de si-próprios, Eu, aquela coisa em que estás pensando e te marca esse sorriso, Eu, o contraditório, o fictício, o aranzel, a espuma, O cartaz posto agora, as ancas da francesa, o olhar do padre, O lugar onde se encontram as duas ruas e os chauffeurs dormem contra os carros, A cicatriz do sargento mal-encarado, O sebo na gola do explicador doente que volta para casa, A chávena que era por onde o pequenito que morreu bebia sempre, E tem uma falha na asa (e tudo isto cabe num coração de mãe e enche-o)... Eu, o ditado de francês da pequenita que mexe nas ligas, Eu, os pés que se tocam por baixo do bridge sob o lustre, Eu, a carta escondida, o calor do lenço, a sacada com a janela entreaberta, O portão de serviço onde a criada fala com os desejos do primo, O sacana do José que prometeu vir e não veio E a gente tinha uma partida para lhe fazer... Eu, tudo isto, e além disto o resto do mundo... Tanta coisa, as portas que se abrem, e a razão porque elas se abrem, E as coisas que já fizeram as mãos que abrem as portas... Eu, a infelicidade-nata de todas as expressões, A impossibilidade de exprimir todos os sentimentos, Sem que haja uma lápide no cemitério para o irmão de tudo isto, E o que parece não querer dizer nada sempre quer dizer qualquer coisa... Sim, eu, o engenheiro naval que sou supersticioso como uma camponesa madrinha, E uso o monóculo para não parecer igual à ideia real que faço de mim, Que levo às vezes três horas a vestir-me e nem por isso acho isso natural, Mas acho-o metafísico e se me batem à porta zango-me, Não tanto por me interromperem a gravata como por ficar sabendo que há a vida... Sim, enfim, eu o destinatário das cartas lacradas, O baú das iniciais gastas, A intonação das vozes que nunca ouviremos mais — Deus guarda isso tudo no Mistério, e às vezes sentimo-lo E a vida pesa de repente e faz muito frio mais perto que o corpo. A Brígida prima da minha tia, O general em que elas falavam — general quando elas eram pequenas, E a vida era guerra civil a todas as esquinas... Vive le mélodrame où Margot a pleuré! Caem folhas secas no chão irregularmente, Mas o facto é que sempre é outono no outono, E o inverno vem depois fatalmente, E há só um caminho para a vida, que é a vida... Esse velho insignificante, mas que ainda conheceu os românticos Esse opúsculo político do tempo das revoluções constitucionais, E a dor que tudo isso deixa, sem que se saiba a razão Nem haja para chorar tudo mais razão que senti-lo. Todos os amantes beijaram-se na minha alma, Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro, Atravessaram a rua, ao meu braço todos os velhos e os doentes, E houve um segredo que me disseram todos os assassinos. (Aquela cujo sorriso sugere a paz que eu não tenho, Em cujo baixar-de-olhos há uma paisagem da Holanda, Com as cabeças femininas coiffées de lin E todo o esforço quotidiano de um povo pacífico e limpo... Aquela que é o anel deixado em cima da cómoda, E a fita entalada com o fechar da gaveta, Fita cor-de-rosa, não gosto da cor mas da fita entalada, Assim como não gosto da vida, mas gosto de senti-la... Dormir como um cão corrido no caminho, ao sol, Definitivamente para todo o resto do Universo, E que os carros me passem por cima) Fui para a cama com todos os sentimentos, Fui souteneur de todas as emoções, Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações, Troquei olhares com todos os motivos de agir, Estive mão em mão com todos os impulsos para partir, Febre imensa das horas! Angústia da forja das emoções! Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço, A cadela a uivar de noite, O tanque da quinta a passear à roda da minha insónia O bosque como foi à tarde, quando lá passeamos, a rosa, A madeixa indiferente, o musgo, os pinheiros, Toda a raiva de não conter isto tudo, de não deter isto tudo, Ó fome abstracta das coisas, cio impotente dos momentos, Orgia intelectual de sentir a vida! Obter tudo por suficiência divina — As vésperas, os consentimentos, os avisos, As coisas belas da vida — O talento, a virtude, a impunidade, A tendência para acompanhar os outros a casa, A situação de passageiro, A conveniência em embarcar lá para ter lugar, E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, uma frase, E a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa. Poder rir, rir, rir despejadamente, Rir como um copo entornado, Absolutamente doido só por sentir, Absolutamente roto por me roçar contra as coisas, Ferido na boca por morder coisas, Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas, E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida. 1916 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 26a. 1ª versão: Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. (Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1944. SAUDAÇÃO A WALT WHITMAN Portugal — Infinito, onze de Junho de 1915 Hé lá, á — á — á — á! De aqui, de Portugal, de onde a Europa olha a América, De onde tu teres existido é um efeito complexo, Consciente de estar à vista, no palco para a plateia que é no auge. Saúdo-te deliberadamente, saúdo-te Desde o princípio de te saudar, como é próprio de ti. Hé-lá Walt, old boy, meu velho arado das almas, Hé-lá meu condottiere da sensualidade autêntica Pirata do teu próprio génio, Filho-pródigo da tua inspiração! Ó sempre moderno e eterno; cantor dos concretos absolutos Concubina fogosamente [...] do universo disperso, Grande pederasta roçando-te pela diversidade das coisas, Sexualidade... etc. Tu, o homem-mulher-criança-natureza-máquinas! Tu, o p'ra-dentro, tu o p'ra-fora, tu o ao-lado de tudo! Fulcro-sensualidade ao serviço do infinito, escada Até não haver fim a subir, — e subir! Saúdo-te e chamo A tomar parte em mim na saudação que te faço Tudo quanto cantaste ou desejaste cantar. Ervas, árvores, flores, a natureza dos campos... Homens, lutas, tratados — a natureza das almas... Os artifícios, que dão sabor ao que não é artifício As coisas naturais que valem sem valor dado, As profissões com que o homem se interessa por ter vontade As grandes ambições, as grandes raivas, as pálpebras Descidas sobre a inutilidade metafísica de viver... Chamo a mim, para os levar até ti, Como a mãe chama a criança para a sentir ser A totalidade dispersa do que interessa ao mundo... Ah, que nada me fique de fora das algibeiras Quando vou procurar-te. Que nada me esqueça, se te saúdo, que nada Falte, nem o faltar esqueça, Porque faltar é uma coisa — faltar. Vá! Vá! Tudo! O natural e o humano! Vá, o que parte! vá, o que fica! vá o que lembra e o que esquece! Tu tens direito a ser saudado por tudo E eu, porque o vejo, Tenho o direito a encanar a voz em tudo saudar-te s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 224a. Sentir tudo de todas as maneiras, Viver tudo de todos os lados, Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo, Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo. Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo, Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo, Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia, Seja uma flor ou uma ideia abstracta, Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus. E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo. São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores, E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também, Porque ser inferior é diferente de ser superior, E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão. Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de carácter, E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades, E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles, E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens. Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia, Basta que ela exista para que tenha razão de ser. Estreito ao meu peito arfante num abraço comovido (No mesmo abraço comovido) O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece, O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria, E... E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças, O ladrão de estradas, o salteador dos mares, O gatuno de carteiras, o sombra que espera nas vielas — Todos são a minha amante predilecta pelo menos um momento na vida. Beijo na boca todas as prostitutas, Beijo sobre os olhos todos os souteneurs, A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos, E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões. Tudo é razão de ser da minha vida. Cometi todos os crimes, Vivi dentro de todos os crimes (Eu próprio fui, não um nem o outro no vício, Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles, E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida). Multipliquei-me para me sentir, Para me sentir, precisei sentir tudo, Transbordei, não fiz senão extravasar-me, Despi-me entreguei-me. E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente. Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino, E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos. Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros, Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas, Todos os chamamentos obscenos de gestos e olhares Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais. Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos, E todos os pederastas — absolutamente todos (não faltou nenhum). Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma! (Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te, Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim! Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver, Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes, Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingindo e a minha consciência incerta, A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim, os seus half-holidays inesperados... Mary, eu sou infeliz... Freddie, eu sou infeliz... Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados, Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fizésseis, Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco — Sim, e o que tenho eu sido, ó meu subjectivo universo, Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento, Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!) Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro, E todas as cidades do mundo rumorejam-se dentro de mim... Meu coração tribunal, meu coração mercado, meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco, Meu coração rendez-vous de toda a humanidade, Meu coração banco de jardim público, hospedaria, estalagem, calabouço número qualquer coisa, («Aqui estuvo ei Manolo en visperas de ir al patibulo») Meu coração club, sala, plateia, capacho, guichet, portaló, Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial, Meu coração postigo, Meu coração encomenda, Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega, Meu coração a margem, o limite, a súmula, o índice, Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração. Todas as madrugadas são a madrugada e a vida. Todas as auroras raiam no mesmo lugar: Infinito... Todas as alegrias de ave vêm da mesma garganta, Todos os estremecimentos de folhas são da mesma árvore, E todos os que se levantam cedo para ir trabalhar Vão da mesma casa para a mesma fábrica por o mesmo caminho... Rola, bola grande, formigueiro de consciências, terra, Rola, auroreada, entardecida, a prumo sobre sóis, nocturna, Rola no espaço abstracto, na noite mal iluminada realmente Rola e (...) Sinto na minha cabeça a velocidade do giro da terra, E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim, Centrífuga ânsia, raiva de ir por os ares até aos astros Bate pancadas de encontro ao interior do meu crânio, Põe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpo, Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstracto, Para inencontrável, Ali sem restrições nenhumas, A Meta invisível todos os pontos onde eu não estou, e ao mesmo tempo (...) Ah, não estar parado nem a andar, Não estar deitado nem de pé, Nem acordado nem a dormir, Nem aqui nem noutro ponto qualquer, Resolver a equação desta inquietação prolixa, Saber onde estar para poder estar em toda a parte, Saber onde deitar-me para estar passeando por todas as ruas, Saber onde (...) Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO Cavalgada alada de mim por cima de todas as coisas, Cavalgada estalada de mim por baixo de todas as coisas, Cavalgada alada e estalada de mim por causa de todas as coisas... Hup-la por cima das árvores, hup-la por baixo dos tanques, Hup-la contra as paredes, hup-la raspando nos troncos, Hup-la no ar, hup-la no vento, hup-la, hup-la nas praias, Numa velocidade crescente, insistente, violenta, Hup-la hup-la hup-la hup-la...... Cavalgada panteísta de mim por dentro de todas as coisas, Cavalgada energética por dentro de todas as energias, Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lâmpada que arde De todos os consumos de energia Cavalgada de mil amperes, [...] Cavalgada explosiva, explodida como uma bomba que rebenta Cavalgada rebentando para todos os lados ao mesmo tempo, Cavalgada por cima do espaço, salto por cima do tempo, Galga, cavalo electrão — ião —, sistema solar resumido Por dentro da acção dos êmbolos, por fora do giro dos volantes. Dentro dos êmbolos, tornado velocidade abstracta e louca, Ajo a ferro e velocidade, vai-vem, loucura, raiva contida, Atado ao rasto de todos os volantes giro assombrosas horas, E todo o universo range, estraleja e estropia-se em mim. Ho-ho-ho-ho-ho... Cada vez mais depressa, cada vez mais com o espírito adiante do corpo Adiante da própria ideia veloz do corpo projectado, Com espírito atrás adiante do corpo, sombra, chispa, He-la-ho-ho... Helahoho. Toda a energia é a mesma e toda a natureza é o mesmo... A seiva da seiva das árvores é a mesma energia que mexe As rodas da locomotiva, as rodas do eléctrico, os volantes dos Diesel, E um carro puxado a mulas ou a gasolina é puxado pela mesma coisa. Raiva panteísta de sentir em mim formidandamente, Com todos os meus sentidos em ebulição, com todos os meus poros em fumo, Que tudo é uma só velocidade, uma só energia, uma só divina linha De si para si, parada a ciciar violências de velocidade louca... Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO HO-HO-HO-HO-HO-HO-HO Ave, salve, viva a unidade veloz de tudo! Ave. salve, viva a igualdade de tudo em seta! Ave, salve, viva a grande máquina universo! Ave, que sois o mesmo, árvores, máquinas, leis, Ave, que sois o mesmo, vermes, êmbolos, ideias abstractas, A mesma seiva vos enche, a mesma seiva vos torna, A mesma coisa sois, e o resto é por fora e falso, O resto, o estático resto que fica nos olhos que param, Mas não nos meus nervos motor de explosão a óleos pesados ou leves, Não nos meus nervos todas as máquinas, todos os sistemas de engrenagem, Nos meus nervos locomotiva, carro-eléctrico, automóvel, debulhadora a vapor, Nos meus nervos máquina marítima, Diesel, semi-Diesel, Campbell, Nos meus nervos instalação absoluta a vapor, a gás, a óleo e a electricidade, Máquina universal movida por correias de todos os momentos! Comboio parte-te de encontro ao resguardo da linha de desvio! Vapor navega direito ao cais e racha-te contra ele! Automóvel guiado pela loucura de todo o universo precipita-te Por todos os precipícios abaixo E choca-te, trz!, esfrangalha-te no fundo do meu coração! À moi, todos os objectos projécteis! À moi, todos os objectos direcções! À moi, todos os objectos invisíveis de velozes! Batam-me, trespassem-me, ultrapassem-me! Sou eu que me bato, que me trespasso, que me ultrapasso! A raiva de todos os ímpetos fecha em círculo-mim! Hela-hoho comboio, automóvel, aeroplano minhas ânsias, Velocidade entra por todas as ideias dentro, Choca de encontro a todos os sonhos e parte-os, Chamusca todos os ideais humanitários e úteis, Atropela todos os sentimentos normais, decentes, concordantes, Colhe no giro do teu volante vertiginoso e pesado Os corpos de todas as filosofias, os trapos de todos os poemas, Esfrangalha-os e fica só tu, volante abstracto nos ares, Senhor supremo da hora europeia metálico e cio. Vamos, que a cavalgada não tenha fim nem em Deus! Vamos que mesmo eu fique atrás da cavalgada, que eu fique Arrastado à cauda do cavalo, torcido, rasgado, perdido Em queda, meu corpo e minha alma atrás da minha ânsia abstracta Da minha ânsia vertiginosa de ultrapassar o universo, De deixar Deus atrás como um marco miliário nulo, De deixar o m(...) Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói. Declina dentro de mim o sol no alto do céu. Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos. Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar? Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstracta, Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo, Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés, Calcar, calcar, calcar até não sentir... Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis, Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou, (...) Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos, Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços, Cavalgada voo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago, Cavalgada eu, cavalgada eu, cavalgada o universo-eu. Helahoho-o-o-o-o-o-o-o... Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação... 22-5-1916 «Passagem das Horas». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 26b. O pó que fica das velocidades que já se não vêem! O do metálico dos êmbolos, O furor uterino das válvulas lá por dentro — O sangue dando em baque ao ataque dos excêntricos. Minhas sensações Protoplasma da humanidade matemática do futuro! Eia-la-ho! Hó-oo-o! Oh lá, saltos e pulos com o meu pensamento todo Pula bola de mim — a mágica biológica que eu sou! O cérebro servo de leis, os nervos movidos por normas Por normas compostas em tratados de psiquiatras s.d. “Saudação a Walt Whitman” . Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 224b. PASSAGEM DAS HORAS Trago dentro do meu coração, Como num cofre que se não pode fechar de cheio, Todos os lugares onde estive, Todos os portos a que cheguei, Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias, Ou de tombadilhos, sonhando, E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero. A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde, O coral das Maldivas em passagem cálida, Macau à uma hora da noite... Acordo de repente... Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô... Ghi — ... E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade... A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol... Dar-es-Salaam (a saída é difícil)... Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagáscar... Tempestades em torno ao Guardafui... E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada... E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo... Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei... Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos... Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti, Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz. A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me, Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge, Desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso, Desta turbulência tranquila de sensações desencontradas, Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada, Deste desassossego no fundo de todos os cálices, Desta angústia no fundo de todos os prazeres, Desta saciedade antecipada na asa de todas as chávenas, Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias. Não sei se a vida é pouco ou de mais para mim. Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência, Consanguinidade com o mistério das coisas, choque Aos contactos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos, Ou se há outra significação para isto mais cómoda e feliz. Seja o que for, era melhor não ter nascido, Porque, de tão interessante que é a todos os momentos, A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger, A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas, E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs, E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso, Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida. Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços, E preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas... Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro, Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca... Que há-de ser de mim? Que há-de ser de mim? Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão, Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra. Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos. Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir... Tão decadente, tão decadente, tão decadente... Só estou bem quando ouço música, e nem então. Jardins do século dezoito antes de 89, onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira? Como um bálsamo que não consola senão pela ideia de que é um bálsamo, A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai. Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se. Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver. Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente. Estou no caminho de todos e esbarram comigo. Minha quinta na província, Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti. Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir, E fica sempre, fica sempre, fica sempre, Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica... Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito. Só humanitariamente é que se pode viver. Só amando os homens, as acções, a banalidade dos trabalhos, Só assim — ai de mim! —, só assim se pode viver Só assim, ó noite, e eu nunca poderei ser assim! Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo, Mas tudo ou sobrou ou foi pouco — não sei qual — e eu sofri. Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos, E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse Amei e odiei como toda a gente, Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo, E para mim foi sempre a excepção, o choque, a válvula, o espasmo. Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti. Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito, Mágoa externa da Terra, choro silencioso do Mundo. Mãe suave e antiga das emoções sem gesto, Irmã mais velha, virgem e triste, das ideias sem nexo, Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos, A direcção constantemente abandonada do nosso destino, A nossa incerteza pagã sem alegria, A nossa fraqueza cristã sem fé, O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases, A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos, A nossa vida, ó mãe, a nossa perdida vida... Não sei sentir, não sei ser humano, conviver De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra. Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido, Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens, Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta, Uma razão para descansar, uma necessidade de me distrair, Uma coisa vinda directamente da natureza para mim. Por isso se para mim materna, ó noite tranquila... Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz, Tu que não existes, que és só a ausência da luz, Tu que não és uma coisa, um lugar, uma essência, uma vida, Penélope da teia, amanhã desfeita, da tua escuridão, Circe irreal dos febris, dos angustiados sem causa, Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos, E sê frescor e alívio, ó noite, sobre a minha fronte... Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento, Cujo fluxo e refluxo de treva, quando a lua bafeja, Tem ondas de carinho morto, frio de mares de sonho, Brisas de paisagens supostas para a nossa angústia excessiva... Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente, Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens, Tu, rainha, tu castelã, tu, dona pálida, vem... 22-5-1916 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 26c. 1ª versão: Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. (Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1944. SAUDAÇÃO A minha universalite — A ânsia vaga, a alegria absurda, a dor indecifrável Síndroma da doença da Incongruência Final. Curso do êmbolo do dinamismo abstracto Do vácuo dinâmico do mundo! A minha aspiração consubstanciada com fórmulas Matemática de mim falido s.d. “Saudação a Walt Whitman” . Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 224c. PASSAGEM DAS HORAS Vivo todos os dias todas as esquinas de todas as ruas, E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra. Não me subordino senão por atavismo, E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama. Das terrasses de todos os cafés de todas as cidades Acessíveis à imaginação Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer, Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira, Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi. No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa, Vou ao lado dela sem ela saber. No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado, Mas antes do encontro deles lá estar já eu estava com eles lá. Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me, não há modo de eu não estar em toda a parte. O meu privilégio é tudo (Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh'Alma). Assisto a tudo e definitivamente. Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim, Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinquenta Que não seja para mim por uma galanteria deposta. Fui educado pela Imaginação, Viajei pela mão dela sempre, Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso, E todos os dias têm essa janela por diante, E todas as horas parecem minhas dessa maneira. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 26d. 1ª versão: Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. (Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1944. Clarim claro da manhã ao fundo Do semicírculo frio do horizonte, Ténue clarim longínquo como bandeiras incertas Desfraldadas para além de onde as cores são visíveis. Clarim trémulo, poeira parada, onde a noite cessa Poeira de ouro parada no fundo da visibilidade... Carro que chia limpidamente, vapor que apita, Guindaste que começa a girar no meu ouvido, Tosse seca, nova do que sai de casa, Leve arrepio matutino na alegria de viver, Gargalhada subida velada pela bruma exterior não sei como, Costureira fadada para pior que a manhã que sente, Operário tísico desfeito para feliz nesta hora Inevitavelmente vital, Em que o relevo das coisas é suave, certo e simpático, Em que os muros são frescos ao contacto da mão, e as casas Abrem, aqui e ali os olhos cortinados a branco... Toda a madrugada é uma cortina que oscila, E refresca ilusões e recordações na minha alma de transeunte, No meu coração banido de epidérmico espírito, No meu cansado e velado (...) (...) (...) e caminha tudo Para a hora cheia de luz em que as lojas baixam as pálpebras E rumor tráfego carroça comboio eu-sinto sol estruge Vertigem do meio-dia emoldurada a vertigens — Sol nos vértices e nos (...) da minha visão estriada, Do rodopio parado da minha retentiva seca, Do abrumado clarão fixo da minha consciência de viver. Rumor tráfego carroça comboio carros eu-sinto sol rua, Aros caixotes trolley loja rua vitrines saia olhos Rapidamente calhas carroças caixotes rua atravessar rua Passeio lojistas «perdão» rua Rua a passear por mim a passear pela rua por mim Tudo espelhos as lojas de cá dentro das lojas de lá A velocidade dos carros ao contrário nos espelhos oblíquos das montras, O chão no ar o sol por baixo dos pés rua regas flores no cesto rua O meu passado rua estremece camião rua não me recordo rua Eu de cabeça p’ra baixo no centro da minha consciência de mim Rua sem poder encontrar uma sensação só de cada vez rua Rua p’ra trás e p’ra diante debaixo dos meus pés Rua em X em Y em 7 por dentro dos meus braços Rua pelo meu monóculo em círculos de cinematógrafo pequeno, Caleidoscópio em curvas iriadas nítidas rua. Bebedeira da rua e de sentir ver ouvir tudo ao mesmo tempo. Bater das fontes de estar vindo para cá ao mesmo tempo que vou para lá, s.d. «Passagem das Horas». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 26e. Estatelo-me ao comprido em toda a vida E urro em mim a minha ferocidade de viver... Não há gestos de prazer pelo mundo que valham A alegria estupenda de quem não tem outro modo de a exprimir Que rolar-se pelo chão entre ervas e malmequeres E misturar-se com terra até sujar o fato e o cabelo... Não há versos que possam dar isto... Arranquem um (...) de erva, trinquem-na e perceber-me-ão, Perceberão completamente o que eu incompletamente exprimo. Tenho a fúria de ser raiz A perseguir-me as sensações por dentro como uma seiva... Queria ter todos os sentidos, incluindo a inteligência, A imaginação e a inibição À flor da pele para me poder rolar pela terra rugosa Mais de dentro, sentindo mais rugosidade e irregularidades. Eu só estaria contente se o meu corpo fosse a minha alma... Assim todos os ventos, todos os sóis, e todas as chuvas Seriam sentidos por mim do único modo que eu quereria... Não podendo acontecer-me isto, desespero, raivo, Tenho vontade de poder arrancar à dentada o meu fato E depois ter pesadas garras de leão para me despedaçar Até o sangue correr, correr, correr, correr... Sofro porque tudo isto é absurdo Como se me tivesse medo alguém, Com o meu sentimento agressivo para o destino, para Deus, Que nasce de encararmos com o Inefável E medirmos bem, de repente, a nossa fraqueza e pequenez. s.d. «Passagem das Horas». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 26f. DACTILOGRAFIA Traço sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano, Firmo o projecto, aqui isolado, Remoto até de quem eu sou. Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, O tic-tac estalado das máquinas de escrever. Que náusea da vida! Que abjecção esta regularidade! Que sono este ser assim! Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros (Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância), Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho, Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve, Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes. Outrora. Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro. O tic-tac estalado das máquinas de escrever. Temos todos duas vidas: A verdadeira, que é a que sonhamos na infância, E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa; A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros, Que é a prática, a útil, Aquela em que acabam por nos meter num caixão. Na outra não há caixões, nem mortes, Há só ilustrações de infância: Grandes livros coloridos, para ver mas não ler; Grandes páginas de cores para recordar mais tarde. Na outra somos nós, Na outra vivemos; Nesta morremos, que é o que viver quer dizer; Neste momento, pela náusea, vivo na outra... Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro. Ergue a voz o tic-tac estalado das máquinas de escrever. 19-12-1933 Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 301. 1ª publ. in Presença , 2ª série, nº1. Coimbra: Nov. 1939. O meu mestre Caeiro era um mestre de toda a gente com capacidade para ter mestre. Não havia pessoa que se acercasse de Caeiro, que falasse com ele, que tivesse a oportunidade física de conviver com o seu espírito, que não viesse outro dessa única Roma de onde se não voltava como se ia - a não ser que essa pessoa o não fosse, isto é, a não ser que essa pessoa fosse, como a maioria, incapaz de ser individual a não ser por ser, no espaço, um corpo separado de outros corpos e estragado simbolicamente pela forma humana. Nenhum homem inferior pode ter um mestre, porque o mestre não tem nele nada de que o ser. É por esta razão que os temperamentos definidos e fortes são facilmente hipnotizáveis, que os homens normais o são com relativa facilidade, mas não são hipnotizáveis os idiotas, os imbecis, os fracos e os incoerentes. Ser forte é ser capaz de sentir. Em torno do meu mestre Caeiro havia, como se terá depreendido destas páginas, principa1mente três pessoas - o Ricardo Reis, o António Mora e eu. Não faço favor a ninguém, nem a mim, dizendo que éramos, e somos, três indivíduos, absolutamente distintos, pelo menos pelo cérebro, da humanidade corrente e animal. E todos nós três devemos o melhor da alma que hoje temos ao nosso contacto com o meu mestre Caeiro. Todos nós somos outros - isto é, somos nós mesmos a valer - desde que fomos passados pelo passador daquela intervenção carnal dos Deuses. O Ricardo Reis era um pagão latente, desentendido da vida moderna e desentendido daquela vida antiga, onde deveria ter nascido - desentendido da vida moderna porque a sua inteligência era de tipo e qualidade diferente; desentendido da vida antiga porque a não podia sentir, pois se não sente o que não está aqui. Caeiro, reconstrutor do Paganismo, ou, melhor, fundador dele no que eterno, trouxe-lhe a matéria de sensibilidade que lhe faltava. E Ricardo Reis encontrou-se o pagão que já era antes de se encontrar. Antes de conhecer Caeiro, Ricardo Reis não escrevera um único verso, e quando conheceu Caeiro tinha já vinte e cinco anos. Desde que conheceu Caeiro, e lhe ouviu o Guardador de Rebanhos, Ricardo Reis começou a saber que era organicamente poeta. Dizem alguns fisiologistas que é possível a mudança de sexo. Não sei se é verdade, porque não sei se alguma coisa é «verdade». Mas o certo é que Ricardo Reis deixou de ser mulher para ser homem, ou deixou de ser homem para ser mulher - como se preferir - quando teve esse contacto com Caeiro. O António Mora era uma sombra com veleidades especulativas. Passava a vida a mastigar Kant e tentar ver com o pensamento se a vida tinha sentido. Indeciso, como todos os fortes, não tinha encontrado a verdade, ou o que para ele fosse verdade, o que para mim é o mesmo. Encontrou Caeiro e encontrou a verdade. O meu mestre Caeiro deu-lhe a alma que ele não tinha; pôs dentro do Mora periférico, que ele sempre tinha apenas sido, um Mora central. E o resultado foi a redução a sistema e a verdade lógica dos pensamentos instintivos de Caeiro. O resultado triunfal foi esses dois tratados, maravilhas de originalidade e de pensamento, O Regresso dos Deuses e os Prolegómenos a uma Reformação do Paganismo. Por mim, antes de conhecer Caeiro, eu era uma máquina nervosa de não fazer coisa nenhuma. Conheci o meu mestre Caeiro mais tarde que o Reis e o Mora, que o conheceram, respectivamente, em 1912 e 1913. Conheci Caeiro em 1914. Já tinha escrito versos - três sonetos e dois poemas («Carnaval» e «Opiário»). Esses sonetos e estes poemas mostram o que eu sentia quando estava sem amparo. Logo que conheci Caeiro, verifiquei-me. Cheguei a Londres e escrevi imediatamente a «Ode Triunfal«. E de aí em diante, por mal ou por bem, tenho sido eu. Mais curioso é o caso do Fernando Pessoa, que não existe, propriamente falando. Este conheceu Caeiro um pouco antes de mim - em 8 de Março de 1914, segundo me disse. Nesse mês, Caeiro viera a Lisboa passar uma semana e foi então que o Fernando o conheceu. Ouviu ler o Guardador de Rebanhos.Foi para casa com febre, e escreveu, num só lance ou traço, a Chuva Oblíqua. A Chuva Oblíqua não se parece em nada com qualquer poema do meu mestre Caeiro, a não ser em certa rectilineadade do movimento rítmico. Mas o Fernando Pessoa era incapaz de arrancar aqueles extraordinários poemas do seu mundo interior se não tivesse conhecido Caeiro. Mas, momentos depois de conhecer Caeiro, sofreu o abalo espiritual que produziu esses poemas. Foi logo. Como tem uma sensibilidade excessivamente pronta, porque acompanhada de uma inteligência excessivamente pronta, o Fernando teve sem demora a reacção à Grande Vacina - a vacina contra a estupidez dos inteligentes. E o que há de mais admirável na obra do Fernando Pessoa é esse conjunto de seis poemas, essa Chuva Oblíqua. Sim, poderá haver ou vir a haver, coisas maiores na obra dele, mas mais originais nunca haverá, mais novas nunca haverá, e eu não sei portanto se as haverá maiores. E, mais, não haverá nada de mais realmente Fernando Pessoa, de mais intimamente Fernando Pessoa. Que coisa pode exprimir melhor a sensibilidade sempre intelectualizada, a atenção intensa e desatenta, a subtileza quente da análise fria de si mesmo, do que esses poemas-intersecções, onde o estado de alma é simultaneamente dois, onde o subjectivo e o objectivo, separados, se juntam, e ficam separados, onde o real e o irreal se confundem, para que fiquem bem distintos. Fernando Pessoa fez nesses poemas a verdadeira fotografia da própria alma. Num momento, num único momento, conseguiu ter a sua individualidade que não tivera antes nem poderá tornar a ter, porque a não tem. Viva o meu mestre Caeiro! s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 369. «Notas para a recordação do meu mestre Caeiro» Maravilho-me da doutrina de António Mora, e discordo dela com um gesto delicado de afastamento. O mal d'stes homens todos - do Ricardo Reis, do António Mora, do Fernando Pessoa, sim, porque sinto outside idolatry, do meu mestre Caeiro também - é que só vêem a realidade. Diversamente, todos a vêem com clareza; todos são objectivistas, até o Fernando Pessoa, que é subjectivista também. Mas eu não só vejo a realidade - palpo-a. Por isso eles são, mais ou menos declaradamente, politeístas, e eu sou monoteísta. É que o mundo considerado com a vista é de uma essencial diversidade. Considerado com o tacto, não tem diversidade nenhuma. Eles são todos, diversamente, mais inteligentes do que eu, mas eu sou mais profundamente prático do que eles todos. Por isso creio em Deus. Às vezes penso que Milton só pôde ascender a um sentimento sublime da Divindade quando, privado da vista, voltou à grande primitividade do tacto, à grande unidade da matéria. E o próprio Satan, que não é senão Deus em sua sombra disforme, lançada pela luz do aparente, não o pôde ele tão fortemente conceber senão quando os olhos se lhe haviam tornado noite. A variedade do mundo não é variedade senão por contraposição subentendida a uma unidade qualquer. E essa unidade adivinhada é Deus. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 370. «Notas para a recordação do meu mestre Caeiro» A filosofia de António Mora está contida num só tratado - os Prolegómenos para uma Reformação do Paganismo. O Regresso dos Deuses é mais um estudo crítico que outra coisa, e o sistema geométrico ultra-euclideano, que o filósofo descobriu ou inventou, estando na verdade dentro da filosofia exposta nos Prolegómenos, não é propriamente filosofia. Creio que António Mora pensava, contudo, em integrar o sistema geométrico, como apêndice ou capítulo suplementar, nos próprios Prolegómenos. Não sei como isto ficou ou ficará; só quando essas obras inéditas deixarem de o ser se verá isso claramente. Creio que não haverá mal algum em se expor, já, qual é o sistema filosófico de António Mora. Creio, até, que algum bem lhe faço com isto. Um sistema filosófico precisa um pouco de prendre date, pois que nele a substância é consubstancial com a forma; uma obra literária, vivendo como vive só da forma (no sentido completo) pode ficar inédita durante muito tempo. Vou, pois, fazer o possível por expor, num resumo claro, em que consiste o Dualismo Absoluto de António Mora. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 371. «Notas para a recordação do meu mestre Caeiro» É costume dizer-se, desde que alguém começou a dizê-lo, que, para compreender um sistema filosófico, é preciso compreender o temperamento do filósofo. Como todas as coisas com ar de cenas, e que se espalham, isto é asneira; se o não fosse, não se teria espalhado. Confunde-se a filosofia com a formação dela. O meu temperamento pode levar-me a dizer que dois e dois são cinco, mas a afirmação de que dois e dois são cinco é falsa independentemente do meu temperamento, seja ele qual for. Pode ser interessante saber como é que eu vim a afirmar essa falsidade, mas isso nada tem com a própria falsidade, tem que ver somente com a razão do seu aparecimento. O meu mestre Caeiro era um temperamento sem filosofia, e por isso a filosofia dele - que a tinha, como toda a gente - não é susceptível sequer destas brincadeiras do jornalismo intelectual. Não há dúvida que, sendo um temperamento, isto é, sendo um poeta, o meu mestre Caeiro exprimiu uma filosofia, isto é, um conceito do universo. Esse conceito do universo é, porém, instintivo e não intelectual; não pode ser criticado como conceito, porque não está lá, e não pode ser criticado como temperamento, porque o temperamento não é criticável. As ideias organicamente ocultas na expressão poética do meu mestre Caeiro tentaram definir-se, com maior ou menor felicidade lógica, em certas teorias do Ricardo Reis, em certas teorias minhas, e no sistema filosófico - esse perfeitamente definido - do António Mora. Tão fecundo é Caeiro que cada um de nós três, devendo todos o pensamento da alma ao nosso mestre comum, produziu uma interpretação da vida inteiramente diferente da de qualquer dos outros dois. Verdadeiramente, não há direito de comparar a minha metafísica, e a do Ricardo Reis, que são meras vaguidades poéticas tentando esclarecer-se (ao contrário de em Caeiro, onde a alma era de certezas poéticas não buscando esclarecer-se), com o sistema de António Mora, que é realmente um sistema, e não uma atitude ou um remexer. Mas, enfim, ao passo que Caeiro afirmava coisas que, estando todas certas umas com as outras (como todos percebíamos) numa lógica que excede - como uma pedra ou uma árvore - a nossa compreensão, não eram contudo coerentes na sua superfície lógica, tanto o Reis, como eu (não falemos no Mora, por nosso superior em qualidade nesta matéria) tentávamos encontrar uma coerência lógica no que pensávamos, ou supunhamos que pensávamos, a respeito do Mundo. E isso, que pensávamos ou supunhamos que pensávamos, a respeito do mundo, isso devíamos a Caeiro, descobridor das nossas almas, colonizadas depois por nós. Propriamente falando, Reis, Mora e eu somos três interpretações orgânicas de Caeiro. Reis e eu, que somos fundamentalmente embora diversamente poetas, interpretamos ainda com sujidades do sentimento. Mora, puramente intelectual, interpreta com a razão; se tem sentimento, ou temperamento, anda disfarçado. O conceito da vida, formado por Ricardo Reis, vê-se muito claramente nas suas odes, pois, quaisquer que sejam os seus defeitos, o Reis é sempre claro. Esse conceito da vida é absolutamente nenhum, ao contrário do de Caeiro, que também é nenhum, mas às avessas. Para Ricardo Reis, nada se pode saber do universo, excepto que nos foi dado como real um universo material. Sem necessariamente aceitarmos como real esse universo, temos que o aceitar como tal, pois não nos foi dado outro. Temos que viver nesse universo, sem metafísica, sem moral, sem sociologia nem política. Conformemo-nos com esse universo externo, o único que temos, assim como nos conformariamos com o poder absoluto de um rei, sem discutir se é bom ou mau, mas simplesmente porque é o que é. Reduzamos a nossa acção ao mínimo, fechando-nos quanto possível nos instintos que nos foram dados, e usando-os de modo a produzir o menos desconforto para nós e para os outros, pois tem igual direito a não ter desconforto. Moral negativa, mas clara. Comamos, bebamos e amemos (sem nos prender sentimentalmente à comida, à bebida e ao amor, pois isso traria mais tarde elementos de desconforto); a vida é um dia, e a noite é certa; não façamos a ninguém nem bem nem mal, pois não sabemos o que é bem ou mal, e nem sequer sabemos se fazemos um quando supomos fazer o outro, a verdade, se existe, é com os Deuses, ou seja com as forças que formaram ou criaram, ou governam, o mundo - forças que, como na sua acção violam todas as nossas ideias do que é moral e todas as nossas ideias do que é imoral, estão patentemente além ou fora de qualquer conceito do bem ou do mal, nada havendo a esperar delas para nosso bem ou até para mal nosso. Nem crença na verdade, nem crença na mentira; nem optimismo nem pessimismo. Nada: a paisagem, um copo de vinho, um pouco de amor sem amor, e a vaga tristeza de nada compreender e de ter que perder o pouco que nos é dado. Tal é a filosofia de Ricardo Reis. É a de Caeiro endurecida, falsificada pela estilização. Mas é absolutamente a de Caeiro, de outro modo: o aspecto côncavo daquele mesmo arco de que a de Caeiro é o aspecto convexo, o fechar-se sobre si mesmo daquilo que em Caeiro está virado para o Infinito - sim, para o mesmo infinito que nega. É isto - este conceito tão fundamente negativo das coisas - que dá à poesia de Ricardo Reis aquela dureza, aquela frieza, que ninguém negará que tem, por mais que a admire; e quem a admira - pouca gente - é por essa mesma frieza, aliás, que a admira. Nisto, de resto, Caeiro e Reis são iguais, com a diferença que Caeiro tem frieza sem dureza; que Caeiro, que é a infância filosófica da atitude de Reis, tem a frieza de uma estátua ou de um píncaro nevado, e Reis tem a frieza de um belo túmulo ou de um maravilhoso rochedo sem sol nem onde haver musgos. E é por isto que, sendo a poesia de Reis rigorosamente clássica na forma, é totalmente destituída de vibração - mais ainda que a de Horácio, apesar do maior conteúdo emotivo e intelectual. A tal ponto é intelectual, e portanto fria, a poesia de Reis, que quem não compreender um poema dele (o que facilmente sucede, dada a excessiva compressão) não lhe apreende o ritmo. Comigo o que se passou foi o mesmo que o que se passou com Ricardo Reis, com a diferença que foi o contrário. O Reis é um intelectual, com o mínimo de sensibilidade de que um intelectual precisa para que a sua inteligência não seja simplesmente matemática, com o mínino do que ente humano precisa para se poder verificar pelo termómetro que não está morto. Eu sou exasperadamente sensível e exasperadamente inteligente. Nisto pareço-me (salvo um bocado mais de sensibilidade, e um bocado menos de inteligência) com o Fernando Pessoa; mas, ao passo que no Fernando a sensibilidade e a inteligência entrepenetram-se, confundem-se, interseccionam-se, em mim existem paralelamente, ou, melhor, sobrepostamente. Não são cônjuges, mas gémeos desavindos. Assim, expontaneamente formei a minha filosofia daquela parte da insinuação de Caeiro de que Ricardo Reis não tirou nada. Refiro-me à parte de Caeiro que está integralmente contida naquele verso, «E os meus pensamentos são todos sensações»; o Ricardo Reis deriva a sua alma daquele outro verso, que Caeiro se esqueceu de escrever, «as minhas sensações são todas pensamentos». Quando me designei como «sensacionista» ou «poeta sensacionista» não quis empregar uma expressão de escola poética (santo Deus! escola!); a palavra tem um sentido filosófico. Não creio em nada senão na existência das minhas sensações; não tenho outra certeza, nem a do tal universo exterior que essas sensações me apresentam. Eu não vejo o universo exterior, eu não oiço o universo exterior, eu não palpo o universo exterior. Vejo as minhas impressões visuais; oiço as minhas impressões auditivas; palpo as minhas impressões tácteis. Não é com os olhos que vejo, mas com a alma; não é com os ouvidos que oiço, mas com a alma; não é com a pele que palpo, é com [a alma. ] E, se me perguntarem o que é a alma, respondo que sou eu. De aqui a minha divergência fundamental do fundamental intelectual de Caeiro e de Reis, mas não do fundamental instintivo e sensitivo em Caeiro. Para mim o universo é apenas um conceito meu, uma síntese dinâmica e projectada de todas as minhas sensações. Verifico, ou cuido verificar, que coincidem com as minhas grande número das sensações de outras almas, e a essa coincidência chamo o universo exterior, ou a realidade. Isso nada prova da realidade absoluta do universo porque existe a hipnose colectiva. Já vi um grande hipnotizador obrigar um grande número de pessoas ver, positivamente ver, a mesma hora falsa em relógios que o não estavam. Concluo de aqui a existência de um Hipnotizador supremo, a quem chamo Deus, porque consegue impor a sua sugestão à generalidade das almas, as quais, contudo, não sei se ele criou ou não criou, porque não sei o que é criar, mas que é possível que criasse, cada uma para si mesma, como o hipnotizador me pode sugerir que sou outra pessoa ou que sinto uma dor que eu não posso dizer que não sinto, pois que a sinto. Para mim ser «real» consiste em ser susceptível de ser experienciado por todas as almas; e isto obriga-me a acreditar num Hipnotizador Infinito, pois criou uma sugestão chamada universo capaz de ser experienciado por todas as almas, não só reais, mas até possíveis. À parte isto, sou engenheiro - isto é, não tenho moral, política ou religião independente da realidade real mensurável das coisas mensuráveis, e da realidade virtual das coisas imensuráveis. Também sou poeta, e tenho uma estética que existe por si mesma, sem ter que ver com a filosofia que tenho ou com a moral, a política ou a religião que sou ocasionalmente forçado a ter. António Mora, sim. Esse realmente, recebendo de Caeiro a mensagem na sua totalidade, se esforçou por traduzi-la em filosofia, esclarecendo, recompondo, reajustando, alterando aqui e ali. Não sei se a filosofia de António Mora será o que seria a de Caeiro, se o meu mestre a tivesse. Mas aceito que seria a filosofia de Caeiro, se ele a tivesse e não fosse poeta, para a não poder ter. Assim como da semente se evolve a planta, e a planta não é a semente magnificada, mas uma coisa inteiramente diferente em aspecto, assim do gérmen contido na totalidade da poesia de Caeiro saiu naturalmente o corpo diferente e complexo que constitui a filosofia de Mora. Vou deixar a exposição da filosofia de Mora para o trecho seguinte a este. Estou cansado de querer entender. 27-2-1931 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 372. «Notas para a recordação do meu mestre Caeiro» Uma das conversas mais interessantes, em que entrou o meu mestre Caeiro, foi aquela, em Lisboa, em que estávamos todos os do grupo e por acaso de falar se discutiu o conceito de Realidade. Se não me engano ao lembrar, essa parte da conversa começou por uma observação lateral do F[ernando] P[essoa] a qualquer coisa que se havia dito. A observação foi esta: «No conceito de Ser não cabem partes nem gradações; uma coisa é ou não é.» «Não sei se será bem assim», objectei eu. «Há que analisar esse conceito de ser. Parece-me que eie é uma superstição metafísica, pelo menos até certo ponto...» «Mas o conceito de Ser nem é susceptível de análise», respondeu o FP. «A sua indivisibilidade começa aí.» «O conceito não será», repliquei, «mas o seu valor é.» O FP respondeu: «Mas o que é o 'valor' de um conceito independentemente do próprio conceito? Um conceito, isto é, uma ideia abstracta não é susceptível de mais nem menos, e portanto não é susceptível de valor, que é sempre uma questão de mais ou menos. Pode haver valor no uso ou na aplicação, mas esse valor é do uso ou da aplicação e não do conceito em si mesmo.» Nisto interrompeu o meu mestre Caeiro, que estivera ouvindo muito com os olhos esta discussão transpontina. «Onde não pode haver mais nem menos não há nada.» «Ora essa, porquê?» perguntou o F. «Porque tudo quanto é real pode ser mais ou menos, e a não ser o que é real nada pode existir.» «Dê um exemplo, ó Caeiro», disse eu. «A chuva», respondeu o meu mestre. «A chuva é uma coisa real. Por isso pode chover mais e pode chover menos. Se v. me disser: 'esta chuva não pode ser mais e não pode ser menos’, eu responderei, 'então essa chuva não existe'. A não ser, é claro, que v. queira dizer a chuva tal como é nesse momento: essa realmente é a que é e se fosse mais ou menos era outra. Mas eu quero dizer outra coisa...» «Está bem, compreendi perfeitamente», atalhei eu. Antes que eu prosseguisse, para dizer não sei já o quê, o FP voltou-se para Caeiro: «Diga-me v. uma coisa» (e apontou com o cigarro): «como é que v. considera um sonho? Um sonho é real ou não?» «Considero um sonho como considero uma sombra», respondeu Caeiro inesperadamente, com a sua costumada prontidão divina. «Uma sombra é real mas é menos real que uma pedra. Um sonho é real - senão não era sonho - mas é menos real que uma coisa. Ser real é ser assim.» O FP tem a vantagem de viver mais nas ideias do que em si mesmo. Esqueceu-se não só de que estava argumentando, mas até da verdade ou falsidade do que ouvia: entusiasmaram-no as possibilidades metafísicas desta teoria súbita, [ … ] «Isso é uma ideia admirável! E é originalíssima! Nunca me tinha ocorrido» (E este «nunca me tinha ocorrido»?, tão ingenuamente sugeridor da natural impossibilidade de ocorrer a outrem qualquer coisa que não tivesse já ocorrido a ele, Fernando?)... «Nunca me tinha ocorrido que se pudesse considerar a realidade como susceptível de graus. Isso, de facto, equivale a considerar o Ser não como uma ideia propriamente abstracta mas como uma ideia numérica...» «Isso é um bocado confuso para mim» hesitou Caeiro «mas parece-me que sim, que é isso. O que eu quero dizer é isto: ser real é haver outras coisas reais, porque não se pode ser real sozinho; e como ser real é ser uma coisa que não é essas outras coisas, é ser diferente delas; e como a realidade é uma coisa como o tamanho ou o peso - senão não havia realidade - e como todas as coisas são diferentes, não há coisas iguais em realidade como não há coisas iguais em tamanho e em peso. Há-de haver sempre uma diferença, embora seja muito pequena. Ser real é isto.» «Isso ainda é mais curioso!» exclamou o FP. «V. então considera a realidade como um atributo das coisas; assim parece ser, visto que a compara ao tamanho e ao peso. Mas diga-me uma coisa: qual é a coisa de que a realidade é um atributo? O que é que está por trás da realidade?» «Por trás da realidade?» repetiu o meu mestre Caeiro. «Por trás da realidade não está nada. Também por trás do tamanho não está nada, e por trás do peso não está nada.» «Mas se uma coisa não tiver realidade não existe, e pode existir sem ter tamanho nem peso...» «Não se for uma coisa que por natureza tenha tamanho e peso. Uma pedra não pode existir sem tamanho; uma pedra não pode existir sem peso. Mas uma pedra não é um tamanho e uma pedra não é um peso. Também uma pedra não pode existir sem realidade, mas a pedra não é uma realidade.» «Está bem», respondeu o F., entre impaciente, apanhante de ídeias incertas, e fugir-lhe-o-chão. «Mas quando v. diz 'uma pedra tem realidade' v. distingue pedra de realidade.» «Distingo: a pedra não é realidade, tem realidade. A pedra é só pedra.» «E o que quer isso dizer?» «Não sei: está ali. Uma pedra é uma pedra e tem que ter realidade para ser pedra. Uma pedra é uma pedra e tem que ter peso para ser pedra. Um homem não é uma cara mas tem que ter cara para ser homem. Eu não sei porque isto é assim, nem sei mesmo se há porquê para isto ou para qualquer coisa...» «V. sabe, Caeiro», disse o F. reflectivamente: «v. está a elaborar uma filosofia um tanto ou quanto contrária ao que v. pensa e sente. V. está a fazer uma espécie de kantismo seu - criando uma pedra-noumenon, uma pedra-em-si. Eu explico, eu explico.. .» E passou a explicar a tese kantiana e como o que Caeiro dissera se conformava mais ou menos com ela. Depois indicou a diferença; ou o que, a seu ver, era a diferença: Para Kant esses atributos - peso, tamanho (não realidade) - são conceitos impostos à pedra-em-si pelos nossos sentidos, ou, melhor, pelo facto de que observamos. V. parece indicar que esses conceitos são tão coisas como a próspria pedra-em-si. Ora isso é que torna a sua teoria difícil de compreender, ao passo que a de Kant, verdadeira ou falsa, é perfeitamente compreensível.» O meu mestre Caeiro ouvira isto com a maior atenção. Uma ou outra vez piscou os olhos como para sacudir ideias como sonos. E, depois de pensar um bocado, respondeu. «Eu não tenho teorias. Eu não tenho filosofia. Eu vejo mas não sei nada. Chamo a uma pedra uma pedra para a distinguir de uma flor ou de uma árvore, enfim de tudo quanto não seja pedra. Ora cada pedra é diferente de outra pedra, mas não é por não ser pedra: é por ter outro tamanho e outro peso e outra forma e outra cor. E também por ser outra coisa. Chamo a uma pedra e a outra pedra ambas pedras porque são parecidas uma com a outra naquelas coisas que fazem a gente chamar pedra a uma pedra. Mas na verdade a gente devia dar a cada pedra um nome diferente e próprio, como se faz aos homens; isso não se faz porque seria impossível arranjar tanta palavra, mas não porque fosse erro...» O FP atalhou: «Diga-me uma coisa, para esclarecer tudo: v. admite uma ‘pedreidade', por assim dizer, assim como admite um tamanho e um peso? Assim como v. diz esta pedra é maior - isto é, tem mais tamanho - que aquela, ou 'esta pedra tem mais peso que aquela', dirá v. também 'esta pedra é mais pedra do que aquela'? ou, em outras palavras, 'esta pedra tem mais pedreidade que aquela'?» «Sim, senhor» respondeu logo o meu mestre. «Eu estou pronto a dizer, 'esta pedra é mais pedra que aquela'. E estou pronto a dizer isto se ela for maior que a outra, ou tiver mais peso, porque o tamanho e o peso são necessários a uma pedra para ela ser pedra... ou, principalmente, se ela tiver mais completamente que outra todos os atributos, como v. lhes chama, que uma pedra tem que ter para ser pedra.» «E o que chama v. a uma pedra que v. vê em sonho?» e o F. sorriu. «Chamo-lhe um sonho», disse o meu mestre Caeiro, «Chamo-lhe um sonho de uma pedra». »Compreendo» e o F. acenou. «V [ ocê ] - como se diria filosoficamente - não distingue a substância dos atributos. Uma pedra é uma coisa composta de um certo número de atributos - os necessários para compor aquilo a que se chama uma pedra - e de uma certa quantidade de cada atributo, que é o que dá à pedra determinado tamanho, determinada dureza, determinado peso, determinada cor, que a distinguem de outra pedra, sendo contudo ambas elas pedras porque têm os mesmos atributos, embora em quantidade diferente. Ora isto equivale a negar a existência real da pedra: a pedra passa a ser simplesmente uma soma de coisas reais…» «Mas uma soma real! É a soma de um peso real e de um tamanho real e de uma cor real e assim por diante. E por isso é que a pedra, além do tamanho, do peso, etc., tem realidade também... Não tem realidade como pedra: tem realidade porque é uma soma de atributos, como v. lhes chama, todos reais. Como cada atributo tem realidade, a pedra tem-na também.» «Voltemos ao sonho», disse o F. «V. a uma pedra que vê em sonho chama um sonho, ou, quando muito, um sonho de uma pedra. Porque diz v. 'de uma pedra'? Porque emprega a palavra 'pedra'?» «Pela mesma razão que v., quando vê o meu retrato, diz 'isto é o Caeiro' e não quer dizer que seja eu em carne e osso». Desatámos todos a rir. «Compreendo e desisto», disse o Fernando a rir connosco. Les dieux sont ceux qui ne doutent jamais. Nunca compreendi tão bem a frase de Villiers de l'Isle Adam. Esta conversa ficou-me gravada na alma; creio que a reproduzi com uma nitidez que não está longe de taquigráfica, salvo a taquigrafia. Tenho a memória intensa e clara que é um dos característicos de certos tipos de loucura. E esta conversa teve um grande resultado. Está claro que foi inconsequente como todas as conversas, e que seria fácil provar que, perante uma lógica rigorosa, só quem não falou se não contradisse. Nas afirmações e respostas, interessantes como sempre, do meu mestre Caeiro pode um espírito filosófico encontrar reflexos do que na verdade seriam sistemas diferentes. Mas, ao conceder isto, não creio nisto. Caeiro devia estar certo e ter razão, ainda nos pontos em que a não tivesse. De resto, esta conversa teve um grande resultado. Foi nela que o António Mora bebeu a inspiração para um dos capítulos mais assombrosos dos seus Prolegómenos - o capítulo sobre a ideia de Realidade. Em todo o decurso da conversa, foi o António Mora o único que não disse nada. Limitou-se a ouvir com os olhos parados para dentro as ideias que se tinham estado a dizer. As ideias do meu mestre Caeiro, expostas nesta conversa com o atabalhoamento intelectual do instinto, e, portanto de um modo forçosamente impreciso e contraditório, foram convertidas, nos Prolegómenos, num sistema coerente e lógico. Não pretendo diminuir o valor realíssimo de António Mora. Mas, assim como a base de todo o seu sistema filosófico nasceu, segundo ele mesmo o diz com orgulho abstracto, da simples frase de Caeiro, «A Natureza é partes sem um todo», assim uma parte desse sistema - o maravilhoso conceito da Realidade como «dimensão», e o conceito derivado de «graus de realidade» - nasceu precisamente desta conversa. O seu a seu dono, e tudo ao meu mestre Caeiro. 25-2-1931 Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 373. «Notas para a recordação do meu mestre Caeiro» E Ricardo Reis escutava, mas parecia menos atento ao que Caeiro dizia do que a qualquer resultado longínquo, qualquer eco algures, dessas palavras. Depois de ler o que Reis escreveu percebi. Nascia o sol contra as cornijas dos velhos templos, e sabia sangue do sacrifício seco dos arúspices naquela alma. Em qualquer incarnação anterior - vida ou metáfora - os deuses antigos haviam sido uma realidade para aquele ser; e ele via-os agora de novo, revelados por esta criança crescida, e conhecia que lhe eram verdadeiros. A seu modo, R. Reis acordava também. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 374. «Notas para a recordação do meu mestre Caeiro» Toda a antiga civilização pagã, que para Caeiro era o próprio sangue da alma, era, e é, para Reis uma memória querida da infância - uma educação que se entranha no ser. Desorientou-me, primeiro, este homem que cantava alegremente coisas que, inventadas ou supostas, não dão senão pena ou horror a todos - a materialidade, a morte, o não-além. Desorientou-me, segundo, que não só o fizesse com alegria, mas que transmitisse essa alegria aos outros. Quando estou muito triste, leio Caeiro e é uma brisa. Fico logo calmo, cantante e com fé - sim, fico com fé em Deus, na alma, na pequenez transcendente da vida depois de ler os poemas deste ateu de Deus e do homem sem além na própria terra. E porquê? Porque a personalidade que está por trás da obra, a vitaliza com outra coisa que não é as ideias que lá estão, e por onde ela aparentemente se manifesta. É o poeta Caeiro, não o filósofo Caeiro, que nos ama. O que realmente recebemos daqueles versos é a sensação infantil da vida, com toda a materialidade directa dos conceitos da infância, e toda a espiritualidade vital da esperança e do crescimento, que são do inconsciente, da alma e corpo, da infância. Aquela obra é uma madrugada que nos ergue e anima; e a madrugada, contudo, é mais que material, mais que anti-espiritual, porque é um efeito abstracto, puro vácuo, nada. A obra de Caeiro tem, porém, e além disto, um efeito crítico. Estes versos da sensação directa, contraposta a sua alma aos nossos conceitos sem naturalidade, à nossa civilização mental, artificiosa, contabilizada em gavetas, rasga-nos todos os trapos que temos por fato, lava-nos a cara da química e o estômago dos farmacêuticos - entra pela nossa casa dentro e mostra-nos que uma mesa de madeira é madeira, madeira, madeira, e que mesa é uma alucinação necessária da nossa vontade que fabrica mesas. Feliz de quem, um momento que fosse na vida, conseguir ver a mesa como madeira, sentir a mesa como madeira - ver a madeira da mesa sem ver a mesa. Volte depois a «saber» que é mesa, mas toda a vida não esquecerá que ela é madeira. E amará a mesa, mesa como mesa, melhor. Foi este o efeito de Caeiro sobre mim. Não deixei de ver a aparência das coisas, a sua integridade divina e humana, mas fiquei vendo-as, ao mesmo tempo, na alma material da sua matéria. Fiquei liberto. De então em diante eu era como um daqueles Rosa-Cruz, de quem reza a lenda ou a verdade, que, semelhantes por fora a todos os humanos, e conformes com os costumes e maneiras do mundo igualitário, têm consigo o segredo do Universo e sabem sempre onde está «a porta da fuga» e a magia da essenciação. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 375. «Notas para a recordação do meu mestre Caeiro» É muito curiosa a complexidade da simplicidade de Caeiro. É também muito curiosa a evolução do seu conceito do universo, ou, melhor, da falta de universo. Sendo absolutamente um sensacionista, as suas sensações são inteligências, com um raciocínio próprio, com um poder crítico próprio. Começando como uma espécie de S. Francisco de Assis sem fé, foi-se arrastando lentamente, aos rasgões nos obstáculos, através da brenha do que tinha aprendido - felizmente muito pouco. Finalmente, apareceu nu. Foi a culminância de «O Guardador de Rebanhos», dos poemas - tão novos na superfície da função mais antiga no mundo! - de «O Pastor Amoroso» e dos poemas não-anómalos dos «Inconjuntos». Esses poemas anómalos são já a invasão da verdade pela morte. Há alguns em que a visão como se perturba. O homem nu está experimentando a mortalha. Mas, por fim, e vendo a obra em conjunto, ela é o nu substantivo, porque o fato o cobria mal e o que a mortalha cobre é nada. O seu comentário a S. Francisco de Assis dá tudo. Li-lhe uma vez, traduzindo rapidamente, parte das «Florinhas». Não li mais porque ele, indignado ou quasi, me interrompeu com incómodo próprio. «É bom homem, mas está bêbado», disse o meu mestre Caeiro. Pareceu-me isto, no repente, um impulso sem expressão apropriada; mas, logo a seguir, reparei na deliquescência de enternecimento do Santo, na candura da sua alma por trás desse e reconheci a fotografia. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 376. «Notas para a recordação do meu mestre Caeiro» Houve um dia em que Caeiro me disse uma coisa mais que espantosa. Falávamos, ou, antes, falava eu, da imortalidade da alma, e achava que esse conceito era necessário, ainda que fosse falso, para se poder suportar intelectualmente a existência, e ver nela mais que um amontoado de pedras com mais ou menos consciência. - Não sei o que é ser necessário, disse Caeiro. Respondi sem responder. - Diga-me uma coisa. O Caeiro o que é para si mesmo? - O que sou para mim mesmo? repetiu Caeiro. - Sou uma sensação minha. Nunca esqueci o choque da frase contra a minha alma. Ela presta-se a muita coisa, inclusive a coisas contrárias à intenção de Caeiro. Mas, enfim, foi espontânea, foi uma réstia de sol, iluminando sem intenção nenhuma. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 377. «Notas para a recordação do meu mestre Caeiro» «Nunca altero o que escrevi», disse-me uma vez o meu mestre Caeiro. «Se o escrevi assim é porque o senti assim, e nada tem para o caso que eu hoje sinta de um modo diferente. Os meus poemas contradizem-se muitas vezes, bem sei, mas que importa, se eu me não contradigo? Há coisas nalguns dos meus poemas, sabe?, que eu não seria capaz de escrever agora, em ocasião nenhuma. Mas escrevi-as então, e essa é que foi a ocasião em que as escrevi. Por isso ficam como estão.» E, a meu pedido, exemplificou: «Olhe, por exemplo, várias coisas no poema sobre o Menino Jesus. Eu hoje era incapaz, nem por distração, de dizer que «a direcção do meu olhar é o dedo dele apontando». Eu era incapaz de dizer que «ele brinca com os meus sonhos» e vira uns de pernas para o ar, e põe uns em cima dos outros, e outras coisas assim. Enfim, eu era incapaz de escrever o poema hoje, e afinal isso é que quer dizer tudo.» Defendi o poema, e as próprias frases que Caeiro nele incriminava. «Não, não têm defesa. São absolutamente falsas. A direcção de um olhar não é um dedo: é a direcção de um olhar. Não se brinca com sonhos como se fossem pedras ou caixas de fósforos vazias. E tudo aquilo mesmo não é nada. Foi uma distracção minha e eu também existo nas minhas distracções, embora distraidamente. «Lembro-me perfeitamente de como escrevi esse poema. O Padre B... tinha estado lá em casa a falar com a minha tia e esteve a dizer tantas coisas que me irritaram que eu escrevi o poema para respirar. Por isso é que ele está fora da minha respiração vulgar. Mas o estado de irritação é um estado falso em mim; por isso o poema não está inteiramente certo comigo, mas só com a minha irritação e com a pessoa a mais que a irritação é quando a gente a tem. «Hoje, se estivesse irritado - o que já é muito difícil de acontecer - eu não escreveria coisa nenhuma. Deixava a irritação irritar-se. Depois, quando sentisse vontade de escrever, escrevia. Deixava o escrever escrever-se. «Ainda hoje, de vez em quando, escrevo um ou outro poema com que não concordo; mas escrevo-o. Assim como acho interessante toda a gente por não ser eu, acho às vezes interessante um ou outro momento em que não sou eu. Em todo o caso, já hoje me não é possível afastar-me tanto do que quero como no poema sobre o Menino Jesus. Posso afastar-me de mim, mas já não me afasto da Realidade.» Durante uns momentos, Caeiro esteve silencioso. Depois acrescentou: «O poema de agora em que me afastei mais de mim é aquele que escrevi o mês passado, depois daquela conversa entre o Ricardo Reis e o António Mora sobre o paganismo e os deuses.» (Referia-se ao poema (...) dos Inconjuntos) «Ouvi-os, e pus-me a imaginar como é que se imaginava uma religião. E lembrou-me que deveria ser assim. Por isso escrevi o poema, não como acto poético mas como acto de imaginação... Sim, como se estivesse contando um conto a uma criança. Tinha que pôr lá o Príncipe... Eu também posso fazer contos de fadas - mas só uma vez, é claro...» «Há um outro poema seu», disse eu, «que está um pouco nessas condições.» E, como Caeiro olhasse a pergunta, «É aquele em que v., falando de um homem numa casa iluminada, à distância, diz, quando deixa de ver o homem, que ele deixou de ser real». (Trata-se, como é de ver, do poema (...) dos Inconjuntos). «Eu não digo que ele deixou de ser real: digo que ele deixou de ser real para mim. Não quero dizer que ele deixasse de ser visível para quem esteja onde o veja. «Deixou de ser visível para mim. Pode até ter morrido.» «V. admite, então, duas formas de realidade?» «Muito mais do que duas», respondeu inesperadamente o meu mestre Caeiro. «V. bem vê... Aquela cadeira é madeira e aquela cadeira é madeira, e aquela cadeira é a substância de que a madeira é feita, e que não sei o que é na química, e aquela cadeira é talvez - é com certeza - muitas outras coisas mais. Mas é-as todas. Se a vejo é principalmente cadeira; se a toco é principalmente madeira; se a mordesse e tomasse o sabor da madeira, ela seria principalmente a composição da madeira. São como o lado direito e o esquerdo, e a frente e as costas de qualquer coisa. Todos os lados são reais, cada um do seu lado. O homem que eu deixei de ver seria real, mas era de outro lado; como eu não estava desse lado, deixou de ser real para mim. s.d. Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 378. «Notas para a recordação do meu mestre Caeiro» MARINETTI, ACADÉMICO Lá chegam todos, lá chegam todos... Qualquer dia, salvo venda, chego eu também... Se nascem, afinal, todos para isso... Não tenho remédio senão morrer antes, Não tenho remédio senão escalar o Grande Muro... Se fico cá, prendem-me para ser social... Lá chegam todos, porque nasceram para Isso, E só se chega ao Isso para que se nasceu... Lá chegam todos... Marinetti, académico... As Musas vingaram-se com focos eléctricos, meu velho, Puseram-te por fim na ribalta da cave velha, E a tua dinâmica, sempre um bocado italiana, f-f-f-f-f-f-f-f...... s.d. Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 303. Penso em ti no silêncio da noite, quando tudo é nada, E os ruídos que há no silêncio são o próprio silêncio, Então, sozinho de mim, passageiro parado De uma viagem em Deus, inutilmente penso em ti. Todo o passado, em que foste um momento eterno E como este silêncio de tudo. Todo o perdido, em que foste o que mais perdi, É como estes ruídos, Todo o inútil, em que foste o que não houvera de ser É como o nada por ser neste silêncio nocturno. Tenho visto morrer, ou ouvido que morrem, Quantos amei ou conheci, Tenho visto não saber mais nada deles de tantos que foram Comigo, e pouco importa se foi um homem ou uma conversa; Ou um [...] assustado e mudo, E o mundo hoje para mim é um cemitério de noite Branco e negro de campas e [...] e de luar alheio E é neste sossego absurdo de mim e de tudo que penso em ti. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 174. Faz as malas para Parte Nenhuma! Embarca para a universalidade negativa de tudo Com um grande embandeiramento de navios fingidos Dos navios pequenos, multicolores, da infância! Faz as malas para o Grande Abandono! E não esqueças, entre as escovas e a tesoura, A distância polícroma do que se não pode obter. Faz as malas definitivamente! Quem és tu aqui, onde existes gregário e inútil — E quanto mais útil mais inútil — E quanto mais verdadeiro mais falso — Quem és tu aqui? quem és tu aqui? quem és tu aqui? Embarca, sem malas mesmo, para ti mesmo diverso! Que te é a terra habitada senão o que não é contigo? 2-5-1933 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 221. Não ter emoções, não ter desejos, não ter vontades, Mas ser apenas, no ar sensível das coisas Uma consciência abstracta com asas de pensamento, Não ser desonesto nem não desonesto, separado ou junto, Nem igual a outros, nem diferente dos outros, Vivê-los em outrem, separar-se deles Como quem, distraído, se esquece de si... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 180. Por aqueles, minha mãe, que morreram, que caíram na batalha... Dlôn — ôn — ôn — ôn... Por aqueles, minha mãe, que ficaram mutilados no combate Dlôn — ôn — ôn — ôn... Por aqueles cuja noiva esperará sempre em vão... Dlôn — ôn — ôn — ôn... Sete vezes sete vezes murcharão as flores no jardim Dlôn — ôn — ôn — ôn... E os seus cadáveres serão do pó universal e anónimo Dlôn — ôn — on — on... E eles, quem sabe, minha mãe, sempre vivos [...] com esperança... Loucos, minha mãe, loucos, porque os corpos morrem e a dor não morre... Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn... Que é feito daquele que foi a criança que tiveste ao peito? Dlôn... Quem sabe qual dos desconhecidos monos ai é o teu filho Dlôn... Ainda tens na gaveta da cómoda os seus bibes de criança... Ainda há nos caixotes da dispensa os seus brinquedos velhos... Ele hoje pertence a uma podridão [...] in France. Ele que foi tanto para ti, tudo, tudo, tudo... Olha, ele não é nada no geral holocausto da história Dlôn — dlôn... Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn... Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn... Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn... s.d. «Ode Marcial». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 23I. Não será melhor Não fazer nada? Deixar tudo ir de escantilhão pela vida abaixo Para um naufrágio sem água? Não será melhor Colher coisa nenhuma Nas roseiras sonhadas, E jazerei quieto, a pensar no exílio dos outros, Nas primaveras por haver? Não será melhor Renunciar, como um rebentar de bexigas populares Na atmosfera das feiras, A tudo Sim, a tudo, Absolutamente a tudo? 12-4-1934 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 221. ODE MARCIAL Ai de ti, ai de ti, ai de nós! Por detrás destas leis inexplicáveis, foges da vida Haverá alguma ternura divina que compense isto tudo? Ainda tens o berço dele a um canto, em casa... Ainda tens guardados os fatinhos dele, de pequeno... Ainda tens numa gaveta alguns brinquedos partidos... Agora, sim, agora, vai olhá-los e chora sobre eles... Não sabes onde é a sepultura do teu filho... Foi o n.º qualquer coisa do regimento um tal, Morreu lá para a [...] em qualquer parte... morreu... O filho que tu tiveste ao peito, que amamentaste e que criaste... Que remexera no teu ventre... O rapazote feito que dizia graças e tu rias tanto... Agora ele é podridão... Bastou em linha alemã Um bocado de chumbo, do tamanho dum prego, e a tua vida é triste... Receberas um prémio do [Estado?]. Disse que o teu filho foi um herói... (Ninguém sabe, de resto, se ele foi herói ou não) É um enigma p'ra a história... “Morreram 20, cem homens na batalha de tal...” Ele era um deles... E o teu coração de mãe sangrou tanto por esse herói de que a história não disse nada... O acontecimento mais importante da guerra foi aquele para ti... s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 23j. Oh o maior horror de terem cessado os clarins Que sons indecisos nos traz o que substitui o vento Nesta profunda palidez [...] dos que mataram? Quem é que vem? O que nos vai dar Que criança a soluçar em calma noite intranquila, Meu irmão? A irmã de quem? Ó anos de infância Em que eu olhava da janela os soldados e via os uniformes E a sangrenta e carnal realidade das coisas não existia para mim!... Choque de cavaleiros onde? Artilharia, onde, onde, onde? Ó dor da [indecisão?] com agitações inexplicáveis à superfície de águas estagnadas... Ó murmúrio incompreensível da morte como que vento nas folhagens... Ó pavor certo de uma realidade desenhada pelos espelhos indecisos... (Lágrimas nas tuas mãos E plácido o teu olhar... E tu, amor, és uma realidade também... Ah, não ser tudo senão um quadro, um quadro qualquer... E quem sabe se tudo não será um quadro e a dor e a alegria E a incerteza e o terror Coisas, meras coisas, [...] Lágrimas nas tuas mãos, no terraço sobre o lago azul da montanha E lento o crepúsculo sobre os cumes altos das nossas duas almas E uma vontade de chorar a apertar-nos aos dois ao seu peito...) A guerra. a guerra, a guerra realmente. Excessivamente aqui, horror, a guerra real... Com a sua realidade de gente que vive realmente, Com a sua estratégia realmente aplicada a exércitos reais compostos de gente real E as suas consequências, não coisas contadas em livros Mas frias verdades, de estragos realmente humanos, mortes de quem morreu, na verdade, E o sol também real sobre a terra também real Reais em acto e a mesma merda no meio disto tudo! Verdade do perigo, dos mortos, dos doentes e das violações, E os sons florescem nos gritos misteriosamente... A gaiola do canário à tua janela, Maria, E o sussurro suave da água que gorgoleja no tanque... O corpo... E os outros corpos não muito diferentes deste, A morte... E o contrário disto tudo é a vida... Dói-me a alma e não compreendo... Custa-me a acreditar no que existe... Pálido e perturbado. não me mexo e sofro. s.d. «Ode Marcial». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 23l. Estou vazio como um poço seco Não tenho verdadeiramente realidade nenhuma Tampa no esforço imaginativo! s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 182. SAUDAÇÃO A WALT WHITMAN Portugal-Infinito, onze de Junho de mil novecentos e quinze... Hé-lá-á-á-á-á-á-á! De aqui, de Portugal, todas as épocas no meu cérebro, Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo, Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos, Concubina fogosa do universo disperso, Grande pederasta roçando-te contra a diversidade das coisas Sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões, Cio das passagens, dos encontros casuais, das meras observações, Meu entusiasta pelo conteúdo de tudo, Meu grande herói entrando pela Morte dentro aos pinotes, E aos urros, e aos guinchos, e aos berros saudando Deus! Cantor da fraternidade feroz e terna com tudo, Grande democrata epidérmico, contíguo a tudo em corpo e alma, Carnaval de todas as acções, bacanal de todos os propósitos Irmão gémeo de todos os arrancos, Jean-Jacques Rousseau do mundo que havia de produzir máquinas, Homero do insaisissable do flutuante carnal, Shakespeare da sensação que começa a andar a vapor, Milton-Shelley do horizonte da Electricidade futura! Incubo de todos os gestos, Espasmo p’ra dentro de todos os objectos de fora Souteneur de todo o Universo, Rameira de todos os sistemas solares, paneleiro de Deus! Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado, Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt, Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser... Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio, Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te, E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias, Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente. Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste, Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer, Quer pela rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a rua do Ouro, E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas, De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma. Quantas vezes eu beijo o teu retrato. Lá onde estás agora (não sei onde é mas é Deus) Sentes isto, sei que o sentes, e os meus beijos são mais quentes (em gente) E tu assim é que os queres, meu velho, e agradeces de lá, Sei-o bem, qualquer coisa mo diz, um agrado no meu espírito, Uma erecção abstracta e indirecta no fundo da minha alma. Nada do engageant em ti, mas ciclópico e musculoso, Mas perante o universo a tua atitude era de mulher, E cada erva, cada pedra, cada homem era para ti o Universo. Meu velho Walt, meu grande Camarada, evoé! Pertenço à tua orgia báquica de sensações-em-liberdade, Sou dos teus, desde a sensação dos meus pés até à náusea em meus sonhos, Sou dos teus, olha pra mim, de aí desde Deus vês-me ao contrário: De dentro para fora... Meu corpo é o que adivinhas, vês a minha alma — Essa vês tu propriamente e através dos olhos dela o meu corpo — Olha pra mim: tu sabes que eu, Álvaro de Campos, engenheiro, Poeta sensacionista, Não sou teu discípulo, não sou teu amigo, não sou teu cantor, Tu sabes que eu sou Tu e estás contente com isso! Nunca posso ler os teus versos a fio... Há ali sentir de mais... Atravesso os teus versos como a uma multidão aos encontrões a mim, E cheira-me a suor, a óleos, a actividade humana e mecânica Nos teus versos, a certa altura não sei se leio ou se vivo, Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos, Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural, Ou de cabeça p’ra baixo, pendurado numa espécie de estabelecimento, No tecto natural da tua inspiração de tropel, No centro do tecto da tua intensidade inacessível. Abram-me todas as portas! Por força que hei-de passar! Minha senha? Walt Whitman! Mas não dou senha nenhuma... Passo sem explicações... Se for preciso meto dentro as portas... Sim — eu franzino e civilizado, meto dentro as portas, Porque neste momento não sou franzino nem civilizado, Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar, E que há-de passar por força, porque quando quero passar sou Deus! Tirem esse lixo da minha frente! Metam-me em gavetas essas emoções! Daqui p’ra fora, políticos, literatos, Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs, Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida. O espírito que dá a vida neste momento sou EU! Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho! O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim! Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo, deixa-me ir... É comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito... Prá frente! Meto esporas! Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto, Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus, Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa, Conforme me der na gana... Ninguém tem nada com isso... Loucura furiosa! Vontade de ganir, de saltar, De urrar, zurrar, dar pulos, pinotes, gritos com o corpo, De me cramponner às rodas dos veículos e meter por baixo, De me meter adiante do giro do chicote que vai bater, De me (...) De ser a cadela de todos os cães e eles não bastam, De ser o volante de todas as máquinas e a velocidade tem limite, De ser o esmagado, o deixado, o deslocado, o acabado, E tudo para te cantar, para te saudar e (...) Dança comigo, Walt, lá do outro mundo esta fúria, Salta comigo neste batuque que esbarra com os astros, Cai comigo sem forças no chão, Esbarra comigo tonto nas paredes, Parte-te e esfrangalha-te comigo E (...) Em tudo, por tudo, à roda de tudo, sem tudo, Raiva abstracta do corpo fazendo maelstroms na alma... Arre! Vamos lá prá frente! Se o próprio Deus impede, vamos lá prá frente... Não faz diferença... Vamos lá prá frente Vamos lá prá frente sem ser para parte nenhuma... Infinito! Universo! Meta sem meta! Que importa? Pum! pum! pum! pum! pum! Agora, sim, partamos, vá lá prá frente, pum! Pum Pum Heia...heia...heia...heia...heia... Desencadeio-me como uma trovoada Em pulos da alma a ti, Com bandas militares à frente [...] a saudar-te... Com um [...] contigo e uma fúria de berros e saltos Estardalhaço a gritar-te E dou-te todos os vivas a mim e a ti e a Deus E o universo anda à roda de nós como um carrocel com música dentro dos nossos crânios, E tendo luzes essenciais na minha epiderme anterior Eu, louco de [...] sibilar ébrio de máquinas, Tu célebre, tu temerário, tu o Walt — e o [...], Tu a [sensualidade porto?] Eu a sensualidade com [...] Tu a inteligência (...) 11-6-1915 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24a. 1ª versão inc.: Poesias de Álvaro de Campos . Fernando Pessoa. (Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1944. Puseram-me uma tampa — Todo o céu. Puseram-me uma tampa. Que grandes aspirações!. Que magnas plenitudes! E algumas verdadeiras... Mas sobre todas elas Puseram-me um tampa. Como a um daqueles penicos antigos — Lá nos longes tradicionais da província — Uma tampa. 12-4-1934 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 183. Porta p'ra tudo! Ponte p'ra tudo! Estrada p'ra tudo! Tua alma omnívora e (...) Tua alma ave, peixe, fera, homem, mulher, Tua alma os dois onde estão dois, Tua alma o um que são dois quando dois são um, Tua alma seta, raio, espaço, Amplexo, nexo , sexo , Texas, Carolina, Nova Iorque, Brooklyn Ferry à tarde, Brooklyn Ferry das idas e dos regressos, Libertad! Democracy! Século vinte ao longe! Pum! pum! pum! pum! pum! PUM! Tu, o que eras, tu o que vias, tu o que ouvias, O sujeito e o objecto, o activo e o passivo, Aqui e ali, em toda a parte tu, Círculo fechando todas as possibilidades de sentir, Marco miliário de todas as coisas que podem ser, Deus Termo de todos os objectos que se imaginem e és tu! Tu Hora. Tu Minuto, Tu Segundo! Tu intercalado, liberto, desfraldado, ido, Intercalamento, libertação ida, desfraldamento, lntercalador, libertador, desfraldador, remetente, Carimbo em todas as cartas, Nome em todos os endereços, Mercadoria entregue, devolvida, seguindo... Comboio de sensações a alma-quilómetros à hora, À hora, ao minuto, ao segundo. PUM! E todos estes ruídos naturais, humanos, de máquinas Todos eles vão juntos, tumulto completo de tudo, Cheios de mim até ti, saudar-te Cheios de mim até ti, Vão gritos humanos, vão [...] de terra, Vão os volumes dos montes, Vão os rumores de águas, Vão os barulhos da guerra, Vão os estrondos da (...), os (...) da (...) Vão os ruídos dos povos em lágrimas, Vão os sons débeis dos ais no escuro E vão mais cerca da vida, rodeando-me, Prémio melhor do meu saudar-te Os ruídos, cicios, assobios dos comboios Os ruídos modernos e das fábricas, Som regular, Rodas, [...], Hélices Pum... s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24b. Saí do comboio, Disse adeus ao companheiro de viagem Tínhamos estado dezoito horas juntos.. A conversa agradável A fraternidade da viagem. Tive pena de sair do comboio, de o deixar. Amigo casual cujo nome nunca soube. Meus olhos, senti-os, marejaram-se de lágrimas... Toda despedida é uma morte... Sim toda despedida é uma morte. Nós no comboio a que chamamos a vida Somos todos casuais uns para os outros, E temos todos pena quando por fim desembarcamos. Tudo que é humano me comove porque sou homem. Tudo me comove porque tenho, Não uma semelhança com ideias ou doutrinas, Mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira. A criada que saiu com pena A chorar de saudade Da casa onde a não tratavam muito bem... Tudo isso é no meu coração a morte e a tristeza do mundo. Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração. E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro. 4-7-1934 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 187. Hé-lá que eu vou chamar Ao privilégio ruidoso e ensurdecedor de saudar-te Todo o formilhamento humano do Universo, Todos os modos de todas as emoções, Todos os feitios de todos pensamentos, Todas as rodas, todos os volantes, todos os êmbolos da alma. Heia que eu grito E num cortejo de Mim até ti estardalhaçam Com uma algaravia metafísica e real, Com um chinfrim de coisas passado por dentro sem nexo, (...) Ave, salve, viva, ó grande bastardo de Apolo, Amante impotente e fogoso das nove musas e das graças, Funicular do Olimpo até nós e de nós ao Olimpo, Fúria do moderno concretado em mim, Espasmo translúcido de ser, Flor de agirem os outros, Festa porque há a Vida, Loucura porque não há vida bastante em um p'ra ser todos Porque ser é ser bastardo e só Deus nos servia. Ah, tu que cantaste tudo, deixaste tudo por cantar. Quem pode vibrar mais que o seu corpo em seu corpo, Quem tem mais sensações que as sensações por ter? Quem é bastante quando nada basta? Quem fica completo quando um só [vinco?] de erva Fica com a raiz fora do seu coração? s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24c. Mas eu não tenho problemas tenho só mistérios. Todos choram as minhas lágrimas, porque as minhas lágrimas são todos. Todos sofrem no meu coração, porque o meu coração é tudo. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 188. Por isso é a ti que endereço Meus versos saltos, meus versos pulos , meus versos espasmos, Os meus versos-ataques-histéricos, Os meus versos que arrastam o carro (...) dos meus nervos. Aos trambolhões me inspiro, Mal podendo respirar, ter-me-de-pé me-exalto, E os meus versos são eu não poder estoirar de viver. Abram-me todas as janelas! Arranquem-me todas as portas! Puxem a casa toda para cima de mim! Quero viver em liberdade no ar, Quero ter gestos fora do meu corpo, Quero correr como a chuva pelas paredes abaixo, Quero ser pisado nas estradas largas como as pedras, Quero ir, como as coisas pesadas, para o fundo dos mares, Com uma voluptuosidade que já está longe de mim! Não quero fechos nas portas! Não quero fechaduras nos cofres! Quero intercalar-me, imiscuir-me, ser levado, Quero que me façam pertença doída de qualquer outro, Que me despejem dos caixotes, Que me atirem aos mares, Que me vão buscar a casa com fins obscenos, Só para não estar sempre aqui sentado e quieto, Só para não estar simplesmente escrevendo estes versos! Não quero intervalos no mundo! Quero a contiguidade penetrada e material dos objectos! Quero que os corpos físicos sejam uns dos outros como as almas, Não só dinamicamente, mas estaticamente também! Quero voar e cair de muito alto! Ser arremessado como uma granada! Ir parar a... Ser levado até... Abstracto auge no fim de mim e de tudo! Clímax a ferro e motores! Escadaria pela velocidade acima, sem degraus! Bomba hidráulica desancorando-me as entranhas sentidas! Ponham-me grilhetas só para eu as partir! Só para eu as partir com os dentes, e que os dentes sangrem Gozo masoquista, espasmódico a sangue, da vida! Os marinheiros levaram-me preso. As mãos apertaram-me no escuro. Morri temporariamente de senti-lo. Seguiu-se a minh’alma a lamber o chão do cárcere-privado, E a cega-rega das impossibilidades contornando o meu acinte. Pula, salta, toma o freio nos dentes, Pégaso-ferro-em-brasa das minhas ânsias inquietas, Paradeiro indeciso do meu destino a motores! Salta, pula, embandeira-te, Deixa a sangue o rasto na imensidade nocturna , A sangue quente, [mesmo de longe?], A sangue fresco [mesmo de longe?]. A sangue vivo e frio no ar dinâmico a mim! Salta, galga, pula, Ergue-te, vai saltando, (...) s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24d. Meu coração, bandeira içada Em festas onde não há ninguém... Meu coração, barco atado à margem Esperando o dono cadáver amarelado entre os juncais... Meu coração a mulher do forçado, A estalajadeira dos mortos da noite, Aguarda à porta, com um sorriso maligno Todo o sistema do universo, Concluso a podridão e a esfinges... Meu coração algema partida. s.d. Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 189. Numa grande marche aux flambeaux-todas-as-cidades-da-Europa, Numa grande marcha guerreira a indústria e comércio e ócio, Numa grande corrida, numa grande subida, numa grande descida Estrondeando, pulando, e tudo pulando comigo, Salto a saudar-te, Berro a saudar-te, Desencadeio-me a saudar-te, aos pinotes, aos pinos, aos guinchos! Hé-lá Ave, salve, viva!... Arregimento! Comigo, coisas! Sigam-me, gentes! Máquinas. artes, letras, [...] — comigo! Vós, que ele tanto amou, coisas que são a terra: Árvores sem sentido salvo verde, Flores com a cor na alma, (...) Escura brancura das águas, Rio fora dos rios, Paz dos campos porque não são as cidades Seiva lenta ao emergir da avareza das crostas s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24e. A música, sim a música... Piano banal do outro andar. A música em todo o caso, a música.. Aquilo que vem buscar o choro imanenre De toda a criatura humana Aquilo que vem torturar a calma Com o desejo duma calma melhor... A música... Um piano lá em cima Com alguém que o toca mal. Mas é música... Ah quantas infâncias tive! Quantas boas mágoas?, A música... Quantas mais boas mágoas! Sempre a música... O pobre piano tocado por quem não sabe tocar. Mas apesar de tudo é música. Ah, lá conseguiu uma música seguida — Uma melodia racional — Racional, meu Deus! Como se alguma coisa fosse racional! Que novas paisagens de um piano mal tocado? A música!... A música...! 19-7-1934 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 190. WALT WHITMAN Onde não sou o primeiro, prefiro não ser nada, não estar lá, Onde não posso agir o primeiro, prefiro só ver agir os outros. Onde não posso mandar, antes quero nem obedecer. Excessivo na ânsia de tudo, tão excessivo que nem falo, E não falo, porque não tento. «Ou Tudo ou Nada» tem um sentido pessoal para mim. Mas ser universal — não o posso, porque sou particular. Não posso ser todos, porque sou Um, um só, só eu Não posso ser o primeiro em qualquer coisa, porque não há o primeiro. Prefiro por isso o nada de ser co-primeiro em ser nada. Quando é que parte o último comboio, Walt? Quero deixar esta cidade, a Terra, Quero emergir de vez deste país, Eu, Deixar o mundo com o que se comprova falido, Como um caixeiro viajante que vende navios a habitantes do interior. O fim a motores partidos! Que foi todo o meu ser? Uma grande ânsia inútil — Estéril realização com um destino impossível — Máquina de louco para realizar o motu continuo, Teorema de absurdo para a quadratura do círculo, Travessia a nado do Atlântico, falando na margem de cá Antes da entrada na água, só com eles e o cálculo, Atirar de pedras à lua Ânsia absurda do encontro dos paralelos Deus-vida. Megalomania dos nervos, Ânsia de elasticidade do corpo duro, Raiva de meu concreto ser por não ser o auge-eixo O carro da sensualidade de entusiasmo abstracto O vácuo dinâmico do mundo! Vamo-nos embora de Ser. Larguemos de vez, definitivamente, a aldeia-Vida O arrabalde-Mundo de Deus E entremos na cidade à aventura, ao rasgo Ao auge, loucamente ao Ir... Larguemos de vez. Quando parte, Walt, o último comboio p'ra aí? Que Deus fui para as minhas saudades serem estas ânsias? Talvez partindo regresse. Talvez acabando, chegue, Quem sabe? Qualquer hora é a hora. Partamos, Vamos! A estada tarda. Partir é ter ido. Partamos para onde se fique. Ó estrada para não-haver-estradas! Término no Não-Parar! s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24f. SAUDAÇÃO Um comboio de criança movido a corda, puxado a cordel Tem mais movimento real do que os nossos versos... Os nossos versos que não têm rodas Os nossos versos que não se deslocam Os nossos versos que, nunca lidos, não saem para fora do papel. (Estou farto — farto da vida, farto da arte —, Farto de não ter coisas, a menos ou a medo — Rabo-leva da minha respiração chagando a minha vida, Fantoche absurdo de feira da minha ideia de mim. Quando é que parte o último comboio?) Sei que cantar-te assim não é cantar-te — mas que importa? Sei que é cantar tudo, mas cantar tudo é cantar-te, Sei que é cantar-me a mim — mas cantar-me a mim é cantar-te a ti Sei que dizer que não posso cantar é cantar-te, WaIt, ainda... s.d. «Saudação a Walt Whitman». Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 24g. Não fales alto que isto aqui é vida — Vida e consciência dela, Porque a noite avança, estou cansado, não durmo, E, se chego à janela Vejo, de sob as pálpebras da besta, os muitos lugares das estrelas... Cansei o dia com esperanças de dormir de noite, É noite quase outro dia. Tenho sono. Não durmo. Sinto-me toda a humanidade através do cansaço — Um cansaço que quase me faz carne os ossos... Somos todos aquilo... Bamboleamos, moscas, com asas presas, No mundo, teia de aranha sobre o abismo. 21-10-1931 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 151. É inútil prolongar a conversa de todo este silêncio. Jazes sentado, fumando, no canto do sofá grande — Jazo sentado, fumando, no sofá de cadeira funda, Entre nós não houve, vai para uma hora, Senão os olhares de uma só vontade de dizer. Renovávamos, apenas, os cigarros — o novo no aceso do velho E continuávamos a conversa silenciosa, Interrompida apenas pelo desejo olhado de falar... Sim, é inútil, Mas tudo, até a vida dos campos é igualmente inútil Há coisas que são difíceis de dizer... Este problema, por exemplo. De qual de nós é que ela gosta? Como é que podemos chegar a discutir isso? Nem falar nela, não é verdade? E sobretudo não ser o primeiro a pensar em falar nela! A falar nela ao impassível outro e amigo... Caiu a cinza do teu cigarro no teu casaco preto — Ia advertir-te, mas para isso era preciso falar... Entreolhámo-nos de novo, como transeuntes cruzados. E o pecado mútuo que não cometemos Assomou ao mesmo tempo ao fundo dos dois olhares. De repente espreguiças-te, semi-ergues-te — Escusas de falar... "Vou-me deitar!" dizes, porque o vais dizer. E tudo isto, tão psicológico, tão involuntário, Por causa de uma empregada de escritório agradável e solene. Ah, vamo-nos deitar! Se fizer versos a respeito disto, já sabes, é desprezo! 22-11-1931 Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 152.